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Taxas de Mortalidade: Cálculo e Análise

O documento aborda a mortalidade, seus cálculos e interpretações, destacando a importância das taxas brutas e específicas de mortalidade, bem como a mortalidade infantil. A mortalidade varia conforme fatores sociais, econômicos e demográficos, e o declínio observado no século XX não foi uniforme globalmente. Em Portugal, embora haja um declínio na mortalidade desde 1950, ainda existem desigualdades, especialmente entre gêneros.

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Taxas de Mortalidade: Cálculo e Análise

O documento aborda a mortalidade, seus cálculos e interpretações, destacando a importância das taxas brutas e específicas de mortalidade, bem como a mortalidade infantil. A mortalidade varia conforme fatores sociais, econômicos e demográficos, e o declínio observado no século XX não foi uniforme globalmente. Em Portugal, embora haja um declínio na mortalidade desde 1950, ainda existem desigualdades, especialmente entre gêneros.

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6.

A MORTALIDADE

Objetivos

1. Conhecer a lógica e o processo de cálculo das taxas Brutas de Mortalidade


enquanto medida elementar da mortalidade geral e compreender as razões das
suas limitações enquanto instrumento de análise;

2. Compreender, saber calcular e interpretar as medidas de mortalidade (por


idades), mortalidade infantil e mortalidade por causas;

3. Perceber a metodologia de construção das tábuas de mortalidade e o seu


contributo na análise da mortalidade;

4. Compreender a construção e interpretar o indicador Esperança de vida;

5. Aplicar os conhecimentos adquiridos à resolução de alguns problemas


concretos;

6. Saber analisar a evolução global do fenómeno demográfico mortalidade e do


contributo das várias causas para esse valor total;

7. Ser capaz de relatar e interpretar a evolução dos vários componentes da


mortalidade estudados.

6.1. MORTALIDADE

A morte é o último evento demográfico da nossa vida. Contudo, não ocorre da mesma
forma para todas as pessoas; algumas morrem mais cedo do que outras. O impacto da
mortalidade varia significativamente de acordo com as características sociais e
demográficas dos indivíduos.

A principal característica da mortalidade, durante o século XX, foi o seu declínio. Mas
esse declínio não se fez observar em todos os países ao mesmo tempo e, nos países
em que isso aconteceu, não declinou com a mesma velocidade nos diversos tipos de
grupos que integram as estruturas sociodemográficas.

Na realidade e segundo Nazareth (2004), podemos afirmar que, anteriormente à época


contemporânea, a mortalidade era bastante elevada por seis razões principais: fomes,
subnutrição, guerras, epidemias, pestes e ausência de condições sanitárias. Sendo que
os principais fatores em causa, no âmbito do declínio da mortalidade, nos países
desenvolvidos foram:

138
 Fatores educacionais (maior conhecimento, nomeadamente, sobre alimentação e
vestuário);

• Fatores sanitários (melhores condições sanitárias e de higiene, sobretudo, ao nível


habitacional);

 Fatores médicos (melhores meios de prevenção, de diagnóstico e de cura de


doenças);

 Fatores económicos (desenvolvimento das economias de mercado com o aumento


das redes de comunicação e dos níveis de bem-estar social e económico);

 Fatores sociais (melhores condições de habitação e no trabalho).

Estes fatores contribuíram para que a mortalidade declinasse de tal forma que se
tornou visível o aumento do número de pessoas que passaram a sobreviver até idades
cada vez mais avançadas Mas esse declínio não foi igual em todo o mundo. Daí a
diversidade de situações que existem.

Com efeito, no contexto atual, tem-se demonstrado que a mortalidade varia com o
nível socioeconómico, com a profissão, com o lugar de residência e com certas
características étnicas e religiosas (Nazareth, 2004). Contudo, entre países mais
desenvolvidos e países menos desenvolvidos, a razão da divergência deriva do facto
de, nos primeiros, todos os fatores enunciados anteriormente terem concorrido para o
declínio da mortalidade, ao passo que, na maior parte dos segundos, o declínio
observado tem sido devido, sobretudo, a fatores médicos e sanitários (Nazareth,
2004).

A mortalidade não é, assim, democrática. Existe uma enorme desigualdade perante a


morte. Mas a evolução tem sido muito positiva, em particular, ao nível do declínio da
mortalidade infantil.

Em suma, na atualidade, para além das condições médico-sanitárias, a mortalidade


varia em função de vários fatores como o nível socioeconómico, as práticas
alimentares, as condições de habitação e no trabalho.

No contexto português, o estudo de Coelho e Catela Nunes (2015) mostra que, desde
1950, assiste-se ao declínio global dos níveis de mortalidade em todas as idades, a
uma redução efetiva da mortalidade infantil e a um aumento da sobrevivência até
idades cada vez mais avançadas. No entanto, apesar deste panorama francamente
favorável, Portugal detém uma posição de relativa fragilidade comparativamente com
os outros países da Europa Ocidental, sobretudo, na população masculina. Esta

139
posição relativamente desfavorável dos homens, em algumas idades, é um indicador
de que ainda existe espaço para melhorias no âmbito do declínio da mortalidade.

6.2. AS TAXAS DE MORTALIDADE

6.2.1. Taxa bruta de mortalidade

Como foi referido em capítulo anterior1, a medição da mortalidade remonta a John


Graunt (1620-1674) e às suas análises dos "bills of mortality". A mortalidade refere-se
à frequência relativa de morte numa população e como primeira medida da análise da
mortalidade calcula-se a Taxa Bruta de Mortalidade (TBM).

As taxas brutas são em geral utilizadas para caracterizar tendências conjunturais ou de


longo prazo. No caso da mortalidade, enquanto indicadores globais, servem para
sintetizar as condições sanitárias do momento (Bandeira, 2004).

A TBM relaciona, assim, o número de óbitos durante um dado período, que, caso não
seja anual, deverá ser reduzido a uma dimensão anual2, e a população média referida
ao período em causa.

Lembramos que a população média é a população existente a meio do período em


análise e que, no caso de um ano, estimamos eventualmente como a média aritmética
das populações nos dias 1 de janeiro que o enquadram. Ou seja, e tal como
verificámos anteriormente, a população média é obtida através da média aritmética
entre as populações totais do início e do fim do período em causa. Trata-se, de uma
estimativa do número de pessoas que, durante um ano inteiro, correram o risco de
falecer (Rollet, 2007).

Exemplo: Taxa Bruta de Mortalidade de 2021

Total de Óbitos (2021): 124830.

Capítulo 4.
1

Consultar capítulo 4.
2

140
População média (2021): 10407707.

Em Portugal, a Taxa Bruta de Mortalidade de 2021 foi de 12 óbitos por mil habitantes.

Fonte : INE, Óbitos por local de residência, 2021; População média anual residente, 2021.

O nível da TBM dependerá de duas componentes básicas: a intensidade com que se


morre a cada idade (porque em diferentes idades as pessoas estão sujeitas a
diferentes riscos de morte) e a distribuição etária proporcional da população.

No que concerne à primeira componente, por exemplo, os recém-nascidos e os idosos


têm maior probabilidade de morrer do que os adolescentes. A segunda componente
decorre da primeira, pois se os riscos são diferenciados por idade, deverá levar-se em
conta o maior ou menor peso dos diversos grupos etários. O modelo e as estruturas
são pois dois fatores intervenientes nas taxas brutas.

A taxa bruta é a soma dos produtos das estruturas relativas de cada idade (proporções
etárias) pelas taxas nessas mesmas idades (taxas de mortalidade por grupos de
idades) (Quadro 7), deste modo poderá apresentar-se também a seguinte fórmula de
cálculo:

TBM = ∑ (estrutura etária relativa) x (taxas de mortalidade por grupos de idades)

Como ao conjunto das taxas por idade se chama o modelo do fenómeno, a taxa bruta
pode ser redefinida como uma resultante da interação entre o modelo e a estrutura
(Nazareth, 2004)3.

As diferenças que se podem observar na evolução da mortalidade, numa dada população,


3

tanto podem ter origem em variações ao nível do modelo da mortalidade (taxas de mortalidade
por grupos de idades) como ao nível das estruturas da população. Variações que assumem
significados completamente diferentes: relativas ao modelo remetem para a existência de
diferentes riscos de mortalidade (que se prendem com as condições gerais de saúde e higiene),
relativas às estruturas remetem para o maior ou menor envelhecimento da população
(Nazareth, 2004).

141
Quadro 7 – Mortalidade e estrutura relativa da população, Portugal, 2021

[Link] Pop.Média Óbitos Tx (‰) Px Px*Tx


0 - 4 anos 430362 246 0,57 0,04135 0,02364
5 - 9 anos 436669,5 42 0,10 0,04196 0,00404
10 - 14 anos 498908,5 50 0,10 0,04794 0,00480
15 - 19 anos 530673 120 0,23 0,05099 0,01153
20 - 24 anos 559822,5 181 0,32 0,05379 0,01739
25 - 29 anos 544033,5 211 0,39 0,05227 0,02027
30 - 34 anos 562600 344 0,61 0,05406 0,03305
35 - 39 anos 643102 511 0,79 0,06179 0,04910
40 - 44 anos 754850 943 1,25 0,07253 0,09061
45 - 49 anos 802424,5 1738 2,17 0,07710 0,16699
50 - 54 anos 751108 2684 3,57 0,07217 0,25789
55 - 59 anos 745964,5 4124 5,53 0,07167 0,39624
60 - 64 anos 710240,5 5883 8,28 0,06824 0,56525
65 - 69 anos 654963,5 7854 11,99 0,06293 0,75463
70 - 74 anos 594275 10543 17,74 0,05710 1,01300
75 - 79 anos 470413,5 14513 30,85 0,04520 1,39445
80 - 84 anos 359770 20847 57,95 0,03457 2,00303
85 - 89 anos 232513 25773 110,85 0,02234 2,47634
90 e + anos 125013,5 28223 225,76 0,01201 2,71174
Total 10407707 124830 12,0 1 12,0
Fonte : INE, Óbitos por idade e local de residência,2021; População média anual residente,2021.

