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Sustentabilidade na Agricultura em Moçambique

O documento analisa as dimensões da sustentabilidade nas políticas públicas para o setor agrário em Moçambique, destacando a importância da agricultura para a segurança alimentar e a geração de renda. Apesar da dependência da população rural da agricultura, as práticas atuais não consideram adequadamente os impactos ambientais, comprometendo a sustentabilidade. O estudo propõe uma reflexão sobre como as dimensões econômica, social, institucional, cultural e ambiental podem ser integradas no Plano Estratégico para o Desenvolvimento do Setor Agrário (PEDSA) 2011-2020.
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Sustentabilidade na Agricultura em Moçambique

O documento analisa as dimensões da sustentabilidade nas políticas públicas para o setor agrário em Moçambique, destacando a importância da agricultura para a segurança alimentar e a geração de renda. Apesar da dependência da população rural da agricultura, as práticas atuais não consideram adequadamente os impactos ambientais, comprometendo a sustentabilidade. O estudo propõe uma reflexão sobre como as dimensões econômica, social, institucional, cultural e ambiental podem ser integradas no Plano Estratégico para o Desenvolvimento do Setor Agrário (PEDSA) 2011-2020.
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AS DIMENSÕES DA SUSTENTABILIDADE NAS POLÍTICAS PÚBLICAS PARA O

SETOR AGRÁRIO EM MOÇAMBIQUE: o caso do Plano Estratégico para o


Desenvolvimento do Setor Agrário (PEDSA)

1 INTRODUÇÃO
Moçambique é um país essencialmente agrário, onde mais de 70% da população dedica-
se à agricultura e pecuária. A agricultura constitui a principal fonte de alimentos e de
rendimentos para a maioria da população moçambicana que reside no meio rural (Fenita &
Abbas, 2017; Vunjanhe & Adriano, 2015). Para além do seu papel econômico, a agricultura
possui um importante papel na garantia da segurança alimentar e nutricional da população
(Moçambique, 2011).
A agricultura, responsável por alimentar a população no mundo depende dos recursos
naturais para a satisfação da demanda por alimentos (Santos & Cândido, 2013). Pelas suas
características, a agricultura é uma atividade de estreita relação com o meio ambiente, o que
impõe a busca de soluções tecnológicas que considerem as questões ecológicas, ou seja, a
prática de uma agricultura que leve em conta os princípios da sustentabilidade (Jossefa, Nicolau
& Azeiteiro, 2014; Santos & Cândido, 2013).
Todavia, embora a maioria da população moçambicana dependa da agricultura para a
sobrevivência e geração de rendimentos, verifica-se que os seus efeitos sobre o ambiente não
são considerados (Jossefa et al., 2014). Afirma Abbas (2017, p. 125) que “não se verifica a
preservação nem do ambiente e menos ainda dos recursos naturais. Pelo contrário, existe uma
exploração não sustentável e com baixos benefícios para as comunidades”.
Portanto, nota-se a importância de alcançar a sustentabilidade na agricultura,
considerando o fato de que as atividades agrícolas responsáveis pela obtenção de alimento
exercem grande pressão sobre o meio ambiente (Santos & Cândido, 2013). As práticas agrícolas
sustentáveis podem contribuir para a melhoria da segurança alimentar e, sobretudo, para o alívio
da pobreza, em particular nos países em desenvolvimento, onde a maioria da população reside
nas zonas rurais e tem a agricultura como base de subsistência (Cavatassi, 2010; Schindler,
Graef & König, 2015). Isto mostra cada vez mais a necessidade de integração da agricultura e
as dimensões, econômica, social, institucional, cultural e ambiental da sustentabilidade,
contribuindo, assim, para o alcance do desenvolvimento sustentável (Calabrò & Vieri, 2019;
Pretty et al., 2008; Santos & Cândido, 2013).
Assim, o Governo de Moçambique, como principal ator social na promoção do
desenvolvimento sustentável, tem sido responsável pelo estabelecimento de políticas, normas,
instituições e programas que garantam a gestão e uso sustentável dos recursos disponíveis, bem
como o desempenho das funções de planificação, desenvolvimento de políticas,
monitoramento, regulação e controle (Moçambique, 2007).
Porém, embora a sustentabilidade na agricultura seja de extrema importância, verifica-
se que ela tem um peso pouco significativo na definição das políticas econômicas
comprometendo, deste modo, a continuidade da atividade agrícola. Muitas vezes, a abordagem
da sustentabilidade na agricultura tem sido com foco na produtividade e lucratividade das
empresas agrícolas (Altieri, 2009). Este aspecto é ainda mais notável nos países em
desenvolvimento, onde as políticas agrícolas e outras iniciativas de desenvolvimento têm
enfatizado o crescimento da produção, combinado com melhores condições de vida para as

1
populações urbanas e rurais, em detrimento das questões ambientais (Schindler et al., 2015;
Swilling, Musango & Wakeford, 2016) e das questões culturais (Santos & Cândido, 2013).
Entretanto, tomando como base a importância da agricultura no país, bem como o papel
das políticas agrárias na promoção das práticas agrícolas sustentáveis, o presente trabalho
pretende elucidar a seguinte questão de pesquisa: como as dimensões da sustentabilidade vêm
sendo abordadas nas políticas agrárias moçambicanas, em particular no Plano Estratégico para
o Desenvolvimento do Setor Agrário (PEDSA) 2011-2020? Neste âmbito, o objetivo do
trabalho é analisar as dimensões da sustentabilidade no PEDSA 2011-2020.

