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Novo Implante TRA para Luxação Patelar

O relatório discute a utilização de um novo implante, a Trochlear Ridge Arthroplasty (TRA), para substituir a tróclea femoral no tratamento da luxação patelar em cães e gatos. O estudo apresenta onze casos em que o implante foi utilizado, com resultados positivos, onde dez dos animais começaram a apoiar o membro operado em até três dias após a cirurgia. O TRA mostrou-se uma alternativa eficaz em casos de sulcos trocleares pouco profundos e erosão cartilagínea significativa.

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Novo Implante TRA para Luxação Patelar

O relatório discute a utilização de um novo implante, a Trochlear Ridge Arthroplasty (TRA), para substituir a tróclea femoral no tratamento da luxação patelar em cães e gatos. O estudo apresenta onze casos em que o implante foi utilizado, com resultados positivos, onde dez dos animais começaram a apoiar o membro operado em até três dias após a cirurgia. O TRA mostrou-se uma alternativa eficaz em casos de sulcos trocleares pouco profundos e erosão cartilagínea significativa.

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Universidade de Trás-os-Montes e Alto Douro

Novo Implante Para Substituição da Tróclea Femoral no Tratamento da Luxação


Patelar - TRA

Relatório de Estágio Final

Mestrado Integrado em Medicina

Veterinária

Diana Catarina Barbosa Pinto

Orientador: Luís Miguel Viana Maltez da Costa

Vila Real, 2022


Universidade de Trás-os-Montes e Alto Douro

Novo Implante Para Substituição da Tróclea Femoral no Tratamento da Luxação


Patelar - TRA

Relatório de Estágio Final

Mestrado Integrado em Medicina

Veterinária

Diana Catarina Barbosa Pinto

Orientador: Luís Miguel Viana Maltez da Costa

Júri científico:

Presidente: Doutora Maria João Miranda Pires

Vogais: Doutora Maria Isabel Ribeiro Dias

Dr. José André Queirós Teixeira

Vila Real, 2022


i
ii
DECLARAÇÃO

Nome: Diana Catarina Barbosa Pinto

Endereço eletrónico: diana_pinto98@[Link]

Designação do mestrado: Mestrado Integrado em Medicina Veterinária

Título do relatório de estágio: Novo Implante Para Substituição da Tróclea Femoral no


Tratamento da Luxação Patelar – TRA

Orientador: Professor Doutor Luís Miguel Viana Maltez da Costa

Ano de conclusão: 2022

Declaro que este relatório de estágio final é fruto da minha pesquisa e trabalho
pessoal, assim como, da supervisão do meu orientador. O conteúdo deste trabalho é original
e todas as fontes consultadas estão devidamente referenciadas no texto e respetivamente
apresentadas nas referências bibliográficas. Declaro, ainda, que este trabalho não foi
apresentado em nenhuma outra instituição para a obtenção de qualquer grau académico.

Vila Real, 2022

(Diana Catarina Barbosa Pinto)

iii
iv
“Por vezes sentimos que aquilo que fazemos não é senão uma gota de água no mar.
Mas o mar seria menor se lhe faltasse uma gota”
Madre Teresa de Calcutá

v
vi
AGRADECIMENTOS

Começo por agradecer à instituição Universidade de Trás-os-Montes e Alto Douro e à


cidade de Vila Real, que se tornaram a minha segunda casa e onde muito aprendi, ao longo
dos últimos 6 anos.

Um especial agradecimento ao Professor Luís Maltez, por me orientar, não só neste


trabalho, mas também ao longo deste curso, por todos os conselhos e ensinamentos
partilhados e por moldar a médica veterinária que me estou a tornar.

Agradeço à equipa do Hospital Veterinário de Trás-os-Montes, por me ter acolhido tão


bem e por ter contribuído positivamente no meu percurso académico.

Ao Doutor Jorge, à Doutora Cláudia, à Enfermeira Xana, à Enfermeira Raquel e à


Pamela, a grande equipa da BONEMATRIX, por todo o carinho, ensinamentos, paciência,
boa disposição e por toda a disponibilidade em ajudar-me neste trabalho.

Agradeço a todos os profissionais de saúde veterinária com quem tive a oportunidade


de estagiar ao longo dos anos, por me transmitirem o vosso conhecimento e experiência,
fundamentais para o meu crescimento na área.

Um agradecimento especial aos meus familiares, e em particular aos meus pais, Luísa
e Vítor por possibilitarem que este sonho se tornasse possível e por estarem presentes em
todas as fases da minha vida. A pessoa que me tornei hoje deve-se a vocês. Obrigada.

Aos meus amigos, que me acompanharam nesta jornada académica e partilharam


comigo as felicidades e angústias que este curso nos brindou. Obrigada pelos sorrisos, pelas
brincadeiras, pelas saídas, pela companhia e por todas as histórias e memórias que levo para a
vida.

Obrigada, David por me apoiares, por me ensinares a não ter medo e me inspirares a
fazer sempre melhor. Obrigada por estares sempre presente e por me acompanhares em tudo,
mas em especial nos waffles e pão com chouriço. Obrigada por seres paciente e me
compreenderes, pelas palavras amigas nos momentos de maior ansiedade e por todas as coisas
que fazes de bem.

Agradeço aos meus gatos, Faísca, Gaspar, Eevee e Íris, pela atenção, carência e
mimos, pelo entretenimento constante providenciado pelas asneiras, por se deitarem em
cima do
vii
computador enquanto o estou a usar, por roubarem comida, por destruírem as cadeiras e sofás,
por miarem a meio da noite, mas especialmente, por serem a melhor companhia que poderia
pedir.

viii
RESUMO

A luxação patelar é um problema ortopédico muito frequente em cães, especialmente


de porte pequeno. Trata-se, na maior parte dos casos, de uma patologia de desenvolvimento,
na qual há um desalinhamento do mecanismo extensor do quadricípite. Esta alteração pode
ser a causa ou a consequência das deformidades esqueléticas que se desenvolvem durante o
crescimento do animal. Em outras situações, a luxação patelar pode ter origem traumática ou
ser secundária a outras patologias, como é o caso da rutura do ligamento cruzado cranial e
fraturas do fémur e tíbia.

Estão disponíveis vários procedimentos cirúrgicos para corrigir esta patologia. Estes
consistem em técnicas de reconstrução óssea e de reconstrução dos tecidos moles. Na
primeira incluem-se as técnicas que melhoram o mecanismo extensor do quadricípite (MEQ),
de aprofundamento do sulco troclear e de pateloplastia. Adicionalmente, estão disponíveis
próteses de joelho (parcial e total).

O objetivo deste trabalho é discutir a utilização de uma nova prótese para a


substituição da tróclea femoral denominada Trochlear Ridge Arthroplasty (TRA). Este
implante pode ser usado como alternativa às trocleoplastias femorais clássicas no tratamento
da instabilidade patelar e osteoartrite femoropatelar, muitas vezes associada.

São apresentados e discutidos onze casos de luxação patelar no cão e no gato, nos
quais parte do tratamento consistiu na utilização desta prótese. Dos onze animais, dez
começaram a fazer apoio de carga no membro intervencionado nos 3 dias seguintes à cirurgia.

Apesar das complicações associadas às outras técnicas, o implante TRA demonstrou


ser uma boa opção de tratamento em animais com sulcos trocleares pouco profundos e/ou
erosão cartilagínea marcada.

Palavras-chave: Luxação patelar, prótese troclear, membro pélvico, cão, TRA,


deformidades esqueléticas.

ix
x
ABSTRACT

Patellar luxation is a very common orthopedic disorder in dogs and has a higher
prevalence in smaller breeds. It is, in most cases, a developmental pathology, in which there is
a misalignment of the quadriceps extensor mechanism. This change can be the cause or the
consequence of the skelletal deformities that develop during the animal’s growth period. In
other cases, patellar luxation may have a traumatic origin or may be secondary to other
pathologies, such as rupture of the cranial cruciate ligament and fractures of the femur and
tibia.

Several surgical procedures are available to correct this pathology. These consist of
bone and soft tissue reconstruction procedures. The first one includes techniques that improve
the quadriceps extensor mechanism, trochlear groove deepening and patelloplasty.
Additionally, stifle prostheses (partial and total) are available.

The objective of this work is to discuss the use of a new prosthesis for the replacement
of the femoral trochlea called Trochlear Ridge Arthroplasty (TRA). This implant can be used
as an alternative to the classic femoral trochleoplasty techniques in the treatment of patellar
instability and patellofemoral osteoarthritis often associated.

Eleven cases of dog’s and cat’s patellar luxation in which the treatment included the
use of this prosthesis are presented and discussed. Of these eleven animals, ten started to carry
weight on the intervened limb within the 3 days following the surgery.

Despite the complications associated with the other techniques used, the TRA implant
proved to be a good treatment option in animals with shallow or hypoplasic trochlear grooves
and/or marked cartilage erosion.

Keywords: Patellar luxation, trochlear prosthesis, hindlimb, dog, TRA.

xi
xii
INDÍCE GERAL

DECLARAÇÃO........................................................................................................................iii

AGRADECIMENTOS..............................................................................................................vii

RESUMO...................................................................................................................................ix

ABSTRACT...............................................................................................................................xi

ÍNDICE DE FIGURAS...........................................................................................................xvii

ÍNDICE DE TABELAS.........................................................................................................xviii

LISTA DE ABREVIATURAS, SIGLAS, SÍMBOLOS OU ACRÓNIMOS..........................xix

INTRODUÇÃO..........................................................................................................................1

Capítulo I: Revisão bibliográfica................................................................................................3

1. Definição de luxação patelar...............................................................................................4

2. Epidemiologia da luxação patelar medial...........................................................................4

3. Epidemiologia da luxação patelar lateral............................................................................5

4. Luxação patelar em gatos....................................................................................................5

5. Classificação........................................................................................................................6

6. Fisiopatogenia da luxação patelar.......................................................................................8

6.1. Alterações trocleares..................................................................................................10

7. Diagnóstico........................................................................................................................12

7.1. Sinais clínicos.............................................................................................................12

7.2. Exame físico...............................................................................................................13

7.3. Exame imagiológico...................................................................................................14

8. Tratamento da luxação patelar..........................................................................................17

8.1. Tratamento conservativo............................................................................................17

9.2. Tratamento cirúrgico..................................................................................................18

8.2.1. Reconstrução óssea.............................................................................................19

[Link]. Técnicas que melhoram o alinhamento do MEQ.........................................19

xiii
[Link]. Aprofundamento do sulco troclear (Trocleoplastias femorais)....................22

[Link]. Patelectomia parassagital parcial em gatos..................................................24

8.2.2. Reconstrução de tecidos moles...........................................................................24

8.2.3. Próteses trocleares...............................................................................................25

[Link]. RidgeStop™ (Orthomed).............................................................................25

[Link]. Patellar Groove Replacement (PGR) (KYON®)........................................26

[Link]. Prótese total de joelho..................................................................................28

9. Cuidados pós-cirúrgicos....................................................................................................29

10. Complicações pós-cirúrgicas...........................................................................................29

11. Prognóstico......................................................................................................................31

Capítulo II: TRA- Um novo implante para substituição troclear...............................................32

1. Fundamentos da prótese Trochlear Ridge Arthroplasty (TRA)........................................33

2. Indicação cirúrgica............................................................................................................33

3. Características técnicas da prótese TRA............................................................................34

4. Características biomecânicas da prótese TRA...................................................................37

5. Aplicação da prótese TRA.................................................................................................37

Capítulo III- Apresentação de casos clínicos............................................................................45

1. Objetivos...........................................................................................................................46

2. Material e métodos............................................................................................................46

3. População de animais........................................................................................................46

4. Planeamento cirúrgico.......................................................................................................48

5. Técnica cirúrgica...............................................................................................................50

6. Cuidados pós-operatórios..................................................................................................53

7. Acompanhamento..............................................................................................................56

8. Discussão...........................................................................................................................58

9. Limitações do trabalho......................................................................................................58

10. Conclusão........................................................................................................................59

xiv
BIBLIOGRAFIA.......................................................................................................................60

xv
xvi
ÍNDICE DE FIGURAS

Figura 1- Deformidades anatómicas associadas à luxação patelar.............................................6


Figura 2- Fotografias do joelho de cães submetidos a cirurgia para correção da luxação patelar.
..................................................................................................................................................11
Figura 3- Fotografia que demonstra a manipulação para luxar a patela. Com a perna
estendida, a patela é isolada entre o dedo polegar e indicador de uma mão enquanto a outra
mão agarra o pé.........................................................................................................................14
Figura 4- Imagens radiográficas de um cão com luxação patelar.............................................16
Figura 5- Imagens radiográficas do fémur esquerdo um cão com varus femoral no qual foi
usada uma técnica de DFO para a sua correção........................................................................20
Figura 6- Imagens radiográficas da tíbia direita de um cão com valgus tibial no qual foi usada
uma técnica de PTO para a sua correção..................................................................................21
Figura 7- Imagens radiográficas de um cão com valgus tibial no qual foi usada a técnica de
hemiepifisiodese para correção da deformidade angular..........................................................22
Figura 8- Técnicas de trocleoplastia..........................................................................................23
Figura 9- Suturas antirrotacionais.............................................................................................25
Figura 10- Implante Ridgestop™ num modelo anatómico de fémur de cão............................26
Figura 11- Patellar Groove Replacement (PGR) com os seus componentes troclear e placa de
base (PB) em separado e montados...........................................................................................27
Figura 12- PGR em modelo anatómico de fémur.....................................................................28
Figura 13- Imagens radiográficas dos joelhos de dois cães submetidos a prótese total de joelho.
..................................................................................................................................................29
Figura 14- Trochlear Ridge Arthroplasty (TRA).......................................................................34
Figura 15- Tamanhos disponíveis do implante TRA.................................................................35
Figura 16- Fotografia do tabuleiro de instrumentos do TRA. No tabuleiro apresentado estão
em falta um implante de teste número 10 e duas guias de perfuração números 1 e 10............35
Figura 17- Representação esquemática do tabuleiro de instrumentos do TRA, cuja legenda se
encontra na Tabela 5.................................................................................................................36
Figura 18- Ostectomia da tróclea femoral para colocação do [Link]! Bookmark not
defined.
Figura 19- Posicionamento do implante de teste e as respetivas direções nas quais este pode
ser movimentado para ajustar o seu alinhamento......................................................................38
Figura 20- Realização dos orifícios piloto................................................................................39

xvii
Figura 21- Posicionamento da guia de perfuração....................................................................40
Figura 22- Método para remover facilmente a guia de perfuração, do tabuleiro de instrumentos.
..................................................................................................................................................40
Figura 23- Realização do orifício para o plug...........................................................................41
Figura 24- Colocação do implante TRA....................................................................................42
Figura 25- Fixação do implante TRA........................................................................................43
Figura 26- Fotografias intracirúrgicas do processo de colocação do TRA no joelho esquerdo de
um cão.......................................................................................................................................44
Figura 27- Exame radiográfico pré-cirúrgico do membro pélvico esquerdo do caso 1............48
Figura 28- Projeção radiográfica ML do joelho direito do caso 5 no programa vPOP............49
Figura 29- Casos com indicação cirúrgica para colocação de prótese troclear.........................52
Figura 30- Joelho direito de cão onde foi feita a colocação de um TRA (imagem obtida
previamente à colocação dos parafusos para fixação da prótese).............................................53
Figura 31- Exame radiográfico pós-cirúrgico do joelho esquerdo do caso 1...........................54
Figura 32- Exames radiográficos de controlo do membro pélvico esquerdo do caso 1...........55
Figura 33- Imagens radiográficas do joelho esquerdo do caso 6..............................................57

