REVISTA DE ESTUDIOS E INVESTIGACIÓN
EN PSICOLOGÍA Y EDUCACIÓN eISSN:
2386-7418, 2015, Vol. Extr., No. 4.
DOI: 10.17979/reipe.2015.0.04.607
Ensino em grupo de instrumentos musicais nas escolas públicas: mais que
uma possibilidade, uma necessidade
Ana Roseli Paes*, Wilson Rogério dos Santos**
*CIEC – Universidade do Minho; GPEIM – Universidade Federal da Bahia, ** Universidade Federal do Tocantins;
GPEIM – Universidade Federal da Bahia
Resumo ensino de instrumentos diversos pode fazer parte da
A ausência do ensino instrumental, sobretudo na forma educação musical das escolas públicas, sobretudo
de uma gama diversificada de instrumentos musicais no quando praticado no âmbito do ensino em grupo.
ensino regular, e a predominância desse tipo de ensino a Trata-se, por fim, de apontar práticas musicais que
cargo das poucas escolas especializadas tem dificultado o revelem aprendizagens musicais significativas, possíveis
acesso de um número alargado de crianças e jovens que e competentes.
querem aprender um instrumento musical. Ao questionar
os modos vigentes do ensino instrumental, nos ramos A realidade da educação musical em Portugal e no
regular e especializado, procurou-se, neste trabalho, Brasil
investigar com base num paradigma qualitativo, dois
casos de reconhecida excelência, para conhecer, A educação musical faz parte do sistema educativo
averiguar e, assim, compreender a potencialidade da português das escolas regulares desde 1968, como
implantação da prática do ensino em grupo instrumental disciplina obrigatória e com a designação de Educação
na escola pública regular e na especializada, em Portugal Musical. Ribeiro (2013, p. 51) relata que foi nesse ano
e no Brasil. que aconteceu a primeira grande reforma no ensino da
Palavras-chave: Contexto pedagógico do ensino musical música na escola regular. Apesar da obrigatoriedade de
instrumental; Ensino em grupo de instrumentos integrar os seis primeiros anos da escolaridade, a
musicais; Educação musical em grupo. disciplina funcionou apenas no quinto e no sexto anos. A
partir de 1990 a disciplina é integrada em todos os anos
do ensino fundamental como obrigatória (Decreto-Lei nº
Introdução 286/89, de 29 de agosto). Apesar de avanços no ensino
musical das escolas regulares portuguesas, muitos
A educação artística é uma área do currículo que tem estudiosos da área (Mota, & Figueiredo, 2012; Ribeiro,
despertado muitos questionamentos no âmbito das 2013; Vieira, 2014) continuam reclamando o lugar da
políticas educacionais de vários países, visando disciplina no sistema educativo, sua sistematização e
encontrar medidas que permitam o estabelecimento da uma melhor formação dos professores especialista. No
articulação entre o ensino artístico e as necessidades ensino especializado, a aprendizagem musical esteve
específicas do ensino regular e as do ensino artístico ligada, num primeiro momento à Casa Pia, instituição
especializado das escolas públicas. que foi incorporada no ano de 1836 ao Conservatório
Nesse aspecto, a Educação Musical é uma das Geral de Arte Dramática, e passou a constituir a Escola
disciplinas na área das expressões artísticas que parece de Música do Conservatório de Lisboa.
ser praticada de uma forma no ensino regular (por vezes Por sua vez, no Brasil o ensino musical também esteve
sem um devido reconhecimento como disciplina, por a cargo dos conservatórios. No entanto, na escola regular
inúmeras razões, mas principalmente por ser tomada a realidade configura-se diferente. A música sempre
muitas vezes como facultativa) e, de outra forma no esteve presente nas escolas públicas regulares, mas de
ensino especializado (revestido de um ar de seletividade, forma inconstante, desconsiderada enquanto disciplina e
em decorrência do número muito pequeno de muitas vezes com finalidades não educativas, apenas
conservatórios públicos e da maneira tradicional de como auxiliar para outras disciplinas ou para fins
ensino instrumental, focado na atenção especial a um festivos. Recentemente, a Lei nº 11.769/2008 instituiu a
único aluno; sendo assim, uma oportunidade para obrigatoriedade do ensino da música no sistema
poucos). educacional, provocando muitos questionamentos sobre
A importância de discussões acerca do ensino musical a melhor forma de se ensinar música na escola regular e
como objeto de estudo, da natureza desse conhecimento, sobre a qualidade do que se vai ensinar e quem irá
de suas inter-relações, das várias possibilidades de ensinar. Foi estabelecido um prazo para que as escolas se
práticas e da sua necessidade, na escola pública quer do organizassem para oferecer a disciplina; entretanto,
ensino genérico quer do ensino especializado é inegável. entendemos que o preceito legal não é condicionante de
Assim, propomos com este estudo evidenciar que o que o ensino se firme na prática. Esta inquietação sobre a
Correspondência: Ana Roseli Paes - anaropaes@[Link], Wilson Rogério dos Santos - rg_santos@[Link]
Selección y peer-review bajo responsabilidad del Grupo de Investigación G000422-GIPDAE, Universidade da Coruña, España
PAES & SANTOS
maneira de se ensinar música na escola genérica e caracterizado quando todos os alunos participam e
especialmente um instrumento musical, nos levou ao praticam ao mesmo tempo, sob a orientação de um
estudo do ensino instrumento em grupo como uma das professor. O que a nosso ver pode ser diferente, são os
possibilidades da Educação Musical. objetivos em função do contexto, mas o essencial é que
todos os alunos estejam participando ao mesmo tempo do
Ensino em grupo de instrumentos musicais processo de ensino-aprendizagem.
