ISSN 1679-043X
Janeiro, 2015 127
O Clima na Região do Bolsão
de Mato Grosso do Sul
ISSN 1679-043X
Janeiro, 2015
Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária
Embrapa Agropecuária Oeste
Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento
127
O Clima na Região do Bolsão
de Mato Grosso do Sul
Danilton Luiz Flumignan
Carlos Ricardo Fietz
Éder Comunello
Embrapa Agropecuária Oeste
Dourados, MS
2015
Autores
Danilton Luiz Flumignan
Engenheiro-agrônomo, doutor em Irrigação e
Drenagem, pesquisador da Embrapa Agropecuária
Oeste, Dourados, MS.
Carlos Ricardo Fietz
Engenheiro-agrônomo, doutor em Irrigação,
pesquisador da Embrapa Agropecuária Oeste,
Dourados, MS.
Éder Comunello
Engenheiro-agrônomo, doutorando em Engenharia
de Sistemas Agrícolas, pesquisador da Embrapa
Agropecuária Oeste, Dourados, MS.
Apresentação
A agricultura caracteriza-se como uma atividade de risco. Além de questões
relacionadas às oscilações de mercado, o clima – fator condicionante para o sucesso
da atividade – é um dos principais fatores de incerteza.
A região do Bolsão de Mato Grosso do Sul historicamente se desenvolveu com forte
predomínio da pecuária, porém, mais recentemente, vem diversificando a sua
economia. A agricultura, a qual sempre ocupou papel secundário, recentemente tem
ganhado força, especialmente com o aumento do plantio da cana-de-açúcar e grãos
(soja e milho). Nesta onda de diversificação soma-se também a intensificação da
produção florestal, especialmente com eucalipto e seringueira.
No meio agrícola os padrões climáticos são considerados fatores de produção
fundamentais, sendo capazes de determinar o potencial produtivo, tanto no sentido da
obtenção de altos índices de produtividade, quanto na ocorrência de quebras de safras.
Por isso, a Embrapa Agropecuária Oeste desenvolveu este trabalho, que envolveu
uma intensa busca de séries confiáveis de dados meteorológicos e posterior filtragem
desses dados, no intuito de caracterizar o clima da região do Bolsão de Mato Grosso
do Sul. Com este documento, espera-se que o meio agrícola regional possa encontrar
os subsídios necessários para ser capaz de explorar, da melhor forma possível, as
características favoráveis do clima regional, adequando a atividade agrícola de
maneira a maximizar a produção e diminuir os riscos climáticos.
Guilherme Lafourcade Asmus
Chefe-Geral
Sumário
9
12
14
15
19
20
22
24
27
29
33
36
41
42
O Clima na Região do Bolsão
de Mato Grosso do Sul
Danilton Luiz Flumignan
Carlos Ricardo Fietz
Éder Comunello
Introdução
A região do Bolsão de Mato Grosso do Sul é uma das nove regiões de
planejamento instituídas pelo governo do Estado (MATO GROSSO DO SUL,
2011). Esta região está localizada à nordeste do estado (Figura 1A) e é
compreendida por dez municípios (Figura 1B), sendo eles: Santa Rita do
Pardo, Brasilândia, Três Lagoas (também considerada cidade polo da
região), Água Clara, Selvíria, Aparecida do Taboado, Paranaíba, Inocência,
Cassilândia e Chapadão do Sul. A região tem área total de,
aproximadamente, 58 mil km2 (16,2% do território estadual) e ali residem
pouco mais de 250 mil habitantes (10,3% da população estadual).
Trata-se de uma região que se desenvolveu dentro de características
agrícolas com forte predomínio da pecuária, porém nos últimos anos vem
intensificando a diversificação da sua economia. A agricultura, com exceção
de Chapadão do Sul, apresenta-se com baixa dinâmica, tendo sempre
ocupado um papel secundário na economia da maior parte dos seus
municípios. Recentemente, esta tem ganho força, especialmente com o
aumento do plantio da cana-de-açúcar e grãos (soja e milho). Tem-se, ainda,
a silvicultura, que expandiu significativamente as atividades deste setor na
região (MATO GROSSO DO SUL, 2011).
10 O clima na região do Bolsão de Mato Grosso do Sul
Figura 1. Localização da região do Bolsão no Estado de Mato Grosso do Sul (A) e
municípios componentes (B).
Fonte: adaptada de Mato Grosso do Sul (2011).
O Clima na Região do Bolsão de Mato Grosso do Sul 11
Embora o Bolsão tenha forte perfil agrícola, os índices de produtividade nesta
região são baixos. Tais índices são explicados, pelo menos em parte, pela
falta de pesquisa científica aplicada ao meio agrícola desta região.
Historicamente, a pesquisa agrícola tem-se mostrado como um vetor de
desenvolvimento no Brasil, a exemplo dos casos da viabilização dos solos do
Cerrado e da fruticultura irrigada no Semiárido nordestino.
Uma das áreas do conhecimento ainda não exploradas pela pesquisa
agrícola na região do Bolsão diz respeito ao estudo das características do
clima. O conhecimento dessas características pode ser fundamental para
entender como estas interferem no meio agrícola, e também para definir
planejamentos e práticas que possam ser adotadas para melhorar os índices
de produtividade.
Nesse contexto, é importante frisar a diferença entre a meteorologia e a
climatologia. A meteorologia diz respeito ao estudo das condições do tempo
reinantes em um dado local e em um dado momento, ao passo que a
climatologia se refere ao estudo do clima da região, o qual só pode ser
conhecido por meio de longas séries históricas de dados, onde são aplicadas
estatísticas adequadas para caracterizar o clima regional (PEREIRA et al.,
2011).
Diante dessa carência de informações de pesquisa, apresenta-se neste
trabalho uma caracterização climática da região do Bolsão de Mato Grosso
do Sul. Esta caracterização envolve os principais elementos do clima e
espera-se que sirva de referência para uso pelo setor produtivo agrícola da
região, bem como pelas instâncias do governo diretamente relacionadas a
este setor.
12 O Clima na Região do Bolsão de Mato Grosso do Sul
Metodologia Geral
Neste estudo, foram analisadas séries históricas de dados de radiação solar
global (Rs), insolação (n), precipitação pluviométrica ou chuva (P),
temperatura do ar (T), umidade relativa do ar (UR), velocidade (u) e direção
do vento (dir).
De todos os municípios pertencentes ao Bolsão, conseguiu-se uma série
histórica de P para cada um, exceto para Selvíria, onde não foi obtida
nenhuma séria histórica. Para alguns dos demais elementos meteorológicos
conseguiu-se uma série histórica apenas no Município de Paranaíba. Essa
constatação evidencia a boa base de dados pluviométricos disponível na
região, porém também demonstra a clara deficiência das demais
informações meteorológicas. A menos de 15 km de Selvíria localiza-se o
Município de Ilha Solteira, SP. Este apresenta características bastante
semelhantes à da região do Bolsão de Mato Grosso do Sul e possui uma
estação meteorológica mantida, desde 1992, pela Universidade Estadual
Paulista “Júlio de Mesquita Filho” (UNESP/Ilha Solteira). Por isso, todos os
dados meteorológicos desta estação (incluindo P) foram considerados neste
estudo. Na Tabela 1 consta um resumo das estações que foram utilizadas.
Todos os dados obtidos nas séries históricas eram diários e foram
submetidos à análise de qualidade, tendo como referência as
recomendações constantes em Allen (1996), Allen et al. (1998), ASAE
(AMERICAN SOCIETY OF AGRICULTURAL ENGINEERS, 2004) e ASCE-
EWRI (ALLEN et al., 2005). Os dados que não apresentaram qualidade
foram submetidos à correção (quando possível) ou descartados da série
histórica. Após a certificação da qualidade dos dados, calculou-se as
estatísticas pertinentes a cada elemento, nas escalas mensal e anual, para
efeito de caracterização do clima regional.
