A literatura da Guiné-Bissau1
Lílian Paula Serra e Deusi
Wellington Marçal de Carvalhoii
Estamos conscientes de que a literatura guineense teve uma aparição tardia,
[...], porém, ela está a florescer junto com seus autores.
Nesse sentido, ela é rica, ela é forte, ela é expressiva.
Eliseu José Pereira
2019
Na Guiné-Bissau o olhar para a terra, mediado pela literatura, se deu de maneira
peculiar; não pôde contar com a mesma força de movimentos político-literários como
houve em Cabo-Verde (Claridade-1936/1960), em Angola (Movimento dos Novos
intelectuais de Angola (MNIA)), cujo lema era Vamos descobrir Angola-1948/1952),
e em Moçambique (Msaho, 1952), em que ainda no período colonial houve
reivindicações importantes acerca das latentes demandas de cada um desses
espaços com relação à literatura. No caso da Guiné-Bissau, a ausência de escolas -
a primeira escola oficial de Bolama foi fundada somente em 1933 - impediu a criação
de embriões de movimentos literários, tal como aconteceu em Angola, Moçambique
e Cabo Verde. Outro fator que explica a tardia produção literária em Guiné-Bissau é
a Lei do Indigenato (1954), que impedia a participação dos nativos na escola, além
de suprimir-lhes diversos outros direitos.
Como sabido, a independência de Guiné-Bissau deu-se através da luta armada
contra o regime colonial, liderada pelo Partido Africano para a Independência da
Guiné-Bissau e de Cabo-Verde (PAIGC) estendendo-se por dez anos, desde seu
início em 1963. Há, em 1973 a declaração unilateral de independência, em virtude
do não reconhecimento de Portugal, que virá somente um ano depois, 1974. No
entanto, ainda que tenha havido o despertar para uma literatura pautada nos
valores, tradições e demandas da cultura guineense, através de movimentos
literários, há na formação da literatura guineense publicações que corroboram o
despontar da literatura no que tange ao ideal de consciência nacional.
A escritora Bissau-guineense Odete Semedo (2010), ao fazer análise do surgimento
da literatura guineense, ancora-se na teoria de Candido (2000), pautando-se,
sobretudo, nas premissas que estabelecem diferenças entre a ideia de sistema
literário e manifestações literárias. Segundo Antonio Candido (2000), a literatura de
um país deve ser entendida como um sistema integrado, em que há a formação de
uma continuidade literária, por conseguinte, de uma tradição. Já as manifestações
literárias, são individuais ou concernentes a pequenos grupos, em que não há a
formação de um sistema que possa se perfazer em uma tradição, constituindo-se,
assim, em manifestações esparsas, escritos, por vezes relevantes, embora avulsos,
o que segundo Candido, não pode ser tomado como literatura enquanto sistema.
Baseando-se nas postulações de Candido (2000), Odete Semedo direciona o seu
olhar para a historiografia literária bissau-guineense elencando períodos, como por
exemplo, a década de 50, do século XX, em que se evidencia a existência de textos
poéticos atribuídos a autores guineenses, embora essas publicações, sob o olhar de
Semedo, atendendo aos pressupostos de Candido, não configurassem um sistema
literário. Nesse sentido, têm cariz de manifestações isoladas, não constituindo
unidade enquanto corpo literário nacional. Nas palavras de Semedo (2010):
E em termos de existência de uma unidade e/ou de estilo, a Guiné-Bissau,
infelizmente, não contava, na época, com um grupo de intelectuais que
pudessem dedicar-se à escrita; tampouco contava com instituições
interessadas em subsidiar o nascimento de um corpo literário nacional, aliás,
não fazia parte dos interesses do governo colonial a criação de uma massa
crítica nacional, formada por nativos. (SEMEDO, 2010, p. 30).
Manuel Ferreira confere o nascimento da literatura guineense em língua portuguesa
ao surgimento da antologia poética Mantenhas para quem luta! (1977). Ferreira
sublinha que:
[...] os fundamentos irrecusáveis de uma literatura africana de expressão
portuguesa vão definir-se com precisão, deste modo: a) _em Cabo Verde a
partir da revista Claridade (1936-1960); b)_em S. Tomé e Príncipe com o livro
de poemas Ilha de Nome Santo (1943), Francisco José Tenreiro; c)_em
Angola com a revista Mensagem (1951-1952); d) _em Moçambique com a
revista Msaho (1952); e)_ na Guiné-Bissau com a antologia Mantenhas para
quem luta! (1977). (FERREIRA, 1977, p. 34).
O título da antologia se vale do termo “mantenhas”, expressão crioula que significa
saudações. Logo, Saudações para quem luta, título dado em homenagem aos
libertadores do país. O prefácio do livro abarca a temática da obra: “arma de
combate, ferramenta de construção”. Mantenhas para quem luta foi editado logo
após a independência, pelo Conselho Nacional de Cultura, reunindo poesias de um
grupo de jovens identificados com o movimento de libertação nacional, que ficaram
conhecidos como "os meninos da hora do Pindjiguiti”, em alusão ao porto de Bissau
onde houve, em três de agosto de 1959, uma revolta de marinheiros que
reivindicavam melhores condições de trabalho e, por isso, foram brutalmente
massacrados pela polícia colonial. Esse momento, conhecido por Massacre de
Pindjiguiti transformou-se em ponto crucial para o desencadear da luta armada na
Guiné Bissau que resultou na independência desse país juntamente a Cabo Verde,
embora proclamadas em datas diferentes.2
A antologia em questão contempla poemas de quatorze autores, a saber: Agnelo
Augusto Regalla; Antônio Cabral; Antônio Sérgio Maria Davyes; Antônio Soares
Lopes Junior (Tony Tcheca); Armando Salvaterra; Carlos Alberto Alves de Almada;
Helder Proença; Jorge Ampa; José Carlos Schwarz; José Pedro Sequeira; Justino
Nunes Monteiro; Hagib Farid; Noberto Tavares, Tomás Soares Paquete. A capa da
coletânea é assinada pelo artista plástico José Barros. A antologia, que anuncia no
título a ideia de saudação aos que lutam, abarca quarenta e oito poemas vinculados
à temática de exaltação nacionalista e anticolonial.
