Direitos Humanos e Tribunais Internacionais
Direitos Humanos e Tribunais Internacionais
Resumo: Não há mais como cogitar da liberdade divorciada da justiça social, como também
infrutífero pensar na justiça social divorciada da liberdade. Todos os direitos humanos constituem
um complexo integral, único e indivisível em que os diferentes direitos estão necessariamente
inter-relacionados e são interdependentes entre si. O Tribunal Internacional Criminal Permanente
surge como aparato complementar às Cortes nacionais com o objetivo de assegurar o fim da
impunidade para os mais graves crimes internacionais, prevendo omissões ou falhas estruturais dos
órgãos estatais.
Introdução
A análise histórica da evolução dos direitos humanos é uma das mais importantes vias e se tentar
responder a histórica pergunta sobre "o que é o homem?" Essa análise é extremamente enriquecida
a partir do exame da evolução das instituições jurídicas e dos direitos a todos reconhecidos.
É através da progressiva afirmação dos direitos humanos que emerge o conceito essencial do
homem, este ente pensador e criador.
Este texto procura explicitar as etapas da evolução histórica dos direitos humanos passando pela
análise dos grandes documentos normativos analisados no contexto da realidade política,
econômica e social de sua época.
A evolução histórica dos direitos humanos, que principia na Baixa Idade Média com as primeiras
instituições de limitação do poder político progredindo até o século XVIII, com a ampliação
sucessiva dos direitos individuais aos direitos sociais vai se revelando com o reconhecimento do
caráter essencial da igualdade dos homens apesar das múltiplas diferenciações biológicas e
culturais entre os povos.
Estamos agora vivenciando a inauguração de um novo milênio, motivo pelo qual é oportuna a
parada e retrospectiva histórica sobre o tema de tal modo que possamos responder ao grande
questionamento de se estamos caminhando, enfim, para a construção da civilização da cidadania
mundial ditada pela paz, e leis iguais.
1. Internacionalização dos Direitos Humanos: precedentes históricos
Sempre foi cercada de grande polêmica a questão de serem os direitos humanos direitos naturais e
inatos, direitos positivos, direitos históricos ou se derivariam de um sistema moral em especial.
Parece-nos que esta polêmica ainda permanece nos tempos modernos.
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É adequado, porém afirmar que os direitos humanos materializam-se graças a uma intervenção
humana na medida que são uma construção e reconstrução humanas. Em outras palavras eu diria
que está correta a corrente que defende a historicidade dos direitos humanos, visto que estes
fazem parte de um processo dinâmico que é o próprio histórico da conquista de direitos.
Mais especificamente citando as palavras de Norberto Bobbio, na tentativa de apresentar uma
definição do que sejam os direitos humanos afirma este autor que os direitos humanos nascem
como direitos naturais universais, desenvolvem-se como direitos positivos particulares (quando
cada Constituição incorpora Declarações de Direito), para finalmente encontrarem sua plena
realização como direitos positivos universais. 1
Importante ainda mencionar, que o mesmo Bobbio pondera que o grande problema dos direitos
humanos hoje "não é mais o de fundamentá-los, e sim o de protegê-los".
Nessa linha evolutiva em que a preocupação central é a proteção dos direitos humanos, podemos
indicar como verdadeiros precedentes históricos do tema "proteção internacional dos direitos
humanos" a criação do Direito Humanitário, a Liga das Nações e a Organização Internacional do
Trabalho, que verdadeiramente são os marcos pioneiros deste processo de internacionalização dos
direitos humanos.
É bom destacar que, o processo de internacionalização dos direitos humanos implicou um
redimensionamento acerca dos limites do conceito de soberania estatal, bem como a uma
redefinição da condição do indivíduo no cenário internacional para se apresentar o status de um
verdadeiro sujeito de direito internacional.
Ao examinar melhor a contribuição dada por estes expedientes internacionais vamos tomar, a
princípio, a definição de Thomas Buergenthal sobre o que seja hipótese de guerra, para fixar
limites à atuação do Estado e assegurar a proteção dos militares postos para fora de combate e
populações civis. 2
A grande importância que se confere a este Instrumento de proteção é que este representou o
primeiro instrumento de limitação à liberdade de autonomia dos Estados mesmo estando estes em
guerra.
Vindo a corroborar esta mesma concepção temos um segundo expediente histórico que foi a Liga
das Nações, criada após a Primeira Guerra Mundial, que trouxe à tona a necessidade de relativizar
a soberania estatal e o dever de promover a cooperação, a paz, a segurança internacionais. 3
A própria Convenção da Liga das Nações datada de 1920 foi precursora deste processo de
relativização da autonomia dos Estados ao trazer previsões genéricas acerca dos direitos
humanos, passando pelos direitos das minorias e direito internacional do trabalho, prevendo,
inclusive, sanções econômicas e militares aos países que violassem seus preceitos, proporcionando
desse modo a alteração dos limites da soberania dos Estados e um verdadeiro redimensionamento
quanto ao caráter absoluto da soberania dos Estados.
Em terceiro lugar, podemos ainda citar, como ente contributivo ao processo de internacionalização
dos direitos humanos a Organização Internacional do Trabalho (OIT), também criada após a
Primeira Guerra Mundial e que apresentava dentro de seu quadro de finalidades básicas a
promoção de padrões internacionais de condições de trabalho e bem-estar.
Sobre a Organização Internacional do Trabalho, comenta Antonio Cassesse: "Imediatamente após
a Primeira Guerra Mundial, a OIT foi criada e um de seus objetivos foi o de regular a condição dos
trabalhadores no âmbito mundial. Os Estados foram encorajados a não apenas elaborar e aceitar
as Convenções internacionais (relativas à igualdade de remuneração no emprego para mulheres e
menores, à jornada de trabalho noturno, à liberdade de associação, dentre outras), mas também a
cumprir estas novas obrigações internacionais". 4
Na visão de Louis Henkin: "A Organização Internacional do Trabalho foi um dos antecedentes que
mais contribuiu à formação do Direito Internacional dos Direitos Humanos. A OIT foi criada após a
Primeira Guerra Mundial para promover parâmetros básicos de trabalho e de bem-estar social. Nos
setenta anos que se passaram, a OIT promulgou mais de uma centena de Convenções
internacionais, que receberam ampla adesão e razoável observância". 5 A Organização
Internacional do Trabalho se tornou um efetivo instrumento para a fixação de condições de
trabalho no plano internacional, demonstrando que organizações relacionadas com áreas
especializadas de interesse podiam exercer uma considerável influência.