Assim, a taxa bruta de mortalidade, na medida em que é influenciada pela estrutura


etária de cada população em cada momento, não mede unicamente a frequência da
mortalidade podendo originar conclusões erradas quando se pretende efetuar
comparações (Bandeira, 2004). Por tratar-se, então, de um instrumento grosseiro que
não tem em conta as diferenciações existentes ao nível da estrutura etária da
população, devemos ter algumas precauções na interpretação de resultados. E sempre
que possível, dever-se-á recorrer ao cálculo de taxas específicas de mortalidade.

6.2.2. Taxas específicas de mortalidade

Como já foi referido anteriormente4, as taxas específicas enquanto instrumento de


medida da análise demográfica são mais fiáveis do que as taxas brutas. Logo, havendo
dados disponíveis para o seu cálculo (óbitos e população média por idades) são
preferíveis às taxas brutas como instrumento de análise. O que diferencia estas taxas é
o facto de que, enquanto as taxas brutas consideram como população média de
referência toda a população, as taxas específicas medem a frequência dos fenómenos
demográficos numa fração dessa população, definida aqui pela pertença ao mesmo

4
Consultar capítulo 4.

142
grupo etário ou idade (Bandeira, 2004). Estas taxas são sobretudo a taxas específicas
entre aniversários5 que são as mais fáceis de calcular, pois não exigem os dados com
dupla classificação (por idade e ano de nascimento).

Temos, deste modo, as taxas de mortalidade geral por idades ou grupos de idades
( , que se referem ao risco de morte em cada idade ou em cada grupo etário.
Correspondem à relação entre o total de óbitos, num determinado ano, em cada idade
ou grupo etário, e a população correspondente a esse grupo no meio do ano em
análise (Pressat, 1980). Se tomarmos como exemplo a taxa de mortalidade para o
grupo etário dos 15 aos 19 anos, a fórmula de cálculo será a seguinte:

5 ×1000

Exemplo: taxa de mortalidade dos 15-19 anos, Portugal, 2021 (Quadro 7).

Óbitos dos 15-19 anos =120

População Média dos 15-19 anos =530673

Em Portugal, no ano de 2021, existiram 0,23 óbitos por cada 1000 habitantes dos 5
aos 15 anos de idade.

Fonte : INE, Óbitos por idade e local de residência, 2021; População média anual residente, 2021.

O conceito de taxas específicas que usamos em relação à idade pode ser estendido
para outras variáveis que influenciam o risco de morrer. Assim, podemos definir taxas
específicas por sexo, por estado civil, causas de morte, por grupos socioeconómicos
etc.

Consultar capítulo 4.
5

143
Do mesmo modo, calculam-se também as taxas por idade e por sexos separadamente.
Taxas que relacionam os óbitos de cada sexo ocorridos num dado ano, na idade
considerada, com a população média desse mesmo sexo, com essa idade, durante
esse ano (Bandeira, 2004).

Lembramos ainda que as taxas específicas de mortalidade são taxas de 1ª categoria,


porque a população de referência é composta apenas por indivíduos que, até ao
momento, ainda não sofreram o acontecimento, neste caso o óbito. São, por isso,
taxas que podem dar origem aos quocientes de uma tábua6.

6.3. A MORTALIDADE INFANTIL

A mortalidade infantil é objeto de atenção especial e de um modo de determinação


particular na medida em que diz respeito à mortalidade de crianças com menos de 1
ano de idade.

Calcula-se, geralmente, sem distinção de sexos pelo facto de que a diferença que
existe entre mortalidade masculina e feminina não é significativa, nessas idades.

O conceito de mortalidade infantil designa a relação entre o número de óbitos


ocorridos antes do primeiro aniversário e o número de nascimentos. Refere-se ao risco
que corre um recém-nascido de morrer antes de completar um ano de idade (Rollet,
2007). Está pois implícito neste conceito a ideia de probabilidade7.

Como as crianças nascidas durante um determinado ano só completarão um ano de


idade no ano seguinte, a mortalidade infantil entre os nascidos num ano-calendário
ocorrerá durante dois anos consecutivos (Figura 24).

Deste modo, durante um ano N, ocorrerão óbitos infantis de nascidos em N-1 e N, e


em N+1 ocorrerão óbitos infantis de nascidos em N e N+1 e assim consecutivamente
(Figura 24).

Em suma, seria necessário esperar dois anos para se poder calcular a taxa de
mortalidade infantil dos nascidos vivos num determinado ano, dada a dificuldade
prática de separar-se, em cada ano do calendário, do total de óbitos infantis, aqueles
referentes a crianças nascidas no próprio ano e a crianças nascidas no ano anterior
(implicaria ter acesso a dados de observação por idades e anos de nascimento).

Consultar capítulo 4.
6

7
Em causa aqui está uma medida na geração, ou seja, um quociente ( , consultar capítulo
4.

144
Figura 24 – Configuração dos dados de observação relativos à mortalidade infantil
Idades
exatas
2

0 Nados-vivos
N-1 N N+1 Anos de
observação

Contudo, a não ser que haja, entre dois anos consecutivos, grande diferença no
número de nascimentos e/ou grande mudança na mortalidade de crianças abaixo de
um ano, pode-se considerar como uma boa medida de mortalidade infantil a taxa de
mortalidade infantil (clássica) calculada a partir de uma observação de acontecimentos
produzidos durante um ano civil ou sob a perspetiva da análise do momento (Bandeira,
2004). A taxa de mortalidade infantil clássica é pois um dos indicadores que permite,
num dado momento, o acesso à situação sanitária de uma população.

Relativamente a Portugal, Barreto e Correia (Coord., 2014), no âmbito de um estudo


sobre a mortalidade infantil, analisaram a evolução dos indicadores e fatores
associados a esta, entre 1988 e 2008. Os resultados deste estudo apontaram para o
facto de Portugal, entre 1970 e 2008, ter registado uma diminuição de 94% na sua
taxa de mortalidade infantil. Não obstante a diminuição desta taxa constituir um
fenómeno generalizado em todo o mundo, Portugal foi um dos países que, em termos
comparativos, melhores resultados obteve.

A excelente classificação que Portugal detém neste indicador, criou um grande


interesse pelo tema. Consequentemente procurou-se identificar as razões e as boas
práticas que ajudaram a este desempenho excecional, através da observação da
evolução dos indicadores da mortalidade infantil, ao longo das últimas décadas, e da
análise dos fatores que poderão estar associados a essa redução. Portugal conseguiu
atingir valores de mortalidade infantil ao nível dos verificados na generalidade dos seus
congéneres europeus, tendo, a partir do século XXI, alcançado níveis de mortalidade
infantil inferiores aos da média da UE.

De facto, num espaço temporal de quarenta anos, Portugal inverteu a sua posição,
possuindo atualmente uma das taxas mais baixas do mundo. Considerando o ranking
da OCDE25, que inclui os trinta países membros, Portugal apresentou uma subida

145
notável, passando de vigésimo oitavo lugar, em 1960, para o oitavo lugar, em 2006.
Ao longo de três décadas consecutivas, Portugal reduziu em 50% a sua taxa de
mortalidade infantil, registando em 2008 uma taxa de 3,3 por mil, colocando-se assim
entre um dos países europeus com melhor desempenho neste indicador (Barreto &
Correia, 2014).

Os fatores associados a esta redução são os fatores sociais, tais como o nascimento
fora do casamento sem coabitação8, o nível de instrução da mãe, o emprego materno,
a idade da mãe, os fatores de saúde (como a assistência ao parto, o peso à nascença e
os recursos em saúde: médicos por 100 mil habitantes; centros de saúde e hospitais
por 100 mil habitantes) e os fatores económicos. Portugal obteve uma redução de
74,66% da taxa de mortalidade infantil, passando de 13,06‰, em 1988, para 3,31‰,
em 2008. É provavelmente o indicador em que o país mais progrediu nesses 20 anos
(Barreto & Correia, 2014).

Atualmente, Portugal apresenta, para o ano de 2022, uma taxa de mortalidade infantil
de 2,6‰ 9, posicionando-se como um dos países do mundo com os valores mais baixos
referidos a este indicador de desenvolvimento.

6.3.1. Taxa de Mortalidade Infantil

Como já foi observado anteriormente, a taxa de mortalidade infantil (Tmi) é um dos


principais e mais relevantes indicadores da situação sanitária de uma população num
dado momento, transmitindo assim o nível de desenvolvimento global dessa população
(Bandeira, 2004).

A referida taxa de mortalidade infantil (clássica) assume a configuração de uma


taxa entre aniversários (Figura 25).

Tendencialmente as mesmas condições que o nascimento dentro do casamento ou com


8

coabitação.
Pordata:
9

[Link]
il-528

146
Figura 25 – Configuração dos dados de observação referidos ao cálculo da Tmi
(clássica)

Idades
exatas

Óbitos (0,1)

0 Nados-vivos
N N+1 Anos de
observação

No entanto, tem a particularidade da população de referência, que figura no


denominador da taxa, não ser o efetivo médio da população com menos de 1 ano de
idade, mas o total de nados-vivos ocorridos durante o ano de observação (Figura 25)10.

Exemplo: Taxa de Mortalidade Infantil de 2021 (método clássico)

Nascimentos em 2021: 79582.

Óbitos com menos de um ano em 2021: 193.

A taxa de mortalidade infantil de Portugal, em 2021, foi de 2,43 óbitos de crianças,


com menos de 1 ano de idade, por cada mil nascimentos.

Fonte : INE, Óbitos por idade e local de residência, 2021; Nados-vivos, 2021.

O que a aparenta a um quociente (consultar capítulo 4).


10

147
Agregando os resultados obtidos através desta taxa em sequência temporal, podemos
conhecer não só as condições de sobrevivência infantil do momento, mas também a
sua evolução ao longo do tempo, médio e longo prazo.

Todavia, estamos perante uma taxa referida a acontecimentos (óbitos) que envolvem
duas gerações diferentes. A geração nascida no ano de observação (N) e a geração
nascida no ano anterior (N-1) (Figura 24). Situação que dá lugar à possibilidade de
enviesamento dos resultados, caso exista grande diferença no número de nados-vivos
em dois anos consecutivos ou grandes alterações na mortalidade de crianças com
menos de um ano de idade (Bandeira, 2004).

Neste caso e não tendo acesso a dados com dupla classificação, pode recorrer-se ao
denominado método da média ponderada ou das médias ponderadas dos efetivos
iniciais das gerações em causa (Bandeira e Pintassilgo, 2018). A taxa assim calculada é
também conhecida como a verdadeira taxa de mortalidade infantil (Nazareth,
2004).

