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Evaporação e Evapotranspiração na Hidrologia

O documento aborda os conceitos de evaporação e evapotranspiração, destacando a diferença entre os processos de evaporação de superfícies líquidas e do solo nu, além da transpiração das plantas. A importância da evaporação é exemplificada com dados sobre a albufeira dos Pequenos Libombos e suas implicações no abastecimento de água em Maputo. Também são discutidos os fatores que influenciam a evaporação e a Lei de Dalton, que relaciona a evaporação ao défice de saturação do ar.
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Evaporação e Evapotranspiração na Hidrologia

O documento aborda os conceitos de evaporação e evapotranspiração, destacando a diferença entre os processos de evaporação de superfícies líquidas e do solo nu, além da transpiração das plantas. A importância da evaporação é exemplificada com dados sobre a albufeira dos Pequenos Libombos e suas implicações no abastecimento de água em Maputo. Também são discutidos os fatores que influenciam a evaporação e a Lei de Dalton, que relaciona a evaporação ao défice de saturação do ar.
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Evaporação e evapotranspiração 5-5-1

2023

5 EVAPORAÇÃO E EVAPOTRANSPIRAÇÃO

5.1 CONCEITOS BÁSICOS

5.1.1 Evaporação a partir duma superfície líquida

Em qualquer superfície líquida, há um incessante movimento de moléculas de água que passa da


fase líquida para a fase gasosa e vice-versa, sendo a primeira forma a dominante em condições
atmosféricas normais. Há, portanto, simultâneamente evaporação (líquido → vapor) e
condensação de água (vapor  líquido).

Do ponto de vista prático e correspondendo àquilo que de facto se pode medir, o que nos
interessa é o excedente da evaporação sobre a condensação. Assim, chamaremos evaporação ao
excedente da transformação líquido → vapor em relação à situação oposta.

5.1.2 Evaporação a partir do solo nu

A evaporação que se verifica a partir do solo nu depende de um certo número de factores entre
os quais os mais importantes são o estado de humidade do solo, o tipo de solo e a localização da
toalha freática. Se o solo se encontra saturado, a evaporação que lhe corresponde é próxima da
evaporação a partir duma superfície líquida, sugerindo-se multiplicar esta última por 0.9 para se
obter a evaporação a partir do solo.

À medida que o solo vai perdendo a humidade, a água remanescente vai sendo retida com
intensidade crescente por forças de capilaridade e adsorção, dependendo do tipo de solo. A
evaporação torna-se geralmente desprezável depois de se terem evaporado os primeiros 10-15
mm. Se a toalha freática estiver suficientemente alta para que a água possa atingir a superfície do
solo por capilaridade, a evaporação a partir do solo é elevada e semelhante à situação do solo
saturado.

5.1.3 Transpiração

Transpiração é a água perdida pelas plantas através dos estomas (poros) das folhas por
evaporação para a atmosfera. Esta água é substituida pela que a planta vai buscar ao solo através
das raízes.

Numa região em que o solo está revestido de vegetação, é praticamente impossível analisar em
separado a transpiração das plantas e a evaporação a partir do solo, linhas de água e lagoas. Os
dois processos tomados em conjunto designam-se por evapotranspiração.

5.1.4 Importância do fenómeno da evaporação

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Evaporação e evapotranspiração 5-5-2
2023
Pode-se ficar com uma ideia da importância destes fenómenos considerando o exemplo da
albufeira dos Pequenos Libombos, construida, como se sabe, para reforçar o abastecimento de
água à cidade de Maputo.

Considerando que a albufeira tem uma superfície inundada com uma área média de cerca de 30
km2 e que a evaporação anual na albufeira é de cerca de 1700 mm, então o volume evaporado
anualmente em média é de

Vevap. = 30 * 106 * 1.7 = 51*106 m3

O abastecimento de água de Maputo é de aproximadamente 150,000 m3/dia, ou seja, cerca de 55


* 106 m3/ano. Portanto o volume evaporado na albufeira equivale a quase 1 ano de
abastecimento a Maputo.

Do ponto de vista para a utilização da água para o homem, a evaporação constitui uma perda que
interessa minimizar. Várias vias tem vindo a ser consideradas para este efeito:

- utilizar reservatórios cobertos (só possível em pequenos reservatórios);


- utilizar reservatórios subterrâneos (é necessário que existam condições naturais
para o efeito);
- construir reservatórios com área superficial mínima (na escolha dum local para
uma barragem, é preferível optar pelo que apresenta a menor superfície para um
dado volume de armazenamento);
- utilizar produtos químicos especiais na superfície da água. Certos compostos
orgânicos como o hexadecanol e o octodecanol formam películas
monomoleculares à superfície da água que inibem a evaporação. Estudos
indicaram ser possível reduzir a evaporação a pouco mais de 1/3 da evaporação
natural. No entanto, a aplicação destes produtos em grandes lagos é
consideravelmente menos eficiente devido ao vento e às ondas que quebram a
camada monomolecular e a arrastam para as margens. Estudos realizados nos
EUA e Austrália indicam que se pode obter reduções de ordem de 30% na
evaporação para pequenos lagos (<5 km2) e da ordem de 10% para lagos com
cerca de 10 km2 (Dunne e Leopold, 1978). É duvidoso que o processo tenha
qualquer rendimento para lagos de maior dimensão;
- utilizar cortinas de árvores como quebra-ventos (para pequenos reservatórios).

5.1.5 O processo físico da evaporação. Lei de Dalton

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Evaporação e evapotranspiração 5-5-3
2023
Considere-se o recepiente fechado representado na figura 5.1 e que contém uma certa
quantidade de água a uma dada temperatura. A situação é estável o que se manifesta pelo nível
constante da água. Isto significa que o número de moléculas de água que passa para a fase de
vapor é, em média ao longo de um intervalo de tempo curto, igual ao número de moléculas que
passa da fase de vapor para a fase líquida. Diz-se então que o ar está saturado e não pode conter
mais vapor de água.

Figure 5-1 - Processo físico da evaporação

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Evaporação e evapotranspiração 5-5-4
2023
Admitamos agora que no recipiente da figura 5.1 se fez inicialmente o vácuo e depois se
introduziu uma certa quantidade de água. Verifica-se que a água começa imediatamente a
vaporizar. Isto deve-se ao facto de que a força estabilizante das moléculas no seio do líquido,
que é a atracção molecular, é insuficiente para contrariar a forca de repulsão devido a energia
cinética das moléculas. Como é sabido, as moléculas de vapor de água dispõem de maior
energia cinética do que as moléculas de água no estado líquido. Por outro lado, na fase inicial da
vaporização, há muito poucas moléculas gazosas e a pressão de vapor de água é baixa.
Figura 5.1 – Processo físico da evaporação

À medida que a vaporização da água se vai processando, aumenta a pressão de vapor, aumentam
as colisões entre moléculas gasosas e algumas destas, ficando com energia cinética reduzida,
voltam ao estado líquido. A certa altura atinge-se a estabilidade: a evaporação cessa e a pressão
do vapor mantem-se constante. A pressão do vapor não saturado designa-se por e.

Designa-se por tensão do vapor saturado ew a pressão do vapor quando o espaço já não
comporta mais vapor de água. ew aumenta com a temperatura como é fácil de constatar
experimentalmente. Com efeito, se no recipiente fechado onde a evaporação cessou se produzir
um aquecimento, a evaporação reinicia-se e a pressão do vapor aumenta. Isto deve-se ao facto
do aumento da temperatura conduzir a uma aumento da energia cinética das moléculas da água.
A tabela 5.1, adaptada de FAO 1977, dá os valores da tensão do vapor em função da temperatura
do ar, com pressão atmosférica normal.

Tabela 5.1. Tensão do vapor saturado em função da temperatura do ar


T (C) ew (mbar) T (C) ew (mbar) T (C) ew (mbar)
0 6.1 14 16.1 28 37.8
1 6.6 15 17.0 29 40.1
2 7.1 16 18.2 30 42.4
3 7.6 17 19.4 31 44.9
4 8.1 18 20.6 32 47.6
5 8.7 19 22.0 33 50.3
6 9.3 20 23.4 34 53.2
7 10.0 21 24.9 35 56.2
8 10.7 22 26.4 36 59.4
9 11.5 23 28.1 37 62.8
10 12.3 24 29.8 38 66.3
11 13.1 25 31.7 39 69.9
12 14.0 26 33.6 40 73.8
13 15.0 27 35.7
A diferença (ew - e) chama-se défice de saturação. A tensão ew iguala à pressão atmosférica no
ponto de ebulição.