2 FUNDAMENTAÇÃO TEÓRICA

2.1 Desenvolvimento sustentável e sustentabilidade


Segundo Pereira (2012), várias transformações na relação homem-natureza se
desenvolveram no decorrer do século XX. A partir da reavaliação destas transformações,
surgem por volta da década 70 questionamentos sobre o conceito de desenvolvimento que
abarcava apenas a componente econômica, isto é, aspectos como crescimento dos meios de
produção, acumulação, inovação técnica e aumento da produtividade.
Com os avanços tecnológicos, a partir da década de 1980, várias questões relacionadas
às formas de conciliação da atividade econômica com a conservação do meio ambiente eram
globalmente debatidas, devido a problemas como aquecimento global, destruição da camada de
ozônio, chuvas ácidas e desertificação, que já vinham sendo discutidos no meio acadêmico. Foi
assim que surgiu a Comissão Mundial sobre Meio Ambiente e Desenvolvimento (CMMAD),
criada pela Organização das Nações Unidas (ONU), em dezembro de 1983, com o objetivo de
apresentar uma agenda global para a humanidade enfrentar os problemas ambientais existentes
no planeta e assegurar o progresso humano, sem comprometer os recursos para as futuras
gerações (Oliveira, Medeiros, Terra & Quelhas, 2012).
A partir das discussões da CMMAD, em 1987, passou a ter maior visibilidade o termo
‘desenvolvimento sustentável’, apresentado no documento “Nosso Futuro Comum”, ou
Relatório de Brundtland, como o desenvolvimento capaz de atender às necessidades das
gerações presentes, sem comprometer a capacidade das gerações futuras em atenderem às suas
próprias necessidades (CMMAD, 1991). Isto significa possibilitar que a longo prazo se atinja
um nível satisfatório de desenvolvimento social, econômico, de realização humana e cultural
na mesma medida em que são preservados os recursos naturais (Schramm & Corbetta, 2015).
De acordo com Boff (2016), para ser sustentável, o desenvolvimento deve ser
economicamente viável, socialmente justo e ambientalmente correto. Neste âmbito, o
desenvolvimento sustentável propõe justiça para todos, por meio de melhores condições de vida
e de uma exploração dos recursos naturais que não vá além da capacidade de carga do planeta.
Considerando as dimensões do desenvolvimento sustentável, o seu maior desafio se constitui
na erradicação da pobreza, pelo incentivo à modelos de produção e consumo para uma
sociedade equilibrada, sem o uso excessivo dos recursos naturais (Slimane, 2012).
São identificadas três principais dimensões da sustentabilidade, sendo elas a econômica,
social e ambiental, relacionadas entre si, que conjuntamente representam as dimensões
explicativas do modelo Triple Bottom Line (Oliveira et al., 2012).
Além destas dimensões, existem ainda as dimensões territorial, política, ecológica,
cultural e ética (Sachs, 2008). São apresentadas no Quadro a seguir, as dimensões da
sustentabilidade e alguns respectivos critérios de classificação.

2
DIMENSÕES CRITÉRIOS
Alcance de um patamar razoável de homogeneidade social; Distribuição
Social de renda justa; Emprego pleno e/ou autônomo com qualidade de vida
decente; Igualdade no acesso aos recursos e serviços sociais.
Mudanças no interior da continuidade (equilíbrio entre respeito à tradição
e inovação); Capacidade de autonomia para elaboração de um projeto
Cultural nacional integrado e endógeno (em oposição às cópias servis dos modelos
alienígenas); Autoconfiança combinada com abertura para o mercado;
Saberes, os conhecimentos e os valores locais.
Ecológica Preservação do potencial do capital natureza na sua produção de recursos
renováveis; Limitação do uso dos recursos não-renováveis.
Ambiental Respeitar a capacidade de autodepuração dos ecossistemas naturais;
Configurações urbanas e rurais balanceadas (eliminação das inclinações
urbanas nas alocações do investimento público); Melhoria do ambiente
Territorial urbano; Superação das disparidades inter-regionais; Estratégias de
desenvolvimento ambientalmente seguras para áreas ecologicamente
frágeis (conservação da biodiversidade pelo ecodesenvolvimento).
Desenvolvimento econômico intersetorial equilibrado; Segurança
Econômica alimentar; Capacidade de modernização contínua dos instrumentos de
produção; razoável nível de autonomia na pesquisa cientifica e
tecnológica; Inserção soberana na economia internacional.
Democracia definida em termos de apropriação universal dos direitos
Política humanos; governança democrática; Desenvolvimento da capacidade do
(nacional) Estado para implementar o projeto nacional, em parcerias com todos os
empreendedores; nível razoável de coesão social.
Eficácia do sistema de prevenção de guerras da ONU, na garantia da paz
e na promoção da cooperação internacional; um pacote norte-sul de co-
Política desenvolvimento, baseado no princípio de igualdade; Controle
(internacional) institucional efetivo do sistema internacional financeiro e de negócios;
Controle institucional efetivo da aplicação do Princípio da Precaução na
gestão do meio ambiente e dos recursos naturais; prevenção das mudanças
globais negativas; proteção da diversidade biológica (e cultural); e gestão
do patrimônio global, como herança comum da humanidade;
Quadro 1 - Dimensões e critérios da sustentabilidade
Fonte: Sachs (2008).

Portanto, pode se observar que o conceito de desenvolvimento sustentável vai além do


tradicional e mais abordado tripé, abarcando um conjunto amplo de dimensões inseridas em
diferentes contextos.

