A RELEVÂNCIA DA CONTABILIDADE NA PREVISÃO DA INSOLVÊNCIA NAS ORGANIZAÇÕES.
DISSERTAÇÃO DE MESTRADO EM
GESTÃO DE EMPRESAS
A RELEVÂNCIA DA CONTABILIDADE NA
PREVISÃO DA INSOLVÊNCIA NAS
ORGANIZAÇÕES
Sandra Cristina Alves Pereira
Santa Maria da Feira, janeiro, 2025
DISSERTAÇÃO DE MESTRADO EM
GESTÃO DE EMPRESAS
A RELEVÂNCIA DA CONTABILIDADE NA
PREVISÃO DA INSOLVÊNCIA NAS
ORGANIZAÇÕES
Sandra Cristina Alves Pereira
Trabalho realizado sob a orientação de:
Professora Doutora Antonieta Lima
Santa Maria da Feira, janeiro, 2025
“Sucesso é a combinação de fracasso, erros, começos errados, confusão, e
da determinação de continuar tentanto mesmo assim. “
Nick Gleason
Dedicatória
A ti, Bruno,
Gostaria de dedicar estas palavras a ti, com todo o carinho e gratidão. Não
tenho palavras suficientes para expressar o quanto a tua paciência, apoio
incondicional e demonstração de carinho foram fundamentais ao longo deste caminho.
Cada momento de dúvida ou desânimo que surgia, tu estavas lá, sempre a lembrar-
me da força que eu nem sempre conseguia ver.
A tua presença, calma e compreensão, mesmo nas horas mais difíceis, fizeram
toda a diferença. Foi graças a ti que consegui persistir quando parecia que tudo estava
perdido, que não teria forças para continuar. A tua fé em mim foi o impulso que me
faltava para acreditar que eu conseguiria terminar a minha dissertação de mestrado.
Obrigado, de coração, por nunca me teres deixado desistir. Por seres o meu
apoio, meu amigo, meu confidente. Esta conquista também é tua, porque sem a tua
presença ao meu lado, provavelmente não teria chegado até aqui.
Ao meu fiel amigo Marega, o meu cão, obrigado por me dar companhia em
todas as horas de trabalho e por ser o meu consolo nos momentos mais difíceis. A tua
presença foi um alicerce silencioso, mas constante, e o teu carinho sempre me trouxe
conforto. Nada como uma pausa para um passeio contigo para renovar as energias e
voltar ao trabalho com renovada motivação.
Com toda a minha gratidão e afeto,
Sandra Pereira
I
Agradecimentos
Ao concluir esta dissertação de mestrado, há uma enorme gratidão que
preenche o meu coração, e sei que não teria chegado até aqui sem o apoio, a
paciência e o carinho de pessoas que são essenciais na minha vida.
Gostaria de começar agradecendo aos meus pais, que sempre foram a minha
base, inspiração e força. Agradeço por me ensinarem o valor do trabalho árduo e por
estarem ao meu lado, especialmente nos momentos difíceis. O vosso amor e apoio
incondicional foram essenciais para que eu acreditasse em mim e seguisse em frente.
Esta conquista também é vossa, pois sem o vosso exemplo e incentivo, nada disso
teria sido possível.
Aos pais do Bruno, sou profundamente grata pelo acolhimento, carinho e apoio
que sempre me deram. Foram mais que uma família, foram pilares de confiança e
tranquilidade. A vossa generosidade e palavras de encorajamento ajudaram-me a
manter o foco, especialmente nos momentos difíceis. O vosso apoio foi uma das
grandes fontes de força para a realização deste trabalho.
Aos meus verdadeiros amigos, agradeço profundamente por estarem ao meu
lado em todos os momentos, seja na alegria ou na dificuldade. Cada conversa, sorriso
e gesto de compreensão fez toda a diferença. Vocês deram a força para enfrentar os
desafios e lembrarem de equilibrar a vida além do trabalho.
À Professora Antonieta Lima, minha orientadora, sou imensamente grata pelo
apoio, dedicação e orientação ao longo deste percurso. A sua disponibilidade,
sabedoria e compromisso foram essenciais para a realização desta dissertação.
Agradeço pelos desafios que me propôs e pela confiança em mim, incentivando-me a
dar o meu melhor. O seu acompanhamento e orientações fizeram toda a diferença no
desenvolvimento do meu trabalho. Esta conquista é, sem dúvida, fruto da sua
generosidade e empenho.
Por último e não menos importante, à Dra. Tânia Silva, que pertencia ao
departamento SOSP, agradeço profundamente pelas palavras de apoio e
compreensão quando lhe dizia que precisaria adiar a dissertação. O seu incentivo foi
fundamental para me dar confiança e ajudar a acreditar que conseguiria concluir este
trabalho, mesmo nos momentos de incerteza.
II
Resumo
O presente estudo evidencia a importância da contabilidade como instrumento
fundamental de apoio à gestão empresarial, destacando o seu contributo para o
processo de tomada de decisão estratégica. Tradicionalmente associada ao
cumprimento de obrigações fiscais, a contabilidade é hoje reconhecida como uma
ferramenta essencial de planeamento, controlo e monitorização, especialmente num
ambiente empresarial marcado por elevada competitividade e constante mutação.
Neste contexto, o trabalho centra-se na relevância da contabilidade na previsão
de situações de insolvência, considerando os impactos significativos que a falência de
empresas pode ter a nível económico e social. O objetivo principal da investigação
consiste em validar de que forma, através da leitura e interpretação das
demonstrações financeiras e da utilização de indicadores económicos e financeiros, é
possível antecipar cenários de insolvência, promovendo uma gestão preventiva e
sustentável.
Para tal, recorreu-se a uma metodologia de natureza quantitativa, utilizando-se
um inquérito por questionário como principal técnica de recolha de dados. A análise
estatística dos resultados obtidos permitiu fundamentar conclusões consistentes
sobre o papel da contabilidade na deteção precoce de sinais de desequilíbrio
financeiro, contribuindo para a implementação de medidas corretivas que favoreçam
a continuidade das operações.
Em suma, a contabilidade assume um papel decisivo na prevenção da
insolvência empresarial, facultando aos stakeholders uma visão clara e atualizada da
saúde financeira da organização, o que possibilita a antecipação de riscos e a tomada
de decisões informadas que garantam a sustentabilidade a longo prazo.
Palavras-chave: Insolvência empresarial; Contabilidade; Demonstrações
financeiras; Análise financeira.
III
Abstract
This study highlights the importance of accounting as a fundamental tool to
support business management, highlighting its contribution to the strategic decision-
making process. Traditionally associated with compliance with tax obligations,
accounting is now recognized as an essential tool for planning, control and monitoring,
especially in a business environment marked by high competitiveness and constant
change.
In this context, the work focuses on the relevance of accounting in predicting
insolvency situations, considering the significant impacts that corporate bankruptcy
can have at an economic and social level. The main objective of the research is to
validate how, through the reading and interpretation of financial statements and the
use of economic and financial indicators, it is possible to anticipate insolvency
scenarios, promoting preventive and sustainable management.
To this end, a quantitative methodology was used, using a questionnaire survey
as the main data collection technique. The statistical analysis of the results obtained
allowed consistent conclusions to be drawn about the role of accounting in the early
detection of signs of financial imbalance, contributing to the implementation of
corrective measures that favor the continuity of operations.
In short, accounting plays a decisive role in preventing corporate insolvency,
providing stakeholders with a clear and up-to-date view of the organization's financial
health, which enables the anticipation of risks and the making of informed decisions
that guarantee long-term sustainability.
Keywords: Corporate insolvency; Accounting; Financial statements; Financial
analysis.
IV
Índice
1 INTRODUÇÃO 1
2 REVISÃO DE LITERATURA 2
2.1 A INSOLVÊNCIA 3
2.1.1 Tipos de Insolvência Empresarial 4
[Link] Insolvência do Fluxo de Caixa (Cash Flow Insolvency): 4
[Link] Insolvência do Balanço Patrimonial (Balance Sheet Insolvency): 4
[Link] Causas da insolvência empresarial 5
2.1.2 Consequências da insolvência empresarial 6
2.1.3 Sinais de alerta de insolvência 7
2.1.4 Medidas proativas para a gestão com empresas em risco de insolvência: 8
2.1.5 O papel do Administrador de Insolvência 10
2.1.6 O Administrador de Insolvência na Massa Insolvente 12
2.1.7 Conclusão do capítulo 14
2.2 REVISÃO LITERATURA II – A CONTABILIDADE 19
2.2.1 A Contabilidade 20
2.2.2 Qual o papel da Contabilidade de uma empresa 23
2.2.3 As funções da Contabilidade numa organização 23
[Link] Registar 24
[Link] Organizar 24
[Link] Demonstrar 25
[Link] Analisar 25
[Link] Acompanhamento da Contabilidade 26
2.2.4 A Contabilidade Externa e interna 26
[Link] Contabilidade Externa 26
[Link] Contabilidade Interna 27
2.2.5 A contabilidade na era digital 30
2.2.6 Conclusão do capítulo 32
2.3 SISTEMA DE NORMALIZAÇÃO CONTABILÍSTICA 34
2.3.1 Sistema de Normalização Contabilística 35
[Link] Estrutura Normativa Contabilística: 37
[Link] O Código de Contas 40
2.3.2 Prestação de Contas 41
[Link] Demonstrações financeiras 42
[Link] Demonstração financeira – O Balanço 44
[Link] Demonstração Financeira – Demonstração de Resultados 46
[Link].1 Demonstração de Resultados por Naturezas 47
[Link].2 Demonstração de Resultados por funções 51
[Link] Demonstração Financeira – Demonstração Fluxos de Caixa 52
V
[Link] Demonstração Financeira – Demonstração de Alterações de Capital Próprio
54
[Link] O Anexo às demonstrações financeiras 55
2.3.3 Relatório de Gestão 57
2.3.4 Ata de aprovação de contas 58
2.3.5 Conclusão do capítulo 61
2.4 REVISÃO DE LITERATURA III – ANÁLISE ECONÓMICO-FINANCEIRA 63
2.4.1 Análise Financeira 64
2.4.2 Gestão Financeira – Aplicabilidade da Análise Financeira 67
[Link] Equilíbrio Financeiro 68
[Link] Equilíbrio Financeiro a Curto Prazo 69
[Link] Equilíbrio Financeiro a Médio e Longo Prazo 71
2.4.3 Rendibilidade da Empresa 74
2.4.4 Risco Empresarial 77
[Link] Risco Económico 80
[Link] Risco Financeiro 82
2.4.5 Conclusão do capítulo 83
3 TRABALHO EMPÍRICO 84
3.1 OBJETIVOS E QUESTÕES DE INVESTIGAÇÃO 85
3.2 METODOLOGIA 87
3.3 DEFINIÇÃO DA AMOSTRA 89
3.4 CARACTERIZAÇÃO DA AMOSTRA 90
3.5 ANÁLISE DOS RESULTADOS DAS QUESTÕES DE INVESTIGAÇÃO 99
3.5.1 QI1 - Qual a importância dada a este tema, em particular ao das variáveis que
justificam a insolvência nas organizações ao longo dos anos? 99
[Link] Na sua opinião, qual o papel da contabilidade a nível empresarial e social?99
[Link] Baseado na sua experiência, a Contabilidade é: 102
3.5.2 QI2 - Como prever a insolvência das organizações através da contabilidade?
106
[Link] A contabilidade pode prever a insolvência nas organizações? 106
[Link] A prestação de contas 112
3.5.3 QI3 - Qual a importância da contabilidade nas organizações, e o seu impacto na
gestão? 116
[Link] Uma vez que a contabilidade é direcionada para os negócios, acha que a
contabilidade e o modelo de negócio devem estar em sintonia? 116
[Link] A contabilidade e a digitalização 120
3.5.4 Definição de contabilidade em 3 palavras: 125
3.6 PRINCIPAIS CONCLUSÕES DO TRABALHO EMPÍRICO 127
4 CONCLUSÕES, LIMITAÇÕES E FUTURA LINHAS DE INVESTIGAÇÃO 130
VI
5 BIBLIOGRAFIA 133
ANEXOS 136
VII
Índice de tabelas
Tabela 1 - Normativos contabilísticos adotados em Portugal 37
Tabela 2 – Normativo contabilístico nacional (SNC) 40
Tabela 3 – Estrutura resumida da Demonstração Financeira – Balanço 45
Tabela 4 – Base de apresentação das demonstrações financeiras (BADF) 62
Tabela 5 – Indicadores de liquidez 70
Tabela 6 – Solvabilidade, Autonomia Financeira e Endividamento 73
Tabela 7 – Rendibilidade da empresa 76
Tabela 8 – Idade dos inquiridos 91
Tabela 9 – Habilitações literárias vs. Género 92
Tabela 10 – Zona geográfica vs. Género 93
Tabela 11 – Situação profissional vs. Género 95
Tabela 12 – Situação profissional vs. Zona geográfica 97
Tabela 13 – Papel da contabilidade por Zona geográfica 101
Tabela 14 – Análise da contabilidade 103
Tabela 15 – A importância da contabilidade no meio organizacional 105
Tabela 16 – Contabilidade vs. Previsão de Insolvência 106
Tabela 17 – Itens importantes na previsão de insolvência 108
Tabela 18 – Indicadores de análise de fatores financeiros e operacionais 111
Tabela 19 – Indicadores da prestação de contas 115
Tabela 20 – A importância da contabilidade no modelo de negócio 119
Tabela 21 – Vantagens da digitalização na contabilidade 123
Tabela 22 – Definição de contabilidade 126
VIII
Tabela 23 – Quadro resumo das questões de investigação vs. variáveis 129
Índice das Figuras
Figura 1 – Processo de Insolvência 16
Figura 2 – Demonstração financeira –
Demonstração dos Resultados por Naturezas 49
Índice de gráficos
Gráfico 1 – Género 90
Gráfico 2 – Perceção sobre o papel da contabilidade nas organizações e na sociedade
100
Gráfico 3 – Apresentação da prestação de contas 113
Gráfico 4 – A contabilidade e o modelo de negócio 117
Gráfico 5 – Importância da digitalização na contabilidade 121
IX
Lista de abreviaturas e siglas:
AF – Autonomia Financeira
AT – Autoridade Tributária
BADF – Base para apresentação de demonstrações financeiras
CIRE - Código da Insolvência e da Recuperação das Empresas
CMVMC – Custo das Mercadorias Vendidas e Matérias Consumidas
CP – Capital Próprio
CPEREF - Código dos Processos Especiais de Recuperação da Empresa e de
Falência
CodC – Código de Contas SNC
DCAP – Demonstração de Alterações de Capital Próprio
DRN - Demonstração dos Resultados por Naturezas
DRF – Demonstração dos Resultados por Funções
DFC – Demonstração de Fluxos de Caixa
EBITDA (Earnings before interest, taxes, depreciation and amortization) –
Lucros antes de juros, impostos, depreciação e amortização
EBIT - (Earnings before interest and taxes) – Lucros antes de juros e impostos
EBT (Earnings before taxes) – Lucro antes de impostos
GAF – Grau de Alavancagem Financeira
GAO – Grau de Alavancagem Operacional
OAF – Outros Ativos Financeiros
RAI – Resultado antes de Impostos
RLP – Resultado Líquido do Exercício
RO – Resultado Operacional
SRC - Sistema de Registo Contabilístico
X
A RELEVÂNCIA DA CONTABILIDADE NA PREVISÃO DA INSOLVÊNCIA NAS ORGANIZAÇÕES.
1 Introdução
A contabilidade ocupa uma posição fulcral no seio da gestão organizacional,
desempenhando um papel que transcende largamente a função meramente
administrativa e técnica de registo de operações económicas. Ao fornecer uma
representação estruturada, fiel e rigorosa da realidade financeira e operativa das
empresas, a contabilidade converte-se num instrumento indispensável de apoio à
decisão, planeamento estratégico e diagnóstico da sustentabilidade económico-
financeira das entidades.
Num ambiente empresarial cada vez mais volátil, incerto e competitivo,
caracterizado por rápidas transformações nos mercados, alterações legislativas e
pressões económicas externas, a capacidade de antecipar cenários de risco tornou-
se um imperativo para a sobrevivência e continuidade das organizações. Neste
panorama, a previsão de situações de insolvência destaca-se como um dos desafios
mais complexos enfrentados pelos gestores, analistas financeiros, investidores e
restantes stakeholders. A ocorrência de uma falência, para além do impacto direto
sobre os seus acionistas, gera consequências nefastas que se repercutem em
diversos domínios: perda de postos de trabalho, incumprimentos contratuais, e, em
última análise, o enfraquecimento do tecido empresarial e económico a nível regional
ou até nacional.
É precisamente neste ponto que a contabilidade revela todo o seu potencial
estratégico, ao proporcionar um sistema de informação robusto, fiável e dinâmico,
capaz de sinalizar precocemente indicadores de deterioração financeira. Através da
análise sistemática de variáveis como o endividamento, a liquidez, a rentabilidade, o
cash flow operacional e outros rácios económico-financeiros, a contabilidade permite
identificar tendências, anomalias e sinais de alerta que podem indiciar dificuldades
iminentes. A leitura atenta e crítica destes dados, complementada por uma
interpretação contextualizada da realidade da empresa, pode ser determinante para a
definição atempada de medidas corretivas e estratégias de reestruturação, mitigando,
assim, o risco de colapso financeiro.
O presente trabalho tem como finalidade explorar de forma aprofundada a
importância da contabilidade enquanto ferramenta preditiva na identificação de riscos
de insolvência em contexto empresarial. Pretende-se demonstrar como a informação
1
A RELEVÂNCIA DA CONTABILIDADE NA PREVISÃO DA INSOLVÊNCIA NAS ORGANIZAÇÕES.
contabilística, quando devidamente tratada, validada e interpretada, pode contribuir
para a construção de modelos de previsão mais eficazes, permitindo antecipar
fragilidades e promover práticas de gestão mais prudentes, responsáveis e
sustentáveis.
Neste sentido, compreende-se que o conhecimento aprofundado da
interligação entre a contabilidade e os fenómenos de insolvência não é apenas
relevante para os gestores e técnicos da área financeira, mas também para todos
aqueles que, direta ou indiretamente, dependem da viabilidade e estabilidade das
organizações, incluindo entidades supervisoras (entidades bancárias, Banco de
Portugal), investidores, parceiros comerciais e agentes do setor público. A utilização
da contabilidade como instrumento de diagnóstico precoce pode, por conseguinte,
desempenhar um papel determinante na promoção de uma cultura empresarial
assente na prevenção, na resiliência e na criação de valor a longo prazo.
A dissertação encontra-se estruturada em três grandes secções. A primeira
parte corresponde ao enquadramento teórico, sob o título "O Estado da Arte", e
contempla três domínios fundamentais: a insolvência nas organizações, os
fundamentos da contabilidade e os principais instrumentos de análise económico-
financeira. Esta secção tem como objetivo consolidar os principais conceitos e teorias
que alicerçam a investigação. A segunda parte foca-se na componente empírica, onde
se descrevem as características da amostra, os objetivos específicos do estudo, as
questões de investigação formuladas, bem como os métodos adotados para o
tratamento e análise dos dados recolhidos. Por fim, na terceira parte, apresenta-se
uma análise crítica dos resultados obtidos, seguida das conclusões finais, nas quais
se discutem as implicações do estudo, se identificam as limitações da investigação
desenvolvida e se apontam possíveis direções para estudos futuros.
2
A RELEVÂNCIA DA CONTABILIDADE NA PREVISÃO DA INSOLVÊNCIA NAS ORGANIZAÇÕES.
2 Revisão de Literatura
2
A RELEVÂNCIA DA CONTABILIDADE NA PREVISÃO DA INSOLVÊNCIA NAS ORGANIZAÇÕES.
2.1 A Insolvência
A insolvência empresarial representa um fenómeno de elevada gravidade,
cujos impactos se estendem para além da própria entidade insolvente, afetando
igualmente diversas partes interessadas, tais como credores, trabalhadores e, em
última instância, a economia no seu todo. Esta situação ocorre quando uma empresa
se revela incapaz de satisfazer as suas obrigações financeiras à medida que estas se
vencem ou quando o valor dos seus passivos (dívidas e responsabilidades
financeiras) excede o valor dos seus ativos (bens e recursos disponíveis).
De forma geral, a insolvência empresarial traduz-se na ausência de capacidade
financeira por parte da empresa para cumprir os compromissos assumidos com
credores, fornecedores, trabalhadores e demais stakeholders. Em Portugal, o regime
jurídico aplicável encontra-se consagrado no Código da Insolvência e da Recuperação
de Empresas (CIRE), aprovado pelo Decreto-Lei n.º 53/2004, de 18 de março, que
veio revogar o anterior Código dos Processos Especiais de Recuperação da Empresa
e de Falência (CPEREF).
Nos termos do n.º 1 do artigo 1.º do CIRE, o processo de insolvência configura-
se como “um processo de execução universal que tem como finalidade a satisfação
dos credores pela forma prevista num plano de insolvência, baseado, nomeadamente,
na recuperação da empresa compreendida na massa insolvente, ou, quando tal não
se afigure possível, na liquidação do património do devedor insolvente e a repartição
do produto obtido pelos credores” (Coelho, 2013).
Importa destacar que, embora o processo de insolvência possa revelar-se
moroso, o artigo 9.º do CIRE estabelece que este deve revestir carácter urgente,
sendo a celeridade um dos objetivos fundamentais do legislador. Tal decorre da
constatação de que um dos principais fatores de insucesso na recuperação de
empresas reside no atraso com que se inicia o respetivo processo (nrs. 12 e 13 do
Decreto-Lei n.º 53/2004).
Neste contexto, é essencial distinguir os conceitos de insolvência e falência.
Conforme referido no n.º 7 do Decreto-Lei n.º 53/2004, “a insolvência não se confunde
com a falência, tal como atualmente entendida, dado que a impossibilidade de cumprir
obrigações vencidas, em que a primeira noção fundamentalmente consiste, não
3
A RELEVÂNCIA DA CONTABILIDADE NA PREVISÃO DA INSOLVÊNCIA NAS ORGANIZAÇÕES.
implica a inviabilidade económica da empresa ou a irrecuperabilidade financeira
postuladas pela segunda” (Coelho, 2013). Assim, enquanto a falência pressupõe a
inviabilidade estrutural e económica da empresa, a insolvência refere-se,
essencialmente, à incapacidade de cumprir pontualmente as obrigações vencidas.
A definição legal atualmente em vigor sobre a insolvência encontra-se prevista
no n.º 1 do artigo 3.º do CIRE, segundo o qual “é considerado em situação de
insolvência o devedor que se encontre impossibilitado de cumprir as suas obrigações
vencidas” (Alves, 2018). Esta formulação adota uma abordagem baseada na iliquidez,
isto é, na ausência de liquidez imediata para fazer face às dívidas, e não no
desequilíbrio entre o ativo e o passivo, como acontecia anteriormente. Com efeito, o
artigo 3.º, n.º 1, do revogado CPEREF, dispunha que a empresa seria considerada
insolvente quando estivesse “impossibilitada de cumprir pontualmente as suas
obrigações em virtude de o seu ativo disponível ser insuficiente para satisfazer o seu
passivo exigível”.
2.1.1 Tipos de Insolvência Empresarial
[Link] Insolvência do Fluxo de Caixa (Cash Flow Insolvency):
A insolvência por falta de liquidez ocorre quando a empresa se encontra
impossibilitada de cumprir as suas obrigações de curto prazo, devido à inexistência
de liquidez imediata ou de ativos facilmente mobilizáveis. Nesta situação, embora o
valor global dos ativos da empresa possa superar o montante do passivo, a
organização revela-se incapaz de efetuar pagamentos correntes, tais como salários,
impostos ou dívidas a fornecedores. Assim, o problema reside não na insuficiência do
património, mas na indisponibilidade de meios financeiros imediatos para fazer face
aos compromissos assumidos.
[Link] Insolvência do Balanço Patrimonial (Balance Sheet Insolvency):
A insolvência com base no balanço patrimonial verifica-se quando o valor total
dos passivos de uma empresa excede o montante global dos seus ativos. Esta
situação revela um desequilíbrio estrutural na posição financeira da entidade,
evidenciando que, mesmo que todos os ativos fossem alienados, o produto obtido não
seria suficiente para satisfazer integralmente as dívidas existentes. Trata-se, assim,
de uma situação de insolvência substancial, em que a empresa se encontra
4
A RELEVÂNCIA DA CONTABILIDADE NA PREVISÃO DA INSOLVÊNCIA NAS ORGANIZAÇÕES.
tecnicamente insolvente do ponto de vista contabilístico, refletindo uma perda
significativa de capacidade financeira e de solvência patrimonial.
[Link] Causas da insolvência empresarial
A insolvência empresarial caracteriza-se pela incapacidade de uma empresa
cumprir as suas obrigações financeiras, nomeadamente o pagamento de dívidas e
compromissos de curto prazo. Esta situação pode resultar de um conjunto
diversificado de fatores, frequentemente interligados, que comprometem a
estabilidade financeira da organização. Entre as principais causas identificadas na
literatura especializada, destacam-se as seguintes:
• Má gestão financeira: A adoção de decisões financeiras inadequadas, a
ausência de um planeamento estratégico eficaz e a fraca capacidade de
controlo dos custos constituem fatores críticos que comprometem a saúde
financeira da empresa.
• Redução nas vendas: A diminuição significativa das receitas pode decorrer de
alterações nas dinâmicas do mercado, perda de clientes estratégicos ou
aumento da concorrência, colocando pressão sobre a sustentabilidade do
negócio.
• Excesso de endividamento: Um nível de endividamento elevado, quando
desproporcional face aos fluxos de caixa operacionais da empresa, pode
tornar-se insustentável, agravando o risco de incumprimento financeiro.
• Problemas operacionais: Ineficiências nos processos produtivos, dificuldades
na gestão da cadeia de abastecimento ou falhas tecnológicas podem
comprometer o desempenho da empresa e agravar a sua situação financeira.
• Condições económicas adversas: Fatores externos, como recessões
económicas, instabilidade nos mercados ou alterações abruptas no
enquadramento económico, podem influenciar negativamente a atividade
empresarial, conduzindo à perda de capacidade financeira (Cardoso, 2018).
5
A RELEVÂNCIA DA CONTABILIDADE NA PREVISÃO DA INSOLVÊNCIA NAS ORGANIZAÇÕES.
2.1.2 Consequências da insolvência empresarial
A insolvência empresarial acarreta um conjunto de consequências
significativas, não apenas para a empresa em situação de incumprimento, mas
também para os seus diversos stakeholders e para a economia em geral. Os efeitos
deste fenómeno podem manifestar-se de forma profunda e duradoura,
comprometendo não só a continuidade da atividade empresarial, mas também a
confiança no tecido económico envolvente. Entre as principais repercussões,
salientam-se:
Perda de credibilidade e confiança no mercado: A declaração de insolvência
afeta negativamente a reputação da empresa, dificultando o acesso a financiamento
futuro e comprometendo relações de confiança com investidores, clientes,
fornecedores e instituições financeiras. Esta quebra de credibilidade pode ter efeitos
duradouros, mesmo no caso de uma eventual recuperação.
Impacto direto sobre os stakeholders: Os efeitos da insolvência estendem-
se inevitavelmente a terceiros com interesses na empresa. Os trabalhadores
enfrentam, frequentemente, o risco de despedimento e perda de rendimentos; os
fornecedores podem ver-se privados de pagamentos ou de relações comerciais
futuras; e os credores enfrentam perdas financeiras, resultantes da eventual
impossibilidade de recuperação total dos montantes em dívida.
Início de um processo de recuperação judicial: Em determinadas
circunstâncias, a empresa insolvente pode recorrer a mecanismos legais que visam a
sua reestruturação, procurando reorganizar os seus passivos e restaurar a viabilidade
económica. Este processo, regulamentado no âmbito do Código da Insolvência e da
Recuperação de Empresas (CIRE), envolve negociações com os credores e a
elaboração de um plano de recuperação que poderá permitir a continuação da
atividade.
Declaração de falência e liquidação: Quando a reestruturação se revela
inviável, a empresa poderá ser sujeita a um processo de falência, que culmina na
liquidação do seu património. Os ativos são vendidos com o objetivo de satisfazer, na
medida do possível, os créditos reconhecidos, e a empresa cessa definitivamente a
sua atividade.
6
A RELEVÂNCIA DA CONTABILIDADE NA PREVISÃO DA INSOLVÊNCIA NAS ORGANIZAÇÕES.
Perda de ativos e do controlo da gestão: A insolvência pode implicar a
alienação forçada de ativos estratégicos, bem como a perda de autonomia por parte
dos órgãos de gestão da empresa, que passam a atuar sob a supervisão de
administradores judiciais e outras entidades designadas no âmbito do processo de
insolvência.
Encerramento definitivo da atividade empresarial: Nos casos mais graves,
e na ausência de uma solução de recuperação viável, a empresa é forçada a encerrar
as suas operações, originando não só a dissolução da entidade jurídica, mas também
impactos negativos no tecido económico local, nomeadamente através da destruição
de postos de trabalho e da quebra de dinamismo empresarial.
2.1.3 Sinais de alerta de insolvência
A identificação precoce dos sinais de alerta de insolvência é essencial para
prevenir a deterioração financeira de uma empresa e permitir a adoção de medidas
corretivas antes que a situação se torne irreversível. Estes sinais consistem em
indicadores práticos que revelam fragilidades na estrutura financeira da organização,
podendo indiciar um risco iminente de incumprimento das obrigações assumidas. A
capacidade de reconhecer atempadamente estes indícios pode fazer a diferença entre
a recuperação e o colapso da atividade empresarial.
Entre os principais sinais de alerta, destacam-se os seguintes:
• Atrasos sistemáticos nos pagamentos: A incapacidade da empresa para
cumprir atempadamente com os seus compromissos financeiros correntes,
nomeadamente o pagamento de salários, impostos, fornecedores e outras
despesas operacionais, é um dos primeiros indícios de insuficiência de liquidez
e de desequilíbrio na tesouraria.
• Solicitações frequentes de prorrogação de prazos de pagamento: A
necessidade constante de renegociar os prazos com credores e fornecedores
reflete dificuldades de tesouraria e revela a dependência da empresa em
relação à flexibilidade externa para manter a continuidade das operações.
• Dificuldade no acesso a financiamento: A crescente resistência por parte de
instituições financeiras em conceder novos créditos ou renovar linhas de
financiamento constitui um sinal de que a empresa está a ser percecionada
7
A RELEVÂNCIA DA CONTABILIDADE NA PREVISÃO DA INSOLVÊNCIA NAS ORGANIZAÇÕES.
como um risco acrescido, o que limita a sua capacidade de resposta a curto
prazo e restringe o seu potencial de investimento.
• Declínio acentuado da lucratividade: Quedas sucessivas nos lucros ou a
acumulação de prejuízos operacionais indicam uma degradação da
rentabilidade da empresa, comprometendo a sua capacidade de gerar
resultados sustentáveis e de cumprir as suas responsabilidades financeiras.
• Redução do volume de caixa e de ativos líquidos: A diminuição significativa
da disponibilidade de meios líquidos, bem como a dificuldade em converter
ativos em numerário de forma célere, revela fragilidade na estrutura financeira
da empresa e reduz a sua margem de manobra para fazer face a imprevistos.
A monitorização constante destes sinais é, portanto, fundamental para a gestão
de risco financeiro e para a definição de estratégias preventivas eficazes (Cardoso,
2018).
2.1.4 Medidas proativas para a gestão com empresas em risco de
insolvência:
A adoção de medidas proactivas na gestão de empresas em situação de risco
de insolvência assume um papel crucial na prevenção do colapso financeiro e na
preservação da viabilidade do negócio. Estas medidas têm como objetivo estabilizar
a situação económica da empresa numa fase ainda reversível, permitindo a sua
recuperação e protegendo os interesses de acionistas, credores, trabalhadores e
demais stakeholders. A intervenção atempada pode evitar a deterioração irreversível
da estrutura financeira, criando condições para a retoma da sustentabilidade
operacional.
Entre as principais estratégias preventivas, destacam-se:
• Reestruturação financeira: Envolve a revisão da estrutura de capital
da empresa e a reorganização das suas operações financeiras, podendo
incluir a substituição de dívidas onerosas, a recapitalização ou a
reformulação dos processos de financiamento, com vista à melhoria do
equilíbrio financeiro e da rentabilidade.
• Redução de custos e aumento da eficiência: A implementação de
medidas de contenção de despesas operacionais e a otimização de
8
A RELEVÂNCIA DA CONTABILIDADE NA PREVISÃO DA INSOLVÊNCIA NAS ORGANIZAÇÕES.
processos internos são fundamentais para libertar recursos, melhorar as
margens de lucro e reforçar a competitividade empresarial.
• Renegociação de dívidas: A reavaliação das condições de pagamento
com os credores, através da negociação de prazos mais alargados ou
da reformulação de taxas de juro e garantias, pode contribuir
significativamente para a melhoria da posição de tesouraria e para o
alívio do serviço da dívida.
• Gestão rigorosa do fluxo de caixa: A monitorização cuidada das
entradas e saídas de capital permite assegurar o cumprimento das
obrigações prioritárias e prevenir desequilíbrios financeiros. Esta gestão
deve ser orientada para a liquidez de curto prazo, dando prioridade às
dívidas essenciais e ajustando os gastos em conformidade com a
capacidade financeira efetiva da empresa.
