116
3.2 Principais correntes da Filosofia africana
3.2.1 Etnofilosofia
Trata-se do «grito de africanos e africanistas pelo reconhecimento do
negro como homem.
Estes produziram obras em defesa do homem negro. Uma das formas de
realizar essa defesa
é através da etnofilosofia. Os etnofilósofos são assim denominados por
terem feito estudos sobre
etnias africanas. Estes defendem que toda a Filosofia é uma Filosofia
cultural, isto é, ninguém
faz Filosofia sem se basear em alguma cultura. Para Anyanw, a missão do
filósofo africano
é compreender e explicar os principios sobre os quais se baseia cada uma
das culturas africanas.
Todavia, as suas pesquisas, que se apelidaram de Filosofia africana, foram
alvo de severas
criticas, principalmente pelas seguintes razöes.
As abordagens feitas por tais intelectuais descreviam, na sua maioria,
práticas habituais dos
africanos, afirmando-se como Filosofia africana.
Estes estudos, quando eram feitos por africanistas nao-africanos,
denegriam o africano.
O sacerdote belga Placide Tempels, por exemplo, dizia que o africano
tinha uma lógica menor.
Uma simples catalogação de mitos, crenças e provérbios considerava-se
Filosofa africana.
Estes estudiosos abordavam temas relativos a etnias africanas. Alexis
Kagame, por exemplo,
inspirando-se na filosofia aristotélica, escreveu uma obra intitulada A
Filasofia Bantu-Ruuandes
do Ser, ode desenvolvia a sua reflexao, trazendo à tona as categorias
aristotélicas do ser, através
da análise gramatical rigorosa das estruturas linguisticas. A partir desta
obra, vários estudantes
africanos defenderam as suas teses, cada um deles com a flosofia bantu
da sua lingua vernácula.
Tempels dizia que existe uma flosofia do negro, số que esta é diferente na
forma e no
conteúdo da Filosofia europeia.
Por estas e outras razões, os criticos opuseram-seà existência de uma
Filosofia africana. Contudo,
não podemos desprezar Tempels, pois a sua abordagem tinha como fim o
reconhecimento do
negro como homem pelos colonizadores, Por conseguinte, os seus estudos
contribuíram bastante
para a redefinição do relacionamento entre o Ocidente e o povo negro.
Vamos recordar...
Enofilosofia é uma corrente de pensamento que defende que as tradições
africanas espelham a
racionalidade do africano. podendo estas ser consideradas Filosofia
africana (mitos, provérbios, etc).
Actividades
AFlosola ofricona
L. Explica o que é a etnofilosofia e refere os principais representantes
desta corrente.
2. «Existe uma filosofia do negro, só que esta é diferente na forma e no
conteúdo da Filosofia
europeia
2.1 Comenta a afirmação de Placide Tempels.
2.2 Refere o ambiente sócio-politico-religjoso em que esta frase foi
proferida.
3.2.2 Filosofia profissional e critica å etnofilosofia
Oos criticos da etnoflosofia defendem que não podemos confundir o
emprego do termo
-flosofiay, usando-o no sentido ldeológico. «Filosofia- éuma palavra que se
utiliza para dessgnar
uma ciência rigorosamente cientifca. Reivindicar que os africanos têm a
sua própria filosofia
seria cair nas mãos dos colonizadores, que querem dar ou manter a ilusão
de que os africanos
têm uma filosofia, porque o que nós temos realmente são mitos, crenças e
provérblos.
Paulin Hountondji (Benin) é um dos grandes criticos e vale-se dos
seguintes argumentos,
expressos na obra African Philosoply, Mythe and Reality de 1974.
1. Reivindicando que existe uma Filosofia africana, estamos a cair na
ratoeira colonialista e
racista que insiste que um africano é diferente de um europeu. Portanto,
qualquer referência
a Filosofia africana obriga-nos a definir África em relação à Europa. Logo,
não podemos
aceitar que haja uma Filosofia africana que claramente nega a Filosofia
em geral.
2. Filosofia, no seu sentido restrito, é uma disciplina científica, teorética e
individual, assim
como a Linguistica, a Álgebra e, portanto, não se pode substitui-la por
crenças populares,
práticas tradicionais e comportamento popular de um povo qualquer. A
Filosofia não se
deve identificar com o mito ou com a religião tradicional.
3.A Filosofia, enquanto disciplina cientifñca, teorética e individual, emerge
sempre em
oposição ao mito, às religioes tradicionais e ao seu respectivo
dogmatismo e conservadorismo.
