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Aviso sobre Traduções Queer e Conteúdo

Eles são poraxeiro de leve e pronto tudo de bom maravilhoso e bons dms leiam tudo e tudo e ponto dms vai amar muito
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Aviso - km

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Sinopse

Callum Hayes

A primeira vez que testemunhei a morte foi a da minha mãe, quando eu


tinha oito anos. Isso me devastou. A segunda foi aos dezesseis, quando
tropecei no corpo do meu padrasto depois que ele foi brutalmente
assassinado. Essa me ferrou de uma maneira diferente.
Desde então, mantive minhas sombras afastadas, meus segredos bem
guardados. Isso até Stone Wakefield se juntar ao meu time de hóquei da
faculdade.
Cinco anos atrás, ele viu algo que eu pretendia levar para o túmulo. Ele
me viu fraco, e eu o odeio por isso. Não tenho escolha a não ser continuar
odiando-o para que ele nunca mais veja além da minha máscara.

Stone Wakefield

Callum me odeia, e ele não faz nada para esconder isso. Enquanto isso
torna fácil irritá-lo, apresenta um problema no gelo. No entanto, a maior
ameaça é minha crescente necessidade de protegê-lo e possuí-lo.
Quando começo a me perguntar se ele é tão obcecado por mim quanto eu
sou por ele, não tenho certeza se consigo ficar longe. Sei que deveria porque
tenho meus próprios segredos.
Mas e se a escuridão em nós dois for a peça que faltava?
Callum Hayes é meu. Ele só não sabe ainda.
CARO LEITOR
Muito obrigada por escolher Ricochet. Por favor, esteja ciente de que este
não é o seu típico romance de hóquei. Este é dark. Claro, o quão dark sempre
dependerá do leitor individual. Se você não tem certeza se consegue lidar
com esses garotos assassinos e toda a escuridão que os acompanha,
certifique-se de verificar os avisos de conteúdo antes de ler.
Para avisos de conteúdo específico, listas de reprodução e para se
inscrever na minha newsletter, visite meu site: [Link]
Para aqueles que desejam seus garotos de disco com uma dose insalubre de posse,
obsessão e assassinato.
Eu sou uma floresta e uma noite de árvores escuras: mas quem não tem
medo da minha escuridão encontrará bancos cheios de rosas sob meus
ciprestes.
— FRIEDRICH NIETZSCHE
Um
Callum
Sombras me arrastam para baixo com seus dentes e garras. Elas vivem
dentro de mim, me afogando em sua escuridão quase todas as noites quando
eu sou menos capaz de lutar contra elas.
Desta vez, algo me salva delas.
Como se por algum gancho invisível, minha consciência é arrancada de
volta para a terra dos vivos, para fora daquele abismo profundo onde eu
sufoco repetidamente, aquelas sombras enroladas em volta da minha
garganta. Onde eu morri mil mortes lentas.
É claro que estar acordado também traz seus próprios pesadelos.
Meus olhos piscam contra o brilho âmbar do poste de luz que fica bem do
lado de fora da minha janela. Não passa de uma sentinela inútil. Pensei em
pendurar cortinas blackout agora que os monstros não vêm atrás de mim
depois que o sol se põe, mas me recuso a me apegar a uma falsa sensação de
segurança.
Aprendi há muito tempo que os monstros continuam aparecendo, quer
você os veja ou não.
O despertador na mesa de cabeceira zomba de mim com seus números
vermelhos brilhantes até que eles ficam gravados no interior das minhas
pálpebras, visíveis até quando pisco. É pouco mais de uma da manhã.
Meu aniversário.
Hoje tenho dezesseis anos. Eu pensava - esperava - que a cada ano que
passasse, eu me sentiria mais seguro. Que ser mais velho viria com um
escudo mais forte, a cada ano uma camada extra de proteção.
Eu estava errado.
Não me sinto diferente.
Outro barulho - porque houve um antes, o que me acordou de um sono
profundo - atravessa a escuridão opressiva e o silêncio noturno de algum
lugar lá embaixo. O estalar de vidro, como se estivesse sob uma bota pesada.
Imagino meu padrasto lá embaixo, cambaleando bêbado, com uma
garrafa de cerveja quebrada no chão sujo da cozinha.
Não seria a primeira vez que acordaria com isso.
Não seria a primeira vez que eu seria forçado a limpar a bagunça se
descesse para verificar.
Então não me movo, em vez disso, aconchego o fino e puído edredom
mais apertado em volta de mim. Enterro minha cabeça no travesseiro e fecho
meus olhos, preferindo os pesadelos que vêm para mim durante o sono aos
que me assombram enquanto estou acordado.
Mas não tenho a chance de cair novamente nas garras deles.
— Ei. O que...
A voz rouca do meu padrasto ecoa escada acima, seguida por um
grunhido e um baque.
Um estrondo vem em seguida, enchendo meus ouvidos, furioso e
incessante. É meu coração, batendo desenfreado em meu peito e disparando
para minha garganta. Minha boca fica seca. Minhas mãos tremem onde
agarro os lençóis. Minha mente pensa enquanto tenta preencher as partes
que faltam do que está ouvindo, mas não vendo.
Ouve-se outro barulho de vidro sendo quebrado e então...nada.
Silêncio.
Silêncio mortal.
Quero puxar o cobertor sobre minha cabeça e me desligar do mundo.
Quero fingir que não ouvi nada. Quero esquecer todas as imagens
enervantes que meu cérebro conjurou para explicar os barulhos.
Definitivamente não quero descer.
Mas tudo é tão silencioso e, no final, a curiosidade leva a melhor.
O velho colchão geme enquanto me movo cautelosamente, abafando um
gemido de dor meu contra a dor persistente em meu ombro. E outro do
hematoma profundo que está estampado em meu lado esquerdo.
Enquanto desço as escadas, evitando o degrau que range na metade do
caminho, o medo se instala em meu intestino como um peso de chumbo. Não
é por causa do perigo que sinto. É aquele que eu não sinto. A ameaça que eu
deveria estar sentindo? Não existe.
E isso me deixa mais desconfortável do que qualquer outra coisa.
Essa garantia enganosa eu temo constantemente.
Meus pulmões estão apertados, recusando-se a respirar. Mas ainda sinto
o cheiro - um cheiro doce e enjoativo, acobreado, que permanece no ar
espesso.
Fico paralisado no último degrau.
As luzes da cozinha estão apagadas, mas o brilho alaranjado do poste de
luz do lado de fora da casa brilha através da janela na parede oposta. Ele
pega em algo molhado que se acumula no chão, uma poça brilhante. Estrelas
brilhando em um buraco negro. Há mais preto ao lado. Uma figura, uma
silhueta, uma forma imóvel deitada amassada nos ladrilhos sujos. Esta não
reflete a luz. É apenas preto puro. Um vazio.
A gravidade e a curiosidade me atraem enquanto desço o último degrau
e depois outro passo à frente.
Depois de mais um, paro com meus pés descalços a centímetros da poça
escura e brilhante de sangue. Isso cresce, se espalhando lentamente,
alcançando meus dedos. O corpo do qual ele ainda escorre jaz mutilado e
imóvel. Sem vida.
Todo o lado direito da cabeça dele está afundado, um buraco enorme onde
ele foi obviamente atingido. Posso ver cérebro e osso. Partes de pele e
tendões pendem em tiras sangrentas, os restos do olho direito mal se
agarram ao músculo e nervos presos. O outro olho está aberto, sua íris
marrom-castanha nadando em vermelho.
Não tem como ele ter sido atingido apenas uma vez. Não tem como eu não
ter bloqueado mais barulhos da luta dele.
Todos os danos dificultam a identificação do corpo.
Mas não impossível.
Meu padrasto morreu.
A parte realmente assustadora?
Não reconheço o que quer que seja esse sentimento que está crescendo
dentro de mim. O que sei é que provavelmente não é o que eu deveria estar
sentindo. Não há medo, nem tristeza ou angústia. Não há adrenalina
bombeando em minhas veias. Nenhuma resposta de luta ou fuga.
Só há… calma.
Como se eu estivesse vivendo minha vida em um mar revolto no meio de
uma tempestade, com ondas violentas quebrando sobre mim, me afogando,
me afogando, me afogando.
Agora as águas estão calmas.
E eu estou flutuando.
Antes que a poça crescente de sangue possa chegar à ponta dos meus
dedos, dou alguns passos apressados para trás. Um passo, dois, três. Então
giro e corro para as escadas. Meus pés trovejam nos degraus enquanto os
subo dois de cada vez, não sentindo mais a extrema necessidade de
permanecer em silêncio.
No meu quarto, vasculho minha mochila escolar no escuro, procurando
apenas pelo toque, sem me preocupar em acender as luzes. Assim que
encontro o que estou procurando, corro de volta para baixo.
Mais uma vez, paro no degrau inferior, apertando o caderno de desenho
contra o peito enquanto olho para o corpo sem vida, quebrado e
ensanguentado. Lentamente, abaixo-me até que minha bunda esteja apoiada
em um dos degraus.
Não sei quanto tempo fico ali sentado e apenas... olhando.
Os pensamentos na minha própria cabeça me assustam mais do que o fato
de que estou dividindo um espaço com o cadáver da única figura paterna
que já conheci. Que estou respirando o mesmo ar que tocou a morte.
Só quando finalmente desvio o olhar é que noto o estado da porta dos
fundos do outro lado da cozinha. O painel de vidro está quebrado,
provavelmente a fonte do que me acordou. Eu estava tão preocupado com o
sangue e o corpo que não tinha visto os cacos de vidro espalhados pelo chão.
Descansando meu caderno de esboços no colo, abro-o e viro para uma
página em branco. Meu lápis de carvão arranha o papel enquanto começo a
desenhar imediatamente.
Não há muita luz. Apenas o brilho do poste de luz fornece alguma
iluminação enquanto trabalho.
Mas não importa. Meus olhos já se ajustaram à escuridão há muito tempo.
Bem antes desta noite.
Meu lápis se move furiosamente pela página enquanto desenho, olhando
para cima de vez em quando para ter certeza de que estou fazendo a cena
certa. Meu cabelo cai nos meus olhos, e eu o afasto. Manchas pretas se
formam ao longo da lateral da minha palma.
Não me considero um artista, mas me tornei decente em esboços ao longo
dos anos. Não é sobre habilidade. É sobre a maneira como minha mente se
concentra no que estou fazendo, focando apenas na imagem, nas linhas e nos
detalhes, na sensação do carvão no papel.
É uma fuga.
É o que sempre foi. Uma maneira de desligar minha mente e bloquear
todas as forças externas que a distorceram para o deserto assombrado e
atormentado que ela existe agora.
Agora, é uma distração do que não consigo entender.
Porque acho que a cena diante de mim, a que estou recriando nesta página,
é... linda.
Porque eu quero capturar isso para poder guardar para sempre.
Por que é tão lindo?
Não é a primeira vez que vejo um cadáver. Testemunhei o último suspiro
da minha mãe, no hospital, no meio da noite, quando eu tinha oito anos.
Com o peso da mão do meu padrasto no meu ombro. Mesmo depois de tudo
o que aconteceu depois, a morte dela continua gravada no meu cérebro como
a pior da minha vida.
Mas e esse momento?
De alguma forma, consigo capturar todos os sentimentos cujo significado
estou tentando ignorar com todas as minhas forças nesta única página. Mais
do que uma imagem perfeita do que vejo, é uma imagem perfeita do que não
pode ser visto. O que nunca admitirei em voz alta.
Rasgo o papel do caderno, e o som rasga o silêncio tranquilo da morte.
Enquanto dobro a página várias vezes até que ela fique num quadradinho,
deixo meu olhar permanecer um pouco mais na cena linda e sangrenta
diante de mim.
Preciso esconder esse esboço. Preciso chamar a polícia.
E eu farei isso.
Só mais um pouquinho.
Um pouco mais de tempo para apreciar o melhor presente de aniversário
que já recebi.

Três dias é tempo mais que suficiente para que a notícia do assassinato do
meu padrasto se espalhe pela cidade. O que significa que não preciso
adivinhar o que os sussurros que me seguem pelos longos corredores do
colégio estão dizendo.
Agora eu sei o que é ser um pária.
Nunca fui um antes. Estar no time de hóquei do colégio como aluno do
segundo ano tem suas vantagens. Tenho muitos amigos. Ou, pelo menos, eu
achava que tinha. Ouvi falar de alguns deles nos últimos dias, mas nenhum
deles se aproximou de mim desde que entrei pela porta da frente.
Eles provavelmente estão contribuindo para os sussurros.
Não tenho interesse em verificar por mim mesmo.
Só estou aqui para pegar minhas coisas do meu armário e quaisquer
documentos que eu precise para me transferir para a nova escola em
Connecticut. A Pensilvânia tem sido meu lar durante toda a minha vida, mas
não sinto nada sobre ter que ir embora.
Ou talvez eu ainda não saiba como me sinto sobre isso.
Lewis Gibson não era um bom homem. Mesmo fora do pedacinho de
inferno que compartilhamos juntos. Ele tinha dívidas de jogo. Inimigos. Não
estou surpreso que alguém tenha decidido matá-lo.
Chego ao meu armário com murmúrios grudados em mim como a estática
do ruído branco. Eu os abafo porque não dou a mínima para o que eles estão
dizendo. Estou fora daqui de qualquer maneira.
— Ei, cara.
Max se inclina contra o armário ao lado do meu enquanto eu coloco minha
combinação. Dou a ele um aceno de reconhecimento.
— Ouvi dizer que você está indo embora.
Novamente, eu concordo.
Desde aquela noite, não senti coisas que seriam consideradas
psicologicamente normais em circunstâncias comuns. Sob minhas
circunstâncias, talvez o alívio e a alegria que sinto não fariam um psiquiatra
empalidecer.
Mas essa sensação avassaladora de paz?
Talvez isso sim.
É muito mais do que a morte daquele homem significa para mim agora.
Não posso dizer com certeza se eu estava pensando nisso quando desci
aquelas escadas e vi pela primeira vez a visão que mudaria minha vida para
sempre.
Em vez de um estado constante de caos e medo, um manto de calma foi
colocado sobre meus ombros, substituindo o peso de todo o resto.
Não foi só a morte dele que causou isso.
Foi a visão disso. O cheiro disso. A sensação disso no ar.
Lamentar a morte dele nunca esteve nos meus planos.
A única coisa que eu lamentei é que eu nunca mais serei capaz de ver
aquela visão fora das memórias. Eu nunca serei capaz de reviver aquele
momento. Eu deveria ter achado isso nada além de mórbido, mas era isso e
muito mais.
Assombrosamente lindo.
Por causa disso, estou mais fodido do que nunca. E isso quer dizer alguma
coisa. Não falei muito desde aquela noite porque estou com medo de a
verdade vazar.
Felizmente, meu silêncio pode facilmente ser interpretado como tristeza.
— Acho que você não tem muita escolha, hein? — Max coça a nuca
nervosamente. Isso me faz pensar se ele não foi q perdeu uma aposta para
ser o único a vir falar comigo. — Sinto muito pelo seu pai.
— Ele não era meu pai.
— Certo.
Não sei por que disse isso. Não importa o que todos pensam.
Principalmente porque ele não é mais... nada.
Ele não é nada.
O sorriso que ameaça levantar os cantos da minha boca é difícil de conter,
mas consigo.
— Ainda sinto muito — diz Max. — Deve ser uma droga mudar para uma
nova escola no meio do ano.
Eu quase rio. Se eu fosse normal, esse seria o menor dos meus problemas.
Mas como não sou, essa é provavelmente a parte que realmente é mais chata.
No entanto, morar com meus tios e seus três filhos vai ser ainda pior.
Eu nunca conheci bem o lado da família da minha mãe porque, pelo que
eu entendi, havia um certo ressentimento entre eles. Mas o que eu sei é que
eles já têm muito o que fazer criando três filhos, todos mais novos do que eu.
Não quero ser um fardo.
Mas Max estava certo. Não tenho muita escolha, já que ainda não tenho
dezoito anos. Estou surpreso que eles tenham se oferecido para me acolher.
Eu deveria me considerar sortudo.
Outro corpo se junta a Max enquanto começo a tirar livros do meu armário
e colocá-los na minha bolsa. Pelo canto do olho, vejo Max passar o braço
sobre os ombros da namorada enquanto desejo que eles simplesmente
fossem embora e me deixassem fingir estar sofrendo em paz.
— Sentiremos sua falta por aqui, Cal — diz Paige.
— Sim. Eu também vou sentir falta de vocês.
Só que eu não acho que realmente vou. E duvido que eles honestamente
vão sentir minha falta também.
Somos todos um bando de mentirosos.
Principalmente Paige. Ela estava me perseguindo por meses antes de se
contentar com Max depois de finalmente descobrir que eu não estava
interessado. Eu nunca me interessei. Por ninguém. Particularmente por uma
garota que só quer namorar um cara popular, muito a fim da própria
imagem dela. Ela passou muito tempo perseguindo veteranos antes de
seguir a linha de nós, alunos do segundo ano.
— Temos que ir para a aula. — Max limpa a garganta enquanto começa a
recuar, puxando Paige com ele. — Mantenha contato, ok?
Finalmente forço meu olhar na direção deles e dou a eles o tipo de sorriso
sombrio que eles esperariam. — Claro.
Eu não vou.
Eles também não.
Em alguns anos, todos nós esqueceremos que existimos.
Enquanto Max e Paige vão embora, continuo desenterrando os restos do
meu armário. Uma calculadora, algumas páginas soltas com esboços
esquecidos e alguns lápis de carvão apontados até virarem tocos. Enquanto
estou ocupado limpando cada canto, sinto olhos em mim.
Eu os senti desde que entrei na escola pela primeira vez. Tantos olhos.
Seus olhares arrebatadores e olhares demorados formigando minha pele.
Mas agora há novos. Esses olhos queimam na parte de trás do meu crânio.
Tento ignorar isso.
Até que eu não possa mais.
Olhando por cima do ombro, não fico nem um pouco surpreso ao ver
quem é o responsável pelos cabelos da minha nuca ficarem em pé.
Stone Wakefield está parado perto do seu armário, cercado por um grupo
de amigos. Eles são parecidos com os meus - atletas detestáveis que
realmente não dão a mínima para as pessoas do seu pequeno círculo. Ele os
ignora enquanto eles conversam e riem uns com os outros, seu foco em mim.
Sua atenção indesejada faz meu ombro latejar.
Stone é um veterano e o centro de primeira linha do time de hóquei do
colégio. Ele é dois anos mais velho que eu. E maior. Cerca de duas semanas
atrás, estávamos jogando uma partida de treino, e ele me derrubou nas
placas. Mais forte do que o necessário.
Antes disso, eu era bem ambivalente em relação a ele. Temos dois anos de
diferença, então não é como se passássemos muito tempo juntos fora do
hóquei.
Mas desde aquele dia eu o odeio pra caramba.
E aqui está a questão. Se fosse só a violência, eu poderia facilmente ter
superado. Mesmo que meu ombro ainda esteja doendo semanas depois.
Mas isso não foi a única coisa que aconteceu.
Eu raramente tomava banho no vestiário, mas depois daquele treino
doloroso naquele dia, eu estava morrendo de vontade de um pouco de água
quente para acalmar meus músculos doloridos. Decidi ficar, usando a
desculpa de afiar minhas lâminas e recolocar fita adesiva no meu taco para
poder esperar e tomar banho sozinho.
Pensei que estava sozinho.
Quando saí com apenas uma toalha enrolada na cintura, percebi que não
era apenas eu.
Nunca deixei ninguém ver as marcas que meu padrasto deixou em mim.
Mas Stone as viu.
Ele viu um pedaço de mim que eu tinha conseguido esconder muito bem
por muito tempo.
Era como se eu estivesse sendo esfolado vivo. Isto é, até que eu não me
sentisse vivo de forma alguma. Eu era um sapo, morto, membros sem vida
presos enquanto seus olhos me cortavam com a lâmina fria de um bisturi,
descascando cada camada de pele para que ele pudesse me dissecar. Estudar
minhas entranhas arruinadas.
Eu odiei isso e o odiei por isso.
Mas o que eu poderia ter odiado mais era o olhar de total desgosto e
desprezo que crescia em seus olhos quanto mais eles passavam por meu
corpo trêmulo e machucado. Tudo o que eu podia fazer era ficar ali,
congelado. Eu podia sentir cada gota fria de água que pingava do meu
cabelo, me gelando até os ossos enquanto rolavam por cada um dos meus
pesadelos expostos.
Ele nem tentou desviar o olhar. Ele se fartou.
Cada hematoma.
Cada cicatriz.
É como se ele estivesse testemunhando cada vez que eu fui fraco. Vivendo
cada memória minha onde qualquer resquício de força me falhou.
Ele estava me vendo quando eu odiava ser visto.
Então ele se virou e saiu sem dizer uma palavra.
E agora, parado a vários metros de mim no corredor, é como se ele
estivesse fazendo tudo de novo. Ele claramente não dá a mínima para ser
pego me encarando. De novo. Como se ele não tivesse absolutamente nada a
esconder. Seus olhos verde-acinzentados nunca vacilam. Apesar de estar
completamente vestido, eu poderia muito bem estar ainda mais nu do que
estava naquele dia.
Posso muito bem expor todos os meus segredos aos seus malditos pés.
Bem...dane-se isso e dane-se ele.
Sou eu quem vai embora dessa vez. Bato meu armário e fecho o zíper da
minha bolsa antes de seguir pelo corredor, passando por Stone e seus amigos
sem nem olhar.
Uma pessoa me vendo já é demais.
Mas nunca mais terei que ver essa pessoa.
Essa pessoa nunca mais me verá.
Ninguém jamais verá.
Dois
Stone

O ar frio arrepia minha pele quando piso no gelo. O rinque da


Universidade Lynwood é menor do que o da minha antiga faculdade na
Pensilvânia, mas gosto do seu charme. Além disso, eu precisava de uma
mudança de cenário, e Connecticut é um lugar tão bom quanto qualquer
outro.
Ajudou o fato de eu ter uma fácil inserção no time deles.
Eu patino em um círculo preguiçoso ao redor do centro do gelo, ignorando
o punhado de espectadores já nas arquibancadas esperando seus amigos ou
namorados começarem o treino. Eu sempre apareço cedo quando posso,
precisando do silêncio antes do caos, antes da violência. O frio familiar que
afunda em meus ossos enquanto patino sozinho é parte de um ritual que
acalma pelo menos um pouco do barulho na minha cabeça.
Poucos minutos depois do início da minha sessão solo, o time apareceu
dos vestiários, todos vestindo suéteres de treino pretos, laranja ou brancos.
— Wakefield!
O treinador está com eles, e eu patino até o banco para onde ele me
chamou. Enquanto alguns jogadores estão saindo para o rinque, eu paro em
frente à parede, cravando as bordas das minhas lâminas no gelo.
— Atenção, moças — o treinador grita desnecessariamente. Todos os
olhos já estão em mim. — Permitam-me apresentar seu novo centro de
primeira linha. Este é Stone Wakefield. Ele é um graduado transferido da
Pensilvânia.
Recebo vários acenos de queixo e alguns — oi — murmurados.
— Eu ainda acho que Brooks deveria estar na primeira linha. Ele mereceu.
É Nathan Simmons, o capitão do time, que fala de seu lugar ao lado do
treinador. O centro da segunda linha teria recebido minha posição se eu não
tivesse me transferido para Lynwood. Fiz questão de memorizar a escalação
antes de aparecer.
Havia um rosto familiar nele que eu sabia que veria hoje, mas me contenho
de procurá-lo. Não me importo o suficiente para isso.
Pelo menos é o que digo a mim mesmo.
— Tudo bem, Nate. Sério — diz Brooks.
— Bom homem, Brooks. — O treinador olha para os rapazes como se
esperasse por mais objeções. — Wakefield é um veterano do quinto ano, e
ele tem mais experiência. Ele é um bom jogador. Eu tive o prazer de ensiná-
lo quando ele estava no ensino médio. Ele é rápido. Quase tão rápido quanto
Hayes aqui.
E é então que meus olhos encontram os de Callum do outro lado da
parede.
Não posso dizer que esperava o olhar frio que ele está me dando, o mesmo
que ele me deu da última vez que nos vimos há cinco anos. Como se ele fosse
me congelar no gelo se pudesse.
Se ele ainda estiver chateado com o ombro, ele vai ter uma surpresa
desagradável.
O técnico Hill sempre nos encorajou a jogar tão cruel e implacavelmente
durante os treinos quanto faríamos em um jogo real. É uma das razões pelas
quais o respeito tanto quanto o respeito e por que não hesitei em aceitar seu
convite para jogar por ele quando ele descobriu que eu estava querendo me
transferir.
Quanto àquela pequena batida em Callum naquele dia, o treinador mal
me deu uma reprimenda por isso. Eu nem teria conseguido se não tivesse
causado danos duradouros. Eu também não me desculpei por isso. Callum
pode ter entrado para o time principal por causa de sua velocidade no gelo,
mas ele nunca foi tão agressivo quanto precisava ser.
Espero que isso tenha mudado.
Não é que eu o achasse fraco. Eu só estava tentando incitar a luta nele que
eu sentia que precisava ser liberada.
Nunca tive a chance de descobrir se funcionava antes de ele se mudar.
Ele mudou, pelo menos fisicamente.
Ele está usando um suéter preto como o meu, nós dois na primeira linha.
Ele é um pouco mais alto, embora ainda alguns centímetros mais baixo do
que eu. Pelo que posso ver sob suas almofadas, ele está consideravelmente
mais cheio. Seu cabelo está mais longo, fios castanhos caindo sobre sua testa.
Ele está barbeado, nada para esconder a rigidez de sua mandíbula enquanto
ele continua me encarando. Apesar do castanho escuro de seus olhos, eles
mantêm o frio implacável do gelo em que estou.
Cedo à vontade e respondo com um sorriso irônico.
Seu maxilar estala.
Há algo mais ali também, por baixo de qualquer animosidade que ele sinta
por mim. Uma hesitação, um tipo de conflito que é interno tanto quanto
externo. Como se eu fosse um fantasma do passado dele que voltou para
assombrá-lo.
Mais como um demônio.
Ou um ceifador.
O treinador nos dispensa, e todos patinam no gelo para se aquecer. Callum
se move pelo rinque, e vários dos outros caras parecem gravitar em sua
direção. Fica claro que nossos papéis foram invertidos. No ensino médio, o
time do colégio era meu. Callum joga com esses caras há três anos, enquanto
eu terei que ganhar a confiança deles dentro e fora do gelo.
Não consigo deixar de observá-lo enquanto nos aquecemos. Ele ainda é
rápido. Talvez mais rápido do que costumava ser. Seus movimentos são
afiados e deliberados, como se no gelo fosse onde ele se sente mais em casa,
mais confortável em sua pele.
O gelo faz parte de sua armadura.
Mas o gelo pode ser fácil de quebrar.
Não que eu tenha planos de fazer isso. O melhor para nós dois é que eu
fique longe.
Conforme começamos os treinos, forço minha atenção para longe de
Callum e, em vez disso, foco em aprender como esses caras jogam. Callum
joga na mesma posição que ele jogava no ensino médio - ala esquerda. Só
que ele está na primeira linha como eu agora, então ele vai para o gelo
comigo durante todos os jogos. Em vez de jogar em lados opostos durante
os treinos, teremos que descobrir como trabalhar juntos.
Tenho a sensação de que isso envolverá pequenos passos.
O treinador me fez fazer exercícios com Simmons, o capitão e ala direita
da primeira linha, junto com nossos defensores. Olho bem a tempo de pegar
outro olhar de Callum de onde ele está trabalhando com Brooks em passes
de um toque do outro lado do rinque.
Certo, então serão necessários muito mais do que pequenos passos.
Mas tudo bem. Estou sempre pronto para um desafio.
O que certamente não é fazer o disco passar por Fitz, o goleiro titular do
time.
Não é de se admirar que o Lynwood Monarchs nunca tenha ido a um
campeonato.
É melhor Callum estar pronto para deixar qualquer merda que ele tenha
comigo de lado para que possamos realmente fazer alguma coisa. Este é meu
último ano de hóquei. Não planejo seguir carreira profissional. Sei que
poderia. Tenho certeza de que sou convencido o suficiente para saber que
tenho o que é preciso.
No entanto, não sou arrogante o suficiente para me colocar sob os holofotes
ainda mais brilhantes.
Não quando trabalho melhor nas sombras.
Depois de uma hora e meia de treino, meus músculos estão gritando
comigo. Eu posso ter passado a maior parte do verão fazendo... outras coisas
além de manter qualquer tipo de treinamento físico. Eu deveria ter visitado
a academia mais, mas eu estava um pouco preocupado.
Não estou exatamente ansioso para o treinamento de força e
condicionamento bem cedo amanhã de manhã. Acho que esse será o
verdadeiro teste de quão fora de forma estou quando descobrir se os gritos
ficam mais altos.
— Bem, Wakefield — Simmons diz enquanto todos nós voltamos para o
vestiário. — Suponho que você pode ficar por aqui.
Solto uma risada curta e irônica. — Obrigado.
Tenho certeza de que Callum adoraria discutir isso.
Pelo menos parte da primeira linha de ataque não me odeia.
Depois de pendurar meu taco, tiro meu suéter enquanto caminho até
minha estação. O treinador passou esta manhã me mostrando o lugar e me
ajudando a me acomodar, então me sinto em casa enquanto penduro
cuidadosamente o suéter preto com o grande número “13” virado para
frente.
Enquanto passo a mão na testa para afastar os cabelos grudados de suor,
avisto o homem parado na estação ao lado da minha.
É Callum.
Claro que é Callum.
Seu olhar encontra o meu e, por um momento, é como se ele estivesse
congelado no tempo. Um tempo no passado, de volta àquele garoto de
dezesseis anos com aquele olhar assombrado em seus olhos quando o peguei
sozinho em um vestiário diferente.
Apenas alguns segundos depois, ele sai disso. Ele revira os olhos enquanto
solta um suspiro exasperado.
Acho engraçado como isso claramente o afeta depois de todos esses anos.
Embora eu provavelmente devesse estar tentando desarmar qualquer
bomba que esteja tiquetaqueando entre nós, não vou me desculpar por algo
que não sinto muito. Então, até que ele consiga superar isso, ele vai ter que
lidar comigo sendo um babaca de volta para ele.
Olho por olho.
Dente por dente.
— Como está o ombro, Hayes? — pergunto enquanto tiro minhas
almofadas e as penduro também.
— Por quê? — Ele não se vira para olhar para mim novamente enquanto
começa a tirar suas próprias camadas e pendurá-las em sua estação. —
Planeja machucá-lo novamente?
Solto outra risada curta, nada mais que um suspiro pelo nariz. — Nah.
Preciso dos meus alas em ótima forma.
— Chame-me de seu ala novamente e teremos um problema, Wakefield.
— Engraçado. Pensei que já tivéssemos isso. — Me viro para ele enquanto
ele está removendo suas almofadas, revelando sua camada de base que está
grudada em músculos bem definidos. Ele definitivamente está mais cheio
desde o ensino médio, mas ainda é mais magro do que eu. — Ou eu estava
confundindo olhares de tesão com aversão?
Ele franze a testa novamente.
Não, definitivamente aversão.
— Vai se foder, Stone.
Ele passa por mim, me deixando rindo baixinho.
Olhando por cima do meu outro ombro, vejo-o desaparecer nos chuveiros.
Acho que ele não tem tanta aversão a tomar banho no vestiário como antes.
Não que eu o culpasse quando entendia o motivo.
Se Callum soubesse que matei seu padrasto, ele me odiaria ainda mais?
Ou menos?
Três
Callum
O vapor do chuveiro enche meu pequeno banheiro enquanto desligo a
água e saio do box. Depois de me secar, enrolo a toalha na cintura e saio para
o meu quarto.
Eu poderia acabar atrasado para minha primeira aula porque decidi voltar
para casa para tomar banho depois da sessão matinal do time na academia.
Eu simplesmente tinha que dar o fora dali. Minha pele ficava arrepiada toda
vez que meu olhar se cruzava com o de Stone do outro lado da sala.
Toda vez que ele olha para mim, é como se estivesse me abrindo
novamente.
Ver Stone pela primeira vez em anos está fazendo meu mundo inteiro
desabar.
Posso não ter todas aquelas mesmas marcas no meu corpo como eu tinha
antes. Os únicos hematomas que eu ostento hoje em dia são dos jogos
particularmente difíceis, quando eu baixo a guarda um pouco demais. Eu
ainda tenho algumas cicatrizes, mas elas desapareceram o suficiente para
que eu me sinta confortável tomando banho em vestiários agora. Alguns
caras me perguntaram sobre elas, mas é fácil responder com “velha lesão de
infância” sem muitas perguntas de acompanhamento.
Mas isso não apaga a lembrança de Stone tê-las visto todas quando eram
novas.
Se eu aprecio uma coisa sobre ele, é que ele não tocou no assunto. Tudo o
que ele mencionou foi a lesão no ombro, que sarou há muito tempo.
Então ele ao menos se lembra?
Ele realmente acha que eu o odeio só por causa da coisa idiota do ombro?
Se ele acha, tudo bem. Vou deixá-lo pensar o quanto quiser. Isso só significa
que ele não vai pensar naquele dia no vestiário, na visão da minha carne
marcada. Na minha vulnerabilidade e fraqueza.
Não sou mais tão fraco assim.
Depois de me vestir, coloco os livros que preciso para hoje na minha bolsa,
ficando irracionalmente irritado quando eles não conseguem caber direito
na primeira tentativa.
Porra. Por que estou deixando-o me irritar desse jeito?
Paro, respiro fundo e tento novamente.
Finalmente os coloco para dentro, então consigo espremer um dos meus
blocos de desenho menores ao lado deles. Jogando a bolsa no ombro, saio do
meu quarto ao mesmo tempo em que a porta do outro quarto se abre.
Jesse, meu colega de quarto, sai com sua calça de pijama amassada e
cabelos castanhos dourados espetados em todas as direções. Ele boceja,
coçando o peito nu a caminho da cozinha.
— Bom dia — ele murmura em meio a um segundo bocejo enquanto vai
direto para a cafeteira.
— Então, que matéria você ficou estudando até tarde ontem à noite? —
pergunto enquanto paro do outro lado do balcão.
Um sorriso sonolento levanta um canto de sua boca. — Mmm. Morena.
Cheia de curvas.
Bufo. — Porco.
— Acredito que o termo correto seja positividade sexual. — Seu sorriso
se alarga enquanto ele mostra os dentes.
Jesse é muito positivo em relação ao sexo. E pansexual. Ele tem uma teoria
de que eu posso ser aroace1, considerando que nunca tive nenhum tipo de
relacionamento desde que o conheço. Bem, literalmente nunca. E talvez eu
seja. Qualquer atração sexual que eu tenha sentido por outras pessoas foi
rara e distante entre si. E romance? Bem, eu nunca senti atração romântica
por ninguém na minha vida.
Por outro lado, raramente chego perto o suficiente das pessoas para sentir
alguma coisa.
Jesse gosta de me lembrar que é completamente normal questionar
constantemente a própria orientação. Ele é bem aberto sobre sua jornada
com a sua própria.
Mas a verdade é que não me importo o suficiente para descobrir a minha.
Tenho minhas dúvidas de que as razões pelas quais sou do jeito que sou
tenham algo a ver com orientação.
Jesse é meu amigo desde que me transferi para o ensino médio aqui em
Connecticut. Fiquei muito na casa dele para aliviar o fardo da minha tia e do
meu tio. Quando nós dois recebemos bolsas de estudos esportivas para
Lynwood - ele está no time de basquete da faculdade - os pais dele nos deram
este apartamento, e usamos os poucos fundos de moradia fora do campus
que recebemos para ajudar a pagar por ele. É um pequeno apartamento de
dois quartos perto do campus, o que é perfeito, já que não tenho carro.
— Você sabe que estou só brincando. Faça o que quiser, cara. Tenho que
ir para a aula.

1 “Aroace” é a junção de arromântico (alguém que não sente atração romântica) e assexual
(alguém que não sente atração sexual). Uma pessoa aroace pode não experimentar nem
atração romântica nem sexual, mas a forma como isso se manifesta varia muito. Algumas
ainda podem gostar de relacionamentos próximos, ter conexões emocionais fortes ou até
preferir certos tipos de intimidade sem que envolvam romance ou sexo.
— Vejo você na aula de poder público mais tarde — ele diz enquanto se
serve de uma caneca de café.
— Sim. Mais tarde.
Saio do apartamento e começo a caminhada de meia milha até o prédio de
ciências de Lynwood para minha aula de biologia. Estou com medo tanto
dele quanto do poder público. Se eu tiver sorte, a manhã passará rápido para
que eu possa chegar à minha primeira aula de arte do ano.
No entanto, temo que qualquer prazer que eu possa ter com isso seja
arruinado pelo treino de hóquei mais tarde.
Quando estava me aproximando do prédio, ouço alguém chamar meu
nome.
— Callum!
Eu me viro para ver Nate correndo em minha direção, então paro para ele
me alcançar. — O que foi?
— Só queria ter certeza de que você vai estar no treino mais tarde.
— Claro. — Começo a andar novamente com Nate acompanhando meu
passo. — Por que eu não estaria?
— Cara, você pode cortar a tensão entre você e Wakefield com uma faca.
— Você está se agarrando a qualquer coisa — digo, rebatendo seu clichê
com um dos meus.
Ele olha para mim com os olhos semicerrados, e quando não consigo
controlar o sorriso que se contorce nos meus lábios, ele me empurra no braço.
Nós dois estamos rindo quando paramos do lado de fora da porta do prédio
de ciências.
— Olha, Cal, eu te fiz um favor e convenci o treinador a fazer você fazer
exercícios com a segunda e a terceira linha ontem. Eu não fiz perguntas
quando você disse que não queria treinar com nosso novo centro no primeiro
dia dele. Mas você sabe que o treinador vai querer você com Wakefield o
resto da semana. Eu só quero ter certeza de que você não vai trazer qualquer
problema que você tenha com ele para o gelo.
Nate tem razão, é claro. Não podemos nos dar ao luxo de ter hostilidade
entre ninguém no time.
Infelizmente, tenho muita inclinação para um certo centro de primeira
linha.
Mas cometi o erro de deixar nosso capitão ver isso. Geralmente sou melhor
em esconder as coisas. Stone me pegou desprevenido, só isso. Vou garantir
que minha máscara esteja mais firme no lugar quando chegar a hora do
treino.
— Vou deixar fora do gelo. Juro.
— Tem certeza? Preciso deixar vocês dois no rinque em horários
diferentes para que vocês possam se acostumar com os cheiros um do outro?
Eu levanto uma sobrancelha. — Como gatos?
Ele dá de ombros. — Tivemos que fazer isso quando trouxemos um novo
para casa. Nosso outro gato o odiou por tipo a primeira semana. Tivemos que
deixá-los se revezarem para sair do banheiro.
Balançando a cabeça, começo a dar passos para trás em direção à porta. —
Eu vou ficar bem. Você não precisa me trancar no banheiro.
Ele ri e acena. — Bom. Vejo você no treino.
Enquanto Nate se afasta, entro no prédio de ciências e encontro a sala de
aula facilmente no primeiro andar - um grande auditório, já que esta é
apenas a parte de palestras do curso. Entro e vejo Anatomia e Fisiologia II no
projetor. Seguindo pelo corredor, escolho um assento em uma das fileiras do
meio no lado esquerdo da sala.
Eu esperava chegar atrasado, mas a sala está atualmente apenas pela
metade.
Acomodando-me, pego meu livro didático junto com meu bloco de
desenho. Abro este último, retiro um lápis de um dos bolsos menores da
minha bolsa e começo a passá-lo sem pensar sobre a página em branco.
Acabo com um rabisco de um taco de hóquei, adicionando febrilmente linha
após linha para a fita até que esteja sombreado.
Arte e hóquei sempre foram meus lugares seguros, minhas fugas das
sombras escuras do meu passado.
Rascunho de carvão sobre papel.
Lâminas esculpindo o gelo.
É criação e poder. Liberdade e controle.
Finalmente, estou me sentindo um pouco mais equilibrado do que desde
que fui à academia esta manhã.
Então alguém se senta no assento ao meu lado, fazendo com que eu olhe
para cima.
— Claro que sim — murmuro enquanto fecho meu bloco de desenho.
Nem mesmo desenhar será capaz de me distrair da presença enervante de
Stone.
— É bom ver você também, companheiro de time.
Recostando-me no meu assento, franzo a testa para seu perfil lateral
enquanto ele coloca um laptop em sua pequena mesa. — O que você está
fazendo aqui? Você já não deveria ter feito essa aula?
— Estou fazendo mestrado em cinesiologia — ele diz enquanto abre seu
laptop e o liga. — Estou fazendo isso como um curso de atualização. Não se
preocupe. — Ele se vira para olhar para mim com um sorriso curvando seus
lábios. — Não estou perseguindo você, Hayes.
— Ah, é? Há pelo menos duas dúzias de assentos vazios nesta sala. Por
que diabos você tem que se sentar aqui?
— Porque você não conseguia parar de me olhar na academia esta manhã.
Pensei em facilitar para você, para que não precisasse forçar seus lindos
olhos me encarando do outro lado da sala.
Zombo, decidindo não ressaltar que ele estava me encarando tanto,
porque isso só confirmaria que eu também estava olhando para ele.
Trocando meu bloco de desenho pelo meu caderno, eu o coloco na mesa
ao lado do meu livro didático. Enquanto isso, Stone pega seu digital,
dividindo a tela para fazer anotações em um documento em branco ao lado.
— Não é minha culpa que você tenha uma cara tão socável. É como um
desastre de trem. Simplesmente não consigo desviar o olhar.
Ele ri facilmente, como se meu insulto fosse nada.
Provavelmente porque ele é arrogante o suficiente para saber que não é
verdade. Ele está barbeado, exibindo um maxilar afilado. Seu cabelo preto
escuro contrasta com sua pele de marfim. Até eu posso admitir que seus
olhos verde-acinzentados claros são hipnotizantes. Lavados pela chuva.
Como sálvia branca ou uma floresta na neblina.
Nada disso muda o que sinto por ele.
Logicamente, eu sei que ele me ver naquele dia no vestiário não foi culpa
dele. Mas o jeito que ele olhou para mim foi. E pelo menos metade do jeito
que eu me senti depois foi culpa dele também.
Eu já me sentia fraco, e ele só fez eu me sentir mais fraco.
Agora posso adicionar arrogância à lista de motivos para odiá-lo.
A professora entra, efetivamente interrompendo nossa conversa - se é que
podemos chamar assim. A sala fica em silêncio enquanto ela passa os
primeiros quinze minutos falando sobre o programa de disciplina. Quando
ela pula para o primeiro capítulo sobre anatomia de superfície, a tela do
laptop de Stone mostra um desenho nu de uma figura masculina.
Ele olha para mim e pisca, porra.
Meu queixo treme enquanto abaixo a cabeça e começo a rabiscar notas.
Eu estava realmente ansioso por este ano entre hóquei e minha aula de
design interativo. Stone simplesmente teve que vir correndo para fazer o
inferno na terra em vez disso. Não só terei que me sentar nesta aula com ele
três vezes por semana, mas provavelmente teremos o laboratório quinzenal
juntos também.
Se ele tentar fazer parceria comigo durante isso, juro por Deus que vou
cortar minha própria garganta.
O passado tem um jeito de se agarrar a você como uma sombra.
Essas sombras faziam eu me sentir fraco.
Stone viu essa fraqueza. Alimentou-se dela.
Com seu retorno indesejado à minha vida, temo que ele possa se juntar à
parte mais escura dessas sombras.
E parece que nunca vou conseguir escapar dele.
Quatro
Stone
A questão é a seguinte. Eu realmente não sou um babaca. Juro.
Mas eu posso ser.
Há uma diferença.
Eu posso ser um babaca com pessoas que merecem. Eu posso ser um
babaca com pessoas que são babacas comigo primeiro. Isso se chama energia
correspondente, e eu sou muito bom nisso. Claro, há muitas vezes em que
eu não deveria ou quando a pessoa nem vale a pena o problema.
Quando se trata de Callum?
Eu definitivamente não deveria.
Considerando que estamos no mesmo time e o crime que cometi contra
ele - por ele? - eu realmente deveria estar tentando aliviar a tensão entre nós.
Para ser honesto, não sei ao certo quem deu a Callum todos aqueles
hematomas e cicatrizes, mas é um palpite muito bom quando se leva em
conta as outras informações que me foram dadas.
Ainda assim, não posso deixá-lo descobrir a verdade.
Não quando meus segredos não são só meus.
Não quando eles são maiores que eu.
Mas há algo nele que me faz querer revidar, combater gelo com fogo.
É exatamente por isso que me sentei ao lado dele na aula hoje. Ele vai
superar um jogo de treino idiota do ensino médio ou vai ter que lidar comigo
fazendo seu sangue ferver dentro e fora do gelo pelo próximo ano.
Tenho que admitir que vê-lo se contorcer foi mais divertido do que eu
esperava.
Esse deve ser o ponto alto do meu dia que levo comigo para o treino, já
que não consegui chegar cedo. Minha aula de bioquímica nutricional
atrasou, então estou perdendo meu tempo sozinho no gelo. Espero mesmo
que o professor não faça disso um hábito. Não me importo de sair da aula
quando ela deveria ter acabado, mesmo que o professor não esteja dando
sinais de que vai nos dispensar, mas também não quero correr o risco de
perder informações importantes.
Parado em frente à minha estação enquanto o resto do time entra no
vestiário, visto minha camada de base antes de tirar meu equipamento de
proteção.
Callum aparece, me ignorando enquanto joga sua bolsa no chão e começa
a tirar sua camisa e jeans. Eu mal resisto à vontade de me virar e olhar para
ele. Eu tive que me impedir de fazer isso no chuveiro ontem também.
É só curiosidade. Não esqueci o mapa de marcas brutais deixadas em seu
corpo. Imagino quantas delas ainda estão lá.
Embora uma parte de mim tenha gostado da nossa discussão verbal, sei
onde traçar os limites.
Por mais que eu queira olhar para ele, não vou me permitir.
Mas quando ele veste sua própria camada base, o jogo recomeça.
— Então, nós realmente vamos treinar juntos hoje? — pergunto enquanto
coloco meus protetores. — Provavelmente seria uma boa ideia, já que você
é, sabe, um dos meus alas e tudo.
Posso ver sua mandíbula se mexendo enquanto ele range os dentes. — Eu
disse para você não me chamar assim.
— Qual é o problema, Hayes? — Inclinando-me para o lado, sinto o cheiro
de sua loção pós-barba. É doce e picante, como cereja e canela. Porra, ele cheira
bem. — Você não quer ser meu?
Quando ele me encara, há algo no fundo de seus olhos, no dilatar de suas
narinas e na postura de seu maxilar que vai além de qualquer ódio que ele
sinta por mim.
Toquei num ponto sensível muito mais fundo do que eu pretendia.
A próxima vez que ele fala, é com uma convicção fria que eu nunca ouvi
dele antes. — Eu não pertenço a ninguém, porra.
Essa é a minha deixa para recuar.
Endireitando-me, dou-lhe um aceno de cabeça. — Justo.
Agora sei onde fica outro limite.
No entanto, aquelas poucas palavras simples, a intensidade com que ele
as falou, o olhar duro e inabalável em seus olhos que estava mascarando algo
completamente diferente ficaram comigo. Tudo isso mexeu com a metade
de mim que eu fiz um ótimo trabalho em manter trancada quando se trata
dele.
Abaixo do meu exterior, há duas partes.
Uma protetora e uma besta.
Callum parece gostar de cutucar o último, mas agora há algo nele que está
chamando a outra metade, assim como tentou fazer anos atrás.
Enquanto continuamos nos preparando, eu o deixo em paz e dou a ele
algum espaço. Sento-me no banco para calçar meus patins, e quando ele se
senta ao meu lado para fazer o mesmo, é como se a temperatura caísse vinte
graus.
Ele termina de amarrar os cadarços na minha frente e fica de pé, de frente
para mim. — Prometi ao Nate que manteria meu problema com você longe
do gelo, e é isso que pretendo fazer. Se você quer ter alguma chance de
jogarmos pelo menos meio decente, então fique longe de mim quando não
estivermos no rinque. Entendeu?
Eu também me levanto e dou um passo em direção a ele, abaixando minha
voz para que ninguém ouça. — Então que tal você realmente superar seu
problema, Callum? Eu posso jogar limpo se você puder. Se não, vai ser um
longo ano do caralho.
Antes que ele possa responder, eu me movo em volta dele e tiro meu
suéter do cabide. Eu o visto e pego meu taco antes de sair do vestiário.
Estou furioso quando entro no gelo.
Da próxima vez que um dos meus professores idiotas quiser manter a aula
até mais tarde, vou embora. Eu precisava do meu tempo no rinque antes do
treino muito mais do que precisava daquele confronto com Callum.
Agora, em vez daqueles barulhos na minha cabeça serem silenciosos, eles
estão furiosos.
É o que acontece quando não consigo o que preciso. Quando não tenho a
chance de domar a besta dentro de mim antes de deixá-la sair no gelo - ou
em qualquer outro lugar, para falar a verdade - ela fica mais cruel do que
nunca.
Querendo comer tudo que encontra pela frente.
Matar e devorar.
Eu posso ter recuado, mas Callum tinha que continuar insistindo.
E é claro que vou revidar.
Porque a alternativa é perigosa para nós dois.