Figura 26 – Configuração dos dados de observação referidos ao cálculo da Tmi pelo


método da média ponderada
Idades
exatas

Óbitos (0,1)

0 Nados vivos Nados-vivos


N-1 N N+1 Anos de
observação

Como verificámos anteriormente, a taxa de mortalidade infantil devia poder reportar os


óbitos infantis às respetivas gerações. De certo modo, é o que acaba por acontecer
quando se recorre ao método da média ponderada em que se relacionam os óbitos, de
um determinado ano, que ocorrem antes do primeiro aniversário, ao efetivo da
geração desse ano e do ano anterior (Figura 26). Ambos os efetivos são ponderados,
por coeficientes que variam em função do nível de mortalidade infantil medido pelo
método clássico, sendo que o efetivo da geração do ano de observação tem tanto mais
peso quanto menor for o valor da taxa já apurada (assumindo-se aqui uma maior
importância, no total da mortalidade infantil, das causas anteriores ao nascimento ou
que resultam do próprio nascimento) (Bandeira & Pintassilgo, 2018).

148
O processo de cálculo da taxa de mortalidade, através do método da média
ponderada, tem a seguinte fórmula de cálculo, com recurso a coeficientes de
ponderação11 determinados em função do nível da mortalidade infantil, medida pelo
método clássico:

Exemplo: Taxa de mortalidade infantil de 2021 (método das médias ponderadas)

Taxa de Mortalidade Infantil de 2021 (clássica): 2,43‰.

Nascimentos em 2021: 79582.

Óbitos com menos de um ano em 2021: 193.

Nascimentos em 2020:84530.

Quadro 8 – Coeficientes de ponderação para o cálculo da mortalidade infantil

Fonte: Nazareth, 2004.

A mortalidade infantil em 2021, segundo o método das médias ponderadas, foi de 2,42
óbitos de crianças, com menos de 1 ano de idade, por cada mil nascimentos.

Fonte:INE,Óbitos,2021;Nados-vivos,2020,2021.

11
Os coeficientes de ponderação aqui utilizados (no exemplo apresentado) são os de Shryock e
Siegel (Nazareth,2004). Todavia, existem os da escola francesa de Reed e Merrel utilizados por
outros autores como Mário Leston Bandeira e Sónia Cardoso Pintassilgo (Leston Bandeira &
Pintassilgo, 2018).

149
Como se pode verificar, a diferença entre o resultado obtido pelo método clássico
(2,43‰) e o obtido pelo método da média ponderada (2,42‰) é praticamente nula,
confirmando que a diferenciação existente, entre 2020 e 2021, ao nível dos nados-
vivos não é determinante, mas nem sempre assim acontece12.

6.3.2. Componentes da mortalidade infantil

“Na produção da vida humana intervém uma multiplicidade de fatores que


antecedem e acompanham o ato de nascer e condicionam as possibilidades
de sobrevivência de um novo ser. (...)

Na luta pela sobrevivência, o tempo para o recém-nascido tem um


significado particular, medindo-se em unidades de dimensão diminuta,
contado a partir do instante do chegar à vida em minutos e depois, à
medida que vai sobrevivendo, em horas, dias, semanas, meses e, enfim, 1
ano. E à medida que o tempo passa e o capital-saúde se afirma, aumentam
as probabilidades de sobrevivência e o risco de mortalidade vai-se
amenizando.” (Bandeira, 2004, p.200).

Por este facto, a mortalidade infantil deve ser abordada e analisada tomando por
referência duas fronteiras temporais muito precisas: no início, a formação do feto, e no
fim, o primeiro aniversário. Entre estas duas fronteiras, o risco de mortalidade vai
mudando de natureza e de intensidade.

Deste modo, elaboram-se um conjunto de conceitos e instrumentos de medida


centrados em todas as componentes da mortalidade infantil, bem como na mortalidade
fetal. Assim, consoante a duração em que ocorre, o risco de mortalidade infantil
decompõe-se em: mortinatalidade, mortalidade neonatal e mortalidade pós-neonatal
(Rollet, 2007).

Taxa de mortinatalidade

Um nado-morto, geralmente designado aborto ou morte fetal, é um feto que não


nasceu vivo, assim, não é registado como morte porque não nasceu. Um feto pode
morrer antes do início do trabalho de parto, ou seja, no útero, devido a complicações
na gravidez ou por várias doenças maternas. Ou um feto pode estar vivo no início do
trabalho de parto, mas morrer durante o processo e, assim, nascer morto.

12
Segundo Nazareth (2004), é sempre preferível, mesmo em situações de mortalidade infantil
abaixo dos 50‰, calcular a taxa de mortalidade infantil pelo método das médias ponderadas.

150
A mortinatalidade designa, assim, a mortalidade intrauterina dos fetos com uma
gestação superior a um determinado valor temporal mínimo (28 ou mais semanas de
gestação) (Bandeira, 2004; Nazareth, 2004).

As principais causas deste tipo de mortalidade são complicações (evitáveis) durante o


processo de parto, infeções maternas e distúrbios maternos, especialmente diabetes e
hipertensão.

A taxa de mortinatalidade13 mede a relação entre nados-mortos e nascimentos, ou


seja, a frequência dos nados-mortos no conjunto dos nascimentos (nados-vivos e
nados-mortos):

Taxa de mortalidade neonatal

A taxa de mortalidade neonatal mede a frequência da mortalidade infantil até às


primeiras 4 semanas (28 dias exatos):

Na mortalidade neonatal, que ocorre durante os primeiros 28 dias, temos de


considerar também a mortalidade neonatal precoce, que é a que acontece entre o
nascimento e o 7º dia exato.

Para o cálculo da mortalidade neonatal precoce são considerados apenas os óbitos


dos 7 primeiros dias de vida, assumindo a seguinte fórmula de cálculo:

Também pode ser designada de Taxa de Mortalidade Fetal Tardia (Nazareth,2004).


13

151
Taxa de mortalidade perinatal

A mortalidade perinatal remete para os efeitos do risco sofrido durante o período


crucial que vai do momento em que se perfaz a formação no útero ao nascimento e se
conclui a primeira semana de vida.

Logo, é da soma da mortinatalidade com a mortalidade neonatal precoce que resulta a


mortalidade perinatal que se refere a gravidezes que não resultaram em nascidos vivos
(foram mortes fetais) ou resultaram em nascidos vivos que viveram apenas sete dias
ou menos.

Desde 2003, que o INE define a mortalidade perinatal como a que diz respeito aos
“óbitos fetais de 28 ou mais semanas de gestação e óbitos de nados-vivos com menos
de 7 dias de idade”, considerando como óbitos fetais tardios, os que ocorrem a partir
das 28 semanas de gestação (INE,2023)14.

Taxa de mortalidade pós neonatal

Para o cálculo da taxa de mortalidade pós neonatal são considerados os óbitos


ocorridos após o 28º dia. Ou seja, são considerados os óbitos entre os 28 dias de vida
e o primeiro aniversário:

Exemplo: mortalidade infantil em Portugal, ano de 1973

Nados-vivos em 1973: 172324.

Óbitos com menos de um ano em 1973: 7726.

Óbitos com menos de 7 dias em 1973: 2502.

Óbitos com menos de 28 dias em 1973: 3647.

Contudo, os óbitos perinatais apresentados pelo INE não correspondem à soma dos óbitos
14

fetais e dos óbitos com menos de 7 dias de vida. O que remete para critérios diferenciados no
limite da duração da gravidez para os óbitos perinatais e óbitos fetais (Bandeira & Pintassilgo,
2018).

152
Óbitos com 28 a 365 dias (exatos) em 1973: 4079

População a meio do ano de 1973 com menos de 1 ano: 165300

Taxa de Mortalidade Infantil Neonatal


3 47
1973 = ×1000
72324

1973 =

A taxa de mortalidade neonatal de Portugal em 1973 foi de 21,16 óbitos de crianças


com menos 28 dias por cada mil nados-vivos.

Taxa de Mortalidade Infantil Neonatal Precoce


2502
1973 = ×1000
72324

1973 =

A taxa de mortalidade neonatal precoce de Portugal, em 1973, foi de 14,52 óbitos de


crianças com menos 7 dias, por cada mil nados-vivos.

Taxa de Mortalidade Infantil Pós Neonatal


407
1973 = ×1000
72324

1973 =

A taxa de mortalidade pós neonatal de Portugal em 1973 foi de 23,67 óbitos de


crianças com 28 a 365 dias por cada mil nados-vivos.

Fonte: Nazareth (2004).

Apesar do numerador da taxa de mortalidade infantil corresponder aos óbitos de


crianças com idade abaixo de um ano, a distribuição dos óbitos dentro deste intervalo
não é uniforme e ocorre de maneira desigual.

Para aquelas populações onde a taxa de mortalidade infantil é baixa, os óbitos


concentram-se nas primeiras semanas de vida das crianças, porque, neste caso, as
mortes são principalmente por causas genéticas e causas ligadas ao parto. A
mortalidade neonatal é, em suma, extremamente sensível às condições da gravidez e
do parto e às malformações (Rollet, p. 2007).

153
Naquelas populações onde a Tmi é alta, os óbitos são menos concentrados nas
primeiras semanas de vida, porque muitos dos óbitos infantis são devidos a fatores
ligados ao meio em que a criança vive, tais como as condições de saneamento e
nutrição. A mortalidade pós-neonatal é mais sensível ao meio ambiente, aos
comportamentos e às doenças infeciosas. Este indicador está pois intimamente
associado às condições de vida (Rollet, 2007).

Em síntese, as populações com níveis de mortalidade infantil baixos, tendem a uma


mortalidade infantil neonatal com maior peso do que a mortalidade infantil pós-
neonatal. Nessas populações, a mortalidade infantil neonatal explica a quase totalidade
da mortalidade infantil (antes do primeiro aniversário).

Podemos classificar as causas que originaram a mortalidade infantil em duas grandes


categorias: endógenas e exógenas.

As causas endógenas surgem devido a causas anteriores ao nascimento ou resultam


do próprio nascimento, sendo consequência de deformações congénitas (que nascem
com o indivíduo), de anomalias hereditárias ou de traumatismos causados pelo parto.
Neste caso, os óbitos ocorrem geralmente durante o primeiro mês de vida da criança,
sobretudo nos primeiros dias.

