Fundamentos da Gestão de Pessoas
Fundamentos da Gestão de Pessoas
Fundamentos da Gestão de
Pessoa
O QUE SERÁ VISTO NESTE CAPÍTULO QUE REFLEXÕES SERÃO
ESTIMULADAS
Bases conceituais para compreender a gestão
de pessoas ❖ Como podemos compreender a
o Competências gestão de pessoas que ocorre por
o Complexidade detrás dos sistemas formais.
o Espaço ocupacional ❖ Como podemos efetuar um
diagnóstico de nosso
Elementos estáveis na gestão de pessoas
posicionamento e perspectivas de
o Expectativa em relação às pessoas carreira.
o Trajetórias de carreira ❖ Quais são os aspectos perenes na
gestão de pessoas, mesmo em um
Gestão de pessoas em um ambiente em
ambiente de incertezas e
constante transformação
ambiguidades.
o Tendências na gestão de pessoas
o Efeitos perversos a serem evitados na
gestão de pessoas CONEXÕES COM O NOSSO
o Expectativas das pessoas
o Expectativas das organizações
COTIDIANO
o Conciliação de expectativas entre pessoas e
organização ❖ Diagnóstico de minha carreira
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A empresa Atende Bem atua no mercado de call centers, atualmente o efetivo da Atende Bem é de 3500
funcionários distribuídos em 5 centrais interligadas entre si. Desse modo a empresa presta serviço para todo o
território nacional. A empresa tem hoje um grande desafio que é o de motivar e comprometer os funcionários
com o negócio da empresa. As características do efetivo das centrais são:
• Tempo médio de permanência na empresa – 2 anos;
• Perfil: sexo feminino – 83%, idade média – 21 anos, nível educacional – superior em andamento, estado
civil – solteiro;
• Quantidade de atendimento em média a cada turno (4 horas) – 235 atendimentos.
Em pesquisa de clima organizacional realizada por uma empresa especializada foram levantados os seguintes
problemas:
• Insatisfação em relação aos salários;
• Falta de carreira e oportunidades de desenvolvimento;
• Alto nível de pressão.
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No Brasil, ao longo dos últimos 20 anos, ao analisarmos organizações bem-sucedidas
em gestão de pessoas, tanto utilizando parâmetros de análise definidos por pesquisas
acadêmicas nacionais e internacionais, quanto utilizando a opinião das pessoas através
das suas percepções sobre sua relação com a organização, verificamos pontos em
comum entre as suas políticas e práticas. Esses pontos em comum podem ser
DESTAQUE DE simplificados nos seguintes tópicos:
PÁGINA
• Continuo diálogo com as pessoas que mantêm algum tipo de relação com a
Das organizações organização;
analisadas 85%
• Alinhamento entre as políticas e as práticas de gestão de pessoas e destas com o
utilizam conceitos
integradores de intento estratégico da organização;
suas políticas e • Esforço permanentemente voltado para o desenvolvimento da organização e das
práticas, ou seja, é
pessoas;
utilizada uma
mesma base • Relacionamento com as pessoas justo e equânime, buscando a conciliação das
conceitual para expectativas da organização e das pessoas.
valorização,
desenvolvimento e
movimentação das
Das organizações analisadas 85% utilizam conceitos integradores de suas políticas e
pessoas.
práticas, ou seja, é utilizada uma mesma base conceitual para valorização,
desenvolvimento e movimentação das pessoas. Conceitos que no início dos anos 90
eram utilizados para diagnóstico hoje são utilizados como integradores. A seguir esses
conceitos são apresentados e discutidos.
COMPETÊNCIA
No final dos anos 80 e início dos anos 90 percebíamos uma inflexão na gestão de
pessoas, onde as pessoas eram demandadas e valorizadas pelo seu nível de
contribuição para o desenvolvimento da organização.
O conceito de competência foi proposto de forma estruturada pela primeira vez em 1973,
David McClelland (1973), na busca de uma abordagem mais efetiva que os testes de
inteligência nos processos de escolha de pessoas para as organizações. O conceito foi
rapidamente ampliado para dar suporte a processos de avaliação e para orientar ações
de desenvolvimento profissional. Outro expoente na estruturação do conceito é Boyatzis
(1982:13) que a partir da caracterização das demandas de determinado cargo na
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organização, procura fixar ações ou comportamentos efetivos esperados. Em seu
trabalho, o autor já demonstra preocupação com questões como a entrega da pessoa
para o meio no qual se insere. A percepção do contexto é fundamental para que a pessoa
possa esboçar comportamentos aceitáveis. Mas, são autores como Le Boterf (1995,
2000, 2001 e 2003) e Zarifian (1996 e 2001) que exploram o conceito de competência
associado à ideia de agregação de valor e entrega a determinado contexto de forma
independente do cargo, isto é, a partir da própria pessoa. Essa construção do conceito
de competência explica de forma mais adequada o que observamos na realidade das
organizações.
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SAIBA MAIS
Observamos que a troca entre organização e pessoas ocorre em qualquer organização independentemente de estar
estruturada ou não. Em 1994 acompanhamos a modernização de uma grande organização metalúrgica que introduziu
técnicas avançadas de gestão de projetos. Nesse movimento um fato despertou nossa atenção: a gestão de pequenos
projetos.
Até então pequenos projetos demoravam em média 8 meses para serem concluídos. Ao modernizar a gestão de projetos
a organização estabeleceu como objetivo reduzir esse prazo para cinco dias úteis. Após um ano havia reduzido para
quatro dias úteis. Em 2008 esse prazo já estava em 1,3 dias e em 2012 em 0,6 dia.