O treino foi tão bom quanto eu esperava. O que quer dizer que não foi
nada bom.
Quando estávamos fazendo exercícios, Callum usou qualquer desculpa
que encontrou para não me passar o disco. Claro, foi de uma forma que não
foi perceptível para ninguém além de mim. Ele escapou porque quando ele
realmente o passou para mim, foi com precisão perfeita, batendo contra
minha fita todas as vezes. Foi o suficiente para fazer os olhos do treinador
brilharem como se ele já pudesse ver o placar se iluminando a seu favor.
Callum e eu poderíamos jogar muito bem juntos se ele estivesse
interessado em ganhar jogos.
Aparentemente, ele não está.
Depois, entrei em uma batalha de disco com Brooks e o empurrei contra
as placas um pouco mais forte do que eu pretendia. Ele acabou em uma pilha
no gelo. Eu tinha que descontar minhas frustrações em alguém, e por razões
que ficaram claras no vestiário, eu não queria que esse alguém fosse Callum.
No entanto, depois que fiz o gol, Callum olhou feio para mim, como se
quisesse vingar o cara que ele queria que fosse seu centro.
Tanto para qualquer um de nós manter nossas coisas longe do gelo.
Claro, não recebi nenhuma crítica por isso. O treinador Hill disse ao
técnico assistente que ele precisa trabalhar mais com a segunda linha e gritou
com o técnico de goleiros do time que “Fitz precisa prestar atenção ao que
está acontecendo”. Então recebi um tapa nas costas por um trabalho bem
feito.
Eu jogo tão bem quando tenho aquele momento de silêncio para mim
antes quanto quando não tenho. A diferença é que, no caso do último,
geralmente há mais sangue e risco de ossos quebrados.
Depois do treino, sou o primeiro a chegar ao vestiário, tirando meu suéter
e protetores para poder trocar para minhas roupas normais. Não me lembro
da última vez que pulei um banho logo depois do treino ou de um jogo, mas
preciso sair daqui. O barulho na minha cabeça está muito alto, exigindo mais
do que já dei.
Se eu não for embora agora, aquela besta vai levar mais para si.
Não olho para Callum, mas consigo sentir seus olhos nas minhas costas
enquanto saio do vestiário.
Empurrando a porta dos fundos do prédio, marcho para fora e em direção
ao estacionamento onde meu Dodge Charger preto está estacionado. Eu abro
a porta do motorista e me jogo no assento. O motor ruge para a vida, e saio
do campus em direção ao meu apartamento.
Eu não moro longe, a menos de dez minutos de carro. Eu também moro
sozinho. Então, assim que subo as escadas para o segundo andar e entro, tiro
minhas roupas mais uma vez, jogando-as no chão a caminho do banheiro.
A água esquenta rapidamente, e entro no chuveiro sob o jato de vapor.
Abaixo a cabeça, deixando-a bater contra meus ombros. Fechando os olhos,
solto um gemido satisfeito.
Não sei o que há em Callum que me deixa tão irritado. Sua animosidade
está se infiltrando em mim quando essa é a última coisa que eu deveria
permitir. Quero revidar, rebater tudo o que ele joga em mim, mas, ao mesmo
tempo, não quero machucá-lo mais do que ele já foi machucado.
Sempre tive fortes instintos de proteção, e eles só cresceram ao longo dos
anos.
A níveis perigosos.
É por isso que tenho cuidado para não tornar o que faço pessoal. Eu não
conhecia Callum tão bem assim, então foi fácil o suficiente não tornar pessoal
quando assassinei seu padrasto. Ok, talvez não foi fácil. Mas é o que eu tinha
que fazer.
Contudo, as coisas são diferentes agora.
É pessoal.
Eu já o salvei uma vez e não vou deixar ninguém machucá-lo novamente.
Eu quero protegê-lo.
Mas esse outro lado de mim?
Ele quer acabar com ele.
Ele quer ser o único autorizado a tocá-lo.
Callum Hayes é a primeira pessoa a me fazer pensar que minhas duas
metades podem se sobrepor.
Quando abro os olhos novamente, vejo que meu pau está meio duro. Não
faço ideia do que diabos é isso.
Ok, eu sei. Mas me recuso a reconhecer isso.
Estou tentado a terminar o que comecei, mas não é a liberação que
realmente preciso agora.
Depois que termino meu banho, eu me seco e troco de roupa. Pego meu
celular, vou para a sala e me jogo no sofá.
Está tão quieto.
Eu adoro morar sozinho.
Meu pai faleceu quando eu tinha doze anos, deixando para trás uma
quantia considerável de dinheiro. Minha família não é rica de forma alguma,
mas conseguimos viver confortavelmente. Ele criou vários programas de
software usados por muitas empresas da Fortune 500 e passou a maior parte
da vida economizando o que ganhava. Esse dinheiro pagou a minha
educação universitária e a da minha irmã - pelo menos o que minhas bolsas
de estudos esportivas não cobrem - assim como este apartamento.
Posso amar morar sozinho, mas não amo morar tão longe da minha mãe
e irmã. No entanto, sei que minhas bolsas ajudam a aliviar o fardo das
economias do meu pai. Quando o técnico Hill me ofereceu uma vaga no
Lynwood Monarchs, não pude recusar. O objetivo sempre foi fazer meu
mestrado e jogar mais um ano de hóquei.
As economias do meu pai não durarão para sempre. Quero poder ajudar
minha família o máximo que puder. De preferência como fisioterapeuta, mas
aceito o que puder.
Pensando na minha família, disco o número da minha irmã.
— E aí, moleque?
Minha boca se ergue ao som da voz de Lacey. — Só queria checar. Ver
como as coisas estão indo.
Ela suspira pesadamente. — O mesmo de ontem. O mesmo de anteontem.
E antes disso. E antes disso.
Dou uma risada baixa. — Entendi. Você pode me culpar? Nunca fiquei
fora tanto tempo antes. Como está a mamãe?
— Oh, você a conhece. Trabalhando muito duro como sempre.
— É. — Eu me inclino para trás nas almofadas macias e passo a mão no
rosto. — Gostaria que ela não fizesse isso. Entre você e eu, sempre
cuidaremos dela.
— Ela não quer que os filhos tenham que cuidar dela. E eu entendo, Stone.
— Um saco farfalha na linha seguida por um barulho, e consigo imaginar
minha irmã sentada em sua mesa com um saco aberto de salgadinhos de
cebola. — Mesmo quando papai estava vivo, ela sempre foi forte e
independente.
— Mas você sabe que essa não é a única razão pela qual ela trabalha
demais.
Lacey suspira novamente. — É, eu sei.
Mesmo depois de onze anos, nossa mãe ainda usa o trabalho para se
distrair da perda do nosso pai. Ela é enfermeira de pronto-socorro e passa
muito mais tempo no hospital do que o exigido dela.
Entre meu pai, que sempre quis manter sua família segura e sustentada, e
minha mãe, que é uma cuidadora nata, não é de se espantar de onde vêm
meus instintos de proteção.
— E você? Como vai, Lace?
Dessa vez, quando ela suspira, é longo, alto e dramático. — Aqui mesmo,
chafurdando em autopiedade.
Rio e balanço a cabeça. — Lacey.
— Estou ótima agora que tenho todas essas imagens na cabeça de mim
dirigindo até Connecticut para acabar com você.
— Você não tem sempre essas imagens na cabeça?
— Apenas cerca de seis vezes por dia.
Nós dois rimos até ela falar novamente.
— Sério, Stone. Você me conhece. Estou arrebentando e fazendo meu
nome.
Lacey é uma analista de segurança de TI para uma corporação
governamental, um trabalho para o qual ela assinou um acordo de
confidenciabilidade e não tem permissão para falar conosco. Ela sabia que
queria seguir os passos do nosso pai na indústria de tecnologia desde jovem.
Ela é dois anos mais velha do que eu, mas eu me lembro de quando nós dois
éramos bem pequenos, passando pelo escritório do nosso pai muitas vezes e
a vendo sentada lá com ele. Ela ficava na frente de um dos três computadores
na sala, digitando como se soubesse o que estava fazendo.
Agora ela é quem trabalha no mesmo escritório, com cinco computadores,
todos executando programas separados ou o que quer que ela faça neles.
Ela ainda mora em casa, mas isso é porque ela e a mãe precisam uma da
outra.
Quando Lacey tinha dezenove anos, ela foi estuprada pelo namorado e
dois amigos dele.
Aos dezessete anos, cometi meus três primeiros assassinatos.
O lamentável acidente foi considerado uma tragédia em todos os jornais.
— Falando em nomes — eu digo — Diga que você tem um para mim.
— Você já precisa de um?
Agora é a minha vez de suspirar. — Foi uma semana longa.
— Claro. Me dê uma hora ou mais. Vou mandar os detalhes para o seu
telefone descartável.
— Obrigado, Lacey. Dê um abraço na mamãe por mim.
— Claro. Tenha cuidado.
— Sempre tenho.
Depois que desligamos, jogo a cabeça para trás e esfrego os olhos.
Já estou me sentindo um pouco melhor sabendo que Lacey está
trabalhando para me dar um nome para esta noite. Posso ter tido segundas
intenções para ligar desta vez, mas se vou ter que encarar Callum na aula e
treino pelo resto da semana, preciso de algo para me ajudar a me inclinar
para um lado desses desejos conflitantes que tenho.
Prefiro mantê-lo seguro do que soltar a besta contra ele.
Cinco
Callum
Meus olhos se abrem para serem recebidos pela escuridão. Um tipo
diferente de escuridão do que aquela que estava me engolindo inteiro no
meu sono.
O ar entra e sai dos meus pulmões muito rápido para sentir que estou
recebendo oxigênio. Meu coração está martelando loucamente no meu peito,
e meu corpo está coberto por uma camada de suor frio. Os lençóis estão
amontoados em volta das minhas panturrilhas como se eu estivesse me
debatendo durante o sono.
Porra.
Não tenho esses pesadelos há mais de um ano.
Aqueles atormentados por sombras e dor, pelo fedor de fumaça de
charuto e pelo som de risadas sinistras.
Fecho os olhos e tento diminuir minha frequência cardíaca e minha
respiração para voltar ao normal. Quando olho para o relógio na minha mesa
de cabeceira, vejo que não são nem cinco da manhã.
Mas foda-se se eu vou voltar a dormir agora.
Chutando o resto dos lençóis, saio da cama e visto um short. Não temos
treinamento de força e condicionamento esta manhã, mas eu poderia usar
um tempo na academia de qualquer maneira. Então me visto e vou para a
que fica no primeiro andar do complexo de apartamentos. É pequena e não
é nem de longe tão boa quanto a do campus, mas não quero arriscar esbarrar
com Stone. Mesmo que esse risco seja baixo.
Tenho quase certeza de que as memórias que ele trouxe consigo foram o
que desencadeou esses pesadelos.
Toda vez que ele olha para mim, é muito fresco. Toda vez, eu lembro
quando ele olhou para mim e viu cada pedaço que eu nunca quis que
ninguém visse.
E então me lembro de cada hematoma.
Cada cicatriz.
Toda fraqueza.
Entrando na academia, estou determinado a suar cada exercício.
Eu irritei Stone ontem. Isso era óbvio. Para ser justo, ele me irritou
primeiro.
Esse babaca arrogante provavelmente não gosta que lhe digam o que
fazer.
Nos treinos, ele era como uma bola de fogo no gelo, um fio desencapado.
Indo atrás de qualquer um que entrasse em seu caminho. Quando ele fez, se
chocou com Brooks, pareceu pessoal. Não é como se eu tivesse feito segredo
de que eu preferiria que Brooks estivesse na primeira linha comigo e com
Nate. Eu deveria ter escondido minha animosidade atrás da mesma máscara
que escondo todo o resto. Mas quando estou perto de Stone, acho isso cada
vez mais difícil.
Stone me abriu há cinco anos, e não consegui me fechar de novo. Não
quando se trata dele.
Mas ainda há segredos que guardo.
Aqueles que tenho que guardar.
Perco a noção do tempo e, quando finalmente saio da academia, minhas
roupas e cabelos estão encharcados de suor. Isso escorre para os meus olhos,
fazendo-os arder.
Jesse ainda está dormindo em seu quarto depois que tomei banho e me
vesti. Preparo um café para que esteja pronto para ele quando acordar, então
saio para minha primeira aula.
Minhas aulas de bioquímica e genética passam bem sem novidades. Estou
bem e verdadeiramente distraído quando elas acabam, aquela sensação
familiar de me sentir sobrecarregado por uma carga horária pesada
finalmente me atingindo.
Como tenho algumas horas antes do treino, decido ir à biblioteca e tentar
começar antes que eu fique atrasado na primeira semana do semestre.
Embora me formar em biologia tenha sido uma decisão de última hora,
gostei o suficiente para continuar.
No entanto, já se passaram três anos desde que comecei a faculdade e
ainda não consegui definir exatamente o que quero fazer. Tenho considerado
algo no campo de ilustrador médico, e é por isso que ainda estou fazendo o
máximo de aulas de arte que posso. Mas não tenho certeza se estou pronto
para me comprometer com mais dois anos de faculdade.
Encontrando uma mesa vazia no fundo da biblioteca, descarrego meus
livros e anotações. O laptop que tenho é um velho usado do meu tio. É
praticamente um tijolo, e é por isso que não o levo para a faculdade.
Geralmente escrevo tudo à mão e digito meus artigos depois.
Abro meu livro de bioquímica e começo a ler os dois primeiros capítulos,
tomando notas à medida que avanço.
Estou na metade do segundo capítulo quando a cadeira na minha frente
raspa no chão de madeira. Olho para cima quando Stone se senta, com um
saco aberto de salgadinhos de cebola na mão.
Juro que esse cara vai me dar um maldito aneurisma.
Deixando minha caneta cair em cima do meu caderno, eu me inclino para
trás no meu assento. — A merda simplesmente entra por um ouvido e sai
pelo outro, não é?
— Huh? — Ele me lança um sorriso que está tão longe de ser inocente que
ele não conseguiria escapar de um assassinato agora. — O que foi isso?
Pisco uma vez. Duas vezes. Nem um pouco divertido.
Ele sorri e estende o saco para mim. — Salgadinho?
Minha mandíbula aperta enquanto franzo a testa para ele. — Não.
Ele dá de ombros e tira um anel amarelo do saco antes de jogá-lo na boca.
— Mais para mim então.
Eu o encaro por um tempo, me perguntando o que nele me deixa mais
nervoso do que o normal. Então eu me lembro de quão furioso ele estava
ontem, fumegando enquanto marchava para fora do vestiário sem nem
mesmo tomar banho primeiro.
O giro completo de cento e oitenta graus é um pouco estonteante.
— Você está de melhor humor do que ontem — digo antes de conseguir
me conter, esperando que ele não interprete mal minha observação como
preocupação.
— Você quer dizer o humor que você me deixou? — Ele me encara por um
momento e então ri. — É, estou muito melhor. Obrigado por perguntar. Só
precisava de um bom alívio ontem à noite.
Reviro os olhos. Com força. — Eu realmente não precisava saber disso.
Estou acostumado com Jesse compartilhando suas aventuras sexuais
comigo e com a sensação desconfortável que geralmente acompanha a
maioria de suas histórias.
No entanto, esse desconforto que sinto agora é diferente de alguma forma.
— O que você está fazendo aqui, Stone?
Ele dobra seu saco de salgadinhos bem fechado e o coloca sobre a mesa.
— Tenho uma proposta para você.
Levanto a mão no ar, gesticulando para que ele continue.
— Nossa aula de anatomia e fisiologia é um curso de atualização para
mim. Eu estava pensando que talvez se você precisasse de ajuda...
Inclino-me para frente novamente para fechar meu livro com força,
interrompendo suas palavras e girando o livro para encará-lo.
Suas sobrancelhas se erguem em direção à testa. — Bioquímica?
— Sou um formando em biologia. Não preciso da porra da sua ajuda.
— Huh. Não esperava por isso.
Deslizando meu livro de volta para mim, eu o abro de volta na página em
que eu estava. — Agora, se isso fosse tudo…
— Olha, Cal...
— É Callum — eu o corrijo enquanto lhe lanço um olhar novo. — Você
não pode me chamar de Cal como se fôssemos amigos de merda.
É demais. Pessoal demais. Quero esquecer que ele me viu, não ser lembrado
disso toda vez que ele diz meu nome. Já tenho que ser toda vez que aqueles
olhos lavados pela chuva estão em mim.
— Tudo bem. Callum. — Ele se inclina para frente e abaixa a voz. — Este
é meu último ano de hóquei. Não pretendo me tornar profissional.
— Não tem o que é preciso, hein? — pergunto. Porque eu simplesmente
não consigo me conter.
Ele inclina a cabeça, o canto da boca se contraindo. — Sério. Você sabe que
isso não é verdade.
Olho para o meu livro antes de revirar os olhos novamente.
— Eu sei que você me odeia.
Eu te odeio ainda mais agora que você trouxe os pesadelos de volta.
— E tudo bem. Me odeie o quanto quiser. Mas tenho toda a intenção de
chegar ao campeonato. Se você continuar trazendo toda essa hostilidade
para um companheiro de time com você no gelo, nem vamos chegar aos
playoffs.
Eu sei que ele tem razão.
E eu sei que tenho um problema. Sempre fui muito bom em me esconder.
Por que diabos não consigo me esconder dele?
— Você não me deve nada, Callum — ele continua quando eu ainda me
recuso a sequer tirar os olhos do meu livro didático. — Mas você deve ao seu
time.
Foda-se ele.
Ele precisa parar de fazer tanto sentido.
— Então o que eu posso fazer? O que você quer?
Olho para cima porque ele realmente parece... genuíno. E sua expressão
combina - sobrancelhas franzidas, olhos sérios, sem sorriso irritante.
O que eu quero?
Quero que você desapareça.
Quero que você pare de me ver.
Quero que os pesadelos desapareçam.
Em vez de dizer qualquer coisa, balanço a cabeça e murmuro: — Não sei.
— Você quer me bater com seu taco? — Agora aquele sorriso irritante está
de volta. — Amarrar meus cadarços de patins? Me socar? Me morder? Mas,
aviso justo, eu posso gostar desse último.
É isso aí, porra.
Pegando minhas coisas da mesa, começo a enfiar tudo de volta na minha
bolsa. Ele claramente não vai embora, e não tem como eu conseguir estudar
mais com ele sentado do outro lado da mesa e se recusando a ficar quieto.
— Eu só quero que você me deixe em paz.
— Isso não vai adiantar nada, e você sabe disso. — Ele se levanta quando
eu me levanto e começa a me seguir pela biblioteca. — Você ainda vai me
ver no gelo quase todo dia. Eu poderia sair da anatomia e andar para o outro
lado quando te vejo pelo campus, mas isso não vai adiantar nada.
Empurro a porta da frente do prédio e corro escada abaixo como se eu
realmente tivesse uma chance de escapar dele. Ele continua impávido,
correndo atrás de mim sem fechar sua maldita armadilha.
— Nós poderíamos realmente jogar muito bem juntos. Mas se você não
aguenta ficar perto de mim fora do gelo, então nunca chegaremos a lugar
nenhum. Então, porra, trabalhe comigo aqui!
Parando no pé da escada, viro-me e encaro-o, tendo que olhar para cima,
onde ele está dois degraus acima de mim. — Se eu prometer que vou
trabalhar nisso, você recua?
— Você disse que deixaria seus problemas fora do gelo ontem, e não
conseguiu. Claramente isso não vai funcionar.
E agora que os pesadelos voltaram, vai ficar ainda mais difícil.
— Vou me esforçar mais.
Virando-me, começo a marchar pela calçada. Só estou dizendo a ele o que
quer que ele queira ouvir, o que quer que o faça deixar isso para lá e...
Ir.
Porra.
Embora.
Porque enquanto seus passos continuam atrás de mim mais uma vez, a
batida deles no concreto combina com qualquer veia que esteja pulsando
incessantemente em minha cabeça.
Ele quer tornar mais fácil para mim estar na presença dele, mas agora está
fazendo exatamente o oposto.
Acho que ele ainda está divagando enquanto viro a esquina da biblioteca,
continuando por um caminho ladeado de árvores entre dois prédios. Mas
não consigo ouvi-lo além do rio de fúria percorrendo em meus ouvidos,
ficando violento com as corredeiras.
Ele não me deixa em paz.
Eu só quero ficar em paz.
— Callum! Você poderia, por favor, parar?
Quando sua mão está em meu ombro, eu finalmente perco o controle.
Passei a maior parte da minha vida sem lutar tanto quanto deveria.
Contusões, cicatrizes e pesadelos me deixaram fraco. Pensei que poderia
deixar tudo no passado. Fazer a coisa saudável e crescer, tentar me curar. Ou
aprender a ignorar a doentia escuridão que ameaça consumir minha alma a
cada momento de cada dia.
Só que agora Stone apareceu como a neblina, como uma sombra, para
provar que eu estava errado.
Não posso ignorar essa escuridão.
Meu punho acerta seu rosto.
Enquanto a dor atravessa minha mão como uma corrente elétrica, a cabeça
de Stone vira para o lado enquanto ele tropeça um passo para trás. Quando
ele olha para mim, uma gota de sangue escorre do corte em seu lábio inferior.
Meus olhos rastreiam seu polegar enquanto ele roça nele, saindo pintado de
vermelho.
— Pronto — ele diz, parecendo mais satisfeito do que eu me sinto. —
Sente-se melhor?
Ele estava tentando me provocar para bater nele?
Eu ficaria ainda mais bravo com isso, talvez batesse nele de novo. Mas as
poucas pessoas que estão por perto já pararam, nos encarando, esperando
exatamente isso. Provavelmente ansiosas por uma briga.
Não vou dar isso a eles.
Quando encontro o olhar de Stone, tento manter o meu longe do traço de
sangue sob seu lábio que está inchando rapidamente.
— Não — respondo honestamente. — Eu não.
Eu me viro e vou embora.

Acontece que socar Stone pode ter ajudado um pouco, afinal.


Eu ainda tinha cerca de uma hora antes do treino, então passei esse tempo
dando uma boa caminhada longa pelo campus. Isso fez pouco para ajudar a
clarear minha cabeça. O tempo todo, isso estava nadando com imagens de
olhos verde-claros e lábios sangrentos.
Minha mão dói pra caramba, e eu tive que enfaixá-la antes do treino.
Quando cheguei ao rinque, Stone já estava lá, patinando sozinho no gelo. Eu
só tinha alguns segundos antes que o resto do time me seguisse para fora do
vestiário.
Se ele sabia que eu estava ali observando-o, não deixou transparecer.
Mas foi só isso que eu fiz. Só o observei lá fora. Ele patinou um circuito
completo ao redor do rinque a uma velocidade que rivalizava com a minha,
seu corpo se inclinando em cada curva, gelo espirrando atrás dele.
Eu sei que ele está certo.
Poderíamos realmente fazer algo este ano. Ele é um jogador muito bom.
E eu devo isso a esse time.
Então estou fazendo o que eu disse a ele que faria.
Estou me esforçando mais.
Enquanto Nate, Stone e eu fazemos exercícios juntos, estou
compartilhando o disco mais do que ontem. Nós três o passamos pelo centro
do gelo, manobrando facilmente a defesa da segunda linha. Stone gira,
dispara cara a cara com o goleiro, chuta. O disco voa para o fundo da rede.
Nós nos revezamos atacando o gol. Fitz realmente consegue bloquear
alguns chutes de Nate e um meu. Isso lhe rende mais elogios do que ele está
acostumado pelos treinadores e pelo resto do time. Deve ajudar porque
quando todos nós começamos os exercícios de zona ofensiva, ele bate seu
recorde anterior de bloqueios.
Quando saímos do gelo depois do treino, Stone patina até mim e bate seu
taco no meu.
— Obrigado por realmente jogar comigo hoje.
— Eu não fiz isso por você — digo a ele enquanto descemos o túnel. —
Eu fiz isso pelo time.
— Certo. Bem, se você precisar me bater um pouco antes dos treinos e
jogos para que possamos jogar assim, me avise para que eu possa investir
em um frasco de Tylenol de tamanho econômico.
Sim, se for preciso, vou estourar essa merda como se fosse chiclete.
Minha mão dói.
Segurar meu taco nas últimas duas horas depois de dar um soco no rosto
surpreendentemente forte de Stone certamente não fez com que me sentisse
melhor. Provavelmente vou enfiá-la num balde de gelo assim que chegar em
casa.
Mas eu não quero socá-lo de novo. Eu não deveria ter feito isso da
primeira vez.
Não posso deixar eu me entregar a essa escuridão novamente.
Nem à minha, nem à dele.
Uma vez no vestiário, começamos a tirar nossos equipamentos. Quando
removo minha camada de base, noto isso novamente.
Stone evita olhar para mim.
Tomei consciência disso na primeira vez.
Normalmente, ele não tem problema em deixar seu olhar me encontrar
repetidamente. Mas percebi que assim que tiro minha camisa, ele se foi.
É a mesma coisa quando entramos no chuveiro. Não que eu esteja olhando
para ele também. Odeio que eu geralmente consigo senti-lo - como se seus
olhos tivessem me marcado - mas agora não consigo. Não até voltarmos para
o vestiário e eu estiver vestido.
Como se não fosse nada, seus olhos estão em mim novamente enquanto
ele diz que me verá na aula amanhã.
E meus olhos estão nele enquanto ele se vira para sair.
Não tenho ideia do que se trata. Talvez ele perceba, afinal, que é por isso
que o odeio tanto. Nenhum de nós mencionou aquele momento de cinco
anos atrás, mas deve existir em algum lugar da mente dele.
Gostaria de não continuar encontrando novos motivos para odiá-lo.
Por que ele não conseguia esquecer?
E por que acho que tudo isso me incomoda por motivos que não
deveriam?
Seis
Stone
Está ficando cada vez mais difícil tirar os olhos de Callum.
Há mais de uma razão pela qual não me permiti olhar para ele quando ele
tira a camisa. Não é só por respeito, porque sei o quanto provavelmente o
incomodou que eu o tivesse visto naquele dia.
Tenho certeza de que ele ainda tem cicatrizes.
Entre o meu lado protetor e a besta, não tenho certeza de como eles
reagiriam ao vê-los. Essas duas metades de mim se misturariam, acenderiam
como um fósforo e causariam algum tipo de explosão cósmica.
Sem ninguém para matar por ele, elas não teriam nada para se banquetear.
Elas acabariam se banqueteando com ele.
Elas já mostraram suas cabeças feias quando se tratou de provocá-lo o
suficiente para liberar um pouco daquela fúria reprimida. Claro, eu causei
muito disso. Mas eu quis dizer tudo o que disse a ele. Ele precisa ser capaz
de me enfrentar fora do gelo se tivermos alguma chance de jogar bem juntos
nele.
Claramente eu estava certo.
Valeu a pena o lábio inchado e rachado.
Alguns caras me perguntaram sobre isso durante o treino.
— Você sabe. O clássico bati em uma porta — foi o que eu disse a eles.
— Irritou alguém, hein? — Brooks perguntou com um sorriso irônico. —
Não posso dizer que estou surpreso.
Ao contrário de Callum, Brooks não guarda rancor.
Felizmente, tivemos mais alguns treinos bem-sucedidos na semana
passada. E não me custou outro lábio partido, então isso é um ponto
positivo.
Até o Fitz está melhorando.
Nosso primeiro jogo é em duas semanas, e estou me sentindo muito mais
confiante sobre isso do que quando cheguei aqui. Eu não tinha certeza se
Callum e eu realmente seríamos capazes de jogar como um time, mas nossa
química no gelo é surpreendentemente inegável. A cada passe, o disco
encontra nossa fita como se houvesse uma corda nos conectando,
constantemente cientes da presença um do outro. Nossa velocidade é
igualada, sempre os dois primeiros a atingir a linha azul em exercícios de
velocidade.
Fora do gelo, porém, a questão é outra.
Continuei sentado ao lado dele na nossa aula de anatomia. Principalmente
porque não consigo deixá-lo sozinho. Em minha defesa, pelo menos me
esforcei mais para ser menos irritante.
Ele ainda me lança aqueles olhares ocasionais como se quisesse me socar
de novo. Nossa discussão verbal pode ter diminuído um pouco, mas foi
substituída por muito silêncio tenso. No entanto, ele não está mais exigindo
ou implorando para que eu o deixe em paz.
Progresso. Pequenos passos.
Vamos chamar isso de parte do condicionamento fora do gelo.
Nosso primeiro laboratório é hoje, e quando chego na sala de aula, Callum
já está lá.
Provavelmente não deveria.
Mas é claro que vou mesmo assim.
Atravessando a sala até a mesa de laboratório onde ele está sentado, sento
minha bunda no banco bem ao lado dele.
Ele levanta os olhos do caderno de desenho e imediatamente seu maxilar
fica tenso.
— Não — ele diz enquanto balança a cabeça. — De jeito nenhum vamos
ser parceiros de laboratório. Você já não me torturou o suficiente?
Eu poderia lhe mostrar uma ou duas coisas sobre tortura.
— Confie em mim. Isso definitivamente não é tortura.
— Discordo — ele murmura enquanto fecha seu caderno de desenho.
— Sério. — Tiro meu manual de laboratório da bolsa e o jogo na mesa. —
Já fiz a maioria desses laboratórios antes. Você terá uma vantagem.
Ele revira os olhos. — Não preciso de uma vantagem.
— Tenho certeza que não. — Dou de ombros, sorrindo. — Mas, ei, você é
bem-vindo para me usar.
Seus olhos imediatamente se afastam, deixando meu sorriso apenas se
alargar. O observo enquanto ele enfia violentamente seu caderno de desenho
na bolsa para trocá-lo por seu próprio manual de laboratório. Ele o coloca na
mesa e então apoia os cotovelos em cima dele. Com o queixo nas mãos, ele
olha para a frente da sala.
— Tratamento silencioso de novo?
— Apenas fique quieto.
— Você sabe que isso é uma tarefa difícil.
— Sim, estou bem ciente.
Rio baixinho, mas permaneço em silêncio até a professora entrar na sala.
Como já tivemos várias aulas, ela não gasta muito tempo com uma
introdução. Ela nos conta um pouco do que será esperado e onde podemos
encontrar certos equipamentos pela sala. Quando ela nos instrui a pegar os
papéis de laboratório da frente e os lápis de cor do armário nos fundos,
Callum se levanta primeiro.
— Eu vou pegá-los — ele diz.
Não demora muito para ele retornar, deixando cair papéis e uma caixa na
frente de cada um de nós. Minha caixa está rasgada, revelando seu conteúdo
de vários lápis curtos, quebrados e sem ponta. Claro, o dele parece novinho
em folha.
— Que gentil da sua parte, Callum.
Seu sorriso parece o meu sendo jogado de volta para mim. — De nada.
Certo. Eu mereço isso.
— Todos, por favor, abram a página quinze dos seus manuais de
laboratório e comecem no laboratório para ossos e crânio — a professora diz
da frente da sala. — Vocês realmente não precisam de um parceiro para isso,
mas são bem-vindos para trabalhar juntos.
Sem surpresa, Callum entende isso como se ele tivesse que trabalhar
completa e completamente sozinho. Ele até inclina seu corpo para longe de
mim enquanto abre seu livro.
Deixo que ele faça isso por enquanto.
Nós dois abrimos nossas caixas de lápis. Eu despejo todos os meus
pedaços na mesa enquanto Callum afasta os dele alguns centímetros para
que eles sejam fáceis de pegar. Eu tenho que engolir um comentário
debochado enquanto viro meu foco para ler as instruções na primeira página
do laboratório.
Há seis papéis, cada um mostrando uma visão diferente do crânio
humano, linhas quebrando-os em seções para que possamos colorir e rotular
os ossos faciais e cranianos. Pego um lápis laranja e começo a visão anterior,
colorindo o osso frontal primeiro.
Enquanto isso, Callum tem um lápis vermelho na mão, a ponta afiada
pairando sobre o crânio em sua página.
Olho por cima sem tirar o lápis do papel.
É como se ele estivesse congelado, olhando para a figura com a testa
franzida. Sua mão começa a tremer.
Juro que ele está prendendo a respiração.
Acho que eu também prendo a minha, mas não sei bem por quê.
Quando ele finalmente se move para sombrear o osso temporal direito, eu
relaxo e volto ao meu próprio trabalho. Não tenho ideia do que diabos foi
aquilo, mas sei que se eu perguntasse, ele mandaria eu me foder.
Depois de preencher e rotular o osso frontal, troco o lápis laranja pelo
amarelo e vou para a maxila, querendo tirar as áreas maiores do caminho
primeiro. Estou quase terminando com isso quando percebo que Callum
ainda não trocou o lápis por uma cor diferente.
Olhando para a página dele, quase deixo meu lápis cair.
Ele não parou no osso temporal. Ele coloriu quase metade do crânio de
vermelho.
Agora mesmo, a ponta de cera está cavando no papel sobre o canal óptico,
quase rasgando direto. Seus olhos estão arregalados enquanto ele pressiona
mais forte, movendo o lápis febrilmente para frente e para trás como se
estivesse em algum tipo de transe.
— Callum.
Ele não para.
Há um rasgo na página agora, a cor está vazando para a próxima. Mas ele
parece não notar.
— Callum?
Seu aperto em volta do lápis é tão forte, os nós dos dedos brancos, tendões
e veias estalando. O lápis quebra em dois, a madeira se estilhaça.
Callum parece se interessar por isso.
Ele deixa cair as duas metades na mesa, piscando para o papel todo
desenhado em vermelho, como se o estivesse vendo pela primeira vez. Seu
peito está arfando, as mãos ainda tremendo.
— Callum, você está...
— Não estou me sentindo muito bem. — Sua voz sai áspera e ofegante.
— Preciso ir.
Sair da cadeira parece exigir mais esforço do que deveria. Ele pega sua
bolsa e dispara pela sala de aula e sai pela porta, virando algumas cabeças
em sua fuga.
Eu sei que provavelmente não deveria ir atrás dele. Sou a última pessoa
que ele gostaria de ter para ajudá-lo a passar por tudo isso.
No entanto, essa corda entre nós está mexendo com algo no meu peito.
Rapidamente pego nossos manuais de laboratório e papéis, coloco-os na
minha bolsa e saio da sala de aula, ignorando os olhares persistentes de
todos que desviaram os olhos do trabalho.
Quando saio para o corredor, não preciso ir procurar Callum. Ele não foi
muito longe, encostado na parede algumas portas abaixo. Eu me aproximo
lentamente. Seu olhar está arregalado, olhando para o espaço enquanto seu
peito sobe e desce rapidamente.
Porra.
Há algumas pessoas andando para cima e para baixo no corredor, então
eu espio pela janela da porta mais próxima. É uma sala de aula vazia.
— Vamos, Callum.
Ele não briga ou discute enquanto eu agarro seu braço, abro a porta e o
puxo para dentro da sala. Depois de fechar a porta, eu o ajudo a se encostar
na parede ao lado. Seu olhar ainda está longe, possivelmente nem mesmo
ciente de onde ele está. Quando entro em seu espaço, seu hálito quente
entrando e saindo de seus pulmões bate contra minhas bochechas.
Peso minhas opções, sabendo que preciso fundamentá-lo.
Dando mais um passo até estarmos a centímetros de distância, coloco
minhas mãos nas laterais do seu rosto.
Seus olhos se fixam nos meus e sua respiração para completamente.
— Merda. Desculpa.
Dou um passo para trás, mas sou interrompido quando a mão de Callum
dispara e agarra a frente da minha camisa.
O que...
Ele começa a hiperventilar novamente. Seus olhos não deixaram os meus,
e ele está tremendo todo.
— Ok, ok. — Eu me movo para frente novamente e gentilmente pego seu
rosto de volta entre minhas mãos. — Estou bem aqui. Você está seguro.
Não sei quem está mantendo o olhar de quem como refém, mas nenhum
de nós parece ser capaz de desviar o olhar. Sua pele aquece minhas palmas,
e ele segura minha camisa com força. Há um mar de dor e medo por trás de
seus grandes olhos castanhos.
Não tenho ideia do que fazer com isso, mas preciso fazer alguma coisa
antes que ele desmaie.
— Preciso que você respire comigo, Callum. Você pode fazer isso por
mim?
Ele não responde, mas eu não esperava que ele respondesse.
— Sério. Inspire e conte até cinco.
Respiro fundo, desejando que ele faça o mesmo. Ele faz, seu peito
tremendo enquanto conto até cinco na minha cabeça.
— Agora solte lentamente.
Mais uma vez, ele faz.
— Isso é bom. Você está indo muito bem. Agora de novo.
Passamos por isso mais algumas vezes até que sua respiração se iguale à
minha. Ele está relaxado o suficiente para que seu aperto na minha camisa
alivie, mas ele ainda não me solta.
Acho que não quero que ele faça isso.
— Você está bem. — Não tenho certeza de quando meus polegares
começaram a traçar as maçãs do seu rosto, mas ele não está se afastando.
Então eu não paro. — Continue respirando assim. Eu não vou a lugar
nenhum, ok? Só dê um tempo. Você vai ficar bem.
Ele engole em seco. Quando fala, sua voz está destruída e crua. — Como
você pode ter tanta certeza?
— Porque eu não vou deixar você.
Suas sobrancelhas se juntam.
Ele lambe os lábios.
Meus olhos acompanham o movimento de sua língua.
O peso na minha camisa desaparece quando ele me solta de repente. Eu
tomo isso como minha deixa para abaixar minhas mãos e dar um passo para
trás para dar espaço a ele.
Nós dois continuamos a nos observar cautelosamente. Presto bastante
atenção à respiração dele, certificando-me de que ele não vai cair de volta no
ataque. Ele parece calmo agora, mas todo o sangue ainda foi drenado de seu
rosto.
— Você quer falar sobre isso? — pergunto, mantendo a voz baixa.
Ele balança a cabeça. — Eu só quero sair daqui.
Não quero deixá-lo ir, mas eu o faço. Observo enquanto ele se vira, abre a
porta e sai.
Encostando minha bunda na mesa mais próxima, abro minha bolsa e tiro
os papéis de laboratório que amassaram na minha pressa de enfiá-los lá
dentro. Eu os embaralho até que o de Callum esteja em cima.
Isso claramente não foi obra do artista Callum. Ele coloriu quase todo o
lado direito do crânio, com vermelho sangrando nas linhas. A pressão de
cada traço do lápis varia, ficando mais forte quanto mais perto ele chegava
da cavidade ocular, onde há aquele rasgo na página.
Quanto mais eu olho para ele, mais vívidas minhas memórias voltam para
mim.
Uma cozinha mal iluminada, iluminada apenas pelo brilho do poste de
luz que entrava. O fedor de álcool velho. Um homem grande, quase duas
vezes maior que eu. O peso do tijolo na minha mão quando o esmaguei no
rosto dele.
Eu não fiquei por perto, obviamente, mas lembro-me do jeito que seu olho
direito estalava enquanto ele ainda estava vivo. O jeito que seu crânio
afundava quando eu o golpeava repetidamente.
Não me lembro muito de nenhuma das minhas mortes desde as três
primeiras, mas, por algum motivo, essa ficou mais marcada em mim do que
as outras. Talvez porque eu conhecesse Callum. Embora eu tenha tentado
muito não tornar isso pessoal, foi difícil esquecer o que eu tinha visto.
Esquecer o que aquele homem tinha feito com ele.
Nos últimos cinco anos, eu me forcei a esquecer pensando em Callum em
algum lugar seguro. Em algum lugar onde ninguém mais poderia machucá-
lo.
Quando eu matei por ele, isso sem dúvida despertou todos os meus
instintos de proteção. Eu os apaguei, me certifiquei de que as chamas
estavam apagadas. Aparentemente, algumas brasas permaneceram.
Não posso negar essa crescente proteção que sinto por ele.
Mesmo que seja para protegê-lo de si mesmo.
Porque enquanto olho para o papel parcialmente colorido de vermelho,
percebo de quem é o crânio que ele estava pintando com sangue.
Eu tinha apenas dezoito anos na época. Embora eu sempre tenha sido
cuidadoso, descartando ou limpando completamente as armas do crime e
não deixando nenhuma impressão digital para trás, acho que houve um
grande erro que eu posso ter cometido.
Eu não tinha pensado nas repercussões de matar o homem em sua própria
casa, de deixar Callum encontrar seu padrasto morto na cozinha.
Todo aquele sangue.
Metade do seu rosto desapareceu.
O homem que o criou.
O quanto eu o ferrei?
Sete
Callum
Stone me viu. De novo.
Mas desta vez foi diferente.
Desta vez, não tenho certeza do que ele viu. Ou do que ele acha que viu.
Porque a verdade é meu segredo mais profundo e obscuro.
Se eu tiver sorte, tudo o que ele acha que viu foi fraqueza novamente. O
pobre e assustado garotinho que encontrou seu padrasto brutalmente
assassinado no meio da noite. A versão horrorizada e traumatizada de mim
que eu provavelmente deveria ser depois de uma experiência como essa.
A verdade é que não é isso que eu sou.
Ainda tenho traumas, claro. Os pesadelos e sombras são prova disso. Mas
isso é por uma razão completamente diferente.
Eu odiava Stone quando ele via o quão fraco eu era porque eu era fraco.
Agora, espero que seja tudo o que ele tenha visto. A mentira para encobrir a
verdade.
Enquanto estou sentado no centro da minha cama com as pernas cruzadas,
estou cercado por páginas soltas de vários cadernos de desenho diferentes
que tive ao longo dos anos. Todas elas mostram a mesma imagem,
desenhada repetidamente. A mesma imagem que desenhei há cinco anos,
sentado naqueles degraus, olhando para o cadáver do meu padrasto.
Algumas são mais ampliadas, detalhes de seu rosto mutilado desenhados
em linhas intrincadas. Seu único olho aberto e sem vida espiando da página,
o outro tão mutilado que parece uma confusão de rabiscos. Carne, tecido e
tendões pendurados em pedaços. Pedaços de um homem que dificilmente
era humano.
A verdade real sobre o que Stone estava olhando quando nossos olhares
se encontraram?
Eu amei.
Eu amei demais.
Não apenas a morte, mas a bela brutalidade dela. O frescor cru dela. A
maneira como o sangue brilhava na luz fraca, como o cheiro dele se
acomodava profundamente em meus pulmões. A violência. A sensação de
uma vida deixando este plano, arrastando-se para fora de sua espiral mortal.
Eu queria desenhá-lo novamente. Eu queria usar aquela figura de
contorno do crânio para copiar todos os detalhes horríveis, o lápis vermelho
para sombrear com sangue.
Então foi isso que eu fiz quando cheguei em casa esta tarde. O novo esboço
está na minha frente, coberto de ainda mais vermelho do que minha tarefa
de laboratório estava quando eu saí do que quer que tenha me dominado.
Enquanto olho para ele, percebo que não é tão satisfatório quanto antes.
A verdade mais profunda é que eu quero fazer mais do que apenas
desenhar. Eu quero ver de novo, vivenciar de novo. Nem mesmo a morte do
meu padrasto. Só... a morte.
Eu queria tanto isso nos últimos cinco anos que pensei sobre...
Fecho meu caderno de desenho com força, prendendo aquelas reflexões
obscuras em suas páginas.
Eu não sou essa pessoa.
Eu nunca vou ceder a essa escuridão particular dentro de mim.
Não consigo nem pensar nisso sem ter um ataque de pânico.
Talvez eu ainda seja fraco, afinal.
A porta do apartamento abre e fecha, e eu rapidamente apresso para pegar
a dúzia ou mais de esboços espalhados pela cama. Eu os coloco todos no
meu caderno secreto e acabo de enfiá-lo debaixo do meu travesseiro quando
a porta do meu quarto é aberta. Eu estupidamente a deixei entreaberta, então
não posso culpar Jesse quando o vejo parado na porta.
— Você não deveria estar no treino? — ele pergunta, com a bolsa ainda
pendurada no ombro.
— Sim. — Passo a mão pelo cabelo e puxo as raízes na nuca. — Avisei ao
treinador que não conseguiria ir hoje. Tive que voltar para casa mais cedo
porque estava me sentindo um pouco mal na aula.
— Ah, que droga. Precisa que eu faça uma sopa ou algo assim?
— Nah, cara. Valeu, mas estou bem. Só vou pegar leve e estudar.
Ele concorda. — Certo. Eu tenho que fazer o mesmo. Só me avise se
precisar de alguma coisa, ok?
— Claro. Obrigado.
Jesse sai e fecha a porta até ela se fechar.
Solto um suspiro e olho para o meu travesseiro. Juro que consigo ouvir os
esboços sussurrando meu nome - um eco baixo e profundo de uma voz.
Por alguma razão, parece Stone.
Dando as costas para isso, pego minha bolsa e a arrasto para mim. Pego
meus livros didáticos junto com outro dos meus blocos de desenho,
percebendo que estou sem meu manual de laboratório. Devo tê-lo deixado
na sala de aula.
— Porra.
Empurro meus livros escolares para longe e pego o bloco. Deslizando para
trás, pego um lápis da minha mesa de cabeceira - eles estão por todo lugar -
e me inclino para trás contra a cabeceira.
Eu realmente deveria estar estudando, mas depois do episódio que tive,
estou exausto. Esgotado. Eu não conseguiria me concentrar, não importa o
quanto tentasse. Eu dormiria se não estivesse preocupado com pesadelos.
Então abro meu bloco de desenho.
Até a ponta do lápis tocar a página, eu não tinha ideia do que ia desenhar.
Mas, uma vez que ele está se movendo pelo papel, uma imagem começa a se
formar como se meu subconsciente já soubesse.
Poucos minutos depois, um par de olhos está me observando. Mesmo que
não haja cor, sei exatamente a quem eles pertencem.
Alcançando minha mesa de cabeceira novamente, abro a gaveta e
vasculho até encontrar uma caixa velha de lápis de carvão coloridos. É
semelhante à que dei a Stone na aula - a caixa de papelão gasta, a maioria
dos lápis apontados pelo menos até a metade.
Pego os lápis verde e cinza e começo a sombrear as íris até que fiquem da
cor certa.
Uma floresta na neblina.
Eu já tinha esse pensamento antes e agora ele me deu uma ideia.
Usando o cinza, desenho levemente silhuetas de árvores ao longo da
borda inferior de ambas as íris.
Quando termino, apoio meu bloco nos joelhos e olho para a imagem dos
olhos de Stone na página. Agora eles realmente parecem uma floresta na
névoa.
Por que os olhos dele têm que ser tão lindos?
Ele também tinha um cheiro parecido. Amadeirado. Como pinho, talvez.
E outra coisa que eu não conseguia identificar.
Outra coisa aconteceu hoje enquanto Stone segurava meu rosto em suas
mãos, aqueles olhos me mantendo cativo.
Ele me viu, e… eu não odiei.
Não dessa vez.
Eu não queria que ele parasse.
Pensei que talvez fosse só por causa do estado em que eu estava, que eu
só estava desejando o conforto que ele estava oferecendo. Que era só porque
era ele quem estava me guiando pelo ataque como já tinha feito antes.
Mas aqui estou eu desenhando os olhos dele só para que eles possam me
ver novamente.
Quero arrancar esta página e guardá-la no meu caderno secreto porque a
ideia daqueles olhos verem outra pessoa do jeito que me viram...
Meu telefone vibra na cama ao meu lado, e eu o pego para ver uma
mensagem de um número desconhecido.