Epistemologicamente pode-se considerar o ensino em Metodologia
grupo de instrumentos musicais como uma prática de A investigação guiou-se por uma abordagem
ensino. Na base desta prática de ensino está a qualitativa, de caráter hermenêutico-dialético e pelo
inter-relação, a interdependência, a interação social, a paradigma construtivista, que na concepção de Lincoln
motivação, a cooperação, a modelagem e a & Guba (2011) não tem objetivo de gerar verdades, mas
aprendizagem. Assim, o ensino em grupo de sim a de, cada vez mais, ampliar uma compreensão sobre
instrumentos musicais pode ser definido como uma o que se investiga. Dizem, também, que o resultado é
metodologia específica (ou seja, uma prática para o uma construção conjunta ou colaborativa com os
ensino e aprendizagem da técnica e dos conhecimentos participantes da investigação. Do ponto de vista dos
musicais utilizados na execução de um instrumento procedimentos técnicos foi realizado um estudo de caso
musical realizada em conjunto) em que todos os múltiplo como forma principal de relatar a investigação.
participantes envolvidos aprendem com o professor e Com base em Stake (2006), o desenho da pesquisa
também uns com os outros e se desenvolvem em grupo. privilegiou a descrição dos fenômenos em diferentes
Esta metodologia tem como requisito a participação contextos, mas que partilham uma característica ou uma
concomitante de todos os educandos, aprendendo e condição em comum – neste estudo os casos têm em
desenvolvendo uma técnica e um conhecimento para comum a prática de ensino em grupo de instrumentos.
tocar um instrumento musical através de exercícios
específicos, orientados e balizados por um professor. O Contextos e Participantes
negrito é intencional para chamar a atenção para uma A pesquisa realizou um estudo de casos múltiplos, já
ambiguidade constante, que pudemos observar durante a que investiga a prática do ensino em grupo de
pesquisa: o ensino instrumental em grupo é confundido instrumentos musicais em dois contextos: o Projeto
com outras práticas musicais realizadas em grupo, que Orquestra Geração da Escola de Ensino Básico de 2º e 3º
podem complementar essa prática de ensino, mas que Ciclos Miguel Torga na Amadora, Lisboa (PT) e o
não são, verdadeiro ensino em grupo, fato mencionado Ensino Coletivo de Cordas no Conservatório Dramático
por diversos autores, como (Barbosa, 2011, p. 226; e Musical Dr. Carlos de Campos de Tatuí, São Paulo
Swanwick, 1994, p. 3; Montandon, 2004, p. 47). É o caso (BR). A escolha destes dois contextos foi feita por razões
da prática de orquestra que, embora aconteça em grupo, do extraordinário interesse que apresentam para o estudo
tem como objetivo trabalhar em conjunto a interpretação e, também pelo reconhecido sucesso dos projetos em
de determinado repertório de acordo com as perspectivas questão. Em cada caso foram escolhidos colaboradores
estéticas, musicológicas e teóricas entendidas e sugeridas que pudessem dar informações e acrescentar seus pontos
pelo maestro (e cujo objetivo, na maior parte das vezes, é de vistas. Para cumprir os objetivos da investigação, a
a preparação para uma apresentação). É também o caso escolha dos profissionais foi intencional, abrangendo os
da prática de masterclass, em que se tem um público com professores de instrumentos e coordenadores nos dois
objetivo de assistir a uma aula ministrada por um contextos, e crianças e adolescentes que aceitaram
determinado professor a um aluno, enquanto os outros participar do estudo com as devidas autorizações de seus
apenas observam. É também, a situação da prática de pais ou responsáveis. Assim, participaram deste estudo
música de câmara, quando um grupo de instrumentistas três professores de violino e um professor de viola de
interpreta algumas obras musicais, mas não com a arco, dois coordenadores de curso, três crianças e três
finalidade exclusiva da aprendizagem do instrumento e, adolescentes. Entretanto, à medida que o estudo foi
sim, a de aplicar a técnica aprendida e adquirida avançando incorporou-se a fala de profissionais
anteriormente na aula de instrumento (quer seja em envolvidos, não diretamente com os casos, mas com o
grupo quer seja individual), para a execução e ensino e a aprendizagem de instrumentos musicais.
