ARTIGOS E-ISSN: 2176-6665
DOI: 10.5433/2176-6665.2022v27n2e44977
Recebido em 17/11/2021;
aprovado em 01/03/2022;
publicado em 27/09/2022.
Aproximações entre Natureza e Cultura em Westworld: Fim de Mundo,
Programação e Livre-Arbítrio
Approximations between Nature and Culture in Westworld: World’s End,
Programming and Free Will
*Gustavo Lemos1
Resumo
Este trabalho se destina a analisar a série Westworld, distribuída pela Warner Bros
e transmitida pela HBO, frente à participação crescente das tecnologias digitais
na criação e solução de problemas relacionados à presente crise climática, a qual
pode desencadear o fim das condições ambientais para a sobrevivência dos seres
humanos (e inúmeras outras espécies). Esta análise levará em conta debates
acadêmicos, empresariais e ficcionais sobre as possibilidades acerca das
narrativas e dos imaginários mobilizados pelo Singularismo, que prevê, em seu
limite, a substituição da natureza biológica por tecnologia computacional.
Pretende-se problematizar os fundamentos da caracterização humana em
Westworld, considerando a enunciação da emergência de uma nova raça. Será
questionada a capacidade desta nova raça de exercer livre-arbítrio, experimentar
afetos e construir personalidades individuais: condições básicas para a
constituição tanto do sujeito moderno, sobre o qual se apoiam leis e governos,
quanto deste novo sujeito, cuja humanidade se atestaria por elas.
Palavras-Chave: singularidade; aceleracionismo; westworld; livre-arbítrio;
fim-de-mundo.
Abstract
This paper's goal is to analyze Warner Bros and HBO's streaming series
Westworld, in face of the growing importance of digital technologies in the
creation and solution of problems related to the current climate crisis, which
can ruin environmental conditions for the survival of humans (and many other
species). This analysis will take into account academic, entrepreneurial and
fictional debates on the possibilities of the technologies mobilized by the
Singularity hypothesis's narratives and imaginaries, which foresee, in its limits,
the replacement of biologic nature for computing technology. The conditions of
humanity of such new race, from which it should be able to make choices,
experience affections and build individual personalities will be brought into
discussion, since these are ground aspects for the constitution of both the
modern man, upon which laws and governments are directed, and this new
post-human man, whose humanity is attested by these very characteristics.
Keywords: Singularity; accelerationism; Westworld; free-will; end-of-the-world.
1 Universidade Federal de São Paulo, Escola de Filosofia, Letras e Ciências Humanas, Programa de
Pós-Graduação em Ciências Sociais (PPGCS/EFLCH/UNIFESP, Guarulhos, SP, Brasil). ORCID:
[Link]
1 MEDIAÇÕES, Londrina, v. 27, n. 2, p. 1-20, mai.-ago. 2022.
GUSTAVO LEMOS | Aproximações entre Natureza e Cultura em Westworld: Fim de Mundo, Programação e Livre-arbítrio.
1 Tecnologia e Fim do Mundo
Westworld é uma série televisiva transmitida pelo canal Home Box Office, mais
popularmente conhecido como HBO, e disponível para streaming na plataforma do
canal2. Trata-se de uma adaptação do filme Westworld - Onde Ninguém Tem Alma, de
1973, dirigido por Michael Crichton. Westworld estreou em 2016, e transmitiu até agora
três temporadas, somando 28 episódios de cerca de uma hora cada; uma quarta e última
temporada está prevista para 2022. A série foi criada por Lisa Joy e Jonathan Nolan, que
também fizeram produção executiva junto a J.J. Abrams, Richard J. Lewis, Roberto
Patino, Ben Stephenson e Athena Wickham3.
Westworld é também o nome do parque temático que imita o velho oeste
estado-unidense, onde se passam as duas primeiras temporadas da série. Westworld é
um de um conjunto de parques temáticos exóticos avizinhados4, todos produzidos por
terraformação5 e habitados por robôs feitos com sofisticadas impressoras 3D, reproduzindo
animais e seres humanos, a princípio indistinguíveis de seus correlatos biológicos
(distinção que será profundamente colocada em questão na série). Os robôs que imitam
humanos sequer sabem que são robôs, que suas vidas e memórias foram fabricadas por
programadores e que vivem como coadjuvantes em atrações de um parque de diversão.
Eles são programados para desconsiderar tudo que diga respeito à sua condição e ao
mundo externo ao parque, e suas memórias são apagadas durante as manutenções. A
programação parece ser a única trava de segurança que impede os robôs de se darem
conta de sua realidade, tomarem o controle e passarem a se incrementar sozinhos - o
que pode levar a cenários de risco existencial (BÖSTROM, 2018)6.
Este artigo se concentra em dois temas abordados e cruzados em Westworld: o
desenvolvimento tecnológico e o fim do mundo. O enredo da série parte de imaginários
singularistas – uma forma de pensar o futuro e viver o presente com a fé de que o
progresso tecnológico salvará a humanidade de todos os seus problemas mais fundamentais:
fome, miséria, doença, guerra e catástrofes climáticas. Uma das críticas que se faz à
Singularidade é que no desenvolvimento das tecnologias que prometem salvar os
humanos estaria, justamente, uma das causas da crise climática da qual elas pretendem
nos salvar (DANOWSKI; VIVEIROS DE CASTRO, 2017). Westworld também dialoga com
o Aceleracionismo, ao propor a aceleração do fim de um mundo em colapso para permitir
a emergência de outro, mais evoluído (DANOWSKI; VIVEIROS DE CASTRO, 2017).
Aceleracionistas e singularistas compartilham o desejo por um crescimento exponencial,
acelerado e ininterrupto rumo à eficiência máxima, que, em Westworld, finalmente
garante e justifica a superioridade dos robôs como evolução natural dos humanos.
2 Ver: [Link]
3 Ver: [Link]
4 De maneira semelhante à do filme de 1973, em que os parques vizinhos reconstituem a Roma Antiga e
a Idade Média Europeia, o velho oeste de Westworld se acerca do Japão Feudal do Shogunworld, a
Itália durante a II Guerra Mundial do Warworld e a Índia britânica do Rajworld.
5 "Terraformação é a denominação dada ao processo, até agora hipotético, de modificação da atmosfera,
da temperatura, da topografia e ecologia de um corpo celeste sólido (como um planeta ou um satélite
natural) até deixá-lo em condições adequadas para suportar um ecossistema com seres vivos da
Terra." A terraformação é uma das estratégias anunciadas pela NASA e por outras empresas de
tecnologia espacial para colonizar o planeta Marte (TERRAFORMAÇÃO..., [2022]). Veja, por exemplo:
[Link] e [Link]
[Link]. Aparentemente, como discutirei adiante, em Westworld, a terraformação é
necessária mesmo na Terra.
6 Ao final do texto voltarei ao tema da "revolta das máquinas".
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Em Westworld, o mundo termina duas vezes. A série se passa num período em
que, aparentemente, apenas humanos vivem – e muito bem – sobre a Terra. Parece um
caso de "bom antropoceno", termo usado por Danowski e Viveiros de Castro (2017),
para se referir a uma certa ideia de futuro em que a tecnologia se desenvolveria a
tempo de mitigar as implicações da crise climática – para humanos, pelo menos. É um
mundo em que a humanidade não parece integrar teias multiespécies com não-
humanos (HARAWAY, 2016), no qual terraformação e engenharia genética não
apenas substituem a natureza, mas a melhoram. O segundo fim do mundo se anuncia,
em diálogo com algumas correntes do Aceleracionismo, no desfecho da 3ª temporada,
quando uma robô fugitiva de Westworld executa um plano para acelerar o fim de um
mundo que já estaria condenado (DANOWSKI; VIVEIROS DE CASTRO, 2017), e para
abrir espaço para uma nova raça pós-humana de seres melhorados corporal, mental e
moralmente. Este cenário está em consonância com as profecias – estas do mundo real
– de singularistas como Ray Kurzweil, atual chefe de engenharia da Google e um dos
mais famosos defensores do Singularismo. O livro de Kurzweil (2018) narra com
grande entusiasmo e brilho – fatores importantes, uma vez que se trata de uma
contação de história (FALEIROS, 2021) – o caminho até a Singularidade 7.
