Taxas de Mortalidade: Cálculo e Análise
Taxas de Mortalidade: Cálculo e Análise
A MORTALIDADE
Objetivos
6.1. MORTALIDADE
A morte é o último evento demográfico da nossa vida. Contudo, não ocorre da mesma
forma para todas as pessoas; algumas morrem mais cedo do que outras. O impacto da
mortalidade varia significativamente de acordo com as características sociais e
demográficas dos indivíduos.
A principal característica da mortalidade, durante o século XX, foi o seu declínio. Mas
esse declínio não se fez observar em todos os países ao mesmo tempo e, nos países
em que isso aconteceu, não declinou com a mesma velocidade nos diversos tipos de
grupos que integram as estruturas sociodemográficas.
138
Fatores educacionais (maior conhecimento, nomeadamente, sobre alimentação e
vestuário);
Estes fatores contribuíram para que a mortalidade declinasse de tal forma que se
tornou visível o aumento do número de pessoas que passaram a sobreviver até idades
cada vez mais avançadas Mas esse declínio não foi igual em todo o mundo. Daí a
diversidade de situações que existem.
Com efeito, no contexto atual, tem-se demonstrado que a mortalidade varia com o
nível socioeconómico, com a profissão, com o lugar de residência e com certas
características étnicas e religiosas (Nazareth, 2004). Contudo, entre países mais
desenvolvidos e países menos desenvolvidos, a razão da divergência deriva do facto
de, nos primeiros, todos os fatores enunciados anteriormente terem concorrido para o
declínio da mortalidade, ao passo que, na maior parte dos segundos, o declínio
observado tem sido devido, sobretudo, a fatores médicos e sanitários (Nazareth,
2004).
No contexto português, o estudo de Coelho e Catela Nunes (2015) mostra que, desde
1950, assiste-se ao declínio global dos níveis de mortalidade em todas as idades, a
uma redução efetiva da mortalidade infantil e a um aumento da sobrevivência até
idades cada vez mais avançadas. No entanto, apesar deste panorama francamente
favorável, Portugal detém uma posição de relativa fragilidade comparativamente com
os outros países da Europa Ocidental, sobretudo, na população masculina. Esta
139
posição relativamente desfavorável dos homens, em algumas idades, é um indicador
de que ainda existe espaço para melhorias no âmbito do declínio da mortalidade.
A TBM relaciona, assim, o número de óbitos durante um dado período, que, caso não
seja anual, deverá ser reduzido a uma dimensão anual2, e a população média referida
ao período em causa.
Capítulo 4.
1
Consultar capítulo 4.
2
140
População média (2021): 10407707.
Em Portugal, a Taxa Bruta de Mortalidade de 2021 foi de 12 óbitos por mil habitantes.
Fonte : INE, Óbitos por local de residência, 2021; População média anual residente, 2021.
A taxa bruta é a soma dos produtos das estruturas relativas de cada idade (proporções
etárias) pelas taxas nessas mesmas idades (taxas de mortalidade por grupos de
idades) (Quadro 7), deste modo poderá apresentar-se também a seguinte fórmula de
cálculo:
Como ao conjunto das taxas por idade se chama o modelo do fenómeno, a taxa bruta
pode ser redefinida como uma resultante da interação entre o modelo e a estrutura
(Nazareth, 2004)3.
tanto podem ter origem em variações ao nível do modelo da mortalidade (taxas de mortalidade
por grupos de idades) como ao nível das estruturas da população. Variações que assumem
significados completamente diferentes: relativas ao modelo remetem para a existência de
diferentes riscos de mortalidade (que se prendem com as condições gerais de saúde e higiene),
relativas às estruturas remetem para o maior ou menor envelhecimento da população
(Nazareth, 2004).
141
Quadro 7 – Mortalidade e estrutura relativa da população, Portugal, 2021
4
Consultar capítulo 4.
142
grupo etário ou idade (Bandeira, 2004). Estas taxas são sobretudo a taxas específicas
entre aniversários5 que são as mais fáceis de calcular, pois não exigem os dados com
dupla classificação (por idade e ano de nascimento).
Temos, deste modo, as taxas de mortalidade geral por idades ou grupos de idades
( , que se referem ao risco de morte em cada idade ou em cada grupo etário.
Correspondem à relação entre o total de óbitos, num determinado ano, em cada idade
ou grupo etário, e a população correspondente a esse grupo no meio do ano em
análise (Pressat, 1980). Se tomarmos como exemplo a taxa de mortalidade para o
grupo etário dos 15 aos 19 anos, a fórmula de cálculo será a seguinte:
5 ×1000
Exemplo: taxa de mortalidade dos 15-19 anos, Portugal, 2021 (Quadro 7).