O Clima na Região do Bolsão de Mato Grosso do Sul 13
Tabela 1. Estações utilizadas na caracterização climática do Bolsão de Mato
Grosso do Sul.
Localização Dados Série histórica
Estação Responsável
geográfica(1) utilizados(2) utilizada
Lat: 20º 25’ S
UNESP/Ilha Rs/n/P/T/UR/
Ilha Solteira/SP Long: 51º 21’ W 1992-2013
Solteira(3) u/dir
Alt: 337 m
Lat: 19º 45’ S
Paranaíba INMET(4) Long: 51º 11’ W n/P/T/UR/u 1972-2013
Alt: 331 m
Lat: 20º 48’ S
Três Lagoas INMET Long: 51º 43’ W P 1975-1998
Alt: 313 m
Lat: 21º 18’ S
Santa Rita do
CPRM(5) Long: 52º 49’ W P 1976-2013
Pardo
Alt: 393 m
Lat: 19º 41’ S
Água Clara CPRM Long: 52º 54’ W P 1983-2013
Alt: 471 m
Lat: 19º 00’ S
Chapadão do
CPRM Long: 52º 35’ W P 1983-2013
Sul
Alt: 570 m
Lat: 19º 33’ S
Inocência CPRM Long: 52º 10’ W P 1983-2013
Alt: 401 m
Lat: 19º 14’ S
Cassilândia CPRM Long: 51º 53’ W P 1983-2013
Alt: 734 m
Lat: 20º 04’ S
Aparecida do
CPRM Long: 51º 06’ W P 1983-2013
Taboado
Alt: 375 m
Lat: 21º 15’ S
Brasilândia CPRM Long: 52º 17’ W P 1984-2013
Alt: 336 m
(1)
Lat = latitude; Long = longitude; Alt = altitude.
(2)
Rs = radiação solar global; n = insolação; P = precipitação; T = temperatura do ar; UR = umidade
relativa do ar; u = velocidade do vento; dir = direção do vento.
(3)
Universidade Estadual Paulista “Júlio de Mesquita Filho” – Campus de Ilha Solteira, SP
(UNESP/Ilha Solteira).
(4)
Instituto Nacional de Meteorologia.
(5)
Serviço Geológico do Brasil (antiga Companhia de Pesquisa de Recursos Minerais).
14 O Clima na Região do Bolsão de Mato Grosso do Sul
Radiação Solar Global (Rs)
A radiação solar é a maior fonte de energia para o planeta Terra, sendo
também o principal elemento meteorológico, pois é ela que desencadeia todo
o processo meteorológico que afeta todos os outros elementos (temperatura,
pressão, vento, chuva, umidade, etc.). Trata-se, portanto, de um elemento
primordial no entendimento da variação dos demais. A energia solar é a fonte
primária de energia para todos os processos terrestres, desde a fotossíntese,
responsável pela produção vegetal e manutenção da vida na presente forma,
até a circulação geral da atmosfera e oceanos (PEREIRA et al., 2011).
Para que se possa entender as análises que são apresentadas mais adiante,
é fundamental compreender antes a existência de três tipos de radiação
solar, sendo elas: a que atinge o topo da atmosfera (Ra), a radiação máxima
admissível em dia de céu limpo à superfície terrestre (Rso) e a radiação solar
global que efetivamente atinge a superfície terrestre (Rs).
Considerando-se que o sol emite a luz no espaço e que ela viaja no vácuo até
atingir a atmosfera, esta não sofre interferência até este momento. Se
houvesse um sensor de radiação solar instalado na mesma latitude da região
do Bolsão, porém no topo da atmosfera, Ra seria o valor medido de radiação.
Logo, a latitude é o único fator que influencia Ra.
Após atingir a atmosfera a radiação interage com esta e sofre interferência,
sendo atenuada por ela à medida que se desloca em direção à superfície
terrestre. Dessa forma, quanto menor for a altitude do local, maior será a
camada de atmosfera que irá atenuar a radiação, diminuindo a quantidade de
energia que atinge a superfície. Nesse sentido, tanto Rso quanto Rs são tipos
de radiação que presumem a sua avaliação na superfície terrestre. Em Rso é
levada em consideração a situação hipotética que todos os dias são de céu
limpo, ou seja, sem nebulosidade. Nesse caso, os valores de Rso são sempre
menores que os de Ra, pois levam em consideração a altitude, ou seja, a
camada de atmosfera sem nuvens que interage e reduz a radiação que
atinge a superfície. Diferentemente, Rs nada mais é do que a radiação solar
que efetivamente é medida à superfície terrestre, ou seja, numa situação real
em que a composição e nebulosidade variável da atmosfera interferem na
quantidade de radiação que atinge a superfície. Portanto, é de se esperar
O Clima na Região do Bolsão de Mato Grosso do Sul 15
que os valores de Rs sejam sempre menores (dias com algum nível de
nebulosidade) ou iguais aos de Rso (dias de céu limpo).
Finalizando esse contexto, tem-se também a chamada transmitância global
(Tg), a qual é obtida dividindo-se o valor de radiação mensurado (Rs) pela
radiação no topo da atmosfera (Ra). Isso implica dizer que Tg indica qual a
quantidade de radiação que efetivamente atinge a superfície de um
determinado local em um dado momento, quando comparado à quantidade
que poderia ter atingido se não houvesse a influência da atmosfera.
Na análise de Rs foram utilizados somente os dados da estação de Ilha
Solteira, SP, haja vista que esta era a única estação com série histórica deste
elemento. Os dados estavam disponíveis no período de 1996 a 2013, sendo
todos aproveitáveis, totalizando, portanto, 18 anos de dados. Os valores de
Rso e Ra foram calculados conforme disposto em Allen et al. (2005). Tg foi
calculada pela divisão dos valores de Rs por Ra.
Análise
Nota-se na Figura 2 que a quantidade média de Rs diária que atinge a
superfície na região do Bolsão é de 19,3 MJ m-2 dia-1 e que essa quantidade
praticamente não varia entre os diferentes anos. Esse comportamento
estável já era bastante previsível, pois neste tipo de análise os fatores que
provocam mudanças significativas nos valores medidos à superfície são a
latitude e a altitude. Sendo assim, por se tratar de uma mesma região de
análise ao longo do tempo, esses fatores não mudam.
Nota-se, ainda, que os valores médios de Ra e Rso são, respectivamente, 34,1
e 25,8 MJ m-2 dia-1. Portanto, na região do Bolsão o efeito da altitude da região
faz com que apenas 75,7% da radiação que atinge o topo da atmosfera possa
atingir a superfície terrestre em dias de céu limpo (Rso/Ra). Da mesma forma,
em média, a radiação solar que efetivamente atinge a superfície terrestre é
apenas 74,8% do máximo admissível (Rs/Rso) e 56,6% daquela que atinge o
topo da atmosfera (Rs/Ra), ou seja, a Tg é numericamente igual a este último
valor. Essa observação demonstra que a atmosfera reduz em quase a
metade (44,4%) a quantidade de radiação que atinge a superfície terrestre na
região.
16 O Clima na Região do Bolsão de Mato Grosso do Sul
35
30
Radiação (MJ m-2 dia-1)
25
20
15
10
5
Rs Rso Ra
0
1996 1999 2002 2005 2008 2011
Ano
Figura 2. Valores médios diários da radiação solar (Rs), radiação máxima admissível
em dia de céu limpo (Rso) e radiação que atinge o topo da atmosfera (Ra) na região do
Bolsão de Mato Grosso do Sul, entre 1996 e 2013.
