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Melodramas: Mistérios e Conflitos Familiares

O documento apresenta um roteiro de teatro dividido em duas peças dramáticas. A primeira, 'A Caixa Misteriosa', explora a dinâmica familiar e a revelação de segredos após a morte do patriarca, enquanto a segunda, 'Quem Matou Madalena?', gira em torno de um assassinato e suas consequências, revelando traições e reviravoltas. Ambas as peças refletem sobre a crise na arte dramática e a relação entre a vida e a arte.
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Melodramas: Mistérios e Conflitos Familiares

O documento apresenta um roteiro de teatro dividido em duas peças dramáticas. A primeira, 'A Caixa Misteriosa', explora a dinâmica familiar e a revelação de segredos após a morte do patriarca, enquanto a segunda, 'Quem Matou Madalena?', gira em torno de um assassinato e suas consequências, revelando traições e reviravoltas. Ambas as peças refletem sobre a crise na arte dramática e a relação entre a vida e a arte.
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MELODRAMAS

Um experimento mais que dramático!

ENTRA SOM: 01 - ENTRADA DO PÚBLICO

NARRAÇÃO - Senhoras e senhores, a arte dramática está em crise, vejam só.


Muitas vezes, aqui em cima desse palco, vocês serão obrigados a assistirem aquilo
que há de mais banal. Vejam, alguns assuntos, não trarão nenhuma relevância para
as vossas vidas. Será isso uma consequência própria às artes dramáticas? Será
porque as personagens ocupam-se apenas com os seus problemas e nunca com o
dos espectadores? É o que veremos nas três peças que iremos apresentar. Com
vocês, a Peça Número Um: “A Caixa Misteriosa”.

TIRA SOM: 01 - ENTRADA DO PÚBLICO

PEÇA 01 - A CAIXA MISTERIOSA

PERSONAGENS

ALBA – Matriarca da família, recentemente viúva.


VERÔNICA – Filha mais velha.
CECÍLIA – Filha mais nova.
GERTRUDES – Empregada.
DR. ÁTILA DE MELO – Advogado da família.

Luz sobre a mesa. Quatro lugares postos. Uma caixa ao centro. ALBA à cabeceira,
vestida de luto rigoroso. VERÔNICA e CECÍLIA nos lados. GERTRUDES serve o
vinho.

ALBA - Hoje, ceamos em silêncio. Que o silêncio honre o nome do vosso pai... Até
que o advogado chegue.

VERÔNICA - Silêncio? Que inconveniência! Papai falava pouco, isso é um fato, mas
mentia muito.

CECÍLIA - Verônica, por favor...

GERTRUDES - Querem que eu sirva o jantar antes que esfrie?

ALBA - Não. Nós vamos esperar o Doutor Átila para cear. Pode se retirar.

ALBA olha com desdém para GERTRUDES, que sai.

ALBA - Ele foi um homem decente. Um provedor. Um marido fiel.

VERÔNICA - Que guardava segredos em caixas fechadas.

1
ENTRA SOM: 02 - TENSÃO CAIXA MISTERIOSA

Todos olham para a caixa ao centro da mesa. Silêncio. A campainha toca.

ENTRA SOM: 03 - CAMPAINHA

GERTRUDES entra para abrir a porta. Entra o DR. ÁTILA DE MELO, com uma
pasta de couro. Gravata preta. Cumprimenta sem sorrir.

DR. ÁTILA - Boa noite. Tive o dever de redigir as últimas vontades do senhor
Norberto... E a honra de trazê-las até vocês.

Abre a pasta. Todos observam. GERTRUDES entra com chá. Fica parada, sem
sair. DR. ÁTILA DE MELO se senta à mesa com a família.

ALBA - Boa noite, Doutor Átila. É uma honra imensa recebê-lo em nossa casa.
Estamos imensamente ansiosas para ouvir os desígnios da herança deixada pelo
meu falecido marido.

DR. ÁTILA - Querem que eu faça a leitura agora?

VERÔNICA - Eu sugiro que seja após o jantar.

CECÍLIA - Ceie com a gente, Doutor!

ALBA - Meninas! Deixem o Doutor Átila realizar a leitura do testamento. Jantaremos


na sequência celebrando nossas conquistas.

DR. ÁTILA - Como a senhora deseja!

ALBA - Disponha!