As causas exógenas por sua vez, estão associadas a causas exteriores (doenças
infeciosas, subalimentação, cuidados hospitalares insuficientes e acidentes diversos).
São deste modo, resultado de condições sanitárias ou contextos sociais desfavoráveis à
sobrevivência da criança.

“O interesse principal desta distinção entre mortalidade infantil endógena e


mortalidade infantil exógena decorre dos ensinamentos quanto à melhoria
das políticas sociais e de proteção à infância e à maternidade, sendo
adquirido que essa melhoria produzirá efeitos principalmente sobre a
redução dos fatores responsáveis pela mortalidade exógena”. (Bandeira,
2004, p.204)

Para podermos separar os óbitos infantis por causas endógenas ou exógenas teremos
de ter acesso a estatísticas de óbitos por causas de morte.

No entanto, existe um método que permite obter essa separação sem termos a
informação dos óbitos por dias e idades. Trata-se, pois, de aumentar em 25% os
óbitos registados no intervalo de 31 a 365 dias, ou aumentar em 22,8% os do intervalo
de 28 a 365 dias, e obtemos o total de óbitos exógenos.

154
Parte-se, então, do princípio de que os óbitos endógenos acontecem no primeiro mês
de vida e, por sua vez, os exógenos ocorrem nos restantes meses. Dado que nem
todos os óbitos produzidos no primeiro mês de vida são endógenos, determina-se a
percentagem de óbitos exógenos por meio das regras anteriormente referidas.
Assumindo-se que a proporção dos óbitos exógenos que ocorrem no primeiro mês é
sempre uma fração constante do conjunto dos óbitos exógenos (uma fração constante
da mortalidade de um a onze meses) (Bandeira, 2004).

Uma vez determinados os óbitos exógenos obtêm-se os óbitos endógenos, calculando


a diferença entre o total de óbitos infantis e os óbitos exógenos. Com a obtenção dos
óbitos exógenos e endógenos separados podem-se calcular então as respetivas taxas.

A Taxa de Mortalidade Infantil Endógena calcula-se dividindo o total de óbitos


endógenos pelos nascimentos:

A Taxa de Mortalidade Infantil Exógena calcula-se dividindo o total de óbitos


exógenos pelos nascimentos:

A Taxa de Mortalidade Infantil Clássica é igual à soma da Taxa de Mortalidade Infantil


Endógena com a Taxa de Mortalidade Infantil Exógena (Nazareth, 2004):

Exemplo: Mortalidade infantil endógena e exógena, Portugal, ano de 1973.

Nascimentos para 1973: 172 324;

Óbitos com menos de 28 dias para 1973: 3647;

Óbitos com 28-365 dias para 1973: 4079;

Para obter os óbitos exógenos somamos aos óbitos com 28-365 dias (4079) os óbitos
exógenos com menos de 28 dias, isto é, 4079 x 0,228 (22,8%) = 930

155
Logo:

Óbitos exógenos: 930 + 4079 = 5009

Para obter os óbitos endógenos subtraímos os óbitos exógenos do total de óbitos com
menos de 1 ano: (3647+4079) - 5009 = 2717

Taxa de Mortalidade Infantil Endógena: 27 7/ 72 324 X 000 = 5,77‰

Taxa de Mortalidade Infantil Exógena: 500 / 72 324 x 000 = 2 ,07‰

Taxa de Mortalidade Infantil Clássica: 15,77 + 29,07 = 44,84‰

Fonte: Nazareth (2004).

Da observação destes indicadores para o ano de 1973, confirma-se o distanciamento


existente entre o comportamento da mortalidade infantil, no ano em causa, e no ano
de 2021 (Tmi=2,43‰). Um distanciamento que remete para os progressos que
Portugal conheceu, nas últimas décadas, não só em termos de condições médico-
sanitárias, como em termos sociais e económicos.

6.3.3. Mortalidade materna

A OMS define uma morte materna como a morte de uma mulher durante a gravidez ou
no prazo de 42 dias após a interrupção da gravidez, independentemente da duração da
gravidez, de qualquer causa relacionada ou agravada pela gravidez ou seu tratamento,
excluindo causas acidentais ou incidentais (Poston & Bouvier, 2017).

A taxa de mortalidade materna ( ) é o número de mortes, num ano, de


mulheres cujo óbito se deve a complicações na gravidez, parto e puerpério (a condição
da mulher imediatamente após o parto, que se considera terminada aquando do
reinicio da ovulação), por 100.000 nascimentos ocorridos nesse ano.

Às vezes, os óbitos (o numerador) são designados de mortes por causas puerperais. A


fórmula de cálculo é:

Os dois fatores mais importantes que levam à morte materna são a idade e a paridade
(o número de vezes que uma mulher deu à luz; também se refere à ordem de

156
nascimento, por exemplo, um segundo filho, que seria um filho de segunda paridade).
Os riscos de morte por maternidade (durante a gravidez) são maiores para mulheres
muito jovens e mulheres mais velhas do que para mulheres na casa dos vinte e trinta
anos.

Mulheres com alta paridade e mulheres com intervalos curtos entre partos também
estão em alto risco devido a doenças crónicas e desnutrição, pobreza, gravidez
indesejada, cuidados pré-natais e obstétricos inadequados e falta de acesso a um
hospital (Poston & Bouvier, 2017).

Com efeito, juntamente com a mortalidade infantil, a mortalidade materna é um dos


indicadores de desenvolvimento social e económico mais recorrente. Pois remete para
as diferentes condições em que as mulheres vivem em função do existente contexto
político, económico, social, cultural e ambiental, o que determina os níveis diferenciais
de mortalidade, não só por sexo e idade, mas também por outras categorias como a
classe social ou a etnia, dentro de um país e a nível internacional.

6.4. A MORTALIDADE POR MESES

De modo a compreender-se as relações da variável mortalidade (geral e infantil) com o


meio envolvente, analisam-se as suas variações pelos meses do ano. Os métodos mais
utilizados são o método das proporções (ou percentagens), o método das taxas
mensais e o método dos números proporcionais.

O método das proporções corresponde à divisão dos óbitos registados em cada mês
pelo total de óbitos anuais, multiplicando o resultado obtido por 100 de modo a termos
o resultado em percentagem. Contudo, dado que cada mês tem uma diferente
amplitude, este método acaba por originar distorções na análise dos dados obtidos.
Assim, recorre-se ao método das taxas mensais.

Com o método das taxas mensais convertem-se as taxas aos efetivos anuais,
através da multiplicação do número médio de óbitos mensais pelo número de dias do
ano, divididos pela população média. Isto é:

[(óbitos mensais / dias do mês) x (365 ou 366 / população média)] x 1000

ou [((365 ou 366 / dias do mês) x óbitos mensais) x população média] x 1000

Finalmente, o método dos números proporcionais permite uma melhor


comparação, nomeadamente quando se representam os dados obtidos graficamente.

157
Este método assenta na mesma lógica que o anterior, no qual se divide os óbitos
mensais pelo número de dias do mês. Porém, os resultados obtidos são depois
substituídos por números proporcionais de modo a que o seu total seja igual a 1200.

Deste modo, cada mês fica representado por um número, independentemente da


duração do mês, para que o seu desvio (positivo ou negativo) em relação a 100
identifique a particularidade de cada mês (Nazareth, 2004). Cada um dos meses teria
100 se não houvesse diferença entre eles.

6.5. TÁBUA DE MORTALIDADE, ESPERANÇA DE VIDA E


PROBABILIDADE DE SOBREVIVÊNCIA

Como verificámos anteriormente, a Taxa Bruta de Mortalidade não é uma boa medida
para se comparar duas populações com estruturas etárias diferentes. Uma alternativa
seria analisar o conjunto das Taxas Específicas de Mortalidade.

Entretanto, dado o elevado número de Taxas Específicas de Mortalidade e a


diversidade de estruturas de mortalidade, segundo a idade, em duas ou mais
populações, a comparação entre Taxas Específicas de Mortalidade pode dificultar a
análise dos níveis de mortalidade (Pressat, 1980). Deste modo, são as tábuas de
mortalidade que surgem como o principal instrumento utilizado em análise da
mortalidade e, devido às limitações da análise longitudinal15, são preponderantemente
tábuas de mortalidade do momento.

Ao permitir aceder ao conhecimento da mortalidade num dado momento (um ano ou


mais), as tábuas de mortalidade do momento possibilitam avaliar as condições
sanitárias numa época bem como, através da comparação com tábuas de momentos
anteriores, identificar a evolução das principais tendências da mortalidade no tempo
(Bandeira, 2004).

Lembramos que o princípio em que assenta a tábua de mortalidade do momento é o


princípio da geração ou da coorte fictícia. Este, consiste em submeter um grupo fictício
de recém-nascidos, como se tratasse de uma geração nascida no mesmo ano, à
experiência de mortalidade em cada idade, que é na verdade o risco calculado para um
ano em estudo. Ou seja, atribui-se toda uma sucessão de riscos a uma geração fictícia
que na verdade foram observados em gerações diferentes (Bandeira, 2004).

Deste modo, os preceitos utilizados na construção de uma tábua de mortalidade


transversal ou do momento são idênticos aos procedimentos que estão na base da

15
Consultar capítulo 4

158
construção de uma tábua de mortalidade longitudinal ou de geração16. Trata-se de
uma transposição de princípios e categorias através da criação de um acontecimento-
origem inteiramente fictício.

Apresentam-se seguidamente as diversas funções de uma tábua de mortalidade do


momento com a designação atual das séries de base (quocientes, sobreviventes e
óbitos) utilizadas pelo INE e a nível internacional bem como a introdução das séries
derivadas mais recorrentes (Quadro 9).

Quadro 9 – Séries da tábua de mortalidade17

Tábua de mortalidade
Anos
Idade Sobreviventes Óbitos Quocientes Probabilidade Sobreviventes
completos Esperança
de em anos
após a de vida
sobrevivência completos
idade x

1 2 3 4 5 6 7 8

1 – A primeira coluna é a das idades, estas tendem a ser apresentadas nos terminais
das idades exatas. Numa tábua completa (com informação ano a ano) os terminais das
idades exatas surgem com 0, , 2, 3, 4, 5, , 7… Caso se trate de uma tábua resumida
ou abreviada (com informação por grupos quinquenais) surgem com 0, 1, 5, 10, 15,
20. Ou seja, com exceção dos primeiros dois grupos (0-1 e 1-5 idades exatas) todos os
grupos etários são quinquenais. É devido à relevância da mortalidade infantil que se
opta pela existência destes dois grupos iniciais cujos intervalos etários são 1 e 4 anos
respetivamente.