O que é dogmático não pode ser filosófico. A relação filosófica com o mito
e as religioes
tradicionais não é uma relação arquivista ou arqueológica com função de
sistematização
e perpetuação, nem sequer é umna protectora desse passado popular,
muito pelo contrário.
118
A relação da Filosofia com o mito e a religião tradicional é de
continuidade, transformação
consciente e de critica continua da tradição do povo face aos desafios que
o povo tem de
enfrentar no presente e no futuro. Portanto, a Filosofia deve abrir os
horizontes do povo
para que este consiga enfrentar os desafios do futuro. Querer que a
Filosofia africana exista
não tem sentido.
4. Todo o projecto de edificar uma Filosofia africana é um projecto europeu
de demarcar a
todo o custo a civilização africana da europeia. Por isso, dizer que os
africanos têm a sua
própria civilização quer dizer que a civilização africana é fixae está
mumificada nas tradições
antigas, que todo o poder do africano reside no passado, nas tradiçoes
dos seus antepassados.
Os filósofos que encaram a Filosofia a partir do ponto de vista do passado
designam-se por
etnofilósofos e são europeus. Tentam sufocar a capacidade criativa dos
africanos porque
esperam que os filósofos africanos sejam simples activistas das suas
tradições culturais, em
vez de pensadores originais.
5. Todos concordamos que a Filosofia africana não pode nascer ex nihil (do
nada), mas que
necessariamente parte da herança cultural. Contudo, esta herança
cultural não consiste
apenas em olhar para atrás. A Filosofia africana deve ser uma
confrontação criativa das suas
ideias com o presente e o futuro.
6.O papel criador da Filosofia africana tem de ser desempenhado por
filósofos africanos que
sao sujeitos da actividade filosófica. A africanidade da Filosofia africana số
emerge a partir
de uma actividade filosófica de discussāo e crítica dos africanos que são
filósofos. A africa-
nidade consiste na pertença dos filósofos ao continente africano. A
africanidade naão consiste
em falar da Africa ou em tratar de problemas africanos, pelo contrário,
consiste na partilha
e na conversa entre africanos que são filósofos qualificados e profissionais
que usam a razão
de maneira critica e criadora.
Hountondji afirma que o problema que se
coloca é substancialmente a associação da
ideia de filosofia à palavra africana-, que a
qualifica, deixando em dúvida se a palavra
-filosofia- ainda mantém o seu significado
original.
Na opinião deste crítico, a universalidade
da Filosofia deve ser conservada. No entanto,
isto não significa que a Filosofia deva tratar
necessariamente os mesmos temas ou fazer
as mesmas perguntas, até porque as diferenças
de conteúdos são consideráveis.
É preciso salientar que os primeiros propa-
gandistas da Filosofia africana foram homens
da lgreja, como, por exemplo: Tempels (belga),
Alexis Kagame (ruandes), John Mbiti (queniano) . FIG. 2: Paulin Hountondji.
eVicente Mulago (congolês). Estes pensadores
queriam somente encontrar bases psicológicas para implantar o
Evangelho no terreno africano,
sem prejudicar ninguém.
A Flosofa ofricana
Quando a palavra -filosofia-é qualificada pela palavra «africana- não tem o
mesmo significado
que a Filosofia ocidental do século XIX.
-Parece-me que uma palavra muda o seu significado se é aplicada à
Europa e à América em
vez da África. Este é um fenómeno comum, como o nosso amigo Odera
(queniano) humoristi-
camente comenta: "o que é superstição é apresentado como religião
africana. Do Ocidente
espera-se que diga que é mesmo assim, religião africana; o que é mito é
apresentado pelos afri-
canos como Filosofia africana, e os africanos estão á espera que os
ocidentais confirmem que
não é mito, mas Filosofia africana. O que é claramente ditadura é
considerado democracia afri-
cana e espera-se que a cultura europeia apole dizendo que é mesmo
assim." Nós manipulamos
as palavras em nome da cultura africana. O que é
pseudodesenvolvimento (desenvolvimento
da elite, favoritismo) é descrito em Africa como desenvolvimento cultural
e esperamos que o
Ocidente aplauda tudo isto como desenvolvimento africano. Portanto,
segundo Hountondji.
as palavras mudam de significado quando passam do contexto europeu
parao contexto
africano.
3.2.3 Filosofia politica
Além das teorias das filosofias ocidentais que mencionámos na
contextualização histórica (no
ponto 3.1), os trabalhos forçados e a escravatura contribuíram
sobremaneira paraa redução do
homem negro ao estatuto de coisa, de mercadoria susceptivel de ser
vendida e comprada, um
simples instrumento de trabalho e fonte de rendimento das cconomias
ocidentais.
