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1590/S1413-24782022270076
ARTIGO
A laicização da educação na transição
do Império para a República no Brasil:
ensino leigo ou religioso?
Elcio CecchettiI
Ademir Valdir dos SantosII
RESUMO
Este estudo trata do processo de laicização da educação no Brasil. Objetiva analisar
a discussão sobre a natureza do ensino leigo no arco cronológico entre o final do
Império e os primórdios da República. É uma pesquisa bibliográfica que discute
transformações políticas, econômicas, sociais e culturais pelas quais passou o Brasil
e que repercutiram na conformação histórica de um estatuto de laicidade. Os re-
sultados apontam a presença, desde o Império, de concepções de ensino leigo cujos
fundamentos jurídicos foram aplicados à laicização educacional nos primeiros anos
da República. Mostram que as propostas de laicidade apresentadas por Rui Barbosa
foram centrais, defendendo a matriz jurídica estadunidense, que foi inserida na
Constituição de 1891, apesar dos embates com a interpretação positivista da laici-
dade e com a Igreja Católica. Por outro lado, adeptos do positivismo conceberam
a laicidade com base na matriz francesa, imprimindo conotações anticlericais ou
antirreligiosas.
PALAVRAS-CHAVE
ensino leigo; laicidade; ensino religioso; Rui Barbosa.
I
Universidade Comunitária da Região de Chapecó, Chapecó, SC, Brasil.
II
Universidade Federal de Santa Catarina, Florianópolis, SC, Brasil.
Revista Brasileira de Educação v. 27 e270076 2022 1
Elcio Cecchetti e Ademir Valdir dos Santos
THE LAICIZATION OF EDUCATION IN THE
TRANSITION FROM THE EMPIRE TO THE REPUBLIC
IN BRAZIL: LAY OR RELIGIOUS TEACHING?
ABSTRACT
This study deals with the process of secularization of education in Brazil. It
aims to analyze the discussion on the nature of lay teaching, in the chronological
arc between the end of the Empire and the beginnings of the Republic. It is a
bibliographic research that discusses the political, economic, social and cultural
transformations that Brazil went through and that had repercussions on the
historical conformation of a secular status. The results point to the presence,
since the Empire, of conceptions of lay teaching whose legal foundations were
applied to educational laicization in the early years of the Republic. They show
that the proposals of secularism presented by Rui Barbosa were central in de-
fending the American legal matrix that was included in the 1891 Constitution,
despite clashes with the positivist interpretation of secularism and the Catholic
Church. On the other hand, followers of positivism conceived secularism based
on the French matrix, lending it anti-clerical or anti-religious connotations.
KEYWORDS
lay teaching; secularism; religious education; Rui Barbosa.
LA LAICIZACIÓN DE LA EDUCACIÓN EN LA
TRANSICIÓN DEL IMPERIO PARA LA REPÚBLICA
EN BRASIL: ¿ENSEÑANZA LAICA O RELIGIOSA?
RESUMEN
Este estudio trata del proceso de laicización de la educación en Brasil. Ob-
jetiva analizar la discusión acerca de la naturaleza de la enseñanza laica en el
marco cronológico del final del Imperio y los primordios de la República.
Es una investigación bibliográfica que discute cambios políticos, económi-
cos, sociales y culturales por los cuáles ha pasado Brasil y que repercutieron
en la conformación histórica de un estatuto de la laicidad. Los resultados
apuntan la constancia, desde el Imperio, de concepciones de enseñanza laica
cuyos fundamentos jurídicos fueron aplicados a la laicización educacional en
los primeros años de la República. Muestra que las propuestas de laicidad
presentadas por Rui Barbosa fueron centrales, defendiendo la matriz estadu-
nidense, que fue inserida en la Constitución de 1891, a pesar de los embates
con la interpretación positivista de laicidad y con la Iglesia Católica. De otra
parte, los adeptos del positivismo en Brasil conceptuaron la laicidad desde la
matriz francesa, imprimiendo connotaciones anticlericales o antirreligiosas.
PALABRAS CLAVE
enseñanza laica; laicidad; educación religiosa; Rui Barbosa.
2 Revista Brasileira de Educação v. 27 e270076 2022
A laicização da educação na transição do Império para a República no Brasil
INTRODUÇÃO
A discussão contemporânea acerca das relações entre laicidade e educação
escolar no Brasil pode ser instruída mediante perspectiva histórica (Silva, 2006;
Cecchetti e Santos, 2016; Valente, 2018). Nesse sentido, levamos em conta as
controvérsias sobre o processo de laicização do ensino que iniciaram no período
do Império e se perpetuaram nos conflitos subjacentes à implantação da República,
uma vez que a instituição do ensino leigo recebeu tratamento quando da elaboração
do projeto da primeira Constituição republicana.
Para identificar os níveis de compreensão resultantes desse embate e o modo
como incidiram no processo de laicização da educação pública, investigamos a con-
cepção de ensino leigo constante na legislação republicana, na busca das correntes
interpretativas que emergiram quando da sua introdução no ordenamento jurídico.
O objetivo é analisar os primórdios da discussão sobre a natureza do ensino leigo,
percorrendo um âmbito cronológico que abarca os anos finais do período imperial
e os primórdios da era republicana. Quanto à metodologia, trata-se de pesquisa
bibliográfica, de cunho histórico.
O texto está estruturado em três seções. A primeira apresenta elementos para
a compreensão de formas históricas da laicidade e sua relação com os debates quanto
à natureza da oferta do ensino religioso no final do período imperial (ou monárqui-
co). Na sequência, a segunda seção aborda os debates em torno do teor da primeira
carta constitucional republicana, discutindo os estatutos jurídicos apresentados como
elementos da separação entre Igreja e Estado, notadamente quanto às proposições de
Rui Barbosa, defendidas desde o Império e que apoiaram o processo de laicização e
de instituição do ensino leigo. Por fim, seguida das últimas considerações, a terceira
parte analisa as posições doutrinárias e ideológicas que nutriram o debate quanto
à adoção do modelo de laicidade francês ou estadunidense, avaliando seu impacto
na configuração do ensino religioso à época.
AS RAÍZES DO DEBATE: O ENSINO LEIGO COM BASE NAS VOZES DO PERÍODO IMPERIAL
Como indica Cecchetti (2016), a historiografia brasileira registra a existên-
cia de batalhas em torno da laicização do ensino a partir da década de 1860, com
as crescentes penetração e circulação de ideias liberais e republicanas. Diversos
homens públicos filiados à maçonaria e ao positivismo, por exemplo, propuseram
o fim do regime monárquico e a instalação da República como condição para a
modernização do país.
