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Definição e Jurisprudência do Genocídio

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17/04/13 Envio | Revista dos Tribunais

O genocídio e o crime de genocídio

O GENOCÍDIO E O CRIME DE GENOCÍDIO


Revista Brasileira de Ciências Criminais | vol. 83 | p. 299 | Mar / 2010
Doutrinas Essenciais de Direitos Humanos | vol. 6 | p. 645 | Ago / 2011DTR\2010\298
Geraldo Minuci
Livre-docente e Doutor em Direito Internacional pela Faculdade de Direito da USP.

Área do Direito: Penal

Resumo: O artigo apresenta os problemas inerentes à definição do crime de genocídio e as


soluções dadas para resolvê-los pela jurisprudência internacional, notadamente o Tribunal Penal
Internacional para Ruanda (TPIR), mas também o Tribunal Penal Internacional para a antiga
Iugoslávia (TPII). O trabalho apresenta as definições sociológica e jurídica de genocídio, mostra o
hiato existente entre elas, deixa patente que a definição jurídica encontra-se ultrapassada e
examina como, apesar dessa obsolescência, as instâncias julgadoras tornaram o conceito
aplicável, referindo-se não somente aos critérios objetivos estabelecidos pela lei, mas também, e
sobretudo, à subjetividade dos atores envolvidos.

Palavras-chave: Genocídio - Sociologia - Direito internacional - Grupos protegidos


Abstract: This article shows the problems inherent in the definition of the crime of genocide and
the solutions given to them by international jurisprudence, mainly the International Criminal
Tribunal for Rwanda, but also the International Criminal Tribunal for the Former Yugoslavia. It
presents the sociological and legal definitions of genocide, shows the gap between them, makes
clear that the legal definition is outdated, and examines how, in spite of this obsolescence,
judging authorities make the concept usable by referring not only to objective criteria established
by law but also, and above all, to the subjectivity of the actors involved.

Keywords: Genocide - Sociology - International law - Protected groups


Sumário:

- [Link]ção - 2.O genocídio - 3.O genocídio no direito internacional - [Link] de caso:


Ruanda - [Link]ções finais - [Link]

1. Introdução
Habermas emprega a expressão "mundo da vida" para referir-se à soma de experiências culturais,
religiosas e históricas que, ao longo do tempo, sedimentam numa dada sociedade um saber
comum, aceito por todos e do qual, por essa razão, é possível extrair os princípios norteadores
capazes de fundamentar pretensões de validade. Os componentes do mundo da vida são a
cultura, o grupo social e a pessoa, que devem pressupor-se reciprocamente. O direito faz a
mediação entre o sistema político-econômico e o mundo da vida, permitindo a colonização de uns
pelos outros, funcionando como "transformador na circulação da comunicação entre sistema e
mundo da vida, o que não é o caso da comunicação moral, limitada à esfera do mundo da vida".1
O direito tem um elemento coercitivo e um elemento de legitimidade; a coerção se exerce no
sentido sistema-mundo da vida; a legitimidade, no sentido mundo da vida-sistema. Mediante o
direito, são tomadas medidas de socialização (por exemplo, educação das pessoas), de integração
social (por exemplo, proteção de grupos sociais), e de reprodução cultural (por exemplo, leis
públicas que estabelecem feriados religiosos).
Neste trabalho, focalizo um dos componentes do mundo da vida, o grupo social. Interessam-me os
seguintes aspectos: a definição, a destruição ou tentativa de destruição de um grupo social.
Do ponto de vista sociológico, o termo "grupo" refere-se a um tipo particular de relação fechada
ou restrita de uma dada população, um conceito que pressupõe regras, organização e autoridade.
Grupos fundam-se no nascimento ou na adesão, inspiram lealdades particularistas, são fontes de
identidade e de valores e fomento para movimentos sociais, associações voluntárias,
congregações e famílias.2
Grupos existem não somente na esfera do mundo da vida, como também no plano do sistema
político-econômico. Num caso e no outro, há diversos grupos, que podem manter relações de
cooperação ou de concorrência entre si. Na esfera política, temos as agremiações partidárias; na
econômica, os grupos financeiros, os empresariais e os comerciantes de bens e serviços. No
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mundo da vida, no entanto, estão os grupos cuja existência se deve não ao poder ou ao dinheiro,
mas a valores nacionais, étnicos ou religiosos, para ficarmos apenas com esses exemplos. Em
qualquer dos níveis, pode haver relações de concorrência entre os grupos, bem como grupos que
destroem grupos, mas as destruições de grupos, quando comparadas, apresentam importantes
diferenças. Em primeiro lugar, no plano do sistema político-econômico, a destruição de um grupo
pode ser o desdobramento de uma relação de concorrência, um subproduto da disputa por um
governo, por um mercado ou por uma oportunidade rara de negócios, mas não o objetivo em si da
briga. Nessa esfera, a ação será estratégica; os atores agirão de forma egoísta em busca de um
fim, procurando maximizar vantagens e minimizar perdas. As ações são valoradas e escolhidas
conforme suas aptidões para atingir a finalidade proposta. A destruição de um grupo político ou
econômico ocorrerá, de modo geral, não como ato premeditado, mas como consequência de uma
disputa com outros objetivos, que não o de simplesmente destruir organizações políticas ou
econômicas, sem qualquer vantagem para o destruidor.
Grupos do sistema político-econômico diferenciam-se dos grupos do mundo da vida, cuja
existência se explica por lealdades históricas e não por uma ação estratégica de se unir para
maximizar vantagens e minimizar perdas. No que se refere à destruição desses grupos, podemos
encontrar dois tipos: a destruição como resultado de uma concorrência entre eles (por exemplo,
entre religiões que disputam os mesmos fieis), e a destruição deliberada, como resultado do desejo
de um grupo de eliminar o outro, independentemente de vantagens ou desvantagens que isso
possa trazer para os perpetradores. É desse último tipo de destruição que me ocuparei no
presente trabalho.
2. O genocídio
Para designar a destruição deliberada, feita com o único propósito de eliminar um grupo, o
advogado judeu-polonês Raphael Lemkin3 apresenta em sua obra Axis Rule in occupied Europe o
termo genocídio, combinando as expressões grega génos (raça, tribo) e latina cædere (matar).
Nesse livro, Lemkin refere-se à destruição de apenas dois grupos, o grupo nacional e o grupo
étnico, porém, do ponto de vista sociológico, muitas outras populações podem ser consideradas
vítimas de uma destruição deliberada. O genocídio é um processo destrutivo, uma atividade social,
que envolve identificação do inimigo, formulação do objetivo de destruição e desenvolvimento de
meios para atingir esse objetivo. Por esse aspecto, o genocídio tem semelhanças com a guerra. A
ação genocida é parecida com a ação na guerra; a estrutura do genocídio é parecida com a
estrutura de uma guerra; como uma guerra, o genocídio pode ocorrer em larga ou em pequena
escala, mas, ao contrário de uma guerra, o inimigo do genocida não é o Estado estrangeiro, e sim
um grupo social civil, seja ele qual for. A guerra é feita contra Estados e forças armadas, e não
contra populações. Em suma, o genocídio é um conflito social violento, na forma de uma guerra,
perpetrado por organizações de poder armado contra grupos sociais civis desarmados, com o
objetivo de destruir o poder social desse grupo na economia, na política e na cultura.4
Nos termos dessa definição sociológica, a ação genocida não se refere apenas à destruição física
dos membros de um determinado grupo, mas a todas as formas capazes de impedir a socialização,
a integração e, principalmente, a reprodução cultural do grupo. Lemkin,5 tendo como pano de
fundo os anos 1930 e a II Guerra Mundial, descreve uma série de ações destrutivas, que poderiam
ser cometidas no curso de um processo genocida: são as destruições política, social, cultural,
econômica, biológica, física, religiosa e moral de um grupo. No caso da destruição política e social,
o autor refere-se aos esforços empreendidos pela Alemanha nazista no sentido de germanizar os
territórios ocupados, destruindo e substituindo as instituições locais de governo por um padrão
alemão de administração. Fazem parte do elenco de medidas a alteração de nomes de localidades,
a destruição de símbolos nacionais, a aliança com as populações alemãs de certas áreas
ocupadas, que passaram a formar o núcleo do germanismo, e a fundação de partidos políticos de
orientação nazista, integrados por membros da população local, a quem eram conferidos privilégios
políticos e jurídicos, procurando-se com isso romper a unidade nacional.
Lemkin apresenta a destruição cultural como resultado de um somatório de ações, que vão desde
a proibição de usar o idioma local na escola ou na imprensa até o controle das atividades
artísticas, passando naturalmente pela disseminação, nas escolas, dos princípios do nacional-
socialismo. A destruição econômica do grupo realiza-se mediante ações que promovem o
empobrecimento da população visada: boicotes, confiscos, concessão de licenças comerciais
apenas para alemães, e não para todos os cidadãos dos territórios ocupados, enfim, o elenco é
extenso e varia conforme a área. A destruição biológica e física resulta não somente dos
assassinatos em massa, mas também das precárias condições sanitárias e de abastecimento, a
exemplo das encontradas no gueto de Varsóvia, e das ações para reduzir a taxa de natalidade do
grupo visado (por exemplo: deportação de homens e mulheres para distintos campos de trabalho
forçado; desestímulo aos casamentos). Por fim, temos as destruições da religião, mediante
pilhagens de igrejas e proibição de determinadas publicações, e da moral local, com diversos
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estímulos à pornografia, ao consumo de bebidas alcoólicas e ao jogo.