• Alienação de ativos não essenciais: A identificação e venda de ativos
que não sejam críticos para a continuidade do negócio pode gerar
liquidez imediata, permitindo reduzir o nível de endividamento ou
reforçar o investimento em áreas estratégicas com maior retorno.
• Melhoria das práticas de gestão: A adoção de métodos de gestão mais
eficientes, baseados em dados e na monitorização de indicadores de
desempenho, contribui para decisões mais informadas e sustentáveis.
Uma gestão competente e estratégica é determinante para inverter
situações de fragilidade financeira e conduzir a empresa de volta à
estabilidade (Cardoso, 2018).
Para além das medidas preventivas internas, é importante destacar os deveres
legais do devedor em situação de insolvência. De acordo com o disposto no n.º 1 do
artigo 18.º do Código da Insolvência e da Recuperação de Empresas (CIRE), o
devedor tem o dever de requerer a declaração de insolvência no prazo de 30 dias a
contar da data em que teve conhecimento da situação de insolvência. A declaração
pode igualmente ser requerida por quem for legalmente responsável pelas dívidas do
devedor, por qualquer credor, independentemente da natureza ou condição do crédito,
e ainda pelo Ministério Público, em representação dos interesses públicos ou coletivos
legalmente confiados (n.º 1 do artigo 20.º do CIRE) (Coelho, 2013).
9
A RELEVÂNCIA DA CONTABILIDADE NA PREVISÃO DA INSOLVÊNCIA NAS ORGANIZAÇÕES.
A apresentação à insolvência deve ser feita através de petição escrita, na qual
são expostos os factos que sustentam os pressupostos legais da declaração
requerida, culminando com a formulação do respetivo pedido, nos termos do n.º 1 do
artigo 23.º do CIRE. Sendo este um processo judicial, a sua instrução deverá ser
obrigatoriamente conduzida por advogado ou solicitador habilitado, com apresentação
junto do tribunal competente (Rufino, 2019).
A declaração de insolvência é proferida por sentença judicial, da competência
do juiz, nos termos do n.º 1 do artigo 36.º do CIRE. Após essa decisão, é designado
um Administrador de Insolvência, cuja principal função consiste em gerir a massa
insolvente, adotando as medidas necessárias à sua recuperação ou liquidação,
conforme previsto no artigo 55.º e seguintes do CIRE.
2.1.5 O papel do Administrador de Insolvência
Para um enquadramento mais completo do processo de insolvência, é
fundamental compreender o papel do Administrador de Insolvência nas organizações.
Segundo Figueiredo (2019), a atuação desta figura reveste-se de especial relevância,
na medida em que visa assegurar uma gestão eficaz e equilibrada da massa
insolvente, protegendo os interesses dos credores, do devedor e, sempre que
aplicável, do interesse público.
Com efeito, nos termos do artigo 54.º do Código da Insolvência e da
Recuperação de Empresas (CIRE), com a prolação da sentença de declaração de
insolvência, é nomeado um Administrador de Insolvência, o qual, uma vez notificado
da sua designação, assume de imediato o exercício das suas funções. A partir desse
momento, cabe-lhe atuar em conformidade com as disposições legais e no estrito
cumprimento dos deveres que lhe estão atribuídos no âmbito do processo.
O trabalho do Administrador de Insolvência é, por natureza, multidisciplinar e
exige uma abordagem técnica e rigorosa. Este profissional tem como missão gerir,
coordenar e solucionar os diversos aspetos da situação de insolvência, atuando de
forma estruturada e eficiente. Entre as suas principais responsabilidades encontram-
se a identificação e avaliação dos ativos, a verificação e ordenação dos créditos, a
administração da massa insolvente, bem como a promoção de medidas que visem a
10
A RELEVÂNCIA DA CONTABILIDADE NA PREVISÃO DA INSOLVÊNCIA NAS ORGANIZAÇÕES.
recuperação da empresa ou, se tal não for viável, a liquidação ordenada do património
para satisfação dos credores.
A relevância do seu papel advém da necessidade de garantir um equilíbrio justo
entre os interesses envolvidos, assegurando a transparência do processo e a
maximização do valor recuperado. Assim, o Administrador de Insolvência constitui
uma figura central na condução do processo, representando um elo essencial entre o
tribunal, os credores e o devedor, e desempenhando uma função decisiva na busca
de uma solução justa e eficiente para a situação de crise empresarial.
As funções do Administrador de Insolvência encontram-se densamente
previstas no artigo 55.º do CIRE, o qual estabelece um conjunto alargado de
competências essenciais à boa condução do processo de insolvência. Estas
atribuições revestem-se de particular importância, uma vez que este agente judicial
assume a responsabilidade central pela administração da massa insolvente, com vista
à sua conservação, valorização e, sempre que possível, recuperação.
Nos termos legais, para além das demais tarefas que lhe possam ser cometidas
ao longo do processo, cabe ao Administrador de Insolvência, com a colaboração e
sob a fiscalização da comissão de credores (caso esta exista), garantir a boa gestão
dos recursos disponíveis. Entre os deveres que lhe são impostos, destacam-se:
• A preparação do pagamento das dívidas do devedor, com recurso às quantias
monetárias existentes na massa insolvente, nomeadamente aquelas que
resultem da alienação dos bens que a compõem, cuja promoção de venda é
da sua responsabilidade;
• A adoção de medidas destinadas à preservação dos direitos do insolvente e,
nos casos aplicáveis, à continuação da atividade empresarial, evitando, na
medida do possível, o agravamento da situação financeira da entidade
devedora.
O exercício das suas funções é, por regra, pessoal, embora o Administrador
possa, nos termos da lei, substabelecer por escrito a prática de atos concretos a outro
administrador de insolvência devidamente inscrito nas listas oficiais, sendo, contudo,
responsável pelos atos praticados por este (n.º 2 e n.º 7 do artigo 55.º do CIRE).
11
A RELEVÂNCIA DA CONTABILIDADE NA PREVISÃO DA INSOLVÊNCIA NAS ORGANIZAÇÕES.
Adicionalmente, o Administrador de Insolvência pode ser coadjuvado por
técnicos especializados ou outros auxiliares, remunerados ou não, incluindo o próprio
devedor, desde que tal intervenção seja previamente autorizada pela comissão de
credores ou, na sua ausência, pelo juiz (n.º 3).
No que respeita à gestão de recursos humanos, é-lhe permitido contratar
trabalhadores por tempo certo ou incerto, quando tal se revele necessário à liquidação
da massa insolvente ou à continuação da exploração da empresa. Esses contratos,
salvo estipulação em contrário, caducam com o encerramento definitivo do
estabelecimento ou com a sua transmissão (n.º 4).
O Administrador de Insolvência tem ainda o dever de informar, em tempo útil,
tanto o tribunal como a comissão de credores, relativamente à administração e à
liquidação da massa insolvente (n.º 5). Quando necessário, pode solicitar ao juiz a
emissão de ofícios dirigidos a entidades públicas ou instituições de crédito, no sentido
de obter informações relevantes para a identificação de bens que integrem a massa
insolvente ou para outros fins úteis ao processo (n.º 6).
Por fim, o legislador atribui ao Administrador de Insolvência poderes para,
mediante autorização da comissão de credores, desistir, confessar ou transigir em
qualquer processo judicial em que o insolvente, ou a massa insolvente, sejam parte
legítima (n.º 8).
Assim, o artigo 55.º do CIRE traça um quadro abrangente e exigente das
funções do Administrador de Insolvência, reconhecendo-lhe um papel estratégico e
operacional, que exige conhecimento técnico, capacidade de decisão e rigor na
condução de atos que poderão determinar o sucesso ou insucesso do processo de
recuperação ou liquidação da empresa insolvente.
2.1.6 O Administrador de Insolvência na Massa Insolvente
No âmbito do processo de insolvência, ao Administrador de Insolvência cabe,
de forma genérica, a administração dos bens que integram a massa insolvente, nos
termos do n.º 1 do artigo 81.º do Código da Insolvência e da Recuperação de
Empresas (CIRE). Para além dessa função primordial, compete-lhe também a
representação do devedor em todos os atos de natureza patrimonial, conforme
estipulado no n.º 4 do mesmo artigo, sendo estas funções exercidas com o objetivo
central de salvaguardar os interesses dos credores e maximizar a satisfação dos seus
12
A RELEVÂNCIA DA CONTABILIDADE NA PREVISÃO DA INSOLVÊNCIA NAS ORGANIZAÇÕES.
créditos, tal como decorre dos efeitos jurídicos associados à declaração de insolvência
(Santos, 2016).
No exercício dos seus poderes de administração, o Administrador de
Insolvência está legitimado a decidir sobre a execução ou a recusa de cumprimento
de contratos bilaterais pendentes, ou seja, negócios jurídicos ainda não integralmente
cumpridos por ambas as partes. Esta possibilidade encontra-se prevista nos artigos
102.º e seguintes do CIRE, permitindo ao administrador optar por dar seguimento ou
recusar a execução de tais contratos, sempre com base na avaliação do interesse da
massa insolvente.
Adicionalmente, o Administrador de Insolvência pode proceder ao
encerramento de estabelecimentos da empresa insolvente, no todo ou em parte,
mesmo antes da realização da assembleia de apreciação do relatório. No entanto, tal
decisão carece de autorização judicial, nos termos estabelecidos no artigo 157.º do
CIRE, sendo avaliada com base na viabilidade da continuidade da atividade e nos
potenciais prejuízos ou benefícios que tal encerramento poderá representar para os
credores.
Importa ainda referir que, em determinadas circunstâncias, a administração da
massa insolvente pode ser atribuída ao próprio devedor, quando este reúna
determinados requisitos legalmente exigidos. Tal hipótese encontra-se prevista nos
artigos 223.º e seguintes do CIRE, e a sua aplicação é determinada pelo juiz na
sentença declaratória de insolvência, de acordo com o disposto nos artigos 224.º, n.º
1, e 36.º, n.º 1, alínea e). Esta modalidade apenas é admissível quando se verifiquem
cumulativamente os pressupostos previstos no n.º 2 do artigo 224.º, nomeadamente:
o devedor tenha requerido tal forma de administração; apresente (ou se comprometa
a apresentar no prazo de 30 dias após a sentença de declaração de insolvência) um
plano de insolvência que preveja a continuação da exploração da empresa; não
existam motivos que possam gerar receios de atrasos processuais ou outras
desvantagens para os credores; e, no caso de a insolvência ter sido requerida por
terceiro, este dê o seu consentimento expresso à administração pelo devedor.
Nestes casos, o Administrador de Insolvência não perde a sua relevância no
processo, passando a desempenhar uma função de fiscalização e assistência à
administração exercida pelo devedor, conforme previsto no artigo 226.º do CIRE. Tal
13
A RELEVÂNCIA DA CONTABILIDADE NA PREVISÃO DA INSOLVÊNCIA NAS ORGANIZAÇÕES.
acompanhamento visa assegurar a legalidade e a regularidade da gestão praticada,
salvaguardando a integridade do processo e os direitos dos credores.
Por fim, no cumprimento das suas funções e para garantir uma administração
informada e eficaz da massa insolvente, compete ao Administrador reunir todos os
elementos informativos indispensáveis ao desempenho das suas tarefas. Para esse
efeito, e nos termos do n.º 6 do artigo 55.º do CIRE, pode requerer ao juiz que oficie
entidades públicas ou instituições de crédito, solicitando informações relevantes ou
úteis sobre a situação patrimonial do insolvente, nomeadamente a existência de bens,
valores ou direitos que devam ser integrados na massa insolvente.
2.1.7 Conclusão do capítulo
A insolvência empresarial ocorre quando uma empresa não consegue cumprir
suas obrigações financeiras quando estas se tornam necessárias. Quando a empresa
passa por dificuldades financeiras graves e prolongadas, ela fica incapaz de pagar
aos credores, fornecedores, funcionários, entre outras dívidas. A insolvência pode
resultar na falência formal, um processo legal que visa liquidar ou reorganizar um
negócio de forma ordenada.
A insolvência empresarial é um cenário complicado que requer uma gestão
minuciosa e frequentemente a ajuda de especialistas em direito e finanças. Pode ser
vital para a empresa e seus stakeholders entender os elementos legais e as opções
disponíveis, como a recuperação judicial. A superação da crise financeira depende de
transparência, comunicação eficaz com os credores e implementação de medidas de
reestruturação adequadas.
O trabalho de um administrador de insolvência baseia-se na necessidade de
administrar, comandar e resolver problemas de insolvência de maneira eficaz e
organizada, preservando os interesses dos credores, devedores e, quando
necessário, da sociedade. Segue algumas das funções principais do administrador de
insolvência:
1. Proteção dos Credores: Um dos principais objetivos do administrador de
insolvência é garantir que os credores sejam tratados com equidade e que
seus interesses sejam protegidos. Isso inclui identificar e executar os ativos
do devedor com o objetivo de maximizar o retorno aos credores.
14
A RELEVÂNCIA DA CONTABILIDADE NA PREVISÃO DA INSOLVÊNCIA NAS ORGANIZAÇÕES.
2. Reestruturação e Recuperação: Os administradores de insolvência
podem ser muito importantes na reestruturação e recuperação de empresas
que estão passando por dificuldades financeiras. O objetivo é manter a
viabilidade da empresa, mantendo-a operando enquanto tenta superar seus
problemas financeiros.
3. Liquidação: Se a recuperação não for possível, o administrador de
insolvência é responsável por liquidar ordenadamente os ativos do devedor.
Isso inclui a transferência de ativos e rendimentos entre os credores de
acordo com a prioridade legal.
4. Imparcialidade e Transparência: Para garantir que todos os envolvidos no
processo de insolvência recebam um tratamento justo, os administradores
de insolvência devem agir de maneira imparcial e transparente. Manter a
confiança no processo depende da transparência.
5. Redução de Impactos Económicos e Sociais: O papel do administrador
de insolvência é significativo na redução dos efeitos sociais e económicos.
O objetivo é reduzir a perda de empregos e a interrupção do mercado
mantendo a operação da empresa ou realizando uma liquidação ordenada.
6. Eficiência na Resolução de Insolvência: Os administradores de
insolvência garantem que os processos de insolvência sejam conduzidos
de forma eficaz, reduzindo o tempo e os custos. Para salvar a empresa e
maximizar o retorno aos credores, a sua eficiência é fundamental.
7. Monitoramento e Relatórios: A responsabilidade do administrador de
insolvência é informar regularmente ao tribunal e aos credores sobre a
situação financeira do devedor. Esses relatórios contêm informações sobre
a gestão de ativos, receitas e despesas do processo de insolvência e como
as estratégias de recuperação ou liquidação estão progredindo.
O objetivo do administrador de insolvência é equilibrar os interesses de todas
as partes envolvidas em um processo de insolvência para garantir que seja conduzido
de forma justa, eficaz e em conformidade com a lei mantendo o sistema económico
justo, estável e viável.
Esquematizando o processo de insolvência, pode ser apresentado da seguinte
forma:
15
A RELEVÂNCIA DA CONTABILIDADE NA PREVISÃO DA INSOLVÊNCIA NAS ORGANIZAÇÕES.
Figura 1 - Processo de insolvência
Fonte: Adaptado, Cardoso (2018)
16
A RELEVÂNCIA DA CONTABILIDADE NA PREVISÃO DA INSOLVÊNCIA NAS ORGANIZAÇÕES.
Esquema do Processo de Insolvência Empresarial
O processo de insolvência empresarial pode ser sintetizado em várias fases
distintas, conforme estabelecido no Código da Insolvência e da Recuperação de
Empresas (CIRE):
1. Verificação da Situação de Insolvência:
• Avaliação da incapacidade do devedor em cumprir pontualmente as
suas obrigações vencidas.
• Pode resultar da insolvência por iliquidez (cash flow) ou por insuficiência
patrimonial (balance sheet).
2. Requerimento da Insolvência
Pode ser apresentado:
• Pelo próprio devedor (obrigação legal no prazo de 30 dias após o
conhecimento da situação – art. 18.º do CIRE);
• Por qualquer credor, mesmo com crédito condicional;
• Pelo Ministério Público, nos casos previstos na lei (art. 20.º do CIRE).
3. Apresentação da Petição Inicial
• A petição é entregue no tribunal competente e deve ser subscrita por
advogado ou solicitador (art. 23.º do CIRE).
• Deve conter a exposição dos factos que fundamentam o pedido de
declaração de insolvência.
4. Sentença de Declaração de Insolvência
• Proferida pelo juiz, com base nos elementos constantes do processo
(art. 36.º do CIRE).
• Nomeação do Administrador de Insolvência (art. 53.º e ss. do CIRE).
• Determinação de efeitos legais, incluindo suspensão de acções
executivas e cessação de pagamentos.
5. Administração da Massa Insolvente
• Gestão do património do devedor pelo Administrador de Insolvência.
17
A RELEVÂNCIA DA CONTABILIDADE NA PREVISÃO DA INSOLVÊNCIA NAS ORGANIZAÇÕES.
• Possibilidade de:
1. Continuação da exploração da empresa;
2. Liquidação de ativos;
3. Elaboração do relatório do Administrador (art. 155.º do CIRE).
6. Assembleia de Credores
• Reunião de credores para apreciação do relatório e deliberação sobre o
futuro do processo (recuperação ou liquidação) (arts. 156.º a 160.º do
CIRE).
7. Elaboração e Aprovação do Plano de Insolvência (se aplicável)
• Pode ser apresentado pelo devedor, Administrador ou credores.
• Visa a recuperação da empresa ou liquidação ordenada (arts. 195.º a
217.º do CIRE).
• Sujeito à aprovação em assembleia de credores e homologação judicial.
8. Execução do Plano ou Liquidação do Património
Conforme a deliberação tomada:
• Execução das medidas de recuperação (reestruturação, pagamento
faseado, venda parcial de ativos);
• Ou liquidação integral da massa insolvente, com distribuição do produto
pelos credores segundo a ordem de prioridade legal.
9. Encerramento do Processo
• Após a realização integral do plano ou a liquidação da massa, o
processo é encerrado.
• A empresa pode ser dissolvida judicialmente, se for o caso (art. 230.º do
CIRE).
18
A RELEVÂNCIA DA CONTABILIDADE NA PREVISÃO DA INSOLVÊNCIA NAS ORGANIZAÇÕES.
2.2 Revisão literatura II – A Contabilidade
19
A RELEVÂNCIA DA CONTABILIDADE NA PREVISÃO DA INSOLVÊNCIA NAS ORGANIZAÇÕES.
2.2.1 A Contabilidade
A contabilidade tem vindo a ganhar cada vez mais relevância nas organizações
e, ao longo do tempo, tem evoluído em sintonia com a sociedade, assumindo um papel
essencial no apoio à tomada de decisões. É considerada uma ciência social, tendo
como objeto de estudo o património. Através dessa análise, a contabilidade tem como
função controlar, organizar, analisar e avaliar o património — composto por bens,
direitos e obrigações — de uma entidade, com o objetivo de fornecer informações
úteis a todos os que apoiam a sua gestão. (Antunes, 2019).
A contabilidade desempenha um papel fundamental nas empresas ao fornecer
informações precisas e organizadas sobre os gastos, receitas, lucros, ativos e
passivos. Ao englobar todos esses elementos cruciais para o funcionamento de uma
organização, a contabilidade torna-se essencial para apoiar os gestores na tomada
de decisões, no planeamento estratégico e na definição de investimentos. Estes
podem incluir a contratação de mão de obra qualificada ou outras iniciativas que
impulsionem o crescimento e o sucesso da empresa. (Rufino, 2019).
De acordo com Oliveira (2018), a falta de atenção e de uma gestão adequada
da contabilidade empresarial pode originar diversos problemas, que vão desde
incumprimentos fiscais até ao encerramento da atividade. Dada a sua relevância, é
fundamental que a informação contabilística seja constantemente fidedigna,
devidamente analisada, organizada e, sempre que necessário, corrigida em caso de
deteção de erros. Uma contabilidade bem estruturada tem a capacidade de antecipar
dificuldades, evitar prejuízos, facilitar o acesso a crédito, prevenir situações de
insolvência, entre outras vantagens significativas para a saúde financeira da empresa.
São diversos os documentos utilizados para uma análise correta da
contabilidade para empresas. Entre eles estão os relatórios financeiros e as
demonstrações financeiras, como o Balanço, a Demonstração dos Resultados, a
Demonstração de Alterações de Capital Próprio, o Anexo e a Demonstração de Fluxos
de Caixa, que fornecem as principais informações financeiras de uma empresa. De
acordo com a Norma Contabilística e de Relato Financeiro (NCRF) nº 1, inserida no
Sistema de Normalização Contabilística (SNC), estão previstas as demonstrações
financeiras obrigatórias, nomeadamente o Balanço, a Demonstração dos Resultados,
a Demonstração de Alterações no Capital Próprio e o Anexo. Já a NCRF nº 2
20
A RELEVÂNCIA DA CONTABILIDADE NA PREVISÃO DA INSOLVÊNCIA NAS ORGANIZAÇÕES.
especifica os critérios para a elaboração da Demonstração de Fluxos de Caixa,
reforçando a importância deste documento na análise da liquidez e dos fluxos de
tesouraria da empresa.
Sem dúvida, a contabilidade, pelo seu elevado grau de tecnicidade e exigência
normativa, requer formação especializada e conhecimento aprofundado das normas
e práticas contabilísticas em vigor. Esta realidade contribui, muitas vezes, para um
distanciamento por parte dos gestores empresariais, que, não se sentindo
devidamente preparados para interpretar a informação contabilística ou acompanhar
de perto os seus processos, tendem a subestimar o valor estratégico deste
departamento.
No entanto, esta postura revela-se contraproducente. A contabilidade é, de
facto, uma das ferramentas mais poderosas de suporte à gestão, oferecendo dados
rigorosos e sistematizados sobre o desempenho económico-financeiro da empresa. A
sua complexidade – intensificada pelas exigências do Sistema de Normalização
Contabilística (SNC), pelas obrigações fiscais e pela necessidade de conformidade
legal – não deve ser vista como um obstáculo, mas sim como uma razão adicional
para promover uma articulação eficaz entre a gestão e os profissionais de
contabilidade.
É fundamental que os gestores reconheçam a importância de integrar a
contabilidade nos processos de tomada de decisão, aproveitando a riqueza
informativa que esta proporciona, desde análises de rentabilidade, estrutura de
capitais, fluxo de caixa, até ao cumprimento rigoroso das obrigações legais. Um
acompanhamento próximo deste departamento não exige que os gestores dominem
todos os aspetos técnicos, mas sim que valorizem o seu papel e saibam interpretar,
com o devido apoio, a informação gerada. (Rosa, 2013).
Gerir e administrar uma empresa é, sem dúvida, um desafio constante,
marcado por situações complexas que vão desde a interpretação da legislação até à
sua correta aplicação no contexto empresarial. Perante estas dificuldades e
adversidades do dia a dia, a contabilidade destaca-se pelas suas inúmeras vantagens,
assumindo um papel essencial. Todas as empresas, independentemente da sua
dimensão ou setor de atividade, necessitam de uma contabilidade eficaz, fiável e
transparente, de modo a garantir que os diversos interessados – sejam eles gestores,
21
A RELEVÂNCIA DA CONTABILIDADE NA PREVISÃO DA INSOLVÊNCIA NAS ORGANIZAÇÕES.
investidores, credores ou entidades reguladoras – tenham acesso a informação clara,
rigorosa e atualizada sobre a situação financeira e económica da entidade (Lourenço,
2023).
A contabilidade desempenha um papel fundamental nas empresas, sendo um
verdadeiro apoio na organização e gestão financeira. É através dela que se torna
possível analisar e melhorar o desempenho empresarial, prevenir prejuízos e procurar
maximizar os lucros. Uma gestão eficiente, aliada a uma contabilidade fiável e
transparente, é decisiva para garantir a continuidade de uma empresa no mercado e
para assegurar o cumprimento das exigências legais.
Quando isso não acontece, o risco de penalizações ou até de encerramento da
atividade é elevado. Na verdade, muitas empresas acabam por fechar devido à falta
de planeamento e à ausência ou ineficácia da gestão financeira. Isto acontece porque,
muitas vezes, os empresários não valorizam devidamente os dados contabilísticos.
Todos ambicionam obter lucro, atrair clientes e reduzir encargos fiscais, mas poucos
compreendem a complexidade da contabilidade. Acreditam que basta gerir o dia a dia
da operação até chegar ao consumidor final para alcançar o sucesso, esquecendo
que a verdadeira sustentabilidade de um negócio depende de uma base contabilística
sólida e bem estruturada.
22
A RELEVÂNCIA DA CONTABILIDADE NA PREVISÃO DA INSOLVÊNCIA NAS ORGANIZAÇÕES.
2.2.2 Qual o papel da Contabilidade de uma empresa
Ao longo dos anos, a contabilidade tem vindo a evoluir de forma significativa,
assumindo um papel fundamental na economia global. De acordo com Antunes
(2019), embora a contabilidade seja indispensável para empresas de todos os
sectores, independentemente da sua dimensão, muitos gestores ainda desconhecem
a sua verdadeira função no contexto da gestão organizacional. O principal problema
reside no facto de a contabilidade, na maioria das vezes, apenas ser recordada
quando surgem grandes desafios que exigem resolução.
Tal situação ocorre porque se trata de um trabalho silencioso, levado a cabo
pelo contabilista certificado e, por vezes, com o apoio da sua equipa — ou, em
determinadas circunstâncias, exclusivamente por si. Este trabalho manifesta-se na
organização e análise das contas, bem como no cumprimento das obrigações fiscais
da empresa. A contabilidade é, assim, a área responsável pelo estudo e aplicação de
métodos, técnicas e procedimentos que permitem registar, calcular e interpretar toda
a situação financeira de uma organização.
Está profundamente enganado quem acredita que o trabalho do contabilista ou
do gestor se limita ao simples cálculo de números. Pelo contrário, é este profissional
que orienta e sustenta decisões cruciais que se impõem no quotidiano das
organizações. A contabilidade constitui, assim, um pilar essencial para a definição de
estratégias e para o crescimento sustentável da empresa, uma vez que é através da
sua análise que se determina o momento oportuno para realizar investimentos,
proceder a novas contratações ou efetuar outras operações financeiras
indispensáveis à expansão do negócio.
2.2.3 As funções da Contabilidade numa organização
A complexidade inerente ao tema torna desafiante a tarefa de explicar, de forma
simples, a real importância da contabilidade. No entanto, conforme refere Silva (2023),
é possível organizar as funções contabilísticas em algumas ações principais,
permitindo uma melhor compreensão do seu papel no contexto organizacional, tais
como:
23
A RELEVÂNCIA DA CONTABILIDADE NA PREVISÃO DA INSOLVÊNCIA NAS ORGANIZAÇÕES.
[Link] Registar
A contabilidade de uma empresa é a área responsável pelo registo e
documentação de todas as transações financeiras da organização. Assim, todos os
comprovativos relativos a compras, vendas, despesas e proveitos devem ser
devidamente registados, incluindo a identificação da origem e do destino de cada valor
movimentado.
Para além destes elementos, é igualmente necessário proceder ao registo de
despesas com pessoal, consumos e existências (stocks) da empresa. Todos estes
movimentos devem ser introduzidos no sistema ERP, ou Enterprise Resource
Planning, devidamente certificado pela Autoridade Tributária, em conformidade com o
disposto da Portaria nº 363/2010, de 23 de junho, e o Decreto-Lei 28/2019, de 15 de
fevereiro de 2019.
Estes registos permitem aferir a viabilidade financeira da organização, através
da análise de indicadores como os ativos, o património líquido, os lucros e os
dividendos gerados. Adicionalmente, possibilitam uma avaliação detalhada dos
gastos e dos proveitos, permitindo identificar as rúbricas da Demonstração de
Resultados que requerem maior atenção. Esta informação é crucial para que o gestor
possa delinear, atempadamente, estratégias de recuperação em cenários mais
críticos, assegurando uma gestão eficiente e sustentável.
[Link] Organizar
Um dos papéis fundamentais da contabilidade nas empresas é a organização
rigorosa da informação financeira. Dado que existem diversas formas de estruturar e
sistematizar os dados contabilísticos, cabe ao Contabilista Certificado conceber
métodos e estratégias adequadas à realidade específica de cada organização,
assegurando sempre que a informação apresentada seja fidedigna e reflita, com a
maior exatidão possível, a situação económica e financeira da entidade.
Esta tarefa pode revelar-se particularmente desafiante para proprietários e
gestores que pretendem aventurar-se no domínio contabilístico sem formação
especializada. Por essa razão, o mais sensato é recorrer ao apoio de um profissional
qualificado — o Contabilista Certificado —, garantindo assim a fiabilidade da
informação e o cumprimento das obrigações legais.
24
A RELEVÂNCIA DA CONTABILIDADE NA PREVISÃO DA INSOLVÊNCIA NAS ORGANIZAÇÕES.
[Link] Demonstrar
O papel da contabilidade nas empresas consiste, entre outras funções, na
produção de demonstrações financeiras com base na informação previamente
organizada. Estas demonstrações têm como finalidade apresentar de forma clara a
situação patrimonial, económica e financeira da organização.
É também através da contabilidade que se elaboram a Demonstração dos
Resultados por Naturezas (DRN) e o Balanço, documentos fundamentais que refletem
o impacto das operações no património da empresa. Estes instrumentos são
essenciais para que os gestores possam disponibilizar informações precisas
relativamente às diversas rúbricas e proceder a uma análise consistente dos
resultados económicos da atividade desenvolvida.
Para além disso, a contabilidade permite observar e avaliar ações passadas da
vida económica da empresa, oferecendo uma visão aprofundada da situação atual e
contribuindo para a projeção de cenários futuros. Esta capacidade analítica constitui
um alicerce indispensável à definição de planos estratégicos e de orientação
administrativa, quer a curto, quer a médio e longo prazo.
[Link] Analisar
A contabilidade é a área responsável pela análise das demonstrações
financeiras e dos relatórios de gestão resultantes das ações passadas e atuais da
organização. Com base nesses dados, torna-se possível apurar os resultados
alcançados e projetar, com maior precisão, cenários futuros.
Para o gestor, esta fase reveste-se de particular importância, pois permite
avaliar se a empresa atuou em conformidade com o plano estabelecido, se os gastos
se mantiveram dentro dos limites previstos e quais são as perspetivas para os meses
e/ou anos seguintes.
Através desta análise, o planeamento futuro pode ser elaborado com base em
informação concreta, própria da realidade interna da empresa, em vez de depender
exclusivamente de projeções de mercado. Esta abordagem representa a forma mais
fiável de traçar estratégias, uma vez que assenta em dados reais, específicos à
organização em estudo, proporcionando uma base sólida para a tomada de decisões
conscientes e eficazes.
25
A RELEVÂNCIA DA CONTABILIDADE NA PREVISÃO DA INSOLVÊNCIA NAS ORGANIZAÇÕES.
[Link] Acompanhamento da Contabilidade
Uma contabilidade eficiente permite aos gestores acompanhar, de forma
sistemática, a execução dos planos económicos da empresa, sem descurar as
despesas fixas e as receitas correntes da organização.
Para além do controlo financeiro, a contabilidade possibilita uma atuação
preventiva. Quando determinados valores previstos deixam de ser recebidos, por
exemplo, o gestor pode adotar estratégias para mitigar os impactos na saúde
financeira da entidade.
Este acompanhamento contínuo permite, ainda, a antevisão de encargos em
períodos específicos, como subsídios, férias, gratificações e outras despesas com o
pessoal. Assim, estes compromissos podem ser antecipadamente planeados,
reduzindo significativamente o impacto financeiro no momento da sua concretização.
Em suma, o que a contabilidade proporciona é uma visão clara e estruturada
dos bens e das obrigações da empresa. Estar informado sobre os acontecimentos
financeiros da organização é essencial para tomar decisões assertivas,
fundamentadas em dados concretos.
Importa sublinhar que a contabilidade não se revela fundamental apenas em
contextos de crise, mas também durante fases de crescimento e de estabilidade
financeira, servindo de suporte à viabilidade e sustentabilidade do negócio.
A contabilidade é igualmente responsável por determinar o enquadramento
fiscal da empresa, nomeadamente no que respeita ao Regime Normal da
Contabilidade Organizada ou ao Regime Simplificado, conforme previsto no Código
do Imposto sobre o Rendimento das Pessoas Coletivas (CIRC).
Por fim, é através de uma contabilidade contínua e eficaz que se assegura o
cumprimento das obrigações perante a Autoridade Tributária, prevenindo assim
eventuais problemas fiscais, bem como a aplicação de coimas e penalizações legais.
2.2.4 A Contabilidade Externa e interna
[Link] Contabilidade Externa
A contabilidade externa tem como principal função a elaboração das
demonstrações financeiras, com base nas informações patrimoniais da entidade. Essa
vertente da contabilidade visa atender às necessidades informativas de utilizadores
26
A RELEVÂNCIA DA CONTABILIDADE NA PREVISÃO DA INSOLVÊNCIA NAS ORGANIZAÇÕES.
externos à organização, tais como instituições bancárias, credores, entidades
governamentais, acionistas e agências de análise de crédito.
Através de relatórios financeiros estruturados, a contabilidade externa proporciona
uma visão clara e fidedigna da situação económica, financeira e patrimonial da
empresa, servindo como instrumento essencial para a tomada de decisões por parte
desses intervenientes.
Importa salientar que todas as práticas relacionadas com a contabilidade externa
devem estar em estrita conformidade com a legislação portuguesa vigente, bem como
observar as normas contabilísticas aplicáveis, assegurando, assim, a transparência,
a comparabilidade e a fiabilidade da informação divulgada (Paiva & Carvalho, 2021).
