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Defesa Cibernética no Brasil: Contexto e Ações

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CYBERWAR E HOMELAND

SECURITY
AULA 6

Prof. Welington Soares


CONVERSA INICIAL

O contexto brasileiro

Os temas guerra e defesa cibernética são muito importantes e estão


entre os mais relevantes nas discussões a respeito de soberanias nacionais
neste início de século, tanto em virtude das diversas agressões virtuais
identificadas pelo globo, como pelas ações que são empreendidas pelos países
na preparação para o enfrentamento dessa nova variante de ameaça.
De acordo com a Estratégia Nacional de Defesa (Brasil, 2008), que
abordaremos nesta aula, o Brasil é um país pacífico por tradição e por
convicção, mas apesar de buscar a paz com outras nações, não pode ficar
alheio ao cenário mundial, seu desenvolvimento e papel de liderança regional.
Esse contexto deve ser acompanhado pelo reforço de suas defesas contra
ameaças e agressões cibernéticas.
Sendo assim, nos debruçaremos em algumas das principais ações
brasileiras de prevenção e monitoramento de guerra cibernética e seus efeitos
no contexto nacional. Testemunharemos iniciativas como a criação de
programas estratégicos de defesa do Ministério da Defesa e do Exército
Brasileiro, suas relações de parceria estratégica com países do Mercosul e
demais partes do mundo, além de questões de proteção de dados e defesa
cibernética nacional e os reflexos disso para o cidadão que possui dados em
rede.
A criação e manutenção de uma estrutura brasileira de defesa
cibernética, que já está em atividade, pretende atuar em diversos pontos dessa
questão: defesa, formação de mão de obra qualificada, soberania nacional,
direitos do cidadão e harmonia entre poder público e privado na manutenção
de dados.

TEMA 1 – DEFESA CIBERNÉTICA BRASILEIRA

O tema defesa cibernética recebeu especial atenção no Brasil com a


realização de grandes eventos de convergência mundial, quando nosso país
atraiu olhares e visitas tanto de turistas quanto de autoridades globais; Entre
esses eventos, destacamos a Conferência Rio+20, realizada em 2012, a Copa
do Mundo, em 2014, e os Jogos Olímpicos, em 2016. Por diversas razões, as

2
necessidades de segurança virtual se impuseram em território brasileiro de
forma crescente no que se refere a cuidados e proteção da informação que
circula no espaço cibernético.
A atitude de Edward Snowden, ao divulgar informações sigilosas,
acabou por deixar popularmente claras as vulnerabilidades de diversas figuras
e personalidades, públicas e privadas. E, indubitavelmente, demonstrou a
relevância da defesa cibernética para os estados, em patamares sociais,
políticos e econômico. Além disso, concomitantemente, reforça a necessidade
de táticas de cooperação técnica e de defesa entre países aliados.

1.1 Normas e atores da defesa cibernética brasileira

O espaço cibernético, como já sabemos, pode ser compreendido como


virtual e é composto por dispositivos computacionais conectados (Almeida,
2010). É o território no qual dados digitalizados transitam e são processados e
armazenados (Barros; Gomes; Freitas, 2011, p. 17). O ambiente cibernético, no
que diz respeito a questões de defesa nacional, possui uma peculiaridade que
o difere de outros meios, a saber: térreo, aéreo, marítimo e espacial. E essa
peculiaridade ocorre por seu alto grau de intangibilidade, pois apesar de
estruturado em hardwares e redes cabeadas ou via wi-fi, é por definição um
espaço mutante, sempre em rápida reconfiguração. Em seus corredores de
dados e interação temos os atos de ataques e defesa colocados no bojo
conceitual da ciberguerra, que, entre outras definições já exploradas, seriam
algo como o “uso ofensivo e defensivo de informação e sistemas de informação
para negar, explorar, corromper, degradar, ou destruir capacidades do
adversário, no contexto de um planejamento militar de nível operacional ou
tático ou de uma operação militar” (Brasil, 2015a, p. 134).

