Assistência à Mulher no Climatério
Assistência à Mulher no Climatério
Brasileira
de Enfermagem REVISÃO
REBEn
Assistência à mulher climatérica: novos paradigmas
Assistance to the climacteric woman: new paradigms
Dino Roberto Soares De LorenziI, Lenita Binelli CatanI, Karen MoreiraII, Graziela Rech ÁrticoI
I
Universidade de Caxias do Sul. Departamento de Tocoginecologia. Caxias do Sul, RS
II
Universidade de Caxias do Sul. Ambulatório Multidisciplinar de Atenção ao Climatério. Caxias do Sul, RS
RESUMO
O envelhecimento populacional é uma realidade demográfica brasileira. Como conseqüência, espera-se, nos próximos anos, um aumento
progressivo na procura dos serviços de saúde por mulheres com queixas relacionadas ao climatério. Paralelamente, a assistência ao
climatério tem passado por uma modificação de paradigmas, impondo aos profissionais de saúde uma mudança de atitude. Reconhece-
se que o climatério é influenciado tanto por fatores biológicos, como por fatores psicossociais e culturais, cujo conhecimento é fundamental
para uma assistência mais qualificada e humanizada. Este artigo propõe refletir sobre as mudanças de paradigmas na assistência ao
climatério, destacando a multidisciplinaridade e interdisciplinaridade, no sentido acolher melhor essa parcela da população e proporcionar-
lhe um cuidado integral e individualizado, aproximando o saber da sensibilidade, voltado a uma melhor qualidade vida.
Descritores: Climatério; Menopausa; Qualidade de vida; Saúde da mulher.
ABSTRACT
Population aging is a demographic reality for Brazil. Consequently, in the next years it is expected a progressive increase in seeking health
care services in the country by women with complaints related to climacterium. Parallel to it, assistance at this part of woman’s life has
been going through a paradigm shift which has imposed to health professionals a change of attitude in relation to this stage of woman’s
life. Today it is acknowledged that the climacterium is influenced by biological, psychosocial and cultural factors, whose knowledge is
fundamental for planning a more qualified and humanized care. This article proposes a reflection on the paradigm shifts in assistance at
climacterium, highlighting important aspects as multidisciplinarity and interdisciplinarity, so as to serve better this portion of population,
and provide it with more integrated and individualized care, bringing together knowledge and sensitivity, and always aiming at a better
quality of life.
Descriptors: Climacteric; Menopause; Quality of life; Women’s health.
RESUMEN
Envejecimiento poblacional es una realidad demográfica brazilian. Consecuentementese espera un aumento progresivo de la búsqueda en
los servicios de salud del país por mujeres con quejas relacionadas al climaterio. La asistencia al climaterio ha pasado por un cambio de
paradigmas que han impuesto a los profesionales de la salud. El climaterio es influenciado por factores biológicos, factores psicosociales
y culturales, cuyo conocimiento es fundamental para la planificación de una asistencia. Artículo se propone reflexionar sobre los cambios
de paradigmas, el abordaje multidisciplinario e interdisciplinario, en el sentido de recibir mejor esta parcela de la población y proporcionarle
un cuidado integral e individualizado, aproximando el saber de la sensibilidad, y el tener como objetivo a una mejor calidad de vida.
Descriptores
Descriptores: Climaterio; Menopausia; Calidad de vida; Salud de la mujer.
Cor respondência: Dino Roberto Soares De Lorenzi. Rua Bento Gonçalves 1759 – sala: 602. CEP 95020-412.
Correspondência:
Caxias do Sul, RS.
INTRODUÇÃO anos, fazendo com que ocorra uma maior procura nos serviços de
saúde brasileiros por mulheres com queixas relacionadas ao
A partir dos anos 80, o envelhecimento populacional tornou-se climatério(7,9).
um fenômeno global, inicialmente obser vado nos países Frente a esta nova realidade demográfica e as novas orientações
desenvolvidos e, mais recentemente, nos países em na atenção clínica a essas mulheres, advindas de recentes pesquisas,
desenvolvimento(1). Segundo projeções da Organização Mundial da a assistência ao climatério tem passado por uma intensa mudança
Saúde, entre 1990 e 2025, o número de idosos aumentará entre de paradigmas em busca de uma assistência mais integral e
sete e oito vezes em vários países da América Latina, África e Ásia(2). humanizada. Conseqüentemente, o conhecimento das condições
O Brasil, à semelhança de outros países latino-americanos, passa de saúde dessa parcela da população, suas demandas por serviços
por um processo de envelhecimento populacional acelerado e médicos e necessidades sociais tornou-se mais prioritário do que
intenso. Entre 1980 e 2000, a proporção de brasileiros com mais nunca para a formulação de políticas de saúde voltadas a um
de 60 anos aumentou de 6,1% para 8,6%, devendo chegar a 14% envelhecimento feminino mais sadio, menos oneroso e com mais
até 2025, o que representará uma das maiores populações de idosos qualidade de vida(5).
no mundo(1,3,4).
