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"Hoje eu vou apresentar um pouco sobre Junji Ito, um dos maiores nomes do
mangá de terror. Mas antes de entender o sucesso dele, é importante olhar para
o passado ."
Junji Ito nasceu em 1963, em Sakashita, uma área rural do Japão cercada por
montanhas, rios e muita natureza. Desde pequeno, ele viveu em uma casa
antiga de madeira que mais parecia o cenário de um conto de terror: com
corredores escuros, banheiro do lado de fora e até um misterioso “quarto
proibido” cheio de móveis velhos e poeira.
Segundo o próprio Junji Ito, “a primeira vez que tomei consciência do sentimento
chamado MEDO foi quando eu tinha uns três ou quatro anos de idade.” Isso
aconteceu ao encarar o corredor escuro e úmido da casa, que levava ao
banheiro — e também a um corredor subterrâneo que dava na fossa. Um lugar
real que já parecia saído de um de seus mangás.
Essa infância, cheia de contato com o estranho e o assustador, acabou moldando
o olhar dele para o terror e se tornou parte essencial da arte que ele criaria
depois.
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"Além do ambiente onde ele cresceu, Junji Ito teve contato com o terror desde
muito cedo.
Com apenas três anos, ele já assistia escondido a série Akuma-kun, que suas
irmãs viam na TV. Ele morria de medo dos monstros, mas ao mesmo tempo não
conseguia parar de olhar. No mesmo ano, ele se apaixonou por outra série, Ultra
Q, famosa pelos monstros realistas criados por Eiji Tsuburaya. O que mais
chamava a atenção do Junji era o nível de detalhe desses monstros, algo que ele
tentava imitar nos seus próprios desenhos.
Foi também por volta dos quatro ou cinco anos que ele descobriu os mangás de
Kazuo Umezz, o grande ídolo dele no terror. Ele conta que as obras do Umezz o
assustavam e fascinavam ao mesmo tempo, por misturar o grotesco e o belo de
um jeito único.
E ainda criança, com cinco anos, o Junji já criava suas próprias histórias. Ele
mesmo conta que fez um caderninho de cartolina e linha de costura, como se
fosse um mangá encadernado. A primeira história dele era sobre um fantasma
em forma de mão gigante com um olho na palma. O nome era Te no Me, que
quer dizer 'Olho na Mão'. Foi o primeiro mangá que ele fez na vida."*
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Na infância, Ito já era apaixonado por monstros, OVNIs e fantasmas , mas
também muito crítico. Ele queria ser enganado de verdade, queria que o terror
fosse real. É por isso que obras de Ray Harryhausen, foram tão impactantes pra
ele. Harryhausen usava stop motion com maestria, criando monstros com
movimentos e texturas mais convincentes. e isso influenciou junji a ser mais
realista e detalhista.
outra influencia tambem foi Hideshi Hino, ele apresenta um horror gráfico
carregado de estranheza e dor. Para Ito, os desenhos de Hino não eram apenas
"desenhos de coisas assustadoras", mas eles mesmos eram assustadores. Esse
contato marcou uma nova era em sua trajetória: a consciência da crueldade
como elemento estético e psicológico no horror.
oq falar no 4
No ginásio, Junji Ito concluiu sua maior obra até então: Mazou no Mura, um
mangá de 160 páginas feito inteiramente a lápis e costurado à mão. misturava
realismo científico e sobrenatural, com uma ilha isolada sofrendo de um
surto de zumbis — depois disso Junji Ito fez uma pausa nos mangás, mas
continuou criando, mergulhando em outro universo: o da ficção científica em
forma de minicontos
A literatura de ficção científica inspirou Ito a escrever, aprendeu que ideias
absurdas podem ser divertidas, algo que também influenciaria suas obras de
terror. e tambem moldou o seu senso estético.
Foi no colegial que Junji Ito voltou a desenhar. criando finais absurdos e
sarcásticos, mostraram a ele que o ilógico também pode ser arte. uma forma de
expressão artística. Ito começou a experimentar pela primeira vez os materiais
usados por profissionais: tinta nanquim, bico de pena, papéis próprios. Foi um
processo de tentativa e erro — ele até estragou uma de suas melhores histórias
tentando arte-finalizar.