Em 1994 um grupo de pessoas introduziu essa tecnologia no patrimônio de conhecimentos da organização e as pessoas
que vieram posteriormente foram aperfeiçoando. As pessoas ao desenvolverem-se em gestão de projetos ajudaram a
organização a se desenvolver. As pessoas que entraram na organização após 1994 não tinham a memória do que ocorria
antes e beberam do conhecimento existente na organização. No tempo essas pessoas contribuíram, também, para o
aperfeiçoamento do patrimônio de conhecimento da organização.
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Essas categorias são importantes para discutirmos sua relação com as competências
individuais. Inicialmente, as pessoas eram encaradas como um tipo de recurso na
construção de competências. Barney (1991) classificava os recursos organizacionais em
três categorias: físicos – planta, equipamentos, ativos; humanos – gerentes, força de
trabalho, treinamento; e organizacionais – imagem, cultura. A literatura recente considera
como recursos os conhecimentos e as habilidades que a organização adquire ao longo
do tempo (KING et al, 2002). Nesse contexto, as pessoas estão inseridas em todos os
recursos, independentemente da forma como são classificados, e, portanto, na geração
e sustentação das competências organizacionais. Como exemplo: as pessoas estão
presentes em todos os tipos de recursos propostos por Mills et al (2002): tangíveis;
conhecimento, experiência e habilidades; sistemas e procedimentos; valores e cultura;
rede de relacionamentos. E são fundamentais para a contínua transformação da
organização.
DESTAQUE DE
A partir dessas considerações, não podemos pensar as competências individuais de
PÁGINA
forma genérica e sim atreladas às competências essenciais para a organização. As
As
competências entregas esperadas das pessoas devem estar focadas no que é essencial. Assim
individuais procedendo, as pessoas estarão mais orientadas em suas atividades, no seu
devem estar desenvolvimento e nas possibilidades de fazer carreira dentro da organização.
atreladas às Parâmetros e instrumentos de gestão de pessoas estarão também direcionados de forma
competências consistente e coerente com o intento estratégico da organização. Por exemplo: o que
essenciais para valorizar nas pessoas, como avaliar sua contribuição, como estruturar as verbas
a organização. remuneratórias, critérios de escolha etc.
A questão da origem das competências individuais é essencial para a caracterização das
expectativas da organização em relação às pessoas. Os trabalhos desenvolvidos por
Fleury (2000) mostram relação íntima entre a estratégia da organização, as
competências organizacionais e as competências individuais. A partir das tipologias
propostas por Treacy e Wiersema (1995) e por Porter (1996), os autores estabelecem
três formas de competir: (FLEURY, 2000;45):
• Excelência operacional;
• Inovação em produtos;
• Orientada para clientes.
A partir dessas categorias, é possível verificar que a forma de competir influencia o
estabelecimento de competências organizacionais, ou seja, existem competências
organizacionais típicas de uma organização que se enquadra dentro de determinada
categoria. Cabe o mesmo raciocínio para as competências individuais. Na organização
cuja forma de competir se caracteriza pela excelência operacional, naturalmente a
pessoa deverá atender a um determinado conjunto específico de exigências. É o que se
vê no Quadro 2.1
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Quadro 2.1 – Relação entre intento estratégico, competências organizacionais e
competências individuais
COMPETÊNCIAS COMPETÊNCIAS
ESTRATÉGIA
ORGANIZACIONAIS INDIVIDUAIS
▪ Capacidade de inovação
▪ Comunicação eficaz
Foco na Customização ▪ Inovação de produtos e ▪ Articulação interna e externa
processos ▪ Absorção e transferência de
Inovação em Produtos conhecimentos
▪ Qualidade
(produtos para clientes ▪ Liderança e trabalho em equipe
ou segmentos ▪ Monitoramento tecnológico ▪ Resolução de problemas
específicos)
▪ Imagem ▪ Utilização de dados e
informações técnicas
▪ Parcerias tecnológicas
estratégicas ▪ Aprimoramento de
processos/produtos e
participação em projetos
Fonte: Quadro desenvolvido pelo autor a partir das reflexões efetuadas por Fleury
(2000).
DESTAQUE DE
PÁGINA
Embora, na
Segundo o Quadro 2.1, os gerentes financeiros das duas organizações terão diferentes
prática
conjuntos de entregas esperadas, mesmo que sua descrição de cargo seja semelhante.
organizacional
, as decisões Nesse exemplo, é possível notar que o tipo de empresa irá determinar o conjunto de
sobre as entregas esperado das pessoas, ainda que isso não esteja formalizado ou consciente,
pessoas influenciando os processos de escolha de candidatos externos, os processos de
sejam ascensão, de valorização etc.
tomadas em
função do que Caracterização das competências individuais
elas entregam Muitas pessoas e alguns teóricos compreendem a competência, como o conjunto de
o sistema conhecimentos, habilidades e atitudes necessárias para que a pessoa desenvolva suas
formal,
atribuições e responsabilidades. Esse enfoque é pouco instrumental, uma vez que, o fato
concebido em
geral a partir
de as pessoas possuírem determinado conjunto de conhecimentos, habilidades e
do conceito de atitudes, não é garantia de que elas irão agregar valor para a organização. Para melhor
cargos, as vê compreender o conceito de competência individual é importante discutir também o
pelo que conceito de entrega.
fazem.