As implicações sociais e concernentes ao envelhecimento Climatério: Definição e Aspectos Clínicos
populacional no âmbito da saúde pública são preocupantes, pois, O climatério é um fenômeno endócrino decorrente do
ao contrário dos países mais desenvolvidos, onde o aumento da esgotamento dos folículos ovarianos que ocorre em todas as
expectativa de vida foi gradual e aliado a um maior desenvolvimento mulheres de meia idade. Inicia-se entre os 35 e 40 anos,
tecnológico e científico, o que possibilitou proporcionar uma maior estendendo-se aos 65 anos, caracterizando-se por um estado de
qualidade de vida e saúde a essa parcela da população, o mesmo hipoestrogenismo progressivo(10-13).
não ocorreu nos países em desenvolvimento(2,4,5). O esgotamento folicular inicia-se ainda na vida intra-uterina, na
No Brasil, a atenção à saúde da população mais idosa ainda é 22ª semana de gestação, o ovário possui entre seis e oito milhões
partilhada com questões não totalmente resolvidas, como a de oócitos primários que, por meio de um processo contínuo de
mortalidade infantil e o controle das endemias, o que divide não atresia, reduzem-se a dois milhões no nascimento e a 300.000 ou
somente os profissionais de saúde, mas também os recursos 400.000 na menarca. O processo de atresia continua-se a cada
financeiros disponíveis para investimentos em saúde. Nesse contexto, ciclo menstrual até o total esgotamento folicular, levando a uma
não se pode desconsiderar a maior ocorrência de afecções crônico- queda progressiva da secreção de estradiol, com manifestações
degenerativas entre essa parcela da população, em particular quando sistêmicas. A suspensão definitiva dos ciclos menstruais ou
o envelhecimento populacional não é acompanhado de políticas de menopausa reflete a ausência de níveis de estradiol suficientes para
saúde específicas voltadas à promoção e prevenção em saúde(2). proliferar o endométrio(10-12).
Aproximadamente 50% a 70% das mulheres referem sintomas
RESULTADOS E DISCUSSÃO
RESULT somáticos e dificuldades emocionais nos anos que seguem a
menopausa, com destaque para ondas de calor ou fogachos, devido
eminino: o Desafio do Climatério
Envelhecimento FFeminino: as suas implicações negativas para a sua qualidade de vida(10-12).
A despeito de referências acerca do climatério possam ser O mecanismo fisiopatológico das ondas de calor ainda não é
encontradas em textos escritos por Aristóteles (384-322 a.C.), até totalmente conhecido, porém, sabe-se que o declínio dos níveis de
a poucas décadas, a condição de mulher “menopausada” era estradiol interfere no centro regulador da temperatura localizado
raramente expressa em público, devido ao constrangimento que no hipotálamo, favorecendo a sua ocorrência. Caracterizam-se por
isso causava, fazendo com que pouco se conhecesse acerca das uma sensação transitória e súbita de aumento da temperatura
suas necessidades e demandas. Em parte, a pouca atenção prestada corporal, freqüentemente acompanhada de sudorese, palpitações
ao climatério no passado deveu-se à menor expectativa de vida e cefaléia, que acaba por interferir nas atividades diárias e na
feminina até então. Poucas mulheres viviam o suficiente para chegar qualidade do sono(10-12).
ao climatério, situação que mudou com o progressivo aumento da A atrofia urogenital é outra queixa comum nessa fase e que
expectativa de vida feminina a partir da segunda metade do século pode causar intenso desconforto à mulher. A intensificação do
XX(4-7). declínio estrogênico após a menopausa promove um adelgaçamento
Segundo Rosembaum(8), atualmente, várias são as razões pelas e enrijecimento da parede vaginal, que aliados a uma menor
quais o período do climatério tem merecido uma maior atenção no lubrificação, causam dispareunia e dificuldades no intercurso sexual.