ÍNDICE DE TABELAS

Tabela 1- Classificação dos graus de luxação patelar.................................................................7


Tabela 2- Classificação dos graus de luxação patelar em gatos.................................................8
Tabela 3- Sistema de classificação da claudicação...................................................................13
Tabela 4- Técnicas cirúrgicas disponíveis para correção da luxação patelar............................19
Tabela 5- Kit de instrumentos do TRA: Legenda dos números assinalados na Figura 13........36
Tabela 6- Associação o diâmetro das brocas e tamanho dos parafusos com o tamanho do
implante.....................................................................................................................................39
Tabela 7- Dados relativos aos animais......................................................................................47
Tabela 8- Dados relativos às luxações de patela.......................................................................47

xviii
LISTA DE ABREVIATURAS, SIGLAS, SÍMBOLOS OU ACRÓNIMOS

CAMV- Centro de Atendimento Médico-Veterinário

CC- Condição Corporal

CdCr-

Caudocranial

CrCd- Craniocaudal

DAD- Doença Articular Degenerativa

DFO- Osteotomia Femoral Distal (Distal Femur Osteotomy)

DLC- Carbono Diamond-Like (Diamond-Like Carbon)

IM- Intramuscular

IV- Endovenosa

Kg- Quilograma

LP- Luxação Patelar

LPL- Luxação Patelar Lateral

LPM- Luxação Patelar Medial

MEQ- Mecanismo Extensor do

Quadricípite ML- Mediolateral

OA- Osteoartrite

PB- Placa de

Base

PGR- Patellar Groove Replacement

PPP- Patelectomia Parassagital

Parcial PO- Via Oral (Per os)

PTO- Osteotomia Tibial Proximal (Proximal Tibial Osteotomy)

xix
RCCF- Resseção da Cabeça e Colo Femoral

RLCCr- Rutura de Ligamento Cruzado Cranial

xx
ROM- Amplitude do movimento (Range Of Motion)

SC- Subcutânea

SID- Uma vez por dia (Semel In Die)

SRD- Sem Raça Definida

TC- Tomografia Computorizada

TID- Três vezes por dia (Ter In Die)

TPLO- Osteotomia Niveladora do Plateau Tibial (Tibial Plateau Leveling Osteotomy)

TRA- Trochlear Ridge Arthroplasty

TT- Tuberosidade Tibial

TTA- Avanço da Tuberosidade Tibial (Tibial Tuberosity Advancement)

TTT- Transposição da Tuberosidade Tibial (Tibial Tuberosity Transposition)

vPOP- Veterinary Preoperative Orthopaedic Planning

xxi
INTRODUÇÃO

O estilo de vida dos animais de companhia mudou para uma vida dentro de casa, o que
permite aos mesmos saltar para os móveis e para o chão escorregadio de madeira ou azulejo.
Consequentemente, há um aumento da prevalência da rutura de ligamentos cruzados e das
alterações da articulação femoropatelar. Adicionalmente, as práticas de reprodução favorecem
o aumento das predisposições genéticas para o desenvolvimento de luxação patelar,
nomeadamente o sulco troclear pouco profundo e/ou reduzido tamanho patelar (Davis et al.,
2021).

A luxação patelar (LP) é um dos problemas ortopédicos mais frequentes em cães. É


maioritariamente uma patologia de desenvolvimento, todavia, em alguns casos, pode ter uma
origem traumática ou ser secundária a outros problemas que afetem o membro pélvico e, em
particular, o joelho. A LP deve-se ao desalinhamento do mecanismo extensor do quadricípite
(MEQ), que pode ser a causa ou a consequência das deformidades anatómicas presentes na
maioria dos casos (Di Dona et al., 2018; Engdahl, 2021; Johnston e Tobias, 2018; Lara et al.,
2018).

Apesar desta patologia ter pouca expressão em gatos, quando esta surge, é necessário
ter em conta as diferenças na sua fisiopatogenia em comparação com os cães (Rutherford et
al., 2015). Para cada animal, deve ser investigada a causa da luxação, com o intuito de decidir
o tratamento mais adequado a implementar, de modo a reduzir a probabilidade de recidiva da
luxação patelar, que é uma das complicações mais frequentes destas cirurgias. Existem várias
técnicas cirúrgicas para corrigir a luxação patelar. Estas podem ser agrupadas em 2 grupos,
nomeadamente técnicas de reconstrução óssea e de reconstrução dos tecidos moles
parapatelares. No primeiro grupo incluem-se as técnicas que corrigem o alinhamento do
MEQ, de aprofundamento do sulco troclear e de alteração do formato da patela.
Adicionalmente estão disponíveis próteses de joelho (parciais e totais). O prognóstico para a
recuperação da função após a correção cirúrgica é favorável, a não ser que existam alterações
degenerativas marcadas ou outras patologias concomitantes (Di Dona et al., 2018; Perry e
Déjardin, 2021).

No primeiro capítulo deste trabalho, é feita uma revisão da literatura relativa à luxação
patelar, abordando a epidemiologia, a fisiopatogenia, o diagnóstico, os tratamentos
disponíveis para a sua resolução, com foco nas próteses trocleares, e o prognóstico. Os
implantes trocleares podem ser usados como alternativa às sulcoplastias convencionais, ou
1
em casos nos quais as

2
trocleoplastias osteocondrais não são exequíveis ou adequadas. Estes implantes são utilizados
isoladamente ou em conjunto com outras técnicas, para corrigir o alinhamento do MEQ e
estabilizar a patela na tróclea (Perry e Déjardin, 2021; Orthomed, 2017; Hnízdo et al., 2021;
KYON®, 2015). As próteses descritas são RidgeStop e Patellar Groove Replacement (PGR).

No segundo capítulo é feita uma descrição detalhada do novo implante para


substituição da tróclea femoral denominado Trochlear Ridge Arthroplasty (TRA). Esta prótese
foi desenvolvida com o intuito de melhorar a estabilidade patelar, corrigir o alinhamento do
mecanismo extensor do músculo quadricípite femoral e diminuir a dor e claudicação
associadas à osteoartrite femoropatelar. Os fundamentos da sua criação baseiam-se na
crescente necessidade de implantes de tamanhos intermédios para abranger animais com
patelas mais largas relativamente à tróclea femoral e na dificuldade de adaptação à prótese
PGR por parte de alguns animais, em particular os cães de raças toy e os gatos.
No terceiro capítulo estão descritos onze casos clínicos, nos quais foram utilizadas
próteses TRA. É feita uma apresentação da população de animais, da técnica cirúrgica e dos
cuidados pós-operatórios. É também feito o acompanhamento dos casos, onde são
apresentadas as complicações trans e pós-cirúrgicas, assim como a resolução das mesmas e os
controlos radiográficos.

3
Capítulo I: Revisão bibliográfica

4
1. Definição de luxação patelar

Vários diagnósticos compõem a patologia articular do joelho, entre eles a rutura do


ligamento cruzado cranial (RLCCr), a luxação patelar (LP), a osteocondrose e a osteoartrite
(OA), que são os mais frequentemente reportados (Engdahl, 2021).

A LP consiste no desvio da patela em relação ao sulco troclear (Schulz et al., 2019).


Esta patologia está, na maior parte das vezes, associada a deformidades esqueléticas que estão
presentes à nascença. Contudo, a LP não se trata de um problema congénito, uma vez que esta
não está presente no momento do nascimento. Trata-se, na realidade, de uma patologia de
desenvolvimento (Johnston e Tobias, 2018; Perry e Déjardin, 2021; Rossanese et al., 2019).
Este problema pode, também, surgir secundariamente a traumatismos que causem rutura ou
laxidão da cápsula articular e fáscia, criando instabilidade femoropatelar. Por vezes, esta
patologia pode surgir associada a complicações secundárias ao tratamento de RLCCr ou a
fraturas que envolvam o fémur ou a tíbia. A LP pode ter apresentação medial, lateral ou
bidirecional e pode surgir uni ou bilateralmente (Di Dona et al., 2018).

2. Epidemiologia da luxação patelar medial

A apresentação mais observada é a luxação patelar medial (LPM). Apesar de poder ser
diagnosticada em cães de qualquer porte, a LPM é mais frequente em animais de raças
pequenas, verificando-se uma incidência 12 vezes superior em comparação com outras raças.
Estudos revelam a existência de uma predisposição para o desenvolvimento desta doença nas
fêmeas. Referem ainda que animais castrados apresentam uma probabilidade de
desenvolvimento desta patologia 3 vezes superior aos inteiros (Di Dona et al., 2018). A
maioria dos animais exibe uma luxação bilateral, com uma incidência de 52 a 65%
(Rossanese et al., 2019). A LP é uma patologia típica de cães jovens, mas os sinais clínicos
muitas vezes tornam- se evidentes à medida que o animal cresce. Assim, a maioria das
luxações é diagnosticada em animais de 3 anos (Di Dona et al., 2018).

As raças predispostas para LPM incluem: Spitz-alemão anão, Caniche, Yorkshire


Terrier, Silky Terrier, Chihuahua, Bull Terrier, Maltês, Spaniel Anão Continental, Boiadeiro
Australiano, Staffordshire Bull Terrier, Labrador, Boston Terrier, Buldogue Francês, Lhasa
Apso, Cavalier King Charles Spaniel, Pug, West Highland White Terrier, Jack Russell Terrier
e Shit-tzu. A raça Spitz-alemão anão foi classificada como a que apresenta maior incidência de

5
LP, com 41,2% dos cães afetados por esta patologia (Di Dona et al., 2018; Perry e Déjardin,
2021).

3. Epidemiologia da luxação patelar lateral

A luxação patelar lateral (LPL) ocorre com menos frequência do que a LPM,
observando-se uma incidência entre 5-13% de todas as LP (Di Dona et al., 2018; Kalff et al.,
2014). A LPM é muitas vezes descrita como sendo mais comum em raças de porte grande e
gigante, mas um estudo retrospetivo realizado por Kalff et al., 2014 demonstrou uma
predominância desta patologia em raças de porte médio e grande, principalmente Cocker
Spaniel, Retriever de pelo liso, Basset Hound, Terra-Nova, Springer Spaniel, entre outros. A
apresentação unilateral foi observada em 54% dos animais. Neste estudo verificou-se que
60% dos casos eram cães machos e 40% fêmeas e que a idade média de apresentação em
consulta foi de 10 meses. Neste estudo concluiu-se, então, que há várias características em
comum entre a LPL e a LPM, nomeadamente a idade média de apresentação, a razão entre
bilateral e unilateral e a distribuição dos graus. A razão entre machos e fêmeas é de 1,5:1, o
que é semelhante à LPM em alguns estudos, mas diferente noutros. Estas semelhanças podem
refletir uma etiopatogenia comum. Cães com graus de LP superiores apresentam-se mais cedo
em consulta e a cirurgia é mais facilmente aceite pelo tutor, uma vez que os sinais clínicos são
mais exuberantes (Kalff et al., 2014).

4. Luxação patelar em gatos

A LP é uma causa pouco comum de claudicação dos membros pélvicos em gatos e


está pouco reportada na literatura, em comparação com o que acontece com os cães. Muitos
gatos clinicamente normais, apresentam uma lassitude femoropatelar ligeira e, durante o
exame ortopédico, é possível induzir a subluxação ou até uma luxação patelar de baixo grau
em 94% destes animais. É fundamental ter em conta algumas características anatómicas para
evitar um mau diagnóstico. A patela dos gatos é relativamente larga e achatada, sendo que a
sua largura é 1 milímetro superior à da tróclea. O sulco troclear normal tem 1 milímetro de
profundidade e no seu interior encontra-se apenas 10-20% da altura da patela. A patela
apresenta maior lassitude fisiológica em comparação com a dos cães. Pode ser movida
manualmente para os lábios trocleares em muitos gatos normais. É importante

6
diferenciar casos de lassitude

7
femoropatelar sem relevância clínica dos casos de LP que são causa de claudicação. A LP
com direção medial é a mais comum, com uma prevalência de 94% e a apresentação bilateral
está presente em aproximadamente 80% dos casos. No entanto, no caso da LPL, verifica-se
maioritariamente uma apresentação unilateral. Não está descrita uma predisposição sexual. A
idade média de diagnóstico é de 3 anos. Está reportada uma predisposição para a LPM em
Devon Rex, Abissínios e EC (Brioschi et al., 2020; Bula e Perry, 2021; Ferguson, 1997;
Hudson, 2014; Kaoud, 2016; Rutherford et al., 2015; Scott e McLaughlin, 2007). No estudo
realizado por Rutherford et al. (2015), para além destas raças, estavam também envolvidas:
Bengal, Maine Coon, British Shorthair, British Blue, Birmanês, Exotic Shorthair, Persa, Rex e
Siamês.

5. Classificação

A associação das deformidades anatómicas (Fig. 1) e a classificação dos graus de LP,


como descrito na tabela 1, é uma ferramenta útil para o diagnóstico e escolha do
procedimento cirúrgico a implementar para a sua correção.

A B C D E

F G H I J
Figura 1- Deformidades anatómicas associadas à luxação patelar. A- Vista cranial normal do
membro pélvico esquerdo na qual se observa o mecanismo extensor do quadricípite centrado
com o fémur, assim como a patela sobre o sulco troclear. B, C, D, E- Vista cranial anormal do
membro pélvico esquerdo com os graus I a IV de luxação patelar, respetivamente. Observa-se
uma relação anormal entre o fémur distal e a tíbia proximal, o que afeta o posicionamento da
patela. F, G, H, I, J- Vistas transversas dos respetivos graus de luxação, nas quais se observa a
rotação interna da tíbia em relação ao fémur e a subsequente luxação da patela. Nos graus III e
IV verifica-se que a patela se encontra completamente fora do sulco troclear, que se caracteriza
8
por ser pouco profundo (Di Dona et al., 2018).

9
Tabela 1- Classificação dos graus de luxação patelar de Putnam (1968) citada e adaptada por DeCamp et al.
(2016) e Di Dona et al. (2018).

Graus Descrição do grau


Grau I  Luxação patelar intermitente;
 Animais normalmente assintomáticos, mas podem ocasionalmente manter o membro em flexão
durante 1 ou 2 passadas;
 A patela pode ser luxada manualmente com o membro em extensão, mas retorna à posição
normal quando libertada;
 O desvio da tuberosidade tibial da linha média é mínimo, a extensão e flexão do joelho dão-se
em linha reta sem abdução aparente do tarso.

