O mundo moderno: do neoclassicismo
às vanguardas
Esta quarta unidade apresentará as mudanças ocorridas nas artes a partir do século
XVIII. As mudanças decorrentes do surgimento da fotografia e das alterações políticas,
sociais e econômicas enfrentadas pelas sociedades fizeram com que muitos preceitos
artísticos fossem abandonados. As vanguardas europeias refletem grande parte
dessas transformações.
A desconstrução que as obras de arte apresentam em seus processos constitutivos
refletem a instabilidade que o mundo estava atravessando, em comparação com a
estrutura política, econômica e social que vigorava até então. A desconstrução do
processo compositivo tradicional se faz acompanhar de uma mudança dos espaços
ocupados pelos autores e pelos observadores, além de uma mudança com relação ao
modo como a arte se apresenta, liberta muitas vezes dos antigos suportes tradicionais.
Este é o cenário da arte contemporânea.
Objetivo
Ao final desta unidade, você deverá ser capaz de:
• Explicar o processo de mudança no estatuto das artes no que
se refere à produção, contextualização e desconstrução dos
modelos artísticos a partir do século XVIII.
Conteúdo Programático
Esta unidade está organizada de acordo com os seguintes temas:
• Tema 1 - O romantismo, a fotografia e o impressionismo
• Tema 2 - As vanguardas europeias
• Tema 3 - Os caminhos e descaminhos da arte
contemporânea
O que explica ou justifica as mudanças
ocorridas na produção artística dos dois
últimos séculos? Mudou o artista? Mudou
a arte? Ou tudo mudou
Tema 1
O romantismo, a fotografia e o impressionismo
Como a fotografia se relaciona com a produção
pictórica do século XIX?
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A Real Academia de Pintura e Escultura de Paris foi durante todo o século XVIII e XIX
o centro de difusão artística por excelência, referência para toda a produção ocidental.
Criada a partir do modelo desenvolvido na Itália no século XVII, financiada pelo rei, a
academia foi a responsável pela formação de vários artistas. Foi no contexto francês
que, inspirado por Nicolas Poussin, surgiu o neoclassicismo. Seguindo os ideais de
clareza, obediência às regras, inspiração temática mitológica ou histórica, oferecia aos
franceses a chance de estudar as regras clássicas, o que os italianos já faziam há
muito tempo.
O academicismo ou arte acadêmica é associado ao classicismo, por seguir os
princípios clássicos tanto da antiguidade quanto do renascimento. A arte acadêmica
carrega essa associação, pelas temáticas trabalhadas, pelos preceitos adotados, pela
hierarquia dos gêneros que eram estritamente observados. Este modelo difundiu-se
por diversas partes do mundo durante o século XIX. Mas quando falamos de
academicismo geralmente o que vem à nossa mente é o período cultural que recebeu
o nome de neoclassicismo. Tendo surgido em meados do século XVIII a partir dos
ideais iluministas, perdurou até o século XIX. Muitas obras desenvolvidas durante a
Revolução Francesa estão imbuídas destes ideais e trazem temas relacionados ao
período que compreende desde a fundação da cidade de Roma até o período da
república romana. Este período é representado pela sobriedade e virtudes humanas
que são geralmente associadas a este momento da história de Roma, contrariamente
ao período do Império, onde a dissolução dos costumes, a corrupção e vícios são
geralmente lembrados.
O pintor Jacques-Louis David atuou ativamente durante a Revolução Francesa,
chegando a ser preso durante alguns meses. Seu quadro As sabinas (Fig. 1)
representa o momento em que as sabinas tentam acabar com o conflito entre seus
familiares e os romanos seus maridos. Durante o período em que David esteve preso,
sua esposa foi visita-lo na prisão e teria sido em memória a este fato que ele teria tido
a ideia de pintar o tema das sabinas, por seu caráter apaziguador. Os temas da Roma
antiga são geralmente evocados pelos artistas desse momento porque serviam como
uma evocação das virtudes que se esperava dos homens após a revolução. Lealdade,
patriotismo, sacrifício pessoal diante do dever, eram virtudes que se enquadravam
perfeitamente na sociedade que esperavam construir, onde os abusos do antigo
regime, os excessos encontrados na religião deveriam ser extirpados.
