Parte 4 de 5 — A Lâmina e a Sombra
O choque entre luz e treva não produziu som, apenas uma ausência de som — um instante em que
até o vento cessou, e o próprio tempo pareceu conter a respiração. O chão se fragmentou sob os pés
de Elaris, e as pedras utuaram brevemente antes de serem consumidas pela energia que emanava
do embate.
A espada de Kael brilhava como o sol no ápice do verão, enquanto o manto de Thaur se expandia,
cobrindo o campo como uma noite viva. O céu inteiro oscilava entre aurora e eclipse, e homens de
ambos os lados, vivos e mortos, caíram de joelhos, incapazes de sustentar o olhar.
— És apenas uma mortal — disse Thaur, sua voz ecoando por mil bocas invisíveis. — A luz que
empunhas é o mesmo fogo que destruiu o mundo antes do primeiro amanhecer.
— E ainda assim — respondeu Elaris, rme — é o fogo que aquece os corações quando tudo o mais
se apaga.
Ele avançou. A escuridão assumiu formas — lanças, garras, rostos sem olhos. Elaris moveu-se com
a graça de uma chama em tempestade, desviando, cortando, desfazendo sombras com cada golpe. A
espada dourada abria clarões efêmeros que logo eram engolidos pelo negrume. Cada clarão, porém,
deixava uma centelha no ar, e essas centelhas começaram a se unir, tecendo um círculo luminoso ao
redor deles.
Thaur ergueu o braço, e o chão se abriu. Das fendas ergueram-se espectros, antigos reis e guerreiros
de eras esquecidas, todos de olhos vazios.
— Eis teus antepassados — rugiu ele. — Foram eles que selaram o pacto, não por nobreza, mas por
medo. A luz é mentira, herdeira.
Elaris recuou, sentindo o peso das palavras. Reconheceu entre os rostos o de Eldanar, o Primeiro
Rei, e o de seu próprio pai, Arthelion. Os dois a observavam em silêncio, como juízes em um
tribunal eterno.
— Talvez seja mentira — murmurou ela. — Mas é uma mentira pela qual vale morrer.
Com esse brado, lançou-se novamente ao combate. A lâmina atravessou a sombra, e uma rajada de
energia dourada rompeu o rmamento. Por um instante, o sol voltou a brilhar em pleno campo de
batalha. O calor queimou as armaduras dos espectros e dissolveu as formas de Thaur, que gritou —
não de dor, mas de espanto.
“Não há morte na luz,” disse Elaris. “Apenas renascimento.”
O corpo de Thaur começou a fragmentar-se em cinzas luminosas. Contudo, antes de desaparecer,
ele pousou a mão sobre o ombro dela. Sua voz, agora humana, soou baixa, quase um sussurro.
— Se me apagas, apagas também a noite. E sem noite, onde repousará o dia?
Elaris sentiu o signi cado profundo daquelas palavras. O equilíbrio do mundo não residia em
destruir a sombra, mas em compreendê-la. A luz que consome tudo é tão tirana quanto a treva que
nada deixa orescer.
Ela baixou a espada. A luz ao redor diminuiu, tornando-se suave.
— Então que haja noite — disse —, mas que seja uma noite de estrelas.
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Thaur sorriu — o primeiro e último sorriso que jamais lhe fora visto — e dissolveu-se em pó
cintilante, levado pelo vento. A sombra recuou, e o campo de batalha silenciou. O céu clareou em
tons de ouro e azul, e um sol pálido ergueu-se sobre as muralhas de Eldareth.
Os soldados, atônitos, olharam em redor. As hostes inimigas haviam desaparecido, restando apenas
cinzas que o vento dispersava pelos vales. Do alto das torres, os sinos tocaram — não o toque da
guerra, mas o da redenção.
Elaris caiu de joelhos. A espada em sua mão já não brilhava. Estava fria, simples, quase comum —
como se o milagre houvesse se retirado, deixando apenas a lembrança. A força abandonava seu
corpo, e ela soube que o preço, embora diferente do que imaginara, ainda seria cobrado.
Vareon correu até ela, amparando-a nos braços.
— Alteza, vencemos! O inimigo se foi!
— Ninguém vence a noite, meu amigo... — respondeu ela, sorrindo com serenidade. — Apenas a
atravessamos.
O sangue manchou sua túnica, e a luz do sol re etiu-se em seus olhos pela última vez. Então, em
silêncio, Elaris adormeceu.
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