DR. ÁTILA - (Lendo) Cláusula primeira: à filha mais velha, Verônica, deixo o
apartamento da praia. À filha mais nova, Cecília, a casa no campo. À funcionária da
casa, Gertrudes... O carro e vinte por cento dos fundos.

ENTRA SOM: 04 - DRAMATIC SONG

Silêncio. Todos olham para GERTRUDES, que deixa cair uma bandeja com xícaras
de chá.

ALBA - Deve haver algum equívoco! Você disse que ele deixou fundos para a
empregada?

GERTRUDES - Para mim?

DR. ÁTILA - Sim. Por "serviços prestados com fidelidade acima do esperado",
segundo ele mesmo.

ALBA - E a mim? Onde estou nesse papel? Leia direito, doutor.

DR. ÁTILA - A senhora... não está!

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ENTRA SOM: 05 - DRAMA E TENSÃO

Pausa. ALBA tira uma arma da bolsa e aponta para todos. Levanta-se. CECÍLIA
desmaia sobre o prato. ALBA aponta a arma para o teto.

ALBA - (Gritando) Covarde! Maldito! Nem morto me respeita! (Aponta a arma para
o advogado) E você, advogadozinho de meia-tigela! Está se divertindo, não está?

DR. ÁTILA - Não estou, dona Alba. Mas... é necessário que saiba de tudo. Há um
último nome no testamento.

ALBA abaixa a arma lentamente.

TIRA SOM: 05 - DRAMA E TENSÃO

DR. ÁTILA - (Lendo) "A meu amor verdadeiro, que cuidou de mim nos últimos
anos... deixo a maior parte de tudo. O nome dele é Átila de Melo."

ENTRA SOM: 06 - PONTUAÇÃO DESCOBERTA

ALBA - Você???

DR. ÁTILA - Em pessoa!

ENTRA SOM: 07 - TENSÃO E MISTÉRIO

Silêncio absoluto. VERÔNICA solta uma gargalhada histérica. GERTRUDES


desmaia. CECÍLIA, sonhando, murmura “Pai?”. ALBA, em choque, pega o papel
das mãos do DR. ÁTILA DE MELO e lê com os próprios olhos, após isso, ela
amassa e o joga no chão. Nisto, VERÔNICA pega a arma que ALBA deixou
despercebida em um canto da mesa e aponta para ALBA.

VERÔNICA (Apontando a arma para ALBA) - Não gostou da leitura, mamãe? Pois
você lerá tudo novamente, tin tin por tin tin. Ajoelhe-se e pegue o testamento com a
boca!

ALBA se ajoelha, pega o papel com a boca.

CECÍLIA - (Despertando, se assusta com o cenário que vê) Vocês estão loucas?
Verônica, abaixe essa arma! Mamãe, se levante! O que está acontecendo aqui?

TIRA SOM: 07 - TENSÃO E MISTÉRIO

ALBA - Eu nunca vou perdoar o seu pai. Nunca! Como pôde me deixar sem nada?
Absolutamente nada! Como vou viver agora? Vou roubar pra comer? E ainda por
cima deixou bens para essas pessoinhas duvidosas. (Olha para o advogado e para
a empregada com desdém).

CECÍLIA - Calma, mamãe! Nem tudo está perdido! Ainda temos a caixa!

ENTRA SOM: 08 - A CAIXA

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VERÔNICA - A caixa!

DR. ÁTILA - A caixa?

GERTRUDES - A caixa!

ALBA - A caixa! Chegou a hora de sabermos o que há dentro desta caixa. Essa é a
minha última esperança!

VERÔNICA - Quem terá a coragem de abrir a caixa?

GERTRUDES - Pode deixar que eu abro!

GERTRUDES abre a caixa. Todos olham para ver o que tem dentro. ALBA dá um
grito mortal. A luz se apaga.

ENTRA SOM: 09 - TRANSIÇÃO DRAMÁTICA

NARRAÇÃO - Senhoras e senhores… Que belíssima história apresentamos aqui


agora, por favor, uma salva de palmas! É. A arte dramática nunca mais foi a mesma.
Já diziam os gregos que a arte imita a vida e a vida imita a arte. Certamente vocês
perceberam que essa história é um reflexo da nossa vida verdadeira, mas afirmo,
qualquer semelhança com a realidade é mera coincidência! Diante disso eu gostaria
de propor um momento de reflexão sobre o teatro. O teatro está em crise! Eu peço,
por favor, um minuto de silêncio! TIRA SOM: 09 - TRANSIÇÃO DRAMÁTICA
(Passam-se alguns segundos) Fim do momento reflexivo. Podem continuar a peça.

