Sustentabilidade na Agricultura em Moçambique
Sustentabilidade na Agricultura em Moçambique
1 INTRODUÇÃO
Moçambique é um país essencialmente agrário, onde mais de 70% da população dedica-
se à agricultura e pecuária. A agricultura constitui a principal fonte de alimentos e de
rendimentos para a maioria da população moçambicana que reside no meio rural (Fenita &
Abbas, 2017; Vunjanhe & Adriano, 2015). Para além do seu papel econômico, a agricultura
possui um importante papel na garantia da segurança alimentar e nutricional da população
(Moçambique, 2011).
A agricultura, responsável por alimentar a população no mundo depende dos recursos
naturais para a satisfação da demanda por alimentos (Santos & Cândido, 2013). Pelas suas
características, a agricultura é uma atividade de estreita relação com o meio ambiente, o que
impõe a busca de soluções tecnológicas que considerem as questões ecológicas, ou seja, a
prática de uma agricultura que leve em conta os princípios da sustentabilidade (Jossefa, Nicolau
& Azeiteiro, 2014; Santos & Cândido, 2013).
Todavia, embora a maioria da população moçambicana dependa da agricultura para a
sobrevivência e geração de rendimentos, verifica-se que os seus efeitos sobre o ambiente não
são considerados (Jossefa et al., 2014). Afirma Abbas (2017, p. 125) que “não se verifica a
preservação nem do ambiente e menos ainda dos recursos naturais. Pelo contrário, existe uma
exploração não sustentável e com baixos benefícios para as comunidades”.
Portanto, nota-se a importância de alcançar a sustentabilidade na agricultura,
considerando o fato de que as atividades agrícolas responsáveis pela obtenção de alimento
exercem grande pressão sobre o meio ambiente (Santos & Cândido, 2013). As práticas agrícolas
sustentáveis podem contribuir para a melhoria da segurança alimentar e, sobretudo, para o alívio
da pobreza, em particular nos países em desenvolvimento, onde a maioria da população reside
nas zonas rurais e tem a agricultura como base de subsistência (Cavatassi, 2010; Schindler,
Graef & König, 2015). Isto mostra cada vez mais a necessidade de integração da agricultura e
as dimensões, econômica, social, institucional, cultural e ambiental da sustentabilidade,
contribuindo, assim, para o alcance do desenvolvimento sustentável (Calabrò & Vieri, 2019;
Pretty et al., 2008; Santos & Cândido, 2013).
Assim, o Governo de Moçambique, como principal ator social na promoção do
desenvolvimento sustentável, tem sido responsável pelo estabelecimento de políticas, normas,
instituições e programas que garantam a gestão e uso sustentável dos recursos disponíveis, bem
como o desempenho das funções de planificação, desenvolvimento de políticas,
monitoramento, regulação e controle (Moçambique, 2007).
Porém, embora a sustentabilidade na agricultura seja de extrema importância, verifica-
se que ela tem um peso pouco significativo na definição das políticas econômicas
comprometendo, deste modo, a continuidade da atividade agrícola. Muitas vezes, a abordagem
da sustentabilidade na agricultura tem sido com foco na produtividade e lucratividade das
empresas agrícolas (Altieri, 2009). Este aspecto é ainda mais notável nos países em
desenvolvimento, onde as políticas agrícolas e outras iniciativas de desenvolvimento têm
enfatizado o crescimento da produção, combinado com melhores condições de vida para as
1
populações urbanas e rurais, em detrimento das questões ambientais (Schindler et al., 2015;
Swilling, Musango & Wakeford, 2016) e das questões culturais (Santos & Cândido, 2013).
Entretanto, tomando como base a importância da agricultura no país, bem como o papel
das políticas agrárias na promoção das práticas agrícolas sustentáveis, o presente trabalho
pretende elucidar a seguinte questão de pesquisa: como as dimensões da sustentabilidade vêm
sendo abordadas nas políticas agrárias moçambicanas, em particular no Plano Estratégico para
o Desenvolvimento do Setor Agrário (PEDSA) 2011-2020? Neste âmbito, o objetivo do
trabalho é analisar as dimensões da sustentabilidade no PEDSA 2011-2020.