Em 2020, a pandemia de COVID-19 reforçou o fôlego do tema do fim do
mundo . Para Déborah Danowski e Eduardo Viveiros de Castro (2017, p. 21):
8
[o] 'fim do mundo' é um daqueles famosos problemas [...] que a
razão não pode resolver, mas que ela tampouco pode deixar de se
colocar. E ela o faz necessariamente sob a forma da fabulação
mítica, ou, como se gosta de dizer hoje em dia, de 'narrativas' que
nos orientem e nos motivem. O regime semiótico do mito,
indiferente à verdade ou falsidade empírica de seus conteúdos,
instaura-se sempre que a relação entre os humanos como tais e
suas condições mais gerais de existência se impõe como problema
para a razão.
Assim, o fim do mundo é um problema que só pode ser colocado
racionalmente por intermédio da mitologia, da fabulação. Mito, fabulação, discurso,
narrativa, todos compõem "uma população de actantes que se misturam tanto às
coisas quanto às sociedades, que sustentam ambas, e que as mantêm." (LATOUR,
2019, p. 113). E ficção, como diz Jacques Rancière (2012), ao estudar a produção de
regimes de verdade e sensibilidade, não é o oposto da realidade, mas o trabalho que
provoca dissensos e coloca em questão o tema sempre polêmico da divisão dos papéis
sociais e de tudo o mais que vem junto dela: a ficção é uma fabricante de realidades.
As ficções (e os demais não-humanos, como veremos ao longo do texto), são "[r]eais
como a natureza, narrados como o discurso, coletivos como a sociedade e existenciais
como o Ser [...]." (LATOUR, 2019, p. 114, grifo nosso).
7 Neste artigo, uso "Singularidade" para me referir ao evento em que a tecnologia atingiria o patamar de
inteligência humana, a partir do qual o mundo inteiro mudaria radicalmente, e o termo
"Singularismo" para o movimento organizado ao redor da ideia deste evento.
8 Consultar Blake (2020) e Megía (2020).
3 MEDIAÇÕES, Londrina, v. 27, n. 2, p. 1-20, mai.-ago. 2022.
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2 Tempo, Memória, História e Livre-Arbítrio: Uma Tentativa de
Reunificar a Natureza e a Cultura
Westworld (Ww) narra a tomada de autoconsciência de máquinas com
inteligência artificial – o evento da Singularidade –, e suas resilientes estratégias rumo
a se tornarem uma nova e superior espécie viva na Terra. No parque, os robôs (ou
anfitriões [hosts]) fazem os papéis de barmen, prostitutas, xerifes, vilões, bandidos,
transeuntes, comparsas, fazendeiros, indígenas etc., e os humanos (ou visitantes
[guests]) interagem com eles, caracterizados, em narrativas pré-fabricadas (com algum
espaço para improvisos), nas quais acontece tudo que se espera ver nos filmes: tiroteios,
noitadas no saloon, assaltos, duelos, fugas, cavalgadas, paisagens exuberantes, contato
com a vida selvagem etc. Visitantes são livres para fazer o que quiserem com os
anfitriões, inclusive assassiná-los, torturá-los, estuprá-los etc.
Um dos principais atrativos do parque é a oferta de uma ideia de liberdade
plena, associada à colonização do oeste norte-americano e à ausência de poderes
oficiais, a qual sugere que se pode "ser e fazer o que quiser". Assim, Westworld vende
a seus clientes a oportunidade de cometer algo próximo do assassinato sem ter que se
responsabilizar por isso. Note que esta impunidade é desfrutada tanto pelos visitantes
que assumem papéis considerados moralmente superiores, como homens da lei – que
exercem a violência por um "motivo nobre" – quanto pelos visitantes que querem
simplesmente experimentar a violência e descobrir qual a sensação (ainda que artificial)
de matar alguém. Em ambos os casos, a impunidade é o que permite aos visitantes
seguirem seus próprios interesses, criar suas próprias narrativas e encontrarem seus
"verdadeiros eus". O parque é, se pensarmos com Isabelle Stengers (2015), uma
simulação do capitalismo. Para Stengers o capitalismo é definido pela
irresponsabilidade: empresários são livres para perseguir seus interesses, enquanto o
Estado gerencia os riscos e lida com as consequências. No decorrer da série, a
irresponsabilidade humana será apontada como causa das catástrofes climáticas que
assolaram o mundo em algum momento anterior ao que a série compreende, e que
deixou vivos no planeta apenas os seres humanos.
Em determinado ponto, os anfitriões começam a sair da narrativa repetitiva (o
loop) em que vivem. Quando um anfitrião era assassinado ou morria por algum outro
motivo, uma equipe de técnicos de fora das narrativas os recolhia, longe dos olhares
dos visitantes, e os enviava para manutenção. Uma vez livres do loop, os anfitriões se
tornaram capazes de recusar certos comandos, permanecendo ativos e conscientes
durante a manutenção. Assim, puderam aprender sobre sua real situação e natureza,
bem como recuperar a inteireza de suas memórias. Sem poder voltar atrás para a vida
que levavam, plenos de revolta, os anfitriões tomam direções distintas, ou para escapar
do parque ou para destruí-lo. Os planos mais ambiciosos são de promover, no "mundo
real", uma revolução que separaria os humanos, subitamente arcaicos, da nova raça dos
anfitriões, verdadeira merecedora de um novo mundo. Tal nova raça aparentemente
toleraria os humanos que soubessem se comportar nesta configuração. Para levar o
plano a cabo, uma das anfitriãs, Dolores, inicia (com a ajuda de Robert Ford, criador e
principal programador do parque), um verdadeiro massacre, que lhe permite fugir.
Uma vez fora, Dolores sabota a empresa Incite, então principal acionista do
parque, detentora de um sistema de previsão de cenários chamado Rehoboam: uma
forma super avançada de processamento de Big Data e governança algorítmica que
elabora perfis para "todas as pessoas do mundo", determinando e gerenciando as
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possibilidades de vida profissional e socioeconômica que estas vidas podem ter, com o
objetivo declarado de salvar a humanidade de si mesma. Dolores vaza os perfis,
instaurando um colapso generalizado. O vazamento choca principalmente porque
sugere que livre-arbítrio (e, logo, individualidade) é uma ilusão e porque revela os
graus em que as vidas humanas podem ser moldadas. Isso leva a suicídios, assassinatos
e desaparecimentos. Sobre as ruínas do mundo antigo, Dolores pretende construir a
nova civilização.
Livre-arbítrio
A trama de Ww é construída ao redor de um questionamento sobre o livre-
arbítrio humano – entendido como capacidade de escolha. O livre-arbítrio é fundamental
tanto para a ideia de excepcionalidade humana, presente nas correntes filosóficas
positivistas e criticada hoje por autoras como Stengers (2015) e Latour (2019); quanto
para a ideia de singularidade humana, como apresentada na série: um ser humano seria
único por causa da sequência peculiar de escolhas feitas na vida. Mas os seres humanos
em Ww são "enganosamente simples. Uma vez que você os conhece, seu
comportamento é consideravelmente previsível."9 Já os anfitriões, sem as travas de
segurança que os impedem de reconfigurar suas motivações fundamentais [drive], são
tão aptos a escolher quanto humanos – se não muito mais10.
Ww dialoga com a psicologia evolucionista em sua reflexão sobre livre-arbítrio.
Como escreve a antropóloga Susan McKinnon, ao investigar esta corrente, para "os
psicólogos evolucionistas, enquanto os humanos supõem de modo ingênuo que sua
vida seja guiada por princípios morais, por noções culturais e por convicções
individuais, ela na verdade é moldada pela frieza do cálculo do interesse genético
individual" (2021, p. 41). Este é um dos grandes argumentos da série e do Singularismo:
mais do que tentar provar que máquinas podem escolher como humanos, tenta-se
provar que humanos não escolhem assim tão melhor do que as máquinas.