Grau II  A claudicação é intermitente e ligeira;


 A luxação ocorre com mais frequência que no grau I;
 A patela luxa manualmente com facilidade e através da flexão da articulação, especialmente
quando é feita rotação do pé (interna na LPM e externa na LPL). Permanece luxada até haver
extensão da articulação e rotação do pé no sentido oposto, ou reposicionamento manual;
 Desvio medial de até 30º da tuberosidade tibial na LPM. Há uma ligeira abdução do tarso e o
animal fica com os dedos dirigidos medialmente. Na LPL dá-se o oposto, mas de forma mais
ligeira;
 Pode evoluir para grau III devido à erosão progressiva do lábio troclear e da superfície articular
da patela e levar a sinais clínicos mais graves como resultado das alterações articulares
degenerativas crónicas. Pode ser detetada uma crepitação aquando da luxação manual da patela;
 O animal pode desviar o seu peso para os membros anteriores durante a ambulação.
Grau III  Claudicação persistente e postura anormal. Na LP unilateral pode arrastar o membro ou usá-lo
numa posição semifletida. Na LP bilateral pode apresentar um andamento “agachado” ao invés de
uma claudicação propriamente dita;
 A patela está luxada de forma contínua (ectópica) e pode ser reposicionada manualmente, mas
volta a luxar espontaneamente quando a pressão manual é removida;
 A torção da tíbia e o desvio da tuberosidade tibial podem ser de 30-60º. Pode observar-se varus
ou valgus do joelho no caso da LPM ou LPL, respetivamente, uma ligeira flexão constante da
perna e rotação interna da mesma;
 Sulco troclear pouco profundo ou mesmo aplanado.

Grau IV  Apresentação clínica semelhante ao grau III;


 A patela está luxada de forma contínua e não é possível reposicionar manualmente;
 A patela encontra-se sob o côndilo femoral medial/lateral na LPM/LPL, respetivamente, sendo
possível palpar um “espaço” entre o ligamento patelar e o fim do fémur distal;
 A tíbia apresenta uma torção mais marcada e a tuberosidade tibial pode ter um desvio de 60-90º;
 Tróclea pouco profunda, plana ou mesmo convexa. Pode encontrar-se torcida, requerendo um
reposicionamento num ângulo diferente do original, para ficar alinhada com o plano craniocaudal.

10
Tendo em consideração as singularidades anatómicas do gato, em particular a lassitude
fisiológica, o sistema de classificação desenvolvido para os cães deve ser usado com
precaução (Bula e Perry, 2021; Kaoud, 2016). Por este motivo, foi sugerido por Voss et al.
(2009), um sistema de classificação para a LP desta espécie (Tabela 3).

Tabela 2- Classificação dos graus de luxação patelar em gatos de Voss et al. (2009).

Grau Descrição do grau


A patela pode ser completamente luxada com pressão digital, mas retorna imediatamente ao sulco
Grau A
quando libertada.
A patela pode ser completamente luxada com pressão digital e permanece assim temporariamente
Grau B
depois da pressão ser libertada.
Grau C A patela luxa quando a tíbia é rodada internamente, sem exercer pressão digital direta.
Grau D A patela está temporariamente ou permanentemente luxada sem qualquer manipulação.

6. Fisiopatogenia da luxação patelar

A LP pode ser uma patologia de desenvolvimento ou adquirida (origem traumática ou


iatrogénica, secundária a intervenções no joelho). A LP não tem uma causa subjacente
completamente conhecida, mas o desalinhamento do MEQ parece ter um papel fundamental
no desenvolvimento desta patologia. O MEQ é responsável pela extensão do membro e, para
a implementação da sua finalidade, é necessária uma articulação femoropatelar saudável, uma
vez que esta articulação tem a função de facilitar e aumentar significativamente a eficácia
deste mecanismo. Deste mecanismo fazem parte todas as porções do músculo quadricípite, a
patela, a tróclea, o ligamento patelar e a tuberosidade tibial (TT) e devem estar todos
alinhados com o plano frontal do membro. Um alinhamento anormal do MEQ reduz a
capacidade de extensão do joelho. Uma alteração do MEQ, durante o período de crescimento,
pode levar ao desenvolvimento de alterações anatómicas do fémur distal e tíbia proximal e,
consequentemente, conduzir à instabilidade patelar. Contudo, uma luxação patelar pré-
existente pode afetar o normal MEQ, sendo então a causa das alterações ósseas secundárias
(Di Dona et al., 2018; Lara et al., 2018).

A LP está, muitas vezes, associada a deformidades anatómicas que podem incluir uma
conformação coxofemoral anormal, displasia dos côndilos femorais, sulco troclear pouco
profundo, deformidades angulares (varus e valgus, isto é, angulação medial e lateral da

11
extremidade de um osso, respetivamente) e deformidades torsionais (rotação do osso em
relação ao seu eixo longitudinal) no fémur e tíbia (Aghapour et al., 2021; Kalff et al., 2014).

Vários fatores podem levar à lassitude do MEQ e consequente instabilidade patelar,


nomeadamente um ângulo de inclinação do colo femoral diminuído, uma luxação
coxofemoral ou uma excisão da cabeça e colo femoral. Adicionalmente, foi proposto que um
ângulo de anteversão alterado pode conduzir a alterações do joelho (Lara et al., 2018).

Em animais com LPM, as deformidades anatómicas que envolvem o joelho podem


incluir varus femoral distal, torsão externa do fémur distal, valgus da tíbia proximal, torsão
interna da tíbia proximal e sulco troclear pouco profundo (Di Dona et al., 2018). Estas
alterações levam a uma forma “em arco” (bowlegged) dos membros pélvicos, na qual a
contração do músculo quadricípite não coincide com o eixo da tróclea femoral e há uma
tendência para a luxação medial da patela (Singh, 2018).

Em animais com LPL, as deformidades anatómicas que envolvem o joelho podem


incluir valgus femoral distal, rotação externa da porção distal do membro (cow hocked) e
hipoflexão tarsos. Graus de LP superiores estão associados a deformidades conformacionais
maiores e visíveis a olho nu, especialmente associadas ao valgus (Kalff et al., 2014).

Nos gatos, a LP pode ser de desenvolvimento ou ter origem traumática, sendo que esta
última é menos frequente e o acidente é poucas vezes observado. Adicionalmente, um
traumatismo pode induzir o aparecimento de sinais clínicos em gatos que antes tinham
lassitude patelar subclínica (Ferguson, 1997; Hudson, 2014; Loughin et al., 2006; Scott e
McLaughlin, 2007). Esta patologia pode, ainda, surgir secundária à correção de fraturas
femorais ou ao tratamento de outras lesões do joelho. Nesta espécie, a LP pode estar associada
a um sulco troclear pouco profundo, a um ligeiro desvio da TT e a um côndilo femoral pouco
desenvolvido. Ao contrário do que acontece nos cães, as deformidades como varus femoral e
torção tibial não são observações frequentes em gatos (Ferguson, 1997; Kaoud, 2016;
Rutherford et al., 2015; Scott e McLaughlin, 2007). Está descrita, num estudo citado por Scott
e McLaughlin (2007), uma fraca associação (58%) entre a LP e a displasia da anca. Dos gatos
que apresentavam ambas as patologias, 78% tinha LP de grau I e apenas 14% claudicavam
pela LP (Scott e McLaughlin, 2007).

12
6.1. Alterações trocleares

O desenvolvimento de um sulco troclear de profundidade e largura desadequadas para


suportar a patela (hipoplasia troclear) deve-se à ausência da pressão fisiológica que este osso
sesamoide exerce sobre a cartilagem articular do sulco troclear durante o crescimento (Di
Dona et al., 2018). Assim, os sulcos trocleares pouco profundos são mais encontrados em
animais com LP de grau II e III e as trócleas hipoplásicas, nas quais não há um sulco, são
mais frequentes em animais com LP de grau IV (Hnízdo et al., 2021; Lara et al., 2018).

As alterações degenerativas no compartimento femoropatelar do joelho são um achado


frequente durante a cirurgia ortopédica e algumas passam despercebidas no exame
radiográfico. As alterações clinicamente relevantes surgem como resultado de vários
mecanismos patológicos, muitas vezes em animais com síndrome de desalinhamento patelar
crónico, animais com RLCCr crónica, como resultado de fraturas intra-articulares,
deformidades angulares ou LP. No caso da LP, estas alterações estão associadas à idade do
animal, peso corporal e grau de luxação. Elas são irreversíveis e podem ser tão graves que a
única opção de tratamento é a colocação um implante para substituição troclear ou uma
prótese total de joelho (Hnízdo et al., 2021; Lara et al., 2018).

As lesões podem ser divididas em patelares e extrapatelares. As lesões patelares


podem incluir erosão da cartilagem articular, exposição e eburnação do osso subcondral,
superfície articular patelar aplanada ou côncava (Fig. 2) e entesófitos. As lesões extrapatelares
podem incluir sinovite, osteófitos, sulco troclear pouco profundo ou ausente, erosão dos lábios
trocleares (Fig. 2), espessamento da cápsula articular, lesão no tendão de origem do músculo
extensor digital longo pelo deslocamento da patela em animais com LPL, RLCCr e lesão
meniscal. Dada a anatomia e a biomecânica da articulação, quando há um desalinhamento do
MEQ, a pressão deste mecanismo é feita numa estrutura imprópria para a receção destas
cargas. Assim, há uma fricção errónea entre as superfícies articulares, o que leva ao
aparecimento de lesões articulares degenerativas assimétricas, nomeadamente erosões no
lábio troclear medial e no lado lateral da face articular da patela em animais com LPM. Em
animais com LPL as erosões surgem no lábio troclear lateral e no lado medial da face articular
da patela. Apesar de se poderem observar erosões da cartilagem articular em todos os graus de
LP, estas lesões são mais frequentemente encontradas em animais com LP de grau II ou III,
porque apesar de apresentarem claudicação intermitente e persistente, respetivamente, eles
continuam a fazer apoio de carga no membro afetado para caminhar, o que leva ao desgaste

13
articular. Nos animais

14
com LP de graus I e IV, estas alterações são menos frequentes, uma vez que a patela se move
menos vezes sobre os lábios trocleares. Adicionalmente, nos cães com LP de grau IV, não há
apoio de carga com o membro afetado (Hnízdo et al., 2021; Lara et al., 2018; Perry e
Déjardin, 2021).

As lesões articulares, aparecem com maior frequência em animais com idade superior
ou igual a 24 meses, devido à duração da patologia, e a sua gravidade é maior em cães com
mais de 15 quilogramas (kg), pois nestes animais a carga a que o joelho é sujeito é maior, e
consequentemente a instabilidade biomecânica também. A presença das erosões na cartilagem
articular é uma das razões pela qual alguns dos animais submetidos a cirurgias tecnicamente
bem sucedidas não recuperam tão bem clinicamente (Lara et al., 2018; Perry e Déjardin,
2021).

Nos gatos, a OA secundária à LP é, normalmente, ligeira ou não está presente. A OA


pode ser observada mais frequentemente em casos graves ou crónicos. Pode estar associada à
idade em que é feito o diagnóstico da LP, uma vez que os gatos mais velhos podem apresentar
alterações articulares degenerativas graves nos seus joelhos. Assim como nos cães, é possível
observar erosões na patela e nos lábios trocleares (Bula e Perry, 2021; Kaoud, 2016).

Figura 2- Fotografias do joelho de cães submetidos a cirurgia para correção da luxação patelar. A- Erosão
superficial de uma porção da cartilagem patelar. B,C- Erosão marcada de uma porção da cartilagem patelar. D-
Erosão marcada de toda a extensão da cartilagem superfície articular da patela. E- Erosão do lábio troclear
medial e da patela com exposição do osso subcondral (setas azul e preta). F- Superfície articular patelar achatada
(seta preta) e sulco troclear pouco profundo (seta azul). G- Tróclea femoral convexa (seta preta). Superfície
articular patelar côncava (seta preta) (Lara et al., 2018).

15
7. Diagnóstico

7.1. Sinais clínicos

Os sinais clínicos de animais com LP variam de indivíduo para indivíduo e estão


apenas em parte relacionados com o grau de deformidades angulares presente. A LP pode ser
intermitente ou contínua, assim como a claudicação resultante desta, na qual normalmente é
feito o apoio de carga com suspensão ocasional do membro. Um achado frequente, durante a
avaliação do andamento, que também pode ser relatado pelo tutor durante a consulta, é uma
tentativa, por parte do cão, de estender o membro caudalmente para permitir que a patela
retorne ao sulco, quando se encontra luxada. O tutor pode ainda notar uma relutância a saltar
(DeCamp et al., 2016; Di Dona et al., 2018; Singh, 2018).

DeCamp et al. (2016) dividem os cães com LP em quatro classes identificáveis:

1- Neonatos e cachorros mais velhos que normalmente apresentam sinais clínicos de


função anormal dos membros pélvicos desde o momento em que começam a andar;
estes geralmente representam os graus III e IV;
2- Animais jovens ou adultos com LP de grau II e III que normalmente exibem um
andamento anormal intermitente ou contínuo toda a sua vida, mas apresentam-se em
consulta quando os sinais clínicos agravam;
3- Animais mais velhos com LP de grau I e II que podem demonstrar sinais clínicos
agudos de claudicação pelo desgaste dos tecidos moles (por exemplo RLCCr), como
resultado de um ligeiro traumatismo ou agravamento da dor da lesão articular
degenerativa;
4- Cães que são assintomáticos.

A LPL é geralmente acompanhada de sinais clínicos mais graves do que a LPM, uma
vez que os animais apresentam problemas maiores na locomoção. A LP traumática tem um
início de sintomatologia súbito e está normalmente associada a um traumatismo, como um
salto, uma queda, um atropelamento, entre outros. Os sinais clínicos podem agravar à medida
que o animal aumenta de peso, a erosão da cartilagem articular ocorre, a luxação se torna
permanente ou o ligamento cruzado cranial se rompe (DeCamp et al., 2016; Di Dona et al.,
2018).

Os sinais clínicos nos gatos são semelhantes aos dos cães. Estes podem apresentar uma
marcha anormal com uma postura “agachada” e exibir vários graus de claudicação (Ferguson,

16
1997).

17
7.2. Exame físico

Para o diagnóstico da LP, é necessário realizar uma avaliação ortopédica rigorosa para
determinar a gravidade da mesma e a presença de outras patologias coexistentes. Para isso, é
necessário observar os andamentos do animal e avaliar o grau de claudicação (Tabela 3),
assim como procurar deformidades esqueléticas óbvias (Di Dona et al., 2018).

Tabela 3- Sistema de classificação da claudicação, adaptado de DeCamp et al. (2016) e Davis et al. (2021).

Categoria e Grau de Claudicação Sinais Clínicos


Passo/Trote
0 Sem claudicação observável a passo e a trote
1 Sem claudicação a passo e ligeira claudicação a trote
2 Ligeira claudicação a passo, claudicação moderada a trote
3 Claudicação moderada a passo, sem apoio de carga a trote
4 Sem apoio de carga a passo e a trote
Em estação
0 Apoio de carga normal
1 Diminuição ligeira do apoio de carga
2 Diminuição moderada do apoio de carga
3 Os dedos tocam ocasionalmente no chão
4 Não toca com o membro no chão

Com o animal em estação, deve-se avaliar a simetria entre ambos os membros e


averiguar se existe efusão articular, que pode ser indicativo de uma RLCCr concomitante. A
palpação delicada normalmente não causa dor. Em animais pequenos ou com deformidades
esqueléticas muito marcadas, é mais fácil localizar a patela iniciando a palpação a nível da TT
e progredindo proximalmente ao longo do ligamento patelar. Posteriormente, e de preferência
com o animal em decúbito lateral para que a luxação não seja impedida pela tensão muscular,
avaliar a tendência de a patela luxar e atribuir um grau à LP. Para isso, a patela deve ser
isolada com os dedos de uma mão e com a outra fazer rotação interna e externa do membro,
realizando, em simultâneo, força manual sobre este sesamoide, medial e lateralmente (Fig. 3).
Os testes diagnósticos para a LP de grau I e II consistem em remover a patela do sulco
troclear, ao contrário dos graus III e IV, nos quais o objetivo é tentar recolocar a patela na
posição normal. Aquando da luxação manual da patela, é possível sentir crepitar, o que pode
ser um indicador da presença de erosão cartilagínea. Adicionalmente, a profundidade do sulco
troclear pode ser avaliada, assim como a posição da patela no mesmo. Em algumas raças,
como é o caso dos
18
Akita e dos Shar Pei, é comum a patela localizar-se muito proximalmente no sulco troclear,
designando-se esta condição como “patela alta”, enquanto que raças condrodistróficas têm
tendência para esta se encontrar muito distal no sulco troclear, designando-se como “patela
baixa” (DeCamp et al., 2016; Di Dona et al., 2018; Marcellin-Little, 2020).