O prefácio3, assinado por Hélder Proença, Tony Tcheka e José Carlos Schwarz,
acentua o caráter estético-político da publicação:
Movidos pela necessidade premente de manter as nossas terras sob a sua
completa dominação, os colonialistas portugueses levaram a cabo uma
política de agressão contra os valores culturais africanos. A chamada
“assimilação progressiva das populações indígenas” materializou-se na
criação de elementos subalternos, integrados na máquina administrativa do
sistema, sobretudo, no clima generalizado de obscurantismo. Imersos nessa
situação de miséria sociocultural éramos frágeis arbustos desenraizados,
arrastando-nos servis a todos os ventos do oriente...Mas o movimento de
libertação nacional, o PAIGC, conduzindo a luta armada, como a
manifestação mais brilhante da cultura do nosso povo, liquidou as bases do
projeto nacionalista. Nós, então meninos da hora do Pindjiguiti, galvanizados
pelas vitórias guerrilheiras e em sintonia com os da luta, procuramos exprimir
também nos nossos poemas, as aspirações do nosso povo à sua liberdade
criadora. Hoje, somos jovens trabalhadores no campo da poesia: esta não se
define para nós, em termos puramente estéticos. A forma destinando-se a
garantir a eficácia da obra, a fazê-la atingir os objetivos visados, impõe-se
como elemento manifestamente importante, mas o que lhe determina a
qualidade é a função, pelo valor social que possa representar. Se é verdade
que esta poesia se escreve atualmente em crioulo e português, cabe-nos a
tarefa da sua fixação nas línguas nacionais, enquanto depositárias dos
verdadeiros valores africanos. Arma de combate, ferramenta de construção,
ela forja-se no quotidiano árduo mas exaltante da nação emergente,
contribuição modesta ao patrimônio da humanidade por uma revolução
cultural. Este trabalho que ora apresentamos aos leitores, entendemos que
seja um encorajamento a outros jovens cujas produções não devem acabar
“no fundo das gavetas” e uma contribuição militante a todo um processo de
desenvolvimento cultural que decorre no nosso país. Assim, “Mantenhas para
quem luta”. (1977, p. 7).
Para além da questão política, o prefácio contempla a importante discussão que
permeia as publicações de obras inseridas em contextos culturais plurilíngues.
Embora a língua portuguesa tenha predominado quase que exclusivamente até a
década de 1980 na literatura guineense, nos últimos tempos, diversos autores têm-
se confrontado com a questão de em que língua publicar suas obras. Alguns autores
guineenses como Nelson Medina e Flaviano Mindela dos Santos optaram por
publicar apenas em crioulo guineense. Já outros, como Odete Semedo, Tony
Tcheca e Félix Sigá publicaram as suas obras simultaneamente em crioulo e
português.
É sabido que na Guiné-Bissau, a língua portuguesa é a língua oficial, mas está longe
de ser a língua veicular. A língua mais falada no país é o crioulo guineense, que
coexiste com a língua portuguesa e as mais de vinte línguas orais africanas, que
constituem a língua materna das muitas etnias que formam a Guiné-Bissau. Apenas
12% da população guineense têm domínio sobre a língua portuguesa, portanto,
como já mencionado, o português não se constitui como língua de comunicação
nacional, cabendo esse papel ao crioulo. É o que afirma Semedo (2003), no artigo A
língua e os nomes na Guiné-Bissau:
Na Guiné-Bissau, tal como em muitos países de África, as línguas são muitas
porque os grupos étnicos são vários, possuindo cada um a sua língua.
Porém, no caso específico do meu país, para além das línguas usadas por
cada um dos grupos étnicos, existe uma língua franca falada por cerca de 70
por cento da população de todo o país, o crioulo de base portuguesa, e uma
língua oficial utilizada na administração e no ensino, o português, dominado
por cerca de 12 por cento da população guineense. (SEMEDO, 2003).
O crioulo guineense (Kriol) é de base portuguesa. Surgiu do contato do português
com as línguas africanas, facilitando a comunicação não só entre os próprios
africanos, mas também entre os europeus e os africanos. Assim, o crioulo permite
aos guineenses conviver com a diversidade linguística de cada região. Como se
sabe, coabitam no país várias línguas orais africanas, já que suas fronteiras
geográficas não correspondem exatamente às fronteiras étnicas e linguísticas.
Por esse motivo, o teatro e o cinema na Guiné-Bissau são encenados em guineense.
É também em crioulo guineense que o imaginário da tradição oral é contado. As
músicas populares, as canções das mandjuandadi4, os cantos guerreiros da luta
armada de libertação, foram ou são veiculados por meio do crioulo guineense. O
guineense é, como já acentuado, a língua de unidade nacional.
Por que então a maioria dos escritores opta por publicar seus textos na língua
portuguesa, já que ela, apesar de oficial, está longe de ser a língua de unidade
nacional?
São vários os fatores que se imbricam para explicar essa questão. Primeiramente, há
os fatores mercadológicos: publicar apenas em crioulo guineense restringiria o
alcance das obras a um determinado público, ou seja, àquele que tem acesso e
domínio do crioulo de Guiné-Bissau. Outro fator que justificaria o uso da língua
portuguesa seria a questão de como enxergar a língua portuguesa nos países em
que ela foi introduzida pelo colonizador. Seria ela ainda apenas a língua do
colonizador? Acredita-se que a resposta seja não. Inicialmente, quando uma língua é
introduzida impositivamente em outra cultura, por meio da colonização, ela enlaça a
tensão, o embate entre culturas e repercute a repulsa do colonizado para com o
colonizador.
A língua portuguesa, ao entrar em contato com as culturas africanas, passa por um
processo de transformação que fará com que, ao ser assumida como língua oficial,
não seja mais simplesmente o idioma do colonizador. No caso bissau-guineense
(como nos demais países africanos que adotam a língua portuguesa como oficial), o
português que se fala não é mais o mesmo que saiu de Portugal e não possui a
mesma carga de repulsa que o permeava no período colonial. A relação com a língua
não é mais a mesma, ela passa a ser uma segunda ou terceira possibilidade de
comunicação para a população do país do qual faz parte, quando nesse país ela
coexiste com línguas nativas.
Um fator que pode explicar tanto o processo de africanização da língua portuguesa,
quanto a intenção de escrever a literatura em crioulo guineense estaria no fato,
assumido por alguns escritores, de que alguns traços culturais só podem ser
verdadeiramente expressos pela língua materna: ou pelo crioulo, ou pelas línguas da
afetividade, as línguas étnicas. Por outro lado, a propagação dessas culturas pelo
mundo indica ser melhor que isso seja feito por meio da língua de maior amplitude,
nesse caso, a portuguesa.
Quando um escritor guineense decide publicar suas obras em português e crioulo,
independentemente da razão específica que o motiva, ele enfatiza a ideia de que são,
no mínimo, duas as línguas que perfazem a sua cultura, além de sinalizar para a ideia
de multiculturalismo.
Como pontuado anteriormente, questão da maior relevância quando se estuda a
formação do sistema literário guineense diz respeito à difícil tarefa de se eleger em
qual língua escrever a literatura. Trabalhos no campo da teoria da literatura, da crítica
literária e, principalmente, dos próprios escritores têm sido produzidos para dar conta
dessa reflexão e, considera-se oportuno retomar a reverberação dessa questão em
celebérrimo poema de Odete Semedo, intitulado “Em que língua escrever”, publicado
em português e crioulo no volume de poemas Entre o ser e o amar, de 19965:
Em que língua escrever
Em que língua escrever
As declarações de amor?
Em que língua escrever
As histórias que ouvi contar?
Em que língua escrever
Contando os feitos das mulheres
E dos homens do meu chão?