Figura 01. Jacques-Louis David. As sabinas. Louvre. Paris. França.
Jacques-Louis David se tornou o pintor principal de Napoleão Bonaparte, são dele dois
dos mais conhecidos retratos do imperador. Napoleão cruzando os Alpes mostra um
Napoleão impetuoso montado em seu cavalo bravio. Napoleão em seu estúdio (Fig.
02) mostra o imperador já mais velho, em seu ambiente de trabalho.
Figura 02. Jacques-Louis David. Napoleão em seu estúdio.
National Gallery of Art. Washington. DC.
À impetuosidade do primeiro retrato segue-se a seriedade das representações oficiais,
onde os modelos tradicionais, característicos dos retratos da nobreza, substituem os
ideais dos primeiros tempos pós-revolução.
Durante o século XIX, alguns modelos ou estilos artísticos vão coexistir. A sobriedade,
equilíbrio e racionalidade do neoclassicismo vão dividir espaço com temas ligados ao
exotismo, à exaltação do passado, ao caráter intimista do ser humano. Contrário aos
valores racionais do iluminismo, marcado pelo lirismo e pela subjetividade, o
romantismo vai auxiliar no processo de consolidação das identidades nacionais ao
trabalhar o nacionalismo nas artes visuais, na música e na literatura. É importante
ressaltar esse caráter de ligação intrínseca entre o romantismo e o processo de
formação dos Estados nacionais no século XIX, os dois processos contemporâneos se
retroalimentavam de maneira a construir, através de narrativas algumas vezes idílicas,
um passado grandioso para os Estados então em consolidação. Eugène Delacroix é
um dos grandes expoentes desse momento na França. Seu quadro A liberdade
guiando o povo (Fig. 03) virou um ícone da luta pela liberdade e da consolidação do
ideal do nacionalismo francês. A liberdade é uma alegoria, que guia os revolucionários
de 1830, levando nas mãos a bandeira da França e um mosquete.
Figura 03. Ferdinand Victor Eugène Delacroix. A Liberdade guiando o povo. Louvre. Paris.
França.
O neoclassicismo e o romantismo vão coexistir no século XIX, deixando suas marcas
não somente na arte acadêmica, mas também na criação das identidades nacionais
em diversos lugares do mundo. Cabe lembrar que enquanto os intelectuais discutiam
os princípios iluministas no Brasil, alguns desses mesmos literatos trabalhavam na
construção do imaginário em torno da identidade brasileira, o que resultou, por
exemplo, na exaltação dos índios.
Este estado de coisas no campo das artes vai ser gradativamente alterado em função
das inovações tecnológicas e das mudanças políticas e sociais que as sociedades vão
enfrentando no decorrer do século XIX e início do século XX. Entre essas inovações
tecnológicas, talvez a mais significativa para as artes visuais seja a fotografia.
Fotografia é a arte ou processo de reproduzir imagens sobre uma superfície
fotossensível (como um filme), pela ação de energia radiante,
especificamente a luz. (Dicionário Eletrônico Houaiss). A criação da fotografia
não se deve a uma única pessoa. Ao contrário, é um processo que contou
com diversas técnicas e diversos colaboradores. A primeira fotografia
reconhecida como tal é uma imagem produzida pelo francês Nicéphore
Niépce em 1826. Ele utilizou uma placa de estanho coberta com betume
para produzi-la, mas foi necessário que a placa ficasse exposta à luz solar
durante oito horas. O processo criado por ele ficou conhecido como
heliografia. Louis Jacques Mandé Daguerre, diminuiu o tempo do processo
utilizando vapor de mercúrio em uma câmara escura. Seu processo foi
apresentado à Academia de Ciências e Belas Artes na França e teve sua
patente requerida na Inglaterra. O daguerreotipo, criado por ele, deu origem
às especulações sobre o fim da pintura e influenciou o Impressionismo.