Em Portugal, no ano de 2021, existiram 0,23 óbitos por cada 1000 habitantes dos 5
aos 15 anos de idade.
Fonte : INE, Óbitos por idade e local de residência, 2021; População média anual residente, 2021.
O conceito de taxas específicas que usamos em relação à idade pode ser estendido
para outras variáveis que influenciam o risco de morrer. Assim, podemos definir taxas
específicas por sexo, por estado civil, causas de morte, por grupos socioeconómicos
etc.
Consultar capítulo 4.
5
143
Do mesmo modo, calculam-se também as taxas por idade e por sexos separadamente.
Taxas que relacionam os óbitos de cada sexo ocorridos num dado ano, na idade
considerada, com a população média desse mesmo sexo, com essa idade, durante
esse ano (Bandeira, 2004).
Calcula-se, geralmente, sem distinção de sexos pelo facto de que a diferença que
existe entre mortalidade masculina e feminina não é significativa, nessas idades.
Em suma, seria necessário esperar dois anos para se poder calcular a taxa de
mortalidade infantil dos nascidos vivos num determinado ano, dada a dificuldade
prática de separar-se, em cada ano do calendário, do total de óbitos infantis, aqueles
referentes a crianças nascidas no próprio ano e a crianças nascidas no ano anterior
(implicaria ter acesso a dados de observação por idades e anos de nascimento).
Consultar capítulo 4.
6
7
Em causa aqui está uma medida na geração, ou seja, um quociente ( , consultar capítulo
4.
144
Figura 24 – Configuração dos dados de observação relativos à mortalidade infantil
Idades
exatas
2
0 Nados-vivos
N-1 N N+1 Anos de
observação
Contudo, a não ser que haja, entre dois anos consecutivos, grande diferença no
número de nascimentos e/ou grande mudança na mortalidade de crianças abaixo de
um ano, pode-se considerar como uma boa medida de mortalidade infantil a taxa de
mortalidade infantil (clássica) calculada a partir de uma observação de acontecimentos
produzidos durante um ano civil ou sob a perspetiva da análise do momento (Bandeira,
2004). A taxa de mortalidade infantil clássica é pois um dos indicadores que permite,
num dado momento, o acesso à situação sanitária de uma população.
De facto, num espaço temporal de quarenta anos, Portugal inverteu a sua posição,
possuindo atualmente uma das taxas mais baixas do mundo. Considerando o ranking
da OCDE25, que inclui os trinta países membros, Portugal apresentou uma subida
145
notável, passando de vigésimo oitavo lugar, em 1960, para o oitavo lugar, em 2006.
Ao longo de três décadas consecutivas, Portugal reduziu em 50% a sua taxa de
mortalidade infantil, registando em 2008 uma taxa de 3,3 por mil, colocando-se assim
entre um dos países europeus com melhor desempenho neste indicador (Barreto &
Correia, 2014).
Os fatores associados a esta redução são os fatores sociais, tais como o nascimento
fora do casamento sem coabitação8, o nível de instrução da mãe, o emprego materno,
a idade da mãe, os fatores de saúde (como a assistência ao parto, o peso à nascença e
os recursos em saúde: médicos por 100 mil habitantes; centros de saúde e hospitais
por 100 mil habitantes) e os fatores económicos. Portugal obteve uma redução de
74,66% da taxa de mortalidade infantil, passando de 13,06‰, em 1988, para 3,31‰,
em 2008. É provavelmente o indicador em que o país mais progrediu nesses 20 anos
(Barreto & Correia, 2014).
Atualmente, Portugal apresenta, para o ano de 2022, uma taxa de mortalidade infantil
de 2,6‰ 9, posicionando-se como um dos países do mundo com os valores mais baixos
referidos a este indicador de desenvolvimento.
coabitação.
Pordata:
9
[Link]
il-528
146
Figura 25 – Configuração dos dados de observação referidos ao cálculo da Tmi
(clássica)
Idades
exatas
Óbitos (0,1)
0 Nados-vivos
N N+1 Anos de
observação
Fonte : INE, Óbitos por idade e local de residência, 2021; Nados-vivos, 2021.
147
Agregando os resultados obtidos através desta taxa em sequência temporal, podemos
conhecer não só as condições de sobrevivência infantil do momento, mas também a
sua evolução ao longo do tempo, médio e longo prazo.
Todavia, estamos perante uma taxa referida a acontecimentos (óbitos) que envolvem
duas gerações diferentes. A geração nascida no ano de observação (N) e a geração
nascida no ano anterior (N-1) (Figura 24). Situação que dá lugar à possibilidade de
enviesamento dos resultados, caso exista grande diferença no número de nados-vivos
em dois anos consecutivos ou grandes alterações na mortalidade de crianças com
menos de um ano de idade (Bandeira, 2004).
