AgRg no RECURSO EM HABEAS CORPUS Nº 184142 - GO (2023/0250812-1)
RELATOR : MINISTRO RIBEIRO DANTAS
AGRAVANTE : FLAVIO SANTANA RASSI
ADVOGADO : ROMERO FERRAZ FILHO - DF040299
AGRAVADO : MINISTÉRIO PÚBLICO DO ESTADO DE GOIÁS
EMENTA
PENAL E PROCESSO PENAL. AGRAVO REGIMENTAL NO
RECURSO EM HABEAS CORPUS. 1. INQUÉRITO POLICIAL.
CRIME DE ESTELIONATO. NEGOCIAÇÃO COMERCIAL.
VÍTIMA QUE TERIA SIDO INDUZIDA A ERRO. 2. FRAUDE NÃO
INDICADA. AUSÊNCIA DE MATERIALIDADE. DÍVIDA
HIPOTECÁRIA DO DEVEDOR/VÍTIMA. VALOR DEVIDO DE SEU
CONHECIMENTO. INFORMAÇÃO QUE PODERIA SER OBTIDA
POR MEIOS PRÓPRIOS. 3. CONTROVÉRSIA EM DISCUSSÃO NA
SEARA CÍVEL. CARÁTER FRAGMENTÁRIO DO DIREITO
PENAL. AUSÊNCIA DE ELEMENTAR DO TIPO PENAL. 4.
AGRAVO REGIMENTAL PROVIDO PARA DAR PROVIMENTO
DO RECURSO E TRANCAR O INQUÉRITO POLICIAL.
1. Sem necessidade de revolvimento de fatos e provas, é possível
identificar que, durante as negociações para compra de uma fazenda,
verificou-se a existência de débitos avaliados em 4 milhões de reais,
motivo pelo qual se reservou referido valor para que o vendedor pudesse
negociar as dívidas, que seriam pagas pelo comprador com referidos
valores, remanescendo o saldo ao vendedor. Contudo, não tendo o
vendedor conseguido se desvincular das dívidas, sobrevindo, inclusive,
mandado de avaliação do imóvel, optou-se por uma novação contratual,
com o pagamento 1,7 milhão de reais ao vendedor, e a assunção da
dívida pelo comprador, condicionando-se a conclusão do negócio à
efetiva quitação dos débitos pelo comprador.
- Assim, o ora paciente, que é advogado do comprador, acertou com
este que resolveria as pendências por 3,5 milhões de reais, tendo assim,
realizado a quitação dos débitos que recaíam sobre a fazenda objeto da
compra e venda, por meio da compra do crédito hipotecário da
Travessia Securitizadora de Créditos.
- A alegação da vítima diz respeito ao fato de ter assinado um aditivo
contratual com a informação de que o débito perante a Securitizadora
seria de 3,5 milhões de reais, anuindo em receber valores menores em
sede de ajuste final, revelando, assim, a seu ver, que foi induzida a erro.
2. Após uma leitura cuidadosa da portaria que instaurou o inquérito
policial bem como das informações prestadas pela autoridade policial,
não é possível identificar em que consistiria o meio fraudulento
utilizado pelo paciente para induzir a vítima em erro.
- Como é de conhecimento, o tipo penal de estelionato, previsto no art.
171, caput, do Código Penal, dispõe que é crime "Obter, para si ou para
outrem, vantagem ilícita, em prejuízo alheio, induzindo ou mantendo
alguém em erro, mediante artifício, ardil, ou qualquer outro meio
fraudulento: (...)". Portanto, não se indicando em que consistiria o meio
fraudulento utilizado pelo paciente para induzir a suposta vítima em
erro, não se encontram minimamente preenchidos os elementos do tipo
penal, esvaziando, assim, a materialidade e impedindo, por óbvio, a
instauração de um inquérito policial.
- Relevante anotar que a narrativa trazida para justificar a instauração do
inquérito demonstra, por si só, a ausência de justa causa para o
procedimento investigatório, uma vez que não é crível que em uma
negociação de 10 milhões de reais, o vendedor, e também devedor
hipotecário, não tenha conhecimento do valor devido nem tenha
buscado a informação por meios próprios.
3. "Embora direito civil e penal tutelem o patrimônio, tem-se que apenas
algumas condutas são tipificadas criminalmente pelo ordenamento
jurídico, haja vista o caráter fragmentário do direito penal. Nessa linha
de intelecção, à míngua da efetiva demonstração da fraude e do erro, a
conduta do paciente se revela atípica, não autorizando, portanto, a
intervenção do Direito Penal". (HC n. 676.483/AP, relator Ministro
Reynaldo Soares da Fonseca, Quinta Turma, julgado em 17/8/2021, DJe
de 20/8/2021.)