3. O genocídio no direito internacional
O sentido de genocídio em Lemkin é bem mais abrangente do que a definição adotada na
Convenção para a Prevenção e Repressão do Crime de Genocídio, em vigor no Brasil desde 1952,
pois nela restringem-se não somente os grupos sociais considerados vítimas de ações genocidas,
como também o alcance do termo "destruição", em destruição de um grupo, que se fixa sobretudo
no aniquilamento físico de seus membros:
"Art. II - Na presente Convenção, entende-se por genocídio qualquer dos seguintes atos,
cometidos com a intenção de destruir, no todo ou em parte, um grupo nacional, étnico, racial ou
religioso, tais como:
a) assassinato de membros do grupo;
b) dano grave à integridade física e mental de membros do grupo;
c) submissão deliberada do grupo a condições de existência que lhe ocasionem a destruição física
total ou parcial;
d) medidas destinadas a impedir os nascimentos no seio do grupo;
e) transferência forçada de menores do grupo para outro grupo."
3.1 Grupos protegidos
O caput desse artigo refere-se apenas aos grupos nacional, étnico, racial e religioso, excluindo
outros grupos, como, por exemplo, os políticos, no âmbito do sistema, e os homossexuais ou as
vítimas de genocídio cultural, no mundo da vida. Há duas questões que se colocam aqui: por que
apenas determinados grupos podem ser vítimas de genocídio? Como definir esses grupos?
A primeira pergunta refere-se a um problema de justiça, mas a resposta quem nos dará será a
política. Com efeito, em 1946, a Assembleia Geral da Organização das Nações Unidas (AGNU)
aprova a Resolução 96 (1),6 que reconhece o genocídio como crime do direito internacional e
afirma a necessidade de puni-lo; os Estados membros são convidados a tomar as medidas
necessárias para prevenir e reprimir essa prática; e o Conselho Econômico e Social fica
encarregado de realizar os estudos necessários para redigir um projeto de convenção sobre o
tema. A definição de genocídio foi dada pela Res. 96 (1), nestes termos:
"Genocide is a denial of the right of existence of entire human groups, as homicide is the denial of
the right to live of individual human beings; such a denial of the right of existence shocks the
conscience of mankind, results in great losses to humanity in the form of cultural and other
contributions represented by these human groups, and is contrary to moral law and to the spirit
and aims of the United Nations.
Many instances of such crimes of genocide have occurred when racial, religious, political and
other groups have been destroyed, entirely or in part."
Não deixa de causar estranheza a comparação entre genocídio e homicídio, entre coletividade e
indivíduo, entre todo e parte, enfim, entre coisas que dificilmente se comparam, mas chama a
atenção que a ideia de genocídio apresenta-se como um conceito aberto, pois ele se refere à
destruição deliberada, total ou parcial, de qualquer grupo, sendo os mencionados grupos racial,
religioso e político apenas exemplos. Essa amplitude do conceito, contudo, não se incorporou na
convenção mais tarde aprovada.
Durante o processo de elaboração da norma, os negociadores mostraram-se divididos a respeito
da inclusão de "grupo político" na definição de genocídio, e as razões que apresentavam, tanto
num sentido, como em outro, eram das mais variadas.7 Dentre aqueles que eram contrários à
inclusão,8 é possível identificar três grandes tipos de argumentos: os pragmáticos, os legais e os
teóricos. Como exemplo de argumentos pragmáticos, alegava-se ora que a inclusão poderia
resultar em poucas ratificações, ora que seria difícil, na prática, identificar grupos, ora que essa
inclusão comprometeria a criação de um futuro tribunal internacional, fosse ele ad hoc, apenas
para julgar os crimes de genocídio, ou em caráter permanente, pois nenhum governo aceitaria a
interferência de uma corte internacional em conflitos políticos internos, em cujo contexto fossem
praticados atos possíveis de serem interpretados como crime de genocídio político.9
Os argumentos legais davam conta de problemas de competência: grupos políticos, ao lado de
outros grupos não contemplados na definição de genocídio, são assunto da Comissão de Direitos
Humanos, não lhes cabendo lugar na convenção; e os argumentos teóricos apontavam para uma
distinção entre grupos permanentes e grupos provisórios. Permanentes seriam aqueles cujos
membros não aderiram ao grupo, porque já nasceram dentro dele, como os grupos raciais,
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religiosos, nacionais e étnicos; provisórios, os grupos constituídos voluntariamente, como os