Neste caso e não tendo acesso a dados com dupla classificação, pode recorrer-se ao
denominado método da média ponderada ou das médias ponderadas dos efetivos
iniciais das gerações em causa (Bandeira e Pintassilgo, 2018). A taxa assim calculada é
também conhecida como a verdadeira taxa de mortalidade infantil (Nazareth,
2004).
Óbitos (0,1)
148
O processo de cálculo da taxa de mortalidade, através do método da média
ponderada, tem a seguinte fórmula de cálculo, com recurso a coeficientes de
ponderação11 determinados em função do nível da mortalidade infantil, medida pelo
método clássico:
Nascimentos em 2020:84530.
A mortalidade infantil em 2021, segundo o método das médias ponderadas, foi de 2,42
óbitos de crianças, com menos de 1 ano de idade, por cada mil nascimentos.
Fonte:INE,Óbitos,2021;Nados-vivos,2020,2021.
11
Os coeficientes de ponderação aqui utilizados (no exemplo apresentado) são os de Shryock e
Siegel (Nazareth,2004). Todavia, existem os da escola francesa de Reed e Merrel utilizados por
outros autores como Mário Leston Bandeira e Sónia Cardoso Pintassilgo (Leston Bandeira &
Pintassilgo, 2018).
149
Como se pode verificar, a diferença entre o resultado obtido pelo método clássico
(2,43‰) e o obtido pelo método da média ponderada (2,42‰) é praticamente nula,
confirmando que a diferenciação existente, entre 2020 e 2021, ao nível dos nados-
vivos não é determinante, mas nem sempre assim acontece12.
Por este facto, a mortalidade infantil deve ser abordada e analisada tomando por
referência duas fronteiras temporais muito precisas: no início, a formação do feto, e no
fim, o primeiro aniversário. Entre estas duas fronteiras, o risco de mortalidade vai
mudando de natureza e de intensidade.
Taxa de mortinatalidade
12
Segundo Nazareth (2004), é sempre preferível, mesmo em situações de mortalidade infantil
abaixo dos 50‰, calcular a taxa de mortalidade infantil pelo método das médias ponderadas.
150
A mortinatalidade designa, assim, a mortalidade intrauterina dos fetos com uma
gestação superior a um determinado valor temporal mínimo (28 ou mais semanas de
gestação) (Bandeira, 2004; Nazareth, 2004).
151
Taxa de mortalidade perinatal
Desde 2003, que o INE define a mortalidade perinatal como a que diz respeito aos
“óbitos fetais de 28 ou mais semanas de gestação e óbitos de nados-vivos com menos
de 7 dias de idade”, considerando como óbitos fetais tardios, os que ocorrem a partir
das 28 semanas de gestação (INE,2023)14.
Contudo, os óbitos perinatais apresentados pelo INE não correspondem à soma dos óbitos
14
fetais e dos óbitos com menos de 7 dias de vida. O que remete para critérios diferenciados no
limite da duração da gravidez para os óbitos perinatais e óbitos fetais (Bandeira & Pintassilgo,
2018).
152
Óbitos com 28 a 365 dias (exatos) em 1973: 4079
1973 =
1973 =
1973 =
153
Naquelas populações onde a Tmi é alta, os óbitos são menos concentrados nas
primeiras semanas de vida, porque muitos dos óbitos infantis são devidos a fatores
ligados ao meio em que a criança vive, tais como as condições de saneamento e
nutrição. A mortalidade pós-neonatal é mais sensível ao meio ambiente, aos
comportamentos e às doenças infeciosas. Este indicador está pois intimamente
associado às condições de vida (Rollet, 2007).
As causas exógenas por sua vez, estão associadas a causas exteriores (doenças
infeciosas, subalimentação, cuidados hospitalares insuficientes e acidentes diversos).
São deste modo, resultado de condições sanitárias ou contextos sociais desfavoráveis à
sobrevivência da criança.
Para podermos separar os óbitos infantis por causas endógenas ou exógenas teremos
de ter acesso a estatísticas de óbitos por causas de morte.
No entanto, existe um método que permite obter essa separação sem termos a
informação dos óbitos por dias e idades. Trata-se, pois, de aumentar em 25% os
óbitos registados no intervalo de 31 a 365 dias, ou aumentar em 22,8% os do intervalo
de 28 a 365 dias, e obtemos o total de óbitos exógenos.
154
Parte-se, então, do princípio de que os óbitos endógenos acontecem no primeiro mês
de vida e, por sua vez, os exógenos ocorrem nos restantes meses. Dado que nem
todos os óbitos produzidos no primeiro mês de vida são endógenos, determina-se a
percentagem de óbitos exógenos por meio das regras anteriormente referidas.