Embora a quantidade de energia que atinge a região do Bolsão seja
semelhante entre os diferentes anos, na análise dos diferentes meses nota-
se que existe variação nesses valores (Figura 3 e Tabela 2). Essa
variabilidade é determinada, principalmente, pela inclinação do eixo terrestre
e pelo movimento de translação, ou seja, o movimento que a Terra faz em
torno do Sol ao longo do ano. Sendo assim, nota-se que esses fatores
influenciam a variação mensal de Ra e Rso, de tal forma que entre os meses de
setembro e março é de se esperar que a quantidade de energia que atinge a
superfície na região do Bolsão seja acima da média (meses em que Ra e Rso
são acima da média). Diferentemente, entre abril e agosto é de se esperar
que a quantidade de energia que incidirá sobre a região do Bolsão seja
abaixo da média anual.
O comportamento real pode, na prática, ser um pouco diferente do esperado,
em consequência de outros fatores, sendo o principal deles a presença de
nebulosidade, que pode impedir que aquela energia, que era potencialmente
esperada de atingir uma determinada região, seja interceptada antes de
O Clima na Região do Bolsão de Mato Grosso do Sul 17
atingi-la. No caso da região do Bolsão, nota-se que esse fenômeno ocorre
mas não é bastante significativo, pois da mesma forma que para Ra e Rso, os
valores de Rs são acima da média entre setembro e março e abaixo da média
entre abril e agosto; portanto, o mesmo comportamento comparado ao
esperado.
45
40
Radiação (MJ m-2 dia-1)
35
30
25
20
15
10
5 Rs Rso Ra
0
Jan. Fev. Mar. Abr. Maio Jun. Jul. Ago. Set. Out. Nov. Dez.
Mês
Figura 3. Variação mensal dos valores médios diários da radiação solar (Rs), radiação
máxima admissível em dia de céu limpo (Rso) e radiação que atinge o topo da
atmosfera (Ra) na região do Bolsão de Mato Grosso do Sul.
Tabela 2. Variação mensal da média diária dos valores de radiação solar (Rs),
radiação máxima admissível em dia de céu limpo (Rso), radiação que atinge o
topo da atmosfera (Ra) e transmitância global (Tg) na região do Bolsão de
Mato Grosso do Sul(1).
Jan. Fev. Mar. Abr. Maio Jun. Jul. Ago. Set. Out. Nov. Dez.
Rs 20,9 21,8 20,6 18,9 15,8 13,9 15,7 18,4 19,4 21,2 22,6 22,6
Rso 31,6 30,2 27,4 23,4 19,8 18,1 19,0 22,1 26.0 29,3 31,2 31,9
Ra 41,8 39,9 36,1 30,9 26,2 23,9 25,1 29,2 34,3 38,7 41,3 42,2
Tg 50,0 54,6 57,1 61,2 60,3 58,2 62,6 63,0 56,6 54,8 54,7 53,6
(1)
Dados de Rs, Rso e Ra em MJ m-2 dia-1. Dados de Tg em %.
18 O Clima na Região do Bolsão de Mato Grosso do Sul
Ressalta-se que os maiores valores médios diários de Ra (42,2 MJ m-2 dia-1)
e Rso (31,9 MJ m-2 dia-1) ocorrem no mês de dezembro e que para Rs
(22,6 MJ m-2 dia-1) ocorrem tanto em novembro quanto em dezembro.
Por outro lado, os menores valores ocorrem sempre em junho (23,9; 18,1; e
13,9 MJ m-2 dia-1, respectivamente).
Conforme ressaltado anteriormente, embora o efeito da nebulosidade na
atenuação da radiação não seja bastante significativo para a região do
Bolsão, ele existe e necessita ser [Link] Figura 3, verifica-se que entre
os meses de abril e agosto as curvas de Rs e Ra são relativamente mais
próximas entre si, indicando que a quantidade de radiação que de fato atinge
a superfície é relativamente próxima daquilo que atinge o topo da atmosfera
(Rs próximo de Ra), ou seja, praticamente não existe nebulosidade durante
estes meses, logo a radiação é menos atenuada. Por esse motivo, os valores
de Rs tendem a se aproximar dos de Rso nesse período. Isso se traduz nos
valores mais altos de Tg (Tabela 3), tal qual o valor máximo de 63%, o qual
ocorre no mês de agosto. Diferentemente, entre os meses de setembro e
março as curvas de Rs e Ra se encontram mais afastadas, evidenciando que a
energia que de fato atinge a superfície é bem menor, se comparada àquela
que atinge o topo da atmosfera (Rs bem menor que Ra). Por essa razão, os
valores de Rs tendem a se distanciar dos de Rso nesse período, tornando
evidente a maior nebulosidade. Tal fato se traduz nos baixos valores de Tg
(Tabela 3), como exemplo do valor mínimo de 50%, que é observado no mês
de janeiro.
Essa constatação converge com o comportamento das chuvas na região do
Bolsão ao longo do ano, conforme será explorado no tópico referente à
precipitação pluviométrica. Resumidamente, os meses de setembro a março
respondem por 84% das chuvas que ocorrem no ano (meses de alta
nebulosidade), diferentemente do período de abril a agosto, que respondem
pelos 16% restantes (meses de baixa nebulosidade).
Esse comportamento fica bastante evidente ao se observar o exemplo do ano
de 2007 (Figura 4), onde nota-se que embora nos primeiros meses do ano
sejam esperados valores altos de radiação (Rso alto), os valores efetivamente
medidos foram atenuados (Rs menores que Rso) por causa da nebulosidade
associada às chuvas que ocorreram intensamente nos primeiros meses
desse ano. Por outro lado, no meio do ano ocorreu a estiagem, que é normal
na região do Bolsão; com isso a nebulosidade foi reduzida e os valores
medidos de Rs se aproximaram na maioria dos dias dos valores previstos de
Rso.
O Clima na Região do Bolsão de Mato Grosso do Sul 19
45
40
Radiação (MJ m-2 dia-1)
35
30
25
20
15
10
5 Rs Rso Ra
0
1 31 61 91 121 151 181 211 241 271 301 331 361
Dia do ano
Figura 4. Radiação solar (Rs), radiação máxima admissível em dia de céu limpo (Rso) e
radiação que atinge o topo da atmosfera (Ra) na região do Bolsão de Mato Grosso do
Sul, em 2007.
Insolação (n) e Fotoperíodo (N)
A insolação (n) consiste no fenômeno em que os feixes solares incidem
diretamente sobre a superfície; por isso, ela também é conhecida como
número de horas de brilho solar. Do ponto de vista de um observador
localizado sobre a superfície em questão, se o mesmo olhasse em direção ao
sol e conseguisse avistá-lo, seria caracterizada a insolação. Por outro lado,
se não fosse possível avistá-lo, a insolação não seria caracterizada.
Percebe-se, portanto, que no período noturno a insolação jamais deverá ser
caracterizada, sendo esta restrita ao período diurno. Porém, mesmo durante
o período diurno pode-se não ter insolação. Isso ocorre justamente na
ocasião em que o observador não consegue avistar o sol, pois o mesmo se
encontra escondido atrás de nuvens. Sendo assim, percebe-se que o fator
nebulosidade é bastante importante no estudo da insolação.
20 O Clima na Região do Bolsão de Mato Grosso do Sul
Existe também o fotoperíodo (N), o qual consiste na duração do período
diurno, ou seja, período em que o sol se encontra pairando sobre o horizonte.
Esta duração do dia é influenciada pela latitude do local e pela época do ano.
Em dias de céu completamente limpo (sem nebulosidade), o valor de n
deverá ser igual ao de N. Por outro lado, se algum nível de nebulosidade
ocorrer, os feixes solares deixarão de incidir diretamente sobre a superfície,
restando apenas uma pequena parte de feixes solares que incidem de forma
difusa (os quais são menos energéticos) e, dessa forma, o valor de n deverá
ser menor que o de N.
Os valores de n e N se relacionam por meio da razão de insolação (n/N), a
qual é um indicativo do nível de transmissividade ou nebulosidade da
atmosfera. Quanto menos nebulosa está a atmosfera, mais transmissiva
esta se encontra e a razão de insolação tende a 1. Por outro lado, se a
atmosfera estiver mais nebulosa, estará menos transmissiva e a razão de
insolação tenderá a 0.