Para efeitos de admissão, demissão, promoção, aumento salarial etc. a pessoa é
avaliada e analisada em função de sua capacidade de entrega para a empresa. Por
exemplo, ao escolhermos uma pessoa para trabalhar conosco, além de verificar sua
formação e experiência avaliamos também como ela atua, sua forma de entregar o
trabalho, suas realizações; enfim, cada um de nós usa diferentes formas de assegurar
que a pessoa que estamos escolhendo terá condições de obter os resultados de que
necessitamos. Embora, na prática organizacional, as decisões sobre as pessoas sejam
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tomadas em função do que elas entregam o sistema formal, concebido em geral a partir
do conceito de cargos, as vê pelo que fazem. Este é um dos principais descompassos
entre a realidade e o sistema formal de gestão. Ao avaliarmos as pessoas pelo que fazem
e não pelo que entregam, criamos uma lente que distorce a realidade.
Fomos educados a olhar as pessoas pelo que fazem e é dessa forma que os sistemas
tradicionais as encaram. Intuitivamente, valorizamos as pessoas por seus atos e
realizações e não pela descrição formal de suas funções ou atividades. Ao mesmo
tempo, somos pressionados pelo sistema formal e pela cultura de gestão a considerar a
descrição formal, gerando distorções em nossa percepção da realidade. Por exemplo:
tenho dois funcionários em minha equipe com as mesmas funções e tarefas, que são
remunerados e avaliados por esses parâmetros. Um deles, quando demandado para
resolver um problema, traz a solução com muita eficiência e eficácia e é, portanto, uma
pessoa muito valiosa. O outro não deixa o problema acontecer. Este é muito mais valioso
só que, na maioria das vezes, não é reconhecido pela chefia ou pela empresa.
Considerar as pessoas por sua capacidade de entrega nos dá uma perspectiva mais
adequada para avaliá-las, orientar seu desenvolvimento e estabelecer recompensas.
Sob essa perspectiva é que vamos analisar os conceitos de competência individual.
Muitos autores procuraram discutir a questão tentando entender, como competência, a
capacidade das pessoas em agregar valor para a organização. Nessas tentativas,
surgiram vários conceitos.
Para alguns autores, a maioria de origem norte americana, que desenvolveram seus
DESTAQUE DE trabalhos nos anos 70, 80 e 90, competência é o conjunto de qualificações (underlying
PÁGINA characteristics) que permite à pessoa uma performance superior em um trabalho ou
Considerar as
situação. Os conceitos de seus principais expoentes McClelland, (1973), Boyatzis (1982)
pessoas por sua e Spencer & Spencer (1993), formaram a base dos trabalhos da McBer, mais tarde Hay
capacidade de McBer, importante consultoria em competência. As competências podem ser previstas e
entrega nos dá uma estruturadas de modo a se estabelecer um conjunto ideal de qualificações para que a
perspectiva mais pessoa desenvolva uma performance superior em seu trabalho.
adequada para
avaliá-las, orientar Durante os anos 80 e 90, muitos autores contestaram a definição de competência
seu associada ao estoque de conhecimentos e habilidades das pessoas e procuraram
desenvolvimento e associar o conceito às suas realizações àquilo que elas provêm, produzem e/ou
estabelecer
entregam. Segundo eles o fato de a pessoa deter as qualificações necessárias para um
recompensas.
trabalho não assegura que ela irá entregar o que lhe é demandado. Essa linha de
pensamento é defendida por autores como Le Boterf (1995) e Zarifian (1996). Para Le
Boterf, por exemplo, a competência não é um estado ou um conhecimento que se tem,
nem é resultado de treinamento. Na verdade, competência é colocar em prática o que
se sabe em determinado contexto, marcado geralmente pelas relações de trabalho,
cultura da empresa, imprevistos, limitações de tempo e de recursos etc. Nessa
abordagem, portanto, podemos falar de competência apenas quando há competência
em ação, traduzindo-se em saber ser e saber mobilizar o repertório individual em
diferentes contextos.
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Há grande diversidade de conceitos sobre competências que podem ser
complementares. Estruturamos esses vários conceitos na Figura 2.1, na qual temos, de
um lado, as competências entendidas como o conjunto de conhecimentos, habilidades e
atitudes necessárias para a pessoa exercer seu trabalho; e de outro lado, temos as
competências entendidas como a entrega da pessoa para a organização.
• As descrições das várias entregas estiverem alinhadas entre si, ou seja, estamos
olhando a mesma pessoa através de diferentes competências ou por diferentes
perspectivas. Esse alinhamento ocorrerá, como veremos adiante, com a graduação
das competências em termos de complexidade.
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• As competências devem ser graduadas em função do nível de complexidade da
entrega. A graduação permite melhor acompanhamento da evolução da pessoa em
relação à sua entrega para a organização e/ou negócio.
COMPLEXIDADE
O conceito de competência, embora seja muito importante para compreender a base da
DESTAQUE DE contribuição e relação entre pessoas e organização, não nos permite uma mensuração
PÁGINA da contribuição da pessoa para o contexto.