Número desconhecido: Está se sentindo melhor?

Reconheço o código de área, um da Pensilvânia. É bem fácil adivinhar a


quem pertence o número.

Eu: Como você conseguiu meu número?

Stone: Nate me deu porque eu disse a ele que tinha seu manual de
laboratório. Quer que eu leve?

Eu: Vou pegar com você na aula amanhã, se estiver tudo bem.

Stone: Claro. E você não respondeu minha pergunta.


Olhando de volta para a primeira mensagem que ele enviou, passo a mão
pelo cabelo enquanto penso em como responder. Ou se eu quero mesmo
responder.
Começo a digitar, apago e começo de novo. Depois apago isso também.

Stone: Callum? Por favor, me diga que você está bem.

Stone: Ou eu vou aí.

Eu: Como você sabe onde eu moro?

Stone: Tenho minhas fontes.

Algo pesado se instala desconfortavelmente em meu peito enquanto olho


para as mensagens.
Por que diabos ele se importa?
Por que parecia que ele se importava quando ele estava parado na minha
frente enquanto eu tinha certeza de que aquelas sombras iriam me tirar a
vida?

Stone: O treino acabou de terminar. Estou sentado no meu carro. Para


onde estou indo?

Mais importante, por que eu quero dizer para ele vir?


Por que eu quero vê-lo quando parte de mim ainda o odeia? Quando há
tanto que eu tenho que esconder e ele é a única pessoa que realmente me
viu?
Odeio todas essas perguntas que não consigo responder.

Eu: Estou bem, juro. Eu realmente apreciaria se você não mencionasse


isso novamente.

Stone: Entendido.

Suspiro e bato a cabeça contra a cabeceira da cama.


Por que diabos ele tem que ser tão legal sobre isso?
Mas, de novo, eu sou o babaca. Ele só atacou quando eu fiz isso, e mesmo
assim, não foi sempre. Ele me deixou tratá-lo como merda muitas vezes.
Eu suponho…

Eu: Mas obrigado. Por hoje.

Stone: A qualquer hora.

É isso. Estou determinado a que essa seja a única e última coisa legal que
eu diga a ele.
Jogo meu telefone na cama e olho de volta para o esboço dos olhos de
floresta de Stone. Decido não arrancar a página. Pelo menos não por
enquanto.
São apenas olhos.
Olhos que me viram.
Olhos que agora espero não terem visto além do garoto ferido e assustado.
Porque se aqueles olhos vissem a verdade, eu os veria novamente?
Oito
Stone
Ao passar pela porta aberta da casa de dois andares, meus ouvidos são
recebidos pelo Beartooth tocando no sistema de som surround, com os
graves tão fortes que os sinto no peito.
Eu não vou a muitas festas. Entre hóquei, aulas e contar os entalhes no
cabo da minha faca favorita, já tenho o suficiente para fazer. Mas quando
Nate me pediu para ir, eu sabia que seria uma boa ideia ficar com o time fora
do gelo.
E talvez usar isso como uma oportunidade para ter certeza de que Callum
realmente está bem.
Ele veio para a aula hoje, e eu devolvi o manual de laboratório para ele.
Mas ele ficou quieto. O que não é completamente fora do personagem, mas...
era um tipo diferente de silêncio. Ele nem fez questão de me lembrar o
quanto me odeia.
Alguns dos caras do time estão parados logo na entrada, copos plásticos
vermelhos nas mãos. Todos eles me dão acenos quando entro.
— Vocês sabem onde Nate está? — pergunto por cima da música alta.
Não tanto porque é Nate que eu quero ver. Imagino que Callum
provavelmente esteja com ele.
— A última vez que o vi, ele estava na cozinha — responde Ben, um dos
nossos defensores de segunda linha.
— Obrigado.
Eu atravesso a casa, passando pela sala de estar onde o grande sofá
secional está lotado de pessoas. A maioria está conversando, tomando suas
bebidas e rindo. Algumas delas estão sentadas no colo. Ou montadas neles,
esfregando e se pegando. Há alguns caras indo para a boca um do outro,
travados em uma batalha de línguas.
Meus olhos examinam cada rosto em busca do Callum.
Nate e Brooks dividem este lugar com outros dois caras que não estão no
time de hóquei, então tem muita gente aqui que eu nunca vi. Mas não é como
se eu tivesse tido muito tempo para formar uma vida social desde que me
mudei para cá.
Entrando na cozinha, imediatamente avisto Callum parado perto da ilha
que está empilhada com copos vermelhos e garrafas de bebida. Ele está
segurando um copo seu enquanto fala com Nate.
Nate diz algo e Callum ri.
Uma estranha mistura de coisas me atinge no peito quando ouço esse som.
Primeiro, há alívio. Callum está à vontade, rindo, se divertindo. Talvez
seja tudo uma distração, mas pelo menos agora, ele está bem.
Segundo, há algo que se parece muito com ciúme.
Sempre que ele está perto de mim, ele fica tenso e nervoso, atirando
punhais com os olhos sempre que pode. Nunca mostrando nem um indício
de um sorriso genuíno como o que está em seu rosto agora, o que está
iluminando o ambiente.
Considero me virar e ir embora. Não por causa desse ciúme pouco familiar
que de repente está fazendo minhas entranhas coçarem, me fazendo querer
cortar as orelhas de todos os outros na sala que conseguem ouvir a risada de
Callum.
Eu vi o que vim ver aqui. Ele está bem.
— Ei, Wakefield!
Nate me vê antes que eu possa fugir. Eu atravesso a cozinha em direção a
eles, tentando ignorar a maneira como o rosto de Callum muda quando seus
olhos estão em mim.
Por que diabos isso me incomoda tanto de repente?
Nunca fui do tipo ciumento. Já estive em vários relacionamentos, tanto
com homens quanto com mulheres, e alguns deles eram até abertos. Meu
último foi mais uma situação de amigos com benefícios com meu colega de
quarto, e nunca me chateei quando ele ficou com outras pessoas.
Eu nem estou em um maldito relacionamento com Callum, e estou prestes
a roubá-lo de todas essas pessoas.
— Boa festa, Simmons — digo enquanto ele bate a mão na minha.
— O que vai beber? — ele pergunta com uma voz um pouco arrastada
enquanto aponta para todo o álcool na ilha da cozinha, com os olhos
vidrados.
— Não estou planejando ficar muito tempo, e preciso dirigir. Só queria
fazer uma aparição.
— Muito responsável — ele diz com um sorriso torto. — Eu aprovo.
— Diz o cara que está bêbado.
— Ei, já estou em casa. Posso beber o quanto eu quiser. — Como se para
enfatizar seu ponto, ele pega uma garrafa e despeja mais líquido em seu copo
antes de oferecer o uísque a Callum.
Callum pega e quase enche seu copo. Com os olhos em mim, ele toma um
longo gole.
Ele não parece bêbado, mas pode estar quando terminar esse.
— Nate!
Todos nós nos voltamos para a entrada da cozinha, onde duas mulheres,
uma loira impressionante e uma morena deslumbrante, estão praticamente
se segurando de braços dados enquanto caminham, meio tropeçando, até
nós.
— Nós vamos fumar — a loira diz a Nate. — Vem lá atrás com a gente?
— Vocês sabem que não posso fumar, meninas.
— Você não precisa. Apenas venha conosco.
— Por favor — a morena implora, olhando para ele com o que tenho
certeza de que são seus olhos de quarto, aos quais nenhum homem existente
poderia resistir.
— Oh, quem é o garoto novo? — A loira vira seus lindos olhos azuis para
mim. — Você quer vir também?
Não sei por que faço isso, mas olho para Callum.
Ele está me encarando com uma expressão entediada. No entanto, juro
que vejo seu maxilar tiquetaquear.
Voltando-me para as mulheres, dou-lhes um sorriso educado. — Não,
obrigado. Divirtam-se.
Enquanto Nate passa por nós, ele dá uma piscadela para mim e para
Callum. — Até mais, vadias.
A morena agarra a mão dele que não está enrolada no copo e o puxa com
elas em direção à porta dos fundos. A cabeça dele se inclina para o lado para
que ele possa olhar para a bunda dela enquanto ela anda.
— Não faça nada que eu não faria, capitão — eu falo.
Ele olha para mim com um sorriso, levantando o braço e fazendo o álcool
espirrar para fora do copo. — Felizmente, ainda não te conheço bem o
suficiente para saber o que é isso.
Deixo escapar uma risada baixa e balanço a cabeça enquanto todos
desaparecem lá fora.
Voltando-me para Callum, percebo que ele ainda está me encarando.
Todas essas pessoas nesta casa, e sua atenção está fixada em mim.
Eu não deveria estar tão obcecado com isso.
— E você? — pergunto enquanto aceno para a bebida em sua mão. — É
melhor você não dirigir hoje à noite.
Quando ele ri, falta humor, e tenho a sensação de que ele está um pouco
mais bêbado do que parece. — Eu não tenho carro. Meu colega de quarto
está nos levando.
— E esse colega de quarto está tão bêbado quanto você e Nate?
Os olhos de Callum se estreitam, sua testa baixa enquanto ele me estuda,
procurando por qualquer pergunta que esteja passando por sua mente antes
que finalmente a diga em voz alta. — Por que você se importa?
Ele pergunta isso como se a questão o atormentasse há tanto tempo que
ele morreria sem uma resposta.
Eu lhe dou a única que posso.
— Você é meu companheiro de time, idiota.
Ele acena, revira os olhos e solta um bufo pelo nariz. — Certo.
Bom, o que diabos eu deveria dizer?
O protetor em mim quer manter você seguro?
A besta em mim quer te devorar? Te arruinar? Te tocar até você nunca
mais querer ser tocado por ninguém?
Sim, tenho certeza de que tudo isso teria sido muito melhor.
Estou pensando em dar a ele pelo menos um pouco mais quando alguém
vem por trás dele tão rápido que ele cai para frente quando o cara bate em
suas costas. Uísque espirra do copo de Callum no chão aos meus pés.
O protetor e a besta quase entram em ação.
Mas então Callum ri ao reconhecer.
— Onde você estava? — o cara pergunta, ainda de pé atrás dele enquanto
joga um braço sobre o ombro de Callum. Ele apoia o queixo no outro ombro
e faz beicinho. — Estou entediado sem você.
— Você não parece entediado — diz Callum, ainda rindo.
— Talvez eu não esteja mais. — O estranho sopra uma mecha de cabelo
castanho claro para longe do rosto enquanto seus olhos percorrem meu
corpo de cima a baixo. — Onde você estava escondendo isso, Cal?
Eu ficaria lisonjeado se minha visão desse cara agarrado a Callum não
estivesse banhada em vermelho.
Callum vira a cabeça para o lado e, pela primeira vez, seu olhar é
direcionado a alguém que não eu. — Não.
A maneira como a única palavra sai como um rosnado entre dentes
cerrados envia uma onda surpreendente de calor pela minha espinha.
Os olhos do flertador se arregalam. Seu sorriso bêbado só aumenta
enquanto ele dá um passo para trás com as mãos no ar em falsa rendição. —
Mensagem recebida em alto e bom som. Ele está comprometido.
— Não foi isso que eu quis dizer — Callum murmura enquanto levanta a
mão e esfrega a ponta do nariz.
Assim que Callum abaixa a mão, o cara dá um tapa na ponta do nariz dele.
— Tá tudo bem, fofinho. Você sabe que eu não sou do tipo ciumento.
Sim, eu também não costumo ser.
Mas eu juro que se esse cara tocar nele ou chamá-lo de fofinho de novo,
alguém vai ter o braço arrancado.
Porra.
Acho que é seguro dizer que minha obsessão por esse garoto está
começando a atingir níveis perigosos.
Esse que não levo nada para o lado pessoal.
Eu sabia que esse meu lado existia, e eu tentei o meu melhor para contê-
lo, para mantê-lo trancado em correntes. Porque eu sabia que assim que ele
colocasse os olhos em alguém, não haveria como impedi-lo de se libertar.
Se Callum e eu tivermos sorte, conseguirei controlá-lo por tempo
suficiente para colocá-lo de volta na gaiola.
— Jesse, por favor, vá embora — Callum praticamente implora,
exasperado.
— Tudo bem, tudo bem. — Jesse começa a andar para trás, esbarrando
em corpos no caminho. — Só lembrem que há quartos lá em cima, rapazes.
Callum revira os olhos e resmunga: — Pelo amor de Deus.
— E isso foi? — pergunto enquanto olho feio para Jesse, desejando que
ele tropece e talvez quebre um osso ou corte uma artéria importante em algo
afiado.
— Meu colega de quarto.
Ele bebe o que sobrou no copo e pega a garrafa de uísque para enchê-lo
novamente. Eu quase estendo a mão e agarro seu pulso para pará-lo. Mas
não consigo. Sei exatamente como isso seria, e não estou disposto a fazer
uma cena.
Ele não é meu.
— Por falar nisso, parece que vou caminhar para casa.
Levando o copo aos lábios, ele o inclina para trás. Observo seu pomo de
Adão se mover com uma golada.
— Deixe-me te dar uma carona.
Ele pode não ser meu, mas não vou deixá-lo ir para casa bêbado de jeito
nenhum.
Callum esvazia seu copo mais uma vez, então o joga na lata de lixo mais
próxima. Quando ele olha de volta para mim, sua expressão é mais cansada
do que hostil. — Pare, Stone. Apenas pare, porra.
Ele começa a se afastar, balançando um pouco para um lado.
Se ele não estava bêbado antes, agora ele definitivamente está.
— Parar o quê? — pergunto enquanto o sigo pela multidão.
Ele não responde e não diminui o ritmo enquanto se dirige para a porta
da frente da casa.
— Callum! Diga-me o que devo parar, e eu paro.
Talvez.
Depois de ziguezaguear e tropeçar no caminho entre as pessoas, ele
consegue dar alguns passos à minha frente e sair pela porta. Corro atrás dele
e desço as escadas da varanda. Quando estamos em uma área mais aberta
no gramado da frente, agarro seu braço.
Antecipo o punho que vem voando enquanto ele gira. Com seus
movimentos lentos, consigo me abaixar e evitá-lo. Quando ele quase cai por
inércia, eu o puxo para cima e o manobro para fora da vista da porta da
frente. Empurrando-o contra a árvore mais próxima, eu o prendo contra o
tronco com meu antebraço contra seu peito.
Seus olhos escurecem enquanto suas pupilas dilatam.
A besta em mim quer que seja medo.
O protetor em mim precisa que seja outra coisa. Querer. Desejo.
Rendição.
— Você está bêbado — rosno na cara dele. — Você precisa relaxar, porra.
Seu corpo cai quando a luta o deixa, seu peito arfando sob mim. Seu rosto
se transforma em uma carranca, e suas próximas palavras saem como um
apelo desesperado. — Pare de tentar me salvar.
Nunca.
— Não seja dramático — digo a ele, acalmando meu tom, não querendo
irritá-lo novamente. — Não estou tentando te salvar. É só uma carona.
Seus olhos saltam entre os meus, procurando a mentira.
Se ele procurasse bastante e por tempo suficiente, provavelmente a
encontraria.
Ele provavelmente também veria vislumbres de todos os pensamentos
passando pela minha cabeça enquanto eu o tenho nessa posição. Preso. À
mercê do que eu quisesse fazer com ele. Desmoronando com o mundo de
prazer que eu poderia dar a ele. Convencendo-o de que ele realmente quer
pertencer a alguém, que ele realmente quer ser meu.
Todos os pensamentos que estão se tornando cada vez mais difíceis de
resistir.
Ele me empurra, passa a mão pela camisa amassada e murmura: — Tudo
bem.
— Tudo bem. — Nós nos encaramos por mais alguns segundos antes que
eu finalmente consiga dizer mais palavras do que isso. — Vamos.
Eu atravesso o gramado em direção ao meu carro, esperando que ele me
siga. Ele segue. Eu quase abro a porta do passageiro para ele antes de pensar
duas vezes.
Meu complexo de cavaleiro de armadura brilhante realmente precisa ficar
em segundo plano.
Quase rio disso enquanto abro a porta do motorista e entro no carro.
Um cavaleiro de armadura brilhante é apenas protetor.
Mas comigo?
Protetor se transforma em possessivo.
Possessivo se transforma em obsessivo.
Uma vez que a compulsão atinge, não há como voltar. Não há como
apagar a marca que ele deixaria na minha alma que está destinada ao
purgatório.
Talvez não o inferno, mas certamente não o céu.
Ligo o carro quando Callum entra. Ele cruza os braços sobre o peito,
ombros curvados, afundando no assento. Entendo a indireta, concedendo a
ele uma viagem silenciosa enquanto dirijo até seu apartamento.
Assim que estaciono o carro, ele tira o cinto de segurança e abre a porta.
— Callum.
Ele para, mas não olha para mim. — O quê?
Não faça isso.
Não faça isso.
Não faça isso, porra.
— Você pode me prometer uma coisa?
Ele não diz nada, mas também não vai embora. Eu tomo isso como
permissão.
Eu realmente não deveria. Ele explodiu apenas alguns minutos antes
porque pensou que eu estava tentando desempenhar o papel de seu
salvador. E isso foi logo depois de lhe oferecer uma carona e ajudá-lo a
passar por um ataque de pânico. Eu poderia fingir que não é isso que estou
tentando fazer se eu pudesse apenas calar minha maldita boca.
Mas, porra. Meu controle está escorregando.
— Prometa que me contará se alguém tentar te machucar.
Seus ombros ficam tensos. Ele olha para mim com mais ódio nos olhos do
que eu já vi. Ele zomba e balança a cabeça. — Foda-se. Você simplesmente
não conseguiria deixar isso pra lá, não é?
— Deixar o quê?
Ele se move para sair do carro tão rápido que quase cai para frente no
concreto. Ele se segura e bate a porta.
Saio do carro antes que ele consiga ir longe e corro atrás dele mais uma
vez.
— Callum! Deixar o quê pra lá?
Ele gira e marcha em minha direção até que estejamos a apenas alguns
metros de distância. Metade do seu rosto está na sombra, a outra metade
corada sob o brilho amarelo das luzes fixadas nas laterais do complexo de
apartamentos. — O que diabos você acha, Stone? Você é o único que já viu,
porra!
Viu…
Oh.
A epifania me atinge como um tsunami, me afogando em cada momento,
em cada indício, quando eu deveria ter percebido a verdade.
Eu fui um idiota de merda.
— É por isso que você me odeia. — Não falo isso como uma pergunta. —
Porque eu vi algo que não deveria.
— Parabéns porra. Finalmente, descobriu, hein?
— Você me culpa depois de todo esse tempo por algo que eu não pude
controlar?
— Você pode controlar mais do que pensa.
Ele ainda está bêbado, então talvez ele nem saiba do que está falando.
Porque eu com certeza não sei.
— Olha, eu percebi que provavelmente te incomodou, mas eu não
pensei... — Suspiro, frustrado, e passo a mão no meu rosto como se eu
pudesse limpar minha visão, eu pudesse apertar o reiniciar em todo esse
desastre de noite. — Eu fiz o meu melhor para não...
— Não para o quê? Para não olhar? É, eu notei.
Então, em um movimento fluido, ele agarra a bainha inferior de sua
camisa e a levanta, expondo seu torso. Forçando-me a olhar.
E aí está.
O último prego no caixão que pertence a qualquer pedaço de mim que
tentou não tornar isso pessoal, não se importar. Esquecer. Mantê-lo a salvo
das partes mais sombrias de mim. As partes que agora estão se libertando
de suas gaiolas e arranhando seu caminho para a superfície, me sangrando
até secar com suas garras e seus dentes.
— Você está olhando agora, não é? — ele retruca.
Sim, eu estou.
As cicatrizes são fracas, mas ainda se destacam contra sua pele pálida,
iluminada pelas luzes do apartamento. Não são muitas, mas há algumas que
parecem ter sido cortes longos e profundos. Uma na parte inferior do
abdômen. Outra cortada na metade do lado esquerdo. Há outra marca perto
dessa que parece suspeitamente uma queimadura de cigarro, mas maior.
Um charuto?
Não me lembro de sentir cheiro de fumaça de tabaco dentro daquela casa.
Desviar o olhar exige uma das mais fortes explosões de força de vontade
que já conheci.
— Você precisa entrar, Callum. — Eu mal reconheço minha própria voz.
Mais grave do que o normal, mal contendo toda a minha fúria. Acho que ela
pertence à besta. — Você não quer ficar perto de mim agora.
Seus olhos se arregalam como se ele pudesse ver.
Ver que não sou mais eu. Não sou mais Stone.
Simplesmente a besta.
Ele abaixa lentamente a camisa e engole em seco. — Stone…
Eu me viro antes que ele possa dizer qualquer outra coisa. Eu estava
planejando garantir que ele subisse bem para o segundo andar, mas subir as
escadas um pouco bêbado será muito menos perigoso para ele do que eu
ficar por perto.
No entanto, quando estou de volta ao meu carro, mudo de ideia e fico
parado. Estacionei com vista para as escadas, então espero e observo
enquanto Callum sobe desajeitadamente.
No segundo em que ele chega ao patamar, meu carro está engatado e eu
estou saindo do estacionamento.
Tenho que sair daqui e rápido.
O que eu realmente preciso é de outro nome.
Nove
Callum
Uma semana. Nosso primeiro jogo é em uma semana, e estamos jogando
como lixo desde aquela festa na casa do Nate.
E é tudo culpa do Stone.
Ou minha.
Neste ponto, não tenho muita certeza.
A química natural que Stone e eu tínhamos no gelo praticamente
desapareceu. Com quase todos os passes, o disco erra nossos tacos e
ricocheteia nas placas apenas para ser pego por outra pessoa. Nate e eu
trabalhamos um pouco melhor juntos, mas até mesmo a base sólida que
temos, a maneira como sempre nos entrosamos, parece ter sido abalada.
O treinador terminou todos os treinos da semana passada irritado.
Eu não o culpo.
Eu consideraria renunciar ao meu lugar na primeira linha se esse jogo não
significasse tanto para mim.
Houve alguns motivos pelos quais comecei a jogar hóquei pouco antes do
ensino médio.
Primeiro, eu estava com muita raiva. De tudo. De perder minha mãe. De
ser o saco de pancadas do meu padrasto. Parecia uma boa maneira de dar a
toda aquela raiva algum tipo de saída, e foi. Não o suficiente, mas ajudou.
Segundo, percebi o quanto eu estava começando a me encolher. Longe de
cada pessoa, de cada toque. Era instinto, uma resposta que eu não conseguia
controlar. Eu não queria viver assim, preocupado que alguém notasse e me
perguntasse sobre isso.
Então, entrei para o time de hóquei e deixei outros caras me empurrarem,
tentando me condicionar a me acostumar com isso. Não sei se foi pelo
contato violento do esporte ou por alguma força de vontade, mas eu cresci
com isso.
Quando estou fora do gelo, às vezes ainda tenho que lutar contra esse
impulso inicial. Como na festa quando Jesse bateu nas minhas costas.
Ou quando Stone me jogou contra a árvore.
Mas com este último, algo diferente aconteceu.
Não senti vontade de recuar.
Eu não queria.
Descobri o que mais ele cheira, o outro cheiro que eu não conseguia
nomear antes. Seus olhos são uma floresta na neblina, mas ele cheira como
uma floresta em uma tempestade. Pinho e ozônio. É apropriado
considerando o efeito que ele tem em mim.
A proximidade com Stone mexeu com algo dentro de mim que acho que
nunca senti antes. Nunca senti excitação sexual perto de outra pessoa.
Atração, talvez. Mas não isso.
Havia um calor na parte inferior da minha barriga, cada centímetro da
minha pele cheia de eletricidade estática. Eu queria que ele continuasse me
tocando. Eu queria a pele dele na minha.
Nunca quis algo assim antes.
Apesar da teoria de Jesse, não acho que tenha nada a ver com orientação.
Tenho quase certeza de que estou apenas quebrado. Porque o fato de Stone,
de todas as pessoas, conseguir me fazer sentir essas coisas me deixou todo
fodido.
Não é nem que ele seja um cara. Eu achei homens e mulheres atraentes,
embora sempre tenha parecido mais apreciação ou admiração do que
atração. Talvez se eu tivesse vivido uma vida diferente, se meu passado não
fosse meu, eu me conheceria melhor.
Mas tudo isso tem sido a menor das minhas preocupações na semana
passada.
Não consigo esquecer o jeito que ele olhou para mim antes de sair
correndo...
O apito do treinador soa.
Já passou uma hora e meia?
Minha concentração está a mil.
Nada ajuda.
Não o hóquei. Não a arte.
Minha mente é um labirinto de devastação e turbulência.
— Simmons! Hayes! Wakefield! — grita o treinador Hill de onde ele está
patinando no centro do gelo. — Fiquem aqui.
Incrível.
O resto do time sai do rinque, olhando para nós três por cima dos ombros,
provavelmente fofocando enquanto descem pelo túnel.
Nate, Stone e eu patinamos até a linha vermelha e aguardamos qualquer
destino que o treinador tenha reservado para nós. Ele espera para falar até
que o último dos outros jogadores esteja fora do gelo, então isso não pode
ser um bom sinal.
— Vocês três vão ficar até tarde hoje. Quero mais uma hora de todos
vocês. — Há uma veia de raiva pulsando em sua têmpora enquanto ele olha
entre nós. — Não sei o que diabos aconteceu para todos vocês jogarem feito
merda de cachorro na semana passada, mas isso acaba agora.
— Não é minha culpa, treinador — resmunga Nate.
— Você é o capitão deles, Simmons. Todos neste time são sua
responsabilidade.
Ele suspira e acena. — Sim, senhor.
— É sério — diz o treinador. — Uma hora. Não saia desse gelo um
segundo antes.
Ele patina para longe, deixando para trás um silêncio que enterra um frio
profundo em meus ossos, mais frio do que o gelo em que minhas lâminas
estão cavando. Mesmo com Nate aqui, esta é a vez em que estou mais
sozinho com Stone desde a festa. Não falamos uma palavra um com o outro
quando não estamos no gelo. Com a tensão que cresce entre nós a cada dia,
não é de se admirar que mal consigamos completar uma simples passagem.
Nate se vira e nos encara com um olhar que diz claramente que ele não
está feliz em ter que ficar até tarde, sabendo muito bem que a culpa é toda
minha e de Stone.
— Vocês dois têm alguma merda para discutir primeiro? — Ele se apoia
em seu taco, esperando. — Por favor, vá em frente. Não há ninguém aqui
para impedi-los. Vou deixar vocês irem até o gelo ficar coberto com o sangue
de vocês dois, se for preciso.
Olho para Stone e imediatamente desvio o olhar.
Ele não diz nada, e eu me recuso a ser o único a responder isso.
— Tudo bem. — diz Nate. — Treinos de passe então. Linha de gol a linha
de gol. Vou tentar atrapalhar seus passes. Pararemos quando você conseguir
passar dez por mim em sequência. Entendido?
Reviro os olhos. Se esse for o acordo, ficaremos aqui por muito mais tempo
do que uma hora.
Nós três patinamos até a linha de gol em uma ponta do rinque, Stone e eu
pegando um disco e controlando-o por todo o caminho. Quando chegamos
à linha, nos encaramos. Esperando. Suando o outro até que um de nós
desista do disco.
— Eu juro pela porra, seus filhos da puta! Por que vocês dois não tiram
seus paus para fora enquanto eu pego a fita métrica?
Um sorriso irônico surge no rosto de Stone.
A próxima coisa que sei é que ele dá um tapa no disco na minha direção.
Sou forçado a abandonar o meu para poder assumir o controle. Assim que o
faço, estamos correndo pelo gelo em direção à outra linha de gol. Stone
corresponde à minha velocidade.
Eu passo para ele.
Nate dá um tapa no disco para longe.
— Foco, Hayes! — ele grita para mim. — Imagine que a fita dele é o rosto
dele, se isso ajudar.
Pode ser.
Pego outro disco e começamos de novo.
Leva quase uma hora inteira até chegarmos a oito passes sem que Nate os
bloqueie. No nono, ele rouba na linha azul e dispara sozinho em direção ao
gol.
Stone e eu nem olhamos um para o outro, mas nos movemos juntos.
Simultaneamente, corremos atrás dele. Conforme nos aproximamos do
vinco, Stone avança contra ele antes que ele possa dar um chute, seu ombro
batendo no de Nate. Eles lutam pelo disco, e ele quica no gelo. Stone é quem
o recupera antes de mandá-lo direto para o meu taco com um passe com a
parte de trás do taco.
Eu saio correndo e Stone me segue.
Nós passamos isso de um lado para o outro.
Dez vezes.
Então eu chuto direto para o fundo da rede.
Stone está sorrindo para mim depois que dou uma volta em volta do gol
e me junto a ele do outro lado. Nate patina, sorrindo também.
— É mais ou menos isso — ele diz, batendo seu taco no meu. Ele olha para
o relógio na parede. — Vocês, rapazes, ainda têm quinze minutos. Vou tomar
um banho e ir para casa.
— Ei — o chamo enquanto ele começa a patinar em direção ao banco. —
O treinador não disse que todos nós temos que ficar uma hora extra?
Ele gira, dando de ombros enquanto patina para trás. — Eu só o ouvi dizer
vocês dois.
— Idiota — murmuro.
Stone ri, e eu desvio meus olhos para ele. Claramente, ele está mais à
vontade em ficar sozinhos juntos do que eu.
Felizmente, ele sugere rápido outro exercício de passe. Não tenho energia
para discutir com ele, então concordo. Matamos mais quinze minutos antes
de sair do gelo. Não me sinto muito melhor sobre a dinâmica que temos tido
na semana passada, mas pelo menos houve algum progresso.
Quando entramos no vestiário, Nate já tinha ido embora. Stone pega um
rolo de fita de sua estação e se senta no banco. Nós dois tiramos nossos
patins, e enquanto eu tiro meu uniforme e meus protetores, ele começa a
trabalhar recolocando fita em seu taco.
Eu sei exatamente o que ele está fazendo e queria que isso não me irritasse
tanto.
Se ele vai fingir que nada aconteceu e ainda se recusar a olhar para mim,
então tudo bem.
Indo pisando duro para o chuveiro, tento dizer a mim mesmo que isso não
me incomoda. Que eu posso esquecer tudo também. Que eu não quero os
olhos dele em mim de novo. Que eu talvez tenha me enganado sobre o olhos
dele cinco anos atrás.
Na semana passada, havia algumas dessas mesmas coisas claras em seu
rosto. Desgosto. Desprezo.
Mas acho que eu estava errado ao dizer que elas eram direcionadas a mim.
Acho que elas eram… por mim.
E ainda não tenho certeza de como me sentir sobre isso.
A coisa mais fácil, claro, é odiá-lo ainda mais por isso. Não preciso da
porra da pena dele.
No entanto, havia algo novo dessa vez também. Algo que era muito mais
assustador, algo do qual eu provavelmente deveria ter fugido. Mas não o fiz.
Porque eu não estava assustado como deveria estar.
Mas eu deveria estar esquecendo disso.
Fingir que nada aconteceu.
Então, enquanto estou sozinho embaixo do jato d'água nos chuveiros,
decido que vou voltar a odiá-lo. Nós jogávamos melhor naquela época, de
qualquer forma. Na época em que eu simplesmente aceitava o fato de que o
odiava, mas tinha que encontrar uma maneira de jogar com ele pelo bem do
time.
Jogávamos muito melhor naquela época do que quando acho que vou
querer ele.
Terminando o banho, eu me seco e enrolo a toalha na cintura. Quando
volto para o vestiário, paro no meio do caminho enquanto o gelo percorre
pelas minhas veias e o ar é socado para fora dos meus pulmões.
Stone está no centro da sala, segurando meu caderno de desenho aberto
em suas mãos.
Aquele em que desenhei os olhos dele.
Naquela época, eu já tinha feito cerca de uma dúzia de esboços dele.
— Que porra você está fazendo? — A pergunta vem entre dentes
cerrados. Se meus pés não estivessem enraizados no lugar, eu iria para cima
dele como um touro furioso e pegaria meu caderno de volta. Talvez socasse
sua cara para garantir. Mas estou horrorizado demais para me mover.
— Eu estava deslizando sua bolsa pelo banco, e ela caiu. — Ele nem olha
para mim enquanto fala. Não, ele vira a porra da página.
Meu peito está arfando enquanto todos os esboços que fiz passam pela
minha mente como uma montagem. Fiz mais alguns só dos olhos dele. Os
outros são dele em seu uniforme de hóquei, muito claramente ele com o
número “13” estampado na camisa.
Horrorizado talvez seja um eufemismo.
— Você não tinha o direito — eu rosno. — Coloque de volta.
Quando ele finalmente olha para cima, há uma sugestão de um sorriso
curvando o canto de seus lábios. — Você está obcecado por mim, Hayes?
Porra.
Porra, porra, porra.
Eu não respondo.
Como posso?
Como posso dizer não quando a evidência está ali, nas mãos dele?
Mas como posso responder com a verdade quando a verdade é sim?
Não sei exatamente quando ou como aconteceu. Num segundo estou
olhando nos olhos dele enquanto ele me guia por um ataque de pânico do
caralho, e no outro, não consigo tirá-lo da minha cabeça.
Desenhar a morte repetidamente é tão natural quanto respirar, mas
esboçar Stone me faz sentir vivo.
— Isso significa que sou sua musa? — ele pergunta quando não digo uma
palavra.
— Largue isso.
Ele fecha o caderno e o deixa cair no banco. Mas ele ainda se recusa a
abandonar a conversa.
— Você gosta dos meus olhos, Callum? Você gosta de mim com meu
suéter? Devo colocá-lo de volta e posar para você?
Ele dá um passo à frente, depois outro. Ele ainda está com sua camada de
base, leggings de compressão pretas e uma camisa de manga comprida.
Ambas são justas, grudadas em suas coxas e bíceps musculosos. Enquanto
isso, estou aqui com nada além de uma toalha em volta da cintura. O rubor
quente e raivoso em meu rosto inundou meu pescoço até meu peito,
deixando-o vermelho enquanto continua a arfar a cada respiração.
Quanto mais ele se aproxima, mais irregular minha respiração se torna.
— Pare com isso, Stone — digo, finalmente forçando meus pés a darem
um passo para trás enquanto ele continua a se aproximar. — Só deixa pra lá,
porra.
— Eu vou quando você responder minha pergunta. — Ele continua
vindo, e eu continuo me movendo para trás. — Você está obcecado por mim?
É instinto fugir dele, o sentido primitivo de presa para fugir daquele olhar
nos olhos do predador - aquele que diz que quer te comer vivo. No entanto,
enterrada sob isso, há uma voz que me diz para parar de tentar escapar, que
eu quero ser pego.
Não importa que o volume esteja baixo o suficiente para ser ouvido,
porque a escolha me é tirada quando minhas costas batem na parede.
— Você quer saber um segredo? — Stone completa seu avanço, ficando a
menos de um pé na minha frente. Ele se inclina para frente lentamente. Seus
lábios estão a cinco centímetros dos meus. Então ele vira o rosto, inclinando-
se um pouco mais até que suas palavras baixas e profundas varrem a concha
da minha orelha. — Eu também estou obcecado por você.
Acontece de novo.
Não tenho certeza se é por causa de suas palavras ou pela proximidade do
corpo dele ao meu.
Um calor branco percorre minha espinha, se acomodando baixo.
Intensificando. São milhões de borboletas em chamas, sangue viajando em
asas. Descendo, descendo, descendo.
Quando ele se afasta e nossos olhares se encontram, uma coisa eu tenho
certeza agora.
Gosto quando os olhos dele estão em mim.
Apenas em mim.
Mas essa outra coisa que estou sentindo...
Essa bola confusa e ardente de desejo.
Isso pesa no meu intestino, mas é abafado por todo o resto na minha
cabeça. Aquele instinto de presa que carreguei comigo pela maior parte da
minha vida ainda me diz que não quero isso. Não quero querer isso. Não
quero sentir isso. Que é tudo mentira. Que eu nunca iria querer isso.
Tento balançar a cabeça, mas ela parece muito pesada. — Não estou
obcecado por você.
Stone estende uma mão, colocando sua palma espalmada contra a parede
ao meu lado. Então ele estende a outra para provocar minha pele aquecida
logo acima da toalha na minha cintura.
Minha respiração fica presa com o contato.
Ele mergulha o dedo sob o tecido. Um leve puxão, e ele se desfaz.
— Não. — A única palavra sai como um gemido, e eu fecho meus olhos
com força enquanto a humilhação toma conta de mim.
— Você tem certeza? — ele pergunta enquanto seu dedo continua sua leve
carícia sobre minha pele. — Eu acho que seu pau está tentando escapar dessa
toalha.
Quando olho para baixo, vejo que minha ereção está se transformando em
uma tenda. Quase fecho os olhos novamente enquanto a culpa e a vergonha
se juntam a todas as outras emoções caóticas e esmagadoras.
Mas então vejo o volume crescente atrás da legging de compressão de
Stone.
Meu olhar se fixa no dele. Seus olhos são escuros e selvagens.
Ele rola os quadris para frente, apenas o suficiente para que seu pau duro
pressione o meu através das camadas entre nós. O atrito do tecido áspero da
toalha acende aquele calor que ainda está girando em minha barriga,
transformando-o em lava derretida.
Mordo meu lábio para não gemer.
— Você sente o quão duro você me deixa? — Seu sussurro áspero
permanece no ar espesso enquanto ele adiciona um pouco mais de pressão
até que eu vejo estrelas do caralho. — É tudo para você, Callum.
— Pare com isso.
Essas três palavras saem silenciosas e ofegantes.
Não tenho certeza se elas escapam de mim voluntariamente.
Será que eu de alguma forma me coloquei propositalmente nessa situação
porque sinto que mereço? Por que é tudo o que eu conheço?
Eu sempre direi não mesmo quando quero dizer sim?
— O que é? — O dedo de Stone mergulha um pouco mais para baixo. —
Ainda não gosta da minha boca, mesmo quando ela está dizendo coisas
indecentes para você? Você gostaria que ela estivesse fazendo outra coisa?
Meu peito sobe e desce em medidas severas. Todo o ar que estou sugando
para dentro dos meus pulmões está cheio das palavras de Stone, da
eletricidade do seu toque. Não há oxigênio suficiente.
Ele cheira ainda mais a tempestade agora.
Há um leve puxão na toalha.
Entro em pânico.
Estendendo minha mão, agarro seu pulso, sua pele queimando a minha.
Solto outro gemido. — Pare.
O rosto de Stone muda. Então endurece.
Meu aperto escorrega de seu pulso enquanto ele dá um passo para trás.
Sinto imediatamente falta do calor de seu corpo, da promessa de seu toque.
Ele realmente parou.
Por que estou surpreso?
O que diabos há de errado comigo?
Stone se vira, caminhando de volta para o banco onde ele silenciosamente
veste um par de jeans e pendura sua bolsa sobre o ombro. Eu fico encostado
na parede para me apoiar, observando enquanto ele se dirige para a saída.
Ele para a alguns metros da porta. Ele engole em seco enquanto seus olhos
permanecem voltados para a frente, sem olhar para mim. — Sinto muito,
Callum.
E então ele se foi.
Dez
Stone
Não sou melhor que os monstros que caço.
Não, isso não é totalmente verdade.
Pelo menos eu parei.
Mas não deveria ter levado Callum a dizer isso tantas vezes para que eu
realmente ouvisse. Eu pensei que ele estava apenas lutando contra isso,
sendo teimoso, não querendo admitir que me queria tanto quanto eu o
queria. Ele estava duro, mas isso não significa nada. Não significa que ele
queria estar.
São todas desculpas esfarrapadas.
Eu tenho me castigado por isso na semana passada. Eu o evitei fora dos
treinos, nem mesmo me sentei ao lado dele na aula.
Finalmente estou dando a ele o que ele sempre quis.
Que eu desaparecesse.
O único lugar onde não posso fazer isso por ele é no rinque.
Mas o que tenho feito é tentar compensar sua negligência no gelo. Está
claro que ele ainda não quer jogar comigo, que ele ainda está desconcertado
com a minha mera presença. No entanto, tenho tentado tornar mais fácil para
ele encontrar meu taco, viajando tão rápido e tão longe quanto preciso para
garantir que nossos passes se conectem, levando aquela fração adicional de
segundo para mirar para que o disco encontre sua fita quando eu o bato para
ele.
O esforço extra valeu a pena, mas não sei se será suficiente para o nosso
primeiro jogo hoje à noite.
Já disse a Lacey para fazer algumas pesquisas para mim enquanto estou
aqui em Massachusetts. Só por precaução.
Estamos jogando partidas consecutivas aqui neste fim de semana, uma
hoje à noite e uma amanhã à noite. São duas noites no hotel em que nosso
ônibus acabou de parar. Estamos todos do lado de fora, pegando nossa
bagagem do compartimento de bagagem embaixo do ônibus, deixando o
equipamento para quando formos para a arena. A tensão é alta enquanto nos
movemos silenciosamente. Não acho que muitos de nós tenham muita
esperança para este fim de semana.
O treinador Hill já entrou no saguão, deixando o resto de nós para ir atrás
dele depois de pegarmos nossas coisas.
Depois de fazer o check-in em todos os quartos, ele se aproxima com uma
pilha de cartões-chave nas mãos. — Vocês têm vinte minutos para levar suas
coisas para o quarto e voltar para cá antes de sairmos para o treino. Simmons
e Brooks.
Nate se aproxima e pega as chaves do treinador antes que ele e Brooks
sigam para os elevadores.
— Hayes e Wakefield.
Meu coração afunda até o fundo do meu estômago, batendo e batendo até
eu me sentir mal.
Essa é a última coisa que eu preciso. Ficar em um quarto de hotel com
Callum sozinho depois que eu praticamente me forcei nele. Essa é a última
coisa que ele precisa.
No entanto, ele está dando um passo à frente e pegando as chaves sem
reclamar.
— Treinador, não sei se...
— Eu não quero ouvir isso, Wakefield — o treinador me interrompe com
um olhar furioso. — Vocês dois têm seus problemas, eu entendo. Mas ou
vocês vão resolver isso fora do gelo ou se matarão dormindo. Eu realmente
não me importo com qual. Agora saia da minha frente, porra.
O treinador realmente não tem papas na língua, nos chamando para uma
briga na frente de todo o time.
Então, é claro, não posso discutir. Especialmente porque Callum já está
indo embora em direção aos elevadores. Eu o sigo, grato por podermos
pegar um com Nate e Brooks até o terceiro andar. A subida é tensa e
silenciosa como as últimas horas desde que saímos de Connecticut.
As portas do elevador se abrem, e nós quatro seguimos pelo corredor à
direita. Nossos quartos são bem próximos um do outro, e Nate e Callum
enfiam suas chaves nas fechaduras.
— Lembre-se. — Nate abre a porta, prendendo cada um de nós com um
olhar severo. — Vinte minutos.
— Entendido — diz Callum.
Duvido que demore tanto assim. Tenho toda a intenção de sair correndo
o mais rápido possível.
Fecho a porta atrás de nós quando entramos no quarto. Ficando para trás,
deixo Callum escolher qual cama ele quer primeiro. Quando ele joga sua
mochila na mais próxima da porta, eu me movo ao redor dele e coloco a
minha na segunda cama perto da janela.
Parece que ele quer estar mais perto da única saída desta sala, e não posso
culpá-lo por isso.
Abrindo minha bolsa, tiro meus artigos de higiene e vou colocá-los no
banheiro. As chances são de que, depois da noite que estou prestes a ter, eu
volte para este quarto exausto demais para desfazer as malas. Sem
mencionar que não vou querer acordar Callum.
Quando volto para o quarto, ele ainda está de pé ao pé da cama, olhando
para sua bolsa.
Tento ignorar qualquer crise interna com a qual ele esteja lidando,
passando por ele. Desempacoto meu carregador de telefone e o conecto,
então coloco algumas das minhas roupas em uma gaveta antes de jogar
minha bolsa meio vazia na poltrona ao lado da minha cama.
Não aguento mais o silêncio. Não aguento mais a agitação silenciosa de
Callum que está enchendo a sala com um mal-estar sufocante.
Sem mais nada para fazer e com apenas alguns minutos sobrando, vou
sair da sala.
Callum finalmente se move, parando na minha frente e bloqueando meu
caminho até a porta. — Stone, podemos...
— Não. Saia do meu caminho.
Suas sobrancelhas se juntam, mais confusas do que irritadas com minha
animosidade. — Temos um jogo hoje à noite, e eu realmente acho que
deveríamos...
— Deveríamos jogar exatamente como costumávamos jogar. Me odeie.
Me bata. O que você precisar fazer. Esqueça todo o resto porque o jogo é
mais importante pra caralho.
Não passou despercebido para mim que nós jogamos melhor juntos
quando Callum me odeia, quando há apenas uma emoção na qual ele está
focado em vez de qualquer outra coisa que ele esteja sentindo desde que ele
me mostrou suas cicatrizes naquela noite da festa. Desde a noite em que nós
dois nos vimos um pouco mais do que talvez devêssemos.
Se eu tiver que fazer da vida dele um inferno dentro deste quarto, então é
isso que farei.
É justo quando ele não fez nada de errado? Claro que não. Mas também
pode ser a coisa mais gentil a se fazer.
Não quero ser o motivo de mais sofrimento para ele.
O ódio é mais fácil. O ódio é mais gentil.
— Agora, há algo que você precisa fazer antes que eu saia desta sala?
Ele suspira e balança a cabeça. — Eu não vou bater em você.
— Tudo bem. Então saia do meu caminho.
Saia do meu caminho antes que eu não consiga me controlar de novo.
Ele dá um passo para o lado e me deixa passar.
Saio do quarto, deixando-o sozinho. Assim que a porta é fechada, encosto
minhas costas nela e respiro fundo para me acalmar.
Não me sinto bem em tratar Callum como lixo, mas...
O ódio é mais gentil.

