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Etnofilosofia e Críticas à Filosofia Africana

O documento discute as principais correntes da Filosofia africana, destacando a etnofilosofia, que busca reconhecer a cultura africana como uma forma válida de filosofia. Críticos como Paulin Hountondji argumentam que a etnofilosofia confunde mitos e crenças populares com filosofia rigorosa, propondo que a verdadeira filosofia africana deve ser uma atividade crítica e criativa. Além disso, aborda a luta pela emancipação do povo negro, destacando figuras como Marcus Garvey e W.E.B. Du Bois, que apresentaram diferentes visões sobre a libertação dos africanos.

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Etnofilosofia e Críticas à Filosofia Africana

O documento discute as principais correntes da Filosofia africana, destacando a etnofilosofia, que busca reconhecer a cultura africana como uma forma válida de filosofia. Críticos como Paulin Hountondji argumentam que a etnofilosofia confunde mitos e crenças populares com filosofia rigorosa, propondo que a verdadeira filosofia africana deve ser uma atividade crítica e criativa. Além disso, aborda a luta pela emancipação do povo negro, destacando figuras como Marcus Garvey e W.E.B. Du Bois, que apresentaram diferentes visões sobre a libertação dos africanos.

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116

3.2 Principais correntes da Filosofia africana

3.2.1 Etnofilosofia

Trata-se do «grito de africanos e africanistas pelo reconhecimento do


negro como homem.

Estes produziram obras em defesa do homem negro. Uma das formas de


realizar essa defesa

é através da etnofilosofia. Os etnofilósofos são assim denominados por


terem feito estudos sobre

etnias africanas. Estes defendem que toda a Filosofia é uma Filosofia


cultural, isto é, ninguém

faz Filosofia sem se basear em alguma cultura. Para Anyanw, a missão do


filósofo africano

é compreender e explicar os principios sobre os quais se baseia cada uma


das culturas africanas.

Todavia, as suas pesquisas, que se apelidaram de Filosofia africana, foram


alvo de severas

criticas, principalmente pelas seguintes razöes.

As abordagens feitas por tais intelectuais descreviam, na sua maioria,


práticas habituais dos

africanos, afirmando-se como Filosofia africana.

Estes estudos, quando eram feitos por africanistas nao-africanos,


denegriam o africano.

O sacerdote belga Placide Tempels, por exemplo, dizia que o africano


tinha uma lógica menor.

Uma simples catalogação de mitos, crenças e provérbios considerava-se


Filosofa africana.

Estes estudiosos abordavam temas relativos a etnias africanas. Alexis


Kagame, por exemplo,

inspirando-se na filosofia aristotélica, escreveu uma obra intitulada A


Filasofia Bantu-Ruuandes

do Ser, ode desenvolvia a sua reflexao, trazendo à tona as categorias


aristotélicas do ser, através
da análise gramatical rigorosa das estruturas linguisticas. A partir desta
obra, vários estudantes

africanos defenderam as suas teses, cada um deles com a flosofia bantu


da sua lingua vernácula.

Tempels dizia que existe uma flosofia do negro, số que esta é diferente na
forma e no

conteúdo da Filosofia europeia.

Por estas e outras razões, os criticos opuseram-seà existência de uma


Filosofia africana. Contudo,

não podemos desprezar Tempels, pois a sua abordagem tinha como fim o
reconhecimento do

negro como homem pelos colonizadores, Por conseguinte, os seus estudos


contribuíram bastante

para a redefinição do relacionamento entre o Ocidente e o povo negro.

Vamos recordar...

Enofilosofia é uma corrente de pensamento que defende que as tradições


africanas espelham a

racionalidade do africano. podendo estas ser consideradas Filosofia


africana (mitos, provérbios, etc).

Actividades

AFlosola ofricona

L. Explica o que é a etnofilosofia e refere os principais representantes


desta corrente.

2. «Existe uma filosofia do negro, só que esta é diferente na forma e no


conteúdo da Filosofia

europeia

2.1 Comenta a afirmação de Placide Tempels.

2.2 Refere o ambiente sócio-politico-religjoso em que esta frase foi


proferida.

3.2.2 Filosofia profissional e critica å etnofilosofia

Oos criticos da etnoflosofia defendem que não podemos confundir o


emprego do termo
-flosofiay, usando-o no sentido ldeológico. «Filosofia- éuma palavra que se
utiliza para dessgnar

uma ciência rigorosamente cientifca. Reivindicar que os africanos têm a


sua própria filosofia

seria cair nas mãos dos colonizadores, que querem dar ou manter a ilusão
de que os africanos

têm uma filosofia, porque o que nós temos realmente são mitos, crenças e
provérblos.