grupos políticos. Feita essa distinção, afirma-se que a proteção será devida apenas aos
permanentes, pois os demais são efêmeros.

Os governos favoráveis à inclusão de grupo político na definição do crime de genocídio1 0 lançaram


igualmente mão de argumentos pragmáticos, legais e teóricos. No primeiro caso, afirmou-se que a
exclusão de grupos políticos permitiria que responsáveis por genocídio alegassem divergências
políticas como motivo para perseguir grupos raciais ou religiosos; asseverou-se também que a
situação do presente não é mais a mesma do passado, quando o fanatismo e a paixão, base para
todos os atos de genocídio, não eram encontrados na luta entre rivais políticos, ao contrário do
que ocorre na atualidade, em que é possível grupos políticos verem-se atacados por lunáticos.
Como argumento legal, lançou-se mão do dever geral da ONU de proteger qualquer grupo e da
Res. 96 (1) da AGNU, por haver nela menção expressa a outros grupos, além dos raciais, étnicos,
religiosos ou nacionais; e como argumento teórico, alegou-se que o grupo político, assim como os
demais, encontram-se unidos por um ideal comum, e que ele não é mais efêmero do que religião ou
nacionalidade, pois estas também são cambiáveis. Acrescentou-se, ainda, que o ser humano não
destrói motivado apenas pela nacionalidade, raça ou religião do outro, mas também pela ideologia
do outro, e que a própria história mostra grupos destruídos por nazistas, durante a guerra, por
causa de suas posições políticas.
A convenção sobre genocídio, conforme já observado, restringiu o seu alcance apenas aos grupos
nacional, étnico, racial e religioso. Não se trata de uma decisão tomada com base em princípios
jurídicos ou em teorias sociais; os grupos políticos foram excluídos por motivos políticos.1 1 Essa
restrição, contudo, não somente cria um problema de justiça, como também não permite que a
questão seja resolvida a contento, sem atritos ou dúvidas, pois os conceitos em que se funda o
crime de genocídio apresentam dois tipos de problemas: de um lado, num plano objetivo, eles, de
fato, se revelam muito efêmeros e sujeitos a variações, afinal, não somente nacionalidade e
religião são cambiáveis, como raça tornou-se uma ideia sem sentido, e etnia carece igualmente de
precisão. De outro lado, no entanto, há um plano subjetivo, em que a condição de membro de uma
nação, de uma etnia, de uma raça ou de uma religião pode ser determinada não somente pelos
seus respectivos membros, mas também por aqueles que, de fora, observam o grupo. Este terá
suas regras: dirá quem lhe pertence, quem poderá pertencer-lhe, e sob que condições. O
observador, no entanto, poderá ter outra percepção e incluir num grupo determinadas pessoas
que, nos termos das próprias leis desse grupo, na realidade, não lhe pertencem. Na Alemanha
nazista, por exemplo, havia regras pormenorizadas que determinavam quem era e quem não era
judeu, sendo irrelevante se, em razão de casamentos mistos no passado ou conversões que não
se realizaram de acordo com a lei religiosa, os indivíduos atingidos não fossem considerados como
judeus, nem por si próprios, nem pela comunidade judaica. A esse respeito, Sartre1 2 observou que
"o judeu é uma pessoa que as demais pessoas consideram como judeu".
Do exposto até o momento, é possível perceber que a definição de grupo protegido apresenta
duas dimensões, uma objetiva, presente na convenção sobre o genocídio, em que se especificam
os quatro grupos protegidos, e uma subjetiva, na qual a identidade desses e de outros grupos
podem ser tanto resultado da percepção que o grupo e seus membros têm de si mesmos, como da
percepção que deles tem o genocida, o qual poderá fazer uma abordagem positiva, no sentido de
atribuir a um grupo determinada etnia ou raça, ou senão uma abordagem negativa, no sentido de
excluir alguém de determinado grupo do qual ele, perpetrador, se julga membro.
Além de uma questão de justiça (quem devem ser os grupos protegidos? Por que uns e não
outros?), a dimensão objetiva apresenta também um problema de interpretação da norma: o que
significam etnia e raça? Quem pertence a esse ou àquele grupo? Decidiu-se, no plano político, que
quatro grupos seriam protegidos, mas sobre eles já se disse que os grupos religiosos "são os que
provavelmente gozem de maior homogeneidade e facilidade de visualização";1 3 os demais nem
sempre poderão ser assim tão facilmente identificados, como veremos a seguir, ao examinarmos as
principais características de cada grupo.
3.1.1 Nacionalidade
A determinação da nacionalidade envolve três concepções, a saber, que a nacionalidade é uma
questão jurídica; que ela é uma questão de fato; e que ela é produto da vontade dos membros do
grupo nacional. A primeira concepção leva o intérprete da norma a resolver o problema da
nacionalidade mediante consulta a textos constitucionais, os quais dirão quem é ou não é nacional
do Estado. Dois ou mais textos constitucionais, no entanto, coexistindo lado a lado, como ordens
soberanas no espaço jurídico internacional, permitem o surgimento das seguintes situações:
indivíduos e grupos com mais de uma nacionalidade; indivíduos e grupos sem nacionalidade; grupos
cuja nacionalidade, não sendo universalmente aceita, é apenas a reivindicação de uma população