4. Agravo regimental a que se dá provimento, para dar provimento ao
recurso em habeas corpus, concedendo a ordem para trancar o
inquérito policial, sem prejuízo de renovação das investigações, acaso
efetivamente identificada eventual fraude.
ACÓRDÃO
Vistos e relatados estes autos em que são partes as acima indicadas,
prosseguindo no julgamento, a Turma, por maioria, deu provimento ao agravo regimental
e ao recurso em habeas corpus, nos termos do voto do Sr. Ministro Reynaldo Soares da
Fonseca, que lavrará o acórdão.
Votaram com o Sr. Ministro Reynaldo Soares da Fonseca os Srs. Ministros
Joel Ilan Paciornik, Messod Azulay Neto e Daniela Teixeira.
Votou vencido o Sr. Ministro Ribeiro Dantas.
Brasília, 05 de dezembro de 2023.
Ministro REYNALDO SOARES DA FONSECA
Relator
Superior Tribunal de Justiça
AgRg no RECURSO EM HABEAS CORPUS Nº 184.142 - GO (2023/0250812-1)
RELATOR : MINISTRO RIBEIRO DANTAS
AGRAVANTE : FLAVIO SANTANA RASSI
ADVOGADO : ROMERO FERRAZ FILHO - DF040299
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RELATÓRIO
O EXMO. SR. MINISTRO RIBEIRO DANTAS (Relator):
Trata-se de agravo regimental interposto por FLAVIO SANTANA RASSI
contra decisão que negou provimento ao recurso em habeas corpus.
Em suas razões, o agravante reitera a argumentação de ausência de justa causa
para o inquérito policial, diante da atipicidade da conduta.
Explica que o contrato verbal foi inteiramente pago, nos termos do art. 107 do
Código Civil.
Afirma que o Delegado de Polícia Civil apresentou relatório final conclusivo no
sentido de que não havia indícios suficientes de autoria e materialidade.
Argumenta que o inquérito encontra-se baseado no imaginário pessoal da suposta
vítima, pois não há vantagem ilícita e tampouco prejuízo alheio a serem esclarecidos.
Requer a reconsideração da decisão ou a submissão do agravo à apreciação pela
Quinta Turma.
Pugna pelo direito de realizar sustentação oral.
É o relatório.
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AGRAVANTE : FLAVIO SANTANA RASSI
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EMENTA
AGRAVO REGIMENTAL NO RECURSO EM HABEAS CORPUS.
ESTELIONATO. INQUÉRITO POLICIAL. TRANCAMENTO. AUSÊNCIA
DE FLAGRANTE ILEGALIDADE. INDÍCIOS DE AUTORIA E
MATERIALIDADE. AGRAVO REGIMENTAL DESPROVIDO.
1. O trancamento do inquérito policial por meio do habeas corpus é medida
excepcional. Por isso, somente será cabível quando houver inequívoca
comprovação da atipicidade da conduta, da incidência de causa de extinção da
punibilidade ou da ausência de indícios de autoria ou de prova sobre a
materialidade do delito.
2. In casu, não há flagrante ilegalidade que justifique, no caso concreto, o
trancamento do inquérito policial em sede de habeas corpus. A vítima
comunicante, Daniel Domingues reclama de ter sido enganado em negociação de
propriedade rural situada em Abadiânia - GO. Há indícios de que o suspeito
detinha informações preliminares sobre quanto pagaria na resolução da dívida da
hipoteca sobre o referido imóvel e, ainda assim, omitido esse fato da vítima. O
Delegado de Polícia compreendeu que esse e outros fragmentos da dinâmica
negocial poderiam evidenciar dolo caracterizador do crime de estelionato.
3. Não parece razoável admitir que o Judiciário termine por cercear as atividades
investigativas da polícia, salvo se manifestamente demonstrada a presença de
constrangimento ilegal, o que não restou constatado na espécie.
4. Havendo indícios de autoria e materialidade e narrativa de fatos que, em tese,
são típicos, há necessidade de continuidade e aprofundamento das investigações.