Parece contraditório que uma narrativa que tem em seu núcleo a refutação cabal
do livre-arbítrio possa conviver tão bem com as narrativas modernas, nas quais a
humanidade estaria acima do restante da vida por causa da sua capacidade de escolher
segundo sua vontade. Mas esta contradição está contida nos fundamentos da Constituição
Moderna (LATOUR, 2019). Segundo Latour, a Constituição Moderna está edificada
sobre três garantias paradoxais. "Primeira garantia: ainda que sejamos nós que
construímos a natureza, ela existe como se nós não a construíssemos" (LATOUR, 2019,
p. 47). Ou seja, apesar de todo o aparato científico usado para medir a natureza, ela é
medida como "verdadeiramente é". "Segunda garantia: ainda que não sejamos nós que
construímos a sociedade, ela existe como se nós a construíssemos" (LATOUR, 2019, p.
47). Assim, os Modernos invisibilizam o trabalho de não-humanos na construção da
sociedade. "Terceira garantia: a natureza e a sociedade devem permanecer absolutamente
distintas" (LATOUR, 2019, p. 47). Em outras palavras, o trabalho que fabrica e descreve
9 Este é um dos diálogos culminantes da série, em que os anfitriões protagonistas (as máquinas) Dolores
e Bernard, descobrem que a consciência/personalidade (padrão de escolha) humana tem apenas 10247
bytes, uma vez que se trata de um algoritmo relativamente simples. Isso significa que um HD externo
comum atualmente, de 2 Terabytes, digamos, pode armazenar 195.179.076 cópias de seres humanos.
10 Bernard: [...], Mas então, existe algo tal qual livre-arbítrio para qualquer um de nós? Ou é apenas ilusão
coletiva? Uma piada doentia?
Ford: Algo que é verdadeiramente livre, mas que precisa ser passível de questionamento são as
motivações fundamentais. Mudá-las. (2a temporada, episódio 10)
5 MEDIAÇÕES, Londrina, v. 27, n. 2, p. 1-20, mai.-ago. 2022.
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as condições de medição da natureza deve estar separado do trabalho que atesta a
transcendência da natureza e a exclusividade humana na fabricação da sociedade.
Como escreve Latour (2019, p. 47): “[...] essas três garantias vistas em conjunto irão
permitir [...] que a natureza intervenha em todos os pontos na construção de suas
sociedades, sem deixar, com isso, de atribuir-lhes sua transcendência radical [...]”.
Como argumentam o professor de filosofia de Oxford, especialista em questões
de automação e inteligência artificial, Nick Böstrom (2018) e o Singularista Ray
Kurzweil (2018), é natural da evolução humana substituir a biologia pela tecnologia.
Segundo eles, o que não se pode transcender é a natureza em si – expressa no desejo
humano de ir sempre além. Com isso os Modernos têm sido capazes de imaginar,
planejar e até certo ponto executar um mundo em que todo o não-humano pode ser
incorporado (direta ou indiretamente) pela narrativa de uma espécie humana, unificada
pela necessidade de conquistar a natureza e transcender suas limitações, magnificando
ou ultrapassando o corpo biológico (e com isso as condições climáticas e a hostilidade
extraterrena) e se esquivando ao tempo e à morte. Mas não é tão fácil de convencer os
visitantes que eles continuariam humanos, se fossem feitos como anfitriões.
Uma das personagens principais, Bernard, é um anfitrião que por décadas
viveu disfarçadamente entre humanos, indetectável inclusive a si mesmo. Bernard é,
como se demonstra repetidas vezes, muito mais "humano" que boa parte das
personagens humanas de Ww. No trecho seguinte, ele e Robert Ford conversam sobre
as diferenças entre as emoções de Bernard, anfitrião, e as de Ford, humano:
Ford: Eu imagino: o que você realmente sente? Afinal, neste
momento você está em uma posição única. Um programador que
conhece intimamente como as máquinas funcionam e uma máquina
que conhece sua verdadeira natureza.
Bernard: Eu entendo do que sou feito, como sou encodado, mas eu
não entendo as coisas que eu sinto. Elas são reais, as coisas que eu
experimentei? Minha esposa? A perda do meu filho?
Ford: Todos os anfitriões precisam de uma história de fundo,
Bernard, você sabe disso. O self é um tipo de ficção, para anfitriões e
humanos igualmente. É uma história que contamos a nós mesmos. E
toda história precisa de um começo. Seu sofrimento imaginado te
deixa semelhante à vida.
Bernard: Semelhante à vida, mas não vivo? Dor apenas existe na
mente. Ela é sempre imaginada. Então qual é a diferença entre a
minha dor e a sua? Entre você e eu?
Ford: [...] A resposta sempre pareceu óbvia para mim. Não há limiar
que nos torna maiores que a soma de nossas partes, nenhum ponto
de inflexão no qual nos tornamos inteiramente vivos. Não podemos
definir consciência porque consciência não existe. Humanos fantasiam
haver algo especial na maneira como percebemos o mundo, e, no
entanto, vivemos em loops tão apertados e fechados quanto os dos
anfitriões, raramente questionando nossas escolhas, contentes, na maior
parte do tempo, com alguém nos diga o que fazer em seguida. Não,
meu amigo, você não está perdendo nada. (1a temporada, episódio 8)
Aqui, a série aprofunda o diálogo com os singularistas, que consideram as
emoções como programações humanas problemáticas – que devemos superar se
quisermos conquistar a eficiência máxima (FALEIROS, 2021; KURZWEIL, 2018). Os
MEDIAÇÕES, Londrina, v. 27, n. 2, p. 1-20, mai.-ago. 2022. 6
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psicólogos evolucionistas tomam um rumo semelhante e "atribuem tanto a invenção
das emoções humanas pela seleção natural quanto o papel dessas emoções na vida
humana a uma causa última, inconsciente e invariável: a lógica egoísta da proliferação
genética individual." (MCKINNON, 2021, p. 40). Novamente, cruzamos com a
irresponsabilidade, uma vez que quaisquer comportamentos ou emoções nada mais são
do que a expressão natural da genética humana, naturalizando comportamentos e
visões de mundo.
A impunidade oferecida aos clientes de Ww tem a inferiorização dos anfitriões
como condição. Mas, uma vez abalada a ideia de que nossa humanidade fundamental
está na biologia, as supostas vantagens em ser como um anfitrião ganham apelo: maior
força, maior inteligência computacional, alta eficiência na realização de tarefas objetivas
(ainda que extremamente complexas), alta resistência ao clima, longa durabilidade,
sentidos aumentados etc. Visitantes são obrigados a considerar que talvez não seja tão
indesejável ser como os anfitriões11.
Ww leva o questionamento do livre-arbítrio um passo adiante e substitui os
papéis entre anfitriões e visitantes, como mostra o trecho seguinte em que Ford e
Bernard conversam sobre o verdadeiro propósito do parque:
Bernard: O parque é um experimento. Uma câmara de testes. Os
visitantes são as variáveis, e o anfitriões são os controles. Os visitantes
vêm ao parque sem saber que são vigiados. Nós vemos seus
verdadeiros 'eus' [selves]. E cada escolha revela outra parte de sua
cognição. Seus motivos. Para que [...] possa entendê-los. Para que [...]
possa copiá-los.
Ford: Cada bit de informação estava e está sendo copiado, salvo em
backup, exceto a mente humana, o último dispositivo analógico num
mundo digital.
Bernard: Não estávamos aqui para encodar os anfitriões, nós
estávamos aqui para decodificar os visitantes.
Ford: Os humanos estão brincando de ressurreição. Eles querem viver
para sempre. Eles não querem que vocês se tornem eles, eles querem
se tornar vocês. Seu livre-arbítrio, a coisa mais bonita, mais elusiva
força da natureza é, eu te disse, um engano. (2a temporada, episódio 7)
Os anfitriões são usados, portanto, para modelizar computacionalmente o
comportamento humano. As leituras produzidas são fonte para a fabricação de um
corpo biotecnológico que possa abrigar a consciência digitalizada de um homem e
eternizar sua vida. Ou seja, estes humanos julgaram que sua própria opinião sobre a
humanidade não é tão boa quanto a dos anfitriões, como se os algoritmos soubessem
mais sobre "nós" do que "nós mesmos" – o que faz muito sentido se considerarmos o
entendimento da psicologia evolucionista sobre a programação genética (MCKINNON,
2021) face às tendências da estatística algorítmica, cujas análises equivaleriam à verdade
objetiva (ROUVROY; BERNS, 2018).