âmbito da saúde pública. Inicialmente, o aumento do número de O terço distal da uretra sofre também um processo de atrofia, que
mulheres com mais de 50 anos na população mundial, que de 467 se manifesta por disúria e urgência miccional(11,12).
milhões em 1990 deverá chegar a 1,2 bilhões em 2030. Além Na esfera cognitivo-comportamental, no climatério, não são raras
disso, é necessário considerar a crescente participação dessas mudanças comportamentais, maior labilidade emocional e até
mulheres no mercado de trabalho e geração de divisas. dificuldades com a memória. Não obstante, há dúvidas acerca do
No Brasil, o envelhecimento populacional mostra uma clara quanto tais queixas estariam relacionadas à queda estrogênica ou a
tendência à feminização. As mulheres com mais de 40 anos fatores psicossociais e orgânicos relacionados ao processo de
correspondem a 32% da população feminina, percentual este que envelhecimento. O hipoestrogenismo interferiria na síntese dos
deve aumentar em 11% até 2010. Além disso, a sua expectativa de neurotransmissores, modulando o comportamento e sintomas
vida já ultrapassa em 10,8 anos à masculina, chegando aos 75,6 psíquicos. As próprias ondas de calor, dependendo da sua
intensidade e freqüência, por interferirem no sono e nas atividades mulheres após a menopausa, o que merece atenção não apenas
cotidianas, seriam causa de irritabilidade e até depressão. Para outros pela questão estética, mas sim pelas implicações no risco
autores, a maior ocorrência de depressão no climatério estaria cardiovascular e na gênese do câncer de mama, endométrio e cólon.
relacionada principalmente ao medo de envelhecer aliado a No climatério, o ganho ponderal chega a 0,8 Kg/ano; porém, após
sentimentos de inutilidade e carência afetiva(12,13). a menopausa, pode haver um aumento de 20% na gordura corporal.
Não se pode desconsiderar também que, nas culturas ocidentais, O papel do hipoestrogenismo nesse processo é ainda incerto, que
a beleza física, a juventude e a maternidade são elementos de parece estar mais relacionado à inadequação da dieta às necessidades
valorização da mulher, cuja perda pode favorecer sentimentos de energéticas da mulher climatérica. A carência estrogênica contribuiria
desvalia, tristeza e até depressão. A maior percepção do principalmente para o acúmulo de gordura abdominal, aumentando
envelhecimento e a intensificação da sintomatologia decorrente do o risco cardiovascular feminino(20,21).
hipoestrogenismo, aliados a eventos comuns nessa fase, como o Das co-morbidades associadas ao hipoestrogenismo climatérico,
crescimento dos filhos, a aposentadoria ou a morte do cônjuge merece destaque a osteoporose e a maior incidência de doenças
demandam ajustes emocionais e mudanças de estilo de vida por cardiovasculares. Após a menopausa, a velocidade de perda óssea
vezes difíceis para a mulher(5,12-14). Ao mesmo tempo, cabe lembrar pode chegar a 2% ao ano. Nos Estados Unidos, a osteoporose é
que, no climatério, as mulheres tendem a atribuir indiscrimi- responsável anualmente por 1,2 milhões de fraturas, com taxas de
nadamente à menopausa tanto os sintomas relacionados à carência mortalidade entre 12% e 20%. As mulheres sobreviventes
estrogênica, como as queixas físicas ou emocionais decorrentes de desenvolvem seqüelas muitas vezes permanentes e que requerem
eventuais estados mórbidos prévios, confundindo-as(15). medidas de reabilitação extremamente dispendiosas(22).
A sexualidade merece particular atenção no climatério. Esta é No que se refere às doenças cardiovasculares, durante o
reconhecida como um dos pilares da qualidade de vida, porém a menacne, a incidência de cardiopatia isquêmica feminina é cerca de
sua abordagem nem sempre é feita adequadamente no climatério três vezes menor que a masculina. Após a menopausa, com a queda
por constrangimento das mulheres ou despreparo dos próprios dos níveis de estradiol, o risco cardiovascular feminino aumenta
profissionais de saúde em lidar com essa questão. Além disso, progressivamente, equivalendo-se ao do homem aos 75 anos(23).
conforme lembrado por Favarato (2000), a sexualidade teria um Para se ter uma idéia da importância dessa questão, vale lembrar
caráter multidimensional, sendo influenciada por fatores que, no Brasil, no ano de 2000, a doença cardiovascular isquêmica
psicossociais e culturais, em especial por relacionamentos levou ao óbito 32.936 mulheres, enquanto que o câncer de mama
interpessoais e experiências de vida, não se restringindo a fatores foi responsável por 8.308 óbitos(5).
anatômicos e hormonais(16).