5. Se as instâncias ordinárias, com fundamento em elementos de convicção
colhidos nos autos, reconheceram a presença de justa causa para as
investigações, para afastar tal conclusão seria necessário revolver o contexto
fático-probatório, providência que não se coaduna, a toda evidência, com a via
estreita do habeas corpus. Do mesmo modo se diga quanto ao reconhecimento
da atipicidade da conduta, que também exige profundo exame do contexto
probatório dos autos.
6. Agravo regimental desprovido.
Documento: 217669394 - EMENTA, RELATÓRIO E VOTO - Site certificado Página 2 de 4
Superior Tribunal de Justiça
VOTO
O EXMO. SR. MINISTRO RIBEIRO DANTAS (Relator):
O agravo não comporta provimento.
Como explanado na decisão agravada, o trancamento do inquérito policial por
meio do habeas corpus é medida excepcional. Por isso, somente será cabível quando houver
inequívoca comprovação da atipicidade da conduta, da incidência de causa de extinção da
punibilidade ou da ausência de indícios de autoria ou de prova sobre a materialidade do delito.
Conforme se depreende da manifestação da Sétima Procuradoria de Justiça e do
parecer do Ministério Público Federal, não há flagrante ilegalidade que justifique, no caso
concreto, o trancamento do inquérito policial em sede de habeas corpus.
In casu, a vítima comunicante, Daniel Domingues reclama de ter sido enganado
em negociação de propriedade rural situada em Abadiânia - GO. Há indícios de que o suspeito
detinha informações preliminares sobre quanto pagaria na resolução da dívida da hipoteca sobre o
referido imóvel e, ainda assim, omitido esse fato da vítima. O Delegado de Polícia compreendeu
que esse e outros fragmentos da dinâmica negocial poderiam evidenciar dolo caracterizador do
crime de estelionato.
Nos termos do acórdão a quo:
O procedimento apuratório em desfavor do paciente, instaurado no dia
01/02/23, mediante a comunicação da suposta vítima, objetiva esclarecer a
ocorrência de ato ilícito, estelionato, a possibilidade de ter sido induzida a
erro, ao assinar um aditivo contratual, referente à negociação de obrigação
contratual decorrente da venda de uma propriedade rural, em razão de
informação falsa fornecida pelo paciente, o valor da dívida hipotecária do
imóvel, obtendo vantagem financeira indevida em desfavor da vítima, a
necessidade de investigação dos fatos, comportamento com feição penal,
inviável o encerramento prematuro. (e-STJ, fl. 479)
Sendo assim, não parece razoável admitir que o Judiciário termine por cercear as
atividades investigativas da polícia, salvo se manifestamente demonstrada a presença de
constrangimento ilegal, o que não restou constatado na espécie.
Constatada a existência de indícios de autoria e materialidade, havendo narrativa
de fatos que, em tese, são típicos, há necessidade de continuidade e aprofundamento das
investigações.
Consoante registrado pela Sétima Procuradoria de Justiça de Goiás, "não se
verifica a ausência de atipicidade, porquanto constatada a presença de lastro probatório mínimo,
afigura-se a justa causa para que o procedimento investigatório em trâmite tenha o devido
prosseguimento, até porque a peça exordial acusatória é que apontará, de forma definitiva, a
modalidade da ação delitiva com sequência dos fatos, enquanto o inquérito policial não passa de
um trabalho investigatório, preliminar, que desenvolvido dentro de uma normalidade não importa
em ilegalidade manifesta." (e-STJ, fl. 434).
E repita-se, se as instâncias ordinárias, com fundamento em elementos de
convicção colhidos nos autos, reconheceram a presença de justa causa para as investigações,
para afastar tal conclusão seria necessário revolver o contexto fático-probatório, providência que
não se coaduna, a toda evidência, com a via estreita do habeas corpus. Do mesmo modo se diga
quanto ao reconhecimento da atipicidade da conduta, que também exige profundo exame do
Documento: 217669394 - EMENTA, RELATÓRIO E VOTO - Site certificado Página 3 de 4
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contexto probatório dos autos.
Diante do exposto, nego provimento ao agravo.
É como voto.
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VOTO-VISTA
Trata-se de recurso em habeas corpus interposto por FLÁVIO SANTANA
RASSI contra acórdão do Tribunal de Justiça do Estado de Goiás, ementado nos
seguintes termos (e-STJ fl. 481):
HABEAS CORPUS. PROCEDIMENTO INQUISITIVO. TRANCAMENTO.
CONDUTA COM FEIÇÃO PENAL. NECESSIDADE DE APURAÇÃO.
