Capítulo I
Conceitos Básicos de Topologia e Análise Convexa
A seguir introduziremos alguns conceitos topológicos em Rn : conjuntos abertos, con-
juntos fechados e compacidade.
Definição 1 (1). Um conjunto B ⊂ A ⊂ Rn é aberto em A se para cada x0 ∈ B existe
ε > 0 tal que {x ∈ A : ∥x − x0 ∥ < ε} está contido em B.
Um conjunto aberto em A ⊂ Rn também é chamado de conjunto aberto relativo a A,
ou aberto relativo (quando não há possibilidade de confusão). Se A = Rn , referimo-nos a
um conjunto aberto em Rn simplesmente como conjunto aberto.
Note que, se B é aberto em A, não necessariamente B é um subconjunto aberto de
Rn . Por exemplo, B = (0, 1] é aberto em [0, 1], mas não é aberto em R.
Por definição, todo conjunto A ⊂ Rn é aberto em A. Além disso, o conjunto vazio é
aberto em qualquer A ⊂ Rn .
Em geral, dado A ⊂ Rn , um conjunto B ⊂ A é aberto em A se e somente se existe
um conjunto aberto C ⊂ Rn tal que B = A ∩ C.
Seja A ⊂ Rn aberto. Para cada ε > 0 e x0 ∈ Rn , denotemos por
Bε (x0 ) := {x ∈ Rn : ∥x − x0 ∥ < ε},
a bola aberta de centro x0 e raio ε. De forma análoga, dado A ⊂ Rn , definimos a bola
aberta em A, de centro x0 ∈ A e raio ε > 0, por
Bε (x0 ; A) := {x ∈ A : ∥x − x0 ∥ < ε}.
Note que Bε (x0 ) = Bε (x0 ; Rn ).
Proposição 1 (1). Para todo A ⊂ Rn , para cada (ε, x0 ) ∈ R++ × Rn , a bola Bε (x0 ; A) é
um subconjunto aberto de A.
Algumas propriedades dos conjuntos abertos:
(1) Dada uma família de conjuntos {Aλ }λ∈Λ ⊂ A, onde Λ é uma coleção arbitrária de
índices, o conjunto λ∈Λ Aλ é aberto. De fato, dado x0 ∈ λ∈Λ Aλ , existe λ(x0 ) ∈ Λ
S S
tal que x0 ∈ Aλ(x0 ) . Assim, existe ε > 0 tal que Bε (x0 ) ⊂ Aλ(x0 ) ⊂ λ∈Λ Aλ .
S
(2) Quando o conjunto de índices Λ é finito, a interseção dos conjuntos {Aλ }λ∈Λ está
em A. Para demonstrar isto, considere um vetor x0 ∈ λ∈Λ Aλ . Como para cada
T
λ ∈ Λ existe ελ > 0 tal que Bελ (x0 ) ⊂ Aλ , segue que Bε (x0 ) ⊂ λ∈Λ Aλ , onde
T
ε := minλ∈Λ ελ .
A interseção arbitrária de conjuntos abertos não é, em geral, um conjunto aberto.
Como exemplo, considere a família {(− n1 , 1 + n1 ); n ∈ N} ⊂ A1 . Apesar de cada conjunto
ser aberto, a interseção de todos eles, [0, 1], não o é.
1
Definição 2 (2). Um conjunto B ⊂ A ⊂ Rn é fechado em A se o complemento de B em
A, A \ B, é aberto em A.
Segue que B é fechado (em Rn ) se, e somente se, B c ⊂ A é aberto.
Algumas propriedades dos conjuntos fechados podem ser deduzidas do que já sabemos
sobre conjuntos abertos. De fato, a interseção arbitrária de conjuntos fechados é um
conjunto fechado. A união finita de conjuntos fechados também é um conjunto fechado.1
Não
h assimi a união arbitrária de conjuntos fechados: a união dos conjuntos da família
{ n1 , 1 − n1 ; n ∈ N}, que é igual ao conjunto (0, 1), não é um conjunto fechado.
Definição 3 (3). Uma sequência {xn }n∈N ⊂ Rn é convergente se existe x̄ ∈ Rn tal que,
para todo ε > 0, existe Nε ∈ N tal que ∥xn − x̄∥ < ε, ∀n ≥ Nε . O vetor x̄ é chamado de
limite da sequência {xn }n∈N ⊂ Rn .
