"Lenta e gradual"
A 15 de março de 1974, tomou posse na presidência da República o general Ernesto
Geisel. Saía a "linha dura" de Médici e retornava ao poder o grupo castelista, do primeiro
governo militar, sob a liderança do Chefe da Casa Civil, Golbery do Couto e Silva.
Causando certa surpresa, Geisel anunciou já nos primeiros dias de seu governo a
disposição de promover o "seguro aperfeiçoamento democrático", por meio de uma
"distensão lenta e gradual" do regime militar.
Não era simples retórica política de começo de governo. Geisel tinha diante de si,
em 1974, um país com um cenário diferente de quatro ou cinco anos atrás. No plano
interno, a luta armada das esquerdas tinha sido derrotada, mas a oposição legal do MDB
vinha obtendo votações expressivas nas eleições, participando até da disputa presidencial,
com os "anticandidatos" Ulisses Guimarães e Barbosa Lima Sobrinho, em contraponto à
candidatura de Geisel no Colégio Eleitoral.
No plano externo, a derrota dos Estados Unidos na Guerra do Vietnã representava
uma guinada no contexto da guerra fria e duro golpe na ideologia da segurança
hemisférica, substituída agora pelo discurso da détente (distensão) das relações
internacionais. No plano econômico-internacional, verificou-se em 1973 uma alta
extraordinária nos preços do petróleo, seguida de forte alta das taxas de juros nos países
desenvolvidos. Aumentaram, assim, os pagamentos da gigantesca dívida externa
contraída nos tempos do "milagre". Isso criou enormes dificuldades para a economia
brasileira, dependente de petróleo, e abalou o modelo de crescimento dos anos do
"milagre"
Desse modo, por pressão das circunstâncias, Geisel viu-se obrigado a ajustar os
rumos do governo e do próprio regime. A legislação arbitrária foi revista, ainda que nem
sempre melhorada:
• Pacote de abril (1/4/77): depois de fechar temporariamente o Congresso Nacional,
o governo cassou mandatos de parlamentares, manteve a eleição indireta para os
governos estaduais e para um terço do Senado (os "senadores biônicos", eleitos
pelas Assembleias Legislativas).
• Fim do AI-5 (28/8/78): a Emenda Constitucional n° 11 revogou o AI-5 e demais
Atos Institucionais; a censura prévia foi extinta, mas continuam proibidas as
greves em áreas "de segurança nacional", como bancos, transportes e serviços
públicos em geral.
• Lei da Anistia (28/8/79): beneficiava todos os acusados ou condenados por crimes
políticos, entre eles os agentes do aparelho repressivo do regime (torturadores),
que ficavam livres de processos futuros.
Nem todos os militares, porém, concordavam com a política de distensão. Nos
quartéis e delegacias de polícia continuavam a ocorrer violações aos direitos humanos.
Entre elas, a morte sob tortura do jornalista Wladimir Herzog no quartel do comando do
Il Exército em São Paulo, em outubro de 1975, o assassinato do operário Manuel Fiel
Filho também em dependências militares da capital paulista no início de 1976, o atentado
à bomba contra a sede da Associação Brasileira de Imprensa, ABI, no Rio de Janeiro, em
agosto daquele ano, e a invasão da PUC (Pontifícia Universidade Católica) de São Paulo
pela tropa de choque da Polícia Militar para reprimir um encontro estudantil, em setembro
de 1977.
Esses e outros episódios revelavam a forte resistência dentro do governo ao
processo de abertura do regime. Um dos núcleos dessa resistência estava no próprio
Ministério do Exército, cujo titular, general Sílvio Frota, um dos líderes dos militares
"duros", foi demitido pelo presidente em outubro de 1977.
Mas as forças de oposição ao regime continuavam a se mobilizar, seja no avanço
eleitoral do MDB, nas grandes greves dos metalúrgicos a partir de 1978 - nas quais se
firmou a liderança de Luiz Inácio da Silva, o Lula, presidente do Sindicato dos
Metalúrgicos de São Bernardo -, seja nos movimentos de massa da sociedade civil como
no caso das campanhas contra o custo de vida, pelos direitos humanos e pela anistia, em
1979.