Na medida em No início dos anos 90 nossa busca foi encontrar uma forma de mensurar a contribuição
que a pessoa das pessoas para o contexto. Conseguimos encontrar uma forma indireta de
assume mensuração. A contribuição das pessoas tem características subjetivas, já que estamos
atribuições e verificando que a demanda sobre as pessoas é cada vez menos tangível. A forma
responsabilidade indireta foi a complexidade.
s de maior
complexidade, Percebemos que na medida em que a pessoa assume atribuições e responsabilidades
naturalmente de maior complexidade, naturalmente agrega mais valor ao contexto. Neste caso
agrega mais valor estamos falando de qualquer contexto, não só o organizacional.
ao contexto onde
Vamos utilizar um exemplo, quando o casal tem seu primeiro filho. As relações com pais,
se insere.
sogros, irmãos e cunhados muda, não é que fossem inadequadas antes, mas o filho traz
uma complexidade maior na relação familiar e provoca a percepção de aspectos
importantes da relação com a família que o casal não percebia antes do primeiro filho.
O mesmo fenômeno se dá nas organizações, na medida em que a pessoa assume
posições mais exigentes passa a compreender melhor o contexto onde se insere e a
oferecer melhores respostas ao mesmo.
DESTAQUE DE Critérios de valorização das pessoas
PÁGINA
Temos observado que o processo de valorização das pessoas pelo mercado e pela
Até bem pouco empresa está vinculado ao nível de agregação de valor para a empresa e para o negócio.
tempo atrás eu Essa agregação de valor até bem pouco tempo podia ser medida pelo cargo e pelo nível
podia dizer que um hierárquico da pessoa na empresa. Nesses últimos vinte anos isso mudou. Até bem
supervisor de
pouco tempo atrás eu podia dizer que um supervisor de produção agregava mais valor
produção agregava
que um ajudante de produção. Mas hoje, eu não posso porque não existe mais o
mais valor que um
ajudante de ajudante de produção, existe agora o operário multifuncional e polivalente, não existe
produção. Mas mais o supervisor, mas sim grupos semiautônomos e autogeridos. Antes eu podia dizer
hoje, eu não posso que um diretor da empresa agregava mais valor do que um gerente, hoje eu tenho um
porque não existe gerente de uma unidade de negócio que fatura 500 milhões de reais por ano que agrega
mais o ajudante de mais valor do que um diretor de outra unidade de negócio que fatura 50 milhões de reais
produção, existe por ano.
agora o operário
multifuncional e O mercado não podia ficar sem um elemento de diferenciação a partir da falência dos
polivalente, não cargos como elementos diferenciadores. Naturalmente passou a utilizar a complexidade
existe mais o das atribuições e responsabilidades como elemento de diferenciação.
supervisor, mas
sim grupos A questão da complexidade sempre esteve presente nos critérios de diferenciação dos
semiautônomos e cargos, só que com a falência dos mesmos como elemento de diferenciação a
autogeridos. complexidade passou a ocupar o primeiro plano.
Ao analisarmos as descrições de cargo ao longo dos anos 90 notamos transformações
em suas características. No final dos anos 80 eram tipicamente descrições das funções
e atividades dos cargos, hoje procuram traduzir as expectativas de entrega desses
cargos e apresentam uma escala crescente de complexidade. Percebemos que as
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empresas vão intuitivamente procurando adequar-se à realidade. Ao fazê-lo
conscientemente, entretanto, tornamos nossos sistemas de gestão mais eficientes.
A questão da complexidade nos processos de valorização das pessoas sempre esteve
presente. Pesquisadores como Jaques (1967) já produziam reflexões a esse respeito no
final dos anos 50. Em 1956, Jaques escrevia sobre o assunto e o livro Equitable Payment
foi publicado pela primeira vez em 1961. Jaques lançava a ideia de “time span”, ou seja,
“o maior período de tempo durante o qual o uso do discernimento é autorizado e
esperado, sem revisão por um superior” (Jaques, 1967:21). O autor demonstra que
quanto maior o time span, maior a complexidade da posição e maior o nível
remuneratório. Em suas proposições sobre complexidade, Jaques é muito reducionista,
acreditando que somente o time span seria suficiente para determinar a complexidade.
Seus seguidores Stamp (1989, 1993 1994j e 1994a) e Rowbottom (1987) demonstraram
a necessidade de elementos adicionais para essa caracterização.
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Figura 2.2 – Dimensões de complexidade
Variáveis Diferenciadoras
Eixo de Nível de Abrangência Escopo de Nível de Estruturação Tratamento da Autonomia e
Desenvolvimento Atuação da Atuação Responsabilidade das Atividades Informação Grau de Supervisão
IV
Tática Analisa e
Unidade Recomenda
de negócio
III Regional
Sistematiza /
Área Organiza
II
Alto nível de
padronização, Baixo nível
estruturação de
I Operacional Local Atividades e rotina Coleta autonomia
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• Análise da efetividade das ações de desenvolvimento – ao estabelecer com a
pessoa um plano de ação de desenvolvimento, temos a cumplicidade dela e de sua
chefia em relação ao plano. A consciência da necessidade do desenvolvimento pelas
pessoas aumenta as chances de sucesso. O sucesso das ações de desenvolvimento
pode ser medido ao serem analisadas as mudanças na entrega da pessoa. Assim,
pode-se medir o quanto foram efetivas as ações de desenvolvimento;
• Adequação das ações de desenvolvimento – o desenvolvimento de uma pessoa
deve ter como base a sua individualidade e singularidade. Pessoas se desenvolvem
usando de forma cada vez mais elaborada e sofisticada seus pontos fortes (STAMP,
1993). Ações de desenvolvimento devem, portanto, centrar-se nos pontos fortes das
pessoas.