Como falar dos velhos
Das passadas e cantigas?
Falarei em crioulo?
Falarei em crioulo!
Mas que sinais deixar
Aos netos deste século?
Ou terei que falar
Nesta língua lusa
E eu sem ate nem musa
Mas assim terei palavras para deixar
Aos herdeiros do nosso século
Em crioulo gritarei
A minha mensagem
Que de boca em boca
Fará a sua viagem
Deixarei o recado
Num pergaminho
Nesta língua lusa
Que mal entendo
No caminho da vida
Os netos e herdeiros
Saberão quem fomos (SEMEDO, 1996, p. 11, 13).
Em resposta a uma questão posta pelas pesquisadoras brasileiras Vera Lúcia da
Silva Sales e Maria do Socorro Vieira Coelho, Odete Semedo, em 10 de março de
2010, ressalta sua visão sobre a literatura do seu país e o modo como os escritores
a utilizam:
Na Guiné-Bissau, a literatura é muito nova e foi quase sempre uma escrita de
intervenção. Quando não foi de contestação, ela foi de sentimento, de uma
lírica sentimental, mas sempre impregnada de uma mensagem. Nós
utilizamos muito o escrever como um lugar de expressar o nacionalismo, a
nossa história. Isso aconteceu com vários países africanos. (SEMEDO, 2011,
p. 198).6
São ainda exíguos os estudos, na crítica literária, que tomaram como campo de
reflexão a literatura guineense. Valida esse diagnóstico o parecer da professora da
Universidade de Bielefeld, na Alemanha, Moema Parente Augel: “Em relação à
Guiné-Bissau, nem no campo da historiografia, nem no da crítica ou da teoria
literária existem muitas obras, o que corresponde à pouca produção e à ainda mais
débil recepção dessa literatura” (AUGEL, 2007, p. 99). Todavia, a referida
pesquisadora vê nesse quadro motivação suficiente para justificar pesquisas que
tenham esses construtos ficcionais como objeto de análise.7
Em obra de fundamental relevância para qualquer discussão que tenha como foco a
literatura guineense, intitulada O desafio do escombro: nação, identidades e pós-
colonialismo na literatura da Guiné-Bissau, Moema Augel, em considerações finais
de um dos capítulos da obra referida, salienta: “Termino este capítulo, que tem a
finalidade de uma revisão crítica do conhecimento, tanto de estudos como de
demais referências sobre a literatura guineense, repetindo minha preocupação e a
lástima sobre o silêncio que em geral paira em torno da literatura desse país (e não
só da literatura)” (AUGEL, 2007, p. 122).
Se sobre-existe uma acentuada descrença em relação à ficção gestada por
escritores africanos, mesmo aqueles de maior circulação mundial e já, de alguma
maneira, integrantes de um cânone, imagine-se quão calamitoso é o cenário quando
o foco se direciona à literatura da Guiné-Bissau, objeto do presente texto. Couto e
Embaló corroboram esse panorama:
A despeito de ser uma das primeiras regiões da África, e do mundo, a que os
portugueses chegaram na arrancada marítima que recebeu o nome de
Grandes Navegações, a antiga Costa da Guiné, a Guiné Portuguesa ou a
atual Guiné-Bissau é um dos países menos conhecidos entre todos que
resultaram dessa aventura. Esse desconhecimento existe em todos os níveis,
não só no linguístico-cultural, mas também no nível político. (COUTO;
EMBALÓ, 2010, p. 15).
A teórica Inocência Mata, mas não somente ela, chama a atenção para uma
conclusão esdrúxula originada do esforço em se consolidar o silêncio sobre a
literatura guineense. Segundo Mata (1995, p. 356), “se comparada a outras
literaturas africanas de língua portuguesa, a literatura guineense é tardia e escassa.
Contudo, tal surgimento tardio, que razões de ordem histórica e sócio-cultural
explicam, não justifica o apodo de “inexistente””.8 De acordo com Secco (2011, p.
25), “as letras guineenses [...] apresentaram um desenvolvimento tardio. A literatura
oral (estórias, adivinhas, provérbios), as crenças e os mitos pertencentes às
tradições locais é que constituíram o arcabouço cultural da Guiné-Bissau”. Por
fatores históricos e sociais “a Guiné-Bissau desenvolveu um crioulo de base
portuguesa, já que foi uma colônia de comércio; logo, não havia interesse de
Portugal no desenvolvimento de uma educação consistente que visasse ao
crescimento dessa colônia” (BISPO, 2005, p. 16). Hamilton (2000, p. 187), considera
o fato de a Guiné-Bissau ter tido o seu “verdadeiro movimento literário” retardado,
em comparação com as demais ex-colônias. Augel endossa esse diagnóstico acerca
da exiguidade da produção literária guineense, antes da década de 1930: “Ao lado
da abundante produção literária dos outros países africanos de expressão
portuguesa, sobretudo de Cabo Verde e de Angola, são muito poucos os nomes a
que se faz referência quando se aborda o tema da literatura guineense” (AUGEL,
1994, p. 116).
Ainda sobre as questões ressaltadas pelos críticos e teóricos referidos
anteriormente, Semedo pontua,
nesta linha, e respeitante à literatura guineense, é pertinente asseverar que,
embora tenham existido poetas que ainda na década de 1950 já escreviam
seus textos, poemas nomeadamente, esses não passavam de escritos
avulsos. E em termos de existência de uma unidade temática e/ou de estilo, a
Guiné-Bissau, infelizmente, não contava, na época, com um grupo de
intelectuais que pudessem dedicar-se à escrita; tampouco contava com
instituições interessadas em subsidiar o nascimento de um corpo literário
nacional, aliás, não fazia parte dos interesses do governo colonial a criação
de uma massa crítica nacional, isto é, formada por nativos. (SEMEDO, 2010,
p. 30).
Semedo ressalta, em trabalho realizado para recolha de produções específicas das
culturas locais da Guiné-Bissau, a tentativa de se registrarem, pela escrita,
manifestações próprias ao universo das oralidades:
A tradição e a oratura guineenses devem muito ao Cônego Marcelino
Marques de Barros, pioneiro da recolha e divulgação de contos, poemas e
canções em várias línguas locais. Esses trabalhos foram divulgados ainda em
1882, como o Guiné Portuguesa ou breve notícia sobre os usos, costumes e
línguas da Guiné, divulgado na Revista da BSG (Boletim da Sociedade de
Geografia) em 1882. [...] Benjamim Pinto Bull, na sua obra O crioulo da
Guiné-Bissau, filosofia e sabedoria, traz à tona as diversas manifestações da
oratura guineense; manifestações essas expressas na língua guineense,
denominada crioulo guineense. Pinto Bull retoma os trabalhos do Cônego
Marques de Barros, explora os contos tradicionais, sua tipologia,
categorizando-os. (SEMEDO, 2011, p. 61).