As fotografias viraram febre não somente na Europa, mas em todo o mundo. Aqui no
Brasil, D. Pedro II foi um dos grandes incentivadores da nova prática. Geralmente
feitas em estúdios, as fotografias muitas vezes eram pensadas a partir do acervo de
poses clássicas utilizadas para os retratos oficiais da academia (Fig. 04). E, não era
incomum encontrar artistas ligados à academia, experimentando o novo invento.
O impacto provocado pela fotografia foi imenso. A ideia de que uma máquina fosse
capaz de captar as imagens com mais clareza e fidelidade, fez com que vários artistas
e intelectuais começassem a questionar se a pintura não havia chegado ao seu fim.
Ao mesmo tempo, um grupo de artistas começou a seguir as propostas desenvolvidas
por Claude Monet. Ele e seus colegas começaram a experimentar em suas pinturas a
representação da impressão que a luz causava sobre os objetos. Por causa de um
quadro seu, chamado Impressão, nascer do sol, a proposta artística de Monet foi
chamada por um crítico de “impressionismo”.
Figura 04. Fotografia antiga de jovem casal. Indiana. Estados Unidos.
Figura 05. Claude Monet. Mulher com guarda sol. National Gallery of Art. Washington. DC.
O que era crítica negativa se tornou o nome do movimento, o primeiro dos movimentos
de vanguarda. O seu quadro Mulher com guarda sol (Fig. 05) nos mostra bem qual a
ideia. Se a máquina era capaz de registrar fielmente a imagem, o que caberia ao
pintor? Por que não se poderia pintar uma obra em que o mais importante fosse a
‘impressão’ da luz? E os resultados dessas experiências são fantásticos,
principalmente porque Monet e os outros impressionistas fizeram algo completamente
novo, abandonaram o espaço fechado dos ateliers e foram para fora, para onde a
natureza se encontrava, onde o povo ou as construções estavam, em busca dessa luz
natural.
Paralelo ao Impressionismo e semelhante a ele no nome, o
Expressionismo apresenta variações interessantes. Se a proposta do
Impressionismo era buscar a impressão da luz, a do Expressionismo era
alcançar a ideia que o artista possuía dos objetos ou das situações
representadas. Seus maiores expoentes são Vincent van Gogh e Edvar
Munch.
Van Gogh não obteve sucesso em vida. Deixou mais de dois mil quadros, produzidos
em pouco mais de uma década e uma correspondência significativa, trocada com seu
irmão Theo durante toda a sua vida. Seus quadros são marcados pela pincelada
nervosa e vigorosa, caracterizada por um automatismo na pintura e uma emotividade
excessiva, irracional, quase descontrolada. É esse interior atormentado, representado
por cores fortes carregadas desse estado emocional profundo, conturbado, que vai
caracterizar o expressionismo.
No período em que viveu em Paris Van Gogh conheceu diversos pintores e artistas
que começavam a buscar outras opções além das apresentadas pelo Impressionismo.
Van Gogh pintou naturezas-mortas, paisagens (fig. 06), retratos e autorretratos. O que
mais importa nessas pinturas não é a forma, nem a luz, mas como o artista percebe a
imagem ou cena retratada e como a cor pode ajudar a compor essas composições.
Figura 06. Vincent van Gogh. Iris. Museu Jean Paul Getty. Los Angelis.
California. Estados Unidos.
Edvar Munch é outro grande pintor expressionista. Mais do que Van Gogh, Munch se
afasta da representação das formas. Em sua obra, não há preocupação clara com a
similitude entre a forma representada e sua representação. O que importa é que o
sentimento em torno da cena ou objeto, ou o próprio sentimento ou situação em si
sejam percebidos e sentidos realmente pelo espectador. Foi o que ele conseguiu com
seu quadro mais famoso O grito. Nele se percebe a angústia do ato em si. Em Noite
estrelada (Fig. 07), o desenho só tem importância na medida em que auxilia a
percepção da ideia e da sensação de se observar as estrelas na noite.
