INSTITUTO SÃO BOAVENTURA – ISB
Curso: Filosofia
Disciplina: História da Filosofia Moderna
Professor: Me. Adail David
Aluno: Andrey Ferreira Marques Cavalcante
Blaise Pascal
1. Breve biografia
Nascido em Clermont, em 19 de junho de 1623, Blaise Pascal, filho de Étienne
Pascal e Antoinette Begon que faleceu quando ele tinha apenas três
anos, foi um dos maiores mestres e intelectuais da história. Matemático, físico,
escritor, filósofo e teólogo, o pensador francês é um gênio desde a infância. Já aos
dezesseis anos de idade, escreveu um tratado de tamanha profundidade que foi
comparado a Arquimedes. Estudou também latim, grego e filosofia. Aos dezoito,
inventou uma calculadora (chamada de pascalina), aos vinte já era detentor de um
incrível e vasto conhecimento, tendo mesmo descoberto até leis sobre a densidade do ar,
equilíbrio dos líquidos, a prensa hidráulica, o triângulo aritmético, etc. De fato, foi um
superdotado, um gênio. Teve ainda outras contribuições para a física e a matemática.
O grande Pascal foi um homem rico e famoso, mas o fato descrito que muda
todo o percurso de sua vida é a noite do êxtase de Pascal, depois de ter enfrentado um
acidente que poderia tê-lo matado. Aquelas prováveis duas horas (22h a meia noite)
transformaram a sua história, dela, se tem apenas os bilhetes com frases vagas em que
se expressam o sentimento daquele que passou por tal experiência mística. Desde então,
Pascal passa a se dedicar profundamente à filosofia e teologia, passou a morar em Port-
Royal, sede do jansenismo, vivendo em solidão e morreu aos trinta e nove anos, tendo
passado por muitos sofrimentos. O Papa Francisco declarou que Pascal merece ser
beatificado.
2. A filosofia de Pascal
O pensamento filosófico de Pascal envolve também a sua teologia, católico
jansenista. Hoje é declarado que embora o jansenismo fosse visto como heresia, Blaise
Pascal foi um jansenista não herege, mesmo de forte pensamento, em nada contrariou a
verdade da Igreja. De suas obras destacam-se os Pensamentos, os quais iremos utilizar
para este trabalho.
Para entender o pensamento filosófico pascalino é necessário compreender que
ele se desenvolveu em Port-Royal, sede dos jansenistas. Os jansenistas eram de doutrina
agostiniana, de modo que Pascal também possui um pouco da herança de Agostinho. De
início vale destacar a importância da verdade para ele, é ela o bem e deve sempre
prevalecer.
São famosas as suas críticas ao racionalismo e a Descartes. Em seus
Pensamentos, dos números 76 a 79 são críticas diretas a Descartes, mas ainda possuem
outras críticas feitas de modo indireto. Mas Pascal não condena o racionalismo
cartesiano totalmente, sua crítica se deve ao fato dele ser aplicado a toda e qualquer
ciência, tanto das que derivam das exatas, quanto das que derivam das humanas, e
mesmo a filosofia. Para nosso autor, o método cartesiano é bom para as ciências exatas,
mas para as humanas e a filosofia, ele cairia em um reducionismo racionalista e até
matematicista, a crítica, portanto, é clara, Descartes quer chegar à verdade sem Deus.
O conhecimento humano é dividido por Pascal em duas categorias: o
conhecimento baseado na tradição e na autoridade, tendo como exemplo por excelência
a Bíblia; e o conhecimento que provém da experiência e da razão, como a física e a
matemática. Entender isso é crucial, pois o racionalismo havia esvaziado algumas
noções religiosas, bem como um pouco do sentido da vida humana. Assim, Pascal quer
resgatar aquilo que para ele, somente a religião pode oferecer. E se Descartes propõe o
dualismo de res cogitans e res extensa, o nosso pensador vai propor o dualismo de
grandeza e miséria1. Vale lembrar a sua mais famosa sentença: “O coração tem suas
razões, que a razão não conhece” 2. Pascal, com fidelidade à razão e à fé, não quer
separar a razão do coração, antes, quer integrá-los.
1
LACAZ-RUIZ, 2010, p.36.
2
Cf. PASCAL, Pensamentos.
Para se integrar o ser humano, deve-se elevar o espírito, para reconhecer que os
prazeres carnais não passam de vaidade. Por isso, a nossa felicidade nesta vida depende
da nossa esperança em uma vida futura.
Mas daí surge outra questão: vale a pena crer em Deus e em uma vida futura?