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Na infância, o Junji Ito já era apaixonado por monstros, OVNIs e coisas
assustadoras — mas também era muito crítico. Ele queria ser enganado de
verdade, e é por isso que ficou tão impactado com os filmes do Ray
Harryhausen, que usava stop motion pra criar criaturas mais realistas. Isso
influenciou muito o jeito detalhista com que o Ito desenha.
Outro artista importante foi o Hideshi Hino. Os traços grotescos, as expressões
perturbadoras... aquilo mostrou pra ele que o terror não precisava estar só na
história, mas também no visual. Foi ali que ele começou a entender a crueldade
como uma linguagem do horror.
Ainda no ginásio, ele terminou seu primeiro grande projeto: Mazou no Mura, um
mangá de 160 páginas feito à mão, com uma história de zumbis em uma ilha
isolada. Depois disso, ele deu uma pausa nos mangás e mergulhou na ficção
científica — escreveu vários minicontos e aprendeu que ideias absurdas podiam
ser criativas e até engraçadas.
Mais tarde, no colegial, voltou a desenhar. Começou a usar nanquim, bico de
pena... e mesmo errando bastante, foi quando ele percebeu que dava pra fazer
arte com mangá.
No segundo ano do colegial, o Junji Ito pensou em seguir artes plásticas, mas
ficou com medo da única opção ser virar professor — e essa ideia não agradava
muito.
A tia dele sugeriu então uma profissão mais segura: técnico em prótese dentária.
Era um trabalho manual, artístico, e ainda por cima não exigia muita interação
social, o que combinava com o jeito mais reservado dele.
Aos 18 anos, ele se mudou sozinho pra Nagoya pra estudar o curso técnico. Era
uma época difícil, mas mesmo assim os colegas consideravam ele um ‘aluno
modelo’, mesmo que ele mesmo não se visse assim.
Nessa fase, ele ainda desenhava mangás, mas sem compromisso. Eram só
rascunhos, feitos em um caderno pequeno. Ele via aquilo como um hobby,
porque o foco mesmo era o curso técnico.
Quando se formou, conseguiu emprego rápido em um laboratório chamado Labo
Kusakabe. Mas era um tempo difícil, em plena crise da indústria.
O trabalho exigia muita agilidade, perfeição e pagava pouco. Isso deixava ele
frustrado, porque ele era muito detalhista — queria fazer dentes o mais realistas
possível, com foco na anatomia. Só que isso tornava o ritmo dele mais lento que
o necessário.
Mesmo gostando de algumas partes do trabalho e do ambiente, ele começou a
se sentir esgotado. Dormia mal, trabalhava demais, e chegou a pesar menos de
50 quilos.
Ele conta que pensava assim: ‘Talvez eu não viva por muito tempo. Talvez eu
morra por volta dos quarenta anos... então só me restam vinte. Por que não
passar esse tempo fazendo o que eu realmente gosto?’
Foi numa dessas madrugadas, depois de uma noite inteira de trabalho, que ele
tomou a decisão. Ele estava dirigindo, com o dia amanhecendo, e pensou:
‘Vou desenhar mangás. Vou experimentar até onde posso chegar.’
E foi assim que tudo começou.”
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“Antes de se dedicar ao terror, o Junji Ito tentou seguir na ficção científica. A
primeira história dele, chamada Kaigara Sensou, ou Guerra das Conchas, era
uma tentativa séria de ser publicado. Mas como ele ainda não entendia bem as
regras editoriais, a história acabou ficando longa demais e nunca foi finalizada.
A virada veio em 1986, com a criação da revista Halloween, voltada para o
público feminino e especializada em histórias de terror.
Foi nessa revista que ele viu um anúncio do primeiro Prêmio Umezz de Mangá,
presidido pelo próprio Kazuo Umezz — o autor que o inspirava desde criança.
Junji não pensava tanto em estrear, mas queria muito que o Umezz visse o
trabalho dele. A ideia da história veio de algo simples: ele olhava uma largatixa e
pensou... ‘E se existisse uma criatura que nunca morresse? Que se regenerasse
infinitamente?’