[Link] Contabilidade Interna
A contabilidade interna, também designada por contabilidade analítica ou de
gestão, é direcionada para a disponibilização de informações detalhadas e pertinentes
aos administradores, sócios e demais responsáveis pela condução estratégica da
organização. A sua principal finalidade é apoiar o planeamento, a análise e o controlo
financeiro da empresa, permitindo uma gestão mais eficiente e informada (Nabais,
2021).
Apesar de não estar sujeita a uma regulamentação legal tão rígida quanto a
contabilidade externa, a contabilidade interna deve alinhar-se com os princípios éticos
e os valores instituídos por cada organização. É fundamental que haja integração
entre a contabilidade interna e externa, pois o cruzamento e a coerência dos dados
de ambas as áreas são indispensáveis para garantir a fiabilidade e a precisão das
informações financeiras.
Sem um sistema contabilístico claro, objetivo e abrangente, torna-se inviável o
controlo eficaz das finanças e do funcionamento global da organização. A prática
contabilística sistemática, contínua e tecnicamente competente é essencial, não
apenas para assegurar o cumprimento das obrigações legais e fiscais, mas também
para fornecer suporte à tomada de decisões estratégicas. Por meio da contabilidade,
o gestor pode avaliar se a organização se encontra em condições de investir ou se há
necessidade de recorrer a financiamentos (Santos, 2019).
27
A RELEVÂNCIA DA CONTABILIDADE NA PREVISÃO DA INSOLVÊNCIA NAS ORGANIZAÇÕES.
Assim, a contabilidade, nas suas vertentes interna e externa, assume um papel
central na administração empresarial. Entre os seus contributos mais significativos,
segundo Conde, (2019) destacam-se:
• Tomada de decisão: Os relatórios financeiros oferecem dados atualizados e
fiáveis sobre a situação económica da organização, sendo cruciais para a
formulação de estratégias, avaliação da rentabilidade, planeamento de
investimentos e implementação de melhorias.
• Transparência e conformidade: A correta elaboração dos relatórios
contabilísticos assegura o cumprimento das disposições legais e
regulamentares, promovendo a transparência das operações, especialmente
em organizações que necessitam prestar contas a sócios, investidores e
órgãos reguladores.
• Análise de desempenho: Instrumentos como o balanço patrimonial, a
demonstração dos resultados e a demonstração de fluxos de caixa permitem à
organização monitorizar o seu desempenho ao longo do tempo, identificar
tendências e comparar os seus resultados com padrões do setor ou
concorrentes diretos.
• Atração de investimentos: A qualidade e a clareza dos relatórios financeiros
influenciam diretamente a perceção dos investidores e credores quanto ao risco
e retorno dos seus investimentos. Uma contabilidade bem estruturada aumenta
a confiança do mercado e facilita a captação de recursos.
• Gestão de risco: A análise financeira desempenha um papel essencial na
identificação e mitigação de riscos que possam comprometer a
sustentabilidade e o desempenho da organização. Através da interpretação
sistemática dos relatórios financeiros, torna-se possível detetar
vulnerabilidades que, se não forem devidamente geridas, podem gerar
impactos significativos. Entre os riscos mais comuns encontram-se o elevado
grau de endividamento, que pode limitar a capacidade de investimento da
empresa; a insuficiência de liquidez, que compromete o cumprimento das
obrigações correntes; e a instabilidade no fluxo de caixa, que afeta a
previsibilidade das operações.
28
A RELEVÂNCIA DA CONTABILIDADE NA PREVISÃO DA INSOLVÊNCIA NAS ORGANIZAÇÕES.
Para além dos riscos estritamente financeiros, é também importante considerar
riscos operacionais, como a dependência excessiva de determinados clientes ou
fornecedores, falhas nos sistemas de informação contabilística, ou até a exposição a
variações cambiais e flutuações nas taxas de juro. Através de uma contabilidade bem
estruturada e de uma leitura atenta dos seus indicadores, a gestão pode antecipar-se
a essas ameaças e implementar estratégias preventivas, tais como a diversificação
de fontes de financiamento, a negociação de prazos com fornecedores, ou a
constituição de reservas técnicas de capital.
Deste modo, a contabilidade assume um papel central na política de gestão de
risco, fornecendo os dados e os instrumentos necessários para a tomada de decisões
prudentes, que garantam a estabilidade financeira e a resiliência da organização face
a contextos económicos adversos ou a imprevistos de mercado.
• Planeamento fiscal: A contabilidade contribui significativamente para o
planeamento tributário, permitindo à organização gerir as suas obrigações
fiscais de forma estratégica, otimizando o pagamento de impostos e
preservando a sua saúde financeira.
• Comunicação com stakeholders: Os relatórios financeiros são também uma
ferramenta de comunicação fundamental com os stakeholders — como
acionistas, fornecedores, clientes e instituições financeiras —, oferecendo uma
visão clara, precisa e transparente da realidade económica da empresa.
Concluindo, a produção rigorosa e sistemática de relatórios financeiros é um
pilar essencial para a integridade, sustentabilidade e crescimento das organizações.
A contabilidade oferece a base necessária para a tomada de decisões estratégicas, o
cumprimento das exigências legais e a manutenção de uma relação de confiança com
todos os intervenientes no ecossistema empresarial.
29
A RELEVÂNCIA DA CONTABILIDADE NA PREVISÃO DA INSOLVÊNCIA NAS ORGANIZAÇÕES.
2.2.5 A contabilidade na era digital
A era digital tem provocado uma transformação profunda no exercício da
contabilidade, impulsionada pelos avanços tecnológicos e pela automação de
processos. Atividades anteriormente executadas de forma manual e demorada
podem, atualmente, ser realizadas em poucos minutos, com maior eficiência e
precisão. Esta mudança não só reforça a importância da tecnologia na contabilidade
moderna, como também redefine o papel do contabilista no contexto organizacional
(Magalhães, 2023).
Com a digitalização, os profissionais da contabilidade deixaram de ser meros
processadores de dados para se tornarem gestores de informação, responsáveis por
interpretar, analisar e comunicar dados estratégicos que influenciam diretamente o
desempenho das organizações. Segundo Franco (2024), para que um contabilista se
mantenha relevante neste novo panorama, é necessário desenvolver competências
diversificadas que vão além do domínio técnico, abrangendo literacia digital,
pensamento crítico e visão empresarial.
A combinação entre as competências tradicionais, a ética profissional e o
domínio de tecnologias emergentes colocam os contabilistas numa posição de
destaque como parceiros estratégicos na tomada de decisão. A transformação digital
não implica a substituição da mão de obra humana pelas máquinas, mas antes uma
oportunidade para os profissionais ampliarem as suas capacidades, combinando os
conhecimentos adquiridos com as novas ferramentas digitais (Magalhães, 2023).
A digitalização permitiu tornar a contabilidade mais ágil, eficaz e estratégica. O
uso de softwares especializados, inteligência artificial e sistemas de gestão integrados
proporciona uma maior capacidade de análise, relatórios em tempo real e uma tomada
de decisão mais fundamentada. Neste contexto, destacam-se as seguintes vantagens
da contabilidade digital:
• Maior eficiência e produtividade operacional;
• Redução de erros humanos;
• Acesso instantâneo a informações em tempo real;
• Redução de custos operacionais;
30
A RELEVÂNCIA DA CONTABILIDADE NA PREVISÃO DA INSOLVÊNCIA NAS ORGANIZAÇÕES.
• Segurança no armazenamento e partilha de dados;
• Integração e comunicação entre departamentos;
• Organização e digitalização de documentos;
• Elaboração de análises e relatórios avançados;
• Flexibilidade e mobilidade no acesso à informação;
• Padronização dos processos de negócio.
Segundo Araújo (2025), a contabilidade digital simboliza uma mudança
profunda e contínua na profissão, marcada por uma nova abordagem baseada na
automação, na análise avançada de dados e na interligação global. Os contabilistas
certificados são agora vistos como aliados estratégicos, contribuindo com insights
valiosos para a gestão e agregando valor à performance organizacional.
Neste cenário, conclui-se que a contabilidade digital não apenas incrementa a
eficiência dos processos, mas também redefine a função do contabilista como um
consultor estratégico, capaz de transformar dados em conhecimento útil e decisões
inteligentes. O futuro da profissão está, cada vez mais, associado à capacidade de
adaptação tecnológica e à valorização da informação como ativo central na gestão
das empresas.
31
A RELEVÂNCIA DA CONTABILIDADE NA PREVISÃO DA INSOLVÊNCIA NAS ORGANIZAÇÕES.
2.2.6 Conclusão do capítulo
Durante muitos anos, a contabilidade foi percecionada por diversos
empresários apenas como um instrumento de cumprimento fiscal, ou como um custo
necessário à manutenção da atividade empresarial. Contudo, esta visão tem sido
progressivamente substituída por uma compreensão mais abrangente e estratégica
da contabilidade como ferramenta essencial para a gestão eficiente e sustentável dos
negócios (Nabais, 2015).
O empreendedor moderno, orientado para o crescimento e a perenidade do
seu negócio, necessita de uma compreensão clara da situação económico-financeira
da sua empresa para tomar decisões fundamentadas, planear investimentos e gerir
recursos de forma eficiente. O principal objetivo da contabilidade é, assim, a produção
de informações úteis, capazes de apoiar a tomada de decisões estratégicas e de
antecipar cenários futuros com maior segurança (Leitão et al., 2024).
Entre os principais benefícios proporcionados pela contabilidade, destacam-se:
• Controlo sobre receitas, despesas e resultados, permitindo a identificação de
lucros ou prejuízos;
• Monitorização de recebimentos, favorecendo um ciclo de tesouraria
equilibrado;
• Controlo de pagamentos pendentes, minimizando prejuízos com encargos
financeiros;
• Organização dos processos administrativos, dado que todas as operações
empresariais convergem para a contabilidade;
• Projeção do futuro, com base no registo do presente e na análise do passado;
• Acompanhamento da evolução patrimonial da empresa;
• Garantia de veracidade das operações financeiras;
• Transparência nas informações prestadas à gestão e aos stakeholders,
reforçando a confiança do mercado;
• Responsabilidade na formação e transmissão da informação financeira,
assegurando a clareza e precisão dos dados.
32
A RELEVÂNCIA DA CONTABILIDADE NA PREVISÃO DA INSOLVÊNCIA NAS ORGANIZAÇÕES.
Segundo Leitão et al., (2024), a contabilidade permite ao empresário mensurar,
identificar, interpretar e avaliar os objetivos empresariais de forma concreta. Dada a
complexidade crescente da legislação e do ambiente de negócios, é fundamental que
a contabilidade seja assumida como uma ferramenta de gestão indispensável. A
contratação de profissionais qualificados e atualizados torna-se, assim, essencial para
garantir a permanência e o sucesso sustentável das empresas no mercado.
Adicionalmente, ao promover a confiança e a credibilidade nas informações
financeiras, a contabilidade contribui para a estabilidade dos mercados e para o
crescimento económico. Ela apoia uma melhor alocação de recursos, estimula a
responsabilidade social e proporciona bases sólidas para decisões de investimento.
De acordo com Pais & Ferreira (2024), a uniformização das normas
contabilísticas é crucial para a integração e estabilidade dos mercados financeiros
globais. A contabilidade, nesse contexto, não apenas serve à gestão interna, mas
torna-se um elo vital na cadeia de comunicação e confiança entre as empresas e a
sociedade.
33
A RELEVÂNCIA DA CONTABILIDADE NA PREVISÃO DA INSOLVÊNCIA NAS ORGANIZAÇÕES.
2.3 Sistema de Normalização Contabilística
34
A RELEVÂNCIA DA CONTABILIDADE NA PREVISÃO DA INSOLVÊNCIA NAS ORGANIZAÇÕES.
2.3.1 Sistema de Normalização Contabilística
O modelo de normalização contabilística em vigor em Portugal foi aprovado
pelo Decreto-Lei n.º 158/2009, de 13 de julho, posteriormente alterado pela Portaria
n.º 218/2015, de 23 de julho. Este modelo caracteriza-se por uma forte convergência
com a legislação contabilística da União Europeia, assumindo como referência as
Normas Internacionais de Contabilidade (IAS) e as Normas Internacionais de Relato
Financeiro (IFRS), emitidas pelo International Accounting Standards Board (IASB).
Não obstante esta aproximação ao quadro normativo internacional, o sistema
português preserva algumas especificidades, nomeadamente a existência de um
código de contas auxiliar, que facilita a uniformização e o controlo das operações
contabilísticas ao nível nacional.
O Sistema de Normalização Contabilística (SNC) constitui o referencial
contabilístico de base em Portugal e é de aplicação obrigatória para as seguintes
entidades:
• Empresas sujeitas ao Código das Sociedades Comerciais;
• Empresas individuais reguladas pelo Código Comercial;
• Estabelecimentos individuais de responsabilidade limitada;
• Empresas públicas;
• Cooperativas;
• Agrupamentos complementares de empresas e agrupamentos europeus de
interesse económico.
Esta obrigatoriedade tem como objetivo garantir a harmonização da informação
financeira, promovendo a comparabilidade, transparência e fiabilidade dos dados
financeiros reportados.
Em Portugal, os normativos contabilísticos adotados podem ser classificados
em duas grandes categorias:
• Normas de âmbito internacional, designadas por International Accounting
Standards (IAS) e International Financial Reporting Standards (IFRS),
adotadas essencialmente por entidades com relevância pública ou que operam
em mercados internacionais;
35
A RELEVÂNCIA DA CONTABILIDADE NA PREVISÃO DA INSOLVÊNCIA NAS ORGANIZAÇÕES.
• Normas de âmbito nacional, que compreendem o Sistema de Normalização
Contabilística (SNC), o qual é aplicado maioritariamente por pequenas e
médias empresas (PME) e outras entidades que não estejam obrigadas ao
reporte segundo as normas internacionais.
A escolha entre um referencial internacional ou nacional depende, assim, da
natureza, dimensão e enquadramento jurídico da entidade. Empresas com ações
cotadas em bolsa ou com atividade transnacional tendem a adotar as normas
internacionais (IAS/IFRS), enquanto entidades de menor dimensão permanecem
enquadradas pelo SNC.
A adoção de um sistema normativo alinhado com os padrões internacionais
reforça a confiança dos investidores, facilita o acesso ao financiamento e contribui
para a integração dos mercados financeiros. Por outro lado, a existência de um
referencial nacional adaptado à realidade portuguesa garante que as PME possam
dispor de um sistema contabilístico acessível, adequado às suas necessidades e
capacidades.
Neste contexto, o modelo contabilístico português procura equilibrar a
modernização normativa com a especificidade do tecido empresarial nacional,
assegurando uma resposta eficaz às exigências de normalização, sem comprometer
a aplicabilidade prática no quotidiano das organizações.
Para uma melhor compreensão, a tabela seguinte apresenta uma
sistematização dos principais normativos contabilísticos em vigor em Portugal,
identificando os seus destinatários, âmbito de aplicação e enquadramento legal:
36
A RELEVÂNCIA DA CONTABILIDADE NA PREVISÃO DA INSOLVÊNCIA NAS ORGANIZAÇÕES.
Normativo Contabilístico Sigla Âmbito de Aplicação Entidades Abrangidas Base Legal / Instituição Emitente
Sistema de Normalização Pequenas e médias empresas, cooperativas, empresas não Decreto-Lei n.º 158/2009, de 13 de
SNC Nacional
Contabilística cotadas, entidades sem fins lucrativos julho
Normas Internacionais de Grandes empresas, multinacionais, empresas com International Accounting Standards
IAS Internacional
Contabilidade necessidade de reporte internacional Board (IASB)
Normas Internacionais de Relato Internacional (obrigatório para Empresas cotadas em bolsa, instituições financeiras, Regulamento (CE) n.º 1606/2002 do
IFRS
Financeiro certas entidades) entidades de interesse público Parlamento Europeu e do Conselho
Normas do SNC-AP (Administração Serviços e organismos da administração central, regional, Decreto-Lei n.º 192/2015, de 11 de
SNC-AP Nacional (setor público)
Pública) local e setor público empresarial setembro
Normas contabilísticas para Microentidades com volume de negócios reduzido e estrutura
NCRF-ME Nacional (simplificado) Portaria n.º 218/2015, de 23 de julho
microentidades contabilística simplificada
Tabela 1 - Normativos contabilísticos adotados em Portugal
Fonte: Lourenço, 2023
[Link] Estrutura Normativa Contabilística:
Tabela 4 - Normativo contabilístico nacional (SNC)Tabela 5 - Normativos contabilísticos
adotados
O em Portugal
primeiro nível do SNC refere-se à aplicação obrigatória das Normas
Internacionais de Contabilidade (International Accounting Standards – IAS) e das
NormasTabela
Internacionais de Relato Financeiro (International Financial Reporting
6 - Normativo contabilístico nacional (SNC)Tabela 7 - Normativos contabilísticos
Standards – IFRS),
adotados em Portugal
conforme adotadas pela União Europeia. Desde 2005, todas as
empresas com títulos cotados em mercados regulamentados passaram a estar
obrigadas a utilizar este referencial internacional na elaboração das suas
Tabela 8 - Normativo contabilístico nacional (SNC)Tabela 9 - Normativos contabilísticos
adotados em
demonstrações Portugal consolidadas.
financeiras
Este enquadramento responde à crescente necessidade de uma linguagem
contabilística universal, que permita:
• A mensuração uniforme de ativos e passivos, assegurando que as
avaliações financeiras sejam comparáveis entre diferentes jurisdições;
• A harmonização das normas de relato financeiro, de modo que investidores,
independentemente do seu contexto económico, possam avaliar de forma fiável
e consistente o desempenho e a posição financeira de uma entidade.
O segundo nível do SNC contempla as Normas Contabilísticas e de Relato
Financeiro (NCRF), de caráter nacional, aplicáveis a empresas não cotadas ou que
não estão sujeitas às exigências de reporte internacional. Estas normas foram
desenvolvidas com base nas IAS/IFRS, mas adaptadas à realidade das pequenas e
médias empresas, que não necessitam de um grau elevado de divulgação para fins
de mercado.
37
A RELEVÂNCIA DA CONTABILIDADE NA PREVISÃO DA INSOLVÊNCIA NAS ORGANIZAÇÕES.
As NCRF permitem que estas entidades mantenham uma estrutura
contabilística consistente, respeitando os princípios fundamentais das normas
internacionais, mas com menor complexidade e exigência em termos de reporte. Este
nível do SNC promove, assim, a qualidade da informação financeira sem
sobrecarregar as organizações com requisitos desnecessários ao seu contexto de
atuação.
O terceiro nível da estrutura normativa contabilística em Portugal corresponde
à aplicação das Normas Contabilísticas e de Relato Financeiro para Pequenas
Entidades (NCRF-PE). Este referencial foi desenvolvido como uma versão
simplificada das NCRF, destinada a entidades de menor dimensão, permitindo-lhes
cumprir os requisitos contabilísticos de forma proporcional à sua capacidade
organizativa e às suas necessidades de reporte financeiro.
De acordo com o disposto no artigo 9.º, n.º 2 do Decreto-Lei n.º 158/2009, de
13 de julho, podem adotar as NCRF-PE as entidades que, à data do balanço, não
excedam dois dos três critérios seguintes:
• Total de vendas líquidas e outros rendimentos: 4.000.000 €;
• Total do balanço: 8.000.000 €;
• Número médio de trabalhadores durante o exercício: 50.
Importa destacar que as entidades que preencham estes requisitos podem
optar por aplicar, voluntariamente, o conjunto completo das NCRF, caso considerem
que tal melhor serve os seus interesses de gestão ou reporte.
As NCRF-PE foram elaboradas com o objetivo de condensar os principais
princípios de reconhecimento, mensuração e divulgação constantes nas normas
nacionais completas (NCRF), oferecendo uma abordagem mais direta e simplificada,
sem prejuízo da qualidade e fiabilidade da informação financeira produzida.
No entanto, existem algumas normas que não se aplicam no contexto das
NCRF-PE, nomeadamente:
• NCRF 2 – Demonstração dos Fluxos de Caixa;
• NCRF 5 – Divulgação de Partes Relacionadas;
38
A RELEVÂNCIA DA CONTABILIDADE NA PREVISÃO DA INSOLVÊNCIA NAS ORGANIZAÇÕES.
• NCRF 8 – Ativos Não Correntes Detidos para Venda e Unidades Operacionais
Descontinuadas;
• NCRF 11 – Propriedades de Investimento;
• NCRF 12 – Imparidade de Ativos;
• NCRF 13 – Interesses em Empreendimentos Conjuntos e Investimentos em
Associadas;
• NCRF 14 – Concentrações de Atividades Empresariais;
• NCRF 15 – Investimentos em Subsidiárias e Consolidação;
• NCRF 16 – Exploração e Avaliação de Recursos Minerais;
• NCRF 24 – Acontecimentos Após a Data do Balanço.
Esta exclusão visa reduzir a complexidade do normativo aplicável às pequenas
entidades, mantendo o equilíbrio entre o rigor técnico e a capacidade de cumprimento
destas organizações conforme o previsto no nº 3 do artigo 11º do Decreto-Lei nº
158/2009, de 13 de julho. Assim, as NCRF-PE constituem um instrumento essencial
para garantir a conformidade contabilística das PME, sem descurar a transparência e
a utilidade da informação financeira para os diversos stakeholders.
O quarto nível é representado pelas normas aplicáveis às microentidades,
sendo estas entidades com estrutura simplificada e volume de negócios reduzido. As
NCRF-ME foram concebidas para responder às necessidades específicas deste
segmento, oferecendo um modelo contabilístico simplificado e proporcional à sua
dimensão e capacidade administrativa, mantendo, ainda assim, os princípios
fundamentais de fiabilidade e clareza da informação financeira.
39
A RELEVÂNCIA DA CONTABILIDADE NA PREVISÃO DA INSOLVÊNCIA NAS ORGANIZAÇÕES.
[Link] O Código de Contas
Aprovado pela Portaria n.º 218/2015, de 23 de julho, o Sistema de
Normalização Contabilística (SNC) constitui o referencial contabilístico de aplicação
obrigatória às entidades sujeitas ao regime estabelecido no Decreto-Lei n.º 158/2009,
de 13 de julho. Para além destas, também podem adotar o SNC, de forma voluntária,
as entidades que aplicam as Normas Internacionais de Contabilidade (IAS/IFRS),
conforme o disposto no artigo 4.º do referido decreto-lei. Esta possibilidade visa
reforçar a comparabilidade e a transparência das demonstrações financeiras,
promovendo a harmonização contabilística a nível nacional e internacional (anexo 1).
O SNC integra um conjunto articulado de normas contabilísticas, elaborado e
continuamente atualizado pela Comissão de Normalização Contabilística (CNC),
órgão responsável pela normalização técnica no domínio da contabilidade em
Portugal. Este sistema apresenta uma estrutura adaptável à natureza e à dimensão
das entidades, contemplando normas específicas para diferentes tipos
organizacionais, entre os quais se destacam:
Entidades SNC
Microentidades Norma contabilística para microentidades (NC-ME)
Norma contabilística e de relato financeiro para as
Pequenas entidades
pequenas entidades (NCRF-PE)
Médias e grandes
Norma contabilística e de relato financeiro (NCRF)
entidades
Entidades do setor Norma contabilística e de relato financeiro para as
não lucrativo entidades do setor não lucrativo (NCRF-ESNL)
Tabela 2 - Normativo contabilístico nacional (SNC)
Fonte: Lourenço, 2023
Tabela 10 - Estrutura resumida da Demonstração Financeira -
BalançoTabela 11 - Normativo contabilístico nacional (SNC)
Tabela 12 - Estrutura resumida da Demonstração Financeira -
BalançoTabela 13 - Normativo contabilístico nacional (SNC)
Tabela 14 - Estrutura resumida da Demonstração Financeira -
BalançoTabela 15 - Normativo contabilístico nacional (SNC)
40
A RELEVÂNCIA DA CONTABILIDADE NA PREVISÃO DA INSOLVÊNCIA NAS ORGANIZAÇÕES.
2.3.2 Prestação de Contas
A prestação de contas constitui um dos pilares fundamentais da boa
governação organizacional, sendo essencial para assegurar a transparência, a
confiança e a eficiência na gestão das entidades. Este processo traduz-se na
obrigação de demonstrar, de forma clara e fidedigna, como os recursos – financeiros,
humanos e materiais – foram utilizados ao longo de um determinado período,
garantindo o cumprimento dos princípios éticos, legais e regulamentares que regem a
atividade económica e financeira.
Do ponto de vista legal, as empresas estão obrigadas à prestação de contas
no final de cada exercício económico, apresentando aos seus acionistas ou sócios a
posição financeira, os resultados e a evolução da atividade desenvolvida. Esta
obrigação encontra respaldo no artigo 65.º do Código das Sociedades Comerciais
(CSC), que determina que os membros da administração devem elaborar e submeter
ao órgão competente da sociedade:
• O relatório de gestão;
• As contas do exercício;
• E demais documentos legalmente exigíveis para efeitos de prestação de
contas.
Estes documentos devem ser apresentados e apreciados nos primeiros três
meses após o termo do exercício, correspondendo, normalmente, ao final do ano civil.
Adicionalmente, nos termos das alíneas b) e c) do n.º 1 do artigo 117.º do
Código do Imposto sobre o Rendimento das Pessoas Coletivas (CIRC), as entidades
estão igualmente obrigadas à entrega de:
• Uma declaração periódica de rendimentos;
• E uma declaração anual de informação contabilística e fiscal, que integra, entre
outros elementos, o balanço, a demonstração de resultados e o anexo às
contas.
A finalidade da prestação de contas é, portanto, demonstrar de forma objetiva
e fundamentada como uma organização administra os seus recursos, reforçando a
responsabilidade dos gestores, promovendo a transparência da informação financeira
41
A RELEVÂNCIA DA CONTABILIDADE NA PREVISÃO DA INSOLVÊNCIA NAS ORGANIZAÇÕES.
e contribuindo para a prevenção de fraudes e irregularidades (Antunes, 2019). Este
processo é indispensável para manter a confiança dos stakeholders, incluindo
investidores, colaboradores, entidades reguladoras e a sociedade em geral.
Importa ainda referir que todo o conteúdo relativo à prestação de contas deve
estar em conformidade com as Normas Contabilísticas e de Relato Financeiro
(NCRF), integradas no Sistema de Normalização Contabilística (SNC), assegurando,
assim, a uniformização, comparabilidade e qualidade da informação financeira
reportada pelas entidades.
[Link] Demonstrações financeiras
As demonstrações financeiras constituem instrumentos fundamentais da
contabilidade, ao fornecerem uma visão clara, estruturada e padronizada da posição
financeira, do desempenho económico e dos fluxos de caixa de uma entidade num
determinado período. A sua elaboração e apresentação são essenciais não apenas
para assegurar a transparência e a responsabilidade na gestão organizacional, mas
também para garantir que todas as partes interessadas – investidores, credores,
reguladores e demais stakeholders – possam aceder a informação fidedigna,
relevante e comparável (Lopes et al.,2022).
Nos termos do disposto no n.º 1 do artigo 11.º do Decreto-Lei n.º 158/2009, de
13 de julho, as entidades sujeitas ao Sistema de Normalização Contabilística (SNC)
estão obrigadas à apresentação das seguintes demonstrações financeiras:
• Balanço;
• Demonstração dos resultados por naturezas;
• Demonstração das alterações no capital próprio;
• Demonstração dos fluxos de caixa;
• Anexo às demonstrações financeiras.
Estas demonstrações formam um conjunto interligado de documentos
contabilísticos, cuja função é evidenciar, de forma sistemática, os efeitos das decisões
de gestão sobre a estrutura financeira e os resultados da atividade empresarial.
Importa referir que, conforme estabelecido no mesmo diploma, as pequenas
entidades que se enquadrem nos critérios definidos legalmente estão dispensadas de
42
A RELEVÂNCIA DA CONTABILIDADE NA PREVISÃO DA INSOLVÊNCIA NAS ORGANIZAÇÕES.
apresentar a demonstração das alterações no capital próprio e a demonstração dos
fluxos de caixa, como forma de simplificação do cumprimento das suas obrigações
contabilísticas.
Do ponto de vista conceptual, as demonstrações financeiras desempenham um
papel central no processo de tomada de decisão, tanto a nível interno (gestores e
administradores) como externo (investidores, financiadores, autoridades fiscais). Elas
permitem:
• Avaliar a posição financeira e a respetiva evolução ao longo do tempo;
• Medir a rentabilidade e eficiência da gestão;
• Analisar a liquidez, solvabilidade e capacidade de geração de caixa;
• Fundamentar estratégias futuras de investimento, financiamento e operação.
A qualidade da informação financeira divulgada através destas demonstrações
é um fator determinante para o funcionamento eficiente dos mercados, fomentando a
confiança dos investidores e a estabilidade das relações económicas. Tal como
preconizado pelo SNC (2018), o objetivo primordial das demonstrações financeiras é
fornecer informações relevantes, fiáveis e compreensíveis, que sustentem uma visão
integrada e precisa da realidade económica e financeira da entidade, sendo
indispensáveis para uma gestão estratégica e responsável.
43
A RELEVÂNCIA DA CONTABILIDADE NA PREVISÃO DA INSOLVÊNCIA NAS ORGANIZAÇÕES.
[Link] Demonstração financeira – O Balanço
Com base no balancete final, elaborado após os lançamentos de regularização
e retificação contabilística, procede-se à construção do Balanço (anexo 2), uma das
principais demonstrações financeiras exigidas no âmbito do Sistema de Normalização
Contabilística (SNC). O Balanço tem como principal objetivo evidenciar a composição
patrimonial da entidade, numa determinada data, geralmente correspondente ao
encerramento do exercício económico.
Este documento contabilístico permite a análise comparativa entre os três
grandes elementos do património da empresa: o Ativo, o Passivo e o Capital Próprio,
sustentando-se na equação fundamental da contabilidade (§49 E.C):
ATIVO = CAPITAL PRÓRPIO + PASSIVO
Esta equação representa o equilíbrio entre os recursos controlados pela
entidade (ativos) e as respetivas origens de financiamento, quer sejam de capitais
próprios, quer de capitais alheios.
A estrutura e o conteúdo do Balanço devem respeitar normas técnicas e legais
específicas, nomeadamente as definidas na Portaria n.º 220/2015, de 24 de julho, que
regulamenta os modelos de apresentação das demonstrações financeiras. Assim, o
Balanço deve obedecer aos seguintes requisitos formais:
• Identificação clara da entidade a que se refere o documento;
• Indicação do período de relato financeiro, evidenciando a data de referência
do balanço;
• Especificação sobre a natureza do Balanço, ou seja, se se trata de um
balanço individual ou consolidado;
• Indicação expressa da unidade monetária utilizada na apresentação dos
valores (normalmente o Euro, em Portugal).
O Balanço está dividido da seguinte forma:
44
A RELEVÂNCIA DA CONTABILIDADE NA PREVISÃO DA INSOLVÊNCIA NAS ORGANIZAÇÕES.
Máquinas, Imóveis, Terrenos, Veículos, outros
Ativos Fixos Tangíveis
equipamentos
Ativos Fixos Intangíveis Patentes, direitos, marcas
Os ativos não correntes incluem ativos tangíveis, "Ativo é um recurso
Ativos Biológicos Animais (seres vivos) intangíveis e financiamento de longo prazo que
Não Corrente controlado como um
Locações Aquisição de equipamentos por locação financeira ultrapassam um ano durante o ciclo operacional da resultado de
empresa. aconteceimento
Propriedade detida para obter rendas ou para passado e do qual se
Ativo
Propriedades de Investimento espera que fluam
valorização do capital ou para ambas as finalidades
para a entidade
Espera-se que seja vendido ou consumido benefícios
Inventários Um ativo deve ser classificado como corrente quando
num ciclo operacional económicos futuros"
se espera que seja realizado, vendido ou consumido no
(§ 49 a) da EC).
Caixa ou equivalentes de caixa Ativos financeiros - dinheiro, ações, clientes, outras decurso normal do ciclo operacional da entidade, ou
Corrente
contas a receber esteja detido essencialmente para negociação. Espera-
Espera-se que seja realizado num período Outros ativos corrente, onde se incluem os se que seja realizado num período até 12 meses após a
até 12 meses da data do Balanço acréscimos e diferimentos data do Balanço; caixa ou equivalentes de caixa.
Representa a posição dos detentores de capital da
Capital Subscrito
organização "Capital Próprio é o
Resevas Legais O capital próprio, também conhecido como património interesse residual nos
Reservas, são parte dos resultados obtidos e não líquido ou situação líquida, é o saldo patrimonial, ativos da entidade
Capital Próprio Outras Reservas distribuídos aos detentores de capital positivo ou negativo, que resulta do valor do ativo depois de deduzir
depois de abater o valor do passivo. Corresponde à todos os seus
Resultados Transitados Resultados obtidos e não distribuídos diferença entre o valor dos ativos e dos passivos. passivos." (§ 49 c) da
EC)
Resultado Líquido do Período Valor apresentado na Demontração dos Resultados
Empréstimos concedidos por entidades financeiras
Empréstimos concedidos a longo prazo
superior de 12 meses
Os gastos que surgem de obrigações presentes
que, decorrente de eventos passados são "Passivo é uma
destinados a acautelar ou prevenir despesas que a obrigação presente
Passivo e Capital Próprio Não Provisões empresa estima que provavelmente irá ter no futuro, Passivos exigíveis a mais de um ano da entidade
Corrente desde que seja possível calcular uma estimativa proviniente de
confiável de suas quantias (ex: grarantias a acontecimentos
clientes). passados, da
liquidação da qual se
Passivo Dividas de outra natureza a médio e longo prazo, ou
Outros divídas a pagar espera que resulte
seja, com vencimento a mais de 12 meses um exfluxo de
Divídas a pagar referente à atividade operacional recursos das entidade
Fornecedores incorporando
inferior ou até 12 meses
benefícios
Estado e outros entes públicos Impostos a pagar ao Estado económicos" (§ 49 b)
Corrente Empréstimos concedidos por entidades financeiras Passivos exigíveis a menos de um ano da EC)
Empréstimos concedidos a curto prazo prazo
inferior ou até 12 meses
Custos já liquidados a serem considerados no ano
Diferimentos
seguinte
Fonte: Elaboração própria, adaptado (Nabais, 2015).