Assim, é óbvio que a prioridade do negro seja a sua emancipação.
Nas colónias da América do Norte, iniciou-se um movimento de revolta,
manifesto pelos
escravos através das chamadas work songs e posteriormente dos gospel
spirituals, nas igrejas.
Unidade 3
A característica fundamental do africano é ser um guerreiro pela
liberdade. As primeiras formas
de luta do homem negro pela liberdade foram teorizadas por duas visöes:
a primeira acreditava
que o negro só se emanciparia plenamente voltando à sua terra natal
(África); a outra corrente
defendia que o homem negro podia viver livre e em pé de igualdade com
os brancos sem precisar
de sair da América. A primeira corrente foi defendida pelo jamaicano
Marcus Garvey, discípulo
de Booker Washington, e a segunda por William Edward Burghardt Du
Bois.
Encontramos doravante duas perspectivas, duas ideologias de libertação,
cujas diferenças não
serão somente ideológicas, mas também raciais. Du Bois era um jovem
culto (cursaraa Universidade,
tendo sido o primeiro negro a fazer um curso superior). Marcus Garvey,
con hecido como an
extraondinary leuder of men, não estudara muito, porém vira muitos
negros a trabalhar em condiçöes
desumanas. E importante salientar que Garvey começou a trabalhar aos
15 anos e foi expulso
do seu serviço por incitar os seus colegas a protestar contra as condiçöes
injustas em que traba-
Ihavam. Este julgava que os libertadores da raça negra deveriam ser
negros autênticos e que o
negro só se realizaria plenamente na sua terra natal, emn Africa. Ora, Du
Bois era mulato, por isso
Garvey não o considerava negro. Na sua opiniäo, Du Bois nåo passava de
um prolongamento da
mão do branco, pois não concordava com o regresso dos negros à África-
mãe. Garvey construiu
um navio para levar os negros que quisessem voltar à sua terra de
origem.
Du Bois, contrariamente ao seu antecessor Booker Washington, que
achava que a emancipação
do negro passava por uma formação técnica e por se acomodar à posição
subalterna do negro
nos EUA, afirmou que o problema fundamental dos negros não era de
ordem económica, mas
antes politica. Du Bois postulou a existência de elites intelectuais que
serviriam de pontos de
referëncia para os outros.
A maior dificuldade que Du Bois teve de enfrentar foi levantar o moral do
negro, frenetica-
mente rebaixado pelas filosofias ocidentais. Este disse ao homem negro
que África teve impérios:
o império de Ghana, o império de Mwenemutapa, Benin, Mali, Shongai,
etc, os quais deram
um grande contributo para a humanidade.
Paralelamente a Du Bois, e ainda sobre a mesma problemática, em
Nations Nègres et Culture,
de Cheikh Anta Diop, lè-se: «Supomos, com a egiptologia moderna, que os
egipcios eram de raça
branca. Assim, teriam como conterråneos gregos e romanos. Estes
tiveram um espírito científico
e filosófico identico ao da gente moderna do Ocidente [..]. No entanto,
tudo indica que os
egipcios eram de raça negra, como os etiopes e outros africanos, e que o
Egipto civilizou o
mundo [.). Dados dos antigos escritores e
filósofos e da Biblia [..] são testemunhos oculares
que afirmam formalmente que os egípcios eram
negros.
Outra evidência da influência africana sobre
o Ocidente é a pintura: a pintura europeia
revolucionou-se quando o pintor espanhol
Pablo Picasso entrou num museu que ostentava
objectos da cultura africana e ficou profunda-
mente impressionado comn uma máscara
(assim nasceu o cubismo de Picasso).
FIG. 3: A escravatura deixou marcas profundas
na consciência africana.
O africano era visto comoo povo que nunca
fizera nada de significativo. Os ocidentais
«desconhecem ou negligenciam a célebre tese
que coloca o negro africano num lugar privile-
giado, considerando-o um dos «arquitectos» da
Filosofia grega, que contou com a sabedoria e
a inteligencia dos egípcios, cuja população não
era apenas formada por homens de raça branca,
Ao que tudo indica, o desprezo pelo negro e a
sua consequente condenação a um plano o mais
inferior possível foram deliberados, apoiando-
-se na literatura, o Ocidente tentou distorcer
tudo o que abonava a raça negra. Nos estudos
de Maurice Delafosse, foi revelado que a época
medieval africana era, sob muitos pontos de
vista, comparável à época medieval europeia. .. IG. 4: As Meninas de
Avignon, Picasso, 1907.