Cabe dizer após estes comentários que os três expedientes citados contribuíram sobremaneira
para o ressurgir de um Direito Internacional que dantes concentrava-se em regular as relações
entre Estados, em âmbito governamental e que, a partir deste momento, passa a transcender os
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Ainda sobre o processo de internacionalização dos direitos humanos, observa Celso Lafer: 1 1
"Configurou-se como a primeira resposta jurídica da comunidade internacional ao fato de que o
direito ex parte populi de todo ser humano a hospitalidade universal só começaria a viabilizar-se se
o 'direito a ter direitos', para falar com Hannah Arendt, tivesse uma tutela internacional,
homologadora do ponto de vista da humanidade.
Foi assim que começou efetivamente a ser delimitada a 'razão de estado' e corroída a
competência reservada da soberania dos governantes, em matéria de direitos humanos,
encetando-se a sua vinculação aos temas da democracia e da paz".
Em resumo cabe-nos fazer a correlação de que se a Segunda Guerra Mundial significou a ruptura
com os direitos humanos, o Pós-Guerra deveria significar a sua reconstrução.
A proteção dos direitos humanos, neste contexto, revela-se como matéria de legítimo interesse
internacional, o que implica dizer que a violação a estes direitos não pode ser vista ou tratada
como questão interna de cada Estado mas sim possui relevância internacional atingindo toda a
comunidade internacional.
Novamente, fazendo uma correlação, temos que o processo de internacionalização dos direitos
humanos está diretamente relacionado à delimitação da soberania estatal. Isso significa dizer que,
se de um lado houve uma forte reação contra abusos cometidos na Segunda Guerra e isso é que
gerou a decadência do Nazismo na Alemanha o que desencadeou a alteração da soberania estatal,
fazendo cair a crença quanto ao absolutismo da soberania estatal.
A partir desse momento os direitos humanos passam a fazer parte da pauta de prioridades das
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Nas palavras de Hector Gross Espiell, 1 8 ao conjugar o valor da liberdade com o valor da igualdade,
a Declaração demarca a concepção contemporânea de direitos humanos, pela qual esses direitos
passam a ser concebidos como uma unidade interdependente e indivisível.
Apresentando os direitos humanos uma unidade indivisível, revela-se esvaziado o direito à
liberdade quando não assegurado o direito à igualdade e, por sua vez, esvaziado revela-se o
direito à igualdade quando não assegurada a liberdade. Afirma Louis Henkin ao tratar da
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indivisibilidade dos direitos humanos que: "Os direitos considerados fundamentais incluem não
apenas limitações que inibem a interferência dos governos nos direitos civis e políticos, mas
envolvem obrigações governamentais de cunho positivo em prol da promoção do bem-estar
econômico e social, pressupondo um Governo que seja ativo, interventor, planejador e
comprometido com os programas econômicos-sociais da sociedade que, por sua vez, os
transforma em direitos econômicos e sociais para os indivíduos". 1 9
Na verdade, não há mais como cogitar da liberdade divorciada da justiça social, como também
infrutífero pensar na justiça social divorciada da liberdade. Todos os direitos humanos constituem
um complexo integral, único e indivisível em que os diferentes direitos estão necessariamente
inter-relacionados e são interdependentes entre si.
Dito isso é possível afirmar que a Declaração Universal tem sido concebida como a interpretação
autorizada da expressão "direitos humanos" constante da Carta das Nações Unidas. Os Estados
membros das Nações Unidas têm, assim, a obrigação de promover o respeito e a observância
universal dos direitos proclamados pela Declaração.
No dizer de John P. Humphrey: "Independente da intenção dos redatores da Declaração em 1948,
hoje a Declaração é parte do direito costumeiro das nações e é, portanto, vinculante a todos os
Estados.
Ademais, a natureza vinculante da Declaração Universal é reforçada pelo fato de - na qualidade
de um dos mais influentes instrumentos jurídicos e políticos do século XX - ter se transformado, ao
longo de mais de cinqüenta anos de sua adoção, em Direito costumeiro internacional e princípio
geral do Direito Internacional. 2 0
A Declaração se impõe como um código de atuação e de conduta para os Estados integrantes da
comunidade internacional. Seu principal significado é consagrar o reconhecimento universal dos
direitos humanos pelos Estados, consolidando um parâmetro internacional para a proteção desses
direitos. A Declaração ainda exerce impacto nas ordens jurídicas nacionais, na medida em que os
direitos nelas previstos têm sido incorporados por Constituições nacionais e, por vezes, servem
como fonte para decisões judiciais nacionais. Internacionalmente, a Declaração tem estimulado a
elaboração de instrumentos voltados à proteção dos direitos humanos e tem sido referência para
adoção de resoluções no âmbito das Nações Unidas.
Por fim vale a pena refletir sobre o questionamento de Antonio Cassesse 2 1 quando ele indaga
"qual é o real valor que a Declaração tem, quase que imperceptivelmente, produzindo muitos
efeitos práticos - a maior parte deles visível apenas a longo prazo. O mais importante é o efeito
que eu devo definir, em termos essencialmente negativos: a Declaração é um dos parâmetros
fundamentais pelos quais a comunidade internacional 'deslegitima' os Estados. Um Estado que
sistematicamente viola a Declaração não é merecedor de aprovação por parte da comunidade
mundial".
Como última observação vale comentar sobre a dicotomia entre as concepções universalista e
relativista dos direitos humanos. Para tal nos valemos da abordagem e lição de Jack Donnelly ao
concluir que a Declaração de Direitos Humanos de Viena de 1993 acolheu a corrente do forte
universalismo ou fraco relativismo cultural. Acrescenta Jack Donnelly: "Meu principal objetivo é
explicitar e defender os direitos humanos como direitos universais. Eu não sustento, contudo, que
esses direitos sejam estáticos, imodificáveis ou absolutos; qualquer elenco ou concepção de
direitos humanos - e a idéia de direitos humanos por si mesma - apresenta uma especificidade
cultural e contingente (...) Este livro demonstra que a contingência histórica e a particularidade
de direitos humanos é completamente compatível com a concepção de direitos humanos como
direitos morais universais, que não nos permite aceitar fortes reivindicações do relativismo
cultural". 2 2
2. Tribunal Internacional Criminal Permanente e a Convenção para a Prevenção e
Repressão do Crime de Genocídio
Para analisarmos a formação e atribuições do Tribunal Internacional Permanente é preciso
conhecer os aspectos da Convenção para a Prevenção e Repressão do Crime de Genocídio.