Os principais factores que afectam a evaporação são:

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Evaporação e evapotranspiração 5-5-5
2023
a) a radiação solar, que é a principal fonte da energia necessária para a vaporização das
moléculas de água. Por sua vez, a radiação solar é uma função da latitude, dia do ano, hora do
dia e nebulosidade. Outras fontes de energia podem dar um importante contributo local para a
evaporação, por exemplo a entrada num lago de água quente proveniente da refrigeração duma
central térmica.
b) as temperaturas do ar e da água, a pressão atmosférica e a humidade. Todos estes
factores influenciam o défice de saturação. Ora a evaporação é obviamente uma função
crescente do défice de saturação.
c) o vento. Numa situação sem vento, o vapor de água concentrado numa camada da atmosfera
muito próxima da superfície livre da água, camada que se designa por camada evaporante,
atinge o estado de saturação e a evaporação cessa. Para que a evaporação continue, é necessário
que essa camada já saturada seja removida e substituida por ar não saturado. Esse é o papel
desempenhado pelo vento.

A Lei de Dalton, apresentada em princípios do século XIX, diz que a evaporação E varia
linearmente com o défice de saturação do ar [ew(Th) - e(Ts)]:

E = a [ ew(Th) – e(Ts) ]

em que a é uma constante, e é a tensão do vapor não saturado (mbar), ew é a tensão do vapor
saturado (mbar), Th é a temperatura média da camada evaporante, chamada temperatura
húmida (oC) e Ts é a temperatura do ar ambiente, chamada temperatura seca (oC).

5.1.6 Humidade relativa

A medição directa da tensão do vapor e não é fácil pelo que ela é obtida por via indirecta através
de medição nas estações meteorológicas da humidade relativa U, definida por:

U = e/ew

Para se compreender o processo da medição de U, há que recorrer à Lei de Dalton,

E = a [ew(Th) - e(Ts)]

Por cada grama de água evaporado, é necessário um número l de calorias, em que l é o calor
latente de vaporização = 590 cal./g. O calor retirado ao líquido pela evaporação seria então:

Qe = ρlE

em que Qe é o calor gasto na evaporação (cal/cm2), ρ é a densidade da água, l é o calor latente de


vaporização (cal/g) e E é a evaporação (cm).

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Evaporação e evapotranspiração 5-5-6
2023
A temperatura da camada superficial da água vai baixando até que se atinge o equilíbrio entre a
quantidade de calor Qe que o líquido gasta na evaporação e a quantidade de calor Qh que o meio
ambiente comunica ao líquido.

Qh é directamente proporcional à diferença entre a temperatura do ar, Ts, e a temperatura da


camada evaporante, Th:

Qh = b (Ts-Th)

Como E é proporcional a Qe e Qe = Qh, ter-se-á:

E = cQh = c'(Ts-Th)

Por comparação com a Lei de Dalton, obtem-se

[ew(Th) - e(Ts)] = A (Ts-Th)

Como a tabela 5.1 fornece valores de ew para a pressão atmosférica normal, p = 1000 mbar, a
expressão acima foi modificada para outros valores de p:

p
[ew(Th) - e(Ts)] = A (Ts-Th)
1000
p
 e(Ts) = ew(Th) - A (Ts-Th)
1000

U = e/ew = e(Ts)/ew(Ts)

1 p
U = [ ew ( T h ) - A( T s - T h )] (Fórmula do psicrómetro)
ew ( T s ) 1000

Assim, para se determinar U, usa-se um aparelho designado por psicrómetro (figura 5.2) que é
composto por dois termómetros: o termómetro seco, que mede a temperatura do ar ambiente, Ts,
e o termómetro húmido que mede a temperatura da camada evaporante, Th. O termómetro
húmido tem o depósito de mercúrio envolvido por um pano que se mantém constantemente
húmido por ligação com um depósito de água. Obtidos Ts e Th, p é lido num barómetro e ew(Th)
e ew(Ts) são obtidos através da tabela 5.1.

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Evaporação e evapotranspiração 5-5-7
2023
O factor A chama-se constante do psicrómetro e
depende do tipo e da colocação do aparelho:

• psicrómetro de ventilação natural: colocado


num abrigo meteorológico, a ventilação do
termómetro húmido é a ventilação natural do
abrigo. Toma-se A = 0.79 mbar/C;
• psicrómetro de funda: o termometro húmido
dispõe dum cordão com comprimento de 0.5 m.
Antes de medir Th, o operador movimenta-o à
velocidade de 2 rotações/segundo. Nessas
condições, toma-se A = 0.66 mbar/C;
• psicrómetro de ventilação forçada: um
ventilador faz passar o ar sobre o termómetro
húmido à velocidade de 6 m/s. A = 0.67
mbar/C.

Em Moçambique usam-se psicrómetros de Figure 5-3 - Psicrómetro


ventilação natural.
Figura 5.2 – Psicrómetro

Note-se que foi considerada apenas a troca convectiva do calor, Qh, entre o meio ambiente e o
psicrómetro. Como adiante se verá, verifica-se sempre também troca de calor por radiação.
Pode-se evitar a recepção de radiação da atmosfera (de ondas curtas) colocando o psicrómetro
num abrigo. Para evitar a emissão de radiação (de ondas longas) pelo próprio psicrómetro, seria
necessário utilizar um tipo de psicrómetro com 'cortina polida'. A maioria dos psicrómetros em
Moçambique não tem uma tal protecção, razão pela qual se deve contar com um erro de
medição de cerca de 5% para valores normais de humidade.

5.2 DETERMINAÇÃO DA EVAPORAÇÃO EM SUPERFÍCIES LÍQUIDAS

5.2.1 Introdução

Para a determinação da evaporação em superfícies líquidas existem vários métodos, dos quais os
mais importantes são:

• método de balanço hídrico;


• método do balanço energético;
• método da transferência da massa;
• método de Penman;
• medição directa.

Estes métodos são abordados nos pontos seguintes deste capítulo.

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Evaporação e evapotranspiração 5-5-8
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5.2.2 Método do balanço hídrico

Este método pode ser utilizado em lagos e albufeiras. A equação do balanço hídrico em termos
de volumes de água escreve-se:

E = I + P - O - ΔS - G,

em que E é o volume evaporado, I o volume afluente ao lago, P o volume de precipitação, O o


volume que sai do lago (efluente), ΔS a variação do volume armazenado e G o volume
correspondente à infiltração e escoamento subterrâneo.

Desde que todos os termos do 2º membro da igualdade se possam medir com precisão, o método
fornece bons resultados. Normalmente, o termo mais difícil de obter é G (infiltração e
escoamento subterrâneo). Sempre que se estime que G possa tomar valores da mesma ordem de
grandeza que a evaporação, o método do balanço hídrico não deve ser utilizado pois o erro
relativo com que a evaporação é estimada é grande.

Surgem também, por vezes, problemas de ordem prática: nas albufeiras de Cahora- Bassa,
Massingir e Corumana, o regolfo das albufeiras chega à fronteira pelo que uma estação de
medição do volume afluente I teria de ser instalada já num país vizinho com todas as
dificuldades que isso implica. Assim, nessas albufeiras a evaporação é estimada por outros
métodos e o balanço hídrico é utilizado para calcular o volume afluente.

5.2.3 Método do balanço energético

[Link] Equação do balanço energético

Assim como o balanço hídrico exprime a equação da continuidade aplicada ao volume de água
contido num domínio, o balanço energético exprime a equação da continuidade aplicada à
quantidade de energia num domínio como um lago ou uma albufeira.

O balanço energético avalia os seguintes fluxos de energia:

• radiação solar
• energia armazenada
• troca de energia entre a água e a atmosfera
• troca de energia entre a água e a terra
• energia gasta na evaporação.

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Evaporação e evapotranspiração 5-5-9
2023
Considere-se então a figura 5.3 e as seguintes grandezas expressas em cal/cm2: Qs, Qsr, Qlw, Qh,
Qe, Qv e ΔQ. A equação do balanço energético para a água para um dado intervalo de tempo
escreve-se:

Qs - Qsr - Qlw - Qh - Qe + Qv = ΔQ

Figure 5-5 - Balanço energético

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Evaporação e evapotranspiração 5-5-10
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[Link] Radiação solar incidente

Qs é a radiação solar incidente ou radiação global. A quantidade de energia solar que atinge o
topo da atmosfera terrestre chama-se constante solar e designa-se por I0. A tabela 5.2 dá os
valores de I0 em função da latitude e do mês (Dunne e Leopold, 1978). Qs é uma fracção de I0
que, após atravessar a atmosfera, incide sobre a superfície da água e é composta na sua quase
totalidade por radiações com comprimentos de onda entre 0.3 e 3 μm.

