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Último Trem: Decisões e Horizontes

Helena chega à estação para pegar o último trem, refletindo sobre transições e a repetição da vida. Uma conversa com uma senhora a faz ponderar sobre deixar o passado para trás e embarcar em uma nova jornada. No momento em que decide entrar no trem, ela simbolicamente deixa sua mala, representando uma nova fase em sua vida.

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Último Trem: Decisões e Horizontes

Helena chega à estação para pegar o último trem, refletindo sobre transições e a repetição da vida. Uma conversa com uma senhora a faz ponderar sobre deixar o passado para trás e embarcar em uma nova jornada. No momento em que decide entrar no trem, ela simbolicamente deixa sua mala, representando uma nova fase em sua vida.

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As Luzes do Último Trem

O relógio da estação marcava 23h47 quando Helena chegou, arrastando uma mala que
parecia mais pesada do que realmente era. Não pelo que havia dentro, mas pelo que
representava. Ela caminhou até o fim da plataforma, procurando o painel eletrônico
que anunciava as partidas.

“O último trem partirá às 00h00”, dizia em letras piscantes.

Helena respirou fundo. O vento frio da madrugada cortava o rosto, mas ela não se
importava. Gostava daquela sensação de transição — o instante entre o ontem e o
amanhã.

No banco ao lado, um homem dormia com um jornal sobre o rosto. Mais adiante, um
casal discutia baixinho, gesticulando com raiva contida. Um garoto de fones de
ouvido balançava a cabeça ao ritmo de uma música que ninguém mais ouvia. A vida
inteira parecia caber naquele pequeno recorte de tempo.

Helena olhou para as luzes distantes da cidade, refletindo sobre como tudo parecia
se repetir. Chegadas, partidas, esperas, reencontros. Quantas vezes ela já estivera
ali, sentada, imaginando que aquele seria o começo de algo novo?

Mas dessa vez, não havia ninguém esperando no destino.

O trem chegou com o som metálico dos freios e um jato de vapor. As portas se
abriram com um estalo, e uma voz automática anunciou:
— Próxima e última parada: Estação Horizonte.

Era um nome bonito, pensou ela. Horizonte. Como se fosse uma promessa de que ainda
havia algo adiante, mesmo quando tudo parecia acabar.

Ela hesitou. Podia simplesmente não embarcar. Podia voltar, ligar para alguém,
fingir que nada tinha mudado. Mas havia algo dentro dela que pedia movimento — não
fuga, mas um passo.

Enquanto ponderava, uma senhora de cabelos brancos se aproximou. Carregava uma


bolsa pequena e usava um casaco lilás. Sentou-se ao lado de Helena e sorriu.

— Esperando o último trem? — perguntou com voz suave.

— Sim — respondeu Helena. — Ainda não sei se vou.

A velha assentiu, como se entendesse mais do que as palavras diziam.


— Ninguém nunca sabe. Mas às vezes, ir é o único jeito de descobrir o que fica.

Helena olhou para ela, surpresa com a clareza daquela frase.

— A senhora viaja muito?

— Não tanto quanto gostaria. Mas já perdi tempo demais tentando decidir o que
merecia ficar para trás.

As duas ficaram em silêncio por um instante. O apito do trem ecoou pela plataforma,
um som longo e grave, quase um aviso.

A velha se levantou, ajeitou o casaco e disse:


— Quando o relógio marcar meia-noite, tudo o que você não levar, o tempo leva.

Entrou no vagão e desapareceu entre os passageiros.


Helena ficou parada, observando as portas abertas, o vapor, o brilho das luzes
refletido no piso molhado. Quando o relógio mudou para 00h00, ela sorriu.

Deixou a mala no chão e entrou no trem sem olhar para trás.

Quando as portas se fecharam, a plataforma ficou vazia — exceto pela mala,


esquecida, como uma lembrança que já não doía mais.

O trem partiu lentamente, e as luzes foram se tornando pontos distantes até


desaparecerem por completo.

Na estação silenciosa, o painel apagou as letras.


Mas quem passasse por ali mais tarde juraria ter ouvido, ao longe, o som de risos
misturados ao apito de um trem — seguindo firme rumo ao horizonte.

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