Infelizmente, minha tentativa de fazer com que voltássemos a jogar como


fazíamos algumas semanas atrás foi em vão.
Nós perdemos.
Espetacularmente.
O placar final foi de quatro a um. Estou surpreso que fizemos pelo menos
um gol. Claro, esse ponto veio de uma penalidade depois que Nate foi
parado por um taco em um cara a cara com gol no segundo período. Fora
isso, nosso time saiu com o maior número de penalidades.
Certo, tudo bem. Saí com o maior número de penalidades.
Eu estava de péssimo humor depois da minha discussão com Callum e
vendo que não teve o efeito desejado. Nosso treino pré-jogo foi ainda pior
do que os que tivemos em casa nas últimas semanas.
Durante o jogo, passei mais tempo na área de penalidade do que no gelo.
Massachusetts foi brutal, encontrando todas as chances que podia para
lançar ombros ou esmagar nossos caras nas placas. Não importava quem
caía ou se isso resultava em uma penalidade para seu jogador. Eu retaliei.
Bater o taco no oponente. Força desnecessária. Fazer o oponente cair.
E essa é apenas uma pequena lista de penalidades que foram aplicadas a
mim.
Se não fosse pela velocidade natural de Callum no gelo, ele poderia ter
sido pego em uma dessas batidas legais que eles continuavam fazendo. Se
ele tivesse saído com hematomas, alguém estaria limpando sangue do gelo
esta noite.
Muito disso.
Ficarei mais do que feliz em evitar todos os hematomas por ele.
Ele foi parado por um taco uma vez, mas não se machucou. O ala que fez
isso teve sorte de sentir a ira do meu taco em vez do meu punho.
O treinador me colocou no banco no começo do terceiro período, me
substituindo por Brooks. Provavelmente tive sorte de não ter sido suspenso.
Não posso nem culpar totalmente Callum pela nossa derrota. Poderíamos
ter nos saído pelo menos um pouco melhor se eu não estivesse de mau
humor. Nenhum de nós conseguiria conectar um passe com o outro se
nossas vidas dependessem disso.
O time jogou melhor quando Brooks estava lá com Callum e Nate. E eu
odeio admitir isso.
Ainda assim, eu tinha errado tanto que a dinâmica de todo o time foi
prejudicada.
Até o Fitz ficou puto comigo depois do jogo. Ele pode não ser o melhor
goleiro, mas não foi ele que jogou o pior jogo deles hoje à noite. Ele bloqueou
mais chutes do que deixou entrar. Ele melhorou muito, e merece
companheiros de time que não deixem o disco passar por eles muitas vezes.
Se não tivéssemos dado a eles tantas oportunidades no vinco, eles não teriam
marcado tantas vezes.
Callum e eu recebemos olhares silenciosos no vestiário e no ônibus no
caminho de volta para o hotel.
Quero consertar isso. Mesmo que seja só pelo bem do Callum.
Mas eu não sei como.
Todos entraram com o plano de levar comida do restaurante do hotel para
os quartos. Definitivamente não haverá comemoração esta noite.
Quanto a mim, ficarei pensando sozinho.
Bem, não totalmente sozinho. Terei companhia em breve.
Estou encostado na parede externa do hotel com uma bolsa pendurada no
ombro, uma que guardei com meu equipamento de hóquei. Disco o número
da minha irmã e coloco o telefone no ouvido.
— Vocês realmente foram péssimos hoje à noite.
Reviro os olhos. — Olá para você também, Lacey.
— Ah, como se você tivesse ligado para conversar.
— Justo — digo com um sorriso que puxa músculos não utilizados. —
Então você tem o que eu preciso?
Ela zomba. — Estou ofendida que você tenha que perguntar. Vou fazer
melhor. Consegui um encontro para você. O que acha de uma noite na praia?
Meu sorriso se alarga. — Parece adorável.
— Estou enviando para você agora. Tenha cuidado.
— Sempre tenho.
Assim que desligo, tiro meu outro telefone da bolsa. Meu encontro está
marcado para daqui a uma hora em uma praia não muito distante. Levará
pouco mais de meia hora para caminhar até lá.
É uma boa noite para um passeio.
Lacey e eu terminamos nossas ligações do mesmo jeito todas as vezes. A
verdade é que sempre sou cuidadoso. Mas uma caminhada antes me fará
bem.
Preciso clarear a mente para não cometer erros.
Já cometi muitos.
Onze
Callum
Enquanto o resto do time parou no restaurante dentro do hotel para jantar,
eu fui até o terceiro andar sozinho. Não sei o que aconteceu com Stone, mas
não estou a fim de lidar com mais hostilidade silenciosa e carrancas dos
meus próprios companheiros de time.
Por que diabos eu não consigo me recompor?
Mesmo quando Stone se oferece para me deixar odiá-lo pelo bem do jogo,
não consigo voltar a ser como antes.
Muita coisa mudou, e não para melhor.
Mesmo que eu ache que odeio Stone um pouco menos.
Não consigo entender nada por que estou muito abalado com tudo o que
aconteceu entre nós.
Em vez de jantar, parei na máquina de venda automática e peguei alguns
sacos de salgadinhos e uma barra de chocolate. Eles estão todos
abandonados na pequena mesa enquanto me jogo na cama. Estou morrendo
de fome, mas não tenho apetite. Stone é bem-vindo ao saco de salgadinho de
cebola quando ele entrar.
Não que eu tenha comprado para ele.
Meu telefone toca, e eu o tiro do bolso. Quase não atendo. Já sei que minha
tia provavelmente está preocupada. Eu não costumo fazer esse tipo de jogo
de merda. Ela se preocupa demais, e eu nem sou filho dela. Mas se eu não
atender, ela só vai se preocupar mais.
— Oi, Rosie.
— Ei, garoto. Assisti ao jogo.
Percebo facilmente o tom cauteloso em sua voz.
Minha tia Roseanne é uma mulher gentil que eu ainda queria que tivesse
me acolhido depois que minha mãe morreu. Eu odiaria ser um fardo para
ela por dez anos em vez de dois, mas eu teria vivido alegremente cada
segundo da minha vida tentando retribui-la em vez de cada um daqueles
segundos que vivi com medo.
— É — murmuro, jogando meu braço sobre meu rosto. — Não foi meu
melhor jogo.
— Está tudo bem na faculdade?
— Está tudo bem. Foi só nervosismo do primeiro jogo. Vou me livrar
disso.
— Okay. — Ela fica quieta por um momento. — Você sabe que se precisar
de alguma coisa...
— Eu sei. E você sabe que se preocupa demais.
Ela ri baixinho. — Então você continua me dizendo. Não consigo evitar,
Cal. Você é meu único sobrinho.
— Como estão Rich e as crianças? — pergunto, tentando lembrá-la de que
ela tem filhos com os quais deveria se preocupar. Saio da cama e começo a
andar de um lado para o outro no quarto, de repente me sentindo ansioso
demais para ficar parado.
— Tudo bem. Rich tem férias chegando, então estávamos pensando em
fazer uma viagem antes que Theo fique muito ocupado com suas inscrições
para a faculdade. Ele está pensando em Lynwood, sabia?
— Sim, ele me contou. — Indo até a janela, afasto a cortina, olhando para
as luzes cintilantes da cidade e a extensão negra do oceano à distância. — Se
for isso que ele decidir, estou ansioso para mostrar o campus e essas coisas
para ele.
— Aposto que ele adoraria isso. — Ela fica em silêncio novamente, e tenho
certeza de que há mais que ela queira dizer. Em vez disso, ela diz: — Você
provavelmente está exausto. Vou deixar você ir para que possa descansar
um pouco. Boa sorte amanhã. Cuide-se, ok, Cal?
— Eu vou. Eu prometo. Você também.
Depois que desligamos, devolvo meu telefone ao bolso. Enquanto meu
olhar se volta para a janela, meus olhos encontram Stone, que está encostado
na lateral do prédio logo abaixo. Eu me inclino para frente, vendo-o falando
com alguém com o celular pressionado no ouvido. Ele desliga e tira outro
telefone da bolsa que está carregando.
Por que ele tem dois telefones?
Talvez seja apenas curiosidade que me puxa enquanto vejo Stone começar
a se afastar do hotel, ou talvez seja algo completamente diferente. Seja lá o
que for, me faz atravessar o quarto com passos largos, abrir a porta e correr
para o corredor. Desço as escadas, sabendo que será mais rápido do que
esperar o elevador.
Assim que estou no saguão, desacelero o passo, não querendo chamar
atenção. Quando estou passando pela recepção, o treinador Hill entra pela
porta lateral. Continuo andando.
— Hayes! — o treinador grita, me fazendo parar e cerrar os dentes. —
Onde você pensa que vai?
Controlando minhas feições, me viro. — Só preciso de um pouco de ar
fresco, treinador.
Ele resmunga desaprovador. — Treino cedo de manhã. Talvez você queira
descansar um pouco.
— Não vou demorar.
Ele assente, seu rosto marcado em linhas duras. — Veja se não demora.
Você tem uma posição no time para manter.
Não posso dizer que não esperava por isso.
— Sim, senhor.
Virando-me, continuo até as portas da frente do hotel e ando. Um frio de
fim de noite penetra direto na minha espinha, e enfio as mãos no bolso do
meu moletom. Há um leve toque de fumaça no ar que arrepia meus braços
tanto quanto o frio. Indo para a esquerda na direção em que vi Stone decolar,
fico de olho nele. Não tenho ideia de qual era meu plano. Não posso
exatamente andar por todas as ruas até encontrá-lo.
Decido continuar na mesma direção, mantendo-me na calçada ao longo
da rua. Já é tarde, então há apenas alguns carros passando.
Depois de uns cinco minutos de caminhada rápida, eu o vejo lá na frente.
Ele é pouco mais que uma silhueta escura em um moletom preto como o
meu, uma bolsa amarrada nas costas.
Aonde diabos ele está indo?
Estou curioso pra caralho, então continuo seguindo ele. Diminuo a
velocidade para manter uma boa distância entre nós, me mantendo nas
sombras. Não tem mais ninguém andando nas ruas tão tarde, então se ele
me ver, é fim de jogo.
Mas não posso voltar. Preciso saber para onde ele está indo e o que está
fazendo.
É definitivamente mais do que simples curiosidade.
Quinze minutos se passam, e eu consigo permanecer sem ser detectado
enquanto o sigo por esquinas e ruas laterais. Quando ele desce por um
caminho estreito entre dois prédios, eu fico para trás, sabendo que meus
passos ecoariam. Com certeza, quando Stone desaparece e eu faço minha
passagem, meus passos reverberam nas paredes. Juro que ouço dois ecos.
Mas quando olho para trás, não há ninguém lá.
Uma vez do outro lado dos prédios, olho para a esquerda, depois para a
direita. Eu o localizo, indo direto para a praia.
O que…
Mais uma vez, sigo atrás dele.
Há um pequeno bosque de árvores ao lado de uma área de piquenique
vazia. Escolho uma delas e me escondo atrás do tronco grosso enquanto
observo Stone atravessando a praia de seixos em direção ao cais solitário.
Não há ninguém por perto, exceto uma única figura parada no final,
encostada na grade e olhando para a água.
Está um pouco nublado lá fora, as nuvens finas e tênues atualmente
velando a lua do terceiro quarto. Além das duas lâmpadas amarelas e fracas
sobre a área de piquenique, as luzes da cidade à distância e as estrelas lá em
cima, está escuro. Tudo está jogado nas sombras. Incluindo Stone e quem
quer que seja o homem que ele está encontrando.
No começo, acho que talvez seja algum tipo de negócio de drogas. Que
talvez Stone esteja atrás de algo para aliviar a tensão da nossa primeira
derrota. Que o que parece um abraço é um deslize para dentro de um bolso,
uma troca de dinheiro.
Exceto que o estranho parece passar a mão no peito de Stone.
Meu maxilar se contrai.
Então, é possível que tenha me ocorrido pensar que ele estava saindo para
ficar, e agora estou me odiando por segui-lo.
Ele está olhando para ele como olha para mim?
Ele também está vendo-o?
É porque eu disse para ele parar e agora ele está farto de mim?
Ele se desculpou, mas então passou a semana passada me evitando. Não
achei que ele estivesse chateado comigo até o nosso confronto no quarto de
hotel antes do jogo. Isso me deixou ainda pior. Fui um idiota por pensar que
ele não estava bravo com isso.
Não quero assistir ao que vai acontecer naquele cais, mas também não
consigo desviar o olhar.
Eu preciso saber.
Então talvez eu possa seguir em frente e esquecer que tudo aconteceu.
Então eu fico. Alguns minutos viram dez. Stone tirou o capuz, o que foi o
suficiente para eu quase quebrar alguns dentes, mas eles ainda estão lá fora
conversando. Eu ouço suas vozes profundas, mas não consigo entender o
que eles estão dizendo. De vez em quando, o outro cara ri, alto e um pouco
desagradável.
Nunca senti tanto ciúme em toda a minha vida.
Mas enquanto estou atrás desta árvore, observando, ouvindo e esperando,
minha inveja cresce. Algo dentro de mim se quebra. O ar fica um pouco mais
denso.
Todos aqueles esboços que fiz, aqueles guardados em segurança dentro
do meu caderno secreto, voltam à minha mente.
Então eles são substituídos por novas imagens. De um rosto diferente. Um
rosto que não consigo distinguir claramente de onde estou, um rosto envolto
em escuridão, apenas brevemente iluminado por luzes distantes e estrelas.
O contexto não muda. Ainda há sangue.
Tanto sangue.
Ainda mais sangue do que antes.
Percebo que meu peito está subindo e descendo muito rápido, mas mal
consigo respirar. Se eu não conseguir me recompor, eles vão me ouvir de
todo o caminho do cais.
Fechando meus olhos, eu penso de volta no meu último ataque de pânico,
quando o rosto de Stone estava a centímetros do meu. Seus olhos lavados
pela chuva apenas em mim. Seus polegares acariciando suavemente minhas
bochechas. Eu me forço a respirar em sincronia com o Stone em minha
mente.
Quando abro os olhos novamente, o pânico se acalmou, mas ainda persiste
nas bordas.
O reflexo das estrelas na superfície da água brilha como pequenos
diamantes perdidos no mar. As nuvens acima se movem para o leste,
revelando a luz brilhante da lua prateada.
Há um lampejo de algo prateado, como outro reflexo do céu na terra.
Está na mão de Stone. Brilhante e afiada.
Então ele desaparece, ficando cravado até o cabo no abdômen do outro
homem.
Minha mão ergue até a boca.
Porque... não é isso que eu deveria fazer? Não é isso que uma pessoa
normal estaria fazendo? Abafando um grito? Exceto... não há nenhum. Não
há nenhum traço de grito alojado na minha garganta. Nenhum barulho
sendo abafado pela minha mão.
Não estou gritando. Não estou com medo.
Eu deveria estar. Eu deveria estar correndo. Chamando a polícia.
Mas não tenho a mínima vontade de fazer nada disso.
Em vez disso, meus pés se movem. Primeiro um passo, depois um
segundo. Há mais algumas árvores entre mim e o cais, e ainda estou envolto
em sombras. Mas, porra, eu quero chegar mais perto. Quero ver exatamente
o que está acontecendo. Ver os danos. Sentir o cheiro do sangue. Quero
testemunhar a vida deixando os olhos do homem sob o brilho prateado da
lua.
Qualquer ataque de pânico que eu estava prestes a ter antes desapareceu,
substituído por uma onda de calma.
Talvez eu não consiga ver claramente, mas...
Até a silhueta da morte é de tirar o fôlego.
Stone é de tirar o fôlego.
Eu observo, me forçando a permanecer escondido, enquanto o braço de
Stone se torce antes que ele arranque a faca do sujeito. Ela não está mais
brilhando, coberta de sangue escuro. O estranho cai, e Stone dá um passo
para trás, deixando-o cair no cais. Ele inclina a cabeça para trás, olhando para
as estrelas. Seu peito sobe com uma respiração lenta e profunda. Ele solta o
ar como se estivesse expurgando seus demônios.
Não consigo desviar o olhar.
Mas eu faço. Só por um momento para varrer meu olhar pela praia
deserta. Não há ninguém por perto. Ninguém mais viu.
Sinto alívio.
Voltando meus olhos para o cais, estou bem ciente de que esse alívio - essa
calma inegável e poderosa que tomou conta de mim - é a última coisa que
eu deveria estar sentindo. No entanto, não me importo. Não quando parece
tão bom. Foi injetado direto em minhas veias como uma droga, e eu já posso
estar viciado. Como se eu nunca mais tivesse outra preocupação no mundo
se eu pudesse apenas me agarrar a ela.
Stone limpa a faca na camisa que provavelmente já está manchada de
sangue de qualquer maneira. Ele a coloca de lado antes de erguer o homem
sob seus braços flácidos. Arrastando-o para o lado do cais, ele o ergue mais
alto. A adrenalina provavelmente ajuda a dar a ele a onda de força que ele
precisa para forçar todo aquele peso morto para cima e sobre o corrimão.
O corpo cai.
Ele cai.
E espirra na água abaixo.
Então tudo fica quieto, mais quieto do que antes. As ondas do respingo
ondulam na costa de seixos. Stone fica na beira do cais, olhando para baixo,
depois de volta para as estrelas. Como se talvez ele estivesse sentindo tudo
o que eu estou sentindo agora também.
É como se eu estivesse lá fora no cais com ele. Compartilhando a beleza
deste momento que ele criou com suas mãos, trabalhado com uma faca.
Um deus da morte. Um artista à sua maneira.
Um ceifador lindo e de tirar o fôlego.
Não sei quanto tempo mais tenho antes que ele comece a voltar. Então,
respiro pela última vez - inspirando a morte e a beleza que eu queria
experimentar novamente nos últimos cinco anos. O tipo que eu considerei
trazer à existência eu mesmo, mas tenho medo demais de fazê-lo, essas
ruminações sombrias sempre levam a um ataque de pânico. Mas, agora, eu
respiro fundo, prendo em meus pulmões, esperando segurá-lo para sempre.
Depois de um último olhar para Stone, viro-me para voltar. Acho que até
continuo prendendo a respiração até chegar à rua. Mas mesmo depois de
soltá-la, ela continua lá. Aquele momento.
Escolho um caminho diferente de volta para o hotel, só para garantir, caso
Stone não esteja muito atrás. A caminhada de volta não parece demorar
tanto, minha mente está muito ocupada repetindo a cena no cais várias e
várias vezes.
Assim que volto para o quarto de hotel, tiro a roupa e fico só de cueca,
pego meu bloco de desenho de viagem da bolsa e me enfio debaixo das
cobertas. Eu não deveria fazer isso, mas faço. É um esboço rápido, uma
referência para um mais detalhado que farei depois. Vou ter que preencher
algumas lacunas deixadas pela sombra, mas minha cabeça está bem cheia de
ideias.
Assim que termino, arranco a página. Dobro-a em um quadradinho como
fiz naquela noite, cinco anos atrás, e a coloco debaixo do meu travesseiro.
Como não sei quando Stone vai voltar, apago a luz ao lado da minha cama
e deito-me de lado, de frente para a porta. Não quero que ele saiba que estou
acordado quando ele entrar. Não quero que nada destrua esse sentimento
requintado.
Não estou nem perto de dormir quando ouço uma chave deslizando na
porta quase meia hora depois. Mas fecho os olhos e finjo estar.
A luz do banheiro acende, e a porta se fecha. A água do chuveiro escorre
por cerca de dez minutos. Estou tão chapado com a noite que não sinto
vergonha de imaginar Stone do outro lado da parede. Nu e molhado.
Talvez com um pouco do sangue daquele homem escorrendo pelo ralo.
Meu pau está duro quando ele sai de cueca. Mas eu só dou uma
espiadinha antes de lembrar que meus olhos deveriam estar fechados.
O quarto cai na escuridão novamente quando ele apaga a luz do banheiro.
Seus passos são leves no carpete enquanto ele atravessa o quarto. Atrás de
mim, o colchão geme baixinho quando ele se senta. Há um amassado do saco
quando ele pega os salgadinhos de cebola que deixei em sua cama. Uma
pausa. Então ele abre, e eu ouço um estalo.
É só um saco de salgadinhos, mas é mais do que isso.
Um obrigado.
Estou a poucos metros de um assassino e não sinto nada do que deveria
estar sentindo.
Em vez disso, sinto-me… seguro.
Eu estava um pouco preocupado que teria esses pesadelos durante essa
viagem. Mas, naquela noite, dormi melhor do que dormi em semanas.
Doze
Stone
— Levante-se, Callum!
Meu alarme tocou há quinze minutos e ele ainda não se mexeu.
Eu marcho até a cama dele, apenas um braço na manga da minha camisa
enquanto enfio o outro. Fico de pé acima dele, olhando para baixo. Ele parece
tão em paz, seus lábios carnudos entreabertos. Uma mancha escura no
travesseiro mostra onde ele estava babando durante o sono. Eu odeio
acordá-lo, mas...
— Vamos nos atrasar para o treino se você não se levantar.
Só quando eu chuto o fundo da estrutura da cama é que ele finalmente
acorda. Ele pisca para mim algumas vezes antes de focar o olhar. Ele fica
parado, então seu rosto relaxa.
— Você ficou bêbado ontem à noite? — pergunto, franzindo as
sobrancelhas.
O canto da boca dele se contrai. — Algo assim.
Eu zombo e vou embora para sentar na minha própria cama para poder
calçar meus sapatos. — Ótimo. Determinado a nos fazer perder mais ainda
hoje à noite, hein?
— Nah. — Ele se espreguiça, e não consigo evitar que meu olhar passe
pelos músculos ondulantes de suas costas. — Estou com um bom
pressentimento sobre o jogo de hoje à noite.
— Você ainda deve estar bêbado — murmuro enquanto me levanto e
visto meu moletom sobre a cabeça. Pegando minha bolsa, vou em direção à
porta. — Vejo você lá embaixo. Apresse-se, porra.
Do jeito que está, vou chegar bem na hora de encontrar todo mundo no
ônibus, então Callum definitivamente vai se atrasar. Nunca imaginei que ele
dormisse demais. Ele geralmente chega antes de mim na aula e sempre chega
na hora para o nosso treinamento matinal de força e condicionamento. Acho
que só tive a sensação de que ser pontual fazia parte da personalidade dele.
Mas ele com certeza estava dormindo muito pesado.
Talvez ele tenha ficado bêbado ontem à noite.
Mas, de novo, não sou de falar. Os mecanismos de enfrentamento dele
provavelmente são mais saudáveis que os meus.
Não que eu tenha algum arrependimento.
Eu precisava disso ontem à noite. Posso não ter ficado surpreso com nossa
perda, mas ainda fiquei puto depois. Principalmente comigo mesmo. Então
eu fui embora e direcionei essa raiva para outra pessoa.
Quando aquele homem me tocou para verificar se havia fios, minha pele
se arrepiou. Quando ele me contou sobre seu negócio muito lucrativo com o
tipo ilegal de pornografia que ele administra na dark web e que ele achava
que eu também queria entrar, a bile subiu na minha garganta. Toda vez que
ele ria sobre a dor e o medo que ele infligiu, eu imaginava fazê-lo engasgar-
se com seu próprio pau depois que eu o cortasse.
Mas quando minha faca cortou camadas de pele, músculos e tecidos de
órgãos?
Porra. Estava tudo bem com o mundo.
Lacey sempre se destaca em encontrar os lugares mais isolados para eu
conduzir meu... trabalho. Sou grato por isso além do óbvio. Isso me dá o
tempo que anseio para me deleitar no silêncio. Assim como com meu ritual
de patinar sozinho antes do treino ou um aquecimento pré-jogo quando
consigo, esse silêncio depois do caos e da violência de uma morte é tão
precioso para mim.
Depois das minhas três primeiras mortes, quando eu tinha dezessete anos,
percebi que tirar vidas não me afetava como eu sabia que deveria.
Não senti culpa, vergonha ou remorso.
Eu gostei.
Lacey acredita que é apenas a distribuição de justiça que eu busco, de
corrigir erros, ser um portador de carma. Tomando vingança em minhas
próprias mãos por aqueles que não podem. E, claro, isso certamente faz parte
disso. Mas há mais nisso que eu nunca admitirei para ela.
Não gosto da ideia de tirar uma vida inocente, e não tenho intenção de
fazer isso. Matar canalhas pervertidos e vis mantém minha besta saciada. Na
maior parte do tempo.
Depois que a besta conseguiu o que queria, limpei a mim mesmo e minha
faca na água, descartei minha camisa e vesti a limpa que tinha escondido na
minha bolsa antes de voltar para o hotel. Quando encontrei Callum
dormindo profundamente e aquele saco de salgadinhos na minha cama,
pareceu uma oferta de paz. Eu me senti uma merda por tratá-lo do jeito que
o tratei mais cedo naquele dia.
Ele me confunde muito.
Ainda mais depois daquele olhar que ele me deu quando acordou.
Ele realmente tem um bom pressentimento sobre o jogo desta noite?
Ou ele está apenas tentando me dar esperanças, só para destruí-las mais
tarde, por vingança?
Quando saímos do túnel na arena de Massachusetts, o treinador já está no
gelo, falando com alguém que está de pé do outro lado do muro em frente
ao banco. O estranho está com roupas normais - jeans e um moletom com
capuz dos Monarchs. Suas bochechas estão coradas, seu cabelo loiro
brilhando sob as luzes do estádio.
— Obrigado por aparecerem, moças — diz o treinador como se não
tivesse chegado no ônibus conosco.
— Eric?
Eu me viro para Callum, que está sorrindo para esse cara novo. Ele abre
caminho passando por Nate e Brooks, e ele e... Eric, aparentemente... se
abraçam forte, Callum dando um tapa em suas costas com sua luva.
Calma, besta.
Antes que eu possa me conter, pergunto: — Você o conhece?
Callum dá um passo para trás e olha por cima do ombro para mim como
se não pudesse se dar ao trabalho de me dar toda a sua atenção. — Ele estava
no time júnior de hóquei da nossa escola. Jogamos um ano juntos antes de
eu ser promovido para o time principal.
— Ah, certo. — Olhando para Eric, agora eu o reconheço. — Você tomou
meu lugar depois que me formei.
— É isso mesmo — diz Eric, e é melhor ele torcer para que esse tom
presunçoso seja coisa da minha cabeça.
— Então, o que você está fazendo aqui? — Callum pergunta a ele.
Meu maxilar se contrai ao ver o sorriso ainda estampado em seu rosto, tão
grande que ele não consegue controlá-lo.
Eric levanta os ombros do moletom, chamando a atenção para o preto e
laranja. — Estou pensando em me transferir para Lynwood.
— E o Vaughn aqui vai tomar o lugar de alguém se eles não conseguirem
se recompor hoje. — Os olhos do treinador vão de mim para Callum e vice-
versa.
Pelo menos Callum tem a decência de finalmente tirar aquele sorriso do
rosto.
— Agora vá lá e se aqueça — grita o treinador.
Nós fazemos isso, todos nos empilhando no gelo em um borrão de branco
e laranja, nossas cores de fora. Nós patinamos algumas voltas ao redor do
rinque até que o técnico assistente joga os discos. Eles vão quicando ou
deslizando pelo gelo, e eu pego um com minha lâmina antes de arremessá-
lo no gol mais próximo.
Outro disco vem zunindo direto em minha direção, certeiro, e antes que
ele atinja meu taco, eu o acerto primeiro, jogando-o direto na rede com um
golpe forte.
Quando olho para cima, a primeira coisa que vejo é Callum parado na
linha azul, com um sorriso que eu juro que poderia parar meu coração no
meio da porra das batidas.
O brilho em seus olhos brilha intensamente sob as luzes da arena.
Tudo bem. Vamos fazer isso, porra.
Interceptando um passe entre dois dos nossos outros caras, eu pego o
disco e o jogo na direção de Callum enquanto eu disparo, minhas lâminas
esculpindo o gelo. Callum me imita, e nós patinamos paralelos pela pista,
passando o disco para frente e para trás em volta dos nossos companheiros
de time e por entre suas pernas.
Qualquer que fosse a corda que nos conectava antes - a que se tornara fraca
e desgastada nas últimas semanas, a que eu tinha certeza de que já havia se
rompido - foi refeita. Reenfiada com nós firmes, mais fortes que seda de
aranha.
Do outro lado do rinque, Callum acerta o disco, que vai direto para o
fundo da rede, passando por Fitz.
Ele patina em volta do gol e para na minha frente, deixando meus patins
com neve. Não consigo nem ficar bravo com isso com o sorriso se esticando
em seu rosto.
— De onde diabos veio isso? — A voz do treinador ecoa pela arena. Ele
patina até nós enquanto todos os outros no gelo estão parados, com o foco
em nós. — Decidiram finalmente tirar algo da bunda hoje?
— Desculpe, treinador — Callum diz, ainda sorrindo. — Acho que
finalmente acordei.
— Essas almofadas não foram feitas para serem usadas como travesseiros,
Hayes.
Callum morde o lábio, provavelmente para se impedir de rir, mas meu
olhar permanece nele. — Sim, senhor.
— Agora façam isso de novo. — O treinador apita, embora seja
desnecessário, já que os olhos de todos já estão em nós. — Todo mundo,
tirem o disco de Hayes e Wakefield!
Todos?
Acabamos de recuperar nossa energia, e ele está nos jogando direto na
cova dos leões.
No entanto, quando decolamos novamente, somos praticamente
imparáveis. Eles mal conseguem nos pegar, muito menos tirar o disco de
baixo de nós. Nate o segura uma vez, mas Callum está de volta à posse
segundos depois.
Não estamos apenas jogando melhor do que em semanas. Estamos
jogando melhor do que nunca.
Não consigo explicar a mudança, mas não vou amaldiçoá-la
questionando-a.
Não sei onde ou como Callum conseguiu encontrar esperança, mas vou
confiar nele.
Eu vou confiar nele.