Figura 07. Edvard Munch. Noite estrelada. Museu Jean Paul Getty. Los Angelis. California.
Estados Unidos.
O Impressionismo, além de colaborar na libertação da estrutura de composição das
obras, produziu alguns desdobramentos com relação à sua proposta inicial e, outras
ideias surgiram junto e a partir dele. Georges Seurat inaugurou o que ficou conhecido
como pontilhismo. Partindo da concepção de que a percepção das cores pode ser
criada na própria retina, compôs seus quadros agrupando pequenos pontos de cores
distintas, de modo que esses pontos, ao serem observados a certa distância, criariam
a ilusão da cor que se queria representar (Fig. 08). Não existem linhas aparentes nas
obras e a representação da sombra ou dos setores mais escuros se dá também
através do agrupamento mais fechado desses pontos.
Figura 08. Georges Seurat. O farol em Honfleur. National Gallery of Art. Washington. D.C.
As experimentações criadas a partir do Impressionismo acabaram por influenciar os
outros movimentos de vanguarda, exatamente pela quebra dos paradigmas existentes
nas academias. Paul Cezanne depois de conhecer a proposta dos impressionistas,
começou a simplificar as formas dos objetos.
Trabalhou com diversos gêneros, mas em suas naturezas mortas pode-se perceber
mais claramente a preocupação da simplificação das formas (Fig. 09), aproximando-as
do modelo geométrico mais elementar que se poderia conseguir sem perder a
identificação dos elementos. Por essa característica, Cézanne é considerado o
mediador, a ponte entre o Impressionismo e o Cubismo.
Figura 09. Paul Cezanne. Natureza morta com maçãs e pêssegos.
National Gallery of Art. Washington. D.C.
Tema 2
As vanguardas europeias
Qual a importância dos movimentos artísticos de
vanguarda que tiveram lugar na Europa no início do
século XX?
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Os preceitos introduzidos pelo Impressionismo e pelo Expressionismo vão influenciar e
direcionar os movimentos de vanguarda que tiveram lugar no decorrer do século XX.
O termo vanguarda é um termo militar. Representa o grupo que vai à frente
nos combates. Em sentido figurado, significa a parcela ou grupo que exerce
ou procura exercer um papel pioneiro, desenvolvendo técnicas, ideias e
conceitos novos, avançados, especialmente nas artes. (Enciclopédia
Eletrônica Houaiss)
Esses movimentos acontecerão principalmente na Europa e trarão em seu corpo as
marcas das crises sociais provocadas pelas duas grandes guerras. Essa instabilidade
emocional e social que as sociedades apresentarão se refletirá nas obras dos artistas.
O Expressionismo aparecerá dialogando com outras propostas. Kirchner traz em
Casas em Dresden (Fig. 10), as preocupações cromáticas que guiaram os fauvistas.
Figura 10. Ernst Ludwig Kirchner. Casas em Dresden. National Gallery of Art. Washington. D.C.
Os Fauves receberam este nome por causa de uma crítica recebida por eles, que dizia
que uma escultura acadêmica cercada de pinturas feitas pelos artistas desse grupo se
assemelhava a um Donatello entre feras (fauves em francês). Este movimento surgiu
quando o Impressionismo já estava bem aceito na sociedade. Sua proposta distingue
da do Impressionismo em alguns elementos. Os fauvistas buscavam uma
simplificação das formas, a utilização de cores puras preferencialmente, a abolição da
gradação entre os matizes, a utilização destes matizes sem a preocupação em ser fiel
à realidade, o uso de pinceladas largas e espontâneas e a busca de temas leves e
alegres, ligados ao cotidiano, tal como o fariam os primitivos e as crianças.