A B

Figura 3- Fotografia que demonstra a manipulação para luxar a patela. Com a perna estendida, a
patela é isolada entre o dedo polegar e indicador de uma mão enquanto a outra mão agarra o pé. A-
Luxação lateral: a perna é rodada externamente e a patela é puxada lateralmente. B- Luxação
medial: a perna é rodada internamente e a patela puxada medialmente (Di Dona et al., 2018).

Durante o exame físico é, também, importante avaliar a extensão e flexão da


articulação e a amplitude do movimento (ROM), uma vez que algumas LP de grau IV podem
caracterizar- se por apresentarem contraturas musculares graves que impedem a extensão
completa do joelho. Deve, ainda, ser averiguada a presença de crepitações, a gravidade do
desvio da TT, a existência de uma possível torção ou angulação do membro em casos com
deformidades esqueléticas exuberantes e a presença ou ausência de movimento “de gaveta”.
Tudo isto influencia a escolha dos procedimentos necessários para a reparação cirúrgica desta
patologia (DeCamp et al., 2016; Di Dona et al., 2018).

7.3. Exame imagiológico

O exame radiográfico do joelho permite avaliar o grau de alterações degenerativas


presentes na articulação, assim como identificar alguma deformidade esquelética presente. A
medição do grau das deformidades esqueléticas é útil para a realização das osteotomias
corretivas, para evitar agravar o desalinhamento do osso ou evitar uma correção subtotal com
o procedimento (Di Dona et al., 2018).

Para realizar um exame radiográfico que permita um estudo detalhado das


deformidades e dos procedimentos cirúrgicos que possam ser necessários para corrigir
as mesmas, é
19
importante manter um posicionamento correto do animal para obter imagens radiográficas de
qualidade (Di Dona et al., 2018). As projeções perfeitas são tecnicamente difíceis de obter,
especialmente na presença de deformidades ósseas ou contraturas musculares e, muitas vezes,
são necessárias várias tentativas para as conseguir. A precisão das medições está muito
dependente do posicionamento correto do osso (Apelt et al., 2005; Di Dona et al., 2018).

A projeção mediolateral (ML) permite avaliar deformidades no plano sagital e o


correto posicionamento da patela no sulco troclear, a qual se pode encontrar sobreposta com
os côndilos femorais em determinados graus de LP. A projeção caudocranial
(CdCr)/craniocaudal (CrCd) permite avaliar a posição da patela relativamente ao sulco e, no
caso de estar luxada, identificar o lado da luxação. Esta projeção permite, também, avaliar
deformidades no plano frontal (varus ou valgus) do fémur e da tíbia. Para executar
corretamente estas projeções, é necessário que os ossos estejam paralelos à mesa. Para além
disto, é importante radiografar um osso de cada vez, para garantir que o feixe radiográfico é
perpendicular ao eixo longo destes, caso contrário algum dos ossos iria ficar ligeiramente
rodado ou inclinado As projeções ML e CdCr/CrCd podem ser suficientes para avaliar
deformidades moderadas, contudo, se estiverem presentes deformidades esqueléticas
marcadas, podem ser necessárias mais projeções ortogonais ou uma tomografia
computorizada (TC) para avaliar o fémur e a tíbia (Apelt et al., 2005; Di Dona et al., 2018;
Dudley et al., 2006).

Para avaliar se a projeção CrCd/CdCr femoral (Fig. 4A) foi bem obtida, deve verificar-
se se os ossos sesamoides femorais são intersetados pelas corticais femorais distais, se
aproximadamente 50% do trocânter menor está visível, se a tuberosidade isquiática interseta a
diáfise proximal do fémur, se o forâmen nutricional proximal se encontra centrado na diáfise
femoral e se a patela centrada no sulco troclear. Este último fator pode não se verificar em
alguns animais com LP (Apelt et al., 2005; Dudley et al., 2006; Sirois et al., 2010).

Relativamente à projeção CrCd/CdCr de tíbia (Fig. 4B), deve verificar-se se a cortical


medial do calcâneo coincide com a base do sulco do tálus. Um mau posicionamento por
rotação da tíbia ao nível do joelho pode ocorrer principalmente em animais com RLCCr, pois
esta patologia leva a um aumento do ROM na rotação interna (Apelt et al., 2005; Dudley et
al., 2006).

Para avaliar se a projeção ML de fémur (Fig. 4C) foi bem obtida, os côndilos femorais
devem estar sobrepostos (Mostafa et al., 2018; Towle et al., 2005). No caso da projeção ML
20
de

21
tíbia (Fig. 4D), as margens caudais dos côndilos lateral e medial não devem estar separadas
mais de 4 milímetros (Inauen et al., 2009).

Apesar do exame radiográfico ser o método mais comum para estudar as deformidades
e de poder ser bastante preciso para a medição de alguns ângulos, tem algumas limitações,
uma vez que se trata da aquisição de imagens em duas dimensões de estruturas
tridimensionais complexas. A tomografia computorizada (TC) é o exame complementar ideal,
uma vez que esta não é afetada por maus posicionamentos e permite realizar reconstruções em
3 dimensões. (Apelt et al., 2005; Di Dona et al., 2018; Dudley et al., 2006; Perry e Déjardin,
2021).

Além destes exames, a ecografia tem tido um uso crescente para aferir a profundidade
do sulco troclear (Di Dona et al., 2018). Outro exame complementar disponível é a
ressonância magnética (RM), que permite medir o ângulo de anteversão e o eixo funcional do
músculo quadricípite femoral (Dudley et al., 2006).

A B C D

Figura 4- Imagens radiográficas de um cão com luxação patelar. A- Projeção CrCd


do fémur direito. B- Projeção CdCr da tíbia direita. C- Projeção ML do fémur
direito. D- Projeção ML da tíbia direita. Imagens gentilmente cedidas pela
BONEMATRIX - Centro de Cirurgia Veterinária Avançada.

22
8. Tratamento da luxação patelar

A LP pode ser subclínica ou ser a causa de diferentes graus de claudicação.


Paralelamente, o grau de luxação e a patologia articular tendem a aumentar com a idade. A
maioria dos cirurgiões concorda que cães com claudicação e/ou com deformidades
esqueléticas marcadas, ou com potencial para desenvolver as mesmas, são candidatos para
intervenção cirúrgica. Contudo, não há consenso relativamente aos casos assintomáticos.
Alguns cirurgiões acreditam que todos os cães com LP são candidatos para cirurgia, uma vez
que uma falha na biomecânica normal do joelho pode conduzir a deformidades de
crescimento, RLCCr e alterações patelares e extrapatelares que tornariam uma futura
intervenção cirúrgica mais difícil e com hipóteses mais reduzidas de uma recuperação
completa e livre de dor (Di Dona et al., 2018; Lara et al., 2018; Roy et al., 1992; Singh,
2018). Outros sugerem que a intervenção cirúrgica só pode ser considerada se os cães
claudicarem, porque alguns animais passam a vida inteira com LPM oculta (Lara et al., 2018;
Roy et al., 1992). Portanto, o diagnóstico e o tratamento devem ser determinados apenas
depois de ter avaliado cuidadosamente o alinhamento do esqueleto e o tecido
musculotendinoso do membro pélvico (Perry e Déjardin, 2021). Contudo, se não for tratada, a
LP de baixo grau pode conduzir ao aparecimento de claudicação, de lesões articulares e de
dor, podendo, ainda, progredir para graus mais elevados (Davis et al., 2021).

A LP é uma causa infrequente de claudicação nos gatos. As técnicas cirúrgicas,


mencionadas mais à frente, têm uma taxa de complicação nos gatos superior à dos cães,
contudo verificaram-se resultados favoráveis nos gatos operados em comparação com os que
foram submetidos a uma abordagem conservativa. Assim, é necessário avaliar
cuidadosamente os riscos e benefícios da correção cirúrgica da LP nesta espécie. Por estes
motivos, o tratamento cirúrgico desta patologia em gatos, está apenas recomendado aos que
apresentarem sinais clínicos (Bula e Perry, 2021; Houlton e Meynink, 1989; Hudson, 2014;
Loughin et al., 2006; Rutherford et al., 2015).

8.1. Tratamento conservativo

O tratamento conservativo tem o intuito de prevenir a progressão da osteoartrite e do


grau de luxação e trazer conforto ao animal, contudo há pouca literatura relativamente à
intervenção conservativa específica para a LPM (Davis et al., 2021; Di Dona et al., 2018). A

23
fisioterapia pode ser usada no maneio conservativo desta patologia em animais com LP de
grau I/II se os episódios de claudicação forem ligeiros e pouco frequentes, se o grau de
osteoartrite for baixo e no caso de haver impossibilidade de uma abordagem cirúrgica, por
exemplo, em animais com idade avançada, pela existência de outras patologias
concomitantes, ou, ainda, por relutância dos tutores. Esta abordagem pode incluir: a
administração de anti-inflamatórios não esteroides (AINEs) em associação, ou não, com
outros fármacos analgésicos, reposicionamento patelar manual em cães pequenos e gatos,
repouso, acupuntura, electroestimulação, laser frio, kinesiotaping, crioterapia, massagem e
hidroterapia, reforço muscular para melhorar o MEQ e controlo de peso para reduzir o stress
no joelho (Davis et al., 2021; Di Dona et al., 2018; Gibbons et al., 2006; Rezende et al.,
2016). No estudo realizado por Davis et al. (2021), concluiu-se que o reposicionamento
patelar manual é uma opção de fisioterapia eficaz e específica, que não deve ser usada
isoladamente ou como substituto da medicação. Este procedimento requer uma média de 6
intervenções para obter os resultados desejados, isto é, reduzir o grau de luxação e de
claudicação, contudo os machos castrados poderão precisar de mais tempo (Davis et al.,
2021).

Apesar do tratamento conservativo permitir aliviar a dor e o desconforto, não resolve


as alterações a nível dos tecidos (Lara et al., 2018; Rezende et al., 2016).

9.2. Tratamento cirúrgico

O tratamento cirúrgico é recomendado para cães com claudicação intermitente ou


persistente causada pela LP ou em cães jovens numa tentativa de mitigar os efeitos negativos
da condição no osso em crescimento. A patologia articular aumenta com a idade e com o grau
de luxação, assim, a correção cirúrgica deve ser realizada o mais cedo possível para limitar o
desenvolvimento de deformidades esqueléticas (Di Dona et al., 2018).

Os objetivos da cirurgia são restaurar o alinhamento normal do MEQ, melhorar a


congruência da articulação femoropatelar, restaurar a biomecânica normal do joelho e atenuar
o traumatismo repetido à cartilagem articular (Di Dona et al., 2018; Perry e Déjardin, 2021).

Os procedimentos cirúrgicos (Tabela 4) podem ser divididos em técnicas de


reconstrução óssea e de reconstrução de tecidos moles (influenciam o suporte medial e/ou
lateral da patela). Nas técnicas de reconstrução óssea, incluem-se aquelas que melhorem o

24
alinhamento do MEQ, que aprofundam o sulco troclear (trocleoplastias femorais) e que
mudam

25
o formato da patela (patelectomia parcial em gatos). Adicionalmente existem próteses parciais
e totais de joelho. A maioria dos cães que é submetido a cirurgia necessita de uma
combinação de várias técnicas. A escolha do procedimento cirúrgico mais adequado para
correção da LP varia de acordo com a idade, tamanho e peso do animal, com o grau de
luxação, a gravidade da deformidade esquelética, a cronicidade, a presença ou ausência de
RLCCr concomitante e o grau de desgaste da cartilagem articular. Geralmente, à medida que
a gravidade da luxação aumenta, também aumenta o número de procedimentos corretivos
necessários (Di Dona et al., 2018; Perry e Déjardin, 2021).

Tabela 4- Técnicas cirúrgicas disponíveis para correção da luxação patelar.

Reconstrução Óssea
Reconstrução dos
Trocleoplastias Próteses de Joelho
Melhoria do MEQ Patelectomia Tecidos Moles
Femorais

Patelectomia
Transposição da Libertação Ridgestop™
Trocleoplastia parassagital
tuberosidade tibial capsular/retinacular (Orthomed,
excisional parcial em gatos
(TTT) (desmotomia) West Yorkshire,
(PPP)
UK)
Imbricação Patellar Groove
Osteotomia do fémur Condroplastia
capsular/retinacular Replacement
distal (DFO) troclear
(desmoplastia) (PGR) (KYON®)
Osteotomia da tíbia Trocleoplastia em Prótese total de
Sutura antirrotacional
proximal (PTO) cunha joelho
Trocleoplastia em Trochlear Ridge
Hemiepifisiodese
bloco Arthroplasty (TRA)
Trocleoplastia
assimétrica com
rotação 180º
Trocleoplastia em
cunha com forma
de escudo

8.2.1. Reconstrução óssea

[Link]. Técnicas que melhoram o alinhamento do MEQ

O MEQ pode ser alinhado com o auxílio de algumas técnicas, de acordo com a
deformidade presente, nomeadamente transposição da tuberosidade tibial (TTT), osteotomia
femoral distal (DFO), osteotomia tibial proximal (PTO) e hemiepifisiodese (Di Dona et al.,
2018; Perry e Déjardin, 2021).

26
A TTT consiste na realização de uma osteotomia da tuberosidade tibial e movendo-a
na direção oposta à luxação e fixando a mesma com implantes cirúrgicos. Esta técnica permite
realinhar a inserção do tendão patelar com a tróclea (Di Dona et al., 2018; Perry e Déjardin,
2021).

A DFO (Fig. 5) e a PTO (Fig. 6) realizam-se quando há uma deformidade significativa


no fémur distal e/ou tíbia proximal, respetivamente. A DFO pode consistir em uma
ostectomia “closing wedge”, osteotomia “opening wedge” ou uma osteotomia para corrigir
uma torção femoral. O primeiro consiste em remover uma cunha de osso lateral ou medial, no
caso de varus ou valgus femoral, respetivamente. O segundo consiste em realizar um corte e
criar uma abertura em cunha no osso medial ou lateral, no caso de varus ou valgus femoral,
respetivamente. Para corrigir a torção, basta rodar o segmento distal relativamente ao
proximal até atingir o alinhamento desejado. Em todas as DFO são usados placas e parafusos
para fixar os fragmentos. A PTO é usada com menos frequência e as técnicas são semelhantes
às usadas na DFO (Di Dona et al., 2018).