2 – Na coluna dois temos a função constituída pelos sobreviventes em cada idade


exata . Esta coluna inicia-se normalmente com a atribuição de um valor (múltiplo de
10), para o efetivo inicial da geração , designando-se este de raiz da tábua. Deste
modo e para tornar possível as comparações temporais e espaciais, aplica-se ao efetivo
inicial a lei da mortalidade definida pela série dos

Consultar capítulo 4
16

17
Como referido no Capítulo 4 as séries dos sobreviventes e dos óbitos surgem em alguns
autores com a seguinte terminologia: e .

159
3 – Na coluna três temos a função constituída pelos quocientes de mortalidade, isto
é, as probabilidades de morte, entre a idade exata e a idade exata , onde o é
a amplitude dos grupos de idade. No caso da tábua completa, a amplitude é (
dado que estão em causa intervalos etários ano a ano. Numa tábua abreviada com
intervalos quinquenais temos exceto nos intervalos relativos às duas primeiras
idades e cujas amplitudes tendem a ser respetivamente assumidas com e
.

Lembramos que é através dos quocientes que se dá a passagem da recolha de


informação em transversal para o início da construção da coorte fictícia.
Tendencialmente, por via da conversão das taxas específicas de mortalidade (entre
dois aniversários) em quocientes.

4 – Na coluna quatro temos a função ou a série dos óbitos. Esta é constituída pela
distribuição dos óbitos por idades ou grupos de idades (tendo em conta o efetivo
inicial) e seguindo a lógica das seguintes fórmulas: sendo que de
seguida o e assim sucessivamente.

5 – Na coluna cinco temos a função ou constituída pelas probabilidades de


sobrevivência entre as idades exatas e as quais são complementares dos
quocientes. Assim por definição .

6 – Na coluna seis temos a função 18 ou a série dos sobreviventes em anos


completos. Esta série é constituída pelo número de anos vividos pelos sobreviventes
entre as idades exatas e . Obtém-se multiplicando os efetivos médios entre
idades exatas pelo número de anos19:

- tábua de mortalidade completa:


- tábua resumida ou abreviada: .

Quanto aos primeiros anos de vida onde não se verifica a linearidade da função de
sobrevivência, é necessário obter uma aproximação mais exata recorrendo à
introdução de coeficientes de ponderação utilizados na mortalidade infantil:

4 )

Quanto ao último considerado na tábua que é o relativo à última idade em


causa ele pode ser calculado do seguinte modo: .

18
Optou-se por seguir a metodologia indicada por Nazareth (2004).
19
A metodologia utilizada no âmbito da construção das tábuas de mortalidade apresentadas
pelo INE caracteriza-se pelo recurso a uma maior sofisticação estatística (INE,2007).

160
7 – Na coluna sete temos a função constituída pelos anos de vida intermédia.
Inicia-se pelo fim da tábua, adicionando de baixo para cima. É o total de anos vividos
pela coorte (fictícia) depois da idade . Como é o número de anos vividos entre as
idades exatas e , para obter o total de anos vividos basta somar os .

8 – A coluna oito é a função constituída pela vida média ou a esperança de vida na


idade , ou seja, o número médio de anos que resta viver às pessoas que atingiram a
idade . Quando , temos a esperança de vida à nascença , ou seja, o
número total de anos vividos desde o nascimento, dividido pelo efetivo inicial:

Uma vez apresentadas as funções da tábua de mortalidade, segue-se a sua construção


em torno de um exemplo.

6.5.1. Construção da tábua de mortalidade do momento

Como já foi referido, o ponto de partida de uma tábua de mortalidade é o cálculo dos
quocientes e estes, não havendo acesso a dados com dupla classificação (por idade e
ano de nascimento), podem ser calculados, tal como verificámos no capítulo 4, através
da fórmula de transformação linear ou da conversão das taxas específicas de
mortalidade em quocientes:

Este método de passagem de uma taxa de mortalidade a um quociente apoia-se na


hipótese segundo a qual as pessoas que morrem entre e “morrem” em média,
no meio do intervalo, admitindo assim que a função de sobrevivência é linear no
intervalo (trata-se de um método razoável desde que a taxa não seja muito
elevada) (Bandeira,2004).

1º {amx} e {nqx}

Assim, calculam-se as taxas de mortalidade por idade ou grupos de idade tal como foi
explicado anteriormente
mantendo 5 casas decimais e, após o cálculo destas, procede-se então ao cálculo dos
quocientes aplicando a já indicada fórmula do cálculo indireto. Lembramos que caso se
trate de uma tábua completa tanto as taxas como os quocientes serão anuais e caso
se trate de uma tábua resumida ou abreviada, à exceção dos grupos 0-1 e 1-5 anos
exatos, todos os grupos etários são quinquenais.

161
Exemplos:

Cálculo do q0

Para o cálculo do pode-se recorrer, dependo dos dados disponíveis, à taxa específica de
mortalidade 1 , à taxa de mortalidade infantil (método clássico) ou à taxa de
mortalidade (método da média ponderada) 20. Esta última hipótese é segundo Nazareth
(2004) a mais prudente.

Logo a fórmula de cálculo a aplicar poderá ser:

ou

Cálculo do q1 ou do 4q1

No cálculo do é utilizada a Taxa de Mortalidade referente ao intervalo etário entre


um ano e dois anos de idade exata e o n também não é considerado aqui pois é igual
a 1.

Contudo, no âmbito da construção de uma tábua resumida ou abreviada, com grupos


quinquenais, o quociente que se segue ao q0 refere-se a um intervalo de 4 anos,
assumindo assim alguma particularidade em relação aos seguintes cujas amplitudes
são iguais a 5.

No âmbito da construção de uma tábua resumida ou abreviada, com grupos


quinquenais, os quocientes que se seguem ao q1 referem-se a um intervalo de n igual
a 5. As taxas de mortalidade são as referentes aos grupos de idades em causa e
sucessivamente.

20
Também denominada de verdadeira taxa de mortalidade infantil (Nazareth, 2004).

162
Cálculo do 5q5

Fonte: Nazareth (2004); Bandeira & Pintassilgo (2018).

Segue-se um extrato da tábua (Quadro 10) que estamos a construir já com os


quocientes calculados pelo método apresentado no ponto anterior.

É de sublinhar que o quociente referente à última idade em causa é igual à unidade


uma vez que todas as pessoas morrem, logo a geração terá necessariamente
que se extinguir.

Quadro 10 – Extrato da tábua de mortalidade de Portugal, sexos reunidos, 1980-


1981

Idades
nqx
exatas
0 0,02300
1 0,00482
5 0,00265
10 0,00250
15 0,00593
20 0,00668
(…) (…)
65 0,11472
70+ 1
Fonte: Nazareth (2004).

3º { }

Com os quocientes calculados pode-se logo de seguida calcular as probabilidades de


sobrevivência ou os .

…e assim sucessivamente.

4º { } e { }

163
Uma vez calculada a série { } procede-se à construção das séries dos
sobreviventes { } e dos óbitos { }.

Para tornar possível as comparações temporais e espaciais, aplica-se a um mesmo


efetivo (normalmente a raiz da tábua =100 000) a lei da mortalidade definida pelos
n ou de sobrevivência definida pelos n .

Exemplos:

Cálculo do

Cálculo do :

Cálculo do :

Cálculo do :

Cálculo do :

164
Cálculo do

… e assim sucessivamente.

Quadro 11 – Extrato da tábua de mortalidade de Portugal, sexos reunidos, 1980-


1981

Idades
nqx npx lx ndx
exatas
0 0,02300 0,97700 100000 2300
1 0,00482 0,99518 97700 471
5 0,00265 0,99735 97229 258
10 0,00250 0,9975 96971 242
15 0,00593 0,99407 96729 574
20 0,00668 0,99332 96155 642
(…) (…) (…) (…) (…)
65 0,11472 0,88528 76905 8822
70+ 1 0 68083 ̶
Fonte: Nazareth (2004).

4º { }

É o número de anos vividos pelos sobreviventes entre as idades exatas e ,


ou seja, entre duas idades ou sobreviventes em anos completos. Obtém-se
multiplicando os efetivos médios entre idades exatas pelo número de anos.

Exemplo:

Se tivermos 20 alunos no início do ano letivo e no final do ano, os mesmos 20 alunos,


foram vividos 20 anos:

Se forem 5 anos, foram vividos 100 anos:

165
Se partirem 20 e chegarem 10, ao fim de um ano, foram vividos 15 anos:

Fonte: Nazareth (2004).

Ao nível dos primeiros anos de vida não se verifica a linearidade da função de


sobrevivência, obtendo-se uma aproximação mais exata com recurso aos já referidos
coeficientes de ponderação da mortalidade infantil como K”=0, 5 e K’=0,85.

Cálculo do

K K’

= (0,15) +(0,85)

= 15000 +83045

= 98045

Cálculo do (tábuas resumidas ou abreviadas)

K K’

= 4(0,15) +4(0,85)

= 58620 +330578,6

= 389199
Para as restantes idades, excetuando a 1ª (x=0) e a 2ª (x=1), aplica-se a fórmula já
indicada:

= n

Cálculo do

= 5

= 5

…e assim sucessivamente até ao cálculo do último que no caso em exemplo se trata


de .O último é igual ao último . Sendo que o último ( é igual a

166
/ , sendo que é a última taxa especifica de mortalidade referida ao

último grupo de idades, que neste caso é 70+.

Fonte: Nazareth (2004).

Os diversos , ao serem considerados como o número de anos vividos pelos


sobreviventes entre as idades e , podem também ser considerados como os
sobreviventes em anos completos.