Couto e Embaló ecoam a vertente que considera ser complicado, mas não menos
importante, falar em literatura guineense. Para esses pesquisadores
quando se trata do assunto, em geral se pensa na literatura que é produzida
em português (literatura em português), como mostram não só as poucas
obras escritas principalmente por estrangeiros durante o período colonial,
mas também o que se publicou depois da independência. A esmagadora
maioria da produção está nessa língua. No entanto, há algum tipo de
literatura em pelo menos mais duas línguas. A primeira é a literatura em
crioulo, que consta de narrativas orais tradicionais (storias), provérbios,
adivinhas e outras manifestações da oratura ou oralitura. (COUTO; EMBALÓ,
2010, p. 60).9
Mesmo não sendo uma produção ficcional de lavra autenticamente guineense, ainda
assim seria razoável, apenas a título de registro, mencionar a literatura publicada no
Boletim Cultural da Guiné Portuguesa:
O Boletim Cultural tem publicado páginas de ficção de múltiplos interesses,
assinadas por Fausto Duarte, Fernando Rogado Quintino, Alexandre
Barbosa, Maria Rosa, Luís Ledo Pontes, Fernando Barragão, James Pinto
Bull, António Carreira, Amadeu Nogueira, Artur Martins Meireles, António
Cunha Taborda, João Eleutério Conduto, Egídio Álvaro, Francisco Valoura e
A. Gomes Pereira. (REMA, 1971, p. 57).
A literatura da Guiné-Bissau, como um sistema literário, pode ser rotulada como
jovem, devido a suas particularidades históricas e sociais, carregando, conforme
explicita Augel, um propósito audacioso:
o desejo e até uma proposta bem clara, se bem que não explícita, de seus
escritores escreverem para um público guineense, sem preocupações com o
público estrangeiro, embora se articulem em português, o que não impede o
uso sem conta de expressões e de referências ao universo especificamente
guineense. (AUGEL, 1998, p. 434).
É importante destacar alguns dos momentos mais significativos da literatura da
Guiné-Bissau sobretudo para endossar a posição de Mata quando questiona “o
apodo de inexistente” conferido a essa literatura. Russell Hamilton considera
movimentos literários importantes no curso da produção poética guineense:
o primeiro movimento literário na história deste enclave pequeno na costa
ocidental da África, com um pouco menos de 1.160.000 habitantes, arrancou
depois da independência. Mantenhas para quem luta! (1977) e Antologia dos
jovens poetas (1978), dois volumes que iniciam este movimento literário com
poemas de reivindicação cultural, protesto social e combatividade, quase
todos compostos durante os tempos coloniais, embora previamente inéditos
ou publicados no exílio. [...] Logo depois da independência, uma revelação
inesperada foi a descoberta de poemas escritos por Amílcar Cabral (1924-
73), o insigne estadista africano e arquiteto da independência da Guiné-
Bissau e Cabo Verde. A publicação, em 1991, da Antologia poética da Guiné-
Bissau, um volume que reúne poemas tanto dos mais velhos como dos mais
jovens, representa um indicador no caminho da evolução da poesia
guineense pós-colonial. (HAMILTON, 2000, p. 195).
O escritor e pesquisador guineense Eliseu Ié, em sua dissertação de mestrado,
defendida na UFRJ, em 2019, amplia a discussão proposta por Russel Hamilton ao
registrar publicações que seguem a trilha aberta pela antologia Mantenhas para
quem luta (1977):
Notamos que, depois dessa publicação, houve um grande interesse dos
poetas no exercício literário do país. Já no ano seguinte, em 1978, Francisco
Conduto de Pina publicou uma coletânea de poemas, intitulada Garandesa di
no Tchon – A grandeza do nosso chão / As belezas da nossa terra. Essa
obra foi considerada a primeira obra literária individual, após a independência
do país, como vimos anteriormente. No mesmo ano, foi publicado Momentos
primeiros da construção, uma antologia poética que contou com 35 poemas e
registrou 12 autores participantes.
Vale a pena dizer que nessa coletânea temos a voz poética de Mariana
Marques Ribeiro, hoje, pouco conhecida no mundo literário lusófono e pouco
lembrada quando se fala de escritoras guineenses. Ela é única voz feminina
desse projeto literário que resplandeceu, na nossa literatura, nos anos 70.
Depois dessas duas obras importantes acima referidas, houve uma sucessão
de obras antológicas, como Os continuadores da revolução e a recordação do
passado recente, antologia publicada em 1979; Antologia poética da Guiné-
Bissau, de 1991; O Eco do pranto: a criança na moderna poesia guineense,
de 1992, organizada pelo António Soares Lopes Júnior, conhecido no mundo
literário como Tony Tcheka. Essa coletânea reuniu grandes vozes poéticas da
época até aos dias de hoje, entre eles: Agnello Regalla, Conduto de Pina,
Hélder Proença, Vasco Cabral, Mariana Marques Ribeiro, Jorge Cabral e
Pascoal D' Artagnan Aurigemma. (IÉ, 2019, p. 30).
Segundo Augel (1999, p. 25), devem ser consideradas obras de escritores isolados
como Carlos Semedo ( Poemas, 1963), Francisco Conduto de Pina (Garandessa di
nô tchon (Grandeza de nossa terra), 1978), Vasco Cabral (A luta é a minha
primavera, 1981), Hélder Proença (Não posso adiar a palavra, 1982) que engrossam
o elenco da produção literária escrita, da Guiné-Bissau, no pós-independência até
1990.
O uso instrumentalizado da palavra poética empenhada em conscientizar o
guineense é, pois, uma das vertentes do que pode ser considerado um sistema
literário em evolução. Já na década de 1990, oficialmente decretado o fim do regime
colonial, apresenta-se um despontar de grande significado para o campo literário da
Guiné, principalmente, por ser fruto de uma escritora. Nas palavras de Russel
Hamilton:
A década de 90 certamente se destacará na história da expressão cultural
pós-colonial como um período de acontecimentos sem precedência no evoluir
da literatura da Guiné-Bissau. Em 1993, Domingas Samy emergiu como a
primeira mulher guineense com uma obra publicada quando saiu o seu A
escola. Aliás, esta coleção de contos também se qualifica como a primeira
obra de prosa de ficção guineense do pós-independência. (HAMILTON, 2000,
p. 196).
Os meses iniciais de 1994 são marcados por três acontecimentos culturais notáveis
na capital, Bissau. Segundo Augel (1994, p. 125), são eles: “a criação de uma
revista cultural, Tcholona – Revista de letras, artes e cultura, o surgimento da
primeira casa editorial privada da Guiné-Bissau, Ku Si Mon Editora e o lançamento
do primeiro romance do país, Eterna paixão, da autoria de Abdulai Sila.” Augel avalia
com otimismo os tempos finais do século passado, no campo das artes literárias em
Guiné-Bissau:
É a partir do início desta última década do milênio que se pode afirmar que,
no campo das letras, sol na iardi na Guiné-Bissau. Essa expressão
tipicamente guineense é um provérbio que denota otimismo e espírito
construtivo: aproveita-se o sol que está brilhando para se aquecer. Depois de
tão longo período de estagnação, graças a uma série de circunstâncias
favoráveis, as oportunidades estão sendo aproveitadas, potencializando-se as
iniciativas para a consecução do projeto literário guineense. (AUGEL, 1999, p.