2.2 Agricultura e sustentabilidade


A agricultura vem passando por várias transformações resultantes do uso de tecnologias,
globalização dos mercados agroalimentares e financeirização da produção e consumo (Ioris,
2018). Destas transformações, destaca-se a própria modernização da agricultura que a tornou
insustentável dados vários problemas econômicos, sociais e, sobretudo ambientais, ligados à
emissão de gases do efeito estufa, à contaminação e consumo excessivo da água, à erosão dos
solos e à perda da biodiversidade associados a ela (Soglio & Kubo, 2016). A própria Revolução
Verde que resultou do processo de modernização da agricultura contribuiu para a destruição da
natureza, devido aos métodos adotados, pois enquanto aumentava a produção agropecuária e
3
elevavam as taxas de produtividade, agravavam os problemas sociais e ambientais (Sitoe, 2010;
Vieites, 2010).
A crise alimentar de 2007-2008 foi um outro fator impulsionador dos debates sobre
novos caminhos agrícolas, pelas constantes preocupações com a segurança alimentar e questões
ambientais, causadas por práticas agrícolas insustentáveis, onde por um lado, defende-se que
o principal objetivo das políticas agrícolas é o aumento da produtividade para fazer face a crise,
e, por outro lado, incentivam-se práticas agrícolas sustentáveis e redução dos seus impactos
ambientais (Schwoob, 2014).
Além disso, a preocupação com as práticas agrícolas sustentáveis torna-se mais evidente
pelas estimativas da FAO sobre a escassez de alimentos. Prevê-se que até 2050, a população
mundial cresça até cerca de 9,1 bilhões de pessoas, aumentando a demanda por alimentos, em
cerca de 70%, sendo que a população residente nos países em desenvolvimento, necessitará do
dobro dessa produção (FOOD AND AGRICULTURE ORGANIZATION OF THE UNITED
NATIONS – FAO, 2009). Nessa perspectiva, a FAO tem como visão, um mundo sem fome e
sem má nutrição, em que a alimentação e a agricultura contribuam para melhorar o nível de
vida de todos, de forma sustentável, isto é, econômica, social e ambientalmente (FAO, 2013).
Diante destes fenômenos, surgem alguns modelos alternativos de produção, que
harmonizam os processos biológicos, geoquímicos e físicos com os produtivos sociais,
políticos, econômicos e culturais (Altieri, 2009). Trata-se de modelos associados a uma
agricultura sustentável, baseada em tecnologias e práticas agrícolas que não somente produzem
aumentos na produtividade, mas que também não produzem efeitos ambientais negativos
(Pretty et al., 2008).
De acordo com Cavatassi (2010) e Silici, Bias e Cavane (2015), para ser sustentável, a
agricultura deve ser ecologicamente correta, economicamente viável e socialmente justa,
resiliente ao clima, culturalmente sólida, visando a produção de alimentos e geração de renda
que permita o alcance da segurança alimentar. Portanto, a agricultura sustentável está ligada à
satisfação das necessidades humanas de alimentos, à melhoria do ambiente natural, à promoção
do bem-estar social e à capacidade econômica (Zulfiqar & Thapa, 2017).
Esta definição evidencia quatro principais dimensões de sustentabilidade na agricultura:
econômica, ambiental, social e cultural (Altieri, 2009; Costa, 2010; Pretty, 2008; Slimane,
2012; Silici et al., 2015). A dimensão econômica objetiva o aumento da produção e
produtividade agrícola para garantir a segurança alimentar. Para tal, o planejamento e promoção
das tecnologias são fatores cruciais, desde que previamente sejam analisadas quais tecnologias
serão desenvolvidas e quem serão os seus beneficiários (Altieri, 2009). A dimensão ambiental
objetiva garantir o uso e a conservação dos recursos (Slimane, 2012). Nesse sentido, todo o
processo de produção deve ocorrer com observância das leis ecologias, garantindo a
harmonização da atividade (agricultura) e o ambiente) (Costa, 2010).
Por sua vez, a dimensão social visa melhorar a produtividade e os lucros da agricultura
em pequena escala e da segurança alimentar no núcleo familiar (Slimane, 2012). Inclui ainda
melhorias na qualidade de vida, maior participação dos indivíduos na tomada de decisões locais,
melhores condições de trabalho, o reconhecimento do papel das mulheres na agricultura, bem
como o fácil acesso do agricultor aos recursos (terra, água, recursos naturais, crédito, mercados
e tecnologias) (Altieri, 2009; Caporal & Costabeber, 2002; FAO, 2011).
Por fim a dimensão cultural, que pressupõe a necessidade de respeito ao contexto
cultural local em todos processos de manejo dos agrossistemas (Caporal & Costabeber, 2002).
Segundo Lourenço et al. (2016), esta dimensão implica a valorização dos saberes locais, uma
vez que existe um conhecimento agroecológico que define a identidade local dos agricultores.
A dimensão surge porque muitas vezes as tecnologias e os conhecimentos científicos destinados
ao meio rural são tratados de forma homogênea, isto é, ignorando as especificidades ambientais
e culturais de cada unidade de produção familiar (Pereira, 2016). Existe uma tendência de
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transpor os conceitos, ignorando o fato de que o desenvolvimento sustentável apresenta esta
dimensão cultural enraizada no lugar e nas realidades existenciais das pessoas em suas diversas
culturas (Mantewau, 2012). Portanto, é necessário que todos os processos de desenvolvimento
rural tenham como ponto de partida os saberes, os conhecimentos e os valores locais, pois estes
espelham a “identidade cultural” presente na sociedade (Caporal & Costabeber, 2002).
Além disso, fatores como os sistemas de produção, a estrutura das fazendas, a natureza
das práticas agrícolas, as preferências dos agricultores e o contexto político local, são
determinantes da sustentabilidade na agricultura e em conjunto permitem moldar a
sustentabilidade nas suas distintas dimensões (Baccar et al., 2019).
Vale ressaltar que atualmente, cerca de 42% da população mundial tem a agricultura
como meio de subsistência e de crescimento econômico. Neste contexto, percebe-se que a vida
humana no planeta depende da sustentabilidade na agricultura (Aznar-Sánchez, 2019), de tal
modo que a produção agrícola sustentável é fundamental para equilibrar as necessidades das
populações atuais e futuras (Erbaugh et al., 2019).
Por isso, as práticas agrícolas sustentáveis devem ser inseridas nas políticas de todo o
mundo, sendo incorporadas não somente a dimensão econômica, mas também as dimensões
social, ambiental, cultural e ética (Altieri, 2009). Somente por meio de uma combinação
integrada de estratégias e políticas bem elaboradas poder-se-á buscar o desenvolvimento
agrícola sustentável (Adenle, Azadi & Manning, 2017; Yu & Wu, 2018). O futuro vai depender
da inserção conjunta das dimensões da sustentabilidade nas decisões em diferentes níveis
(formuladores de políticas, assessores e agricultores) (Baccar et al., 2019).

3 PROCEDIMENTOS METODOLÓGICOS

Quanto a abordagem a pesquisa classifica-se como qualitativa, que segundo Oliveira


(2008, p. 41), consiste “num processo de reflexão e análise de técnicas para compreensão
detalhada do objeto de estudo em seu contexto histórico ou segundo a sua estruturação”. Quanto
aos fins, a pesquisa caracteriza-se como descritiva, cujo principal objetivo é descrever as
características de um determinado fenômeno. Portanto, neste tipo de pesquisa, a característica
mais significativa se baseia na utilização de técnicas padronizadas de coleta de dados (Gil,
2019).
Quanto aos meios, trata-se de uma pesquisa documental, em que são utilizados
documentos de primeira mão ou fontes primárias que não foram submetidos ainda a nenhum
tratamento científico. A seleção dos documentos foi feita com base nas orientações para a
avaliação preliminar dos documentos que são: o contexto, os autores, a autenticidade e a
confiabilidade do texto, a natureza do texto e os conceitos-chave e a lógica interna do texto (Sá-
Silva, Almeida & Guindani, 2009). Assim, foi selecionado o PEDSA 2011-2020, documento a
partir do qual as análises foram realizadas, em paralelo com o Plano Nacional de Investimento
do Setor Agrário (PNISA 2013-2017) e o Plano Operacional para o Desenvolvimento Agrário
(PODA 2015-2019), que representam seus instrumentos de operacionalização.
O PEDSA tem como objetivo a melhoria da segurança alimentar e o aumento da renda
dos produtores agrários, de maneira competitiva e sustentável, buscando garantir a equidade
social e de gênero. O pano de fundo desta estratégia são os pilares do Comprehensive Africa
Agriculture Development Programme (CAADP), que incluem a gestão sustentável dos recursos
naturais, mercados e infraestruturas, segurança alimentar e investigação agrária (Moçambique,
2011).
A escolha do PEDSA 2011-2020 deve-se ao fato de representar um instrumento
relativamente recente e com objetivos estratégicos a longo prazo. Além disso, segundo
Cunguara, Garrett, Donovan e Cássimo (2013), o PEDSA é até então a política agrária com