Tabela 3 - Estrutura resumida da Demonstração Financeira - Balanço
Tabela 16 - Estrutura resumida da Demonstração Financeira - Balanço
45
A RELEVÂNCIA DA CONTABILIDADE NA PREVISÃO DA INSOLVÊNCIA NAS ORGANIZAÇÕES.
[Link] Demonstração Financeira – Demonstração de Resultados
A Demonstração de Resultados é uma das principais demonstrações
financeiras previstas no âmbito do Sistema de Normalização Contabilística (SNC),
assumindo um papel central na análise do desempenho económico da entidade ao
longo de um determinado período de relato.
Esta demonstração tem como objetivo apresentar de forma estruturada os
rendimentos e os gastos do exercício, permitindo assim apurar o resultado líquido do
período – lucro ou prejuízo – e compreender de que forma os recursos foram utilizados
pela gestão. Conforme refere Nabais (2015), a demonstração de resultados é
essencial na avaliação do desempenho da empresa, ao evidenciar os aspetos
positivos e negativos da sua atividade durante o período em análise.
Para além de representar a eficiência operacional da entidade, esta
demonstração contribui para uma tomada de decisão mais informada, tanto por parte
da administração como dos demais stakeholders, nomeadamente investidores,
credores e entidades reguladoras.
A estrutura da Demonstração de Resultados obedece a normas contabilísticas
específicas, assegurando a uniformidade e a comparabilidade da informação
divulgada. Em conformidade com o SNC, podem ser utilizados dois modelos
alternativos para a sua apresentação:
Demonstração de Resultados por Naturezas: Apresenta os rendimentos e
gastos classificados segundo a sua natureza (ex.: vendas, fornecimentos e serviços
externos, gastos com pessoal, amortizações, entre outros). Este modelo é obrigatório
para as entidades que adotam o SNC, exceto em casos específicos previstos por
normas setoriais.
Demonstração de Resultados por Funções: Agrupa os elementos da
demonstração com base na sua função no processo produtivo, como custo das
mercadorias vendidas, gastos com distribuição, gastos administrativos, entre outros.
Este modelo é comum em normas internacionais, mas menos utilizado em Portugal,
dado que o modelo por naturezas é o previsto nos modelos oficiais da contabilidade
nacional.
46
A RELEVÂNCIA DA CONTABILIDADE NA PREVISÃO DA INSOLVÊNCIA NAS ORGANIZAÇÕES.
Independentemente do modelo adotado, a Demonstração de Resultados deve
refletir com rigor o desempenho financeiro da entidade, funcionando como um
instrumento indispensável para a análise da rentabilidade, eficiência e
sustentabilidade da atividade empresarial.
[Link].1 Demonstração de Resultados por Naturezas
A Demonstração dos Resultados do Exercício (DRE), comumente conhecida
como Demonstração dos Resultados, é uma das principais demonstrações financeiras
de uma empresa, sendo fundamental para a análise do seu desempenho financeiro
ao longo de um período específico. A DRE permite a avaliação da rentabilidade e da
eficiência operacional da empresa, apresentando de forma clara as receitas, as
despesas e o resultado final – lucro ou prejuízo.
A Demonstração de Resultados por Naturezas segue as disposições
estabelecidas pela Portaria n.º 220/2015, de 24 de julho, e deve estar em
conformidade com o Anexo 2 dessa mesma Portaria. Essa forma de apresentação
tem como principais requisitos a obrigatoriedade de incluir as seguintes informações:
• Identificação da entidade responsável pela elaboração da demonstração;
• Período de referência para o qual a demonstração se aplica;
• Modelo de apresentação da demonstração, conforme as normas e critérios
definidos;
• Unidade monetária utilizada, que deve ser a mesma para todas as transações
e relatórios financeiros.
A Demonstração de Resultados por Naturezas é composta por todas as
rubricas de despesas (classe 6 – conforme o Código de Contas do SNC) e de receitas
(classe 7 – conforme o Código de Contas do SNC) incorridas durante o período de
atividade da empresa, sendo que os principais itens incluem:
• Receitas Operacionais: ingressos provenientes da venda de produtos ou
serviços;
• Custos e Despesas Operacionais: relacionados com as atividades principais
da empresa, como custos com mercadorias, materiais, mão de obra, etc.;
47
A RELEVÂNCIA DA CONTABILIDADE NA PREVISÃO DA INSOLVÊNCIA NAS ORGANIZAÇÕES.
• Outras Receitas e Despesas: englobando rendimentos ou gastos não
diretamente ligados à atividade principal da empresa, mas que impactam o
resultado final.
Esta forma de demonstração facilita a análise detalhada do comportamento de
cada categoria de receita e despesa, permitindo aos gestores e stakeholders
compreender de forma clara a estrutura de custos e o desempenho financeiro da
organização.
A Demonstração dos Resultados por Naturezas tem como principais objetivos:
• Proporcionar transparência sobre a composição dos resultados da empresa,
permitindo uma visão clara das receitas e despesas;
• Facilitar a análise do desempenho operacional, evidenciando a eficiência e
a rentabilidade das operações da empresa ao longo do período;
• Apoiar a tomada de decisões de gestão e estratégias, fornecendo
informações detalhadas que são essenciais para definir o rumo estratégico da
organização;
• Garantir a comparabilidade e conformidade com as normas de
contabilidade, assegurando que os dados apresentados estão de acordo com
os requisitos legais e contabilísticos;
• Facilitar a avaliação da estrutura de custos, permitindo identificar as
principais fontes de despesas e analisar sua relação com a geração de receita;
• Melhorar a comunicação com os stakeholders, proporcionando uma visão
clara e objetiva da saúde financeira da empresa para investidores, parceiros, e
demais interessados (Luís Pacheco, 2021).
Esses objetivos destacam a importância da Demonstração de Resultados por
Naturezas não apenas para os gestores, mas também para os demais envolvidos na
análise da performance financeira da organização.
48
A RELEVÂNCIA DA CONTABILIDADE NA PREVISÃO DA INSOLVÊNCIA NAS ORGANIZAÇÕES.
Na figura abaixo, segue a estrutura da Demonstração dos Resultados por
Naturezas:
EBITDA
EBITDA
EBIT
EBITDA
EBIT
EBT
EBITDA
RLP
EBIT
RAI
Figura 2 - Demonstração Financeira - Demonstração dos Resultados por Naturezas
EBT
EBIT
EBT
EBITDA (Earnings before interest, taxes, depreciation and amortization)
ouFigura
Lucro antes de juros, impostos, depreciação e amortização:
RAI
6-
Resultado operacional antes de considerar depreciação, amortização, juros e
Demon
impostos.
straçã
o Fórmula:
Financ
EBITDA = Lucro Bruto − Despesas Operacionais (sem depreciações e
eira -
amortizações)
Demon
straçã
49
o dos
A RELEVÂNCIA DA CONTABILIDADE NA PREVISÃO DA INSOLVÊNCIA NAS ORGANIZAÇÕES.
EBIT (Earnings before interest and taxes) ou RESULTADO
OPERACIONAL: Conhecida como a calculadora do lucro operacional. Funciona
principalmente para medir o desempenho das operações comerciais e mostrar a
rentabilidade. O cálculo do EBIT é essencial, pois mostra a capacidade de controlar
os custos operacionais e gerar lucros a partir das operações comerciais.
Lucro operacional após considerar a depreciação e amortização, mas antes de
considerar juros e impostos.
Fórmula:
EBIT = EBITDA − Depreciações e Amortizações
EBT (Earnings Before Taxes) ou RAI (Resultado antes de imposto): Antes
de ser deduzido a estimativa para impostos sobre o rendimento (IRC), este resultado
visa demonstrar os resultados globais, ou seja, deduz-se ao EBIT ou RO os gastos
com os financiamentos e adicionamos os rendimentos com juros obtidos;
Fórmula:
EBT = EBIT + Receitas Financeiras − Despesas Financeiras
Resultado Líquido do Período (RLP): Ao RAI deduzimos o imposto a pagar,
ou seja, o RLP é o lucro ou prejuízo final da empresa após a dedução de todos os
custos, juros e impostos;
Fórmula:
RL = EBT − Impostos
De salientar, que o aviso nº 6726-A/2011, nos pontos 4.12 a 4.15 refere que:
“4.12 — Todos os itens de rendimentos e de gastos reconhecidos num período
devem ser incluídos nos resultados a menos que um outro capítulo o exija de outro
modo. Informação a ser apresentada na face da demonstração dos resultados
4.13 — A informação mínima a apresentar na face da demonstração dos
resultados consta do respectivo modelo publicado em Portaria.
4.14 — Uma entidade não deve apresentar itens de rendimento e de gasto
como itens extraordinários, quer na face da demonstração dos resultados quer no
anexo.
50
A RELEVÂNCIA DA CONTABILIDADE NA PREVISÃO DA INSOLVÊNCIA NAS ORGANIZAÇÕES.
4.15 — Os itens a apresentar na demonstração dos resultados deverão basear-
se numa classificação que atenda à sua natureza.”
A Demonstração dos Resultados por Natureza oferece uma visão detalhada e
informativa da composição do resultado financeiro de uma empresa, permitindo
análises profundas sobre a eficiência da operação, controlo de custos e direção
estratégica com uma contribuição significativa para a gestão financeira e a tomada de
decisão.
A Demonstração dos Resultados por Naturezas encontra-se no anexo 3.
[Link].2 Demonstração de Resultados por funções
A elaboração da Demonstração dos Resultados por Funções é realizada com
base na classificação das receitas e despesas de acordo com a atividade que as
originou, agrupando-as em categorias como custos de distribuição, custos
administrativos, custos financeiros, proveitos financeiros ou extraordinários. Importa
destacar que os resultados apresentados na Demonstração dos Resultados por
Funções devem ser iguais aos resultados exibidos na Demonstração dos Resultados
por Naturezas, garantindo consistência e coerência nas informações financeiras.
Assim como a Demonstração dos Resultados por Naturezas, esta
demonstração também obedece à Portaria nº 220/2015, de 24 de julho, e deve,
obrigatoriamente, conter os seguintes elementos:
• Identificação da entidade;
• Período a que respeita;
• O modelo adotado;
• A unidade monetária utilizada.
A Demonstração dos Resultados por Funções encontra-se no anexo 4.
51
A RELEVÂNCIA DA CONTABILIDADE NA PREVISÃO DA INSOLVÊNCIA NAS ORGANIZAÇÕES.
[Link] Demonstração Financeira – Demonstração Fluxos de Caixa
A Demonstração de Fluxos de Caixa (DFC) constitui uma das principais
demonstrações financeiras exigidas às entidades que aplicam o Sistema de
Normalização Contabilística (SNC), conforme previsto na Norma Contabilística e de
Relato Financeiro 2 (NCRF 2). Esta demonstração tem como objetivo principal
apresentar informação relevante acerca dos recebimentos e pagamentos em
numerário, incluindo os depósitos à ordem, ocorridos ao longo do ciclo operacional da
empresa.
Através da DFC, é possível analisar as principais origens e utilizações dos
recursos financeiros, tanto em investimentos como em operações de financiamento,
quer por capitais próprios, quer por capitais alheios. Esta visão integrada permite
compreender melhor a estrutura e o comportamento da tesouraria da entidade.
A análise da DFC, quando articulada com outras demonstrações financeiras –
como o Balanço, a Demonstração de Resultados e o Anexo –, possibilita uma
avaliação mais precisa da capacidade da empresa em gerar excedentes de caixa.
Essa capacidade é fundamental não só para honrar compromissos financeiros, como
também para remunerar os sócios, nomeadamente através da distribuição de
dividendos.
A apresentação da DFC encontra-se regulamentada pela Portaria n.º 220/2015,
de 24 de julho (Anexo 5), devendo respeitar os seguintes elementos obrigatórios:
• Identificação da entidade;
• Período a que respeita a demonstração;
• Indicação do modelo utilizado;
• Unidade monetária adotada.
A estrutura da Demonstração de Fluxos de Caixa está dividida em três grandes
blocos, conforme as atividades da empresa:
• Fluxos de caixa das atividades operacionais: incluem os recebimentos de
vendas e serviços prestados, bem como os pagamentos a fornecedores,
encargos com pessoal, contribuições para a Segurança Social e outros
pagamentos operacionais.
52
A RELEVÂNCIA DA CONTABILIDADE NA PREVISÃO DA INSOLVÊNCIA NAS ORGANIZAÇÕES.
• Fluxos de caixa das atividades de investimento: referem-se a pagamentos
com aquisição de ativos fixos tangíveis e intangíveis, investimentos financeiros,
ou ainda recebimentos provenientes da alienação desses ativos, subvenções
ao investimento, juros, dividendos e outros rendimentos similares.
• Fluxos de caixa das atividades de financiamento: dizem respeito aos
recebimentos provenientes de financiamentos obtidos, da realização de capital
social em dinheiro, ou outras formas de cobertura de necessidades de
financiamento, bem como aos pagamentos de juros, dividendos e reduções de
capital.
Adicionalmente, a DFC contempla o dinheiro em caixa e seus equivalentes,
designadamente as contas de caixa (conta 11) e os depósitos à ordem (conta 12),
assim como as aplicações financeiras de elevada liquidez e de curto prazo, registadas
na conta 13.
Entre as principais vantagens da Demonstração de Fluxos de Caixa, destacam-
se:
• Avaliação da liquidez: permite verificar se a empresa possui recursos
suficientes para cumprir as suas obrigações de curto prazo;
• Análise da solvência: avalia a capacidade da entidade em satisfazer os seus
compromissos financeiros a longo prazo;
• Planeamento e apoio à decisão: fornece dados fundamentais para decisões
estratégicas, tais como investimentos, análise de custos e reestruturação de
capital;
• Transparência financeira: complementa o Balanço e a Demonstração de
Resultados, proporcionando uma visão holística e fidedigna da saúde
financeira da empresa.
Em suma, a Demonstração de Fluxos de Caixa representa uma ferramenta
indispensável para a gestão financeira, permitindo avaliar a liquidez, sustentabilidade
e eficiência operacional da empresa, tanto a curto como a longo prazo.
A Demonstração de Fluxos de Caixa encontra-se no anexo 5.
53
A RELEVÂNCIA DA CONTABILIDADE NA PREVISÃO DA INSOLVÊNCIA NAS ORGANIZAÇÕES.
[Link] Demonstração Financeira – Demonstração de Alterações de
Capital Próprio
A Demonstração de Alterações no Capital Próprio (DACP) constitui uma das
demonstrações financeiras obrigatórias no contexto das Normas Internacionais de
Contabilidade e, consequentemente, integra o conjunto de demonstrações exigidas
pelo Sistema de Normalização Contabilística (SNC). Esta demonstração visa
apresentar, de forma sistemática e transparente, todas as alterações verificadas nos
capitais próprios de uma entidade entre duas datas de balanço consecutivas.
De acordo com a legislação vigente, nomeadamente a Portaria n.º 220/2015,
de 24 de julho, Anexo IV, a DACP deve obrigatoriamente conter os seguintes
elementos:
• Identificação da entidade;
• Período a que respeita a demonstração;
• Modelo adotado;
• Unidade monetária utilizada.
A estrutura da DACP evidencia duas grandes categorias de alterações no
capital próprio:
• Variações decorrentes de operações com os detentores de capital, tais
como a realização de capital, os prémios de emissão, reduções de
capital, distribuição de dividendos, cobertura de prejuízos acumulados,
bem como prestações suplementares ou acessórias;
• Resultado integral, o qual corresponde à soma do resultado líquido do
exercício com todas as variações diretamente reconhecidas nos capitais
próprios, sem transitar pela demonstração de resultados.
Esta demonstração permite uma visão alargada da dinâmica do capital próprio,
refletindo não apenas os resultados operacionais da empresa, mas também as
decisões estratégicas relacionadas com a sua estrutura de financiamento, política de
distribuição de resultados e sustentabilidade económica.
A Demonstração de Alterações no Capital Próprio constitui, assim, um
instrumento fundamental para a análise da estabilidade financeira da empresa,
proporcionando aos gestores, investidores e demais stakeholders uma leitura
aprofundada sobre a forma como os lucros são aplicados, seja na remuneração dos
acionistas, seja no reforço da capacidade de investimento e crescimento da entidade.
54
A RELEVÂNCIA DA CONTABILIDADE NA PREVISÃO DA INSOLVÊNCIA NAS ORGANIZAÇÕES.
A Demonstração de Alterações de Capital Próprio encontra-se no anexo 6.
[Link] O Anexo às demonstrações financeiras
O Anexo às Demonstrações Financeiras constitui uma componente essencial
do sistema de relato financeiro de qualquer entidade, assumindo-se como um
instrumento complementar de elevado valor informativo. A sua principal função é
fornecer informações adicionais e explicativas que permitem uma compreensão mais
aprofundada e contextualizada das demonstrações principais, nomeadamente o
Balanço, a Demonstração dos Resultados, a Demonstração de Fluxos de Caixa e a
Demonstração de Alterações no Capital Próprio.
De acordo com o Anexo VI da Portaria n.º 220/2015, de 24 de julho, cada
entidade deve adotar uma sequência numérica própria para a apresentação das notas
explicativas, respeitando a obrigatoriedade de inclusão das notas de 1 a 4, as quais
são reservadas a temas específicos definidos na legislação. Além disso, o ponto 4.17
do Aviso n.º 6726-A/2011 reforça a importância de manter a sistematização e
numeração conforme o modelo legalmente estabelecido, indicando explicitamente
como “não aplicável” as notas que não sejam relevantes à entidade em causa.
Adicionalmente, cada item constante no Balanço e na Demonstração dos Resultados
que seja objeto de esclarecimento deve conter referência cruzada às respetivas notas
do Anexo.
Importância do Anexo às Demonstrações Financeiras
O Anexo desempenha múltiplas funções fundamentais para a transparência, a
conformidade e a utilidade da informação financeira, entre as quais se destacam:
• Esclarecimento de critérios contabilísticos e políticas adotadas: Nas notas
explicativas são detalhados os métodos utilizados para a mensuração de ativos
e passivos, o reconhecimento de rendimentos e gastos, as estimativas
contabilísticas, bem como as depreciações e provisões. Estas informações
permitem compreender de que forma os valores apresentados foram
determinados.
• Apoio à tomada de decisões: As informações complementares constantes no
Anexo são cruciais para investidores, analistas financeiros, credores e outros
55
A RELEVÂNCIA DA CONTABILIDADE NA PREVISÃO DA INSOLVÊNCIA NAS ORGANIZAÇÕES.
stakeholders, permitindo-lhes avaliar com maior rigor o desempenho
económico-financeiro da entidade.
• Cumprimento normativo e regulatório: A elaboração e divulgação do Anexo
é uma exigência imposta pelas Normas Internacionais de Relato Financeiro
(IFRS), pelas Normas Contabilísticas e de Relato Financeiro (NCRF), bem
como pelos princípios contabilísticos geralmente aceites, assegurando a
conformidade da entidade com o quadro legal e normativo aplicável.
• Análise de riscos e incertezas: O Anexo permite divulgar riscos financeiros e
operacionais relevantes, tais como riscos cambiais, de crédito, de mercado,
bem como litígios em curso ou alterações legais com impacto potencial na
atividade da empresa.
• Divulgação de eventos subsequentes: São igualmente incluídas
informações sobre eventos relevantes ocorridos após a data de encerramento
do exercício, como fusões, aquisições, alterações no capital social, ou
modificações nas condições de financiamento que possam ter impacto material
sobre a situação financeira da entidade.
• Facilitação do trabalho de auditoria e análise externa: As notas explicativas
constituem um suporte fundamental para os auditores e analistas financeiros,
uma vez que fornecem elementos adicionais que permitem validar, cruzar e
compreender a consistência das práticas contabilísticas utilizadas.
Em síntese, o Anexo às Demonstrações Financeiras reforça a transparência e
integridade do relato financeiro, sendo indispensável para assegurar uma
comunicação clara e completa da posição financeira e do desempenho da entidade.
Trata-se de uma ferramenta imprescindível à análise e à avaliação da saúde
financeira, promovendo a confiança dos utilizadores da informação contabilística,
internos e externos.
56
A RELEVÂNCIA DA CONTABILIDADE NA PREVISÃO DA INSOLVÊNCIA NAS ORGANIZAÇÕES.
2.3.3 Relatório de Gestão
O Relatório de Gestão constitui um instrumento fundamental de prestação de
contas e de comunicação entre a administração da entidade e os seus stakeholders.
Trata-se de um documento explicativo que complementa as demonstrações
financeiras, apresentando um conjunto de informações de natureza económica,
financeira e estratégica, que traduzem a situação patrimonial da empresa no momento
presente, assim como as perspetivas de desenvolvimento futuro da atividade.
Nos termos do disposto no n.º 1 do artigo 65.º do Código das Sociedades
Comerciais (CSC), os membros da administração têm a responsabilidade de:
“1 - Os membros da administração devem elaborar e submeter aos órgãos
competentes da sociedade o relatório de gestão, incluindo a demonstração não
financeira ou o relatório separado com essa informação, ambos referidos nos artigos
66.º-B e 508.º-G, quando aplicáveis, as contas do exercício, bem como os demais
documentos de prestação de contas previstos na lei, relativos a cada exercício anual.”
Adicionalmente, o artigo 66.º CSC, define o conteúdo mínimo obrigatório deste
relatório, estabelecendo que:
“1 - O relatório de gestão deve conter, pelo menos, uma exposição fiel e clara
da evolução dos negócios, do desempenho e da posição da sociedade, bem como
uma descrição dos principais riscos e incertezas com que a mesma se defronta.
O n.º 5 do referido artigo detalha, de forma mais específica, os elementos que
devem constar no Relatório de Gestão:
a) A evolução da gestão nos diferentes sectores em que a sociedade exerceu
actividade, designadamente no que respeita a condições do mercado,
investimentos, custos, proveitos e actividades de investigação e
desenvolvimento;
b) Os factos relevantes ocorridos após o termo do exercício;
c) A evolução previsível da sociedade;
d) O número e o valor nominal ou, na falta de valor nominal, o valor contabilístico
das quotas ou ações próprias adquiridas ou alienadas durante o período, a
fração do capital subscrito que representam, os motivos desses atos e o
57
A RELEVÂNCIA DA CONTABILIDADE NA PREVISÃO DA INSOLVÊNCIA NAS ORGANIZAÇÕES.
respetivo preço, bem como o número e valor nominal ou contabilístico de todas
as quotas e ações próprias detidas no fim do período;
e) As autorizações concedidas a negócios entre a sociedade e os seus
administradores, nos termos do artigo 397.º;
f) Uma proposta de aplicação de resultados devidamente fundamentada.
g) A existência de sucursais da sociedade.
h) Os objectivos e as políticas da sociedade em matéria de gestão dos riscos
financeiros, incluindo as políticas de cobertura de cada uma das principais
categorias de transacções previstas para as quais seja utilizada a
contabilização de cobertura, e a exposição por parte da sociedade aos riscos
de preço, de crédito, de liquidez e de fluxos de caixa, quando materialmente
relevantes para a avaliação dos elementos do activo e do passivo, da posição
financeira e dos resultados, em relação com a utilização dos instrumentos
financeiros.”
Em síntese, o Relatório de Gestão é um documento estratégico e analítico, que
visa reforçar a transparência da gestão, apoiar a tomada de decisões informadas e
garantir a sustentabilidade e responsabilidade empresarial. A sua elaboração
cuidadosa permite uma leitura mais completa da situação da empresa, fomentando a
confiança dos investidores, a credibilidade da administração e a qualidade da
governação corporativa.
2.3.4 Ata de aprovação de contas
A ata de aprovação de contas constitui um documento oficial e indispensável
no contexto da prestação de contas das entidades empresariais. Através desta ata, é
registada a decisão tomada por um órgão deliberativo – como a assembleia geral de
sócios, acionistas ou membros de uma organização – relativamente à aprovação ou
não das demonstrações financeiras e da prestação de contas correspondentes a um
determinado exercício económico.
Nos termos do n.º 2 do artigo 63.º do Código das Sociedades Comerciais
(CSC), as deliberações dos sócios devem constar obrigatoriamente em ata, sendo
esta lavrada no respetivo livro de atas. O conteúdo mínimo da ata, conforme previsto
na legislação, deve incluir:
58
A RELEVÂNCIA DA CONTABILIDADE NA PREVISÃO DA INSOLVÊNCIA NAS ORGANIZAÇÕES.
“a) A identificação da sociedade, o lugar, o dia e a hora da reunião;
b) O nome do presidente e, se os houver, dos secretários;
c) Os nomes dos sócios presentes ou representados e o valor nominal das partes
sociais, quotas ou acções de cada um, salvo nos casos em que a lei mande organizar
lista de presenças, que deve ser anexada à acta;
d) A ordem do dia constante da convocatória, salvo quando esta seja anexada à acta;
e) Referência aos documentos e relatórios submetidos à assembleia;
f) O teor das deliberações tomadas;
g) Os resultados das votações;
h) O sentido das declarações dos sócios, se estes o requererem. “
Para garantir a sua validade jurídica, a ata deve ser assinada e rubricada por
todos os participantes da assembleia, refletindo assim a autenticidade dos factos
deliberados.
59
A RELEVÂNCIA DA CONTABILIDADE NA PREVISÃO DA INSOLVÊNCIA NAS ORGANIZAÇÕES.
Importância da Ata de Aprovação de Contas
A elaboração e conservação da ata de aprovação de contas reveste-se de
especial relevância por diversas razões, nomeadamente:
• Registo Formal: Funciona como prova documental da aprovação (ou
reprovação) das contas anuais, incluindo as deliberações tomadas, os
resultados das votações e eventuais observações dos sócios.
• Transparência e Conformidade Legal: Assegura que a entidade cumpre com
os requisitos legais e regulamentares em matéria de governação e prestação
de contas.
• Proteção Jurídica: Constitui uma salvaguarda para os órgãos de gestão e para
a própria entidade, evidenciando que as decisões foram tomadas de forma
legal, informada e com base em documentos oficiais.
• Validação das Demonstrações Financeiras: Confere legitimidade às
demonstrações financeiras, evidenciando a aceitação e confiança dos sócios
na veracidade dos dados financeiros apresentados.
• Transparência Interna e Externa: Favorece uma comunicação clara, coerente
e acessível das decisões tomadas relativamente às contas, contribuindo para
a confiança dos stakeholders.
• Base para Ações Futuras: Permite o registo de orientações adicionais,
recomendações ou decisões estratégicas que possam orientar a gestão e a
atividade futura da organização.
Em síntese, a ata de aprovação de contas representa um elemento essencial
no processo de relato financeiro, sendo um pilar da boa governação corporativa, da
transparência organizacional e da responsabilidade na gestão das entidades
empresariais.
60
A RELEVÂNCIA DA CONTABILIDADE NA PREVISÃO DA INSOLVÊNCIA NAS ORGANIZAÇÕES.
2.3.5 Conclusão do capítulo
As demonstrações financeiras representam um instrumento essencial no
contexto da informação económico-financeira, fornecendo aos seus utilizadores
dados relevantes sobre os ativos e passivos de uma entidade na data de relato, bem
como sobre os gastos incorridos e os ganhos obtidos ao longo do período de
referência. Para além disso, evidenciam o fluxo de recursos entre diferentes períodos,
permitindo avaliar a evolução financeira da entidade.
Estas informações são particularmente úteis na medida em que permitem aos
stakeholders analisar a capacidade da entidade para cumprir as suas obrigações
financeiras, manter a continuidade da sua operação e prestar bens e serviços de forma
sustentada. Adicionalmente, facilitam a identificação dos recursos que serão
necessários para garantir a continuidade das atividades no futuro, cumprindo assim
com os compromissos assumidos.
As demonstrações financeiras constituem, assim, uma representação
estruturada da posição financeira e do desempenho económico de uma organização.
O seu principal objetivo é disponibilizar, de forma clara e compreensível, informações
úteis sobre a situação financeira, o desempenho e os fluxos de caixa da entidade, de
modo a apoiar um vasto conjunto de utilizadores na tomada de decisões
fundamentadas, nomeadamente no que se refere à afetação de recursos (EC, 2003,
§§ 12 a 14).
Um dos pilares do Sistema de Normalização Contabilística (SNC) é a Base para
a Apresentação de Demonstrações Financeiras (BADF), que estabelece os requisitos
essenciais para garantir a comparabilidade das demonstrações financeiras entre
diferentes entidades. Esta comparabilidade é fundamental para assegurar a coerência
na comunicação financeira e promover uma análise fidedigna por parte dos
utilizadores da informação (SNC, 2018).
Na tabela seguinte, são apresentados os principais conceitos definidos pela
BADF, que servem de base para a elaboração e interpretação das demonstrações
financeiras:
61
A RELEVÂNCIA DA CONTABILIDADE NA PREVISÃO DA INSOLVÊNCIA NAS ORGANIZAÇÕES.
BADF Conceito
As demonstrações financeiras são elaboradas com base no
Continuidade pressuposto da continuidade, ou seja, nos próximos 12 meses.
(§2.2) Caso a continuidade esteja dependente de determinadas
circunstâncias, tal facto deve ser divulgado no anexo.
Regime do As demonstrações financeiras devem ser preparadas de acordo
acréscimo (§2.3) com o regime de acréscimo, com a exceção da demonstração
dos fluxos de caixa.
Consistência de A apresentação e classificação dos diferentes elementos nas
apresentação demonstrações financeiras deve ser mantida de um período para
(§2.4) o outro (exceto se existir alguma exigência em contrário).
Cada classe material de elementos semelhantes deve ser
apresentada separadamente nas demonstrações financeiras,
Materialidade e
sendo que uma informação é materialmente relevante se a sua
agregação (§2.5)
incorreção ou omissão puder influenciar as decisões dos
utilizadores.
Compensação A compensação de ativos e passivos, rendimentos e gastos não
(§2.6) é permitida, exceto se tiver prevista numa NCRF.
Informação A informação comparativa deve ser divulgada com respeito ao
comparativa período anterior, podendo ser apresentada a informação
(§2.7) descritiva.
Tabela 4 - Base de apresentação das demonstrações financeiras (BADF)
Fonte: Adaptado Anexo ao Decreto-Lei nº 158/2009, 13 julho
62
A RELEVÂNCIA DA CONTABILIDADE NA PREVISÃO DA INSOLVÊNCIA NAS ORGANIZAÇÕES.
2.4 Revisão de literatura III – Análise Económico-financeira
63
A RELEVÂNCIA DA CONTABILIDADE NA PREVISÃO DA INSOLVÊNCIA NAS ORGANIZAÇÕES.
2.4.1 Análise Financeira
A análise financeira constitui um instrumento fundamental na avaliação da
situação económico-financeira de uma organização, permitindo interpretar os dados
contabilísticos com o objetivo de extrair conclusões relevantes para a tomada de
decisões estratégicas. Trata-se de um processo sustentado num conjunto de técnicas
e indicadores financeiros que visa identificar pontos fortes e fracos da empresa,
acompanhar a sua evolução ao longo do tempo e propor medidas de correção ou
reforço, quando necessário.
Segundo Fernandes et al. (2022), a análise financeira “equivale à realização de
uma radiografia da empresa, numa perspetiva de evolução temporal, detetando
pontos fortes e fracos e propondo medidas que ultrapassem possíveis fraquezas
detetadas”. Esta abordagem implica não apenas a leitura objetiva dos dados, mas a
sua interpretação crítica no contexto da realidade económica da organização.
Um dos principais instrumentos desta análise é a utilização de rácios
financeiros, que, de acordo com Fernandes et al. (2022), consistem numa “relação
entre dois elementos económicos que tem uma relação de coerência ou de
correlação”. Estes rácios permitem analisar diferentes dimensões da atividade
empresarial, tais como a liquidez, rentabilidade, eficiência operacional, solvência e
estrutura de capital, oferecendo assim uma perspetiva global da sua saúde financeira.
A sua importância é amplamente reconhecida na literatura especializada.
Cunha (2013) destaca que os rácios financeiros proporcionam uma avaliação
quantitativa dos dados extraídos das demonstrações financeiras – nomeadamente o
balanço, a demonstração dos resultados e a demonstração de fluxos de caixa –
sendo utilizados em contextos diversos como análise interna de gestão, avaliação de
risco de crédito, decisões de investimento, entre outros.
A aplicação sistemática de rácios facilita ainda a comparação entre diferentes
períodos de uma mesma empresa e entre empresas do mesmo sector, o que permite
aferir tendências, aferir competitividade e identificar potenciais desequilíbrios. Neste
sentido, os rácios constituem um instrumento sintético, que resume grandes volumes
de informação financeira de forma inteligível, como refere Cunha (2013): “embora não
sejam um “medicamento” que cura os problemas das empresas, permitem, contudo,
identificar possíveis “doenças””.