Entre 25% e 33% das mulheres entre 35 e 59 anos apresentam A A ssistência à M ulher C limatérica: a Busca por N ovos
disfunções sexuais, podendo chegar a 75% entre os 60 e 65 anos. Paradigmas
Além das dificuldades decorrentes da atrofia urogenital, a mulher Até recentemente, a assistência à mulher climatérica centrava-
climatérica tem de lidar com as mudanças físicas decorrentes do se principalmente na terapia hormonal. Entretanto, a partir de 2002,
envelhecimento simbolizadas pela menopausa, que podem a publicação dos resultados dos estudos conhecidos por WHI
comprometer a percepção da sua auto-imagem corporal, diminuindo (Women’s Health Initiative), houve uma sensível redução na sua
a sua auto-estima e interferindo negativamente na sua libido. Esse prescrição(5,24).
processo diverge de mulher para mulher, pois, entre as que vivenciam Os achados do estudo WHI apontaram para um risco significativo
mais positivamente o climatério, as repercussões na esfera sexual maior para eventos tromboembólicos e câncer de mama,
parecem ser menos intensas. Estas perceberiam na redução das respectivamente, no final do primeiro e após o quinto ano do uso
obrigações com os filhos e com a carreira profissional, uma contínuo de estrógenos conjugados eqüinos associados a acetato
oportunidade para o exercício afetivo-sexual(17,18). de medroxiprogesterona, quando comparado com um grupo controle
Ainda em relação à esfera sexual, é preciso lembrar que os sem qualquer medicação hormonal. Ainda que, posteriormente,
homens pouco conhecem acerca do climatério e as suas implicações tais resultados tenham sido questionados por problemas
para a saúde da mulher, tendo por vezes dificuldade de compreender metodológicos, acabaram por levar a uma maior reflexão acerca da
o processo por que esta está passando. Agravando a situação, após assistência à mulher climatérica(5,22,24).
os 50 anos, o homem sofre um declínio natural dos níveis de As indicações da terapia hormonal tornaram-se restritas ao alívio
testosterona, o que pode comprometer sua libido e potência sexual. dos sintomas vasomotores e da atrofia urogenital e na prevenção
Ao mesmo tempo, após os 60 anos, a ocorrência de neoplasias de da osteoporose, não tendo sido esta última indicação referenda
próstata é maior, podendo o seu tratamento interferir na atividade pelo FDA norte-americano(25). Tal conservadorismo em relação à
sexual(5,16-18). prescrição à terapia hormonal tem sido contestado por pesquisas
Dificuldades com o sono são também comuns em mulheres após recentes, cujos achados têm apontado para possíveis efeitos
os 50 anos, em especial a insônia, ainda que, até o momento, não benéficos desta. Dentre estas, uma revisão do próprio estudo WHI
tenha sido possível estabelecer uma associação definitiva destas demonstrou que a terapia hormonal teria um efeito de proteção
com a queda estrogênica, sendo atribuídas, na maioria das vezes, à cardiovascular quando iniciada nos primeiros dez anos após a
ocorrência de fogachos ou a dificuldades emocionais. Sabe-se que menopausa, quando o processo de aterosclerose ainda é inicial(26).
o despertar acompanhado de fogachos despende mais energia, No entanto, a despeito destes estudos, até o momento a prescrição
resultando em fadiga, irritabilidade e até depressão(19). ampla de estrógenos no climatério permanece não recomendada(25).