Diante do exposto, nota-se que todo este estudo relacionado a n, N e n/N tem
estreita correlação com o apresentado no tópico da radiação. Dessa forma,
muitas das observações apontadas naquele tópico servem também para
este e, por isso, não serão aqui repetidas.
Na análise de n foram utilizados os dados das estações de Ilha Solteira (1996
a 2013) e de Paranaíba (1972 a 2013). Da série de dados de Ilha Solteira
foram aproveitados 16 anos, enquanto para Paranaíba foram aproveitados
32 anos. Os valores de N foram calculados conforme disposto em Allen et al.
(2005), considerando-se a latitude média da região. Calculou-se a razão de
insolação (n/N) dividindo-se os valores medidos de n pelos calculados de N.
Análise
Nota-se na Figura 5 que o número médio de horas de brilho solar diário na
região do Bolsão é de 7,6 h, enquanto a duração média do dia é de 12 h. Isso
implica dizer que, em média, em apenas 63,3% do período diurno a radiação
solar incide diretamente sobre a superfície, sendo que nos outros 36,7%
ocorre algum nível de nebulosidade que impede a incidência direta dos raios
solares.
O Clima na Região do Bolsão de Mato Grosso do Sul 21
12
10
8
h dia-1
2
n N
0
1972 1977 1982 1987 1992 1997 2002 2007 2012
Ano
Figura 5. Valores médios diários de insolação (n) e fotoperíodo (N) na região do
Bolsão de Mato Grosso do Sul, de 1972 a 2013.
Na Figura 6 e Tabela 3 tem-se a variabilidade mensal do N na região do
Bolsão de Mato Grosso do Sul. Como é de se esperar, nota-se que no verão
os dias são mais longos e no inverno os dias são mais curtos. Dessa forma,
entre os meses de outubro a março os dias são mais longos que a média
anual de 12 h, enquanto entre abril e setembro os dias são mais curtos.
Embora n na região do Bolsão seja semelhante entre os diferentes anos
(Figura 5), na análise dos diferentes meses nota-se que existe variação
(Figura 6 e Tabela 3). Existe uma tendência de, entre os meses de outubro a
março, os valores de n serem abaixo da média de 7,6 h. Diferentemente,
entre os meses de abril a setembro a tendência é de que os valores de n
sejam acima da média. Essa é uma observação interessante, pois ocorre o
inverso do comportamento de N. Essa observação se deve, da mesma forma
que explicado no tópico da radiação, ao fato de que entre outubro e março
ocorre a maior quantidade de precipitação na região. Isso implica dizer que a
nebulosidade neste período é mais acentuada. Por isso, a incidência direta
de feixes solares é reduzida. Tal fato resulta nos menores valores de n/N
nesses meses, evidenciando o efeito da nebulosidade na redução da
transmissividade da atmosfera. O comportamento oposto ocorre nos meses
de abril a setembro.
22 O Clima na Região do Bolsão de Mato Grosso do Sul
14
12
10
h dia-1
2
n N
0
Jan. Fev. Mar. Abr. Maio Jun. Jul. Ago. Set. Out. Nov. Dez.
Mês
Figura 6. Variação mensal dos valores médios diários de insolação (n) e fotoperíodo
(N) na região do Bolsão de Mato Grosso do Sul.
Tabela 3. Variação mensal da média diária dos valores de insolação (n),
fotoperíodo (N) e razão de insolação (n/N) na região do Bolsão de Mato
Grosso do Sul(1).
Jan. Fev. Mar. Abr. Maio Jun. Jul. Ago. Set. Out. Nov. Dez.
n 6,4 7,2 7,4 8,0 7,8 7,8 8,3 8,6 7,6 7,5 7,9 7,0
N 13,1 12,7 12,1 11,5 11,0 10,8 10,9 11,3 11,9 12,5 13,0 13,2
n/N 48,9 56,7 61,2 69,6 70,9 72,2 76,1 76,1 63,9 60,0 60,8 53,0
(1) Dados de n e N em horas dia-1. Dados de n/N em %.
Precipitação Pluviométrica (P)
ou Chuva
Nas regiões tropicais a precipitação pluviométrica (P) ou chuva, consiste, do
ponto de vista do ciclo hidrológico, na principal forma de retorno da água para
as superfícies naturais. Por isso é um elemento climático que determina o
tipo de vegetação natural e o tipo de exploração agrícola que pode ser
praticada em uma determinada região (PEREIRA et al., 2011).
O Clima na Região do Bolsão de Mato Grosso do Sul 23
Dentre os elementos do clima, a P é a que mais apresenta variabilidade no
tempo e no espaço. Em um mesmo local pode ocorrer chuva em um dia e no
outro não. Da mesma forma, é possível que um ano seja bem chuvoso e outro
não. Ou, também, meses em que seja normal haver boa precipitação, mas
acabam surpreendendo e podem ser pouco chuvosos. Além disso, existem
os casos em que em um local as chuvas ocorrem adequadamente, mas em
outros locais bastante próximos (localizados dentro de uma mesma região
geográfica) as chuvas não ocorrem conforme o esperado.
A P normalmente é avaliada em termos de valores médios. No entanto, este
tipo de análise pode conduzir a erros. Por exemplo, suponha que em um
dado local a P do mês de agosto foi medida durante 5 anos consecutivos. Nos
quatro primeiros anos a chuva medida foi de 10 mm. Porém, no último ano, as
condições climáticas fugiram do padrão e a chuva foi de 200 mm. Nesse
caso, a média dos cinco anos é de 48 mm. No entanto, nota-se claramente
que o valor mais provável de ocorrer é 10 mm, haja vista que ele ocorreu em
quatro dos cinco anos avaliados. Ou seja, o valor médio é 4,8 vezes maior
que o valor mais provável de ocorrer. Neste caso, a média está
superestimando o valor mais provável.
A análise das chuvas, considerando a média, pode ser útil em diversas
situações, porém em algumas outras pode ser mais interessante analisar sob
o ponto de vista da probabilidade de ocorrência; esta, como o próprio nome
sugere, diz respeito à avaliação da probabilidade da chuva ser maior ou
menor que um determinado valor. É preciso considerar que esta análise não
diz respeito à previsão de tempo, mas sim da análise probabilística de séries
históricas. Por exemplo, no caso anterior, é possível afirmar que em 80% dos
anos a chuva no mês de agosto é igual ou menor que 10 mm.
Embora a P apresente alta variabilidade espaço-temporal, os padrões
pluviométricos de uma determinada região podem ser seguramente
avaliados usando-se dados de séries históricas longas e de múltiplas
estações de coleta de dados. Por isso, na análise da P foram utilizados dados
de 10 estações que, juntas, serviram para construir uma série histórica de 42
anos (1972-2013). Dentre as estações listadas na Tabela 1, a estação de
Três Lagoas foi aquela que apresentou menor número de anos aproveitáveis
para o estudo (10 anos). Por outro lado, Paranaíba foi a que apresentou
maior número (32 anos). A probabilidade de ocorrência foi calculada na base
de 75%, seguindo os procedimentos descritos em Pereira et al. (2011).
24 O Clima na Região do Bolsão de Mato Grosso do Sul
Análise
Anualmente chove, em média, 1.435 mm na região do Bolsão de Mato
Grosso do Sul (Figura 7 e Tabela 4). Nota-se que existe variabilidade no
tempo, que fez com que no ano mais chuvoso (1989) fossem registrados
1.775 mm (24% a mais que a média). Já em 1985, ano mais seco, foram
registrados somente 1.107 mm (23% abaixo da média). Por fim, nota-se que
em 75% dos anos a chuva registrada foi acima de 1.288 mm.