De fato, a Convenção citada constituiu-se no primeiro tratado internacional de proteção aos
direitos humanos aprovado no âmbito da ONU. Esta Convenção surgiu em razão das atrocidades
cometidas durante a Segunda Guerra Mundial em que o genocídio dos judeus resultou na morte de
cerca de 6 milhões de pessoas.
A referida Convenção estabeleceu que o crime de Genocídio viola o Direito Internacional e que,
deste modo, os Estados teriam o compromisso de preveni-lo e puni-lo.
Dispõe a Convenção contra o Genocídio que os autores de crime de genocídio serão punidos
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Segundo a abordagem 2 3 das atividades internacionais na área dos direitos humanos podem ser
classificadas em três categorias: promoção, controle e garantia.
A promoção corresponderia ao conjunto de ações destinadas à introdução e ao aperfeiçoamento
da disciplina dos direitos humanos pelos Estados.
As atividades de controle envolvem a observância por parte do Estado de obrigações por eles
contraídas internacionalmente.
A atividade de garantia seria criada apenas quando uma jurisdição internacional surgisse acima das
jurisdições nacionais, na defesa dos cidadãos contra os próprios Estados.
E, em julho de 1998 a Conferência de Roma aprovou o Estatuto do Tribunal Internacional Criminal
Permanente, sendo instalado em Haia, na Holanda após o depósito de 60° instrumento de
ratificação.
O Tribunal Internacional Criminal Permanente surge como aparato complementar às Cortes
nacionais com o objetivo de assegurar o fim da impunidade para os mais graves crimes
internacionais prevendo omissões ou falhas estruturais dos órgãos estatais.
É importante ressaltar, então, que em matéria de responsabilidade, o Estado detém a
responsabilidade primária em relação ao julgamento de violações de direitos humanos, tendo a
comunidade internacional a responsabilidade subsidiária. Em outras palavras, a jurisdição do
Tribunal Internacional é adicional e complementar à do Estado, ficando condicionada à
incapacidade ou omissão do sistema jurídico interno.
Quanto à sua estrutura orgânica temos que o Tribunal Penal Internacional é, segundo o art. 34 do
Estado, composto de:
a) Presidência (administra o Tribunal)
b) Câmaras - Câmara de Questões Preliminares
Câmara de Primeira Instância
Câmara de Apelação
c) Promotoria (órgão autônomo do Tribunal competente a receber, examinar e investigar
denúncias);
d) Secretaria (encarregada de aspectos não judiciais da administração do Tribunal);
Convém ressaltar ainda as competências divulgadas do Tribunal constantes do art. 5.° do
Estatuto de Roma, a saber:
a) Crime de genocídio (art. 2.° da Convenção para Prevenção e Repressão do Crime de Genocídio
- 1948);
b) Crime contra humanidade;
c) Crimes de guerra (Convenção de Genebra de 1949);
d) Crimes de agressão (art. 5.°, 2 do Estatuto).
A atuação da jurisdição internacional pode ser acionada por denúncia de um Estado-Parte, do
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Conselho de Segurança ou da Promotoria ("de ofício") segundo o que dispõe o art. 13 do Estatuto.
Mas, o exercício da jurisdição está condicionado à adesão do Estado no tratado. É necessário que
o Estado reconheça expressamente a jurisdição internacional.
No tocante às penalidades passíveis de serem impostas pelo Tribunal, o Estatuto estabelece como
pena máxima 30 anos e admite, em alguns casos, a prisão perpétua decorrente da gravidade da
ação cometida ou pelas circunstâncias pessoais do acusado. Vale ressaltar que o Tribunal pode
além de impor sanções penais impor sanções civis para a reparação da vítima ou seus familiares.
3. A Paz e a Justiça no novo milênio
3.1 Introdução
Milhares de anos se passaram e um mundo de paz e justiça para todos permanece ainda como
antiga aspiração a ser alcançada. Um mundo mais humano precisa de uma nova mentalidade, de
novas orientações e novas instituições.
As nações resistem em abrir mão de privilégios e poderes, e os indivíduos continuam se pautando
por dogmas cristalizados. O progresso leva tempo e mesmo compromissos imperfeitos sempre têm
um preço; não existe evolução instantânea nem revolução sem sofrimento. Existem inúmeros
obstáculos a serem vencidos; neste trabalho nos propomos abordar alguns deles.
Ao desafiar o que parece intangível e ao mudar o que agora parece imutável, um mundo mais
compassivo certamente será conquistado. Nós temos o poder de realizar o que pareceria
impossível no passado tornar-se inevitável no futuro.
3.2 Soberania e autodeterminação
Um dos argumentos freqüentemente usados para justificar a rejeição de um novo controle
internacional é: "Isto irá retirar nossa soberania nacional".
É claro que não há nada de errado com o patriotismo ou orgulho de um país e o desejo de ser
independente.
Um exame mais apurado revelará, entretanto, que os argumentos nacionalistas não são
construtivos. Rejeitar mudanças necessárias como uma intromissão inaceitável à soberania
representa ignorar a necessidade e realidade da vida contemporânea.
A noção medieval de que pelo direito Divino a soberania estaria acima da lei foi neutralizada pela
Magna Carta (LGL\1988\3) em 1215. A declaração de independência americana em 1716,
proclamou que "os governos fazem derivar seus poderes do consenso dos governados". O grande
filósofo alemão Immanuel Kant afirmou que a soberania deveria estar subordinada às leis que
garantissem a liberdade para todos.
A Declaração Universal dos Direitos do Homem afirmou o desejo dos povos como base para
autoridade governamental. Os julgamentos dos crimes de guerra de Nuremberg estabeleceram que
mesmo a cúpula do Estado poderia ser criminalmente responsável por crimes contra a humanidade.