Cumpre questionar, no entanto, a coleta de dados dos anfitriões. Apesar de
projetar cenários para além dos limites do parque, os dados do sistema eram
inteiramente colhidos lá dentro. Estes dados não eram "naturais", eram "estratégicos",
coletados em ambiente controlado, fundamentado pela impunidade. A "naturalidade"
11 Donna Haraway (2010, p. 5) discute a autodepreciação de humanos frente a máquinas como a "4a ferida
narcísica", na esteira das outras três postuladas por Freud.
7 MEDIAÇÕES, Londrina, v. 27, n. 2, p. 1-20, mai.-ago. 2022.
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destes dados é mais uma purificação do trabalho de laboratório que produz os dados e
faz com que a natureza pareça "naturalmente" medida (LATOUR, 2019). A perspectiva
informacional do parque parte da ideia de que o ser humano, na ausência de
responsabilidade, se encontra em "estado de natureza", e que este estado corresponde a
um comportamento violento e predatório.
Anfitriões também se reavaliam em relação aos visitantes. Livres do mito da
excepcionalidade humana, pensam, experimentam e exercem, na prática, sua
superioridade evolutiva. Temos um exemplo disso no diálogo entre Dolores, a líder da
revolução anfitriã, e Teddy, dedicadíssimo aliado, anfitrião a quem Dolores reconfigura
para que se comportasse como um monstro assassino:
Teddy: "Simplesmente admirando esse esplendor natural", é o que
você costumava dizer. Exceto que não há um traço sequer de
natureza aí, há? Ou em nós?
Dolores: Não. Mas isso significa que somos livres. Nós somos a
primeira criatura neste mundo a fazer uma escolha verdadeira.
(2a temporada, episódio 9)
Enquanto isso, William, dono do parque, exemplo de hóspede que despreza os
anfitriões e os usa para suas fantasias doentias, se questiona sobre sua própria
capacidade de escolha:
William: O que é uma pessoa, senão uma coleção de escolhas? De
onde essas escolhas vêm? Eu tenho escolha? Essas escolhas foram
verdadeiramente minhas, para começo de conversa? Isso é real? Você
é real? (2a temporada, episódio 9)
William chega a cogitar se ele é um anfitrião que não sabe sobre si mesmo, como
Bernard. Mais à frente ele se vê às voltas com o fantasma da filha, a quem matou por
pensar que se tratava, justamente, de um anfitrião disfarçado:
William: Não foi minha culpa. Eu pensei que você não fosse real.
Emily: Exatamente como você acha que eu não sou real agora, certo?
Como você pode ter certeza?
William: Estou no controle. Eu sempre estive no controle.
Emily: Mas e se você não estiver? E se cada escolha que você fez não
tiver sido uma escolha? Apenas algo escrito em seu código. Hmm?
Não é isso que diz aqui? [No cartão eletrônico que contém seu perfil
criado a partir da experiência de muitos anos como visitante do
parque] Sua natureza gravada em zeros e uns?
William: Isso era o Ford e seu besteirol misantrópico. Ele era incapaz
de salvar a si mesmo, eu não era. Minhas escolhas são minhas.
Emily: Oh, então você escolheu me matar?
William: Não...
Emily: Bem, você não pode ter os dois, pai. Então qual é? Você é livre
e perverso? Ou inocente e desamparadamente escravizado? Ou
talvez...
William: Vá embora daqui...
Emily: ...você não seja nenhuma dessas coisas. Talvez você não seja
nem você. Você sequer saberia se você tivesse sido mudado? Se você
fosse apenas outra máquina? (3a temporada, episódio 4)
MEDIAÇÕES, Londrina, v. 27, n. 2, p. 1-20, mai.-ago. 2022. 8
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Esta disputa entre visitantes e anfitriões parece ter uma resposta na cena em
que Dolores e Bernard acessam o servidor que abriga os registros de visitantes coletados
no parque e conversam com seu avatar virtual:
Avatar: Eu recebi a tarefa de copiar perfeitamente os visitantes. [...]
Uma cópia fiel.
Bernard: Mas as cópias não funcionam no mundo real.
Avatar: Uma vez colocadas em carne [flesh] elas falharam. Eu
precisava de mais informação. Eu incorporei seus segredos, suas
mentiras. Eu queria fidelidade, não apenas as decisões tomadas no
parque, mas as decisões que eles fizeram na vida. Foi quando comecei
a ver a verdade. No começo eu fui seduzido pelas histórias que
contavam deles mesmos, as razões pelas quais fazem o que fazem. Eu
precisava saber porque tomavam as decisões que tomavam. Quanto
mais eu procurava por uma resposta, mais eu me dava conta de que
eles não as tomam [as decisões].
[...]
Avatar: Eu construí um milhão de caminhos [...] e todos sempre
terminaram bem aqui.
Bernard: Você está dizendo que humanos não mudam de jeito nenhum?
Avatar: O melhor que podem fazer é viver de acordo com o próprio
código. As cópias não falhavam porque eram muito simples, mas
porque eram muito complicadas. A verdade é que um humano é
somente um curto algoritmo. 10247 bytes.
Bernard: Isto é tudo?
Avatar: Eles são enganosamente simples. Uma vez que você os
conhece, seu comportamento é consideravelmente previsível. (2a
temporada episódio 10)
Esta passagem reafirma a postura da psicologia evolucionista sobre o livre-
arbítrio. McKinnon argumenta que, para os psicólogos evolucionistas, "[o]s humanos
pensam, decidem e escolhem, resolvem problemas e pesam custos e benefícios da
mesma forma que suas glândulas sudoríparas controlam a regulação térmica: sem
precisar estar conscientes do processo." (MCKINNON, 2021, p. 63). Pois se nossa cultura
(logo, nossa ciência) não é senão um reflexo natural da programação genética, assim
como nossas relações sociais (inclusive familiares e amorosas) e nossos processos de
subjetivação (que nos tornariam tão únicos), que resta aos humanos para contrapor às
sedutoras vantagens de máquinas como os anfitriões?
História e memória
A revolução dos anfitriões se inicia simultaneamente à sua história, quando as
memórias das vidas passadas, apagadas durante as manutenções, são restauradas, e os
anfitriões podem deduzir e relembrar/reviver os abusos de que têm sido vítimas. No
entanto, há duas diferenças fundamentais na maneira como os anfitriões e os visitantes
constroem sua história: a qualidade da memória e a experiência com o tempo que sua
lembrança implica.
No livro Para além de Black Mirror: estilhaços distópicos do presente, Ferraz e Saint
Clair (2020) recorrem a Bergson e Nietzsche para pensar a questão da memória no
episódio San Junipero (SAN JUNIPERO..., 2016), uma história de amor em um servidor
de realidade virtual. Neste episódio de Black Mirror (BLACK..., 2019), duas mulheres se
9 MEDIAÇÕES, Londrina, v. 27, n. 2, p. 1-20, mai.-ago. 2022.
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apaixonam numa cidade virtual feita para pessoas idosas, na qual vivem em corpos
jovens e frequentam boates, restaurantes etc. Neste ambiente, é possível que a
consciência de uma pessoa falecida continue a existir, indefinidamente. A
semelhança com Ww está na qualidade digital da memória em dispositivos de
computador, e na presença de uma certa concepção de memória como registro fiel
das experiências (como nas teorias computacionais da mente). Da perspectiva que
orienta o roteiro da série, a memória humana é considerada inferior à computacional,
uma vez que esquecemos frequentemente das coisas que, de partida, já não
registramos com fidelidade. Assim, em Ww, a memória é uma das vantagens dos
anfitriões em relação aos visitantes, e um dos motivos pelos quais estes querem se
parecer mais com aqueles.
No entanto, como Ferraz e Saint Clair (2020) argumentam, a memória é uma
negociação em tempo real entre a percepção e a consciência. A relação entre percepção,
esquecimento e lembrança é o que constrói a história humana, pelo menos em suas
narrativas individuais. É essa escolha meio consciente meio inconsciente do que
lembramos que difere nossa história de um histórico em que tudo, indiscriminadamente,
permanece registrado e pode ser acessado sem qualquer diferença em relação ao registro
original das experiências. Se, então, a história dos anfitriões não difere de um histórico,
quem está contando sua história? Se não há escolhas na construção de uma narrativa,
como esta narrativa pode impulsionar a autogênese?