ESPAÇO OCUPACIONAL
O terceiro conceito é decorrente da relação existente entre complexidade e entrega. Ao
considerarmos que uma pessoa agrega mais valor na medida em que assume
responsabilidades e atribuições mais complexas concluímos que não é necessário
promovê-la para que possa agregar mais valor. A pessoa pode ampliar o nível de
complexidade de suas atribuições e responsabilidades sem mudar de cargo ou posição
na empresa. Vamos chamar esse processo de ampliação do espaço ocupacional. A
ampliação do espaço ocupacional acontece em função de duas variáveis: as
necessidades das organizações e a competência da pessoa em atendê-las, conforme
mostra a figura 2.3.
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Figura 2.3 – Espaço Ocupacional
Temos observado que essa é outra característica comum da relação entre a pessoa e
seu trabalho. Há uma tendência de as pessoas mais competentes serem demandadas a
responder desafios e na medida em que respondem bem recebem desafios maiores. Os
sistemas tradicionais não conseguem dar respostas adequadas a essa característica,
primeiramente porque reconhece as pessoas pelo que elas fazem e não pelo que elas
entregam e em segundo lugar porque não conseguem mensurar a ampliação do espaço
ocupacional das pessoas.
Esse fato tem contribuído para a existência de muitas injustiças nas empresas, por
exemplo: tenho na minha equipe alguém que resolve os problemas para mim, eu tendo
a carreá-los para essa pessoa sem que ela seja necessariamente reconhecida ou
recompensada por isso. Na verdade, a pessoa mais competente tende a ser
sobrecarregada com atribuições mais complexas e exigentes sem ter qualquer
reconhecimento por isso. Outro exemplo comum é chefia ficar tão dependente dessas
pessoas que passam a bloquear qualquer possibilidade de ascensão profissional.
É importante percebermos a ampliação de espaço ocupacional como uma indicação do
desenvolvimento da pessoa e da sua maior capacidade de agregar valor, devendo,
portanto, estar atrelada ao crescimento salarial.
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SAIBA MAIS
Recomendamos a leitura dos livros sobe competências produzidos ao longo da primeira
década dos anos 2000: Zarifian (2001);Dutra (2004); Dutra, Fleury e Ruas (2008) Ruas, Retour,
Picq e Defélix (2009)
Apesar de vivermos em um ambiente cada vez mais instável, verificamos que existem
parâmetros estáveis nas expectativas da organização em relação às pessoas e no
movimento das pessoas dentro das organizações. Esses parâmetros estáveis permitem
observarmos a gestão de pessoas ao longo do tempo e um diagnóstico das políticas e
práticas da organização.
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permanecem na organização. Desse modo, as pessoas ao saírem das organizações
deixam um legado que permanecerá e será utilizado por outras pessoas.
FIQUE ATENTO
Procure observar quais são as entregas esperadas de você em seu local de trabalho, mesmo
que as mesmas não estejam explicitadas. Para se orientar nessa reflexão efetue as seguintes
questões:
DICAS
Para verificar se estamos atendendo ou não as demandas sobre nós podemos observar as
seguintes manifestações de chefias e colegas:
• Satisfação das chefias e colegas em relação aos trabalhos realizados por nós;
• Espaço que temos em reuniões ou situações que estamos interagindo com nossos
colegas e chefias;
• Complexidade dos trabalhos atribuídos a nós em comparação com os trabalhos
atribuídos aos nossos colegas.
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Assim como as competências organizacionais se mantêm estáveis o mesmo ocorre com as
expectativas da organização em relação às entregas e contribuições das pessoas, chamadas
de competências individuais. Desde o início dos anos 90 já acompanhamos a implantação e
evolução das competências individuais em mais de 650 organizações que atuam no Brasil e
constatamos que as expectativas em relação às pessoas se alteram muito pouco ao longo
da história da organização.
TRAJETÓRIAS DE CARREIRA
Desde os anos oitenta verificamos que as trajetórias de carreiras nas organizações e no
mercado não se organizam por profissão ou por função, mas sim pela natureza das
atribuições e responsabilidades. Desse modo, pessoas que exercem atividades de mesma
natureza estão na mesma trajetória. A natureza das atribuições e responsabilidades é
definida por um conjunto de fatores onde os dois principais são: público para o qual se
destina o trabalho e a natureza do conhecimento técnico. Como, por exemplo: se um
engenheiro de produção entra na organização como engenheiro de operações, depois tem
sua função alterada para engenheiro de manutenção e depois para engenheiro de
processos, está na mesma trajetória de carreira, embora tenha atuado em três funções
diferentes, porque todas as três funções são atribuições e responsabilidades de mesma
natureza.
Nos anos noventa vivenciamos duas experiências importantes no estudo sobre carreiras. A
primeira foi quando tentávamos discutir como as competências se distribuíam na realidade
cada vez mais exigente de nossas organizações. Verificamos rapidamente que as entregas
requeridas das pessoas em uma organização não são uniformes. Inicialmente acreditávamos
que as competências se organizavam da mesma forma como os cargos: operacionais,
técnicos, vendas gerenciais e assim por diante. Verificamos rapidamente que obedeciam a
uma outra lógica, havia um grande alinhamento entre as entregas requeridas de um grupo e
a caracterização que tínhamos das trajetórias de carreira. Essa descoberta nos levou a
investigar mais profundamente como as trajetórias de carreira se organizavam.
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trajetória de carreira ao longo de sua vida profissional, mudavam de função, de empresa e,
DESTAQUE DE mesmo, de país, mas não mudavam de trajetória de carreira.