O ganho ponderal excessivo é freqüentemente relatado pelas Para as mulheres, a mudança de comportamento em relação à
prescrição da terapia hormonal tem sido difícil de compreender, considerar também a influência de fatores culturais e psicossociais,
gerando indagações e até desconfianças acerca dos seus motivos. na busca de um cuidado mais integral e efetivo(11). Para tanto, é
Até o estudo WHI, a terapia hormonal representava uma resposta necessário que os profissionais de saúde, médicos ou não, procurem
aos anseios das mulheres em promover a sua saúde nos anos que perceber a mulher climatérica na sua integralidade, individualizando
se seguiam a menopausa. Vale lembrar que nessa fase, são muitas as suas necessidades e disponibilizando tanto medidas de promoção
as fantasias e dúvidas femininas em relação às implicações da à saúde, como terapêuticas e de reabilitação com vistas a
menopausa para a saúde. Em parte, isso se deveu à excessiva pressão proporcionar-lhe uma melhor qualidade de vida. Com isso se evitará
da indústria farmacêutica na década passada, que estimulava o uso a regulação indevida do corpo da mulher e a “medicalização” do
praticamente irrestrito da terapia hormonal, bem como da envelhecimento feminino, abrindo um espaço para a participação
inadequada e excessiva exploração do climatério pelos meios de da própria mulher nas decisões sobre o seu planejamento
comunicação, situação essa agravada pela dificuldade dos médicos terapêutico(5,29-31).
em lidar com a complexidade da síndrome climatérica, restringindo- Sem desconsiderar o papel da terapia hormonal no alívio das
a freqüentemente a intervenções medicamentosas(5,11). ondas de calor e dos sintomas urogenitais, têm sido resgatadas
O consenso atual é que a qualidade de vida seja o norteador de medidas igualmente importantes na promoção da saúde e qualidade
qualquer intervenção no climatério(5). Em parte, a preocupação atual de vida no climatério, como o cuidado alimentar, o combate ao
com os aspectos relacionados à qualidade de vida ao longo do sedentarismo e a restrição ao tabagismo. A educação em saúde,
ciclo vital humano originou-se do reconhecimento pelos profissionais em especial, tem merecido destaque, não somente por contribuírem
de saúde da importância dos sentimentos e percepções dos para um maior autocuidado, como para a mudança de eventuais
indivíduos, bem como da monitorização do seu bem estar frente a posicionamentos negativos acerca do envelhecimento feminino,
medidas terapêuticas tomadas com vistas a prolongar a vida, aliviar esclarecendo dúvidas acerca do climatério e da menopausa e,
a dor, restaurar funções ou prevenir incapacidades(27). conseqüentemente, reduzindo a ansiedade da mulher(5,18). Estudo
Para a Organização Mundial da Saúde, qualidade de vida refere- examinou o impacto das intervenções educativas em um grupo de
se à percepção que um indivíduo tem de sua vida no sistema de mulheres climatéricas residentes em Londres, tendo mostrado que,
valores e na cultura em que vive, com base em suas metas e após 15 meses, as primeiras não somente passaram a expressar
expectativas(5,9). Os fatores físicos, mentais, psicológicos, sociais, menos crenças negativas acerca do climatério, como, inclusive,
econômicos, culturais e espirituais, exercem influência na saúde menos sintomas(32).
física na qualidade de vida. A qualidade de vida é definida como O sedentarismo, por sua vez, favorece a perda da massa muscular,
um construto multidimensional, com significados diferenciados a redução da taxa metabólica de repouso e da capacidade aeróbica,
segundo a diversidade de contextos de vida. Entre as dimensões bem como uma maior resistência insulínica e o acúmulo de
que lhe dão significado, estão a manutenção da capacidade funcional, adiposidade. Estudos demonstraram que mulheres climatéricas com
a satisfação pessoal, o estado emocional e a interação social(5,9,18). atividade física regular tendem a manifestar menos sintomas somáticos
Dentre os fatores associados à qualidade de vida da mulher no e uma melhora do humor, bem como um alívio nas ondas de calor(33-
climatério, os mais relevantes são as suas condições físicas e 35)
. O exercício físico atuaria estimulando a secreção de â-endorfinas
emocionais prévias, bem como a sua inserção social e experiências hipotalâmicas, substâncias que promovem a sensação de bem estar
frente a eventos vitais. Mais recentemente, tem sido reconhecida a e contribuem para a estabilização da termorregulação hipotalâmica(32).
influência das atitudes e percepções da mulher em relação à A atividade física regular contribui também para a preservação
menopausa na qualidade de vida no climatério(12,15,18). da mobilidade articular e o fortalecimento muscular, melhorando a
Mulheres com uma percepção mais negativa da menopausa não coordenação motora. Além disso, aumenta a densidade mineral
somente tendem a apresentar uma pior qualidade de vida, como óssea, melhora a capacidade respiratória e o perfil lipídico, diminui
sintomas climatéricos mais severos(12,27). As ondas de calor parecem a freqüência cardíaca de repouso e a gordura corporal, além de
ser os únicos sintomas diretamente associados com a queda normalizar a pressão arterial, contribuindo assim para uma menor
estrogênica, ao passo que as demais queixas climatéricas (labilidade incidência de co-morbidades ósseas e cardiovasculares (33,34).
emocional, menor libido e insônia) estariam relacionadas Ademais, melhora a imagem corporal da mulher, aumentando a
principalmente ao modo como a menopausa é percebida(12 ). sua auto-estima e a disponibilidade para o exercício afetivo-sexual(5).