Vídeo 1:

Defesa cibernética: não há gestor que saiba de onde vão vir os ataques.
Disponível em: <[Link]

Quanto ao tema proteção cibernética, temos atitudes que buscam ações


permanentes no sentido de neutralizar possíveis ataques, promovendo ações
de segurança, defesa e potenciais atos de guerra cibernética diante de uma
situação qualquer de crise ou conflito (Brasil, 2015a, p. 227). Sendo assim, ao
falarmos de cibersegurança, estaríamos nos referindo a uma “proteção e

3
garantia de utilização de ativos de informação estratégicos e estes intervêm em
infraestruturas críticas nacionais” (Almeida, 2010), e isso engloba a interação
entre poderes públicos e organizações privadas (Brasil, 2011).
Essa conjunção de forças e ordenação de atribuições entre os
organismos de segurança e defesa cibernética ainda é razoavelmente recente
na legislação brasileira (Junior, 2013), por isso, instituições mais tradicionais
passam por adaptações sobre essa nova temática e realidade social. Devido à
emergência recente do tema, diversos organismos são incluídos no processo,
gerando certa confusão, cabe ressaltar. Nesse processo estão incluídas
organizações públicas (do nível estratégico aos níveis operacionais), assim
associações não governamentais vindas do setor privado.
No tocante à esfera pública federal, existe grande descentralização entre
os órgãos, muitas vezes, com diretrizes específicas. De forma sucinta, a área
operacional é conduzida pelo Departamento de Segurança da Informação e
Comunicações (DSIC) e pelo Gabinete de Segurança Institucional (GSI) da
Presidência da República. As diretivas de defesa seriam da alçada do Centro
de Defesa Cibernética (CDCiber), que é parte do Exército Brasileiro (EB),
submetido ao Ministério da Defesa (MD). Ainda existe uma estrutura
hierárquica que começa na Presidência da República até chegar ao nível
operacional, conforme apresentado na figura 1, a seguir.

Figura 1 – Sistema institucional de segurança e defesa cibernética brasileiras.

Fonte: Brasil (2011, p. 211).


4
Como pudemos observar, existem órgãos civis e militares que atuam
direta ou indiretamente com o tema da defesa cibernética. Entre os diversos
setores em ação nesse cenário, podemos destacar: Departamento de
Segurança da Informação e Comunicação (DSIC); Casa Civil da República;
Conselho de Defesa Nacional; Centro de Estudos, Resposta e Tratamento de
Incidentes de Segurança no Brasil ([Link]); Câmara de Relações Exteriores
e Defesa Nacional (Creden); GSI; Centro de Tratamento de Incidentes de
Segurança em Redes de Computadores (CTIR Gov); Polícia Federal; Agência
Nacional de Telecomunicações (Anatel); e Abin (Carneiro, 2012, p. 56).

• Conselho de Defesa Nacional (CDN): instituição de consulta da


Presidência da República em temas de soberania nacional e
salvaguarda do Estado Democrático. Em relação ao conteúdo
cibernético, atua em nível político/estratégico.
• Creden: órgão que deve elaborar políticas, determinar parâmetros,
conformar, conduzir e acompanhar matérias e diretrizes inerentes a
ações de cooperação internacional em segurança e defesa. Essa
instituição conta com um grupo que possui perfil técnico em segurança
cibernética.
• Gabinete de Segurança Institucional (GSI): entidade que ao lado de
outros órgãos da Administração Pública Federal coordena dinâmicas
concernentes à segurança de infraestruturas consideradas críticas.
• Casa Civil: órgão próximo ao gabinete da Presidência da República e em
questões cibernéticas abarca três outras organizações auxiliares de
criação e análise de normas e regulamentação em segurança da
informação e comunicação e segurança cibernética: a Diretoria de
Telecomunicações (Ditel), o Instituto Nacional da Tecnologia da
Informação (ITI) e a Diretoria de Tecnologia da Informação (Dirti).
• DSIC: seu maior encargo, entre outros, é o de planejar e orientar o
andamento das práticas de segurança cibernética e de informação e
comunicação em âmbito público federal.
• Agência Brasileira de Inteligência (Abin): trabalha com a defesa do
Estado Democrático de Direito, da sociedade, do êxito das políticas de
segurança do poder público e da soberania nacional, atuante de forma
significativa em questões cibernéticas.