Deixamos ao leitor verificar que o limite de uma sequência em Rn , quando existe, é
único.
Proposição 2 (2). Um conjunto B ⊂ Rn é fechado se e somente se toda sequência
convergente de B tem seu limite em B.
Demonstração. Suponha que B é fechado e fixe uma sequência convergente {xn }n∈N ⊂ B.
Por definição, existe x̄ ∈ Rn tal que ∥xn − x̄∥ → 0 quando n → ∞. Suponha que x̄ ∈ / B.
Então existe ε > 0 tal que Bε (x̄) ⊂ B c . Isto implica que, para n suficientemente grande,
xn ∈/ B, uma contradição.
Reciprocamente, suponha que toda sequência convergente de B tem seu limite em B.
Se B não é fechado, então B c não é aberto. Isto é, para algum x̄ ∈ B c e para cada n ∈ N,
existe xn ∈ B tal que ∥xn − x̄∥ < n1 . Logo, encontramos uma sequência convergente de B
que tem seu limite em B c , uma contradição.
Recorde que uma função f : U → Rm , definida em um subconjunto U ⊂ Rn , é
contínua em um ponto x0 ∈ U se e somente se, para cada ε > 0, existe δ > 0 tal que,
se x ∈ U e ∥x − x0 ∥ < δ, então ∥f (x) − f (x0 )∥ < ε. Dado A ⊂ Rm , referimo-nos ao
conjunto f −1 (A) := {x ∈ U : f (x) ∈ A} como a pré-imagem de A por f . A seguir
mostraremos como a continuidade de funções se relaciona com os conceitos de conjunto
aberto e conjunto fechado.
Proposição 3 (3). Uma função f : U ⊂ Rn → Rm é contínua em x0 ∈ U se e somente se
a pré-imagem por f de cada conjunto A ∈ Am que contém o vetor f (x0 ) é um subconjunto
de U que contém uma vizinhança de x0 (isto é, um aberto de U que contém x0 ).
Demonstração. Suponha que f é contínua em x0 ∈ U . Dado A ⊂ Rm aberto tal que
f (x0 ) ∈ A, suponha, por contradição, que não exista ε > 0 tal que Bε (x0 ; U ) ⊂ f −1 (A).
Então existe uma sequência {xn }n∈N ⊂ U tal que, para cada n ∈ N, ∥xn − x0 ∥ < n1 e
f (xn ) ∈
/ A. Como {xn } converge para x0 , a continuidade de f nos assegura que f (xn ) é
convergente para f (x0 ). Como Ac é fechado, chegamos a f (x0 ) ∈ Ac , isto é, x0 ∈/ f −1 (A),
uma contradição.
Reciprocamente, fixado x0 ∈ U , assuma que a pré-imagem de cada conjunto A ∈ Am
que contém f (x0 ) é um subconjunto de U que contém uma vizinhança de x0 . Como para
cada ε > 0 o conjunto Bε (f (x0 )) é aberto, concluímos que existe δ > 0 tal que, se x ∈ U e
1
Recomenda-se ao leitor demonstrar estas propriedades.
2
∥x − x0 ∥ < δ, então x ∈ f −1 (Bε (f (x0 ))), isto é, ∥f (x) − f (x0 )∥ < ε. Assim, f é contínua
em x0 .
Como o conjunto vazio é aberto, segue da proposição anterior que uma função f :
U → Rm é contínua em seu domínio U ⊂ Rn se e somente se a pré-imagem por f de todo
conjunto aberto A ⊂ Rm é um conjunto aberto de U .
Se A ⊂ Rm é fechado e f : U → Rm é contínua, então f −1 (Ac ) é aberto em U .
Isto é o mesmo que afirmar que f −1 (A) é fechado em U . Por outro lado, se para cada
conjunto fechado A ⊂ Rm , f −1 (A) é fechado em U , então para cada aberto B ⊂ Rm ,
f −1 (B) = (f −1 (B c ))c é aberto em U . Isto é, f é contínua em U .
Definição 4 (4). Um conjunto K ⊂ Rn é compacto se para toda família de conjuntos
abertos {Aλ }λ∈Λ tal que K ⊂ λ∈Λ Aλ , existe um subconjunto finito Λ∗ ⊂ Λ tal que
S
K ⊂ λ∈Λ∗ Aλ .