PÁGINA
Nos anos dois mil continuamos nossos trabalhos de pesquisa e nos surpreendemos com
As pessoas ao outras duas constatações. A primeira foi que as trajetórias de carreira nas organizações não
mudarem de se alteram, mesmo quando há mudança de estrutura organizacional ou de organização do
trajetória de trabalho, já que as trajetórias estão assentadas nos macroprocessos. Verificamos que as
carreira mudam
trajetórias de carreira de uma organização sofrem alterações somente quando há uma
sua identidade
mudança na natureza do negócio, como analisaremos com maior profundidade ao longo
profissional e
vivem um deste capítulo. Para solidificarmos essa constatação analisamos a movimentação das
grande estresse. pessoas em mais de duzentas empresas brasileiras.
A segunda foi que as pessoas ao mudarem de trajetória de carreira mudam sua identidade
profissional e vivem um grande estresse. Já acompanhávamos a literatura a respeito da
transição de carreira, mas não tínhamos ainda relacionado com a transição de trajetória de
carreira. Com base nessas constatações revisitamos as biografias analisadas para constatar
que as pessoas viveram um incidente critico em suas carreiras quando haviam mudado de
trajetória de carreira.
Observamos que as trajetórias de carreira são definidas por um lado pelos macroprocessos
da organização e de outro pela natureza das trajetórias que podemos agrupar em três
categorias:
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Podemos observar que as trajetórias de carreira têm diferentes espectros de complexidade,
geralmente o espectro de trajetórias ligadas às atividades fim da organização tendem a ser
maiores do que o espectro de trajetórias ligadas às atividades meio.
A gestão de carreiras foi sempre uma questão-chave em nossos trabalhos por nos ajudar a
compreender as trajetórias reais das pessoas nas organizações trabalhadas. Ao
compreendermos essas trajetórias, podemos desenvolver uma visão crítica em relação a
elas, observando o quanto essas trajetórias atendem ou não aos interesses da organização
e das pessoas. A análise das trajetórias nos permite encontrar referenciais estáveis para a
gestão de pessoas, ou seja, parâmetros para a gestão de pessoas que não mudam no
tempo, independentemente de a empresa alterar seu intento estratégico ou estar se
associando a outras empresas ou, ainda, incorporando outras empresas. Esse aspecto se
reveste de grande importância para orientar o desenvolvimento das pessoas no ambiente
volátil em que vivemos e provavelmente, continuaremos a viver.
FIQUE ATENTO
Analise as trajetórias de carreira existentes na organização onde trabalha ou estagia. Verifique
em qual e em que ponto da trajetória de carreira você está. Essa informação possibilitará as
seguintes reflexões sobre a sua carreira na organização:
No caso de uma empresa que produz lingotes de alumínio, encontramos quatro trajetórias
de carreira: operacional, englobando pessoas que produzem o alumínio; técnica, englobando
pessoas que atuam na engenharia de produção, qualidade, segurança e meio ambiente;
suporte, englobando as pessoas que atuam em atividades administrativas, financeiras, de
tecnologia de informação, jurídica etc. e gerencial, englobando as pessoas com
responsabilidades gerenciais na empresa. Essas trajetórias existem desde a inauguração
dessa empresa, ocorrida há quase 50 anos, embora a empresa já tenha passado por várias
revisões da estrutura organizacional e tenha mudado a origem de seu capital duas vezes.
Nos próximos 50 anos, se a empresa não mudar sua natureza, manterá a mesma estrutura
de trajetórias profissionais. Por que? Porque ao manter a mesma natureza, sempre haverá
pessoas produzindo o alumínio, pessoas atuando em engenharia, pessoas efetuando
atividades administrativo-financeiras e pessoas em posições gerenciais.
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Vamos analisar um caso onde houve mudança da natureza da empresa: trata-se do CPqD,
fundação de direito privado que atua em tecnologia de telecomunicações. O CPqD foi
formado em 1976 como o braço tecnológico do Sistema Telebrás, ligado à sua Diretoria
Técnica; com a privatização da telefonia, o CPqD foi transformado em uma empresa que
necessitava sobreviver a partir de sua atuação. As trajetórias profissionais existentes até a
privatização eram: técnica, englobando o pessoal de desenvolvimento tecnológico; de
suporte, englobando o pessoal de administrativo, financeiro, de tecnologia de informação
aplicado aos sistemas de apoio, jurídico etc.; e gerencial, englobando o pessoal responsável
pela gestão do CPqD. Com a privatização, a empresa mudou a sua natureza e passou a ter
que vender seus produtos no mercado mundial. Nesse momento, surgiu uma nova trajetória,
que é a comercial, englobando pessoas que cuidam hoje das parcerias estratégicas, da
construção e manutenção da imagem da empresa, do relacionamento com o mercado e com
os clientes e que asseguram a entrega do que foi vendido.
SAIBA MAIS
Para aprofundar a compreensão sobre trajetórias de carreira recomendamos a leitura das
segundas edições dos livros de Dutra sobre competências (2016) e carreira (2017)
Olhando dessa forma, não parece uma situação alvissareira. Devemos considerar que,
ao procederem dessa maneira as organizações, estarão orientando sua gestão para o
curto prazo e poderão sofrer as consequências disso. A principal delas será a dificuldade
de sustentar vantagens competitivas e de atrair e reter pessoas importantes para a
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organização. Cada vez mais, essas pessoas procuram uma relação que lhes agregue
valor e desenvolvimento profissional.