Paulin Hountondji (Benin) é um dos grandes criticos e vale-se dos


seguintes argumentos,

expressos na obra African Philosoply, Mythe and Reality de 1974.

1. Reivindicando que existe uma Filosofia africana, estamos a cair na


ratoeira colonialista e

racista que insiste que um africano é diferente de um europeu. Portanto,


qualquer referência

a Filosofia africana obriga-nos a definir África em relação à Europa. Logo,


não podemos

aceitar que haja uma Filosofia africana que claramente nega a Filosofia
em geral.

2. Filosofia, no seu sentido restrito, é uma disciplina científica, teorética e


individual, assim

como a Linguistica, a Álgebra e, portanto, não se pode substitui-la por


crenças populares,

práticas tradicionais e comportamento popular de um povo qualquer. A


Filosofia não se

deve identificar com o mito ou com a religião tradicional.

3.A Filosofia, enquanto disciplina cientifñca, teorética e individual, emerge


sempre em

oposição ao mito, às religioes tradicionais e ao seu respectivo


dogmatismo e conservadorismo.

O que é dogmático não pode ser filosófico. A relação filosófica com o mito
e as religioes

tradicionais não é uma relação arquivista ou arqueológica com função de


sistematização
e perpetuação, nem sequer é umna protectora desse passado popular,
muito pelo contrário.

118

A relação da Filosofia com o mito e a religião tradicional é de


continuidade, transformação

consciente e de critica continua da tradição do povo face aos desafios que


o povo tem de

enfrentar no presente e no futuro. Portanto, a Filosofia deve abrir os


horizontes do povo

para que este consiga enfrentar os desafios do futuro. Querer que a


Filosofia africana exista

não tem sentido.

4. Todo o projecto de edificar uma Filosofia africana é um projecto europeu


de demarcar a

todo o custo a civilização africana da europeia. Por isso, dizer que os


africanos têm a sua

própria civilização quer dizer que a civilização africana é fixae está


mumificada nas tradições

antigas, que todo o poder do africano reside no passado, nas tradiçoes


dos seus antepassados.

Os filósofos que encaram a Filosofia a partir do ponto de vista do passado


designam-se por

etnofilósofos e são europeus. Tentam sufocar a capacidade criativa dos


africanos porque

esperam que os filósofos africanos sejam simples activistas das suas


tradições culturais, em

vez de pensadores originais.

5. Todos concordamos que a Filosofia africana não pode nascer ex nihil (do
nada), mas que

necessariamente parte da herança cultural. Contudo, esta herança


cultural não consiste

apenas em olhar para atrás. A Filosofia africana deve ser uma


confrontação criativa das suas

ideias com o presente e o futuro.


6.O papel criador da Filosofia africana tem de ser desempenhado por
filósofos africanos que

sao sujeitos da actividade filosófica. A africanidade da Filosofia africana số


emerge a partir

de uma actividade filosófica de discussāo e crítica dos africanos que são


filósofos. A africa-

nidade consiste na pertença dos filósofos ao continente africano. A


africanidade naão consiste

em falar da Africa ou em tratar de problemas africanos, pelo contrário,


consiste na partilha

e na conversa entre africanos que são filósofos qualificados e profissionais


que usam a razão

de maneira critica e criadora.

Hountondji afirma que o problema que se

coloca é substancialmente a associação da

ideia de filosofia à palavra africana-, que a

qualifica, deixando em dúvida se a palavra

-filosofia- ainda mantém o seu significado

original.

Na opinião deste crítico, a universalidade

da Filosofia deve ser conservada. No entanto,

isto não significa que a Filosofia deva tratar

necessariamente os mesmos temas ou fazer

as mesmas perguntas, até porque as diferenças

de conteúdos são consideráveis.

É preciso salientar que os primeiros propa-

gandistas da Filosofia africana foram homens

da lgreja, como, por exemplo: Tempels (belga),

Alexis Kagame (ruandes), John Mbiti (queniano) . FIG. 2: Paulin Hountondji.

eVicente Mulago (congolês). Estes pensadores


queriam somente encontrar bases psicológicas para implantar o
Evangelho no terreno africano,

sem prejudicar ninguém.

A Flosofa ofricana

Quando a palavra -filosofia-é qualificada pela palavra «africana- não tem o


mesmo significado

que a Filosofia ocidental do século XIX.