NARRAÇÃO - Peça Número Dois: “Quem Matou Madalena?”.

PEÇA 02 - QUEM MATOU MADALENA?

PERSONAGENS

LEÔNIDA – Homem elegante.


HELENA – Mulher refinada.
BENTO – Mordomo.
DELEGADA RITA – Investigadora persistente.
MADALENA – A esposa.

ENTRA SOM: 10 - CRIME PERFEITO

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Sala de estar bem decorada. Uma mesa posta para dois. LEÔNIDA e HELENA são
servidos em taças pelo mordomo BENTO que limpa, em seguida, silenciosamente o
chão manchado de sangue com um rodo. Clima de vitória.

HELENA - Agora sim, Leônida... livres! Sem o olhar vigilante, sem as chantagens,
sem Madalena!

LEÔNIDA - Madalena... querida Madalena... que agora descansa, sabe-se lá onde.


À liberdade!

HELENA - À nossa liberdade!

TIRA SOM: 10 - CRIME PERFEITO

Eles brindam. Bebem. Bento os observa com olhos frios. O telefone toca ao fundo.

ENTRA SOM: 11 - TELEFONE

Bento atende, sem dizer palavra. Desliga. Olha para os dois com mistério e volta a
limpar o chão.

ENTRA SOM: 12 - VINGANÇA

LEÔNIDA - O que... O que foi que você pôs na taça? cof cof Helena... meu peito...
meu peito está…

HELENA - (Se afasta lentamente) Otário! Você achou mesmo que eu ia ficar com
você? Você é um pobre coitado! Eu tenho nojo de você!

LEÔNIDA cai no chão, agonizando... Silêncio... Morre.

HELENA - (Ri alto, caminha entre os móveis) Tão previsível... tão ridículo...
Leônida.

HELENA vai até o telefone e faz uma ligação.

TIRA SOM: 12 - VINGANÇA

HELENA - (Ao telefone) Alô? Alô, é o cacete! O que eu não faço por você, né?
(Silêncio) Sim. Tudo está terminado. Em breve o seu cadáver repousará nas
profundezas do oceano.

LEÔNIDA se levanta subitamente. Vivo. HELENA desliga a ligação, abrupta.

LEÔNIDA - Isso é o que veremos! ENTRA SOM: 13 - TRAMA DE LEONIDA A


grande otária nessa história é você, minha flor… O veneno não estava na minha
taça... Estava na sua!

HELENA - (Pálida, cambaleia) Não... não… O que você fez...?

LEÔNIDA - Você bebeu seu próprio destino, Helena.

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HELENA cai, derrubando a taça. BENTO se aproxima e observa o corpo com
naturalidade.

TIRA SOM: 13 - TRAMA DE LEONIDA

BENTO - Mais uma para desossar.

LEÔNIDA - (Comemorando) Agora somos só nós, meu caro Bento!

BENTO - Como nos velhos tempos!

A campainha toca.

ENTRA SOM: 03 - CAMPAINHA

Os dois se entreolham. LEÔNIDA cobre o corpo de HELENA com uma manta. Abre
a porta. Entra a DELEGADA RITA, firme, educada, armada com um tablet e
autoridade.

DELEGADA RITA - Boa noite. Delegada Rita. Investigando a morte de Madalena,


antiga proprietária desta casa. Recebemos uma denúncia anônima. Preciso das
imagens das câmeras de segurança.

LEÔNIDA - Ah… Infelizmente... As câmeras de segurança só gravam as últimas


vinte e quatro horas.

DELEGADA RITA - Não tem problema. Preciso de todo o conteúdo que vocês
tiverem disponível.

LEÔNIDA - Perfeito! Bento, vá buscar as imagens para a delegada.

BENTO sai. DELEGADA RITA começa a observar o ambiente. Percebe que tem
algo misterioso coberto por uma manta. DELEGADA RITA se aproxima do corpo de
HELENA.

LEÔNIDA - A senhora gostaria de um café?

DELEGADA RITA - Não. Muito obrigada! Que estranho… Parece até que tem um
corpo aqui embaixo dessa manta.

LEÔNIDA - Não, é menina? Parece mesmo. Mas é apenas roupa suja. Estamos
dando uma geral hoje aqui na casa.