Faltam menos de dez minutos para o terceiro período, e estamos


ganhando por dois a um. Estamos jogando com o coração. Eu peguei metade
das penalidades, mas o dobro de contusões. Ainda é muito cedo para
começar a comemorar.
Assim que nosso centro da terceira linha limpa o disco, ele voa em direção
ao banco. Quando ele está no portão, Brooks está disparando sobre o muro
e disparando pelo gelo em direção à zona defensiva do outro time, onde
nossos caras estão aplicando pressão. Ele está lá quando Massachusetts
assume o controle, e ele rouba a posse de bola de volta com a mesma rapidez.
Minha perna está pulsando de adrenalina e vontade de voltar a correr.
Brooks corre para o canto, onde é esmagado contra as placas e cai.
Sinto-me tão defensivo e sanguinário quando se trata de ataques aos
nossos rapazes como eu estava ontem à noite, mas pelo menos consigo me
segurar esta noite. Não estou tentando passar a maior parte do jogo na área
de penalidade ou ficar no banco antes que isso acabe.
Não quando temos uma chance real.
Brooks se levanta rapidamente, retornando à briga na frente do vinco. Ele
pega um passe e faz um chute, mas é bloqueado pelo goleiro deles. O disco
quica em suas almofadas antes que a linha de frente de Massachusetts o leve
de volta pelo centro do gelo.
Há uma batalha nas placas antes que o outro time consiga finalizar.
Fitz defende com a luva e cobre o disco, e o árbitro apita.
— Wakefield! — grita o treinador.
Finalmente, porra.
Eu e minha linha escalamos o muro enquanto o segundo entra no portão.
Eu patino para fora no círculo para reiniciar o jogo. O disco cai, e eu o jogo
direto na fita de Callum. Ele é rápido demais para o outro time, levando-o
de volta para a zona de Massachusetts. Os caras deles estão nele, mas ele
joga o disco entre eles, e ele ricocheteia nos cantos.
Eu o pego ao longo das placas e passo para Nate. Ele o devolve.
Callum está circulando em volta da área goleiro, e eu sinto um puxão
naquela corda enquanto ela fica esticada. Eu mando um passe que desliza
bem ao longo daquela linha.
O disco acerta o taco de Callum com um estalo, e ele o afunda com um
arremesso de pulso. Ele voa sobre o ombro do goleiro e vai para o fundo da
rede.
Faltando menos de três minutos, Callum provavelmente garantiu nossa
primeira vitória da temporada.
Ele levanta seu taco no ar. Seu sorriso brilhante é o mais lindo que já vi.
Todos nós nos aproximamos dele enquanto a campainha toca.
Enquanto ele está cercado por seus companheiros de time para abraços de
vitória e tapinhas de congratulações nas costas e no capacete, seus olhos
estão apenas em mim.
E os meus estão só nele.
Treze
Callum
Nós ganhamos nosso segundo jogo contra Massachusetts por três a um.
Nesta mesma hora, ontem à noite, acho que nenhum de nós esperava
conseguir isso.
Mas muita coisa pode mudar em uma noite.
Estamos todos de volta ao hotel, comendo um jantar tardio no restaurante.
É barulhento e lotado de jogadores de hóquei e seus treinadores. O treinador
Hill está mais feliz do que eu o vi em muito tempo enquanto ele e nosso
treinador assistente bebem cerveja no bar.
Estou espremido em um lado de uma cabine entre Brooks e Eric. Nate
convidou Stone, e ambos se sentaram na nossa frente. Nossos pratos foram
retirados da mesa, e estamos todos trabalhando em nossas segundas
cervejas.
Para eles, são bebidas comemorativas.
Para mim, é para ajudar a acalmar o nervosismo que tenho em relação a
voltar para o quarto mais tarde.
Os olhos de Stone estão pegando os meus a noite toda, e toda vez, vejo
suspeita cercada por pontos de interrogação. Não posso contar a ele a
verdade sobre essa mudança repentina, sobre porque fomos capazes de jogar
hoje como se fôssemos duas metades de um todo. Porque era assim que
parecia lá fora.
Foi assim que me senti ontem à noite.
Eu sei que ele vai perguntar, e não sei o que dizer a ele. Não dei a ele a
chance entre o treino e o almoço e usei a desculpa de colocar o papo em dia
com Eric - que está atualmente se inclinando sobre mim para falar com
Brooks, seu rosto apenas um pouco desconfortavelmente perto do meu.
Perto o suficiente para deixar o maxilar de Stone tenso enquanto ele me
encara com o que agora quase consigo imaginar como seus olhos assassinos.
Isso me causa um arrepio nada indesejável na espinha.
— Espera — Eric diz, interrompendo qualquer conversa que eles estavam
tendo e que eu não estava prestando atenção. — Qual é seu primeiro nome?
Desvio o olhar de Stone por tempo suficiente para ver Brooks ficar
vermelho.
Nate bufa em sua cerveja. — Ele não tem nenhum.
Stone, ainda com o olhar fixo em mim, responde com um tom vago. — É
Herbert.
Brooks se joga para trás contra a cabine e levanta as duas mãos no ar. —
Cara.
Nate e Eric caem na gargalhada.
— Dá um tempo, porra. Recebi esse nome em homenagem ao meu avô,
tá? — Brooks murmura amargamente enquanto cruza os braços sobre o
peito.
— Espere. Herbert...
— Não. — Sua carranca fica mais profunda. — Não aquele Herbert
Brooks.2
Os outros dois começam a rir novamente.

2O nome Herbert Brooks pode ser uma referência a Herb Brooks, o famoso treinador de
hóquei no gelo que liderou a seleção dos EUA na histórica vitória contra a União Soviética
nos Jogos Olímpicos de Inverno de 1980, conhecida como Miracle on Ice.
Acho que Stone não desviou o olhar de mim nenhuma vez desde que Eric
chegou perto demais, como se estivesse preparado para pular e arrastar Eric
pelo colarinho se ele chegasse um milímetro mais perto.
Não gosto muito da ideia de Stone matar meus amigos.
A risada dos nossos companheiros de time é acompanhada por mais do
outro lado do restaurante, onde nosso treinador e assistente técnico estão
terminando suas cervejas no bar. Tudo se mistura no ar, girando em volta da
minha cabeça até que minha mente esteja cheia do som.
Eu provavelmente deveria sair daqui antes que todas essas risadas me
sufoquem como mãos escuras e fantasmagóricas em volta da minha
garganta.
Ou antes de Stone assassinar Eric.
— Certo, rapazes — digo antes de virar as últimas gotas da minha cerveja.
— Vou encerrar a noite.
Nate, Brooks e Eric me vaiam, mas Eric ainda sai da cabine para me deixar
levantar.
— Provavelmente não estaremos muito atrás de você. — Nate verifica as
horas em seu relógio. — Temos que estar no ônibus às nove.
— Eu dirigi meu carro — diz Eric, olhando para mim. — Você quer voltar
comigo?
Mesmo que eu não encontre os olhos de Stone, ainda posso senti-los em
mim, queimando um buraco do caralho na lateral da minha cabeça. — Nah.
Eu provavelmente deveria voltar com o time. Obrigado, no entanto.
— Claro. Boa noite, Cal. — Ele me dá um tapinha no ombro antes de
deslizar de volta para a cabine.
Ao sair do restaurante, ainda consigo sentir os olhos de Stone em mim.
Depois da noite passada, é como se aquela marca que eles marcaram na
minha alma há cinco anos estivesse em chamas novamente, recém-fervendo
e incandescente.
O calor persiste enquanto entro no elevador, aperto o botão do terceiro
andar e me encosto na parede dos fundos. As portas começam a fechar, e
quase pulo quando um braço dispara para detê-las. Elas se abrem
novamente, e Stone entra.
As portas se fecham, nos prendendo juntos.
Minha frequência cardíaca dispara.
Estranhamente, não tem nada a ver com o fato de eu tê-lo visto assassinar
um homem a sangue frio ontem à noite.
Eu poderia estar esperando conseguir chegar ao nosso quarto sozinho.
Todos nós tomamos banho depois do jogo, então eu poderia ter escorregado
direto para a cama e pelo menos fingido estar dormindo antes que Stone
subisse as escadas.
Ele não diz nada enquanto o elevador nos leva para cima. Ele fica um
pouco na minha frente, os ombros endireitados e o maxilar tenso. Não sei se
ele está chateado com Eric ou nervoso com todas as perguntas que sei que
ele tem.
Quando as portas se abrem novamente, Stone sai a passos largos, me
puxando por uma força invisível. Ele tira o cartão-chave do bolso e o passa
na porta do nosso quarto. Assim que estamos lá dentro, eu a fecho e encosto
minhas costas na madeira. Meu coração ainda está acelerado, e eu prefiro
tentar avaliar o humor de Stone antes de me aprofundar mais em um ninho
de víboras.
Não que eu esteja com medo. Talvez eu devesse estar, mas não estou.
Estou nervoso por um motivo diferente.
Ele chega até o canto da minha cama antes de se virar para me encarar. A
pequena luminária na escrivaninha é a única luz acesa, saturando o quarto
com um brilho amarelo fraco e lançando sombras.
Os olhos de Stone são tão escuros que fazem parte dessas sombras.
— Você quer me dizer o que diabos foi aquilo?
— O que você quer dizer?
— Não banque o idiota, Callum. Você é esperto demais para isso. — Ele
anda em minha direção, apenas alguns passos, antes de parar novamente.
Seu maxilar estala, e suas mãos ficam tensas ao lado do corpo como se ele
estivesse tentando se controlar para não se aproximar. — Como foi que a
gente jogou assim hoje? Você só estava de bom humor depois de ver seu
velho amigo? Teve que se exibir para ele?
— Eric não teve nada a ver com isso — digo honestamente.
— Então o que diabos mudou?
Não posso lhe dar essa verdade.
Mas talvez eu possa dar a ele uma diferente.
Respiro fundo e então. — Entrei em pânico.
Seus olhos se estreitam. — O que isso significa?
— Semana passada. No vestiário. Entrei em pânico. — As próximas
palavras não querem sair imediatamente, e tenho que engolir o nó na
garganta que as está segurando. — Eu não queria que você parasse.
Os olhos de Stone ficam ainda mais escuros quando ele dá um único passo
para mais perto de mim e mais longe da luz. Ele inclina a cabeça, me
estudando. — Não?
Balanço a cabeça, mal conseguindo dizer um baixo — Não.
Um barulho profundo e estrondoso vem do seu peito, e eu juro que é um
rosnado. Como se ele fosse um animal do caralho. Ele quase fecha a distância
entre nós, e suas mãos sobem, as palmas pousando na porta de cada lado da
minha cabeça, me prendendo de novo.
Olho em seus olhos e inspiro seu cheiro, perdendo-me na floresta de
ambos.
Nenhuma parte dele está tocando qualquer parte de mim, mas juro que
consigo senti-lo. Cada centímetro da minha pele está repentinamente
formigando e quente, cada átomo faiscando até que todos eles tenham
pegado fogo.
Ele se inclina um centímetro para frente, nossa respiração quente se
encontrando no ar entre nós. Há mais da minha porque estou respirando
duas vezes mais pesadamente que ele.
— Você corre o risco de me dizer para parar de novo? — ele pergunta,
como se estivesse preocupado que eu fosse começar a hiperventilar como
aconteceu naquele dia depois da aula.
Eu ficaria chateado se ele não estivesse completamente errado.
— Eu acho que não.
— Nesse caso, escolha uma palavra segura.
Há um puxão entre minhas sobrancelhas. — Uma palavra segura?
— Sim. Uma palavra segura do caralho. — Sua voz fica mais rouca, mais
desesperada, a cada segundo que passa que ele não está me tocando. —
Dessa forma você pode me dizer para parar quando você quiser.
Leva cerca de dois segundos para meu cérebro entender o que ele está
dizendo e, quando isso acontece, acho que sinto outra daquelas coisas que
não deveria estar sentindo.
Ele está colocando todo o poder, todo o controle, em minhas mãos.
Porra, eu adoro isso.
— Apresse-se, Callum.
Sim, isso foi definitivamente um rosnado.
Meu pau está pressionando o zíper da minha calça jeans, exigindo que eu
me apresse também.
— Hum. — Por algum motivo, lembro-me do último gol do nosso jogo
hoje à noite, quando os olhos dele foram os únicos que vi. Minha boca fala a
primeira palavra que vem à ponta da minha língua. — Ricochete.
Ele sorri. — Eu gosto disso.
E então ele está pressionando seu corpo no meu, nossos peitos arfando um
contra o outro. Ele revira os quadris, esfregando-se contra mim. Eu nem
tento parar o gemido que rasga minha garganta enquanto eu empurro de
volta contra ele.
As mãos dele deixam a parede e levantam a parte inferior da minha
camisa, espalhando as palmas contra meu abdômen. Elas parecem frias
contra minha pele queimando.
Só tenho uma vaga noção de que ele está tocando minhas cicatrizes.
Ele já as viu.
Eu me sinto seguro.
Mas então percebo que sua boca está a uns cinco centímetros da minha.
Lambo meu lábio inferior, sentindo o gosto da cerveja em seu hálito, e seus
olhos se concentram nisso.
— Não me beije.
Uma carranca escura e perplexa cruza seu rosto. — É como se você
estivesse me dizendo para parar?
— Não. É isso mesmo que eu quero dizer.
— Puta merda. Você me confunde pra caralho.
Eu poderia dizer a mesma coisa sobre ele.
Eu literalmente o vi acabar com a vida de um homem ontem à noite, mas
ele está decidido a se recusar a me forçar.
Então, pela lógica de Stone…
Assassinato é bom. Estupro é ruim.
Puta merda. Não sei como é estar apaixonado, mas se for algo assim, estou
ferrado.
E é exatamente por isso que não posso deixá-lo me beijar.
— Ótimo. — As unhas de Stone arranham levemente meu estômago
enquanto ele passa as mãos para baixo. — Se eu não consigo sentir o gosto
dos seus lábios, então terei que sentir o gosto de cada centímetro seu.
Porra.
Ele agarra a bainha da minha camisa e a puxa sobre minha cabeça,
jogando-a no chão. Seus dedos penteiam meu cabelo antes de agarrá-lo pela
raiz e gentilmente puxar minha cabeça para o lado. Seus dentes mordem
meu maxilar. Ele lambe a coluna da minha garganta. O tempo todo, ele está
se esfregando contra mim, me fazendo sentir seu pau que está tão duro
quanto o meu.
Sua boca continua se movendo para baixo. Ele não me beija. Em vez disso,
seus lábios roçam minha pele, seus dentes raspam minha clavícula, sua
língua deixa rastros quentes e úmidos em meu peito. Enquanto sua boca
cobre um dos meus mamilos, sua mão deixa meu cabelo. Ele lambe, chupa e
morde enquanto seus dedos se movem para o topo do meu jeans.
O botão está aberto, o zíper abaixado.
Minha respiração fica rápida e ofegante enquanto inclino minha cabeça
para trás, contra a porta.
Aquela voz na minha cabeça que me fez dizer para ele parar na semana
passada não está mais lá. Agora, tem outra gritando outra coisa.
Toque-me. Toque-me. Toque-me.
E então ele faz. Ele mergulha a mão na minha boxer, e seus dedos
envolvem meu pau.
Acho que solto o gemido mais alto que já soltei na minha vida.
— Porra. — Não consigo parar de empurrar em sua mão. — Stone.
Sua boca deixa meu mamilo, sua língua disparando para lambê-lo uma
última vez. — Você tem um gosto bom até agora. Mal posso esperar para
provar mais.
Juro que vou acabar gozando só por causa das palavras indecentes dele
antes que ele consiga terminar qualquer plano que tenha.
Mais uma vez, sua boca viaja para baixo, lábios e língua acariciando minha
pele superaquecida. Eles roçam cicatrizes, mas qualquer angústia que eu
possa sentir sobre isso é eclipsada por essa fome feroz. Desejo. Querer.
Necessidade.
A mão dele deixa meu pau tempo suficiente para puxar minha calça jeans
e boxer para baixo, passando pelos meus quadris.
E então ele está de joelhos.
Qualquer força invisível que eu tenha sentido entre nós antes me atrai, e
eu olho para baixo, encontrando seus olhos escuros enquanto ele olha para
mim. Sem desviar o olhar, ele arrasta sua língua para cima da parte inferior
do meu eixo.
Não consigo sentir o resto do meu corpo. Tudo o que consigo sentir são as
partes que Stone toca.
Ele envolve sua mão em volta do meu pau novamente e pega uma das
minhas bolas em sua boca, chupando enquanto seu olhar mantém o meu
refém. Ele acaricia para cima, girando em volta da cabeça do meu pau.
Gemo novamente.
Esse prazer pode me fazer explodir.
Ele solta minha bola apenas para lamber a gota de pré-sêmen na minha
ponta. — Você está bem, Cal?
Quase parece que ele está tirando vantagem da posição em que me
colocou para me chamar assim. Mas... porra. Ele está de joelhos por mim. Ele
pode me chamar do que ele quiser.
Acho que odiá-lo era um mecanismo de defesa. Eu tinha que odiá-lo para
que ele não me visse novamente. Eu tinha que odiá-lo porque todos os outros
que me viam fraco daquele jeito só se alimentavam disso. Me
decepcionavam.
Mas nas últimas vinte e quatro horas, Stone me deu mais do que qualquer
outra pessoa.
— Por favor, não pare — sussurro de volta, sem fôlego.
Ele sorri. — É mais ou menos isso.
Então ele me engole, envolvendo meu pau em uma espécie de paraíso
úmido e quente que eu nunca havia experimentado antes.
A parte de trás da minha cabeça bate na porta novamente, e eu gemo. —
Oh, merda.
Eu não estava nem um pouco preparado.
Como isso é tão bom?
Meu cérebro fica inativo, cada célula concentrada na sensação de estar
dentro da boca de Stone, na sensação dele chupando minha alma para fora
do meu pau. Ele usa sua mão e sua boca, acariciando no ritmo do balançar
de sua cabeça.
O calor aumenta na base da minha espinha. A pressão aumenta.
Estrelas brilham atrás das minhas pálpebras.
Então tudo se foi.
Eu lamento pateticamente enquanto abro meus olhos para ver Stone
parado na minha frente mais uma vez, um sorriso estampado no rosto.
Como um sorriso pode ser bonito e arrogante ao mesmo tempo?
— Você achou que eu ia deixar você gozar tão facilmente? — Sua boca
está mais uma vez a centímetros da minha, e seu olhar cai para meus lábios.
Ele cantarola. — Estou tomando meu tempo com você, já que estou sendo
roubado de um beijo que eu realmente quero pra caralho.
Ele quer me beijar?
Porra, eu quero beijá-lo também.
Mas não vou me permitir.
— Agora tire o resto dessas roupas de merda.
Nem me ocorre recusar. Quero que ele me toque mais. Quero sentir cada
centímetro da pele dele contra cada centímetro da minha. Não me importa o
que seja preciso. Não me importa o que tenho para dar a ele.
Enquanto tiro meus sapatos, Stone tira sua camisa. Ele agarra meus dois
braços e me vira, me apoiando. A parte de trás das minhas pernas bate na
cama, e eu caio. Ele agarra as laterais do meu jeans e boxer e os puxa para
baixo das minhas pernas, já que ele não me deu a chance de fazer isso eu
mesmo.
Meu pau ainda está duro, dolorido pra caralho enquanto olho para um
Stone sem camisa. Ele tem alguns hematomas dos últimos jogos, aquarela
preta e azul pintada ao longo do torso.
Mesmo com elas, ele é lindo pra caralho.
O pré-gozo pinga na minha barriga. Stone se inclina e lambe tudo.
Gemo e empurro meus quadris para cima como se pudesse colocar meu
pau de volta em sua boca.
Ele ri enquanto coloca as mãos nas minhas coxas, forçando minhas pernas
a se abrirem mais para que ele possa rastejar na cama entre elas. Ele ainda
está com o jeans, e se inclina para trás sobre os calcanhares para desabotoá-
lo.
Quando ele liberta seu pau duro e o pega em sua mão, meu cérebro decide
voltar a ficar ativo. Eu congelo, meu corpo fica rígido, meus músculos tensos.
— Callum?
Meu olhar se fixa no dele, minha respiração entrecortada, cortando-me em
um ritmo turbulento. Mas qualquer pânico que estava prestes a tomar conta
de mim rasteja de volta para seu buraco no instante em que olho em seus
olhos. Caindo na névoa. Mais uma vez me perdendo na floresta.
Toda a minha tensão desaparece.
— Estou bem.
A outra mão dele segura meu pau novamente, dando algumas estocadas.
— Sim, você está. Você é tão bom pra caralho. Você tem um gosto bom. Você
é gostoso. Mas eu vou fazer você se sentir ainda melhor.
Com nossos dois paus em suas mãos, ele os alinha, envolvendo seus dedos
em volta de nós. Somos quase do mesmo tamanho, ambos circuncidados,
mas ele pode ser um pouco maior. A cabeça de seu pau é pelo menos. Assim
como as veias salientes percorrendo ao longo do lado de seu eixo grosso.
Minha cabeça cai para trás na cama e eu choramingo ao senti-lo
pressionado contra mim.
— Está tudo bem?
— Sim — mal consigo murmurar. — Porra, sim.
Ele começa a nos acariciar juntos, ambos os nossos quadris empurrando
para combinar com o ritmo de suas mãos. A sala se enche com os sons de
nossas respirações e gemidos e os grunhidos de Stone enquanto ele acelera
o ritmo.
— Porra — ele geme. — Seu pau é tão gostoso contra o meu.
Aquela pressão de antes aumenta novamente, minhas bolas pesadas.
Minhas mãos estão em punhos, agarrando os lençóis ao meu lado.
Arranhando. Como se eu estivesse escalando fisicamente em direção a um
pico.
Antes que eu possa alcançá-lo, suas mãos desaparecem.
Porra!
Eu vou matá-lo, porra.
Antes que eu possa atacar, ele está agarrando meus dois pulsos em suas
mãos. Enquanto ele os levanta acima da minha cabeça, prendendo-os no
colchão, ele cai em cima de mim. Seus quadris se movem novamente,
balançando para frente e para trás, seu pau batendo contra o meu. Ele enterra
seu rosto na curva do meu pescoço e ombro, ofegante, seu hálito quente
encharcando meus poros.
E assim, de repente, estou escalando novamente.
Mais alto que antes.
— Porra — eu gemo. — Stone. Vou gozar.
— Goze para mim, Callum.
Ele morde. Não com força, mas o suficiente para eu sentir a marca dos
dentes dele.
Não sei se são os dentes dele, a respiração dele contra meu pescoço ou o
deslizar do pau dele contra o meu, mas gozo mais forte do que nunca. Minha
liberação se espalha entre nossos corpos que estão escorregadios de suor,
tanto que acho que o orgasmo pode nunca acabar.
Quando isso acontece, desmorono, completamente sem ossos.
Poucos segundos depois, Stone fica imóvel, e jatos quentes de esperma se
juntam aos meus.
Posso sentir suas pernas tremendo, mas ele não se deixa cair, evitando que
todo o peso do seu corpo me esmague.
Não que eu ache que me importaria.
Stone abaixa a cabeça e lambe uma faixa quente na minha garganta, sem
dúvida sentindo gosto de sal e suor. Seu peito ressoa contra o meu antes de
ele deslizar para baixo, a língua se movendo em um caminho sinuoso contra
minha pele febril. Quando ele gira nosso esperma em volta do meu
abdômen, colocando a combinação em sua boca, meu pau macio se contrai.
Ele olha para mim e lambe os lábios. — Tão bom pra caralho.
Não consigo fazer nada além de suspirar, estou destruído por dentro e por
fora.
— Não se mova.
Como se eu pudesse agora mesmo.
Ele rasteja para fora da cama e entra no banheiro. Ouço a água ligar, mas
tudo parece um pouco confuso.
Quando Stone retorna, seu pau está enfiado de volta na cueca, seu jeans
ainda aberto. Ele pega a toalha molhada na mão e limpa a bagunça deixada
na minha barriga, limpando tudo cuidadosamente enquanto deixo meus
olhos pesados pastarem em seu corpo.
— Obrigado — murmuro cansado.
Eu provavelmente poderia tomar outro banho, mas duvido que minhas
pernas sejam capazes de me segurar agora. Mal consigo me empurrar de
volta contra os travesseiros e me cobrir com as cobertas enquanto Stone
retorna ao banheiro.
No caminho de volta, ele para aos pés da minha cama e me lança um
pequeno sorriso antes de apagar a luminária da mesa.
Eu escuto enquanto ele tira a calça jeans e se deita na cama.
Franzo a testa para o teto quando percebo que o quero nesta cama comigo.
Mas eu não o deixei me beijar. Não posso deixá-lo dormir ao meu lado
também.
— Boa noite, Callum.
— Boa noite, Stone — sussurro na escuridão.
Quatorze
Stone
Estamos de volta em casa. Mesmo depois de apenas dois dias dormindo
no mesmo quarto que Callum, meu apartamento parece meio vazio.
Ele acordou antes de mim ontem de manhã. Tomou banho, se vestiu e fez
as malas antes mesmo de eu sair da cama. Antes de sair pela porta, ele me
lançou um sorrisinho por cima do ombro.
Ele realmente me confunde pra caramba.
Parecia que ele não conseguia sair dali rápido o suficiente. Mas... ele não
me odeia mais?
Eu não sei porra nenhuma.
Seja lá o que esteja acontecendo com ele, tudo o que sei é que não consigo
tirá-lo da minha cabeça. Eu gozei quando cheguei em casa ontem à noite e
novamente no chuveiro esta manhã com a lembrança do seu pau na minha
boca, dele se contorcendo e gemendo embaixo de mim.
Porra, eu queria os lábios dele também.
Não sei se isso vai acontecer de novo. Mas eu realmente quero que
aconteça.
Eu o quero de novo. Eu o quero todo.
Já estou muito além da obsessão neste momento.
Só caí em uma obsessão uma vez na vida, e muitas pessoas morreram por
causa disso. Muitas pessoas ruins, mas ainda assim.
Não tenho certeza do que isso diz sobre o destino de Callum.
Entrando no prédio de ciências, sigo pelo corredor em direção à aula de
anatomia que compartilhamos. Callum já está em seu assento habitual, e não
estou surpreso em ver seu caderno de desenho aberto na mesa à sua frente.
Chegando atrás dele, eu me inclino e sussurro perto do seu ouvido. — Este
assento está ocupado?
Um arrepio percorre visivelmente seu corpo, e eu sorrio.
No entanto, quando ele fala, sua voz é firme. — Tenho a sensação de que
você vai se sentar aí de qualquer jeito.
— Não finja que não quer que eu faça isso.
Sento-me, e quando ele olha para mim, ele tem aquele mesmo pequeno
sorriso no rosto que tinha da última vez que o vi. Isso faz coisas estranhas
com aquele órgão que vibra no meu peito.
Ele precisa parar antes que eu o prenda na porra da mesa e o reivindique
na frente da turma inteira.
— Bom, pelo menos algumas coisas não mudam — Callum murmura
enquanto olha de volta para seu caderno de desenho, como se estivesse
falando consigo mesmo. — Stone ainda é um cabeçudo pra caralho.
Quando ele diz meu nome, todas as lembranças dele gemendo dentro
daquele quarto de hotel vêm correndo de volta para mim. Tenho que desviar
o olhar, fixando meu olhar na frente da sala, desejando que todo o meu
sangue fique acima da minha cintura.
Não funciona.
— Você sabe — digo a ele, minha voz mais rouca do que antes.
Ele tosse, engasgando-se com o ar.
Sorrio novamente.
A professora escolhe esse momento para entrar na sala e começar a aula.
Ainda bem que esse é um curso de atualização. Entre Callum sentado ao
meu lado, memórias batendo contra as paredes do meu crânio como ondas
eróticas, e meu pau que realmente não quer ficar mole, não consigo me
concentrar em porra nenhuma.

Não consegui falar com Callum sozinho a semana toda.


E, acredite, eu tentei.
Nossos treinos têm sido longos e extenuantes. Estamos ambos afogados
em trabalho de curso. É apenas quinta-feira, e já tivemos três sessões de
condicionamento fora do gelo de manhã cedo para nos preparar para nossos
dois jogos em casa neste fim de semana.
Estou na pista, patinando sozinho, há quase dez minutos, quando o resto
do time aparece pelo túnel.
Qualquer bem que esse ritual faz para mim é lavado quando meus olhos
pousam primeiro em Callum e depois no homem entrando no banco ao lado
dele.
Porra, Eric Vaughn.
Usando um suéter dos Monarchs.
Juro que quase enlouqueço quando Callum ri de algo que ele diz e bate o
ombro contra o dele. É preciso cada grama de autocontrole que possuo para
não agarrar a parte de trás do suéter de Callum e puxá-lo para longe como
se eu fosse um homem das cavernas.
Quando eu finalmente o tiver sozinho novamente, farei com que ele saiba
a quem pertence.
Uma vez ele me disse que não pertence a ninguém, mas eu vou fazê-lo
mudar de ideia.
Ele caiu na cama comigo de bom grado. Não há escapatória para ele agora.
Isso é óbvio quando seus olhos encontram os meus e ficam presos ali.
Pegos. Capturados.
O apito do treinador soa, interrompendo a conexão.
Mas é apenas temporário.
— Haverá uma pequena mudança na escalação — anuncia o treinador
enquanto patina no gelo. — Peterson falhou no teste de drogas na semana
passada, então Vaughn aqui tomará seu lugar na linha de Brooks. Só isso.
Todos se aqueçam!
Posso não conhecer Lucas Peterson tão bem, mas ainda acho estranho que
alguém arrisque seu lugar por drogas.
Por outro lado, meus vícios são muito diferentes da maioria.
O resto do time entra em campo com tacos e discos, e Callum e eu
imediatamente entramos na nossa rotina, aquecendo com passes e
alongamentos, algo que passei a apreciar ainda mais na semana passada.
Se Callum consegue movimentar o corpo daquele jeito no gelo, coberto de
protetores e equipamentos... bem, minha imaginação também tem sido
bastante exercitada.
O treino começa com o controle do disco e exercícios de chute. Tudo
acontece quase como sempre, exceto pelo fato de que meus olhos estão
seguindo Callum por aí muito mais. E isso quer dizer alguma coisa. Toda
vez que ele chega perto o suficiente para roçar em Eric, ou ele e Eric riem de
algo juntos, eu queria que estivéssemos em um treino para que eu tivesse
uma desculpa para esmagar Eric como um inseto contra as placas.
Ou talvez estalar meu taco na cabeça dele.
Cortar a garganta dele com a lâmina do meu patins.
Cobrir o gelo com o sangue dele.
Lá vai minha imaginação novamente.
Depois do treino, todos nós vamos para o vestiário e tiramos nossos
equipamentos. Os ânimos estão altos com o jogo iminente amanhã. Risadas
ricocheteiam nas paredes de concreto, e bolas de fita são jogadas pela sala.
Enquanto isso, tudo o que vejo é vermelho.
Callum é amigo de Nate e Brooks desde antes de eu chegar aqui. Ele e seu
colega de quarto parecem próximos. Mas quando se trata de Eric, ele ficou
feliz demais em vê-lo em Massachusetts no último fim de semana. Ele tem
sido mais amigável com ele do que com qualquer outra pessoa.
Eles jogaram juntos por um único ano quando Callum era calouro no
ensino médio. Como isso equivale a melhores amigos?
Acho que sou apenas um babaca ciumento.
Alguns de nós entramos nos chuveiros, incluindo eu, Callum, Eric e Nate.
Na minha última escola, os chuveiros ficavam abertos. Eu prefiro as cabines
que temos aqui. Só pelo fato de que ninguém mais consegue ver Callum nu.
Só que ele e Eric ainda estão conversando e rindo entre as cabines vizinhas.
Porra. Alguém pode estar morrendo esta noite.
Quando saímos com toalhas enroladas na cintura, Eric dá um soco
brincalhão no ombro de Callum por algo que ele disse enquanto eles
estavam no chuveiro. Não sei que porra foi porque meus ouvidos ainda
estão zumbindo com os ecos dos gritos.
Ainda não sei do que diabos eles estão falando.
Tudo o que sei é que a mão de Eric tocou a pele nua de Callum.
Sou o último a sair dos chuveiros, logo atrás de Callum. Depois que os
outros caras saem na nossa frente, agarro seu braço e o forço a virar para me
encarar.
Inclinando-me mais perto, mantenho minha voz baixa. — Se ele tocar em
você de novo, eu vou arrancar a porra da mão dele.
Seus olhos se arregalam como se ele acreditasse em cada palavra.
Bom.
Não estou mentindo, porra.
— Jesus, Stone — ele sussurra como se só agora tivesse percebido em que
tipo de problema ele se meteu. No entanto, um segundo depois, ele endireita
o maxilar. — Me solta.
Aparentemente, ele também percebeu o quanto de controle tem sobre
mim porque eu o solto imediatamente.
A maioria dos outros caras já foi embora. Eu ainda estou fervendo de raiva
enquanto nos vestimos, todo o barulho de fundo é pouco mais que estática
enquanto o sangue percorre em meus ouvidos.
Nate e Brooks estão pegando suas coisas e se preparando para sair juntos
quando Eric diz algo que rompe a confusão e faz barulho.
— Você quer uma carona?
Meus olhos se voltam para Callum, que olha para mim e depois para Eric.
— Posso te dar uma carona — ofereço antes que ele possa responder, sem
dar a mínima para o quão possessivo eu pareço.
— Ah, legal, cara — Eric diz. — Vou para a casa dele de qualquer jeito.
Jesse e eu temos uma aula de finanças juntos, e temos planos de estudo.
Então agora ele também estará dentro da casa de Callum.
Gostaria de saber em quantos pedacinhos eu conseguiria cortar o corpo
do Eric.
Callum acena para ele. — Sim, isso funciona.
Talvez eu tenha a chance de descobrir.
Nate e Brooks saem, e Callum veste seu moletom. Sei que não tenho o
direito de impedi-lo, mas qualquer bom senso que eu tinha já foi pela janela
há muito tempo.
Eu me aproximo dele enquanto Eric está fechando sua bolsa do outro lado
da sala. — Posso falar com você por um minuto?
Callum hesita com a mão na bolsa, como se estivesse pensando em
recusar.
Eu sei que ele não é estúpido…
— Está tudo bem — Eric responde por ele enquanto joga sua bolsa sobre
o ombro. — Eu te encontro lá fora, Cal.
— Ok — diz Cal.
Assim que Eric sai pela porta, eu entro no espaço de Callum. — Que porra
eu acabei de te dizer?
Ele solta a bolsa e cruza os braços sobre o peito, garantindo pelo menos
mais alguns centímetros de espaço entre nós. — Qual é o seu problema? Eric
é meu amigo. Você sabe, como Nate, Brooks e Jesse são meus amigos. Você
está sendo louco pra caralho.
— Louco? — realmente me sinto assim, mas… — Você ainda não viu
loucura.
— Eu já te disse antes que eu não pertenço a ninguém. Isso inclui você,
Stone. Agora, caia fora, porra.
Estou em um túnel que está desabando, e a única coisa no final dele é
Callum.
Dando um passo à frente, meu peito bate contra seus antebraços. Ainda
não está tão perto quanto eu gostaria.
— Se eu não deixei claro para você até agora, eu não pego nada de você
que você não dê voluntariamente. — Eu me inclino mais um centímetro para
frente até que eu possa sentir sua respiração entrecortada em meus lábios.
— Mas você já se entregou para mim. Então é tarde demais para isso,
Callum.
Sua mandíbula fica tensa, e ele fala entre dentes cerrados. — Eu. Não. Sou.
Seu.
Dou um passo para trás novamente, me perguntando se meus olhos estão
tão escuros quanto os dele agora. — Tudo bem. Então vá embora.
Ele solta um suspiro exasperado e se vira. Estou tentado a agarrá-lo e
prendê-lo, mostrar a ele que ele realmente é meu.
Mas não posso forçá-lo. Não vou.
Ele perceberá isso em breve.
Depois que ele vai embora, pego a luva de alguém que estava no banco e
a jogo para o outro lado do vestiário, derrubando as luvas de outra pessoa
da prateleira.
É exatamente por isso que tenho uma válvula de escape para minha raiva.
Hóquei é bom para quando eu só preciso esmagar alguém contra as placas.
Talvez quebrar um osso ou dois.
Mas essa raiva?
Alguém definitivamente vai morrer esta noite.
Quinze
Callum
Stone é uma bandeira vermelha ambulante. Eu deveria ficar longe dele.
Mas acho que concluímos que quase nunca faço o que deveria.
Eu quis dizer o que disse quando contei a ele que não pertenço a ninguém.
Fui libertado de quaisquer laços de propriedade quando meu padrasto
morreu. Mesmo depois que minha tia conseguiu minha custódia, nunca mais
me senti como se fosse possuído.
Eu suponho que seria diferente se eu me entregasse a alguém. Se eu fosse
me entregar a alguém…
Não. Ainda não cheguei nesse ponto.
Eu simplesmente parei de odiá-lo.
Claro, depois da reação dele antes, estou ainda mais confuso sobre o que
exatamente sinto por ele. Aquilo foi... bem, muito tóxico. Mas também não
posso negar que foi meio bom ser desejado tão intensamente. Mesmo
quando meu padrasto era meu dono, ele nunca se importou quando...
Eu empurro esses pensamentos de volta para o buraco escuro onde eu
armazeno todo o resto. É um abismo largo, um abismo profundo, onde todas
essas sombras vivem. É tudo o que eu posso fazer para evitar que elas saiam
e me envolvam até que eu sufoque e morra.
Meus olhos deslizam do meu livro de biologia aberto no meu colo para o
meu travesseiro, onde meu caderno secreto está escondido embaixo dele.
Desde o último fim de semana, o número de esboços dentro de suas páginas
quase dobrou. Como não consegui chegar perto o suficiente para ver a morte
de Stone claramente, tive que usar minha imaginação para muitos detalhes.
Acabou meio exagerado, e há mais de uma dúzia de desenhos feitos de
ângulos diferentes com expressões diferentes.
Na maioria deles, os olhos do estranho estão vazios e inexpressivos,
enquanto os de Stone estão cheios de emoção - alívio, alegria ou repouso.
Mas cada esboço é sangrento.
Quero outra morte para atrair.
E tenho certeza de que sei quando e como ver uma.
Algo me diz que a morte no cais naquela noite não foi a primeira de Stone,
nem foi uma única. Ele ficou furioso depois do nosso jogo naquela noite. Ele
ficou tão furioso depois do treino de hoje, se não mais. O olhar em seus olhos
era familiar.
Posso estar errado, mas se não estiver...
Tomando uma decisão, pego o caderno debaixo do travesseiro e deslizo
para fora. Enfio-o na bolsa, pulo da cama e calço os sapatos. Quando abro a
porta do meu quarto, vejo Jesse e Eric no sofá com livros didáticos e papéis
espalhados na mesa de centro.
— Ei, cara — digo, olhando para Jesse. — Desculpe interromper. Você
acha que eu poderia pegar seu carro emprestado?
— Está tudo bem?
Não o culpo por perguntar. Raramente pergunto algo a ele.
— Sim, claro. Apenas disse a alguém que a encontraria na biblioteca para
estudar. Já está bem tarde, então prefiro poder dirigir de volta em vez de
andar quando terminarmos.
— Ah. Claro, vá em frente. — Ele acena para suas chaves que estão
penduradas no gancho perto da porta.
— Eu poderia ir te buscar quando terminássemos aqui — diz Eric.
— Obrigado, mas não sei até que horas vou chegar. — Tiro as chaves de
Jesse do gancho e as coloco no bolso. A biblioteca do campus fica aberta a
noite toda durante a semana, então é um álibi decente. — Vejo vocês mais
tarde.
Abro a porta da frente e saio. Assim que entro no carro de Jesse, pego meu
telefone e abro minhas mensagens com Stone. As últimas foram de ontem,
enquanto eu estava trabalhando no meu trabalho de biologia que vence na
semana que vem.

Stone: O que você está vestindo?

Eu: Sério? É essa sua pergunta?

Stone: Só estou perguntando para saber o que vou tirar de você quando
chegar aqui.

Quando li isso, lembro-me claramente do meu rosto corando e do meu


pau se contorcendo dentro da calça do pijama.

Stone: 405 Winter Oaks Dr. Apt. 112

Eu: Não vou a lugar nenhum. Tenho um trabalho para escrever.

Stone: Eu também. Parece que nós dois precisamos de uma pausa. ;)


Eu: Não.