5
mais clareza, uma vez que representa um instrumento que ordena um conjunto mais abrangente
de orientações estratégicas para agricultura.
Além da pesquisa documental, optou-se pela entrevista, que representa uma técnica em
que o pesquisador formula perguntas ao entrevistado para a obtenção de dados em profundidade
(Gil, 2019). O instrumento que permitiu a coleta dos dados foi o roteiro de entrevista
estruturado, por meio do qual foram conduzidas as entrevistas. O roteiro foi aplicado a um
universo de 05 sujeitos que desenvolvem estudos voltados ao setor agrário, agricultura,
agronegócio e políticas públicas em particular as voltadas para o setor agrário em Moçambique.
Para analisar os dados foram adotadas técnicas da análise de conteúdo, desenvolvida
seguindo as orientações de Bardin (2010), onde na pré-análise foi feita uma leitura flutuante do
texto, o que permitiu o seu conhecimento e os conteúdos presentes. Em seguida, foi feita a
exploração do material por meio do processo de codificação e enumeração. Esta etapa
possibilitou a transformação e agregação dos dados brutos em unidades a partir das quais foi
possível descrever as características pertinentes ao conteúdo expresso no texto (Oliveira, 2008).
Foi feito o recorte dos conteúdos em elementos que em seguida, foram ordenados dentro de
categorias. O recorte dos conteúdos foi feito considerando duas unidades de registro: palavras
e frases. Nesse sentido, procurou-se identificar no plano qualquer elemento relacionado com as
dimensões da sustentabilidade. Assim, os seguintes termos foram escolhidos:
“sustentabilidade”, “sustentável”, “econômico”, “social”, “ambiental”, “cultural”, bem como
conceitos similares.
Em seguida, as unidades de registro definidas foram agrupadas em categorias analíticas,
cuja definição foi feita usando o modelo de grade fechada, em que as categorias relevantes ao
objetivo da pesquisa são definidas a priori, com base no arcabouço teórico proposto e que depois
são submetidas a prova da realidade (Vergara, 2015). Assim, foram consideradas as dimensões
econômica, social, ambiental e cultural, que representam as categorias de análise e permitiram
realizar as inferências.
Igualmente, os dados coletados a partir das entrevistas foram submetidos a análise de
conteúdo, onde as entrevistas foram transcritas na íntegra para facilitar a análise. Assim, foram
analisados os conteúdos das respostas apresentadas pelos entrevistados e estas eram agrupadas
nas devidas categorias de análise definidas.
Na última etapa relativa à interpretação dos dados, as informações foram manipuladas
com o intuito de conferir-lhes significância e validade. A informação coletada foi interpretada
de acordo com os significados atribuídos a todos aspectos referentes as políticas públicas a
sustentabilidade, para no final relacioná-las as dimensões econômica, social, ambiental e
cultural da sustentabilidade. No final foram confrontados o referencial teórico adotado e os
dados coletados a partir dos documentos e entrevistas (Gomes, 2012).