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que ainda não conquistou sua independência e fundou o seu Estado nacional; e, finalmente,
grupos que, sem anseios separatistas, lutam por reconhecimento dentro da sociedade em que são
minorias.
Nos termos da segunda concepção, mais do que apenas uma questão de direito, a nacionalidade é
também uma questão de fato, verificável nos laços entre a pessoa e o país ao qual ela diz
pertencer.1 4 Em favor dessa tese, assim expressou-se a Corte Internacional de Justiça, no caso
Nottebohm (Liechtenstein v. Guatemala), em 1955:1 5
"Segundo a prática dos Estados, as decisões arbitrais e judiciais, bem como as opiniões
doutrinárias, a nacionalidade é um vínculo jurídico que tem na sua base um fato social de ligação,
uma solidariedade efetiva de existência, de interesses, de sentimentos, somada a uma
reciprocidade de direitos e deveres. Ela é, pode-se dizer, a expressão jurídica do fato que o
indivíduo ao qual ela é conferida, seja diretamente pela lei, seja por um ato de autoridade, está,
de fato, mais estreitamente ligado à população do Estado que a confere do que a qualquer outro
Estado" (p. 23).
A terceira concepção, por fim, considera que a nacionalidade, mais do que uma questão de direito
ou de fato, resulta da vontade da pessoa de ser ou não ser membro dessa ou daquela minoria
nacional. Nesse sentido, manifestou-se a Alemanha, no processo Rights of Minorities in Upper
Silesia (Germany v. Poland), perante a então Corte Permanente de Justiça Internacional, em
1928.1 6 Em síntese, foi alegado que já havia um entendimento entre as partes, no qual a questão
haveria de ser resolvida "pela expressão subjetiva da intenção das pessoas afetadas, e essa
intenção deve ser respeitada pelas autoridades, mesmo que pareça contrária aos fatos" (p. 32).
É interessante notar que, na segunda concepção, desconsidera-se tanto a vontade do indivíduo,
como a do Estado, preferindo uma abordagem centrada em fatos. Em Rights of Minorities, a
nacionalidade como questão de fato foi o argumento apresentado pela Polônia, contra a pretensão
alemã de obter da Corte o reconhecimento da liberdade irrestrita do indivíduo de "declarar, de
acordo com sua consciência, e sob sua responsabilidade, que ele pertence ou não a uma minoria
racial, linguística ou religiosa, e de escolher o idioma de instrução e a correspondente escola para
os alunos ou crianças, por cuja educação ele for legalmente responsável (...) (p. 5).
3.1.2 Raça
Em tese, grupo racial poderia ser definido como aquele cuja identidade se funda no código
genético e nas características histológicas, citológicas e endócrinas de seus membros. Implicado
nesse pensamento está a crença não somente no vínculo entre a evolução biológica e a evolução
cultural da humanidade, como também na influência que aquela exerce sobre esta. Um exame
superficial sobre esse tema revelará que se, de um lado, pode haver de fato um vínculo entre a
evolução biológica e a cultural, de outro lado, no entanto, a influência é exercida não pela biologia
sobre a cultura, mas ao contrário, da cultura sobre a biologia. Afinal, na evolução da biologia, os
caracteres biológicos se transmitem por via hereditária e se distribuem por uma linha contínua; na
evolução cultural, existem normas que regulam a reprodução e o casamento dos membros do
grupo, bem como as que permitem abrir ou fechar o grupo para influências provenientes de outros
grupos. Isso significa que a identidade de grupos cujos membros têm as mesmas características
biológicas será possibilitada por normas sociais que mantiveram esse grupo afastado do contato
com outros grupos; a identidade de grupos cujos membros não têm as mesmas características
biológicas será possibilitada por normas sociais que mantiveram esse grupo aberto ao contato com
outros grupos. Logo, a evolução cultural é que determinará a evolução biológica do grupo,
conforme suas normas permitam ou não casamento e reprodução entre os membros de dois ou
mais grupos, com diferentes traços físicos.
Aquilo que se procura denominar raça nada mais é do que um determinado conjunto de
características biológicas, que tornam os seres humanos mais ou menos parecidos uns com os
outros, mas nada além disso. A ideia de raça presta-se tão somente a exercer uma função:
justificar a discriminação, seja ela positiva ou negativa, entre pessoas com características
biológicas distintas. Com base nesse conceito, distinguem-se grupos uns dos outros, não raro
desconsiderando-se o elemento cultural: os negros, por exemplo, podem ser vistos apenas como
negros, sendo irrelevante se são nagôs, malês, bantos ou uma mistura de todos eles e de mais
alguns. Sob essa perspectiva, ignoram-se as diferenças idiomáticas, religiosas ou costumeiras, e
todos aqueles que apresentarem as mesmas características biológicas serão vistos como se
fossem parte de uma unidade que pode não se sustentar quando ampliarmos o enfoque para além
dos traços físicos da população.
Dada sua fragilidade, o conceito de raça é de difícil operacionalização. Por isso, na caracterização
do genocídio, será inútil debater-se sobre se tal ou qual grupo constitui ou não uma raça, pois não
se chegará a lugar algum. Ao intérprete, resta-lhe, em vez disso, concentrar-se no perpetrador e
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na visão que tinha do grupo e de suas vítimas, membros desse grupo, não lhe importando se
existe ou não correspondência entre a autopercepção do grupo e a percepção que dele tem o seu
algoz.
3.1.3 Etnia
A identidade do grupo étnico se define sobretudo por fatores culturais: mesma língua, mesmas
tradições, mesma história. Nesses termos, uma etnia se refere a uma comunidade linguística,
fixada no mesmo ambiente humano, compartilhando as mesmas tradições, podendo também
compartilhar o mesmo território. Etnia não se confunde com raça, uma ideia que, de toda forma,
não faz sentido, mas pode ser confundida com o conceito de nação, termo que, como etnia,
refere-se a um grupo de pessoas unidas, que falam a mesma língua e compartilham o mesmo
ambiente humano e as mesmas tradições. Mas nação designa sobretudo uma ideologia, que
conduz a um "comportamento nacional", isto é, um comportamento de fidelidade a uma entidade
ideológica chamada nação. "[A] Nação é a ideologia de um determinado tipo de Estado, visto ser
justamente o Estado a entidade a que se dirige concretamente o sentimento de fidelidade que a
ideia de nação suscita e mantém".1 7 Sendo a nação uma ideologia, apenas a etnia será definida
como grupo que compartilha a mesma língua, as mesmas tradições e a mesma história. Um Estado
nacional pode comportar diversas etnias, e as etnias podem ver-se divididas "por fronteiras de
vários Estados, como os bascos e os catalães, que ocupam territórios pertencentes ao Estado
espanhol e ao francês".1 8
Isso, no entanto, serve apenas para distinguir etnia de nação, num contexto europeu, em que são
mais nítidas as diferenças entre os diversos grupos sociais que compõem os Estados nacionais da
região: alsacianos, bascos, bretões, catalães, corsos, flamengos e provençais distinguem-se um
dos outros em razão de seus idiomas, tradições e história; podem ser franceses ou espanhóis, mas
apresentam características próprias, que unirá, por exemplo, bascos franceses e espanhóis, mas
separará os franceses da Alsácia dos franceses da Bretanha.
"Lafont (...) mostrou como, no quadro da federação europeia, seria possível recompor os grupos
étnicos hoje divididos pelas fronteiras políticas. Analisando a França, ele propõe a união da parte
espanhola da região basca com a francesa, do Rossilhão com a Catalunha, da Córsega com a
Sardenha, da parte francesa da região flamenga com a belga, de sorte que se harmonizasse a
necessidade da reunificação dos grupos étnicos com a formação de regiões dotadas das
dimensões e dos recursos produtivos necessários à garantia da independência econômica."1 9
No entanto, a aplicação do conceito de etnia, num contexto não europeu, revela-se mais
complexa. Conforme será visto mais adiante, o conflito entre hutus e tutsis, em Ruanda, nos anos
1990, por exemplo, é apresentado como uma tensão entre dois grupos étnicos, mas não se
percebe neles nenhuma diferença substantiva, que os distinga um do outro, pois falam o mesmo
idioma, praticam a mesma religião e compartilham, no essencial, a mesma cultura. Casamentos
mistos são frequentes. Na trajetória de ambos, os tutsis desenvolveram, ao longo do tempo, uma
cultura política relativamente mais sofisticada;2 0 na economia, eram pastores, e os hutus,
agricultores. Fisicamente, os tutsis podem apresentar algumas diferenças no formato do nariz
pontiagudo, na altura e na magreza, em comparação com os hutus, de nariz achatado e corpo
troncudo. Mas essas diferenças nem sempre são visíveis; em qualquer que seja o caso, no
entanto, elas nada mais são do que simples características biológicas distintas.
Da mesma forma como em relação aos grupos raciais, caberá ao intérprete do conceito de etnia,
em semelhante contexto, quando os critérios objetivos não bastarem, examinar a questão sob a
perspectiva subjetiva, adotando seja a visão dos membros do grupo, seja a do perpetrador.
3.1.4 Religião
A identidade dos grupos religiosos se funda num sistema de crenças, teorias, práticas e rituais
comuns, e a questão que se coloca a esse respeito, no contexto do direito internacional, pode ser
expressa nos seguintes termos: estarão protegidos os membros de qualquer religião ou somente
de algumas? A Comissão das Nações Unidas para os Direitos Humanos (CNUDH) respondeu essa
pergunta afirmando que "o conceito de religião não se limitará apenas às religiões tradicionais ou
aos sistemas de crenças com características institucionais análogas àquelas das religiões
tradicionais";2 1 no entanto, a Corte Europeia de Direitos Humanos distingue entre as práticas
religiosas aceitáveis e as não aceitáveis, isto é, entre a evangelização e o proselitismo
inadequado.2 2 Estabelecer a fronteira que separa um do outro, eis o principal desafio do intérprete
da norma jurídica, seja ele o administrador que pretende reprimir as manifestações religiosas que
julga impróprias, seja o julgador que deverá decidir sobre a validade das medidas da administração.
A esse respeito, expressou-se a CNUDH: "uma crença que, primária ou exclusivamente, consista
num culto e na distribuição de entorpecentes não encontrará abrigo no art. 18 do Pacto sobre