Inspirados na obra de Paul Cézanne, Pablo Picasso e Georges Braque criam o
Cubismo. Esses artistas, além de criarem suas propostas artísticas na esteira dos
movimentos de vanguarda que o antecedeu, traz também referências a elementos
artísticos encontrados nas máscaras africanas, que em função do processo de
expansão colonialista europeia e pela curiosidade dos estudiosos ligados à
antropologia, começaram a chegar cada vez mais na Europa. O quadro de Picasso
Les Demoiselles d’Avignon (fig. 11), considerado o marco fundador do Cubismo,
mostra bem essa influência. As duas figuras representadas à direita tem seus rostos
muito próximos de máscaras, com elementos geométricos bem definidos.
Figura 11. Pablo Picasso. Le demoiselles d’Avignon. Museu de Arte Moderna. Nova York. Nova
York. Estados Unidos.
O Cubismo pode ser dividido em Cubismo analítico e Cubismo sintético. O Cubismo
analítico apresenta a figura em todos os seus ângulos possíveis. Há neste caso, uma
espécie de desconstrução das imagens, com o objetivo de ver todos os planos
superpostos, de alcançar a visão total. Essa desconstrução atingiu em algumas obras
um nível tão extremo que não se conseguia mais perceber o que estava sendo
representado. O Cubismo sintético traz em suas imagens, a síntese das figuras
representadas, a vontade de que as imagens retratadas sejam percebidas em sua
inteireza, apesar das referências geométricas utilizadas para a construção das
imagens. É no Cubismo sintético que encontraremos a utilização de outros materiais,
colagem e outras técnicas, com o intuito de auxiliar na recomposição dos elementos
representados. Essa desconstrução da obra vai ser aprofundada de tal forma que o
Cubismo, junto com o Futurismo influenciará o abstracionismo geométrico.
O Futurismo nega o formalismo e o passado e se interessa pela velocidade e pelas
inovações tecnológicas que haviam surgido a partir do final do século XIX. Suas
pinturas e esculturas trazem uma clara referência ao movimento promovido pelas
máquinas, em especial o automóvel. Mas quando busca o automóvel, não lhe
interessa o objeto em si, mas a possibilidade plástica de representação da velocidade
em torno dele (Fig. 12). Além da negação do passado, os futuristas valorizavam o
desenvolvimento industrial e tecnológico e foram grandes incentivadores da
propaganda como forma de comunicação.
Figura 12. Composição inspirada na proposta do movimento futurista.
Enquanto movimento vanguardista, o Abstracionismo também assume duas formas
distintas, o abstracionismo lírico e o geométrico. O Abstracionismo geométrico foi
influenciado pelo Futurismo e pelo Cubismo. Focado na racionalização, se apoia na
análise intelectual e científica dos elementos que comporão a pintura ou escultura.
Já o Abstracionismo lírico, se deixou influenciar pelo Expressionismo e utiliza formas
orgânicas e cores expressivas. Inspira-se no instinto e na intuição. Surge também
como uma reação às revoluções do século XIX e à primeira grande guerra no início do
século XX. Os elementos que são utilizados são os elementos básicos das artes
visuais, ou seja, a linha, as cores e as formas geométricas puras. Kandinsky utilizava
também em suas pinturas, elementos relacionados às composições musicais (Fig. 13).
Essa relação se dava, em parte, pelo fato da música ser a mais abstrata das artes.
Figura 13. Padrão abstrato inspirado em Kandinsky.
A I Guerra Mundial produziu um efeito devastador no inconsciente coletivo europeu.
Por isso, a presença da guerra mesmo que indiretamente, perpassa todas as
vanguardas, seja nos temas, seja no conceito criador, seja na instabilidade e
insegurança criada na sociedade. Talvez, o Dadaísmo seja o que mais diretamente se
relaciona com essa situação. Como crítica tanto ao modelo artístico vigente, quanto à
própria I Guerra Mundial, o Dadaísmo pregava o irracional, o sem sentido, o ilógico
existente em tudo, justificando que as Artes tentavam atingir algo impossível de ser
alcançado, o entendimento do ser humano e por isso estava fadada à dissolução,
quando não ao fracasso.