DELEGADA RITA - Eu vou dar uma olhadinha, só por precaução.

ENTRA SOM: 14 - SUSPENSE POLICIAL

DELEGADA RITA se prepara para puxar a manta até que BENTO retorna e a
interrompe.

TIRA SOM: 14 - SUSPENSE POLICIAL

BENTO - Aqui está o pen drive com as imagens!

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DELEGADA RITA recebe o pen drive de BENTO.

DELEGADA RITA - Perfeito! Muito agradecida! Em breve retornarei com mais


informações sobre a investigação.

DELEGADA RITA sai. LEÔNIDA suspira aliviado.

LEÔNIDA - Burra. Ninguém verá nada! O acontecido foi há mais de vinte e quatro
horas. As imagens que poderiam me comprometer não existem mais.

BENTO - Mas... ela não vai ver a morte da senhorita Helena? (Aponta para a manta
onde está o corpo de HELENA).

LEÔNIDA - O quê?!

BENTO - A câmera gravou as últimas vinte e quatro horas, incluindo a hora do


envenenamento... Quando ela caiu com a taça. O tempo é cruel, senhor.

A campainha toca novamente.

ENTRA SOM: 03 - CAMPAINHA

LEÔNIDA - Ela voltou. Estamos perdidos.

BENTO abre a porta. Entra MADALENA. Viva. Impecável. Estonteante.

ENTRA SOM: 14 - SUSPENSE POLICIAL

MADALENA - Você não imagina o prazer que é estar de volta!

LEÔNIDA - (Assustado) Você... você morreu! Eu vi!

MADALENA - Você viu o que quis. Assassinos!

DELEGADA RITA - (Entrando pela porta aberta, com agentes atrás) Boa noite de
novo, senhores. Os dois estão presos por tentativa de homicídio e ocultação de
cadáver. Vamos, Leônida, você está preso!

LEÔNIDA - (Para MADALENA) Isso não vai ficar assim.

MADALENA dá um tapa na cara de LEÔNIDA.

MADALENA - Isso é o que nós vamos ver!

LEÔNIDA e BENTO são levados pelos agentes e pela DELEGADA.

TIRA SOM: 14 - SUSPENSE POLICIAL

MADALENA se volta para o corpo de HELENA. Toca o rosto dela.

MADALENA - Tanta paixão maldita. Tanta traição inútil.

HELENA desperta, fraca.

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HELENA - Mad... Madalena?

MADALENA - Sou eu, querida. E agora ninguém mais nos atrapalhará.

Elas se abraçam. MADALENA pega duas novas taças. Serve o vinho.

MADALENA - A nós. Ao que sobrou!

HELENA - Ao que renasceu!

Brindam. Bebem. Silêncio.

ENTRA SOM: 15 - VINHO MORTAL

HELENA começa a tossir. Cambaleia. Cai. Morre.

MADALENA - Não... não! O quê...?

O telefone toca ao fundo.

ENTRA SOM: 11 - TELEFONE

MADALENA atende. Fica em silêncio. Olha para o corpo.

MADALENA - (Ao telefone) Não se preocupe. O feito já está feito. O ato já foi
consumado. Adeus!

MADALENA serve uma taça com vinho e brinda sozinha..

MADALENA - É tempo de comemorar! Quem ri por último, ri melhor! (Bebe o vinho)


ENTRA SOM: 12 - VINGANÇA Será? (Súbita) Não se pode confiar em ninguém...
nem em si mesma.

MADALENA começa a tossir. Cambaleia. Cai. Morre. Luz vai escurecendo


lentamente. Fim da peça 02.

TIRA SOM: 12 - VINGANÇA

ENTRA SOM: 16 - VIOLINO

NARRAÇÃO - Senhoras e senhores! O mais importante de tudo é que vocês saiam


daqui com uma mensagem, uma conclusão, uma moral da história! Alguma coisa
que vocês possam aplicar nas vossas vidas lá fora. Por exemplo: a honestidade, a
alegria, a ternura, a honra, a compaixão, o perdão, enfim. Há relatos de pessoas
que saíram de um evento desta natureza e que no dia seguinte saíram para
comprar flores para as suas esposas no café da manhã. Inacreditável! Essas
pessoas foram capazes de captar exatamente a mensagem que os artistas
quiseram passar. Talvez isso aconteça com vocês. Com vocês, a Peça Número
Três: “A Troca”.