-Parece-me que uma palavra muda o seu significado se é aplicada à


Europa e à América em

vez da África. Este é um fenómeno comum, como o nosso amigo Odera


(queniano) humoristi-

camente comenta: "o que é superstição é apresentado como religião


africana. Do Ocidente

espera-se que diga que é mesmo assim, religião africana; o que é mito é
apresentado pelos afri-

canos como Filosofia africana, e os africanos estão á espera que os


ocidentais confirmem que

não é mito, mas Filosofia africana. O que é claramente ditadura é


considerado democracia afri-

cana e espera-se que a cultura europeia apole dizendo que é mesmo


assim." Nós manipulamos

as palavras em nome da cultura africana. O que é


pseudodesenvolvimento (desenvolvimento

da elite, favoritismo) é descrito em Africa como desenvolvimento cultural


e esperamos que o

Ocidente aplauda tudo isto como desenvolvimento africano. Portanto,


segundo Hountondji.

as palavras mudam de significado quando passam do contexto europeu


parao contexto

africano.

3.2.3 Filosofia politica

Além das teorias das filosofias ocidentais que mencionámos na


contextualização histórica (no
ponto 3.1), os trabalhos forçados e a escravatura contribuíram
sobremaneira paraa redução do

homem negro ao estatuto de coisa, de mercadoria susceptivel de ser


vendida e comprada, um

simples instrumento de trabalho e fonte de rendimento das cconomias


ocidentais.

Assim, é óbvio que a prioridade do negro seja a sua emancipação.

Nas colónias da América do Norte, iniciou-se um movimento de revolta,


manifesto pelos

escravos através das chamadas work songs e posteriormente dos gospel


spirituals, nas igrejas.

Unidade 3

A característica fundamental do africano é ser um guerreiro pela


liberdade. As primeiras formas

de luta do homem negro pela liberdade foram teorizadas por duas visöes:
a primeira acreditava

que o negro só se emanciparia plenamente voltando à sua terra natal


(África); a outra corrente

defendia que o homem negro podia viver livre e em pé de igualdade com


os brancos sem precisar

de sair da América. A primeira corrente foi defendida pelo jamaicano


Marcus Garvey, discípulo

de Booker Washington, e a segunda por William Edward Burghardt Du


Bois.

Encontramos doravante duas perspectivas, duas ideologias de libertação,


cujas diferenças não

serão somente ideológicas, mas também raciais. Du Bois era um jovem


culto (cursaraa Universidade,

tendo sido o primeiro negro a fazer um curso superior). Marcus Garvey,


con hecido como an

extraondinary leuder of men, não estudara muito, porém vira muitos


negros a trabalhar em condiçöes

desumanas. E importante salientar que Garvey começou a trabalhar aos


15 anos e foi expulso
do seu serviço por incitar os seus colegas a protestar contra as condiçöes
injustas em que traba-

Ihavam. Este julgava que os libertadores da raça negra deveriam ser


negros autênticos e que o

negro só se realizaria plenamente na sua terra natal, emn Africa. Ora, Du


Bois era mulato, por isso

Garvey não o considerava negro. Na sua opiniäo, Du Bois nåo passava de


um prolongamento da

mão do branco, pois não concordava com o regresso dos negros à África-
mãe. Garvey construiu

um navio para levar os negros que quisessem voltar à sua terra de


origem.

Du Bois, contrariamente ao seu antecessor Booker Washington, que


achava que a emancipação

do negro passava por uma formação técnica e por se acomodar à posição


subalterna do negro

nos EUA, afirmou que o problema fundamental dos negros não era de
ordem económica, mas

antes politica. Du Bois postulou a existência de elites intelectuais que


serviriam de pontos de

referëncia para os outros.

A maior dificuldade que Du Bois teve de enfrentar foi levantar o moral do


negro, frenetica-

mente rebaixado pelas filosofias ocidentais. Este disse ao homem negro


que África teve impérios:

o império de Ghana, o império de Mwenemutapa, Benin, Mali, Shongai,


etc, os quais deram

um grande contributo para a humanidade.

Paralelamente a Du Bois, e ainda sobre a mesma problemática, em


Nations Nègres et Culture,

de Cheikh Anta Diop, lè-se: «Supomos, com a egiptologia moderna, que os


egipcios eram de raça

branca. Assim, teriam como conterråneos gregos e romanos. Estes


tiveram um espírito científico
e filosófico identico ao da gente moderna do Ocidente [..]. No entanto,
tudo indica que os

egipcios eram de raça negra, como os etiopes e outros africanos, e que o


Egipto civilizou o

mundo [.). Dados dos antigos escritores e

filósofos e da Biblia [..] são testemunhos oculares

que afirmam formalmente que os egípcios eram

negros.

Outra evidência da influência africana sobre

o Ocidente é a pintura: a pintura europeia

revolucionou-se quando o pintor espanhol

Pablo Picasso entrou num museu que ostentava

objectos da cultura africana e ficou profunda-

mente impressionado comn uma máscara

(assim nasceu o cubismo de Picasso).

FIG. 3: A escravatura deixou marcas profundas

na consciência africana.