Assumindo-se que a proporção dos óbitos exógenos que ocorrem no primeiro mês é
sempre uma fração constante do conjunto dos óbitos exógenos (uma fração constante
da mortalidade de um a onze meses) (Bandeira, 2004).
Para obter os óbitos exógenos somamos aos óbitos com 28-365 dias (4079) os óbitos
exógenos com menos de 28 dias, isto é, 4079 x 0,228 (22,8%) = 930
155
Logo:
Para obter os óbitos endógenos subtraímos os óbitos exógenos do total de óbitos com
menos de 1 ano: (3647+4079) - 5009 = 2717
A OMS define uma morte materna como a morte de uma mulher durante a gravidez ou
no prazo de 42 dias após a interrupção da gravidez, independentemente da duração da
gravidez, de qualquer causa relacionada ou agravada pela gravidez ou seu tratamento,
excluindo causas acidentais ou incidentais (Poston & Bouvier, 2017).
Os dois fatores mais importantes que levam à morte materna são a idade e a paridade
(o número de vezes que uma mulher deu à luz; também se refere à ordem de
156
nascimento, por exemplo, um segundo filho, que seria um filho de segunda paridade).
Os riscos de morte por maternidade (durante a gravidez) são maiores para mulheres
muito jovens e mulheres mais velhas do que para mulheres na casa dos vinte e trinta
anos.
Mulheres com alta paridade e mulheres com intervalos curtos entre partos também
estão em alto risco devido a doenças crónicas e desnutrição, pobreza, gravidez
indesejada, cuidados pré-natais e obstétricos inadequados e falta de acesso a um
hospital (Poston & Bouvier, 2017).
O método das proporções corresponde à divisão dos óbitos registados em cada mês
pelo total de óbitos anuais, multiplicando o resultado obtido por 100 de modo a termos
o resultado em percentagem. Contudo, dado que cada mês tem uma diferente
amplitude, este método acaba por originar distorções na análise dos dados obtidos.
Assim, recorre-se ao método das taxas mensais.
Com o método das taxas mensais convertem-se as taxas aos efetivos anuais,
através da multiplicação do número médio de óbitos mensais pelo número de dias do
ano, divididos pela população média. Isto é:
157
Este método assenta na mesma lógica que o anterior, no qual se divide os óbitos
mensais pelo número de dias do mês. Porém, os resultados obtidos são depois
substituídos por números proporcionais de modo a que o seu total seja igual a 1200.
Como verificámos anteriormente, a Taxa Bruta de Mortalidade não é uma boa medida
para se comparar duas populações com estruturas etárias diferentes. Uma alternativa
seria analisar o conjunto das Taxas Específicas de Mortalidade.
15
Consultar capítulo 4
158
construção de uma tábua de mortalidade longitudinal ou de geração16. Trata-se de
uma transposição de princípios e categorias através da criação de um acontecimento-
origem inteiramente fictício.
Tábua de mortalidade
Anos
Idade Sobreviventes Óbitos Quocientes Probabilidade Sobreviventes
completos Esperança
de em anos
após a de vida
sobrevivência completos
idade x
1 2 3 4 5 6 7 8
1 – A primeira coluna é a das idades, estas tendem a ser apresentadas nos terminais
das idades exatas. Numa tábua completa (com informação ano a ano) os terminais das
idades exatas surgem com 0, , 2, 3, 4, 5, , 7… Caso se trate de uma tábua resumida
ou abreviada (com informação por grupos quinquenais) surgem com 0, 1, 5, 10, 15,
20. Ou seja, com exceção dos primeiros dois grupos (0-1 e 1-5 idades exatas) todos os
grupos etários são quinquenais. É devido à relevância da mortalidade infantil que se
opta pela existência destes dois grupos iniciais cujos intervalos etários são 1 e 4 anos
respetivamente.
Consultar capítulo 4
16
17
Como referido no Capítulo 4 as séries dos sobreviventes e dos óbitos surgem em alguns
autores com a seguinte terminologia: e .
159
3 – Na coluna três temos a função constituída pelos quocientes de mortalidade, isto
é, as probabilidades de morte, entre a idade exata e a idade exata , onde o é
a amplitude dos grupos de idade. No caso da tábua completa, a amplitude é (
dado que estão em causa intervalos etários ano a ano. Numa tábua abreviada com
intervalos quinquenais temos exceto nos intervalos relativos às duas primeiras
idades e cujas amplitudes tendem a ser respetivamente assumidas com e
.
4 – Na coluna quatro temos a função ou a série dos óbitos. Esta é constituída pela
distribuição dos óbitos por idades ou grupos de idades (tendo em conta o efetivo
inicial) e seguindo a lógica das seguintes fórmulas: sendo que de
seguida o e assim sucessivamente.