2 FUNDAMENTAÇÃO TEÓRICA
2
DIMENSÕES CRITÉRIOS
Alcance de um patamar razoável de homogeneidade social; Distribuição
Social de renda justa; Emprego pleno e/ou autônomo com qualidade de vida
decente; Igualdade no acesso aos recursos e serviços sociais.
Mudanças no interior da continuidade (equilíbrio entre respeito à tradição
e inovação); Capacidade de autonomia para elaboração de um projeto
Cultural nacional integrado e endógeno (em oposição às cópias servis dos modelos
alienígenas); Autoconfiança combinada com abertura para o mercado;
Saberes, os conhecimentos e os valores locais.
Ecológica Preservação do potencial do capital natureza na sua produção de recursos
renováveis; Limitação do uso dos recursos não-renováveis.
Ambiental Respeitar a capacidade de autodepuração dos ecossistemas naturais;
Configurações urbanas e rurais balanceadas (eliminação das inclinações
urbanas nas alocações do investimento público); Melhoria do ambiente
Territorial urbano; Superação das disparidades inter-regionais; Estratégias de
desenvolvimento ambientalmente seguras para áreas ecologicamente
frágeis (conservação da biodiversidade pelo ecodesenvolvimento).
Desenvolvimento econômico intersetorial equilibrado; Segurança
Econômica alimentar; Capacidade de modernização contínua dos instrumentos de
produção; razoável nível de autonomia na pesquisa cientifica e
tecnológica; Inserção soberana na economia internacional.
Democracia definida em termos de apropriação universal dos direitos
Política humanos; governança democrática; Desenvolvimento da capacidade do
(nacional) Estado para implementar o projeto nacional, em parcerias com todos os
empreendedores; nível razoável de coesão social.
Eficácia do sistema de prevenção de guerras da ONU, na garantia da paz
e na promoção da cooperação internacional; um pacote norte-sul de co-
Política desenvolvimento, baseado no princípio de igualdade; Controle
(internacional) institucional efetivo do sistema internacional financeiro e de negócios;
Controle institucional efetivo da aplicação do Princípio da Precaução na
gestão do meio ambiente e dos recursos naturais; prevenção das mudanças
globais negativas; proteção da diversidade biológica (e cultural); e gestão
do patrimônio global, como herança comum da humanidade;
Quadro 1 - Dimensões e critérios da sustentabilidade
Fonte: Sachs (2008).
3 PROCEDIMENTOS METODOLÓGICOS
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mais clareza, uma vez que representa um instrumento que ordena um conjunto mais abrangente
de orientações estratégicas para agricultura.
Além da pesquisa documental, optou-se pela entrevista, que representa uma técnica em
que o pesquisador formula perguntas ao entrevistado para a obtenção de dados em profundidade
(Gil, 2019). O instrumento que permitiu a coleta dos dados foi o roteiro de entrevista
estruturado, por meio do qual foram conduzidas as entrevistas. O roteiro foi aplicado a um
universo de 05 sujeitos que desenvolvem estudos voltados ao setor agrário, agricultura,
agronegócio e políticas públicas em particular as voltadas para o setor agrário em Moçambique.
Para analisar os dados foram adotadas técnicas da análise de conteúdo, desenvolvida
seguindo as orientações de Bardin (2010), onde na pré-análise foi feita uma leitura flutuante do
texto, o que permitiu o seu conhecimento e os conteúdos presentes. Em seguida, foi feita a
exploração do material por meio do processo de codificação e enumeração. Esta etapa
possibilitou a transformação e agregação dos dados brutos em unidades a partir das quais foi
possível descrever as características pertinentes ao conteúdo expresso no texto (Oliveira, 2008).
Foi feito o recorte dos conteúdos em elementos que em seguida, foram ordenados dentro de
categorias. O recorte dos conteúdos foi feito considerando duas unidades de registro: palavras
e frases. Nesse sentido, procurou-se identificar no plano qualquer elemento relacionado com as
dimensões da sustentabilidade. Assim, os seguintes termos foram escolhidos:
“sustentabilidade”, “sustentável”, “econômico”, “social”, “ambiental”, “cultural”, bem como
conceitos similares.