O africano era visto comoo povo que nunca

fizera nada de significativo. Os ocidentais

«desconhecem ou negligenciam a célebre tese

que coloca o negro africano num lugar privile-

giado, considerando-o um dos «arquitectos» da

Filosofia grega, que contou com a sabedoria e

a inteligencia dos egípcios, cuja população não

era apenas formada por homens de raça branca,

Ao que tudo indica, o desprezo pelo negro e a

sua consequente condenação a um plano o mais

inferior possível foram deliberados, apoiando-

-se na literatura, o Ocidente tentou distorcer

tudo o que abonava a raça negra. Nos estudos


de Maurice Delafosse, foi revelado que a época

medieval africana era, sob muitos pontos de

vista, comparável à época medieval europeia. .. IG. 4: As Meninas de


Avignon, Picasso, 1907.

Neste estudo dedicado à história da África

Ocidental, concluiu-se que a pretensa inferioridade intelectual do negro


nunca tinha sido

demonstrada e que havia provas que a contradiziam.

Tudo isto prova que o Ocidente assumiu atitudes etnocêntricas,


especialmente em relação ao

continente africano e aos seus habitantes, como ficou demonstrado no


julgamento do padre

Bartolomeu de Las Casas, por defender a humanidade dos índios. O


cardeal António chegou a

aceitar que os indios eram homens, porém preveniu a Las Casas que
estender esta humanidade

aos negros seria um exagero.

Este estudo revela tão-somente que a pretensa inferioridade do negro foi


a arma psicológica

que o branco inventou para denegrir a sua imagem, como fim último de o
dominar. Sendo

assim, os intelectuais africanos tinham como missão procurar caminhos


para a reconquista da

humanidade perdida. Esta tarefa foi levada a cabo por várias correntes de
pensamento, como o

pan-africanismo, a negritude e o Black renaissance, entre outras.

O africano era visto comoo povo que nunca

Fizera nada de significativo. Os ocidentais

«desconhecem ou negligenciam a célebre tese

Que coloca o negro africano num lugar privile-

Giado, considerando-o um dos «arquitectos» da


Filosofia grega, que contou com a sabedoria e

A inteligencia dos egípcios, cuja população não

Era apenas formada por homens de raça branca,

Ao que tudo indica, o desprezo pelo negro e a

Sua consequente condenação a um plano o mais

Inferior possível foram deliberados, apoiando-

-se na literatura, o Ocidente tentou distorcer

Tudo o que abonava a raça negra. Nos estudos

De Maurice Delafosse, foi revelado que a época

Medieval africana era, sob muitos pontos de

Vista, comparável à época medieval europeia. .. IG. 4: As Meninas de


Avignon, Picasso, 1907.

Neste estudo dedicado à história da África

Ocidental, concluiu-se que a pretensa inferioridade intelectual do negro


nunca tinha sido

Demonstrada e que havia provas que a contradiziam.

Tudo isto prova que o Ocidente assumiu atitudes etnocêntricas,


especialmente em relação ao

Continente africano e aos seus habitantes, como ficou demonstrado no


julgamento do padre

Bartolomeu de Las Casas, por defender a humanidade dos índios. O


cardeal António chegou a

Aceitar que os indios eram homens, porém preveniu a Las Casas que
estender esta humanidade

Aos negros seria um exagero.

Este estudo revela tão-somente que a pretensa inferioridade do negro foi


a arma psicológica

Que o branco inventou para denegrir a sua imagem, como fim último de o
dominar. Sendo

Assim, os intelectuais africanos tinham como missão procurar caminhos


para a reconquista da
Humanidade perdida. Esta tarefa foi levada a cabo por várias correntes de
pensamento, como o

pan-africanismo, a negritude e o Black renaissance, entre outras.

Pan-africanismo

O pan-africanismo surge como manifestação da solidariedade entre os


africanos e os povos

De descendência africana. O seu objectivo principal era a unidade política


dos Estados africanos,.

A sua perspectiva englobava a federação dos países regionais autónomos


e o seu enquadramento

Num conjunto de Estados Unidos de Africa. Dito de outra forma, o pan-


africanismo lançou as

Bases da filosofia políitica africana, como vimos na unidade 2, no capitulo


sobre a filosofia politica

Africana.

Matumona lendo Buakasa em Réiventer e Raul Tati em Crise Africana e


Processo de Democratização em

Africa. Pertinências e implicaçdes Etico-Antropológicas.

Unidode3

A primeira conferência pan-africana teve lugar em Londres, em 1900. O


seu objectivo era

Procurar uma forma de protecção contra os agressores imperialistas


brancos e contra a política

Colonial que até então submetia os negros. Entendia-se que, por esta via,
o africano conquistaria

O direitoà sua própria terra, à sua personalidade. Tratava-se, portanto, de


uma luta pelo direito

De todos os africanos serem tratados como homens, dai o conceito de


pan-africanismo.