64
A RELEVÂNCIA DA CONTABILIDADE NA PREVISÃO DA INSOLVÊNCIA NAS ORGANIZAÇÕES.
A utilização de rácios como instrumento de previsão da falência empresarial
ganhou notoriedade com os modelos de Altman (1968) e Beaver (1966), que
demonstraram a sua eficácia enquanto ferramentas de análise preventiva (Neves,
2014). Contudo, como salienta Nabais (2021), a sua aplicação exige uma análise
integrada e contextualizada, pois só a interpretação conjunta de múltiplos rácios pode
garantir uma avaliação fiável e completa da condição económica da organização.
Neste sentido, Encarnação (2009) reforça que a análise por rácios permite
estabelecer relações significativas entre diferentes rubricas contabilísticas,
proporcionando uma leitura mais conclusiva do que seria possível apenas com os
valores absolutos. No entanto, conforme destaca Anjos (2021), apesar de a
informação financeira ser objetiva, a sua análise comporta sempre uma componente
subjetiva, determinada pelo conhecimento, experiência e objetivos específicos do
analista. Diferentes analistas podem chegar a conclusões distintas a partir da mesma
informação, o que reforça a necessidade de clarificar previamente os objetivos da
análise.
Importa ainda salientar que os rácios baseiam-se em dados do passado e são
de natureza eminentemente quantitativa. Por essa razão, não são suficientes por si
só para avaliar plenamente a condição da empresa nem prever, com segurança, o
seu desempenho futuro. Assim, deve sempre complementar-se esta análise com
informação qualitativa, a fim de assegurar conclusões mais sólidas e fundamentadas
(Anjos, 2021).
Num contexto de crescente complexidade dos mercados e elevado risco
financeiro, a administração financeira e a gestão estratégica convergem como duas
dimensões indissociáveis. A gestão financeira deve ser integrada num planeamento
estratégico global, que oriente a organização no sentido da sua sustentabilidade e
competitividade a médio e longo prazo, mesmo em cenários de incerteza e mudança
(Cunha, 2013).
Na atualidade, grande parte das empresas enfrenta riscos financeiros
significativos, o que exige uma gestão criteriosa dos recursos disponíveis, de modo a
garantir a sua capacidade de financiar projetos de crescimento, desenvolvimento e
inovação (Neves, 2012). Por conseguinte, a compreensão rigorosa da situação
65
A RELEVÂNCIA DA CONTABILIDADE NA PREVISÃO DA INSOLVÊNCIA NAS ORGANIZAÇÕES.
económico-financeira da empresa torna-se indispensável para que se possam tomar
decisões adequadas à realidade concreta da organização.
Neste sentido, a análise financeira oferece as informações essenciais ao
processo de tomada de decisão, conferindo-lhe um carácter lógico, fundamentado e
objetivo. Esta análise deve centrar-se em questões cruciais para o funcionamento e
crescimento da empresa, tais como: equilíbrio financeiro, rentabilidade, liquidez,
endividamento, risco e crescimento sustentável (Sá Silva, 2023).
A importância da análise financeira estende-se a vários grupos de interessados,
incluindo:
• Investidores, que avaliam o potencial da empresa antes de aplicar os
seus recursos;
• Instituições financeiras, que analisam os balanços e resultados antes de
conceder crédito;
• Trabalhadores e sindicatos, para fundamentar negociações salariais;
• Administração fiscal, para garantir a exatidão dos impostos devidos;
• Acionistas, interessados em acompanhar a evolução dos seus
investimentos;
• Clientes e fornecedores, que procuram estabilidade e continuidade nas
relações comerciais;
• Concorrentes, que comparam a sua performance com os principais
atores do sector;
• Gestores da própria empresa, que utilizam a informação para planear,
controlar e avaliar as suas atividades e decisões.
Assim, a análise financeira constitui um instrumento de apoio à decisão
imprescindível à gestão moderna, sendo uma peça fundamental para a
sustentabilidade e competitividade das organizações no contexto empresarial atual.
66
A RELEVÂNCIA DA CONTABILIDADE NA PREVISÃO DA INSOLVÊNCIA NAS ORGANIZAÇÕES.
2.4.2 Gestão Financeira – Aplicabilidade da Análise Financeira
A avaliação financeira desempenha um papel central no processo de tomada
de decisão nas organizações, sendo considerada um instrumento imprescindível à
gestão estratégica e operacional. De acordo com Sá Silva (2023), a avaliação
financeira é essencial por proporcionar uma base sólida e fundamentada para as
decisões empresariais, permitindo alinhar os recursos financeiros disponíveis com os
objetivos estratégicos definidos pela organização.
Através da análise de indicadores financeiros, da leitura de relatórios de
desempenho e da elaboração de projeções económico-financeiras, os gestores e os
investidores encontram suporte técnico para formular decisões mais informadas,
reduzir custos, otimizar recursos e identificar eventuais desequilíbrios que possam
comprometer a estabilidade da organização. Esta informação, quando bem
interpretada, torna-se um instrumento de apoio à ação racional e sustentada,
diminuindo a incerteza que naturalmente acompanha a gestão empresarial.
A análise financeira, neste contexto, cumpre várias funções críticas para a
saúde e sustentabilidade da empresa, podendo ser agrupadas em três domínios
principais:
1. Avaliação do equilíbrio financeiro: A análise permite aferir a capacidade da
empresa para manter uma relação estável entre os seus recursos próprios e
alheios, bem como garantir o financiamento adequado das suas atividades
correntes. O equilíbrio financeiro é fundamental para assegurar a solvência a
curto e médio prazo e evitar ruturas de tesouraria.
2. Avaliação da rendibilidade da empresa: Permite medir a eficiência com que
os recursos da empresa estão a ser utilizados para gerar resultados, através
da análise de rácios como a rendibilidade do ativo, dos capitais próprios e das
vendas. Esta vertente é essencial para os investidores e acionistas, uma vez
que traduz a capacidade da empresa de gerar valor.
3. Avaliação do risco económico: A análise financeira contribui para identificar
e quantificar os riscos associados à atividade da empresa, seja ao nível da
exposição ao endividamento, da sensibilidade a variações nos custos
operacionais ou da vulnerabilidade a alterações do mercado. Este diagnóstico
67
A RELEVÂNCIA DA CONTABILIDADE NA PREVISÃO DA INSOLVÊNCIA NAS ORGANIZAÇÕES.
é vital para antecipar cenários adversos e definir estratégias de mitigação
adequadas.
Em síntese, a avaliação financeira ultrapassa a sua tradicional função de
instrumento de análise ex post, assumindo-se como uma ferramenta estratégica
integrada no processo de planeamento, monitorização e controlo da gestão
empresarial. O seu contributo revela-se essencial para uma governação mais
eficiente, informada e transparente, promovendo decisões sustentadas e alinhadas
com os objetivos de criação e preservação de valor no seio da organização.
[Link] Equilíbrio Financeiro
O equilíbrio financeiro constitui um pressuposto fundamental para a
sustentabilidade e continuidade da atividade empresarial. Este equilíbrio traduz-se na
capacidade da organização manter uma estrutura financeira sólida e funcional, capaz
de responder eficazmente aos riscos inerentes à sua atividade e de assegurar, de
forma consistente, os recursos financeiros necessários ao financiamento das suas
operações correntes.
Neste enquadramento, o equilíbrio financeiro reflete-se na harmonia entre as
fontes de financiamento (capitais próprios e alheios) e os investimentos realizados,
tendo sempre como referência a adequação temporal entre os meios disponíveis e as
necessidades financeiras da empresa. Trata-se, assim, de uma correspondência
equilibrada entre os prazos de exigibilidade dos passivos e a maturidade dos ativos,
garantindo a capacidade da empresa honrar os seus compromissos financeiros de
curto, médio e longo prazo, de forma sustentável e previsível (Vilela, 2025).
A análise do equilíbrio financeiro deve, por isso, considerar duas dimensões
temporais essenciais:
Curto prazo: Avaliação da capacidade da empresa para fazer face aos
compromissos imediatos, assegurando a liquidez necessária para cumprir obrigações
com fornecedores, trabalhadores, Estado, entre outros.
Médio e longo prazo: Exame da estrutura de capitais e da solvabilidade da
empresa, garantindo que os recursos obtidos são adequados ao financiamento dos
ativos duradouros e à sustentabilidade financeira futura.
68
A RELEVÂNCIA DA CONTABILIDADE NA PREVISÃO DA INSOLVÊNCIA NAS ORGANIZAÇÕES.
A manutenção do equilíbrio financeiro é, pois, uma condição indispensável para
a resiliência e competitividade da empresa, sendo simultaneamente um indicador de
boa governação financeira e uma referência central para investidores, credores e
demais stakeholders.
[Link] Equilíbrio Financeiro a Curto Prazo
O equilíbrio financeiro a curto prazo diz respeito à capacidade da empresa de
manter uma relação equilibrada entre os seus ativos e passivos correntes,
assegurando que dispõe de recursos suficientes para satisfazer as suas obrigações
de curto prazo, sem necessidade de recorrer, de forma excessiva, a financiamento
externo de emergência. Este equilíbrio é essencial para a estabilidade operacional da
organização e constitui um dos primeiros indicadores da sua solidez financeira.
Entre os aspetos centrais desta análise destaca-se a liquidez, entendida como
a capacidade de converter ativos em numerário de forma célere e sem perda
significativa de valor. A presença de níveis adequados de liquidez é fundamental para
garantir o funcionamento normal da empresa, uma vez que as dívidas de curto prazo
são, geralmente, aquelas que exercem maior pressão sobre a tesouraria e a gestão
corrente da organização.
A liquidez geral, enquanto indicador sintético do equilíbrio financeiro a curto
prazo, corresponde ao chamado fundo de maneio, isto é, à diferença entre os ativos
correntes e os passivos correntes. Segundo, Cunha (2013), este indicador é como
uma “reserva de segurança” da empresa face às suas responsabilidades imediatas,
sendo por isso de particular interesse para os credores e entidades financeiras.
Neste sentido, quanto mais elevado for o valor do rácio de liquidez geral, maior
será a capacidade da empresa para fazer face aos seus compromissos financeiros de
curto prazo, o que reflete uma situação de menor vulnerabilidade e maior autonomia
na gestão dos fluxos de caixa. A monitorização contínua deste indicador permite não
apenas assegurar o cumprimento pontual das obrigações, mas também reforçar a
confiança dos stakeholders e prevenir situações de rutura financeira.
Assim, o equilíbrio financeiro a curto prazo, avaliado sobretudo através da
análise da liquidez, constitui um pilar essencial da gestão financeira prudente,
contribuindo para a continuidade das operações e para a capacidade de resposta
imediata da empresa em ambientes de incerteza ou pressão de mercado.
69
A RELEVÂNCIA DA CONTABILIDADE NA PREVISÃO DA INSOLVÊNCIA NAS ORGANIZAÇÕES.
Ativo Corrente
Liquidez Geral =
Passivo Corrente
LIQUIDEZ GERAL
Valor
Valor aceitável Valor critico
Liquidez Geral Ideal
≥2 1,5 ≥ LG ≥ 1,3 <1
A liquidez geral é um indicador financeiro que mede a capacidade de uma
empresa cumprir as suas obrigações de curto, médio e longo prazo com os
seus ativos correntes disponíveis. (Cunha, 2013)
EQUILIBRIO FINANCEIRO A CURTO PRAZO
Ativo Corrente - Inventários
Liquidez Reduzida =
Passivo Corrente
LIQUIDEZ REDUZIDA
Valor
Valor aceitável Valor critico
Liquidez Reduzida Ideal
≥2 1,5 ≥ LR ≥ 1,3 <1
A liquidez reduzida é um rácio que avalia a capacidade de uma empresa
honrar as suas obrigações de curto prazo com os ativos líquidos excluindo os
stocks. A razão para excluir os stocks é que estes podem não ser
rapidamente convertidos em dinheiro, especialmente em emergências
financeiras. Este índice é importante porque, em momentos de crise ou
necessidade de caixa imediato, os stocks podem não ser uma fonte rápida de
liquidez. (Cunha, 2013)
Meios Financeiros Líquidos
Liquidez Imediata =
Passivo Corrente
LIQIDEZ IMEDIATA
Valor
Valor aceitável Valor critico
Liquidez Imediata Ideal
≥1 =1 <1
A liquidez imediata é um índice financeiro que mede a capacidade de uma
empresa pagar as suas obrigações de curto prazo com apenas os ativos mais
líquidos, ou seja, aqueles que podem ser convertidos imediatamente em
dinheiro, como disponibilidades (caixa e equivalentes de caixa). (Cunha,
2013)
Tabela 5 – Indicadores de liquidez
Fonte: Elaboração própria (2024).
70
A RELEVÂNCIA DA CONTABILIDADE NA PREVISÃO DA INSOLVÊNCIA NAS ORGANIZAÇÕES.
[Link] Equilíbrio Financeiro a Médio e Longo Prazo
O equilíbrio financeiro a médio e longo prazo refere-se à capacidade de uma
organização para manter uma estrutura financeira sólida, estável e sustentável,
assegurando que os seus ativos de longo prazo estão devidamente financiados por
capitais igualmente duradouros e que os compromissos assumidos ao longo do tempo
poderão ser cumpridos sem comprometer a viabilidade da empresa.
De acordo com Fernandes et al. (2022), este equilíbrio é determinante para
garantir que a empresa possa prosseguir as suas operações de forma estruturada,
sustentando o seu desenvolvimento sem enfrentar desequilíbrios financeiros
estruturais. Trata-se, pois, de uma condição essencial para a continuidade da
atividade económica, para a resiliência perante choques externos e para a capacidade
de geração de valor ao longo do tempo.
Importância do Equilíbrio Financeiro a Médio e Longo Prazo
A avaliação da sustentabilidade financeira numa perspetiva de médio e longo
prazo permite compreender a verdadeira robustez da organização e a coerência entre
os recursos utilizados e os investimentos realizados. Entre os principais benefícios
associados à manutenção deste equilíbrio, destacam-se:
Sustentabilidade operacional: Garante que a empresa pode realizar
investimentos em ativos fixos sem colocar em risco a sua estabilidade financeira,
contribuindo para uma gestão prudente e coerente com os seus objetivos de longo
prazo.
Crescimento sustentado: Uma estrutura de capitais bem equilibrada e uma
gestão eficiente dos passivos de longo prazo possibilitam à organização expandir as
suas operações com menor exposição a riscos financeiros, reforçando a sua
capacidade competitiva.
Mitigação de riscos financeiros: Empresas financeiramente equilibradas a
longo prazo revelam-se menos vulneráveis a situações de alavancagem excessiva e
possuem maior flexibilidade para responder a variações macroeconómicas, como
flutuações nas taxas de juro ou recessões.
Capacidade de investimento e inovação: Uma base financeira sólida
proporciona à organização maior margem de manobra para investir em inovação,
71
A RELEVÂNCIA DA CONTABILIDADE NA PREVISÃO DA INSOLVÊNCIA NAS ORGANIZAÇÕES.
diversificação e melhoria dos processos, sem depender excessivamente de capital
alheio, o que favorece a sua autonomia estratégica (Fernandes et al., 2022).
Práticas para Manter o Equilíbrio Financeiro a Médio e Longo Prazo
A preservação do equilíbrio financeiro a médio e longo prazo exige a adoção
de políticas de gestão financeira prudentes e orientadas para o futuro. Segundo
Fernandes et al., (2022), algumas das práticas recomendadas incluem:
Alinhamento entre investimentos e fontes de financiamento:
Financiamento de ativos duradouros com recursos de longo prazo, evitando o uso de
capitais de curto prazo, como créditos bancários de curto vencimento, para suportar
investimentos em imobilizado.
Controlo rigoroso do endividamento: Estabelecer uma relação equilibrada
entre capital próprio e passivo, assegurando que a estrutura de financiamento não
coloque em causa a solvência da empresa.
Acompanhamento permanente do fluxo de caixa: Monitorização contínua
das entradas e saídas de tesouraria, garantindo que os recursos operacionais gerados
são suficientes para suportar não apenas os custos correntes, mas também os
encargos financeiros de médio e longo prazo.
Constituição de reservas e fundos de segurança: Manutenção de níveis
adequados de liquidez ou reservas de caixa, capazes de responder a situações
imprevistas, reduzindo a dependência de financiamento externo de emergência.
A ausência de uma visão alargada, que considere apenas o equilíbrio de curto
prazo, poderá comprometer a estabilidade futura da organização. Uma análise
integrada, que contemple simultaneamente os horizontes de curto, médio e longo
prazo, é fundamental para garantir a continuidade operacional e a sustentabilidade
financeira.
Neste contexto, torna-se imperioso avaliar a capacidade da empresa para
cumprir os seus compromissos de longo prazo, mas também compreender a origem
e estrutura dos recursos que sustentam as suas operações. Como refere Cunha
(2013), só através desta análise alargada será possível preservar as condições
essenciais para o funcionamento normal da empresa e, consequentemente, assegurar
a sua viabilidade futura.
72
A RELEVÂNCIA DA CONTABILIDADE NA PREVISÃO DA INSOLVÊNCIA NAS ORGANIZAÇÕES.
Capital Próprio
Solvabilidade =
Capital Alheio
SOLVABILIDADE Solvabilidade
Valor Ideal Valor aceitável Valor critíco
≥ 0,5 ≥ 0,35 < 0,35
A Solvabilidade é um conceito que refere à capacidade de uma empresa
honrar os seus compromissos a médio e longo prazo. (Cunha, 2013)
Capital Próprio
AUTONOMIA FINANCEIRA
Autonomia Financeira =
Ativo Total
EQUILIBRIO FINANCEIRO A MÉDIO E LONGO PRAZO
Valor Ideal Valor aceitável Valor critíco
Autonomia Financeira
≥ 0,5 ≥ 0,25 < 0,25
A autonomia financeira de uma empresa traduz-se na capacidade de financiar
o seu ativo com os seus capitais próprios, sem a necessidade de recorrer a
empréstimos (capital de alheio). Trata-se de um indicador particularmente
apreciado pelos especialistas em crédito, auxiliando na avaliação do risco
relacionada à estrutura financeira do negócio. (Cunha, 2013)
Capital Alheio
Endividamento =
Capital Total
Valor Ideal Valor aceitável Valor critíco
Endividamento
≥ 0,5 0,5 ≥ X ≥ 0,65 < 0,65
O rácio de endividamento é complementar ao de autonomia financeira, pois
indica a dependência da empresa em relação ao capital alheio, representando
ENDIVIDAMENTO
a proporção do passivo em relação ao total de fontes de financiamento da
empresa. (Cunha, 2013)
Capital Alheio de Curto Prazo
Estrutura do Endividamento =
Estrutura do Endividamento
Capital Alheio
A estrutura do endividamento avalia a estrutura temporal do capital alheio,
averiguando se o endividamento da empresa incide, maioritariamente, no
curto prazo ou no médio e longo prazo.
Através deste rácio analisa-se que quanto maior o valor deste rácio, maior
o endividamento a curto prazo, o que pode exercer uma situação de
constrangimento na tesouraria. Por outro lado, quanto maior o capital
alheio de médio e longo prazo, em comparação com o de curto prazo,
melhor para a solidez e equilíbrio financeira da empresa. (Cunha, 2013)
Tabela 6 - Solvabilidade, Autonomia Financeira e Endividamento
Fonte: Elaboração própria
73
A RELEVÂNCIA DA CONTABILIDADE NA PREVISÃO DA INSOLVÊNCIA NAS ORGANIZAÇÕES.
2.4.3 Rendibilidade da Empresa
A rentabilidade representa a capacidade de uma empresa gerar lucros a partir
das suas operações e investimentos, constituindo-se como um dos indicadores mais
relevantes para avaliar a eficácia da gestão e o desempenho económico-financeiro da
organização. De acordo com Neves (2012), trata-se de um elemento essencial para
aferir não apenas o sucesso das decisões operacionais, mas também a
sustentabilidade da empresa ao longo do tempo.
Neste contexto, a análise financeira desempenha um papel determinante ao
permitir medir a capacidade da empresa para obter ganhos superiores aos custos
incorridos, como resultado de uma gestão eficaz e racional dos recursos disponíveis
— sejam eles financeiros, materiais ou humanos (Fernandes et al., 2022).
De forma geral, a avaliação da rentabilidade pode ser conduzida sob duas
perspetivas complementares:
• A perspetiva operacional, que relaciona os resultados obtidos com o volume
de negócios, avaliando a eficácia da atividade corrente da empresa;
• A perspetiva estratégica, que relaciona os resultados com o investimento
realizado, aferindo o retorno gerado pelos capitais aplicados.
Para ambas as abordagens, recorre-se à utilização de rácios e indicadores
financeiros específicos, os quais proporcionam uma visão quantitativa da eficiência na
gestão dos recursos e da capacidade da empresa em gerar valor económico (Cunha,
2013). Entre os mais utilizados destacam-se o rácio da rentabilidade do ativo, da
rentabilidade dos capitais próprios e da margem líquida de resultados.
A importância da rentabilidade transcende a mera obtenção de lucro
contabilístico, assumindo um papel estruturante na definição de estratégias de
crescimento e sustentabilidade empresarial. A sua relevância manifesta-se em
múltiplas dimensões, nomeadamente:
• Sustentabilidade do negócio, assegurando a continuidade da atividade em
condições económicas viáveis;
• Capacidade de investimento e expansão, permitindo reinvestir lucros em
projetos de desenvolvimento e inovação;
74
A RELEVÂNCIA DA CONTABILIDADE NA PREVISÃO DA INSOLVÊNCIA NAS ORGANIZAÇÕES.
• Atratividade junto de investidores e instituições financeiras, reforçando a
confiança dos stakeholders;
• Criação de valor, tanto para os acionistas como para a própria organização;
• Melhoria da eficiência operacional, ao permitir identificar áreas de
desperdício e otimização de recursos;
• Resiliência em contextos adversos, como crises económicas ou instabilidade
de mercado;
• Capacidade de inovação, essencial para manter a competitividade e
responder às exigências do mercado;
• Diferenciação estratégica, através da criação de vantagens competitivas
sustentadas;
• Reforço da credibilidade e reputação no mercado, potenciando relações
comerciais e institucionais duradouras;
• Contributo para o impacto social e a sustentabilidade ambiental,
integrando a criação de valor económico com responsabilidade social.
Assim, a análise da rentabilidade ultrapassa a simples medição do resultado
líquido, assumindo-se como um instrumento estratégico de diagnóstico e
planeamento, indispensável para a tomada de decisões fundamentadas, tanto ao nível
operacional como na definição de orientações futuras. É, portanto, um indicador
transversal que apoia o crescimento sustentável e a criação de valor duradouro no
contexto empresarial contemporâneo.
75
A RELEVÂNCIA DA CONTABILIDADE NA PREVISÃO DA INSOLVÊNCIA NAS ORGANIZAÇÕES.
OPERACIONAL DAS
Rendibilidade operacional Resultado Operacional X 100
RENDIBILIDADE das vendas (ROV)= Volume de negócios
VENDAS Este indicador mede o retorno em relação ao resultado operacional (antes de
gastos de financiamento e impostos) obtido a partir do volume de negócios
realizado durante o período. Ou seja, mede a eficiência com que a empresa
gera o lucro a partir das operações principais em relação às vendas, sendo um
indicador fundamental para avaliar o desempenho financeiro da empresa e a
capacidade de converter as vendas em lucro (Fernandes et al., 2022).
RENDIBILIDADE LÍQUIDA
Rendibilidade líquidas das Resultado Líquido X 100
vendas (RLV) = Volume de negócios
DAS VENDAS
A rendibilidade líquida das vendas, também conhecida como a margem de lucro
líquida, é uma métrica financeira onde é analisada a percentagem do lucro
RENDIBILIDADE DA EMPRESA
líquido em relação às vendas totais de uma empresa. Esse indicador é
fundamental para avaliar a capacidade da empresa em gerar lucros após
considerar todas as despesas, incluindo custos operacionais, impostos, juros e
outros encargos (Fernandes et al., 2022).
OPERACIONAL DO ATIVO
Rendibilidade Operacional Resultado Operacional X 100
do ativo (ROA) = Ativo Total
RENDIBILIDADE
O resultado operacional do ativo é uma métrica que mede a eficiência com que
a empresa utiliza os seus ativos para gerar lucro operacional. Ou seja, o ROA
mostra o quanto a empresa consegue lucrar com cada unidade de ativo que
possui. Quanto maior o seu valor, maior a propensão da empresa gerar
resultados (Fernandes et al., 2022).
Rendibilidade Capital Resultado Líquido X 100
Rendibilidade do Capital
Próprio (RCP) = Capital Próprio
A rendibilidade do capital próprio, também conhecido como Return on Equity
Próprio
(REO) é um indicador financeiro onde é medida a capacidade da empresa
gerar lucro a partir dos recursos investidos pelos acionistas. Ou seja, o REO
demonstra o quanto a empresa consegue retornar em lucro para cada unidade
de capital próprio investido pelos seus propriétários. Um REO elevado indica
que que a administração está a utilizar o capital próprio de maneira eficaz
facilitanto a criação de condições financeiras favoraveis ao contínuo
crescimento e desenvolvimento da empresa (Fernandes et al., 2022).
Tabela 7 - Rendibilidade da empresa
Fonte: Elaboração própria
76
A RELEVÂNCIA DA CONTABILIDADE NA PREVISÃO DA INSOLVÊNCIA NAS ORGANIZAÇÕES.
2.4.4 Risco Empresarial
O risco empresarial pode ser definido como o conjunto de incertezas e ameaças
que podem comprometer a capacidade de uma organização atingir os seus objetivos
estratégicos, financeiros e operacionais. Estes riscos podem ter origem em fatores
internos ou externos e impactar diretamente a rentabilidade, sustentabilidade e até a
sobrevivência da empresa (Weber & Diehl, 2014).
No domínio da gestão financeira, a análise do risco assume particular
importância, sendo abordada tanto sob uma perspetiva económica (operacional) como
financeira, ou ainda numa abordagem integrada que considera o ambiente global em
que a empresa opera (Silva, 2022).
Principais Tipos de Risco Empresarial
Risco de Mercado: Refere-se às variações nas condições do mercado que
influenciam diretamente o desempenho da organização. Este tipo de risco inclui
oscilações na procura, alterações nos preços dos produtos ou serviços, aumento da
concorrência ou inovações tecnológicas disruptivas.
Exemplos: crises económicas, mudanças nas preferências dos consumidores,
obsolescência de produtos por falta de inovação.
Risco Financeiro: Está associado à capacidade da empresa de gerir
eficazmente os seus compromissos financeiros, nomeadamente no que diz respeito
ao pagamento de dívidas, juros e obrigações com investidores. Este risco aumenta
proporcionalmente ao grau de alavancagem financeira e à exposição a variações nas
taxas de juro e de câmbio.
Exemplos: aumento das taxas de juro que eleva os custos de financiamento,
desvalorização cambial, elevado nível de endividamento.
Risco Operacional: Relaciona-se com a ineficiência ou falhas nos processos
internos da organização, podendo incluir desde erros humanos e avarias em
equipamentos, até disfunções tecnológicas ou interrupções na cadeia de
abastecimento.
Exemplos: falhas de produção, problemas logísticos, avarias de sistemas
informáticos, erros de planeamento.
77
A RELEVÂNCIA DA CONTABILIDADE NA PREVISÃO DA INSOLVÊNCIA NAS ORGANIZAÇÕES.
Risco Estratégico: Decorre da tomada de decisões estratégicas inadequadas,
que podem comprometer o posicionamento da empresa no mercado ou a sua
capacidade de crescimento e inovação.
Exemplos: expansão para mercados não rentáveis, fusões e aquisições mal
avaliadas, ausência de inovação em sectores competitivos.
Risco Tecnológico: Está relacionado com a utilização de tecnologias
obsoletas ou vulneráveis, o que pode diminuir a eficiência da organização ou torná-la
exposta a ameaças como ciberataques.
Exemplos: falha em adotar novas tecnologias, ausência de sistemas de
cibersegurança, ataques informáticos.
Risco Político: Deriva de alterações no contexto político e legislativo, que
podem afetar diretamente a atividade da empresa, tanto a nível nacional como
internacional.
Exemplos: instabilidade governamental, alterações nas políticas fiscais ou
comerciais, sanções internacionais, conflitos geopolíticos.
A Importância da Gestão de Riscos Empresariais
Segundo Weber & Diehl (2014), a gestão de riscos é uma componente
essencial para a resiliência organizacional e a sustentabilidade a longo prazo. Num
ambiente de crescente complexidade e incerteza, torna-se imperativo que as
empresas adotem práticas sistemáticas para identificar, avaliar e mitigar os riscos aos
quais estão expostas. Entre as principais razões que justificam a relevância desta
prática, destacam-se:
Prevenção de perdas: A identificação atempada de riscos potência a sua
mitigação, evitando prejuízos de ordem financeira, operacional e reputacional.
Aumento da competitividade: Organizações com sistemas eficazes de
gestão de riscos têm maior capacidade de adaptação e de resposta em contextos
adversos, o que pode representar uma vantagem competitiva significativa.
Suporte ao planeamento estratégico: O conhecimento claro dos riscos
permite à empresa tomar decisões mais fundamentadas, desenvolver estratégias
preventivas e preparar-se para cenários adversos.
78
A RELEVÂNCIA DA CONTABILIDADE NA PREVISÃO DA INSOLVÊNCIA NAS ORGANIZAÇÕES.
Proteção dos interesses dos stakeholders: A gestão de riscos contribui para
a salvaguarda dos interesses de acionistas, colaboradores, clientes, fornecedores e
demais partes interessadas, assegurando a continuidade do negócio e a estabilidade
das relações comerciais.
Em suma, o risco é uma dimensão inevitável da atividade empresarial, mas a
sua identificação e gestão eficiente constituem fatores determinantes para minimizar
impactos negativos e potenciar oportunidades. As organizações que desenvolvem
uma cultura sólida de gestão de risco estão mais bem preparadas para enfrentar a
incerteza, garantir a continuidade das operações e promover um crescimento
sustentável e seguro.
79
A RELEVÂNCIA DA CONTABILIDADE NA PREVISÃO DA INSOLVÊNCIA NAS ORGANIZAÇÕES.
[Link] Risco Económico
O risco económico traduz-se na probabilidade de os resultados operacionais
de uma empresa não atingirem os objetivos previamente definidos, ou seja, de os
rendimentos obtidos através da atividade corrente não serem suficientes para cobrir
as despesas ou perdas operacionais incorridas. Este tipo de risco está
intrinsecamente associado à variabilidade dos resultados operacionais face a
alterações no volume de negócios (Fernandes et al., 2022).
A avaliação deste risco é essencial para compreender o grau de sensibilidade
da empresa perante oscilações no mercado ou na procura. A forma mais comum de
quantificação deste risco é através do Grau de Alavancagem Operacional (GAO) —
um indicador que mede o impacto proporcional que uma variação no volume de
vendas pode ter sobre o resultado operacional (EBIT) da empresa.
O GAO permite, assim, analisar o comportamento dos custos fixos face à
variação da atividade empresarial. Quanto mais elevada for a proporção de custos
fixos na estrutura de custos da empresa, maior será a sensibilidade dos resultados
operacionais a oscilações no volume de negócios, e, consequentemente, maior será
o risco económico.
Um valor elevado do GAO indica que uma pequena redução nas vendas poderá
provocar uma queda significativa nos lucros operacionais, refletindo um maior grau de
risco associado à estrutura operacional da empresa. Inversamente, empresas com um
GAO mais reduzido apresentam uma estrutura de custos mais flexível, e, por isso,
uma exposição menor ao risco económico.
Neste sentido, a análise do risco económico, e em particular do Grau de
Alavancagem Operacional, é uma ferramenta indispensável para a tomada de
decisões estratégicas, nomeadamente no que respeita à estrutura de custos, política
de preços, planeamento de produção e avaliação da sustentabilidade das operações
em diferentes cenários de mercado.
80
A RELEVÂNCIA DA CONTABILIDADE NA PREVISÃO DA INSOLVÊNCIA NAS ORGANIZAÇÕES.
. Apresentam-se, de seguida, as fórmulas fundamentais utilizadas na
determinação do Grau de Alavancagem Operacional (GAO), essenciais para a análise
da sensibilidade dos resultados operacionais face a variações no volume de negócios.
Estas expressões constituem instrumentos cruciais para a avaliação do risco
económico, permitindo uma leitura quantitativa da estrutura de custos da organização
e da sua capacidade de absorver oscilações na atividade comercial.
Δ Res. Operacional
Res. Operacional
GAO =
Δ Vol. Negócios
[Link]ócios
A fórmula acima representada pode ser desenvolvida, obtendo-se a equação:
Margem de Contribuição
GAO =
Resultado operacional
* Margem contribuição = Volume de
negócios - Gastos Fixos
Quando o Grau de Alavancagem Operacional (GAO) assume o valor zero, tal
significa que não existe risco económico associado à variação do volume de negócios,
ou seja, os resultados operacionais da empresa não são afetados por flutuações na
atividade comercial. Este cenário, embora teoricamente possível, é raro na prática
empresarial, pois implicaria uma estrutura de custos composta exclusivamente por
custos variáveis, sem qualquer encargo fixo (Fernandes et al., 2022).
