JURISPRUDÊNCIA ATUALIZADA DO STJ –
MARÇO/25
Tema 1186: Estupro de vulnerável. Crime no ambiente doméstico e familiar
contra a mulher. Vítima criança ou adolescente. Irrelevância. Prevalência da Lei
Maria da Penha sobre o critério etário. Competência da vara especializada em
violência doméstica e familiar contra a mulher.
O habeas corpus não é a via adequada para impugnar acórdão que indeferiu
pedido de conversão de julgamento em diligência para fins de realização de
estudo psicossocial, objetivando aferir a aptidão de terceiro interessado para o
exercício de guarda, tendo em vista que criança desabrigada após razoável
tempo e acolhida em família substituta não merece os transtornos de nova
modificação de sua guarda fática.
A gestante ou parturiente que manifeste o interesse de entregar seu filho para
adoção tem direito ao sigilo judicial em torno do nascimento e da entrega da
criança, inclusive em relação ao suposto genitor e à família ampla.
É juridicamente possível o pedido de reconhecimento de filiação socioafetiva
entre avós e neto, tendo em vista não haver qualquer vedação legal expressa
no ordenamento jurídico a esse respeito. Ausência de aplicação analógica do
artigo 42, § 1º, do ECA, que veda a adoção.
Mesmo em caso de comoriência, é cabível o direito de representação para fins
de identificação dos beneficiários de seguro de vida, quando o contrato é
omisso e os beneficiários são definidos pela ordem de vocação sucessória.
É competente a Justiça estrangeira para determinar a expedição de
passaportes e para as demais questões relacionadas à saída de crianças de
país no exterior quando este for o local de domicílio delas e de seus genitores.
Não é possível a unificação de medidas socioeducativas estipuladas em
remissão e em sentença que dá procedência à representação legal.
Inexiste interesse processual do Ministério Público para propor ação civil
pública com pedido de indenização por dano moral coletivo e dano social
contra casal que teria tentado realizar "adoção à brasileira", em detrimento do
procedimento previsto no Sistema Nacional de Adoção.
A representação processual de menor impúbere pode ser exercida em conjunto
pelos genitores ou separadamente, por cada um deles, ressalvadas as
hipóteses de destituição do poder familiar, ausência ou de potencial conflito de
interesses.
Não é do melhor interesse da criança e do adolescente o acolhimento em
abrigo institucional em detrimento do precedente acolhimento familiar,
ressalvadas as hipóteses em que o abrigo institucional imediato revela-se
necessário para evitar a formação de laços afetivos entre a criança e os
guardiães em conjuntura de possível adoção irregular, ou ainda quando houver
risco concreto à integridade física e psicológica do infante.
O termo inicial da prescrição nos casos de abuso sexual durante a infância e
adolescência não pode ser automaticamente vinculado à maioridade civil,
sendo essencial analisar o momento em que a vítima tomou plena ciência dos
danos em sua vida, aplicando-se a teoria subjetiva da actio nata.
Estupro de vulnerável. Divulgação de matéria jornalística em site de notícias.
Texto que relata fatos verídicos. Manchete que induz o leitor a atribuir conduta
ativa à vítima menor de idade. Conteúdo manifestamente ofensivo. Ato ilícito.
Ocorrência. Responsabilidade civil caracterizada. Comete ato ilícito, por abuso
de direito, o órgão de imprensa que, apesar de divulgar fato verídico e sem a
indicação de dados objetivos quanto aos partícipes do fato, relaciona a notícia
à manchete de caráter manifestamente ofensivo à honra da vítima de crime de
estupro de vulnerável, atribuindo à adolescente conduta ativa ante o fato
ocorrido, trazendo menções injuriosas a sua honra.
A conduta de estupro de vulnerável imputada a um jovem de 20 anos,
trabalhador rural e com pouca escolaridade, que se relacionou com uma
adolescente de 12 anos, que havia sido, em um primeiro momento, aceito pela
família da adolescente, sobrevindo uma filha e a efetiva constituição de núcleo
familiar, apesar de não estarem mais juntos como casal, embora formalmente
típica, não constitui infração penal, tendo em vista o reconhecimento da
ausência de culpabilidade por erro de proibição, bem como pelo fato de que se
deve garantir proteção integral à criança que nasceu dessa relação.