Tabela 5.2 Radiação solar média recebida num plano horizontal no limite superior da
atmosfera, I0 (cal/cm2/dia).

Latitude Jan. Fev. Mar. Abr. Mai. Jun. Jul. Ago. Set. Out. Nov. Dez.
70N - 65 255 540 800 1000 870 670 400 140 5 -
60N 75 205 400 655 860 975 925 750 500 275 110 55
50N 200 350 540 750 910 985 950 820 620 430 155 175
40N 355 490 650 820 880 985 960 870 740 550 395 325
30N 500 620 750 870 945 975 955 900 795 670 540 365
20N 640 725 820 895 930 930 930 900 850 760 660 610
10N 755 820 870 895 885 870 870 885 880 830 770 730
0 855 885 895 870 820 790 795 840 880 885 860 840
10S 930 930 885 810 730 685 705 770 845 900 920 930
20S 985 940 855 740 630 570 595 680 790 900 965 990
30S 1015 930 800 640 505 445 465 575 725 870 985 1030
40S 1020 895 715 525 375 305 335 450 630 810 960 1045
50S 1000 835 620 400 240 175 200 315 505 735 950 1040

Qs pode ser medido directamente através de instrumentos como o pirheliómetro ou o


piranómetro (ver descrição e funcionamento em Lencastre e Franco, 1984). No entanto, são
poucos frequentes as estações meteorológicas em que essa medição é feita. Faz-se então a
determinação de Qs a partir de fórmulas obtidas a partir dos dados de medições directas de Qs.
Duas das fórmulas mais utilizadas são as fórmulas de Angström e de Black.

A fórmula de Angström é:

n
Qs = I0 (a + b )
N

em que n é o número de horas de insolação no período considerado, N é o número máximo


possível de horas de insolação nesse período e a,b são parâmetros de ajustamento local.

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Evaporação e evapotranspiração 5-5-11
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n é medido diariamente através dum
heliógrafo (figura 5.4). Este aparelho é
constituido por uma esfera de vidro óptico que
concentra os raios solares sobre uma banda de
papel fotosensível. Quando o sol brilha, a
temperatura no foco é suficiente para
carbonizar o papel o que não acontece com
tempo nublado. O comprimento total de papel
carbonizado indica o número de horas de sol
nesse dia. O Instituto Nacional de
Meteorologia (INAM) dispõe dum grande
número de estações equipadas com heliógrafo.
A partir dos registos de n é possível, por
exemplo, obter valores médios da insolação
em dados períodos do ano.
Figura 5.4 – Heliógrafo

O número máximo possível de horas de insolação num certo intervalo de tempo, N, é função da
latitude e da época do ano. A tabela 5.3 dá os valores mensais de N.

A n/N chama-se insolação relativa. Considera-se que o seu valor é elevado se for superior a 0.8
(céu limpo); é baixo se for inferior a 0.6 (céu pouco nublado).

Tabela 5.3 Duração da insolação mensal máximo possível (horas)

Latitude Jan. Fev. Mar. Abr. Mai. Jun. Jul. Ago. Set. Out. Nov. Dez.
50N 265 280 366 415 480 490 495 450 380 330 274 252
40N 303 300 370 400 445 450 455 425 375 345 300 290
30N 324 314 370 388 425 420 430 410 370 353 320 316
20N 341 324 370 378 407 400 410 400 366 360 335 338
10N 360 327 370 370 390 380 390 385 366 366 352 356
0 375 340 375 363 375 363 375 375 363 375 363 375
10S 388 350 378 355 363 346 360 364 360 380 378 396
20S 410 360 378 350 346 328 340 344 360 388 393 414
30S 430 370 380 342 330 306 328 345 360 404 410 435
40S 466 380 385 334 310 280 302 330 360 415 432 463
50S 490 403 387 320 276 242 266 315 356 427 465 508

A tabela 5.4 dá alguns valores dos parâmetros a e b apresentados por diversos autores. Para
Moçambique recomenda-se usar os parâmetros segundo Glover et al (1958).

Tabela 5.4 Valores das constantes empíricas a, b da fórmula de Angström

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Evaporação e evapotranspiração 5-5-12
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Local a b Fonte
Mundo 0.23 0.48 Black et al. (1954)
Mundo 0.29 cos(latit.) 0.52 Glover et al.(1958)
Camberra 0.25 0.54 Penman (1948)
África Ocid. 0.12-0.26 *) 0.39-0.50*) Davies (1966)
*
) varia com o mês

A fórmula de Black é:

Qs = I0 (0.803 -0.340C - 0.458C2)

em que C representa a nebulosidade média, expressa em décimos. A tabela 5.5 relaciona C, em


décimos, com n/N.

Tabela 5.5 Relação entre a nebulosidade e a insolação relativa


_______________________________________________________________
C 0.0 0.1 0.2 0.3 0.4 0.5 0.6 0.7 0.8 0.9 1.0
n/N 0.95 0.85 0.80 0.75 0.65 0.55 0.50 0.400.30 0.15 0.00

[Link] Radiação solar reflectida

Qsr é a radiação solar reflectida. É uma fracção pequena da radiação solar incidente. A parte
que é reflectida depende da superfície sobre a qual a radiação incide. Essa característica de
reflectividade duma superfície chama-se albedo, a. Qsr é dada por

Qsr = a Qs

Normalmente, considera-se para a água um valor entre 0.05 e 0.10, sendo o valor mais usual
0.06.

[Link] Radiação de ondas longas

Qlw é a radiação de ondas longas ("long wave radiation"). Esta é a forma pela qual a Terra irradia
para a atmosfera o calor acumulado.

Parte desta radiação é absorvida pela atmosfera (pelo vapor de água, nuvens e dióxido de
carbono) e enviada novamente para a Terra. Como é muito difícil medir esta radiação, tem-se
procurado desenvolver expressões que a relacionem com variáveis medidas à superfície da
Terra, das quais a mais influente é a temperatura.

Uma dessas expressões é a equação de Brunt:

Qlw = σ [Ts4 - (c+de2)T24] (1 -aC),

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Evaporação e evapotranspiração 5-5-13
2023

em que
σ = constante de Stefan-Boltzmann = 1.17*10-7 cal/cm2 K4 dia;
Ts = temperatura da superfície da terra (K);
T2 = temperatura do ar a 2 metros do solo (K);
e2 = tensão do vapor a 2 metros do solo (mbar);
C = nebulosidade, em décimos;
a = constante dependente do tipo de nuvens: 0.25 para nuvens altas, 0.6 para
nuvens médias, 0.9 para nuvens baixas;
c, d = coeficientes empíricos que variam conforme o local (ver tabela 5.6).

Tabela 5.6 Valores das constantes da equação de Brunt

Local Suécia Áustria Argélia Califórnia Inglaterra França Índia


c 0.43 0.47 0.48 0.50 0.53 0.60 0.62
d 0.082 0.061 0.058 0.032 0.065 0.042 0.029

Se não se dispuser de dados para o tipo de nuvens, pode-se tomar a = 0.8 ou, em alternativa,
substituir o factor (1 - aC) por (0.1 + 0.9 n/N) em que n/N é a insolação relativa. Para c e d
podem tomar-se os valores médios de 0.53 e 0.052 respectivamente.

Uma outra equação empírica é a de Chang:

Qlw = σ T24 (0.56 - 0.08e2) (1 - aC)

Também aqui se pode substituir (1 - aC) por (0.1 + 0.9 n/N). Segundo Dunne e Leopold (1978),
os erros destas equações excedem frequentemente ± 25% em valores diários mas reduzem-se a ±
15-20% para valores mensais.

[Link] Radiação útil

A radiação útil, Qn, é a radiação efectivamente disponível para a evaporação. É a radiação


global subtraída da radiação reflectida e da radiação de onda longa:

Qn = Qs - Qsr - Qlw = Qs(1 - a) - Qlw

A radiação útil pode ser medida directamente utilizando um radiómetro mas esse equipamento
apenas existe num número restrito de estações meteorológicas.

[Link] Coeficiente de Bowen

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Viu-se já que a evaporação, ao provocar um abaixamento da temperatura, origina trocas de calor
entre a superfície evaporante e a atmosfera. A relação entre a quantidade de calor transferida por
trocas turbulentes com a atmosfera, Qh, e a quantidade de calor gasta na evaporação, Qe, é dada
pelo coeficiente de Bowen, R.

A energia gasta na evaporação, Qe, é igual ao produto da massa evaporada pelo calor latente da
vaporização (l = 590 cal./g). Qe pode ser expresso por unidade de área.