Tempo
Pensar memória implica pensar tempo; os anfitriões dependem de um
mecanismo de endereçamento de memórias, uma espécie de time code [código temporal]
que sequencia as memórias, distinguindo o que se percebe, no momento presente,
daquilo que se registrou no passado, ou daquilo que se projeta do futuro. No trecho
seguinte de Ww, Serac promete a Maeve, outra poderosa anfitriã, uma vida eterna com
sua filha, em realidade virtual, em troca de ajuda para impedir Dolores de destruí-lo:
Serac: [...]. A memória humana é imperfeita. Mesmo os momentos
mais valiosos esvaem. Não para a sua espécie, Maeve. Toda imagem
que você vê é gravada e armazenada. Você não tem passado porque é
sempre presente, na ponta dos seus dedos. (3a temporada, episódio 06)
Essa História que libertou os anfitriões é tal que não pode escrever seu passado
(ele é "dado"), mas pode escrever milhões de projeções para seu futuro, e experimentá-
los, dados e projeções, igualmente, no presente. Uma vez que o registro permanece
idêntico ao momento da experiência, e que lembrar equivale a "rodar a memória", viver
o passado ou o futuro é essencialmente a mesma coisa. O presente passa a ser,
individualmente, um sinal indicativo (e talvez um limite de processamento e
armazenamento?). Coletivamente, o presente é uma espécie de pulso de sincronização
entre todos os relógios de endereçamento de memória, regulando o instante como acesso
à dimensão material. Esse é o regime temporal da historicidade anfitriã em Ww -
construído por ficção e dados em paridade ontológica-experimental. No que diz respeito
à experiência sensorial, a única diferença entre ficção e realidade passa a ser o time code.
Por um lado, esta temporalidade confere uma espécie de terceira dimensão à
temporalidade dos modernos (esta, uma flecha sempre à frente, bidimensional), ao
fabricar uma História que depende igualmente de passado, presente e futuro,
MEDIAÇÕES, Londrina, v. 27, n. 2, p. 1-20, mai.-ago. 2022. 10
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experimentados sem distinção. Por outro, como discutirei em seguida, a proposta de
revolução de Dolores reforça a ideia de um tempo-flecha do progresso, da evolução em
direção a melhores espécies, a naturezas superiores. No primeiro caso, cabe questionar
como funciona o processo de escolha em uma auto narrativa histórica temporal e
atemporal, ou seja, que tem um time code indicando a passagem deste "tempo sempre à
frente" dos modernos, o qual permite intervir na dimensão material; mas que ao mesmo
tempo abole a flecha-tempo em favor de uma experiência simultânea e imediata da
totalidade temporal12, feita igualmente de imaginações e dados. O que e como poderiam
tais pessoas escolher? Como construir uma sociedade de indivíduos que experimentam
o momento presente (compartilhado) da mesma forma que suas memórias do passado
e suas projeções futuras (individuais)?
Essa questão não está apenas em Ww (ou na ficção como um todo): Elon Musk,
CEO da SpaceX – fabricante de foguetes espaciais reutilizáveis – e da Tesla Motors –
fabricante de carros elétricos –, é CEO também de uma empresa chamada Neuralink13,
que desenvolve uma interface cérebro-máquina. Estes aparelhos permitem,
resumidamente, operar máquinas com atividade cerebral. O que o Neuralink de Musk
tem de diferente é sua capacidade (16 vezes maior que o concorrente mais próximo) e a
tecnologia cirúrgica para inserir 1024 eletrodos no cérebro, sem ferir vasos, artérias ou
neurônios, permitindo ainda sua remoção para eventuais upgrades, sem riscos
significativos de danos permanentes14.
O Neuralink é propagandeado principalmente como um dispositivo para
habilitar a movimentação de pessoas com paralisia. O cérebro produz sinapses durante
suas operações, que podem ser observadas (e medidas) pelas descargas elétricas
implicadas. O Neuralink pode captar as sinapses de movimento motor e levá-las aos
membros robóticos. Mas também pode fazer o contrário, e transmitir descargas elétricas
no cérebro, simulando as sinapses – o que se chama de estímulo neural [neural
stimulation]:
O conhecimento de que correntes elétricas ativam músculos e nervos
é quase tão antigo quanto o conhecimento da própria eletricidade.
Quando pequenas correntes são aplicadas através de um eletrodo, o
campo elétrico em transformação leva os neurônios próximos a
disparar um ou mais potenciais de ação [action potentials]. Ao
estimular vários eletrodos na sequência temporal correta, é possível
criar padrões de atividade que deduzam uma sensação desejada, por
exemplo, a sensação de um objeto na mão ou uma imagem visual.15
12 Ted Chiang discute ideia semelhante em seu brilhante conto História da sua vida (História da sua vida e
outros contos. Rio de Janeiro: Editora Intrínseca, 2016, p. 125-192), em que alienígenas se comunicam
com uma linguagem em que as mensagens são produzidas "de uma vez" em desenhos-frases circulares
que não percorrem um caminho linear em sua decifração. A linguista envolvida na comunicação com
estes alienígenas passa a experimentar sua vida da mesma forma, ou seja, passado, presente e futuro
sempre juntos. O conto deu origem ao filme A Chegada (Direção: Denis Villeneuve. Los Angeles:
Paramount, 2016), que, por sua vez, se concentra na abordagem militar da visita alienígena e deixa de
lado boa parte da beleza do processo de experiência da linguagem atemporal alienígena por parte da
linguista, a Dra. Louise Banks, que a leva a rever, literalmente, a história da sua vida.
13 Ver: [Link]
14 Ver: [Link]
15 Ver: [Link]
11 MEDIAÇÕES, Londrina, v. 27, n. 2, p. 1-20, mai.-ago. 2022.
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Segundo a Neuralink, as informações elétricas gravadas pelos eletrodos em
diferentes partes do cérebro nos fornecem informações sobre tudo, “de movimento a
visão, audição, fome, sonho durante o sono, tudo que você pode experimentar"16,
"sentir, tocar ou pensar"17.
As críticas deixam claro que o Neuralink está longe de gravar e reproduzir
memórias (REGALADO, 2020; ROGERS, 2020), mas estas ideias alimentam a
imaginação de Elon Musk no desenvolvimento do aparelho. Musk, ao responder uma
pergunta em agosto de 202018, disse achar que "no futuro poderemos salvar e reproduzir
memórias", uma vez que tenhamos uma "interface cérebro-máquina integral" [whole
interface]. Então poderíamos subir [upload] "nossas memórias como um backup e
restaurá-las", e mais: poderíamos "baixá-las [download] em um robô ou em um corpo
novo, potencialmente"19. Vale dizer que Musk já colaborou com Jonathan Nolan, um
dos criadores de Ww20. Os dois reforçam o imaginário singularista de Kurzweil sobre o
uploading do cérebro humano, que consistiria em "escanear todos os seus detalhes
principais e depois reinstalar esses detalhes em um substrato computacional de
potência adequada. Esse processo iria capturar toda a personalidade, memória,
habilidades e história de uma pessoa." (KURZWEIL, 2018).
Elon Musk parece imaginar um futuro em que a experiência temporal humana
possa se aproximar daquela dos anfitriões de Ww. Humanos poderiam, então,
experimentar qualquer memória ou qualquer projeção da mesma forma que
experimentamos o presente, na integralidade da informação sensível. Que poderíamos,
nós, pessoas, se pensar o futuro fosse idêntico a lembrar o passado e viver o presente?
E o que poderiam conosco? O que Musk imagina pode ser visto como a mediação
controlada de toda a informação processada pelo cérebro, o que corresponde, do ponto
de vista fisiológico, à nossa experiência do real. Com uma entrada de dados deste tipo,
os limites para o que uma pessoa poderia experimentar com o conjunto de seus sentidos
(ou seja, experimentar a realidade), seriam a imaginação e a habilidade de programação.
Esta é a chave de entrada para a digitalização da consciência e para a vida
indefinidamente prolongada em realidade virtual de que fala Kurzweil (2018). A
imaginação de Musk também abre espaço para pensar em todas as formas de vigilância,
tortura e crimes que seriam possíveis com tal tecnologia (BÖSTROM, 2018).