As constituições modernas da Alemanha e do Japão abrem mão da soberania vital em prol dos
direitos de defesa da comunidade internacional. Como o mundo cresceu interligado pela expansão
dos transportes, comércio e comunicação, a autonomia nacional provou ser ineficiente.
Corporações gigantescas tornaram-se globais e nações formaram comunidades regionais de modo
a aumentar a soberania estatal como unidade de governo. Milhares de tratados foram assinados
restringindo a soberania para ampliar o bem-estar dos cidadãos em muitos territórios.
Um teólogo católico, J. Bryan Hehir, da Escola Divinista Harvard, recentemente concluiu que o
Estado-Nação, incapaz de proteger seus cidadãos e responder adequadamente aos desafios
econômico, ambiental e político não era mais politicamente viável. O professor Louis Henkin da
Faculdade de Direito de Columbia, quando o presidente da Sociedade Americana de Direito
Internacional, escreveu que era "tempo de enterrar a soberania". 2 4
A noção de soberania no sentido tradicional era descrita como um "anacronismo" pelo professor
Michael Reisman de Yale.
A soberania estatal absoluta hoje produziria um caos mundial absoluto. Conforme nós entremos no
novo milênio será reconhecido que aceitar certas restrições ao poder nacional pode ser necessário
se os governos pretendem servir à verdadeira soberania - ao povo mesmo.
Outro conceito que necessita de reavaliação refere-se as anexações dos territórios. A feição dos
territórios pelas conquistas foi condenada em muitas declarações legais que afirmam que os frutos
das conquistas jamais serão reconhecidos. Mas tais declarações, de princípio são mais honradas
na quebra do que na observância. O mapa do planeta seria irreconhecível se as fronteiras
nacionais tivessem de ser reconstruídas através dos limites religiosos. Alguém poderia considerar
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que o uso da força para conquistar territórios beneficia ou fere os habitantes. Se a paz e a justiça
devem prevalecer, meios pacíficos e legais devem ser encontrados, bem como expedientes
legítimos e legais satisfatórios sem causar mais danos do que benefícios.
Intimamente relacionados às assertivas sobre a soberania, e o território está a necessidade da
autodeterminação. Quase todos os países têm muitas minorias religiosas, culturais, políticas ou
étnicas que se sentem discriminadas. A reconfiguração dos limites nacionais em razão de
vantagens políticas e econômicas de poderes imperialistas, deve ser, com toda a certeza,
condenada, e o programa das Nações Unidas para obter independência de colônias, tem sido
especialmente eficaz. Garantir a autodeterminação como um meio de estabelecer a paz, entre
grupos rivais sempre provou ser contraproducente. O preço da reconstrução violenta de antigos
domínios foi pago, e continua a ser pago, por inúmeras vítimas inocentes desterradas ou
massacradas em muitas partes do mundo. Não há nada de limpo sobre o que hoje se diz
eufemisticamente "limpeza étnica". Retirar povos de suas terras sob ameaça de escravidão
genocida, simplesmente porque estes não compartilham a raça, religião ou corrente política de
seus agressores é um crime contra a humanidade que deve ser prevenido.
Muitos grupos de minorias étnicas e outros que se sentem - certamente ou erroneamente - que
estão em desvantagem ou ameaçados, defendem um direito de autodeterminação como previsto
na Carta das Nações Unidas. A estes povos é conferido o direito de sustentar seus argumentos
em fóruns adequados e buscar apoio as suas reclamações justas de estarem livres de
perseguições e abusos. Mas a demanda por autodeterminação ou nacionalidade não pode ser
aceito como subterfúgio para discriminação racial ou religiosa, ou um pretexto para o poder
político. Para ser coerente com a Carta, o remédio deve ser buscado em métodos legais se por
desespero, grupos frustrados clamam pelo direito, de usar meios brutais e de receber assistência
de qualquer fonte, de obter o objetivo desejado, poderá não existir paz nem justiça. Nações de
todo o mundo permaneceriam em constante agitação em razão de atos ditos de heroísmo, mas as
vítimas estariam condenadas ao terrorismo. A legitimidade do objetivo é neutralizada pela
ilegitimidade dos meios desumanos. Soluções que somente ferem aqueles a quem nós buscamos
ajudar não resolvem absolutamente nada.
Os povos lutam por independência e auto realização mas antigos ódios não valem a pena ser
preservados. Uma nova mentalidade requer tolerância e flexibilidade que permita às diversas
culturas e religiões conviverem juntas em integrada e pacífica harmonia, compartilhando
sentimentos e tradições dentro de um cenário de relativa autonomia. Mudanças em atitudes
solidificadas não são rápida ou facilmente atingidas e soluções praticas requerem negociações
difíceis e detalhadas.
Para os extremistas nenhuma solução diferente das próprias pode ser aceita. A perda inútil de
muitas vidas inocentes é a conseqüência freqüente da intensa obstinação. O que nós podemos
fazer para melhorar tal insensibilidade é tentar, o melhor possível, aplicar a regra da razão e as
regras legais enunciadas na Carta das Nações Unidas que repetidamente afirma que somente
meios pacíficos são legais. Em última análise o ponto central da auto-determinação é o respeito à
vida humana. Os seres humanos devem ser humanos.
3.3 Intervenção humanitária
Uma conseqüência do conceito de soberania é o corolário de que as nações não podem interferir
nos negócios de seus países; estados independentes deveriam ser livres para buscar o bem-estar
de seus cidadãos como eles mesmos pregam, esta foi a doutrina prevalente durante séculos,
apesar das vagas referências diplomáticas "que ditam a consciência pública" e "as leis da
humanidade". Mas o que ocorre hoje quando os governos maltratam seus povos por razões raciais,
políticas, econômicas ou outras razões sórdidas? As proibições das Nações Unidas contra a
interferência em assuntos nacionais nunca pretendeu ser uma licença para as nações abusarem ou
assassinarem que quer que seja. A Carta clama por direitos humanos e liberdades fundamentais
para todos. Não há lei que diga que o mundo deve tolerar o intolerável.