S
Isto é, um conjunto K é compacto quando toda cobertura aberta de K possui uma
subcobertura finita. Assim, uma forma de mostrar que um conjunto não é compacto é en-
contrar uma cobertura aberta dele que não tenha subcobertura finita. Por exemplo, [0, 1)
não é compacto, já que a cobertura aberta {(−1, 1 − n1 ); n ∈ N} não tem subcobertura
finita. De forma análoga, o conjunto [0, +∞) não é compacto, pois {(−1, n); n ∈ N} não
tem subcobertura finita. O problema desses conjuntos é que deixam “aberto” o extremo
direito e, portanto, pode-se construir uma cobertura que avança lentamente nessa direção,
bloqueando a existência de subcobertura finita. No primeiro caso, o extremo direito está
“aberto” porque o conjunto não é fechado; no segundo caso, porque o conjunto não é
limitado.
Proposição 4 (4). As seguintes propriedades são equivalentes:
(a) K ⊂ Rn é compacto.
(b) K ⊂ Rn é fechado e limitado.
(c) Toda sequência em K ⊂ Rn tem uma subsequência convergente em K.
Proposição 5 (5). Seja f : U ⊂ Rn → Rm uma função contínua. Se K ⊂ U é compacto,
então f (K) é compacto.
Demonstração. Fixe uma cobertura aberta de f (K), {Aλ }λ∈Λ . Isto é, uma família de con-
juntos abertos tal que f (K) ⊂ λ∈Λ Aλ . É imediato verificar que K ⊂ f −1 S
λ∈Λ λ =
S
A
−1
(Aλ ). Isto é, {f (Aλ )}λ∈Λ é uma cobertura aberta de K. Logo, existe uma
−1
S
λ∈Λ f
subcobertura finita {f −1 (Aλ )}λ∈Λ∗ , com Λ∗ ⊂ Λ. Assim, f (K) pode ser coberto por um
número finito de elementos de {Aλ }λ∈Λ . Isto é, f (K) é compacto.
Dada uma função f : U ⊂ Rn → R, diremos que f alcança seu máximo (resp. mínimo)
em U se existe x̄ ∈ U tal que f (x̄) ≥ f (x) (resp. f (x̄) ≤ f (x)), para todo x ∈ U .
Corolário 1. Toda função contínua f : K ⊂ Rn → R definida em um conjunto compacto
K alcança seu máximo e seu mínimo em K.
Demonstração. Como f é contínua, f (K) é compacto. Assim, é fechado e limitado. Por
ser limitado, existem z := inf{z : z ∈ f (K)} e z̄ := sup{z : z ∈ f (K)}. Por definição
de ínfimo e supremo, há sequências {zn }n∈N ⊂ f (K) e {z̄n }n∈N ⊂ f (K) que convergem,
respectivamente, para z e z̄. Como f (K) é fechado, z e z̄ estão em f (K), o que conclui a
demonstração.
3
Uma propriedade que utilizaremos com frequência em nossas aplicações será a conve-
xidade de conjuntos. Recordemos que um conjunto C ⊂ Rn é convexo se, para cada par
de elementos x1 , x2 ∈ C, os vetores {λx1 + (1 − λ)x2 }λ∈(0,1) pertencem a C.
O resultado seguinte enumera algumas propriedades de conjuntos convexos.
Proposição 6 (6). (a) Os conjuntos ∅ e Rn são convexos.
(b) Dados A e B convexos em Rn , A + tB := {a + tb : a ∈ A, b ∈ B} é convexo para
cada t ∈ R.
(c) A interseção arbitrária de conjuntos convexos é um conjunto convexo.
(d) Todo espaço vetorial é convexo.
(e) Se C ⊂ Rn é convexo, então a fechadura (fecho) C := {x ∈ Rn : ∃(xn )n∈N ⊂
C convergente para x} é convexa.
(f) Dado um conjunto C, seja C ◦ := {x ∈ C : ∃ ε > 0, Bε (x) ⊂ C} o interior de C.
Então, se C é convexo, o interior de C está contido em C.
A propriedade (f) será fundamental para provar o próximo resultado, e só é válida
◦
para conjuntos convexos. De fato, se C = (0, 1) ∪ (1, 2), então C = (0, 2) ̸⊂ C.