28).
O Sol na iardi guineense permite o encampamento de estratégias para continuar a
levar adiante as medidas que vão colocar, no circuito convencional, os frutos do
labor estético, no campo das letras do país. Ao fim, esse contributo, aos poucos,
atenuará a força do apodo de inexistente, invocado por alguns críticos para
esclarecer o sistema literário da Guiné-Bissau. Como acentua Augel, a tarefa do
escritor guineense é instigante, pois, ao se dirigir
a seu público, à gente do seu país, deve dar-se conta de uma dura
constatação: o alto nível de analfabetismo ou semi-analfabetismo e o fato de
estar exprimindo-se num idioma estrangeiro reduzem extremamente o
alcance da sua empreitada. O livro ainda é artigo de luxo na Guiné-Bissau, e
isso tanto devido à sua raridade, como ao seu custo, não se tendo
conseguido impor num contexto em que ainda predomina a oralidade.
(AUGEL, 1998, p. 21).
O cerzimento das considerações feitas até aqui sobre a história da literatura da
Guiné-Bissau encontra linha e agulha na periodização elaborada por Hildo Honório
do Couto e Filomena Embaló, que sugerem a seguinte demarcação de fases e
períodos dessa literatura:
1) A fase anterior a 1945, com “autores marcados pelo cunho colonial”, ou
seja, Fausto Duarte (1903-1955), Juvenal Cabral, Fernando Pais Figueiredo,
Maria Archer, Fernanda de Castro, João Augusto da Silva, Cónego Marcelino
Marques de Barros. 2) O período entre 1945 e 1970, com “uma poesia de
combate”: Vasco Cabral, António Baticã Ferreira e Amílcar Cabral. 3) Anos
1970 a final dos anos 1980, com “uma literatura exclusivamente poética: da
poesia de combate à poesia intimista”. Sobressaem-se Agnelo Regalla,
António Soares Lopes (Tony Tcheca), José Carlos Schwarz, Hélder Proença,
Félix Siga, Francisco Conduto de Pina, Pascoal D’ArtagnanAurigemma. 4) Da
década de 1990 em diante, com “uma poesia mais intimista”: Helder Proença,
Tony Tcheca, Félix Siga, Carlos Vieira, Odete Semedo. 5) “Finalmente a
prosa!”: Domingas Samy, Abdulai Sila. Poderíamos acrescentar Filinto Barros,
Filomena Embaló, Carlos Edmilson Vieira e Waldir Araújo e Carlos Lopes,
entre outros. A despeito disso, resolvemos dividir cronologicamente as
literaturas na Guiné-Bissau da perspectiva da história política do país.
Certamente não é a melhor divisão, mas é a única que nos pareceu
apresentar algum fio condutor, mesmo porque essa literatura é bastante
engajada politicamente. Assim sendo, podemos estabelecer os seguintes
períodos: 1) Período colonial (“literatura colonial”), (+1594-1962); 2) Período
da luta pela independência (1962-1973); 3) Período pós-independência (1973
aos dias de hoje). (COUTO; EMBALÓ, 2010, p. 62-63).
Independentemente do estágio da audiência, pelo mundo, do que se produz no
campo da literatura da Guiné-Bissau, o que se constata é um interesse cada vez
mais significativo por parte da crítica literária em fazer dessa literatura objeto de
reflexão.10
O breve histórico sobre publicações, eventos e questões importantes sobre a
literatura da Guiné-Bissau pretendeu demonstrar uma incursão com feições
historiográficas no sistema literário guineense. Obviamente não foram mencionados
todos os textos literários gestados em Guiné-Bissau, a despeito da pesquisa e
compilação das informações encontradas na vasta bibliografia aqui retomada. Nessa
pesquisa, de imensurável valor foi a consulta à recente pesquisa de mestrado, já
utilizada em outras partes da presente discussão, empreendida pelo escritor e
intelectual guineense, Eliseu José Pereira Ié, conhecido por Eliseu Banori, defendida
em 2019. Entre as várias contribuições da pesquisa intitulada Pequena longa viagem
da literatura guineense, sob orientação da Professora Maria Teresa Salgado
Guimarães da Silva e coorientação da Professora Moema Parente Augel, ressalta-se
a enumeração, em ordem cronológica, das obras literárias de lavra guineense.
Cumpre dizer, nesse breve panorama do sistema literário guineense, o quão valioso
é o trabalho de Eliseu Ié, uma vez que o pesquisador guineense identifica e lista,
cuidadosamente, a produção literária publicada até o ano de 2020 e, ao fazê-lo,
torna-se fonte de consulta obrigatória para a audiência interessada em avizinhar-se
do que se produz em Literatura naquele país.
Amparados por Ié (2019, p. 200 e seguintes), podem ser listadas obras importantes
na consideração de momentos significativos da literatura guineense: Em 1900,
Litteratura dos negros. Contos, cantigas e parábolas, de Marcelino Marques de
Barros. Em 1952, o primeiro conto guineense publicado, por James Pinto Bull,
intitulado “Amor e trabalho”. Em 1963 Poemas, de Carlos Semedo. Em 1973, Poilão,
caderno de poesia, coletânea com poetas de diferentes países, dentre eles os
guineenses Atanásio Miranda, António Baticã Ferreira, Pascoal D’Artagnan
Aurigemma e Tavares Moreira. Em 1977, a antologia Mantenhas para quem luta, já
mencionada.
Em 1978 Garandesa di no tchon, de Francisco Conduto de Pina. Além da antologia
poética Momentos primeiros da construção. Antologia de jovens poetas, integrada
por Aristides Gomes, Tony Tcheka, Hélder Proença, José Carlos, Justino Monteiro
(Justen), Nagib Said, Armando Salvaterra, Djibril Baldé, Huco, Nelson Medina, Serifo
Mané e Mariana Marques Ribeiro. Em 1979, três obras: a antologia poética
organizada por Mário de Andrade Os continuadores da revolução e a recordação de
passado recente, integrada pelos poetas Bacar Cassamá, Valentin Bondy, Jorge
Siuna Guad, Luís Carlos, Manuel Nassum, Malam Gomes, Bubacar Baldé, Mussá
Correia, Alberto Tambá, Djibril Seidy, Said Siad Mané, Malam Mané, Malam Seidy,
Alberto Faradai, Abdú Cassamá, Braima Biai, Romana Dias, Agostinho Lopes,
Armando Indanhy, Jorge N’Haga, Daniel Mendes, N’Hamo Sambu e Linda Pereira;
N’sta li, n’sta la, de Teresa Montenegro e Carlos Moraes e, desses mesmos autores,
Jumbai. Storias do que se passou em Bolama – e outros locais.