Em seguida, as unidades de registro definidas foram agrupadas em categorias analíticas,
cuja definição foi feita usando o modelo de grade fechada, em que as categorias relevantes ao
objetivo da pesquisa são definidas a priori, com base no arcabouço teórico proposto e que depois
são submetidas a prova da realidade (Vergara, 2015). Assim, foram consideradas as dimensões
econômica, social, ambiental e cultural, que representam as categorias de análise e permitiram
realizar as inferências.
Igualmente, os dados coletados a partir das entrevistas foram submetidos a análise de
conteúdo, onde as entrevistas foram transcritas na íntegra para facilitar a análise. Assim, foram
analisados os conteúdos das respostas apresentadas pelos entrevistados e estas eram agrupadas
nas devidas categorias de análise definidas.
Na última etapa relativa à interpretação dos dados, as informações foram manipuladas
com o intuito de conferir-lhes significância e validade. A informação coletada foi interpretada
de acordo com os significados atribuídos a todos aspectos referentes as políticas públicas a
sustentabilidade, para no final relacioná-las as dimensões econômica, social, ambiental e
cultural da sustentabilidade. No final foram confrontados o referencial teórico adotado e os
dados coletados a partir dos documentos e entrevistas (Gomes, 2012).
4 RESULTADOS E DISCUSSÃO
O PEDSA é orientado pelo princípio fundamental da gestão sustentável dos recursos
naturais. Ao se analisar o plano, verificou-se que poucas referências foram feitas aos termos
sustentabilidade, sustentável, econômico, ambiental e cultural, como proposto na metodologia.
Em contrapartida, a análise dos fragmentos permitiu identificar alguns trechos correspondentes
as dimensões da sustentabilidade.
Notou-se que, a própria visão do PEDSA de construir um setor agrário competitivo,
rentável e sustentável, que contribua para a segurança alimentar e nutricional e para a melhoria
das condições de vida das comunidades rurais e urbanas, condiz, pelo menos em parte, com o
conceito de sustentabilidade de forma geral e de agricultura sustentável em particular, que
pressupõe um equilíbrio entre as dimensões econômica, social e ambiental (3BL), ou seja, uma
agricultura que visa a satisfação das necessidades humanas de alimentos, a melhoria do
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ambiente, o bem-estar e a capacidade econômica (Altieri, 2009; Cavatassi, 2010; FAO, 2013;
Silici, Bias & Cavane, 2015; Slimane, 2012; Zulfiqar & Thapa, 2017).
4.1 Dimensão econômica
Na dimensão econômica da sustentabilidade, cabe ressaltar que a agricultura em
Moçambique é considerada pela Constituição da República como a base para o
desenvolvimento do país e como um dos setores prioritários da economia (Fenita & Abbas,
2017). Observa-se que a visão do PEDSA reitera a relevância do setor da agricultura, como um
setor de sistemas integrados, capaz de contribuir com efeitos multiplicadores para o crescimento
econômico de Moçambique. Por esta razão, o primeiro pilar do plano visa o aumento da
produção e produtividade, o que pode contribuir positivamente para a redução da fome,
aumento dos níveis de comercialização e dos rendimentos da agricultura (Moçambique, 2011).
Para assegurar o aumento da produção e produtividade, faz-se referência no plano a
modernização contínua dos instrumentos de produção, referenciada por Sachs (2008) como um
dos critérios a ser observado na dimensão econômica da sustentabilidade, e que seria
fundamental para assegurar o crescimento agrícola anual de 6% previsto pelo CAADP, pelo
que existe a necessidade de investigação agrária, disseminação e adoção de tecnologias
melhoradas. Assim, prevê-se no PEDSA o desenvolvimento e a disponibilização de tecnologias
e práticas agrícolas avançadas, que impactem significativamente no aumento da produtividade
e no crescimento agrícola (Moçambique, 2011).
No âmbito da modernização, agrícola e, ao mesmo tempo da crise global de alimentos
2007-2008, as tecnologias oriundas da Revolução Verde adotadas pelo país na busca de
soluções para o incremento da produção e produtividade agrária e das condições de vida de
modo competitivo e sustentável (Sitoe, 2010). A proposta é que a tecnologia seria implementada
por meio do uso de sementes melhoradas, fertilizantes, instrumentos de produção, tecnologias
de produção adequadas à realidade local e mecanização agrícola. Porém, isso não ocorreu, e tal
como em muitos países, em Moçambique a implementação da Revolução Verde mostrou
preocupações relativas aos problemas com o meio ambiente e a desigualdade social (Sitoe,
2010). Além disso, foi um modelo baseado em conjunturas internacionais, isto é, em padrões
da industrialização e modernização da agricultura, contrapondo os sistemas de produção locais.