5
• Saei/Rede Nacional em Segurança da Informação e Criptografia
(Renasic) é uma resolução do Centro de Defesa Cibernética
(CDCIBER), subordinado ao Comando do Exército. Também, é um
órgão de pesquisa de tecnologia em segurança da informação,
criptografia e defesa cibernética. O Renasic é formado por um comitê
diretor, por comitês técnico-científicos, laboratórios de pesquisa e grupos
de trabalho.
• Polícia Federal: essa entidade possui a responsabilidade de investigar
infrações que possam ferir a ordem política/social dentro dos interesses
da União ou de seus órgãos afins. Possui um Centro de Monitoramento
do Serviço de Repressão a Crimes Cibernéticos.
• Agência Nacional de Telecomunicações (Anatel) também possui uma
área relacionada à defesa cibernética, visando à proteção das
infraestruturas críticas do país.

A multidisciplinaridade e os diversos setores envolvidos na atuação


social da ciberdefesa se fazem necessários graças à complexidade do tema e
à sofisticação cada vez maior dos ciberataques. A própria indefinição já vista
em nosso estudo e as múltiplas direções e formatos de hostilidade cibernética
tornam ainda mais necessária essa conjunção de forças.

TEMA 2 – A POLÍTICA DE DEFESA NACIONAL: ASPECTOS INTERNOS

Dentro de nossas fronteiras, os primeiros debates a respeito de Defesa


Cibernética geraram a Política Nacional de Defesa (PND), de 1996, bem como
a edificação do Ministério da Defesa (MD), em 1999, ambas as iniciativas
criadas nos mandatos do ex-presidente Fernando Henrique Cardoso (1995-
2002).
Em 31 de agosto de 2001, por meio de uma medida provisória, foi criado
o Gabinete de Segurança Institucional da Presidência da República (GSI-PR),
quando a segurança da informação foi colocada como pauta de segurança do
Estado. Mas foi em dezembro de 2008 que a Estratégia Nacional de Defesa
(END) reafirmou a necessidade de atualização das forças armadas. Editada
nos governos de Luiz Inácio Lula da Silva (2003-2010), ela destacou
claramente que os departamentos Nuclear, Espacial e Cibernético passavam a

6
ser colocados como campos estratégicos para a Política Nacional de Defesa
(PND) (Brasil, 2008).
Depois disso, a Diretriz Ministerial n. 0014, de 9 de novembro de 2009,
iniciou o Centro de Defesa Cibernética, subordinado ao Exército Brasileiro. Na
Diretriz em questão, o Exército tinha a responsabilidade de coordenar a área
de Cibernética. Temos ainda a questão da revisão de documentos de defesa,
editados no mandato de Dilma Rousseff (2011-2016). Todas essas iniciativas
constituem marcos normativos dessa agenda.
O Centro de Defesa Cibernética (CDCiber) teve sua autarquia definida
por meio da Portaria Normativa n. 666, de 4 de agosto de 2010. Esse órgão
tem como função identificar ameaças virtuais, também, é responsável pelo
aperfeiçoamento dos recursos tecnológicos e humanos empregados em
estratégias de defesa nacional do ciberespaço. Em 20 de setembro de 2012, a
edição do Decreto Presidencial n. 7.809 promoveu modificações estruturais e
também incluiu sob a tutela do Exército o Centro de Defesa Cibernética
(CDCiber) (Brasil, 2009). Depois disso, a Portaria Normativa n. 3.389, de 21 de
dezembro de 2012, cria a Política Cibernética de Defesa, a qual passou a
vigorar no dia 27 do mesmo mês e foi preparada pelo Ministério da Defesa,
com orientação do Estado-Maior Conjunto das Forças Armadas (EMCFA). A
orientação das atividades de defesa cibernética era o grande mote da política,
em seu caráter estratégico, operacional e tático (Brasil, 2012).
Entre seus propósitos normativos elementares, podemos destacar:

• Políticas de atuação e conscientização da sociedade sobre as


demandas da defesa cibernética;
• Ações coordenadas e planejadas visando os interesses nacionais;
• Integração entre atividades da política de Ciência, Tecnologia e
Inovação (CTI) em prol da Defesa Nacional;
• A importância de ações de Segurança da Informação e Comunicação
(SIC) sincrônicas com a defesa cibernética (Brasil, 2012).