E foi o fim disso. Ele nunca me respondeu. Eu não me importei. Eu


realmente precisava trabalhar naquele artigo.
Claro, quando imaginei que ele cuidaria das coisas sozinho depois que eu
me recusei a ir, acabei precisando fazer aquela pausa de qualquer maneira.
Só consegui escrever algumas centenas de palavras do meu artigo depois
disso. Eu deveria ficar em casa e tentar terminar porque sei que não terei
muito tempo neste fim de semana entre os dois jogos que temos.
Em vez disso, insiro o endereço de Stone no GPS de Jesse.
Não é uma viagem longa, e estou entrando no estacionamento do
complexo de apartamentos dele cerca de dez minutos depois. Seu Charger é
fácil de localizar. Estaciono o discreto Nissan de Jesse algumas fileiras atrás,
onde as luzes não o atingem e desligo o motor.
Estou ciente de que posso estar errado. Talvez Stone não vá sair do
apartamento dele hoje à noite. Talvez ele não mate ninguém de novo por um
longo tempo.
Uma coisa da qual tenho quase certeza é que a morte daquela noite não
foi a primeira.
Estava tudo na linguagem corporal dele. A maneira como cada grama de
tensão deixou seu corpo enquanto o espírito daquele homem deixou o dele.
A maneira como ele se transformou em pura tranquilidade naquela doca. Eu
reconheci porque eu senti isso também.
Inclinando o banco do motorista para trás, eu me acomodo. Depois de
apenas alguns minutos, começo a ficar entediado. Não me arrependo de não
ter trazido nenhum trabalho escolar comigo. Está muito escuro de qualquer
maneira. Mas não posso nem usar meu telefone, correndo o risco de a luz
chamar a atenção de Stone.
Conforme cinco minutos de espera se transformam em vinte, eu me torno
cada vez mais consciente de que o que estou fazendo pode ser considerado
perseguição. Ok, definitivamente é perseguição.
Mas, ei, Stone é um assassino. O que estou fazendo não é nada em
comparação.
Quando quarenta minutos se passaram, penso em voltar para casa. Talvez
eu estivesse errado, afinal.
Dois minutos depois, vejo Stone atravessando o estacionamento em
direção ao seu carro.
Eu estava certo.
Nunca segui ninguém antes, então não tenho ideia do que estou fazendo.
Se Stone é algum tipo de assassino em série, então ele sabe o que está fazendo.
Em vez de segui-lo direto para fora do estacionamento, viro para o lado
oposto, mantendo-o à vista no espelho retrovisor. Quando ele vira em outra
rua, volto. Há alguns outros carros na estrada, apesar do horário tardio,
então me certifico de dirigir ao lado deles em vez de logo atrás de Stone.
Minhas mãos começam a suar ao redor do volante enquanto saímos da
cidade. Há um carro entre nós na rodovia, então só posso esperar ter
cobertura suficiente.
Depois de quinze minutos, o carro se foi, e estamos entrando na próxima
cidade. Quando Stone faz uma curva, sou forçado a continuar para evitar
que ele suspeite de alguma coisa. No entanto, mais uma vez, volto atrás.
Mas, a essa altura, eu o perdi.
— Porra.
Passei dez minutos sendo parado por sinais vermelhos e dirigindo por
ruas laterais. Finalmente, avistei seu Charger no estacionamento de um
antigo e decadente complexo de apartamentos. Há lonas cobrindo muitas
das janelas. Lixo enche o estacionamento. A fachada está cheia de tijolos em
ruínas. Eu não ficaria surpreso se o lugar estivesse lotado de invasores.
O carro de Stone está vazio. Estaciono o de Jesse a algumas vagas de
distância e olho ao redor no escuro, pensando no que devo fazer agora.
Uma luz acende através de uma janela no segundo andar.
É muita coincidência.
Mas como diabos eu vou…
Há uma escada de incêndio.
Será que estou louco o suficiente para escalar aquela coisa que parece que
iria desabar se uma borboleta pousasse nela?
Aparentemente.
Porque um minuto depois, isso está gemendo sob meu peso enquanto me
acomodo no patamar do lado de fora da janela. É um dos poucos que ainda
tem vidro, embora esteja nublado de sujeira. Pelo menos consigo ver o
interior. Mais ou menos.
A luz vem de uma velha luminária de teto. Há três lâmpadas, mas apenas
uma funciona, lançando um brilho quase débil ao redor do cômodo. Quase
não há móveis - uma poltrona puída que nem consigo dizer de que cor era
originalmente, e uma mesa de centro lascada cheia de sacos plásticos,
colheres e seringas.
Uma grande comoção chega aos meus ouvidos. Parece uma saraivada de
panelas e frigideiras. Com certeza, um momento depois, uma frigideira suja
sai voando pela sala, seguida por um homem que tropeça na pressa de fugir.
Ele está gritando algo que não consigo entender.
O barulho provavelmente não é incomum em um lugar como este.
Então Stone aparece na esquina.
Uma faca está em sua mão. Pode ser a mesma daquela noite. Ele caminha
em direção ao homem no chão com um sorriso no rosto.
Ele está gostando disso.
Mas eu também.
Eu observo, lábios entreabertos, respirações lentas e superficiais, enquanto
Stone monta na cintura do homem. Ciúmes explodem em meu peito no
mesmo momento em que meu pau acorda.
Um terapeuta teria um dia de campo comigo.
O homem revida, mas não é páreo para a força de Stone. Há uma arma
enfiada na cintura traseira da calça jeans de Stone, mas ele não precisa dela.
Ele corta os braços agitados do homem com sua faca. Sua vítima grita. O som
é cortado quando a lâmina é cravada em seu peito. Seu corpo estremece com
o último resquício de vida restante. Então ele fica imóvel.
Seus olhos estão abertos, arregalados, olhando para o teto. Sangue escorre
do canto dos lábios.
Isto. Isto é o que eu desejava.
Enquanto Stone se senta sobre os calcanhares, respirando fundo, eu pego
minha bolsa sem tirar os olhos dele.
A escada de incêndio se move, e um estalo alto enche o ar.
Eu congelo.
O olhar de Stone se volta para a janela.
Eu me abaixo, e a escada mergulha, inclinando para o lado. Eu agarro o
corrimão. Ele treme na minha mão, então se estabiliza. Prendo a respiração
por mais alguns segundos. Quando exalo, o ar sai como uma rajada antes de
eu sugá-lo de volta, respirando rápido e com dificuldade. Posso sentir meu
coração batendo atrás das costelas e ouvi-lo em meus ouvidos.
Lentamente, levanto minha cabeça.
O homem ainda está no chão, com sangue se acumulando embaixo dele.
Mas Stone não está mais na sala.
Porra, porra Porra.
Eu me movo, rápido e cuidadosamente, de volta para a escada. A escada
de incêndio inteira balança e geme enquanto eu desço.
Meus pés estão em chão firme por dois segundos quando a dor surge em
meu crânio.
Tudo fica escuro antes mesmo de eu atingir o chão.
Dezesseis
Stone
Olho para o corpo inconsciente de Callum caído no chão sujo.
Sangue escorre de sua têmpora onde o acertei com a coronha da arma em
minha mão. Ela fica pesada em meu aperto enquanto algo desagradável se
retorce em meu intestino.
Porra.
Acho que vou para a prisão hoje à noite.
Dezessete
Callum
Minha cabeça está latejando pra caralho. Meus ouvidos estão zumbindo.
Meu cérebro está confuso. Quando tento levantar a cabeça, a dor dispara
pelo meu pescoço e desce pela minha espinha.
Eu gemo.
Meu corpo inteiro está pesado e sobrecarregado.
E amarrado.
Meus ombros estão rígidos, meus braços puxados para trás. Tento movê-
los, levantar minhas mãos, e é quando sinto a corda cravando em meus
pulsos. Quando abro meus olhos, qualquer luz que haja é como uma
explosão de raios de sol queimando minhas córneas. Eu os fecho
rapidamente e gemo novamente.
— Dê-me uma razão, Callum.
Eu conheço essa voz.
Está mais rouca do que o normal, um pouco trêmula, quase destruída.
Cheia de agonia.
Quase tanto quanto o que está percorrendo todo o meu corpo.
É como se eu tivesse levado uma dúzia de discos na cabeça.
Tento abrir os olhos novamente, piscando lentamente. Leva vários
segundos para me ajustar à luz, que na verdade é bem fraca quando não sou
tão sensível a ela.
Conforme minha visão entra em foco, percebo que não tenho ideia de onde
estou. Parece uma sala de estar, mas não é aquela que eu estava espiando
antes de tudo escurecer. A luz vem de uma luminária de chão no canto. Há
um belo sofá azul-marinho, uma TV de tela plana pendurada na parede
oposta e uma arma na mesa de centro vazia. Estou sentado em uma cadeira
de madeira, minhas mãos amarradas atrás das costas e mais corda enrolada
firmemente em volta dos meus tornozelos que estão presos às pernas da
cadeira da frente.
— Me dê uma porra de uma razão para não fazer isso.
A voz de Stone chega até mim um pouco mais clara dessa vez, além da
névoa e da dor. Ela chama minha atenção para a esquerda, onde ele está
encostado no balcão da cozinha, de costas para mim. Seus nós dos dedos
estão brancos onde ele agarra a borda do balcão. Os músculos de suas costas
ondulam sob sua camisa a cada respiração ofegante.
Ele se levanta e pega algo do balcão.
— Eu imploro — ele diz enquanto se vira lentamente, a ponta da faca em
sua mão raspando o laminado. Enquanto ele me encara, vejo seus olhos
vermelhos.
Algo se encaixa.
Olho para baixo e percebo pela primeira vez que há lonas plásticas
espalhadas sobre o piso de vinil ao meu redor.
Pelo sangue.
Engulo em seco, e minha respiração imediatamente muda de fácil e estável
para ofegante e errática. Meus olhos erguem de volta para Stone enquanto
ele dá um passo em minha direção. É instintivo lutar contra as amarras que
me prendem, meu coração batendo descontroladamente implorando para
que eu encontre uma fuga.
Ele ainda não aprendeu?
Não há como escapar de Stone.
Ele continua seu avanço, o plástico amassando sob seus pés até que ele
esteja de pé na minha frente. Meu olhar se move de seus olhos avermelhados
para a lâmina em seu lado e então de volta novamente. Abro minha boca,
mas nenhum som sai. Não consigo falar.
Então ele se move novamente, montando em mim e se sentando em cima
das minhas coxas. Ele levanta a faca, apoiando a parte plana dela no meu
ombro esquerdo.
Eu engulo novamente.
— Foi você que viu algo que não deveria dessa vez. Por favor. Me dê uma
razão.
Abro a boca novamente. Quero dar a ele uma razão. Não quero? Então por
que as palavras estão me faltando?
Suas sobrancelhas franzem tão profundamente que eu quero estender a
mão e alisar o vinco entre elas, mas não posso porque minhas mãos estão
amarradas atrás de mim. Eu observo seu pomo de Adão balançar quando é
sua vez de engolir em seco. Sua mão treme ao redor do cabo da faca. A outra
sobe, passando suavemente os dedos pelo meu cabelo.
Então ele o segura e inclina minha cabeça para trás.
Já me acostumei com as ondas de calma que me invadem enquanto olho
em seus olhos ou o observo matar, mas não estou preparado para isso desta
vez.
Mas agora é um pouco diferente.
Não é que eu esteja feliz com ele me matando. Ele também não parece que
vai gostar, não como ele gostou dos dois que eu testemunhei. Sombras
caíram sobre as florestas em seus olhos, a névoa se tornando nebulosa.
Eu não achava que queria morrer, mas, agora, diante disso, não parece tão
ruim.
Finalmente vai acabar.
Chega de pesadelos.
Não há mais memórias.
Apenas…nada.
— Sinto muito, Callum.
Sua voz treme mais do que antes quando sua lâmina deixa meu ombro e
é pressionada contra minha garganta. Desta vez, não é a borda plana.
Ele faz outra pausa e inspira com dificuldade.
A lâmina afiada da faca desliza pelo meu pescoço. Lentamente.
Há uma dor. Uma ferroada.
Stone pisca e uma lágrima escorre por sua bochecha.
— Espere.
É inteiramente possível que o tempo seja uma construção que meu cérebro
não consegue compreender agora, mas juro que a lâmina deixou minha pele
uma fração de segundo antes de eu dizer a palavra. Não sei se foi a dor ou a
visão da única lágrima de Stone, mas...
— Espere — digo novamente. — Só…olhe na minha bolsa.
Suas sobrancelhas se franzem ainda mais, uma carranca estraga seu lindo
rosto, seu peito treme mais que o meu.
— Por favor, Stone. — Minha voz sai suave, como se eu estivesse tentando
confortá-lo. — Olhe na minha bolsa.
Ele leva quase um minuto para se mover. Ele parece prestes a desmoronar.
Seu corpo treme tão violentamente quanto um terremoto, seus olhos
arregalados, vermelhos e molhados.
Finalmente, ele se levanta de cima de mim e praticamente tropeça até o
sofá, onde cai na ponta do sofá. Ele tem que se dar mais um minuto, como
se quase me assassinar tivesse acabado de exaurir sua alma.
Não sei se isso me deixa ainda mais chateado do que já estou por me sentir
mal por não ter falado antes.
Ele coloca a faca na mesa de centro e pega minha bolsa do chão. Abrindo-
a, ele vasculha o interior e tira a única coisa que está lá dentro - meu caderno
de desenho. Ele o segura e me dá um olhar questionador. Eu concordo.
Virando a capa, ele olha para o primeiro esboço. Há muitas páginas soltas
naquele caderno, a primeira das quais é o primeiro desenho que fiz do meu
padrasto. Já o memorizei. O carvão está muito manchado, com vincos por
todo o lado devido a quantas vezes foi dobrado. Mas a imagem ainda é
reconhecível.
— O que é isso? — Stone resmunga enquanto me olha incrédulo.
— Meu padrasto — respondo facilmente. O resto vem muito mais fácil do
que eu esperava também. — Eu não chamei a polícia imediatamente depois
que o encontrei, como eu disse a eles que fiz. Sentei-me no pé da escada e
desenhei isso.
— Por quê?
— Porque era lindo.
Sua expressão muda como se ele não conseguisse entender as palavras que
saem da minha boca, olhando para mim como se eu tivesse duas cabeças
extras. Isso me faz sorrir.
— Algo aconteceu comigo naquela noite. Ou talvez estivesse em mim o
tempo todo. Não sei. Foi a primeira vez que me senti verdadeiramente... em
paz.
É meu maior segredo, e contar a Stone agora não é tão difícil quanto eu
pensava que seria. É fácil. Ele é o único que já viu partes de mim que eu
mantive escondidas. Agora estou saindo das sombras, deixando-o ver ainda
mais. Não é assustador ou intimidador.
Não quero mais me esconder.
Não dele.
Deixe-o ver.
— Vire a página.
Ele faz isso, folheando vários outros desenhos semelhantes ao primeiro,
sua mão tremendo. Eu sei o momento em que ele chega ao que eu estava
esperando porque sua mão ainda está na página, seu corpo ficando rígido.
Com os olhos ainda baixos, ele diz: — E isto…
— Você. No cais em Massachusetts no último fim de semana.
Ele está prendendo a respiração enquanto seus olhos voam pela página.
Eu queria poder ler sua mente agora mesmo.
— Eu te segui naquela noite também. E… porra, Stone. Você estava tão
lindo pra caralho.
Seu olhar se fixa no meu, e todo o ar sai rápido de seus pulmões. Ele pisca
várias vezes como se estivesse me vendo pela primeira vez. Ele abre a boca,
e eu quase consigo ver as palavras presas em sua garganta. Ele as engole de
volta e tenta novamente. — O que você está dizendo, Callum?
Em vez de responder, eu rebato sua pergunta com outra. — O que há em
matar que você gosta? Porque eu posso dizer que você gosta. Você se deleita
com isso.
Ele respira fundo e, quando solta o ar, seus ombros caem com a liberação
da tensão. Como se ele estivesse prestes a compartilhar seu maior segredo
comigo também.
— O poder. — Sua voz ainda é baixa e grave, mas ele continua. —
Segurando uma vida em minhas mãos, controlando-a. Tirando-a.
Eu sorrio.
Sua carranca se aprofunda. — O quê?
— Acho que você me fez perceber por que nunca tentei fazer isso sozinho.
Acho que não gostaria dessa parte. Para mim, é... a sensação de estar perto
da morte. Não a matança. É a visão, o cheiro. Mas mais do que isso, é como
se eu pudesse sentir uma vida desaparecendo no ar. Uma que não é minha.
Tudo fica quieto. Calmo. Tranquilo.
Não sei se Stone está tendo dificuldade para entender ou se ele
simplesmente não consegue acreditar no que está ouvindo.
Acho que é uma grande coincidência que o garoto obcecado pela morte,
alguém que não consegue matar outra pessoa, se torne um serial killer.
— Eu pensei em tentar recriar esse sentimento eu mesmo — continuo.
Porque ele ou não quer ou não consegue falar. Eu ainda estou preso à
cadeira, mas é insignificante agora. — Mas eu simplesmente não acho que
tenho isso em mim. Quando eu te vi naquela noite no cais... pela primeira
vez em cinco anos, tudo parecia certo. Eu te segui esta noite porque eu queria
sentir isso de novo.
Lentamente, Stone fecha meu caderno, coloca-o no sofá atrás dele e se
levanta. Ele pega sua faca de volta e cruza o espaço entre nós. Se eu deveria
ter medo, então isso é só mais uma coisa que eu não sinto que deveria ter.
Ainda assim, eu o encaro e digo: — Eu nunca te entregaria, Stone.
Sua voz está pelo menos um pouco mais firme quando ele fala. — Eu
acredito em você.
Inclinando-se, ele corta a corda em volta dos meus tornozelos, e elas caem.
Então suas pernas vêm sobre as minhas, e ele está sentado no meu colo
novamente. Ele repousa a faca em sua coxa, entre nós, e ergue a mão,
passando levemente os dedos pela minha têmpora. Eu estremeço, e é quando
sinto um leve puxão contra minha pele, onde presumo que o sangue secou.
Minha cabeça ainda dói.
— Eu sinto muito por ter te machucado. — Ele voltou a tremer, tremendo
a cada respiração. Eu queria poder estender a mão e acalmá-lo, mas ele ainda
não soltou minhas mãos. — Eu nunca quis te machucar, Callum.
— Eu sei. Você não gosta de me ver machucado. Percebi que é por isso
que você olhou para mim daquele jeito há cinco anos. Pensei que era porque
você me achava fraco.
Quando os segredos começam a aparecer, todos eles começam a aparecer.
Stone balança a cabeça. — Eu nunca pensei que você fosse fraco.
E isso é algo que eu precisava ouvir.
— Foi ele? — ele pergunta, suas palavras tensas. — Seu padrasto que fez
isso com você?
Só consigo concordar porque minha garganta fica repentinamente
apertada.
Enquanto ele arrasta os dedos pela lateral do meu rosto, seus olhos
rastreando o movimento, eu o observo cuidadosamente. Em algum
momento entre aquela noite no cais e agora, eu me perguntei sobre a
possibilidade de ter sido ele quem assassinou meu padrasto. Embora faça
sentido no que diz respeito a Stone ser um assassino, o resto não faz. Lewis
tinha inimigos. Muitos deles. Eu não fiquei surpreso que um deles tivesse
decidido matá-lo. Além disso, Stone e eu mal nos conhecíamos naquela
época.
Por que ele mataria por mim?
É um pensamento romântico - é esse o nome certo? - mas não vou me
permitir esperar que seja verdade.
E eu não vou perguntar.
Há um conflito surgindo nos olhos de Stone e, por um segundo, eu me
pergunto novamente.
Mas então ele pergunta: — Foi só isso que ele fez?
Porra. Essas sombras. Elas estão me alcançando. Seus dedos
fantasmagóricos estão se enrolando em volta da minha garganta,
solidificando uma por uma. Apertando. Me arrastando para baixo.
— Callum?
A voz de Stone me puxa para trás o suficiente para que eu perceba que
meu olhar se desviou, saiu de foco. Trago meus olhos de volta para os dele.
Aqueles que eu costumava odiar me ver, aqueles que agora preciso que me
vejam. Aqueles que me salvaram de sombras diferentes, que talvez possam
me salvar dessas também. Aqueles que me trazem uma sensação de calma
quase tanto quanto a morte.
Mesmo que eles estejam mais do que lavados pela chuva agora, um
desastre em uma tempestade, ainda há algo ali que me ajuda a me manter
firme.
Lentamente, balanço a cabeça.
Ele move a mão para longe do meu rosto e para baixo, para o meu ombro,
onde ele fecha o punho, pegando o tecido da minha camisa com seu aperto.
Agarrando-se a mim.
Apesar de minhas mãos estarem amarradas atrás das costas, estou
agarrado a ele também.
— O que ele fez? — Sua voz está instável novamente, quebrada.
— Você provavelmente pode adivinhar.
Se Lewis já não estivesse morto, não tenho dúvidas de que Stone estaria
consertando isso. Há assassinato claramente em todo o seu rosto. A julgar
por isso, ele já sabe.
— Diga-me?
Mais uma vez, a verdade vem à tona, dessa vez só um pouco mais fácil do
que eu esperava. Ainda é difícil pra caralho. Ainda dói pra caralho. Ainda
terei pesadelos e sombras. Ainda parece que as palavras cortam meu
caminho pela garganta como lâminas de barbear.
— Minha mãe morreu quando eu tinha oito anos. Ele começou a me
estuprar quando eu tinha nove.
Um barulho torturado escapa dele. Estou surpreso que não tenha vindo
de mim.
Nunca falei sobre isso. Nunca.
Estou amarrado a uma cadeira com um assassino empoleirado no meu
colo, e nunca me senti mais seguro. Como se ele fosse me pegar se as sombras
me puxassem para muito fundo. Ele vai me arrastar de volta.
Porque eu sou dele.
Agora o barulho de dor é meu.
Não estou pronto para isso.
Eu acho que não.
— Por volta dos meus treze ou quatorze anos, ele começou a me bater.
Acho que... — Meu estômago revira. Revirando violentamente. Tenho que
engolir a saliva que se acumula na minha boca. Falar isso em voz alta pela
primeira vez pode me deixar doente. — Acho que estava velho demais para
ele.
E seus amigos que não têm rosto.
Mas Stone parece estar a dois segundos de pegar sua arma e atirar em
alguma coisa, então deixo isso de fora.
— Juro que nunca mais vou deixar ninguém te machucar — ele diz, com
a voz grave e cheia do que deveria ser uma promessa assustadora.
— Nós jogamos hóquei, Stone. — O canto da minha boca se levanta em
um pequeno sorriso. — Esse não é um juramento que você pode cumprir.
— Tudo bem. — Seu maxilar estala. — Então eu juro fazer qualquer um
que te machucar pagar. — Ele solta minha camisa e pega sua faca de volta.
— Inclusive eu.
Meus olhos se arregalam enquanto o vejo levar a lâmina até o pescoço.
Eu luto contra as cordas que prendem meus pulsos, mas elas não cedem.
— Stone...
A faca desliza pela carne macia na lateral de sua garganta no mesmo lugar
onde ele me cortou, esculpindo uma linha carmesim. Gotas de sangue
vermelho escuro escorrem por sua pele lisa. Ele nem estremece.
Franzo a testa enquanto ele coloca a faca de volta na coxa. — Você não
precisava fazer isso.
— Eu fiz. Mas ainda não é o suficiente. — Seus dedos estão roçando meu
cabelo novamente, um toque gentil que me hipnotiza quase tanto quanto o
sangue escorrendo pela coluna de sua garganta. — Diga-me o que você quer,
Cal. Eu te dou qualquer coisa.
— Qualquer coisa? — ecoo.
Ele se inclina para frente, pressionando sua testa contra a minha, me
forçando a encontrar seu olhar. — Qualquer coisa, bebê.
Bebê?
Por que eu amo tanto isso?
Fico muito consciente da minha respiração enquanto seu aroma
amadeirado enche meus pulmões. Eu provavelmente deveria pedir para ele
desamarrar minhas mãos, mas não acho que seja isso que eu mais queira
agora.
Se é a noite das verdades e dos segredos…
— Eu nunca beijei ninguém antes — admito, as palavras suaves
provocando o espaço entre nossas bocas.
Ele se move para trás apenas o suficiente para quebrar a conexão de nossa
pele e substituí-la por outra. Seu polegar sobe, traçando levemente meu lábio
inferior com uma carícia tão delicada que me dá arrepios na espinha. Seus
olhos se concentram nele.
— Eu quero te beijar tanto.
— Por favor — sussurro sem fôlego.
— Diga-me uma coisa.
Quase gemo, mas me contenho. — O quê?
Ele abaixa a mão, e imediatamente sinto falta do seu toque. Seus olhos
escurecem. — Por que você hesitou?
Minhas sobrancelhas se juntam, me lembrando da dor que ainda martela
na minha cabeça. — O que você quer dizer?
— Eu implorei para você me dar uma razão. — Com isso, eu me lembro
da dor dele também. — Você teve uma, e você hesitou. Por que diabos você
faria isso comigo?
— Eu acho… só por um momento… eu pensei… — Eu tenho que engolir
minha vergonha. — Eu pensei que não seria tão ruim morrer.
Seu rosto muda. Seu corpo treme. Ele está prestes a desmoronar
novamente.
— Mudei de ideia — acrescento rapidamente.
— Bom — ele solta um suspiro aliviado. — Porque você não teria
conseguido o que queria de qualquer forma.
Toda essa confusão que ele está me fazendo sentir só está piorando minha
dor de cabeça.
— Não tem como eu ter matado você, Callum. Nem nos meus piores
pesadelos. Entrei em pânico quando fiz isso. — As pontas dos dedos dele
roçam minha têmpora. — E isso foi desespero.
Os dedos dele se movem para minha garganta. Quando ele os puxa de
volta, há um pouco de sangue em seu dedo indicador. Ele o coloca nos lábios
e o lambe. Meu pau estremece.
— Eu estava tentando te assustar porque eu estava desesperado. Eu
pensei que poderia sangrar uma razão de você. Eu não queria ir para a
prisão, mas eu prefiro ir para a prisão a te matar. Eu deixaria minha mãe e
minha irmã se defenderem sozinhas. Eu desistiria de tudo por você.
Meu peito se enche de algo que não reconheço. Seja lá o que for, me
preenche tão completamente, expandindo-se em cada buraco vazio dentro
de mim, cada fenda, empurrando para baixo aquelas sombras para os poços
mais profundos de seu abismo.
— Stone, por favor.
Eu nem fico envergonhado quando sai como um gemido. Eu quero sentir
os lábios dele nos meus.
Preciso do beijo dele.
Mesmo que seja veneno.
— Além disso — ele diz enquanto traz o polegar de volta ao meu lábio
inferior. Minha respiração sai ofegante sob o suave roçar de pele com pele.
— Teria sido uma tragédia te matar antes que você pudesse ter seu primeiro
beijo.
Quando chega, não é nada como eu imaginava.
Ele coloca o polegar no meu queixo e pressiona os lábios nos meus. O
toque mais leve. É a sensação mais doce, mais quente e mais agonizante. O
contato é elétrico. A pressão dos lábios dele contra os meus faz um gemido
desesperado ficar preso na minha garganta.
Qualquer tensão que havia ficado no meu corpo desaparece. Eu nem
registro mais a dormência nas minhas mãos, nem me importo que elas
estejam amarradas. Que eu não posso alcançá-lo e agarrá-lo, tocá-lo. Cada
pedaço do meu ser, minha alma, existe apenas onde seus lábios se conectam
com os meus.
O mundo parou de girar, e o tempo se lembrará apenas deste beijo.
Não é nem um pouco como imaginei que beijar Stone seria. É macio e
delicado, seus lábios como seda.
Stone me deu mais do que qualquer outra pessoa.
E agora eu quero mais.
Dezoito
Stone
Beijar Callum valeu a espera.
Eu estava morrendo de vontade de provar os lábios dele, e poder provar
pela primeira vez definitivamente valeu a pena a espera.
Minha língua dispara e toma aquele primeiro gosto para mim, apenas uma
varredura lenta e suave ao longo de seus lábios que o faz gemer embaixo de
mim. O sangue percorre para meu pau, mas eu faço o meu melhor para
mantê-lo sob controle. Eu já estraguei o suficiente esta noite.
Fiz promessas que quebrei. Disse a Callum que não aceitaria nada dele
que ele não desse voluntariamente.
Hoje à noite, tirei seu sangue e sua dor.
Pânico e desespero não são desculpas boas o suficiente, mas são tudo o
que tenho. Eu estava com medo de ir para a prisão. Não por causa da parte
da prisão, mas por causa do pensamento de decepcionar minha mãe e minha
irmã.
Mesmo que eu estivesse disposto a fazer isso por Callum, machucá-lo me
fez cair aos pedaços. Eu estava entrando em colapso de dentro para fora,
cedendo. Eu estava me despedaçando nas costuras.
Para ser sincero, ainda corro o risco disso.
Eu chorei pra caramba.
Tenho quase certeza de que não faço isso há seis anos. Desde a noite em
que me sentei no quarto da minha irmã enquanto ela me contava o que
aconteceu com ela e eu ajudei a limpar o sangue do rosto dela. Ela se recusou
a falar com minha mãe ou chamar a polícia ou ir ao hospital. Acho que foi
porque ela queria justiça, e ela confiava em mim acima de tudo para ser
capaz de entregar isso a ela. E eu fiz isso, porra.
Meus lábios continuam se movendo contra os de Callum, sem exigir mais,
contentes com o toque lento, o gosto ocasional de seus lábios com a ponta da
minha língua. Eu trago meus dedos para cima para enredar em seu cabelo
novamente. Quando minha mão roça em sua têmpora, ele estremece contra
minha boca.
— Sinto muito, Callum — digo a ele com meus lábios ainda pressionados
aos dele. Meu peito convulsiona na minha próxima respiração.
Lá vou eu de novo, porra.
— Porra. Eu sinto muito pra caralho. Nunca mais, bebê. Nunca mais,
porra.
Ele inclina a cabeça para trás o suficiente para quebrar a conexão entre
nossas bocas. O olhar em seus olhos não é aquele gelado que eu conhecia.
Em vez disso, há fogo ali. Um calor feroz. Desejo.
— Se você não agarrar meu cabelo com mais força e me der mais da sua
boca, então me solte para que eu possa ir embora.
Pelo menos isso me impede de desmoronar novamente.
Dou-lhe um sorriso, só um pequeno. — Você não vai a lugar nenhum.
Não, a menos que ele queira.
Mas vou garantir que ele não faça isso.
Dou a ele exatamente o que ele quer, apertando meu aperto em seu cabelo
para que seja mais pressão do que dor. Inclino sua cabeça para trás, e então...
Eu o devoro pra caralho.
Este beijo é o oposto de suave e doce. É duro e faminto. Meus dentes
mordem seu lábio inferior apenas o suficiente para fazê-lo ofegar, me dando
a oportunidade que preciso para enfiar minha língua em sua boca. Este gosto
é ainda mais potente, um tiro direto na minha corrente sanguínea até que eu
fique tonto com isso.
Ele definitivamente não vai a lugar nenhum.
Ainda estou em um estado de descrença sobre como essa noite foi.
Quando peguei Callum descendo aquela escada de incêndio, tive certeza de
que passaria a noite em uma cela de prisão. E todas as noites pelo resto da
minha vida.
O fato de Callum ter testemunhado os dois últimos assassinatos que
cometi? Que ele os aproveitou de uma maneira distorcida que é diferente da
minha?
Foda-me.
Eu poderia ter contado a ele uma verdade diferente daquela que escolhi.
Eu poderia ter contado a ele sobre o tipo de pessoas que minhas vítimas são,
a única verdade que Lacey conhece. Que eu gosto de justiça e vingança quase
tanto quanto o resto. Mas quando ele me contou sua verdade, eu soube que
podia confiar nele com a minha. Aquela que eu nunca contei a ninguém. Foi
um peso tirado. Foi muito bom dar a Callum aquele pedaço de mim.
Eu daria tudo de mim a ele.
Ele foi feito pra mim.
Nunca tive tanta certeza disso.
Principalmente quando sinto seu pau endurecendo em seu jeans. O meu
engrossa em resposta, e eu me esfrego nele. Ele se engasga, e eu engulo como
se fosse a água mais fresca e cristalina e eu estivesse morrendo de sede.
— Diga-me o que mais você quer — sussurro, minha voz profunda e séria,
enquanto meus lábios viajam para sua mandíbula e deslizam por sua
garganta. — Eu te dou qualquer coisa.
Quando chego ao corte no pescoço dele, tenho que me segurar para não
entrar em uma crise de novo. Não é tão ruim assim. Nem está sangrando
mais. Eu não queria cortá-lo de jeito nenhum, mas o medo e o desespero
tomaram conta. Eu me odeio por isso.
Lambo ao longo do corte, querendo acalmá-lo. A maior parte do sangue
secou, mas ainda sinto um gosto de cobre na minha língua.
Callum geme e se empurra contra mim.
Eu me afasto, uma sobrancelha arqueada e um sorriso nos lábios. — Você
é realmente uma aberração, não é?
Seu rosto muda.
Levo minha mão que não está mais emaranhada em seu cabelo para o lado
de seu rosto, enganchando meu polegar sob seu queixo e levantando seu
olhar de volta para o meu. — Não faça isso. Você é perfeito pra caralho.
A luz volta aos seus olhos e ele diz: — Quero chupar seu pau.
Gemo e trago minha boca de volta para a dele, desesperado demais para
voltar a ser gentil. Enfio minha língua em sua boca, colidindo com a dele. Ele
me beija de volta com uma quantidade igual de calor e fervor.
— Você não precisa, Callum — sussurro sem fôlego contra seus lábios.
— Eu quero.
Deixo escapar outro gemido enquanto pego a faca e começo a me levantar
para cortar as cordas em volta dos seus pulsos.
— Espere. — Ele olha para mim e engole em seco. — Deixe.
Eu pisco para ele. — O quê?
— Só…só por agora. Por favor.
— Por quê? — pergunto, com a tensão entre as sobrancelhas.
— Eu não sei. — Ele desvia o olhar, mas só por um momento, como se
soubesse que preciso dos olhos dele em mim. Ou talvez ele precise disso. —
Eu acho que me sinto… seguro. Aterrado.
Eu disse a ele que daria tudo o que ele quisesse, então...
— Okay. — Eu largo a faca no plástico que cobre o chão. Minhas mãos
vão até o botão da minha calça jeans. — Só... morda se eu precisar parar. —
Quando ele sorri, eu estreito meus olhos. — Não muito forte, filho da puta.
Eu vou aguentar toda a dor que eu precisar por você, mas eu gosto bastante
do meu pau.
— Eu também gosto disso — ele diz enquanto seu olhar cai quando eu
tiro meu pau. Ele lambe o lábio inferior, e eu olho para o jeito como ele brilha.
De pé entre suas pernas, eu aperto meu comprimento duro. Ele abaixa a
cabeça e lambe a gota de pré-sêmen na ponta. Seu gemido vibra através de
mim, me deixando ofegante.
— Porra. Você vai me matar.
Ele olha para mim novamente, aquele sorriso familiar de parar o coração
em seu rosto. — Vou deixar a matança para você. Só me deixe assistir.
— Puta merda.
Isso me faz sentir tanto quanto seu hálito quente no meu pau.
Colocando minha mão na parte de trás da cabeça dele, eu a empurro de
volta para baixo porque eu preciso estar dentro da boca dele. Mas eu não o
forço; eu o guio. Ele vai de bom grado. Ansiosamente. Ele separa os lábios e
pega a cabeça do meu pau dentro da boca, outro gemido causando calor na
base da minha espinha. Eu rolo meus quadris, implorando para ele tomar
mais. Ele toma, encovando suas bochechas enquanto me envolve com calor
úmido e sucção abençoada.
É a minha vez de gemer, um som baixo e longo subindo pelo ar enquanto
inclino minha cabeça para trás.
Ele se inclina para frente, me levando mais fundo. Ele me chupa,
achatando sua língua contra a parte inferior da minha coroa até que eu sinta
uma pressão em minhas bolas.
— Sua boca é minha nova coisa favorita, Callum. Beijar. Chupar. Eu quero
tudo.
Mas, ainda assim, eu me afasto, observando um fio de saliva grudado em
seus lábios enquanto eu saio. Ele não consegue falar. Suas mãos estão
amarradas atrás das costas. Eu vou me matar se eu machucá-lo de novo.
Exceto que ele está olhando para mim sob as pálpebras encapuzadas,
olhos escurecidos de desejo. — Você não precisa se segurar comigo, Stone.
Meu peito estremece, tanto com o prazer persistente que ele estava me
dando quanto com o esforço que é fazer exatamente o que ele disse.
Segurando.
— Eu posso aceitar o que você tiver para me dar. Eu quero. Eu confio em
você.
Eu vou fazer esse garoto ser meu, porra. Mesmo que seja a última coisa que
eu faça.
— Me morda se for preciso — digo a ele novamente. Sim, vai doer pra
caramba. Mas acho que já estabelecemos que não dou a mínima. — Ou
aperte suas pernas juntas. Eu paro, juro.
Ele acena. — Eu sei.
Pegando sua cabeça entre minhas mãos, eu o agarro pelos cabelos e guio
sua boca de volta para meu pau. Ele se abre como se não pudesse me colocar
de volta dentro dele rápido o suficiente. Ele fecha seus lábios em volta do
meu comprimento, e eu empurro lentamente, aumentando constantemente
o ritmo até que estou usando minhas mãos em seus cabelos e rolando meus
quadris para foder em sua boca. Talvez não tão forte quanto eu faria se ele
tivesse o uso de suas mãos, mas eu não preciso disso quando apenas a
sensação dele está me deixando louco. O calor úmido de sua boca. O
deslizamento suave em sua língua. É tudo perfeito.
Tão perfeito que vou gozar na garganta dele se não parar logo. E não sei
se ele quer isso.
Desacelerando meus impulsos, olho para ele. — Estou tão obcecado pra
caralho por você. Obcecado com a maneira como você fica com sua boca
cheia do meu pau.
Obcecado com a maneira como ele confia em mim.
Obcecado com o jeito que ele olha para mim como se quisesse muito mais.
Eu também quero mais.
— Você quer me foder?
A pergunta surge em mim antes que eu possa impedi-la porquê... porra, eu
quero muito mais.
Ele arregalou os olhos e eu rapidamente me afastei, soltando-o.
Assim que meu pau sai da boca dele, ele resmunga um ofegante, — Sim
— Mas então ele pisca furiosamente como se estivesse voltando a si, lutando
para passar por uma névoa de luxúria que faz nossos peitos arfarem, meu
pau para fora e escorregadio com sua saliva, e o dele parecendo pronto para
explodir para fora do jeans. — Não.
Tento ao máximo manter a carranca longe do rosto, mas sinto que ela puxa
os cantos da minha boca para baixo.
E então seu rosto se desfaz completamente, junto com minha mandíbula,
quando ele encontra meu olhar e diz: — Eu quero que você me foda.
Ele me encara com expectativa enquanto eu fico tentando processar essas
palavras. Meu pau adora a ideia, a julgar pela forma como ele pulsa. Se fosse
o responsável pela minha boca, eu estaria dizendo: — Porra, sim.
Em vez disso, engulo em seco e pergunto: — Tem certeza?
Eu devo ter estado tão em minha cabeça, tentando formar palavras
coerentes, que perdi a maneira como sua respiração mudou, ainda dura, mas
um pouco mais errática. Seu queixo treme.
— Apague-o. — É um apelo sussurrado. — Por favor, Stone. Apague-o,
porra. Apague tudo... — Algo o faz engasgar e começar de novo. — Apague
tudo.
Eu deveria ter matado Lewis Gibson mais devagar. Eu deveria ter drogado
ele. Torturado ele. Cuidadosamente esculpido suas entranhas para que ele
pudesse assistir enquanto ele lentamente e dolorosamente sangrava.
Se eu pudesse, eu o traria de volta dos mortos para fazer exatamente isso.
Talvez eu devesse ter contado a Callum a verdade sobre quem matou seu
padrasto. Eu contarei. Logo. Já houve revelações suficientes esta noite.
Se eu tivesse contado a ele sobre o tipo de pessoa que eu mato, ele teria
conseguido adivinhar?
Sabendo a verdade, duvido que ele vá me odiar por isso. Mas ainda há
uma voz irritante no fundo da minha cabeça que diz que ele pode odiar. Que
diz que se eu contar a ele agora, eu quebraria os óculos cor-de-rosa pelos
quais ele realmente me vê, e ele perceberia que acabou de trocar um monstro
por outro.
Enfiando meu pau de volta na cueca por enquanto, eu me abaixo e pego
minha faca. É a minha favorita - aquela com todos os entalhes que eu cortei
no cabo de jacarandá. No meu caminho para dar uma volta em Callum, eu
paro o tempo suficiente para me inclinar e dar um beijo suave em seus lábios.
Quando consigo cortar as cordas em volta dos seus pulsos, fico congelado,
deixando-as cair.
— Porra, Callum. — Meus olhos seguem seus pulsos enquanto ele move
as mãos. Eu me movo com elas até ficar de pé na frente dele novamente.
Tento não fazer isso, mas não consigo me impedir de encará-lo. — Por que
você não me disse que elas estavam tão apertadas?
Provavelmente estou exagerando. Os pulsos dele nem estão de um
vermelho raivoso, só um pouco irritados e rosados.
Callum se levanta e coloca uma mão contra o lado do meu rosto,
acariciando seu polegar contra minha bochecha como se estivesse tentando
suavizar minha carranca. Infelizmente, tudo o que ele faz é colocar seu pulso
mais perto da minha linha de visão.
— Calma, assassino. Nem dói.
Quase deixei passar com o apelido carinhoso e preciso. Em vez disso,
agarrei-o logo abaixo do pulso, afastando sua mão do meu rosto para segurá-
la entre nós. — Você sabe o que eu estaria fazendo com a pessoa que fez isso
com você se não fosse eu?
Ele sorri. — Eu posso imaginar.
— Seria dez vezes mais sangrento do que tudo o que você viu até agora.
Ele estremece. Mas então ele diz: — É melhor você não ser uma vadiazinha
na cama também.
Rosno pra caralho. Porque eu definitivamente não sou uma vadiazinha na
cama, mas…
— Eu não acho que posso ser rude com você hoje à noite. — Eu abaixo o
braço dele e fecho a distância entre nós, puxando-o para mais perto com uma
mão na parte inferior das costas. Ele ainda está duro. Eu posso senti-lo.
Roçando meus lábios contra os dele, sussurro — Eu quero te adorar, bebê.
Seu peito estremece contra o meu em sua próxima respiração. — Então
continue com isso.
Ainda segurando seu braço, dou um passo para trás e o puxo comigo.
Agora é minha vez de sorrir. — Você gostaria de um passeio primeiro?
— Tudo que preciso ver é seu quarto.
Eu o puxo, e ele cai de volta em mim. Minha boca está na dele enquanto
eu o giro e o afasto passo a passo em direção ao único quarto do
apartamento. Estamos tirando os sapatos, e minhas mãos voam para o botão
de sua calça jeans enquanto minha língua encontra a dele.
Acho que nunca vou me cansar de beijá-lo.
Quando tiro sua calça e seu pau em minha mão, mordo suavemente seu
lábio inferior, puxando-o para dentro da minha boca enquanto o acaricio.
— Oh, merda — ele geme, empurrando minha mão.
Eu o acaricio mais algumas vezes até que ele fique ofegante. Ele geme
quando eu o solto. Nossas bocas se separam o suficiente para eu tirar sua
camisa e depois a minha antes de estar nele novamente. Enquanto nossos
dentes e línguas se chocam, eu passo minhas mãos por seu abdômen, pele
quente contra pele quente.
Fico um pouco surpreso que ele não tenha se esquivado do meu toque
sempre que ele chegou perto de suas cicatrizes.
Ele confia em mim.
Quando chego aos seus mamilos, dou-lhes uma leve beliscada, rolando-os
entre meus polegares e dedos. Capto cada um dos ruídos que ele faz
enquanto esfrega contra mim.
Enquanto ele está ocupado espalhando pré-gozo na minha pele e boxer,
eu o empurro mais para dentro do quarto até que suas pernas atinjam o pé
da cama. Com minhas mãos ainda em seus peitorais, eu o empurro para
baixo no colchão.
Depois que eu tiro nós dois de nossos jeans e cuecas, eu rastejo para a cama
entre suas pernas. Ele está tremendo um pouco, seu peito subindo e
descendo em um ritmo constante como se ele estivesse forçando cada
respiração.
— Ei. — Eu pairo sobre ele, nossos paus se encaixando um contra o outro.
Segurando-me com uma mão, coloco a outra contra o lado do pescoço dele
como ele fez comigo antes. — Não precisamos fazer isso se você estiver com
medo.
Ele me encara, e é quase uma reminiscência de como ele costumava olhar
para mim, o que agora eu só acho meio adorável. — Eu não estou com medo
de porra nenhuma. — O olhar desaparece, e ele engole em seco. — Eu só
estou nervoso. Mas eu quero isso, Stone. Eu quero você.
— Eu te darei tudo o que você quiser — eu digo a ele novamente. Porque
eu darei. E eu direi a ele um milhão e uma vezes. — Só lembre-se que você
pode me dizer para parar. Eu sempre pararei por você.
Um pequeno sorriso trêmulo enfeita seus lábios enquanto ele concorda. —
Eu sei.
— Bom. — Eu o beijo antes de arrastar minha boca até seu maxilar, sua
garganta, seu peito. — Eu estava morrendo de vontade de provar mais de
você. Vou fazer você se sentir tão bem, bebê. A única coisa que seu corpo vai
lembrar sou eu.
Ele solta um suspiro suave e feliz, como se não quisesse mais nada.
Antes que eu possa ir muito longe, inclino-me e abro a pequena gaveta do
meu criado-mudo, pegando lubrificante e uma camisinha.
— Hum. — Callum olha para a camisinha, então olha para mim. — Temos
que usar isso? Eu só... eu quero sentir você. Só você.
Porra, eu quero isso também. Mais do que nunca.
— Estou tomando PrEP. E meu teste deu negativo desde a última vez que
estive com alguém — digo a ele. Porque não vou deixá-lo ter dúvidas.
— Eu também sou negativo. — Ele se contorce um pouco. — Eu
nunca…eu não…não desde…
Jogando a camisinha de volta na gaveta, eu me movo para cima dele
novamente. — Você não precisa me explicar nada. Você não precisa me dizer
nada que não queira. E você nunca precisa se sentir envergonhado perto de
mim. Eu entendo pelo menos um pouco mais do que você imagina.
Talvez não por experiência própria. Mas observei minha irmã de perto por
anos após seu ataque. Ela praticamente pulou a negação e foi direto para a
raiva. Por muito tempo, ela se fechou para sentir qualquer coisa além disso.
Eu já estava me sentindo protetor em relação à minha família depois que
perdemos nosso pai, mas isso me deixou no limite. Eu estava lá para ela
quando ela finalmente teve seu colapso. Ou superação. Acho que foram os
dois.
Passei dias e semanas pesquisando sobre sobreviventes de abuso sexual
depois disso. Essa é provavelmente a única razão pela qual não estou
entrando em pânico sob a pressão de estar na cama com Callum agora.
Ele olha para mim como se talvez quisesse fazer perguntas, mas em vez
disso ele diz: — Ok.
— Ok — repito. — Agora deixe-me cuidar de você. Vou garantir que você
sinta tudo de mim.
Novamente, beijo seus lábios antes de deixar minha boca viajar para baixo
mais uma vez. Lambo seu ponto de pulso, sentindo-o vibrar sob minha
língua. Paro para beijar e lamber cada um de seus mamilos, então estou
beijando meu caminho para baixo em seu estômago. Ele me deixa deslizar
meus lábios sobre suas cicatrizes sem vacilar ou congelar. As linhas longas e
rosadas. A redonda que tenho ainda mais certeza de que era de um charuto
agora que a vejo de perto. Quando chego em seu pau, passo minha língua
por todo o comprimento dele antes de levá-lo em minha boca. Seu gemido
baixo e profundo enche meus ouvidos enquanto o chupo.
Enquanto ele está distraído com minha boca, coloco minhas mãos contra
suas coxas, abrindo mais suas pernas. Dou uma última lambida em sua
fenda antes que minha boca se mova para baixo novamente. Dou uma
atenção gentil às suas bolas enquanto agarro suas nádegas em cada mão,
abrindo-as em seguida. Então minha língua está lá, passando por seu buraco.
— Porra! — Callum grita enquanto se masturba contra minha boca.
Levanto a cabeça para vê-lo me encarando, olhos arregalados, lábios
entreabertos, ofegante. Como se não pudesse acreditar no que acabei de
fazer.
Mas então ele sussurra sem fôlego: — Faça isso de novo.
Ou talvez ele não consiga acreditar que foi tão bom.
Sorrio e obedeço, voltando para seu buraco e passando minha língua ao
redor de sua borda.
Na próxima vez que olho para ele, seus dedos estão brancos onde ele
agarra os lençóis, seus olhos estão fechados, seu pau está vazando onde ele
repousa sobre seu abdômen, e ele está murmurando palavrões entre todos
os outros pequenos ruídos que ele faz.
— Porra. Porra. Oh meu Deus do céu.
— Ainda não — murmuro, certificando-me de que minha voz profunda
ressoe através dele. — Mas logo vou estar.
Então enfio minha língua dentro dele, e ele grita.
Felizmente, tenho experiência em diferenciar gritos de dor de gritos de
prazer. O de Callum é, sem dúvida, o último.
Então eu não paro.
Eu passo minha língua um pouco mais fundo, então adiciono um dedo,
empurrando junto com ele. Ele solta outro som profundo, mas não é um que
esteja me dizendo para parar.
Depois que ele se abre para minha língua e meu dedo, eu me afasto e me
sento para pegar o frasco de lubrificante.
Ele abre os olhos, pisca e franze a testa para mim. — Por que você parou?
Não consigo deixar de rir porque ele fica adorável quando faz beicinho.
— Você quer meu pau, certo?
Ele acena. — Sim, por favor.
Despejando lubrificante na minha mão, eu esfrego meus dois dedos e meu
pau. Trazendo meus dedos de volta para seu buraco, eu lentamente trabalho
dois dessa vez, mantendo meus olhos em Callum o tempo todo. Seu olhar
permanece preso no meu enquanto ele inala um suspiro silencioso e seu
corpo trava.
— Relaxe. — me inclino sobre ele e dou um beijo leve como uma pena em
seu maxilar. — Você sabe que eu vou cuidar de você.
— Vai se foder. Estou bem.
Quase rio de novo.
Só que seu corpo ainda está rígido e seus olhos estão bem fechados.
Eu traço seu maxilar com a ponta da minha língua enquanto continuo a
esticá-lo com dois dedos. Ele é tão apertado pra caralho, a sensação dele faz
meu pau pulsar contra o dele. Mas ele também precisa relaxar para que eu
não o machuque.
— Quanto você viu hoje à noite? — sussurro contra a concha de sua
orelha. — Minha faca alojada em seu peito? O sangue no chão? A maneira
como seus olhos se tornaram nada mais do que vazios enquanto olhavam
abertos e sem vida para o teto?
E assim, toda a tensão nele se dissipa, e eu adiciono um terceiro dedo.
O gemido que sai dele é puro êxtase. Seus olhos se abrem e eu vejo isso ali
também. O prazer, a tranquilidade de que ele estava falando. É como se ele
tivesse bebido disso.
— Você mataria por mim de novo? — ele pergunta, a pergunta cheia de
desejo e saudade.
Não gosto da ideia de trazê-lo comigo. É sempre perigoso. E se minha
vítima o machucar? E se formos pegos? Mas eu poderia tomar todas as
precauções do mundo por ele porque... porra, ele precisa. Eu vejo como isso
o afeta. Lembro-me de como ele dormia profundamente em nosso quarto de
hotel naquela manhã, depois da noite no cais.
— Eu disse que te daria qualquer coisa — eu respondo. — Eu falei sério.
Tirando meus dedos, despejo um pouco mais de lubrificante sobre meu
pau e seu buraco. Ele ainda está relaxado, olhando para mim com os olhos
um pouco vidrados, nadando com as memórias que plantei em sua mente.
Ele é tão lindo.
Meu, meu, meu.
Penso, mas ainda não consigo dizer.
Ainda não.
Alinhando a cabeça do meu pau com seu buraco, eu gentilmente avanço.
A respiração de Callum acelera, e eu envolvo minha mão livre em volta de
seu pau, acariciando para mantê-lo duro. Ele geme e levanta seus quadris, e
minha coroa desliza por sua borda. Sua boca se abre com um grito silencioso,
e suas mãos erguem para a parte de trás da minha cabeça para me forçar a
descer até ele, onde o grito é liberado de seus lábios para os meus.
Dou a ele mais alguns centímetros antes de me afastar lentamente,
deixando-o se ajustar. Mas então suas pernas sobem para envolver a parte
de trás das minhas coxas, e ele está me arrastando para dentro. Vou o mais
firmemente que posso com o peso de suas pernas pressionando
desesperadamente contra mim.
— Porra — ele choraminga. — Porra, Stone.
Meu nome em seus lábios me desfaz, e eu me enterro fundo em sua bunda.
Seus dedos estão firmemente emaranhados em meu cabelo, e sua boca
viajou até meu maxilar, aberta e soluçando com ruídos quebrados e
eufóricos. Seus dentes raspam minha pele enquanto suas unhas cravam em
meu couro cabeludo. Aguento cada pequena mordida de dor porque nada
disso poderia se comparar ao êxtase avassalador de estar dentro dele.
— Diga-me como você se sente, Callum — digo enquanto me afasto antes
de empurrar de volta com a mesma lentidão.
Outro gemido. — Eu pensei que doeria, mas não doeu. Eu estava
esperando pela dor, mas ela não existe. Não realmente. É só pressão, mas...
— Ele fala entre cada respiração superficial. Outra estocada, outro gemido.
— Porra, tão cheio. É uma sensação boa. — Ele puxa meu cabelo até que eu
esteja olhando em seus olhos. — Você se sente bem.
— Você também é tão bom pra caralho, bebê. Eu sabia que você seria. Eu
sabia que você seria perfeito pra caralho.
Ele traz minha boca de volta para a dele, enfiando sua língua para dentro
enquanto suas mãos deslizam para minhas costas e suas pernas apertam
minha cintura. Suas unhas cravam, e eu não consigo parar o rosnado que
arranha o caminho até minha garganta enquanto eu pego o ritmo, fodendo
ele em um ritmo que está apenas passando do ponto de segurar. Se eu for
longe demais, cedo demais, eu posso quebrá-lo. E eu não quero isso.
Arruiná-lo, sim.
Faze-lo meu, sim.
Quebra-lo, não.
Não sei se há diferença entre ser obcecado e ser viciado. Mas não importa
porque sou ambos.
Minha mão ainda está em volta do pau dele entre nós, ainda escorregadia
de lubrificante. Eu o acaricio no ritmo das minhas estocadas, capturando
cada barulho da boca dele com a minha até que ele tenha que se afastar para
respirar.
— Eu vou gozar — digo a ele enquanto o acaricio um pouco mais forte, o
fodo um pouco mais rápido. — Vou te encher.
Reivindicar você.
Marcar você.
— Porra. — Ele joga a cabeça para trás, e seu pau lateja na minha mão. —
Vou gozar também.
E ele faz isso, cerca de dois segundos antes de mim.
Sua liberação jorra entre nossos corpos, nos cobrindo com esperma
pegajoso e quente enquanto o meu é bombeado profundamente dentro dele.
Suas pernas caem da minha cintura, e eu tenho que me segurar para não
cair em cima dele. Suas pálpebras tremulam, como se estivessem pesadas,
mas ele está se esforçando para mantê-las abertas. Depois de um momento,
ele falha e as deixa fechar. Há um sorriso preguiçoso em seu rosto, e eu não
consigo me impedir de beijá-lo.
Lentamente, ele força os olhos a se abrirem. Seu sorriso fica um pouco
trêmulo enquanto suas palavras saem como pouco mais que um sussurro.
— Não pensei que seria tão bom.
Meu coração quase se despedaça por ele.
Eu o beijo novamente. — Eu sempre farei você se sentir bem, bebê. Sempre.
Ele suspira e fecha os olhos novamente.
Quando me sento e meu pau mole desliza para fora dele, ele faz um
pequeno barulho, mas não se mexe. Eu rastejo para trás para fora da cama,
tentando não me distrair com a visão de uma gota do meu esperma
escapando dele, e pego minha camisa do chão. Eu provavelmente deveria ir
ao banheiro e trazer de volta uma toalha molhada, mas não há nenhuma
maneira no inferno de deixá-lo sozinho agora.
Depois de limpar nós dois o melhor que posso com minha camisa, deito-
me ao lado dele, puxando as cobertas sobre nós dois. Sem nem mesmo abrir
os olhos, ele se enrola contra o meu lado, jogando um braço sobre minha
cintura. Puxando-o ainda mais para perto, eu o seguro firme.
Se ele precisar de conforto, eu o acalmarei.
Se ele estiver morrendo de fome, eu o alimentarei.
Se ele quer prazer, eu o saciarei.
Se ele precisar morrer, eu matarei por ele.
Dezoito
Callum
Não há pesadelos. É apenas uma escuridão pacífica e quente da qual
acordo, saudado por outra falta de luz na consciência.
Há apenas um brilho fraco vindo do corredor, mas nenhum vindo da
única janela do quarto de Stone. Pode ser por causa das cortinas blackout ou
porque ainda não é de manhã. Considerando que estou no apartamento de
Stone em vez do meu, espero que seja o último.
E então me ocorre.
Estou no apartamento do Stone. Deixei que ele me fodesse. Caramba, eu
quase implorei para ele fazer isso.
Eu espero por isso. Pelo pânico. Pelo surto. Pela resposta de luta ou fuga
entrar em ação.
Não vem.
Minha bunda está dolorida, mas é uma dor boa.
O peito de Stone sobe e desce firmemente sob minha cabeça, onde
repousa. O calor de nossos corpos construiu para nós um casulo quente sob
os lençóis azul-escuros. Não quero nada mais do que ficar parado, mas
realmente preciso mijar.
Movendo-me com cuidado para não acordá-lo, deslizo para fora da cama.
É fácil encontrar o banheiro em seu apartamento de um quarto. Depois de
cuidar dos negócios, volto para seu quarto para vê-lo se mexendo. Quando
seus olhos abrem, eles estão em mim.
— Você está bem? — A preocupação permeia sua voz enquanto ele se
levanta sobre os cotovelos.
Revirando os olhos, subo de volta na cama ao lado dele. — Estou bem.
Você realmente precisa parar de fazer isso.
— Fazer o quê?
— Preocupar-se comigo. Não sou tão frágil quanto você pode pensar.
— Sinto muito — ele diz com um suspiro. — Não acho que você seja frágil.
E não quero te tratar assim. É só um hábito, eu acho. Sou meio que…
Sentando-me ao lado dele, apoio a cabeça na mão. — Protetor?
Ele rola para me encarar, e um rosnado baixo ressoa em seu peito. —
Muito.
Sorrio enquanto olho para o rosto dele que está quase todo coberto de
sombras. — Você sabe que vai ter que manter isso sob controle no gelo,
certo? Eu sou muito bom em evitar as placas e os tacos dos outros caras, mas
nós só jogamos duas partidas. Temos uma temporada inteira pela frente, e
nenhum de nós vai sair ileso patinando.
— É melhor você aprender a patinar ainda mais rápido do que já faz.
Rio, mas não acho que ele esteja brincando. — Sério, Stone. Não podemos
nos dar ao luxo de você passar a temporada inteira na aérea de penalidade
ou no banco. Ou, você sabe, na cadeia.
— Não farei nenhuma promessa.
Abrindo a boca para discutir mais, fui interrompido antes que pudesse
dizer uma palavra.
— Preciso te fazer uma pergunta.
Meu corpo fica tenso, mas só por um breve momento, antes de eu lembrar
que estou seguro.
— Aquele dia no vestiário, algumas semanas atrás, quando você me disse
para parar…
Ele para de falar, então aceno para que ele saiba que me lembro.
— Sua mente estava… lá atrás? Só pergunto por que sinto que você
deveria saber que isso é normal.
Minha boca está seca de repente. — Normal?
— Não me entenda mal. Muito pouco em você é normal.
Dou uma risada baixa. Não posso exatamente argumentar contra isso.
— Há algumas sobreviventes de abuso sexual que se sentem culpadas,
como se fosse culpa delas. — Seu rosto endurece quando ele acrescenta — O
que é a coisa mais falsa do mundo, a propósito. Mas é normal que elas
pensem isso. Quando acham que mereceram, tendem a não estabelecer
limites para si mesmas e acabam em situações que podem ser semelhantes
porque acham que ainda merecem. Você não precisa responder à minha
pergunta, se foi isso que aconteceu. Só preciso que você saiba que não foi
isso que aconteceu comigo. Eu estraguei tudo naquele dia, mas nunca mais
vou machucá-lo.
Eu pego a mão dele que está deitada nos lençóis entre nós e entrelaço
nossos dedos. Eu posso dizer que isso está comendo-o, e eu não quero isso.
Talvez ele esteja certo em algum nível, mas racionalmente, eu sei que ele não
estava se forçando em mim.
— Você tem que parar de se culpar por qualquer coisinha.
— Não é qualquer coisinha. — Há uma determinação dura em sua voz e
na maneira como ele aperta minha mão. — Sempre haverá um limite entre
nós, não importa quantas vezes transamos. Esse limite é sua palavra segura.
Eu sempre o respeitarei, Callum. Só preciso ter certeza de que você saiba que
sua confiança em mim quando se trata disso não é equivocada.
Então, não apenas o garoto obcecado pela morte se tornou um serial killer,
mas o mesmo garoto que carrega traumas se tornou um rei do
consentimento.
Assassinato é bom, estupro é ruim.
— Você é perfeito — eu sussurro.
Ele levanta nossas duas mãos e pressiona seus lábios contra as costas dos
meus. — Você também.
— Minha vez de fazer uma pergunta que você também não precisa
responder. Como você sabe de tudo isso?
Mais cedo, eu percebi o que ele disse sobre entender mais do que eu
poderia pensar. Eu não questionei na época, mas depois de tudo isso, não
consigo deixar de ficar curioso.
Ele hesita, então respira fundo enquanto traz minha mão para segurá-la
contra seu peito. — Alguém próximo a mim foi atacado. Foi ruim. Eu queria
saber tudo que pudesse para poder estar presente por esse alguém. Então eu
não iria estragar tudo, dizer ou fazer a coisa errada. Claro, eu ainda fiz isso
muitas vezes. — Ele zomba como se estivesse se lembrando de uma dessas
vezes. — Mas eu pesquisei o máximo que pude. Eu provavelmente não
poderia ser terapeuta de ninguém, mas eu sei pelo menos a maior parte do
que preciso.
— E essa obsessão com a morte que eu tenho? Algo sobre isso na sua
pesquisa?
— Isso te incomoda?
— Não — eu respondo honestamente. — Mas o fato de não me incomodar
um pouco.
Ele acena como se entendesse. Provavelmente entende.
— Aqueles pensamentos que eu tive sobre tentar recriar esse sentimento
eu mesmo às vezes também. É por isso que eu tive aquele ataque de pânico
naquele dia em nosso laboratório.
Um olhar de realização cruza seu rosto junto com um sorriso fraco. —
Bem, não. Nada sobre isso, infelizmente. Acho que você é só uma aberração.
Mas está tudo bem porque eu sou meio obcecado por você.
Inclinando-se mais perto, ele traz sua boca para a minha. É outro beijo
suave como o nosso primeiro, uma pressão suave, um movimento de lábios.
Sou eu quem o aprofunda, separando seus lábios com minha língua,
buscando entrada. Ele concede, e nossas línguas se encontram em uma
dança sensual que tem calor inundando minha barriga.
Eu recuo. Não tem como eu sobreviver a mais uma rodada agora.
— Porra, eu adoro beijar — murmuro.
Porque agora que tive meu primeiro, uma parte de mim não quer mais
parar.
— É melhor você terminar essa frase com você. — Suas palavras saem em
um grunhido que tenta reacender aquele calor.
— Não sei. — Dou de ombros. — Talvez eu precise ver se eu gostaria
tanto quanto com outras pessoas.
Aquele grunhido se transforma literalmente em um rosnado de merda
enquanto ele me empurra de costas na cama e monta na minha cintura.
Então sua mão envolve minha garganta.
Não é apertar. É… possessivo.
Fico tão surpreso que solto um suspiro.
— Porra. — Stone puxa a mão de volta tão rápido quanto a colocou em
mim.
Não sei se é porque ele está preocupado em me machucar, o que não
deveria. Tenho quase certeza de que não me machucar está enraizado em sua
memória muscular neste momento. No entanto, se é isso, isso me irrita um
pouco. Eu posso lidar com seus impulsos protetores, mas não quero que ele
se contenha, mesmo que eu não tenha certeza do quanto ainda.
Mas talvez seja a outra coisa. A coisa sobre eu não deixá-lo me chamar de
dele. Porque era assim que me sentia sem ele usar palavras.
Seu lindo rosto está marcado por outra carranca, e odeio o conflito em seus
olhos.
Pego sua mão, seguro-a e a coloco de volta em volta do meu pescoço.
Isso parece adicionar mais conflito, mas a tensão em seu corpo diminui.
— Eu não sou feito de vidro, Stone. — De um jeito ou de outro, eu vou
convencê-lo. — Eu não vou quebrar.
Ele se inclina para frente levemente, mantendo a mão onde está. — Quão
rude você quer que eu seja com você?
— Ainda não sei. — Engulo em seco, sentindo sua palma contra meu
pomo de Adão. — Mas eu gosto disso.
Um sorriso curva seus lábios, me fazendo querer beijá-los novamente. —
Eu posso dizer.
Ele rola os quadris em cima de mim, esfregando seu pau nu contra o meu
que está engrossando com o fluxo de sangue. Minha mão ainda está em cima
da dele, e eu a aperto gentilmente, gemendo enquanto a pressão aumenta
um pouco em volta da minha garganta.
— Eu disse que não sou frágil.
— Eu sei que não é. — Ele pressiona seus lábios contra os meus em um
beijo rápido. — Você lidou muito bem com ser enfiado no porta-malas do
meu carro.
Eu tiro a mão dele do meu pescoço e olho para ele. — Você não fez isso.
Ele ri. — Eu fiz.
Ainda bem que acordei no meio da noite porque Stone teve que nos levar
de volta para fora da cidade para que eu pudesse pegar o carro de Jesse. Ele
tirou as chaves do meu bolso e estacionou algumas ruas adiante, só por
precaução.
E então aparentemente me enfiou no maldito porta-malas dele.
Ele tem sorte que eu entenda seu raciocínio.
Depois que tomamos banho juntos - o melhor banho da minha vida - ele
colocou um pouco de maquiagem no corte no meu pescoço. Ele também
aparentemente tem experiência em cobrir ferimentos suspeitos.
Quando dirijo para casa, estou entrando no meu apartamento logo depois
das seis da manhã. Paro na porta aberta quando vejo Jesse parado atrás do
balcão da cozinha com uma caneca de café nas mãos. Ele deve ter acabado
de acordar porque seu cabelo está desgrenhado e ele está vestindo apenas
calça de pijama.
— Seu filho da puta.
— Desculpe. — Penduro as chaves dele no gancho e fecho a porta. — Não
era minha intenção ficar fora a noite toda com seu carro.
— Não estou preocupado com a porra do carro, cara. — Ele coloca a
caneca no chão e entra na sala de estar, parando na minha frente com uma
ruga entre as sobrancelhas. — Acordei e surtei quando você não estava aqui.
Tentei ligar, mas você não atendeu. Você está bem?
Estou quase enlouquecendo com todo mundo se preocupando comigo.
Mas, porra... Eu me sinto mal por fazer Jesse se preocupar em primeiro lugar.
— Estou bem. Meu telefone descarregou.
— Você quer me dizer por que você ficou fora a noite toda?
Acho que se eu quiser compensá-lo, eu poderia contar a verdade. Ou, pelo
menos, uma versão dela.
— Eu, hum… eu meio que tive um encontro.
Seus olhos se arregalam comicamente antes de um sorriso se estender por
metade de seu rosto. — Você? Um encontro?
Dou de ombros, mas seu sorriso é contagiante.
Ele atravessa a sala e agarra meu braço para me puxar para o sofá, fazendo
com que nós dois nos sentemos como se ele estivesse esperando ouvir todas
as fofocas com as quais sonhou por tanto tempo. — Por favor, me diga que
era seu companheiro de time dos sonhos daquela festa.
Não sei se Stone gostaria que eu contasse a alguém ou se ele está mesmo
assumido. Mas eu poderia usar alguém para falar sobre isso comigo.
Definitivamente não estou tendo nenhum tipo de crise sobre isso, o que ele
provavelmente ficaria orgulhoso de mim. E se eu fosse falar com alguém,
seria Jesse.
— Posso dizer que era um cara.
Seu sorriso se alarga, e ele está praticamente pulando na almofada do
assento. — Então o que é isso? Um despertar gay? Bi? Pan?
Considero isso, mas nenhuma delas parece certa. Stone pode não ser a
primeira pessoa por quem senti pelo menos uma aparência de atração, mas...
não sei.
É possível ser Stonessexual?
— Tenho que colocar um rótulo nisso?
— Você não precisa fazer nada que não queira fazer.
De repente me ocorre porque Jesse é meu melhor amigo. Já falamos sobre
tudo isso antes, e ele expressou suas teorias. Mas ele nunca me pressionou.
— Você poderia usar apenas queer — ele continua. — Ou nenhum rótulo.
A escolha é completamente sua.
Mais uma vez, eu contemplo isso. Esse parece certo.
— Claro. Se isso te fizer feliz, vamos com queer.
— Não é sobre mim — ele diz, falando com um pouco mais de gravidade.
— Mas estou feliz por você, Cal.
É um pouco estranho poder dizer que também estou feliz.
— Obrigado, cara.
Aquele brilho travesso retorna aos seus olhos, e ele balança as
sobrancelhas. — Quer compartilhar mais alguma coisa comigo?
Rindo, eu o empurro no ombro. — Absolutamente não.
— Tudo bem, tudo bem. — Ele ri também enquanto se levanta, voltando
para pegar seu café. — Você não tem jogo hoje à noite?
— Sim. Eu deveria me preparar para o treino da manhã.
Eu gemo enquanto saio do sofá, sentindo um pouco de dor em todos os
lugares. Não sei se é por ter sido fodido ou por ter sido enfiado em um porta-
malas ontem à noite.
Pelo menos isso deve tornar o jogo desta noite interessante.
Vinte
Stone
Nós vencemos os dois jogos no fim de semana depois que Callum e eu
compartilhamos nossos segredos um com o outro. Compartilhamos muito
mais do que isso, mas acho que foram os segredos que nos fizeram jogar
melhor do que nunca.
E no último fim de semana, vencemos mais dois.
O ânimo do time está alto, mas duvido que seja tão alto quanto o meu e o
de Callum.
Ele ficou comigo algumas noites nas últimas semanas, quando um de nós
não estava completamente afogado em trabalhos de curso. Essas são minhas
noites favoritas. Quando ele está aconchegado na minha cama, enrolado no
meu lado.
É preciso muito autocontrole para não chamá-lo de meu quando ele está
acordado.
Quando ele está dormindo é outra história.
Ele me acordou algumas vezes resmungando durante o sono ou se
contorcendo sob os lençóis. Não fiquei surpreso ao descobrir que ele tinha
pesadelos. Eu simplesmente o puxava para mais perto de mim e sussurrava
em seu ouvido que ele estava seguro, e isso parecia acalmá-lo. Não
mencionei isso a ele durante o dia.
Eu também ainda não contei a ele que matei o padrasto dele.
Estou morrendo de medo, ok?
Finalmente o tenho todo para mim, e não estou disposto a arriscar perdê-
lo. Minha mente me convenceu de que há pelo menos cinquenta por cento
de chance disso. Claro, Lewis Gibson era uma péssima desculpa para um ser
humano, mas depois que o matei, Callum foi forçado a deixar sua casa e seus
amigos e se mudar para um estado completamente diferente. Talvez ele não
seja tão grato quanto eu espero.
Sei que terei que contar a ele um dia, mas isso pode esperar.
Talvez quando ele finalmente estiver pronto para admitir que é meu.
A cada orgasmo que arranco dele, juro que o aproximo mais.
Ele decidiu ficar no apartamento ontem à noite porque tinha um trabalho
para terminar. Tentamos fazer o dever de casa juntos, mas rapidamente
aprendemos que isso não vai funcionar. O corpo dele é muito perturbador.
E ele não é melhor. Ele vai tentar lutar contra mim sem muito entusiasmo,
mas se ele não usar sua palavra segura, eu não paro. Porque ele realmente
não quer que eu pare.
Eu ainda vou devagar com ele. Eu ainda sou mais gentil do que eu sei que
ele poderia lidar. Ele atacou sobre isso, mas eu disse a ele que ele tem que
me deixar aprender seu corpo e seus limites.
Além disso, ele não estava reclamando na noite em que mapeei seu corpo
inteiro com minha língua.
Ainda não o vi hoje, e estou um pouco ansioso por ter chegado ao nosso
laboratório antes dele, considerando que ele normalmente é o primeiro a
chegar à aula. Estou prestes a mandar uma mensagem quando ele
finalmente aparece. Odeio que meu instinto estivesse certo.
Há olheiras sob seus olhos, e seu cabelo está um pouco mais bagunçado
do que o normal. Ele boceja enquanto se senta no banco ao lado do meu.
— Você não dormiu ontem à noite? — pergunto, tentando e falhando em
manter a preocupação longe da minha voz. Sei que ele não gosta, mas sou
protetor demais para conseguir evitar.
— Dormi. Só fiquei acordado até tarde para terminar meu trabalho.
Percebo que ele não está me contando toda a verdade pela maneira como
ele evita meu olhar enquanto tira o manual de laboratório da mochila.
— Callum.
Ele revira os olhos. — Eu não dormi bem, ok? Só isso.
Eu me pergunto se foi por causa dos pesadelos dele. Mas eu não vou fazer
o que ele odeia e tratá-lo como se ele fosse frágil.
Em vez disso, me inclino e abaixo minha voz. — Provavelmente teria
dormido melhor na minha cama.
Ele olha para mim agora, e um sorriso cansado lentamente se forma em
seu rosto. — Provavelmente.
Veja… aprendendo.
Antes de a professora começar a aula, ela anda pela sala, depositando
estetoscópios em cada mesa junto com nossas tarefas de laboratório. A
primeira parte do laboratório é ouvir a respiração do nosso parceiro e
registrar nossas observações.
Pego o estetoscópio primeiro e limpo os fones de ouvido com um lenço
umedecido com álcool. Girando para encarar Callum, espero que ele faça o
mesmo antes de agarrar a barra do banco e arrastá-la para mais perto até que
suas pernas acabem entre as minhas. Ele se sacode e agarra a mesa. Como se
eu realmente o tivesse deixado cair.
Inserindo os auriculares em meus ouvidos, agarro a haste do estetoscópio.
Com a outra mão, passo levemente as pontas dos dedos pela coluna de sua
garganta.
Sua respiração falha. — O que você está fazendo?
— Localizando sua laringe como as instruções dizem — digo a ele
enquanto tento manter um sorriso no rosto e meu tom cheio de inocência.
A julgar pelo seu olhar fraco, ele não acredita.
Colocando o diafragma do estetoscópio contra seu peito, sobre sua camisa
e logo abaixo de sua laringe, escuto seus sons traqueais e brônquicos.
Enquanto nossos olhares estão travados, movo o diafragma um pouco mais
para baixo.
— Respire fundo.
Ele o faz, e eu escuto o fluxo suave de ar em seus pulmões.
— Expire.
Ele também faz isso.
— Você sabia… — Eu levanto um dedo e o arrasto para baixo sobre seu
peitoral direito antes de parar e pressionar firmemente. Mantendo o olhar
de Callum como refém, mantenho minha voz baixa. — Quando alguém é
esfaqueado no pulmão, você consegue ouvir um som de sucção? Às vezes,
há um pequeno borbulhar quando o ar entra na cavidade torácica.
O barulho no estetoscópio fica um pouco mais alto, ainda suave, mas um
pouco mais errático. Suas pálpebras tremem, e ele se mexe no banco.
— Porra — ele sussurra. — Você não pode fazer isso agora.
— O que estou fazendo? — Dessa vez, nem tento disfarçar meu sorriso
irônico. — Estou apenas educando.
— Sim, bem, talvez você devesse tentar a experiência prática.
Suspirando, largo o estetoscópio e volto para a mesa para anotar algumas
notas falsas dentro da caixa em branco sobre nossa tarefa de laboratório.
Não é a primeira vez que ele toca no assunto. Sei que ele está ansioso para
me ver matar de novo, provavelmente porque sabe que agora poderá chegar
perto e pessoalmente da morte. Não senti vontade de fazer isso nas últimas
duas semanas porque, na verdade, estou feliz. Mas se vou levá-lo para minha
próxima matança, então tenho que estar preparado. Muito mais do que
nunca. Levará tempo para planejar e organizar as coisas. Não vou
simplesmente pular de cabeça como sempre fiz.
Passamos para o resto do laboratório, que inclui rotular partes do sistema
respiratório e responder a algumas perguntas. Quando somos os primeiros
a terminar, entregamos nossas tarefas e saímos juntos. Não avançamos
muito pelo corredor antes de Callum me puxar para a mesma sala de aula
que o levei quando ele estava tendo seu ataque de pânico.
Ele fecha a porta e então me empurra contra a parede ao lado dela. Antes
que eu possa piscar, ele esmaga sua boca contra a minha.
Ele me ataca com a língua e os dentes até eu revidar.
É uma batalha de dominância que eu não sabia que desejava com ele.
Quando ele se esfrega em mim, sinto a evidência de seu desejo mútuo.
Partindo para a ofensiva, agarro a frente da camisa dele e giro até que suas
costas estejam pressionadas contra a parede. Eu empurro contra ele e levo
minha outra mão até seu cabelo, agarrando-o com força. Puxando sua cabeça
para trás, movo minha boca para sua garganta, beijando e lambendo meu
caminho para baixo. Sobre seu ponto de pulso com o qual estou rapidamente
ficando obcecado.
— Porra, Stone — ele geme enquanto continuamos a nos esfregar um no
outro. — Quando eu vou poder assistir você de novo?
Eu me afasto, estreitando meus olhos para ele enquanto movo meus
quadris para longe dele também, negando-lhe fricção. Minhas próximas
palavras saem explodindo de mim. — Você está me usando?
— O quê? Não.
— Então, se eu te dissesse que não quero matar na sua frente?
Ele franze a testa, mas não hesita em responder. — Eu ainda te quero.
O alívio faz meus ombros caírem enquanto um peso sai deles. Eu não
percebi o quanto esse pensamento estava me matando.
— Sinto muito — ele diz como se também percebesse. — Posso esperar
até você estar pronto. Eu esqueço o assunto. Juro.
Concordo enquanto me pressiono contra ele novamente. — Só tenha
paciência, bebê. Eu farei valer a pena a espera. Eu prometo.
Nossas bocas se juntam novamente em outra guerra de línguas. Eu o sinto
empurrar contra mim, mas eu me recuso a me mover, em vez disso,
esfregando-me contra ele com mais força do que antes. De novo e de novo e
de novo.
Sua cabeça bate na parede quando ele a joga para trás, ofegante enquanto
eu beijo e mordo seu queixo.
— Porra. Stone, você vai me fazer...
Seu corpo estremece contra mim antes que ele consiga dizer o resto das
palavras. Poucos segundos depois, estou ali com ele, minha boxer inundada
de esperma.
A sala está silenciosa, exceto pelos sons da nossa respiração voltando ao
normal e dos passos que ecoam no corredor.
Callum se contorce e geme, fazendo caretas desconfortavelmente. —
Idiota.
Eu rio e dou um tapinha em sua bochecha. — Você começou. Parece que
vamos ficar sem cueca o resto do dia.