Podemos prever, portanto, que as organizações irão aprender com seus erros e, ao
longo do tempo, estarão genuinamente preocupadas com o desenvolvimento das
pessoas. Nesse momento, as organizações com experiências bem-sucedidas e levadas
a sério serão paradigmáticas para o mercado como um todo. E terão clara vantagem na
disputa por pessoas que podem agregar um diferencial competitivo para seus negócios.
A maior exigência não será somente em termos da qualificação e/ou formação das
pessoas, mas também de sua capacidade de resposta para as necessidades da
organização e/ou negócio. Por conta disso, o investimento efetuado pela sociedade
como um todo no desenvolvimento das pessoas será menos no conhecimento (saber) e
na habilidade (saber fazer) e mais na competência (capacidade das pessoas na
articulação de conhecimentos, habilidades e atitudes no contexto em que se inserem).
Definir com precisão quais são as competências demandadas pela organização e pela
DESTAQUE DE sociedade será um fator essencial para garantir a sustentação de vantagens
PÁGINA competitivas e para dar melhor foco aos investimentos em educação. Esse movimento
será liderado pelas organizações e, rapidamente, outros segmentos da sociedade se
O investimento
incorporarão a ele.
efetuado pela
sociedade como um O estabelecimento das competências requeridas das pessoas permitirá também maior
todo no agilidade na troca de carreiras profissionais por parte das pessoas. A reciclagem
desenvolvimento das
profissional será cada vez mais frequente em nossa sociedade e várias entidades
pessoas será menos
estarão envolvidas no processo: sindicatos, associações profissionais, governo,
no conhecimento
(saber) e na escolas, empresas do terceiro setor etc.
habilidade (saber
De outro lado, podemos antever um crescimento da demanda por profissionais mais
fazer) e mais na
bem preparados, com o aumento da complexidade de nossas organizações e do
competência
(capacidade das contexto onde se inserem. Nesse caso, as organizações e as pessoas mais bem
pessoas na preparadas terão clara vantagem sobre as demais.
articulação de
conhecimentos,
habilidades e
atitudes no contexto
em que se inserem).
21
EFEITOS PERVERSOS A SEREM EVITADOS NA GESTÃO DE
PESSOAS
Como vimos, as organizações estão sendo pressionadas para rever a forma de gerir
pessoas. Essa revisão ocorre, na maior parte dos casos, como uma reação das
organizações às pressões recebidas e com baixo nível de consciência dos fatos. Os
casos bem-sucedidos são copiados por outras organizações, sem preocupação com a
compreensão do contexto no qual o caso estava inserido, nem com os aspectos
geradores do sucesso. O baixo nível de consciência irá provocar o uso inadequado de
conceitos e ferramentas. Esse uso inadequado, por sua vez, criará uma série de efeitos
DESTAQUE DE indesejáveis: chamados efeitos perversos.
PÁGINA
Os efeitos perversos mais encontrados até aqui foram os seguintes:
Esses efeitos
• Desarticulação conceitual. Existem muitas formas para interpretar e utilizar os
indesejáveis podem
ser evitados se as conceitos de competência, complexidade e espaço ocupacional. A articulação entre
organizações e seus os conceitos e a prática é fundamental para sustentar a coerência da gestão de
dirigentes se pessoas pela organização. A ausência dessa articulação tem gerado casos de
mantiverem atentos organizações com práticas tradicionais de gestão de pessoas, revestidas de
às expectativas e modernismos. Ou seja, as organizações têm um discurso moderno de gestão de
necessidades da pessoas e uma prática retrógada. Nesse caso, o discurso não consegue sustentar-
organização e das se no tempo e os conceitos são desacreditados;
pessoas.
• Exploração do trabalhador. Os conceitos e as práticas modernas de gestão são
mais eficientes para gerar o comprometimento do trabalhador com a organização
e/ou negócio. Esse maior comprometimento permite à organização obter mais
dedicação, produtividade e empenho do trabalhador, sem necessariamente lhe
oferecer uma contrapartida vantajosa; como exigir padrões mais elevados de entrega
sem que haja qualquer tipo de valorização e/ou desenvolvimento desse trabalhador,
ampliar o nível de exposição e o risco profissional da pessoa sem que a mesma
tenha qualquer suporte político e/ou econômico para tanto etc.;
• Descolamento estratégico. O modelo de gestão de pessoas, adotado pela
organização, tem pouco compromisso com seus objetivos estratégicos. Nesse caso,
o modelo de gestão não irá sobreviver por muito tempo, trazendo uma série de
problemas nas relações entre as pessoas e a organização. Esses problemas não
têm canal para sua vazão através dos processos de gestão de pessoas, uma vez
que o modelo não tem sustentação. Os problemas crescem em número e densidade,
provocando fissuras na relação entre pessoas e organização. Essas fissuras podem
gerar a perda de pessoas importantes para a organização, movimentos grevistas,
falta de comprometimento das pessoas e/ou deterioração do clima organizacional;
• Desarticulação com as pessoas. O modelo de gestão, embora alinhado com os
objetivos estratégicos da organização, está desarticulado em relação às expectativas
e necessidades das pessoas. Nesse caso, as práticas de gestão de pessoas não
têm credibilidade junto a elas e por isso também não conseguem sustentar-se no
tempo. Por não possuir a legitimidade necessária, não dá vazão aos problemas
gerados na relação entre as pessoas e a organização.
22
EXPECTATIVA DAS PESSOAS
Em um ambiente de incertezas e ambiguidades, as pessoas valorizam a clareza e a
transparência sobre todos os aspectos que tenham influência direta e indireta sobre a
sua relação com a organização e com seu trabalho.