A B

Figura 5- Imagens radiográficas do fémur esquerdo um cão com


varus femoral no qual foi usada uma técnica de DFO para a sua
correção. A- Projeção radiográfica CrCd pré-cirúrgica. B- Projeção
CrCd pós-cirúrgica. Imagens gentilmente cedidas pela
BONEMATRIX - Centro de Cirurgia Veterinária Avançada.

27
A B

Figura 6- Imagens radiográficas da tíbia direita de um


cão com valgus tibial no qual foi usada uma técnica
de PTO para a sua correção. A- Projeção radiográfica
CdCr pré-cirúrgica. B- Projeção radiográfica CdCr
pós-cirúrgica. Imagens gentilmente cedidas pela
BONEMATRIX - Centro de Cirurgia Veterinária.

A hemiepifisiodese (Fig. 7) é uma técnica que pode ser usada para o tratamento
precoce do valgus da tíbia proximal e do varus do fémur distal de animais juvenis. Esta
consiste na redução da placa de crescimento, pela colocação de um implante, na epífise
proximal medial da tíbia ou da epífise distal lateral do fémur. O encerramento temporário ou
permanente de um dos lados da placa de crescimento permite a continuação do crescimento
do lado contralateral, levando à correção da deformidade originalmente presente (Di Dona et
al., 2018; Olsen et al., 2016).

28
A B C D

Figura 7- Imagens radiográficas de um cão com valgus tibial no qual foi usada a técnica de
hemiepifisiodese para correção da deformidade angular. A, B- Projeções radiográficas ML e
CdCr pré-cirúrgicas, respetivamente; C, D- Projeções radiográficas ML e CdCr,
respetivamente, obtidas 6 meses após a intervenção cirúrgica, nas quais se observa uma
melhoria significativa no alinhamento da tíbia (Olsen et al., 2016).

[Link]. Aprofundamento do sulco troclear (Trocleoplastias femorais)

A trocleoplastia ajuda a estabilizar a patela e é um componente fundamental do


tratamento cirúrgico em animais com pouca profundidade troclear. Está descrito que a tróclea
deve ser aprofundada até que 50% da patela esteja assente entre os lábios trocleares. Existem
várias técnicas de trocleoplastia descritas, nomeadamente trocleoplastia excisional,
condroplastia troclear, trocleoplastia em cunha, trocleoplastia em bloco, trocleoplastia em
cunha com forma de escudo e trocleoplastia em cunha ou em bloco assimétrica e rotação de
180º (Fig. 8). As últimas 3 podem ser recomendadas para casos em que a trocleoplastia em
cunha e em bloco não permitam um aprofundamento troclear adequado proximalmente ou em
casos de hipoplasia de um dos lábios da tróclea. A técnica ideal deve permitir aprofundar o
sulco troclear para prevenir a recorrência da LP, ao mesmo tempo que mantem o máximo de
cartilagem hialina possível para minimizar o desenvolvimento de OA (Katayama et al., 2016;
Perry e Déjardin, 2021).

29
A
Patela
B Novo sulco

Osso subcondral

Ligamento
cruzado cranial

C D
Osso
subcondral Flap de
cartilagem

Flap de
cartilagem

1º corte
E F
Cunha de
2º corte
cartilagem
3º corte
e osso

H
Bloco G Bloco
removido removido

Osso
subcondral

I J
Osso
subcondral

Figura 8- Técnicas de trocleoplastia. A, B- Trocleoplastia excisional. C, D-


Condroplastia troclear. E, F- Trocleoplastia em cunha. G, H- Trocleoplastia em bloco.
I, J- Trocleoplastia com forma de escudo. Imagens adaptadas de DeCamp et al. (2016)
e Katayama et al. (2016).

30
O aprofundamento da tróclea é uma técnica frequentemente aplicada para corrigir os
vários graus de luxação patelar. No entanto, estas técnicas podem não ser exequíveis quando
há uma lesão grave do sulco troclear, com a presença de osteófitos e erosão da cartilagem
articular. Para além disso, os métodos padrão de aprofundamento troclear muitas vezes não
são viáveis para graus elevados de displasia, especialmente devido à falta de uma superfície
articular saudável ou a impossibilidade de atingir a profundidade adequada da tróclea (Dokic
et al., 2015; Hnízdo et al., 2021).

[Link]. Patelectomia parassagital parcial em gatos

A patela, em gatos normais, é achatada e mais larga do que a tróclea femoral. Como
consequência disto, quando é executada uma trocleoplastia femoral para correção de LP, este
osso sesamoide pode deslizar pelos lábios trocleares sem contactar com o sulco previamente
aprofundado. Para corrigir este problema pode ser realizada uma patelectomia parassagital
parcial (PPP) lateral e/ou medial. Os efeitos da patelectomia a nível da superfície articular de
contacto patelar e o limite de segurança para a ostectomia parcial da patela não estão
reportados. Para a realização da PPP, é necessário medir a largura da tróclea e executar as
ostectomias patelares tendo em conta que estas devem ser 1 milímetro mais estreitas do que a
largura da tróclea aprofundada (Brioschi et al., 2020; Rutherford e Arthurs, 2014).

8.2.2. Reconstrução de tecidos moles

Na maioria dos animais com LP, os tecidos moles em cada lado da patela estão
demasiado laxos ou demasiado tensos. As reconstruções realizadas envolvem, normalmente, a
libertação dos tecidos tensos e a criação de tensão nos tecidos mais laxos. Estes
procedimentos incluem desmotomia medial/lateral (incisão do retináculo e cápsula articular
no lado ipsilateral da direção da luxação), imbricação medial/lateral (suturas nos tecidos
moles do lado contralateral à direção da luxação), suturas antirrotacionais (sutura fabelotibial
e sutura fabelopatelar) (Fig. 9) e libertação da musculatura medial (disseção do músculo reto
femoral da cápsula articular, do fémur e da restante musculatura, ou transplantação da origem
do mesmo para lateral; usado na LPM). Estes procedimentos raramente são capazes de
corrigir a LP sozinhos, são muitas vezes usados como adjuvante das técnicas ósseas (Di Dona
et al., 2018).

31
A B

Incisão na
fáscia lata Tendão do
músculo
quadricípite
Fabela

Ligamento
patelar

Orifício na TT

C D

Ligamento
patelar

Figura 9- Suturas antirrotacionais. A, B- Sutura fabelotibial que passa


atrás da fabela lateral e por um orifício realizado na tuberosidade tibial.
C, D- Sutura fabelopatelar que passa atrás da fabela lateral e à volta da
patela em “8”. E- Combinação das duas técnicas. TT- Tuberosidade
tibial (DeCamp et al., 2016).

8.2.3. Próteses trocleares

[Link]. RidgeStop™ (Orthomed)

Uma técnica alternativa às trocleoplastias mencionadas anteriormente é o aumento do


lábio troclear medial ou lateral com o uso do implante Ridgestop™ (Orthomed, West
Yorkshire, UK). Este implante pode ser usado quando o sulco troclear é hipoplásico ou
apresenta erosões significativas. Permite um procedimento menos traumático por não serem
32
necessários cortes na

33
superfície articular (Perry e Déjardin, 2021; Orthomed, 2017). Esta prótese pode ser usada
isoladamente em casos mais ligeiros de LP. O implante é fixo ao osso com parafusos corticais
(Fig. 10). Caso seja necessário, o cirurgião pode sempre recorrer às técnicas clássicas
(Demeulemeester, 2019).

Figura 10- Implante Ridgestop™ num modelo anatómico de


fémur de cão (Orthomed, 2017).

[Link]. Patellar Groove Replacement (PGR) (KYON®)

Outra técnica alternativa às clássicas é a substituição do sulco troclear por uma prótese
denominada Patellar Groove Replacement (PGR) da KYON®. Pode ser utilizada em casos
nos quais as trocleoplastias osteocondrais não são exequíveis ou adequadas, nomeadamente
quando o sulco troclear está danificado pela presença de osteófitos e erosão cartilagínea, ou
até mesmo em casos nos quais exista lesão iatrogénica do sulco troclear devido a
complicações com as técnicas de trocleoplastia. Este implante pode ser utilizado em conjunto
com as outras técnicas, para corrigir o alinhamento do MEQ e estabilizar a patela na tróclea.
Foi a primeira prótese disponível no mercado para restaurar a função do sulco troclear (Dokic
et al., 2015; Hnízdo et al., 2021; Kim et al., 2016; KYON®, 2015).

O implante PGR, na maior parte das vezes, é utilizado como adjuvante de outras
osteotomias corretivas: TTT, DFO, PTO e TPLO (incluindo a variante com transposição
lateral ou medial do segmento rodado). Excecionalmente a prótese PGR é escolhida como
uma técnica isolada para estabilizar a patela. Este implante também é usado, com menos
frequência, em indivíduos com doença degenerativa do joelho em estágio final (idiopática,
traumática ou secundária a RLCCr crónica) sem LP, nos quais as alterações articulares graves
se concentram principalmente no compartimento femoropatelar (Hnízdo et al., 2021).

34
A prótese PGR é composta por dois componentes: a placa de base (PB) e a própria
prótese troclear (Fig. 11 e 12). A PB é constituída por titânio e, segundo informações do
fabricante, possui boas propriedades osteocondutoras, além de ser porosa, o que permite o
crescimento ósseo ao redor da mesma. A PB possui três orifícios cónicos nos quais os pinos,
localizados na parte inferior da prótese troclear, são firmemente encaixados durante a
implantação do PGR. A prótese troclear é constituída por titânio (Ti6Al4) e sua superfície é
endurecida com uma camada de carbono amorfo. Esta camada é resistente a danos mecânicos
e permite a redução do coeficiente de atrito, mantendo o calor gerado abaixo do limiar de
necrose térmica. A PB é fixa ao osso com dois ou quatro parafusos, dependendo do tamanho
do implante. Para implantes pequenos são usados parafusos corticais com diâmetro de 1,5 mm
e para implantes maiores de 2,4 mm. Os implantes são fabricados em doze tamanhos (1 a 10 e
novos tamanhos de 1,5 e 2,5) (Dokic et al., 2015; Hnízdo et al., 2021; KYON®, 2015).

Para a implantação do PGR, realiza-se uma ostectomia da tróclea femoral


imediatamente proximal ao tendão de origem do músculo extensor digital longo. Isto permite
uma área de osso esponjoso bem irrigada onde a PB vai assentar. Esta é fixa por 2 ou 4
parafusos corticais de titânio, dependendo do tamanho do implante. O componente troclear da
prótese é depois encaixado com 3 pinos cónicos nos orifícios cónicos da PB. Para melhorar a
osteointegração, podem ser perfurados vários orifícios na área de ostectomia e realizar
enxertos de osso esponjoso autólogos. A grande área de ostectomia permite alguma liberdade
médio- lateral para posicionar o implante e melhorar o alinhamento entre o tendão do músculo
quadricípite e a patela, podendo evitar, assim, a realização da TTT. O uso de implantes-teste
durante a cirurgia ajuda na decisão do posicionamento da prótese final (Dokic et al., 2015;
Kim et al., 2016; KYON®, 2015).

Figura 11- Patellar Groove Replacement (PGR) com os seus componentes


troclear e placa de base (PB) em separado e montados (KYON®, 2015).

35
A B C D

Figura 12- PGR em modelo anatómico de fémur. A- Placa de base (PB) do PGR aplicada num modelo
sintético em vista cranial. B- Prótese troclear encaixada na PB em vista cranial. C, D- Patela
reposicionada sobre o PGR em vista lateral e cranial, respetivamente (KYON®, 2015).

[Link]. Prótese total de joelho

Atualmente, as opções de tratamento para a OA avançada e lesões traumáticas


irreparáveis do joelho, são o maneio médico, a artrodese, a amputação ou a colocação de uma
prótese total de joelho (Fig. 13). A prótese total de joelho consiste na substituição das
superfícies articulares lesionadas para restaurar a função e o conforto do joelho. É o único
tratamento que permite a recuperação total e vitalícia da mobilidade em animais com OA
aguda do joelho (Liska e Doyle, 2009; Rodriguez, 2022).

Este implante é composto por dois elementos, nomeadamente um componente femoral


e um tibial. É possível a realização de uma implantação cimentada, não cimentada e híbrida
dos componentes femoral e tibial. Foram colocadas aproximadamente 300 próteses totais de
joelho desde 2005. Não há estudos da sua eficácia a longo prazo, todavia, com os resultados
favoráveis da avaliação a curto prazo, espera-se que o sucesso deste implante se assemelhe ao
da prótese total de anca (Allen et al., 2018; Rodriguez, 2022).

36
Figura 13- Imagens radiográficas dos joelhos de dois cães submetidos a prótese total de joelho. A- Projeção ML
pré-cirúrgica do cão 1. B- Projeção ML pós-cirúrgica do cão 1 no qual foi colocada uma prótese híbrida, cujo
componente tibial é cimentado. C- Projeção ML do mesmo cão 12 meses após a cirurgia. D- Projeção ML 12
meses após a cirurgia do cão 2 no qual foi colocada uma prótese cujo componente tibial era não cimentado
(Liska e Doyle, 2009)

9. Cuidados pós-cirúrgicos

Os cuidados pós-operatórios, que incluem a restrição de exercício e fisioterapia,


contribuem para o sucesso do tratamento, pois podem prevenir algumas complicações pós-
operatórias e favorecer uma rápida recuperação da massa muscular e funcionalidade do
membro. Para além dos cuidados com a sutura é essencial assegurar um plano de fisioterapia
que promova a amplitude de movimentos da articulação, o fortalecimento muscular e
exercícios de apoio do peso (Davis et al., 2021).

10. Complicações pós-cirúrgicas

As complicações pós-operatórias podem ser classificadas como maiores (major) e


menores (minor). As complicações maiores definem-se como aquelas que requerem cirurgia
de revisão, enquanto que as complicações menores não requerem cirurgia adicional. A
recorrência da luxação patelar pode ser classificada como uma entidade separada da categoria
das complicações maiores (Arthurs e Langley-Hobbs, 2006; Rutherford et al., 2015).

Nos cães, a taxa de complicações após a estabilização da LP unilateral foi reportada


entre 13 e 45%, o que inclui todas as técnicas para correção cirúrgica dos diferentes graus de
LP (Kalff et al., 2014). No estudo de Rossanese et al. (2019), a taxa de complicações foi de
37%, sendo que 12% eram complicações menores e 25% maiores. As complicações incluem

37
LP recorrente, falha e migração do implante, fratura e avulsão da TT, deslocamento da cunha
da trocleoplastia, fratura da tíbia e fémur, fratura do lábio troclear lateral, rutura do ligamento
patelar, incapacidade de estender o joelho, osteomielite, deiscência de sutura e artrite sética
(Kalff et al., 2014; Rossanese et al., 2019).

Nos gatos, a taxa de complicações num estudo realizado por Rutherford et al. (2015)
foi de 26%, sendo que a taxa de complicações menores foi de 6% e de complicações maiores
foi 20%, o que inclui 5% de recorrência da LP.