A emergência de novos estados foi freqüentemente acompanhada pela erupção de disputas de
facções. Tornou-se aparente que o que ocorria dentro de um estado poderia ser tão perigoso para
a tranqüilidade mundial, como o que ocorria entre nações soberanas. Violentos conflitos internos
entre grupos lutando por poder, poderia espalhar-se por territórios vizinhos e ameaçar a paz
mundial. Mas as Nações Unidas não possuíam forças militares independentes capazes de evitar ou
conter tais conflagrações. Uma visão rígida de não interferência seria moralmente indefensável e
poderia por em risco a paz muito mais do que preservá-la. Interventores perceberam o perigo de
"livrar-se da dominação" para justificar a intervenção militar como defesa própria. Os princípios de
Nuremberg ao delinearem o genocídio e crimes contra humanidade demonstraram que a
comunidade internacional tinha o direito legal, e a tarefa implícita de refrear violações extremas
aos direitos humanos. Tiranos foram advertidos de que eles poderiam ser pessoalmente
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responsabilizados em uma corte de justiça. Os direitos estatais deveriam estar subordinados aos
direitos humanos.
As nações pacíficas enfrentaram em sério dilema: a Carta das Nações Unidas prescreve que ao
usar força armada, por outra razão que não por defesa própria contra um ataque armado, é legal
somente se aprovado pelo Conselho de Segurança em ação para manter a paz. A experiência
mostrou que as decisões políticas e o poder de veto dos cinco membros privilegiados poderia ser
usado para paralisar a intervenção. Considerando-se que não existe mecanismo legal internacional
capaz de proteger vítimas de atrocidades é inevitável que alguns estados optem por passar por
cima do Conselho, clamando por um alto nível de moralidade ao tentar resgatar os oprimidos,
mesmo sem clara autoridade legal. Por outro lado, estados poderosos, poderiam usar o pretexto da
intervenção humanitária seletivamente para assegurar seus interesses econômicos e políticos. A
agressão não pode ser disfarçada de humanitarismo. Permitir às nações, unilateralmente ou com
aliados militares, decidir por eles próprios quando e como a força poderia ser usada contra um
presumido descumpridor da lei, poderia minar as Nações Unidas e a Carta Legal.
Os direitos humanos devem prevalecer sobre os erros humanos e a lei internacional também deve
prevalecer sobre os crimes internacionais. Nenhum indivíduo em nenhuma nação deveria poder
tomar a lei em suas próprias mãos.
A questão crucial: "se o Conselho de Segurança se recusa a agir e não pode ser ultrapassado, que
outro processo de paz toma seu lugar, ou deve-se permitir que vítimas inocentes pereçam?"
A lei internacional relativa aos limites permissíveis de intervenção unilateral ainda está envolvida.
São necessárias orientações expressas sobre o que é permitido e não permitido. Uma nação que
tenta sem sucesso despertar a comunidade mundial e o Conselho de Segurança a intervir para
cessar graves atrocidades e, como último recurso, enviar suas próprias tropas temporariamente
com único propósito de fazer cessar os crimes, pode estar agindo moralmente apesar de lhe faltar
expressa autorização legal. A moralidade e a lei devem ser coerentes. É muito perigoso permitir a
qualquer nação investir-se como policial do mundo. Conforme ingressamos no novo milênio o
critério a ser aplicado para se determinar se a intervenção militar é nobre ou criminosa, deveria
repousar, de antemão, no fato de a paz e a justiça global serem preservadas.
3.4 Um Tribunal Penal Internacional permanente
Após anos de trabalho preparatório, as grandes potências reuniram-se em Roma para acordar
acerca de um tão esperado Tribunal Penal. Eram numerosas as diferenças. A maior parte dos
crimes internacionais como terrorismo e tráfico de drogas, deveriam ser colocados de lado para
uma abordagem posterior. O Secretário Geral das Nações Unidas a proclamou como "um presente
de esperança para futuras gerações". De fato, foi uma ocasião histórica. E na euforia do
momento, dificilmente se notou que o Tribunal Penal Internacional poderia tornar-se inoperante
até várias outras condições fossem satisfeitas.
Um tratado incorporando o estatuto de Roma somente poderia vigorar depois que sessenta nações
formalmente ratificassem sem reservas. Antes de ratificá-lo, algumas nações deveriam baixar
novas legislações ou modificar suas constituições. Acordos deveriam ainda ser firmados acerca de
muitos detalhes operacionais tais como, regras de procedimento e como o tribunal seria
financiado. Emendas poderiam somente ser consideradas sete anos após o início do funcionamento
do tribunal. O momento em que todos estes itens fossem cumpridos ainda era incerto. Otimistas
estimaram que levaria alguns anos antes que o tribunal pudesse receber o primeiro caso. Enquanto
isso, considerando-se que o estatuto não era retroativo, líderes nacionais presumidamente
poderiam permanecer imunes ao processo e crimes internacionais continuariam sendo cometidos
impunemente.
Outro grande desapontamento foi a inabilidade dos EUA em votar o estatuto de Roma. Afinal de
contas, foram os EUA que inspiraram o mundo com sua liderança em Nuremberg, e foi o presidente
Clinton que se comprometeu a assegurar os precedentes de Nuremberg, tendo sido ele que surgiu
perante a Assembléia Geral em 1997, para clamar pela instauração de um Tribunal Penal
Internacional antes do final do século. Os EUA desempenharam um papel fundamental na criação
dos tribunais " ad hoc" para a Iugoslávia e Ruanda.
Os principais aspectos foram à relutância dos EUA em apoiar um tratado que permitiria as tropas
americanas em missões humanitárias ser maliciosamente acusada de crimes de guerra apesar de
os EUA não terem ratificado o tratado.
Certamente, ocorreram defeitos no protótipo de Roma, mas com um pouco de criatividade jurídica
e um toque político adicional, vários preceitos poderiam certamente ter sido fixados.
3.5 O passo para a paz e a justiça
Ninguém deve denegrir sacrifícios heróicos de bravos jovens que pereceram a serviço de seu país
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em lealdade aos seus líderes. Apesar de existirem proibições contra o uso de força armada, talvez
centenas de milhares de homens inocentes, mulheres e crianças em uma centena de guerras
desde que a Carta das Nações Unidas foi adotada.
Neste novo milênio ficará claro para todos que o único e real vetor da guerra é a morte.