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Direitos Civis e Políticos".2 3


Ao lado desse movimento no sentido de restringir o conceito de grupo religioso, há, em sentido
contrário, um outro movimento, que busca ampliar o alcance do termo. Assim, na formulação de
Matthew Lippman, "grupos religiosos compreendem tanto as sociedades teístas, como também as
não teístas e as ateístas".2 4 Nessa mesma direção, afirmou o juiz espanhol, Baltazar Garzón, ao
decidir pedido de reconhecimento do crime de genocídio na Argentina: "a destruição de um grupo
por causa de seu ateísmo ou por causa de sua não aceitação da ideologia religiosa cristã (...) é a
destruição de um grupo religioso (...)".2 5
Independentemente do alcance que se pretenda dar ao grupo religioso, uma vez que o sentido de
destruição restringe-se, na convenção sobre genocídio, à destruição física e biológica do grupo,
não será possível acusar desse crime aqueles cuja intenção não era a destruição dos membros de
uma dada religião, mas da própria religião em si, naturalmente com a eliminação física de seus
líderes, mas sem maiores carnificinas, apenas mediante políticas de homogeneização cultural. A
menos que se considerem as lideranças religiosas assassinadas como grupo religioso, nos termos
da convenção, esse tipo de destruição não será visto como genocídio: não se trata de uma
eliminação física, mas cultural, e o genocídio cultural, não tendo sido incorporado ao ordenamento
jurídico, permanece assunto da sociologia, e não do direito.2 6
4. Estudo de caso: Ruanda
Nesta parte do trabalho, refiro-me ao genocídio ocorrido, em 1994, em Ruanda, país localizado na
região dos Grandes Lagos, na África Central, e formado por três grupos sociais: os hutus (84%),
os tutsis (15%) e um povo pigmeu denominado twa (1%).2 7 Acredita-se que os twa foram os
primeiros habitantes da região, seguidos, mais tarde, pelos hutus, e no século XV, pelos tutsis.2 8
A relação entre os três grupos caracterizou-se, ao longo do tempo, por esquemas de dominação
de um sobre o outro: primeiro, os hutus, que, ao chegarem, dominaram os twa; mais tarde, os
tutsis, que submeteram hutus e twa.
Nos anos 1880, teve início o período colonial. Juntamente com o Burundi, Ruanda esteve sob
domínio alemão, até a guerra de 1914-1918, e depois, sob mandato belga, até o segundo pós-
guerra, quando a região passou para a tutela da ONU, mas ainda sob administração da Bélgica.2 9
No início dos anos 1930, as autoridades belgas introduziram uma distinção legal, dividindo a
população de Ruanda naquilo que chamavam grupos étnicos e obrigando que se constasse nos
documentos de identificação a "etnia" do portador: hutu, tutsi ou twa. A isso acrescente-se
ainda, para alargar mais um pouco o fosso entre tutsis e hutus, a aliança dos colonizadores e da
Igreja Católica com os tutsis, que somente será rompida a partir dos anos 1940, quando o desejo
de independência da elite tutsi levará a uma mudança de preferências das autoridades civis e
eclesiásticas em favor dos hutus, a quem passaram a assegurar o acesso à educação e aos
cargos de alto nível na administração pública. Em 1956, a Bélgica organiza eleições municipais, e
os hutus vencem com ampla maioria; no ano de 1959, hutus morrem em conflito com tutsis. Em
represália, hutus saqueiam propriedade de tutsis. Em 1960, foge o monarca tutsi, seguido mais
tarde por cerca de cerca de 200 mil tutsis.3 0 A tensão entre os dois grupos recrudesce ao longo
dos anos.
Em 1978, após um golpe de Estado, Ruanda adota regime de partido único, do qual todo cidadão é
um membro, não havendo espaço para diferenças. Mas aquilo que parecia o início de uma
distensão revelou-se mais tarde uma ameaça para os tutsis, que passaram a sofrer perseguições
constantes. Em 1990, inicia-se o conflito armado entre o exército ruandês e a Frente Patriótica
Ruandesa (FPR),3 1 entidade fundada por exilados tutsis. Tendo como pano de fundo, no plano
interno, o agravamento das tensões, e, no plano externo, as pressões internacionais por reformas
políticas, o governo cede ao sistema multipartidário: em 1991, uma nova Constituição é adotada,
e uma lei sobre partidos políticos, promulgada. Em 1992, um cessar-fogo é assinado, mas ele será
rompido em 1994, após a morte dos presidentes de Ruanda e do Burundi, a bordo de avião abatido
sobre o aeroporto de Kingali, quando retornava da Tanzânia para Ruanda.3 2 Esse episódio foi o
estopim para a retomada do conflito. Nos três meses seguintes, cerca de 800 mil tutsis foram
mortos, mas é possível que esse número tenha chegado a um milhão.3 3 Além de assassinatos de
indivíduos, cometeram-se também execuções em massa, estupros, pilhagens, torturas, enfim, toda
sorte de atrocidade que a imaginação e os meios dos perpetradores permitissem.
Diante do conflito, a ONU reage, de início, manifestando preocupação, exortando as partes a
negociar e enviando missões de bons ofícios; depois seguiram-se os observadores militares, as
conversações de paz realizadas em Arusha (Tanzânia) e as missões de assistência;3 4 diante do
massacre, a instituição reagiu criando um Tribunal Internacional ad hoc, competente para julgar e