A LP recorrente, por correção insuficiente, é uma complicação comum da cirurgia,


correspondendo a 30-48% das complicações pós-operatórias no geral e 65-86% das
complicações maiores. Esta frequência elevada pode dever-se à avaliação desadequada das
deformidades esqueléticas presentes, o que leva a uma correção cirúrgica incompleta.
Também existe a possibilidade de haver sobrecorreção e a patela luxar na direção oposta da
inicial. A complicação mais frequente é a necessidade de remoção dos implantes usados na
TTT, uma vez que estes se encontram numa zona com grande mobilidade e com pouca
cobertura de tecidos moles, levando à irritação dos tecidos adjacentes (formação de seroma e
irritação da pele) (Kalff et al., 2014; Mostafa et al., 2008; Rossanese et al., 2019).

Não há muitos estudos clínicos sobre as próteses PGR, apesar da utilização


relativamente ampla das mesmas na prática veterinária nos últimos anos. As principais
complicações incluem o deslocamento do implante causado pela pressão do polo proximal da
patela na parte distal da prótese em flexão máxima (Hnízdo et al., 2021). Num estudo
realizado por Hnízdo et al. (2021), a percentagem de complicações associadas ao implante
PGR foi de 5%. Segundo o autor, as complicações com maior relevância foram: o
deslocamento do implante por fratura dos pinos cónicos do componente troclear, que foi
posteriormente substituído por outra prótese de dimensões superiores; uma artrite sética, que
foi tratada de forma conservativa sem necessidade de explantação do PGR; recorrência da
luxação patelar devido ao tamanho subdimensionado do implante (Hnízdo et al., 2021).

As complicações associadas à prótese total de joelho incluem a infeção, instabilidade


articular ou do implante, lesão neurovascular, desgaste e osteólise assética periprostética. Não
há ainda dados disponíveis relativamente à incidência das complicações (Allen et al., 2018).

38
Nos cães o peso corporal é um fator de risco para o desenvolvimento de complicações.
Cães com mais de 20 kg têm uma frequência superior de complicações no geral, de
complicações maiores e de recorrência da LP, quando comparados com cães com menos de
20 kg. Há, ainda, uma associação entre a preservação da cortical distal da tuberosidade tibial
durante a TTT e a redução da taxa de complicações, especialmente aquelas que estão
associadas aos implantes usados (Rossanese et al., 2019).

Nos gatos a existência de uma fratura femoral ipsilateral, de LP de grau IV e a


execução da técnica TTT estão associados à ocorrência de complicações (Rutherford et al.,
2015).

11. Prognóstico

O prognóstico a longo prazo é bom a excelente em 94% dos casos (Gibbons et al.,
2006; Di Dona et al., 2018). O prognóstico está relacionado com o grau de luxação. A
correção cirúrgica da LP de grau I, II e III tem normalmente um bom resultado clínico,
enquanto que a LP de grau IV tem um prognóstico reservado para a recuperação total da
função do membro (Perry e Déjardin, 2021; Roush, 1993). O prognóstico dos cães com LP de
grau I e II que são submetidos a tratamento conservativo é menos favorável do que aqueles
que são tratados cirurgicamente. Mesmo quando existem complicações que requerem revisão
cirúrgica, o resultado clínico observado é normalmente positivo, contudo, complicações pós-
operatórias maiores têm maior probabilidade de ter um pior resultado relativamente à
claudicação e observações do exame ortopédico (Perry e Déjardin, 2021). O prognóstico, nos
gatos, após a cirurgia é favorável e normalmente verifica-se uma melhoria no grau de
claudicação (Ferguson, 1997).

39
Capítulo II: TRA- Um novo implante para substituição troclear

40
1. Fundamentos da prótese Trochlear Ridge Arthroplasty (TRA)

Recentemente foi desenvolvido implante denominado Trochlear Ridge Arthroplasty


(TRA) para substituição da tróclea femoral, com a função de melhorar a estabilidade patelar,
corrigir o alinhamento do MEQ e diminuir a dor e claudicação associadas à OA
femoropatelar. Esta prótese surgiu para colmatar determinadas situações que não agradavam a
alguns cirurgiões em relação ao PGR. Uma das queixas consistia na altura do implante em
comparação com a tróclea original que, por ser maior, deixa o tendão patelar sob grande
tensão, diminuindo ligeiramente o ROM do joelho. Associado a isto estava uma adaptação
algo demorada ao novo formato troclear, especialmente em cães de raças toy e gatos. Outras
questões baseavam-se na aplicação relativamente complexa e algo demorada desta prótese e
na falta de tamanhos intermédios para abranger animais com patelas mais largas relativamente
à tróclea, como é o caso dos gatos.

2. Indicação cirúrgica

As indicações para a aplicação do TRA são semelhantes às do PGR, nomeadamente:

 Situações onde se verifica uma erosão marcada da cartilagem troclear/patelar;


 Animais com hipoplasia troclear, nos quais conseguir um aprofundamento
adequado do sulco levaria a uma lassitude do tendão de inserção do músculo
quadricípite femoral e do ligamento patelar e, consequentemente, conduziria a
uma insuficiente estabilização da patela e a uma LP recorrente;
 Em animais muito jovens, nos quais seria possível atingir a placa de
crescimento aquando da sulcoplastia troclear;
 Casos nos quais a sulcoplastia poderia comprometer a integridade femoral e,
como resultado, conduzir a uma fratura;
 Cães de raças pequenas ou toy, nos quais a execução da trocleoplastia é mais
difícil, devido ao reduzido tamanho das estruturas, e o risco de inviabilizar o
sulco troclear é superior;
 Gatos, nos quais a patela é significativamente mais larga do que a tróclea
femoral. Nestes casos a sulcoplastia não iria permitir acomodar este osso
sesamoide corretamente no sulco troclear e seria necessário recorrer a técnicas

41
mais invasivas, como é o caso da PPP, que têm uma recuperação difícil e, por
vezes, incompleta.

A indicação cirúrgica está muito dependente da experiência do cirurgião e da sua


familiarização com a técnica cirúrgica. Além disto, cada caso deve ser estudado
independentemente para decidir as melhores opções de tratamento.

3. Características técnicas da prótese TRA

A prótese TRA é composta por apenas uma peça. É constituída por uma liga de titânio
cujo principal constituinte é titânio de grau 5 (TiAl6V4, ISO 5832-3, ASTM F1472A). A face
anterior do implante tem uma forma troclear para o contacto com a patela, e a posterior, que
contacta com o osso esponjoso femoral, serve de base para o implante (Fig. 14). Esta base é
constituída por uma estrutura em forma de treliça (lattice-shaped), com poros abertos para
promover uma osteointegração ótima. A superfície de contacto patelar moldada
anatomicamente, é polida e revestida com uma camada de carbono diamond-like (DLC) para
permitir que esta tenha um coeficiente de fricção muito baixo e uma superfície resistente aos
riscos. A ancoragem primária ao osso é conseguida através de um plug que é encaixado à
pressão (press-fit) e ajustado à forma (form-fit) do osso previamente perfurado, o que permite
a distribuição equilibrada das forças. Adicionalmente, no bordo ventral do implante
encontram- se dois orifícios por onde são introduzidos dois parafusos corticais de titânio
(tamanho 1.5 mm, 2.4 mm ou 2.7 mm) para uma fixação mais estável. A ancoragem
secundária é conseguida com o crescimento e formação do stock ósseo (Innoplant Veterinary
Implants, n.d.a).

A B

Figura 14- Trochlear Ridge Arthroplasty (TRA). A- Face posterior do implante com plug e
estrutura em forma de treliça (lattice-shaped), com poros abertos para promover a
osteointegração. B- TRA implantado em modelo anatómico de fémur (Innoplant veterinary
42
implants, n.d.a).

43
O TRA pode ser utilizado em cães e gatos de qualquer raça, a partir de 1,5 kg de peso
corporal. Está disponível uma ampla gama de tamanhos (nºs 1 a 10), na qual os 3 tamanhos
mais pequenos (nºs 1 a 3) estão também disponíveis numa versão larga (broad) para cobrir um
número maior de indicações (Fig. 15). Estes últimos são representados pela letra B (1B, 3 B,
3B) (Innoplant Veterinary Implants, n.d.a).

Figura 15- Tamanhos disponíveis do implante TRA (Innoplant Veterinary Implants, n.d.a.).

No tabuleiro de instrumentos do TRA (Fig. 15) estão disponíveis 13 implantes de teste,


13 guias de perfuração, 8 brocas para realizar o orifício central para o plug, 5 impactors com
um tamanho em cada extremidade, 3 brocas para realizar os orifícios para os parafusos
corticais e 3 agulhas de fixação (Fig. 17) (Tabela 5).

5 4
3
2

Figura 16- Fotografia do tabuleiro de instrumentos do TRA. No tabuleiro


apresentado estão em falta um implante de teste número 10 e duas guias de
perfuração números 1 e 10. 1- Implantes de teste. 2- Guias de perfuração. 3-
Brocas para perfurar os orifícios para os plugs. 4- Impactors. 5- Broca para
perfurar os orifícios para os parafusos corticais. 6- Agulhas de fixação. Fotografia
gentilmente cedida pela BONEMATRIX - Centro de Cirurgia Veterinária

44
Avançada.

45
Figura 17- Representação esquemática do tabuleiro de instrumentos do TRA, cuja legenda
se encontra na Tabela 5 (Innoplant Veterinary Implants, n.d.a.).

Tabela 5- Kit de instrumentos do TRA: Legenda dos números assinalados na Figura 13 (Innoplant
Veterinary Implants, n.d.a).

Nº Descrição Nº Descrição
1 Implante-teste TRA #1 27 Broca ø4.0mm para os implantes TRA #1, #1B
2 Implante-teste TRA #1B 28 Broca ø5.0mm para os implantes TRA #2, #2B
3 Implante-teste TRA #2 29 Broca ø6.0mm para os implantes TRA #3, #3B
4 Implante-teste TRA #2B 30 Broca ø7.0mm para o implante TRA #4
5 Implante-teste TRA #3 31 Broca ø8.0mm para o implante TRA #5
6 Implante-teste TRA #3B 32 Broca ø9.0mm para o implante TRA #6
7 Implante-teste TRA #4 33 Broca ø10.0mm para o implante TRA #7
8 Implante-teste TRA #5 34 Broca ø11.0mm para os implantes TRA #8, #9, #10
9 Implante-teste TRA #6 35 Impactor para o implante TRA #1, #1B, #2, #2B
10 Implante-teste TRA #7 36 Impactor para o implante TRA #3, #3B, #4
11 Implante-teste TRA #8 37 Impactor para o implante TRA #5, #6
12 Implante-teste TRA #9 38 Impactor para o implante TRA #7, #8
13 Implante-teste TRA #10 39 Impactor para o implante TRA #9, #10
14 Guia de perfuração #1 40 Brocas ø1.1mm para parafusos corticais 1.5mm
15 Guia de perfuração #1B 41 Brocas ø1.8mm para parafusos corticais 2.4mm
16 Guia de perfuração #2 42 Brocas ø2.0mm para parafusos corticais 2.7mm
17 Guia de perfuração #2B 43 Agulha de fixação ø1.1mm para guias de perfuração #1 a #4
18 Guia de perfuração #3 44 Agulha de fixação ø1.8mm para guias de perfuração #5 a #7
19 Guia de perfuração #3B 45 Agulha de fixação ø2.0mm para guias de perfuração #8 a #10
20 Guia de perfuração #4
21 Guia de perfuração #5
22 Guia de perfuração #6
23 Guia de perfuração #7
24 Guia de perfuração #8
25 Guia de perfuração #9
26 Guia de perfuração #10

46
4. Características biomecânicas da prótese TRA

O TRA está sujeito a forças de tração proximal e distal que são impedidas,
inicialmente, pelo plug e pelos parafusos e, posteriormente, também pelo stock ósseo
formado. Pode ainda ser sujeito a forças de rotação, que são apenas contrariadas pelos
parafusos corticais, enquanto ainda não ocorreu a osteointegração. Se por algum motivo não
for possível colocar os dois parafusos, é concebível a utilização de apenas um deles, sem
comprometer a estabilidade do implante. Esta situação pode verificar-se, por exemplo, no
caso de ocorrer maceração do orifício onde iria ser colocado o parafuso ou quando existe uma
interceção deste com outro implante, como pode acontecer com os parafusos usados na DFO.
Como último recurso, é possível colocar uma agulha de Kirschner em um ou ambos os
orifícios, para impedir a rotação do TRA, contudo, há que ter em atenção a possibilidade
destes implantes poderem migrar. Este último método não impediria forças de arrancamento,
todavia o TRA não é, normalmente, sujeito a este tipo de forças, uma vez que a patela faz
pressão sobre o mesmo, comprimindo-o contra o osso, o que beneficia a osteointegração do
implante.

5. Aplicação da prótese TRA

Para a aplicação deste implante o animal é colocado em decúbito dorsal com o joelho
dirigido para cima. Com um acesso parapatelar lateral e a patela luxada medialmente, é
realizada uma ostectomia da tróclea femoral, de distal para proximal, iniciando o corte
imediatamente cranial à inserção do tendão do músculo extensor digital longo, para obter uma
área grande e com boa perfusão sanguínea de osso esponjoso (Fig. 18). O corte deve ser
paralelo aos lábios trocleares e tangente ao fundo do sulco troclear. Em seguida, a superfície
da ostectomia é limada até o TRA teste ficar bem nivelado (Innoplant Veterinary Implants,
n.d.b). Esta área permite alguma liberdade para rodar e movimentar a prótese
mediolateralmente, conforme a necessidade, para melhorar o alinhamento do MEQ, o que
pode, em alguns casos, substituir a DFO e TTT. Adicionalmente, poderá ser realizado um
ligeiro aprofundamento desta área de ostectomia, num dos lados, para que a prótese compense
uma ligeira torção do fémur distal (6 graus no máximo). Assim, no caso da LPM, a superfície
seria aprofundada na direção medial (compensação de torção externa) e o oposto no caso da
LPL (compensação de torção interna). Estas modificações à técnica de aplicação do TRA não
são aconselhadas para graus de deformidades angulares mais marcados, que devem ser
47
resolvidos com as técnicas apropriadas,

48
nomeadamente DFO, PTO e/ou TTT (Hnízdo et al., 2021; Innoplant Veterinary Implants,
n.d.b).

Em seguida, os implantes de teste (trial implants) são usados para verificar se o


tamanho planeado do TRA é o apropriado, para decidir a posição ótima do mesmo e averiguar
se a patela desliza adequadamente após ser reduzida (Fig. 19).

Figura 18- Posicionamento do implante de teste e as respetivas


direções nas quais este pode ser movimentado para ajustar o seu
alinhamento (Innoplant veterinary implants, n.d.b).

A posição da patela é avaliada na máxima flexão do joelho para verificar se a mesma


não interfere distalmente com o implante e na extensão máxima para aferir se este sesamoide
permanece assente no sulco prostético. Se, em extensão máxima, a patela se desloca
proximalmente à prótese e, portanto, sai do sulco e torna-se instável, o implante de teste é
reposicionado proximalmente e são repetidos os testes em extensão e flexão máximas. Se a
substituição por um tamanho maior ou o reposicionamento proximal não for possível, ou este
cria demasiado impacto distal, então a patela deve ser movida distalmente (fazendo uma
transposição distal da TT, por exemplo) (Innoplant Veterinary Implants, n.d.b).

Em seguida, com as brocas identificadas com os números 40 a 42 na Tabela 5 e


através do orifício lateral no bordo ventral do implante de teste, é realizado o primeiro orifício
piloto (Tabela 6). Neste orifício é introduzida uma agulha de fixação, com o mesmo diâmetro
da broca, para permitir imobilização temporária do implante de teste. Em seguida o orifício
medial é perfurado (Fig. 20). Nesta fase é importante não perfurar o córtex caudal (Innoplant
Veterinary Implants, n.d.b).