Os dirigentes e "realistas" que viveram segundo conceitos tradicionais de poder, poderiam ter
deixado um legado mais amargo. Nós devemos estar prontos para dar uma chance à paz.
É chegada a hora de pôr em prática os sonhos dos jovens por um futuro melhor. Através de
contínua determinação e imaginação inovativa, jovens sensíveis de mente nobre estabeleceram
um caminho para a paz e justiça neste início de milênio.
4. Tribunal Penal Internacional
Passamos a tratar, agora, da importância de estabelecer um Tribunal Penal Internacional
permanente.
As conversações das Nações Unidas sobre o estabelecimento de um tribunal penal internacional
permanente atingiram seu estágio mais crítico. Os riscos da ausência prolongada de um adequado
tribunal penal internacional permanente são muito altos, e encorajariam criminosos de guerra a
conduzir seus negócios com impunidade. Mas um tribunal permanente mal constituído poderia criar
um direito ruim, além de desencorajar processos nacionais e criar novas facções e divisões entre
os Estados. Acreditamos que a razão central para a constituição de um tribunal penal
internacional deve ser impor a disciplina do cumprimento da lei dos governos nacionais para
investigar e coibir o genocídio, crimes contra a humanidade, crimes de guerra. A visão a longo
prazo é a prevenção destes crimes através do cumprimento efetivo da lei nacional com a
supervisão do tribunal penal internacional.
4.1 O papel do acusador no tribunal Penal Internacional
Muitos advogam a tese de que ao acusador sejam conferidos poderes estatutários para conduzir
investigações independentes e poder acusatório contra quem quer que seja em qualquer lugar do
mundo. Eles questionam que haverá um sistema de freios e contrapesos constituído pelo estatuto
para evitar que um acusador dê destinação abusiva a seus poderes.
Os Estados Unidos propuseram que uma vez que o Tribunal seja pautado por uma visão geral,
tanto pelo referendo de um Estado-Parte como pelo referendo do Conselho de Segurança, o
Tribunal deveria ter a independência para investigar o poder acusatório contra quaisquer suspeito
de perpetrarem crimes de guerra, genocídio ou crimes contra a humanidade em correlação a um
conflito armado ou atrocidade. Não acreditamos que um Estado-Parte ou Conselho de Segurança
deveria acumular reclamação contra suspeitos individualmente considerados. Esta é a tarefa de
um profissional acusador altamente especializado. Deixando a questão do consentimento do
Estado de lado, por um momento, a autoridade que nós imaginamos para o acusador seria
comparada ao que comumente é atribuído ao acusador de dois tribunais " ad hoc".
Será importante para o acusador ter suporte político, quando ele empreender seus trabalhos de
investigação. Que o suporte político possa ser obtido através do referendo do Estado-Parte ou do
Conselho de Segurança. Sem isso, o acusador está essencialmente sozinho e poderá encontrar
grande resistência dos Estados-Parte que poderiam ver seus esforços como políticos quanto aos
propósitos, ou como simples reação à pressão por interesses de grupos que têm sua própria
agenda política.
Praticamente, o sistema de referendo proposto será um poderoso meio de proporcionar amplas
investigações pelo tribunal, onde o acusador possa exercer sua atividade com expressiva
independência.
4.2 Jurisdição Penal Universal e o Tribunal Penal Internacional
O trabalho da Comissão de Direito Internacional das Nações Unidas, no que tange ao rascunho do
Código de Violações contra a Paz e Segurança do Ser Humano, reativou o debate sobre a
aplicação do Código na prática internacional. O reconhecimento de que os Estados devem
cooperar ou se são realmente efetivos ao combaterem os crimes internacionais tem, em décadas
recentes, levado à conclusão de numerosas convenções que incorporam o princípio universal da
jurisdição penal: jurisdição universal é compreendida como algo hábil a garantir o processo e a
punição de violações definidas em convenções. Muitos Estados acreditam que esta é a única
forma realista de implementar o esboço do Código de Crimes contra a Paz e a Segurança do Ser
Humano.
Outros, entretanto, vêem a efetiva implementação do Código como algo dependente não somente
da jurisdição criminal universal, mas muito mais do estabelecimento de um Tribunal Penal
Internacional.
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Essa polarização de visões não é nova. Alterado o contexto internacional, entretanto, agora torna
possível encontrar uma forma de combinar as vantagens da jurisdição penal internacional com as
garantias da proteção legal que um tribunal penal internacional pode proporcionar. Nesta
correlação alguém poderia perceber que o reconhecimento conjunto da jurisdição penal universal e
da competência de um tribunal penal internacional poderá, em última instância, reduzir conceitos
de soberania que estão basicamente ultrapassados sob a ordem da lei internacional. Isto é
verdadeiro, no que toca às violações contra a paz e a segurança do ser humano. Atos
constituindo violações deste tipo são matéria internacional extrapolando o campo da soberania
estatal. Nesse sentindo, se estados pretendem reforçar a ordem internacional eles devem criar um
mecanismo tão efetivo quanto possível para o processo internacional dessas violações.
4.3 Os dezesseis princípios fundamentais para um justo e efetivo Tribunal Penal
Internacional
Por mais de um século desde os processos de Nuremberg e Tókio, acusadores nacionais e cortes
falham freqüentemente em trazer à Justiça os responsáveis pelos crimes de genocídio outros
crimes contra a humanidade e sérias violações de Direito Humanitário.
A comunidade internacional reconheceu, entretanto, que um tribunal penal internacional
permanente é necessário para complementar às jurisdições penais nacionais, investigando e
processando estes três crimes principais, quando os causadores nacionais são incapazes,
desidiosos, ou não desejam fazê-lo, servindo como um modelo de justiça internacional e agindo
como um catalisador para acusadores nacionais e tribunais corresponderem à responsabilidade
primária de trazer os responsáveis por estes crimes à justiça. Em 15.06.1998, governantes do
mundo encontraram-se em Roma para abrir uma conferência diplomática de cinco semanas para
adotar um estatuto para o Tribunal Penal Internacional.
Se o Tribunal pretende ser uma instituição justa e eficaz há certos princípios fundamentais que
devem estar contidos em seu estatuto, regras e práticas.