2.1 A Política Nacional de Defesa (PND)

Com a inclusão do tema defesa cibernética na PND, o setor de defesa


ganhou maior importância e respaldo no sentido de priorizar e executar ações
práticas necessárias ao seu desenvolvimento. Como consequência dessa

7
política, temos a Estratégia Nacional de Defesa (END), de 2008, que é um
documento de orientação do Estado brasileiro sobre medidas a serem
implementadas em estratégias de defesa cibernética. Esse documento
estabeleceu que o setor é altamente estratégico e essencial, no que se refere à
pesquisa dos interesses nacionais, e está igualmente ao lado dos setores
espacial e nuclear.
A END define as responsabilidades de cada setor considerado
estratégico, atribuindo: à Marinha do Brasil a responsabilidade pelo setor
nuclear; à Força Aérea a responsabilidade pelo setor espacial; e ao Exército
Brasileiro a responsabilidade pelo setor de defesa cibernética. Além disso,
reconhece o valor da atuação conjunta entre as três forças e a sociedade em
suas representações civil e militar no domínio do ambiente cibernético e sua
defesa ativa. Essa importância é destacada no seguinte trecho do documento
em questão:

No Setor Cibernético, as capacitações destinar-se-ão ao mais amplo


espectro de emprego civil e militar. Incluirão, como parte prioritária, as
tecnologias de comunicações entre as unidades das Forças Armadas,
de modo a assegurar sua interoperabilidade e a capacidade de atuar
de forma integrada, com segurança (Brasil, 2008, p. 19).

O documento enfatiza ainda a necessidade de cooperação entre esferas


civis e militares na criação de ações eficazes de defesa cibernética, como
podemos verificar nesse trecho:

Para tanto, deverá ser fortalecida a atuação colaborativa entre o


Setor de Defesa e a comunidade acadêmica nacional, os setores
público e privado e a Base Industrial de Defesa. Adicionalmente, é
importante que sejam intensificadas as parcerias estratégicas e o
intercâmbio com as Forças Armadas de outros países, sobretudo
daqueles que compõem o entorno estratégico do Brasil (Brasil, 2008,
p. 19).

Outro documento, mais atual e editado em 18 de novembro 2014,


normatizado pela Portaria Normativa n. 3.010/MD, é a Doutrina Militar de
Defesa Cibernética, do Ministério da Defesa, que contém aspectos técnicos e
operacionais sobre iniciativas militares de defesa cibernética. Ele aborda as
diretrizes dos ciberconflitos dentro do Sistema Militar de Defesa Cibernética e a
defesa cibernética dentro das operações (Oliveira, et al., 2017, p. 72).
O que se pretende com a edificação dessas políticas é viabilizar o uso
real e contínuo do espaço cibernético pelo conjunto das Forças Armadas – por
meio do Sistema Militar de Defesa Cibernética (SMDC), em conjunto com a

8
esfera civil, barrando ações que possam ser consideradas hostis – e adequar
as estruturas dos envolvidos em atividades de pesquisa em defesa cibernética
no território brasileiro (Brasil, 2012, p. 13).

TEMA 3 – A POLÍTICA DE DEFESA NACIONAL: COOPERAÇÃO ENTRE


VIZINHOS

As próprias demandas dos ciberconflitos precipitaram diálogos mais


abrangentes em relação a estratégias de defesa e ataque. A PND ultrapassa a
esfera de influência unicamente militar e traz ao diálogo a esfera civil, que
auxiliou fortemente na formação híbrida dessas estratégias (Nascimento,
2015). Sabemos que ainda existe um caminho maior a ser traçado, como
demonstrado na CPI da espionagem1, cujo relatório aprovado em 09/04/2014
deixou clara a necessidade de melhorias substanciais no sistema brasileiro de
defesa cibernética (Mendes, 2014), colocando a política de defesa voltada para
a área da cibernética como chave para o Brasil.