49
Tabela 6- Associação o diâmetro das brocas e tamanho dos parafusos com o tamanho do implante (Innoplant
Veterinary Implants, n.d.b).

Tamanho do implante TRA Tamanho dos parafusos corticais Diâmetro da broca


1, 1B
2, 2B
1,5 mm 1,1 mm
3, 3B
4
5
6 2,4 mm 1,8 mm
7
8
9 2,7 mm 2,0 mm
10

Figura 19- Realização dos orifícios piloto. A- Perfuração do orifício lateral. B- Perfuração do orifício
medial e a colocação da guia de fixação no orifício medial (Innoplant Veterinary Implants, n.d.b).

50
O implante de teste é removido deixando a agulha de fixação lateral no lugar e a guia
de perfuração é alinhada com o auxílio desta (Fig. 21) (uma dica para facilitar a remoção da
guia de perfuração do tabuleiro de instrumentos é utilizar a broca do tamanho correspondente,
identificada com os números 27 a 34 na Tabela 5, conforme demonstrado na Figura 22). É,
depois, inserida a agulha de fixação medial para manter a posição da guia de perfuração e
impedir que esta sofra movimentos de rotação aquando da realização do orifício para o plug.
Esta fixação temporária também pode ser executada com agulhas de Kirschner dos tamanhos
correspondentes.

Figura 21- Método para remover


facilmente a guia de perfuração, do
tabuleiro de instrumentos (Innoplant
Veterinary Implants, n.d.b).

Figura 20- Posicionamento da guia de perfuração. A- Remoção do implante de teste,


deixando a agulha de fixação lateral. B- Colocação da guia de perfuração e colocação
posterior da agulha de fixação medial (Innoplant Veterinary Implants, n.d.b).

51
Com a broca do plug, é realizado o orifício central para o implante TRA. A
profundidade deste orifício é limitada automaticamente por um batente presente na broca (Fig.
23) (Innoplant Veterinary Implants, n.d.b).

Figura 22- Realização do orifício para o plug. A- Perfuração do orifício para o plug. B- Limitação da
profundidade do orifício pelo batente presente na broca (Innoplant Veterinary Implants, n.d.b).

Posteriormente, é feita a remoção de uma das agulhas de fixação e da guia de


perfuração. Em seguida, recomenda-se que seja feita uma lavagem da área de osteotomia para
remover todos os fragmentos ósseos soltos do orifício do plug e se troque de luvas antes de
manipular o implante. A prótese TRA é, então, posicionada com o plug sobre o orifício
correspondente e empurrada manualmente até cerca de metade da profundidade. Nesta fase
ainda é possível realizar ajustes no plano frontal ao rodar o implante no sentido horário e anti-
horário para alinhar os orifícios do bordo ventral do implante com os orifícios realizados no
osso. É importante ter atenção para não inclinar a prótese durante este processo. Em seguida, é
posicionado um impactor do tamanho correspondente na face troclear do TRA, para o proteger
dos danos, e a prótese é martelada suavemente até se conseguir um encaixe press-fit e form-fit
entre o orifício e o plug do implante (Fig. 24). A prótese deve assentar perfeitamente no osso.
Nesta fase, a posição do implante está fixa e os movimentos da prótese não devem ser
possíveis. Se for necessário reposicionar o implante após a ancoragem press-fit, é possível
inserir uma agulha de 1,1 a 2,0 mm entre o implante e o osso para fazer alavanca e remover o
TRA (Innoplant Veterinary Implants, n.d.b).

52
Figura 23- Colocação do implante TRA. A- Posicionamento da
prótese TRA. B- Impactor posicionado no sulco troclear
prostético e martelo usado para obter um encaixe press-fit
(Innoplant Veterinary Implants, n.d.b).

Depois do implante estar bem ancorado, é terminada a perfuração dos orifícios lateral
e medial (atravessando o córtex caudal). Em seguida, em cada orifício, são introduzidos os
parafusos corticais autorroscantes do diâmetro apropriado para terminar a fixação. Os
parafusos devem ser longos o suficiente para atravessar o córtex caudal (Fig. 25) (Innoplant
Veterinary Implants, n.d.b).

53
Figura 24- Fixação do implante TRA. A- Colocação dos parafusos corticais (bicortical). B- Patela
reposicionada na tróclea prostética (Innoplant Veterinary Implants, n.d.b).

Esta prótese (Fig. 26) pode ser utilizada concomitantemente com osteotomias
corretivas do fémur e tíbia, TTT e técnicas de reconstrução dos tecidos moles para correção de
LP. Também pode ser usada em animais com RLCCr, juntamente com as técnicas cirúrgicas
específicas para correção dessa patologia, como, por exemplo, Tibial Tuberosity Advancement
(TTA) e Tibial Plateau Leveling Osteotomy (TPLO).

54
A B

C D

Figura 25- Fotografias intracirúrgicas do processo de colocação do TRA no joelho esquerdo de um cão.
A- Área de ostectomia B- Utilização da guia de perfuração para realização do orifício central, fixa com
uma agulha de Kirschner do lado medial. C- Orifício realizado no centro da área de osteotomia e o plug
na base do TRA que vai encaixar neste. D- Implante encaixado por press-fit e form-fit e aparafusado
unicamente no lado lateral. Fotografias gentilmente cedidas pela BONEMATRIX – Centro de Cirurgia
Veterinária Avançada.

55
Capítulo III- Apresentação de casos clínicos

56
1. Objetivos

O objetivo deste capítulo é apresentar uma série de casos nos quais a prótese TRA foi
utilizada como parte do tratamento da luxação patelar e/ou osteoartrite, e, ainda, reportar a
evolução radiográfica e clínica dos mesmos.

2. Material e métodos

Foi recolhida a informação clínica dos 11 animais que foram submetidos a cirurgia
para colocação do TRA como parte do tratamento da luxação patelar na BONEMATRIX –
Centro de Cirurgia Veterinária Avançada, no período de novembro de 2021 até junho de
2022. Foram avaliados os relatórios de consulta e cirurgia, as imagens radiográficas pré e pós-
operatórias e de controlo. Os dados recolhidos foram: espécie, raça, sexo, estado reprodutivo,
idade, peso, grau de luxação patelar pré e pós-cirúrgico, direção da luxação, apresentação (uni
ou bilateral), patologias ortopédicas concomitantes, procedimentos realizados e tamanho do
TRA usado.

Neste trabalho foram incluídos todos os animais que foram submetidos a uma
intervenção cirúrgica para colocação de uma prótese TRA, no período de novembro de 2021
até junho de 2022. Em todos os casos, o implante foi usado como parte do tratamento LP, em
conjunto com outras técnicas. A amostra obtida é composta por 11 joelhos operados, num
total de 11 animais.

3. População de animais

Foram intervencionados, para colocação de implante TRA, 11 animais, dos quais 2


eram gatos e 9 eram cães (Tabelas 7 e 8). A idade dos cães variou entre 1 e 8 anos (idade
média de 5 anos) e nos gatos, as idades foram de 7 meses e 1 ano e 8 meses (idade média de 1
ano e 1 mês). Dos cães operados, 6 eram fêmeas e 3 eram machos e dos gatos operados 1 era
fêmea e 1 era macho. A população de cães foi composta pelas seguintes raças: SRD (n=4),
Buldogue Francês (n=2), Yorkshire Terrier (n=1), American Bull (n=1) e cruzado de
Daschund (n=1). Relativamente aos gatos, as raças observadas foram Europeu Comum (n=1)
e British Shorthair (n=1). O peso total dos cães variou entre 2,4 kg e 18,75 kg (peso médio de
8,5 kg) e dos gatos entre 3,8 kg e 5 kg (peso médio de 4,4 kg). Todas as 11 articulações

57
intervencionadas apresentavam LPM (n= 11/11) dos seguintes graus (I-IV): I (n=0), II (n=7),
III (n=3) e IV (n=1).

58
Tabela 7- Dados relativos aos animais.
Caso Espécie Raça Idade Peso (Kg) Sexo
1 Cão SRD 6A 4m 5 Fi

2 Gato British Shorthair 1A 8m 5 Fi

3 Gato EC 7m 3,8 Mi

4 Cão Yorkshire Terrier 8A 4,6 Mc

5 Cão American Bull 1A 18,75 Fi

6 Cão Cruzado de Daschund 4A 1m 4,5 Fc

7 Cão Buldogue Francês 4A 8 Fi

8 Cão SRD 2A 16 Mc

9 Cão SRD 12A 7,2 Fc

10 Cão Buldogue Francês 4A 4m 10,3 Mi

11 Cão SRD 4m 2,4 Fi


SRD- Sem raça definida; EC- Europeu comum; Fi – Fêmea inteira; Fc– Fêmea castrada; Mc– Macho inteiro; Mi-
Macho castrado.

Tabela 8- Dados relativos às luxações de patela.


Número
Caso Apresentação Grau de LP Membro Procedimentos adicionais TRA
1 Bilateral III MPE TTT + Imbricação lateral 2B
2 Bilateral II MPD RCCF* + PPP lateral + Imbricação lateral 2
3 Unilateral III MPD TTT + Imbricação lateral 2B

4 Bilateral II MPE TPLO-M** 2


5 Bilateral II MPD TTT + DFO + Imbricação lateral 5

6 Bilateral II MPE *** 2


7 Bilateral II MPD DFO + TTT + Desmotomia medial 4
8 Bilateral III MPD TPLO-M** + Imbricação lateral 5
9 Bilateral II MPD TTT + Imbricação lateral 3

10 Bilateral II MPE Imbricação lateral 4

11 Bilateral IV MPD DFO + PTO + TTT + Imbricação lateral 2


*- O caso 2 apresentava displasia da anca concomitante; **- Os casos 4 e 8 apresentavam rutura de ligamento
cruzado cranial concomitante; ***- O caso 6 tinha sido intervencionado posteriormente, mas ocorreu recorrência
da luxação patelar e existiam sinais de dor associados à osteoartrite. Na primeira intervenção foi feita uma
transposição da tuberosidade tibial e imbricação lateral e na segunda apenas foi colocado o implante TRA; LP-
Luxação Patelar; MPE- Membro pélvico esquerdo; MPD- Membro pélvico direito; TRA- Trochlear Ridge
Arthroplasty; TTT- Tibial Tuberosity Transposition; RCCF- Resseção da Cabeça e Colo Femoral; TPLO-M-
Tibial Plateau Leveling Osteotomy com transposição medial do segmento; DFO- Distal Femur Osteotomy.

59
4. Planeamento cirúrgico

A causa da instabilidade patelar foi investigada com o auxílio de um exame


radiográfico, com o animal sedado, através das projeções CrCd/CdCr e ML do fémur e da
tíbia em separado (Fig. 27). Em caso de suspeita de outras patologias fora do joelho, foram
realizadas projeções radiográficas adicionais.

A B C D
Figura 26- Exame radiográfico pré-cirúrgico do membro pélvico esquerdo do caso 1. A- Projeção CrCd
do fémur. B- Projeção ML do fémur. C- Projeção CdCr da tíbia. D- Projeção ML da tíbia. Imagens
gentilmente cedidas pela BONEMATRIX - Centro de Cirurgia Veterinária Avançada.

Posteriormente, para determinar o tamanho da prótese necessário para cada caso foi
utilizado o programa Veterinary Preoperative Orthopaedic Planning (vPOP), que permite
sobrepor um template do implante desejado com a projeção radiográfica em estudo. Uma vez
que o template para o TRA ainda não está disponível nesta aplicação, foi utilizado o do PGR,
tendo o cuidado de desprezar a porção correspondente à PB do implante (Fig. 28). Uma
alternativa seria a utilização da folha template transparente fornecida pela empresa que
comercializa o TRA.

60
Figura 27- Projeção radiográfica ML do joelho direito do caso
5 no programa vPOP. Sobre a tróclea femoral observa-se um
template do tamanho 5 de um implante PGR com a porção
correspondente à sua PB desprezada. Adicionalmente, é
possível observar o template de uma placa, que corresponde ao
planeamento da DFO para correção de varus femoral. Imagem
gentilmente cedida pela BONEMATRIX - Centro de Cirurgia
Veterinária Avançada.

Nos casos em que existiam deformidades esqueléticas marcadas a causar a LP, como
varus, valgus e/ou torção, estas foram estudadas para posteriormente serem corrigidas, de
acordo com os procedimentos recomendados (n = 9/11). O TRA, em todos os casos, foi
utilizado em conjunto com outras técnicas: TTT (n = 7/11), DFO (n = 3/11), PTO (n = 1/11),
TPLO (incluindo a variante com transposição lateral ou medial do segmento rodado) (n =
2/11), imbricação lateral (n = 9/11), desmotomia medial (n = 1/11) e PPP (n = 1/11).

Não surgiram casos nos quais os indivíduos apresentassem doença degenerativa a


nível do joelho com afeção grave do compartimento femoropatelar, por RLCCr crónica ou
idiopática, sem LP. Os animais que apresentavam RLCCr concomitante, foram submetidos ao
método TPLO.

61
5. Técnica cirúrgica

Todos os procedimentos foram realizados na BONEMATRIX – Centro de Cirurgia


Veterinária Avançada, pela mesma equipa cirúrgica. O protocolo anestésico foi escolhido
tendo em conta a idade, espécie, condição individual e de acordo com protocolos-padrão. A
pré- medicação foi realizada em cães com metadona (Senfortam®) 0,2-0,5 mg/kg e
medetomidina (Domitor®) 2-10 µg/kg por via intramuscular (IM) e em gatos com uma
combinação de metadona 0,2-0,4 mg/kg, ketamina (Nimatek®) 2-3 mg/kg e medetomidina
10-20 µg/kg por via IM. A indução anestésica foi conseguida com midazolam (Dormilan®)
0,1-0,5 mg/kg e propofol 1% 2-4 mg/kg por via endovenosa (IV). A anestesia foi mantida
com isoflurano 0,8- 2,5% e O2. Após serem introduzidos em anestesia geral inalatória, a
antibioterapia foi realizada com cefazolina 22 mg/kg por via IV, sendo esta re-administrada a
cada 90 minutos durante o período intraoperatório.

Antes dos animais entrarem no bloco operatório, foi realizada a tricotomia do membro
a ser intervencionado desde a região proximal da coxa até abaixo do tarso e, posteriormente, a
lavagem do mesmo com solução de clorexidina e água. No bloco operatório, foram colocados
em decúbito dorsal, com o membro a intervencionar suspenso para a realização de uma
assepsia rigorosa com solução de clorexidina 5% e compressas estéreis. Em seguida, o
membro foi borrifado com álcool a 70%. Após este procedimento, foi efetuada a ligadura
estéril na extremidade do membro e a colocação dos panos de campo. Posteriormente, foi
feita a colocação da película cirúrgica estéril e a palpação dos pontos anatómicos de
referência, nomeadamente a patela, tendão patelar e TT. Em seguida, foi realizado o acesso
cirúrgico com uma incisão sigmoide na pele, iniciando-se parapatelar lateral, cruzando sobre
o tendão patelar, prolongando-se distal e medialmente à TT. A película foi suturada à pele, ao
longo dos dois bordos da incisão, para evitar que a mesma se descole durante do
procedimento e exponha a pele, que é uma fonte de contaminação. Em seguida, foram
incididas a gordura e fáscia subcutâneas na mesma linha da pele, com cuidado para não
seccionar o tendão patelar. A mesma incisão foi realizada sobre a fáscia lata, continuando-se
distalmente pela fáscia lateral do joelho, tendo o cuidado de deixar fáscia suficiente no bordo
patelar lateral para permitir suturar este tecido no final. Posteriormente, efetuou-se a
artrotomia através de uma incisão parapatelar lateral na cápsula articular. Com o joelho em
extensão, a patela foi luxada medialmente para expor a articulação (Piermattei e Johnson,
2004). Depois de avaliada tróclea,

62
decidiu-se que a opção de tratamento mais indicada passava pela substituição de tróclea
femoral por uma prótese TRA (Fig. 29).