Frente ao exposto acima, é reconhecida a necessidade de se O tabagismo, em especial, tem se mostrado extremamente nocivo
buscar um paradigma mais abrangente, não somente explicativo, à mulher climatérica, contribuindo para uma maior deterioração da
mas sim interpretativo das questões relacionadas à saúde da mulher sua qualidade de vida, devendo ser combatido nessa fase. Os seus
climatérica. A percepção atual é de que o fenômeno saúde em malefícios incluem a doença bronco-pulmonar obstrutiva crônica,
todas as fases da vida esteja conectado a uma realidade social o câncer de pulmão e o maior risco cardiovascular. A nicotina
específica, sendo influenciado por fatores políticos, econômicos e estimula ainda a secreção de serotina e de dopamina, causando
culturais, não se restringindo a fatores biológicos. O desafio está ansiedade e até euforia, além de interferir na globulina carreadora
em não reduzir a assistência médica a intervenções meramente de estrogênio, agravando os sintomas climatéricos e o risco de
curativas, visto que os indivíduos não são totalmente saudáveis ou osteoporose(36,37).
doentes, mas apresentam diferentes níveis de saúde e de doença, Dentre os agravos à saúde mais prevalentes no climatério, grande
conforme o seu momento de vida(5,18,28). parte relaciona-se direta ou indiretamente à ingestão inadequada
A assistência ao climatério está se expandindo para além dos de alimentos, quer seja em excesso ou deficiência por longos
aspectos biológicos relacionados ao hipoestrogenismo, passando a períodos(20,38). O consumo em excesso de alimentos energéticos,
principalmente gorduras saturadas, associa-se a um maior risco se aplica claramente à mulher climatérica(40).
cardiovascular. Em contrapartida, a baixa ingestão de nutrientes, Quando preocupados com a questão da integralidade, os
como o cálcio, favorece a ocorrência de osteoporose. Estudo profissionais de saúde comprometem-se em buscar o verdadeiro
envolvendo 154 mulheres climatéricas residentes na cidade de São significado das queixas climatéricas, de forma a se atender a mulher
Paulo revelou que 75% apresentavam sobrepeso ou obesidade e e não o problema referido. Ao mesmo tempo, o momento da
deficiências importantes de vitaminas, ferro e cálcio(38). Achados consulta não deixa de ser otimizado para identificar possíveis agravos
similares foram observados em levantamento realizado no não manifestos ou situações de risco. Nesse contexto, a intervenção
Ambulatório de Climatério da Universidade de Caxias do Sul(20). de caráter multidisciplinar e interdisciplinar ganha espaço por
Assim, a despeito das várias são as possibilidades de intervenção potencializar e qualificar a intervenção médica(39).
no climatério, hoje se reconhece que para serem efetivas, devem A integralidade representa, talvez, o maior desafio nas práticas
ser sempre precedidas de uma escuta qualificada, que permita clínicas e político-sanitárias atuais, pois demanda um rompimento
identificar as reais necessidades da mulher nessa fase. É preciso no processo tradicional e até cristalizado na forma como são feitas
que esta tenha espaço para manifestar a sua percepção e sentimentos as intervenções em saúde. Não se quer aqui desconsiderar a
acerca do momento que está vivenciando e as suas dificuldades importância da ação médica especializada, porém, dependendo da
pessoais, devendo ser informada sobre as mudanças que o seu forma como ela é conduzida, pode favorecer a própria iatrogenia,
corpo está sofrendo e as implicações para a sua saúde. O climatério conforme observado em relação à terapia hormonal na década
precisa ser entendido como um período normal de transição, em passada(39).