3.1 Processos externos

Afirmamos que a tecnologia digital impactou definitivamente o tecido


social já é lugar comum. Com as facilidades da vida em rede, aumentaram
também as sensibilidades e aberturas a ataques perpetrados por malwares e
demais atitudes maliciosas (Huertas, 2012). De acordo com Huertas (2012), o
cenário das interações em rede, no âmbito planetário, cria canais de
externalidade entre redes, a qual pode ser negativa, pois a própria natureza
dos ciberconflitos tem espaçamento temporal muito efêmero, se comparado
com uma situação de ataque dentro de moldes tradicionais de uma guerra.
Essa efemeridade e o próprio caráter reconfigurativo do ciberespaço
exigem adaptações contínuas da infraestrutura de defesa dos países, por isso
é necessária a constante criação e readaptação de normas, dos próprios
mecanismos de defesa, assim como de treinamento especializado de pessoal.
Isso visa tentar acompanhar o aumento contínuo da quantidade de
computadores em rede (Huertas, 2012).

1 A CPI foi instalada após virem à tona, pelo site Wikileaks, denúncias de Edward Snowden a
respeito de espionagem do governo americano a cidadãos brasileiros, incluindo a presidente
do Brasil na época, Dilma Rouseff.
9
Na área de defesa cibernética o Brasil limitava-se, até o início do século
XXI, a parcerias envolvendo trocas recíprocas de informações sigilosas
(Almeida, 2010), postura esta repensada após o caso Edward Snowden, que,
entre diversos documentos vazados, revelou que empresas e cidadãos
brasileiros estariam sob vigilância virtual. Essas revelações repercutiram
mundialmente, o que forçou o Brasil, assim como outras nações, a procurar
novos tratados bi e multilaterais e, concomitantemente, buscar a modernização
da estrutura interna de defesa cibernética.
Na ocasião, a declaração do ministro das Relações Exteriores, Antônio
Patriota, apontava para as nações do Mercosul e sua dependência de
tecnologia estrangeira, o que seria uma porta facilitada para a ciberespionagem
em ambientes digitalizados de telecomunicação (Computer World, 2013 citado
por Artigo 19, 2017). Entre os países que sentiram a necessidade de maior
relevância, o Brasil buscou como primeiro parceiro a Argentina. O tratado foi
ratificado na Declaração de Buenos Aires, em setembro de 2013. Em ato
conjunto, os ministros da defesa de ambos os estados, Celso Amorim e
Agustín Rossi, pactuaram o nascimento de um grupo de estudos (Artigo 19,
2017, p.18-19; RFI, 2013). Ainda em 2015, os países tiveram reuniões de
cooperação para defesa, em que deixaram claro o interesse mútuo na criação
conjunta de estágios de defesa cibernética (Brasil, 2015a).
Após ataques hackers atribuídos, em 2011, ao grupo LulzSec, que na
ocasião derrubou os sites da presidência do governo brasileiro, outros países
da América do Sul foram atingidos. Assim, em 2013, aconteceu a I Reunião do
Subgrupo de Trabalho Bilateral em Cooperação de Defesa Cibernética, e
nesse período a ministra da defesa venezuelana, Carmen Meléndez, requisitou
ao Brasil uma assessoria para prever falhas de segurança. Um ano depois,
Brasil e Chile reuniram-se e debateram ações conjuntas de defesa cibernética
(Brasil, 2014). O Brasil também participou de debates sobre defesa cibernética
no Mercosul, na União de Nações Sul-americanas (Unasul) e na Organização
dos Estados Americanos (OEA).
Após a detecção dos atos americanos de espionagem, em 2013, as
cinco nações do Mercosul (Argentina, Bolívia, Brasil, Uruguai e Venezuela)
assinaram conjuntamente uma nota de repúdio à espionagem por parte dos
EUA e se comprometeram a realizar um trabalho coletivo de manutenção da
segurança cibernética dos Estados do Mercosul (Mercosul, 2013, p. 1). No

10
caso da Unasul, o grupo de trabalho concebido em 2012 busca efetivar
procedimentos regionais de ajuda mútua e coordenação no combate a
ameaças cibernéticas. No domínio da OEA, o Brasil colabora desde 2007,
quando sediou um treinamento de equipes de contrapartida a ocorrências em
redes governamentais (Artigo 19, 2017).