A colocação do TRA (Fig. 30), foi executada conforme descrito no capítulo anterior.
Na maioria dos casos o tamanho final correspondeu ao implante definido no planeamento. O
tamanho quando escolhido no intraoperatório tratava-se de um número maior do que o
originalmente planeado. Em 3 dos 11 casos (1, 7 e 10), os parafusos foram colocados
unilateralmente. A justificação para isto foi o dano causado no orifício onde estes parafusos
seriam introduzidos, no caso 1, pela anterior colocação das agulhas de fixação e, no caso 10,
pela substituição de um parafuso já colocado. No caso 7, a interceção entre um dos parafusos
do TRA e um dos usados na DFO, impediu a fixação bilateral desta prótese. Apesar desta
situação, a estabilidade da prótese não foi afetada em nenhum dos casos.

Depois da colocação do implante, reposicionou-se a patela na tróclea prostética e


testou- se a sua estabilidade em extensão e flexão com o membro alinhado, assim como em
extensão e flexão com rotação interna e externa da tíbia, antes de encerrar a artrotomia. Em
alguns casos, para que o movimento do MEQ não fosse alterado pela tensão dos tecidos
moles, foi realizada uma artrotomia bilateral, para que o movimento da patela pudesse ser
avaliado sem restrições.

Em todos os casos, outros procedimentos necessários foram realizados, conforme


indicado anteriormente na Tabela 8, nomeadamente TTT, DFO, PTO, TPLO-M/L, imbricação
lateral, desmotomia medial, PPP e resseção da cabeça e colo femoral (RCCF). Os
procedimentos foram sempre executados por uma ordem, de proximal para distal e de forma a
diminuir o tempo de exposição dos implantes ao ar, especialmente da prótese TRA. Por
exemplo, no caso 11, a ordem dos procedimentos realizados foi: DFO, TRA, imbricação
lateral, TTT e PTO. Esta metodologia tem o intuito de diminuir o risco de infeção associado
aos implantes, uma vez que permite o encerramento progressivo do acesso cirúrgico à medida
que se avança na cirurgia e, assim, diminuir o tempo de exposição dos tecidos e implantes a
possíveis contaminações.

63
A B

C D

Figura 28- Casos com indicação cirúrgica para colocação de prótese troclear. A-
Vista tangencial de um joelho com sulco troclear pouco profundo. B- Vista cranial
do mesmo joelho, onde se verifica uma extensa erosão da cartilagem articular,
observada pela tonalidade rosada da mesma. C- Vista cranial de uma tróclea com
osteoartrite avançada, com erosão da cartilagem articular do lado medial e
osteofitose marcada do lábio troclear lateral. D- Vista cranial do joelho de um cão
com luxação patelar de grau IV, com uma tróclea hipoplásica. Fotografias
gentilmente cedidas pela BONEMATRIX – Centro de Cirurgia Veterinária
Avançada.

64
Figura 29- Joelho direito de cão onde foi feita a colocação de um TRA (imagem
obtida previamente à colocação dos parafusos para fixação da prótese). A- Vista
tangencial. B- Vista cranial. Fotografias gentilmente cedidas pela BONEMATRIX –
Centro de Cirurgia Veterinária Avançada.

6. Cuidados pós-operatórios

Após o procedimento cirúrgico, a posição do implante foi sempre verificada através de


projeções radiográficas ortogonais do fémur e da tíbia (CrCd fémur, ML fémur, CdCr tíbia e
ML tíbia) (Fig. 31 e 32).

A analgesia no pós-operatório imediato consistiu em meloxicam (0,2 mg/kg em cães e


0,1 mg/kg em gatos) por via subcutânea (SC) e, quando necessário, era realizado um reforço
da mesma com metadona IM. Não foi utilizado nenhum tipo de fixação externa no membro
intervencionado e o animal podia apoiar o mesmo, se sentisse conforto para tal. A alta foi
dada no próprio dia, todavia os tutores teriam de garantir algum repouso e apenas permitir
passeios à trela, no caso dos cães, de forma a impedir a ocorrência de corridas e saltos.
Recomendou-se o uso de colar isabelino durante 10 dias até à cicatrização da sutura de pele.

65
Nos primeiros dias após o procedimento, foram administrados cefalexina 20 mg/kg
duas vezes por dia (BID), durante 12 dias consecutivos por via oral (PO) e um anti-
inflamatório não esteroide (AINE), por exemplo robenacoxib (Onsior®), 1-2,4 mg/kg nos
gatos e 1-2 mg/kg nos cães), uma vez por dia (SID), durante 6 dias consecutivos PO. Em caso
de necessidade, o reforço da analgesia, nos cães, poderia ser realizado com paracetamol 10-20
mg/kg PO BID, e nos gatos com buprenorfina 0,01-0,02 mg/kg PO, a cada 6 horas. Aos 10
dias após a cirurgia foram realizadas consultas de controlo para vigiar a evolução do caso,
avaliar o aspeto da ferida cirúrgica e remover as suturas. Foi recomendada a realização de
radiografias de controlo (Fig. 17) às 4-8 semanas. Se a intervenção bilateral estivesse
indicada, a segunda operação poderia ser marcada a partir das 4 semanas, dependendo da
evolução do caso. Apesar de não ser imprescindível em todos os casos, a fisioterapia poderia
ser iniciada 24h após a cirurgia. Foi recomendada a realização de crioterapia na ferida
cirúrgica durante 3 a 5 dias, três vezes por dia (TID), por períodos de 10 minutos e a limpeza
diária da mesma com recurso a solução salina estéril e compressas.

A B C D

Figura 30- Exame radiográfico pós-cirúrgico do joelho esquerdo do caso 1. A- Projeção CrCd de fémur: patela
no interior do sulco troclear prostético e TRA aparafusado apenas do lado lateral. B- Projeção ML de fémur: TRA
encaixado por press-fit no osso esponjoso. C- Projeção CdCr de tíbia: deslocamento da TT observável pela
radiotransparência medialmente à mesma e fixação desta com agulhas de Kirschner. D- Projeção ML de tíbia:
osteotomia da TT (linha radiotransparente), com uma fratura da porção distal da mesma, que ocorreu intra
cirurgicamente. As agulhas de Kirschner têm as pontas dobradas proximalmente e a extremidade cranial de uma
delas está afastada do osso. Imagens gentilmente cedidas pela BONEMATRIX - Centro de Cirurgia Veterinária
Avançada.

66
Nos primeiros 3 dias após a cirurgia, é expectável que o animal consiga dar pequenos
passos com o membro operado. Ao fim de 10 dias, espera-se que todos os passos sejam
executados fazendo o apoio do membro intervencionado no chão, ainda que com alívio na
sustentação do peso. A evolução no conforto e uso do membro é variável de animal para
animal, mas deve ser constante. Caso houvesse um retrocesso na evolução do caso, estava
recomendada a realização de um novo exame radiográfico com as projeções ML e
CrCd/CdCr.

Nos primeiros dias do pós-cirúrgico, é expectável a formação de hematoma ou edema


no local intervencionado.

A B C D

Figura 31- Exames radiográficos de controlo do membro pélvico esquerdo do caso 1. A- Projeção ML, um mês
no pós-cirúrgico: aumento da radiopacidade na linha de osteotomia da TT e entre a base da prótese e a
ostectomia femoral (osteointegração). B- Projeção CdCr: patela sobre o sulco troclear do implante. C- Projeção
ML, dois meses no pós-cirúrgico: aumento mais marcado da radiopacidade na linha de osteotomia. D- Projeção
CrCd: patela no interior do sulco prostético. Imagens gentilmente cedidas pela BONEMATRIX – Centro de
Cirurgia Veterinária Avançada.

67
7. Acompanhamento

Todos os animais apoiaram o membro intervencionado nos 3 dias seguintes à cirurgia,


à exceção do caso 11, que apenas começou a fazer esse apoio ao fim de 2 meses. Esta demora
deveu-se à gravidade das deformidades esqueléticas presentes e luxação patelar de grau IV
consequente, que impediam este animal de caminhar previamente à intervenção cirúrgica.
Adicionalmente, as intervenções a que teve de ser submetido, nomeadamente PTO e DFO,
são invasivas, o que nem sempre possibilita uma recuperação rápida.

Em 10 dos 11 casos, a evolução do processo de recuperação foi sempre positiva e, com


o passar dos dias, o apoio de carga foi sendo progressivamente maior até à recuperação total
ou quase total da função. O animal do caso 6 foi a exceção. Este foi intervencionado duas
vezes e na primeira intervenção, fez sulcoplastia e TTT, na qual ocorreu uma fratura distal da
TT aquando da sua execução. Após esta cirurgia começou a utilizar o membro com restrição
do apoio de carga, no entanto ao fim de 2 semanas, quando a dor e a inflamação associadas à
intervenção findaram, começou a claudicar da mesma forma que antes da cirurgia. Na
segunda intervenção, realizada 2 meses após a primeira, foi colocado um implante TRA e, no
próprio dia da cirurgia, começou a apoiar o membro. Foi aumentando o apoio de carga,
contudo, ao fim de 2 semanas houve um agravamento da claudicação e no final de um mês
estava a claudicar como antes da intervenção. Apesar do retrocesso na evolução do caso, o
tutor relatou que notou melhorias relativamente à intervenção anterior, pois o animal não
apresentava tanta dor, estava mais ativo e comia com mais apetite. Ao exame físico verificou-
se que a patela não se encontrava luxada, mas estava localizada muito distalmente no sulco,
fazendo maltracking. Foi realizado um exame radiográfico onde se confirmou a suspeita
levantada pelo exame físico, tendo este animal sido diagnosticado com patela baixa (Fig. 33).
Para a correção deste problema, pondera-se a substituição do TRA por um PGR customizado,
posicionado mais distalmente e a realização de uma osteotomia completa da TT e a
movimentação proximal do fragmento.

68
A

C D

Figura 32- Imagens radiográficas do joelho esquerdo do caso 6. A- Projeção ML


pré- cirúrgica do fémur. B- Projeção ML do fémur após a segunda intervenção
cirúrgica. C- Projeção ML do joelho em flexão máxima, duas semanas após a
segunda intervenção cirúrgica. D- Projeção tangencial do joelho, duas semanas
após a segunda cirurgia. Imagens gentilmente cedidas pela BONEMATRIX –
Centro de Cirurgia Veterinária Avançada.

69
8. Discussão

Na opinião do cirurgião, o tempo de aplicação do TRA foi menor em comparação com


o PGR. Isto deve-se ao menor número de componentes do TRA (1 peça única no TRA versus 2
peças separadas no PGR) e ao menor número de parafusos necessários para a sua fixação (1-2
parafusos no TRA versus 2 parafusos nos tamanhos mais pequenos e 3-4 parafusos nos
tamanhos maiores no PGR).

O PGR é mais alto do que uma tróclea normal, então pode criar uma grande tensão no
MEQ e consequentemente afetar o ROM do joelho, especialmente em cães de raças pequenas
e toy e em gatos. Adicionalmente, acredita-se que esta altura do implante PGR possa induzir
osteoartrite, uma vez que a pressão derivada do contacto entre a patela e o implante é maior
do que do que a pressão observada num joelho normal (Kim et al., 2016). Uma vez que o TRA
tem uma altura próxima da fisiológica, permite aos animais um conforto maior e um tempo
menor de recuperação da função total do membro. Outra grande vantagem do TRA em relação
ao PGR, é a disponibilidade de tamanhos largos intermédios, o que permite abranger um
maior número de animais e em particular os gatos, que têm patelas mais largas relativamente à
tróclea.

Com as sulcoplastias clássicas as erosões da cartilagem articular permaneciam e,


apesar destas técnicas atrasarem a evolução da doença articular degenerativa (DAD), não
repõem a cartilagem perdida. Esta nova prótese permite substituir toda a tróclea e garantir
uma superfície sem atrito, atrasando, ainda mais, a evolução de DAD e proporcionando um
maior conforto ao animal. Adicionalmente, as sulcoplastias clássicas, ao aprofundarem o
sulco troclear, criam alguma lassitude no MEQ, o que, em alguns casos, pode contribuir para
a ocorrência de recidivas da LP. O TRA, para além de possibilitar um sulco troclear mais
profundo, proporciona uns lábios trocleares mais elevados, mantendo a tensão normal sobre o
MEQ e reduzindo, assim, a possibilidade da ocorrência desta complicação.

9. Limitações do trabalho

Por se tratar de um centro de cirurgia veterinária avançada, os animais, na maior parte


das vezes, são referenciados de outros centros de atendimento médico-veterinários (CAMV),
onde, muitas vezes, são realizadas as consultas de controlo. Desta forma, e apesar da
variedade e qualidade das técnicas cirúrgicas oferecidas a cada animal, é perdido algum

70
contacto com os tutores e, consequentemente, perde-se alguma informação sobre a evolução
dos casos. Nestas

71
situações, se não houver um novo contacto por parte dos tutores ou das clínicas referentes
relativamente aos animais intervencionados, assume-se que o caso teve um desfecho positivo
e o animal recuperou favoravelmente.

Outras limitações, que contribuem para a subjetividade das interpretações realizadas,


incluem o reduzido número de casos, uma vez que se trata de uma prótese recente no
mercado, e o insuficiente número de dados para comparar de forma objetiva as diferenças e
semelhanças da aplicação do TRA com outras técnicas. Deste modo, as conclusões baseiam-se
na experiência e opinião do cirurgião.

10. Conclusão

A técnica de implantação do TRA é relativamente simples e tem uma curva de


aprendizagem rápida, no entanto muitos dos casos que requerem a colocação deste tipo de
prótese apresentam deformidades esqueléticas que exigem técnicas de correção complexas e
que, normalmente, são apenas realizadas por cirurgiões muito experientes. Adicionalmente,
este tipo de procedimentos requer instrumentação específica e técnicas de imagem avançadas,
que não estão disponíveis em todos os CAMV. A prótese e respetiva instrumentação, em
conjunto com as osteotomias corretivas muitas vezes necessárias, têm custos elevados que
impedem uma utilização mais ampla fora dos centros de referência cirúrgica.

É necessária a realização de estudos para ficar a conhecer a taxa de complicações


associada a este implante e para fazer comparações objetivas entre as diferentes técnicas.
Todavia, o TRA demonstrou bons resultados a partir dos primeiros dias após a cirurgia. No
geral, os animais adaptaram-se rapidamente ao novo formato troclear e fizeram um uso quase
imediato do membro intervencionado.

72
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