Chuva anual no Bolsão de Mato Grosso do Sul
1.800
Ano de 1989
1.775 mm
1.600
Chuva (mm)
Média = 1.435 mm
1.400
P75 = 1.288 mm
1.200
Ano de 1985
1.107 mm
1.000
1972 1976 1980 1984 1988 1992 1996 2000 2004 2008 2012
Ano
Figura 7. Variabilidade anual das chuvas na região do Bolsão de Mato Grosso do Sul,
entre 1972 e 2013.
Nota: P75 se refere à probabilidade de ocorrência com nível de 75% de confiança.
O Clima na Região do Bolsão de Mato Grosso do Sul 25
Tabela 4. Variabilidade das chuvas (mm) na região do Bolsão de Mato
Grosso do Sul.
Mês Máxima Média Mínima P75(1)
Janeiro 447 269 155 203
Fevereiro 359 196 68 130
Março 380 179 67 113
Abril 196 88 9 57
Maio 152 64 0 27
Junho 146 31 0 6
Julho 82 19 0 3
Agosto 130 26 0 0
Setembro 185 72 7 27
Outubro 210 119 32 86
Novembro 241 156 56 116
Dezembro 382 217 73 179
Anual 1.875 1.435 1.107 1.288
(1) P75 refere-se à probabilidade de ocorrência com nível de 75% de confiança.
Embora a variabilidade entre os diferentes anos não seja muito expressiva, o
mesmo não pode ser dito com relação à variabilidade entre os meses (Figura
8 e Tabela 4). O padrão de distribuição das chuvas na região do Bolsão de
Mato Grosso do Sul segue um fluxo bastante consistente, onde as chuvas
são maiores em dezembro, janeiro e fevereiro; diminuem gradativamente
nos meses de março, abril e maio até, atingir o período de estiagem evidente
em junho, julho e agosto. A partir daí, as chuvas aumentam gradativamente
nos meses de setembro, outubro e novembro, atingindo novamente os
meses mais chuvosos do ano.
Nota-se na Tabela 4 que, com exceção do mês de novembro, os valores
médios são sempre mais próximos dos valores mínimos do que dos
máximos. Isso indica que, na maioria dos anos, os valores registrados são
mais baixos, mas que em alguns poucos anos os volumes de chuva
registrados são altos e fora do padrão e, por isso, originam os valores
máximos descritos na Tabela 4.
26 O Clima na Região do Bolsão de Mato Grosso do Sul
Chuva mensal no Bolsão de Mato Grosso do Sul
300
269
A
250
217
196
Chuva (mm)
200
179
156
150
119
100 88
72
64
50 31 26
19
0
Jan. Fev. Mar. Abr. Maio Jun. Jul. Ago. Set. Out. Nov. Dez.
Mês
P75 da chuva mensal no Bolsão de Mato Grosso do Sul
300
B
250
203
Chuva (mm)
200 179
150 130
113 116
100 86
57
50 27 27
6 3 0
0
Jan. Fev. Mar. Abr. Maio Jun. Jul. Ago. Set. Out. Nov. Dez.
Mês
Figura 8. Variabilidade da média mensal (A) e ao nível de probabilidade de ocorrência
de 75%-P75 (B) das chuvas na região do Bolsão de Mato Grosso do Sul.
O Clima na Região do Bolsão de Mato Grosso do Sul 27
Os meses de dezembro, janeiro e fevereiro são os mais chuvosos na região,
com valores médios de 217 mm, 269 mm e 196 mm, respectivamente. Nestes
meses, também é observada a maior probabilidade de ocorrência de chuvas
ao nível de 75% de confiança, ou seja, nesses meses, em 75% dos anos, foi
observada chuva maior que 179 mm, 203 mm e 130 mm, respectivamente.
Por outro lado, os meses de junho, julho e agosto são os mais secos, pois em
média chove 31 mm, 19 mm e 26 mm, respectivamente. De modo
semelhante, nos registros da série histórica observa-se que as lâminas
precipitadas com 75% de confiança são muito baixas, abaixo de 10 mm.
Ao se fazer uma análise semestral da distribuição das chuvas, nota-se que na
região do Bolsão de Mato Grosso do Sul existe um semestre bastante chuvoso
e, por isso, mais apto ao uso do solo para fins agrícolas, que é o compreendido
entre os meses de outubro a março, onde chovem em média 1.135 mm, ou
seja, 79% da chuva anual. Por outro lado, o semestre compreendido entre abril
e setembro é evidentemente mais seco, pois em média a chuva neste
semestre é de 300 mm, quase quatro vezes menor que o volume precipitado
no semestre chuvoso e somente 21% da precipitação total anual. Portanto, é
de se presumir que o uso do solo para fins agrícolas neste semestre é bastante
limitado, em razão da falta de chuvas, sendo o uso da irrigação uma alternativa
tecnicamente viável, ou até mesmo necessária, para o meio agrícola nas suas
diferentes formas de exploração (agricultura, pecuária, etc.).
Temperatura (T) e Umidade
Relativa do Ar (UR)
A temperatura é um índice físico que procura expressar a quantidade de calor
sensível de um determinado corpo. Pelo senso comum ela é interpretada
como quente ou fria, muito embora a definição do que é quente e o que é frio
seja relativa. Ela também pode ser interpretada como uma expressão do
nível energético do corpo. Seguindo esta lógica, se a temperatura do corpo
em questão aumenta, a sua quantidade de calor sensível também aumenta,
assim como o seu nível energético, e dessa forma, o corpo se torna mais
quente. Se o corpo em questão é o ar, dá-se o nome de temperatura do ar (T).
28 O Clima na Região do Bolsão de Mato Grosso do Sul
A T é um elemento do clima muito importante para o meio agrícola, pois
influencia diretamente este meio, a exemplo das geadas ou do nível de
temperatura ideal para o desenvolvimento de um cultivo ou de patógenos e
pragas.
A T é um elemento do clima que depende fortemente da radiação solar. Isso
decorre da análise do balanço de energia em superfícies naturais, pois do
total de radiação solar que atinge uma determinada superfície, uma parte
desta é usada para aquecer a superfície em questão. Estando esta superfície
aquecida, a mesma transmite calor para o ar localizado acima dela. Logo, é
de se presumir que em situações onde a incidência de radiação solar seja
maior, a temperatura também deverá ser maior. O inverso também é
verdadeiro.
A umidade relativa do ar (UR) também é um elemento do clima importante
para o meio agrícola. Como o próprio nome sugere, esta é uma variável
relativa, ou seja, a sua variação é dependente da variação de outras duas
variáveis. Isso se deve ao fato de que a UR é calculada com base na razão
entre a pressão atual de vapor d'água na atmosfera (ea) e a pressão de
saturação de vapor d'água na atmosfera (es). A primeira, (ea), diz respeito à
quantidade de vapor d'água que efetivamente existe na atmosfera de um
determinado local, em um determinado momento. A segunda, (es), está
diretamente relacionada à T. Do ponto de vista prático, ela se refere à
quantidade de vapor d'água que cabe na atmosfera de um determinado local,
em um determinado momento. Quando a T aumenta, segundo a lei dos
gases ideais, o ar se expande e, por isso, cabe naquela porção de ar uma
maior quantidade de vapor d'água, ou seja, a es aumenta. Porém, quando a T
diminui, o ar se contrai, reduzindo a quantidade de vapor d'água que cabe
dentro da mesma porção de ar, diminuindo a es.
Nota-se que a variação da T introduz uma forte variação na UR, porque a es
varia muito em função da T. Logo, mesmo em situações onde a quantidade
de vapor d'água presente na atmosfera (ea) varie pouco, a variação da T faz
variar a es e, por consequência, a UR. Como a T varia constantemente, ou
seja, ao longo do dia e também ao longo do ano, é evidente que a es também
varia e, por consequência, a UR também. Além disso, a quantidade de vapor
d'água efetivamente presente na atmosfera também varia, variando a ea,
especialmente ao longo do ano. Por exemplo, em épocas chuvosas, a
evapotranspiração em uma determinada região é maior e isso aumenta a
O Clima na Região do Bolsão de Mato Grosso do Sul 29
emissão de vapor d'água para a atmosfera. Por outro lado, com a chegada e
a continuidade de um período de estiagem, a evapotranspiração na região
diminui, diminuindo a emissão de vapor d'água para a atmosfera. Logo, nota-
se que a ea também promove variação nos valores de UR.