AUSÊNCIA DE ILEGALIDADE. A existência de prova da materialidade e dos
indícios da autoria de conduta que se mostra penalmente relevante, expõe
justa causa para a instauração do inquérito policial, inviabilizando o
trancamento por habeas corpus, o procedimento constitucional não autoriza o
mergulho aprofundado no universo dos elementos de convicção, para a
aferição do que ali produzido, objetivando o abortamento da apuração
inquisitorial. ORDEM DENEGADA.
No presente recurso, a defesa aduz, em síntese, que foi instaurado inquérito
policial, em 1º/2/2023, para apurar suposto crime de estelionato, referente à negociação
de uma fazenda. Assevera, no entanto, que a investigação é carente de justa causa,
destacando que nunca possuiu relação com a suposta vítima, porquanto era apenas o
advogado do comprador. Afirma, no mais, que não se identificam os elementos do fato
típico do crime de estelionato, cuidando-se de dados que devem ser debatidos na seara
cível.
Pugna pelo trancamento do inquérito, por manifesta atipicidade da conduta.
O Relator, eminente Ministro Ribeiro Dantas, negou provimento ao recurso
em habeas corpus, em 8/9/2023, e, na sessão do dia 21/11/2023, proferiu voto no sentido
do não provimento do agravo regimental.
Pedi vista antecipada dos autos para melhor examinar a matéria.
Passo a tecer meus comentários.
Compulsando os autos, verifico que o Magistrado de origem manteve a
tramitação do inquérito policial, explicitando que, "da análise dos autos verifico a
presença de indícios suficientes a embasar a instauração do referido inquérito policial,
pela suposta prática do crime estelionato, conforme narrado pela autoridade policial" (e-
STJ fl. 415).
O Tribunal de origem, por seu turno, registrou que (e-STJ fl. 479):
O procedimento apuratório em desfavor do paciente, instaurado no dia
01/02/23, mediante a comunicação da suposta vítima, objetiva esclarecer a
ocorrência de ato ilícito, estelionato, a possibilidade de ter sido induzida a
erro, ao assinar um aditivo contratual, referente à negociação de obrigação
contratual decorrente da venda de uma propriedade rural, em razão de
informação falsa fornecida pelo paciente, o valor da dívida hipotecária do
imóvel, obtendo vantagem financeira indevida em desfavor da vítima, a
necessidade de investigação dos fatos, comportamento com feição penal,
inviável o encerramento prematuro.
A existência de prova da materialidade e dos indícios da autoria de conduta
que se mostra penalmente relevante, expõe justa causa para a instauração do
inquérito policial, inviabilizando o trancamento por habeas corpus, o
procedimento constitucional não autoriza o mergulho aprofundado no
universo dos elementos de convicção, para a aferição do que ali produzido,
objetivando o abortamento da apuração inquisitorial.
A propósito, considero relevante transcrever, ainda, a portaria de instauração
do procedimento policial (e-STJ fls. 477/478):
A Polícia Civil do Estado de Goiás, através do Delegado de Polícia Adriano
Sousa Costa, infra-assinado, no exercício das atribuições legais, resolve, por
intermédio do RAI nº 27974466, após análise das informações acerca da
hipotética prática criminosa, a qual passa a ser capitulada, em tese, no artigo
171, § 5º, do Código Penal Brasileiro, instaurar o presente inquérito.
Constam dos autos que a vítima comunicante, Daniel Domingues,
representado por Rafael de Araújo Domingues, reclama de ter sido
enganado em face de negociação acerca de propriedade rural situada em
Abadiânia/GO. E toda essa situação teria ficado mais evidente à medida que
houve debate jurídico na 6ª Câmara Cível de Goiânia (inclusive com
apresentação de documentos), onde a disputa patrimonial poderia ser
finalizada (concretizando definitivamente o prejuízo patrimonial da vítima).
Em apertada síntese, tudo gira em tomo de negócio de imóvel gravado de
hipoteca, em face da qual reservaram-se R$ 4.000.000,00 (quatro milhões)
para custearem débitos da referida propriedade (obrigações propter rem).
Ou seja, o numerário não foi recebido pela vítima-vendedora quando da
venda da propriedade, tendo sido deixado à disposição do comprador para
quitar tais débitos. Então, o valor teria sido deixado como garantia de que
tais dívidas e que, em havendo valores remanescentes após tal quitação, os
valores seriam ressarcidos à vítima. Fato é que, ao longo das tratativas, a
vítima aponta para um cenário em que Flávio Rassi pode ter pago um valor
muito menor do que R$ 3.500.000,00. Segundo consta, a vítima nunca mais
teria recebido notícias sobre o valor pago na quitação do referido débito.