Nesse panorama, o eminente jurista e político Rui Barbosa foi uma das perso-
nalidades que influenciou, sobremaneira, nas mudanças ocorridas ao final do século
XIX e nas primeiras décadas do século XX. Isso porque, além de deputado provincial
e geral no período imperial, fez parte do movimento que instaurou a República e,
por isso, também foi ministro do Governo Provisório (1889-1891), além de autor
de diversos projetos, pareceres, artigos, discursos, conferências e trabalhos jurídicos.
Segundo Machado (1999), Barbosa foi um dos principais entusiastas do projeto
de modernização, dedicando especial atenção à instrução pública. Conhecedor de
vários idiomas e atento a outras culturas, buscou inspiração em nações onde a escola
Revista Brasileira de Educação v. 27 e270076 2022 3
Elcio Cecchetti e Ademir Valdir dos Santos
pública estava se consolidando como instituição gerida pelo Estado com base nos
ideais de gratuidade, obrigatoriedade e laicidade.
O tema do ensino leigo, especialmente, foi objeto de detalhado estudo no Parecer
sobre a Reforma do Ensino Primário e Várias Instituições Complementares da Instrução
Pública, de 1883 (Barbosa, 1947a; 1947b; 1974c).1 O documento decorre da análise
do Decreto nº 7.247/1879, relativo à reforma do ensino primário e secundário no
município da Corte e do superior em todo o Império, conhecida como Reforma
Leôncio de Carvalho. Na época, Barbosa era relator da Comissão de Instrução
Pública da Câmara dos Deputados e pôde, com o auxílio de colegas,2 detalhar suas
contribuições à reforma do Governo Imperial. O parecer de 1883 constitui-se em
um tratado geral que aborda desde os princípios normativos, os fundamentos gerais
de didática, as técnicas e métodos de estudo, a formação e carreira docente, até os
programas de ensino, a organização das classes, os horários e o mobiliário escolar. Rui
embasou-o no mais completo conjunto de informações que obteve sobre os sistemas
educativos considerados mais adiantados à época, especialmente os da Europa e dos
Estados Unidos, fazendo uso das memórias do Congresso Internacional de Ensino,
ocorrido em 1881 em Bruxelas, e, ainda, dos primeiros estudos de educação comparada
produzidos sob a presidência de Ferdinand Buisson.
Rui Barbosa dedicou especial atenção à questão da liberdade de ensino,
considerada como essência da organização constitucional. Inspirou-se em Con-
dorcet para defender o direito humano à independência da instrução e à liberdade
de fundação de institutos de ensino, com o fim de contribuir para a difusão das
ciências, das letras e das artes.3
Paradoxalmente, Barbosa rejeitou o modelo francês de escolarização, no
qual o Estado, visto como “grande pai”, se tornou detentor do monopólio da edu-
cação nacional. Questionou a “infalibilidade da moral republicana, o pontificado
ultradivino do Estado, levantando e demolindo deuses” (Barbosa, 1947b, p. 8). Para
ele, o Estado era apenas a organização legal das garantias de paz comum e mútuo
respeito entre as várias crenças, convicções e tendências que disputam o “domínio do
mundo”. A verdade científica, moral e religiosa estaria fora da competência estatal.
Rejeitou também o regime prussiano, no qual o direito de ensinar estava submetido
ao arbítrio do Estado. Por isso, asseverou: “O nosso modelo é a Inglaterra e a União
Americana.” (Barbosa, 1947b, p. 24)
Outrossim, criticou o monopólio religioso do ensino historicamente exercido
no Brasil, notadamente pela Companhia de Jesus: “[...] é contra eles que aconse-
1 Este parecer foi republicado pelo Ministério da Educação e Saúde, em 1947, em três
tomos, na coleção Obras Completas de Rui Barbosa.
2 Thomaz do Bomfim Spindola e Ulysses Machado Pereira Vianna partilharam o estudo
dos documentos da Comissão de Educação.
3 Cita até mesmo o Relatório e Projeto de Decreto sobre a Organização Geral da Instru-
ção Pública, apresentado por Condorcet na Assembleia Legislativa francesa no ano de
1792. Nele se encontra um modelo de instrução pública calcado nos ideais burgueses
da liberdade e igualdade, considerados fundamentais para assegurar os direitos dos ci-
dadãos na República. (Rodríguez, 2010)
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A laicização da educação na transição do Império para a República no Brasil
lharíamos ao Estado a vigilância mais firme, enquanto as tendências da legislação
pátria e os hábitos da educação comum assegurarem vantagens e privilégios aos
interesses intolerantes de um culto” (Barbosa, 1947b, p. 13). Ou seja, somente a
completa liberdade de ensino dissolveria o perigo do “fanatismo” decorrente do
controle da escola pelas mãos do clero. Por essa razão, encontramos em Rui Barbosa
uma consistente defesa da escola leiga, no que não poupou energias, reservando cerca
de 80 páginas de seu parecer para discorrer sobre o tema.
A seguir sublinhamos alguns elementos que consideramos basilares para o
entendimento de suas concepções, posteriormente incorporadas na Constituição
da República de 1891. Como ponto de partida, ele realizou um exaustivo estudo
das teorias e processos realizados em outros países para justificar sua proposição
em favor da escola leiga. De início, identificou modelos formulados por diferentes
Estados para lidarem com o dilema da obrigação escolar e da salvaguarda da cons-
ciência religiosa. O primeiro é aquele que impõe a instrução religiosa a todos os
alunos da escola, cuja genuína representante era a Espanha, que, por conta de uma
Concordata com a Santa Sé instituída em 1851, subordinava o ensino aos dogmas
da Igreja Católica. Para o crítico jurista brasileiro, isso representava a fórmula mais
completa da “servidão da consciência”, ato de suprema violência contra a “huma-
nidade e o direito.” (Barbosa, 1947a)
A despeito do caso espanhol, ele indicou que a tendência crescente no século
XIX era a da completa secularização da escola pública. Constatou que mesmo os
governos habitualmente mais conservadores estavam propensos à implantação de um
segundo modelo, que consistia na oferta do catecismo oficial na escola, ensinado pelo
professor, mas com frequência facultativa aos seguidores de outros credos, tal como
ocorria em alguns cantões suíços, no Canadá, na Itália e em Portugal. Nesses lugares a
instrução religiosa não contava para a promoção anual, e os estudantes não poderiam
ser constrangidos, sem a anuência dos pais, a participar de cerimônias confessionais.