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condenar os responsáveis pelos de crimes de genocídio, crimes contra a humanidade e violações


das leis de guerra: o "International Criminal Tribunal for the Prosecution of Persons Responsible for
Genocide and Other Serious Violations of International Humanitarian Law Committed in the
Territory of Rwanda and Rwandan citizens responsible for genocide and other such violations
committed in the territory of neighbouring States, between 01.01.1994 and 31.12..1994".3 5 Essa
entidade será aqui referida como Tribunal Penal Internacional para Ruanda (TPIR).
4.1 O TPIR e os grupos protegidos
O conflito entre hutus e tutsis pode ser visto como um conflito político, que opõe um partido
armado e um governo; ou ainda um conflito de classes. Em ambos os casos, trata-se de um
confronto que se desdobra no plano político-econômico. Sob esse aspecto, as vítimas desse
confronto não serão consideradas grupo protegido pela convenção sobre genocídio, pois, como
vimos, apenas o são os grupos nacional, étnico, racial ou religioso, excluído qualquer outro,
inclusive os grupos político e econômico. Para que os fatos possam ser juridicamente tipificados
como genocídio, será necessário antes demonstrar que as vítimas eram membros de um daqueles
grupos; do contrário, o massacre que dizimou milhares de tutsis deverá ser qualificado de outra
forma.
Como o TPIR enfrentou essa questão, considerando que as principais diferenças entre os dois
grupos estão, aparentemente, muito mais na política e na economia, do que no nariz das pessoas?
No caso Prosecutor vs. Jean-Paul Akayesu,3 6 o tribunal partiu das seguintes premissas: que da
leitura dos trabalhos preparatórios da Convenção do Genocídio depreende-se que esse tipo penal
foi concebido para proteger apenas os grupos permanentes, cujos membros são aqueles nascidos
no grupo. Ficam excluídos os grupos não permanentes, de formação voluntária, para a satisfação
de interesses políticos ou econômicos. Além disso, amparou-se na jurisprudência para definir grupo
nacional como aquele cujos membros compartilham vínculos jurídicos baseados numa nacionalidade
comum; afirmou, alegando ser essa uma definição geral, que grupo étnico é aquele cujos membros
compartilham um idioma ou uma cultura comum e que a definição convencional de grupo racial
funda-se em traços físicos hereditários, frequentemente identificado mais com regiões geográficas
do que com fatores linguísticos, culturais, nacionais ou religiosos. Por fim, estabelece que grupo
religioso é aquele cujos membros compartilham a mesma religião, denominação ou forma de
adoração.
A qual desses grupos sociais pertencem as vítimas dos massacres em Ruanda? Pelo visto até aqui,
a nenhum; e se considerarmos ainda as palavras de incitação ouvidas na Radio Rwanda,
pronunciadas pelas autoridades, teremos a impressão de que se trata de um conflito político, e
não étnico ou racial:
"We need to unite against the enemy , the only enemy and this is the enemy that we have always
known...it's the enemy who wants to reinstate the former feudal monarchy."3 7
Aqui, o inimigo é o monarquista que pretende restaurar a velha ordem. Nesses termos, os tutsis
seriam caracterizados como grupo político, quiçá ideológico, e o massacre de que foram vítimas
não poderia ter sido tipificado como genocídio. No entanto, não somente em Prosecutor vs. Jean-
Paul Akayesu, mas no conjunto dos casos examinados,3 8 a exemplo do que também já fazia o
Tribunal Penal Internacional para a antiga Iugoslávia (TPII), o TPIR aceita os critérios objetivos
estabelecidos pela lei, porém lança mão da perspectiva subjetiva, perguntando se, na visão do
genocida, tal ou qual grupo era racial, étnico, nacional ou religioso. Isso permite contornar a
irracionalidade do problema, pois o subjetivismo torna sem sentido definir objetivamente o que
constitui cada um desses grupos. Já não se perguntará apenas o que significa ser judeu, cigano,
muçulmano ou tutsi, mas também se o perpetrador enxergava suas vítimas como judias, ciganas,
muçulmanas ou tutsis. Ainda que elas não o fossem, prevaleceria a perspectiva do genocida.
Essa combinação de critérios objetivos e subjetivos foi sintetizada em The Prosecutor vs. Clément
Kayishema and Obed Ruzindana,3 9 ao definir grupo étnico da seguinte forma:
"98. (...) An ethnic group is one whose members share a common language and culture; or, a
group which distinguishes itself, as such (self identification); or, a group identified as such by
others, including perpetrators of the crimes (identification by others)."
O que torna possível caracterizar como étnico o conflito entre hutus e tutsis é essa combinação
de critérios, pois se, de um lado, embora tenham muitas semelhanças que talvez não nos permitam
distingui-los com base em critérios objetivos, de outro lado, sob uma perspectiva subjetiva, os
dois grupos tiveram sua identidade tutsi e hutu oficialmente atribuída e reconhecida pelo próprio
poder público. A percepção que tinha a potência colonizadora sobre as diferenças entre eles
orientou a legislação que instituiu a obrigatoriedade da designação da etnia nos documentos de
identidade. Se originalmente hutus e tutsis percebiam-se como classes sociais distintas ou como,
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respectivamente, agricultores e pecuaristas, a partir da colonização, passaram ver-se, e a serem