Poucos dias depois, apareço para treinar cerca de meia hora mais cedo
para ficar um pouco sozinho no gelo. Callum se juntou a mim algumas vezes,
o que não me incomodou nem um pouco. Mas acho que ele respeita meu
ritual mais do que precisa - ele é a única pessoa viva com quem não me
importo de passar esse tempo - porque ele recusou a maioria dos meus
convites.
Depois de trocar de roupa e pegar meu taco ao sair do vestiário, estou
passando pela sala do treinador quando sussurros acalorados chegam aos
meus ouvidos.
Manco mais perto em meus patins e inclino meu ouvido em direção à
porta. As palavras que consigo captar são quebradas e poucas.
— Eu tentei… de novo…
— Você não…precisa provar…
— …com Callum…mesma linha…confie em mim…
— …permanecendo na primeira linha…mantendo-o feliz…
Há movimento lá dentro, talvez um arrastar de móveis. Antes que alguém
possa sair do escritório, eu me viro e volto para o vestiário. Uma vez lá
dentro, fecho a porta atrás de mim e pressiono meu ouvido contra a madeira.
Alguns segundos depois, ouço a porta do escritório se abrir e passos
marchando.
Quando abro a porta e espio para fora, vejo a nuca de Eric pouco antes de
ele virar a esquina.
Que porra foi essa?
Saindo do vestiário pela segunda vez, sigo pelo túnel com a mente
girando.
Enquanto entro no gelo, tento juntar as poucas palavras que peguei da
conversa de Eric e Treinador. Patinando em círculos ao redor do rinque, eu
as repasso várias vezes na minha cabeça.
Eles estavam falando sobre Callum e a primeira linha. Essas são as únicas
informações reais que consegui colher. Já que era Eric, é claro que minha
mente quer assumir que ele está tentando se infiltrar na primeira linha com
Callum por razões.
Não dou a mínima para qual linha ele ou eu estamos.
Ele não está se aproximando mais de Callum do que já está.
Vinte e Um
Callum
Vai ser outro longo fim de semana entre a viagem de ônibus de quatro
horas até Vermont e os dois jogos que jogaremos lá.
Pelo menos tenho a companhia de Stone e um quarto de hotel para
esperar.
Mas, se estou sendo honesto, estou um pouco mais nervoso do que o
normal. Não tenho ficado na casa do Stone nos últimos dias porque os
malditos pesadelos estão voltando. A última coisa que quero é ter um
daqueles realmente ruins enquanto estou na cama com ele e acordá-lo com
meus gritos ou brigas com monstros invisíveis.
Acordei Jesse dessa forma mais vezes do que gostaria de admitir. Ele
nunca insistiu em uma explicação, é claro. E embora meus pesadelos
provavelmente não surpreendessem Stone, isso só daria a ele mais uma
desculpa para se preocupar comigo.
Essa é a única razão pela qual eu estava perguntando a ele quando eu
poderia vê-lo matar novamente. Eles vão embora por pelo menos um
tempinho depois daquelas noites.
Quando ele perguntou se eu estava usando-o, doeu. Mas eu só tenho a
mim mesmo para culpar porque eu entendo por que ele pensaria isso.
Mesmo que não seja verdade nem um pouco.
Eu me senti atraído por ele antes de saber a verdade, mesmo que eu lutasse
contra essa atração com unhas e dentes. A única coisa que essa descoberta
fez foi me deixar finalmente aceitar que eu o queria. Que ele foi a primeira
pessoa que eu realmente quis.
Cumpri minha palavra e não toquei mais no assunto.
A viagem de ônibus para Vermont não acaba tão mal. Stone e eu nos
sentamos atrás, dividindo um par de fones de ouvido e nos revezando para
ouvir nossas playlists.
Resistir à vontade de manter as mãos longe um do outro é outra questão.
Não nos revelamos para o resto do time, principalmente a meu pedido.
Stone me disse que está tudo bem com o que eu escolher fazer. Não é porque
estou preocupado com as reações deles. Acho que simplesmente não quero
lidar com isso agora. Eu meio que gosto do segredo.
Principalmente, não quero que o treinador nos designe quartos separados
durante os jogos fora de casa.
Talvez eu tenha ficado um pouco preocupado por não termos sido sutis o
suficiente, então fiquei aliviado quando o treinador chamou nossos nomes
para o mesmo quarto quando chegamos ao hotel.
Depois de colocarmos nossas coisas no quarto - e talvez tirar alguns
minutos para rolar e nos beijar na cama que iremos dividir - voltamos para
o andar de baixo.
Enquanto subo os degraus para dentro do ônibus para podermos ir para
o treino pré-jogo, uma mão agarra minha bunda. Eu viro minha cabeça e
olho para Stone, que está me dando um sorriso não tão inocente.
Estávamos caminhando pelo corredor para retornar aos nossos assentos
anteriores quando ele agarrou meu moletom e puxou minhas costas para
perto da frente dele.
Suas palavras baixas e profundas ressoam contra a concha do meu ouvido
quando ele diz: — É isso que acontece quando você coloca a tentação na
minha cara, bebê. Você tem sorte de eu não ter mordido.
Meu pau se agita dentro do meu jeans.
Mal posso esperar para voltarmos para o nosso quarto esta noite.