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TIRA SOM: 16 - VIOLINO

PEÇA 03 - A TROCA

PERSONAGENS

DOUTOR ARMANDO - Patriarca.


VERÔNICA - Matriarca.
MARINA - Filha.
EDUARDO - Noivo de Marina.
ENFERMEIRA
CRIADA
LUCIANA - Uma mãe.
CLARA - Uma filha.

Sala de jantar de uma mansão. Mesa longa, impecavelmente posta. A família está
reunida. O patriarca, DOUTOR ARMANDO, está à cabeceira. MARINA, a filha
grávida, entra com namorado, EDUARDO. A MÃE, VERÔNICA, observa tudo com
certa tensão nos olhos.

EDUARDO - Doutor Armando, peço-lhe licença, venho pedir sua bênção para casar
com sua filha. Amamo-nos, e agora que esperamos um filho, queremos construir
nossa família.

DOUTOR ARMANDO - Depois que já comeu?

EDUARDO - O que disse?

DOUTOR ARMANDO - Depois que já comemos, vocês chegam para o jantar?

EDUARDO - Estávamos cuidando dos preparativos para a chegada do bebê.

DOUTOR ARMANDO - O que o senhor tem para oferecer para a minha menina,
além de embutir filhos em sua barriga?

EDUARDO - Tenho... intenções sinceras. E um pequeno negócio.

DOUTOR ARMANDO - Além de tudo o negócio ainda é pequeno. Mas você é


trouxa mesmo, hein, Marina?

EDUARDO - Negócio pequeno, intenções maravilhosamente grandes.

DOUTOR ARMANDO - Curiosa equação para sustentar uma herdeira.

Entra uma criada com um bilhete. Entrega a MARINA.

CRIADA - Bilhete para a senhorita Marina.

MARINA - Entregue-me!

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MARINA - (Lendo) "Se você soubesse a verdade sobre seu nascimento, odiaria a
mulher que chama de mãe."

ENTRA SOM: 17 - TANDAN

Silêncio. Todos olham para VERÔNICA, que empalidece.

MARINA - Mãe? O que isso significa?

VERÔNICA - É mentira... Marina, não dê ouvidos!

MARINA - (Gritando) Eu quero saber a verdade! O que a senhora está


escondendo? Diga! Diga! Diga de uma vez por todas o que a senhora está
escondendo?

VERÔNICA - Isso é um equívoco. Não estou a esconder absolutamente nada!

MARINA - Isso é o que nós vamos ver. A verdade virá à tona. Eu sinto. (Para
Eduardo) Vamos, amor.

MARINA sai com EDUARDO. A campainha toca.

ENTRA SOM: 03 - CAMPAINHA

A CRIADA abre. Entra A ENFERMEIRA.

ENFERMEIRA - (Trêmula) Você se lembra de mim, Verônica?

ENTRA SOM: 18 - PASSADO VEM A TONA

VERÔNICA - (Nervosa) Não pode ser...

ENFERMEIRA - (Para ARMANDO) Se não se incomoda. Preciso falar em particular.

DOUTOR ARMANDO - Com certeza! As deixarei a sós.

DOUTOR ARMANDO finge sair, mas se esconde atrás da cortina.

ENFERMEIRA - (Chorando) Fui eu. Eu que troquei os bebês! Fui tola. Como pude
aceitar as suas chantagens? Tudo isso por apenas 200 mil cruzeiros! O dinheiro
nunca vai pagar o preço do arrependimento.

VERÔNICA - Eu tive as minhas razões para lhe pedir este arriscado favor.

ENFERMEIRA - Não posso mais viver com essa culpa! Eu preciso que você me
liberte deste peso. Dessa dor. Adeus!

A ENFERMEIRA sai.

TIRA SOM: 18 - PASSADO VEM A TONA

ARMANDO surge, devastado.

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ENTRA SOM: 05 - DRAMA E TENSÃO

DOUTOR ARMANDO - Não posso crer no que acabei de escutar!

VERÔNICA - Não é nada disso que você está pensando. Eu posso explicar.

DOUTOR ARMANDO - Qual explicação irá arrancar essas duras verdades dos
meus tímpanos?

TIRA SOM: 05 - DRAMA E TENSÃO

A campainha toca.