vistos, como duas etnias.
5. Considerações finais
Do ponto de vista da sociologia, muito mais do que uma guerra ou um excesso da guerra, o
genocídio é um empreendimento criminoso, que vai além do conflito entre forças armadas de
Estados nacionais. Conforme observado, na guerra, o inimigo é o Estado; no genocídio, o inimigo é
um grupo social civil, que pode ser atacado mesmo em tempos de paz. Quando o genocídio é visto
como um empreendimento criminoso, de múltiplas etapas, a destruição física torna-se apenas a
manifestação máxima do processo destrutivo, que ocorrerá depois de cumpridas as outras
etapas.4 0 Veja-se, por exemplo, o holocausto judaico: inicialmente, foram boicotes e
desapropriações; depois, expulsões, deportações e trabalho forçado; finalmente, o extermínio.
Tudo isso fez parte do genocídio, e não apenas as câmaras de gás. O sentido de destruição de um
grupo se amplia, não se restringindo apenas à destruição física ou biológica de seus membros, mas
compreendendo também a destruição social do grupo.
Da mesma forma que o sentido de destruição, o sentido de grupo social se amplia sob a
perspectiva sociológica, compreendendo diversos tipos de populações, e não apenas um número
restrito. Para a sociologia, sendo o alvo do genocida os grupos sociais civis desarmados, torna-se
fundamental definir o conceito de "civil" e diferenciá-lo de combatente, distinção nem sempre fácil,
pois há civis não combatentes, mas que dão amparo aos que lutam. A sociologia precisa
desenvolver concepções genéricas de combatentes, como pessoas que participam diretamente do
conflito armado, e de civis, como aqueles que não participam diretamente do conflito armado e
cuja não participação define primariamente o seu papel.4 1
Para o direito, contudo, os problemas são outros. Em primeiro lugar, porque o sentido de
destruição de um grupo se fixa no aniquilamento físico de seus membros, última etapa do processo
destrutivo; em segundo, porque somente alguns grupos são protegidos pela lei, e não todos.
Tanto a exclusão de outras formas de destruição de populações organizadas, como a
individualização dos grupos protegidos colocam o direito diante de questões de justiça: por que
excluir da lei as formas não sangrentas de destruição de populações? Por que individualizar
somente alguns grupos e não outros?
A exclusão das formas não sangrentas do alcance da lei revela uma característica importante da
convenção: a vítima é a pessoa humana, na qualidade de membro de um grupo. "A vítima coletiva
se faz através da vítima individual".4 2 Isso significa que a existência do grupo é protegida apenas
na pessoa de seus membros, isto é, não se protege a totalidade, mas os elementos que compõem
essa totalidade. Se a totalidade for destruída, sem que tenham sido destruídos seus elementos
constitutivos, não haverá genocídio, ainda que um grupo social tenha sido aniquilado.
Além dos problemas de natureza filosófica que traz, a individualização dos grupos protegidos
condena a lei ao desuso ou a dificuldades para o intérprete da norma, que se verá às voltas com
conceitos ultrapassados, pois "cada época e contexto histórico sugerem um perfil diferenciado do
grupo-vítima, [o qual, ademais,] nem sempre constitui uma realidade social, sendo quase sempre
produto de uma representação do assassino".4 3
A especificação dos grupos protegidos e as dificuldades inerentes à aplicação do critério objetivo
aos casos concretos obrigarão o intérprete da norma a examinar o problema sob a perspectiva
subjetiva, focalizando tanto a percepção que a sociedade terá do grupo, como a percepção que
os membros do grupo têm de si mesmos, e como um grupo percebe o outro, pouco importando se
há ou não correspondência com a realidade. "Os tribunais reconhecem que identidades coletivas
(...) são construções sociais, identidades imaginadas, dependentes de variáveis e de percepções
contingentes, e não fatos sociais".4 4 A concepção do autor do crime é mais importante para
atestar a responsabilidade penal individual de alguém do que "uma autêntica etnicidade putativa
da vítima".4 5
Com isso, procura-se superar o fosso existente entre um dado contexto histórico e uma norma
jurídica que consagra conceito superado: contextualiza-se historicamente o termo, fazendo-lhe
uma releitura, para que possa ter algum sentido. No caso do genocídio em Ruanda, por exemplo,
ainda que tutsis e hutus não apresentassem diferenças que os tornassem duas etnias distintas, o
Tribunal terminou por assim considerá-los, pois essa distinção havia sido institucionalizada. Em vez
de utilizar o critério objetivo, examinando o elemento linguístico, as tradições e a história de tutsis
e hutus, o tribunal reinterpretou o conceito de grupo étnico, lançando mão de um critério
subjetivo, preferindo focalizar as vítimas pela perspectiva do Estado e dos seus algozes.
Eis, em suma, como vêm sendo resolvidos os problemas inerentes à aplicação desses conceitos de
difícil operacionalização: mediante a sua releitura, com a adoção de enfoques subjetivos. Além de
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considerar a questão racial um problema da sociologia e não mais das ciências naturais, pois ali
não faz sentido, esse tipo de releitura permite a aplicação de todos os conceitos naquelas
situações em que, de outra forma, eles não poderiam ser operacionalizados. A perspectiva dos
outros grupos e do perpetrador, bem como a autoperspectiva da vítima, aqui também, serão
decisivas no momento em que o intérprete da norma sopesar os elementos que concorram a favor
e contra a qualificação ou desqualificação de um grupo como grupo racial, étnico, nacional ou
religioso. Não importa se uma determinada população negra, branca, amarela ou parda, vítima de
um massacre, constitui uma raça específica, ou se um grupo considerado étnico, nacional ou
religioso seja efetivamente um grupo étnico, nacional ou religioso; importa, sim, se os
perpetradores enxergavam essas populações como representantes de uma raça, de uma etnia, de
uma nacionalidade ou de uma religião.
6. Bibliografia
HABERMAS, Jürgen. Direito e democracia. Entre facticidade e validade. Rio de Janeiro: Tempo
Brasileiro, 1997.
LEMKIN, RAPHAEL. AXIS RULE IN OCCUPIED EUROPE: LAWS OF OCCUPATION - ANALYSIS OF
GOVERNMENT - PROPOSALS FOR REDRESS. WASHINGTON, D.C.: CARNEGIE ENDOWMENT FOR
INTERNATIONAL PEACE, 1944, P. 79-95. DISPONÍVEL EM: [HTTP://[Link]/
LEMKIN/[Link]].
LEVI, Lucio. Etnia. In: Bobbio, Norberto; Matteucci, Nicola; Paquino, Gianfranco (orgs.). Dicionário
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LOZADA, Martín. Genocidio: un crimen internacional. RBCCrim 43/46 (DTR\2003\187)-80. São
Paulo: Ed. RT abr.-jun. 2003.
ROSSOLILLO, Francesco. Nação. In: Bobbio, Norberto; Matteucci, Nicola; Paquino, Gianfranco
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SARTRE, Jean-Paul. Refléxions sur la question juive. Paris: Gallimard, 2004. Folio Essais.
SCHABAS, W. Genocide in international law: the crimes of crimes. Cambridge: Cambridge
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VERDIRAME, Guglielmo. The genocide definition in the jurisprudence of the ad hoc tribunals.
International and Comparative Law Quarterly, vol. 49, jul. 2000.