Renascimento Negro (Black Renaissance) e Renascimento Africano

(African Renaissance)

Foi dentro do espírito emergente de revolta contra o colonia-

Lismo que surgiu o Black Renaissance, cujo fundador foi Du Bois.


Esta corrente de pensamento teve repercussôes sociais, que

Consistiam em incutir no homem negro a ideia de ser igual aos

Brancos. Este movimento difundia ideologias contra a discrimi-

Nação do povo negro. Defendia que os negros não podiam

Continuar a assistir passivamente à sua própria discriminação

E que deviam reagir perante os tratamentos desumanos. Du Bois

Afirmava: -[…] que os brancos saibam que por cada porrada que

O branco der a um negro, nós Ihes vamos dar duas; por um negro

Morto, nós vamos matar dois brancos.

Azikiwé escreve em Renascent Africa: «Ensinai o africano que .FIG. 5: W.


E. B. Du Bois.

Renascea ser homem.

Foi no âmbito do renascimento africano que se desenvolveu o conceito de


personalidade

Africana. A personalidade africana defende que existem caracteristicas


comuns, atributos essen-

Ciais e únicos que fazem parte do ser de todos os africanos. A ideia de


«African Personality- teve

As suas raízes em Edward Wilmont Blyden e foi retomada por Kwame


Nkrumah.

Blyden fundou a dignidade do africano na mesma linha do movimento


negritude, procurando

Provar que a raça negra tinha uma história e uma cultura das quais se
podia orgulhar.

Blyden refilecte não sobre o passado do africano, mas sobre o que se


deveria fazer em prol de

Um futuro africano mais digno. Para ele, cada um de nós tem um dever
especial a cumprit, um

Trabalho não só importante, como também necessário, um trabalho a


realizar pela raça a que

Pertencemos: lutar pela própria individualidade para a manter e


desenvolver. Orai e amai a
Vossa raça. Se não fordes vós mesmos, se abdicardes da vossa
personalidade, não havereis deixado

Nada ao mundo. Não tereis satisfação, utilidade, nada que atraia ou


fascine os homens, porque

Com a supressão da vossa individualidade havereis perdidoo vosso


carácter distintivo. Vereis,

Então, que ter abdicado da vossa personalidade signifcará ter abdicado da


missão e da glória

Particular à qual sois chamados – aconselha Blyden, notando que seria de


facto renunciar à

Vossa divina individualidade, o que seria o pior dos suicidios.

Este pensador demonstra que os costumes e as instituições da Africa


negra estão emn consonåncia

Com as necessidades dos africanos. Ademals, África pode dar um


contributo ao mundo nas

Questões de ordem espiritual. A civilização europeia é dura, individualista,


competitiva, mate-

Rialista e foi fundada sobre o culto da ciência e da técnica. A civilização


africana é doce e humana.

Para Nkrumah, o homem africanoé um ser espiritual, dotado de dignidade,


integridade

E valor intrínseco.

3.2.4 Filosofia cultural (Negritude)

A negritude insere-se no espírito pan-africanista da uniao e solidariedade


entre os africanos,

Com a simples diferença de se revestir de um carácter cultural e literário.


Tal como o pan-

-africanismo, a negritude nasceu fora do continente africano, como


resultado dos esforços

Emancipatórios da comunidade negra radicada em França. Os mentores


deste projecto eram

Membros de profissões liberais, estudantes, eclesiásticos, intelectuais e


politicos.
Anegritude pretendia a uniao de todos os negros. Césaire, depois Senghor
e, mais tarde, a revista

Présence Africaine e os congressos de escritores e artistas negros, que


aquela organizou em 1956

E 1959, dão expressão à ideia da unidade africana sob a forma cultural.

O evolucionismo, classificando as sociedades segundo o seu grau de


desenvolvimento tecnico,

Confirmou a visão etnocêntrica da elite ocidental e facilitou o


colonialismo. A maior parte dos

Evolucionistas, como Tylor e Morgan, e os etnocentristas, como, por


exemplo, Levy Brhul, não

Admitiam a possibilidade de haver culturas que não fossem europeias.


Estes consideravam a vida

Cultural das outras sociedades como estádios arcaicos de um único


processo cultural, no qual a

Europa representava o estádio mais completo.

O funcionalismo, por sua vez, sugerindo a irredutibilidade das culturas a


um denominador

Comum, abria as portas ao principio do relativismo cultural evocado pela


etnologia americana.

A corrente relativista punha a tónica na diversidade cultural e social e


considerava que a unidade

Do género humano se manifestava na sua capacidade de se diferenciar


em múltiplas culturas.