De outra parte, Barbosa manifestou contrariedade ao modelo adotado na Suí-
ça e na França, onde a instrução religiosa foi excluída tanto do programa de estudos
quanto do edifício escolar. Para ele, essa solução era a prova de que uma espécie de
“fanatismo” não se encontrava “só no clero e nas ordens religiosas, senão, também,
e frequentes vezes, entre os adeptos entusiastas de sistemas e escolas científicas”
(Barbosa, 1947a, p. 285). Segundo sua compreensão, o ensino leigo não expurgava
a instrução religiosa da escola, mas a mantinha em tempos e espaços distintos, no
próprio prédio escolar, para atender àqueles que a desejassem, sendo o ministro de
culto vinculado à religião da criança o responsável por sua oferta, não acarretando
ônus ao Estado. Quer dizer: Rui Barbosa era adepto da solução que previa “a religião
excluída do programa escolar, mas lecionada, no edifício da escola, pelos ministros
dos diferentes cultos, aos alunos que o quiserem” (Barbosa, 1947a, p. 270). Tal pro-
posta instituía funções distintas ao “magistério religioso” e ao “magistério leigo”: o
primeiro era próprio do sacerdócio e tocante às Igrejas; o segundo ficava ao encargo
do mestre escolar, circunscrito às disciplinas puramente científicas.
Tal modelo havia sido instituído pela Bélgica, e nele o ensino religioso
ficou sob os cuidados das famílias e celebrantes de cada culto. Entretanto, a escola
cedeu lugar para que, antes ou depois das aulas, fosse ministrado o catecismo dos
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Elcio Cecchetti e Ademir Valdir dos Santos
diferentes cultos aos estudantes, conforme seu respectivo pertencimento religioso.
Segundo Barbosa (1947a), prática semelhante acontecia na Inglaterra, onde a
escola não exigia que o aluno frequentasse nenhum culto religioso: a instrução e
os exercícios religiosos, se houvesse, eram oferecidos antes ou depois da aula, em
horários aprovados pelo Departamento de Educação. Os alunos estavam isentos
de exames sobre conhecimentos religiosos e era absolutamente vedada qualquer
subvenção pública à atividade.
Em Nova York, nos Estados Unidos, a lei de 1851 proibia as escolas de “en-
sinar, inculcar, ou praticar doutrinas, ou artigos de fé de uma seita especial, cristã ou
não” (Barbosa, 1947a, p. 302). De modo similar agiam os demais Estados daquela
confederação, em que o ensino confessional havia sido banido completamente
do sistema de instrução popular. Entusiasta do modelo, Rui assim se manifestou:
“Hoje em dia a secularização TOTAL da escola pública é, naquele país, um fato
CONSUMADO OU IMINENTE” (Barbosa, 1947a, p. 307). A leigalidade abso-
luta americana — explicitou Rui — era decorrente da gratuidade do ensino, pois
as escolas eram sustentadas por todos os contribuintes, fosse qual fosse sua religião.
Diante de seus estudos, optou por formular uma solução que dialogasse com
o ensino religioso em vez de excluí-lo, evitando possíveis confrontos e resistên-
cias por parte do catolicismo e das demais confessionalidades existentes. Sendo
assim, a saída encontrada pelos Estados Unidos era o modelo que ele julgava
mais adequado ao Brasil: “É este o que abraçamos: a escola pública não fornece
o ensino religioso; mas abre as portas da sua casa sem detrimento do horário
escolar, ao ensino religioso, ministrado pelos representantes de cada confissão”
(Barbosa, 1974a, p. 309). A fórmula parecia-lhe a mais acertada: de um lado, o
Estado poderia exigir matrícula obrigatória, pois o ensino escolar não afrontaria
a consciência de ninguém. De outro, o ensino confessional continuaria a existir,
mas oferecido fora dos horários normais, deixando de ser uma responsabilidade
dos professores e passando ao encargo das diferentes instituições religiosas. Isso
salvaguardaria a liberdade de consciência, pois somente frequentariam essas classes
os filhos das famílias interessadas.
De acordo com Cunha (2017), o exame do longo e conflituoso processo de
autonomização da educação pública perante a religião de Estado requer a retoma-
da das iniciativas legislativas do ministro do Império Leôncio de Carvalho: uma
primeira que, por meio do Decreto 6.884, de 20 de abril de 1878, afetou o Colégio
Pedro II quanto à presença da religião no currículo, possibilitando o ingresso de
estudantes não católicos e sua dispensa da cadeira de “Instrução Religiosa”; a se-
gunda, referente à promulgação ad referendum do Decreto 7.247, de 19 de abril de
1879, por meio do qual o reformador buscou estender o que fora feito no Colégio
a outros estabelecimentos públicos de ensino nas províncias, por fim instituindo
a liberdade de ensino primário e secundário no Município da Corte e de ensino
superior em todo o país, no que foi imediatamente criticado por membros do
Partido Liberal, em razão da dimensão religiosa que estava presente e favoreceria,
notadamente, a Igreja Católica. Diante da falta de consenso quanto à matéria de
educação no Partido Liberal, o trâmite dessa peça legislativa refletiu os embates
daquele momento:
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A laicização da educação na transição do Império para a República no Brasil
A Assembleia Geral não aprovou o decreto de Leôncio de Carvalho, tampouco
o recusou. Encaminhado à Comissão de Educação, ele foi objeto de projetos
substitutivos apresentados pelo deputado Rui Barbosa [...]. De todo o esforço re-
formista, se salvou a liberação dos não católicos da Instrução Religiosa durante o
curso secundário no Colégio Pedro II, nos exames de ingresso e o juramento não
confessional — o que não era pouco num país cuja religião oficial era dominada
pelo ultramontanismo e cujo clero era sustentado materialmente pelo Estado.
Salvou-se, também, a dispensa de Ensino Religioso para os alunos não católicos
das escolas públicas primárias do Município Neutro. (Cunha, 2017, p. 240)
Rui Barbosa teceu críticas ao Decreto n. 7.427/1879, porque, embora
previsse a dispensa da frequência dos estudantes acatólicos das aulas de instrução
religiosa, os professores, funcionários do Estado, continuavam encarregados de sua
ministração. Nesse ponto, em sua opinião, o governo negligenciava a liberdade de
consciência do professorado secular e mantinha os laços de dependência da Igreja,
pois, pelo menos em parte, a atividade pedagógica ainda se encontraria sob a direta
interferência do clero.