Teorema 1 (Separação de Conjuntos Convexos). Sejam A e B dois conjuntos convexos,
disjuntos e não vazios em Rn . Então, sempre existe p ∈ Rn \ {0} tal que p · a ≤ p · b, para
cada (a, b) ∈ A × B.
Se A é fechado e B é compacto, então o vetor p pode ser escolhido de tal forma que,
para algum c ∈ R, p · a < c < p · b, ∀(a, b) ∈ A × B.
Demonstração (esboço fiel ao texto). Se A é fechado, a função f : B → R dada por
f (b) = mina∈A ∥b − a∥ está bem definida e é contínua. Além disso, quando B é compacto,
existe b∗ ∈ B tal que f (b∗ ) = ∥b∗ − a∗ ∥ (com a∗ ∈ A). Como A e B são disjuntos, o
b ∗ − a∗
vetor p = ∗ está bem definido e tem norma 1. Nota-se que 0 < p · p = p. Logo
∥b − a∗ ∥
p · b∗ > p · a∗ . Para concluir, prova-se que, para cada (a, b) ∈ A × B, p · b ≥ p · a. Fixe
a ∈ A e considere g : [0, 1] → R, g(λ) = ∥b∗ − (λa + (1 − λ)a∗ )∥2 . Como A é convexo, g
tem mínimo em λ = 0; logo g ′ (0) ≥ 0, isto é, 2(b∗ − a∗ ) · (a − a∗ ) ≤ 0, ou seja, p · b∗ ≥ p · a.
De modo análogo, para b ∈ B considera-se h(λ) = ∥(λb + (1 − λ)b∗ ) − a∗ ∥2 e obtém-se
p · b ≥ p · b∗ . Portanto p · b ≥ p · a, como queríamos.
Para a versão forte, observe que C = A − B é convexo, não vazio e não contém o vetor
zero; então ou (i) C é disjunto de {0}, ou (ii) 0 ∈ C. No caso (i), aplica-se o argumento
anterior para obter p ̸= 0 tal que p · c < 0 para todo c ∈ C, em particular p · a < p · b. No
caso (ii), constrói-se uma sequência zn ∈ C que converge a 0 e vetores pn de norma 1 tais
que pn · a ≤ pn · b; por compacidade, uma subsequência de pn converge a p com a mesma
propriedade.
Os teoremas de ponto fixo são úteis em teoria econômica, pois em muitas situações
devemos encontrar variáveis (por exemplo, cestas e preços) que são resultado da solução
simultânea de vários problemas de otimização. O mais simples deles com aplicações
importantes em economia é:
Teorema 2 (Ponto Fixo de Brouwer). Seja K ⊂ Rn um conjunto convexo, compacto e
não vazio. Se f : K → K é contínua, então existe x̄ ∈ K tal que f (x̄) = x̄.
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Demonstração (caso n = 1). Na reta real, os conjuntos convexos, compactos e não vazios
são sempre do tipo [a, b], com a < b. Fixe f : [a, b] → [a, b] contínua e suponha que
f (a) ̸= a e f (b) ̸= b. Defina g(x) = f (x) − x. Então g(a) > 0 e g(b) < 0 (ou vice-versa).
Pela continuidade, pelo Teorema do Valor Intermediário, existe c ∈ (a, b) tal que g(c) = 0,
isto é, f (c) = c.
Nenhuma das hipóteses anteriores pode ser relaxada sem perder generalidade. Exem-
plos de falhas quando um pressuposto é retirado:
• f não é contínua: f : [0, 1] → [0, 1] dada por f (0) = 1 e f (x) = 0, se x ∈ (0, 1].
• K não é fechado: f : (0, 1] → (0, 1] definida por f (x) = 0,5x.
• K não é limitado: f : [0, +∞) → [0, +∞) dada por f (x) = x + 1.
• K não é convexo: K = [0, 1] ∪ [2, 3], com f (x) = 3 para x ∈ [0, 1] e f (x) = 1 para
x ∈ [2, 3].
Aplicação: Existência de Equilíbrio de Nash
Considere um jogo estático, com informação completa e não cooperativo, denotado por
G(I, {ui , S i }i∈I ). Cada jogador i ∈ I = {1, . . . , n} maximiza sua função objetivo ui :
S i × S −i → R, escolhendo estratégias em S i ⊂ Rni , com ni ≥ 0. Isto é, dadas estratégias
s−i ∈ j̸=i S j , o jogador i vai escolher si ∈ arg maxx∈S i ui (x, s−i ).