À medida que o valor absoluto do GAO aumenta, cresce também o risco
económico, uma vez que se verifica uma maior sensibilidade dos resultados
operacionais face a alterações no volume de vendas. Assim, quanto mais elevado for
o grau de alavancagem operacional, maior será o impacto de uma eventual quebra no
volume de negócios sobre o resultado da empresa, expondo-a a um risco acrescido
em contextos de instabilidade ou de procura volátil (Fernandes et al., 2022).
81
A RELEVÂNCIA DA CONTABILIDADE NA PREVISÃO DA INSOLVÊNCIA NAS ORGANIZAÇÕES.
[Link] Risco Financeiro
O risco financeiro está intrinsecamente relacionado com a estrutura de capital
da empresa e resulta, essencialmente, da utilização de capitais alheios para financiar
a sua atividade. Este tipo de risco traduz a exposição da empresa a variações nos
custos de financiamento, bem como o efeito que tais variações podem ter sobre a
rentabilidade dos capitais próprios.
Para a sua avaliação, recorre-se frequentemente ao Grau de Alavancagem
Financeira (GAF) — um indicador que mede a sensibilidade dos lucros líquidos do
período face a alterações no resultado operacional (EBIT). Este rácio reflete o impacto
da estrutura de endividamento na variação dos resultados líquidos disponíveis para
os acionistas.
De acordo com Fernandes et al. (2022), quanto mais elevado for o valor do
GAF, maior será o risco financeiro associado, uma vez que a empresa se torna mais
dependente do serviço da dívida e, por conseguinte, mais vulnerável a flutuações nas
taxas de juro ou a uma eventual queda dos seus resultados operacionais.
O GAF assume, assim, um papel relevante na análise da sustentabilidade
financeira da empresa, ajudando a compreender até que ponto o uso de financiamento
externo amplifica os efeitos positivos (ou negativos) da variação da atividade
económica sobre o retorno dos capitais próprios. Trata-se, por isso, de um instrumento
indispensável na definição de políticas de financiamento prudentes e na avaliação do
equilíbrio entre risco e rentabilidade.
Apresentam-se, em seguida, as fórmulas correspondentes, cuja aplicação é
fundamental para a compreensão e análise dos indicadores anteriormente descritos.
Δ Res. Líquido Período
Res. Líquido Período
GAF =
Δ Res. Operacional
Res. Operacional
A fórmula acima representada pode ser desenvolvida, obtendo-se a equação:
82
A RELEVÂNCIA DA CONTABILIDADE NA PREVISÃO DA INSOLVÊNCIA NAS ORGANIZAÇÕES.
Resultado operacional
GAF =
Resultado Antes de Imposto
2.4.5 Conclusão do capítulo
A análise financeira assume um papel determinante no contexto da gestão
empresarial contemporânea, revelando-se um instrumento indispensável para a
compreensão da real situação económica e financeira das organizações. Ao permitir
uma leitura estruturada dos dados contabilísticos, a análise financeira transforma a
informação num verdadeiro suporte à decisão, contribuindo para a definição de
estratégias coerentes e sustentáveis.
Através da utilização criteriosa de rácios e indicadores, é possível aferir
dimensões essenciais do desempenho organizacional, como a liquidez, a solvência,
a rentabilidade e o risco. Estes parâmetros oferecem uma visão clara da capacidade
da empresa em gerar valor, cumprir as suas obrigações e adaptar-se às exigências
de um mercado em constante mutação. Em particular, a análise do equilíbrio
financeiro, tanto a curto como a médio e longo prazo, possibilita avaliar a robustez da
estrutura de capitais, a adequação entre os recursos disponíveis e as necessidades
de financiamento, bem como a sustentabilidade das operações ao longo do tempo.
Para além disso, a análise da rentabilidade e dos diferentes tipos de risco —
económico e financeiro — fornece indicadores decisivos sobre a eficiência da gestão
dos recursos, a resiliência da empresa perante adversidades e o grau de exposição
às incertezas do mercado. Ferramentas como o Grau de Alavancagem Operacional
(GAO) e o Grau de Alavancagem Financeira (GAF) traduzem, de forma objetiva, o
impacto das variações na atividade sobre os resultados, alertando para o equilíbrio
necessário entre crescimento e prudência.
Assim, a análise financeira não se limita a uma avaliação estática de dados do
passado, mas assume uma natureza preditiva e orientadora. É, por isso, um alicerce
essencial da governação empresarial moderna, permitindo transformar informação
contabilística em conhecimento estratégico, reforçando a capacidade das
organizações de tomarem decisões fundamentadas, eficazes e alinhadas com os seus
objetivos de longo prazo.
83
A RELEVÂNCIA DA CONTABILIDADE NA PREVISÃO DA INSOLVÊNCIA NAS ORGANIZAÇÕES.
3 Trabalho empírico
84
A RELEVÂNCIA DA CONTABILIDADE NA PREVISÃO DA INSOLVÊNCIA NAS ORGANIZAÇÕES.
3.1 Objetivos e questões de Investigação
O principal objetivo deste estudo consiste em aprofundar o conceito de
insolvência, explorando a sua base teórica e compreendendo os impactos que este
fenómeno acarreta a nível empresarial, social e económico. A análise visa, assim,
clarificar a relevância da insolvência no contexto das organizações e da economia em
geral, refletindo sobre as suas implicações tanto para os agentes económicos como
para os mercados onde se inserem.
De forma complementar, pretende-se identificar e analisar as variáveis
contabilísticas com potencial preditivo da insolvência, compreendendo a sua utilidade
e relevância para o diagnóstico precoce de situações de risco. Este objetivo está
intrinsecamente ligado ao papel da contabilidade como instrumento essencial de
gestão, na medida em que permite à entidade dispor de informação fiável e atempada
para a tomada de decisões estratégicas.
No plano empírico, a investigação incide sobre a análise de um conjunto de
indicadores financeiros e contabilísticos, cuja evolução pode sinalizar a deterioração
da situação económica das organizações, contribuindo para a antecipação de estados
de pré-insolvência. Este exercício permitirá avaliar, com base em dados reais, quais
os fatores que melhor explicam ou antecipam a ocorrência de insolvência no meio
organizacional.
Um dos pontos centrais da investigação consiste em compreender qual o
enquadramento organizacional mais propício à criação de valor – não apenas para as
próprias empresas, mas também para a economia e sociedade em geral. Neste
sentido, reconhece-se que a sustentabilidade organizacional está diretamente
relacionada com fatores como: o setor de atividade, a cultura corporativa, a política de
gestão adotada, a capacidade de inovação, a competitividade, o posicionamento face
à concorrência e a utilização eficiente dos recursos.
A tomada de decisões de investimento, bem como os meios utilizados para a
sua concretização, são igualmente aspetos críticos. Um investimento mal estruturado
ou desajustado à realidade da empresa pode comprometer seriamente a sua
viabilidade económica e conduzir à sua insolvência.
85
A RELEVÂNCIA DA CONTABILIDADE NA PREVISÃO DA INSOLVÊNCIA NAS ORGANIZAÇÕES.
Neste enquadramento, emergem as seguintes questões de investigação, que
se procuram responder tanto com base no enquadramento teórico como nas
conclusões obtidas a partir da análise prática:
Q01: Qual a importância dada a este tema, em particular ao das variáveis que
justificam a insolvência nas organizações ao longo dos anos?
Q02: Como prever a insolvência das organizações através da contabilidade?
Q03: Qual a importância da contabilidade nas organizações, e o seu impacto na
gestão?
86
A RELEVÂNCIA DA CONTABILIDADE NA PREVISÃO DA INSOLVÊNCIA NAS ORGANIZAÇÕES.
3.2 Metodologia
Após a análise teórica sobre o conceito de insolvência e a importância da
contabilidade nas organizações, torna-se fundamental aprofundar esta temática sob
uma perspetiva prática. Os tópicos desenvolvidos anteriormente permitiram
compreender que existem diversas variáveis que podem contribuir para a prevenção
da insolvência, sendo a organização da contabilidade um fator determinante para a
obtenção de resultados fidedignos e para a disponibilização célere de informação útil
à gestão.
A relevância de uma contabilidade organizada reside na sua capacidade de
proporcionar uma visão clara sobre a viabilidade financeira da organização, permitindo
antecipar dificuldades, analisar com maior rigor os investimentos realizados e apoiar
a tomada de decisões estratégicas em tempo oportuno. É importante sublinhar que
cada entidade deve ser analisada como um caso singular, não sendo sempre possível
aplicar de forma rígida os princípios teóricos definidos.
A presente investigação assenta numa abordagem quantitativa, sendo este o
método mais utilizado em estudos desta natureza. A abordagem quantitativa permite
quantificar perceções e opiniões com base numa amostra significativa, recorrendo a
análises estatísticas rigorosas dos dados obtidos, geralmente recolhidos por via de
questionários estruturados (Agostinho & Monteiro, 2013).
O instrumento de recolha de dados consistiu num questionário de resposta
fechada, aplicado online. Esta modalidade foi escolhida pela sua eficiência na recolha
de um elevado número de respostas num curto espaço de tempo, facilitando a
participação de um público vasto. O questionário, de caráter académico, foi concebido
com respostas objetivas de forma a garantir a clareza e acessibilidade para todos os
participantes.
Para uma recolha mais rica de dados, foram incluídas questões com respostas
múltiplas e questões com escala de Likert, de forma a diversificar, amplificar e
qualificar as perceções dos inquiridos. O público-alvo do inquérito incluiu contabilistas
certificados, estudantes de contabilidade e profissionais com conhecimentos na área,
garantindo uma amostra representativa do setor.
A divulgação do questionário foi efetuada através das redes sociais (Facebook,
LinkedIn), da Ordem dos Contabilistas Certificados (OCC), do e-mail institucional do
87
A RELEVÂNCIA DA CONTABILIDADE NA PREVISÃO DA INSOLVÊNCIA NAS ORGANIZAÇÕES.
ISVOUGA e diretamente junto de gabinetes de contabilidade e departamentos
financeiros de empresas. No total, foram obtidas 447 respostas, o que representa uma
base sólida de dados para análise e interpretação. O inquérito esteve disponível entre
janeiro e maio de 2024.
No respeito pela Regulamentação Geral sobre a Proteção de Dados (RGPD),
todas as respostas foram tratadas de forma anónima e confidencial, garantindo a
proteção da identidade dos participantes.
As questões de investigação formuladas neste estudo foram operacionalizadas
sob a forma de variáveis de análise, sendo essencial compreender a sua relevância e
justificação.
A primeira questão de investigação foi abordada através de uma revisão da
literatura e análise do enquadramento teórico, com base em fontes normativas e
académicas como o CIRE, SNC, Estrutura Conceptual (EC), bem como diversos
estudos e obras de referência na área da contabilidade e análise financeira.
A segunda questão procurou compreender de que forma a contabilidade pode
identificar sinais de insolvência empresarial, exigindo uma leitura minuciosa da
informação financeira da organização. Documentos como o balanço, a demonstração
de resultados e a demonstração de fluxos de caixa constituem ferramentas essenciais
para avaliar a situação económico-financeira da entidade e antever riscos de
insolvência (Nabais, 2015).
Relativamente à terceira questão, foi realizada uma análise sobre a importância
da contabilidade e o impacto que esta tem na gestão das organizações. A
contabilidade, mais do que uma simples formalização de transações, é hoje vista
como instrumento fundamental de apoio à gestão, fornecendo informação relevante
para decisões estratégicas e operacionais (Antunes, 2019). Ao permitir uma leitura
clara da situação financeira da empresa, a contabilidade assume-se como pilar da
sustentabilidade e eficiência organizacional.
As perguntas do inquérito foram desenhadas com o objetivo de captar as
perceções dos profissionais da área sobre o uso da contabilidade como ferramenta
preditiva da insolvência, bem como sobre os impactos decorrentes de uma
contabilidade desorganizada ou ineficiente.
88
A RELEVÂNCIA DA CONTABILIDADE NA PREVISÃO DA INSOLVÊNCIA NAS ORGANIZAÇÕES.
A escolha deste tema surge da necessidade de aprofundar o conhecimento
sobre o papel da contabilidade na gestão das empresas, avaliando os efeitos
negativos que podem advir de uma má prática contabilística.
A opção por um inquérito online justificou-se pela facilidade de distribuição, o
que permitiu recolher um número de respostas (n=447). A abordagem quantitativa
adotada oferece uma base estatística robusta, que possibilita avaliar objetivamente as
perceções dos profissionais da área contabilística sobre os temas em análise.
A análise dos dados recolhidos será realizada através do software IBM SPSS
Statistics, amplamente reconhecido pelas suas capacidades de tratamento estatístico
e facilidade de utilização, permitindo gerar resultados fiáveis e adequados às
necessidades desta investigação.
O inquérito utilizado encontra-se disponível no Anexo 7 desta dissertação.
3.3 Definição da Amostra
Como referido anteriormente, a presente investigação recorreu à aplicação de
um questionário estruturado, constituindo este o instrumento principal para a recolha
de dados. Assim, a definição da amostra representa uma etapa essencial em qualquer
estudo que envolva a análise estatística de dados empíricos.
A amostragem consiste na seleção de um subconjunto representativo de uma
população-alvo, com o intuito de extrair conclusões válidas e generalizáveis sobre o
todo, a partir da observação e análise desse grupo. Uma seleção criteriosa e
adequada da amostra é determinante para assegurar a validade dos resultados, bem
como a sua relevância estatística e aplicabilidade em contextos mais amplos. Além
disso, contribui para a eficiência da investigação, uma vez que possibilita a obtenção
de dados significativos de forma mais económica e pragmática (Santos & Nogueira,
2024).
Dado que o tema central deste estudo incide sobre a importância da
contabilidade na previsão de insolvências empresariais, definiu-se como público-alvo
da amostra indivíduos com conhecimento técnico e/ou académico na área da
contabilidade. Desta forma, a amostra foi composta por Contabilistas Certificados,
estudantes de contabilidade e profissionais com competências específicas na área
contabilística.
89
A RELEVÂNCIA DA CONTABILIDADE NA PREVISÃO DA INSOLVÊNCIA NAS ORGANIZAÇÕES.
Ao todo, participaram no estudo 447 indivíduos, permitindo assim uma base
robusta de dados para análise quantitativa, com um grau de confiança adequado para
a interpretação dos resultados e validação das hipóteses colocadas ao longo da
investigação.
3.4 Caracterização da amostra
O presente ponto visa apresentar a caracterização detalhada da amostra
envolvida no estudo, com base na análise das respostas obtidas através do
instrumento de recolha de dados utilizado – o questionário. Esta caracterização
permite enquadrar o perfil dos respondentes, contribuindo para a contextualização e
interpretação dos resultados da investigação.
Gráfico 1 - Género
Fonte: Output do SPSS (2024)
No que respeita à variável género, observa-se uma predominância da
participação do público feminino, representando 64,21% do total de respondentes. Em
contraste, os participantes do sexo masculino correspondem a 35,57%, enquanto a
opção “Prefiro não dizer” foi assinalada por 0,22% dos inquiridos. Estes dados
90
A RELEVÂNCIA DA CONTABILIDADE NA PREVISÃO DA INSOLVÊNCIA NAS ORGANIZAÇÕES.
evidenciam uma maior representatividade do género feminino na amostra
considerada.
Relativamente à variável idade, recorreu-se à criação de intervalos com limites
inferiores e superiores, com o intuito de facilitar a análise e agrupamento dos dados.
A tabela apresentada infra permite observar a distribuição etária dos participantes,
possibilitando uma leitura mais clara das faixas etárias com maior representatividade
no estudo.
Idade
Percentagem Percentagem
Frequência Percentagem válida acumulativa
Válido 18 aos 25 87 19,5 19,5 19,5
26 aos 35 163 36,5 36,5 56,0
36 aos 45 85 19,0 19,0 75,0
46 aos 55 86 19,2 19,2 94,2
56 aos 65 20 4,5 4,5 98,7
Mais de 65 6 1,3 1,3 100,0
Total 447 100,0 100,0
Tabela 8 – Idade dos inquiridos
Fonte: Output do SPSS (2024)
Analisando a distribuição da amostra por faixas etárias, constata-se uma maior
concentração de inquiridos no intervalo dos 26 aos 35 anos, com um total de 163
respostas, o que corresponde a 36,5% do total da amostra — evidenciando, assim,
uma participação particularmente expressiva deste grupo etário.
De forma relativamente equilibrada, seguem-se as faixas 18-25 anos, 36-45
anos e 46-55 anos, com 87 (19,5%), 85 (19,0%) e 86 (19,2%) respondentes,
respetivamente. Estes valores demonstram uma distribuição harmoniosa entre estas
faixas etárias intermédias, reforçando a diversidade da amostra no que diz respeito à
idade.
Nas faixas de idade mais avançadas, verifica-se uma participação menos
expressiva. O grupo dos 56 aos 65 anos contou com 20 inquiridos, representando
4,5% da amostra, enquanto a faixa superior a 65 anos registou apenas 6 respostas,
correspondentes a 1,3% do total. Estes dados revelam uma menor representatividade
dos participantes mais idosos no presente estudo.
91
A RELEVÂNCIA DA CONTABILIDADE NA PREVISÃO DA INSOLVÊNCIA NAS ORGANIZAÇÕES.
No que diz respeito às habilitações académicas, verifica-se uma clara
predominância do público feminino em todos os níveis de escolaridade considerados,
reforçando a tendência anteriormente observada na variável género. Conforme se
pode observar na tabela abaixo, ao nível da Licenciatura, as mulheres representam
35,3% da amostra, face aos 18,6% dos homens.
No Mestrado, a diferença mantém-se significativa, com 11,0% de participação
feminina e 6,5% masculina. No que toca ao Ensino Secundário, as mulheres perfazem
10,5%, enquanto os homens registam 6,3%. Também ao nível da Pós-graduação, a
presença feminina é superior (6,9%) face à masculina (4,3%). Por fim, ao nível do
Doutoramento, apenas o público feminino apresenta representatividade, ainda que
residual, com 0,4%, não tendo sido registada qualquer resposta do género masculino
neste grau académico.
Habilitações Académicas vs Género
Género
Masculino Feminino Prefiro não dizer Total
Habilitações Académicas Ensino secundário Contagem 28 47 0 75
% do Total 6,3% 10,5% 0,0% 16,8%
Licenciatura Contagem 83 158 1 242
% do Total 18,6% 35,3% 0,2% 54,1%
Pós-graduação Contagem 19 31 0 50
% do Total 4,3% 6,9% 0,0% 11,2%
Mestrado Contagem 29 49 0 78
% do Total 6,5% 11,0% 0,0% 17,4%
Doutoramento Contagem 0 2 0 2
% do Total 0,0% 0,4% 0,0% 0,4%
Total Contagem 159 287 1 447
% do Total 35,6% 64,2% 0,2% 100,0%
Tabela 9 - Habilitações académicas vs Género
Fonte: Output do SPSS (2024)
92
A RELEVÂNCIA DA CONTABILIDADE NA PREVISÃO DA INSOLVÊNCIA NAS ORGANIZAÇÕES.
A análise da variável localização geográfica dos inquiridos, com base na tabela
apresentada infra, revela uma clara predominância de respostas provenientes da
região Norte, com um total de 321 participantes, o que corresponde a 71,8% do total
da amostra. Esta forte representatividade destaca a concentração geográfica da
maioria dos respondentes nesta zona do país.
Em segundo lugar, surge a região Centro, com 21,7% das respostas, seguida
da região Sul, que reúne 4,9% dos inquiridos. No que respeita às Regiões Autónomas,
registaram-se percentagens mais residuais, com a Região Autónoma da Madeira a
representar 1,1% da amostra e a Região Autónoma dos Açores com 0,4%.
Importa ainda salientar que, em linha com os dados anteriormente analisados,
a participação do público feminino mantém-se superior à do público masculino em
todas as regiões consideradas, reforçando a sua expressiva representatividade nesta
investigação.
Zona Geográfica vs Género
Género
Masculino Feminino Prefiro não dizer Total
Qual a sua zona geográfica? Norte Contagem 110 211 0 321
% do Total 24,6% 47,2% 0,0% 71,8%
Centro Contagem 31 66 0 97
% do Total 6,9% 14,8% 0,0% 21,7%
Sul Contagem 14 8 0 22
% do Total 3,1% 1,8% 0,0% 4,9%
Ilha da Madeira Contagem 2 2 1 5
% do Total 0,4% 0,4% 0,2% 1,1%
Ilha dos Açores Contagem 2 0 0 2
% do Total 0,4% 0,0% 0,0% 0,4%
Total Contagem 159 287 1 447
% do Total 35,6% 64,2% 0,2% 100,0%
Tabela 10 - Zona Geográfica vs Género
Fonte: Output do SPSS (2024)
93
A RELEVÂNCIA DA CONTABILIDADE NA PREVISÃO DA INSOLVÊNCIA NAS ORGANIZAÇÕES.
Ao proceder à análise cruzada entre a situação profissional dos inquiridos e as
suas faixas etárias, verifica-se que a maior parte dos indivíduos em situação laboral
ativa se concentra nas idades compreendidas entre os 26 e os 45 anos, intervalo que
corresponde, em conjunto, a mais de metade da amostra. Este dado revela uma
predominância de respondentes em plena fase de desenvolvimento das suas carreiras
profissionais, facto que pode explicar o elevado grau de envolvimento e interesse
demonstrado na temática abordada.
No que diz respeito aos inquiridos em situação de desemprego, observa-se
uma distribuição relativamente dispersa entre os grupos etários mais jovens (18-25
anos) e intermédios (36-45 anos), o que pode refletir, por um lado, o início de percurso
profissional e, por outro, os desafios de reintegração no mercado de trabalho numa
fase de transição. Já os inquiridos que se encontram reformados situam-se,
naturalmente, nas faixas superiores a 65 anos, sendo este grupo o menos
representado na amostra.
Relativamente à articulação entre a situação profissional e as habilitações
académicas, constata-se que a maioria dos respondentes com níveis de qualificação
mais elevados, nomeadamente Licenciatura, Mestrado e Pós-graduação, se encontra
inserida no mercado de trabalho. Este dado reforça a ideia de que a formação
académica avançada está positivamente associada à empregabilidade, corroborando
tendências identificadas em estudos anteriores sobre a valorização da qualificação no
contexto profissional.
Por outro lado, entre os inquiridos em situação de desemprego, verifica-se uma
presença mais acentuada de indivíduos com habilitações ao nível do Ensino
Secundário, o que pode indicar a existência de maiores dificuldades de acesso ou
permanência no mercado de trabalho por parte deste grupo. No entanto, a presença
de desempregados com formação superior, embora menos expressiva, não é
inexistente, apontando para a complexidade das dinâmicas laborais atuais, nas quais
a qualificação, embora essencial, não garante por si só estabilidade profissional.
Esta análise multidimensional permite, assim, compreender melhor o perfil
sociodemográfico da amostra e as possíveis implicações que as características dos
inquiridos podem ter na forma como percecionam o papel da contabilidade na previsão
de insolvências organizacionais. A predominância de profissionais ativos e
94
A RELEVÂNCIA DA CONTABILIDADE NA PREVISÃO DA INSOLVÊNCIA NAS ORGANIZAÇÕES.
qualificados confere robustez e atualidade às conclusões do estudo, dado que estas
opiniões são maioritariamente oriundas de indivíduos com experiência prática e
conhecimento direto das dinâmicas empresariais contemporâneas.
Situação Profissional vs Género
Género
Masculino Feminino Prefiro não dizer Total
Qual a sua situação Empregado Contagem 150 257 1 408
profissional? % do Total 33,6% 57,5% 0,2% 91,3%
Desempregado Contagem 5 28 0 33
% do Total 1,1% 6,3% 0,0% 7,4%
Reformado Contagem 4 2 0 6
% do Total 0,9% 0,4% 0,0% 1,3%
Total Contagem 159 287 1 447
% do Total 35,6% 64,2% 0,2% 100,0%
Tabela 11 - Situação Profissional vs Género
Fonte: Output do SPSS (2024)
Com base na análise da tabela apresentada, verifica-se que a maior parte dos
inquiridos exerce a sua atividade profissional em pequenas e médias empresas
(PME), representando 31,3% do total da amostra. De acordo com o disposto no n.º 3
do artigo 9.º do Decreto-Lei n.º 158/2009, de 13 de julho, consideram-se médias
entidades aquelas que, à data do balanço, não excedam dois dos três seguintes
limites:
• Total do balanço: 20.000.000€
• Volume de negócios líquido: 40.000.000€
• Número médio de empregados durante o período: 250
Seguem-se as microentidades, com 27,3% dos inquiridos a indicarem trabalhar
em organizações com esta classificação. Nos termos do n.º 1 do mesmo artigo, as
microentidades são definidas como aquelas que, à data do balanço, não ultrapassem
dois dos três seguintes critérios:
• Total do balanço: 350.000€
• Volume de negócios líquido: 700.000€
• Número médio de empregados durante o período: 10
95
A RELEVÂNCIA DA CONTABILIDADE NA PREVISÃO DA INSOLVÊNCIA NAS ORGANIZAÇÕES.
No que respeita às grandes empresas, 22,1% dos participantes referem
trabalhar neste tipo de organização. Conforme estabelecido no n.º 4 do artigo 9.º,
consideram-se grandes entidades aquelas que, à data do balanço, ultrapassem dois
dos três limites fixados para as médias empresas, anteriormente referidos.
Ainda no âmbito desta análise, 16,3% dos inquiridos indicam estar inseridos em
pequenas entidades. Segundo o n.º 2 do artigo 9.º do Decreto-Lei n.º 158/2009, uma
entidade é classificada como pequena quando, à data do balanço, não ultrapassa
dois dos três limites seguintes:
• Total do balanço: 4.000.000€
• Volume de negócios líquido: 8.000.000€
• Número médio de empregados durante o período: 50
Por fim, 2,9% dos inquiridos referem desempenhar funções no Setor Público
(Estado). De acordo com o n.º 5 do mesmo artigo, as entidades de interesse público
— entre as quais se incluem organismos estatais — são igualmente consideradas
grandes entidades, dada a sua dimensão, relevância e impacto económico-social.
Importa ainda referir que, nesta variável, tal como em outras analisadas ao
longo do estudo, se verifica uma predominância de inquiridos localizados na zona
Norte do país, o que reforça a tendência anteriormente observada no que diz respeito
à distribuição geográfica da amostra.
96
A RELEVÂNCIA DA CONTABILIDADE NA PREVISÃO DA INSOLVÊNCIA NAS ORGANIZAÇÕES.
Dimensão da empresa em que exerce/exerceu a sua atividade profissional vs Zona
Geográfica?
Zona geográfica
Ilha da Ilha dos
Norte Centro Sul Madeira Açores Total
No percurso laboral Micro-Entidade Contagem 91 25 6 0 0 122
que obtém/obteve, qual % do Total 20,4% 5,6% 1,3% 0,0% 0,0% 27,3%
a dimensão da Pequena Contagem 55 14 1 2 1 73
empresa em que empresa % do Total 12,3% 3,1% 0,2% 0,4% 0,2% 16,3%
exerce/exerceu a sua Pequena e Contagem 94 32 11 2 1 140
atividade profissional? média empresa % do Total 21,0% 7,2% 2,5% 0,4% 0,2% 31,3%
Grande Contagem 73 22 4 0 0 99
empresa % do Total 16,3% 4,9% 0,9% 0,0% 0,0% 22,1%
Estado Contagem 8 4 0 1 0 13
% do Total 1,8% 0,9% 0,0% 0,2% 0,0% 2,9%
Total Contagem 321 97 22 5 2 447
% do Total 71,8% 21,7% 4,9% 1,1% 0,4% 100,0%
Tabela 12 - Situação profissional vs Zona Geográfica
Fonte: Output do SPSS (2024)
A análise do tipo de entidade empregadora permite estabelecer inferências
relevantes sobre o contexto profissional dos inquiridos e, por conseguinte, sobre as
suas perceções relativamente ao papel da contabilidade na prevenção de situações
de insolvência. A predominância de respostas provenientes de profissionais que
exercem funções em pequenas e médias empresas (PME) e microentidades — que,
em conjunto, representam cerca de 58,6% da amostra — revela-se particularmente
significativa, considerando o grau de vulnerabilidade que estas organizações
frequentemente apresentam face a perturbações económicas, financeiras e de
mercado.
Neste tipo de estruturas empresariais, onde os recursos são mais limitados e a
margem para erro é reduzida, a contabilidade assume um papel ainda mais crítico na
gestão estratégica e no acompanhamento da performance financeira. A necessidade
de um controlo rigoroso dos fluxos de caixa, da rentabilidade e dos rácios de solvência
torna a informação contabilística uma ferramenta indispensável à antecipação de
sinais de instabilidade e à adoção de medidas corretivas em tempo útil.
A elevada presença de inquiridos provenientes de micro e pequenas entidades
pode, assim, contribuir para uma perceção mais sensível e realista da contabilidade
97
A RELEVÂNCIA DA CONTABILIDADE NA PREVISÃO DA INSOLVÊNCIA NAS ORGANIZAÇÕES.
enquanto instrumento de apoio à tomada de decisão e prevenção de insolvência.
Estas organizações, muitas vezes privadas de departamentos financeiros robustos,
dependem fortemente da atuação do contabilista certificado como parceiro estratégico
na gestão e no planeamento financeiro.
Por outro lado, os inquiridos que laboram em grandes empresas ou em
entidades públicas, embora representem uma menor percentagem da amostra,
trazem uma perspetiva complementar, muitas vezes mais institucionalizada, sobre o
papel da contabilidade, valorizando aspetos como a transparência, o cumprimento
normativo e o reporte estruturado. A presença de controlos internos mais consolidados
e de departamentos especializados poderá influenciar uma perceção da contabilidade
mais orientada para a conformidade e a governação corporativa, sem, no entanto,
descurar a sua dimensão analítica e preditiva.
Assim, é possível concluir que a diversidade de contextos organizacionais
representados neste estudo enriquece a análise empírica e confere maior amplitude
às conclusões obtidas. A contabilidade revela-se transversal a todas as realidades,
assumindo-se como um pilar fundamental na gestão e na sustentabilidade
organizacional, independentemente da dimensão ou setor de atividade da entidade.
98
A RELEVÂNCIA DA CONTABILIDADE NA PREVISÃO DA INSOLVÊNCIA NAS ORGANIZAÇÕES.
3.5 Análise dos resultados das questões de Investigação
Após a caracterização detalhada da amostra utilizada no presente estudo,
procede-se, nesta secção, à análise do comportamento dos inquiridos face às
questões formuladas no questionário aplicado. Esta análise visa interpretar, de forma
rigorosa e sistematizada, os dados recolhidos, proporcionando uma compreensão
estatística das perceções, opiniões e práticas dos participantes relativamente aos
tópicos investigados.
Deste modo, dar-se-á início à apresentação e exploração das questões
constantes do inquérito, através da aplicação de técnicas estatísticas adequadas, com
o intuito de evidenciar padrões de resposta, tendências e possíveis correlações entre
variáveis. Esta abordagem permitirá não só validar os objetivos definidos na
investigação, mas também sustentar as conclusões a partir de uma base empírica
sólida.
3.5.1 QI1 - Qual a importância dada a este tema, em particular ao das
variáveis que justificam a insolvência nas organizações ao longo
dos anos?
[Link] Na sua opinião, qual o papel da contabilidade a nível empresarial e
social?
Opções de resposta: Sem importância; Pouco importante; Razoavelmente
importante; Importante; Muito importante;
A contabilidade desempenha um papel incontornável na gestão financeira das
organizações, sendo um alicerce fundamental para a tomada de decisões
estratégicas, o controlo eficiente dos custos, a elaboração de orçamentos e o
cumprimento das obrigações fiscais. Para além da sua função empresarial, contribui
de forma significativa para a transparência financeira, reforçando a confiança de
investidores, parceiros e entidades financiadoras (Nabais, 2015).
No plano social, a contabilidade assume igualmente uma função de relevo, ao
promover a responsabilidade social das empresas, permitindo a monitorização e
divulgação de práticas sustentáveis, bem como o seu impacto positivo na sociedade.
Simultaneamente, desempenha um papel relevante na gestão dos recursos públicos,
na promoção da transparência das políticas governamentais e no estímulo à
99
A RELEVÂNCIA DA CONTABILIDADE NA PREVISÃO DA INSOLVÊNCIA NAS ORGANIZAÇÕES.
estabilidade económica e social, favorecendo a criação de emprego e o bem-estar
coletivo (Sampaio, 2021).
No âmbito do presente estudo, a questão "Na sua opinião, qual o papel da
contabilidade a nível empresarial e social?" permitiu aferir as perceções dos inquiridos
relativamente à importância atribuída à contabilidade nestas duas dimensões.
Os dados recolhidos e representados graficamente evidenciam uma
valorização bastante expressiva da contabilidade: 77,9% dos respondentes
consideram que esta assume um papel muito importante tanto a nível empresarial
como social. Por sua vez, 18,8% classificam o seu papel como importante, enquanto
3,1% a consideram razoavelmente importante. Apenas 0,2% dos participantes
atribuem à contabilidade um papel sem importância.
Estes resultados reforçam a perceção de que a contabilidade é amplamente
reconhecida como um pilar essencial, não só para a eficiência interna das
organizações, mas também para a construção de uma sociedade mais transparente,
sustentável e economicamente equilibrada.