O contexto da Revolução Verde aqui apresentado tem como objetivo mostrar que a
implementação de modelos de produção (modernização) baseados em padrões internacionais
pode gerar insucesso em outros países, particularmente nos países em desenvolvimento,
principalmente quando não são criadas estruturas sociais, culturais, econômicas e ambientais
de fazê-lo. Mesmo diante da experiência da Revolução Verde, não se destaca claramente no
PEDSA os tipos de tecnologias a serem implementadas, podendo estas além de prejudicar o
meio ambiente, mostrarem incompatibilidade com o contexto local.
Os entrevistados foram unânimes em afirmar que o problema não se reflete apenas no
PEDSA, mas em outras diversas políticas, em que são definidas ações estratégicas com base
em modelos de outros países. Essa questão é claramente ilustrada pela fala de um dos
entrevistados ao afirmar que:
Geralmente as políticas e estratégias implementadas muitas das vezes não refletem
a realidade nacional, não levam em consideração a conjuntura ou características do
país (sociais, culturais, econômicas e até ambientais). É só ver a estratégia da
Revolução Verde, que foi um programa importado que teve sucessos em outros
países, mas em Moçambique foi um fracasso total (Entrevistado 02).
No entanto, isto tem se verificado não somente as tecnologias, mas também algumas
metas e ações estratégicas definidas são baseadas em padrões não adequados à realidade
moçambicana. Nesse sentido, percebe-se que não se trata de tecnologia somente do ponto de
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vista econômico, mas também do ponto de vista social, ambiental, cultural, institucional, entre
outros. Um dos fatores por detrás deste insucesso está relacionado a pesquisa, que é um fator
crítico para garantir que as tecnologias importadas sejam compatíveis com as especificidades
locais, de tal modo que é necessária uma avaliação prévia do tipo de tecnologia e dos seus
beneficiários (Altieri, 2009).
Logo, a pesquisa, disseminação e adoção de tecnologias melhoradas são cruciais para
garantir o êxito da modernização tecnológica. A visão do PEDSA para a questão da pesquisa é
ilustrada nos seguintes trechos:
Aumentar o número de agricultores com conhecimentos teóricos e práticos de
aplicação de tecnologias que promovam a produtividade e o crescimento agrícola,
manuseamento pós-colheita e comercialização de produtos agrícolas, através do
reforço dos sistemas de extensão e pesquisa e do estabelecimento de unidades
demonstrativas para a transferência de tecnologias. (Moçambique, 2011, p. 36).
Dar prioridade à investigação focalizada na produtividade agrária, especialmente no
que se refere a sementes melhoradas e materiais para plantio, controle de doenças
das plantas e dos animais, desenvolvimento de pastos melhorados, melhoramento
dos métodos de cultivo e de criação de animais, e desenvolvimento de tecnologias
eficientes [...] (Moçambique, 2011, p. 37).
Analisando estes dois trechos, percebe-se que a visão da pesquisa colocada no PEDSA,
está centrada apenas a dimensão econômica. Isto faz com que se pense na modernização
tecnológica apenas para o aumento da produção, quando na realidade, embora a modernização
tecnológica seja crucial, por si própria não é suficiente para a transformação profunda e
desenvolvimento da agricultura, havendo necessidade de considerar conjuntamente outros
fatores tais como sociais, econômicos, ambientais, institucionais e culturais. A esta visão,
afirmam Caporal e Costabeber (2004) que a agricultura parte de relações sociais que se
desenvolvem entre os indivíduos, de tal modo que o processo tecnológico deve ser baseado em
sistemas econômicos que não desvalorizam os saberes, conhecimentos e experiências dos
agricultores.