Qe = ρ l E cal/cm2 (com E = altura da água evaporada, em cm).

Porque Qh = b(Th-Ts)

Qe = ρ l E = a'[ew(Th) - e(Ts)]

Qh p Th -Ts
R= =A
Qe 1000 ew ( T h ) - e( T s )

Note-se que numa situação de equilíbrio, quando não há radiação, seria Qh = -Qe e R = -1, como
se viu ao deduzir a fórmula do psicrómetro. A definição e as grandezas das variáveis que
intervêm no cálculo de R são as mesmas da referida fórmula do psicrómetro.

[Link] Energia aduzida

A energia aduzida, Qv, representa a quantidade de calor transportada pelas massas de água que
entram ou saem do lago. Qv é calculado a partir da massa m e da temperatura T do caudal
afluente (ou efluente) em relação a uma temperatura arbitrada de referência (normalmente 0 C).
Como o calor específico da água, c, é, para as temperaturas normais, igual a 1 cal./g./C, a
energia aduzida será:

Qv = c ρ Vaf (T - T0) = ρ Vaf (T -T0) cal

em que Vaf é o volume da água que entra (se sai, toma-se V negativo), T a temperatura dessa
água e T0 a temperatura de referência. Dividindo Qv pela área do lago, obtem-se o seu valor em
cal/cm2.

[Link] Variação da energia armazenada

ΔQ é a variação da energia armazenada no lago. Este valor é calculado em função da


variação do volume e da temperatura da água:

ΔQ = Qt+1 - Qt = c ρ [Vt+1 (Tt+1-T0) - Vt (Tt-T0)] cal

Dividindo pela superfície do lago, obtem-se ΔQ expresso em cal/cm2.

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[Link] Cálculo do balanço energético

Como o que nos interessa é calcular E (altura de evaporação), pode-se reescrever a equação do
balanço energético:

Qs - Qsr - Qlw - Qh - Qe + Qv = ΔQ
 Qe + Qh = Qs - Qsr - Qlw + Qv - ΔQ
 Qe(1+R) = Qs - Qsr - Qlw + Qv - ΔQ
Q + Q v - Q
Qe = n
1+ R

Porque Qe = ρlE:

Q n + Q v - Q
E=
l(1 + R)

O método do balanço energético aplicado a períodos de um mês com medição cuidadosa das
várias grandezas pode conduzir a estimativas da evaporação com uma precisão de 5 a 10%.
Trata-se, porém, dum processo muito dispendioso. Quando se utilizam equações empíricas, com
períodos mensais, o erro andará na ordem de 10-20% o que é aceitável para aplicações práticas.

5.2.4 Método da transferência de massa

O vento é um dos factores que exerce grande influência na evaporação. Então, por generalização
da lei de Dalton, pode escrever-se:

E = C f(u) [ew(Th)-e(Ts)]

em que C é uma constante a determinar localmente, f(u) é uma função da velocidade do vento.
C e f(u) têm de ser calibrados através dum outro método (balanço hídrico ou balanço
energético). Dunne e Leopold (1978) apresentam um método simples para essa calibração em
pequenos lagos e reservatórios, admitindo que:

f(u) = u2,

em que u2 é a velocidade do vento a 2 m de superfície.

Fazendo medições de u2, Th e Ts e das variações de nível do lago apenas devido à evaporação
(i.e. subtraindo os efeitos dos escoamentos afluente e efluente), o gráfico de Δh (cm/dia) versus
u2[ew (Th)-e(Ts)] dá aproximadamente uma recta cujo declive é C. Com u2 em m/s, ew e e em
mbar, Viessman et al. (1977) sugerem que C pode ser calculado por:

C = 0.0146/A0.05,

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Evaporação e evapotranspiração 5-5-16
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em que A é a área da superfície líquida (km2).

5.2.5 Método de Penman

Penman apresentou em 1948 um método de cálculo da evaporação combinando as


aproximações do balanço energético e da transferência da massa. Devido às hipóteses restritivas
que o método introduz, ele só deve ser aplicado a reservatórios e lagos poucos profundos.

Penman desenvolveu o método para um lago tal que seja aceitável dizer que:

ΔQ - Qv = 0

Se não houvesse energia aduzida, conviria tomar intervalos de tempo relativemente curtos (7 -
10 dias), para que ΔQ  0. Se houvesse energia aduzida, significaria que ΔQ = Qv, pois
mudanças na energia acumulada no lago devem-se apenas ao calor aduzido pelas massas de
água que entram ou saem do lago. Assim, a água evaporada é substituida pela mesma
quantidade de água à mesma temperatura (ou por outra combinação volume-temperatura que
apresente a adução da mesma quantidade de calor).

A equação do balanço energético fica, nessas condições, simplificada

Qn = Qh + Qe = Qe (1 + R) (cal/cm2),

em que Qn = Qs - Qsr - Qlw.

Dividindo por ρl (cal/cm3), virá em altura de água (em cm):

N = E (1 + R),

em que N = Qn/ρl

Esta equação traduz o facto óbvio de que, não havendo variações na energia armazenada, a
radiação útil é distribuida pela radiação necessária para a evaporação e pela radiação transferida
para a atmosfera por trocas turbulentas.

Penman considerou:
( )- ( )
 = dew  ew T h ew T s
dT s Th -Ts

sendo Δ a inclinação da curva de tensão do vapor à temperatura Ts.

Já se sabe que (para uma pressão atmosférica de 1000 mbar):

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Evaporação e evapotranspiração 5-5-17
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Qh H Th -Ts
R= = =A
Qe E ew ( T h ) - e( T s )

H A ew ( T h ) - ew ( T s ) A ( ) - e( T s )
 R= = = (1 - ew T s )
E  ew ( T h ) - e( T s )  ew ( T h ) - e( T s )

com E = C f(u) [ew(Th)-e(Ts)] .

Se Th = Ts  ew(Th) = ew(Ts). Neste caso verifica-se evaporação isotérmica Ea. Então Ea é a


evaporação hipotética que ocorreria se a temperatura da água fosse igual à do ar. Pela lei da
transferência da massa seria:

Ea = C f(u) [ew(Ts)-e(Ts)]

O valor de C f(u) pode calcular-se com várias fórmulas empíricas. Penman propôs:

Ea = 0.35 (0.5 + 0.54 u2) [ew(Ts) - e(Ts)],

em que

Ea = evaporação isotérmica (mm./dia.);


u2 = velocidade do vento à altura de 2 metros do solo (m./s.);
ew(Ts) e e(Ts) em mm Hg.

ou
Ea = (0.13 + 0.14 u2) [ew(Ts) - e(Ts)]

com ew(Ts) e e(Ts) em mbar.

Thornthwaite e Holzman desenvolveram uma fórmula mais sofisticada, com uma base física,
analizando o processo de transporte turbulento:

a  2 uz
C f(u)=
P z
[ ln( ) ]2
z0

em que
ρa = densidade do ar (g./cm3);
ε = ratio entre os pesos moleculares do vapor de água e do ar (= 0.622);
κ = constante de Von Kármán (= 0.41);
uz = velocidade do vento à altura z (m./s.);
z0 = rugosidade da superfície (para água cerca de 0.05 cm, se não há vento).

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Evaporação e evapotranspiração 5-5-18
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Da termodinámica e da meteorologia sabe-se que:

P P kg g
a = = 0.3484 * ( 3 ) = 0.3484 * 10-3 ( 3 )
RT T m cm

com P em mbar e T em K.

Substituindo a última equação na fórmula de Thornthwaite - Holzman, obtem-se a fórmula de


Van Bavel:

3.64 uz
Ea = [ ( ) - e( T s )]
2 ew T s
Ts z
[ ln( )]
zo
em que

Ea = evaporação isotérmica (cm/dia);


Ts = temperatura do ar (K);
uz = velocidade de vento (km/dia) medida a uma altura z acima do solo
(normalmente 2 m.);
zo = rugosidade da superfície (m.);
ew = tensão do vapor saturado (mbar);
e = tensão do vapor (mbar).

Então:
E a = ew ( T s ) - e( T s )
E ew ( T h ) - e( T s )

H A
= (1 - E a )
E  E

Substituindo H por N - E, pode reescrever-se a fórmula:


N
+ Ea
E= A

+1
A
que é a fórmula de Penman para P = 1,000 mbar.

é o parâmetro adimensional de Penman, dado na tabela 5.7.
A

Tabela 5.7 Parâmetro adimensional de Penman.