Vídeo 2:
Brasil terá escola nacional de defesa cibernética. Disponível em:
<[Link]

TEMA 4 – A POLÍTICA DE DEFESA NACIONAL: ALÉM DO MERCOSUL

Além da cooperação regional, o Brasil já atuou em tratados de troca e


proteção mútua de informações com diversos outros países: Portugal (2005),
Espanha (2007, renovado em 2015), Rússia (2008), Itália (2010), Israel (2010)
e Suécia (2014) (Brasil, 2015 citado por Guedes et al., 2017; Rech, 2017; Lima,
2017).
Em 2015, Brasil e Índia firmaram acordo de cooperação aeroespacial, no
qual se previu parcerias em áreas militares, com especial destaque à defesa
cibernética (Mota, 2015). As iniciativas de parceria com outros países estão
previstas no documento Estratégia de Segurança da Informação e
Comunicações (SIC) e de Segurança Cibernética da Administração Pública
Federal (APF), aprovada na Portaria CDN n. 14, de 11 de maio de 2015. O
Brasil deseja, por meio de sua participação em eventos internacionais dessa
natureza, ampliar conhecimentos em SIC e na segurança cibernética,
edificando sua soberania e, simultaneamente, gerando parcerias estratégicas
entre atores nacionais e internacionais (Brasil, 2015b, p. 50).
De 2014 a 2016, o Brasil e a Suécia estabeleceram diálogo, o que
culminou na cúpula Bilateral do Grupo de Defesa Brasil-Suécia, momento em
que os países trocaram experiências e construíram conhecimento na área de
defesa cibernética. Uma delegação sueca visitou instalações do CDCiber e o
Brasil foi convidado para conhecer o aparato militar da Suécia.
O Brasil, nos últimos anos, tem participado mais e ficado atento ao
desenvolvimento de técnicas e informações a respeito de defesa cibernética,
aumentando sua presença e conhecimento sobre o tema.

11
Vídeo 3:
Estágio internacional de defesa cibernética. Disponível em:
<[Link]

TEMA 5 – A LEI GERAL DE PROTEÇÃO DE DADOS

Devido a fatores políticos, econômicos e de segurança, as nações


buscam cada vez mais criar mecanismos legais para garantir a proteção e
manutenção de dados, sejam eles do cidadão ou de instituições. No caso
brasileiro, essa necessidade estimulou projetos, dos quais podemos destacar
os projetos de lei de dados pessoais (4.060/20122, 330/20133 e 5.276/2016), os
quais dispõem sobre a proteção de dados pessoais 4 . Esses projetos foram
importantes para a criação do Projeto de Lei n. 53/2018 a Lei Geral de
Proteção de Dados. Eles contribuíram também para a edificação dessa lei, que
está prevista para entrar em vigor em agosto de 2020, a CPI da Espionagem, a
aprovação do Marco Civil da Internet5 e a entrada em vigor, em maio de 2018,
do Regulamento Geral de Proteção de Dados da União Européia (GDPR)6.

5.1 A lei geral de proteção de dados

A Lei Geral de Proteção de Dados (LGPD 7 ) surge para adequar


interesses de portadores de dados e do mercado, buscando estimular
processos de inovação. Concomitantemente, trata legitimamente de dados
pessoais, por isso, busca também se harmonizar com normas já existentes

2 Para saber mais, acesse: <[Link]


gra?codteor=1001750>.
3 Para saber mais, acesse: <[Link]

947/pdf>.
4 Para saber mais, acesse: <[Link]

sessionid=62B6CCB8D15F03BD169F7421D3CDB6EE.proposicoesWeb1?codteor=1457971&fi
lename=Avulso+-PL+5276/2016>.
5 Para saber mais, acesse: <[Link]

[Link]>.
6 Para saber mais, acesse: <[Link]

016R0679>.
7 Para saber mais, acesse: <[Link]