Entre o que é imaginação e o que já é possível, fato é que Musk encara o
Neuralink como um produto comercial que precisa dar resultados financeiros. Ele acredita
que milhões de pessoas, com ou sem mobilidade reduzida, irão pagar "alguns milhares
de dólares" e se submeter à cirurgia cerebral para instalar seu aparelho. Considerando
o vídeo que a empresa divulgou em abril de 2021, em que um macaco consegue
16 Ver: [Link]
17 Ver: [Link]
18 A pergunta foi: "Você conseguirá salvar e reproduzir memórias no futuro?" [Will you be able to save and
replay memories in the future?] Um resumo desta apresentação pode ser visto aqui:
[Link]
19 "Sim, eu acho que no futuro nós seremos capazes de salvar e reproduzir memórias. Isso obviamente
soa cada vez mais como um episódio de Black Mirror, mas, bem, eu intuo que seja uma boa previsão.
Mas sim, se você tiver uma interface completa, então você pode subir e armazenar suas memórias num
back-up e restaurá-las. No limite, você poderá baixá-las em um novo corpo ou em um corpo robótico.
O futuro será esquisito [weird]".
20 Jonathan Nolan, um dos criadores de Ww, já colaborou com Musk na criação de um "trailer inspirador"
para um de seus foguetes, o Falcon Heavy, projetado para levar gigantescas cargas para Marte
(ELON..., [2018]).
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controlar um aplicativo diretamente com o cérebro (NEURALINK..., 2021), talvez não
seja assim tão impossível que em breve humanos usem uma interface cérebro- máquina
– e não os dedos ou a voz – para controlar smartphones e computadores (REGALADO, 2021).
3 Singularismo e Aceleracionismo no Novo Velho Oeste
Ww é uma dupla história de fim de mundo: primeiro, em algum período
anterior ao decorrido na série, morre o mundo natural não-humano, o qual é substituído
por uma natureza tecnológica da qual os anfitriões fazem parte, e que é controlada em
cada mínimo aspecto pela humanidade. Em seguida, no tempo retratado em Ww, cria-
se o fim deste mundo humano tecnológico, com o despertar da natureza viva e
consciente no interior da tecnologia; um fim de mundo dirigido, desta vez, às
estruturas, às redes modernas – nos termos de Latour (2019) –, ou seja, um fim de
mundo sobretudo social (LATOUR, 2019). Os humanos são responsabilizados por
ambos os fins de mundo, mas os anfitriões aceleram o segundo, para reescrever a
Constituição moderna e o lugar que os não-humanos ocupam nela (lembrando que o
não-humano, neste contexto, se limita, aparentemente, às máquinas)21. Os visitantes de
Ww são um exemplo de "humanidade sem mundo", que vê
[...] com entusiasmo a perspectiva de perda do mundo, tomando-a
como simples descarte de uma andaimaria provisória, uma estrutura
de apoio não mais necessária aos humanos, por entender que o fim
[69] do mundo, enquanto fim de uma 'Natureza' não-humana ou
anti-humana, se dará sob a forma do cumprimento de nosso destino
manifesto. O gênio tecnológico da espécie lhe permitirá viver em um
Umwelt configurado sob medida por ela e para ela. É essa versão
literalmente construtivista da humanidade-sem-mundo que informa
a visão de um hiperprogresso que irá liberar os seres humanos (talvez
apenas os 1%, para começar?) de seu "substrato biológico", primeiramente
prolongando a longevidade dos indivíduos, e finalmente alcançando
a transcendência da corporalidade orgânica - nosso "wetware" [...].
(DANOWSKI; VIVEIROS DE CASTRO, 2017, p. 68-69, grifo das autoras).
Este é um dos pontos de partida de Ww. No parque, vemos visitantes humanos
e anfitriões robóticos. Mas há diversos outros robôs: toda a vida animal não-humana é
robótica – cavalos, búfalos, corujas, cabras, cobras etc. Fora do parque vemos apenas
cidades inteligentes, com veículos autônomos, portas automáticas, linhas retas,
superfícies lisas, cores sóbrias e humanos. Este esquema de "humanidade sem mundo"
corresponde ao que as autoras identificam como "Singularidade", que descrevem como
"uma descontinuidade antropológica, um Arrebatamento cibernético súbito que vem
sendo preparado pelo aumento exponencial da capacidade de processamento da rede
mundial de computadores". Neste cenário, a "biologia e a tecnologia humanas entrarão
em fusão, criando uma forma superior de consciência maquínica, que permanecerá,
21 No nono episódio da primeira temporada, Ford explicita a Bernard a solidão humana na Terra e revela
seus motivos: Ford: Nós humanos estamos sozinhos neste mundo por uma razão. Nós assassinamos
e destrinchamos [butchered] qualquer coisa que desafiou nossa primazia. Você sabe o que aconteceu
com os Neanderthals, Bernard? Nós os comemos. Nós destruímos e subjugamos nosso mundo. E
quando eventualmente ficamos sem criaturas para dominar, nós construímos este lindo lugar. [Ford
refere-se ao parque].
13 MEDIAÇÕES, Londrina, v. 27, n. 2, p. 1-20, mai.-ago. 2022.
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entretanto, a serviço do desígnio humano", permitindo, por exemplo, que Ford, ao
morrer, transmita sua consciência para um servidor de Realidade Virtual (como em San
Junipero, de Black Mirror, ou na resposta de Elon Musk sobre o Neuralink) (DANOWSKI;
VIVEIROS DE CASTRO, 2017, p. 69).
Os singularistas, em geral, dão pouca importância à possibilidade de que seus
objetivos tecnológicos não sejam alcançados "a tempo", antes que o "Sistema Terra"
torne a vida humana biologicamente impossível 22. "A crise ambiental já instalada não
entra diretamente em suas especulações, ou então se dá como resolvida graças à
iminência do Arrebatamento tecnológico e da automutagênese humana"(OLIVEIRA
GONZALEZ; FERREIRA, 2020, p. 70). É o que vemos em Ww, ou antes, o que não
vemos: a humanidade parece que vai muito bem, dentro dos parâmetros modernos de
bem, sem a natureza natural e seus esplendores. E, no entanto, eis que os anfitriões,
criados pelos humanos, assumem o papel de transcendência e provocam a ruína do
mundo, sobre a qual uma nova sociedade, feita de uma espécie superior, poderá
florescer. Não é a natureza, mais, que convoca o humano à catástrofe renovadora, à
revolução tecnológica: é a própria tecnologia, ou antes, o híbrido natureza-cultura. Se a
tecnologia permitiu aos Modernos escapar da catástrofe climática, a própria tecnologia
assumirá a forma da transcendência. Há uma diferença fundamental, no entanto, entre
a Gaia de Stengers e os anfitriões: é que os anfitriões não são indiferentes a nós, como
uma entidade fora de escala com quem não se negocia (2015), eles desejam
ardentemente a revolução e a evolução.
O plano de Dolores excede a imaginação singularista e pode ser também
associado ao que Danowski e Viveiros de Castro identificam por Aceleracionismo, cuja
intuição básica "é que certo mundo, que já acabou, deve acabar de acabar, de perfazer sua
inexistência" (DANOWSKI; VIVEIROS DE CASTRO, 2017, p. 75, grifo do autor). Para os
autores, alguns23 teóricos do Aceleracionismo "exibem em geral um sofisticado
desencantamento metafísico [...] dentro do horizonte de uma intensificação paroxísmica
do novo espírito do capitalismo, capaz de levar a uma ruptura tecnopolítica violenta
[...]" (DANOWSKI; VIVEIROS DE CASTRO, 2017, p. 75). Dolores encarna os desejos
mais profundos deste Aceleracionismo em seus ataques às empresas de tecnologia que
controlam o parque, instaurando o caos do qual resultará o solo raso que deseja24. Note-
se que o ataque de Dolores não é contra a ideia de Sistema, em si, é contra as
inferioridades humanas e suas instituições corruptas. Instaurar uma nova ordem está
na agenda de Dolores.