O ano de 1979, na verdade, foi o ponto de inflexão da trajetória do regime militar.
Apesar das dificuldades econômicas e políticas, Geisel conseguiu eleger seu sucessor, o
general João Batista Figueiredo, que tomou posse a 15 de março, renovando a promessa
de democratização do país. Com a Anistia, começaram a voltar os exilados e banidos pelo
regime entre eles os ex-governadores Leonel Brizola (Rio Grande do Sul) e Miguel Arraes
(Pernambuco), o secretário-geral do PCB, Luís Carlos Prestes, e militantes sindicais e
estudantis. Era um sinal de que a abertura política se tornara irreversível, mesmo que
continuasse a ser "lenta e gradual".
Ainda em 1979, o Congresso aprovou proposta de reforma partidária apresentada
pelo governo. Com ela, o bipartidarismo foi extinto. A Arena transformou-se em Partido
Democrático Social, PDS, mantendo-se como agremiação do governo; o MDB mudou
seu nome para Partido do Movimento Democrático Brasileiro, PMDB; ao seu lado,
surgiram outros partidos de oposição, entre os quais o PT, Partido dos Trabalhadores,
liderado pelo então metalúrgico Luiz Inácio da Silva, o Lula. No ano seguinte, foram
restabelecidas as eleições diretas para o governo dos estados.
Entretanto, o avanço da "abertura lenta e gradual" enfrentava obstáculos dentro do
governo. Em 1979, a repressão policial a um piquete grevista em São Paulo provocou a
morte do operário Santo Dias da Silva. Em 1980, um atentado contra a sede da Ordem
dos Advogados do Brasil, OAB, no Rio de Janeiro, deixou uma vítima fatal e vários
feridos. Enquanto isso, em São Paulo, o jurista Dalmo Dallari, da Comissão de Justiça e
Paz, era sequestrado e espancado por um grupo paramilitar. Esses atentados tinham por
objetivo intimidar a oposição e frear o processo de abertura.
Em maio de 1981, o feitiço virou contra o feiticeiro. No Rio de Janeiro, preparava-
se um grande show de música popular, destinado a comemorar o Dia do Trabalho no
Centro de Convenções conhecido como Riocentro. A bordo de um carro Puma, dois
militares, um sargento e um capitão preparavam-se para colocar ali uma bomba de grande
poder destrutivo. O petardo, entretanto, explodiu antes, provocando a morte do sargento
e graves ferimentos no capitão.
As oposições avançam
Enquanto o governo enfrentava a ação dos setores militares que se opunham à
abertura, as oposições se mobilizavam para acelerar seu ritmo. Em 1982, os partidos
oposicionistas obtiveram expressiva vitória eleitoral. O PMDB elegeu dez governadores
e centenas de deputados, senadores, prefeitos e vereadores em todo o país, derrotando o
partido oficial, o PDS, nos principais estados e capitais. Era um recado ao governo
mandado pela sociedade, no qual está revelava seu indisfarçável cansaço com o regime
militar.
Para além das disputas e campanhas eleitorais, a sociedade civil mobilizava-se
intensamente nos sindicatos, universidades, associações de classe, nos movimentos
sociais de todo tipo. Suas reivindicações eram reveladoras das carências da população:
salários, direitos humanos, direitos trabalhistas, acesso à terra, direitos dos índios,
liberdade de imprensa, fim da censura às artes e espetáculos, mais comida e menos
inflação, mais emprego, mais escolas, etc. Seus métodos de ação eram também os mais
diversos: greves, comícios, manifestos, abaixo-assinados, passeatas, concentrações.
Por trás dessa diversidade, entretanto, havia um objetivo que unificava os
movimentos: todos queriam a imediata democratização do país como condição para uma
luta mais efetiva contra as desigualdades sociais.