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T (C) 0 5 10 15 20 25 30 35 40 45 50
Δ/A 0.67 0.90 1.23 1.61 2.14 2.77 3.57 4.575.70 7.10 8.77

A fórmula de Penman é válida para P = 1,000 mbar. Para P  1,000 basta substituir na fórmula A
P  +
por A' = A . é calculado para uma temperatura T= T h T s .
1000 A 2

De todos os métodos analíticos, o método de Penman é aquele que oferece o melhor


compromisso entre uma base teórica suficientemente sólida e a facilidade de aplicação prática.
O método deve ser usado para períodos da ordem de 7-10 dias e nunca em períodos superiores a
1 mês (para que ΔQ  0).

5.3 MEDIÇÃO DIRECTA DA EVAPORAÇÃO

Para além dos métodos analíticos referidos nos pontos anteriores, a evaporação pode ser medida
directamente. Os instrumentos mais usados para esse efeito são o evaporímetro ou atmómetro e
a tina evaporimétrica.

5.3.1 Medição com evaporímetro

O evaporímetro é um instrumento que mede a evaporação latente, i.e., o poder evaporante da


atmosfera. A evaporação latente é definido como a evaporação máxima duma superfície
saturada, plana, horizontal e negra, exposta às condições meteorológicas (energia solar, vento,
temperatura, humidade relativa) naturais do meio onde se pretende estudar a evaporação.

O evaporímetro não mede, portanto, directamente a evaporação da superfície líquida embora


esta esteja certamente relacionada com a evaporação latente.

Figure 5-8 - Evaporímetro

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Evaporação e evapotranspiração 5-5-20
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A figura 5.5 representa dois tipos de evaporímetros frequentemente usados: "Black Bellani" e o
"Piche". O "Black Bellani" segue a definição dada para a evaporação latente. Tem uma placa de
porcelana porosa e negra, com 7.5 cm de diâmetro, permanente humidecida através do seu
contacto com um recipiente que é alimentado por um reservatório graduado. É possível ler
diariamente no reservatório a altura da água evaporada através da placa porosa.

O evaporímetro "Piche" utiliza um disco de papel poroso (papel de filtro) em lugar da placa
negra. O disco está preso por uma mola a um tubo graduado com água que mantem o disco
permanentemente humidecido. A perda de água evaporada através do disco pode ser lida
diariamente no tubo graduado. Em Moçambique, apenas se tem utilizado o evaporímetro
"Piche".

5.3.2 Medição com tina evaporimétrica

A tina evaporimétrica permite medir directamente a evaporação duma superfície líquida,


simulando (embora com algumas limitações importantes que adiante se verão) a situaçáo real. A
tina é um reservatório aberto, cheio de água e exposto às condições atmosféricas.

Existem vários padrões de tina, sendo os mais conhecidos:

• a tina de classe A do US Weather Bureau, EUA;


• a tina GGI-3000 da União Soviética;
• a tina Symons, utilizada na RAS;
• a tina Colorado, utilizada nos EUA;
• a tina flutuante, utilizada pelo United States Geological Survey (USGS), EUA.

Figure 5-10 - Tina evaporimétrica

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Evaporação e evapotranspiração 5-5-21
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De todas elas, a mais frequentemente utilizada nos países ocidentais é a tina de classe A que é
também a utilizada em Moçambique.

A tina GGI-3000 é uma tina enterrada no solo, tem uma forma composta cilídrico-cónica, com
uma área à superfície de 3,000 cm2 (D = 61.8 cm.) e uma altura da parte cilídrica de 0.60 m.

A tina Symons é também uma tina enterrada, cilíndrica, com 1.83 m. (6 pés) de diâmetro e 0.61
m. de profundidade.
Figura 5.6 – Tina evaporimétrica

Também a tina Colorada é uma tina enterrada, de secção quadrada, com 0.914 m. de lado (3 pés)
e 0.457 m. de profundidade.

A tina flutuante do USGS tem dimensões iguais às da tina Colorado.

A tina de classe A do USWB está representada na figura 5.6. Trata-se de um tanque circular,
construido em chapa de aço galvanizado, assente sobre um estrado de madeira, com as
dimensões constantes da figura. O nível da água na tina deve ser sempre mantido a uma
distância de 5 a 7.5 cm do bordo superior da tina.

Cada tipo de tina apresenta determinadas desvantagens:

- Tinas enterradas
- as tinas enterradas (com a boca aproximadamente ao nível da superfície do
terreno) recolhem muito lixo;
- quaisquer perdas de água (devido a um furo na chapa) não se detectam facilmente;
- as trocas de calor através das paredes da tina dependem do solo circundante e das
suas condições de humidade.

b) Tinas flutuantes
- a tina flutuante pode receber ou perder água devido à ondulação;
- a sua operação é difícil.

c) Tinas acima do solo


- a tina acima do solo indica uma evaporação que é muito influenciada pela
radiação solar recebida através das paredes e pelas trocas de calor através delas.

No entanto, a experiência indica ser preferível a utilização de tinas colocadas acima do solo,
como a tina de classe A do USWB.

A medição da evaporação numa tina é feita normalmente uma vez por dia, sendo o processo de
medição o seguinte:

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Evaporação e evapotranspiração 5-5-22
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- instala-se na tina uma escala graduada à qual fica ligado um estilete móvel. O zero
da escala corresponde à posição em que a ponta do estilete toca na superfície da
água;
- após o período em que se registou a evaporação (um dia), a superfície da água terá
baixado. Esse abaixamento é medido deslocando o estilete até a ponta tocar
novamente na superfície da água e lendo o deslocamento na escala graduada.
Essa altura é a altura da evaporação;
- caso nessa altura se tenha registado precipitação, é preciso somar à altura
determinada anteriormente o valor da precipitação. Note-se que, neste caso, pode
acontecer que a superfície da água esteja acima e não abaixo do nível de
referência.

Como se disse anteriormente, a evaporação medida numa tina evaporimétrica simula melhor a
realidade da evaporação a partir duma superfície líquida do que a medição num evaporímetro
como o “Piche”, sendo por isso preferível utilizar dados de tina, sempre que possível. Como
principais dificuldades à utilização da tina podem apontar-se:

- o problema do seu transporte para os lugares mais distantes;


- os problemas de manutenção (pintura metálica para protecção contra a ferrugem);
- o problema de evitar que pássaros e outros animais utilizem a tina como
bebedouro, assim falseando os resultados das medições.

Em relação a este último aspecto, usa-se por vezes uma rede metálica a cobrir a tina. Esta
solução traz, porém, o inconveniente de alterar o valor da radiação recebida pela tina.

A evaporação medida na tina pode, no entanto, diferir significativamente da evaporação numa


superfície líquida dum lago ou duma albufeira sujeita às mesmas condições climáticas. Há um
conjunto de factores que explicam essa diferença:

- a radiação que a tina recebe pela superfície lateral e pelo fundo é uma proporção
muito mais elevada da radiação recebida pela superfície líquida do que no caso
dum lago;
- a evaporação numa superfície líquida cria o chamado “efeito de oásis” (efeito
local de diminuição da temperatura e aumento da humidade relativa). Se a
camada saturada que se forma é removida pelo vento, o processo de evaporação
recomeça. A remoção da camada saturada acontece muito mais facilmente na
tina do que num lago em virtude da pequena dimensão da superfície da tina;
- os bordos da tina criam uma turbulência adicional, aumentando o efeito do vento
na remoção da camada saturada;
- devido ao pequeno volume de água que a tina contem, a temperatura da água na
tina é homogénea, não existindo a estratificação térmica característica dos lagos
e albufeiras.

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Evaporação e evapotranspiração 5-5-23
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Todos estes factores induzem a que a evaporação na tina seja bastante superior à evaporação que
se verifica no lago. Por este motivo, a evaporação medida na tina deve ser multiplicada por um
coeficiente de redução para se obter a evaporação num lago ou albufeira. Este coeficiente é
chamado de “coeficiente de tina” e é inferior à unidade. Pode-se aferir o valor do coeficiente da
tina (que varia conforme o local e a época do ano) se se dispuser de algum outro método preciso
para a determinação da evaporação como, por exemplo, o método do balanço energético.

Lencastre e Franco (1984) referem os seguintes valores do coeficiente da tina utilizados em


Portugal:

- Outubro, Novembro: 0.7;


- Dezembro a Março: 0.6;
- Abril, Maio: 0.7;
- Junho a Setembro: 0.8.

Ainda não foi feita (1996) nenhuma aferição em Moçambique. Sugere-se por isso a adopção do
valor médio de 0.7para o coeficiente da tina, valor comummente adoptado para a tina de classe
“A” em zonas onde tal coeficiente não foi determinado.