Em 1981, Vasco Cabral publica o livro de poemas A luta é a minha primavera. Em
1982, Hélder Magno Proensa lança Não posso adiar a palavra, livro de poemas. Em
1987, o poeta Carlos Alberto Pires da Silva lança O longo caminho. É publicada , em
1990, a Antologia poética da Guiné-Bissau de que participam: Amílcar Cabral, Vasco
Cabral, Hélder Proença, Agnelo Regalla, António Soares Lopes Júnior, José Carlos
Schwarz, Pascola D’Artagnan Aurigemma, Francisco Conduto de Pina, Carlos
Alberto Alves de Almada, Jorge Cabral, Félix Sigá, Domingas Samy e Eunice
Borges. Em 1992, Tony Tcheka organiza a Antologia poética. O eco do pranto: a
criança na moderna poesia guineense, reunindo os poetas Agnelo Augusto Regalla,
António Soares Lopes, Conduto de Pina, Félix Sigá, Hélder Proença, Jorge Cabral,
Mariana Ribeiro, Pascoal D’Artagnan Aurigemma e Vasco Cabral. Em 1993 Manuel
da Costa publica A nossa mudança e A força de vontade, Domingas Samy lança A
escola e Adul Carimo Só, publiciza Tâli.
Em 1994, Abdulai Sila publica o primeiro romance guineense, Eterna paixão. E, por
seu turno, Pascoal D’Artagnan Aurigemma lança o livro de poemas Amor e
esperança. Em 1995, Abdulai Sila publica A última tragédia e Teresa Montenegro e
Carlos Moraes lançam Uori. Storias de lama e philosophia.
Do ano de 1996 são as obras: Um novo amanhecer, de Julião Soares Sousa,
Mufunesa padi sabura, de Adul Carimo Só e, pela coleção Kebur, Kebur. Barkafon di
poesia na kriol, apenas com poemas em língua crioula, dos poetas Atchutchi, Djibril
Balde, Ernesto Dabó, Nelson Medina, Huco Monteiro, Dulce Neves, Respício Nuno,
Conduto de Pina, Armando Salvaterra, José Carlos Schwartz, Odete Semedo, Félix
Sigá, Tony Tcheka; Noites de insônia na terra adormecida, de Tony Tcheka; Entre o
ser e o amar, de Maria Odete Costa Semedo; Arqueólogo da calçada, de Félix Sigá
e Djarama e outros poemas, de Pascoal D’Artagnan Aurigemma.
No ano de 1997, são lançadas as obras: Ora de kanta tchiga, de José Carlos
Schwarz, Mistida de Abdulai Sila, Kikia matcho, de Filinto de Barros, O silêncio de
gaivotas de Francisco Conduto de Pina, Corte geral. Deambulações no surrealismo
guineense, de Carlos Lopes. No ano seguinte publicam-se Os marinheiros de
solidão de Jorge Cabral, A nova poesia da Guiné-Bissau de Moema Parente Augel
e, de Carlos Edmilson Vieira, Cabaz de amores. Nos anos 2000 Odete Semedo
publica Sonéá. Histórias e passadas que ouvi contar I e Djênia. Histórias e passadas
que ouvi contar II. No mesmo ano Carlos Edmilson Vieira publica N’Nori.
Em 2001, vêm a público as obras: Olhar de mulher, de Manuel da Costa, Stera de
tchur de Rui Jorge Semedo, Guiné, de Mussa Turé e, de Atchô Express, o livro
Falso plaquê. Já em 2002 são dados a publicar os livros: O passaporte de Armindo
Gregório Ferreira, Os testemulhos de Mbera de Média Sepa Maria Ié Có, Esperança
é a última a morrer de Emílio Lima e Sol na mansi de Nelson Medina. Testemunhos
de ontem de Silvano Gomes e No fundo do canto de Odete Semedo são publicados
em 2003. De 2004 pertencem: Chuvas de lágrimas de Tino João Miralho, Em nome
de absurdo de Inácio Valentim e a coletânea de contos intitulada Contos do mar sem
fim, da qual participam os guineenses Olonkó, Julie Agossa Djomantin, Andrea
Fernandes e Uri Sissé. No ano seguinte são publicadas: Pensar de um sonho de
Onésimo Feguerreiro, O pensador do canapé de Inácio Valentim, Palavras da alma
de Inácio Gomes Semedo e As chaves do progresso de Plínio Gomes dos Reis
Borges.
O ano de 2006 registra a publicação de Mundo kebur de Silvano Gomes, Fogo fácil
de Marinho de Pina e Kali e a cabaça de Ramiro Naka. Em 2007 são lançados os
livros: A última tragédia de Abdulai Sila, As orações de Mansata de Abdulai Sila,
N’tchanga de José Alberto do Rosário, A minha flor de acácia rubra de Carlos Pires
da Silva, Retrato de Rui Jorge Semedo, Estado da alma de Tomás Soares Paquete
e A mão direita do diabo de Plínio Gomes dos Reis Borges. As obras Guiné sabura
que dói de Tony Tcheka, Admirável diamante bruto de Waldir Araújo, Bendita
loucura de Saliatú da Costa e Estátua perdida de Raúl Mendes são publicadas no
ano de 2008. No ano seguinte dá-se a conhecer No canto lúgubre da verdade de
Édison Ferreira, Não me canso de esperar de Roberto Sousa Cordeiro e César
Inácio Vieira, Caderno de poesias de Jorge Otinta e Djassira do bairro de Missira de
João de Barros.
2010 traz a lume as seguintes obras: Notas tortas nas folhas soltas e Infinito: conto e
poesia, ambas de Emílio Lima, No compasso do primeiro passo de André Luís
Mendes, Palavras suspensas de Francisco Conduto de Pina, Noites das lágrimas
em África de Marcelo Aratum, Adormecer de um sonho de Carlos Edmilson Vieira e,
por fim, Traços no tempo: primeira antologia poética juvenil da Guiné-Bissau, da qual
participam Adão Quadé, André Mendes, António Costa, Armando Lona, Danilson
Correia, Danso Yalá, Emílio Lima, Filomena Correia, Flaviano Mindela, Gabriel Yé,
Gina Có, Irina Ramos, Jacinto Mango, Jaime Nhaté, Lourenço da Silva, Mamadu
Baldé, Marcos Djú, Maurício Mané, Mussá Saní, Rui N’faca, Sinhote Có, Vitorino
Indeque e Omarildo Silva.
Em 2011 são publicados os livros Na flor de ser de Emílio Lima, Em busca do
espaço verde de Eliseu Banori, Entre a roseira e a pólvora de Saliatú da Costa, IMF
no palácio do governador de Hildovil Silva e Iramã Sadjo e Mar misto de Ernesto
Dabó. De 2012 são as publicações: O vento ainda sopra de Eliseu Banori, Insana
rebeldia de Edson Pereira Incopté, L’ultime combat pour um amour anonyme de
Lourenço da Silva, Anjo do mal de Plínio Gomes dos Reis Borges e Finhani o
vagabundo apaixonado de Emílio Lima.