Destaca-se ainda na dimensão econômica a componente da segurança alimentar. Esta
componente representa um dos objetivos mais importantes do desenvolvimento rural e agrícola
sustentável. Além disso, a segurança alimentar está aliada ao crescimento da população mundial
que consequentemente afeta a forma como os recursos naturais são explorados (Grindle et al.,
2015). O objetivo definido no PEDSA para o alcance da segurança alimentar visa promover a
assistência técnica para melhoria das práticas agrícolas que influenciam a qualidade da
produção, incluindo o valor nutritivo. Para tal, prevê-se a produção e diversificação de
alimentos, especialmente alimentos básicos, para melhorar a situação de segurança alimentar e
nutricional da população, reduzindo-se assim os níveis de má nutrição crônica.
No entanto, embora o aumento da produção e produtividade definido no primeiro
objetivo do PEDSA seja fundamental para melhorar a situação da segurança alimentar em
Moçambique, há que se considerar que por si só não é suficiente, pois, embora gere aumentos
na receita dos agricultores, não significa que a população esteja tendo acesso a quantidades
suficientes de alimentos e de alto valor nutritivo. Assim, é fundamental que a questão não seja
tratada de forma isolada como é feito no PEDSA. Conforme afirmam Baccar et al. (2019), é
preciso assegurar ao mesmo tempo a sustentabilidade social, bem como o uso sustentável dos
recursos naturais, e de forma mais completa a inserção conjunta das dimensões da
sustentabilidade nas políticas públicas.
Afirma Schwoob (2014) que alguns problemas decorrentes da insegurança alimentar
são originários das práticas agrícolas insustentáveis. Por isso, a agricultura sustentável revela-
se importante não só para o alcance da segurança alimentar, mas também para a redução da
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pobreza e o alcance dos objetivos de desenvolvimento sustentável (Adenle et al., 2017;
Cavatassi, 2010; Silici et al. 2015; Slimane, 2012; Vieitis, 2010), de tal modo que só se tornará
possível se as políticas e estratégias voltadas para o desenvolvimento do setor priorizaram mais
do que questões econômicas.
Por fim, foram analisados na dimensão econômica os aspectos relativos à coordenação
intersetorial, fundamental não apenas para o aumento da produção, mas também para a
segurança alimentar e o desenvolvimento sustentável. Ao analisar a coordenação intersetorial
no PEDSA, verificou-se que os seus objetivos neste âmbito estão inseridos no seu quarto pilar
estratégico relativo ao fortalecimento das instituições agrárias. Todavia, ao se analisar
detalhadamente as ações estratégicas para este componente, verificou-se que as mesmas estão
limitadas à promoção de associações e cooperativas de produtores, o que embora seja
importante, não é suficiente para definir uma efetiva coordenação intersetorial. Consta ainda no
plano apenas uma ação de coordenação entre as instituições, porém, limitada as instituições dos
parceiros de desenvolvimento em segurança alimentar e nutricional e não necessariamente aos
principais atores do setor público como é o caso do Ministério da Coordenação Ambiental,
Ministério da Agricultura, Ministério da Indústria, entre outros.
Portanto, de modo geral, não estão indicadas estratégias claras no PEDSA sobre como
a coordenação entre as principais instituições pode ser alcançada, mesmo que haja um
reconhecimento de que todos os programas para a promoção das práticas sustentáveis vão além
das instituições específicas, envolvendo outros centros de formulação de políticas.
5 CONSIDERAÇÕES FINAIS
O setor agrário desempenha um papel inquestionável na economia de Moçambique,
gerando emprego e renda para a maioria da população que reside no meio rural. As crescentes
necessidades de alimentos, impõem a busca de soluções que contribuam para o aumento da
produção e produtividade, o que deve ser acompanhado por medidas de redução dos impactos
ambientais. As práticas agrícolas sustentáveis são fundamentais para fazer face a estes desafios,
de tal forma que devem ser integradas nas políticas públicas de todo mundo.
A análise mostrou que tal como em outras políticas, existe no PEDSA uma preocupação
em atender as questões da sustentabilidade, pelo menos no que tange as dimensões econômica,
social e ambiental. A dimensão econômica foi muito abordada no plano, e a sua integração está
voltada ao aumento da produção e produtividade. Esta dimensão não somente se faz sentir como
principal ponto abordado, mas também se reflete no financiamento do programa, demonstrado
por meio do PNISA e do PODA, onde mais de 85% dos recursos financeiros são destinados a
atender aspectos econômicos (produção, produtividade e mercados) em detrimento dos sociais
e ambientais.