Figura 14. Composição inspirada no surrealismo.
Os dadaístas influenciarão posteriormente o Surrealismo. Inspirados pelas
ideias oníricas trazidas pela psicanálise, o Surrealismo lida com o ilógico,
com o irreal e sua representação (Fig. 14), enfatizando o papel do
subconsciente na vida criativa do artista. É o último movimento de
vanguarda surgido no período entre as duas grandes guerras.
O Futurismo, o Dadaísmo e o Surrealismo são movimentos artísticos que, de certa
forma, possuem uma certidão de nascimento. Foram propostos a partir de manifestos
redigidos por seus criadores, onde estes apresentam as ideias propostas e as
justificativas para a criação destes movimentos. Por este motivo, é interessante
conhecer o teor destes manifestos, assim como dos manifestos Antropofágicos e da
Poesia Pau-Brasil, criados aqui no Brasil por Oswald de Andrade, após a Semana de
Arte Moderna de 1922.
Tema 3
Os caminhos e descaminhos da arte
contemporânea
Quais as mudanças ocorridas no campo das artes
visuais na segunda metade do século XX?
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Após a II Guerra Mundial, acompanhando o deslocamento do eixo político-econômico
da Europa para a América, as artes também se deixaram migrar. O primeiro
movimento significativo deste período surge na Inglaterra na década de 1950, mas
alcança seu apogeu nos anos 1960 nos Estados Unidos. Surge como uma crítica à
sociedade de consumo, à manipulação das massas. A Pop Arte vai explorar o mundo
dos quadrinhos (Fig. 15), da propaganda, dos ícones do cinema e trazê-los para o
espaço das pinturas.
Ao mesmo tempo, o apelo popular apresentado pelas obras, vai de encontro ao
caráter hermético e de certa forma elitista do movimento modernista. O campo da
experimentação artística, no que se refere às artes visuais, passa por um processo de
desconstrução não somente dos ideais artísticos vivenciados até então, mas também
de desconstrução das próprias críticas feitas pelas vanguardas. Nesse sentido, a arte
que até então ainda se encontrava amparada pelos espaços institucionalizados de
promoção artística, apresenta agora, formas novas, diálogos novos e propostas novas.
Figura 15. Composição inspirada na Pop Arte. Mulher com óculos vermelhos.
Desde o final do século XIX as inovações tecnológicas e científicas vinham se
inserindo dentro do ambiente, antes restrito, das artes. Mas geralmente essas
inovações eram incorporadas ao ambiente e ao fazer artístico, mas não eram
incorporadas como objeto de arte propriamente dito. Em meados da década de 1960,
ganhou corpo na produção artística, o registro pictórico de experimentações científicas
que tinham como intenção a criação de uma arte com efeitos visuais ópticos. A
proposta era a de se fazer uma arte com mais visualidade, sem se preocupar tanto
com a expressão. Foi assim que surgiu a Pop Art. As obras produzidas por este
movimento brincam com os fenômenos ópticos, dando não somente a ilusão de
movimento (Fig. 16), mas lidando também com as ilusões provocadas no cérebro pela
manipulação dos princípios da óptica.
Figura 16. Composição inspirada na Pop Art.
Outras propostas foram desenvolvidas no mesmo período. A arte conceitual pensou
numa produção artística que se concentrasse menos na forma e mais nas ideias e
conceitos por trás da obra. É comum encontrarmos hoje nos mais diversos meios de
comunicação, composições com esta proposta, onde à imagem são associadas ideias
e conceitos (Fig. 17) que claramente contribuem para aumentar o nível de informações
sobre a ideia do artista, para além dos elementos puramente formais, tradicionais das
produções visuais.
Figura 17. Arte digital. Foto Conceitual. Mulher bela.