4 RESULTADOS E DISCUSSÃO
O PEDSA é orientado pelo princípio fundamental da gestão sustentável dos recursos
naturais. Ao se analisar o plano, verificou-se que poucas referências foram feitas aos termos
sustentabilidade, sustentável, econômico, ambiental e cultural, como proposto na metodologia.
Em contrapartida, a análise dos fragmentos permitiu identificar alguns trechos correspondentes
as dimensões da sustentabilidade.
Notou-se que, a própria visão do PEDSA de construir um setor agrário competitivo,
rentável e sustentável, que contribua para a segurança alimentar e nutricional e para a melhoria
das condições de vida das comunidades rurais e urbanas, condiz, pelo menos em parte, com o
conceito de sustentabilidade de forma geral e de agricultura sustentável em particular, que
pressupõe um equilíbrio entre as dimensões econômica, social e ambiental (3BL), ou seja, uma
agricultura que visa a satisfação das necessidades humanas de alimentos, a melhoria do
6
ambiente, o bem-estar e a capacidade econômica (Altieri, 2009; Cavatassi, 2010; FAO, 2013;
Silici, Bias & Cavane, 2015; Slimane, 2012; Zulfiqar & Thapa, 2017).
4.1 Dimensão econômica
Na dimensão econômica da sustentabilidade, cabe ressaltar que a agricultura em
Moçambique é considerada pela Constituição da República como a base para o
desenvolvimento do país e como um dos setores prioritários da economia (Fenita & Abbas,
2017). Observa-se que a visão do PEDSA reitera a relevância do setor da agricultura, como um
setor de sistemas integrados, capaz de contribuir com efeitos multiplicadores para o crescimento
econômico de Moçambique. Por esta razão, o primeiro pilar do plano visa o aumento da
produção e produtividade, o que pode contribuir positivamente para a redução da fome,
aumento dos níveis de comercialização e dos rendimentos da agricultura (Moçambique, 2011).
Para assegurar o aumento da produção e produtividade, faz-se referência no plano a
modernização contínua dos instrumentos de produção, referenciada por Sachs (2008) como um
dos critérios a ser observado na dimensão econômica da sustentabilidade, e que seria
fundamental para assegurar o crescimento agrícola anual de 6% previsto pelo CAADP, pelo
que existe a necessidade de investigação agrária, disseminação e adoção de tecnologias
melhoradas. Assim, prevê-se no PEDSA o desenvolvimento e a disponibilização de tecnologias
e práticas agrícolas avançadas, que impactem significativamente no aumento da produtividade
e no crescimento agrícola (Moçambique, 2011).
No âmbito da modernização, agrícola e, ao mesmo tempo da crise global de alimentos
2007-2008, as tecnologias oriundas da Revolução Verde adotadas pelo país na busca de
soluções para o incremento da produção e produtividade agrária e das condições de vida de
modo competitivo e sustentável (Sitoe, 2010). A proposta é que a tecnologia seria implementada
por meio do uso de sementes melhoradas, fertilizantes, instrumentos de produção, tecnologias
de produção adequadas à realidade local e mecanização agrícola. Porém, isso não ocorreu, e tal
como em muitos países, em Moçambique a implementação da Revolução Verde mostrou
preocupações relativas aos problemas com o meio ambiente e a desigualdade social (Sitoe,
2010). Além disso, foi um modelo baseado em conjunturas internacionais, isto é, em padrões
da industrialização e modernização da agricultura, contrapondo os sistemas de produção locais.
O contexto da Revolução Verde aqui apresentado tem como objetivo mostrar que a
implementação de modelos de produção (modernização) baseados em padrões internacionais
pode gerar insucesso em outros países, particularmente nos países em desenvolvimento,
principalmente quando não são criadas estruturas sociais, culturais, econômicas e ambientais
de fazê-lo. Mesmo diante da experiência da Revolução Verde, não se destaca claramente no
PEDSA os tipos de tecnologias a serem implementadas, podendo estas além de prejudicar o
meio ambiente, mostrarem incompatibilidade com o contexto local.
Os entrevistados foram unânimes em afirmar que o problema não se reflete apenas no
PEDSA, mas em outras diversas políticas, em que são definidas ações estratégicas com base
em modelos de outros países. Essa questão é claramente ilustrada pela fala de um dos
entrevistados ao afirmar que:
Geralmente as políticas e estratégias implementadas muitas das vezes não refletem
a realidade nacional, não levam em consideração a conjuntura ou características do
país (sociais, culturais, econômicas e até ambientais). É só ver a estratégia da
Revolução Verde, que foi um programa importado que teve sucessos em outros
países, mas em Moçambique foi um fracasso total (Entrevistado 02).
No entanto, isto tem se verificado não somente as tecnologias, mas também algumas
metas e ações estratégicas definidas são baseadas em padrões não adequados à realidade
moçambicana. Nesse sentido, percebe-se que não se trata de tecnologia somente do ponto de
7
vista econômico, mas também do ponto de vista social, ambiental, cultural, institucional, entre
outros. Um dos fatores por detrás deste insucesso está relacionado a pesquisa, que é um fator
crítico para garantir que as tecnologias importadas sejam compatíveis com as especificidades
locais, de tal modo que é necessária uma avaliação prévia do tipo de tecnologia e dos seus
beneficiários (Altieri, 2009).
Logo, a pesquisa, disseminação e adoção de tecnologias melhoradas são cruciais para
garantir o êxito da modernização tecnológica. A visão do PEDSA para a questão da pesquisa é
ilustrada nos seguintes trechos:
Aumentar o número de agricultores com conhecimentos teóricos e práticos de
aplicação de tecnologias que promovam a produtividade e o crescimento agrícola,
manuseamento pós-colheita e comercialização de produtos agrícolas, através do
reforço dos sistemas de extensão e pesquisa e do estabelecimento de unidades
demonstrativas para a transferência de tecnologias. (Moçambique, 2011, p. 36).
Dar prioridade à investigação focalizada na produtividade agrária, especialmente no
que se refere a sementes melhoradas e materiais para plantio, controle de doenças
das plantas e dos animais, desenvolvimento de pastos melhorados, melhoramento
dos métodos de cultivo e de criação de animais, e desenvolvimento de tecnologias
eficientes [...] (Moçambique, 2011, p. 37).
Analisando estes dois trechos, percebe-se que a visão da pesquisa colocada no PEDSA,
está centrada apenas a dimensão econômica. Isto faz com que se pense na modernização
tecnológica apenas para o aumento da produção, quando na realidade, embora a modernização
tecnológica seja crucial, por si própria não é suficiente para a transformação profunda e
desenvolvimento da agricultura, havendo necessidade de considerar conjuntamente outros
fatores tais como sociais, econômicos, ambientais, institucionais e culturais. A esta visão,
afirmam Caporal e Costabeber (2004) que a agricultura parte de relações sociais que se
desenvolvem entre os indivíduos, de tal modo que o processo tecnológico deve ser baseado em
sistemas econômicos que não desvalorizam os saberes, conhecimentos e experiências dos
agricultores.
Destaca-se ainda na dimensão econômica a componente da segurança alimentar. Esta
componente representa um dos objetivos mais importantes do desenvolvimento rural e agrícola
sustentável. Além disso, a segurança alimentar está aliada ao crescimento da população mundial
que consequentemente afeta a forma como os recursos naturais são explorados (Grindle et al.,
2015). O objetivo definido no PEDSA para o alcance da segurança alimentar visa promover a
assistência técnica para melhoria das práticas agrícolas que influenciam a qualidade da
produção, incluindo o valor nutritivo. Para tal, prevê-se a produção e diversificação de
alimentos, especialmente alimentos básicos, para melhorar a situação de segurança alimentar e
nutricional da população, reduzindo-se assim os níveis de má nutrição crônica.
No entanto, embora o aumento da produção e produtividade definido no primeiro
objetivo do PEDSA seja fundamental para melhorar a situação da segurança alimentar em
Moçambique, há que se considerar que por si só não é suficiente, pois, embora gere aumentos
na receita dos agricultores, não significa que a população esteja tendo acesso a quantidades
suficientes de alimentos e de alto valor nutritivo. Assim, é fundamental que a questão não seja
tratada de forma isolada como é feito no PEDSA. Conforme afirmam Baccar et al. (2019), é
preciso assegurar ao mesmo tempo a sustentabilidade social, bem como o uso sustentável dos
recursos naturais, e de forma mais completa a inserção conjunta das dimensões da
sustentabilidade nas políticas públicas.
Afirma Schwoob (2014) que alguns problemas decorrentes da insegurança alimentar
são originários das práticas agrícolas insustentáveis. Por isso, a agricultura sustentável revela-
se importante não só para o alcance da segurança alimentar, mas também para a redução da
8
pobreza e o alcance dos objetivos de desenvolvimento sustentável (Adenle et al., 2017;
Cavatassi, 2010; Silici et al. 2015; Slimane, 2012; Vieitis, 2010), de tal modo que só se tornará
possível se as políticas e estratégias voltadas para o desenvolvimento do setor priorizaram mais
do que questões econômicas.
Por fim, foram analisados na dimensão econômica os aspectos relativos à coordenação
intersetorial, fundamental não apenas para o aumento da produção, mas também para a
segurança alimentar e o desenvolvimento sustentável. Ao analisar a coordenação intersetorial
no PEDSA, verificou-se que os seus objetivos neste âmbito estão inseridos no seu quarto pilar
estratégico relativo ao fortalecimento das instituições agrárias. Todavia, ao se analisar
detalhadamente as ações estratégicas para este componente, verificou-se que as mesmas estão
limitadas à promoção de associações e cooperativas de produtores, o que embora seja
importante, não é suficiente para definir uma efetiva coordenação intersetorial. Consta ainda no
plano apenas uma ação de coordenação entre as instituições, porém, limitada as instituições dos
parceiros de desenvolvimento em segurança alimentar e nutricional e não necessariamente aos
principais atores do setor público como é o caso do Ministério da Coordenação Ambiental,
Ministério da Agricultura, Ministério da Indústria, entre outros.
Portanto, de modo geral, não estão indicadas estratégias claras no PEDSA sobre como
a coordenação entre as principais instituições pode ser alcançada, mesmo que haja um
reconhecimento de que todos os programas para a promoção das práticas sustentáveis vão além
das instituições específicas, envolvendo outros centros de formulação de políticas.