ENTRA SOM: 03 - CAMPAINHA

A CRIADA atende. Uma carta anônima é entregue. MARINA e EDUARDO retornam


e escutam a leitura da carta.

DOUTOR ARMANDO - (Lendo em voz alta) Se querem que a verdade seja dita,
compareçam às três horas da tarde na Praça Principal. Assinado: Uma amiga.

ENTRA SOM: 19 - UMA AMIGA

Black-out.

ENTRA SOM: 20 - AÇÃO

Transição de espaço. Todos chegam na praça. Eles esperam no sol quente.


Reclamam. Verônica usa um guarda-chuva para se proteger do sol. Surge uma
mulher humilde: LUCIANA.

TIRA SOM: 20 - AÇÃO

LUCIANA - (Aplaudindo) Que belo teatro. Pena que a protagonista vive uma
mentira. Eu sou a verdadeira mãe de Marina!

ENTRA SOM: 21 - SURPRESA

Murmúrio geral.

MARINA - Não... eu não quero ser de outra família! Eu amo a minha família!

LUCIANA - Quem não amaria uma família rica?

MARINA - Eu estou muito bem aqui. Não aceitarei!

LUCIANA - Mas você é sangue do meu sangue.

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DOUTOR ARMANDO - Então era verdade. Está tudo confirmado. (Para
VERÔNICA) O que você fez? Arruinou a nossa família? (Para MARINA com sua
barriga de grávida) Pelo menos agora não serei mais avô de um bastardo!

MARINA - Não diga isso, papai!

DOUTOR ARMANDO - Eu não sou seu pai! (Vira as costas).

ENTRA SOM: 02 - TENSÃO CAIXA MISTERIOSA

MARINA - (Olha para EDUARDO) E você? Ainda se casará comigo? Assumirás o


seu filho?

EDUARDO - Esse filho não é meu! Eu sou estéril!

ENTRA SOM: 04 - DRAMATIC SONG

Murmúrio geral.

MARINA - Não é mesmo! Porque eu não estou grávida! (Tira o enchimento da


barriga).

ENTRA SOM: 17 - TANDAN

Murmúrio geral.

EDUARDO - Oh, a grávida de Taubaté!

MARINA - Eu forjei a gravidez apenas para que você não me abandonasse.

EDUARDO - Nem precisava perder o seu tempo. Eu estava apenas interessado em


sua herança.

ENTRA SOM: 22 - SURPRESA 2

Murmúrio geral. Entra uma jovem elegante: CLARA.

EDUARDO - Oh, eu não estou vendo que eu estou vendo!

CLARA - Eu também não estou vendo o que eu estou vendo!

EDUARDO - Como eu te procurei por todos os lugares, Clara.

CLARA - Eu também. Como eu te procurei por todos os lugares, Dudu.

EDUARDO - Você é o amor da minha vida!

CLARA - Você também sempre foi o amor da minha vida!

Entra a ENFERMEIRA.

12
ENFERMEIRA - (Para Clara) Vejo que você já se adaptou à sua nova família! Esta
é Clara, a verdadeira primogênita!

CLARA - Sim. Sou Clara. Eu que pertenço a esta família agora.

EDUARDO - Oh, ganhei na loteria!

CLARA - Meu amor, agora tudo que é meu é seu, e tudo que é seu é meu!

EDUARDO - A diferença é que eu não tenho nada. Apenas um pequeno negócio,


espero que você goste.

MARINA - (Gritando) Salafrário! Nunca me amou! Eu odeio todos vocês! Eu odeio!


Isso não ficará assim! Vocês vão ver! Isso não ficará assim!

ENTRA SOM: 23 - TRANSIÇÃO CASA DOS ARMANDO

Mudança de espaço. Tempos depois. CASA DOS ARMANDO. DOUTOR


ARMANDO está só.

O telefone toca.

ENTRA SOM: 11 - TELEFONE

DOUTOR ARMANDO - (Ao telefone) Como assim… Não pode ser! Falência?
(Desliga).

ENTRA SOM: 24 - TEMA CONFUSÃO FINAL

Mudança de espaço. CASA DE LUCIANA. MARINA está cabisbaixa, vivendo


modestamente. Faz tarefas simples. Olha uma foto de EDUARDO e a rasga.

MARINA - (Sussurrando) Nada disso era meu… A vingança há de chegar.

Mudança de espaço. Escadão da cidade. CLARA, agora grávida, sobe com


cuidado. MARINA a segue.