Quadro 12 – Extrato da tábua de mortalidade de Portugal, sexos reunidos, 1980-


1981

Idades
nqx npx lx ndx nLx
exatas
0 0,02300 0,97700 100000 2300 98045
1 0,00482 0,99518 97700 471 389199
5 0,00265 0,99735 97229 258 485500
10 0,00250 0,9975 96971 242 484250
15 0,00593 0,99407 96729 574 482210
20 0,00668 0,99332 96155 642 479170
(…) (…) (…) (…) (…) (…)
65 0,11472 0,88528 76905 8822 362470
70+ 1 0 68083 ̶ 877924
Fonte: Nazareth (2004).

5º { }

É uma função anos de vida intermédia. Começa-se pelo fim da tábua, soma-se de
baixo para cima.

167
É o total de anos vividos pela coorte (fictícia) depois da idade x. Como é o número
de anos vividos entre as idades exatas x e x+n, para obter o total de anos vividos
basta somar os nLx.

Assim temos:

Tal como já foi indicado, no âmbito dos cálculos anteriores, o último ( é


igual a / cujo o valor encontrado foi 877924.

Cálculo do (somando os de baixo para cima:

Quadro 13 – Extrato da tábua de mortalidade de Portugal, sexos reunidos, 1980-


1981

Idades
nqx npx lx ndx nLx Tx
exatas
0 0,02300 0,97700 100000 2300 98045 7260716
1 0,00482 0,99518 97700 471 389199 7162671
5 0,00265 0,99735 97229 258 485500 6773472
10 0,00250 0,9975 96971 242 484250 6287972
15 0,00593 0,99407 96729 574 482210 5803722
20 0,00668 0,99332 96155 642 479170 5321512
(…) (…) (…) (…) (…) (…) (…)
65 0,11472 0,88528 76905 8822 362470 1240394
70+ 1 0 68083 ̶ 877924 877924
Fonte: Nazareth (2004).

7º { }

É a esperança de vida na idade x, ou seja, o número médio de anos que resta viver às
pessoas que atingiram a idade x. Quando x=0, temos a esperança de vida à nascença,
ou seja, o número médio de anos que se esperam viver desde o nascimento.

168
Cálculo da esperança de vida à nascença:

Cálculo da esperança de vida à idade :

Quadro 14 – Tábua de mortalidade de Portugal, sexos reunidos, 1980-1981

Idades
nqx npx lx ndx nLx Tx ex
exatas
0 0,02300 0,97700 100000 2300 98045 7260716 72,61
1 0,00482 0,99518 97700 471 389199 7162671 73,31
5 0,00265 0,99735 97229 258 485500 6773472 69,67
10 0,00250 0,9975 96971 242 484250 6287972 64,84
15 0,00593 0,99407 96729 574 482210 5803722 60
20 0,00668 0,99332 96155 642 479170 5321512 55,34
25 0,00648 0,99352 95513 619 476018 4842342 50,7
30 0,00712 0,99288 94894 675 472783 4366324 46,01
35 0,0096 0,9904 94219 905 468833 3893541 41,32
40 0,01469 0,98531 93314 1371 463143 3424708 36,7
45 0,02196 0,97804 91943 2019 454668 2961565 32,21
50 0,03246 0,96754 89920 2919 442323 2506897 27,88
55 0,0474 0,9526 87005 4124 424715 2064574 23,73
60 0,0721 0,9279 82881 5976 399465 1639859 19,79
65 0,11472 0,88528 76905 8822 362470 1240394 16,13
70+ 1 0 68083 ̶ 877924 877924 12,89
Fonte: Nazareth (2004).

169
6.5.2. Esperança de vida e probabilidade de sobrevivência

Uma tábua de mortalidade descreve como desapareceram progressivamente os


indivíduos de uma geração, assim como sobreviveram nas idades sucessivas, sendo,
por isso, também designada por tábua de sobrevivência. Através deste instrumento é
possível reconstituir, de forma sintética, a progressão dos acontecimentos (neste caso,
a morte) numa geração.

A tábua de mortalidade ou de sobrevivência descreve pois um fenómeno que


concentra em si duas leis contraditórias e que, do ponto de vista da teoria das
probabilidades, são complementares: a lei da mortalidade, descrita pelas funções
e a lei da sobrevivência, descrita pelas funções (Bandeira, 2004).

Partindo da tábua em exemplo no ponto anterior (Quadro 14) e sabendo que a série
dos quocientes é constituída pelas probabilidades de morte, entre duas idades
sucessivas ou seja, um quociente de mortalidade mede o risco de ocorrência dos
óbitos num determinado intervalo de idades. Podemos interpretar (na segunda coluna)
o do seguinte modo (multiplicando o quociente por mil): por cada 1000 indivíduos
existentes ao nascimento, na população em análise, 23 têm a probabilidade de morrer
antes do primeiro aniversário. Observa-se ainda que o risco de morrer decai
visivelmente no primeiro e no quinto aniversário e volta a subir no décimo quinto e no
vigésimo, instalando-se o crescimento do risco de morrer a partir do trigésimo
aniversário. Um risco que se acentua a partir do 55º aniversário.

Por outro lado, e sabendo que a série é constituída pelas probabilidades de


sobrevivência entre duas idades sucessivas, podemos interpretar (na terceira coluna da
tábua) o do seguinte modo: de acordo com as condições sanitárias vigentes em
1980-1981, em Portugal, por cada 1000 indivíduos existentes ao nascimento, 977
tinham a probabilidade de atingir o primeiro aniversário. Lembramos que a série dos
ou das probabilidades de sobrevivência é complementar à série dos ou dos
quocientes (das probabilidades de morte). Logo, não é estranho que a probabilidade
de sobreviver aumente nos aniversários em que a probabilidade de morrer decai e
vice-versa.

Como verificámos anteriormente, sabendo a probabilidade de morrer sabe-se a


probabilidade de sobreviver. Lembramos, contudo, que ao partilharem a mesma lei de
sobrevivência, uma probabilidade de sobrevivência também pode ser calculada a partir
da função ou série dos sobreviventes .

Através da informação descrita na tábua em exemplo (Quadro 14) podemos aplicar a


fórmula:

170
= ; ; ; 0,977

Embora todas as funções ou séries da tábua tenham a sua pertinência analítica, as


principais são pois . É com base nestas funções ou séries que se constrói
uma tábua de mortalidade e se chega ao cálculo de indicadores que sintetizam o
calendário da distribuição dos óbitos pela população em causa. Sendo que o mais
conhecido21 destes indicadores, é a vida média ou a denominada esperança de vida
( ).

A esperança de vida resume as expetativas de sobrevivência dos indivíduos numa


geração (perspetiva longitudinal) ou no momento (perspetiva transversal). Ou seja, a
esperança de vida numa determinada idade pode ser interpretada como o número
médio de anos que um indivíduo viverá a partir daquela idade, considerando o nível e
a estrutura de mortalidade por idade observados naquela população. O seu cálculo
efetua-se através do quociente entre o total de anos vividos pelo conjunto da geração
(ou das gerações observadas durante um ou mais anos) e o respetivo efetivo inicial,
sendo que o cálculo dos anos vividos reporta-se diretamente à série dos sobreviventes
(Bandeira, 2004).

Com efeito, a esperança de vida pode ser calculada a partir da série dos sobreviventes
( ) aplicando as seguintes fórmulas (Bandeira, 2004):

 (esperança de vida no nascimento)

tábua completa: 0,5+

tábua resumida: 0,5+

 (esperança de vida na idade )

tábua completa: 0,5+

tábua resumida: 2,5+

tábua resumida: 2+

A esperança de vida pode ser medida a partir de qualquer idade sendo que a mais
recorrente é a esperança de vida no nascimento. Retornando, mais uma vez, à tábua
em exemplo (Quadro 14), observamos que a esperança de vida no nascimento (última

Podem também ser calculadas a vida mediana e a vida modal (Rollet, 2007).
21

171
coluna da tábua) é de 72,61 anos. Quer dizer que para uma criança que nasça, na
população em análise, espera-se que viva em média 72,61 anos. Isto se forem
mantidos os níveis de mortalidade verificados, no momento, nas diferentes idades.

No caso de uma esperança de vida medida numa idade , podemos tomar como
exemplo, na tábua em causa, a esperança de vida no vigésimo aniversário e no
quadragésimo aniversário . Assim, no primeiro caso podemos observar que para
qualquer individuo que atinja o vigésimo aniversário, na população em análise, espera-
se que viva em média 55,34 anos, ou seja tem-se a expetativa de que viva pelo menos
até aos 75 anos (20+55,34=75,34). Quando no nascimento se esperava que vivesse
em média até aos 72 anos (75,34-72,61=2,73).

Relativamente a , para qualquer individuo que atinja o quadragésimo aniversário,


na população em análise, espera-se que viva em média mais 36,7 anos. Ou seja, tem-
se a expetativa de que viva até aos 76 anos (40+37,7=77,7). Quando no nascimento
se esperava que vivesse até aos 72,61 anos (77,7-72,61=5,09). Deste modo, é
possível verificar que na população em causa, à medida que se avança na idade,
registam-se ganhos no total da esperança de vida (2,73 anos, no 20º aniversário, 5,09
no 40º aniversário). Trata-se de uma característica do comportamento deste indicador
em sociedades desenvolvidas marcadas pela crescente elevação da esperança de vida
em estreita articulação com o aumento da longevidade.

No início dos anos 1950, a esperança de vida no mundo era de apenas 46 anos, mas
chegou a 69 anos em 2010. A ONU projetou que em 2050, a esperança de vida para o
mundo chegará a 76 anos e a 82 anos em 2100.

No entanto, a esperança de vida no mundo desenvolvido em 1950, já era de 65 anos,


em 2010, era de 77 anos, e a projeção é de 83 anos, em 2050, e 89 anos, em 2100
(Poston & Bouvier, 2017, p.173). Aumenta-se a expetativa de viver mais anos ou de
uma maior longevidade o que se articula com um extraordinário aumento de
população mais idosa. O que se apresenta como um forte indicador de
desenvolvimento social e económico associa-se, na contemporaneidade, à
problemática das sociedades envelhecidas. Onde viver mais anos remete não só para a
tão falada pressão exercida pelo peso crescente da população mais idosa, ao nível da
sustentabilidade dos sistemas de segurança social e da economia em geral, mas
também para as condições de saúde em que se vivem esses mais anos.