4.2 Dimensão ambiental


Do ponto de vista ambiental, verificou-se que a questão ambiental é trazida no PEDSA
como um assunto transversal, ou seja, que serve de mecanismo de orientação das políticas
setoriais. Nesta dimensão, houve um fraco número de correspondências ao termo ‘ambiental’,
pelo fato de as questões ambientais nos diferentes documentos de política serem associadas de
forma geral ao uso e gestão sustentável dos recursos naturais, até mesmo porque
conceitualmente, segundo Slimane (2012), a dimensão ambiental objetiva garantir o uso e a
conservação dos recursos.
Neste âmbito, enfatiza-se no PEDSA o uso e gestão sustentável dos recursos naturais,
em particular da terra, solos, água e florestas, que, por um lado, são elementos essenciais para
o desenvolvimento da agricultura, e, por outro são críticos para garantir a segurança alimentar
e nutricional da presente geração sem comprometer a disponibilidade desses recursos para as
futuras gerações.
Quanto aos solos, para evitar a sua degradação, existe um incentivo no PEDSA à
promoção da agricultura de conservação que além de representar um instrumento de economia
da mão de obra, permite a recuperação de solos degradados. Existem em Moçambique vários
desafios no que diz respeito a gestão e conservação de solos, devido aos problemas de erosão e
de salinização (Moçambique, 2011). A agricultura de conservação está inserida no conjunto de
práticas associadas a agricultura sustentável, tanto pela sua rentabilidade, quanto pela sua
sustentabilidade, de tal modo que a sua inclusão no PEDSA representa um grande passo rumo
ao alcance da agricultura sustentável, se combinada com outros fatores (Silici, Bias & Cavane,
2015).
Todavia, a agricultura de conservação oferece resultados a longo prazo, enquanto na
prática, segundo um dos entrevistados “o pobre quer poder ter comida hoje, não amanhã”
(Entrevistado 01). Silici, Bias e Cavane (2015) discutem esta questão mostrando que uma vez
que os resultados não são imediatos, os agricultores podem não apreciar os benefícios de longo
prazo da agricultura de conservação, em relação aos benefícios imediatos que obtém na forma
como vem exercendo a atividade, ou seja, de modo insustentável. Assim, é necessário criar
9
mecanismos que estimulem aos agricultores a adoção deste tipo de agricultura em função dos
grandes resultados que podem ser gerados no futuro.
A própria educação ambiental que faz parte do conjunto de abordagens voltadas ao uso
sustentável dos recursos naturais e ao mesmo tempo seria essencial para ultrapassar os desafios
relativos à degradação ambiental, seria uma alternativa viável para o alcance deste objetivo,
embora muito pouco sobre a abordagem tenha sido indicado no PEDSA. São necessários
programas de educação não apenas para reforçar a racionalidade dos agricultores com relação
ao uso dos recursos naturais, mas também para auxiliar na transferência de novas tecnologias,
relação com o mercado, entre outras questões (Altieri, 2009).
É preciso considerar segundo um dos entrevistados que “a agricultura de conservação
será a agricultura do futuro, porque protege o ambiente, melhora a produtividade do solo é
sustentável e saudável” (Entrevistado 04). Portanto, trata-se de uma agricultura necessária no
país, principalmente se considerarmos as mudanças climáticas que nos últimos anos tem afetado
o país. Tanto a agricultura de conservação, quanto a agricultura baseada nos princípios da
agroecologia defendida por Altieri (2009), são consideradas práticas agrícolas sustentáveis e
fornecem uma maior resistência a mudanças climáticas (Santos & Cândido, 2013).
As mudanças climáticas são referenciadas no PEDSA como um dos maiores desafios
do setor agrário e estão alinhados com a componente de gestão sustentável dos recursos
naturais. Devido a sua localização geográfica, Moçambique é um dos países ao nível da África
fortemente afetado pelas mudanças climáticas e por eventos climáticos extremos, como secas,
cheias e ciclones, de maior frequência e intensidade (FAO, 2013; Moçambique, 2011). A
perpetuação dos efeitos das mudanças climáticas dificulta cada vez mais o compromisso em
atender à crescente demanda por alimentos (Cavatassi, 2010).
Assim, das medidas de mitigação dos efeitos das mudanças climáticas referenciadas no
PEDSA, destacam-se apenas e de forma ampla a formulação e implementação de políticas e
estratégias de mitigação do impacto das mudanças climáticas sobre os recursos naturais, a
segurança alimentar e os modos de vida. Portanto, não foram definidas medidas específicas de
adaptação a mudanças climáticas na agricultura, mesmo diante do seu forte impacto sobre a
produção agrícola.
Outras questões ambientais como desflorestamento, erosão, poluição das águas
superficiais, queimadas descontroladas e cumprimento da legislação, que estão associadas ao
uso sustentável dos recursos naturais e, consequentemente a dimensão ambiental, cujo PEDSA
reconhece as suas implicações no desempenho do setor agrário, são abordadas de forma
superficial, o que mostra uma rasa discussão em torno das mesmas.
Portanto, a partir da análise da dimensão ambiental, conclui-se que as ações ambientais
preconizadas pelo PEDSA mostram a importância da preservação dos recursos naturais e que
existe uma preocupação em atender os critérios da sustentabilidade nas políticas para o setor
agrário em Moçambique. Porém, as medidas estabelecidas no plano bem como a mobilização
dos recursos para a concretização destas ações, mostram que o percurso ainda é longo.
Recorrendo a fala de um dos entrevistados sobre esta dimensão “Tenho minhas dúvidas se o
componente ambiental está sendo contemplado” (Entrevistado 02).
Pôde se observar no PNISA e no PODA, que representam o principais planos de
operacionalização do PEDSA, que mais de 85% dos recursos financeiros são destinados ao
componente de aumento da produção e produtividade agrária e de acesso aos mercados, estando
o componente dos recursos naturais com 2% do total dos recursos, o que segundo Silici; Bias e
Cavane (2015) mostra a preocupação do governo com o investimento privado para promover a
expansão do setor agrícola, em comparação com outros aspectos.