[Link]>.
12
como o Código de Defesa do Consumidor8, a Lei de Acesso à Informação9, a
Lei do Cadastro Positivo10 e a Resolução Bacen n. 4.658/201811.
Por ser um dos países que mais sofrem ataques cibernéticos e um dos
que mais trocam dados em nível internacional, o Brasil busca modernizar sua
estrutura e seus regimentos, que serão vigiados por uma Autoridade Nacional
de Proteção de Dados (ANPD). A LGPD procura munir o titular de dados do
direito de ter transparência no tratamento de seus dados. Ele deve ter acesso a
finalidades, formas de armazenagem e tratamento, assim como contato com
controladores, compartilhamentos e responsabilidades de pessoas físicas e
jurídicas.
Sobre a LGPD, é importante saber:

• Regimenta o tratamento de dados relativos a pessoas físicas,


unicamente;
• Regulamenta o tratamento de dados processados on-line ou off-line,
com uso ou não de meios digitais;
• Possui abrangência em procedimentos de tratamento de dados em
território nacional, mas pode também alcançar operações de tratamento
que ocorrem fora do país se os dados pessoais forem coletados no
Brasil;
• O mesmo vale para dados de qualquer indivíduo localizado no território
do Brasil;
• Objetiva o oferecimento de produtos e/ou serviços ao público nacional.

5.2 Responsabilidades cibernéticas e a Lei Geral de Proteção de Dados


(LGPD)

Em pesquisa realizada em 2019, o Fórum Econômico Mundial apontou


os riscos cibernéticos como o quinto tema mais preocupante, e a América
Latina se destaca nesse quadro. Atualmente, os ciberataques em ativos
provocam mais danos ao ambiente de negócios do que problemas com

8 Para saber mais, acesse: <[Link]


dc_e_normas_correlatas_2ed.pdf>.
9 Para saber mais, acesse: <[Link]

.htm>.
10 Para saber mais, acesse: <[Link]

[Link]>.
11 Para saber mais, acesse: <[Link]

.asp?arquivo=/Lists/Normativos/Attachments/50581/Res_4658_v1_O.pdf>.
13
propriedades e equipamentos. Os prejuízos com ataques cibernéticos na
América Latina giram, anualmente, na casa dos milhões.
A LGPD, que visa proteger o uso e processamento de dados pessoais,
deve obrigar as empresas a adotarem medidas de segurança, pois é
interessante lembrar que ações hostis no ciberespaço atingem o cidadão por
meio de servidores em empresas e no poder público. Por isso, as empresas
devem desenvolver técnicas administrativas para preservar dados pessoais de
invasões não autorizadas, ou, ainda, situações de destruição de dados,
acidentais ou ilícitas, assim como perda, alteração, divulgação ou qualquer
tratamento inadequado de dados (Band News, 2019).
As tendências atuais de responsabilidades civis em legislações de
proteção à privacidade de dados de cidadãos levaram o mercado a buscar
alternativas, e o segmento de seguros no Brasil criou o Seguro de Proteção de
Dados e Responsabilidade Cibernética, o que representa para as empresas
uma nova série de responsabilidades no quadro crescente dos ciberataques.
Para o cidadão, pode representar mais uma garantia. Se devidamente
comprovado o descumprimento da LGPD, empresas podem sofrer penas que
podem chegar a 2% de seu faturamento, com limitação a R$ 50.000.000,00 por
cada descumprimento. Isso deverá forçar o mercado a fazer adequações
tecnológicas e legais (Band News, 2019).
Devemos levar em consideração que diversos de nossos dados
pessoais estão em bancos de dados de estruturas críticas, tais como bancos,
serviços privados e públicos etc. Além disso, parte expressiva da nossa vida é
regida por sistemas de dados que registram nossos hábitos, rotinas de gastos,
locomoção, registros identitários, entre outros. Ou seja, temos nossos dados
registrados e utilizados por uma gama de entidades que, muitas vezes, nem
mesmo podemos enumerar. Ações da chamada ciberguerra – em suas
instâncias maiores dos ataques nunca assumidos entre nações ou em atos
mais diluídos dos grupos ativistas, terroristas ou dos cibercriminosos – valem-
se das informações de cidadão comuns, armazenadas em enormes bancos do
poder público ou de grandes corporações.