Diante do fato, propôs um projeto substitutivo à Comissão de Educação, o
qual secularizava não só o programa obrigatório da escola, mas também o trabalho
dos professores. E justificou sua proposição incumbindo tantos os ministros da
religião quanto os pais pela oferta do ensino religioso: “Estabeleçamos, sim, custe o
que custar, um sistema, rigorosamente nacional e leigo, de escolas públicas elemen-
tares; ensinemos nelas aquilo em que todos anuírem; deixemos o encargo do ensino
religioso aos ministros da religião e aos pais dos alunos” (Barbosa, 1947a, p. 324).
Segundo tal lógica, a escola estatal não imporia dogmas religiosos ou irreligiosos,
materialistas ou espiritualistas, deístas ou ateus, racionalistas ou confessionais.
Estava posta a solução que assegurava o caráter de neutralidade à escola: a oferta do
ensino elementar para todos, pelo professor leigo, e o ensino confessional somente
aos interessados, ministrado pelos respectivos ministros de culto.
Todavia, como informa Machado (1999), os pareceres de Rui Barbosa não
chegaram a ser discutidos na Câmara dos Deputados, porque a questão de maior
interesse naquele momento era a abolição da escravatura. As propostas, porém, não
pereceram, pois em análise das Atas do Congresso de Instrução Pública, evento
realizado em 1884, Bastos (2006) constatou que “escola livre” e “ensino leigo” eram
temas recorrentes que transversalizavam os discursos. Isso mostra que, embora o
termo laicidade ainda não fizesse parte do vocabulário corrente à época, as expressões
ensino leigo e escola leiga foram apropriadas e difundidas. Em decorrência disso, a
primeira Carta Magna da República incorporou a expressão “ensino leigo” para se
referir à laicização da educação. Eis de que trataremos a seguir.
O FRUTO DA REPÚBLICA: A LAICIZAÇÃO COMO ESTATUTO
Segundo Figueiredo (2011), embora os primórdios do regime monárquico
tenham sido matizados por certo constitucionalismo, os anos do Império (1822-
1889) — em que se sucederam os comandos de Dom Pedro I, de regentes e, du-
rante quase meio século, de Dom Pedro II — foram o cenário de diversas questões
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Elcio Cecchetti e Ademir Valdir dos Santos
políticas, econômicas e de fundo social, entre as quais temos as manifestações de
grupos populares oprimidos, a agitação na imprensa, a emergência de discursos
republicanos, liberais e positivistas, a abolição da escravatura e os diversos confli-
tos com setores da elite agrária, com a Igreja e o Exército. Ou seja, a monarquia
brasileira era questionada e criticada, mas mantinha-se por meio de centralização
política e administrativa, com base em uma dupla fonte de poder: “Deus” e o “povo”.
Contudo, ao constatarem o esgotamento do velho regime, os militares tomaram
a dianteira e propuseram a revolta contra as autoridades constituídas. Em 15 de
novembro de 1889, as tropas destituíram o regime monárquico, instituindo um
Governo Provisório. Foi proclamada a República.
A laicização do Estado foi tema dos primeiros encontros do ministério re-
publicano, pois já em 19 de dezembro foi apresentada a primeira versão do Projeto
de separação da Igreja do Estado, secularização dos cemitérios e casamento civil, por
Demétrio Ribeiro, adepto do positivismo. No entanto, seu partícipe ideológico,
Benjamim Constant, procurando evitar a aprovação imediata da proposta, ponderou
que o assunto era de magna importância e sugeriu o adiamento da decisão para
amadurecimento, no que foi apoiado por Rui Barbosa. Segundo Ribeiro (1917),
nesse ínterim foi feita uma consulta a Dom Macedo Costa, Arcebispo da Bahia,
sobre os efeitos da separação entre Igreja e Estado para o clero e para os católicos
em geral. Como resposta, na carta redigida pelo prelado a Rui Barbosa, datada de
22 de dezembro de 1889, este assim se manifestou acerca da linha ideológica a ser
adotada: “Liberdade para nós, como nos Estados Unidos! Não seja a França de
Gambeta e de Clemenceau o modelo do Brazil, mas a grande União Americana
[sic]” (Ribeiro, 1917, p. 41). No mesmo documento, o Arcebispo registrou o que
teria ouvido do próprio presidente Deodoro: “Sou catholico, não assignarei uma
Constituição que offenda a liberdade da Egreja [sic]” (Ribeiro, 1917, p. 41). Também
consta que os ministros Barbosa e Bocaiuva se manifestaram a favor da adoção do
modelo estadunidense de laicidade.
Nesse sentido, as perspectivas aqui evocadas vão ao encontro dos estudos
constitucionais de Leite (2011), o qual adverte que a análise histórica não deve ser
empreendida com base na leitura formal da Constituição, mas que se deve buscar
compreender a interpretação conferida à época e a aplicação das normas, assim como
levar em conta o fato de que a nação não deixaria de ser esmagadoramente católica
por conta da Proclamação da República. Ademais, a base jurídica constitutiva dessa
argumentação vincula-se à ponderação de que a doutrina constitucionalista refletia
a indefinição quanto à laicidade e à liberdade religiosa que viriam a constituir o
texto de 1891. E havia uma miríade de vozes dissonantes no quadro social e político.
A compreensão da abordagem doutrinária a respeito da laicidade e da liberdade
religiosa na Primeira República deve partir da premissa de que havia uma polêmi-
ca em torno desses temas, a qual pode ser bem ilustrada a partir dos comentários
feitos por dois juristas da época a respeito do tema: Rui Barbosa (Barbosa, 1903),
defendendo que a separação entre Estado e religião no Brasil seguia o modelo
americano, e não o francês; e Aristides Milton, lamentando que a Constituição
brasileira não tivesse seguido o modelo americano [...]. (Leite, 2011, p. 41)
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A laicização da educação na transição do Império para a República no Brasil
Em 7 de janeiro de 1890, Rui Barbosa apresentou seu próprio projeto de
separação Igreja-Estado, que foi publicado como Decreto 119-A. Durante as
discussões, Demétrio Ribeiro reconheceu que o conteúdo era similar àquele que
expusera anteriormente, mas questionou a ausência da secularização dos nasci-
mentos, óbitos e casamentos (Abranches, 1907). Em razão disso foram expedidos
outros três dispositivos: o Decreto 181, que promulgou a lei sobre o casamento
civil; o Decreto 789, que estabeleceu a secularização dos cemitérios, transferindo
seu controle e administração às autoridades civis; e o polêmico Decreto 521, que
determinou que a união civil ocorresse antes do rito religioso, incluindo sanções
penais aos infratores, fato que incitou a revolta dos católicos. Contudo, embora o
Governo Provisório tivesse instituído esses atos de cisão entre o Estado e a Igreja,
continuou subvencionando as obras católicas pelo período de um ano, assim como
permitiu a manutenção da pensão paga aos ministros de culto por parte do Estado.