Existe uma ampla variedade de formas que o Tribunal poderia assumir, desenhado de sistemas
legais penais, mas que quaisquer soluções que sejam encontradas devem ser condizentes com
cada um dos dezesseis princípios fundamentais vigentes abaixo enunciados.
Embora esses dezesseis princípios sejam amplamente baseados em princípios considerados e
desenvolvidos por um número de governos africanos e organizações não-governamentais, eles
refletem princípios que têm sido incluídos nas declarações e relatórios de um crescente número de
organizações governamentais e não-governamentais e especialistas independentes de todas as
partes do mundo. De fato, muitos destes princípios aparecem de uma forma ou outra em relatórios
de autoria da Comunidade do Caribe (CARICOM); Assembléia do Conselho do Parlamento Europeu;
a Declaração de Dakar sobre o estabelecimento do Tribunal Penal Internacional, adotado por vinte
e cinco governos africanos, bem como por organizações não-governamentais africanas e
internacionais, em 06.02.1998; o Parlamento Europeu; a Liga dos Países Árabes; o Grupo Rio de
Estados Latino Americanos; e a Comunidade Sul-Africana de Desenvolvimento (SADC).
Se cada um dos seguintes princípios contido no estatuto, regras e práticas do Tribunal forem
seguidos, este último poderia ser um eficaz complemento aos sistemas nacionais de justiça penal.
Se qualquer deles for omitido, o Tribunal corre o risco de ser um remédio ilusório e, talvez, mesmo
um entrave para as regras legais e internacionais.
A Anistia Internacional endossa integralmente cada um destes princípios sem qualquer reserva e
está convocando todos os governos do mundo a pleitear publicamente que isso iria assegurar que
a conferência diplomática incorpore cada um destes princípios na sua integralidade no Estatuto do
Tribunal Penal Internacional permanente. Nenhum governo que seja sério sobre o estabelecimento
de um tribunal independente e eficaz deveria recusar-se a fazer este pleito.
4.3.1 Os dezesseis princípios para um justo e eficaz Tribunal Penal Internacional
1. O Tribunal deve ter jurisdição sobre o crime de genocídio
O Estatuto deve proporcionar que o Tribunal tenha jurisdição sobre o crime como definido na
Convenção e Punição do Crime de Genocídio de 1948, na paz ou durante conflito armado;
2. O Tribunal deveria ter jurisdição sobre outros crimes contra a humanidade, incluindo os
seguintes crimes quando cometidos de uma forma sistemática ou em larga escala (não deveria
ser requisito que eles tenham que ser sistemáticos ou em larga escala):
Assassinato; extermínio; desaparecimento forçado de pessoas; tortura; seqüestro; prostituição
forçada; e outro abuso sexual; deportação arbitrária, através de fronteiras nacionais e
transferência forçada da população dentro de fronteiras nacionais; prisão arbitrária; escravização;
perseguição política, racial, religiosa, ou de outras espécies; e outros atos desumanos. O Tribunal
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deveria ter jurisdição, sobre estes crimes, tanto se eles forem cometidos na paz ou em conflito
armado;
3. O Tribunal deveria ter jurisdição sobre graves violações do direito humanitário em conflitos
armados internacionais e não internacionais
O Tribunal deveria ter jurisdição sobre graves violações ao direito humanitário em conflitos
armados internacionais incluindo: todas as graves violações, as Convenções de Genebra de 1949,
graves violações as garantias fundamentais do Protocolo Adicional I, as Convenções de Genebra e
violações a Convenção de Hague IV e seus regulamentos. O Tribunal deveria também ter jurisdição
sobre graves violações ao direito humanitário em conflitos armados internacionais, incluindo
violações ao art. 3.º da Convenção de Genebra e Protocolo Adicional II Às Convenções de
Genebra. Não deveria haver limites, como requisito a que as relações do direito humanitário em
qualquer tipo de conflito fossem parte de um plano ou política, ou parte de uma comissão de larga
escala para tais crimes;
4. O Tribunal deveria assegurar justiça para as mulheres
O Estatuto deveria incluir jurisdição sobre seqüestro, prostituição forçada e outros abusos sexuais
como crimes contra humanidade, quando cometidos de forma sistemática ou em larga escala e
como graves violações ao direito humanitário em conflitos armados internacionais e não-
internacionais.
O acusador deve investigar estes e outros crimes contra as mulheres e todos os funcionários de
todos os órgãos do tribunal, deveriam receber treinamento para investigação e processo de crimes
contra as mulheres.
O Tribunal deve ser capaz de tomar certas medidas para proteger as mulheres vítimas e suas
famílias de represálias e constrangimento desnecessários aos quais eles poderiam estar expostos
em um julgamento público, sem prejudicar os direitos dos suspeitos e acusados a um julgamento
justo. O estatuto deveria também facilitar a escolha de mulheres tendo em vista atingir um
equilíbrio em todos os órgãos do Tribunal;
5. Bibliografia
O Estatuto deveria proporcionar que todos os Estados ao ratificarem ou aderirem ao Estatuto do
Tribunal tenham jurisdição automática sobre os três principais crimes de genocídio, outros crimes
contra humanidade e graves violações ao direito humanitário. Nenhum outro consentimento estatal
deveria ser requerido. Uma vez que tal jurisdição inerente é concorrente com a dos Estados, o
Tribunal exercitaria sua jurisdição, somente quando os Estados fossem incapazes ou não
desejassem exercer suas jurisdições;
6. O Tribunal deve ter a mesma jurisdição universal sobre estes crimes, como quaisquer outros
dos Estados-Parte
Sob a lei internacional, cada um destes três principais crimes, genocídio, outros crimes contra
humanidade e graves violações ao direito humanitário, são crimes de jurisdição universal. Isto
significa que qualquer Estado pode exercer jurisdição sobre o suspeito de ter cometido um destes
crimes e trazer o responsável por tais crimes à justiça independentemente do lugar onde o crime
foi cometido. Se o Tribunal deve ser um complemento eficaz aos tribunais nacionais e não um
tribunal mais fraco, então ele deve ter a mesma jurisdição universal sobre estes crimes, como
qualquer um dos Estados-Parte;
7. O Tribunal deve ter o poder em todos os casos de determinar, se ele tem jurisdição e em que
casos exercê-la sem interferência política de qualquer fonte
Se o Tribunal deve ser um complemento eficaz aos tribunais nacionais quando eles são incapazes
ou não desejam responsabilizar os acusados por estes crimes, o Tribunal deve ser capaz de
determinar quando eles são incapazes ou não desejam fazê-lo. De outro modo, o Tribunal estará à
mercê dos Estados que são incapazes ou não desejam responsabilizar os acusados pelos piores
crimes do mundo e que também não desejam ter qualquer outro tribunal que o faça;
8. O Tribunal deveria ser um complemento eficaz as cortes nacionais quando estas são
incapazes ou não desejam responsabilizar os acusados por estes graves crimes
Toda a provisão do estatuto proposto deve ser verificada à luz do requisito de que o tribunal seja
eficaz. Muitas das proposições estatais poderiam tornar o tribunal menos eficaz que as cortes
nacionais dos Estados-Parte;
9. Um acusador isento (independente) deveria ter o poder de iniciar por sua própria iniciativa,
baseado em informações de qualquer fonte, sujeito somente ao adequado escrutínio judicial e
garantias de prisão e expediente de acusação do Tribunal de Apelação?