Instaurou-se inicialmente a VPI n. 01/2023 – 4º DP, a qual visava a
esclarecer se o fato em tela era mero desacordo comercial ou se tratava-se de
estelionato. O Delegado subscritor após ouvir preliminarmente a vítima e o
hipotético suspeito, anotou prazo para que este apresentasse elemento
comprobatório de quando teria se iniciado a negociação do até então
hipotético suspeito com a empresa Travessia. A ideia era esclarecer se o
hipotético suspeito detinha informações preliminares sobre quanto pagaria na
resolução da dívida da hipoteca e, ainda assim, omitido isso da vítima. Esse e
outros fragmentos da dinâmica negocial poderiam evidenciar dolo ab initio,
o que caracteriza o crime de estelionato. De toda forma, não foi apresentado
pelo até então hipotético investigado Flávio Rassi um elemento cabal sobre a
inexistência de infração penal. Dessa forma, após verificada a elementar
procedência das informações trazidas pela vítima, existindo, portanto,
elementos mínimos sobre hipotética prática de crime de estelionato,
determino a instauração de Inquérito Policial para apuração pormenorizada
dos fatos noticiados, com fulcro no art. 5º, inciso I, do Código de Processo
Penal. Ordeno, portanto, o registro e a autuação desta peça e a instauração
do inquérito policial respectivo. Deliberou-se pela atribuição desta Unidade
Policial (que tem circunscrição vinculada a fatos ocorridos no Setor Bueno,
Setor Oeste e Setor Coimbra) pelo fato de a causa estar sendo discutida na 6ª
Câmara Cível (documentos foram apresentados) e onde o prejuízo poderia
ter se concretizado em caráter definitivo (a referida Câmara fica situada no
Fórum do Setor Oeste); pelo fato de o endereço do investigado Flávio ser no
Setor Oeste (Rua 3, Setor Oeste); e, por fim, pela prevenção (por ter sido esta
unidade a primeira a conhecer da demanda). Nesses termos, já que a vítima
manifestou o desejo de representar criminalmente em desfavor do suposto
autor (ainda que sua idade excepcione tal necessidade), determino a
instauração do Inquérito Policial.” (fls. 333/334).
De uma leitura atenta da portaria, verifica-se que, na negociação da fazenda,
foi reservado o valor de "R$ 4.000.000,00 (quatro milhões) para custearem débitos da
referida propriedade (obrigações propter rem)", valor que ficou "à disposição do
comprador para quitar tais débitos". Consta, ainda, que "havendo valores remanescentes
após tal quitação, os valores seriam ressarcidos à vítima". Contudo, a vítima afirma
que o paciente "pode ter pago um valor muito menor" e que "nunca mais teria recebido
notícias sobre o valor pago na quitação do referido débito".
Buscou-se, assim, "esclarecer se o hipotético suspeito detinha informações
preliminares sobre quanto pagaria na resolução da dívida da hipoteca e, ainda assim,
omitido isso da vítima. Esse e outros fragmentos da dinâmica negocial poderiam
evidenciar dolo ab initio, o que caracteriza o crime de estelionato. De toda forma, não
foi apresentado pelo até então hipotético investigado Flávio Rassi um elemento cabal
sobre a inexistência de infração penal". Destacou-se, por fim, o "fato de a causa estar
sendo discutida na 6ª Câmara Cível (documentos foram apresentados)".
Nas palavras da autoridade policial (e-STJ fl. 512):
Observa-se que "o que está em apuração neste procedimento policial, é a
possibilidade da vítima DANIEL DOMINGUES ter sido induzida a erro, ao
assinar o Aditivo contratual no dia 22/08/2022, com a informação de que o
débito perante a Securitizadora seria de R$ 3.500.000,00, anuindo em receber
valores menores em sede de ajuste final, visto que o valor efetivamente pago
para a empresa TRAVESSIA foi de R$ 858.826,00.
Existe a possibilidade, ainda não comprovada, que os envolvidos MARCELO
e FLÁVIO pudessem ter informações anteriores ao aditivo contratual, quanto
ao valor real da dívida hipotecária e, assim, ter obtido vantagem financeira
indevida em desfavor da vítima DANIEL”
Como visto, sem necessidade de revolvimento de fatos e provas, é possível
identificar que, durante as negociações para compra de uma fazenda, verificou-se a
existência de débitos, os quais foram avaliados em R$ 4.000.0000,00 (quatro milhões),
motivo pelo qual se reservou referido valor para que o vendedor pudesse negociar as
dívidas, que seriam pagas pelo comprador com referidos valores, remanescendo o saldo
ao vendedor.