Gráfico 2 - Perceção sobre o Papel da Contabilidade nas Organizações e na Sociedade
Fonte: Output do SPSS (2024)
100
A RELEVÂNCIA DA CONTABILIDADE NA PREVISÃO DA INSOLVÊNCIA NAS ORGANIZAÇÕES.
Através da análise da tabela cruzada que se apresenta nesta secção, é
possível observar a distribuição geográfica das respostas relativamente à importância
atribuída à contabilidade, tanto a nível empresarial como social.
Na sua opinião, qual o papel da contabilidade a nível empresarial e social? VS Qual a sua
zona geográfica?
Ilha da Ilha dos
Norte Centro Sul Madeira Açores Total
7. Na sua Sem importância Contagem 0 0 0 1 0 1
opinião, qual o % do Total 0,0% 0,0% 0,0% 0,2% 0,0% 0,2%
papel da Razoavelmente Contagem 11 2 0 1 0 14
contabilidade a importante % do Total 2,5% 0,4% 0,0% 0,2% 0,0% 3,1%
nível Importante Contagem 59 20 4 1 0 84
empresarial e
% do Total 13,2% 4,5% 0,9% 0,2% 0,0% 18,8%
social?
Muito importante Contagem 251 75 18 2 2 348
% do Total 56,2% 16,8% 4,0% 0,4% 0,4% 77,9%
Total Contagem 321 97 22 5 2 447
% do Total 71,8% 21,7% 4,9% 1,1% 0,4% 100,0%
Tabela 13 - Papel da Contabilidade por Zona Geográfica
Fonte: Output do SPSS (2024)
Através da análise da tabela cruzada que se apresenta nesta secção, é
possível observar a distribuição geográfica das respostas relativamente à importância
atribuída à contabilidade, tanto a nível empresarial como social.
Verifica-se que a zona Norte do país foi a que registou a maior
representatividade, com um total de 321 respostas, das quais 251 inquiridos (56,2%)
consideraram que a contabilidade desempenha um papel muito importante. Este valor
destaca-se claramente face às restantes regiões, evidenciando uma forte valorização
do papel da contabilidade neste território.
Adicionalmente, nas regiões Centro e Sul, registaram-se 75 e 18 respostas na
mesma categoria de importância, correspondendo a 16,8% e 4%, respetivamente.
Estes dados confirmam uma tendência generalizada de reconhecimento do papel
fundamental da contabilidade no contexto empresarial e social, com variações apenas
residuais entre regiões.
101
A RELEVÂNCIA DA CONTABILIDADE NA PREVISÃO DA INSOLVÊNCIA NAS ORGANIZAÇÕES.
No que respeita às Regiões Autónomas, obtiveram-se duas respostas na
Região Autónoma da Madeira e duas na Região Autónoma dos Açores,
correspondendo cada uma a 0,4% do total. Embora estas regiões estejam sub-
representadas na amostra, importa destacar que, na Região Autónoma da Madeira,
verificou-se uma resposta que classificou a contabilidade como “sem importância”,
representando 0,2% do total. Este dado, embora estatisticamente pouco expressivo,
merece registo por constituir uma opinião divergente relativamente ao padrão
maioritário.
Em suma, a análise geográfica das respostas permite concluir que existe uma
valorização transversal da contabilidade no panorama nacional, sendo
particularmente acentuada na zona Norte, o que poderá refletir uma maior
sensibilização dos agentes económicos desta região para a importância da
informação contabilística como suporte à gestão e à responsabilidade social
empresarial.
[Link] Baseado na sua experiência, a Contabilidade é:
Opções de resposta: Ciência, Processo para a tomada de decisão;
Informação; Análise; Estratégia; Controlo; Negócio; Planeamento; (das 8
escolher 4 opções)
Com base nos dados obtidos através do inquérito, os participantes foram
convidados a indicar, entre oito opções possíveis, aquelas que melhor representam o
papel da contabilidade segundo a sua experiência. As opções apresentadas foram:
Ciência, Processo para a tomada de decisão, Informação, Análise, Estratégia,
Controlo, Negócio e Planeamento, sendo solicitado aos inquiridos que selecionassem
quatro.
A análise das respostas na tabela abaixo permitiu identificar as quatro opções
mais frequentemente escolhidas, evidenciando a perceção predominante sobre a
função da contabilidade nas organizações:
102
A RELEVÂNCIA DA CONTABILIDADE NA PREVISÃO DA INSOLVÊNCIA NAS ORGANIZAÇÕES.
Análise 332 74,3%
Ciência 69 15,4%
Controlo 288 64,4%
Estratégia 183 40,9%
Informação 286 64,0%
Negócio 79 17,7%
Planeamento 223 49,9%
Proc. para a tomada de 315 70,5%
decisão
Tabela 14 - Análise da Contabilidade
Fonte: Output do SPSS (2024)
Após o estudo realizado, pode-se concluir que:
• Análise (74,3%): Os inquiridos consideram que a contabilidade assume um
papel central na análise detalhada das informações financeiras, permitindo
interpretar resultados e orientar decisões fundamentadas;
• Processo para a tomada de decisão (70,5%): A contabilidade é vista como
um instrumento essencial na avaliação de dados financeiros que sustentam a
escolha de estratégias adequadas;
• Controlo (64,4%): Destaca-se a sua relevância no acompanhamento e
supervisão das operações financeiras, assegurando a conformidade normativa
e promovendo a eficiência;
• Informação (64,0%): É igualmente valorizado o contributo da contabilidade na
organização e disponibilização de dados que sustentam o processo de tomada
de decisão e avaliação de desempenho.
103
A RELEVÂNCIA DA CONTABILIDADE NA PREVISÃO DA INSOLVÊNCIA NAS ORGANIZAÇÕES.
Adicionalmente, foi analisada a perceção dos inquiridos relativamente à
importância da contabilidade no meio organizacional, recorrendo a uma escala de
Likert. Através da análise da tabela cruzada correspondente, concluiu-se que a
dimensão “Transparência” é aquela que recolhe maior consenso na escala “Muito
Importante”, refletindo a valorização da clareza e fiabilidade da informação
contabilística.
Outros dois aspetos com elevada representatividade foram o “Planeamento e
suporte à tomada de decisão”, com 280 respostas (62,6%), e a “Análise e avaliação
de desempenho”, com 227 respostas (50,8%). Estes dados reforçam a noção de que
a contabilidade é amplamente reconhecida como um instrumento fundamental para a
gestão estratégica e para o acompanhamento rigoroso do desempenho
organizacional.
104
A RELEVÂNCIA DA CONTABILIDADE NA PREVISÃO DA INSOLVÊNCIA NAS ORGANIZAÇÕES.
Sem importância Pouco importante Razoavelmente importante Importante Muito importante
% de N da % de N da % de N da % de N da % de N da
Contagem linha Contagem linha Contagem linha Contagem linha Contagem linha
Planeamento e suporte à 6 1,3% 5 1,1% 31 6,9% 125 28,0% 280 62,6%
tomada de decisão
Análise e avaliação do 4 0,9% 10 2,2% 42 9,4% 164 36,7% 227 50,8%
desempenho
Apoio e controlo das 4 0,9% 7 1,6% 46 10,3% 178 39,8% 212 47,4%
atividades da empresa
Melhorar a 6 1,3% 17 3,8% 92 20,6% 171 38,3% 161 36,0%
competitividade da
empresa
Criação de valor aos 4 0,9% 11 2,5% 61 13,6% 189 42,3% 182 40,7%
stakeholders pela gestão
eficiente de recursos
Transparência 4 0,9% 7 1,6% 23 5,1% 114 25,5% 299 66,9%
Tabela 15 - A importância da contabilidade no meio organizacional
Fonte: Output do SPSS (2024)
A contabilidade assume um papel determinante no contexto organizacional, sobretudo ao promover a transparência das
operações financeiras, disponibilizando informações claras, rigorosas e fidedignas sobre a situação económica da empresa. Esta
transparência constitui um pilar essencial para o planeamento estratégico, na medida em que permite não só identificar
oportunidades de crescimento, como também antecipar e gerir potenciais riscos.
105
A RELEVÂNCIA DA CONTABILIDADE NA PREVISÃO DA INSOLVÊNCIA NAS ORGANIZAÇÕES.
Paralelamente, a contabilidade revela-se um instrumento de suporte à tomada
de decisão, ao fornecer um conjunto estruturado de dados que sustenta escolhas
racionais e fundamentadas por parte dos gestores. Ao assegurar a fiabilidade da
informação disponibilizada, a contabilidade contribui de forma inequívoca para a
definição de estratégias eficazes e para a melhoria do desempenho organizacional.
3.5.2 QI2 - Como prever a insolvência das organizações através da
contabilidade?
[Link] A contabilidade pode prever a insolvência nas organizações?
No âmbito da presente investigação, foi colocada aos inquiridos a seguinte
questão: "A contabilidade pode prever a insolvência nas organizações?" A análise das
respostas obtidas revelou uma larga concordância quanto à capacidade preditiva da
contabilidade neste domínio.
Dos 447 inquiridos, 96,6% (n = 432) responderam afirmativamente,
reconhecendo que a contabilidade pode, de facto, antecipar situações de insolvência.
Por outro lado, apenas 3,4% (n = 15) manifestaram uma opinião contrária.
Importa referir que estas respostas negativas se distribuem geograficamente
da seguinte forma: 3 inquiridos pertencem à Região Autónoma da Madeira, 2 à zona
Centro e 10 à zona Norte do país. Esta distribuição territorial poderá refletir diferentes
perceções regionais relativamente ao papel da contabilidade na antecipação de
dificuldades financeiras, podendo constituir um ponto de interesse para futuras
investigações.
Na sua opinião, a contabilidade pode prever a insolvência nas organizações? VS
Qual a sua zona geográfica?
Ilha da Ilha dos
Norte Centro Sul Madeira Açores Total
A contabilidade pode Sim Contagem 311 95 22 2 2 432
prever a insolvência % do Total 69,6% 21,3% 4,9% 0,4% 0,4% 96,6%
nas organizações? Não Contagem 10 2 0 3 0 15
% do Total 2,2% 0,4% 0,0% 0,7% 0,0% 3,4%
Total Contagem 321 97 22 5 2 447
% do Total 71,8% 21,7% 4,9% 1,1% 0,4% 100,0%
Tabela 16 - Contabilidade e Previsão de Insolvência
Fonte: Output do SPSS (2024)
106
A RELEVÂNCIA DA CONTABILIDADE NA PREVISÃO DA INSOLVÊNCIA NAS ORGANIZAÇÕES.
A contabilidade assume um papel fundamental na gestão financeira das
organizações, proporcionando uma base sólida para o planeamento estratégico e para
a análise rigorosa de dados financeiros, essenciais à tomada de decisões informadas,
nomeadamente no que respeita a decisões de investimento.
Através de mecanismos de avaliação e gestão de riscos, a contabilidade
permite não só antecipar desafios de natureza financeira, como também mitigar os
seus impactos, promovendo uma gestão orientada para o desempenho sustentado.
Neste contexto, destaca-se ainda o seu contributo na identificação precoce de sinais
de dificuldade financeira, possibilitando a adoção de medidas de reestruturação
económica que assegurem a viabilidade e sustentabilidade da organização a longo
prazo.
A análise da tabela que se apresenta de seguida permite compreender o
posicionamento dos inquiridos face à importância da contabilidade na prevenção de
situações de insolvência, evidenciando a perceção generalizada do seu valor
enquanto ferramenta estratégica de apoio à gestão organizacional.
107
A RELEVÂNCIA DA CONTABILIDADE NA PREVISÃO DA INSOLVÊNCIA NAS ORGANIZAÇÕES.
Sem importância Pouco importante Razoavelmente importante Importante Muito importante
% de N da % de N da % de N da % de N da % de N da
Contagem linha Contagem linha Contagem linha Contagem linha Contagem linha
Planeamento 5 1,2% 14 3,5% 50 12,3% 156 38,5% 180 44,4%
Análise de dados 4 1,0% 4 1,0% 19 4,5% 130 31,1% 261 62,4%
Decisão de investimentos 3 0,7% 9 2,2% 36 8,7% 155 37,6% 209 50,7%
Gestão de avaliação de 5 1,2% 4 1,0% 31 7,4% 127 30,5% 250 60,0%
riscos
Previsão 2 0,5% 6 1,5% 52 12,8% 176 43,5% 169 41,7%
Gestão de desempenho 3 0,8% 11 2,8% 70 17,5% 178 44,6% 137 34,3%
Identificação de 3 0,7% 4 0,9% 18 4,3% 122 28,9% 275 65,2%
dificuldades financeiras
Restruturação financeira 4 1,0% 5 1,2% 37 9,0% 144 35,0% 221 53,8%
Tabela 17 - Itens Importantes na Previsão de Insolvência
Fonte: Output do SPSS (2024)
Para a análise da questão “Quais dos itens têm mais importância na previsão de insolvências?” recorreu-se à utilização de
uma escala de Likert, pela sua reconhecida eficácia na recolha de perceções subjetivas. Esta abordagem metodológica apresenta
vantagens significativas, nomeadamente a simplicidade das opções de resposta, que facilita a compreensão por parte dos inquiridos
e reduz a probabilidade de erro, contribuindo para uma análise estatística mais fiável, consistente e de fácil interpretação.
Através da tabela apresentada, observa-se que as respostas se concentram maioritariamente nas categorias “Importante” e
“Muito importante”, o que demonstra a relevância atribuída pelos inquiridos aos diferentes fatores analisados na previsão de
insolvências.
108
A RELEVÂNCIA DA CONTABILIDADE NA PREVISÃO DA INSOLVÊNCIA NAS ORGANIZAÇÕES.
No que respeita à categoria “Muito importante”, destacam-se os seguintes itens:
• Análise de dados, com 261 respostas, correspondendo a 62,4% do
total;
• Gestão de avaliação de riscos, com 250 respostas, representando
60% dos inquiridos.
Já na categoria “Importante”, os itens com maior expressão foram:
• Gestão de desempenho, com 178 respostas (44,6%);
• Previsão, com 176 respostas (43,5%).
Estes resultados evidenciam que, na perceção dos inquiridos, a análise e
interpretação de dados, bem como a gestão de riscos, são considerados os fatores
mais críticos na antecipação de situações de insolvência, enquanto a gestão contínua
de desempenho e a capacidade preditiva também assumem um papel relevante no
processo.
A contabilidade assume, nas organizações contemporâneas, um papel
determinante, não apenas como instrumento de registo e controlo, mas também como
ferramenta estratégica ao serviço da gestão. No contexto atual, marcado pelo avanço
tecnológico e pela crescente complexidade dos mercados, áreas como a análise de
dados, gestão de riscos, gestão de desempenho e previsão adquiriram uma
importância incontornável para os profissionais da contabilidade e da gestão.
A análise de dados destaca-se como uma ferramenta indispensável,
permitindo o tratamento de grandes volumes de informação financeira com o intuito
de identificar tendências, padrões e anomalias. Esta capacidade analítica viabiliza a
produção de relatórios mais rigorosos e relevantes, orientando a tomada de decisões
com base em dados concretos e objetivos, o que, por sua vez, contribui para a
eficiência operacional e o aumento da rentabilidade das organizações (Nabais, 2015).
A gestão de avaliação de riscos, por seu lado, envolve a identificação,
avaliação e mitigação dos riscos de natureza financeira e operacional. Através de
análises aprofundadas, os profissionais conseguem antecipar riscos de diversas
tipologias — como os riscos de crédito, de mercado ou fiscais — e implementar
estratégias adequadas para a sua minimização, assegurando assim a estabilidade e
continuidade financeira das entidades (Pacheco et al., 2021).
109
A RELEVÂNCIA DA CONTABILIDADE NA PREVISÃO DA INSOLVÊNCIA NAS ORGANIZAÇÕES.
A gestão de desempenho representa outro pilar essencial da função
contabilística, na medida em que promove o acompanhamento sistemático dos
resultados financeiros, comparando-os com os objetivos traçados. Este processo de
monitorização contínua permite a identificação de desvios e oportunidades de
melhoria, conduzindo a ajustamentos estratégicos que favorecem a otimização dos
lucros e o reforço da competitividade (Lima Monteiro & Rocha, 2023).
Por fim, a previsão financeira desempenha um papel vital na contabilidade
contemporânea, possibilitando a projeção de cenários futuros com base em dados
históricos e modelos analíticos. Esta capacidade preditiva constitui um elemento-
chave do planeamento estratégico, permitindo às organizações antecipar desafios e
preparar-se para os mesmos, enquanto identificam novas oportunidades de
crescimento e inovação (Monteiro & Rocha, 2023).
Para efeitos de análise dos indicadores considerados mais relevantes na
previsão de insolvências empresariais, foi colocada aos inquiridos a seguinte
questão:
"Para prever a insolvência de uma empresa é importante analisar diversos fatores
financeiros e operacionais. Dos pontos apresentados, indique os que considera mais
importantes (das 7 opções apresentadas, selecione apenas 4)."
As opções disponíveis incluíam: Demonstrações financeiras, Indicadores
financeiros, Gestão de caixa, Análise setorial e de mercado, Histórico de tendências,
Riscos operacionais e estratégicos, e Análise qualitativa (referente à reputação da
empresa, da administração e à capacidade de inovação).
A análise das respostas, conforme ilustrado na tabela abaixo, revelou uma clara
preferência por indicadores de natureza financeira. Destacaram-se, em primeiro lugar,
as Demonstrações Financeiras, com 395 respostas (88,6%), seguidas pelos
Indicadores Financeiros, com 354 respostas (79,4%), evidenciando o forte
reconhecimento da sua importância no diagnóstico precoce de potenciais situações
de insolvência.
Num segundo plano, com percentagens compreendidas entre os 70% e os
40%, surgem os seguintes fatores: Riscos operacionais e estratégicos, Análise setorial
e de mercado, Gestão de caixa, e a Análise qualitativa, esta última englobando
110
A RELEVÂNCIA DA CONTABILIDADE NA PREVISÃO DA INSOLVÊNCIA NAS ORGANIZAÇÕES.
perceções sobre a reputação da organização, a qualidade da sua administração e a
sua capacidade de inovação.
Estes resultados demonstram que, embora os instrumentos financeiros
tradicionais continuem a ser valorizados de forma prioritária, existe também uma
crescente atenção a fatores de natureza operacional e qualitativa, cuja análise
integrada pode proporcionar uma visão mais abrangente e preventiva do risco de
insolvência nas organizações.
% de N da
Contagem coluna
Demonstrações financeiras 395 88,6%
Indicadores financeiros 354 79,4%
299 67%
Riscos operacionais e estratégicos
Análise setorial e de mercado 203 45,5%
Gestão de caixa 191 42,8%
Análise qualitativa (Reputação da empresa, da 180 40,4%
administração e capacidade de inovação)
Histórico de tendências 86 19,3%
Tabela 18 – Indicadores de análise de fatores financeiros e operacionais
Fonte: Output do SPSS (2024)
As demonstrações financeiras constituem um dos instrumentos mais relevantes
para a avaliação da saúde financeira de uma organização, uma vez que refletem de
forma estruturada a sua posição patrimonial, os seus resultados económicos e o
desempenho global ao longo de determinado período. Através da análise destas
demonstrações, é possível calcular indicadores financeiros essenciais, como os rácios
de liquidez, rentabilidade e endividamento, os quais permitem aferir o grau de
eficiência operacional, a capacidade de gerar retorno e o nível de solvência da
empresa.
Paralelamente, a gestão de riscos operacionais deve ser considerada uma
prioridade estratégica, dado que envolve a identificação e mitigação de fatores
internos que possam comprometer a continuidade e a estabilidade das operações
empresariais. A antecipação destes riscos permite às organizações adotar medidas
preventivas, garantindo maior resiliência face a imprevistos.
A análise setorial e de mercado assume também um papel crucial, ao
possibilitar a compreensão do posicionamento da organização dentro do seu sector
111
A RELEVÂNCIA DA CONTABILIDADE NA PREVISÃO DA INSOLVÊNCIA NAS ORGANIZAÇÕES.
de atividade, bem como a identificação de tendências emergentes ou desafios
externos que possam impactar negativamente o seu desempenho económico-
financeiro.
Neste mesmo enquadramento, a gestão de caixa revela-se determinante para
assegurar a liquidez necessária ao cumprimento das obrigações financeiras, bem
como para permitir que a empresa capitalize oportunidades de investimento quando
estas surgem. Uma gestão eficiente do fluxo de caixa é, por isso, um indicador-chave
da solidez operacional de uma entidade.
Por fim, não menos importante, destaca-se a análise qualitativa, que contempla
fatores não financeiros como a reputação da empresa, a qualidade da administração
e a capacidade de inovação. Estes elementos, embora de natureza intangível,
influenciam diretamente a perceção de risco por parte de investidores, clientes e
demais stakeholders, condicionando a atratividade da organização no mercado e o
seu potencial de crescimento sustentável.
[Link] A prestação de contas
Conforme anteriormente referido, a apresentação das contas constitui um
processo central na contabilidade, assumindo um papel determinante na promoção
da transparência da informação financeira e no reforço da responsabilidade
organizacional em conformidade com as boas práticas do sector. Este processo
contempla a preparação e divulgação das demonstrações financeiras —
nomeadamente o Balanço, a Demonstração dos Resultados, a Demonstração das
Alterações no Capital Próprio e a Demonstração de Fluxos de Caixa — que têm como
finalidade evidenciar, de forma clara e estruturada, a posição económica e financeira
da entidade.
Nos termos da Norma Contabilística e de Relato Financeiro n.º 1 (NCRF 1) do
Sistema de Normalização Contabilística (SNC), estas demonstrações devem ser
obrigatoriamente apresentadas pelo menos uma vez por ano (§9). Contudo, a
relevância da apresentação das contas ultrapassa largamente o mero cumprimento
de exigências legais, assumindo uma dimensão estratégica. De facto, este processo
fortalece a credibilidade da organização, suporta decisões de investimento e
financiamento e permite uma gestão mais eficiente dos riscos financeiros e
operacionais. Simultaneamente, promove a transparência perante entidades externas
112
A RELEVÂNCIA DA CONTABILIDADE NA PREVISÃO DA INSOLVÊNCIA NAS ORGANIZAÇÕES.
— como investidores, instituições financeiras e entidades reguladoras —, fomentando
a confiança no mercado e contribuindo para a sustentabilidade e bom funcionamento
da empresa (Antunes, 2019).
No âmbito do questionário aplicado, os dados obtidos demonstram que uma
maioria dos inquiridos (55,27%) considera que a apresentação das contas
empresariais deve ocorrer com periodicidade mensal, enquanto 36,53% entende que
tal deveria ser feita trimestralmente. Estes resultados revelam uma tendência para
uma frequência mais elevada na divulgação da informação financeira, refletindo a
crescente necessidade de monitorização regular e atualizada da performance
económico-financeira das organizações.
Importa ainda referir que, de acordo com o n.º 5 do artigo 65.º do Código das
Sociedades Comerciais (CSC), "O relatório de gestão, as contas do exercício e os
demais documentos de prestação de contas devem ser apresentados e apreciados
nos três primeiros meses de cada ano civil". Assim, considerando que o ano civil
corresponde ao período de janeiro a dezembro, os documentos de prestação de
contas referentes a um determinado exercício devem ser apresentados até ao dia 31
de março do ano seguinte.
Gráfico 3 – Apresentação da prestação de contas
Fonte: Output do SPSS (2024)
113
A RELEVÂNCIA DA CONTABILIDADE NA PREVISÃO DA INSOLVÊNCIA NAS ORGANIZAÇÕES.
A prestação de contas nas organizações assenta em pressupostos
fundamentais que asseguram a transparência, a fiabilidade e a utilidade da informação
financeira disponibilizada. Estes princípios constituem a base sobre a qual se
desenvolve o relato contabilístico, promovendo a confiança dos stakeholders nas
demonstrações financeiras apresentadas.
Entre os pressupostos mais relevantes destacam-se os seguintes:
• Prudência: A contabilidade deve ser conduzida com cautela,
antecipando riscos e perdas potenciais, sem sobrevalorizar ativos ou
receitas. Este princípio assegura uma representação realista e
conservadora da situação financeira da empresa, conforme previsto no
parágrafo 37 do Enquadramento Conceptual (EC).
• Continuidade: As demonstrações financeiras devem ser elaboradas
com base no pressuposto de que a entidade continuará em
funcionamento num futuro previsível, salvo evidência em contrário. Tal
condiciona a avaliação de ativos e passivos, partindo do princípio de que
não há intenção ou necessidade de liquidação iminente. Este conceito
encontra-se definido no §23 do EC.
• Periodicidade: A informação contabilística deve ser apresentada de
forma regular e sistemática, geralmente com periodicidade anual,
permitindo o acompanhamento e análise comparativa do desempenho
económico-financeiro da organização. Esta exigência encontra-se
consagrada no §9 da NCRF 1.
• Comparabilidade: A aplicação consistente de métodos contabilísticos
ao longo do tempo garante a comparabilidade entre períodos, facilitando
a análise evolutiva e a interpretação dos dados financeiros. Este
princípio está consagrado no §39 do EC.
• Materialidade: Apenas devem ser incluídas nas demonstrações
financeiras informações relevantes, ou seja, aquelas que possam
influenciar as decisões económicas dos utilizadores da informação. O
princípio da materialidade visa evitar a omissão de dados significativos
ou a inclusão de informações irrelevantes, conforme definido no §29 do
EC.
114
A RELEVÂNCIA DA CONTABILIDADE NA PREVISÃO DA INSOLVÊNCIA NAS ORGANIZAÇÕES.
A observância destes pressupostos contribui para que as demonstrações
financeiras apresentem uma imagem verdadeira e apropriada da situação económica
e financeira da entidade, sendo assim instrumentos essenciais para a tomada de
decisões por parte de investidores, credores e restantes partes interessadas. A correta
prestação de contas constitui, por conseguinte, um pilar da boa gestão, da
conformidade legal e da reputação organizacional no mercado.
No âmbito da análise dos indicadores, foi colocada aos inquiridos a seguinte
questão: “A prestação de contas tem como finalidade comunicar e informar tanto a
situação financeira como operacional aos seus stakeholders. A prestação de contas
deve: (Das 8 propostas apresentadas, escolha apenas 4)”. As opções fornecidas
incluíam: Garantir a transparência, Ajudar na tomada de decisão, Ser confiante e
credível, Auxiliar na avaliação de desempenho da empresa, Ter responsabilidade,
Estudar investimentos, Analisar estratégias e Avaliar a eficácia do modelo de negócio.
A análise dos dados recolhidos revela que, numa escala de preferência
compreendida entre 50% e 85%, os inquiridos destacaram como prioritárias as
seguintes quatro dimensões: garantir a transparência, ser confiante e credível, ajudar
na tomada de decisão e auxiliar na avaliação do desempenho da empresa. Estes
resultados evidenciam que os participantes atribuem maior relevância às funções da
prestação de contas que promovem a clareza da informação, a fiabilidade dos dados
apresentados, o suporte à gestão estratégica e o acompanhamento do desempenho
organizacional.
Contagem % de N da coluna
Garantir a transparência 378 84,6%
Ser confiante e credível 340 76,1%
Ajudar na tomada de decisão 331 74,0%
Auxiliar na avaliação de desempenho da empresa
278 62,2%
Avaliar a eficácia no modelo de negócio 158 35,3%
Analisar estratégias 148 33,1%
Ter responsabilidade 92 20,6%
Estudar investimentos 51 11,4%
Tabela 19 - Indicadores da prestação de contas
Fonte: Output do SPSS (2024)
115
A RELEVÂNCIA DA CONTABILIDADE NA PREVISÃO DA INSOLVÊNCIA NAS ORGANIZAÇÕES.
3.5.3 QI3 - Qual a importância da contabilidade nas organizações, e o seu
impacto na gestão?
[Link] Uma vez que a contabilidade é direcionada para os negócios, acha
que a contabilidade e o modelo de negócio devem estar em
sintonia?
Tal como referido anteriormente, a contabilidade constitui uma ferramenta
essencial para o funcionamento eficaz das organizações, indo muito além do mero
registo de transações. Trata-se de um instrumento que permite obter uma visão
aprofundada sobre a saúde financeira da empresa e sobre o seu desempenho
operacional. Neste contexto, coloca-se a seguinte questão: “Uma vez que a
contabilidade é direcionada para os negócios, acha que a contabilidade e o modelo
de negócio devem estar em sintonia?”
A pertinência desta pergunta reside na necessidade de compreender de que
forma a contabilidade pode ser alinhada com a estratégia empresarial, de modo a
assegurar que as decisões financeiras tomadas são coerentes com o modelo de
negócio adotado e com o ambiente em que a organização se insere. Como defendem
Paiva & Carvalho (2021), este alinhamento pode revelar-se crucial para garantir a
sustentabilidade e o sucesso a longo prazo da empresa.
Quando existe uma sintonia efetiva entre contabilidade e modelo de negócio, a
contabilidade pode fornecer informações precisas e relevantes que orientam a tomada
de decisões estratégicas, contribuindo para o ajustamento de políticas, otimização de
recursos e maximização da rentabilidade. Por exemplo, num modelo de negócio
assente na inovação, a contabilidade deverá estar preparada para acompanhar de
forma detalhada os investimentos em investigação e desenvolvimento. Por outro lado,
um modelo centrado na eficiência operacional exigirá um controlo rigoroso dos custos
e dos fluxos de caixa.
Relativamente à análise estatística da questão colocada e através do gráfico
apresentado, verifica-se que 94,85% dos inquiridos considera que a contabilidade e o
modelo de negócio devem, efetivamente, estar alinhados, ao passo que apenas
5,15% discorda dessa afirmação. Estes resultados evidenciam uma perceção
amplamente consensual sobre a importância desta articulação para a gestão
estratégica e financeira das organizações.
116
A RELEVÂNCIA DA CONTABILIDADE NA PREVISÃO DA INSOLVÊNCIA NAS ORGANIZAÇÕES.
Gráfico 4 - A Contabilidade e o modelo de negócio
Fonte: Output do SPSS (2024)
Para avaliar a perceção dos inquiridos quanto à importância da contabilidade
no modelo de negócio, recorreu-se à utilização de uma escala de Likert, reconhecida
pela sua simplicidade e eficácia. Esta escala permite uma melhor compreensão das
opções de resposta por parte dos participantes, reduzindo a margem de erro e
facilitando a análise quantitativa subsequente dos dados recolhidos.
Através da análise da tabela cruzada que se segue, observou-se que, na
categoria “Muito importante”, o fator mais destacado foi a fiabilidade, com um total de
282 respostas, o que representa 66,5% dos inquiridos. Este resultado evidencia a
valorização da contabilidade como um instrumento essencial para a produção de
informação fidedigna e consistente, reforçando o papel da contabilidade como base
para a confiança na gestão empresarial.
Estes resultados reforçam a ideia de que a contabilidade é amplamente
reconhecida como um instrumento de apoio à gestão estratégica, sendo considerada
essencial não apenas para o cumprimento das exigências legais, mas também como
base para uma atuação empresarial informada, sustentada e orientada para o sucesso
a longo prazo.
117
A RELEVÂNCIA DA CONTABILIDADE NA PREVISÃO DA INSOLVÊNCIA NAS ORGANIZAÇÕES.
Seguem-se, em termos de relevância, os pontos “Cumprimento das obrigações
regulatórias e fiscais”, com 269 respostas (63,4%), e “Visão clara do desempenho
financeiro”, com 259 respostas (61,1%). Estes resultados sublinham o
reconhecimento da contabilidade não apenas como uma ferramenta de conformidade
legal, mas também como um mecanismo fundamental para a monitorização e
interpretação do desempenho económico da organização.
Na categoria “Importante”, destacam-se os fatores “Avaliação da viabilidade do
modelo de negócio”, com 175 respostas (41,3%), e “Planeamento estratégico”, com
173 respostas (40,8%). Estes dados indicam que os inquiridos reconhecem a
contabilidade como um suporte fundamental na análise da sustentabilidade do modelo
empresarial, bem como no delineamento de estratégias futuras.
Por fim, o ponto “Tomada de decisão” registou 144 respostas, correspondendo
a 34%, confirmando que a contabilidade é amplamente percecionada como um apoio
direto aos processos decisórios dentro da organização.
Em suma, os resultados obtidos evidenciam uma clara valorização das
diferentes dimensões da contabilidade no contexto do modelo de negócio, com
especial ênfase na fiabilidade da informação, na conformidade regulatória e na
capacidade de oferecer uma leitura objetiva e sistematizada do desempenho
financeiro da empresa.
118
A RELEVÂNCIA DA CONTABILIDADE NA PREVISÃO DA INSOLVÊNCIA NAS ORGANIZAÇÕES.
Sem importância Pouco importante Razoavelmente importante Importante Muito importante
% de N da % de N da % de N da % de N da % de N da
Contagem linha Contagem linha Contagem linha Contagem linha Contagem linha
Visão clara do 2 0,5% 5 1,2% 18 4,2% 140 33,0% 259 61,1%
desempenho financeiro
Tomada de decisão 2 0,5% 6 1,4% 20 4,7% 144 34,0% 252 59,4%
Planeamento estratégico 3 0,7% 6 1,4% 29 6,8% 173 40,8% 213 50,2%
Avaliação na viabilidade 2 0,5% 10 2,4% 33 7,8% 175 41,3% 204 48,1%
do modelo de negócio
Cumprimento nas 2 0,5% 7 1,7% 24 5,7% 122 28,8% 269 63,4%
obrigações regulatórias e
fiscais
Fiabilidade 2 0,5% 5 1,2% 15 3,5% 120 28,3% 282 66,5%
Tabela 20 - A importância da contabilidade no modelo de negócio
Fonte: Output do SPSS (2024)
A contabilidade assume um papel central no alinhamento e no sucesso de qualquer modelo de negócio, ao disponibilizar as
ferramentas e informações indispensáveis para garantir a fiabilidade dos dados financeiros e, consequentemente, a sustentabilidade
da empresa a longo prazo. A fiabilidade da informação contabilística revela-se um dos pilares fundamentais neste processo, uma
vez que assegura que gestores, investidores e demais stakeholders disponham de uma base sólida para a tomada de decisões
estratégicas, seguras e fundamentadas.