Vídeo 4:
Lei de proteção de dados pessoais: o que muda? Disponível em:
<[Link]

14
NA PRÁTICA

Vazamentos hackers e vigilância estatal ao cidadão

Em 2019, uma série de matérias jornalísticas com base em uma


interceptação de conversas atribuídas ao juiz Sérgio Moro e procuradores da
Lava-Jato, dentro do aplicativo Telegram, vieram a público por meio do site The
Intercept Brasil, em 9 de junho daquele ano, abrindo precedente para uma
série de consequências políticas. A polêmica ocorreu pelo vazamento de
mensagens que, segundo a reportagem, mostram o então juiz fornecendo
informações privilegiadas a membros do Ministério Público Federal. Segundo
as matérias, juízes não poderiam alvitrar sobre partes processuais que estejam
julgando (BBC Brasil, 2019).
Instaurou-se um inquérito na Polícia Federal e apurou-se, então, que
hackers invadiram o celular de Sérgio Moro em 4 de junho, bem como celulares
de outras 900 autoridades. Ao longo da investigação, quatro pessoas foram
detidas pela Polícia Federal. O autor confesso da invasão, Walter Delgatti Neto,
afirmou ter entregado o conteúdo voluntaria e anonimamente ao jornalista
Glenn Greenwald, fundador do Intercept (BBC Brasil, 2019).
O ataque acabou por reacender o debate sobre segurança virtual. Na
época, o Vice-Presidente, Hamilton Mourão, declarou haver uma guerra
cibernética em curso no Brasil quando falava para empresários em Porto
Alegre. Na ocasião, ressaltou o suposto papel de Rússia e China no cenário
dos ciberconflitos (Sperb, 2019). Esse fato intensificou os debates sobre a Lei
Geral de Proteção de Dados.
A pauta novamente ganhou força depois da divulgação neste ano (2020)
da parceria do governo de São Paulo com as operadoras de celular, que
passariam a monitorar aglomerações por meio do celular, como forma de
combate à Covid-19.
No entanto, a discussão a respeito do monitoramento de aglomerações
em situação de pandemia é global. O governo de Taiwan determinou medidas
de controle em que as maiores companhias telefônicas do país forneceram ao
governo nomes e números de telefone de quase todos os 24 milhões de
moradores da ilha. China, Coreia do Sul, Israel, Rússia e outros países também
estão utilizando tecnologias de monitoramento da população diante da
pandemia, incitando discussões a respeito da legitimidade do ato. “Combater o
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coronavírus exige medidas de guerra, mas não podemos deixar de lado a
reflexão sobre valores como a liberdade e a confidencialidade de nossos
dados”, afirma Albert Fox Cahn, professor de direito na Universidade de Nova
York, nos Estados Unidos (Exame, 2020).

FINALIZANDO

A população brasileira passa de 200 milhões de habitantes, entre os


quais, de acordo com o relatório de 2017, editado pela Conferência das Nações
Unidas sobre Comércio e Desenvolvimento, 120 milhões de brasileiros
possuem conexões fixas à internet, ou seja, mais de 50% da população. Esses
dados colocam o país na quarta posição em pessoas conectadas, atrás de
EUA (242 milhões), Índia (333 milhões) e China (705 milhões) (Exame, 2017).
O processo de informatização da população está em crescimento, fato
que coloca o cidadão no processo de defesa cibernética, pois ações em rede
impactam o todo. A PND pôs o assunto de maneira definitiva na agenda
brasileira, o que requer, obviamente, o incremento de investimentos, ajustes
contínuos na organização de processos e nas estruturas orientadas a seu
desenvolvimento. As ações brasileiras estão oportunizando um avanço
considerável no setor cibernético, no entanto, as dificuldades econômicas que
o país enfrenta representam barreiras para um maior desenvolvimento desse
setor no Brasil, especialmente em termos de políticas públicas voltadas para o
seu fomento na sociedade civil.

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REFERÊNCIAS

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vista das políticas públicas. Opinião Pública, Campinas, v. 16, n. 1, p. 220-
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