Neste estudo dedicado à história da África
Ocidental, concluiu-se que a pretensa inferioridade intelectual do negro
nunca tinha sido
demonstrada e que havia provas que a contradiziam.
Tudo isto prova que o Ocidente assumiu atitudes etnocêntricas,
especialmente em relação ao
continente africano e aos seus habitantes, como ficou demonstrado no
julgamento do padre
Bartolomeu de Las Casas, por defender a humanidade dos índios. O
cardeal António chegou a
aceitar que os indios eram homens, porém preveniu a Las Casas que
estender esta humanidade
aos negros seria um exagero.
Este estudo revela tão-somente que a pretensa inferioridade do negro foi
a arma psicológica
que o branco inventou para denegrir a sua imagem, como fim último de o
dominar. Sendo
assim, os intelectuais africanos tinham como missão procurar caminhos
para a reconquista da
humanidade perdida. Esta tarefa foi levada a cabo por várias correntes de
pensamento, como o
pan-africanismo, a negritude e o Black renaissance, entre outras.
O africano era visto comoo povo que nunca
Fizera nada de significativo. Os ocidentais
«desconhecem ou negligenciam a célebre tese
Que coloca o negro africano num lugar privile-
Giado, considerando-o um dos «arquitectos» da
Filosofia grega, que contou com a sabedoria e
A inteligencia dos egípcios, cuja população não
Era apenas formada por homens de raça branca,
Ao que tudo indica, o desprezo pelo negro e a
Sua consequente condenação a um plano o mais
Inferior possível foram deliberados, apoiando-
-se na literatura, o Ocidente tentou distorcer
Tudo o que abonava a raça negra. Nos estudos
De Maurice Delafosse, foi revelado que a época
Medieval africana era, sob muitos pontos de
Vista, comparável à época medieval europeia. .. IG. 4: As Meninas de
Avignon, Picasso, 1907.
Neste estudo dedicado à história da África
Ocidental, concluiu-se que a pretensa inferioridade intelectual do negro
nunca tinha sido
Demonstrada e que havia provas que a contradiziam.
Tudo isto prova que o Ocidente assumiu atitudes etnocêntricas,
especialmente em relação ao
Continente africano e aos seus habitantes, como ficou demonstrado no
julgamento do padre
Bartolomeu de Las Casas, por defender a humanidade dos índios. O
cardeal António chegou a
Aceitar que os indios eram homens, porém preveniu a Las Casas que
estender esta humanidade
Aos negros seria um exagero.
Este estudo revela tão-somente que a pretensa inferioridade do negro foi
a arma psicológica
Que o branco inventou para denegrir a sua imagem, como fim último de o
dominar. Sendo
Assim, os intelectuais africanos tinham como missão procurar caminhos
para a reconquista da
Humanidade perdida. Esta tarefa foi levada a cabo por várias correntes de
pensamento, como o
pan-africanismo, a negritude e o Black renaissance, entre outras.
Pan-africanismo
O pan-africanismo surge como manifestação da solidariedade entre os
africanos e os povos
De descendência africana. O seu objectivo principal era a unidade política
dos Estados africanos,.
A sua perspectiva englobava a federação dos países regionais autónomos
e o seu enquadramento
Num conjunto de Estados Unidos de Africa. Dito de outra forma, o pan-
africanismo lançou as
Bases da filosofia políitica africana, como vimos na unidade 2, no capitulo
sobre a filosofia politica
Africana.
Matumona lendo Buakasa em Réiventer e Raul Tati em Crise Africana e
Processo de Democratização em
Africa. Pertinências e implicaçdes Etico-Antropológicas.
Unidode3
A primeira conferência pan-africana teve lugar em Londres, em 1900. O
seu objectivo era
Procurar uma forma de protecção contra os agressores imperialistas
brancos e contra a política
Colonial que até então submetia os negros. Entendia-se que, por esta via,
o africano conquistaria
O direitoà sua própria terra, à sua personalidade. Tratava-se, portanto, de
uma luta pelo direito
De todos os africanos serem tratados como homens, dai o conceito de
pan-africanismo.
Renascimento Negro (Black Renaissance) e Renascimento Africano
(African Renaissance)
Foi dentro do espírito emergente de revolta contra o colonia-
Lismo que surgiu o Black Renaissance, cujo fundador foi Du Bois.