Q
Um equilíbrio de Nash do jogo G(I, {ui , S i }i∈I ) é dado por um vetor de estratégias
s̄ = {s̄i ; i ∈ I} tal que, para cada i ∈ I, ui (s̄) ≥ ui (si , s̄−i ), ∀si ∈ S i , onde s̄−i = {s̄j ; j ̸=
i}.
Teorema 3 (Existência de Equilíbrio de Nash). Suponha que os conjuntos de estratégias
admissíveis {S i }i∈I são convexos, compactos e não vazios. Além disso, assuma que as
funções objetivo {ui }i∈I são contínuas e estritamente quasiconcavas na própria estratégia.
Então o jogo G(I, {ui , S i }i∈I ) possui um equilíbrio de Nash.
Demonstração (idéia conforme o texto). Basta provar que, para cada i ∈ I, a função de
melhor resposta hi : j̸=i S j → S i dada por hi (s−i ) = arg maxx∈S i ui (x, s−i ) está bem
Q
definida e é contínua. Neste caso, a função h : j∈I S j → j∈I S j dada por h((sj )j∈I ) =
Q Q
(h1 (s−1 ), . . . , hn (s−n )) seria contínua e cumpriria as hipóteses do Teorema do Ponto Fixo
de Brouwer. Logo, existiria s̄ = (s̄i ; i ∈ I) tal que h(s̄) = s̄. Isto é, para cada jogador i,
s̄i = hi (s̄−i ), o que conclui a demonstração.
Para isto, demonstra-se que, dados K e S compactos, convexos e não vazios, para cada
função f : K × S → R contínua em (k, s) e estritamente quasiconcava em k, a função
g : S → K dada por g(s) = arg maxk∈K f (k, s) está bem definida e é contínua. Com
efeito: como f (·, s) é estritamente quasiconcava e K é convexo, A(s) := arg max f (·, s)
tem um único elemento, logo g está bem definida. Para a continuidade, fixe s ∈ S e
uma sequência sm → s; pela compacidade de K, uma subsequência g(sm ) → k̄ ∈ K com
f (k̄, s) ≥ f (k, s), ∀k ∈ K, concluindo g(s) = k̄.
Assim como no Teorema de Brouwer, as hipóteses do resultado anterior não podem
ser relaxadas. Exemplos sem equilíbrio de Nash quando:
• funções objetivo são descontínuas: K = [0, 1], f (0) = 1 e f (x) = 0 se x ∈ (0, 1];
• conjuntos de estratégias não são fechados: K = (0, 1), f (x) = 0,5x;
5
• conjuntos de estratégias não são limitados: K = [0, +∞), f (x) = x + 1;
• conjuntos de estratégias não são convexos: K = [0, 1] ∪ [2, 3], f (x) = 3 em [0, 1] e
f (x) = 1 em [2, 3];
• falha de quasiconcavidade das funções objetivo (exemplo do texto).
Quasiconcavidade
Em algumas aplicações precisamos que o conjunto de vetores que maximiza uma função
f : U ⊂ Rn → R seja convexo. Note que, se dois vetores x1 e x2 maximizam f em U , é
necessário e suficiente, para que qualquer λx1 + (1 − λ)x2 (λ ∈ (0, 1)) também seja ótimo,
que as seguintes condições sejam satisfeitas: (i) x1 é ótimo em U ; (ii) f (λx1 + (1 − λ)x2 ) ≥
min{f (x1 ), f (x2 )} para todo λ ∈ (0, 1).
A condição (ii) se obtém se U é convexo. Quando uma função satisfaz (ii) em todo
seu domínio, diremos que é quasiconcava em U .
Definição 5 (5). Uma função f : U ⊂ Rn → R é quasiconcava em U se, para todo
par (x1 , x2 ) ∈ U × U , f (λx1 + (1 − λ)x2 ) ≥ min{f (x1 ); f (x2 )} para cada λ ∈ (0, 1) com
λx1 + (1 − λ)x2 ∈ U .
Proposição 7 (7). Dada uma função f : U ⊂ Rn → R, onde U é convexo, f é quasicon-
cava em U se e somente se, para cada a ∈ R, o conjunto Ua := {x ∈ U : f (x) ≥ a} é
convexo.