Os primeiros textos legais republicanos, todavia, não fizeram referência à
escola laica ou ao ensino leigo, temas que viriam a ser tratados de modo pontual
quando da elaboração da primeira Constituição. Essa primeira carta começou a ser
elaborada em janeiro de 1890, por meio da instituição de uma comissão de cinco
juristas4 responsáveis pelo anteprojeto. Iniciados os trabalhos, acordaram entre si que
cada um prepararia um projeto separado, para depois agregá-los num documento
unificado. No entanto, Rangel Pestana e Santos Werneck decidiram trabalhar juntos
e apresentaram uma única proposta, enquanto Saldanha Marinho, na qualidade
de presidente, absteve-se de opinar. Resultou uma discussão coletiva dos três pré-
-projetos, sendo as propostas sintetizadas em arquivo único (Ribeiro, 1917).
Ao analisarmos o teor dos referidos documentos, constatamos que a laicização
do ensino não foi pautada em nenhum deles. A proposta de Magalhães Castro até
mesmo defendia a continuidade da oferta do ensino religioso confessional na escola
primária, embora fiscalizado pelo Estado com o fim de coibir o “fanatismo religioso”.
A comissão entregou o anteprojeto da Constituição ao Governo Provisório
em 24 de maio de 1890, e o Ministério analisou-o até o 10 de junho seguinte.
Segundo Ribeiro (1917), os ministros reuniam-se para examiná-lo e decidir quais
os pontos que deveriam figurar na proposta do Governo, pois supunham que o
Marechal Deodoro possuía ideias incompatíveis com o sistema republicano. Foi
nesse ínterim que Rui Barbosa elaborou suas emendas, que alteraram, acrescentaram
e imprimiram precisão à redação de inúmeros pontos presentes no anteprojeto ela-
borado pela comissão de juristas. A intenção era apresentar uma versão consensual
entre os ministros, para evitar atritos e assegurar fiel implementação. Conforme
demonstra o Quadro 1, que sistematiza nossas análises, Barbosa foi responsável
pela inclusão da emenda que deu origem ao artigo 72 da Constituição, instituindo
o “ensino leigo” nos estabelecimentos oficiais.
4 Composta de homens públicos de crenças republicanas: Joaquim Saldanha Marinho,
presidente; Américo Braziliense de Almeida Mello, vice-presidente; Antonio Luiz
dos Santos Werneck, Francisco Rangel Pestana e José Antonio Pedreira de Magalhães
Castro.
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Elcio Cecchetti e Ademir Valdir dos Santos
Quadro 1 − Comparativo dos conteúdos sobre o ensino
nos projetos da Constituição de 1891.
Projeto Final Projeto Definitivo
Emendas de Projeto Aprovado
da Comissão do Governo
Rui Barbosa pela Constituinte
de Juristas Provisório
Art. 35. Art. 33.
Incumbe, outrossim ao Incumbe, outrossim,
Art. 89. Art. 35.
Congresso, mas não ao Congresso, mas não
§4º – Todos Incumbe, outrossim,
privativamente: privativamente:
podem livremente ao Congresso, mas não
1. Animar o progresso da 1º Animar [no País]
aprender e privativamente [...]:
educação pública [...]. o desenvolvimento da
ensinar ou fundar 2º Animar, no País, o
2. Criar instituições educação pública [...].
instituições de desenvolvimento das letras,
de ensino superior e 2º Criar instituições
ensino. artes e ciências [...].
secundário em qualquer de ensino superior e
Estado. secundário nos Estados.
Art. 72. Art. 72. Art. 72.
5º Será leigo o ensino § 6. Será leigo o § 6. Será leigo o
ministrado nos ensino ministrado nos ensino ministrado nos
estabelecimentos federais. estabelecimentos públicos. estabelecimentos públicos.
Fonte: Elaborado pelos autores, 2022, com base em Ribeiro (1917) e Barbosa (1946).
Vemos que, mesmo ausente nas propostas da comissão de juristas e do Go-
verno Provisório, o ensino leigo foi inserido no projeto de Constituição apresentado
pelo colegiado ministerial ao presidente Deodoro. A discussão foi finalizada oito
dias depois, e praticamente todas as emendas barboseanas foram incorporadas.
Segundo Calmon (1946), Barbosa foi o redator final do documento, acompanhou
sua impressão e fez modificações nas diversas provas que conferiu.
Ao observarmos que a proposta de ensino leigo foi aprovada pela Consti-
tuinte, sob a forma do parágrafo sexto do artigo 72 da primeira Constituição da
República, inferimos que tal feito constituiu uma iniciativa pessoal de Rui Barbosa,
recuperando os argumentos contidos no parecer de 1883, no qual ele se posicionou
a favor da “leigalidade do ensino”, fazendo referência ao modelo estadunidense. Isso
porque, segundo seu entendimento, nas escolas daquele país prevalecia a liberdade
religiosa, pois o ensino de religião era facultativo a todas as crenças; era oferecido
no próprio estabelecimento escolar, mas fora dos horários normais das demais
matérias. Tratava-se de uma perspectiva que valorizava a formação religiosa dos
estudantes, sem conotações radicais de cunho anticlerical ou antirreligioso, tal como
ocorria na França.
Na sequência, trazemos para a discussão novos elementos analíticos decor-
rentes do embate entre concepções ideológicas discrepantes acerca do processo de
laicização do ensino.
DISPUTAS DOUTRINÁRIAS E IDEOLÓGICAS: FOMENTANDO O DEBATE
A perspectiva assumida por Rui Barbosa ora contrastava, ora se somava a
outra corrente ideológica que sustentava o Governo Provisório: o positivismo. Aliás,
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A laicização da educação na transição do Império para a República no Brasil
quanto a isso, o pensamento barboseano adotava como modelo as relações entre
Estado e Igreja nos Estados Unidos, estabelecendo alguns pontos de aproximação
com o Brasil:
Na República norte-americana a superfície moral do país estava mais ou menos
igualmente dividida entre uma variedade notável de confissões religiosas. No
Brasil o catolicismo era a religião geral; o protestantismo, o deísmo, o positi-
vismo, o ateísmo, exceções circunscritas. De modo que, enquanto nos Esta-
dos Unidos a igualdade religiosa constituía uma necessidade sentida, mais ou
menos, no mesmo grau, por todas as comunhões, entre nós ela representava
tão somente aspirações da minoria. A liberdade de cultos veio satisfazer, em
boa justiça, à condição opressiva dessas dissidências maltratadas pela exclusão
oficial, mas não invertê-la contra a consciência da maioria. Se, nos Estados
Unidos, avultava no maior relevo “o fato de que o cristianismo era, e sempre foi,
a religião popular” (são palavras de um magistrado americano), no Brasil esse
fato não tinha vulto menos proeminente. (Barbosa, 1981, p. 28)
Apesar das diferentes e até mesmo divergentes linhas de apropriação, os
positivistas exerceram significativa influência na ideação jurídica da nova Repú-
blica. Causas como a ditadura republicana, o fortalecimento do poder executivo, a
secularização do Estado, a liberdade espiritual e a separação entre o poder político
e o religioso constituem alguns exemplos. E, no processo de institucionalização da
República, adeptos como Benjamin Constant, Demétrio Ribeiro, Teixeira Mendes,
Miguel Lemos e Júlio de Castilhos figuram entre os representantes mais influentes.