Quanto aos primeiros anos de vida onde não se verifica a linearidade da função de
sobrevivência, é necessário obter uma aproximação mais exata recorrendo à
introdução de coeficientes de ponderação utilizados na mortalidade infantil:
4 )
18
Optou-se por seguir a metodologia indicada por Nazareth (2004).
19
A metodologia utilizada no âmbito da construção das tábuas de mortalidade apresentadas
pelo INE caracteriza-se pelo recurso a uma maior sofisticação estatística (INE,2007).
160
7 – Na coluna sete temos a função constituída pelos anos de vida intermédia.
Inicia-se pelo fim da tábua, adicionando de baixo para cima. É o total de anos vividos
pela coorte (fictícia) depois da idade . Como é o número de anos vividos entre as
idades exatas e , para obter o total de anos vividos basta somar os .
Como já foi referido, o ponto de partida de uma tábua de mortalidade é o cálculo dos
quocientes e estes, não havendo acesso a dados com dupla classificação (por idade e
ano de nascimento), podem ser calculados, tal como verificámos no capítulo 4, através
da fórmula de transformação linear ou da conversão das taxas específicas de
mortalidade em quocientes:
1º {amx} e {nqx}
Assim, calculam-se as taxas de mortalidade por idade ou grupos de idade tal como foi
explicado anteriormente
mantendo 5 casas decimais e, após o cálculo destas, procede-se então ao cálculo dos
quocientes aplicando a já indicada fórmula do cálculo indireto. Lembramos que caso se
trate de uma tábua completa tanto as taxas como os quocientes serão anuais e caso
se trate de uma tábua resumida ou abreviada, à exceção dos grupos 0-1 e 1-5 anos
exatos, todos os grupos etários são quinquenais.
161
Exemplos:
Cálculo do q0
Para o cálculo do pode-se recorrer, dependo dos dados disponíveis, à taxa específica de
mortalidade 1 , à taxa de mortalidade infantil (método clássico) ou à taxa de
mortalidade (método da média ponderada) 20. Esta última hipótese é segundo Nazareth
(2004) a mais prudente.
ou
Cálculo do q1 ou do 4q1
20
Também denominada de verdadeira taxa de mortalidade infantil (Nazareth, 2004).
162
Cálculo do 5q5
Idades
nqx
exatas
0 0,02300
1 0,00482
5 0,00265
10 0,00250
15 0,00593
20 0,00668
(…) (…)
65 0,11472
70+ 1
Fonte: Nazareth (2004).
3º { }
…e assim sucessivamente.
4º { } e { }
163
Uma vez calculada a série { } procede-se à construção das séries dos
sobreviventes { } e dos óbitos { }.
Exemplos:
Cálculo do
Cálculo do :
Cálculo do :
Cálculo do :
Cálculo do :
164
Cálculo do
… e assim sucessivamente.
Idades
nqx npx lx ndx
exatas
0 0,02300 0,97700 100000 2300
1 0,00482 0,99518 97700 471
5 0,00265 0,99735 97229 258
10 0,00250 0,9975 96971 242
15 0,00593 0,99407 96729 574
20 0,00668 0,99332 96155 642
(…) (…) (…) (…) (…)
65 0,11472 0,88528 76905 8822
70+ 1 0 68083 ̶
Fonte: Nazareth (2004).
4º { }
Exemplo:
165
Se partirem 20 e chegarem 10, ao fim de um ano, foram vividos 15 anos:
Cálculo do
K K’
= (0,15) +(0,85)
= 15000 +83045
= 98045
K K’
= 4(0,15) +4(0,85)
= 58620 +330578,6
= 389199
Para as restantes idades, excetuando a 1ª (x=0) e a 2ª (x=1), aplica-se a fórmula já
indicada:
= n
Cálculo do
= 5
= 5
166
/ , sendo que é a última taxa especifica de mortalidade referida ao
Idades
nqx npx lx ndx nLx
exatas
0 0,02300 0,97700 100000 2300 98045
1 0,00482 0,99518 97700 471 389199
5 0,00265 0,99735 97229 258 485500
10 0,00250 0,9975 96971 242 484250
15 0,00593 0,99407 96729 574 482210
20 0,00668 0,99332 96155 642 479170
(…) (…) (…) (…) (…) (…)
65 0,11472 0,88528 76905 8822 362470
70+ 1 0 68083 ̶ 877924
Fonte: Nazareth (2004).
5º { }
É uma função anos de vida intermédia. Começa-se pelo fim da tábua, soma-se de
baixo para cima.
167
É o total de anos vividos pela coorte (fictícia) depois da idade x. Como é o número
de anos vividos entre as idades exatas x e x+n, para obter o total de anos vividos
basta somar os nLx.