Outro aspecto importante das expectativas das pessoas é uma segurança nas relações
DESTAQUE DE com as organizações. Nesse aspecto a comunicação tem um papel fundamental. A
PÁGINA comunicação adequada, entretanto, está vinculada a informações que vão ao encontro
das expectativas e necessidades das pessoas. Esse alinhamento ocorre quando o
Em nossas
comportamento organizacional está comprometido com as pessoas, fazendo parte de
pesquisas
verificamos que há
seus valores e crenças.
um impacto positivo
Novamente temos a necessidade de parâmetros estáveis para regular a relação entre
no clima
as pessoas e a organização. Observamos que um bom clima é sustentado ao longo do
organizacional
quando as pessoas
tempo quando são estabelecidos contratos psicológicos com as pessoas e que são
sabem o que cumpridos através de políticas e práticas de gestão de pessoas que traduzem os valores
esperar de sua e crenças organizacionais. Segundo Menegon e Casado (2006), o contrato psicológico
relação com a é o conjunto de expectativas reciprocas relativas às obrigações mútuas entre
organização. organizações e pessoas.
EXPECTATIVA DA ORGANIZAÇÃO
Por sua vez, as organizações necessitam contar com regularidade na resposta das
pessoas e de sua iniciativa diante de situações cada vez menos previsíveis. Por essa
razão temos assistido o crescimento de discussões sobre o comprometimento das
pessoas com seu trabalho e com os objetivos organizacionais.
23
resultados oriundos do uso de uma capacidade que já está instalada em nossas
organizações.
CONCILIAÇÃO DE EXPECTATIVAS
Frente aos desafios que se apresentam para a gestão de pessoas e para a preparação
da liderança, dois aspectos foram destacados pelas organizações que investigamos.
Embora apontem dificuldades para que a cultura absorva com velocidade as mudanças
impostas, relatam o sucesso obtido até o presente momento em obter a mobilização
necessária para transformar a realidade e conseguir um nível de resposta adequado,
tanto em termos de velocidade quanto em termos de qualidade. Atribuem esses
resultados a dois aspectos fundamentais:
• Coerência e consistência em suas políticas e práticas – esse resultado é possível
porque os valores são utilizados como base para o comportamento e tomada de
decisões por toda a organização e, em particular, pelas lideranças. Embora o
contexto exija diferentes posicionamentos nas diferentes partes do mundo e nos
diferentes negócios, há uma unidade na relação entre as pessoas e destas com a
organização por conta dos valores incorporados;
• Relação de confiança das pessoas com a organização – essa relação ocorre
porque há uma transparência na relação da organização com as pessoas. Essa
transparência, por outro lado, é possível por conta da coerência e consistência da
organização. A relação de confiança é reforçada por uma cultura de respeito às
pessoas, onde todas as decisões e ações têm as pessoas como prioridade. Essa
relação de confiança torna as pessoas mais seguras e com uma maior propensão a
assumir o protagonismo de seu desenvolvimento e contribuição para o
desenvolvimento organizacional.
24
em aspectos comportamentais. Somente trabalhando esse aspecto teremos lideranças
preparadas para enfrentar demandas cada vez menos tangíveis sobre nossas
organizações.
Uma cultura que prioriza as pessoas tem mais chances de ser vencedora ao criar um
diferencial competitivo de difícil reprodução, como já sinalizava Peter Senge (1990) nos
anos noventa.
As principais implicações para o aprendizado sobre a gestão de pessoas podem ser resumidas
em:
• Conceitos de competência, complexidade e espaço ocupacional para a compreensão da
gestão de pessoas real em nossas organizações:
• Discussão sobre parâmetros estáveis na gestão de pessoas que permitem às pessoas
e à organização tornar mais transparentes e claros as expectativas e os critérios sobre
desenvolvimento, valorização e movimentação.
• Como podem ser conciliadas as expectativas entre pessoas e organização através de
políticas e práticas de gestão de pessoas que traduzem valores e crenças.
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QUESTÕES E EXERCÍCIOS DO CAPÍTULO 2
Questões para fixação.
Caso 1
O programa de trainees tem duração de 1 ano, onde a pessoa estagia nas principais áreas e
recebe informações sobre a empresa e suas políticas. Após o programa a pessoa é absorvida
pela empresa na área para a qual havia sido selecionado no início do programa.
A Venhacrescer tem como política formar seus quadros gerenciais com 1/3 de pessoas oriundas
de suas bases operacionais, 1/3 de pessoas oriundas do programa de trainees e 1/3 de pessoas
contratadas no mercado. A empresa está preocupada pelo fato de perder seus trainees, apenas
5% dos trainees permanecem na empresa depois de quatro anos, gerando os seguintes
problemas:
Caso 2
26
Alupara, importante indústria produtora de alumínio, acaba de contratar, como Diretor de
Recursos Humanos, o Sr. Germano Metalúrgico, administrador com formação e experiência
sólidas. Sua missão inicial foi a de definir um novo modelo de gestão de pessoas. A Alupara
vinha utilizando um modelo baseado em cargos e o presidente estava convencido que um
modelo baseado em competências seria mais compatível com o seu plano de ação.
Germano para estruturar o modelo pensando em sua apresentação para os demais diretores
formulou as seguintes questões:
Procure ajudar ao Germano a responder essas questões com base no conteúdo do capítulo 2
BIBLIOGRAFIA DO CAPÍTULO 2
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