De acordo com Paim (1981), os positivistas problematizam o nível de im-
pregnação das “crendices” nas “entranhas” da população brasileira e, por isso, bus-
cavam não só influenciar na formulação dos dispositivos jurídicos do novo regime,
mas também na mudança dos costumes e das mentalidades, condição necessária
para efetivar sua pretensa reforma social. Almejavam integrar o país na lógica do
desenvolvimento da civilização ocidental, pois compreendiam o atraso do Brasil
em relação aos demais países europeus como “diferença histórica”, identificando na
filosofia de Auguste Comte, o formulador do positivismo, o suporte para tal inter-
pretação, referindo-se à lei dos três estados — o teológico, o metafísico e o positivo.
Na visão desse grupo, com a instauração da República, o Brasil iniciou sua
marcha para o estado positivo, marcado pelo reinado da ciência e da técnica. Nes-
te, a ordem e o progresso — não por acaso lema da bandeira nacional — seriam
obtidos por meio da instrução e do povoamento. A ordem, alicerçada na ciência
e na moral laica, produziria a reforma intelectual dos indivíduos em conformida-
de com as exigências do mundo comercial e industrial. Por sua vez, o progresso
correspondia à atração de imigrantes europeus qualificados para fazer prosperar a
produção industrial.
Na obra A formação das almas: o imaginário da República no Brasil, Carvalho
(2017) mostra como o programa positivista operou na reforma da mentalidade
popular, despendendo muitos esforços para manipular o senso comum e dar legiti-
midade ao regime. A propagação de um laicismo marcadamente radical e até anti-
Revista Brasileira de Educação v. 27 e270076 2022 11
Elcio Cecchetti e Ademir Valdir dos Santos
clerical, espelhado no modelo francês, foi um dos elementos do conjunto de esforços
empreendidos pelos positivistas para construção de um novo imaginário social.
Por outro lado, a ação empreendida visando à modernização e à laicização
do Estado gerou fortes reações. Protestos como os do jurista católico Lacerda de
Almeida (1924, p. 130) ilustram como tais acontecimentos foram sendo interpre-
tados pelos católicos:
O pensamento occulto dos homens de 1889 era outro. E, tendendo que fizeram
a revolução política que derrubou a monarchia, pensaram ser igualmente fácil
substituir a religião por outra “positiva”, ou prepararlhe o advento tornando
o Estado inteiramente atheu. De que houve tentativa disso dão testemunho,
certos feriados nacionaes e o lemma da bandeira, além da saudação na cor-
respondência official, donde se expungiu a formula Deus guarde, tradicional e
elevadíssima [sic].
Paulatinamente, o doutrinamento positivista, difundido e impregnado em
nível jurídico, foi amplamente contestado pelos membros da intelectualidade ca-
tólica, que souberam unir o peso da tradição e o domínio sobre o povo para recris-
tianizar a República. Em outros termos, a reforma republicana gerou uma espécie
de contrarreforma católica, assim expressa nas palavras de Lacerda de Almeida
(1924, p. 130): “A nação, porém, resurge do sonno e vae pouco a pouco adaptando
a si a forma republicana, não deixando que a forma republicana (ou constitucional)
a adapte a si [sic].”
No cerne da batalha ideológica entre grupos com ideologias antagônicas,
encontrava-se o ensino leigo. A questão posta era: o que, precisamente, essa expressão
queria dizer? Na busca por respostas à problemática, vemos que a hierarquia ecle-
siástica trabalhava para consolidar a interpretação jurídica combativa à hermenêutica
francesa, com o intuito de subsidiar uma reforma da Constituição no que tangia ao
ensino leigo. Para isso, nas primeiras décadas da República, ela contou com o apoio
de relevantes juristas. O ex-ministro do Supremo Tribunal Federal, Pedro Lessa,
também membro da Academia Brasileira de Letras e fundador da Liga de Defesa
Nacional, foi um dos primeiros a se manifestar sobre o assunto. Procurou inter-
pretar o parágrafo 6º, que tratava do ensino leigo, combinando-o com o parágrafo
3º do artigo 72 da Constituição, que abordava a liberdade de culto, estabelecendo
que não cabia ao Estado impor crenças religiosas ou ignorá-las, mas respeitar a
liberdade de consciência:
Si o Estado, pela própria natureza de suas funcções, não pode impor princípios
philosophicos ou crenças religiosas, de acordo com a moderna concepção da li-
berdade de consciência, sua attitude, em face dos diversos systemas philosophi-
cos ou religiosos, dever ser, não de indiferença ou desconhecimento desses mes-
mos systemas (maneira errônea de comprehender o laicismo, assim confundido
com uma neutralidade impraticável e illusoria), mas, sim, de reconhecimento da
existência de todos elles como manifestações da própria liberdade de consciên-
cia que lhe cumpre respeitar e salvaguardar [sic]. (Lessa apud Lima, 1914, p. 31)
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A laicização da educação na transição do Império para a República no Brasil
Sua análise colocou em xeque a concepção francesa de laicidade, na qual as
noções religiosas eram tratadas com indiferença e até mesmo com desprezo, o que
se aplicava à perspectiva positivista, que relegava a religião à etapa pré-científica do
desenvolvimento da humanidade.