Assim temos:
Idades
nqx npx lx ndx nLx Tx
exatas
0 0,02300 0,97700 100000 2300 98045 7260716
1 0,00482 0,99518 97700 471 389199 7162671
5 0,00265 0,99735 97229 258 485500 6773472
10 0,00250 0,9975 96971 242 484250 6287972
15 0,00593 0,99407 96729 574 482210 5803722
20 0,00668 0,99332 96155 642 479170 5321512
(…) (…) (…) (…) (…) (…) (…)
65 0,11472 0,88528 76905 8822 362470 1240394
70+ 1 0 68083 ̶ 877924 877924
Fonte: Nazareth (2004).
7º { }
É a esperança de vida na idade x, ou seja, o número médio de anos que resta viver às
pessoas que atingiram a idade x. Quando x=0, temos a esperança de vida à nascença,
ou seja, o número médio de anos que se esperam viver desde o nascimento.
168
Cálculo da esperança de vida à nascença:
Idades
nqx npx lx ndx nLx Tx ex
exatas
0 0,02300 0,97700 100000 2300 98045 7260716 72,61
1 0,00482 0,99518 97700 471 389199 7162671 73,31
5 0,00265 0,99735 97229 258 485500 6773472 69,67
10 0,00250 0,9975 96971 242 484250 6287972 64,84
15 0,00593 0,99407 96729 574 482210 5803722 60
20 0,00668 0,99332 96155 642 479170 5321512 55,34
25 0,00648 0,99352 95513 619 476018 4842342 50,7
30 0,00712 0,99288 94894 675 472783 4366324 46,01
35 0,0096 0,9904 94219 905 468833 3893541 41,32
40 0,01469 0,98531 93314 1371 463143 3424708 36,7
45 0,02196 0,97804 91943 2019 454668 2961565 32,21
50 0,03246 0,96754 89920 2919 442323 2506897 27,88
55 0,0474 0,9526 87005 4124 424715 2064574 23,73
60 0,0721 0,9279 82881 5976 399465 1639859 19,79
65 0,11472 0,88528 76905 8822 362470 1240394 16,13
70+ 1 0 68083 ̶ 877924 877924 12,89
Fonte: Nazareth (2004).
169
6.5.2. Esperança de vida e probabilidade de sobrevivência
Partindo da tábua em exemplo no ponto anterior (Quadro 14) e sabendo que a série
dos quocientes é constituída pelas probabilidades de morte, entre duas idades
sucessivas ou seja, um quociente de mortalidade mede o risco de ocorrência dos
óbitos num determinado intervalo de idades. Podemos interpretar (na segunda coluna)
o do seguinte modo (multiplicando o quociente por mil): por cada 1000 indivíduos
existentes ao nascimento, na população em análise, 23 têm a probabilidade de morrer
antes do primeiro aniversário. Observa-se ainda que o risco de morrer decai
visivelmente no primeiro e no quinto aniversário e volta a subir no décimo quinto e no
vigésimo, instalando-se o crescimento do risco de morrer a partir do trigésimo
aniversário. Um risco que se acentua a partir do 55º aniversário.
170
= ; ; ; 0,977
Com efeito, a esperança de vida pode ser calculada a partir da série dos sobreviventes
( ) aplicando as seguintes fórmulas (Bandeira, 2004):
tábua resumida: 2+
A esperança de vida pode ser medida a partir de qualquer idade sendo que a mais
recorrente é a esperança de vida no nascimento. Retornando, mais uma vez, à tábua
em exemplo (Quadro 14), observamos que a esperança de vida no nascimento (última
Podem também ser calculadas a vida mediana e a vida modal (Rollet, 2007).
21
171
coluna da tábua) é de 72,61 anos. Quer dizer que para uma criança que nasça, na
população em análise, espera-se que viva em média 72,61 anos. Isto se forem
mantidos os níveis de mortalidade verificados, no momento, nas diferentes idades.
No caso de uma esperança de vida medida numa idade , podemos tomar como
exemplo, na tábua em causa, a esperança de vida no vigésimo aniversário e no
quadragésimo aniversário . Assim, no primeiro caso podemos observar que para
qualquer individuo que atinja o vigésimo aniversário, na população em análise, espera-
se que viva em média 55,34 anos, ou seja tem-se a expetativa de que viva pelo menos
até aos 75 anos (20+55,34=75,34). Quando no nascimento se esperava que vivesse
em média até aos 72 anos (75,34-72,61=2,73).
No início dos anos 1950, a esperança de vida no mundo era de apenas 46 anos, mas
chegou a 69 anos em 2010. A ONU projetou que em 2050, a esperança de vida para o
mundo chegará a 76 anos e a 82 anos em 2100.