A posição relativista pretendia sobretudo lutar contra o imperialismo


americano e defender as

Minorias colonizadas, os grupos africanos. Esta corrente impôs como


normas o respeito pela

Diferença, a tolerância, a crença na pluralidade de valores e a aceitação


da diversidade.

Assim, abriam-se as portas para o pronunciamento da cultura africana, ou


melhor, a negritude

Surge como resposta imediata ao espaço aberto pelo relativismo cultural.

Entretarnto, coube a Aimé Césaire o mérito de ser considerado o grande


Impulsionador deste termo. Aliás, a ele cabe a paternidade do termo

Negritude, pois o seu conceito já se consegue distinguir no projecto

Anglófono do pan-africanismo.

Os maiores impulsionadores da negritude -Césaire (antilhano), Senghor

(senegalês) e Damas (guianės)-resumiram o projecto em três conceitos:

• identidade- consiste em onegro assumir plenamente a sua condição;

• fidelidade atitude que traduz a ligação do homem negro à

Terra-mãe;

• solidariedade-sentimento que liga secretamente todos os irmãos ..FIG.


6: Aimée Césaire.

Negros.

A negritude era um movimento principalmente cultural e literário, mas


com pretensões também

Políticas, conquanto protestava contra a atitude colonialista, lutando pela


emancipação do povo.

O poema de Noémia de Sousa «Let my people go/Deixa passaro meu poo


é disso um exemplo

Vivo.

É útil reler os escritos de Senghor e sentir anostalgia com que este lembra
oseu passado recente:

[..]quando Césaire, Damas e eu próprio nos sentávamos ainda nos bancos


do liceu[…]- diziam

[…]nós, criadores da nova geração, queremos exprimir a nossa


personalidade negra sem

Vergonha nem temor. Se isto agrada aos brancos, ainda bem. Se não Ihes
agrada, não importa.

Unidade 3

E para amanhà que construímos os nossos templos, templos sólidos como


nós sabemos ediñcar,

E permanecemos erectos em cima da montanha, livres em nós mesmos,

No mundo da lusofonia, o movimento foi difundido por vários órgãos,


como, por exemplo, a
Junta de Defesa dos Direitos de África, a Tribuna de Africa e A Mensagem,
formadas por africanos

E europeus favoráveis à promoção da cultura negro-africana.

Foi neste contexto que, em 1920, nasce, em Lisboa, a Liga Africana com
os seguintes

Objectivos:

• promover, através de todas as mudanças politicas, o progresso fisico,


mental e económico da

Raça africana nas colónias portuguesas;

Conseguir a revogação de todas as leis e regulamentos de excepçâo


contra os africanos ainda

Existentes na legislação colonial portuguesa, especialmente no que


respeita ao direito de

Propriedade;

• conseguir que se torne realidade o livre acesso de individuos de raça


africana a todas as situa-

Çoes sociais e cargos püblicos, nas mesmas condiçöes exigidas aos


individuos de raça branca.

4.1.3 Potência e acto

Aristóteles recorre a duas noções fundamentais para explicar o dinamismo


do ser: potência

E acto.

Entende-se por potência a possibilidade que uma matéria tem de vir a ser
algo em acto;

Éo carácter dinâmico da matéria que lhe permite possuir um determinado


modo de ser e que

Ihe confere a capacidade do devir. É assim que, por exemplo, a farinha de


trigo é, em potëncia,

Um pão ou um bolo, ou seja, possui a capacidade de vir a ser algo que


antes não era. Da mesma

Forma, o algodão que o camponės produz ainda não é um tecido, contudo


possui em si a potência,

İsto é, a possibilidade de vir a ser um tecido, uns calções, umas calças, ou


outra coisa. Se estou
Sentado a escrever, posso levantar-me e esticar os braços. Se sou
aprendiz de filósofo, posso ou

Não vir a ser um filósofo.

Se a potência é a capacidade que permite ao ser mudar de actualidade,


ou seja, o carácter

Dinâmico do ser, o acto é «0 que faz ser aquilo que é, é o ser real, é o que
o determina. Por

Isso, dizer que uma coisa está em acto é o mesmo que dizer que tal coisa
tem actualidade ou

Existência, ou seja, que passou da potência de ser algo ao acto de ser. Por
exemplo, a camisa do

Teu uniforme está em acto, isto é, existe actualmente, já não é aquele


simples tecido que era antes

De ser costurada pelo alfaiate.

Potência e acto såo dois conceitos correlativos, pois, enquanto a potência


explica a multipli-

Cidade e a mudança, o acto explica a unidade do ser; enquanto a


potência explica aquilo que a

Matéria ainda não é, mas pode vir a ser, o acto explica a sua real
existência, o que a matéria já

É efectivamente.