MARINA - (Gritando) Você roubou minha vida!

CLARA - (Nervosa) Eu não escolhi nada disso! Eu também sou vítima!

MARINA - (Gritando) Você ficou com ele, com a riqueza, com tudo! Vadia!

MARINA empurra CLARA, que tropeça. GRITA. Cai. EDUARDO entra assustado e
vê CLARA caindo em câmera lenta pela escada.

EDUARDO - (Entrando) CLARAAA!

CLARA fica jogada ao chão.

13
EDUARDO - (Para a plateia) Eu juro... ela vai me pagar! (Muda) Marina! Meu amor,
você não imagina o quanto eu estou feliz em reencontrá-la. Quero que você saiba
que você sempre foi o amor da minha vida!

MARINA - Você jura que está dizendo a verdade?

EDUARDO - Como nunca a disse em toda a minha vida! Agora que tudo ruiu,
vamos viver a nossa vida e em paz? Você aceita se casar comigo?

MARINA - É óbvio que eu aceito!

EDUARDO sobe até o topo da escada onde está MARINA e oferece a sua mão, ela
pega em sua mão e ele a empurra. Ela cai rolando pela escada. Mas quando chega
ao final, ela se levanta e comemora.

MARINA - (Gargalhando) Achou que ia me matar? Eu estou precavida. Coloquei


enchimentos para me proteger da queda da escada. (Mostra os enchimentos. Tira
uma arma de sua bolsa) Ajoelhe-se! (EDUARDO ajoelha) Agora que você se casou
com a verdadeira primogênita e passou a mão em todos os bens da minha antiga
família, assine essa nota promissória! (Entrega um talão de notas. Ele assina) Muito
bem! Agora pegarei de volta tudo o que você roubou de mim! Nunca mais apareça
na minha vida!

Entra VERÔNICA apontando uma arma para MARINA.

VERÔNICA - Abaixe essa arma, Marina! (Marina abaixa). O que você fez? Você
matou a minha filha verdadeira?

CLARA - (Se levantando) Jamais me mataria, mamãe! Também coloquei


enchimentos em meu corpo para me proteger da queda da escada. (Para Marina)
Trouxa!

VERÔNICA - Me dê essa nota promissória! Achou mesmo que ia roubar toda nossa
herança? (Rasga a nota promissória e se dirige à MARINA). Você sempre será
pobre! Sempre!

DOUTOR ARMANDO entra assustado.

DOUTOR ARMANDO - O que está acontecendo aqui?

TIRA SOM: 24 - TEMA CONFUSÃO FINAL

VERÔNICA - Marina estava planejando roubar todo o nosso patrimônio. Forçou a


assinatura de uma nota promissória. Ela, por vingança, queria roubar todo o nosso
dinheiro!

DOUTOR ARMANDO - Mas qual dinheiro? Acabei de receber a notícia de que


estamos falidos. Estamos em recuperação judicial. Vamos ser despejados! Todos
os nossos bens serão penhorados. Estamos na sarjeta! No fim, ninguém ficará com
nada! No fim, tudo tudo, de nada valeu!

TODOS - De nada valeu? Maldição!

14
ENTRA SOM: 25 - TEMA DRAMÁTICO

Escuridão. Fim da peça 03.

NARRAÇÃO - Pois é, senhoras e senhores… Eis que chegamos ao fim deste


singelo e ousado experimento de emoções. Gratidão por deixarem vossos lares, por
se permitirem mergulhar conosco neste frágil e encantado universo de ilusões, onde
personagens tão pobres quanto corajosos se equilibram sobre os alicerces gastos
das velhas convenções teatrais. Desejamos, do fundo do palco e do peito, que
essas histórias tenham vos tocado a ponto de fazer brotar um espelho entre a cena
e o coração. E que, ao deixarem este recinto, levem consigo um raro e necessário
sopro de RE-LA-XA-MEN-TO. Mas, por favor, não se esqueçam: enquanto aqui
rimos, sonhamos, nos perdemos e nos encontramos… lá fora, o mundo, ah, o
mundo, continua a arder, a desabar em suas tragédias silenciosas. E para fechar,
uma reflexão: Que teatro é esse que se faz entre cortinas e refletores, quando, além
dessas paredes, a vida insiste em representar seu drama mais cruel? Tenham uma
boa noite!

FIM

15

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