De maneira geral, quando os valores de ea e es são próximos entre si, a UR
tende a se aproximar de 100%. Esse é um fenômeno mais comum durante o
período noturno e em épocas frias e chuvosas. Por outro lado, se os valores
de ea e es estão afastados entre si, a UR tende a apresentar valores mais
baixos. Esse é o caso mais comum durante o período diurno e em épocas
quentes e pouco chuvosas.
Na análise da T e da UR foram utilizados dados das estações de Ilha Solteira
e Paranaíba. Juntas, as estações serviram para construir uma série histórica
que vai desde 1972 até 2013, porém para T foram aproveitados os dados em
28 anos e para UR foram aproveitados 36 anos. Os dados de T foram
analisados em termos dos seus valores máximos (Tmáx), médios (Tméd) e
mínimos (Tmín). Já a UR foi analisada somente em termos dos valores
médios (URméd). Os valores máximos e mínimos de UR não foram
analisados em virtude da pouca disponibilidade destes dados nas séries
históricas disponíveis.
Análise
A Tméd anual na região do Bolsão de Mato Grosso do Sul é de 24,5 ºC, o
valor médio diário de Tmáx é de 31,1 ºC e o de Tmín é de 19 ºC (Figura 9 e
Tabela 5).
Nota-se na Figura 9 que a variabilidade entre os anos é pequena. Ainda
assim, chama a atenção a correlação existente entre a chuva anual e a
temperatura. Se cruzadas as informações da Figura 9 (temperatura) com as
da Figura 7 (chuva), verifica-se que os anos onde as temperaturas foram
mais elevadas coincidem com anos pouco chuvosos (exemplo dos anos de
1992, 1993, 1995, 2002, 2007 e 2012). O mesmo pode ser dito com relação
ao fato de que as temperaturas mais baixas coincidem com anos mais
chuvosos (exemplo dos anos de 1972, 1973, 1976 e 1982).
30 O Clima na Região do Bolsão de Mato Grosso do Sul
35
30
25
Temperatura (ºC)
20
15
10
5
Tmáx Tméd Tmín
0
1972 1977 1982 1987 1992 1997 2002 2007 2012
Ano
Figura 9. Média diária da temperatura máxima (Tmáx), média (Tméd) e mínima
(Tmín) na região do Bolsão de Mato Grosso do Sul, entre 1972 e 2013.
Tabela 5. Média das temperaturas (ºC) máxima (Tmáx), média (Tméd) e
mínima (Tmín) e da umidade relativa média (URméd em %) na região do
Bolsão de Mato Grosso do Sul.
Mês Tmáx Tméd Tmín URméd
Janeiro 31,9 26,1 21,7 75,3
Fevereiro 32,2 26,3 21,7 75,0
Março 32,0 26,1 21,4 74,1
Abril 31,3 25,1 19,9 69,7
Maio 28,6 22,1 16,5 68,0
Junho 28,4 21,4 15,4 65,9
Julho 28,9 21,4 14,8 59,8
Agosto 31,1 23,3 16,3 52,7
Setembro 32,0 24,9 18,7 57,1
Outubro 32,9 26,3 20,7 62,4
Novembro 32,2 26,1 21,0 67,2
Dezembro 32,1 26,3 21,6 72,7
Anual 31,1 24,5 19,0 67,9
O Clima na Região do Bolsão de Mato Grosso do Sul 31
A mesma correlação existente entre a temperatura e as chuvas foi observada
para a UR. A média anual da URméd é de 67,9% (Figura 10 e Tabela 5). Nos
anos em que foram obtidos os maiores valores de URméd, foi também
observada boa quantidade de chuvas (1972, 1973, 1974 e 1976). De modo
análogo, nos anos em que a URméd foi baixa, a chuva anual também foi
baixa (1985, 1992, 1993, 1995 e 1999). Isso se deve ao fato de que em anos
chuvosos a T é mais baixa e maior quantidade de vapor d'água é adicionado
na atmosfera, logo a UR é alta. O inverso ocorre em anos mais secos,
situação em que a UR é mais baixa.
Embora a variabilidade anual da T e da UR seja muito pequena, a
variabilidade entre os diferentes meses é expressiva (Tabela 5 e Figuras 11 e
12). Nota-se que o semestre compreendido entre outubro e março é mais
quente, enquanto o semestre de abril a setembro é mais frio. Esse
comportamento converge integralmente com o padrão de distribuição
mensal da radiação solar global, ou seja, nos meses em que os valores de Rs
são maiores, a T é maior também; porém, nos meses em que os valores de Rs
são menores, a T também é menor.
100
80
Umidade relativa (%)
60
40
20
URméd
0
1972 1977 1982 1987 1992 1997 2002 2007 2012
Ano
Figura 10. Média diária da umidade relativa média (URméd) na região do Bolsão de
Mato Grosso do Sul, entre 1972 e 2013.
32 O Clima na Região do Bolsão de Mato Grosso do Sul
35
30
25
Temperatura (ºC)
20
15
10
5
Tmáx Tméd Tmín
0
Jan. Fev. Mar. Abr. Maio Jun. Jul. Ago. Set. Out. Nov. Dez.
Mês
Figura 11. Variabilidade mensal da média diária da temperatura máxima (Tmáx),
média (Tméd) e mínima (Tmín) na região do Bolsão de Mato Grosso do Sul.
100
80
Umidade relativa (%)
60
40
20
URméd
0
Jan. Fev. Mar. Abr. Maio Jun. Jul. Ago. Set. Out. Nov. Dez.
Mês
Figura 12. Variabilidade mensal da média diária da umidade relativa média (URméd)
na região do Bolsão de Mato Grosso do Sul.
O Clima na Região do Bolsão de Mato Grosso do Sul 33
A variação mensal da UR se parece com a da T, porém apresenta um
evidente retardo de dois meses, ou seja, o semestre em que a UR é mais
elevada vai de dezembro a maio. Isso se deve ao fato de que as chuvas
voltam a ocorrer na região apenas no mês de setembro; desse mês até
novembro elas ainda são relativamente fracas. Somado a isso tem o fato de
que o período de estiagem na região perdura por seis meses (março a
agosto). Esse fraco retorno das chuvas, aliado ao longo período de estiagem,
faz com que de fato a UR somente alcance padrões elevados no mês de
dezembro, os quais permanecem até meados de maio. Embora as chuvas a
partir de fevereiro sejam gradativamente menores, a natureza na região
ainda permanece úmida por causa da quantidade de água precipitada
durante o período chuvoso. Por isso, embora as chuvas se escasseiem neste
período, a UR ainda é elevada e, de fato, apresenta valores expressivamente
mais baixos apenas a partir de junho.
Velocidade (u) e Direção dos
Ventos (dir)
Os ventos são deslocamentos de ar no sentido horizontal, originários a partir
de diferenças de pressão existentes na atmosfera. A intensidade e a direção
dos ventos são determinadas pela variação espacial e temporal do balanço
de energia na superfície terrestre, a qual causa variações no campo de
pressão atmosférica, gerando os ventos. Normalmente, o vento se desloca
de áreas de maior pressão (áreas mais frias) para aquelas de menor pressão
(áreas mais quentes), e quanto maior for a diferença entre as pressões
dessas áreas, maior será a velocidade de deslocamento (PEREIRA et al.,
2011).
