Mamãe sempre me disse pra ser uma boa menina, que boas meninas
vão para o céu, que elas alcançam a luz.
- Minha pequena, sempre reze, ore para que Deus te ouça. Seja boa e
grata, e assim, vai entrar no reino dos céus.
Eu ouvi, e acreditei, de verdade.
Eu só não acreditei que eu alcançaria tal feito.
Desde sempre a luz foi meu objetivo, mas, o que fazer quando são as
sombras quem te encaram e te fazem promessas tão boas que
parecem impossíveis de se recusar ? Quando são elas quem te fazem
querer viver? Quando são elas quem te acompanham na sua jornada?
Desculpe mamãe, mas a luz apenas se perde nas sombras.
Capítulo 1
Eu tinha seis anos. Como lembro disso ? Eu nunca esqueceria.
Nunca fui alguém propensa a rezar, fazia pois mamãe mandava, pai
também. Íamos a igreja todo domingo, e eu ouvia, eu acreditava no
que ouvia, eu apenas não seguia.
Sempre me senti deslocada. Enquanto as outras crianças queriam
brincar que as bonecas iam para um reino mágico, eu apenas queria
que elas fossem para um lugar cheio de trevas, onde não havia Sol,
apenas escuridão.
Eu me imaginava nesse lugar, e me sentia bem com isso.
Então, uma noite aconteceu. Acordei me sentindo vigiada, como
quando alguém te olha para ver se realmente está dormindo, pensei
ser a mamãe, parecia a mamãe.
Estava sentada na cadeira de balanço perto da porta, murmurava
uma música de ninar enquanto costurava algo, parecia um velho
pano, e quando olhou para mim, sorriu, não um sorriso normal, mas
algo que guardava crueldade, algo do qual eu deveria ter cuidado, e
na escuridão do quarto eu também pude ver, olhos azuis, não azuis
normais e bonitos, mas brilhantes, tão brilhantes que quase
iluminavam o cômodo.
Eu deveria ter corrido, deveria ter gritado, deveria ter ficado
meramente assustada ou apavorada, mas tudo que consegui fazer foi
sorrir de volta, e voltar a dormir.
Eu sabia que não era minha mãe, porém, uma sensação tão forte de
conforto me abraçou, como se aquilo sim, fosse minha casa. E pela
primeira vez eu me senti normal.
E agora, aos dezesseis anos, continuo aqui, em um domingo de
Páscoa, na pequena igreja da minha pequena cidade, estou fingindo
estar tudo bem. Quando na verdade sei, sei que quando chegar em
casa, tudo vai desmoronar.
- Irmã Leandra, irmão Jacinto. Que bom que consegui alcançar vocês.
Olá Rosa, como está linda essa menina.
Dona Mercedes nos alcança antes de conseguirmos sair da porta da
igreja, uma senhora chata, intrometida e muito fofoqueira.
- Dona Mercedes, que bom vê-la. Aconteceu alguma coisa ?
Minha mãe me pergunta me puxando para si, ela sabe que vou
escapar a qualquer sinal de desatenção.
- Não, imagine. Só queria convidar vocês para um almoço na minha
casa, os vizinhos estarão todos lá. Você sabe como amo a casa cheia.
Claro que ama, isso só rende mais assunto para ela comentar pro
resto da semana. Sobre a vida de qualquer um que se engane em
falar algo pessoal para essa velha.
- Agradecemos, mas hoje não podemos. Rosa tem muita coisa de
escola e não é dia de sair de casa não.
Meu pai cortou rapidamente a velha, que ficou com uma cara de
tacho. Minha mãe como sempre tentou apaziguar.
- Quem sabe uma próxima vez, Dona Mercedes.
E assim, fomos para casa.
Era uma estradinha de terra até a chácara, bem longe de tudo e
todos. Onde eu sabia que só sairia casada, ou morta.
Assim que chegamos meu pai me empurrou para dentro, tropecei nos
meus pés e quase caí. Ouvi o trinco da porta trancando e minha mãe
com a chave na mão.
Ótimo.
- De novo! De novo, Rosa! Você anda por aí dizendo coisas horríveis
as pessoas, e de novo tenho que ouvir barbaridades sobre você!
Meu pai já começou gritando. E assim eu sabia o que viria a seguir.
Eu só comentei com o padre sobre as coisas que eu via, em uma
tentativa desesperada para me encaixar, e claro assim que o vi
chamando meu pai para conversar, eu soube, tudo ia cair em cima de
mim.
- Ouvir que o padre acha que minha filha está possuída, está
pendendo para o lado do coisa ruim, está em comunhão com o Diabo!
Maldita seja você! E maldita seja sua mãe também! – ele apontou o
dedo para ela, minha mãe começou a chorar e tremer, ela sabia que
ele bateria em nós duas- Você deu a luz a um monstro, ilha minha não
é!
Os primeiros tapas não doeram, o que doeu for ver minha mãe chorar.
Me trancaram no quarto, era acostumada, tamparam minha janela e
trancam a porta, me forçam a rezar ajoelhada no milho, o que faz
meus joelhos sangrarem a ponto de não conseguir andar, isso por
horas a fio. Sem água e nem comida.
Dessa vez não foi diferente, quase dez horas pelo que contei, quando
sai minha mãe estava lá, tão roxa quanto eu. Tão machucada quanto
eu, e tão magoada quando eu.
Não tive coragem de olhar em seu rosto, apenas chorei de cabeça
baixa.
- Limpa esses joelhos e vai pra cama, amanha acordamos cedo pra
trabalhar e você tem escola.
Foi a única coisa que ela disse, sem um abraço, uma palavra boa.
Eu entendo, eu sinto o mesmo.
- Sim, senhora.
E assim eu fiz.
Na manhã seguinte, eu estava na mesa tomando leite, minha mãe na
pia como sempre e meu pai já tinha saído.
Não me foi proferida nenhuma palavra, afinal, o que falariam ? Eu só
causava desgosto.
Na escola todos já sabiam o que se passava em casa, era comum eu
chegar completamente machucada os professores me olhavam com
pena, principalmente as mulheres, elas passavam igual com os
maridos, já os alunos... Eu era apenas a fofoca do dia.
Mas em meio a tudo isso eu sabia, sabia que era só olhar pra
qualquer lugar espelhado e lá estava, a sombra, os olhos azuis
sorrindo pra mim daquele jeito horrível e cruel, e só assim me fazia
sentir melhor.
Só sabendo que ali só refletia a mim mesma, eu me sentia bem.
Afinal, era isso que espelhos refletiam não é? A própria alma.