172
vida no nascimento apresenta no feminino um valor (83,5 anos) visivelmente superior
ao apresentado no masculino (78,1 anos). Estamos assim perante uma diferença de
5,4 anos que remete para uma clara sobremortalidade masculina. Trata-se de uma
tendência bem estabelecida nos países de baixa mortalidade que constitui um bom
exemplo de mortalidade diferencial que reenvia para as existentes diferenças no
comportamento da mortalidade entre subpopulações ou grupos sociais (Bandeira,
2004).
173
comportamento particular remete para as possíveis influências “específicas do período”
ou “específicas da geração”.
De facto, a sobremortalidade masculina é uma realidade que se tornou bem visível nas
sociedades mais desenvolvidas, onde o aumento da esperança de vida surge
acompanhado por uma diferenciação entre homens e mulheres, visivelmente a favor
das mulheres (Bandeira, 2004). Têm sido várias as hipóteses levantadas para explicar
esta diferenciação (nomeadamente do ponto de vista genético e biológico, do ponto de
vista profissional e em termos de práticas de risco). De qualquer modo, trata-se de
uma diferenciação que remete para a grande pertinência do estudo da mortalidade por
causas.
Fomes
A fome foi considerada uma causa de morte comum. As populações dos tempos pré-
industriais tinham muito menos controlo sobre o suprimento de alimentos do que hoje
em dia. Houve declínios graves na população em grande parte da Europa durante os
anos de fome de 1315–1317. Na década de 1690, um sexto da população, em algumas
províncias suecas, morreu após graves quebras de produção de cereais (trigo, milho).
A fome da batata irlandesa de 1846-1851, conhecida na Irlanda como a Grande Fome,
matou cerca de um milhão de pessoas, embora algumas estimativas apontem para um
número mais elevado, cerca de um milhão e meio.
174
A última grande fome na Europa foi a fome finlandesa de 1868. Para além dessa
situação, provavelmente, cerca de 19 milhões de pessoas, morreram na Índia, entre
1891 e 1910, como resultado da fome.
Uma das fomes mais destrutivas no registo demográfico ocorreu na China, entre 1958
e 1961. Estima-se que entre 30 e 40 milhões de chineses morreram como resultado
direto da fome, sendo que 12 milhões eram menores de dez anos. A principal causa da
fome resultou do programa mal concebido e excessivamente ambicioso do Grande
Salto para a Frente, iniciado em 1958 por Mao Tsé-Tung e projetado para "envolver
uma luta revolucionária contra a natureza para realizar o grande potencial da
agricultura, maximizando as vantagens da economia coletiva” (Aird, 1972, conforme
citado em Poston & Bouvier, 2017, p.179).
Epidemias
Uma das piores epidemias da Europa, a Peste Negra, resultou na morte de cerca de
um terço da população do continente. O número estimado de mortes causadas pela
Peste Negra varia de um mínimo de 25 milhões até um máximo de 60 a 75 milhões.
Este é um valor surpreendente, dado que toda a Europa no século 14 provavelmente
contava com cerca de 80 a 90 milhões de habitantes.
A epidemia da gripe espanhola marcou o século XX. Ela espalhou-se pela Europa em
1918 e depois para o resto do mundo. Os epidemiologistas estimam que esta epidemia
resultou na morte de cerca de 50 milhões de pessoas. A gripe espanhola pode muito
bem ter infetado quase mil milhões de pessoas, ou quase metade da população do
mundo naquela época (Poston & Bouvier, 2017).
175
O HIV Sida (síndrome da imunodeficiência adquirida) atinge o mundo há mais de trinta
e cinco anos. Poderá, em breve, ser responsável por mais mortes do que os 100
milhões de vítimas da peste negra e das epidemias de gripe espanhola.
O vírus da imunodeficiência humana (HIV), que causa a Sida, foi isolado em 1983 no
Instituto Pasteur em Paris. No final da década de 1980 e início da década de 1990, o
HIV Sida foi identificado em todas as regiões do mundo. No início do ano de 2014, a
Organização Mundial da Saúde estimou que 74 milhões de pessoas em todo o mundo
foram infetadas desde que o vírus foi reconhecido pela primeira vez em 1981; 39
milhões morreram e a maioria dos 35 milhões que vivem com HIV provavelmente
morrerá de causas relacionadas ao HIV (Poston & Bouvier, 2017).
Esta pandemia veio surpreender o mundo atual e provar que ele não está protegido
para novas doenças que possam surgir porque o complexo das doenças continua a
evoluir.
Guerras
Em Portugal até junho de 2023 foram contabilizados 5590047 casos, dos quais resultaram
22
176
fome e sofrimentos que ocorrem como resultado de desorganização económica e
social. Os dados de mortalidade da guerra são mais bem documentados no âmbito de
cenários contemporâneos por comparação com eras anteriores.
ucraniano pelo exército russo, provocando fortes movimentos migratórios no interior e para
exterior do território ucraniano.