119
A RELEVÂNCIA DA CONTABILIDADE NA PREVISÃO DA INSOLVÊNCIA NAS ORGANIZAÇÕES.
Adicionalmente, a contabilidade desempenha uma função crucial no que
respeita ao cumprimento das obrigações regulatórias e fiscais, assegurando que a
organização atua em conformidade com o quadro legal em vigor. Este cumprimento
não só evita sanções legais e fiscais, como também preserva a reputação institucional
e a estabilidade financeira da empresa (Paiva & Carvalho, 2021).
Através das demonstrações financeiras, a contabilidade oferece uma leitura
clara e sistemática do desempenho financeiro da organização, permitindo analisar
indicadores como lucros, custos e rentabilidade. Esta informação é essencial para a
avaliação da viabilidade do modelo de negócio, pois permite aferir se os resultados
obtidos estão alinhados com os objetivos estratégicos definidos, ou se, pelo contrário,
se justificam reajustamentos no modelo adotado (Paiva & Carvalho, 2021).
Paralelamente, a contabilidade revela-se uma aliada fundamental no
planeamento estratégico, ao fornecer dados quantitativos e qualitativos que permitem
projetar o futuro da empresa com base em cenários financeiros realistas e
sustentáveis. Através desta base informativa, os gestores podem ajustar o modelo de
negócio de forma a maximizar a eficiência, identificar novas oportunidades de
crescimento e mitigar potenciais riscos (Paiva & Carvalho, 2021).
Em última instância, a contabilidade suporta a tomada de decisão, oferecendo
dados detalhados e rigorosos sobre a saúde financeira da organização. Esta base
analítica permite que as decisões estratégicas sejam tomadas com maior grau de
confiança, reduzindo a incerteza e contribuindo para uma gestão mais eficaz (Paiva &
Carvalho, 2021).
[Link] A contabilidade e a digitalização
A contabilidade e a digitalização encontram-se, cada vez mais, intrinsecamente
ligadas, fruto do processo de transformação digital que tem vindo a marcar
profundamente o tecido empresarial contemporâneo. Esta evolução tecnológica tem
trazido avanços significativos na área contabilística, nomeadamente através da
automação de processos, como o registo de transações e a elaboração de relatórios
financeiros, promovendo ganhos expressivos em termos de eficiência operacional e
redução de erros humanos.
A implementação de softwares especializados e sistemas de informação
integrados tem possibilitado uma gestão financeira mais ágil, precisa e transparente,
120
A RELEVÂNCIA DA CONTABILIDADE NA PREVISÃO DA INSOLVÊNCIA NAS ORGANIZAÇÕES.
enquanto garante o acesso remoto e em tempo real aos dados financeiros. Esta
capacidade de monitorização contínua torna-se especialmente relevante num
contexto empresarial em constante mutação, onde a rapidez na tomada de decisões
pode representar uma vantagem competitiva determinante.
Além disso, a digitalização tem contribuído para simplificar o cumprimento das
obrigações fiscais e legais, através da otimização da gestão documental e da
automatização de tarefas rotineiras. Desta forma, a contabilidade digital não se limita
a melhorar a eficiência dos processos internos, mas reforça também a sua função
estratégica ao proporcionar uma base sólida para decisões mais informadas, céleres
e sustentáveis (Magalhães, 2023).
No sentido de aferir a perceção dos inquiridos relativamente ao impacto da
digitalização na comunicação interna das organizações, foi colocada a seguinte
questão:
“Acha que a digitalização poderá ser uma mais-valia para a comunicação e
colaboração entre diferentes departamentos de uma empresa?”
Gráfico 5 - Importância da digitalização na Contabilidade
Fonte: Output do SPSS (2024)
121
A RELEVÂNCIA DA CONTABILIDADE NA PREVISÃO DA INSOLVÊNCIA NAS ORGANIZAÇÕES.
Através da análise do gráfico acima, observa-se que 93,74% dos respondentes
indicou concordar com esta questão, revelando um elevado grau de concordância
quanto ao potencial da digitalização como facilitadora da comunicação e cooperação
interdepartamental. Este resultado evidencia uma forte consciência por parte dos
participantes relativamente aos benefícios da tecnologia na articulação entre áreas
funcionais distintas, promovendo um fluxo de informação mais eficiente e uma maior
coesão organizacional.
Assim, os dados recolhidos confirmam que a digitalização é percecionada como
uma mais-valia não apenas para os processos contabilísticos, mas também para o
funcionamento integrado e colaborativo das organizações, reforçando o seu papel
como pilar estratégico na gestão contemporânea.
Reconhecendo as múltiplas vantagens que a digitalização proporciona ao
exercício da contabilidade, procurou-se aferir, junto dos inquiridos, quais os benefícios
mais valorizados neste processo de transformação digital. Para tal, foi colocada a
seguinte questão de resposta condicionada:
“Se respondeu sim, indique quais as vantagens da digitalização: (Das 6 propostas
apresentadas, escolha apenas 3).
As opções apresentadas foram as seguintes:
• Aumento da eficiência operacional
• Redução de custos
• Maior acessibilidade e partilha de informação
• Tomada de decisões mais ágil e precisa
• Inovação
• Adaptação rápida às mudanças do mercado”
Através da análise dos dados constantes na tabela abaixo, verifica-se que os
inquiridos privilegiam três grandes dimensões como principais vantagens da
digitalização aplicada à contabilidade.
A opção “Maior acessibilidade e partilha de informação” foi a mais selecionada,
com 79,5% das respostas. Este resultado demonstra a forte valorização da
122
A RELEVÂNCIA DA CONTABILIDADE NA PREVISÃO DA INSOLVÊNCIA NAS ORGANIZAÇÕES.
digitalização enquanto facilitadora do acesso remoto, em tempo real, e da
comunicação eficaz entre diferentes áreas da organização, contribuindo assim para
um ambiente mais colaborativo e integrado.
Seguidamente, destaca-se a opção “Aumento da eficiência operacional”, com
75,9% das respostas. Este dado reforça a ideia de que a automatização de processos
e a eliminação de tarefas repetitivas potenciam uma gestão contabilística mais ágil,
precisa e orientada para resultados, reduzindo o tempo necessário para o
cumprimento de tarefas rotineiras.
Em terceiro lugar, surge a “Redução de custos”, assinalada por 62,1% dos
inquiridos, revelando a perceção de que a digitalização contribui diretamente para
otimizar os recursos financeiros, quer pela diminuição de erros, quer pela
racionalização de processos e da necessidade de recursos humanos dedicados
exclusivamente a tarefas administrativas.
Contagem % de N da coluna
Maior acessibilidade e compartilhamento de 333 79,5%
informação
Aumento da eficiência operacional 318 75,9%
Redução de custos 260 62,1%
Tomada de decisões mais ágil e precisa
205 48,9%
Inovação 129 30,8%
Adaptação rápida às mudanças do mercado 127 30,3%
Tabela 21 - Vantagens da digitalização na contabilidade
Fonte: Output do SPSS (2024)
Estes resultados evidenciam que, para os participantes no estudo, a
digitalização não é apenas um fenómeno tecnológico, mas sim uma alavanca
estratégica com impacto direto na eficiência, comunicação e sustentabilidade
económica das organizações. A sua integração na contabilidade é, assim,
amplamente reconhecida como um fator de modernização e vantagem competitiva no
contexto atual.
A digitalização tem-se revelado um fator profundamente transformador na área
da contabilidade, introduzindo um conjunto de benefícios que têm alterado, de forma
estrutural, a forma como as organizações gerem e organizam as suas finanças. Esta
123
A RELEVÂNCIA DA CONTABILIDADE NA PREVISÃO DA INSOLVÊNCIA NAS ORGANIZAÇÕES.
transição digital tem contribuído para a modernização dos processos contabilísticos,
promovendo não só a sua eficiência como também a sua integração estratégica nas
empresas.
Um dos principais avanços apontados pelos inquiridos diz respeito à maior
acessibilidade e partilha de informação fidedigna. A digitalização permite que
contabilistas, gestores e restantes stakeholders tenham acesso a dados e relatórios
atualizados, em tempo real e a partir de qualquer localização, promovendo uma
comunicação mais fluida e uma partilha de informação mais eficaz entre
departamentos. Este acesso imediato e permanente a informação financeira rigorosa
melhora significativamente a precisão na análise dos dados e a qualidade da tomada
de decisões, ao reduzir o tempo de resposta e eliminar a fragmentação da informação
(Quadros et al., 2023).
Outro aspeto amplamente valorizado é o aumento da eficiência operacional,
decorrente da automatização de tarefas anteriormente executadas manualmente,
como a introdução de dados, reconciliações bancárias ou a preparação de
demonstrações financeiras. A utilização de softwares especializados possibilita a
redução do tempo despendido em tarefas repetitivas e administrativas, libertando os
profissionais de contabilidade para funções de maior valor estratégico, como o
planeamento financeiro, a análise de desempenho ou a assessoria à gestão
(Benedicto et al, 2023).
Por fim, destaca-se a redução de custos como um dos impactos mais tangíveis
da digitalização. A eliminação de processos manuais, a diminuição do uso de papel,
a gestão digital de documentos e a automatização de tarefas contribuem para
minimizar erros, retrabalho e desperdícios, resultando numa contabilidade mais
económica, sustentável e eficaz. Além disso, a racionalização de recursos humanos
em funções operacionais traduz-se numa estrutura organizacional mais enxuta e
orientada para a produtividade (Magalhães, 2023).
Estes resultados reforçam a perceção generalizada de que a digitalização não
só potencia a eficiência dos processos contabilísticos, como contribui diretamente
para a criação de um ambiente empresarial mais dinâmico, preciso, colaborativo e
economicamente sustentável.
124
A RELEVÂNCIA DA CONTABILIDADE NA PREVISÃO DA INSOLVÊNCIA NAS ORGANIZAÇÕES.
3.5.4 Definição de contabilidade em 3 palavras:
Na última questão do questionário aplicado, foi solicitado aos inquiridos que
definissem a contabilidade em três palavras à sua escolha, com total liberdade de
expressão. Esta pergunta teve como objetivo identificar as palavras mais
frequentemente associadas à contabilidade, permitindo assim compreender a forma
como esta área é percecionada de forma intuitiva e espontânea pelos participantes.
A análise das respostas obtidas permitiu a construção de uma tabela com as
25 palavras mais repetidas, representando os conceitos mais recorrentes na perceção
coletiva dos inquiridos. Esta abordagem qualitativa complementa a análise estatística
desenvolvida ao longo do estudo, evidenciando os valores, funções e características
mais associados à contabilidade no imaginário dos respondentes.
Na tabela seguinte apresentam-se, por ordem decrescente de frequência, as
25 palavras mais mencionadas pelos participantes, fornecendo uma visão sintética,
mas reveladora do papel que a contabilidade desempenha, na prática e na perceção
social, enquanto instrumento de apoio à gestão, à transparência e ao controlo
financeiro das organizações.
Através da análise da tabela apresentada, é possível identificar as cinco
palavras com maior incidência nas respostas dos inquiridos, o que permite
compreender com maior profundidade os conceitos que, na sua perceção, melhor
caracterizam a contabilidade. As palavras mais recorrentes foram “Transparência”,
“Informação”, “Análise”, “Fiabilidade” e “Tomada de decisão”.
Estes resultados revelam uma clara valorização da contabilidade enquanto
instrumento de apoio à gestão e à comunicação organizacional, destacando-se, em
primeiro lugar, a transparência, que traduz a importância da contabilidade na
disponibilização de informação clara, acessível e isenta. Em segundo lugar, surge a
palavra informação, reforçando a ideia da contabilidade como fonte estruturada de
dados financeiros essenciais à atividade empresarial.
A presença destacada da palavra análise evidencia a sua função interpretativa
e analítica, na medida em que os dados contabilísticos não são apenas registados,
mas também processados com vista à extração de indicadores úteis à avaliação do
desempenho organizacional. A fiabilidade, por sua vez, sublinha a importância da
confiança nos dados produzidos pela contabilidade, garantindo a sua coerência,
125
A RELEVÂNCIA DA CONTABILIDADE NA PREVISÃO DA INSOLVÊNCIA NAS ORGANIZAÇÕES.
consistência e conformidade com as normas aplicáveis. Por fim, a tomada de decisão
surge como resultado direto da utilização desta informação fiável e analisada, sendo
a contabilidade percecionada como um suporte fundamental à definição de estratégias
empresariais sustentadas.
Contagem
Transparência 65
Informação 57
Análise 46
Fiabilidade 45
Tomada de decisão 40
Controlo 37
Importante 36
Rigor 33
Gestão 33
Ciência 23
Credível 20
Responsabilidade 18
Imprescindível 17
Essencial 17
Planeamento 15
Organização 15
Fundamental 14
Estratégica 14
Saúde Financeira 13
Precisão 12
Eficiente 12
Imagem verdadeira e apropriada 11
Registo 10
Espelho 10
Crescimento 10
Tabela 22 - Definição de contabilidade
Fonte: Output do SPSS (2024)
Desta forma, estas cinco palavras-chave sintetizam, de forma representativa, o
modo como os inquiridos compreendem o papel da contabilidade nas organizações:
como um sistema estruturado de produção de informação fiável, ao serviço da
transparência e da tomada de decisões informadas.
126
A RELEVÂNCIA DA CONTABILIDADE NA PREVISÃO DA INSOLVÊNCIA NAS ORGANIZAÇÕES.
3.6 Principais Conclusões do Trabalho Empírico
O presente trabalho empírico permitiu alcançar uma compreensão aprofundada
e alicerçada na evidência sobre o papel incontornável da contabilidade na antecipação
e mitigação de situações de insolvência organizacional. Através da análise dos dados
recolhidos por via de questionário, complementada por uma leitura crítica da literatura
científica, foi possível evidenciar a forma como a comunidade inquirida perceciona e
valoriza a contabilidade no contexto da sustentabilidade financeira das organizações.
Os resultados obtidos demonstram de forma clara que a contabilidade é hoje
entendida não apenas como uma prática técnica de registo de operações, mas como
uma ferramenta essencial de gestão estratégica, dotada de uma função informativa,
analítica e preditiva. Esta perspetiva moderna da contabilidade destaca a sua
relevância para além do cumprimento de obrigações legais, posicionando-a como um
instrumento de suporte à tomada de decisão, à monitorização do desempenho e à
promoção da transparência e responsabilidade organizacional.
No que respeita à primeira questão de investigação "Qual a importância que a
comunidade científica tem dado a este tema, em particular ao das variáveis que
justificam a insolvência nas organizações ao longo dos anos?", relativa ao grau de
importância atribuído pela comunidade científica e profissional à contabilidade
enquanto elemento central na identificação das causas da insolvência ao longo do
tempo, os inquiridos revelaram uma perceção amplamente positiva. A maioria
reconhece o valor substancial da contabilidade na compreensão e análise das
dinâmicas financeiras das organizações, o que confirma a crescente
consciencialização sobre o seu papel estrutural na sustentabilidade empresarial.
Quanto à segunda questão “Como prever a insolvência das organizações
através da contabilidade?”, centrada na capacidade da contabilidade para prever a
insolvência, os dados recolhidos reforçam a ideia de que esta ciência assume um
lugar privilegiado na deteção precoce de sinais de instabilidade financeira. As
respostas indicam que instrumentos como as demonstrações financeiras, os
indicadores financeiros e as análises de gestão de caixa e de desempenho constituem
meios eficazes para avaliar a saúde económica das organizações. Estes mecanismos
permitem não só diagnosticar fragilidades, como também antecipar riscos e sustentar
127
A RELEVÂNCIA DA CONTABILIDADE NA PREVISÃO DA INSOLVÊNCIA NAS ORGANIZAÇÕES.
estratégias de reestruturação e correção, promovendo a resiliência empresarial em
contextos de incerteza.
A terceira questão de investigação “Qual a importância da contabilidade nas
organizações, e o seu impacto na gestão?”, procurou aferir o impacto da contabilidade
na gestão organizacional. As conclusões apontam para a centralidade da
contabilidade na arquitetura de uma gestão informada, fundamentada e orientada para
resultados. A sua capacidade de gerar informação fiável, sistemática e atualizada
permite aos gestores não só conhecer o estado real da organização, mas também
projetar o seu futuro com maior grau de confiança e racionalidade. A contabilidade
revela-se, assim, um elo entre a análise do passado e o planeamento do futuro,
consolidando-se como um instrumento de visão estratégica.
Além do impacto interno, é de salientar a relevância da contabilidade na
construção de relações de confiança com os stakeholders externos — desde
investidores a credores e colaboradores — através da promoção da transparência e
da prestação de contas rigorosa. Este aspeto reforça o seu papel enquanto pilar da
governação corporativa e da sustentabilidade a longo prazo.
Importa ainda destacar que as palavras mais associadas à contabilidade pelos
inquiridos — transparência, fiabilidade, informação, análise e tomada de decisão —
refletem uma perceção integrada e consistente do seu papel multifacetado. Estas
associações não só confirmam a pertinência das questões de investigação, como
validam a importância crescente atribuída à contabilidade enquanto disciplina crítica
para o sucesso e continuidade das organizações.
Em suma, a investigação empírica aqui apresentada demonstra, de forma clara
e sustentada, que a contabilidade deve ser encarada como um eixo estratégico
essencial, transversal à gestão, à prevenção de riscos e à salvaguarda da perenidade
empresarial. A sua utilização eficaz traduz-se num contributo direto para a estabilidade
e solidez das organizações, assumindo-se, sem margem para dúvidas, como um pilar
indispensável na estrutura organizacional moderna.
A tabela 23 apresenta o quadro resumo das questões de investigação e as
questões utilizadas no questionário para dar respostas às mesmas.
128
A RELEVÂNCIA DA CONTABILIDADE NA PREVISÃO DA INSOLVÊNCIA NAS ORGANIZAÇÕES.
Numeração Numeração das
questões de Variável questões do Perguntas respetivas Hipótese de respostas
investigação questionário
1. Qual o seu género? Feminino; Masculino; Outro;
2. Qual é a sua idade? Em escala dos 18 anos aos 65 anos;
Ensino Secundário; Licenciatura; Pós-graduação; Mestrado;
3. Habilitações académias?
Douturamento;
Caracterização da amostra 4. Qual a sua situação laboral? Empregado; Desempregado; Reformado;
5. Qual a sua zona geográfica? Norte; Centro; Sul; Ilha da Madeira; Ilha dos Açores;
No percurso laboral que obtem/obteve, qual a
Micro entidade; Pequena empresa; Pequena e média empresa;
6. dimensão da empresa em que exerce/exerceu a sua
Grande empresa; Estado;
atividade profissional?
Na sua opinião, qual o papel da contabilidade a nível Sem importância; Pouco importante; Razoavelmente importante;
7.
Qual a importância dada empresarial e social? Importante; Muito importante;
a este tema, em
particular ao das
QI 01 variáveis que justificam
a insolvência nas
organizações ao longo Baseado na sua experiência e conhecimento, a Ciência; Processo para a tomada de decisão; Informação;Análise;
8.
dos anos? contabilidade é: Estratégia; Controlo; Negócio; Planeamento; (escolher 4 opções)
Planeamento e suporte à tomada de decisão; Análise e avaliação do
Qual é a importância que a contabilidade tem no meio desempenho; Apoio e controlo das atividades da empresa; Melhorar a
14. competitividade da empresa; Criação de valor aos stakeholders pela
organizacional?
gestão efeciente de recursos; Transparência;
A contabilidade pode prever a insolvência nas
9. Sim; Não;
organizações?
Planeamento; Análise de dados; Decisão de investimentos; Gestão de
Se respondeu sim, qual dos seguintes itens tem mais
9.1. avaliação de riscos; Previsão; Gestão de desempenho; Identificação de
importância na previsão de insolvência ?
dificuldades financeiras; Restruturação financeira;
Sendo que a contabilidade é um dado de respostas
relativamente à saúde financeira das organizações, com
10. Mensal, Bimensal; Trimestral; Quadrimestral; Semestres; Anual;
que regularidade devem ser apresentadas as contas das
empresas?
Demonstrações financeiras; Indicadores financeiros; Gestão de caixa;
Para prever a insolvência de uma empresa é importante
Análise setorial e de mercado; Histórico e tendências; Riscos
Como prever a analisar diversos fatores financeiros e operacionais.
11. Operacicionais e estratégicos; Análise qualitativa (Reputação da
insolvência das Dos pontos apresentados indique os que considera
QI 02 empresa, qualidade da admnistração e capacidade de inovação);
organizações através da mais importantes.
(escolher 4 opções)
contabilidade?
Garantir a transparência; Ajudar na tomada de decisão; Ser confiante e
A prestação de contas tem como finalidade comunicar e
credível; Auxiliar na avaliação de desempenho da empresa; Ter
12. informar tanto a situação financeira como operacional
responsabilidade; Estudar investimentos; Analisar estratégias; Avaliar
aos seus stakeholders. A prestação de contas deve:
a eficácia no modelo de negócio; (escolher 4 opções)
Sendo a digitalização cada vez mais frequente, acha que
13. a digitalização é uma mais-valia na previsão de Sim; Não;
insolvência?
Melhor estratégia e planeamento; Análises mais rápidas; Mais
fiabilidade; Valor acrescentado; Melhor tomada de decisão; Maior
13.1. Se respondeu sim, porquê?
controlo; Relatórios integrados; Simplificar as tarefas repetitivas;
Redução do erro humano;
Uma vez que a contabilidade é direcionada para os
15. negócios, acha que a contabilidade e o modelo de Sim; Não;
negócio devem estar em sintonia?
Visão clara do desempenho financeiro; Tomada de decisão;
Se respondeu sim, qual a importância da contabilidade Planeamento estratégico; Avaliação na viabilidade do modelo de
15.1.
no modelo de negócio? negócio; Cumprimentos nas obrigações regulatórias e fiscais;
Fiabilidade;
Acha que a digitalização poderá ser uma mais valia para
16. a comunicação e colaboração entre diferentes Sim; Não;
departamentos de uma empresa?
Aumento da eficiência operacional; Redução de custos; Maior
Se respondeu sim, indique quais as vantagens da acessibilidade e compartilhamento de informação; Tomada de
16.1.
digitalização: decisões mais agil e precisa; Inovação; Adaptação rápida às mudanças
do mercado; (escolher 3 opções)
Qual a importância da
contabilidade nas Sendo a contabilidade uma área que está em constante
QI 03
organizações, e o seu 17. mudança, acha que a formação da equipa de Sim; Não;
impacto na gestão? contabilidade é uma mais-valia para as empresas?
Elaboração, organização e interpretação da informação financeira;
Se respondeu sim, indique a relevância das vantagens
17.1. Fiscalidade; Criação de valor para os stakeholders; Implementação de
da formação da equipa de contabilidade nas empresas:
técnicas de apoio à tomada de decisão; Comunicação com a
Sendo o contabilista certificado um líder, qual a Habilidades de comunicação; Técnicas de motivação; Trabalho de
18. importância das seguintes competências para o equipa; Gestão de conflitos; Gestão de talentos; Conhecimentos na
exercício da profissão? área de trabalho;
Relativamente ao desempenho das empresas, qual a Melhoria na participação e valor de mercado; Melhoria dos lucros;
19.
importância do contabilista certificado para: Melhoria no crescimento;
Após responder ao presente inquérito, defina a
20.
contabilidade em 3 palavras:
Tabela 23 - Quadro resumo das questões de investigação VS variáveis
Fonte: Elaboração própria, 2024
129
A RELEVÂNCIA DA CONTABILIDADE NA PREVISÃO DA INSOLVÊNCIA NAS ORGANIZAÇÕES.
4 Conclusões, Limitações e Futura linhas de Investigação
A presente dissertação teve como principal objetivo analisar e compreender o
papel da contabilidade na previsão das insolvências organizacionais, sublinhando a
sua importância enquanto ferramenta essencial de diagnóstico, suporte à decisão e
promotora da sustentabilidade empresarial. Num contexto económico marcado pela
incerteza, pela complexidade dos mercados e pela elevada competitividade, torna-se
imperativo dotar as organizações de instrumentos que lhes permitam antecipar riscos,
tomar decisões informadas e garantir a sua continuidade. Neste sentido, a
contabilidade revela-se um elemento estratégico de primeira ordem.
Através da articulação entre o enquadramento teórico e a investigação empírica
desenvolvida, foi possível demonstrar que a contabilidade, quando aplicada de forma
rigorosa e consciente, constitui uma mais-valia significativa na identificação precoce
de sinais de instabilidade financeira. A análise de demonstrações financeiras, rácios
e indicadores de desempenho permite detetar tendências e desvios que, se
analisados atempadamente, possibilitam a implementação de medidas corretivas
antes que se verifiquem situações de rutura. Esta capacidade preditiva confere à
contabilidade um papel central no planeamento estratégico e na gestão preventiva
das organizações.
A investigação empírica, suportada pela aplicação de um questionário dirigido
a profissionais da área, permitiu recolher dados relevantes sobre a perceção atual da
contabilidade no seio das organizações. Os resultados evidenciam uma valorização
crescente da contabilidade enquanto disciplina que ultrapassa a mera função de
registo e reporte. Os inquiridos reconhecem-na como um instrumento de apoio à
decisão, de promoção da transparência, de avaliação de desempenho e de criação
de valor para os stakeholders.
A contabilidade, tal como percecionada pelos participantes no estudo, assume-
se como um elemento estruturante na construção de uma gestão eficaz, capaz de
responder aos desafios contemporâneos e de antecipar eventuais ameaças à
sustentabilidade financeira. Destaca-se, neste sentido, o seu contributo para uma
maior responsabilidade na governação, a melhoria da comunicação com os
investidores, a fidelização de clientes e fornecedores, bem como o reforço da
confiança junto das instituições financeiras.
130
A RELEVÂNCIA DA CONTABILIDADE NA PREVISÃO DA INSOLVÊNCIA NAS ORGANIZAÇÕES.
Contudo, como qualquer investigação, também este estudo apresenta
limitações que importa reconhecer. A primeira prende-se com a dimensão da amostra.
Embora tenham sido obtidas 447 respostas válidas, este número representa apenas
uma fração do universo total de Contabilistas Certificados e demais profissionais da
área em Portugal. Assim, os resultados obtidos, sendo uma base sólida, não podem
ser generalizados sem cautela. Uma amostra de maior dimensão permitiria uma
análise mais robusta e detalhada das diferentes perceções existentes.
Adicionalmente, algumas dimensões do questionário, nomeadamente aquelas
relacionadas com as competências dos Contabilistas Certificados enquanto líderes e
o papel da formação contínua das suas equipas, não foram exploradas em
profundidade no presente estudo, ficando em aberto para futuras investigações. Estas
questões, embora abordadas de forma preliminar, contêm potencial para o
desenvolvimento de linhas de investigação promissoras.
Neste enquadramento, delineiam-se como linhas futuras de investigação os
seguintes eixos:
1. A importância da formação contínua das equipas de contabilidade: sendo
a contabilidade uma área em constante evolução, torna-se imprescindível
estudar o impacto da formação especializada na qualidade da informação
produzida, na eficiência dos processos de apoio à decisão e na capacidade de
adaptação das empresas às exigências regulatórias e de mercado. A
atualização permanente das competências técnicas e comportamentais dos
profissionais da contabilidade constitui um fator crítico para a sustentabilidade
organizacional.
2. O perfil de liderança do Contabilista Certificado: importa aprofundar o
estudo das competências transversais exigidas aos profissionais de
contabilidade no desempenho de funções de liderança, tais como a
comunicação eficaz, a gestão de equipas, a resolução de conflitos e a
capacidade de motivação. Estas competências, frequentemente menos
valorizadas, são determinantes para a construção de equipas coesas,
eficientes e orientadas para resultados.
3. A contribuição da contabilidade para a criação de valor organizacional:
será pertinente investigar, em contextos sectoriais distintos, de que forma a
131
A RELEVÂNCIA DA CONTABILIDADE NA PREVISÃO DA INSOLVÊNCIA NAS ORGANIZAÇÕES.
contabilidade influencia positivamente a performance financeira, o crescimento
sustentável e a reputação empresarial. A correlação entre uma contabilidade
estratégica e a melhoria dos lucros, do valor de mercado e da competitividade
poderá fornecer dados relevantes para gestores e decisores políticos.
4. A adoção de metodologias de gestão baseadas em dados contabilísticos:
outro caminho de investigação poderá incidir sobre o impacto da contabilidade
na inovação organizacional e na implementação de metodologias de gestão
centradas em dados, nomeadamente no apoio à tomada de decisões em tempo
real, no controlo orçamental e na gestão de risco.
Em síntese, a presente dissertação procurou demonstrar que a contabilidade,
mais do que uma obrigação legal, deve ser entendida como um verdadeiro pilar
estratégico no seio das organizações. A sua função informativa, preditiva e
integradora contribui decisivamente para a estabilidade financeira, a criação de valor
e a perenidade das entidades económicas. A consolidação desta perceção no meio
empresarial e académico constitui um passo fundamental para o reforço da cultura de
gestão responsável, baseada em dados fiáveis e decisões sustentadas.
132
A RELEVÂNCIA DA CONTABILIDADE NA PREVISÃO DA INSOLVÊNCIA NAS ORGANIZAÇÕES.
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135
A RELEVÂNCIA DA CONTABILIDADE NA PREVISÃO DA INSOLVÊNCIA NAS ORGANIZAÇÕES.
ANEXOS
136
A RELEVÂNCIA DA CONTABILIDADE NA PREVISÃO DA INSOLVÊNCIA NAS ORGANIZAÇÕES.
Anexo 1 – O Código das Contas
137
A RELEVÂNCIA DA CONTABILIDADE NA PREVISÃO DA INSOLVÊNCIA NAS ORGANIZAÇÕES.
138
A RELEVÂNCIA DA CONTABILIDADE NA PREVISÃO DA INSOLVÊNCIA NAS ORGANIZAÇÕES.
Anexo 2 - Demonstrações Financeiras – O Balanço
139
A RELEVÂNCIA DA CONTABILIDADE NA PREVISÃO DA INSOLVÊNCIA NAS ORGANIZAÇÕES.
Anexo 3 - Demonstrações Financeiras – Demonstração dos Resultados
por Naturezas
140
A RELEVÂNCIA DA CONTABILIDADE NA PREVISÃO DA INSOLVÊNCIA NAS ORGANIZAÇÕES.
Anexo 4 – Demonstrações Financeiras - Demonstração dos Resultados
por Funções
141
A RELEVÂNCIA DA CONTABILIDADE NA PREVISÃO DA INSOLVÊNCIA NAS ORGANIZAÇÕES.
Anexo 5 – Demonstrações Financeiras - Demonstração de Fluxos de Caixa
142
A RELEVÂNCIA DA CONTABILIDADE NA PREVISÃO DA INSOLVÊNCIA NAS ORGANIZAÇÕES.
Anexo 6 – Demonstrações Financeiras - Demonstração das Alterações no Capital Próprio
143
A RELEVÂNCIA DA CONTABILIDADE NA PREVISÃO DA INSOLVÊNCIA NAS ORGANIZAÇÕES.
Anexo 7 – O questionário
144
A RELEVÂNCIA DA CONTABILIDADE NA PREVISÃO DA INSOLVÊNCIA NAS ORGANIZAÇÕES.
145
A RELEVÂNCIA DA CONTABILIDADE NA PREVISÃO DA INSOLVÊNCIA NAS ORGANIZAÇÕES.
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A RELEVÂNCIA DA CONTABILIDADE NA PREVISÃO DA INSOLVÊNCIA NAS ORGANIZAÇÕES.
147
A RELEVÂNCIA DA CONTABILIDADE NA PREVISÃO DA INSOLVÊNCIA NAS ORGANIZAÇÕES.
148
A RELEVÂNCIA DA CONTABILIDADE NA PREVISÃO DA INSOLVÊNCIA NAS ORGANIZAÇÕES.
149
A RELEVÂNCIA DA CONTABILIDADE NA PREVISÃO DA INSOLVÊNCIA NAS ORGANIZAÇÕES.
150
A RELEVÂNCIA DA CONTABILIDADE NA PREVISÃO DA INSOLVÊNCIA NAS ORGANIZAÇÕES.
151
A RELEVÂNCIA DA CONTABILIDADE NA PREVISÃO DA INSOLVÊNCIA NAS ORGANIZAÇÕES.
152
A RELEVÂNCIA DA CONTABILIDADE NA PREVISÃO DA INSOLVÊNCIA NAS ORGANIZAÇÕES.
153
A RELEVÂNCIA DA CONTABILIDADE NA PREVISÃO DA INSOLVÊNCIA NAS ORGANIZAÇÕES.
“Não desista, nem que tenha de tentar 100 vezes.
Eu tentei 99 vezes e falhei, mas na centésima tentativa
eu consegui, nunca desista de seus objetivos mesmo
que esses pareçam impossíveis,
a próxima tentativa pode ser a vitoriosa.”
Albert Einstein
154