1. Habermas, Jürgen. Direito e democracia. Entre facticidade e validade. Rio de Janeiro: Tempo
Brasileiro, 1997, p. 112.

2. Shaw, Martin. What is genocide? Cambridge: Polity Press, 2007, p. 99-100.

3. Lemkin, Raphael. Axis rule in occupied Europe: laws of occupation - Analysis of government -
Proposals for redress. Washington, D.C.: Carnegie Endowment for International Peace, 1944, p.
79-95. Disponível em: [Link]/lemkin/[Link]. Acesso em:
14.01.2009.

4. Shaw, Martin. Op. cit., p. 154.

5. Lemkin, Raphael. Op. cit., p. 84-90.

6. Disponível em: [Link]/documents/ga/res/1/[Link]. Acesso em: 11.02.2009.

7. UN Doc. E/447; E/794.

8. Por exemplo: Bélgica, Brasil, Egito, Filipinas, Irã, Líbano, República Dominicana, Peru, Polônia,
Suécia, União Soviética, Uruguai e Venezuela (UN Doc. E/794).

9. UN Doc. E/447.

10. Por exemplo: Bolívia, Cuba, Equador, Estados Unidos, Haiti, Países Baixos e Reino Unido (UN
Doc. E/794).

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11. Schabas, W. Genocide in international law: the crimes of crimes. Cambridge: Cambridge
University Press, 2000, p. 187.

12. Sartre, Jean-Paul. Refléxions sur la question juive. Paris: Gallimard, 2004. Folio Essais, p. 81.

13. Lozada, Martín. Genocidio: un crimen internacional. RBCCrim 43/64. São Paulo: Ed. RT, abr.-
jun. 2003.

14. Verdirame, Guglielmo. The genocide definition in the jurisprudence of the ad hoc tribunals.
International and Comparative Law Quarterly, vol. 49, jul. 2000, p. 590.

15. Disponível em: [Link]/docket/files/18/[Link]. Acesso em: 14.01.2009.

16. Disponível em: [Link]/pcij/eng/decisions/1928.04.26_upper_silesia/. Acesso


em: 14.01.2009.

17. Rossolillo, Francesco. Nação. In: Bobbio; Matteucci; Paquino (orgs.). Dicionário de política. 8.
ed. Brasília: Ed. UnB, 1995, p. 797.

18. Levi, Lucio. Etnia. In: Bobbio; Matteucci; Paquino (orgs.). Op. cit., p. 450.

19. Idem, ibidem.

20. The Prosecutor vs. Jean-Paul Akayesu. Case ICTR-96-4-T, par. 80.

21. Doc. CCPR/C/21 Rev.1/Add.4, par. 2 (1993).

22. Kokkinakis v. Greece, Series A, n. 260-A, 25.05.1993. Disponível em: [http://


[Link]/tkp197]. Acesso em: 31.03.2009.

23. Schabas, W. Op. cit., p. 173.

24. Apud idem, ibidem.

25. Apud idem, p. 174.

26. Cf. Shaw, M. Op. cit.

27. Disponível em: [Link]/library/publications/the-world-factbook/geos/[Link]. Acesso


em: 08.06.2009.

28. Rwanda. Microsoft Encarta 96 Encyclopedia.

29. Disponível em: [[Link]


Acesso em: 08.06.2009.

30. Disponível em: [[Link] Acesso em:


02.02.2009.

31. UN Doc. A/48/636, de 24.11.1993.

32. The Prosecutor vs. Clément Kayishema and Obed Ruzindana. Case ICTR-95-1-T, par. 277.

33. The Prosecutor vs. Jean-Paul Akayesu. Case ICTR-96-4-T, par. 111.

34. UN Doc. A/48/636, de 24.11.1993.

35. UN. Doc. Res 955 (1994).

36. The Prosecutor vs. Jean-Paul Akayesu. Case ICTR-96-4-T, par. 511-516.

37. The Prosecutor vs. Jean-Paul Akayesu. Case ICTR-96-4-T, par. 110.

38. Ruanda: ICTR-95-1-T; ICTR-96-4-T; ICTR-96-3-T; ICTR-96-13-T; antiga Iugsolávia: IT-95-


10-T.
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39. The Prosecutor vs. Clément Kayishema and Obed Ruzindana. Case ICTR-95-1-T.

40. Cf. nesse sentido Shaw, M. Op. cit., p. 36.

41. Idem, p. 122.

42. Pipeaon, apud Lozada, M. Op. cit., p. 63.

43. Lozada, M. Op. cit., p. 64.

44. Verdirame, G. Op. cit., p. 592.

45. Idem, p. 594.


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