Essa união de forças e sentimentos em torno da resistência à ditadura teve seu maior
momento na campanha das Diretas-Já. Nos primeiros meses de 1984, em muitas capitais
estaduais, centenas de milhares de pessoas reuniram-se para pressionar o Congresso
Nacional a votar favoravelmente uma emenda constitucional que restabelecia o voto
direto para presidente. Em alguns casos, como no Rio de Janeiro e em São Paulo, os
comícios da campanha chegaram a reunir mais de um milhão de pessoas em praça pública.
A pressão popular foi extraordinária, maior do que qualquer outra anterior na história da
República, Mas não o suficiente para ganhar a votação no Congresso, cuja maioria
governista se mostrou insensível ao clamor popular. Na madrugada de 26 de abril de 1984,
depois de uma sessão de dezoito horas, a emenda acabou derrotada. As oposições não
conseguiram os dois terços dos votos necessários para sua aprovação; mesmo com a
adesão de parlamentares do partido do governo, faltaram 22 votos.
Embora o povo tenha perdido a batalha das diretas, a mobilização nas ruas e a luta
no Congresso deixavam claro que muito dificilmente o governo do presidente Figueiredo
teria força para fazer seu sucessor. Esse enfraquecimento provocou a debandada de bom
número de políticos do PDS para um novo partido, a Frente Liberal. Reconhecendo o fato
irreversível, o governo aceitou negociar sua sucessão e o fim do regime: os militares
passariam o mando aos civis, desde que estes fossem representados por um presidente
ainda eleito indiretamente no Colégio Eleitoral. Seria uma "passagem" mais controlada e
menos arriscada, como queriam desde o início os mentores militares da abertura política.
A transição conciliadora
Mas não eram só os militares que queriam um desfecho sem traumas para o regime
autoritário. Alguns setores sociais e políticos também preferiam que o fim do
autoritarismo se desse sem rompimentos e incertezas. Para os militares era uma retirada
estratégica: saíam de cena para os bastidores, preservando a corporação e mantendo sua
capacidade de atuar e influir. Para setores da elite civil tratava-se de substituir um regime
por outro, não pelo confronto, mas pela conciliação.
Antes mesmo da votação da emenda das diretas pelo Congresso Nacional,
lideranças do PMDB e da Frente Liberal procuravam compor uma saída conciliatória para
a crise. Temiam que uma eventual eleição direta pudesse causar confrontos capazes de
colocar em risco a própria transição.
Com a derrota da emenda em abril de 1984, esses setores apressaram-se em preparar
uma ampla base parlamentar para a disputa da sucessão presidencial no Colégio Eleitoral.
Em julho nascia a Aliança Democrática. Tratava-se de um bloco suprapartidário formado
pelo PMDB e pela Frente Liberal, que lançou a chapa formada pelo mineiro Tancredo
Neves e pelo maranhense José Sarney, um antigo e fiel aliado dos militares, para disputar,
respectivamente, a presidência e a vice-presidência da República. Na eleição de 15 de
janeiro de 1985, a Aliança Democrática recebeu a maioria dos votos no Colégio Eleitoral.
Apenas o PT, entre os grandes partidos, recusou-se a participar dessa eleição indireta.
A vitória de Tancredo Neves representou a afirmação dos setores políticos e sociais
que optaram pela transição conciliadora e a articularam nos círculos mais estreitos e
influentes do poder civil e militar (governo, Congresso, Forças Armadas, associações
patronais). Foi a vitória de um grande pacto político entre forças conservadoras, aliadas
tradicionais do regime militar, e grupos da elite que a ele resistiram de várias maneiras.
Um pacto entre as elites, fiel à tradição política brasileira, por vezes autoritária e por vezes
conciliadora, apresentado em nome da "coesão nacional" e feito não para enfrentar, mas
para substituir o regime autoritário dentro de suas próprias regras.