Esta corrente de pensamento teve repercussôes sociais, que
Consistiam em incutir no homem negro a ideia de ser igual aos
Brancos. Este movimento difundia ideologias contra a discrimi-
Nação do povo negro. Defendia que os negros não podiam
Continuar a assistir passivamente à sua própria discriminação
E que deviam reagir perante os tratamentos desumanos. Du Bois
Afirmava: -[…] que os brancos saibam que por cada porrada que
O branco der a um negro, nós Ihes vamos dar duas; por um negro
Morto, nós vamos matar dois brancos.
Azikiwé escreve em Renascent Africa: «Ensinai o africano que .FIG. 5: W.
E. B. Du Bois.
Renascea ser homem.
Foi no âmbito do renascimento africano que se desenvolveu o conceito de
personalidade
Africana. A personalidade africana defende que existem caracteristicas
comuns, atributos essen-
Ciais e únicos que fazem parte do ser de todos os africanos. A ideia de
«African Personality- teve
As suas raízes em Edward Wilmont Blyden e foi retomada por Kwame
Nkrumah.
Blyden fundou a dignidade do africano na mesma linha do movimento
negritude, procurando
Provar que a raça negra tinha uma história e uma cultura das quais se
podia orgulhar.
Blyden refilecte não sobre o passado do africano, mas sobre o que se
deveria fazer em prol de
Um futuro africano mais digno. Para ele, cada um de nós tem um dever
especial a cumprit, um
Trabalho não só importante, como também necessário, um trabalho a
realizar pela raça a que
Pertencemos: lutar pela própria individualidade para a manter e
desenvolver. Orai e amai a
Vossa raça. Se não fordes vós mesmos, se abdicardes da vossa
personalidade, não havereis deixado
Nada ao mundo. Não tereis satisfação, utilidade, nada que atraia ou
fascine os homens, porque
Com a supressão da vossa individualidade havereis perdidoo vosso
carácter distintivo. Vereis,
Então, que ter abdicado da vossa personalidade signifcará ter abdicado da
missão e da glória
Particular à qual sois chamados – aconselha Blyden, notando que seria de
facto renunciar à
Vossa divina individualidade, o que seria o pior dos suicidios.
Este pensador demonstra que os costumes e as instituições da Africa
negra estão emn consonåncia
Com as necessidades dos africanos. Ademals, África pode dar um
contributo ao mundo nas
Questões de ordem espiritual. A civilização europeia é dura, individualista,
competitiva, mate-
Rialista e foi fundada sobre o culto da ciência e da técnica. A civilização
africana é doce e humana.
Para Nkrumah, o homem africanoé um ser espiritual, dotado de dignidade,
integridade
E valor intrínseco.
3.2.4 Filosofia cultural (Negritude)
A negritude insere-se no espírito pan-africanista da uniao e solidariedade
entre os africanos,
Com a simples diferença de se revestir de um carácter cultural e literário.
Tal como o pan-
-africanismo, a negritude nasceu fora do continente africano, como
resultado dos esforços
Emancipatórios da comunidade negra radicada em França. Os mentores
deste projecto eram
Membros de profissões liberais, estudantes, eclesiásticos, intelectuais e
politicos.
Anegritude pretendia a uniao de todos os negros. Césaire, depois Senghor
e, mais tarde, a revista
Présence Africaine e os congressos de escritores e artistas negros, que
aquela organizou em 1956
E 1959, dão expressão à ideia da unidade africana sob a forma cultural.
O evolucionismo, classificando as sociedades segundo o seu grau de
desenvolvimento tecnico,
Confirmou a visão etnocêntrica da elite ocidental e facilitou o
colonialismo. A maior parte dos
Evolucionistas, como Tylor e Morgan, e os etnocentristas, como, por
exemplo, Levy Brhul, não
Admitiam a possibilidade de haver culturas que não fossem europeias.
Estes consideravam a vida
Cultural das outras sociedades como estádios arcaicos de um único
processo cultural, no qual a
Europa representava o estádio mais completo.
O funcionalismo, por sua vez, sugerindo a irredutibilidade das culturas a
um denominador
Comum, abria as portas ao principio do relativismo cultural evocado pela
etnologia americana.
A corrente relativista punha a tónica na diversidade cultural e social e
considerava que a unidade
Do género humano se manifestava na sua capacidade de se diferenciar
em múltiplas culturas.
A posição relativista pretendia sobretudo lutar contra o imperialismo
americano e defender as
Minorias colonizadas, os grupos africanos. Esta corrente impôs como
normas o respeito pela
Diferença, a tolerância, a crença na pluralidade de valores e a aceitação
da diversidade.
Assim, abriam-se as portas para o pronunciamento da cultura africana, ou
melhor, a negritude
Surge como resposta imediata ao espaço aberto pelo relativismo cultural.