Contudo, o recorrente afirma que, não tendo o vendedor conseguido se
desvincular das dívidas, sobrevindo, inclusive, mandado de avaliação do imóvel, optou-se
por uma novação contratual, com o pagamento de R$ 1.7000.000 (um milhão e
setecentos mil reais) ao vendedor, e a assunção da dívida pelo comprador,
condicionando-se a conclusão do negócio à efetiva quitação dos débitos pelo comprador.
Assim, o ora paciente, que é advogado do comprador, acertou com este que
resolveria as pendências por R$ 3.500.000 (três milhões e quinhentos mil reais), tendo
assim, realizado a quitação dos débitos que recaíam sobre a fazenda objeto da compra e
venda, por meio da compra do crédito hipotecário da Travessia Securitizadora de
Créditos.
A alegação da vítima diz respeito ao fato de ter assinado um aditivo contratual
com a informação de que o débito perante a Securitizadora seria de R$ 3.500.000,00 (três
milhões e quinhentos mil reais), anuindo em receber valores menores em sede de ajuste
final, revelando, assim, a seu ver, que foi induzida a erro.
Entretanto, após uma leitura cuidadosa da portaria que instaurou o inquérito
policial bem como das informações prestadas pela autoridade policial, não é possível
identificar em que consistiria o meio fraudulento utilizado pelo paciente para induzir
a vítima em erro.
Como é de conhecimento, o tipo penal de estelionato, previsto no art. 171,
caput, do Código Penal, dispõe que é crime "Obter, para si ou para outrem, vantagem
ilícita, em prejuízo alheio, induzindo ou mantendo alguém em erro, mediante
artifício, ardil, ou qualquer outro meio fraudulento: (...)".
Portanto, não se indicando em que consistiria o meio fraudulento utilizado
pelo paciente para induzir a suposta vítima em erro, não se encontram minimamente
preenchidos os elementos do tipo penal, esvaziando, assim, a materialidade e impedindo,
por óbvio, a instauração de um inquérito policial.
Relevante anotar que a narrativa trazida para justificar a instauração do
inquérito demonstra, por si só, a ausência de justa causa para o procedimento
investigatório, uma vez que não é crível que em uma negociação de 10 milhões de reais,
o vendedor, e também devedor hipotecário, não tenha conhecimento do valor devido nem
tenha buscado a informação por meios próprios.
Assim, "embora direito civil e penal tutelem o patrimônio, tem-se que apenas
algumas condutas são tipificadas criminalmente pelo ordenamento jurídico, haja vista o
caráter fragmentário do direito penal. Nessa linha de intelecção, à míngua da efetiva
demonstração da fraude e do erro, a conduta do paciente se revela atípica, não
autorizando, portanto, a intervenção do Direito Penal". (HC n. 676.483/AP, relator
Ministro Reynaldo Soares da Fonseca, Quinta Turma, julgado em 17/8/2021, DJe de
20/8/2021.)
No mesmo sentido:
PENAL E PROCESSO PENAL. EMBARGOS DE DECLARAÇÃO NO
AGRAVO REGIMENTAL NO AGRAVO EM RECURSO ESPECIAL.
INEXISTÊNCIA DE OMISSÃO, CONTRADIÇÃO, OBSCURIDADE OU
AMBIGUIDADE. EMBARGOS DE DECLARAÇÃO REJEITADOS.