5.3.3 Rede evaporimétrica

Segundo dados de Loureiro (1984), existiam em Moçambique 132 estações dispondo de tina
evaporimétrica ou evaporimetro “Piche” ou ambos, com a seguinte distribuição:

Total >20 anos 10-20 anos <10 anos


Tina de classe “A” 14 4 7 3
Evaporimetro “Piche” 82 43 31 8
Tina + evaporimétro 36 10 21 5

122 estações pertenciam ao INAM e 10 à DNA. Tomadas em conjunto, elas conduziam a uma
densidade de 5,900 Km2/estação, o que se pode considerar uma densidade bastante baixa.

Devido ao pequeno número de estações dotados de tina (50), há todo o interesse de tentar
correlacionar os dados de tina com os de evaporimetro para se poder estimar a evaporação de
superfícies líquidas a partir da evaporação latente medida pelo evaporimétro. A correlação teria
de ser estabelecida usando as estações comuns (dispondo de tina + evaporimetro). Tal estudo foi
realizado por Carvalho e Loureiro (1974) mas usando poucas estações (9) e dispondo de poucos
anos de dados comuns (4 a 6). Obtiveram-se coeficientes de correlação iguais ou superiores a
0.7 em 7 dos 9 casos. Interessa, portanto, retomar e estender o estudo realizado.

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Evaporação e evapotranspiração 5-5-24
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5.4 O PROCESSO FÍSICO DA TRANSPIRAÇÃO

Os seres vivos transpiram, ie, perdem água por evaporação a partir de poros microscópicos
situados na pele ou nas folhas. A transpiração é um processo quantitativamente importante
quando se considera a abundância geral da vegetação.

O sistema de raízes duma planta absorve água do solo, a maior parte da qual não é utilizada pela
planta, perdendo-se para a atmosfera através dos poros nas folhas.

A transpiração é, portanto, afectada pelos mesmos factores que influenciam a evaporação


(radiação solar, temperatura, vento, humidade relativa). No entanto, para além destes factores, a
transpiração depende também de:

- características da planta (sistema de raízes, tipo de folhas, etc);


- densidade das plantas;
- teor de humidade do solo.

No que respeita ao teor da humidade do solo, verifica-se que a transpiração duma planta vai
decrescendo com o teor de humidade do solo a partir da situação de capacidade de campo e
cessa quase totalmente quando se atinge o ponto de emurchecimento.

A capacidade de campo é o teor de humidade dum solo inicialmente saturado após ter cessado
a percolação, correspondendo à quantidade de água que fica retido no solo contra a acção da
gravidade.

O ponto de emurchecimento é o teor de humidade mínimo para o qual as plantas ainda


conseguem ir buscar água no solo, correspondendo a tensões de sucção da ordem de 15
atmosferas. Quando o teor de humidade é inferior, as plantas já não conseguem exercer a sucção
necessária e murcham.

5.5 EVAPOTRANSPIRAÇÃO

5.5.1 Aspectos gerais

É quase impossível medir a componente da transpiração a não ser em condições restritas de


laboratório. Por isso, procura-se estimar conjuntamente a água perdida para a atmosfera por
transpiração das plantas e por evaporação do solo e superfícies líquidas circundantes, fenómeno
que se designa por evapotranspiração.

Distingue-se a evapotranspiração potencial e a evapotranspiração efectiva ou actual.

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Evaporação e evapotranspiração 5-5-25
2023
A evapotranspiração potencial é a evapotranspiração que se registaria se não houvesse carência
de água. Neste caso a transpiração das plantas atinge o seu valor máximo. A evapotranspiração
potencial então depende de:

- factores climáticos (radiação solar, temperatura, vento, humidade relativa, pressão


atmosférica);
- características da planta (sistema de raízes, tipo de folhas, estádio de crescimento,
etc);
- densidade das plantas.

Sempre que o teor de humidade do solo se encontra abaixo da capacidade de campo, a


evapotranspiração que se verifica é inferior à evapotranspiração potencial. Designa-se por
evapotranspiração efectiva aquela que se regista nas condições actuais de humidade do solo.
Depende então, além dos factores que influenciam a evapotranspiração potencial, também da
humidade do solo.

A evapotranspiração efectiva, ETe, é sempre inferior à evapotranspiração potencial, ETp,


podendo considerar-se a seguinte formulação genérica:
n w - n0 )
ET e = ET p f (
n r - n0
em que nw, n0 e nr, são respectivamente o teor da humidade do solo, o ponto de emurchecimento
e a capacida de campo.

5.5.2 Determinação da evapotranspiração potencial

Tal como para a evaporação, também se usam métodos analíticos e medições para determinar a
evapotranspiração potencial. No entanto, devido a maior complexidade do fénomeno da
evapotranspiração, verifica-se um maior recurso a métodos semi-empíricos.

Os métodos abordados nos próximos parágrafos são:

- método do balanço energético;


- método de Penman;
- medição directa com lisímetros ou medição indirecta com tina evaporimétrica;
- métodos semi-empíricos, como o método de Thornthwaite e de Blaney-Criddle.

[Link] Método do balanço energético

O método do balanço energético referido em 5.2.3 pode também ser utilizado para a
determinação da evapotranspiração potencial. A equação do balanço energético para uma
superfície revestida de vegetação e para um dado intervalo de tempo escreve-se:

Qs – Qsr – Qlw – Qh – Qet + Qv = ΔQ

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Evaporação e evapotranspiração 5-5-26
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em que
Qs = radiação solar incidente;
Qsr = radiação solar reflectida; Qsr = aQs em que a é o albedo;
Qlw = radiação de ondas longas;
Qh = calor transferido por trocas turbulentas;
Qet = energia gasta na evapotranspiração;
Qv = energia aduzida ao solo e plantas; é habitualmente desprezável;
ΔQ = variação da energia armazenada no solo e vegetação; pode-se considerar
nula para períodos de tempo não inferiores a 1 dia.

Desprezando Qv e ΔQ, a equação do balanço energético torna-se:

Qn = Qs – Qsr – Qlw = Qh + Qet = Qet (1+R),

em que R é o coeficiente de Bowen.

Dividindo por ρl, obtemos ETp = N/(1+R), com ETp = Qet/ρl e N = Qn/ρl.

Tabela 5.8 Valores médios diários de albedo para diversos tipos de cobertura do solo

Tipos de superfície Albedo Local


Água 0.05-0.10 Vários
Solo nu (humedecido) 0.11 Europa Ocidental
Solo nu (seco) 0.18 Europa Ocidental
Floresta de abetos 0.05-0.08 Europa Ocidental
Pinhal 0.10-0.12 Europa Ocidental
Bambus 0.12 Quénia
Floresta de resinosas 0.14 Quénia
Floresta tropical de folhosas 0.18 Quénia
Ananás 0.05-0.08 Havai
Cana de açucar 0.05-0.18 Havai
Chá 0.16 Quénia
Batata 0.15-0.27 Europa Ocidental
Centeio e trigo [Link] Europa Ocidental
Milho 0.12-0.24 América do Norte
Beterraba sacarina 0.14-0.25 Europa Ocidental
Ervas de pequeno porte 0.14-0.25 Vários
Algodão 0.17-0.25 Vários
Luzerna 0.19-0.25 Vários
Couve Lombarda 0.19-0.28 Europa Ocidental
Culturas hortícolas diversas 0.25 América do Norte

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Evaporação e evapotranspiração 5-5-27
2023
No caso das culturas, as variações dos valores do albedo resultam da variação do poder
reflectivo durante o período vegetativo das culturas.

[Link] Método de Penman

Também o método de Penman pode ser aplicado para a estimação da evapotranspiração


potencial. Partindo da equação do balanço energético referida no parágrafo anterior, chega-se a

N + Ea
ET p = A
+1
A

em que N, Δ/A e Ea têm o significado já anteriormente definido.

Para o cálculo do valor da evaporação isotérmica Ea pode-se utilizar a fórmula de Van Bavel:

3.64 uz
Ea = 2
(1 - U) ew ( T s )
Ts z
[ ln( )]
zo

em que
Ea = evapotranspiração isotérmica (cm/dia);
Ts = temperatura do ar (K);
uz = velocidade de vento (km/dia) medida a uma altura z acima da vegetação.
Normalmente, a medição faz-se 2 m acima do solo;
zo = rugosidade da superfície. Toma-se zo  0.1 da altura da vegetação;
U = humidade relativa (adimensional);
ew = tensão do vapor saturado (mbar).