A ocorrência de ventos em um dado local na Terra obedece às características
da circulação geral da atmosfera, ou seja, a tendência em escala global
(macroescala) dos ventos se deslocarem de uma região para outra. Porém,
na prática, o vento em um dado local pode variar no tempo e no espaço em
função de características peculiares à cada região (características de
mesoescala e microescala). Dentre essas características podem-se citar a
proximidade de rios, lagos e oceanos, o nível de aquecimento das águas dos
34 O Clima na Região do Bolsão de Mato Grosso do Sul
oceanos, o período diurno ou noturno, a presença de obstruções como
árvores e construções, a topografia local, etc.
O estudo dos ventos é realizado a partir da análise de sua velocidade (u) e
direção (dir). Como os próprios nomes sugerem, a u diz respeito à
intensidade de deslocamento das massas de ar, podendo ser analisada tanto
em termos de velocidade média (uméd) como em termos de velocidade
máxima (umáx). Uma escala de velocidade dos ventos foi desenvolvida pelo
meteorologista Francis Beaufort, para facilitar a sua interpretação,
permitindo ao observador relacionar a velocidade do vento com situações
comuns (Tabela 6). Por outro lado, a dir diz respeito à origem dos ventos,
indicando no plano horizontal qual a procedência dos ventos, sendo
normalmente classificada em função dos quatro pontos cardeais (N, S, L e O)
e dos quatro pontos colaterais (NE, SE, SO e NO).
Na análise dos ventos foram utilizados dados das estações de Ilha Solteira e
Paranaíba. Na análise da uméd conseguiu-se construir uma série histórica
com dados de ambas as estações desde 1972 até 2013, porém somente
foram aproveitados neste período os dados de 36 anos. Para a análise de umáx
e dir somente se encontravam disponíveis os dados da estação de Ilha
Solteira, com os quais foi possível construir uma série histórica desde 2001
até 2013. No caso de umáx foram aproveitados os dados de todos os anos, ou
seja, 13 anos. Para dir somente um ano falhou, totalizando 12 anos na
análise. Com os dados de dir foram construídas rosas dos ventos para avaliar
a direção predominante dos ventos (DPV) na região. Foram considerados
nesta análise os quatro pontos cardeais (N, S, L e O) e os quatro colaterais
(NE, SE, SO e NO). Considerou-se como calmaria (C) os dias em que uméd
foi menor ou igual a 0,5 ms-1, ou seja, quando esta condição foi atingida não
houve DPV.
O Clima na Região do Bolsão de Mato Grosso do Sul 35
Tabela 6. Escala de Beaufort para a velocidade dos ventos.
Grau Categoria m s -1 Km h-1 Efeitos observados
0 Calmo < 0,3 <1 Fumaça sobe na vertical
1 Aragem 0,3 a 1,5 1a5 Fumaça indica direção do vento
Folhas das árvores movem; os
2 Brisa leve 1,6 a 3,3 6 a 11
moinhos começam a trabalhar
As folhas agitam-se e bandeiras
3 Brisa fraca 3,4 a 5,4 12 a 19
desfraldam ao vento
Poeira e pequenos papéis
Brisa
4 5,5 a 7,9 20 a 28 levantados; movem-se os galhos
moderada
das árvores
Movimentação de grandes galhos e
5 Brisa forte 8 a 10,7 29 a 38
árvores pequenas
Movem-se se os ramos das árvores;
dificuldade em manter um guarda-
6 Vento fresco 10,8 a 13,8 39 a 49
chuva-aberto; assobio em fios de
postes
Movem-se as árvores grandes;
7 Vento forte 13,9 a 17,1 50 a 61
dificuldade em andar contra o vento
Quebram-se galhos de árvores;
8 Ventania 17,2 a 20,7 62 a 74 dificuldade em andar contra o vento;
barcos permanecem nos portos
Danos em árvores e pequenas
9 Ventania forte 20,8 a 24,4 75 a 88 construções; impossível andar
contra o vento
Árvores arrancadas; danos
10 Tempestade 24,5 a 28,4 89 a 102
estruturais em construções
Tempestade Estragos generalizados em
11 28,5 a 32,6 103 a 117
violenta construções
Estragos graves e generalizados
12 Furacão > 32,7 > 118
em construções
Fonte: Pereira et al. (2011).
36 O Clima na Região do Bolsão de Mato Grosso do Sul
Análise
Conforme a Figura 13, a variabilidade entre os anos da média da uméd e
da média da umáx é pequena, sendo o valor médio de uméd de 1,2 ms-1 e o de umáx
de 6 ms-1. Conforme a escala de Beaufort constante na Tabela 6, isso quer
dizer que na média (1,2 ms-1) a região do Bolsão de Mato Grosso do Sul é
caracterizada por ventos de Grau 1 (Aragem). Porém, ocorrem ventos
máximos diariamente que atingem, em média, 6 ms-1, ou seja, ventos de
Grau 4 (Brisa moderada).
7
uméd umáx
Velocidade do vento (m s -1)
0
1972 1977 1982 1987 1992 1997 2002 2007 2012
Ano
Figura 13. Média da velocidade média do vento (uméd) e da velocidade máxima do
vento (umáx) na região do Bolsão de Mato Grosso do Sul, entre 1972 e 2013.
Embora a variabilidade anual seja pequena, a variabilidade mensal é
relativamente maior (Figura 14). Os meses de março e abril são aqueles
onde se encontram os menores valores de uméd (1 ms-1), diferentemente de
setembro, onde se observa o maior (1,6 ms-1). Comportamento similar
também ocorre com relação aos valores de umáx, ou seja, em abril é observado
o menor valor (5,1 ms-1) e em setembro o maior (7 ms-1).
O Clima na Região do Bolsão de Mato Grosso do Sul 37
7
7,0 6,8
6,7
Velocidade do vento (m s-1)
6 6,4
6,5
6,1 6,0
5 5,6 5,5 5,4
5,1 5,4
4
2 1,5 1,6 1,4 1,4
1,1 1,1 1,0 1,0 1,3 1,2
1,1 1,1
1
uméd umáx
0
Jan. Fev. Mar. Abr. Maio Jun. Jul. Ago. Set. Out. Nov. Dez.
Mês
Figura 14. Variabilidade mensal da velocidade média do vento (uméd) e da velocidade
máxima do vento (umáx) na região do Bolsão de Mato Grosso do Sul.
Analisando-se mês a mês, setembro é o único que apresenta uméd condizente
com ventos de Grau 2 (Brisa leve), enquanto todos os demais meses são
caraterizados por ventos de Grau 1 (Aragem). Por outro lado, os meses de
abril, maio e junho são os únicos onde a umáx, em média, é igual a ventos de
Grau 3 (Brisa fraca). Os demais meses são todos caracterizados por umáx de
Grau 4 (Brisa moderada).
A DPV na região é a direção L, ou seja, 31,9% dos ventos que atingem a
região vêm de L (Figura 15). As direções NE (23,3%) e SE (19,1%) também
contribuem muito. Se somadas as contribuições associadas às direções L,
NE e SE, estas respondem pela origem de 74,3% dos ventos que atingem a
região. Isso indica que os ventos que atingem a região do Bolsão de Mato
Grosso do Sul são predominantemente originários do Estado de São Paulo,
do Triângulo Mineiro e do sul de Goiás.
38 O Clima na Região do Bolsão de Mato Grosso do Sul
Anual
N 4,2
35
30
1,5 NO 25 NE 23,3
20
15
10
5
O 0 L
1,4
31,9
19,1
SO SE
3,9
C = 3,2%
11,6
S
Figura 15. Direção predominante anual dos ventos (DPV) na região do Bolsão de
Mato Grosso do Sul.
Nota: C (Calmaria) corresponde aos dias sem predominância devido à ocorrência de ventos
calmos (uméd menor ou igual a 0,5 ms-1).