Com tamanhas probabilidades de não haver um Deus e uma vida futura, já que isso não
pode ser provado empiricamente, Pascal, argumenta que esta certeza não se pode ter por
sermos seres finitos, sendo Deus infinito, assim como a eternidade. Mas se pensamos
em um jogo de aposta, apostar ou não? Ele diz que não podemos deixar de apostar, visto
que disso depende nossa vida e felicidade e que, escolher não pensar nisso para se privar
da angústia é uma grande insensatez, pois nos preocupamos e perdemos o sono por
coisas passageiras e até ínfimas, quanto nesse jogo o que está para aposta é a
probabilidade de felicidade infinita e eterna.
O melhor a fazer é apostar tudo, visto que as probabilidades de certeza da não
existência de Deus e de uma vida futura são as mesmas que a certeza de sua existência,
50%, cara ou coroa. E o melhor é apostar tudo na certeza de Deus porque se isto está
certo, ganhou-se tudo, se não, não se perde quase nada. Mas o fato, é que o infinito em
face ao finito é logicamente superior e, portanto, é sensato apostar no infinito. Isto é um
salto na fé, para isso, o remédio proposto por ele é o mesmo de Agostinho: creia
primeiro, compreenderás depois. Pratique entregando-se à piedade e ela te conduzirá a
fé e à certeza de Deus.
Coração e razão
O coração conhece os primeiros princípios e é em vão que a razão tente combatê-los.
Com ele nós temos uma certeza interior. Só se sente Deus pelo coração.
Ver alguma coisa que sentimos com o âmago do ser que esta é verdadeira, esse é o
conhecimento do coração. Trata-se de uma espécie de intuição, mas que se assemelha à
experiência sapiencial dos medievais, que advinha do saborear.
Para Pascal, a razão está habituada a trabalhar com alguma coisa que desconhece, com
alguma coisa que não pode demonstrar. O processo da razão implica o reconhecimento
da sua impotência e das suas limitações: “Assim, essa impotência só deve servir para
humilhar a razão – que quer julgar tudo -, mas não para combater a nossa certeza”. Isso
é algo que Aristóteles já tinha reconhecido há dois mil anos, ao falar sobre o princípio
de não contradição, afirmando que este não podia ser demonstrado, mas que não
deixava de ser verdadeiro por isso, pois era evidente por si próprio. Pascal diria que a
sua verdade é sentida pelo nosso coração, é intuída.
Conhecimento
Tradição e autoridade principal fonte é a Bíblia, daqui vêm sua teologia.
Experiência e razão ciência e filosofia.
“Se não crerdes não compreenderás” (frase de Isaías usada por Agostinho), quem crê
em algo, vive de acordo com o algo em que se crê. O pensamento pascalino é que se
deve exercitar-se nas atitudes de quem crê e aos poucos, aquilo vai entrando no coração,
de modo que se vai vagarosamente crendo e tomando conhecimento de Deus, se vai
germinando a fé. É o conhecimento do coração.
O homem
Grande obra de Deus, a mais excelente criatura, mas também a mais miserável. Alguns
que tomaram conhecimento da excelência e dignidade do homem, acabaram por cair
nos sentimentos baixos, outros, por conhecerem que a baixeza desses sentimentos é
afetiva, rejeitaram os sentimentos e caíram em grande orgulho.
O homem desceu do estado de glória por comunicar-se com Deus a um estado de
penitência por afastar-se de Deus. Agora sofrem a tristeza e só a esperança da vida
futura lhe dá conforto. O homem é capaz de Deus, mas sua condição de miséria o
indigno de Deus. Deve-se conhecer a Deus e sua própria miséria e conhecer o Redentor
que cura e restaura o homem o conhecimento de Deus sem o conhecimento da
própria miséria leva à soberba, o conhecimento da própria miséria sem o conhecimento
de Deus leva ao desespero, mas o conhecimento de Cristo conduz ao equilíbrio e à
esperança. Vale lembrar-se de Agostinho, que fala da necessidade do reconhecimento
das doenças para que se possa começar o seu tratamento com o médico que é Cristo.
Pascal observa o vazio existencial do homem e sua busca por ser feliz, conclui, ao
observar os filósofos que desprezaram os prazeres e os que os abraçaram, que o homem
não pode curar-se a si mesmo e, para não se ciar no desespero e na angústia, a felicidade
do homem depende do conhecimento de Deus.
Vazio existencial
“Há um vazio do tamanho de Deus no coração de cada homem, que não pode ser
preenchido por qualquer coisa criada, mas somente por Deus, o Criador, que se fez
conhecido através de Jesus.” (pensamentos).
Bibliografia
LACAZ-RUIZ, QUINTINO, KOGEYAMA e PANSANI. Blaise Pascal: O homem e a
ciência. In. Revista Ética e Filosofia Política, n. 12, v. 1, 2010, p. 28-43.
PASCAL, Blaise. Pensamentos. Edição eletrônica: Ed Ridendo Castigat Mores.
Disponível em:
<[Link]
filosofia/texto_pdf/[Link]> Acesso em 17 mai. 2021.