5.5.3 Medição da evapotranspiração

[Link] Medição com evapotranspirómetros ou lisímetros

Os evapotranspirómetros ou lisímetros são tanques com fundo semi-permeável, enterrados no


chão e contendo solo e vegetação nas mesmas condições que o terreno circundante. Para
minorar o efeito da fronteira e evitar restringir o crescimento das plantas, o tanque deve ser tão
grande e profundo quanto possível, sendo normal que os lisímetros possuam capacidades que
podem ir desde cerca de 1 m3 até cerca de 150 m3. A figura 5.7 representa diversos tipos de
lisímetros.

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Evaporação e evapotranspiração 5-5-28
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Figure 5-12 - Tipos de lisímetros

O lisímetro do tipo a) determina a evapotranspiração a partir da equação de balanço hídrico:

Evapotranspiração = (Precipitação + Irrigação) - Drenagem

Nesta equação não se tem em conta a variação do armazenamento de água no solo pelo que estes
lisímetros devem ser usados quanto esta variação for pequena.

Os lisímetros dos tipos b) e c) medem a variação do peso registado o que equivale a uma
variação do volume de água armazenada no solo, entrando seguidamente com a equação do
balanço hídrico:

Evapotranspiração = (Precipitação + Irrigação) - Drenagem + Variação do armazenamento

Através da irrigação, o solo é mantido em condições próxima da saturação, pelo que o valor
determinado corresponde a evapotranspiração potencial. Os lisímetros são instrumentos pouco
práticos e apenas são utilizados normalmente em grandes explorações agrícolas e centros de
investigação.

[Link] Medição com tina evaporimétrica

Embora a tina meça a evaporação duma superfície líquida, é possível usar os seus valores para
estimar a evapotranspiração potencial multiplicando-os por determinados factores de correcção.

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Evaporação e evapotranspiração 5-5-29
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A tabela 5.9 (adaptada a partir de FAO, 1977) apresenta esses factores de correcção em função
da colocação da tina no terreno, humidade relativa e velocidade média diária do vento. Os
coeficientes apresentados variam de 0.35 a 0.85.

Tabela 5.9 Coeficiente de tina evaporimétrica classe "A" para diferentes coberturas do
solo, diferentes valores de humidade média relativa e velocidade média do
vento.

Tina evaporimétriva Caso A: Tina num terreno com Caso B: Tina num terreno
classe "A" uma cultura verde de pequeno porte inculto e seco *)
Humidade média Baixa Média Elevada Baixa Média Elevada
relativa (%) < 40 40-70 > 70 < 40 40-70 > 70
Velocidade média Extensão da cultura Extensão do terreno
diária do vento a barlavento da inculto a barlavento
(km/dia) tina (m) da tina (m)
1 0.55 0.65 0.75 1 0.7 0.8 0.85
Fraco (<175) 10 0.65 0.75 0.85 10 0.6 0.7 0.8
100 0.7 0.8 0.85 100 0.55 0.65 0.75
1000 0.75 0.85 0.85 1000 0.5 0.6 0.7

1 0.5 0.6 0.65 1 0.65 0.75 0.8


Moderado 10 0.6 0.7 0.75 10 0.55 0.65 0.7
(175-425) 100 0.65 0.75 0.8 100 0.5 0.6 0.65
1000 0.7 0.8 0.8 1000 0.45 0.55 0.6

1 0.45 0.5 0.6 1 0.6 0.65 0.7


Forte (425-700) 10 0.55 0.6 0.65 10 0.5 0.55 0.65
100 0.6 0.65 0.7 100 0.45 0.5 0.6
1000 0.65 0.7 0.75 1000 0.4 0.45 0.55

1 0.4 0.45 0.5 1 0.5 0.6 0.65


Muito forte 10 0.45 0.55 0.6 10 0.45 0.5 0.55
(>700) 100 0.5 0.6 0.65 100 0.4 0.45 0.5
1000 0.55 0.6 0.65 1000 0.35 0.4 0.45
*
) Para áreas extensas de terrenos incultos, o coeficiente de tina deve ser reduzido em
20% em condições de temperaturas elevadas e ventos fortes, e da 5 a 10% em
condições de valores moderados de velocidade de vento, temperatura e
humidade.

[Link] Método de Thornthwaite

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O método de Thornthwaite é um método semi-empírico que foi derivado por correlação entre
temperaturas do ar e evapotranspiração potencial a partir dum grande número de medições das
mesmas. O procedimento é o seguinte:

a) determina-se o índice de calor mensal ji de cada mês:


1.5
ji = ( T i ) em que Ti é a temperatura média mensal do mês i (C);
5
b) determina-se o índice de calor anual:
12
J =  ji
1=1
c) determina-se a evapotranspiração potencial no Equador, ETp,0 (cm/mês):
a
10T
ET p,0 = 1.6 [ ]
J
em que T é a temperatura média do mês (C); e
a = 0.49 + (17900J - 77.1 J2 + 0.675 J3) * 10-6.

d) determina-se a evapotranspiração potencial no local de latitude φ através de:

ETp,φ = K ETp,0,

em que K é função da latitude e da época do ano, conforme se apresenta na tabela 5.10.

Tabela 5.10 Factor de correcção da duração mensal de insolação, K (fórmula de


Thornthwaite).

Latitude Jan. Fev. Mar. Abr. Mai. Jun. Jul. Ago. Set. Out. Nov. Dez.
60N 0.54 0.67 0.97 1.19 1.33 1.56 1.55 1.331.07 0.84 0.58 0.48
50N 0.71 0.84 0.98 1.14 1.28 1.36 1.33 1.211.06 0.90 0.76 0.68
40N 0.80 0.89 0.99 1.10 1.20 1.25 1.23 1.151.04 0.93 0.83 0.78
30N 0.87 0.93 1.00 1.07 1.14 1.17 1.16 1.111.03 0.96 0.89 0.85
20N 0.92 0.96 1.00 1.05 1.09 1.11 1.10 1.071.02 0.98 0.93 0.91
10N 0.97 0.98 1.00 1.03 1.05 1.06 1.05 1.041.02 0.99 0.97 0.96
0 1.00 1.00 1.00 1.00 1.00 1.00 1.00 1.001.00 1.00 1.00 1.00
10S 1.05 1.04 1.02 0.99 0.97 0.96 0.97 0.981.00 1.03 1.05 1.06
20S 1.10 1.07 1.02 0.98 0.93 0.91 0.92 0.961.00 1.05 1.09 1.11
30S 1.16 1.11 1.03 0.96 0.89 0.85 0.87 0.931.00 1.07 1.14 1.17
40S 1.23 1.15 1.04 0.93 0.83 0.78 0.80 0.890.99 1.10 1.20 1.25
50S 1.33 1.19 1.05 0.89 0.75 0.68 0.70 0.820.97 1.13 1.27 1.36

[Link] Método de Blaney - Criddle

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O método de Blaney - Criddle foi desenvolvido para a região ocidental dos Estados Unidos e
depois foi sendo aplicada a outras regiões áridas no mundo, registando-se resultados favoráveis.

O método determina a evapotranspiração potencial num dado mês através da fórmula

ETp = C [p (0.46 T + 8)] + d,

em que

ETp = evapotranspiração potencial (mm/dia);


T = temperatura média diária do mês considerado (C);
p = valor médio diário de horas de insolação (% do número anual de horas,
ver a tabela 5.11);
C, d = factores que introduzem a influência das condições locais de humidade
relativa, horas de insolação e vento.

Tabela 5.11 Valor médio diário (em percentagem, p, do número total anual de horas de
insolação) para diferentes latitudes.

Norte Jan. Fev. Mar. Abr. Mai. Jun. Jul. Ago. Set. Out. Nov. Dez.
Latitude
Sul *) Jul. Ago. Set. Out. Nov. Dez. Jan. [Link]. Abr. Mai. Jun.
60 0.15 0.20 0.26 0.32 0.38 0.41 0.40 0.340.28 0.22 0.17 0.13
58 0.16 0.21 0.26 0.32 0.37 0.40 0.39 0.340.28 0.23 0.18 0.15
56 0.17 0.21 0.26 0.32 0.36 0.39 0.38 0.330.28 0.23 0.18 0.16
54 0.18 0.22 0.26 0.31 0.36 0.38 0.37 0.330.28 0.23 0.19 0.17
52 0.19 0.22 0.27 0.31 0.35 0.37 0.36 0.330.28 0.24 0.20 0.17
50 0.19 0.23 0.27 0.31 0.34 0.36 0.35 0.320.28 0.24 0.20 0.18
48 0.20 0.23 0.27 0.31 0.34 0.36 0.35 0.320.28 0.24 0.21 0.19
46 0.20 0.23 0.27 0.30 0.34 0.35 0.34 0.320.28 0.24 0.21 0.20
44 0.21 0.24 0.27 0.30 0.33 0.35 0.34 0.310.28 0.25 0.22 0.20
42 0.21 0.24 0.27 0.30 0.33 0.34 0.33 0.310.28 0.25 0.22 0.21
40 0.22 0.24 0.27 0.30 0.32 0.34 0.33 0.310.28 0.25 0.22 0.21
35 0.23 0.25 0.27 0.29 0.31 0.32 0.32 0.300.28 0.25 0.23 0.22
30 0.24 0.25 0.27 0.29 0.31 0.32 0.31 0.300.28 0.26 0.24 0.23
25 0.24 0.26 0.27 0.29 0.30 0.31 0.31 0.290.28 0.26 0.25 0.24
20 0.25 0.26 0.27 0.28 0.29 0.30 0.30 0.290.28 0.26 0.25 0.25
15 0.26 0.26 0.27 0.28 0.29 0.29 0.29 0.280.28 0.27 0.26 0.25
10 0.26 0.27 0.27 0.28 0.28 0.29 0.29 0.280.28 0.27 0.26 0.26
5 0.27 0.27 0.27 0.28 0.28 0.28 0.28 0.280.28 0.27 0.27 0.27
0 0.27 0.27 0.27 0.27 0.27 0.27 0.27 0.270.27 0.27 0.27 0.27
*
) Latitude de hemisfério Sul: desfasar de 6 meses, como indicado.