CONCESSÃO DE HABEAS CORPUS DE OFÍCIO. ABSOLVIÇÃO. 1. "Em
essência, a oposição de embargos de declaração almeja o aprimoramento da
prestação jurisdicional por meio da integração de julgado que se apresenta
ambíguo, omisso, contraditório, obscuro ou com erro material (art. 619 do
CPP)." (EDcl no AgInt no REsp 1.601.757/SC, Rel. Ministro SEBASTIÃO
REIS JÚNIOR, SEXTA TURMA, julgado em 14/2/2017, DJe 23/2/2017). No
caso, não há vício a ser sanado. 2. A despeito do não acolhimento da
pretensão recursal, observa-se, pela leitura da sentença de primeiro grau e do
acórdão, a ocorrência de patente ilegalidade, o que importa em concessão de
ordem de habeas corpus de ofício. 3. Dos elementos fáticos probatórios
produzidos na origem, não existe a descrição de artifício, ardil, ou qualquer
outro meio fraudulento para induzir ou manter os proprietários em erro na
aquisição dos imóveis, mas, tão somente, de que o atraso na entrega do
empreendimento decorreu de "insucesso na administração da empresa, por
parte do seu real proprietário" (e-STJ, fl. 309), revelando a existência de
inadimplemento contratual. Dessa forma, não havendo elementos
indicativos de que o recorrente atuou com vontade de iludir outrem para
obter vantagem indevida, de rigor sua absolvição, por constituir o fato
narrado no acórdão de mero ilícito civil. 4. Destaco que os fatos apurados
neste processo são em todo similares àqueles de outras ações penais, nos
quais o embargante foi absolvido por este STJ, em decisões recentemente
transitadas em julgado. 5. Embargos de declaração rejeitados. Todavia,
concedo habeas corpus de ofício, a fim de absolver o acusado da imputação
da prática do crime capitulado no art. 171, caput, do Código Penal. (EDcl no
AgRg no AREsp n. 1.799.429/PR, relator Ministro Ribeiro Dantas, Quinta
Turma, julgado em 24/8/2021, DJe de 30/8/2021.)
RECURSO ESPECIAL. ESTELIONATO. FRAUDE NA ENTREGA DE
COISA. IMPRESCINDIBILIDADE DO ELEMENTO SUBJETIVO DO TIPO.
ATIPICIDADE. ABSOLVIÇÃO. RECURSO ESPECIAL PROVIDO. 1. Comete
o crime descrito no art. 171, § 2°, IV, do CP aquele que, juridicamente
obrigado a entregar coisa a alguém, adultera sua substância, qualidade ou
quantidade dolosamente, de forma a obter vantagem ilícita. 2. A expressão
defraudar pressupõe golpe ou farsa, mas o Tribunal a quo fez constar, tão
somente, que o depositário fiel entregou para o arrematante bens diversos
daqueles constantes do auto de penhora, sem descrever o elemento subjetivo
do tipo penal, pois não reconheceu a utilização de artifício, ardil ou outro
meio fraudulento para enganar a vítima e fazê-la receber produtos de
qualidade inferior. 3. Sem indicação mínima de que o recorrente agiu com a
vontade de iludir outrem para obter vantagem indevida, impõe-se sua
absolvição, por constituir o fato narrado no acórdão mero ilícito civil. 4.
Recurso especial provido para absolver o recorrente, com fulcro no art. 386,
III, do CPP. (REsp n. 1.698.785/SP, relator Ministro Rogerio Schietti Cruz,
Sexta Turma, julgado em 19/10/2017, DJe de 27/10/2017.)
Pelo exposto, peço vênia ao relator, para dar provimento ao agravo regimental
e ao recurso em habeas corpus, concedendo a ordem para trancar o inquérito policial,
sem prejuízo de renovação das investigações, acaso efetivamente identificada eventual
fraude.
É como voto.
TERMO DE JULGAMENTO
QUINTA TURMA
AgRg no RHC 184.142 / GO
Número Registro: 2023/0250812-1 PROCESSO ELETRÔNICO
MATÉRIA CRIMINAL
Número de Origem:
51077768620238090051 522345622 52234562220238090051
Sessão Virtual de 24/10/2023 a 30/10/2023
Relator do AgRg
Exmo. Sr. Ministro RIBEIRO DANTAS
Presidente da Sessão
Secretário
Me. MARCELO PEREIRA CRUVINEL
AUTUAÇÃO
RECORRENTE : FLAVIO SANTANA RASSI
ADVOGADOS : OTAVIO BATISTA ARANTES DE MELLO - DF015265
CARLA BETINI DE OLIVEIRA - DF031025
ROMERO FERRAZ FILHO - DF040299
RECORRIDO : MINISTÉRIO PÚBLICO DO ESTADO DE GOIÁS
ASSUNTO : DIREITO PENAL - CRIMES CONTRA O PATRIMÔNIO - ESTELIONATO
AGRAVO REGIMENTAL
AGRAVANTE : FLAVIO SANTANA RASSI
ADVOGADO : ROMERO FERRAZ FILHO - DF040299
AGRAVADO : MINISTÉRIO PÚBLICO DO ESTADO DE GOIÁS
SUSTENTAÇÃO ORAL
Dr(a). ROMERO FERRAZ FILHO, pela parte: AGRAVANTE: FLAVIO SANTANA RASSI.