Outro destacado jurista que se envolveu na celeuma foi Mário de Lima, que
na obra Escola leiga e liberdade de consciência, de 1914, assumiu uma postura inter-
pretativa semelhante à exposta por Pedro Lessa, ponderando que o Estado leigo
aceitasse a diversidade de credos e não impedisse sua presença no ambiente escolar:
“Estado leigo não quer dizer Estado atheu. [...] O Estado leigo deve, ao contrário
do Estado atheu, reconhecer a existência de todos os credos, deixando-lhes aberto o
campo da escola, em vez de fechá-lo hostilmente como acontece com a neutralidade
[sic].” (Lima, 1914, p. 41-42)
Lima corroborava o princípio de que a escola leiga não era irreligiosa. Ao
contrário, o meio educacional estaria aberto à contribuição de todos os credos,
em clima de liberdade, em vez de limitar a adesão e a prática religiosa ao âmbito
particular. Para legitimar sua posição, teceu severas críticas ao modelo adotado no
sistema educacional francês, associando-o ao anticlericalismo socialista, à maçonaria
e aos exageros da razão.
A neutralidade escolar em França é uma mentira oficial, é a machina de des-
christianização montada pelo governo para servir á causa do anti-clericalismo
vermelho, do maçonismo anti-catholico e do livre pensamento intolerante. [...]
pregam-se, nas escolas publicas, ideias contrarias ao sentimento religioso dos
alumnos, a moral christã é substituída pela moral leiga, conjunto de princípios
moraes impostos pelo Estado que assim falseia o principio do laicismo [...][sic].
(Lima, 1914, p. 35-36)
Semelhante crítica ao laicismo francês havia-se difundido entre o clero e
laicato católico, o que motivou os quadros religiosos a defenderem sua fé contra um
regime escolar que, pela primeira vez, não somente encontrava-se fora do controle
direto da Igreja, mas formava mentalidades alheias e até contrárias à doutrina ca-
tólica. Por isso, miravam o sistema estadunidense, no qual, segundo Lima (1914),
a concepção de “neutralidade” nunca foi entendida como “profissão nacional do
agnosticismo” ou do “materialismo do Estado”, senão como expressão de respeito
às várias denominações religiosas. À luz desse entendimento, Lima (1914, p. 131)
atribui outro conceito ao termo leigo:
Leigo não quer dizer contrario a todo e qualquer sentimento religioso; traduz,
ao revez, sympatia igual, tolerância completa em face de todas as religiões, den-
tro, é claro, dos limites da ordem moral publica. [...] Estado leigo é o que não
tem religião official e não impõe, portanto, determinado ensino religioso em
suas escolas [sic] (grifo do original).
Com base nesse ponto de vista, leigo corresponde a uma atitude de diálogo e
não de oposição às religiões. Por esse motivo, a escola leiga não devia oferecer ensino
Revista Brasileira de Educação v. 27 e270076 2022 13
Elcio Cecchetti e Ademir Valdir dos Santos
religioso em seu programa oficial, o que não inviabilizaria, contudo, sua oferta fora
das atividades regulares, mediante matrícula facultativa, destinada apenas aos que
a solicitassem. Sendo assim, os setores eclesiásticos questionavam a interpretação
constitucional do princípio da laicidade à luz dos pressupostos franco-positivistas,
em que o ensino era destituído de qualquer ingrediente religioso.
Em meio à batalha interpretativo-hermenêutica acerca do conceito de ensino
leigo, o próprio Rui Barbosa envolveu-se na disputa, incluindo-a em sua plataforma
eleitoral de 1910. Atento aos questionamentos suscitados, reiterou que não se tratava
de anticatolicismo ou postura ateia:
Sob a minha influência, ou com a minha sanção, não é que se autorizaria a ex-
pressão anticatólica ou ateia, que certas manifestações de incredulidade, entre
nós, têm querido imprimir à solução brasileira do problema religioso. Se esta
solução não amordaça o ateísmo, nem por isto lhe confere o privilégio de tingir
de sua cor a imparcialidade cristã das nossas instituições. (Barbosa, 1967, p. 60)
Percebemos que Barbosa opunha-se à compreensão positivista, tachada pelos
católicos de ateísta, que procurava nortear a interpretação jurídica do dispositivo
legal segundo a hermenêutica francesa. E, diante do conflito interpretativo, ele
próprio retoma o sentido que o teria movido quando então membro do Governo
Provisório, posicionando-se favoravelmente à concepção estadunidense:
O princípio das Igrejas livres no Estado Livre tem duas hermenêuticas distintas
e opostas: a francesa e a americana. Esta, sinceramente liberal, não se assusta
com a expansão do catolicismo, a mais numerosa, hoje, de todas as confissões
nos Estados Unidos [...]. Aquela, obsessa do eterno fantasma do clericalismo,
gira de reação em reação, inquieta, agressiva, proscriptora. Com uma, sob as
formas da liberdade republicana, assiste o século vinte ao tremendo acesso de
regalismo, que baniu do país, em França, todas as congregações religiosas. Sob
a outra se reúnem, na América do Norte, [...] as coletividades religiosas [que] se
desenvolvem tranquilas, prósperas, frutificativas, sem a mais ligeira nuvem em
seu horizonte [...]. Foi esta a liberdade religiosa que nós escrevemos na Constituição
Brasileira. Esta exclui do programa escolar o ensino da religião. Mas não consente
que o ensino escolar, os livros escolares, professem a irreligião e incredulidade, nem
obsta, quando exigido pelos pais, ao ensino religioso pelos ministros da religião, fora
das horas escolares, no próprio edifício da escola. [...] É assim que se pratica nos
Estados Unidos essa neutralidade entre as religiões, que nunca se encarou ali
como profissão nacional do agnosticismo ou materialismo do Estado, senão so-
mente como a expressão da sua incompetência e do seu respeito entre as várias
denominações religiosas. A Constituição brasileira bebeu ali, não em França. Não
em França, mas ali é que lhe havemos de ir buscar as lições [...]. (Barbosa, 1967,
p. 60-62, grifos nossos)
Constatamos que Barbosa retoma a solução que havia cunhado em seu parecer
de 1883, quando abordou e defendeu o ensino leigo. Sua clara opção pela vertente
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A laicização da educação na transição do Império para a República no Brasil
estadunidense manifesta-se na comparação entre o tratamento dado às questões
religiosas nos Estados Unidos e na França. Não foi à toa que Dom Macedo Costa,
na carta escrita em resposta à consulta feita por Rui Barbosa, em dezembro de
1889, bradou: “Liberdade! Liberdade como nos Estados Unidos!”. Entendemos, por
conseguinte, que a celeuma histórica em torno da laicização do Estado e, por con-
sequência, do ensino, é decorrente da tentativa de inflexão interpretativa embasada
por posições ideológicas de viés francês. Outrossim, indagamos: sem a conversão
analítica positivista do princípio da laicidade, no limiar da República, teria a Igreja
Católica reagido da mesma forma? Tudo indica que não, pois, como se percebe nas
formulações de Rui Barbosa, o ensino leigo previa a exclusão do ensino religioso dos
programas de ensino, mas sem a vedação de sua oferta pelos familiares e religiosos.