177
& Bouvier, 2017). Na décima revisão da CID (adaptada em 1992) as causas de morte
são classificadas em vinte e duas categorias principais. Atualmente já está disponível o
CID 11.24
As taxas obtidas desta forma permitem efetuar comparações, pois sintetizam o peso
relativo de uma dada causa ou doença na estrutura de uma população. No entanto, os
resultados obtidos com as mesmas não permitem saber quais os tempos de maior ou
menor incidência do risco na vida dos indivíduos. Deste modo, será conveniente
recorrer-se ao cálculo de taxas de mortalidade segundo a causa e a idade.
Podem calcular-se estas taxas para todas as causas permitindo conhecer o peso
relativo de cada grupo de causas de mortalidade nas diferentes idades, podendo
acrescentar-se outras variáveis como o sexo (Bandeira, 2004). O estudo da
24
[Link]
[Link]
Normalmente os resultados das diversas taxas são apresentados multiplicados por cem mil ou
25
por dez mil para lhes transmitir maior visibilidade (Nazareth, 2004).
178
mortalidade por causa, idade e sexo permite estabelecer comparações e identificar
algumas das causas que estão por detrás, por exemplo, da já referida,
sobremortalidade masculina.
De qualquer modo, importa referir que este tipo de análise baseia-se no pressuposto
fictício de que as causas de morte são independentes umas das outras. Todavia, as
consequências das variações de uma determinada causa não se refletem apenas ao
nível da mortalidade geral mas também ao nível do comportamento das outras causas.
A mortalidade geral resulta pois de uma conjugação específica entre essas causas
(Nazareth, 2004). Deste modo, segundo Nazareth (2004), é preferível, sobretudo, em
países como Portugal, onde existe uma esperança de vida elevada, analisar em cada
fase do ciclo de vida, a causa de morte mais importante: causas externas26 nas
crianças e adolescentes e jovens; os tumores e as doenças cardiovasculares nos
adultos; as circulatórias nas pessoas idosas.
Com efeito, até aos anos de 1980 a evolução da mortalidade esteve sobretudo
associada à queda da mortalidade nas idades mais jovens. Atualmente, a evolução da
mortalidade está sobretudo associada ao adiamento dos óbitos para idades cada vez
mais tardias ou ao aumento da longevidade (Azevedo & Baptista,2014). Realidade que
26
As causas externas incluem os acidentes de transporte, traumatismos acidentais, lesões
autoprovocadas intencionalmente, agressões, factos cuja intenção é indeterminada,
intervenções legais e operações de guerra, complicações de assistência médica e cirúrgica
(Azevedo & Baptista,2014).
179
está na origem do recurso a novos indicadores que integram o conceito das
esperanças de vida saudável (Cravcenco, 2018).
À medida que se vão somando acréscimos de longevidade, torna-se pois cada vez mais
importante perceber o que está por detrás das diferentes capacidade de sobrevivência
dos indivíduos e das populações (Azevedo & Baptista, 2014).
180
Atividade Formativa
Grupos Grupos
Óbitos Óbitos População População
de de
1950-51(¹) 1990-91(¹) 1950 (²) 1991 (²)
idades idades
0 18915 1269 0 174855 108296
1-4 9229 347 1-4 714859 436013
5-9 1572 264 5-9 798678 646161
10-14 983 322 10-14 799693 781933
15-19 1695 845 15-19 810964 845588
20-24 2526 999 20-24 761703 765248
25-29 2445 1010 25-29 681256 726628
30-34 2010 1100 30-34 541099 694606
35-39 2437 1255 35-39 567333 661076
40-44 2866 1603 40-44 524737 634519
45-49 3230 2093 45-49 460038 569623
50-54 3701 3181 50-54 390566 559346
55-59 4477 4880 55-59 331777 562041
60-64 6101 7059 60-64 294239 533325
65-69 7440 9955 65-69 229976 470049
70 + 34372 67561 70 + 359539 872695
Total (³) 103995 103738 Total 8 441 312 9867147
(¹)Óbitos médios: exemplo dos cálculos efetuados para todas as idades (Óbitos 1950+Óbitos 1951)/2.
(²) Considera-se como população média, nos períodos em análise, a referida ao recenseamento
1950 (a 15 de Dezembro) e ao recenseamento 1991 (a 15 de abril), respetivamente. Assume-se que
a estrutura da população não sofreu alterações significativas entre o momento censitário e 31 de
dezembro (no caso de 1950) e o 1 de janeiro (no caso de 1991).
(³) Excluíram-se os óbitos com idade ignorada dos totais.
Fonte: INE,Óbitos,1950,1951,1990,1991;População residente, 1950,1991.
2 – Se lhe pedissem para calcular a taxa de mortalidade infantil pelo método clássico e
pelo método da média ponderada que dados de observação teria que recolher para
cada um dos casos?
181