Entretarnto, coube a Aimé Césaire o mérito de ser considerado o grande
Impulsionador deste termo. Aliás, a ele cabe a paternidade do termo
Negritude, pois o seu conceito já se consegue distinguir no projecto
Anglófono do pan-africanismo.
Os maiores impulsionadores da negritude -Césaire (antilhano), Senghor
(senegalês) e Damas (guianės)-resumiram o projecto em três conceitos:
• identidade- consiste em onegro assumir plenamente a sua condição;
• fidelidade atitude que traduz a ligação do homem negro à
Terra-mãe;
• solidariedade-sentimento que liga secretamente todos os irmãos ..FIG.
6: Aimée Césaire.
Negros.
A negritude era um movimento principalmente cultural e literário, mas
com pretensões também
Políticas, conquanto protestava contra a atitude colonialista, lutando pela
emancipação do povo.
O poema de Noémia de Sousa «Let my people go/Deixa passaro meu poo
é disso um exemplo
Vivo.
É útil reler os escritos de Senghor e sentir anostalgia com que este lembra
oseu passado recente:
[..]quando Césaire, Damas e eu próprio nos sentávamos ainda nos bancos
do liceu[…]- diziam
[…]nós, criadores da nova geração, queremos exprimir a nossa
personalidade negra sem
Vergonha nem temor. Se isto agrada aos brancos, ainda bem. Se não Ihes
agrada, não importa.
Unidade 3
E para amanhà que construímos os nossos templos, templos sólidos como
nós sabemos ediñcar,
E permanecemos erectos em cima da montanha, livres em nós mesmos,
No mundo da lusofonia, o movimento foi difundido por vários órgãos,
como, por exemplo, a
Junta de Defesa dos Direitos de África, a Tribuna de Africa e A Mensagem,
formadas por africanos
E europeus favoráveis à promoção da cultura negro-africana.
Foi neste contexto que, em 1920, nasce, em Lisboa, a Liga Africana com
os seguintes
Objectivos:
• promover, através de todas as mudanças politicas, o progresso fisico,
mental e económico da
Raça africana nas colónias portuguesas;
Conseguir a revogação de todas as leis e regulamentos de excepçâo
contra os africanos ainda
Existentes na legislação colonial portuguesa, especialmente no que
respeita ao direito de
Propriedade;
• conseguir que se torne realidade o livre acesso de individuos de raça
africana a todas as situa-
Çoes sociais e cargos püblicos, nas mesmas condiçöes exigidas aos
individuos de raça branca.
4.1.3 Potência e acto
Aristóteles recorre a duas noções fundamentais para explicar o dinamismo
do ser: potência
E acto.
Entende-se por potência a possibilidade que uma matéria tem de vir a ser
algo em acto;
Éo carácter dinâmico da matéria que lhe permite possuir um determinado
modo de ser e que
Ihe confere a capacidade do devir. É assim que, por exemplo, a farinha de
trigo é, em potëncia,
Um pão ou um bolo, ou seja, possui a capacidade de vir a ser algo que
antes não era. Da mesma
Forma, o algodão que o camponės produz ainda não é um tecido, contudo
possui em si a potência,
İsto é, a possibilidade de vir a ser um tecido, uns calções, umas calças, ou
outra coisa. Se estou
Sentado a escrever, posso levantar-me e esticar os braços. Se sou
aprendiz de filósofo, posso ou
Não vir a ser um filósofo.
Se a potência é a capacidade que permite ao ser mudar de actualidade,
ou seja, o carácter
Dinâmico do ser, o acto é «0 que faz ser aquilo que é, é o ser real, é o que
o determina. Por
Isso, dizer que uma coisa está em acto é o mesmo que dizer que tal coisa
tem actualidade ou
Existência, ou seja, que passou da potência de ser algo ao acto de ser. Por
exemplo, a camisa do
Teu uniforme está em acto, isto é, existe actualmente, já não é aquele
simples tecido que era antes
De ser costurada pelo alfaiate.
Potência e acto såo dois conceitos correlativos, pois, enquanto a potência
explica a multipli-
Cidade e a mudança, o acto explica a unidade do ser; enquanto a
potência explica aquilo que a
Matéria ainda não é, mas pode vir a ser, o acto explica a sua real
existência, o que a matéria já
É efectivamente.
4.14 Essência e existência
A essénciaea existëncia são dois conceitos com significados ontológicos
implicativos, tal como
a substância e o acidente. Pois, para além da sua clara distinção, o
conceito de esséncia é correla-
tivo ao conceito de existência.