Demonstração. Se f é quasiconcava em U e a ∈ R, então Ua é convexo: dados x1 , x2 ∈ Ua ,
para cada λ ∈ (0, 1) tem-se f (λx1 + (1 − λ)x2 ) ≥ min{f (x1 ), f (x2 )} ≥ a. Reciprocamente,
se todo Ua é convexo, dados x1 , x2 ∈ U e λ ∈ (0, 1), λx1 + (1 − λ)x2 ∈ Umin{f (x1 ),f (x2 )} ,
logo f (λx1 + (1 − λ)x2 ) ≥ min{f (x1 ), f (x2 )}.
Chamaremos f estritamente quasiconcava se, dados x1 ̸= x2 em U , tem-se f (λx1 +
(1 − λ)x2 ) > min{f (x1 ), f (x2 )}, ∀λ ∈ (0, 1). Diremos que f é fortemente quasiconcava se,
para cada par x1 ̸= x2 ∈ U , f (λx1 + (1 − λ)x2 ) > min{f (x1 ), f (x2 )} para todo λ ∈ (0, 1)
(no texto, a distinção é salientada).
Exercícios
(1) Prove que o conjunto {(x, y) ∈ R2 : x > y} é aberto em R2 .
(2) Por definição, uma sequência {xn }n∈N ⊂ U ⊂ Rn é convergente em U se existe
x ∈ U tal que, para todo ε > 0, existe Nε ∈ N com ∥xn − x∥ < ε, ∀n ≥ Nε . Mostre
que um conjunto B ⊂ U é fechado em U se, e somente se, toda sequência de B
convergente em U tem seu limite em B.
(3) Dado U ⊂ Rn , se uma função g : U → R é contínua em U , então o conjunto
{x ∈ U : g(x) ≥ 0} é fechado em U . Mostre que a recíproca não é verdadeira.
(4) Uma função f : U ⊂ Rn → Rm é uniformemente contínua em U se, para todo ε > 0,
existe δ > 0 tal que ∥x − y∥ < δ implica ∥f (x) − f (y)∥ < ε. Se U é compacto, toda
f : U → Rm contínua é uniformemente contínua.
6
(5) Toda função f : Rn → R da forma f (x) = a · x + b, onde a ∈ Rn e b ∈ R, é
quasiconcava.
(6) Uma função monótona (crescente ou decrescente) f : R → R é sempre quasiconcava.
Toda função côncava é quasiconcava.
(7) Dada f : U ⊂ Rn → R, com U convexo, f é quasiconcava em U se e somente se,
para cada a ∈ R, o conjunto {x ∈ U : f (x) ≥ a} é convexo.
(8) Dados α, β > 0, a função f (x, y) = xα y β é estritamente quasiconcava.
(9) Dado a ∈ Rn , a função f (x) = −∥x − a∥ é estritamente quasiconcava.
(10) Suponha que toda subsequência de {xn }n∈N ⊂ Rn tenha uma subsequência conver-
gente a x ∈ Rn . Mostre que {xn } converge a x.
(11) Seja B = {x ∈ R : x é irracional}. B é um conjunto fechado?
(12) Formalize e demonstre: O conjunto das matrizes invertíveis é aberto.
(13) Sejam A e B subconjuntos de R. Se A é aberto, podemos afirmar que AB := {ab ∈
R : a ∈ A, b ∈ B} também é aberto?
(14) Mostre que A ⊂ Rn é aberto se, e somente se, A é união de bolas abertas.
(15) Mostre que B ⊂ Rn é fechado se, e somente se, B é interseção enumerável de
conjuntos abertos.
(16) Mostre que K ⊂ Rn é compacto se, e somente se, toda sequência em K possui uma
subsequência convergente.
(17) Seja K um subconjunto compacto e não vazio de Rn . Seja {An }n∈N uma sequência
de subconjuntos fechados e não vazios de K tal que, para cada n ∈ N, An+1 ⊂ An .
Mostre que n∈N An ̸= ∅.
T
(18) Dados dois conjuntos compactos, convexos e não vazios C ⊆ K ⊂ Rn , considere
f : K → R definida por f (x) = miny∈C ∥x − y∥. Mostre que f é contínua. Além
disso, prove que G : K → C dada por G(x) = {y ∈ C : f (x) = ∥x − y∥} está bem
definida e é contínua.