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Evaporação e evapotranspiração 5-5-32
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A figura 5.8 permite obter directamente o valor de ETp a partir do conhecimento de p (0.46 T +
8).

Quer o método de Thornthwaite quer o método de Blaney - Criddle foram derivados para
condições específicas que, quando não verificadas, podem originar erros grosseiros.

Figure 5-15 - Ábaco de cálculo para o método de Blaney-Criddle

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Evaporação e evapotranspiração 5-5-33
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5.6 DETERMINAÇÃO DA EVAPOTRANSPIRAÇÃO EFECTIVA

5.6.1 Método de Thornthwaite-Mather

O cálculo da evapotranspiração efectiva torna-se muito complexo devido à interacção de


condições meteorológicas com as condições do solo e as características da vegetação. Recorre-se
por isso a métodos simplificados, sendo um dos mais utilizados o método de Thornthwaite -
Mather.

Em casos especiais ainda pode-se aplicar o método do balanço hídrico ou o método do balanço
energético.

No que diz respeito ao método de balanço energético, pode-se referir que foram recentemente
desenvolvidos métodos para determinar a evapotranspiração efectiva a partir de imagens de
satélite. Trata-se porém dum método bastante dispendioso por necessitar dum grande número de
imagens.

O método de Thornthwaite - Mather pode ser aplicado para estimar a evapotranspiração


efectiva em áreas onde o nível da água subterrânea é profundo. O método baseia-se na equação
do balanço hídrico aplicado à camada superficial do solo:

P - ETe - Q - R = ΔSs + ΔSso,

em que

P = precipitação;
ETe = evapotranspiração efectiva;
Q = escoamento superficial;
R = recarga da água subterrânea;
ΔSs = variação do armazenamento superficial;
ΔSso = variação do armazenamento no solo.

O método parte da seguinte hipótese: só há escoamento superficial e/ou recarga da água


subterrânea e/ou variação do armazenamento superficial quando o teor de humidade do solo
atingiu a capacidade de campo e a evapotranspiração efectiva igualou a evapotranspiração
potencial.

A fracção da humidade do solo utilizável pelas plantas designa-se por nu = nw - n0, em que nw e
n0 são respectivamente o teor da humidade do solo e o teor de humidade no ponto de
emurchecimento. nu é um valor adimensional (fracção). Se se multiplicar pela profundidade do
solo atingida pelas raízes, esse valor passa a se expresso em altura de água, Nu.

A evapotranspiração efectiva é dada em cada peródo de tempo por

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ETe = ETp se P  ETp
ETe = P - ΔSso se P < ETp (Obs: note-se que ΔSso < 0)

Quando P  ETp diz-se que há superavit hídrico SH:

SH = P - ETp - ΔSso

Esta equação significa que a precipitação garante a evapotranspiração potencial e o aumento do


armazenamento no solo; o excedente constitui o SH, que resulta em escoamento superficial e/ou
recarga da água subterrânea e/ou armazenamento superficial.

ΔSso = P - ETp (ou seja, SH = 0)

até Sso = Nr (Nr é a capacidade de campo, expressa em altura, sendo o limite superior de Sso). A
tabela 5.12 apresenta alguns valores característicos da capacidade de campo, nr, e o ponto de
emurchecimento, n0, para vários solos.

Tabela 5.12 Valores característicos da capacidade de campo e do ponto de


emurchecimento

Solo: Capacidade de campo (%) Ponto de emurchecimento (%)


Argila 45 30
Argila siltosa 40 25
Areia siltosa 28 18
Areia fina 15 8
Areia 8 4

Quando P < ETp diz-se que há défice hídrico DH:

DH = ETp - P + ΔSso (ΔSso < 0)

Neste caso não há escoamento nem recarga da água subterrânea. Numa sucessão de i períodos
com défice hídrico, ΔSso é calculado do seguinte modo:
i
L(i) =  [P(j) - ET p (j)] L(i) < 0
j=1

L(i) representa o valor da excedência acumulada da evapotranspiração potencial sobre a


precipitação num período com défice hidrico.
L(i)
S so (i) = N u e N u
L(i)
 S so (i) = N u e N u - S so (i - 1)

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Evaporação e evapotranspiração 5-5-35
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A aplicação sequencial ao longo do tempo do método de Thornthwaite - Mather (também
chamado de método do balanço sequencial) permite assim calcular a evapotranspiração efectiva.

As figuras 5.9 e 5.10, extraídas de Gonçalves (1974), representam a evapotranspiração potencial


calculada pelo método de Thornthwaite e a evapotranspiração efectiva calculada pelo método de
Thornthwaite – Mather, para valores climáticos anuais médios de Moçambique. Para este último
caso, o autor adoptou os valores de Nr = 75 mm para solos arenosos, Nr = 100 mm para solos
areno-argilosos e Nr = 150 mm para solos argilosos.

A comparação das duas figuras mostra que a ETe se aproxima de ETp em zonas de precipitação
elevada, afastando-se bastante dela e assemelhando-se aos valores de precipitação em zonas de
baixa precipitação como o interior da Província de Gaza e o sul da Província de Tete.

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Figure 5-16 - Evapotrans;piração potencial calculada em Moçambique

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Figure 5-17 - Evapotranspiraçao efectiva, calculada pelo método de Thornthwaite-Mather

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Evaporação e evapotranspiração 5-5-39
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EXERCÍCIOS

1. As temperaturas lidas num psicrómetro foram Ts = 35 C e Th = 31 C. P = 1000 mbar.


Calcule U.

2. Calcule o valor médio da radiação global em Maputo em Maio, sabendo que n/N = 0.70
e C = 0.35

3. Calcule a radiação de ondas longas em Maputo em Maio sabendo que:

- a temperatura média do ar é de 20 C;


- a humidade relativa média é de 0.75;
- a temperatura média da superfície da terra é de 24 C.

4. Enumere todos os instrumentos necessários para determinar a evaporação com o método


de Penman.

5. Calcule a evaporação média dum pequeno reservatório em Maputo, durante o mês de


Maio, sabendo que a velocidade do vento a 2 m de solo é de 12 km/hora. Utilize os
dados dos exemplos 2 e 3.

6. Calcule a evapotranspiração potencial para uma cultura hortícola em Maio de Maputo.


Utilize vários métodos e compare os resultados.

- altura da vegetação = 25 cm;


- albedo = 0.25;
- latitude (Maputo) = 26S;
- n/N = 0.4;
- humidade relativa = 0.75;
- u2 = 10 km/h.;
- temperatura de Outubro a Setembro (C): 23/24/25/26/26/25/24/21/19/19/20/22.

7. Um solo tem uma capacidade de campo de 25 % e um ponto de emurchecimento de 15


%, enquanto a zona de raízes tem uma profundidade de 100 cm. Num dado ano,
verificaram-se os seguintes valores mensais da precipitação e evapotranspiração
potencial:

Out Nov Dez Jan Fev Mar Abr Mai Jun Jul Ago Set
P(mm) 87 105 142 232 195 136 76 66 38 18 13 46
ETp (mm) 96 135 146 160 142 91 62 29 18 22 34 68

a) Estime os valores mensais da evapotranspiração efectiva.


b) Qual é o mês mais crítico para as plantas ?
c) Qual é o mês mais crítico para o sistema de drenagem ?

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Evaporação e evapotranspiração 5-5-40
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