Em A Metafisica, VII, Aristóteles escreve: «a essencia é o quê de uma
coisa, isto é, não o que
seja, mas aquilo que uma coisa é, ou seja, é o que é uma coisa, podendo
caracterizá-la e
distingui-la do que ela não é; é a qualidade ou determinação sem a qual
uma coisa não seria
o que factualmente é. A essência é, portanto, a substância segunda, ou
seja, tudo quanto existe
como pensamento. A essência refere-se, neste sentido, às caracteristicas
fundamentais da substância.
Ela năo existe por si só, mas existe como pensamento. Se o conceito de
essėncia é equivalente
à substäncia segunda, a existëncia é a substância primeira. Por
conseguinte, é na existëncia que o
ser se manifesta e se revela enquanto realidade.
A existéncia é a actualização da essència; é a realidade, a substância em
acto. Por isso,
para Aristóteles, o filósofo grego, a substância pode ser entendida como a
existência, porquanto
nela residem todas as propriecdades que determinam um ente (tudo o
que é de maneira concreta,
fáctica ou actual).
A esséncia ea existëncia constituem dois principios necessários e, ao
mesmo tempo, comple-
mentares para a afirmação ou a constituição de qualquer ser, de tal forma
é inconcebível um
ser sem essência ou um ser sem existência. Consequentemente, pensar
num caderno não é o
mesmo que ver um caderno. O caderno como pensamento não passa de
uma ideia ou essência.
Unidade 4
Já o caderno onde escrevo os meus apontamentos é algo existente, em
acto. Portanto, existir
significa «saits, manifestarser, -mostrar-se- e -revelarsen, e sal, manifesta-
se e mostra-se somente
aquilo que possui uma determinada essência. Por isso, era frequente
ouvir, entre os filósofos
clássicos, que a esséncia nada é sem a existência ea existência não é sem
a essência. Daqui
emergem duas correntes filosóficas modernas: o essencialismo e o
existencialismo.
O essencialismo defende a primazia da essencia sobre a existência -o ser
define-se primeira-
mente e só depois se torna isto ou aquilo -, enquanto o existencialismo
defende a primazia da
existência sobre a essência, ou seja, uma pessoa não tem qualquer
natureza ou conjunto de
escolhas predeterminadas, pois é sempre livre para fazer novas escolhas
e constituir-se como
uma pessoa diferente. O existencialismo, embora seja um tema antigo,
teve o seu desenvolvi-
mento, como corrente filosófica, na Europa, no período entre as duas
grandes guerras mundiais,
eas suas características fundamentais são as seguintes.
A valorização do indivíduo como algo irredutível, e não como algo
insignificante e reduzido
à sua totalidade. O que existe verdadeiramente é o indivíduo na sua
singularidade, é o individuo
singular, uno e irrepetível («existir- significa ser diferente). Por isso, no
que diz respeito ao ser
humano, 0 homem primeiramente existe e só mais tarde se torna isto ou
aquilo, ou seja,
a existência precede a essência, como afirma Jean-Paul Sartre na sua obra
O Ser eo Nada.
A valorização da liberdade do homem enquanto ser situado no universo.
Se a esséncia é
o pensamento, a existênciaéa manifestação do ser, ou seja, a liberdade
que se afirma no ser
contra todas as limitações impostas pela natureza. Portanto, o exercício
da liberdade, enquanto
manifestação do ser, não deve ser limitado pela natureza humana. Como
afirma Sartre:
-O homem estácondenado a ser livre, isto é, o homem, enquanto
manifestação do ser substan-
ciado, ou seja, corpóreo, é livre de se tornar o que quiser, uma vez que a
sua construção é algo
de permanente e constante enquanto ser situado no mundo. Neste
sentido, ser homem significa
ser capaz de construir a sua personalidade à medida que se vai buscando
valores por si mesmo
escolhidose tomados como paradigmáticos.
4.1.5 A cadeia aristotélica de causas: Tomás de Aquino e as Cinco Vias
Seo ser é tudo quanto é, ou seja, tudo quanto existe e pode passar da
potência ao acto e do
imperfeito ao perfeito, há que procurar compreender esta força ou razão
transformadora das
colsas que confere um determinado modo de ser: a causa. A causa pode
ser entendida como a
condição da existência de qualquer coisa, ou seja, é tudo o que concorre
para a produção de
qualquer colsa. No entender de Aristóteles, os seres criados nao têm a
razão de ser em si mesmos
e distingue quatro causas que concorrem para a produção de qualquer
coisa:
. Causa eficiente- condiçao do fenómeno que produz outro fenómeno, ou
seja, aquilo que
produz uma coisa; éo artifice que confere o ser que antes uma coisa não
possuia (por exemplo,
o carpinteiro que dá à madeira, a matéria-prima, a forma da carteira onde
estás sentado).