Dialogando novamente, ou ainda com a fotografia, o fotorrealismo se utiliza dos meios
tecnológicos, mas se propõe a reproduzir da forma mais fiel possível em outros
materiais e meios, aquilo foi estudado na fotografia de origem. Mas ele não se limita a
estudar e reproduzir com a intenção de se aproximar ou superar a proposta
fotográfica.
Essa ideia sai das telas, dos suportes tradicionais e invade os espaços públicos das
cidades, seja em pinturas murais (Fig. 18), seja em pinturas efêmeras, mas trazendo
aliadas à representação, a ideia que o artista quer que seja veiculada.
Figura 18. Andreas von Chrzanowski. Pintura mural na fachada de uma casa em Berlim.
Alemanha.
Essas novas propostas e tantas outras que tiveram lugar no século XX ajudaram a
retirar a arte dos espaços e meios oficiais, institucionalizados, quase sagrados em que
a arte se encontrava até então, apesar dos movimentos de vanguarda. Isso contribuiu
para aproximar a produção artística do grande público, na medida em que ela saiu das
galerias e museus e ganhou as ruas, os meios de comunicação. Vemos hoje trabalhos
artísticos que são produzidos com a clara intenção de questionar esse lugar das artes
e o próprio fazer artístico (Fig. 19).
Figura 19. Instalação em Beijing. China.
E é justamente por isso que nos deparamos frequentemente com questões do tipo:
‘Isso é arte?’, ou ‘Não consigo entender muito bem a arte produzida hoje’. Acontece
que, apesar do século XX ter atravessado grandes momentos de transformação, de
alteração dos padrões vigentes, herdeiros das tradições iluministas e apesar da
consciência que se tem na atualidade de que essas tradições não têm mais lugar no
mundo contemporâneo, pelo menos não da forma em que foram pensadas em sua
origem, essas mudanças não chegam claras no que se refere à conceituação, à
grande maioria da população. Ainda é comum a ideia de que a grande arte, tradicional,
seguindo os preceitos acadêmicos é mais conhecida do grande público. Isto ocorre
porque grande parte das discussões que originaram os movimentos de vanguarda
ficaram restritos aos meios intelectualizados ou elitistas que promoveram essas
mudanças.
Quando a partir da segunda metade do século XX, a arte sai dos espaços
institucionalizados e vai para as ruas, através das instalações, apropriações e
intervenções variadas, ela se aproxima do grande público, que começa a se
familiarizar com as propostas estéticas e/ou conceituais apresentadas por ela. São
esses os caminhos e descaminhos que a arte tem trilhado. Novos caminhos, com
novos diálogos, que não sabemos aonde terminarão. E é muito bom não sabermos,
torna o percurso mais interessante. Novos descaminhos, no sentido de que aquilo que
era seguro não é mais, aquilo que norteava a produção não existe mais. Afinal, o
homem que produzia e para quem se produzia a arte não é mais o mesmo. Cabe aqui
finalizar recordando que a arte sempre vai refletir e expressar a cultura em que se
insere, no tempo em que se insere e sob as circunstâncias que determinam essa
expressão. Este é o mundo em que nos encontramos e a diversidade da arte
contemporânea reflete a nossa própria diversidade.
Encerramento
Como a fotografia se relaciona com a produção
pictórica do século XIX?
A fotografia se relaciona com a produção pictórica do século XIX de duas formas
distintas. Em primeiro lugar, ocorreu uma assimilação dos modelos, poses e
composições pictóricas comumente trabalhadas nas obras acadêmicas pelos
fotógrafos. Era comum encontrar fotografias em que os retratados eram representados
tal como obras clássicas estudadas e copiadas nas academias.
Em segundo lugar, o advento da fotografia contribuiu para uma mudança radical tanto
no ofício do pintor, quanto na prática da pintura, já que os pintores ganharam fortes
concorrentes na produção de retratos. Além disso, a fotografia ao apresentar novas
possibilidades técnicas, auxiliou os artistas a se despirem de algumas regras,
permitindo uma experimentação mais ampla no campo da composição, do uso da luz,
da cor, das formas, da própria abstração enfim.