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Existe somente um método verdadeiramente eficaz pra assegurar que todos os casos que
deveriam ser trazidos ao Tribunal realmente o sejam. Um acusador independente deveria poder
iniciar investigações de qualquer crime em face da jurisdição do Tribunal, por sua própria iniciativa,
baseado em informações de qualquer fonte, pesquisa atual e garantias de prisão e expedientes de
acusação do tribunal para aprovação sem interferência estatal.
O acusador dos Tribunais Penais Internacionais da Iugoslávia e Ruanda tem o poder de iniciar
investigações de qualquer crime que ocorra dentro da jurisdição dos tribunais por sua própria
iniciativa e expedientes acusatórios, sem qualquer escolha ou interferência por parte dos
Conselhos de Segurança ou Estados embora estes Estados sejam livres para buscar a revisão legal
das decisões judiciais. Existem vantagens ao se permitir ao Conselho de Segurança fazer
referência a situações que envolvem ameaças ou quebras a paz e segurança internacionais, ao
acusador da investigação mediante o capítulo 7, da Carta das Nações Unidas, bem como aos
requerimentos e decisões do Tribunal se beneficiariam dos poderes vigentes do capítulo 7 do
Conselho de Segurança, mas referendos e reclamações estatais deveriam ser somente um
suplemento a outros recursos para o acusador. Ambos, Conselho de Segurança e Estados, são
corpos políticos hábeis a escolher situações nos campos político e legal.
O Conselho de Segurança estabeleceu dois tribunais ad hoc em mais de meio século, e os Estados
raramente registram reclamações contra outros Estados sob mecanismos de reclamação estatal
dos tratados de direitos humanos;
10. Nenhum corpo político incluindo o Conselho de Segurança, ou Estados, deveria ter o poder de
paralisar ou mesmo retardar uma investigação ou processo em nenhuma instância
Não há base legítima na lei internacional ou moralidade em obstruir a justiça paralisando ou
retardando investigações de crimes de genocídio, outros crimes contra humanidade ou graves
violações ao direito humanitário. De fato, todos os Estados têm obrigação têm reprimir estes
crimes. A justiça nunca deve ser um item de barganha em negociação de paz. Portanto, nenhuma
anistia ou perdão que impediu a justiça e a emergência da verdade podem evitar que o tribunal
internacional responsabilize os acusados em face da lei internacional. O Conselho de Segurança
nunca buscou evitar que o Tribunal de Justiça internacional ou Tribunais Nacionais recebessem
casos envolvendo situações consideradas sob o seu capítulo 7.
Quaisquer retardamentos nas investigações apagariam os fatos das testemunhas e facilitariam a
destruição das evidências, além de intimidarem estas mesmas testemunhas;
11. Para assegurar que a justiça seja feita a Corte deve desenvolver programas eficazes de
proteção a testemunhas e vítimas, envolvendo a assistência de todos os Estados-Parte, sem
prejudicar os direitos dos suspeitos e dos acusados
O Tribunal em estreita cooperação com os Estados deve poder tomar medidas de segurança pra
proteger testemunhas e vítimas e suas famílias de retaliações. Tais medidas não devem prejudicar
os direitos dos suspeitos e acusados;
12. O Tribunal deve ter o poder de pagar as vítimas indenizações, incluindo restituição,
compensação e reabilitação
Reconhecido dentro de uma variedade de instrumentos internacionais, incluindo a Declaração de
Princípios Básicos de Justiça para Vítimas de Crime e Abuso de Poder das Nações Unidas, vítimas
de graves violações de direitos humanos e suas famílias têm o direito a reparações incluindo
restituição, compensação e reabilitação.
O Tribunal em si mesmo deveria ter o poder de indenizar, uma vez que, é improvável que os
tribunais nacionais sejam capazes ou desejam indenizar, visto serem incapazes de responsabilizar
os acusados;
13. O estatuto deve assegurar aos suspeitos e acusados o direito a um julgamento justo de
acordo com os mais altos padrões internacionais em todos os estágios dos procedimentos
Se o Tribunal pretende ser eficaz, particularmente nas situações em que estes crimes ocorrem, a
justiça não deve ser somente feita, deve-se ter visibilidade da justiça feita. Portanto o Tribunal
deve ser criterioso a esse respeito dentro dos mais altos padrões internacionais possíveis, de um
julgamento justo. Estes padrões incluem aqueles encontrados nos arts. 9, 10 e 11 da Declaração
Universal dos Direitos Humanos; arts. 9, 14 e 15 da Convenção Internacional sobre Direitos Civis e
Políticos para o tratamento de prisioneiros; o Corpo de Princípios das Nações Unidas para Proteção
de Todas as Pessoas sob Qualquer Forma de Detenção ou Prisão; arts. 7 e 15 da Convenção
contra Tortura e outros Tratamentos ou Punições Cruéis, Desumanas ou Degradantes; os
Princípios Básicos das Nações Unidas, sobre a Independência do Judiciário; os Princípios Básicos
das Nações Unidas sobre o Papel dos Advogados; e as Orientações das Nações Unidas sobre o
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