Causa material- condição ou aquilo de que uma coisa é feita (para o caso
da carteira onde
estás sentado, a causa material seria a madeira).
Causa formal -a forma ou o aspecto que um determinado ser toma ou que
é plasmado pelo
seu criador (por exemplo, carteira rectangular, quadrada, etc.).
Causa final -o propósito ou o objectivo com que uma coisaé feita (no caso
da tua carteira,
seria apoiar-te, colocando o teu material escolar sobre ela, permitindo-te
escrever ou ler).
Na ldade Média, o tema da causa voltou a ser actual e foi extensamente
estudado, em especial
por Tomás de Aquino, que retoma a doutrina aristotélica da causa,
enquadrada agora no âmbito
do pensamento escolástico. A Escolástica foi a corrente filosófica
dominante na ldade Média,
ensinada nas escolas da igreja, e que combinava doutrinas religiosas e
assuntos teológicos com
ilosofia. Tomás de Aquino apresentou na sua mais famosa obra, Summa
Theologiae (Suma
Teológica), e enquadrado na temática da causa, que, para este pensador,
é aquilo ao qual algo se
segue necessariamente, as Cinco Vias, que também ficaram conhecidas
como as provas da
existência de Deus. Sao elas:
1.o movimento do mundo số é explicável se existir um primeiro motor
imóvel;
2. a série de causas eficientes no mundo devem conduzir a uma causa
sem causa;
3. os seres contingentes e corruptiveis devem depender de um ser
necesário independente
e incorruptível;
4. os diversos graus de realidade e bondade do mundo devem ser
aproximações a um máximo
de realidade e bondade subsistente;
5.a teleologia normal de agentes não conscientes no universo implica a
existéncia de um
orientador universal inteligente.
Estas Cinco Vias foram consideradas bastante importantes na sua época,
no contexto da reflexão
filosófica-teológica, mas posteriormente foram consideradas teses
falaciosas.
4.1.6 A Metafísicaeo fim último do Homem
Uma das grandes questões que o Homem se vem colocando é a que diz
respeito aos fins para
Os quais existe. Não há unanimidade sobre os fins para os quais o Homem
foi criado. No entanto,
Analisando as abordagens feitas pelos filósofos, parece haver uma visão
teleológica para a existência
Humana.
Aristóteles, na obra Ética a Nicómaco, diz que toda a acção humana é
feita em função de um
Fim. Esse fim éo bem. Para o filósofo, esse bem tem de ser soberano
eobem soberano é a feli-
Cidade. Portanto, ser feliz é o fim último da existência humana. A chave
da felicidade compreende
Três realidades: prazer, ser cidadão livre e responsável e viver segundo a
razão.
Esta posiçăo foi reiterada por Santo Agostinho, na época medieval. Para o
hiponense, o Homem
É chamado a ser feliz. Mas o que se entende por felicidade? A felicidade
não consiste na busca
Incessante de bens materiais. Consiste, sim, na busca de um bem
permanente – Deus. S. Tomás
De Aquino reconhece igualmente que o Homem é o único ser que age em
função de um fm.
Metafisica e arte
O facto de o Homem ser dono dos seus actos é o que o diferencia dos
seres irracionais, razão por
Que só aquelas mesmas acções de que ele é senhor podem chamar-se
humanas. Ora, ć por ser
Dotado de razão e vontade que o Homem tem domínio sobre os seus
actos, e a faculdade ou
Potència conjunta de razão e vontade é o que se chama livre arbitrio. Con
efeito, «todas as acções
Que procedem de uma potência são causadas por ela em razão de seu
objecto- eo objecto da
Vontade não é senão o bem e o fim. «Logo, é necessário que todas as
acções humanas tenham
Em vista um fim.- (A potëncia geradora das acções referidas é o Homem.)
Dante atribui ao Homem dois fins ültimos: o fim sobrenatural (a salvação
das almas individuais)
Eofim natural (a felicidade terrena, com o atendimento das necessidades
materiais e a formação
Das virtudes morais do homem no âmbito da pólis).
Para o pensador moçambicano Brazão Mazula, o homem tem de agir de
acordo com a ética
Da felicidade. O modelo da ética da felicidade baseia-se no trabalho duro,
na criatividade e na
Honestidade e não na acumulação ilícita de bens.