Nas Figuras 16 e 17 nota-se que esta tendência anual da DPV é
relativamente constante ao longo dos meses. O mês de junho é aquele que
apresenta a maior predominância dos ventos de L (42,8%), diferentemente
de janeiro que apresenta a menor contribuição dos ventos com origem no L
(21,8%). Se analisada a contribuição dos ventos vindos de L, NE e SE juntas,
o mês de abril é aquele que apresenta maior dependência desses ventos,
pois 82,9% são advindos dessas direções. Já o mês de dezembro é o que
apresenta menor dependência (58%), porém este nível de dependência
ainda é bastante expressivo.
O Clima na Região do Bolsão de Mato Grosso do Sul 39
Janeiro Fevereiro
N 5,2 N 6,1
50 50
40 40
5,0 NO NE NO NE
2,8
30 30
21,8 20,8
20 20
10 10
O 0 L O 0 L
2,7 1,7
21,8 24,9
SO SE 18,6 21,1
SO SE
6,2 4,2
14,1 C = 4,5% 12,7 C = 5,8%
S S
Março Abril
N N
50 3,9 50 1,9
40 40
NO NE 0,7 NO NE
0,5
30 30 23,7
20,3
20 20
10 10
O 0 L O 0 L
1,4 0,5 35,5
29,6
23,3 23,7
SO SE SO SE
4,4 2,9
8,8 C = 7,9% 7,5 C = 3,6%
S S
Maio Junho
N N
50 2,3 50 3,8
40 40
NO NE 0,5 NO NE
0,0
30 22,6 30 26,7
20 20
10 10
O 0 L O 0 L
0,0 0,3 42,8
36,0
19,3 12,6
SO SE SO SE
3,7 2,3
10,7 C = 5,3% 6,4 C = 4,6%
S S
Figura 16. Variabilidade mensal da direção predominante dos ventos (DPV) na região
do Bolsão de Mato Grosso do Sul, nos meses de janeiro a junho.
Nota: C (Calmaria) corresponde aos dias sem predominância por causa da ocorrência de ventos
calmos (uméd menor ou igual a 0,5 ms-1).
40 O Clima na Região do Bolsão de Mato Grosso do Sul
Julho Agosto
N N
50 2,6 50 2,8
40 40
0,7 NO NE NO NE
31,1 0,2 29,6
30 30
20 20
10 10
O 0 L O 0 L
0,0 34,3 0,5 35,7
15,3 16,8
SO SE SO SE
3,2 3,5
11,4 C = 1,4% 10,3 C = 0,7%
S S
Setembro Outubro
N N
50 3,6 50 4,1
40 40
NO NE 0,9 NO NE
0,5
30 27,3 30 22,8
20 20
10 10
O 0 L O 0 L
0,5 35,5 3,2 29,7
16,3 21,0
SO SE SO SE
2,2 2,8
13,7 C = 0,5% 14,1 C = 1,4%
S S
Novembro Dezembro
N N
50 3,6 50 10,3
40 40
NO NE 4,7 NO NE
1,9
30 30
17,1 15,2
20 20
10 10
O 0 L O 0 L
2,4 33,3 4,0 23,3
21,4 19,6
SO SE SO SE
6,0 5,1
13,3 C = 1,0% 15,6 C = 2,3%
S S
Figura 17. Variabilidade mensal da direção predominante dos ventos (DPV) na região
do Bolsão de Mato Grosso do Sul, nos meses de julho a dezembro.
Nota: C (Calmaria) corresponde aos dias sem predominância por causa da ocorrência de ventos
calmos (uméd menor ou igual a 0,5 ms-1).
O Clima na Região do Bolsão de Mato Grosso do Sul 41
Considerações Finais
A região do Bolsão de Mato Grosso do Sul tem conseguido, nos últimos anos,
empreender esforços rumo ao caminho do desenvolvimento. No entanto, o
setor agrícola, salvo algumas exceções pontuais, ainda se apresenta com
baixo dinamismo, fato que é evidenciado pelos baixos índices de
produtividade.
A Embrapa Agropecuária Oeste entende que pode dar seu contributo para
esta região por meio do desenvolvimento de pesquisas que deem suporte
para o meio agrícola. Nesse sentido, uma das contribuições consideradas
fundamentais pela Embrapa passa pela caracterização do clima regional,
procurando evidenciar uma descrição do clima com enfoque mais holístico e
não pontual, ou seja, município por município, muito embora existam
pequenas diferenças no clima entre os municípios desta região.
Com isso, após um rigoroso trabalho de busca de séries confiáveis de dados
meteorológicos e filtragem desses dados, realizou-se esta caracterização do
clima da região. Essa caracterização foi abrangente o suficiente ao abordar
os principais elementos do clima.
De maneira geral, este estudo demonstrou que o clima na região do Bolsão é
constituído por verão com maior quantidade de radiação solar, dias mais
longos, insolação mais baixa decorrente da maior nebulosidade, maior
pluviosidade, temperatura e umidade do ar mais elevadas. Por outro lado, o
inverno é caracterizado por menor quantidade de radiação solar, dias mais
curtos, maior insolação em virtude da menor nebulosidade, menor
pluviosidade, temperatura e umidade do ar mais baixas. Os ventos na região
são mais fracos no outono e mais intensos na primavera, sendo a sua origem
bastante consistente ao longo do ano, de tal forma que 74,3% destes têm
origem à NE, L ou SE.
A Embrapa Agropecuária Oeste enfatiza que, no que tange ao padrão
climático regional, qualquer tipo de exploração agrícola pode ser praticada
na região, bastando para isso saber usar da melhor forma as características
favoráveis e superar as desfavoráveis do padrão climático da região do
Bolsão. Alguns exemplos podem ser citados: priorizar a agricultura de
sequeiro entre os meses de outubro a março; usar irrigação para permitir o
42 O Clima na Região do Bolsão de Mato Grosso do Sul
cultivo durante todo o ano; adotar plantio direto para minimizar as perdas por
evaporação de água do solo; adotar sistemas de integração lavoura,
pecuária, floresta (iLPF) para o componente florestal contribuir para melhoria
do microclima da lavoura e da pastagem; implantar quebra-ventos voltados à
NE, L e SE para minimizar as perdas por evapotranspiração; plantar espécies
ou cultivares mais tolerantes a temperaturas altas e déficit hídrico, etc.
Sendo assim, a Embrapa Agropecuária Oeste considera ter atingido seus
objetivos ao produzir um documento que espera-se que sirva de referência
para uso pelo setor produtivo agrícola da região, bem como pelas instâncias
do governo diretamente relacionadas a este setor.
Referências
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estimation. Journal of Irrigation and Drainage Engineering, New York, v. 122, n. 2,
p. 97-106, 1996.
ALLEN, R. G.; PEREIRA, L. S.; RAES, D.; SMITH, M. Crop evapotranspiration:
guidelines for computing crop water requirements. Rome: FAO, 1998. 300 p. (FAO
Irrigation and drainage paper, 56).
ALLEN, R. G.; WALTER, I. A.; ELLIOTT, R. L.; HOWELL, T. A.; ITENFISU, D.;
JENSEN, M. E.; SNYDER, R. L. (Ed.). ASCE standardized reference
evapotranspiration equation. Reston: ASCE, 2005. 216 p.
AMERICAN SOCIETY OF AGRICULTURAL ENGINEERS. Measurement and
reporting practices for automatic agricultural weather stations. St. Joseph, 2004.
21 p. (Engineering practices, 505).
MATO GROSSO DO SUL. Secretaria de Estado de Meio Ambiente, do Planejamento,
da Ciência e Tecnologia. Estudo da dimensão territorial do Estado de Mato
Grosso do Sul: regiões de planejamento. Campo Grande, MS, 2011. 90 p.
PEREIRA, A. R.; ANGELOCCI, L. R.; SENTELHAS, P. C. Meteorologia agrícola.
Piracicaba: Copiadora Luiz de Queiroz, 2011. 192 p. Apostila.
CGPE 11676