TERMO
O presente feito foi retirado de pauta em 30/10/2023.
Brasília, 31 de outubro de 2023
Superior Tribunal de Justiça
CERTIDÃO DE JULGAMENTO
QUINTA TURMA
AgRg no
Número Registro: 2023/0250812-1 PROCESSO ELETRÔNICO RHC 184.142 / GO
MATÉRIA CRIMINAL
Números Origem: 51077768620238090051 522345622 52234562220238090051
PAUTA: 30/10/2023 JULGADO: 05/12/2023
Relator
Exmo. Sr. Ministro RIBEIRO DANTAS
Relator para Acórdão
Exmo. Sr. Ministro REYNALDO SOARES DA FONSECA
Presidente da Sessão
Exmo. Sr. Ministro MESSOD AZULAY NETO
Subprocuradora-Geral da República
Exma. Sra. Dra. MÔNICA NICIDA GARCIA
Secretário
Me. MARCELO PEREIRA CRUVINEL
AUTUAÇÃO
RECORRENTE : FLAVIO SANTANA RASSI
ADVOGADO : OTAVIO BATISTA ARANTES DE MELLO - DF015265
ADVOGADOS : CARLA BETINI DE OLIVEIRA - DF031025
ROMERO FERRAZ FILHO - DF040299
RECORRIDO : MINISTÉRIO PÚBLICO DO ESTADO DE GOIÁS
ASSUNTO: DIREITO PENAL - Crimes contra o Patrimônio - Estelionato
AGRAVO REGIMENTAL
AGRAVANTE : FLAVIO SANTANA RASSI
ADVOGADO : ROMERO FERRAZ FILHO - DF040299
AGRAVADO : MINISTÉRIO PÚBLICO DO ESTADO DE GOIÁS
CERTIDÃO
Certifico que a egrégia QUINTA TURMA, ao apreciar o processo em epígrafe na sessão
realizada nesta data, proferiu a seguinte decisão:
" Prosseguindo no julgamento, a Turma, por maioria, deu provimento ao agravo
regimental e ao recurso em habeas corpus, nos termos do voto do Sr. Ministro Reynaldo Soares
da Fonseca, que lavrará o acórdão."
Votaram com o Sr. Ministro Reynaldo Soares da Fonseca os Srs. Ministros Joel Ilan
Paciornik, Messod Azulay Neto e Daniela Teixeira.
Votou vencido o Sr. Ministro Ribeiro Dantas.
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Superior Tribunal de Justiça
CERTIDÃO DE JULGAMENTO
QUINTA TURMA
AgRg no
Número Registro: 2023/0250812-1 PROCESSO ELETRÔNICO RHC 184.142 / GO
MATÉRIA CRIMINAL
Números Origem: 51077768620238090051 522345622 52234562220238090051
PAUTA: 30/10/2023 JULGADO: 21/11/2023
Relator
Exmo. Sr. Ministro RIBEIRO DANTAS
Presidente da Sessão
Exmo. Sr. Ministro MESSOD AZULAY NETO
Subprocurador-Geral da República
Exmo. Sr. Dr. MÁRIO FERREIRA LEITE
Secretário
Me. MARCELO PEREIRA CRUVINEL
AUTUAÇÃO
RECORRENTE : FLAVIO SANTANA RASSI
ADVOGADO : OTAVIO BATISTA ARANTES DE MELLO - DF015265
ADVOGADOS : CARLA BETINI DE OLIVEIRA - DF031025
ROMERO FERRAZ FILHO - DF040299
RECORRIDO : MINISTÉRIO PÚBLICO DO ESTADO DE GOIÁS
ASSUNTO: DIREITO PENAL - Crimes contra o Patrimônio - Estelionato
AGRAVO REGIMENTAL
AGRAVANTE : FLAVIO SANTANA RASSI
ADVOGADO : ROMERO FERRAZ FILHO - DF040299
AGRAVADO : MINISTÉRIO PÚBLICO DO ESTADO DE GOIÁS
CERTIDÃO
Certifico que a egrégia QUINTA TURMA, ao apreciar o processo em epígrafe na sessão
realizada nesta data, proferiu a seguinte decisão:
"Após o voto do Sr. Ministro Relator negando provimento ao agravo regimental, pediu
vista antecipada o Sr. Ministro Reynaldo Soares da Fonseca."
Aguardam os Srs. Ministros Joel Ilan Paciornik, Messod Azulay Neto e João Batista
Moreira (Desembargador convocado do TRF1).
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