interpretação da obra musical. Portanto, é preciso ter em
conta que numa aula em grupo 100% dos alunos devem Instrumentos de recolha de dados e procedimentos
estar ativos, envolvidos, de uma forma ou de outra, em
uma grande parte do tempo da aula. No entanto, não Neste estudo a recolha de dados foi feita por meio de
podemos desconsiderar a opinião de autores como Rui observação e entrevistas semiestruturadas apresentadas
Pintão (2014, p. 80) e Cerqueira (2010, p. 3) que se aos participantes, as quais foram conduzidas com
manifestam mais amplamente com relação a esta questões pré-determinadas que orientassem a sequência
questão, sugerindo que o ensino em grupo pode ser das perguntas. A confidencialidade dos participantes foi
contemplado pelas atividades de masterclass. um ponto tratado desde o início da investigação. Assim
Ponderando as posições dos autores (que se apresentam sendo, foi esclarecido aos participantes (de forma verbal
antagônicas, apenas neste ponto específico), podemos e por escrito, mediante carta de aceite) as questões
considerar que o ensino em grupo é mais bem referentes à natureza do estudo de caso, à atividade
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ENSINO EM GRUPO DE INSTRUMENTOS MUSICAIS NAS ESCOLAS PÚBLICAS
pretendida, à demanda de tempo e ao encargo a cada um aprendizagem e o fazer musical instrumental em grupo
(Stake, 2009, 2006). mais prático e direto, um tipo de ensino que faz sentido
para o aluno que deseja aprender um instrumento como
Resultado e Discussão sublinhou em entrevista o Professor Wagner Diniz: “eles
começam logo a tocar música.”; b) filosóficos – a
O caso Projeto Orquestra Geração - A implantação da possibilidade de toda criança ter a prerrogativa de
orquestra aconteceu a partir do Projeto aprender música. A música para todos; c) artísticos – a
Geração/Oportunidades 2005 da Câmara Municipal da dimensão artística dos casos é evidenciada desde o
Amadora (PT) que visava promover o desenvolvimento momento dos ensaios que precedem as apresentações até
social e humano dos jovens do município, atuando nas a apresentação em si mesma; d) políticos – a
áreas de formação, educação, saúde, emprego, justiça e democratização do ensino instrumental e a educação
ocupação dos tempos livres. Em 2007, a Câmara fez uma musical como integrante do sistema educacional; e)
parceria com Escola de Ensino Básico de 2º e 3º Ciclos sociológicos – o fazer musical em conjunto como
Miguel Torga e é implantado na escola o Projeto ferramenta para mudanças sociais. Um modelo de
Orquestra Geração, direcionado a alunos a partir dos 10 sociedade, onde as aspirações e os investimentos são
anos, embora existam algumas crianças com idades partilhados para que, juntos, todos possam alcançar os
inferiores. O projeto é inspirado no El Sistema objetivos; f) psicológicos – a base fundamental está na
Venezuelano, que tem base pedagógica associada a uma ideia de experiências bem-sucedidas. Em todas as
filosofia holística, centrada no desenvolvimento humano atividades existe um equilíbrio entre as propostas
por meio da instrução e da prática coletiva da música, e educativas e as competências dos alunos.
cuja principal ferramenta é a atividade realizada nas Os dados das entrevistas mostraram, também, que as
orquestras sinfônicas, o forte e o principal ponto no crianças e os jovens, quando pensam em educação
contexto de ensino e aprendizagem são as orquestras de musical, associam muitas vezes com aprender a tocar um
vários níveis; tudo está em função da orquestra. A teoria instrumento. Os alunos disseram em entrevista que: “Se
e a técnica instrumental são programadas a partir e em as escolas regulares tivessem alguma coisa para
função do repertório que a orquestra irá executar. avançar um pouco mais os conhecimentos [musicais]...