No entanto, a alocação de recursos proposta no PNISA e no PODA não responde em
geral a todas as ações consideradas prioritárias para o setor agrário em Moçambique pelo
próprio PEDSA.
10
4.3 Dimensão social
Na dimensão social, o termo ‘social’ foi referenciado associado à equidade social e de
gênero. Igualmente foram referenciados alguns trechos no plano, que estão associados a
dimensão social da sustentabilidade. É o caso da homogeneidade social (Sachs, 2008), que
representa um dos principais objetivos na dimensão social e aparece destacada no PEDSA
baseada no pressuposto da inclusão das mulheres no emprego rural. A discussão em torno desta
questão surge porque embora o peso representativo das mulheres na atividade agrícola seja alto,
verifica-se que a sua participação em toda cadeia de produção é baixa quando comparada a
participação do homem (Moçambique, 2016).
É reconhecido no PEDSA que as mulheres tem um papel fundamental na segurança
alimentar e na economia familiar, e supõe-se ainda que comparativamente ao homem, as
mulheres tem maior conhecimento e responsabilidade com relação ao meio ambiente e seus
recursos naturais (Moçambique, 2011). Assim, de acordo com o plano, a promoção do emprego
rural por meio de projetos de desenvolvimento de infraestruturas rurais deve priorizar a
participação das mulheres. Trata-se de uma iniciativa que pode contribuir positivamente para a
redução das desigualdades sociais que ainda prevalecem em todos os setores da economia do
país e, consequentemente para o alcance da sustentabilidade na agricultura, condizendo com os
postulados da FAO (2011).
A igualdade no acesso aos recursos e serviços sociais é outra questão relacionada a
dimensão social da sustentabilidade. A igualdade no acesso aos recursos é imprescindível para
a redução das desigualdades de gênero presentes no setor agrário e no caso da terra, embora de
forma superficial, são estabelecidas no PEDSA medidas para melhoria do acesso à terra pelas
mulheres, prestando atenção particular às necessidades e interesses das famílias chefiadas por
mulheres que são o grupo mais vulnerável. Igualmente, medidas de capacitação por meio do
desenvolvimento de programas específicos de apoio a participação das mulheres e o uso de
tecnologias de produção, são referenciadas no PEDSA. Todavia, quanto ao acesso ao crédito,
embora sejam reconhecidas as dificuldades de acesso por parte das mulheres, o plano trata a
questão de forma geral, sem discriminação de medidas para que as mulheres possam beneficiar
cada vez mais deste recurso.
Portanto, mesmo que esteja pautado pelo PEDSA que do ponto de vista social objetiva-
se assegurar a promoção da equidade social e de gênero, verifica-se que o plano necessita de
abordagens explícitas sobre as medidas específicas de promoção de igualdade de gênero a
serem implementadas, no que se refere a produção e produtividade agrária, acesso aos recursos
naturais e produtivos.
Aspectos relacionados ao nível de participação dos indivíduos na tomada de decisões
que estão associadas a esta dimensão independentemente do gênero, não foram referenciados
no PEDSA. Assim, embora seja evidente que a igualdade no acesso aos recursos é
imprescindível para a redução das desigualdades de gênero, e consequentemente para a
sustentabilidade, verifica-se que estas questões ainda prevalecem de forma abrangente nas
políticas para o setor agrário. No próprio Plano de Ação para a Redução da Pobreza em
Moçambique, foi definido claramente no objetivo de acesso aos mercados a necessidade de
assegurar o acesso aos serviços financeiros nas zonas rurais, com maior alcance para as
mulheres, porém o PEDSA cujos seus pilares assentam-se neste plano não levou em
consideração este aspecto.

4.4 Dimensão cultural


No que concerne a dimensão cultural da sustentabilidade, não foram encontradas no
PEDSA referências ao termo ‘cultural’. Igualmente, não foram encontrados quaisquer
fragmentos associados a esta dimensão, o que revela a falta de discussão sobre o assunto,
11
mesmo diante do fato de as questões culturais estarem inseridas nas novas concepções de
desenvolvimento. A esta questão, afirmam os entrevistados que as definições de
sustentabilidades atuais não refletem a realidade de Moçambique, uma vez que não levam em
considerações os hábitos, usos e costumes locais (a cultura), que são questões ligadas a
sustentabilidade.
Esta visão reflete não apenas na transposição do conceito de desenvolvimento
sustentável, mas também em tudo o que foi apontado sobre a modernização tecnológica, a
definição de metas nas políticas e mobilização de recursos, que muitas vezes é resultado das
visões globalizadas e, portanto, não reflete as aspirações da população local. Afirma Mantewau
(2012) que o caminho para o desenvolvimento sustentável parte da população local que deve
estar inserida na criação de metas de desenvolvimento sustentável. Nos países africanos em
particular, é necessário que todas as soluções implementadas para atender a problemas
específicos sejam local e culturalmente aceitos.
Portanto, mesmo que haja incentivos a promoção da agricultura sustentável, verifica-se
que as práticas são muitas vezes implementadas sem respeito às especificidades locais,
seguindo ao que Silici, Bias e Cavane (2015) associam a um modelo de “transferência de
tecnologia” de cima para baixo, sem o envolvimento dos agricultores no desenvolvimento e
adaptação das tecnologias, contrapondo o postulado por Altieri (2009), Baccar et al. (2019) e
Zulfiqar e Thapa (2017) sobre a implementação de políticas que levem em conta as
especificidades de cada região. Pereira (2016) e Lourenço et al. (2016) referem a esta situação
como um processo de homogeneização tecnológica, em que pelo não envolvimento dos
agricultores, perde-se a diversidade dos conhecimentos específicos de cada cultivo, clima, solo,
propriedade rural, contexto social e cultural.
Assim, sugere Mantewau (2012) a necessidade de readaptação do conceito de
desenvolvimento sustentável, integrando as experiências vividas, aos sistemas de conhecimento
cultural, e às realidades situadas entre os diferentes povos africanos. Esta readaptação permite
que sejam respeitados os conhecimentos, valores e sistemas epistemológicos locais.