4.14 Essência e existência

A essénciaea existëncia são dois conceitos com significados ontológicos


implicativos, tal como

a substância e o acidente. Pois, para além da sua clara distinção, o


conceito de esséncia é correla-

tivo ao conceito de existência.

Em A Metafisica, VII, Aristóteles escreve: «a essencia é o quê de uma


coisa, isto é, não o que

seja, mas aquilo que uma coisa é, ou seja, é o que é uma coisa, podendo
caracterizá-la e

distingui-la do que ela não é; é a qualidade ou determinação sem a qual


uma coisa não seria
o que factualmente é. A essência é, portanto, a substância segunda, ou
seja, tudo quanto existe

como pensamento. A essência refere-se, neste sentido, às caracteristicas


fundamentais da substância.

Ela năo existe por si só, mas existe como pensamento. Se o conceito de
essėncia é equivalente

à substäncia segunda, a existëncia é a substância primeira. Por


conseguinte, é na existëncia que o

ser se manifesta e se revela enquanto realidade.

A existéncia é a actualização da essència; é a realidade, a substância em


acto. Por isso,

para Aristóteles, o filósofo grego, a substância pode ser entendida como a


existência, porquanto

nela residem todas as propriecdades que determinam um ente (tudo o


que é de maneira concreta,

fáctica ou actual).

A esséncia ea existëncia constituem dois principios necessários e, ao


mesmo tempo, comple-

mentares para a afirmação ou a constituição de qualquer ser, de tal forma


é inconcebível um

ser sem essência ou um ser sem existência. Consequentemente, pensar


num caderno não é o

mesmo que ver um caderno. O caderno como pensamento não passa de


uma ideia ou essência.

Unidade 4

Já o caderno onde escrevo os meus apontamentos é algo existente, em


acto. Portanto, existir

significa «saits, manifestarser, -mostrar-se- e -revelarsen, e sal, manifesta-


se e mostra-se somente

aquilo que possui uma determinada essência. Por isso, era frequente
ouvir, entre os filósofos

clássicos, que a esséncia nada é sem a existência ea existência não é sem


a essência. Daqui
emergem duas correntes filosóficas modernas: o essencialismo e o
existencialismo.

O essencialismo defende a primazia da essencia sobre a existência -o ser


define-se primeira-

mente e só depois se torna isto ou aquilo -, enquanto o existencialismo


defende a primazia da

existência sobre a essência, ou seja, uma pessoa não tem qualquer


natureza ou conjunto de

escolhas predeterminadas, pois é sempre livre para fazer novas escolhas


e constituir-se como

uma pessoa diferente. O existencialismo, embora seja um tema antigo,


teve o seu desenvolvi-

mento, como corrente filosófica, na Europa, no período entre as duas


grandes guerras mundiais,

eas suas características fundamentais são as seguintes.

A valorização do indivíduo como algo irredutível, e não como algo


insignificante e reduzido

à sua totalidade. O que existe verdadeiramente é o indivíduo na sua


singularidade, é o individuo

singular, uno e irrepetível («existir- significa ser diferente). Por isso, no


que diz respeito ao ser

humano, 0 homem primeiramente existe e só mais tarde se torna isto ou


aquilo, ou seja,

a existência precede a essência, como afirma Jean-Paul Sartre na sua obra


O Ser eo Nada.

A valorização da liberdade do homem enquanto ser situado no universo.


Se a esséncia é

o pensamento, a existênciaéa manifestação do ser, ou seja, a liberdade


que se afirma no ser

contra todas as limitações impostas pela natureza. Portanto, o exercício


da liberdade, enquanto

manifestação do ser, não deve ser limitado pela natureza humana. Como
afirma Sartre:

-O homem estácondenado a ser livre, isto é, o homem, enquanto


manifestação do ser substan-
ciado, ou seja, corpóreo, é livre de se tornar o que quiser, uma vez que a
sua construção é algo

de permanente e constante enquanto ser situado no mundo. Neste


sentido, ser homem significa

ser capaz de construir a sua personalidade à medida que se vai buscando


valores por si mesmo

escolhidose tomados como paradigmáticos.

4.1.5 A cadeia aristotélica de causas: Tomás de Aquino e as Cinco Vias

Seo ser é tudo quanto é, ou seja, tudo quanto existe e pode passar da
potência ao acto e do

imperfeito ao perfeito, há que procurar compreender esta força ou razão


transformadora das

colsas que confere um determinado modo de ser: a causa. A causa pode


ser entendida como a

condição da existência de qualquer coisa, ou seja, é tudo o que concorre


para a produção de

qualquer colsa. No entender de Aristóteles, os seres criados nao têm a


razão de ser em si mesmos

e distingue quatro causas que concorrem para a produção de qualquer


coisa:

. Causa eficiente- condiçao do fenómeno que produz outro fenómeno, ou


seja, aquilo que

produz uma coisa; éo artifice que confere o ser que antes uma coisa não
possuia (por exemplo,

o carpinteiro que dá à madeira, a matéria-prima, a forma da carteira onde


estás sentado).