Existem aulas em grupo de instrumentos heterogêneos nós não precisaríamos fazer aqui [conservatório] desde
(violinos e violas e para violoncelos e contrabaixos), mas o comecinho, já entraríamos mais avançados”.
também acontecem aulas individuais, numa estrutura
semelhante à dos conservatórios. Conclusão
O caso Projeto Ensino coletivo de cordas – O ensino Quando consideramos a inserção da oferta do ensino
em grupo sempre esteve presente no Conservatório de instrumental em grupo na escola pública regular e na
Tatuí, porém não de forma sistematizada. A partir de escola especializada, estamos ponderando uma ruptura
2009, em consequência de uma reestruturação no quadro do paradigma da hierarquização nos modos de aprender
de docentes e de uma reformulação pedagógica, é um instrumento musical. Dessa forma, deixa de existir
oficializado o projeto de ensino em grupo na área das nas iniciações musicais o especializado e o regular, e o
cordas friccionadas. A prática do ensino tem influências ensino da música passa a ser acessível para todos,
dos métodos norte-americanos, que utilizam as deixando a ideia de especialização para uma fase
orquestras como parte importante do processo de ensino, posterior. O ensino em grupo nas iniciações poderia
mas que, diferente do Projeto Orquestra Geração, não é a propiciar a circulação dos alunos por diferentes
principal atividade. O principal propósito é desenvolver a instrumentos e timbres das várias famílias instrumentais,
autonomia, a técnica inicial dos instrumentos de cordas e com vista a uma futura escolha pessoal e natural, sem
o conhecimento musical. A imitação e a modelagem imposição e sem testes. O estudo dos casos revelou
estão presentes nesta prática, o aluno para além do processos de aprendizagem musical consistentes,
professor tem os colegas como referência. As classes do funcionais, humanos e democráticos nos dois contextos e
Ensino Coletivo do conservatório, utilizam instrumentos perspectivou, do ponto de vista político, a necessidade de
homogêneos, i.e., existem classes coletivas apenas de colocar em causa as atuais diferenças na aprendizagem
violinos, de violas d’arco e de violoncelos. Nas classes de instrumentos, nas iniciações realizadas nas escolas
de contrabaixo, em exceção, as aulas continuam de forma públicas regulares e nas especializadas. Concluímos que
individualizada, devido ao baixo número de alunos existe não só a possibilidade, mas a urgência de aplicação
matriculados nesse curso. No Projeto Ensino Coletivo de do ensino em grupo de instrumentos musicais nas escolas
Cordas, do Conservatório de Tatuí, o ensino coletivo é públicas, tanto regulares quanto especializadas,
voltado para a iniciação instrumental e pré-requisito para possibilitando eventuais encaminhamentos profissionais,
ingressar no curso normal. otimizando a utilização dos recursos públicos e
oportunizando aos alunos o convívio com uma arte de
Cruzamento dos dados fundamental importância para percepção e compreensão
Do cruzamento dos dados ressaltamos que existem do mundo em que vivemos. Portanto, pensar o ensino
evidências de que o ensino instrumental em grupo pode musical e, neste caso, o instrumental em grupo, do ponto
ser uma prática competente na Educação Musical em de vista da relação entre teoria e prática remete-nos,
vários aspectos: a) pedagógicos – mostraram a sobretudo, a uma perspectiva política e crítica. Dessa
concepção do aluno como figura central no processo da forma, comprometidos com uma prática educativa
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PAES & SANTOS
concebida sob um olhar democrático, sublinhamos que o Vieira, M.H. (2014). Educação Musical para todos: por
estudo revelou que o ensino e a aprendizagem em grupo uma política de participação no ensino da música. In:
de instrumentos musicais, além de uma possibilidade Pensar a Música II, (Org. Vieira, M. H. e Cachada, A).
segura, é mesmo uma necessidade na educação musical, Guimarães: Centro de Estudos e de Investigação
pois alarga o atendimento a um maior número de Musical da Sociedade Musical de Guimarães, pp.
crianças e jovens à iniciação musical, sobretudo nas 61-85.
escolas públicas. É fundamental investir na qualidade das
aprendizagens e nos modos de ensinar para dar respostas
às exigências do mundo atual. Além dos conhecimentos, LEGISLAÇÃO
é necessário que a escola desenvolva o espírito de
intervenção, a cidadania, a capacidade de pensar, a BRASIL
flexibilidade, a adaptabilidade, a criatividade, a Lei Ordinária n.º 11.769 de 18 de agosto de 2008. Altera
sensibilidade e o humanismo, pontos passíveis de serem a Lei n.º 9.394, de 20 de dezembro de 1996, Lei de
alcançados por meio do ensino artístico. Diretrizes e Bases da Educação, para dispor sobre a
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