O ano de 2013 é data de publicação das obras: Krensa pertan pitu. Maradura di
kerensas, Tanamu fenhi na republika di kafumban e Kunfentu na bankulé. Kantigas
di speransa, sendo as três obras de Huco Monteiro, O colo. Ragaz de Caetano
Imbó, Polon malgos de Seravat Amil, Dois tiros e uma gargalhada de Abdulai Sila,
Dor e esperança de Vasco de Barros, Recados de paz: antologia poética para paz
na Guiné-Bissau, As lágrimas de uma mulher: os culpados de Marcelo Aratum, O
retonro dos “gans” de Fernando Perdigão, Retratos de mulher de Antonieta Rosa
Gomes, Rosas da liberdade e Maré branca em Bulínia, ambos de Manuel da Costa.
Ema vem todos os anos de Abdulai Sila e Memórias fascinantes: relatos que
traduzem o silêncio de Eliseu Banori são do ano de 2014.
Em 2015, foram publicadas as obras: As almas em agonia de Eliseu Banori,
Desesperança no chão de medo e dor de Tony Tcheka, M’Bim o feiticeiro de
Abdelaziz dos Reis Vera Cruz e Sem poemas de Inácio Semedo. Já em 2016
Abdulai Sila publica Memórias somânticas. No ano seguinte Eliseu Banori publica
Cantar de galo, Geraldo Martins lança Mil pedaços de amor e Amadu Dafé, por sua
vez, traz a público Magarias.
Os títulos publicados em 2018 foram: Kangalutas de Abdulai Sila, Pérola roubada de
Né Vaz (Vanessa Margarida Buté Vaz), Olonko de Ernesto Dabó e Escritos no
silêncio de Carlos Vaz. O ano de 2020 dá a conhecer as seguintes publicações: A
história que a minha mãe não me contou e outras histórias da Guiné-Bissau de
Eliseu Banori, Nação afétéré de Lagartixa Okonhoko Npasmado (André Mendes) e
Quando os cravos vermelhos cruzaram o Geba de Tony Tcheka.
No que tange à formação do projeto literário guineense Fonseca (2008) sublinha as
perspectivas contraditórias sobre o despontar da literatura da Guiné-Bissau,
evidenciando que não é ponto pacífico a informação de que a literatura guineense
tenha como marco inicial a publicação da obra individual Poemas, de Carlos
Semedo, em 1963, como defendido por Augel. Em se tratando de publicações
individuais, Fonseca (2008) destaca que o estudioso Manuel Ferreira, no prefácio do
volume I da antologia No reino do Caliban, considera Antonio Batican Ferreira “a
primeira e correta representação guineense” (Ferreira, 1997, p. 70). A discordância
entre Augel e Ferreira parte de perspectivas que abarcam as relações estabelecidas
entre os autores e a terra, Guiné-Bissau. Como ressalta Fonseca (2008), ao trazer
as postulações contraditórias de Ferreira e Augel:
Considere-se que Antonio Batican Ferreira viveu a maior parte de sua vida
fora de seu país natal, embora tenha voltado à Guiné com frequência. Tendo
começado a escrever poemas aos dezessete anos, o fez em língua francesa
e, só mais tarde, é que o fará em língua portuguesa. Desses fatos
comprovados, decorre a consideração de Augel quando atribuiu a Carlos
Semedo a autoria da primeira obra literária verdadeiramente guineense.
(FONSECA, 2008, p. 48-49)
Ao trazer para as discussões a premissa de sistema literário, proposta por Candido,
Semedo, de certa forma, apazigua, momentaneamente, essas questões acerca da
autoria, embora não as encerre. Semedo, ao perscrutar o percurso historiográfico da
literatura guineense, não considera as manifestações esparsas ou isoladas,
ancorando-se na ideia de sistema, de continuidade literária. Entende-se, pois, que
as questões relativas ao pertencimento, alteridade/identidade são espaços de
tensão e negociação que a todo momento serão repisados. Salienta-se que o
percurso historiográfico aqui proposto não encerra essas questões.
Importa ressaltar também que para além da questão da autoria outras questões
relevantes vão ganhando destaque à medida que essa literatura vem se
fortalecendo, a partir de publicações que dão corpo ao sistema literário guineense:
se no passado não houve na antologia Mantenhas para quem luta (1977), por
exemplo, nenhum poema de autoria feminina, o que esbarra em configurações
estruturais da sociedade guineense, ao longo dos anos a autoria feminina vem
disputando e angariando espaços no campo literário guineense, como o fez no
passado Domingas Samy, autora do primeiro livro de ficção da Guiné-Bissau. Nesse
sentido, o cenário literário guineense abarca um espaço em constante crescimento
em que agenciamentos, tensionamentos e negociações se fazem presentes e são
salutares para que o sistema literário espraie cada vez mais a ideia de
heterogeneidade e não se feche no vazio que caracteriza discursos que se
pretendem homogêneos.
Notas
1Agradecemos à Professora Maria Nazareth Soares Fonseca pelas horas agradáveis de partilha de
conhecimentos sobre a literatura guineense que tornaram a feitura deste texto uma experiência
maravilhosa e inesquecível!
2Guiné-Bissau proclamou a sua independência em 24 de setembro 1973. A data da independência
de Cabo Verde é 5 de julho de 1975.
3De acordo com informações extraídas do livro Literaturas africanas de língua portuguesa: percursos
da memória e outros trânsitos, da Professora Maria Nazareth Soares Fonseca, o prefácio da
antologia Mantenhas para quem luta (1977), foi assinado por Hélder Proença, Tony Tcheka e José
Carlos Schwarz (FONSECA, 2008, p. 49).
3 As cantigas de ditu ou mandjuandadi, esclarece Odete Semedo, são textos em geral muito breves,
cantados quase sempre por mulheres, muitas vezes improvisados, presentes em certas ocasiões
específicas (...). Chama-se cantiga de ditu porque geralmente se trata de uma resposta a alguma
situação; é composta, por exemplo, quando se vê necessidade de acabar com algum
desentendimento ou contenda. Uma terceira pessoa interfere em versos com intenção apaziguadora
(e é então denominada canção de harmonia), ou para retratar uma ofensa ou intriga domésticas (ora
kubu obi paalgin), ou ainda para chamar a atenção de uma situação desestabilizadora, tanto a nível
familiar, conjugal ou relativo ao clima entre colegas de trabalho. Odete Semedo aproxima certas
canções de ditu às cantigas de escárnio ou de maldizer, dada a semelhança com essas cantigas
medievais. Essas canções são muitas vezes cantadas - e dançadas - em reuniões de mandjuandadi,
que são agrupamentos de indivíduos de ambos os sexos, da mesma faixa etária, de uma
determinada etnia, mandjacos ou balantas, por exemplo, com uma estrutura social específica e
hierarquizada, que promovem a tradição da etnia e se confraternizam em festas e encontros sociais.