Causa material- condição ou aquilo de que uma coisa é feita (para o caso
da carteira onde

estás sentado, a causa material seria a madeira).

Causa formal -a forma ou o aspecto que um determinado ser toma ou que


é plasmado pelo

seu criador (por exemplo, carteira rectangular, quadrada, etc.).

Causa final -o propósito ou o objectivo com que uma coisaé feita (no caso
da tua carteira,
seria apoiar-te, colocando o teu material escolar sobre ela, permitindo-te
escrever ou ler).

Na ldade Média, o tema da causa voltou a ser actual e foi extensamente


estudado, em especial

por Tomás de Aquino, que retoma a doutrina aristotélica da causa,


enquadrada agora no âmbito

do pensamento escolástico. A Escolástica foi a corrente filosófica


dominante na ldade Média,

ensinada nas escolas da igreja, e que combinava doutrinas religiosas e


assuntos teológicos com

ilosofia. Tomás de Aquino apresentou na sua mais famosa obra, Summa


Theologiae (Suma

Teológica), e enquadrado na temática da causa, que, para este pensador,


é aquilo ao qual algo se

segue necessariamente, as Cinco Vias, que também ficaram conhecidas


como as provas da

existência de Deus. Sao elas:

1.o movimento do mundo số é explicável se existir um primeiro motor


imóvel;

2. a série de causas eficientes no mundo devem conduzir a uma causa


sem causa;

3. os seres contingentes e corruptiveis devem depender de um ser


necesário independente

e incorruptível;

4. os diversos graus de realidade e bondade do mundo devem ser


aproximações a um máximo

de realidade e bondade subsistente;

5.a teleologia normal de agentes não conscientes no universo implica a


existéncia de um

orientador universal inteligente.

Estas Cinco Vias foram consideradas bastante importantes na sua época,


no contexto da reflexão

filosófica-teológica, mas posteriormente foram consideradas teses


falaciosas.
4.1.6 A Metafísicaeo fim último do Homem

Uma das grandes questões que o Homem se vem colocando é a que diz
respeito aos fins para

Os quais existe. Não há unanimidade sobre os fins para os quais o Homem


foi criado. No entanto,

Analisando as abordagens feitas pelos filósofos, parece haver uma visão


teleológica para a existência

Humana.

Aristóteles, na obra Ética a Nicómaco, diz que toda a acção humana é


feita em função de um

Fim. Esse fim éo bem. Para o filósofo, esse bem tem de ser soberano
eobem soberano é a feli-

Cidade. Portanto, ser feliz é o fim último da existência humana. A chave


da felicidade compreende

Três realidades: prazer, ser cidadão livre e responsável e viver segundo a


razão.

Esta posiçăo foi reiterada por Santo Agostinho, na época medieval. Para o
hiponense, o Homem

É chamado a ser feliz. Mas o que se entende por felicidade? A felicidade


não consiste na busca

Incessante de bens materiais. Consiste, sim, na busca de um bem


permanente – Deus. S. Tomás

De Aquino reconhece igualmente que o Homem é o único ser que age em


função de um fm.

Metafisica e arte

O facto de o Homem ser dono dos seus actos é o que o diferencia dos
seres irracionais, razão por

Que só aquelas mesmas acções de que ele é senhor podem chamar-se


humanas. Ora, ć por ser

Dotado de razão e vontade que o Homem tem domínio sobre os seus


actos, e a faculdade ou

Potència conjunta de razão e vontade é o que se chama livre arbitrio. Con


efeito, «todas as acções
Que procedem de uma potência são causadas por ela em razão de seu
objecto- eo objecto da

Vontade não é senão o bem e o fim. «Logo, é necessário que todas as


acções humanas tenham

Em vista um fim.- (A potëncia geradora das acções referidas é o Homem.)

Dante atribui ao Homem dois fins ültimos: o fim sobrenatural (a salvação


das almas individuais)

Eofim natural (a felicidade terrena, com o atendimento das necessidades


materiais e a formação

Das virtudes morais do homem no âmbito da pólis).

Para o pensador moçambicano Brazão Mazula, o homem tem de agir de


acordo com a ética

Da felicidade. O modelo da ética da felicidade baseia-se no trabalho duro,


na criatividade e na

Honestidade e não na acumulação ilícita de bens.

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