que a prevenção de doenças e o alívio de possíveis desconfortos
podem ser abordados de diferentes maneiras(5,30). CONSIDERAÇÕES FINAIS
Infelizmente, no Brasil, a mulher climatérica nem sempre encontra
o acolhimento necessário ao atendimento de suas necessidades. A Indubitavelmente, várias são as possibilidades de intervenção
assistência médica é geralmente fragmentada, propondo no climatério, cuja efetividade depende de uma escuta qualificada
intervenções meramente curativas, ainda que o climatério não seja dessas mulheres, das questões ocultas em suas queixas, dos seus
um estado mórbido, mas uma etapa normal do envelhecimento sentimentos e percepções acerca do seu envelhecimento. Para tanto,
feminino(5,18,30). é indispensável que a mulher climatérica tenha espaço para expressar
É preciso que os profissionais de saúde busquem o que está os seus sentimentos acerca do momento que está vivendo e as
oculto por trás da queixa referida, quais os seus anseios e dificuldades que está sentindo, recebendo informações sobre as
necessidades não explicitados pela mulher climatérica que os mudanças que o seu corpo está sofrendo e as suas implicações
procura, como esta vive e quais as suas expectativas nos anos que para a sua saúde. Ao mesmo tempo, não se pode mais restringir a
se seguem a menopausa(5,39). Infelizmente, tal prática se encontra saúde a questões meramente orgânicas.
ainda distante do cotidiano da maioria dos serviços de saúde No climatério, em especial, é preciso rever a subjetividade da mulher,
brasileiros, sejam estes públicos ou privados. O climatério persiste resgatando a sua história pessoal, valores, expectativas e desejos,
sendo percebido como uma entidade patológica, que demanda evitando abordagens mecanicistas e reducionistas, através de uma prática
basicamente intervenções medicamentosas(5). que aproxime o saber da sensibilidade. Ainda que o envelhecimento
Para contornar essa situação, é premente que a mulher climatérica seja uma conquista das nações civilizadas e progressistas, cabe lembrar
passe a ser percebida na sua integralidade, de forma que, além de que não basta apenas maximizar a expectativa de vida, mas também
ser ouvida nas suas queixas, tenha acesso, de forma particularizada buscar por uma melhor qualidade de vida.
e individualizada, tanto a medidas de promoção e prevenção em É importante que os profissionais de saúde acolham adequadamente
saúde, como terapêuticas e de reabilitação, com vistas a uma melhor as mulheres climatéricas, permitindo que exponham as suas dúvidas e
qualidade de vida(5,40,41). receios. Além do apoio emocional e respeito, estas demandam respeito
A questão da individualização e da participação da própria mulher e uma assistência ajustada a suas necessidades, evitando-se intervenções
nas decisões relativas à assistência médica durante o climatério é desnecessárias. Não se quer aqui desconsiderar os efeitos da terapia
fundamental nessa era pós-WHI. Os próprios consensos atuais sobre hormonal no alívio da sintomatologia climatérica e prevenção da
a prescrição da terapia hormonal ressaltam a importância da osteoporose, mas lembrar a importância de outras intervenções
participação da mulher no seu plano terapêutico, sempre à luz das igualmente importantes nessa fase.
evidências científicas. Tal medida é essencial para que se fuja da As abordagens fragmentadas e reducionistas do tipo “consulta/
tendência à regulação excessiva do corpo da mulher climatérica solicitação de exames/prescrição”, nada mais que reforçam no
através da “medicalização” indevida do envelhecimento feminino(5,41). imaginário feminino a percepção da menopausa como um símbolo
No campo da saúde, a integralidade compreenderia um do envelhecimento e de decrepitude existencial, aumentando o
agrupamento de tendências cognitivas e políticas imbricadas entre sofrimento da mulher. Nesse contexto, as abordagens de caráter
si, ainda que não completamente articuladas, visto a dificuldade de multidisciplinar e interdisciplinar ganham particular destaque nessa
atender plenamente a totalidade das demandas do ser humano. No fase, por permitirem acolher um maior número de mulheres, além
enfoque da integralidade, a abordagem das questões de saúde de favorecerem o intercâmbio de saberes e habilidades, com vistas
compreende tanto dimensões assistenciais, quanto preventivas, a promover mais saúde e qualidade de vida a essa parcela crescente
contemplando assim tanto os portadores de alguma doença ou da população através de um cuidado mais integral e individualizado,
agravo, como os indivíduos considerados saudáveis. Tal premissa considerando a multiplicidades de fatores envolvidos no climatério.
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