(AUGEL, 1998, p. 40). Para informações mais detalhadas sobre essas cantigas e suas relações com
a literatura guineense ver a tese de doutorado de Odete Semedo, orientada pela Professora Maria
Nazareth Soares Fonseca, no Programa de Pós-Graduação em Letras da PUC Minas, defendida em
2010.
4SEMEDO, Odete Costa. Entre o ser e o amar. Bissau: INEP, 1996. 108 p. (Kebur, n. 3). Alguns dos
poemas desse livro são escritos em português e em crioulo.
5 O pesquisador José Eduardo Bessa da Costa Leite, em tese defendida em 2014, sob orientação do
Professor Pires Laranjeira, também aborda essa questão: “Essa literatura possui, desde o seu
começo, uma função didática, informativa e formativa que procurou, através das tradições e culturas,
resgatar a identidade nacional. A literatura guineense está muito enraizada em referências históricas
e na expressão das vozes plurais das várias etnias, que povoam este pequeno território” (LEITE,
2014).
6 Contudo, vale registrar a relevância de trabalhos que discutem aspectos da história do sistema
literário guineense, tais como os desenvolvidos por: Augel (1994, 1998), Bispo (2005, 2013), Couto;
Embaló (2010), Fonseca (2008), Gérard (1970, 1980), Hamilton (2000), Ié (2019), Leite (2014), Mata
(1995) e Semedo (2007, 2010, 2011), sem prejuízo de outros estudos.
7 São interessantes, a esse respeito, as reflexões de Albert Gérard: “E o homem branco, em sua
pretensão sem par, gosta de entreter a noção lisonjeira de que ele foi o primeiro e único educador da
África negra; de que o continente negro foi povoado por tribos selvagens iletradas até que os
salvadores ocidentais chegaram; que a alfabetização e as habilidades de escrita, em particular, foram
importados primeiro por seus esforços altruístas como parte de sua missão de civilização” (GÉRARD,
1981, p. 147).
8 José Eduardo Bessa da Costa Leite, em tese defendida em 2014, enumera autores e obras “escritas
principalmente por estrangeiros durante o período colonial” (COUTO; EMBALÓ, 2010, p. 60),
“nomeadamente, Landerset Simões (Babel Negra: Etnografia, Arte e Cultura dos Indígenas da Guiné,
1935), Afonso Correia (Bacomé Sambú: Romance de Costumes Guineenses, 1931), Julião Quintinha
(África Misteriosa, 1928; Oiro Africano, 1929; A Derrocada do Império Vátua e Mouzinho de
Albuquerque, 1930; Terras do Sol e da Febre, 1932; Novela Africana, 1933), Maria Cecília de Castro
(Dois Contos do Ciclo do Lobo da Guiné Portuguesa, 1965), Viriato Augusto Tadeu (Contos do
Caramô: Lendas e Fábulas Mandingas da Guiné Portuguesa, 1945), António Carreira (Contos e
historietas mandingas, 1946; O Céu, Deus e a Terra, 1947), Manuel Belchior (Contos Mandingas,
1969), Amadeu Nogueira (Báná Sirabanda, 1947; Conto Cassanga, 1947), A. Cunha Taborda
(Contos Felupes, 1947), Alexandre Barbosa (Guinéus: Contos, Narrativas, Crónicas, Vida dos
Mancanhas, 1962), Fernando Rodrigues Barragão (Contos no Boletim Cultural da Guiné Portuguesa,
1948, 1949, 1951, 1954), João Eleutério Conduto (Contos da tradição oral bijagó, no BCGP, 1955),
Armor Pires Mota (Cidade Perdida, 1961; Baga-Baga. Poemas da Guiné, 1967; Guiné Sol e Sangue:
Contos e Narrativas, 1968; Tarrafo, Diário de guerra, Contos e Narrativas, 1965), Amândio César
(Antologia: Contos Portugueses do Ultramar, 1969; Novos Parágrafos de Literatura Ultramarina,
1971; Em chão Papel na Terra da Guiné, 1967), Francisco Valoura (Guiné: Paraíso Verde, 1973),
José Maria Pintassilgo (Manga de ronco no chão, 1972), Luís Ribas (Selvagens e civilizados, s.d.),
Óscar Ruas (Samba Lagarto, o encantador de crocodilos, 1935), Norberto Lopes (Terra ardente.
Narrativas da Guiné, 1947), Augusto Cruzeiro de Cértima (Recolha de poemas – Trópico de Câncer,
1949), Jorge Silveira Machado (Frente dois. Poemas, 1969), Álvaro Guerra (O disfarce, 1969; A lebre,
1969; O tempo em Uane, 1969), José do Valle de Figueiredo (Poemavra, 1970), João de Matos e
Silva (Tempo de mar ausente, 1972), João Alves das Neves (Poetas e contistas africanos, 1963),
entre outros” (LEITE, 2014, p. 74).
9 Da fortuna crítica que teve como objeto obras literárias guineenses citam-se, sem prejuízo de outras
contribuições, os trabalhos realizados por: Amancio (2010), Augel (1994, 2007), Barth (2021), Bispo
(2010 e 2013), Calado (2015, 2016), Carvalho (2017, 2020), Deus (2012), Dutra (2010, 2011),
Ferreira (2011), Fonseca (1997, 1999, 2008, 2015), Frascina (2014), Laranjeira (2011), Leite (2014),
Mata (1995), Meller (2007), Neumann (2017), Padilha (2011), Queiroz (2012), Salvadori (2009),
Secco (2011), Semedo (2010, 2011), Ribeiro e Semedo (2011), Trajano Filho (1993) e Valandro
(2011).
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iLílian Paula Serra e Deus é Professora Adjunta no Instituto de Humanidades e Letras da
Universidade da Integração Internacional da Lusofonia Afro-brasileira – UNILAB, Campus Malês,
Bahia. Doutora e Mestre em Letras pela PUC Minas. É autora de A palavra em preto e branco (2017,
poesia), e de Não é preciso ter útero para ser mulher (2020, contos) e participante da Série Cadernos
Negros, números 42 e 43. E-mail: lilianedeus@[Link]
iiWellington Marçal de Carvalho é Pós-Doutorando em Estudos Literários na FALE/UFMG. Doutor e
Mestre em Letras pela PUC Minas. Bibliotecário coordenador da Biblioteca da Escola de Veterinária
UFMG. Integrante do Grupo de Estudo Estéticas Diaspóricas (GEED). Autor de: Aquele canto sem
razão: espaço e espacialidades em contos de Guimarães Rosa, Luandino Vieira e Boaventura
Cardoso (2014) e A defesa incansável da esperança: feições da guineidade na prosa de Odete
Semedo e Abdulai Sila (2018). Coorganizador de Deslocamentos estéticos (2020). Integrante da
Comissão editorial do literÁfricas. E-mail: marcalwellington@[Link]