No entanto, este objetivo de aumento da produção e produtividade é alcançado pela
inovação tecnológica, de tal modo que o plano reforça a busca contínua de tecnologias que
impactem positivamente no crescimento da produção. Todavia, constatou-se que no plano as
tecnologias por si só são reconhecidas como suficientes para alcançar este objetivo. Assim,
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inovação tecnológica referida no plano acaba apresentando um viés totalmente econômico,
fazendo com que as especificidades locais bem como os impactos ambientais sejam
desconsiderados neste processo.
Estas lacunas acontecem em um momento em que o país possui experiências no que se
refere a importação de tecnologias, e reforçam os entrevistados que a situação tende a
prevalecer, resultando no insucesso de algumas políticas. De igual modo, na questão da
segurança alimentar, é trazido no PEDSA que esta será assegurada somente pelo aumento da
produção, quando na realidade a segurança alimentar é mais do que isso, requerendo que a
população tenha acesso não apenas a quantidade de alimentos suficientes, mas também a
qualidade, isto é, alimentos de alto valor nutritivo. A coordenação intersetorial mostrou-se
pouco presente no PEDSA, o que pode comprometer o alcance dos seus objetivos, visto que a
sustentabilidade requer o envolvimento dos diferentes atores do setor público.
Similarmente à dimensão econômica, diversos aspectos relativos à dimensão ambiental
foram abordados no PEDSA, mostrando uma preocupação com esta dimensão, por meio da
criação de mecanismos para assegurar que os recursos naturais, em particular os recursos
destinados à agricultura, sejam usados de forma sustentável, gerando benefícios para as
comunidades, e, sobretudo contribuam para a redução da pobreza. Tudo o que foi apresentado
no plano sobre esta dimensão é de grande relevância para o contexto dos países em
desenvolvimento como é o caso de Moçambique. São abordagens da agricultura sustentável,
que segundo os entrevistados são mais do que necessárias atualmente, pela sua rentabilidade e
sustentabilidade, mesmo que os seus resultados sejam de longo prazo.
No entanto, embora a questão ambiental tenha sido valorizada no plano, a sua
perspectiva parece mais para dar suporte a dimensão econômica e não necessariamente porque
ela é essencial. Nisto, analisando o financiamento desta dimensão no PNISA e no PODA, que
é de cerca de 2% do valor global, observa-se que a relevância desta dimensão parece mais
retórica, isto é, um discurso governamental, reforçando a ideia que a dimensão econômica
prevalece nas políticas, desequilibrando o modelo de sustentabilidade.
Quanto a dimensão social, em síntese, verificou-se que embora o plano preze pela
equidade social tal como é ilustrado no seu objetivo geral, faltou clareza na questão da igualdade
no acesso aos recursos, sobre a priorização das mulheres, em particular no acesso ao crédito
que constitui um dos principais entraves ao desenvolvimento do setor. Por fim, a dimensão
cultural não se fez sentir no PEDSA, levando a mesma conclusão constatada pelos
entrevistados, de que todas as ações visando a sustentabilidade econômica, social e ambiental
são implementadas ignorando os hábitos e costumes locais, ou seja, ignorando o fato de que o
agricultor local é quem possui o conhecimento do campo, do solo, do contexto social e cultural.
De modo geral, baseando-se no pressuposto de que a agricultura sustentável deve ser
ecologicamente correta, economicamente viável, socialmente justa, resiliente ao clima,
culturalmente sólida, foi possível constatar que os conteúdos apresentados no PEDSA limitam-
se as tradicionais dimensões da sustentabilidade (econômica, social e ambiental), mesmo que a
dimensão econômica tenha prevalecido. Ao mesmo tempo, estas dimensões parecem estar
sendo incorporadas de forma isolada, uma das razões pela qual existe uma discrepância muito
grande em termos de financiamento de cada um dos componentes.
Portanto, existem muitos desafios a serem vencidos e o governo de Moçambique como
principal ator social responsável pela formulação de políticas públicas, deve rever os conceitos,
readaptá-los e assim priorizar a implementação de políticas que promovam a sustentabilidade
nas suas distintas dimensões. Somente por meio da implementação de políticas que promovam
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práticas agrícolas cada vez mais sustentáveis, poderá se garantir a resiliência e sustentabilidade
dos recursos naturais.
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