De qualquer modo, paralelamente ao aumento da esperança de vida observa-se que se


instalou uma diferenciação em função do sexo. Ou seja a esperança de vida das
mulheres é claramente superior à dos homens. Em Portugal, em 2021, a esperança de

172
vida no nascimento apresenta no feminino um valor (83,5 anos) visivelmente superior
ao apresentado no masculino (78,1 anos). Estamos assim perante uma diferença de
5,4 anos que remete para uma clara sobremortalidade masculina. Trata-se de uma
tendência bem estabelecida nos países de baixa mortalidade que constitui um bom
exemplo de mortalidade diferencial que reenvia para as existentes diferenças no
comportamento da mortalidade entre subpopulações ou grupos sociais (Bandeira,
2004).

6.6. A MORTALIDADE DIFERENCIAL E AS CAUSAS DE MORTALIDADE

6.6.1. Mortalidade diferencial

Na utilização de uma tábua para descrever os acontecimentos numa coorte, a análise


demográfica segue as alterações do risco do fenómeno inerentes à idade ou à duração.
A idade atravessa pois todos os grupos, apoia todas as comparações e, por isso, ela
extravasa o conceito de mortalidade diferencial. Este conceito é dedicado sobretudo às
comparações em que, estando embora as estruturas presentes, são colocados em
presença grupos determinados em função de critérios ou variáveis, tais como sexo,
estado civil, local de residência, profissão, etnia, categoria social (Bandeira, 2004).

Comparar a mortalidade de diferentes subpopulações implica o recurso a métodos e


técnicas de medidas idênticas às que são utilizadas para comparar a mortalidade entre
países. O cálculo dessas medidas depende da existência de estatísticas adequadas, o
que no caso da comparação entre mortalidade masculina e mortalidade feminina não
constitui problema, dado que as estatísticas estão quase sempre disponíveis, pois o
sexo é a variável mais recorrente, depois da idade, pelos produtores de informação
sobre população (Bandeira, 2004).

Entre as medidas mais utilizadas para medir a comparação da mortalidade da


população masculina e da população feminina destaca-se a já referida esperança de
vida no nascimento. Através deste indicador damo-nos pois conta da existência de uma
sobremortalidade masculina.

Com efeito, relativamente a Portugal, análises recentes do comportamento da


mortalidade sugerem que um grupo específico de indivíduos do sexo masculino ainda
não experienciou melhorias na mortalidade e sofreu mesmo algum agravamento ao
longo do tempo. Segundo o estudo em causa (Coelho & Catela Nunes, 2015), este

173
comportamento particular remete para as possíveis influências “específicas do período”
ou “específicas da geração”.

De facto, a sobremortalidade masculina é uma realidade que se tornou bem visível nas
sociedades mais desenvolvidas, onde o aumento da esperança de vida surge
acompanhado por uma diferenciação entre homens e mulheres, visivelmente a favor
das mulheres (Bandeira, 2004). Têm sido várias as hipóteses levantadas para explicar
esta diferenciação (nomeadamente do ponto de vista genético e biológico, do ponto de
vista profissional e em termos de práticas de risco). De qualquer modo, trata-se de
uma diferenciação que remete para a grande pertinência do estudo da mortalidade por
causas.

6.6.2. Mortalidade por causas

A morte é um comportamento complexo. Existem milhares de maneiras diferentes de


morrer e algumas causas de morte ocorrem com mais frequência do que outras. E nem
todas as pessoas morrem pelas mesmas causas principais. Isso deve-se, em grande
parte, à forma diferencial como a morte ocorre numa população em função de diversos
fatores associados à situação predominante em termos políticos, económicos, sociais e
culturais. Fatores que determinam não só as condições de vida dos indivíduos,
nomeadamente em termos alimentares, de higiene e de atividade, como o acesso aos
cuidados de saúde necessários. Contudo, existem ainda países e épocas em que
predominam as crises de mortalidade normalmente ligadas à guerra, à fome e às
epidemias. Aqui perdem importância todas as outras causas de morte que não as
ligadas diretamente a estas situações conjunturais (Nazareth,2004).

Fomes

A fome foi considerada uma causa de morte comum. As populações dos tempos pré-
industriais tinham muito menos controlo sobre o suprimento de alimentos do que hoje
em dia. Houve declínios graves na população em grande parte da Europa durante os
anos de fome de 1315–1317. Na década de 1690, um sexto da população, em algumas
províncias suecas, morreu após graves quebras de produção de cereais (trigo, milho).
A fome da batata irlandesa de 1846-1851, conhecida na Irlanda como a Grande Fome,
matou cerca de um milhão de pessoas, embora algumas estimativas apontem para um
número mais elevado, cerca de um milhão e meio.

174
A última grande fome na Europa foi a fome finlandesa de 1868. Para além dessa
situação, provavelmente, cerca de 19 milhões de pessoas, morreram na Índia, entre
1891 e 1910, como resultado da fome.

Uma das fomes mais destrutivas no registo demográfico ocorreu na China, entre 1958
e 1961. Estima-se que entre 30 e 40 milhões de chineses morreram como resultado
direto da fome, sendo que 12 milhões eram menores de dez anos. A principal causa da
fome resultou do programa mal concebido e excessivamente ambicioso do Grande
Salto para a Frente, iniciado em 1958 por Mao Tsé-Tung e projetado para "envolver
uma luta revolucionária contra a natureza para realizar o grande potencial da
agricultura, maximizando as vantagens da economia coletiva” (Aird, 1972, conforme
citado em Poston & Bouvier, 2017, p.179).

Epidemias

Uma epidemia é um grande aumento ou aumento de uma doença infeciosa numa


determinada área que resulta num grande número de mortes, seguido por um declínio.
Muitas infeções e doenças contagiosas tornaram-se epidémicas, incluindo a escarlatina,
o sarampo, a gripe e a cólera.

As epidemias geralmente começam a um nível local e, em seguida, espalham-se para


áreas próximas. Se uma epidemia atinge vários países ou continentes, é conhecida
como uma pandemia. As pandemias são muito mais perturbadoras demográfica,
económica e socialmente do que as epidemias.

Uma das piores epidemias da Europa, a Peste Negra, resultou na morte de cerca de
um terço da população do continente. O número estimado de mortes causadas pela
Peste Negra varia de um mínimo de 25 milhões até um máximo de 60 a 75 milhões.
Este é um valor surpreendente, dado que toda a Europa no século 14 provavelmente
contava com cerca de 80 a 90 milhões de habitantes.

A epidemia da gripe espanhola marcou o século XX. Ela espalhou-se pela Europa em
1918 e depois para o resto do mundo. Os epidemiologistas estimam que esta epidemia
resultou na morte de cerca de 50 milhões de pessoas. A gripe espanhola pode muito
bem ter infetado quase mil milhões de pessoas, ou quase metade da população do
mundo naquela época (Poston & Bouvier, 2017).

A existência de epidemias ou da sua possibilidade teve implicações ao nível do


desenvolvimento da demografia moderna, especialmente no rastreamento das mortes
de uma população. Por exemplo, a epidemia da gripe espanhola resultou no
estabelecimento do Sistema de Vigilância do Crescimento pela Liga das Nações.

175
O HIV Sida (síndrome da imunodeficiência adquirida) atinge o mundo há mais de trinta
e cinco anos. Poderá, em breve, ser responsável por mais mortes do que os 100
milhões de vítimas da peste negra e das epidemias de gripe espanhola.

O vírus da imunodeficiência humana (HIV), que causa a Sida, foi isolado em 1983 no
Instituto Pasteur em Paris. No final da década de 1980 e início da década de 1990, o
HIV Sida foi identificado em todas as regiões do mundo. No início do ano de 2014, a
Organização Mundial da Saúde estimou que 74 milhões de pessoas em todo o mundo
foram infetadas desde que o vírus foi reconhecido pela primeira vez em 1981; 39
milhões morreram e a maioria dos 35 milhões que vivem com HIV provavelmente
morrerá de causas relacionadas ao HIV (Poston & Bouvier, 2017).

Em Dezembro de 2019, foi identificado o coronavírus da síndrome respiratória aguda


grave 2 (SARS-CoV-2), a partir de um surto em Wuhan, na China, que não foi possível
conter e que se estendeu para outras áreas do território chinês e posteriormente para
todo o mundo. Situação que levou à emergência da pandemia da doença por
coronavírus 2019 (COVID19). Com efeito, em 30 de janeiro de 2020, a OMS classificou
o surto como Emergência de Saúde Pública de Âmbito Internacional (PHEIC) e, em 11
de março do mesmo ano, como pandemia. Só a 5 de maio de 2023 é que OMS
declarou o fim da PHEIC provocada pela pandemia, para tal contribuiu a queda
acentuada de casos e mortes devido à vacinação, iniciada em dezembro de 2020 (até
junho de 2023 foram administradas a nível mundial 13396086098 doses). Entretanto,
até inícios do mês de junho de 2023, foram contabilizados22 pela Organização Mundial
de Saúde (OMS) 767750853 casos confirmados em 228 países e territórios com
6941095 mortes atribuídas a esta doença, tornando-se uma das mais mortíferas da
história (WHO,2023).

Esta pandemia veio surpreender o mundo atual e provar que ele não está protegido
para novas doenças que possam surgir porque o complexo das doenças continua a
evoluir.

Guerras

As consequências demográficas da guerra em relação à mortalidade não são fáceis de


determinar. Alguns historiadores e arqueólogos militares definem a guerra como todos
os tipos de conflitos envolvendo mais de dois combatentes. Além das mortes militares
registadas, há também a questão das perdas civis que ocorrem em consequência da
guerra, incluindo a infeção por doenças transportadas pelos soldados, assassinatos,

Em Portugal até junho de 2023 foram contabilizados 5590047 casos, dos quais resultaram
22

26806 mortes por COVID19 (WHO,2023).

176
fome e sofrimentos que ocorrem como resultado de desorganização económica e
social. Os dados de mortalidade da guerra são mais bem documentados no âmbito de
cenários contemporâneos por comparação com eras anteriores.

“O tamanho plausível do número de mortos de militares e civis seria de


cerca de 8,5 milhões na Primeira Guerra Mundial e 40 milhões na Segunda
Guerra Mundial” (Etherington, 2003, conforme citado em Poston & Bouvier,
2017, p.186).

Frequentemente, o número de mortes de civis excede o número de mortes de


militares. É provável que, durante a Segunda Guerra Mundial na Rússia, 60% das
mortes tenham sido civis (Poston & Bouvier, 2017, p.186).