5 CONSIDERAÇÕES FINAIS
O setor agrário desempenha um papel inquestionável na economia de Moçambique,
gerando emprego e renda para a maioria da população que reside no meio rural. As crescentes
necessidades de alimentos, impõem a busca de soluções que contribuam para o aumento da
produção e produtividade, o que deve ser acompanhado por medidas de redução dos impactos
ambientais. As práticas agrícolas sustentáveis são fundamentais para fazer face a estes desafios,
de tal forma que devem ser integradas nas políticas públicas de todo mundo.
A análise mostrou que tal como em outras políticas, existe no PEDSA uma preocupação
em atender as questões da sustentabilidade, pelo menos no que tange as dimensões econômica,
social e ambiental. A dimensão econômica foi muito abordada no plano, e a sua integração está
voltada ao aumento da produção e produtividade. Esta dimensão não somente se faz sentir como
principal ponto abordado, mas também se reflete no financiamento do programa, demonstrado
por meio do PNISA e do PODA, onde mais de 85% dos recursos financeiros são destinados a
atender aspectos econômicos (produção, produtividade e mercados) em detrimento dos sociais
e ambientais.
No entanto, este objetivo de aumento da produção e produtividade é alcançado pela
inovação tecnológica, de tal modo que o plano reforça a busca contínua de tecnologias que
impactem positivamente no crescimento da produção. Todavia, constatou-se que no plano as
tecnologias por si só são reconhecidas como suficientes para alcançar este objetivo. Assim,
12
inovação tecnológica referida no plano acaba apresentando um viés totalmente econômico,
fazendo com que as especificidades locais bem como os impactos ambientais sejam
desconsiderados neste processo.
Estas lacunas acontecem em um momento em que o país possui experiências no que se
refere a importação de tecnologias, e reforçam os entrevistados que a situação tende a
prevalecer, resultando no insucesso de algumas políticas. De igual modo, na questão da
segurança alimentar, é trazido no PEDSA que esta será assegurada somente pelo aumento da
produção, quando na realidade a segurança alimentar é mais do que isso, requerendo que a
população tenha acesso não apenas a quantidade de alimentos suficientes, mas também a
qualidade, isto é, alimentos de alto valor nutritivo. A coordenação intersetorial mostrou-se
pouco presente no PEDSA, o que pode comprometer o alcance dos seus objetivos, visto que a
sustentabilidade requer o envolvimento dos diferentes atores do setor público.
Similarmente à dimensão econômica, diversos aspectos relativos à dimensão ambiental
foram abordados no PEDSA, mostrando uma preocupação com esta dimensão, por meio da
criação de mecanismos para assegurar que os recursos naturais, em particular os recursos
destinados à agricultura, sejam usados de forma sustentável, gerando benefícios para as
comunidades, e, sobretudo contribuam para a redução da pobreza. Tudo o que foi apresentado
no plano sobre esta dimensão é de grande relevância para o contexto dos países em
desenvolvimento como é o caso de Moçambique. São abordagens da agricultura sustentável,
que segundo os entrevistados são mais do que necessárias atualmente, pela sua rentabilidade e
sustentabilidade, mesmo que os seus resultados sejam de longo prazo.
No entanto, embora a questão ambiental tenha sido valorizada no plano, a sua
perspectiva parece mais para dar suporte a dimensão econômica e não necessariamente porque
ela é essencial. Nisto, analisando o financiamento desta dimensão no PNISA e no PODA, que
é de cerca de 2% do valor global, observa-se que a relevância desta dimensão parece mais
retórica, isto é, um discurso governamental, reforçando a ideia que a dimensão econômica
prevalece nas políticas, desequilibrando o modelo de sustentabilidade.
Quanto a dimensão social, em síntese, verificou-se que embora o plano preze pela
equidade social tal como é ilustrado no seu objetivo geral, faltou clareza na questão da igualdade
no acesso aos recursos, sobre a priorização das mulheres, em particular no acesso ao crédito
que constitui um dos principais entraves ao desenvolvimento do setor. Por fim, a dimensão
cultural não se fez sentir no PEDSA, levando a mesma conclusão constatada pelos
entrevistados, de que todas as ações visando a sustentabilidade econômica, social e ambiental
são implementadas ignorando os hábitos e costumes locais, ou seja, ignorando o fato de que o
agricultor local é quem possui o conhecimento do campo, do solo, do contexto social e cultural.
De modo geral, baseando-se no pressuposto de que a agricultura sustentável deve ser
ecologicamente correta, economicamente viável, socialmente justa, resiliente ao clima,
culturalmente sólida, foi possível constatar que os conteúdos apresentados no PEDSA limitam-
se as tradicionais dimensões da sustentabilidade (econômica, social e ambiental), mesmo que a
dimensão econômica tenha prevalecido. Ao mesmo tempo, estas dimensões parecem estar
sendo incorporadas de forma isolada, uma das razões pela qual existe uma discrepância muito
grande em termos de financiamento de cada um dos componentes.
Portanto, existem muitos desafios a serem vencidos e o governo de Moçambique como
principal ator social responsável pela formulação de políticas públicas, deve rever os conceitos,
readaptá-los e assim priorizar a implementação de políticas que promovam a sustentabilidade
nas suas distintas dimensões. Somente por meio da implementação de políticas que promovam

13
práticas agrícolas cada vez mais sustentáveis, poderá se garantir a resiliência e sustentabilidade
dos recursos naturais.

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