E assim nasceu Tomie — uma personagem feminina imortal, linda e
perturbadora, que enlouquecia todos à sua volta. Era o nascimento do estilo Junji
Ito: onde o belo e o grotesco se misturam.
Tomie foi o primeiro mangá que ele finalizou com nanquim e bico de pena.
Mesmo com pouca experiência — linhas borradas, retículas mal aplicadas — ele
concluiu a obra e mandou para a revista.
Três meses depois, ele recebeu uma menção honrosa no concurso. E o melhor:
Kazuo Umezz realmente leu a história.
Apesar de não ser publicado de imediato, isso foi a validação do seu talento e
o verdadeiro início da sua carreira como mangaká.
A partir dali, ele começou a publicar com frequência na revista Halloween. Mas
ainda continuava trabalhando como técnico em prótese dentária.
Mesmo com o lançamento do primeiro volume de Tomie, ele ainda duvidava que
poderia viver só de mangás.
Foi quando o editor fez uma proposta: uma série mensal, de cerca de 30 páginas
por mês — o suficiente pra ele se sustentar.
Aí sim veio a decisão final: Aos 26 anos, três anos depois da estreia com Tomie,
Junji Ito largou de vez o trabalho no laboratório e se tornou mangaká em tempo
integral.
Voltou pra sua cidade natal, Gifu, e começou uma nova fase da vida. Mas, como
ele mesmo diz… a rotina de trabalho continuou praticamente a mesma.”
A ideia para a história de Tomie surgiu de uma pergunta estranha que ele se fez:
‘E se uma pessoa pudesse se regenerar como uma lagartixa?’ — tipo, alguém
que você esquarteja, mas que sempre volta à vida.
Esse pensamento acabou se misturando com uma experiência real: quando ele era mais novo, um colega de escola morreu em
um acidente. A notícia foi tão difícil de aceitar que ele ficou com aquela sensação de que talvez aquilo nem fosse verdade. Isso
criou nele um sentimento de irrealidade, como se o mundo tivesse se virado do avesso — e isso influenciou diretamente o
clima da história de Tomie.
No mangá, a Tomie é uma garota aparentemente normal, super bonita,
orgulhosa e até meio arrogante. E talvez por isso, dentro da narrativa, as
pessoas ao redor dela sentem raiva, atração, inveja, obsessão... a ponto de
matarem ela. Só que o mais bizarro é que ela nunca morre. Toda vez que t
entam matá-la, ela simplesmente... volta. Inteira. Como se nada tivesse
acontecido.
O terror em Tomie nasce justamente do contraste: entre o comum e o anormal,
entre a beleza e o grotesco. Quanto maior esse contraste, mais forte é o
impacto.
E é isso que causa o verdadeiro terror: ela é humana, palpável, fácil de matar —
mas simplesmente não morre. Isso quebra toda a lógica do mundo real e cria um
medo diferente, um incômodo que vai além de monstros ou fantasmas.
E justamente Junji Ito queria que a Tomie fosse a mulher mais bonita do mundo.
Ele estudou revistas, ilustrações, traços realistas... tudo pra conseguir passar
essa beleza exagerada, que ao mesmo tempo fascina e destrói.
No fim, Tomie virou uma personagem que não dá pra explicar muito bem com palavras. Ela não é exatamente um monstro,
nem um espírito, nem uma pessoa comum... como o próprio Junji Ito diz: “Tomie é a Tomie.”
Uzumaki gira em torno de uma cidade que começa a ser misteriosamente
dominada por espirais. Essa forma começa a se manifestar de maneiras cada
vez mais bizarras e perturbadoras — afetando objetos, comportamentos e até os
corpos das pessoas.
A ideia surgiu de forma espontânea: enquanto desenhava espirais, Ito percebeu
que quanto mais ele repetia e apertava os traços, mais sinistro e inquietante o
desenho se tornava, carregando um enorme potencial de estranheza visual e
psicológica. Entre as influências da obra, estão o chamado “efeito borboleta” e
até as previsões do fim do mundo em 1999, que alimentavam o clima de
paranoia da época.