É possível a adoção de duas crianças por pessoa que mantém união
homoafetiva com companheira que antes já adotara os mesmos filhos.
A homologação de sentença estrangeira pelo Superior Tribunal de Justiça não
é, por si só, óbice à propositura de ação de modificação de guarda em território
nacional quando aqui estabelecidos os menores cujo interesse se discute em
juízo.
A negligência ou omissão dos genitores ante o grave abuso sexual configura
hipótese excepcional de destituição do poder familiar.
A regra do art. 43 do CPC pode ser superada, sempre em caráter excepcional,
quando se constatar que o juízo perante o qual tramita a ação não é adequado
ou conveniente para processá-la e julgá-la. Direito de família. Ações de guarda.
Conflito de competência. Teoria da derrotabilidade das normas. Superação das
regras. Excepcionalidade. Perpetuatio jurisdictionis. Registro ou distribuição.
Art. 43 do CPC. Existência de exceção implícita. Princípio da competência
adequada e forum non conveniens. Modificação da competência. Possibilidade.
Indícios de influências indevidas no juízo em que tramita a causa.
A desistência de adoção de criança na fase do estágio de convivência, após
significativo lapso temporal, não configura abuso de direito, quando os
candidatos a pais não possuam condições financeiras, somado ao fato de a
genitora biológica ter contestado o processo de adoção e ter requerido, por
sucessivas vezes, que a criança lhe fosse devolvida ou que lhe fosse deferido
o direito de visitação.
A Defensoria Pública pode ser intimada, de ofício, pelo Juízo para prestar
assistência às crianças e aos adolescentes vítimas de violência, nos
procedimentos de escuta especializada, sem que isso represente sobreposição
inconstitucional às funções do Ministério Público. Crimes contra crianças e
adolescentes. Intimação da Defensoria Pública para prestar assistência às
vítimas, de ofício. Presença em audiências de depoimentos especiais.
Ausência de ilegalidade. Atuação em conformidade com as funções
constitucionais e legais da Defensoria Pública. Direito da vítima à assistência
jurídica integral. Inexistência de confusão com as atribuições do Ministério
Público. Defesa dos direitos individuais e coletivos das crianças e
adolescentes.
Tema 1168: Os tipos penais trazidos nos arts. 241-A e 241-B do Estatuto da
Criança e do Adolescente são autônomos, com verbos e condutas distintas,
sendo que o crime do art. 241-B (adquirir, possuir ou armazenar conteúdo
pornográfico) não configura fase normal, tampouco meio de execução para o
crime do art. 241-A (divulgar conteúdo pornográfico), o que possibilita o
reconhecimento de concurso material de crimes.
Propõe-se o aperfeiçoamento da recente jurisprudência desta Corte, para
fixação das seguintes orientações:
a) em consonância com o art. 184 do ECA, oferecida a representação, a
autoridade judiciária designará audiência de apresentação do adolescente, e
decidirá, desde logo, sobre a decretação ou manutenção da internação
provisória e sobre a remissão, que pode ser concedida a qualquer tempo
antes da sentença;
b) é vedada a atividade probatória na audiência de apresentação, e
eventual colheita de confissão nessa oportunidade não poderá, de per se,
lastrear a procedência da representação;
c) diante da lacuna na Lei n. 8.069/1990, aplica-se de forma supletiva o art.
400 do CPP ao procedimento especial de apuração do ato infracional,
garantido ao adolescente o interrogatório ao final da instrução, perante o
Juiz competente, depois de ter ciência do acervo probatório produzido em seu
desfavor;
d) o novo entendimento é aplicável aos processos com instrução encerrada
após 3/3/2016, conforme julgado proferido pelo Supremo Tribunal Federal no
HC n. 127.900/AM, Rel. Ministro Dias Toffoli, Tribunal Pleno;
e) regra geral, para acolhimento da tese de nulidade, faz-se necessário que a
defesa a aponte em momento processual oportuno, quando o prejuízo à parte é
identificável por mero raciocínio jurídico, por inobservância do direito à
autodefesa.