Conforme a explicação barboseana, o ensino religioso poderia ser realizado nos
prédios escolares, fora dos horários de oferta das disciplinas científicas, desde que
ministrado por representantes do respectivo culto. Nos termos de Cunha (2017, p.
241): “RELIGIÃO EXTRACURRICULAR.”
A concepção de ensino leigo de Rui Barbosa, em suma, não tendia para o
favorecimento do agnosticismo, do ateísmo ou da irreligião, conforme protestavam
os católicos à época. Antes buscava assegurar a liberdade de consciência e a crença
no programa geral das aulas, permitindo a oferta do ensino confessional aos inte-
ressados de diferentes credos no próprio espaço escolar.
Ciente dessas possibilidades, a hierarquia católica procurou reverter os dispo-
sitivos jurídicos que deram margem às interpretações laicizantes do ensino, que na
prática buscavam expurgar da esfera escolar tudo o que estivesse atrelado às noções
religiosas ou espirituais. Posteriormente, houve um movimento da cúpula católica
que tratou de flexibilizar o dispositivo constitucional que instituía o ensino leigo,
isso por meio da reintrodução do ensino religioso nas escolas oficiais.
CONSIDERAÇÕES FINAIS
Constatamos a conformação histórica de uma ambivalência interpretativa em
torno da concepção de ensino leigo. Tal processo não somente nutriu batalhas nos
setores políticos e jurídicos, configurando a natureza das perspectivas de laicidade
aplicadas ao campo educacional ao longo das últimas décadas do Império e nos
primórdios da República, mas, de alguma forma, ainda sustenta hodiernas disputas
e posições díspares sobre o conceito e o alcance da laicidade no meio escolar.
Demonstramos que, inicialmente, Rui Barbosa cunhou uma solução com base
em uma análise dos modelos estrangeiros de relação entre a religião ofertada nas
escolas e o Estado, que foram registrados em seu parecer de 1883. Resultou que
sua concepção de ensino leigo adveio de uma consciente escolha pelo modelo de
estado laico estadunidense. Nas formulações barboseanas, o ensino leigo requeria a
exclusão do ensino religioso dos programas de ensino, mas sem a sua substituição
por conteúdos de conotação irreligiosa ou ateias. Ademais, conforme sua defesa, o
ensino religioso poderia ser realizado nos prédios escolares, mas fora dos horários
das aulas das demais matérias, sendo ministrado por líderes da mesma filiação
religiosa a que se vinculava o estudante.
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Elcio Cecchetti e Ademir Valdir dos Santos
Nesse sentido, a concepção de ensino leigo de Barbosa, germe de uma
vindoura proposta de laicidade, não tendia para o favorecimento do agnosticismo,
do ateísmo ou da irreligião, mas buscava assegurar a liberdade de consciência e a
crença no programa geral das aulas, reconhecendo a diversidade religiosa a ponto
de permitir a oferta do ensino confessional aos interessados de diferentes credos no
próprio espaço escolar. Barbosa opunha-se à compreensão positivista, tachada pelos
católicos de ateísta, empenhada em nortear a interpretação jurídica do dispositivo
legal segundo uma hermenêutica de base ideológica francesa. Nesse contexto, a
posição de Rui Barbosa foi emblemática, orientando por algum tempo o embate
sobre o processo histórico de instituição legal de uma das concepções de laicidade
que julgava conveniente ao Brasil.
Diante das possibilidades analíticas que perscrutamos, ratificamos que os
embates históricos em torno da laicização do Estado e, por consequência, do ensino,
em boa medida podem ser decorrentes da tentativa de inflexões de interpretação
embasadas por posições ideológicas de viés franco-positivistas. E que, diante de tal
movimento, a hierarquia católica procurou reverter os dispositivos jurídicos que
deram margem às interpretações laicizantes do ensino. Sem perder tempo, a cúpula
eclesiástica tratou de flexibilizar o dispositivo constitucional que instituía o ensino
leigo, empreendimento que resultou, décadas depois, na reintrodução do ensino
religioso facultativo nas escolas oficiais em vários Estados da federação republicana.
A reação da Igreja, portanto, centrava-se em questionar a interpretação
constitucional do princípio da laicidade à luz dos pressupostos franco-positivistas,
nos quais o ensino era destituído de qualquer elemento de cunho religioso. Os
discursos de Rui Barbosa e dos demais juristas buscaram esclarecer esse ponto, o
que não foi suficiente para reverter o entendimento dos partidários do positivismo,
pois eles consideravam que a presença do ensino religioso equivalia à permanência
do elemento eclesial na escola, representando verdadeira afronta à separação entre
o Estado e a Igreja.
A Igreja Católica, contudo, não mediu esforços para efetivar uma revisão
da Constituição de 1891, visando pôr fim aos desentendimentos sobre o conceito,
natureza e abrangência dos fundamentos do ensino leigo. Desse modo, tanto leigos
como clérigos apenas esperavam o desenlace dos acontecimentos políticos para
buscar alterar as bases consideradas laicistas da Constituição da República então
em vigor, gerando um ambiente nutrido por antagonismos destinados a prorrogar
suas perspectivas e inseri-las nos debates acerca do teor do texto constitucional
seguinte do Brasil.
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SOBRE OS AUTORES
Elcio Cecchetti é doutor em Educação pela Universidade Federal de
Santa Catarina (UFSC). Professor da Universidade Comunitária da Região de
Chapecó (Unochapecó).
E-mail: [Link]@[Link]
Ademir Valdir dos Santos é doutor em Educação pela Universidade
Federal de São Carlos (UFScar). Professor da Universidade Federal de Santa
Catarina (UFSC).
E-mail: [Link]@[Link]
Conflitos de interesse: Os autores declaram que não possuem nenhum interesse comercial
ou associativo que represente conflito de interesses em relação ao manuscrito.
Financiamento: O estudo não recebeu financiamento.
Contribuições dos autores: Conceituação, Escrita – Primeira Redação, Escrita – Revisão
e Edição, Investigação: Cecchetti, E.; Santos, A. V.
Recebido em 29 de janeiro de 2021
Aprovado em 19 de agosto de 2021
© 2022 Associação Nacional de Pós-Graduação e Pesquisa em Educação – ANPEd
Este é um artigo de acesso aberto distribuído nos termos de licença Creative Commons.
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