Qual a importância dos movimentos artísticos de
vanguarda que tiveram lugar na Europa no início do
século XX?
Os artistas que estiveram à frente dos movimentos de vanguarda, promoveram de
certa forma, uma fragmentação das pinturas no que se refere aos seus elementos
constitutivos. Nesse sentido, as vanguardas foram um produtivo campo de
experimentações. Os fauves puderam se permitir experimentar composições
cromáticas onde a crueza das cores primárias e secundárias era valorizada.
O abstracionismo se libertou inicialmente da composição temática e num segundo
momento, das próprias formas. O cubismo em contraposição descobriu a beleza das
formas geométricas, seja através da redução das figuras a essas formas, seja na
análise multifacetada das vistas de um objeto ou figura. O Dadaísmo e o Surrealismo e
a Op Art questionaram por fim, a função e a possibilidade da obra de arte.
Quais as mudanças ocorridas no campo das artes
visuais na segunda metade do século XX?
Desde as vanguardas artísticas da primeira metade do século XX, as características
da produção artística vinham apresentando variações e mudanças, tanto no campo da
técnica, quanto no da composição. Na segunda metade do século XX, outros
elementos vieram compor o campo das artes visuais. Entre eles, os principais referem-
se à desconstrução do espaço das artes.
Os espações tradicionalmente entendidos como das artes, museu, galerias, foram
gradativamente alterados, tanto no que se refere à hierarquia entre autor, obra e lugar
do expectador, quanto no sentido da própria construção da obra de arte. Neste
sentido, propostas como os ready-mades, as instalações, apropriações, intervenções e
várias outras, fragmentaram e desconstruíram o lugar da arte.
Resumo da Unidade
No século XIX ocorreu um processo de afastamento das regras e preceitos
habitualmente atribuídos às artes. As alterações sociais enfrentadas pelo ocidente
e as inovações tecnológicas, representadas neste contexto pelo surgimento da
fotografia, fizeram com que tanto a forma das representações artísticas, os
preceitos da arte, como a própria relação entre o artista e o espectador, entre a
arte e o espaço da arte se alterassem profundamente. As academias de arte,
tradicionalmente submetidas ao poder governamental dos países em que se
situavam, tiveram sua supremacia questionada pelas novas propostas artísticas,
aquelas produzidas pelos artistas que tantas vezes foram recusados por não se
enquadrarem no modelo aceito.
A fotografia provocou uma revolução no olhar. Elementos pictóricos, formas de
representação de seres, animais e paisagens tidos como corretamente verdadeiros
há séculos, foram derrubados de seus lugares pela lente da ciência. Esta
fotografia, que aparentemente tirou o trabalho de muitos retratistas, libertou o
artista da necessidade de se ater à realidade. Isso permitiu um processo de
experimentação da arte, desconstruindo o processo tradicional de composição,
resultando nos diversos ‘ismos’ que tiveram lugar a partir do final do século XIX.
Às mudanças na representação artística, sucedeu-se a mudança nas formas de
relação da arte com o seu espaço da arte. Esta mudança significou que o espaço
tradicionalmente destinado à obra de arte, ou seja, os museus, galerias, espaços
tradicionais de exposição, perderam a supremacia enquanto espaço
institucionalizado. As artes se aproximaram do espectador. Este último chegou até
mesmo a fazer parte da produção artística, interferindo no produto, alterando-o e
dispondo-o segundo o que lhe interessasse mais. O conceito por trás da obra de
arte é hoje tão ou mais importante que a forma. A crise da pós-modernidade se
reflete nesta desconstrução dos caminhos tradicionais. Mas esses caminhos
levaram a experimentações profundamente enriquecedoras, capazes de aproximar
a arte e as discussões estéticas para o cotidiano da sociedade contemporânea.
Para aprofundar e aprimorar os seus conhecimentos sobre os assuntos
abordados nessa unidade, não deixe de consultar as referências
bibliográficas básicas e complementares disponíveis no plano de
ensino publicado na página inicial da disciplina.