Logo no começo, há uma das cenas mais marcantes da obra: o pai de um dos
protagonistas é encontrado morto, enrolado dentro de um barril em forma de
espiral. Ito faz questão de desenhar tudo com realismo anatômico — mesmo que
a cena seja impossível. Ele calcula proporções, estuda luz, sombra e texturas,
tudo para tornar o horror mais crível.
Segundo Ito, para que o terror funcione, ele precisa parecer real. Mesmo lidando
com situações absurdas, Junji Ito desenha como se aquilo pudesse existir. Esse
cuidado transforma cenas impossíveis em experiências visuais que realmente
causam desconforto e tensão. No fim, Uzumaki é isso: uma espiral de obsessão,
medo e estranheza que vai crescendo até engolir tudo.
Gyo é uma história que começa com um casal presenciando algo
completamente absurdo: peixes apodrecidos saindo andando com patas
metálicas. Aos poucos, outras criaturas marinhas também começam a aparecer
da mesma forma, exalando um cheiro insuportável de carne podre. E com o
passar do tempo essa entre aspas "doença" (inspirada em pandemias) passa a
contaminar animais e até humanos, transformando seus corpos em algo
grotesco, nojento e doentio.
A inspiração inicial de Junji Ito veio de uma imagem perturbadora que ele tinha
na cabeça: máquinas marchando em fila, movidas por um gás misterioso. E com
isso em mente, e ele criou um tipo de terror mais “físico” e nojento — com foco
nas sensações corporais, como o cheiro da morte, a deformação do corpo e o
desconforto visual.
Ele foi influenciado também pelo filme Tubarão, e imaginou: “E se o tubarão
saísse do mar e viesse atrás da gente em terra firme?”
Junji Ito sempre teve medo de tubarões, mas diz que o verdadeiro medo que
queria explorar em Gyo era o medo do corpo humano — do seu apodrecimento,
da contaminação e da transformação. Para ele, o ser humano é o que mais
assusta. Por isso, ele retrata em detalhes mutações, feridas, deformações e
doenças, para dar uma sensação de realismo mesmo nas situações mais
bizarras.
No fim, Gyo é sobre o terror que mistura nojo, medo e um desconforto que vem
de dentro. Um terror onde o corpo — aquilo que mais nos define — se torna o
próprio monstro.
Souichi é um personagem criado por Junji Ito para protagonizar histórias bizarras
inspiradas nas lembranças de infância do autor no interior do Japão. Ele é um
garoto estranho, sombrio e obcecado por maldições e ocultismo. Muitas vezes
age de forma maliciosa com os outros, pregando peças bizarras e tentando
lançar feitiços com pregos na boca.
A ideia original era que Souichi fosse apenas uma criança estranha e excêntrica,
sem poderes sobrenaturais reais. Essa dúvida constante entre magia e
coincidência cria um clima de tensão psicológica. Visualmente, ele causa
desconforto: olhos arregalados, cabelo bagunçado, um jeito inquieto de se
mover… Até os objetos usados em seus rituais — como bonecos de pano e
pregos — parecem sempre sujos, errados, fora de lugar.
Yon & Mu é um mangá autobiográfico em que Junji Ito narra sua convivência
com dois gatos que tem com sua esposa. A obra é voltada para o humor,
mostrando o cotidiano e as interações com esses dois animais.
Apesar do tom leve, o mangá mantém o traço característico de Junji Ito: pesado,
com ângulos dramáticos e expressões exageradas, frequentemente remetendo a
um clima de terror, mesmo em situações simples do dia a dia.
Um exemplo disso é a forma como Yon é retratado — muitas vezes como uma
sombra demoníaca, com um ar sinistro, quase “amaldiçoado”. Seu nome, “Yon”,
vem do número “4” em japonês, que está associado ao azar e à morte,
reforçando essa ideia macabra.
Junji Ito trata situações cotidianas, como um gato ignorar seu dono, com a
mesma intensidade dramática e os ângulos típicos de suas histórias de terror,
criando um contraste divertido e inusitado.