Atualmente, as guerras mantem-se ativas em várias partes do mundo, inclusive na


Europa com a guerra da Ucrânia23, com todas as consequências nefastas que implicam
aos vários níveis e também ao nível demográfico. Em contexto de guerra perdem
importância todas as outras causas de morte que não estão associadas diretamente a
esta situação belicista marcada invariavelmente pela desorganização social e política.

Independentemente das referidas situações associadas às denominadas crises de


mortalidade, as causas de morte variam antes de mais com a idade e o sexo. O que se
articula com as diferenciações que se identificam no comportamento da mortalidade
por idade e sexo.

Atualmente, na parte do mundo mais desenvolvida em termos económicos e sociais, e


após uma transição epidemiológica, de níveis elevados nas doenças infeciosas e
parasitárias, para uma progressiva e forte concentração da mortalidade em causas
associadas a doenças degenerativas e crónicas (Oliveira,2010), podemos dar conta de
uma visível diferenciação sexual face às causas de morte. Sendo que os homens têm
menos probabilidade de morrer de doenças degenerativas do que mulheres, em todas
as idades, e essa diferença aumenta entre os mais velhos. No entanto e como já foi
referido anteriormente, as mulheres vivem mais do que os homens e, portanto, têm
maior probabilidade de morrer de doenças crónicas e degenerativas (Poston & Bouvier,
2017).

A maioria dos governos nacionais classifica as causas de mortes de acordo com a


Classificação Internacional de Doenças (CID), desenvolvida pela Organização
Mundial da Saúde (OMS), uma classificação que é sujeita a revisões periódicas (Poston

A guerra da Ucrânia iniciou-se no dia 24 de Fevereiro de 2022 com a invasão do território


23

ucraniano pelo exército russo, provocando fortes movimentos migratórios no interior e para
exterior do território ucraniano.

177
& Bouvier, 2017). Na décima revisão da CID (adaptada em 1992) as causas de morte
são classificadas em vinte e duas categorias principais. Atualmente já está disponível o
CID 11.24

[Link]. Medidas das causas de mortalidade

“O conhecimento dos padrões comparativos de mortalidade inclui o estudo


das doenças ou outros fatores que constituem as causas determinantes da
mortalidade” (Bandeira, 2004, p. 22 ).

Com efeito, a análise da mortalidade por causas de morte possibilita relacionar a


mortalidade com as condições sanitárias, sociais e económicas existentes num
determinado espaço e num determinado período de tempo (Nazareth, 2004). No
âmbito desta análise, recorre-se ao cálculo dos mesmos indicadores25 de medida
anteriormente apresentados para a mortalidade, sendo que é necessário ter acesso a
informação relativa aos óbitos anuais por causas de morte e que essa informação
permita efetuar comparações no tempo e no espaço.

Deste modo, a Taxa Bruta de Mortalidade por Causa é o mais imediato


instrumento de medida de que dispomos. Obtém-se, para um determinado período de
tempo, normalmente um ano, através da relação entre o número de óbitos pela causa
C e a população total média (Bandeira, 2004):

As taxas obtidas desta forma permitem efetuar comparações, pois sintetizam o peso
relativo de uma dada causa ou doença na estrutura de uma população. No entanto, os
resultados obtidos com as mesmas não permitem saber quais os tempos de maior ou
menor incidência do risco na vida dos indivíduos. Deste modo, será conveniente
recorrer-se ao cálculo de taxas de mortalidade segundo a causa e a idade.
Podem calcular-se estas taxas para todas as causas permitindo conhecer o peso
relativo de cada grupo de causas de mortalidade nas diferentes idades, podendo
acrescentar-se outras variáveis como o sexo (Bandeira, 2004). O estudo da

24
[Link]
[Link]
Normalmente os resultados das diversas taxas são apresentados multiplicados por cem mil ou
25

por dez mil para lhes transmitir maior visibilidade (Nazareth, 2004).

178
mortalidade por causa, idade e sexo permite estabelecer comparações e identificar
algumas das causas que estão por detrás, por exemplo, da já referida,
sobremortalidade masculina.

Com recurso à construção de uma tábua de mortalidade na ausência do risco de


mortalidade por uma determinada causa, pode-se calcular a esperança de vida
no caso da supressão total de algumas causas de morte. E, por aí, através da
comparação à esperança de vida no âmbito da mortalidade geral, medir aquilo que
seriam os ganhos obtidos em anos de vida se pudessem ser eliminadas cada uma das
causas de mortalidade em análise (Bandeira, 2004).

De qualquer modo, importa referir que este tipo de análise baseia-se no pressuposto
fictício de que as causas de morte são independentes umas das outras. Todavia, as
consequências das variações de uma determinada causa não se refletem apenas ao
nível da mortalidade geral mas também ao nível do comportamento das outras causas.
A mortalidade geral resulta pois de uma conjugação específica entre essas causas
(Nazareth, 2004). Deste modo, segundo Nazareth (2004), é preferível, sobretudo, em
países como Portugal, onde existe uma esperança de vida elevada, analisar em cada
fase do ciclo de vida, a causa de morte mais importante: causas externas26 nas
crianças e adolescentes e jovens; os tumores e as doenças cardiovasculares nos
adultos; as circulatórias nas pessoas idosas.

É de assinalar que, em Portugal, são as doenças do sistema circulatório e dos tumores


malignos cuja eliminação teria maior impacto em acréscimos de sobrevivência, com
maior acentuação para as primeiras e, sobretudo, no feminino (Azevedo & Baptista,
2014). A importância destas doenças no âmbito das causas de morte em Portugal está
estreitamente articulada com a elevada esperança de vida ou o deslocamento da
mortalidade para idades mais avançadas.

Com efeito, até aos anos de 1980 a evolução da mortalidade esteve sobretudo
associada à queda da mortalidade nas idades mais jovens. Atualmente, a evolução da
mortalidade está sobretudo associada ao adiamento dos óbitos para idades cada vez
mais tardias ou ao aumento da longevidade (Azevedo & Baptista,2014). Realidade que

26
As causas externas incluem os acidentes de transporte, traumatismos acidentais, lesões
autoprovocadas intencionalmente, agressões, factos cuja intenção é indeterminada,
intervenções legais e operações de guerra, complicações de assistência médica e cirúrgica
(Azevedo & Baptista,2014).

179
está na origem do recurso a novos indicadores que integram o conceito das
esperanças de vida saudável (Cravcenco, 2018).

Devido aos acréscimos contínuos da esperança de vida coloca-se a questão de saber


se os anos de vida em causa são anos de boa saúde ou, pelo contrário, são anos
vividos com morbilidade e marcados por diversas limitações ou incapacidades
(Rollet,2007). Através destes novos indicadores tais como a esperança de vida sem
incapacidade (EVSI), pretende-se, de uma forma geral, avaliar o número médio de
anos que um individuo ou um grupo de indivíduos pode esperar viver sem qualquer
limitação das faculdades que o ou os impeça de satisfazer as suas necessidades
primárias – alimentar-se, vestir-se e deslocar-se. Os resultados apontam
invariavelmente para o facto de que, apesar das mulheres esperarem viver em média
mais anos do que os homens, são estes que esperam viver em média mais anos de
vida saudável (Cravcenco, 2018). Resultados que deverão ser lidos com alguma
precaução, dado que poderão ter sofrido algum enviesamento cultural, dado que as
mulheres preocupam-se mais com a saúde e recorrem mais aos médicos do que os
homens (Bandeira,2014).

À medida que se vão somando acréscimos de longevidade, torna-se pois cada vez mais
importante perceber o que está por detrás das diferentes capacidade de sobrevivência
dos indivíduos e das populações (Azevedo & Baptista, 2014).

180
Atividade Formativa

1 – Observe na tabela abaixo os dados de Portugal, para os biénios 1950-51 e 1990-


91:

Grupos Grupos
Óbitos Óbitos População População
de de
1950-51(¹) 1990-91(¹) 1950 (²) 1991 (²)
idades idades
0 18915 1269 0 174855 108296
1-4 9229 347 1-4 714859 436013
5-9 1572 264 5-9 798678 646161
10-14 983 322 10-14 799693 781933
15-19 1695 845 15-19 810964 845588
20-24 2526 999 20-24 761703 765248
25-29 2445 1010 25-29 681256 726628
30-34 2010 1100 30-34 541099 694606
35-39 2437 1255 35-39 567333 661076
40-44 2866 1603 40-44 524737 634519
45-49 3230 2093 45-49 460038 569623
50-54 3701 3181 50-54 390566 559346
55-59 4477 4880 55-59 331777 562041
60-64 6101 7059 60-64 294239 533325
65-69 7440 9955 65-69 229976 470049
70 + 34372 67561 70 + 359539 872695
Total (³) 103995 103738 Total 8 441 312 9867147
(¹)Óbitos médios: exemplo dos cálculos efetuados para todas as idades (Óbitos 1950+Óbitos 1951)/2.
(²) Considera-se como população média, nos períodos em análise, a referida ao recenseamento
1950 (a 15 de Dezembro) e ao recenseamento 1991 (a 15 de abril), respetivamente. Assume-se que
a estrutura da população não sofreu alterações significativas entre o momento censitário e 31 de
dezembro (no caso de 1950) e o 1 de janeiro (no caso de 1991).
(³) Excluíram-se os óbitos com idade ignorada dos totais.
Fonte: INE,Óbitos,1950,1951,1990,1991;População residente, 1950,1991.

a) Calcule as taxas brutas de mortalidade para os dois momentos em análise e


compare os resultados;

b) Calcule as taxas específicas de mortalidade (as taxas de mortalidade por idade ou


grupos de idades) para os dois momentos em análise e comente no confronto com as
taxas brutas anteriormente calculadas.

2 – Se lhe pedissem para calcular a taxa de mortalidade infantil pelo método clássico e
pelo método da média ponderada que dados de observação teria que recolher para
cada um dos casos?

3 – Observe as tabelas dos anexos 5 - Tábua Completa de Mortalidade para Portugal


2014-2016 (Ambos os sexos) e 6 - Tábua Completa de Mortalidade para Portugal
2014-2016 (Homens):

a) Descreva as funções ou séries de ambas as tábuas {nqx} e {lx};

b) Indique e interprete a esperança de vida no nascimento descrita em ambas as


tábuas.

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