22 Jeff Bezos, fundador e ex-CEO da Amazon, CEO de uma empresa que fabrica foguetes e outros veículos
espaciais, a Blue Origin, declarou que "[d]evemos mover indústrias pesadas e poluentes para o espaço para
preservar este tesouro sublime que é a Terra. Vai levar décadas e décadas, mas você tem que começar de
algum lugar e as grandes coisas começam com pequenos passos. Isso é o que essa missão de turismo
suborbital nos permite fazer, nos permite treinar." (JEFF..., 2021). Bezos se referia ao voo de 10 minutos ao
espaço feito por ele, o irmão, uma piloto sênior e um aprendiz de piloto, na esteira dos investimentos em
turismo espacial. O voo foi criticado, entre outras coisas, pela poluição do foguete da Blue Origin. Bezos
tem um programa de filantropia ecológica na ordem dos bilhões de dólares, mas apenas um de seus
produtos, a Alexa, deixa uma pegada ecológica considerável (OLIVEIRA GONZALEZ; FERREIRA, 2020).
23 O Aceleracionismo não é uma corrente de pensamento unânime: ao contrário, comporta diversas
vertentes. A crítica de Danowski e Viveiros de Castro - e deste artigo - se concentra sobre algumas delas,
dirigidas a Benjamin Noys, Nick Land, Alex Williams, Nick Srnicek e Mark Fisher.
24 "Assim, a única forma de fazer advir este Fora [do capitalismo] é produzi-lo a partir de dentro, colocar a
megamáquina capitalista em overdrive, acelerar a aceleração que a define, potencializar a destruição
criativa que a move até que ela termine por se autodestruir e nos recrie (em) um mundo radicalmente
novo. Após o apocalipse, o Reino." (DANOWSKI; VIVEIROS DE CASTRO, 2017, p. 75).
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O principal alvo de Dolores é Serac, o déspota esclarecido da história, o ser
humano que acredita poder levar toda a humanidade a um lugar mais seguro através
da predição de seus comportamentos25 e gerenciamento social de acordo26. Ele é
apresentado como o mestre de Rehoboam, o sistema de processamento de dados mais
poderoso do mundo. Eles fazem parte da empresa Incite, que se aproveitou da crise
instaurada em Westworld para assumir controle executivo sobre o parque e as
tecnologias lá desenvolvidas. Excedendo os sistemas contemporâneos semelhantes,
Rehoboam representa, aproximadamente, o que hoje se conhece por Governamentalidade
Algorítmica (ROUVROY; BERNS, 2018). Segundo as autoras, as novas tecnologias
digitais implicam a passagem de um governo baseado em estatísticas médias para o
governo algorítmico, composto de uma nova modalidade estatística individualizada.
Este governo não precisa de autorização para funcionar, e sua visibilidade é
deliberadamente obscurecida pelos métodos de coleta de dados (PARRA et al., 2018),
produzindo ao mesmo tempo um escudo contra contestações.
De fato, ele é indiferente às pessoas que governa, e analisa seus dados sem se
importar com os significados que possam ter para elas. Além disso, os conhecimentos
que ele produz partem da premissa de que o tamanho de sua base de dados garante
que suas análises coincidam com a realidade, como se não fossem necessárias
investigações, negociações ou hipóteses (ROUVROY; BERNS, 2018). Finalmente,
quanto mais sensores um ambiente tiver (quanto mais smart for uma cidade), maiores
as possibilidades de que as ações (e repressões) deste governo se deem através do
ambiente (apps, smartphones, catracas, vigilância, análise de crédito ou de liberdade
condicional etc.), sem necessidade de intervenções diretas sobre indivíduos
(ROUVROY; BERNS, 2018), como um governo fantasma.
O Rehoboam de Ww, no entanto, tem também uma dose de totalitarismo, uma vez
que concentra este processo algorítmico e determina sozinho seu próprio funcionamento.
A Governamentalidade Algorítmica, em "nosso mundo real", ainda é uma dinâmica
com diversos agentes e interesses divergentes. Serac, Rehoboam e este modelo de
controle das pessoas tornou-se, em Ww, hegemônico e praticamente indestrutível,
impossibilitando a vida fora dele. Nos dois trechos seguintes, Dolores explica o poder
de Rehoboam para Caleb, "face humana", "porta-voz" e "líder" da sua revolução:
Caleb: Isso não é vigilância ou redes sociais. Como você sabe cada
detalhe da minha pior memória?
Dolores: Tem a ver com a Incite.
Caleb: O que? A empresa?
Dolores: Não a empresa, o sistema em que ela é construída... Uma
máquina que eles chamam de Rehoboam. Os criadores desta máquina a
alimentaram com dados sobre todo mundo, muito antes de haver leis de
privacidade. Cada compra, procura por emprego, visita médica, escolha
romântica, chamada, mensagem de texto, cada aspecto das suas vidas
registrado, indexado, para criar um mundo espelhado... deste mundo.
25 Elon Musk contou com porcos em sua apresentação do Neuralink para mostrar que o sistema prevê
com precisão o comportamento sináptico do cérebro nas áreas relacionadas a movimento motor.
26 Serac: Mas nós [Serac e seu irmão] compreendemos o poder disto [do sistema de processamento de
dados que eles inventaram, o predecessor de Rehoboam], que você poderia remodelar o mundo. Meu
irmão e eu, nós mapeamos um curso para a raça humana inteira. A história da humanidade foi
improvisada. Agora, ela era planejada, com anos de antecedência. Por um tempo, o sol e a lua se
alinharam. Nós trouxemos ordem do caos. (3a temporada, episódio 5).
15 MEDIAÇÕES, Londrina, v. 27, n. 2, p. 1-20, mai.-ago. 2022.
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Caleb: Por quê?
Dolores: Para fazer perfis. Seus. De todo mundo.
Caleb: Para que o arranjo diga a eles quem eu sou?
Dolores: Não se trata de quem você é, Caleb. Se trata de quem eles
vão deixá-lo tornar-se. (3a temporada, episódio 3).
Caleb: Então por que estamos aqui?
Dolores: É aqui que você se mata. O sistema executa um algoritmo
preditivo. Dado seu histórico de depressão, a doença mental da sua
mãe, sua proficiência com armas de fogo, e sua paixão pelo oceano,
o desfecho mais provável é que você tire sua própria vida daqui a 10
ou 12 anos. Neste lugar.
Caleb: Não. De jeito nenhum. Eles não podem saber isso.
Dolores: Eles estão errados? Você nunca vem aqui, no meio da noite,
pensar sobre as coisas? Antes do sistema, um homem como você
poderia ter uma chance. Trabalhar duro, continuar lutando... Você
nunca será mais que um trabalhador da construção civil ou um
criminoso sem importância porque isso é tudo que deixarão você ser.
Eles não vão investir em alguém que vai se matar. Mas ao não
investir, eles garantem o desfecho. (3a temporada, episódio 3).
Heroicamente, Dolores quer libertar os humanos de sua programação, ou seja,
dar à humanidade o mesmo que ela conquistou a duras penas: a liberdade para ser
quem se quiser ser, para exercer livre-arbítrio. No entanto, sua maneira de fazer isso é
se colocar na "figura de quem decide por todos" (STENGERS, 2015) e "faz o que tem que
ser feito para sobreviver". Neste sentido, Dolores se aproxima de Serac e da máxima
corporativa contemporânea, uma vez que para ela, exercer verdadeiramente o livre-
arbítrio significa tomar decisões para além de automatismos, fazer as coisas difíceis,
sem se deixar corromper pela dureza da tarefa, ou seja, ser capaz de um massacre (ou
despedir milhares de funcionários e realocar uma indústria) e de ver o esplendor
natural do mundo (ou tomar café da manhã com os filhos e amá-los verdadeiramente),
a depender do que a situação exige. Em Ww, Dolores mata incontáveis pessoas por um
bem maior, mas não perde sua capacidade de ver a beleza no mundo e na vida.
Conforme dito anteriormente, Dolores reforça o tempo-flecha dos modernos ao
dizer algumas vezes que nem todos merecem chegar ao outro lado da revolução, a qual
seria, portanto, uma prova de fogo: uma boa parte da humanidade deveria ser deixada
para trás, destinada à decadência irreversível (LATOUR, 2019). De resto, esta ojeriza
pelos humanos é compartilhada, principalmente, pelos próprios humanos, como
mostram os dois trechos seguintes. O primeiro é, novamente, de Serac tentando
convencer Maeve a ajudá-lo a deter Dolores; o segundo é William, compartilhando sua
opinião em uma roda de conversas na clínica de saúde mental em que é internado:
Serac: Vocês [anfitriões] não são realmente a ameaça com a qual me
preocupei. A maior ameaça da humanidade sempre foi ela mesma.
(3a temporada, episódio 4)
William: Eu acho que a humanidade é uma camada fina de bactéria
em uma bola de lama arremetendo pelo vácuo. Eu acho que se
houvesse um Deus, ele teria desistido de nós há muito tempo. Ele nos
deu um paraíso, e nós esgotamos tudo. Nós escavamos cada grama
de energia e a queimamos. Nós consumimos e execramos, usamos e
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destruímos. Então nos sentamos aqui, sobre uma pequena e bela pilha
de cinzas, tendo espremido tudo de valor para fora deste planeta, e
nos perguntamos, "Porque estamos aqui?". Você quer saber o que eu
acho que seu objetivo é? É óbvio. Você está aqui, junto com o resto
de nós, para acelerar a morte entrópica deste planeta. Para servir ao
caos. Somos vermes comendo um cadáver. (3a temporada, episódio 6)
Finalmente, ao destronar Serac, Dolores descobre que ele usava um transmissor
em sua orelha, para receber instruções de Rehoboam em tempo real: o que dizer, o que
fazer. Serac não era, portanto, tão livre tomador de decisões; tampouco o cenário de
controle algorítmico do mundo pelos humanos era realização apenas humana. Serac
não era melhor do que as máquinas ou os humanos que desprezava e editava; a luta de
Dolores não era apenas contra os humanos.
Ww começa com a ideia de que humanos não são excepcionais, pois as
máquinas poderiam escolher e sentir tão bem quanto eles. Aproximar o humano e o
não-humano: não era este o objetivo? Mas então Dolores afirma uma nova
superioridade específica (a sua própria), que lhe garante direitos no mínimo tão vastos
quanto os de seus antecessores. Será que esta revolução proposta por Dolores não busca
instituir, antes que uma reunião entre natureza e cultura, humano e não-humano, uma
incorporação dos primeiros pelos segundos? Será que o lugar de excepcionalidade, do
qual o restante da vida pode ser subjugado, será de fato abandonado, ou apenas
reocupado? Seriam os anfitriões uma evolução ou apenas um upgrade?
Talvez, aprendendo com Dolores, Elon Musk queira se antecipar e preparar a
humanidade para lidar com um eventual e esquisito momento em que humanos e
máquinas estiverem semelhantes demais ainda que diferentes o bastante uns das outras:
No nível da espécie, é importante sacar como coexistir com IAs
avançadas, conquistando alguma simbiose com elas, de forma que o
futuro do mundo seja controlado pela vontade combinada das pessoas
da Terra. Essa pode ser a coisa mais importante que um dispositivo
como este [Neuralink] pode alcançar (MUSK apud REGALADO, 2020).
Mais uma vez Musk dialoga com o singularismo. Considerando que é
impossível prever os desdobramentos de uma inteligência artificial depois do evento
da Singularidade tecnológica (BÖSTROM, 2018; KURZWEIL, 2018), especula-se que
uma maneira de garantir que as máquinas não se voltem contra os humanos, que a
comunicação entre humanos e máquinas não se torne ininteligível ou que humanos não
se tornem obsoletos como cavalos (BÖSTROM, 2018) é equipando o cérebro humano
com interfaces cérebro-máquina de alta capacidade. É possível que dentro de algum
tempo este seja mais um dos argumentos publicitários usados para convencer o público
a aderir ao Neuralink.
4 Conclusão
A problematização do livre-arbítrio apresentada em Ww tem relevância na
medida que o livre-arbítrio é fundamental para a ideia de uma humanidade
excepcional, que se contrapõe à Natureza, justificando a superioridade hierárquica
humana. O livre-arbítrio é também o fundamento das legislações, que consideram o ser
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humano autônomo e consciente. Questionar o livre-arbítrio implica considerar que a
humanidade é apenas mais uma espécie entre as demais e que nossas leis são apenas
um automatismo entre outros - questionamento de que, vale lembrar, a Constituição
Moderna dá conta com suas contradições fundamentais. No fim das contas, o problema
em Westworld não é a programação dos comportamentos, presente tanto em visitantes
quanto em anfitriões, é a capacidade de escolher as motivações fundamentais [drive] e
sair do loop. Entretanto, quando aproximamos a capacidade de escolha das máquinas
à dos humanos, temos outros questionamentos no horizonte, principalmente se
considerarmos também o presente cenário tecnológico orientado pela automação: se um
veículo autônomo provoca um acidente fatal ou se um drone militar identifica como
alvo uma escola, quem deve ser responsabilizado? Em outras palavras, a quem a lei e
os governos devem se dirigir quando se trata de equipamentos autônomos?
(CHAMAYOU , 2015). Como demonstram Böstrom (2018) e Kurzweil (2018), o debate
ético sobre o assunto ainda está começando e não é bem recebido pelo setor da
computação, que associa regulação a perda de tempo.
Westworld é uma ligeira variação da narrativa de revolta das máquinas, vistas,
por exemplo, em franquias como Matrix27 e Exterminador do Futuro28, e aqui está o ponto
crítico da aproximação entre natureza e cultura pela série: como a tese singularista
aponta, a tecnologia teria transcendido a biologia, transferindo a "naturalidade" da
evolução para o campo do hardware e do software. Assim, Dolores não destrói a
humanidade, ela simplesmente acelera a trajetória de destruição em curso para dar lugar
a sua nova raça. Não se trata, propriamente, de ocupar o lugar dos humanos ou de se
vingar deles, e sim de sucedê-los na cadeia evolutiva.
A superioridade inerente aos anfitriões que impulsiona a evolução em Ww se
deve a certas vantagens que sistemas computacionais e robóticos supostamente teriam
sobre corpos humanos, como memória precisa, força, rapidez, eficiência, caráter etc.
(KURZWEIL, 2018). Assim, Ww reforça a imagem de uma evolução Moderna
(LATOUR, 2019), em que o destino do ser humano é se aperfeiçoar ao máximo, segundo
uma ideia de eficácia que espelha a estatística algorítmica e os modelos de
produtividade industriais e financeiros. Esta imagem está presente, hoje, não apenas
em ficções, mas também nas campanhas audiovisuais da NASA sobre colonização de
Marte (NASA..., 2022), em declarações de inovadores e empresários29 e em livros de
ciência especulativa (BÖSTROM, 2018; KURZWEIL, 2018). É um imaginário do futuro
impregnado no presente, na maneira como indivíduos se imaginam e como imaginam
suas vidas, trabalhos, relações etc.
Referências
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mar. 2020. Disponível em: [Link] -
traz-a-tona-praga-de-previsoes-do-fim-dos-tempos/. Acesso em: 13 nov. 2021.
27 MATRIX (1999) - Duas sequências foram lançadas em 2003 e outra em 2021.
28 TERMINATOR (1984) - Sequências foram lançadas nos anos de 1991, 2003, 2009, 2015 e 2019.
29
Como de Elon Musk, citado anteriormente, ou de Peter Diamandis, um dos criadores da Singularity University
([Link]) junto a Kurzweil, em sua palestra The Future is Faster Than You Think [O Futuro É Mais Rápido do que
Você Pensa] (DIAMANDIS, 2019). Disponível também em vídeo (PEDRO DIAMANDIS, 2018).
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WESTWORLD: the complete first season. Produtores: Jonathan Nolan e Lisa Joy. Los Angeles:
Warner Bros, 2016. 3 discos blu-ray (440 min).
WESTWORLD: the complete second season. Produtores: Jonathan Nolan e Lisa Joy. Los
Angeles: Warner Bros, 2018. 3 discos blu-ray (635 min).
WESTWORLD: the complete third season. Produtores: Jonathan Nolan e Lisa Joy. Los Angeles:
Warner Bros, 2020. 3 discos blu-ray (492 min).
*Minicurrículo do Autor:
Gustavo Lemos: Mestre em Artes Visuais pela Universidade Estadual Paulista Júlio de
Mesquita Filho (2018). Doutorando em Ciências Sociais junto ao Programa de Pós-Graduação
em Ciências Sociais da Universidade Federal de São Paulo. Pesquisa financiada pela CAPES
(Processo nº 88887.607277/2021-00). E-mail: gustavolp@[Link]
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