Estamos na metade do segundo período, e estamos ganhando de um a


zero. Não foi um jogo fácil. Minhas pernas estão pegando fogo de tanto
evitar corpos e tacos.
Stone adicionou um desafio extra aos nossos jogos. Eu sempre usei minha
vantagem de velocidade no gelo para desviar e escapar dos jogadores
adversários o melhor que pude. Nem sempre tenho sucesso, mas tenho tido
sorte nesta temporada até agora em não levar nenhum golpe forte. No
entanto, agora a necessidade de continuar fazendo isso é mais terrível. Pelo
menos é se eu quiser manter Stone fora da área de penalidades.
Lembro-me do nosso primeiro jogo quando Stone estava retaliando contra
cada pequeno golpe em nossos caras e passou a maior parte do jogo na área
de penalidade. Imagino que um golpe contra mim resultaria em mais
derramamento de sangue.
O disco está na nossa zona defensiva e, quando um dos alas deles chuta,
eu patino na frente dele.
O disco duro e de borracha me atinge no peito.
A julgar pela forma como todo o ar sai dos meus pulmões, fui pego de
surpresa.
Enquanto estou curvado tentando recuperar o fôlego, ouço o apito do
árbitro para interromper a jogada.
Alguém para na minha frente, e imediatamente percebo a presença de
Stone. Sua mão desce sobre meu ombro. Ele está dizendo algo, mas não
consigo ouvir além do sangue rugindo em meus ouvidos.
Eu não fico caído por muito tempo.
Eu sei que não posso.
Endireitando-me, quase perco o fôlego novamente ao ver o olhar de Stone.
É puro assassinato.
Suas narinas estão dilatadas, sobrancelhas franzidas. Há veias visíveis em
suas têmporas, a ponte de seu nariz enrugada em um rosnado.
É a fúria selvagem.
— Você está bem?
Eu quase não entendi por que ele mal abriu os dentes para fazer a
pergunta.
Me forço a falar. — Estou bem.
Isso parece ser o suficiente para ele, porque ele começa a patinar, seu foco
está totalmente no ala que fez o disparo. Eu agarro seu braço com minha
luva e o puxo de volta.
— Foi minha culpa, Stone — eu digo a ele, ficando na sua cara até que as
gaiolas dos nossos capacetes se chocam, precisando ter certeza de que
minhas palavras o alcancem através de sua raiva. — Eu escolhi bloquear o
chute. Não ouse estragar esse jogo, porra.
Ele pisca algumas vezes antes que as linhas duras e as veias proeminentes
em seu rosto finalmente desapareçam.
Acho que posso ter um superpoder.
Talvez um dia eu veja se consigo desarmar uma bomba literal também.
Nós patinamos até o banco, e nossa segunda linha sai para a próxima
jogada. Enquanto isso, um dos médicos vem me checar. Eu digo a ele que o
disco só me tirou o fôlego, mas que eu realmente estou bem. Eu sei que não
é nada pior do que talvez uma costela machucada, então não tem como eu
deixá-los me tirarem do jogo.
Quando nossa linha volta para o gelo, faltam apenas três minutos para o
segundo período. Nós patinamos para o círculo para retomar o jogo. Stone
tem uma taxa de sucesso bem alta para vencer o controle do disco, mas dessa
vez, o outro time chega primeiro.
Eles passam o disco entre suas linhas de frente enquanto o trazem sobre a
linha vermelha e passam pela azul para nossa zona. Nossos defensores estão
lá. Um deles acerta um ala adversário, e o disco desliza pelo gelo. Nate o
pega e o carrega na lâmina de seu taco de volta através das linhas. Ele o passa
para mim, e eu o passo para Stone.
Ele faz um disparo.
Ele ricocheteia nas almofadas do goleiro.
Pego o disco e circulo em torno de um defensor, patinando ao longo das
placas, antes de passá-lo para Nate.
O disco já saiu do meu taco quando sinto um corpo duro e pesado vindo
de trás de mim. Eu me jogo para frente nas placas, e meu capacete bate no
vidro. Tento o meu melhor para ficar na vertical, mas caio no gelo.
A próxima coisa que percebo é que outra pessoa está sendo jogada contra
as placas e caindo alguns metros na minha frente.
Deve ser o defensor que fez uma batida ilegal, a julgar pelo fato de que
Stone já está em cima dele. Ele está arrancando o capacete e as próprias luvas.
O soco que ele dá no rosto do sujeito faz sua cabeça quicar no gelo. Essas
veias voltaram para suas têmporas, pulsando com raiva.
— Stone! — grito enquanto tento me levantar.
Meu corpo protesta, cada centímetro cheio de uma dor fraca e radiante.
Antes que eu possa ficar de pé, caras de ambos os times estão lá tentando
tirar Stone do defensor. Ele dá mais dois socos, e sangue está jorrando no
gelo. Nate é atingido e cai também enquanto mais brigas começam a
acontecer, forçando os árbitros de linha a patinarem para dentro da
escaramuça para pôr fim às coisas.
Os jogadores são puxados um do outro enquanto eu estou focado apenas
em Stone. Ele é o único que se recusa a parar. Mesmo depois que todas as
outras lutas são interrompidas, ele ainda está lutando contra aqueles que
tentam controlá-lo. Ele está grunhindo e rosnando, balançando os braços
para qualquer um que fique em seu caminho.
Só quando estou bem ao lado dele, gritando seu nome novamente e
agarrando seu braço é que seus ataques finalmente começam a diminuir.
Os olhos que encontram os meus não pertencem a Stone. Suas pupilas se
esticam até as bordas de suas íris, como se um demônio do caralho tivesse
tomado conta dele. A visão quase me faz cair no gelo novamente antes que
ele esteja lá para me pegar, me agarrando também.
Luvas, capacetes e tacos estão espalhados pelo gelo. Enquanto eles são
recolhidos, os árbitros estão distribuindo penalidades. Stone e o defensor
que me acertou por trás recebem penalidades maiores, junto com outros dois
caras por brigar.
Além de sua grande penalidade, Stone também recebe uma por má
conduta, o que lhe dá um total de quinze minutos na área de penalidade.
Considerando que ele ficará fora pela maior parte do terceiro período,
duvido que o treinador o coloque de volta nos últimos cinco minutos.
Enquanto descemos o túnel em direção ao vestiário para o intervalo, evito
olhar para ele.
Se eu permitisse que minha raiva tomasse conta de mim do jeito que ele
fez, ele ficaria fora pelos próximos jogos em vez de apenas pelo resto deste.
E eu estaria sendo suspenso.

Não estou surpreso que perdemos esta noite.


Entre todas as penalidades aplicadas, o outro time ganhou um jogador a
mais no qual eles fizeram um gol e empataram o placar. Sem ter Stone no
gelo durante todo o terceiro período, eles marcaram outro e nos venceram
por dois a um.
Stone ainda está furioso quando voltamos para o hotel, indo direto para o
nosso quarto sem parar para jantar. Decido pegar algo para nós dois
comermos. Posso ainda estar furioso com ele, mas estou morrendo de fome.
Tenho certeza de que ele também está depois daquela briga ridícula.
Levando nossos sanduíches embalados em recipientes para viagem para
o segundo andar, destranco a porta do nosso quarto e entro.
Stone está sentado aos pés da cama que não reivindicamos como nossa.
Ele está curvado com a cabeça entre as mãos.
— Vou dormir aqui — ele diz, com a voz abafada enquanto fala em seu
colo.
Colocando a sacola com nossa comida na mesa, encosto minhas costas nela
e cruzo meus braços. — Por quê? — pergunto, mesmo que seja só porque
preciso ouvir sua resposta.
— Porque eu sei que você está puto comigo. — Ele levanta a cabeça.
Talvez seja só a luz fraca no quarto, mas eu juro que ainda consigo ver uma
dica do demônio que dei uma espiada no gelo. — Mas eu não posso mudar
quem eu sou, Callum.
— Vou ser honesto com você. Tentei olhar as coisas da sua perspectiva.
Foi um golpe muito duro. — Quando seu maxilar estala, eu rapidamente
acrescento: — Estou bem. Mas, sim, se alguém fizesse essa merda com você,
eu poderia ter retaliado também. Mas você... você perdeu a cabeça, Stone.
Isso não foi legal.
Stone se levanta e atravessa a sala. Enquanto me aperta contra a mesa, ele
coloca as mãos na borda de cada lado de mim, inclinando-se para perto. —
Eu disse que não posso mudar essa parte de mim.
— Como você ainda tem permissão para jogar hóquei com problemas de
raiva como esses?
— Eu nunca perdi a cabeça daquele jeito antes.
Arqueio uma sobrancelha. — Nunca?
— Eu sempre fui pelo menos um pouco protetor com meus companheiros
de time. Mas quando se trata de você… — Ele balança a cabeça. — Eu nunca
me senti tão protetor com ninguém antes. Quase. Mas nunca assim.
— Eu não preciso de você me protegendo desse jeito durante os jogos.
Não quando isso estraga tudo. Não quando você pode ser expulso do time.
Foi você quem me disse o quão importante é para você que cheguemos ao
campeonato. Isso simplesmente foi pela janela agora?
Ele suspira. — Não. Eu vou… eu não vou perder a cabeça daquele jeito de
novo.
— Eu posso aguentar um golpe, Stone. Eu posso aguentar muito mais do
que você pensa que eu posso.
— Isso não é...
— Cale a boca.
Seus olhos se arregalam.
Eu me endireito, forçando-o a tirar as mãos da mesa e se endireitar
também. — Não preciso de você me protegendo naquele nível no gelo. E não
preciso de você me protegendo de si mesmo.
Porque, sim, isso tem me irritado cada vez mais com o quão cuidadoso ele
tem sido comigo nessas últimas semanas. Eu apreciei no começo, mas sei que
ele ainda está se segurando.
Como se eu fosse frágil pra caramba.
Novamente, ele suspira. — Callum…
Dando um passo à frente, eu fico na cara dele pela segunda vez esta noite.
— Preciso te dar uma demonstração?
Seus lábios se separam; seus olhos escurecem. O canto de sua boca se
contrai. — Admito que estou intrigado.
Alcançando e agarrando um punhado de seu cabelo, eu o puxo para baixo
até que ele seja forçado a cair de joelhos. Ele está quase imediatamente
ofegante, olhando para mim com uma mistura de surpresa e desejo cru. Uma
sensação de poder dispara direto em minhas veias.
— Tire meu pau para fora.
Enquanto suas mãos erguem para o botão do meu jeans, ele se inclina para
frente, abocanhando meu pau endurecido através do tecido. Eu gemo e me
esfrego contra seu rosto.
Quando ele desabotoa minha calça, ele a puxa para baixo até minha ereção
balançar na frente de seu rosto. Ele lambe meu comprimento e, por um
momento, fico tentado a deixá-lo assumir o controle de volta. No entanto,
quando sua mão me envolve, seguro seu pulso e o puxo para longe.
— Eu disse que você podia tocar? — pergunto, estreitando meus olhos
para ele.
Suas pálpebras tremem. — Porra, Callum.
Não consigo deixar de sorrir. — Não só para dominar, hein?
— Não quando se trata de você, aparentemente. Foda-me, bebê.
O barulho que me escapa quase poderia ser comparado a um dos rosnados
selvagens do próprio Stone. — Abra a boca, assassino.
Tenho um assassino de joelhos, prestes a enfiar meu pau em sua garganta.
Fale sobre superioridade.
Pode não ser a primeira vez, mas é a primeira vez que estou no controle
total.
Ele solta um pequeno gemido enquanto obedece. Eu empurro meu pau
para dentro até que ele se engasga. Me afastando, deixo que ele recupere o
fôlego e me certifique de que está bem. Mas ele apenas se inclina para frente,
correndo atrás de mim. Eu dou a ele o que ele quer, deslizando meu
comprimento sobre sua língua.
Levantando minha outra mão para agarrar seu cabelo com ambas,
imediatamente estabeleço um ritmo brutal. Não começo devagar. Não dou
a ele uma chance de respirar. Fodo em sua boca como um homem possuído.
Eu também dou a ele tudo o que posso tirar dele.
O calor aveludado em volta do meu pau está excitando-me quanto a visão
de Stone de joelhos, seus lábios esticados em volta de mim. O jeito como seus
olhos estão presos nos meus. O poder do caralho de tudo isso. Não demora
muito para minhas bolas apertarem, um calor queimando na base da minha
espinha.
— Porra. Vou gozar.
Stone me leva mais fundo, engolindo ao redor de mim até que haja um
formigamento na raiz do meu pau. A sensação de sua garganta me desfaz,
me enviando ao limite em um esquecimento eletrizante enquanto gozo em
sua boca.
Fico de pé sobre os joelhos fracos, sem nem saber como ainda estou de pé.
Stone ajuda com isso quando se levanta, me agarra pelo pulso e me puxa
para a cama. Ele me empurra de costas, então contorna a cama para o outro
lado. Agarrando meus dois pulsos dessa vez, ele me puxa até minha cabeça
ficar pendurada para fora da borda do colchão.
— Mensagem recebida alta e clara, Cal — ele diz com aquela voz
profunda e rouca dele, um pouco mais áspera depois da foda na garganta
que eu acabei de dar a ele. Ele abre o zíper da calça jeans. — Vamos ver o
quão bem você consegue lidar comigo quando eu soltar a besta da coleira.
A besta?
Foi isso que eu vi hoje à noite? Não é um demônio?
Stone enfia dois dedos na minha boca enquanto segura seu pau com a
outra mão. Ele esfrega seu comprimento contra minha bochecha, e eu posso
sentir o pré-gozo que ele está espalhando sobre minha pele. Enquanto eu
chupo seus dedos, ele olha para mim com olhos escurecendo.
Ele rosna.
Sim, a besta parece certa.
E eu adoro isso.
Ele continua enfiando os dedos dentro da minha boca, se movendo cada
vez mais fundo enquanto ele enfia seu pau na minha bochecha. Seus olhos
estão encapuzados enquanto permanecem presos nos meus, seu peito
arfando. Como se talvez ele pudesse gozar assim. A julgar pela forma como
meu pau está se contraindo, eu provavelmente também poderia.
— Porra, você fica bem nessa posição — ele diz. — Meus dedos na sua
boca. Seu pau para fora. Disposto a aceitar qualquer coisa que eu te der,
certo?
Eu concordaria se pudesse. Em vez disso, gemo em volta dos dedos dele.
Então ele os puxa para fora e os substitui por seu pau, empurrando fundo
até eu me engasgar. Ele se afasta, mas apenas por um segundo antes de
entrar de novo, meus lábios esticados em volta de seu pau grosso. Ambas as
mãos dele sobem e envolvem minha garganta. Não apertando, apenas
segurando. Eu me pergunto se ele consegue sentir a cabeça de seu pau contra
suas palmas toda vez que ele atinge o fundo da minha garganta.
Esse pensamento fez meu pau endurecer novamente.
— Porra, Callum — ele geme, fodendo minha garganta em um ritmo
selvagem, falando entre cada estocada implacável. — Você é tão perfeito pra
caralho. Eu entendo, ok? Você aguenta uma porra de uma pancada. Você
aguenta isso duramente porra. Você também ama, não é? Olha você ficando
duro de novo. Você vai gozar de novo para mim também, não é?
Tento balançar a cabeça. Não tem jeito.
Aparentemente ele não gostou dessa resposta.
Ele agarra meu pulso e se inclina, forçando seu pau mais fundo na minha
garganta enquanto leva minha mão até meu pau.
— Acaricie-se. Eu sei que você tem outro em você.
Eu lamento enquanto envolvo meus dedos em volta do meu eixo sensível.
É tão sensível pra caralho, mas é tão duro pra caralho também.
— Vamos, bebê — ele diz enquanto sua mão levanta minha camisa em
seu caminho de volta para minha garganta. — Você não quer gozar
enquanto engole tudo o que eu tenho para te dar?
Eu dou uma estocada lenta no meu pau.
— É isso. Seja um bom garoto e goze para mim de novo.
Algo entre um grunhido e um gemido sai de mim. Deve ter deixado Stone
irritado porque ele agarra minha garganta um pouco mais forte, empurra
um pouco mais rápido. Um rosnado baixo enche meus ouvidos.
Tudo isso me fez apertar meu pau com mais firmeza, acelerando minhas
investidas.
Meu segundo orgasmo chega quando sinto o pau de Stone pulsando
contra minha língua, e o esperma quente descendo pela minha garganta.
Não é tão intenso quanto o primeiro, mas, porra... vale a pena.
Stone se afasta, me deixando sem fôlego.
Ele rasteja na cama ao meu lado, e eu sinto sua língua lamber um longo e
quente golpe ao longo do meu abdômen. Agarrando meu braço, ele me puxa
para uma posição sentada. Eu balanço um pouco como se estivesse bêbado.
Quando ele me beija, sua língua deslizando para dentro da minha boca, eu
sei que é meu próprio esperma que estou sentindo o gosto dele. Estou
surpreso que seja mais do que apenas algumas gotas que ele está me
alimentando.
Nós nos beijamos profundamente por um longo tempo, o gosto se
transformando em uma mistura de nós dois.
Stone interrompe o beijo, mas continua perto, sua mão contra o lado do
meu rosto. Ele sorri. — Feliz?
Sorrio de volta. — Muito.
Depois de nos limparmos, passamos o resto da noite sentados na cama
juntos, de cueca. Comemos nossos sanduíches, e Stone insiste em me dar
uma massagem depois do golpe forte que levei.
Se ele não se transformasse em uma besta selvagem e imparável, eu
poderia ficar tentado a levar mais golpes depois desta noite.
Vinte e Dois
Stone
— O treinador quer que você fique de fora deste jogo.
Bem, não posso dizer que não esperava por isso.
Depois de guardar minha bolsa na minha estação, viro-me para encarar
Nate. Callum está ao meu lado, e posso sentir sua raiva daqui. Embora eu
sinta que é mais direcionada a mim do que ao treinador.
Os olhares de todos estão voltados para o outro lado enquanto todos se
preparam para o treino antes do nosso segundo jogo contra Vermont.
— E quem vai ficar no meu lugar? — pergunto, já sabendo a resposta.
— Vaughn.
Juro que um dos meus dentes quebrou.
— O treinador disse que a decisão é minha — diz Nate, claramente
inconsciente de quão perto está de uma bomba-relógio. — Ele quer que você
fique de fora, mas também sabe que temos mais chances de vencer com você
no gelo.
— Então o que você vai fazer?
— Tenho que te fazer uma pergunta, e então eu decido. — Seus olhos vão
para Callum e depois voltam para mim. — Tem alguma coisa acontecendo
entre você e Hayes?
Porra. Não posso responder isso. Eu disse ao Callum que nos assumir para
o time foi escolha dele.
Antes que eu pudesse pensar em uma desculpa sem dizer não
diretamente, Callum me salvou.
— Sim.
Viro a cabeça para o lado e vejo Callum parado ali, com os braços cruzados
e o queixo erguido, desafiando Nate a nos encher o saco.
Um sorriso fácil chega aos meus lábios.
Os olhos de Nate estão arregalados, seu maxilar está frouxo. Então ele
balança a cabeça e solta uma risada. — Vocês dois queriam se matar há
alguns meses. Eu nem deveria estar surpreso. — Quando ele olha de volta
para mim, seus olhos se estreitam. — Infelizmente, isso claramente apresenta
um problema.
Callum dá um passo à frente, abaixando os braços. — Eu disse a ele ontem
à noite que ele não pode mais fazer essa merda. Ele disse que não vai.
— E você acredita nele?
Eu odeio pra caralho como eles estão falando como se eu não estivesse
aqui. No entanto, eu realmente não quero ficar no banco neste jogo - muito
menos assistir Callum e Eric jogando juntos no gelo por uma hora e meia -
então eu fico de boca fechada.
— Eu acredito — diz Callum.
Nate assente lentamente, considerando. — Tudo bem. Vou dizer ao
treinador que acho que você deveria jogar. Mas esta é a única vez que estou
te defendendo. Entendeu, Wakefield?
— Entendi, Capitão. — Eu me viro para Callum enquanto Nate sai para
sua própria estação. — Você não precisava fazer isso.
— Eh. — Ele dá de ombros, sorrindo. — A emoção de se esgueirar por aí
não duraria para sempre. Além disso… — Ele se aproxima, seus olhos
brilhantes fixos nos meus, exceto pelo breve movimento rápido até minha
boca. — Teremos muitas outras emoções para esperar.
Eu o beijaria agora mesmo se todo o nosso time não estivesse nesta sala e
eu sabia que ele não se importava com demonstrações públicas de afeto.
Quando ele se vira para começar a trocar de roupa, meus olhos procuram
Eric. Não consigo evitar. Eu o encontro do outro lado do vestiário e, como se
ele me sentisse, ele vira a cabeça. Há uma expressão neutra em seu rosto,
mas se qualquer outra pessoa estivesse olhando de perto, veria a rigidez de
sua mandíbula, a maneira como seus nós dos dedos fica brancos devido ao
aperto que ele tem em suas almofadas.
Eu sabia que ele era um canalha.
Enquanto todos nós saímos no gelo para começar o treino, sinto mais olhos
em mim do que o normal. Tem o Callum, mas estou acostumado com o dele.
Tem o Eric, cujos olhares ocasionais eu pego sendo lançados em minha
direção. Então tem o treinador, que está me observando como um falcão.
Antes do jogo começar, ele agarra meu suéter com força e me puxa para
perto para poder rosnar baixo no meu ouvido. Não é nada como os rosnados
que vieram de Callum ontem à noite, mas é um, mesmo assim.
— Se você jogar mais sujo hoje à noite do que você sabe que eu deixei você
fazer, eu vou te tirar do time tão rápido que sua cabeça vai girar.
— Sim, senhor, treinador.
Pelo menos recebi autorização para continuar jogando sujo.
Esse é o Treinador Hill.
Então, é claro, quando o número cinquenta e sete do time adversário corta
a luva de Callum com seu taco enquanto eles lutam no vinco, eu aproveito
isso como uma oportunidade.
Mesmo que o golpe mal pareça ter perturbado Callum, eu corro,
segurando o cabo do meu taco com as duas mãos e acertando o filho da puta.
O golpe acerta tão forte que ele é derrubado e sai derrapando pelo gelo até
bater nas placas.
Dessa vez, antes mesmo de uma briga começar, eu patino para trás e
levanto minhas mãos no ar.
Não é nem de longe o suficiente.
Cinquenta e sete recebe uma penalidade menor, enquanto eu recebo uma
maior. Mas pelo menos são apenas cinco minutos na área de penalidade em
vez dos quinze da noite passada.
Enquanto passo por Callum, nossos olhares se encontram, pergunto: —
Feliz?
Ele revira os olhos, mas não percebo seu sorriso relutante ou seu
murmúrio contrariado — Muito.
Essas palavras repetidas da noite passada fizeram minha boca se abrir em
um largo sorriso. Enquanto eu patino para trás em direção à área de
penalidade, mando um beijo para ele.
O outro time ganha outro período com jogador a mais, mas nossos rapazes
os seguram até eu voltar correndo para o gelo.
Nós vencemos o jogo naquela noite.

Fui despertado de um sono profundo por um chute na canela.


Porra, isso doeu.
Esse é meu primeiro pensamento. Meu segundo é que Callum está em
apuros.
Estávamos deitados em nossa cama no quarto de hotel em Vermont.
Saímos com o time para jantar depois do jogo e, quando voltamos para o
quarto, estávamos tão exaustos que simplesmente caímos na cama de cueca,
nos beijamos por alguns minutos e dormimos.
Não tenho ideia de que horas são, mas parece que provavelmente é
madrugada.
Callum está choramingando. Tenho quase certeza de que ele me chutou
enquanto dormia.
Essa teoria é confirmada quando ele faz isso novamente.
Seus gemidos ficam mais altos, seus movimentos mais frenéticos
enquanto ele luta contra mim e os lençóis como se estivesse em guerra. Eu
sei que ele já lidou com pesadelos, mas nunca testemunhei um tão ruim
antes.
Como diabos ele não está acordando?
Notei que ele dorme muito, mas eu claramente não sabia da missa a
metade. Ele está lutando contra um agressor invisível até que seus gemidos
começam a formar palavras.
— Não, não. Pare. Por favor. Não.
Não aguento mais essa porra.
Ele está de costas, e eu me apoio no cotovelo, pairando ao lado dele sem
tocá-lo.
— Callum?
Ele balança a cabeça, com lágrimas escorrendo pelo rosto.
Não vou conseguir acordá-lo sem tocá-lo. Estou um pouco preocupado
com a reação dele, mas não vou deixá-lo ficar preso naquele pesadelo,
prisioneiro da própria mente.
Eu agarro seu braço e gentilmente o sacudo. — Callum!
Sua mão dispara, e um punho balança meu queixo. Certamente não é o
soco mais forte que já recebi dele, mas se eu não estivesse completamente
acordado já, estaria agora.
Agarrando-o pelo pulso, grito seu nome um pouco mais alto, sacudo-o um
pouco mais forte. — Callum!
Seus olhos se abrem de repente.
Quando vejo o que tem dentro deles, juro que consigo ouvir o som do meu
coração se partindo bem no meio.
Eles estão molhados, mas por baixo dessas poças de lágrimas há medo.
Terror puro e absoluto. E dor. Uma agonia tão intensa e visceral que invade
o ar, sufocando nós dois. Ele já mencionou sombras para mim antes, e acho
que as vejo agora. Elas estão nadando em seus olhos, tentando apagá-lo.
Não vou deixar que o levem.
Seu queixo treme, e sua voz sai áspera e quebrada. — Stone?
— Estou aqui, bebê.
Callum se lança em mim, me forçando de volta para o colchão do meu
lado. Nossos braços se envolvem ao mesmo tempo, segurando um ao outro
igualmente forte. Ele soluça em meu peito. Eles agitam seu corpo inteiro
enquanto eu o seguro contra mim.
Se eu pudesse, traria Lewis Gibson de volta dos mortos.
Se eu algum dia descobrir que a reencarnação é real, eu o rastrearei em
sua próxima vida e o farei sofrer mais do que qualquer um já sofreu.
Ele desejaria ter voltado como uma barata antes que eu terminasse com
ele.
— Estou bem aqui, Cal — sussurro contra seu cabelo, acariciando suas
costas. — Eu nunca vou a lugar nenhum. Estou bem aqui.
Ele funga. — Sinto muito.
— Você não tem nada pelo que se desculpar.
Ele balança a cabeça como se não concordasse. — Eu aguento um golpe —
ele diz, as palavras abafadas enquanto ele fala contra meu peito. — Eu
aguento duro de você. Mas eu... eu não aguento esses pesadelos de merda.
— Diga-me o que posso fazer. Quero ajudar você.
Eu odeio me sentir impotente.
Callum funga mais algumas vezes, seu corpo tremendo pelo menos um
pouco menos do que antes. Quando ele se afasta para olhar nos meus olhos
que se ajustaram à escuridão, vejo que os dele estão vermelhos, com marcas
de lágrimas manchando suas bochechas.
Num sussurro suave e desesperado, ele diz: — Preciso de você dentro de
mim.
Minha testa franze. — O quê?
— Por favor, Stone. Preciso de você. Transforme todas as minhas coisas
ruins em boas.
Procuro em seu olhar qualquer sinal de que talvez ele não esteja em seu
perfeito juízo, mas a determinação e a urgência que encontro nele são
suficientes para me convencer.
Ele precisa disso.
Assim como ele precisa da morte.
Deixando um braço em volta dele, eu trago minha outra mão para cima e
gentilmente passo a ponta do dedo ao longo de seus lábios. Ele os separa, e
eu deslizo dois dedos dentro de sua boca. Suas pálpebras tremulam
fechadas. Cada músculo tenso em seu corpo se solta enquanto aquelas
sombras recuam para onde vieram.
Eu queria poder derrotá-las completamente.
Tirando meus dedos de sua boca, eu me abaixo para puxar sua cueca. Eu
agarro sua coxa e coloco sua perna sobre a minha, e a posição faz seu pau
tocar o meu através do tecido da minha cueca. Ele não está duro. Eu também
não, mas estou tendo que lutar contra a onda de sangue tentando ir nessa
direção.
Enquanto enfiava meus dedos novamente em sua boca, deslizando-os
lentamente sobre sua língua, percebi que não seria preciso muito mais para
chegar lá.
— É isso, bebê — eu digo a ele enquanto ele começa a chupar. — Deixe-
os bem molhados, ok? Eu vou te mostrar que você está seguro. Que você
sempre estará seguro comigo. Que eu sempre te darei o que você precisa.
Seus olhos se abrem então, e fico aliviado em vê-los cheios de calma dessa
vez. É o tipo de calma que o domina quando o seduzo com conversas sobre
a morte.
Deslizando meus dedos para fora uma última vez, eu os abaixo entre nós,
sentindo meu caminho passando por suas bolas até chegar ao seu buraco. Eu
giro a ponta de um dedo em volta de sua borda antes de empurrá-lo
suavemente para dentro.
A respiração de Callum fica presa na garganta, seus lábios ainda
entreabertos enquanto seu olhar pacífico mantém o meu cativo.
Ele me mantém cativo.
Deixo que ele me tranque com prazer se ele puder me impedir de trancá-
lo primeiro.
Depois de colocar um dedo dentro dele, adiciono o segundo.
Um suspiro suave escapa de seus lábios e sua cabeça pousa novamente
em meu peito.
— Você precisa de mais? — pergunto, sem esperar nada.
Meu pau está duro agora, e o dele está na metade do caminho. Mas isso
parece diferente das vezes que terminaram em uma foda.
— Não. Não agora — ele diz, sua voz finalmente firme, ainda que um
pouco ofegante. — Podemos…podemos simplesmente dormir assim?
— Qualquer coisa que você precisar, bebê.
— Você. Assim. É disso que eu preciso. — Ele se aninha no meu peito,
beijando minha clavícula. — Quando eu tenho pesadelos, você pode… quer
dizer…
— Você quer que eu te acorde assim? — pergunto, enfiando meus dedos
um pouco mais fundo.
Seu gemido baixo vibra através de mim. — Sim. Com seus dedos ou seu
pau, não importa.
Meu pau realmente adora essa ideia, expressando sua aprovação
extasiada se contorcendo na minha cueca.
— Transforme todas as minhas coisas ruins em boas, Stone — ele diz
novamente, sua voz ficando cansada. — Eu acho que você é o único que
pode.
Com meu braço ainda em volta dele, eu o aperto um pouco mais forte.
Suas palavras começam a curar aquela fratura em meu coração que se abriu
quando ele acordou pela primeira vez, preenchendo aquela rachadura com
ouro.
Tenho quase certeza de que ele adormeceu quando sinto o fluxo suave de
sua respiração quente contra minha pele.
Em vez de dizer que ele é meu enquanto ele dorme, digo algo diferente
dessa vez.
— É porque eu sou seu, Callum. Todo seu, porra.
Vinte e Três
Callum
Eu estive tão cansado pra caralho essa última semana. Os pesadelos
voltaram com força total.
Stone tentou me fazer ficar em sua casa, mas eu posso estar evitando.
Todos aqueles sentimentos de antes estão começando a me assombrar,
aqueles em que me sinto fraco e vulnerável.
Não odeio Stone dessa vez por me ver daquele jeito. Só odeio a mim
mesmo.
Não tenho dúvidas de que ele poderia me ajudar a superar os pesadelos.
O pensamento de acordar com ele dentro de mim em vez daquelas sombras
sufocantes é reconfortante. É aceitar esse conforto que estou tendo
dificuldade. É deixá-lo prender meus membros naquela bandeja e me
dissecar novamente. Ele não viu tudo o que há para ver, mas se ele enfiar
seu bisturi em mim mais uma vez, ele pode encontrar.
É por isso que tive que sair correndo do treino hoje antes que ele pudesse
me pedir para ir até lá. Eu não queria a tentação porque já estou perto de
desistir.
Decidi passar na pequena academia no primeiro andar do meu complexo
de apartamentos, esperando que, se eu me exaurir até o limite, até as
sombras estarão cansadas demais para me assombrar esta noite. Eu malho
por quase uma hora antes de correr o risco de desmaiar.
Quando abro a porta do meu apartamento e entro, vejo Jesse e Eric no sofá.
Lembro-me de um deles me dizendo que tinham um projeto em que
trabalhariam juntos por algumas semanas.
— Ei, cara — Eric diz enquanto fecho a porta atrás de mim. — Eu ia te
oferecer uma carona, mas você saiu depois do treino bem rápido.
— Queria ir à academia um pouco, mas valeu.
— Então é esse o cheiro que você trouxe — Jesse murmura enquanto olha
para o telefone, com o nariz franzido.
Reviro os olhos. — É, e como vai esse projeto?
— Cala a boca. Estou tentando transar neste fim de semana. — Seus dedos
voam pela tela enquanto ele manda mensagens. Então ele faz uma pausa. —
Nádegas é uma palavra só ou devo separá-la?
Eric bufa. — Você sempre deve separá-la3.
Eles riem enquanto eu balanço a cabeça enquanto caminho para o meu
quarto.
— Ei — Jesse me interrompe. — Eu ia pedir uma pizza. Quer?
Só consigo imaginar o que Stone pensaria sobre eu dividir uma pizza com
Eric, mas, caramba, ele não precisa saber. Estou morrendo de fome, e
provavelmente só pegaria uma barra de proteína se não fosse assim.
— Claro.
Jesse já deve ter aberto um aplicativo no celular porque ele franze o nariz
de novo. — Mais de uma hora para a entrega. Estou com fome demais para
isso. Vou só pegar.

3A piada está no duplo sentido: o personagem pergunta se buttcheeks deve ser escrito como
uma palavra só ou separada (butt cheeks), e o outro responde com um trocadilho, dizendo
que ele “deve sempre separar”, insinuando que deve literalmente abrir as nádegas.
— Vou ficar aqui e tentar fazer algum trabalho — diz Eric enquanto pega
um livro didático na mesa de centro.
Jesse se levanta, anda até a porta e pega suas chaves do gancho. Então ele
se vira, apontando um dedo para mim. — Você vai tomar banho ou nada de
pizza para você.
— Estou indo. Estou indo.
Uma vez no meu quarto, fecho a porta atrás de mim. Coloco meu telefone
em cima da cômoda e jogo minha bolsa na cama, planejando fazer pelo
menos um pouco de dever de casa mais tarde. No meu banheiro, ligo o
chuveiro. Enquanto a água esquenta, tiro minhas roupas suadas e as jogo no
cesto.
Enquanto estou de pé sob o jato fumegante, inclino meu ombro contra os
azulejos frios e fecho meus olhos. Estou tão cansado que provavelmente
poderia sentar aqui e dormir enquanto a água me atinge.
Então meu estômago ronca e decido que pizza é mais importante.
Depois de me lavar, eu me seco e enrolo a toalha na cintura. Quando abro
a porta, congelo na soleira. Qualquer calor que o chuveiro havia fornecido
se dissipa, substituído por uma explosão de pavor frio.
Eric está de pé ao lado da minha cama com meu caderno de esboços nas
mãos. Eu imediatamente sei qual é pela capa gasta e esfarrapada e pelas
páginas soltas que caíram no chão.
O que há com pessoas intrometidas que não respeitam a privacidade dos
artistas e seus trabalhos? É uma epidemia do caralho.
Claro, essa não é minha maior preocupação agora.
Isso é pior do que quando Stone viu meus esboços dele. Ele viu os deste
caderno também, mas também inspirou metade deles. Eric vê-los é ruim. Tão
ruim que não consigo encontrar minha voz para dizer a ele para dar o fora.
— Eu estava procurando por evidências — Eric diz como se estivesse
respondendo a uma pergunta não dita. — Não tenho certeza se isso
funcionaria, mas é um começo, não é?
Curiosidade e apreensão são o suficiente para me fazer falar. — Do que
diabos você está falando?
Ele levanta os olhos do caderno, seus olhos vazios, quase todos os traços
do cara legal e despreocupado que eu conheci desapareceram. — Stone te
contou que matou meu tio?
Suas palavras são como um disco no meu peito. Eu sei depois do último
fim de semana. Felizmente, consigo ficar de pé dessa vez, mesmo com todo
o ar sendo socado dos meus pulmões. Meu coração é como um animal
enjaulado, batendo suas patas pesadas contra minhas costelas.
— Eric, eu realmente não sei do que diabos você está falando — eu digo
a ele, balançando a cabeça como se ele tivesse perdido a cabeça. — Por que
você pensaria isso? Stone não mataria ninguém.
Esconder meus próprios segredos sempre foi uma segunda natureza para
mim. Proteger os segredos de Stone é ainda mais importante. Mas não posso
negar que ter Eric parado aqui, pensando que sabe a verdade, enquanto olha
para recriações de suas suspeitas está me enviando perigosamente perto de
lutar ou fugir.
— Você o viu? Matar? É isso que esses desenhos são?
Quando Eric dá um passo em minha direção, eu mantenho minha posição.
Posso estar apenas com uma toalha, mas ainda lutarei com ele se for preciso.
— São só esboços. Mórbidos, sim. É por isso que estavam debaixo do meu
travesseiro, onde pessoas em quem eu achava que podia confiar não
meteriam o nariz onde não são chamadas.
Ele franze a testa e inclina a cabeça, me estudando. — Você confia em um
assassino em vez de mim?
— Ele não é um maldito assassino!
Meu peito está arfando agora, tanto pela minha respiração rápida quanto
pelo meu coração acelerado. Pelo menos estou tão irritado quanto
aterrorizado agora, o que é uma boa desculpa para minha reação. Tento me
concentrar nessa raiva, focar no fato de que Eric invadiu completamente
minha privacidade e está acusando meu... namorado?... de assassinato.
Também ignorando o fato de que é verdade.
— Ele é. Eu sei que ele é. — Eric fecha meu caderno de desenho e o coloca
no pé da minha cama. — E eu sei que você também sabe. Eu simplesmente
não consigo entender por que você está encobrindo-o.
— Não estou encobrindo-o porque não há nada para encobrir.
Eric olha para os pés. Posso ver seu maxilar se mexendo. Por um
momento, acho que é raiva. Mas quando ele olha de volta para mim, seus
olhos estão brilhando, e quando ele fala, sua voz vacila.
— Meu tio era meu herói. Ele era mais como um pai para mim do que
meu próprio pai. Meu pai estava constantemente viajando a trabalho,
ausente por semanas ou meses. Ele e minha mãe sempre me disseram que
ele estava fazendo o que era melhor para nossa família, fazendo o que tinha
que fazer para nos sustentar. Ele tentou compensar o tempo perdido nos
últimos anos, mas é inútil. Ele não estava lá quando eu precisei dele, quando
eu era apenas um garoto que precisava do pai. Mas meu tio estava. Até que
ele foi assassinado há três anos.
Quando ele termina, uma lágrima perdida rola por sua bochecha corada.
Porra.
Poderia ser verdade? Stone poderia ter matado seu tio?
Claro, é possível. Mas por que não considerei isso antes? Por que não
pensei que Stone poderia estar por aí assassinando pessoas boas que têm
entes queridos que sentirão falta delas como Eric sente falta do tio?
Acho que já pensei sobre isso.
Eu simplesmente não me importei até agora.
E aqui está a questão. Eu não sou uma pessoa má. Quer dizer, eu acho que
não. Claro, a morte me acalma de uma forma fodida e distorcida. Eu
encontrei conforto em algo desprezível e maligno, mas isso não significa
necessariamente que eu seja essas coisas. Pelo menos, eu não quero ser essas
coisas. Essa é uma das razões pelas quais eu nunca fui capaz de considerar
matar alguém. Eu tenho um coração do caralho. E agora, ele está quebrando
um pouco para Eric.
— Olha — começo, respirando fundo. — Eu realmente sinto muito pelo
seu tio. Eu sinto. Mas Stone não fez isso.
Eric balança a cabeça e enxuga a lágrima. — Eu sei que ele mata pessoas,
Callum. E assim que eu tiver provas de que meu tio era um deles, farei algo
com isso.
Antes que eu possa responder, Eric já está indo embora e saindo pela
porta.
Como se estivesse no piloto automático, vou até minha cômoda e visto
uma calça de pijama. Pego todas as páginas que caíram no chão e as enfio de
volta no meu caderno de esboços. Nenhum dos desenhos de Stone seria
óbvio que são dele para qualquer um, exceto para mim e para o próprio
Stone. Mas como Eric já tem suas suspeitas, não é difícil fazer a conexão.
Ainda assim, penso em queimar o caderno.
Minha mente está se desviando em duas direções.
Em um caminho estão meus sentimentos por Stone. Eu me importo com
ele. Caramba, mais do que isso. Ele significa mais para mim do que qualquer
pessoa na minha vida já significou. Eu o quero. Eu preciso dele. Evitar passar
noites com ele por causa desses pesadelos quase me matou.
No entanto, no outro caminho estão quaisquer morais aos quais ainda
estou me apegando. Imagino que minha tia ou tio ou um dos meus primos
foi uma das vítimas de Stone, e minha perspectiva muda.
A parte de mim que quer seguir esse primeiro caminho sente a
necessidade de avisar Stone.
A parte de mim que está nesse segundo caminho não quer que ele mate
Eric.
Meu telefone vibra em cima da minha cômoda. Eu o pego e me sento na
beirada da minha cama.

Stone: Gostaria que você ficasse comigo esta noite.

Eu: Você sabe que não posso. Tenho que entregar esse trabalho na
semana que vem.

Stone: E nós dois sabemos que isso é uma desculpa. Seus pesadelos não
me assustam, Callum.
Talvez não, mas eles me assustam.
Eles me assustam porque odeio me sentir vulnerável. Eles me assustam
por causa de quanto mais Stone poderia ver que eu estava me escondendo
dele.
Quando não respondo imediatamente, ele manda outra.

Stone: Posso dizer que você está cansado. Só queria que me deixasse
ajudar.
Eu: Vou ficar bem. Prometo. Falo com você amanhã, ok?

Stone: Claro. Boa noite, Cal. Descanse um pouco por mim. Por favor.

Eu: Eu vou. Boa noite.


Só que isso parece improvável.

Como suspeito, não dormi nada. E o pouco sono que consegui dormir foi
atormentado pelos pesadelos de sempre.
A risada sinistra está ficando mais alta.
A fumaça ficou mais espessa.
Cheguei cedo para nossa aula de anatomia só para poder fechar os olhos
por alguns minutos. Estou na minha mesa, minha cabeça apoiada nos braços
e meu moletom sobre a cabeça. A cadeira ao meu lado raspa no chão,
interrompendo o som persistente de risadas cruéis ricocheteando nas
paredes do meu crânio. Não abro os olhos quando ouço Stone se sentar.
Eu praticamente consigo sentir a fumaça saindo dele.
Quando finalmente levanto a cabeça, vejo Stone olhando para seu laptop,
com o maxilar tenso.
— Você está me deixando louco com essa merda, Callum.
— Desculpe — murmuro.
Só que eu não sei realmente do que me desculpo. Acho que é só instinto.
Ou falta de vontade de discutir, considerando o quão exausto estou.
Enquanto estamos sentados na aula, Stone mal olha para mim e não fala
comigo. Espero que isso torne o que vem a seguir mais fácil. Talvez se ele
estiver bravo comigo, isso não machuque muito nenhum de nós.
A aula termina, e Stone me segue para fora da sala. Quando estamos no
corredor, ele agarra meu braço e me arrasta pelas salas de aula, espiando
pelas portas abertas. Quando ele encontra uma vazia, ele me puxa para
dentro. Nós andamos alguns metros para dentro da sala antes que ele volte
seu olhar intenso e inabalável para mim.
— Você vai ficar comigo esta noite.
Ele deixou a porta aberta, sons de passos e conversas filtrando para
dentro. Tudo desaparece em ruído de fundo enquanto eu olho em seus olhos
lavados pela chuva, sugando seu cheiro de floresta e tempestade. Eu inalo
uma respiração profunda como se fosse a última vez que eu pudesse sentir
o cheiro.
— Não, não vou.
Seu rosto endurece. — Não posso continuar te vendo assim. Deixe-me
ajudar. Por favor, fique comigo esta noite.
— Não vou ficar com você esta noite. Eu… — Engulo o nó desconfortável
na garganta e tento novamente. — Não vou ficar com você por um tempo.
— O que diabos isso significa?
— Significa que acho que deveríamos desacelerar as coisas um pouco.
Tenho algumas coisas minhas que preciso resolver.
Stone zomba, mas não é irrisório. — Não é você, sou eu?
— Bem, é verdade.
Majoritariamente.
Claro, algumas das merdas que preciso descobrir têm a ver com Stone, mas
ainda são meus próprios problemas. Como se eu pudesse realmente ignorar
o fato de que Stone mata pessoas sem se importar com quem ele está
matando. Eu sei que deveria ter pensado nisso antes, mas, bem, isso é parte
do que preciso descobrir também.
Por que diabos minha cabeça não está no lugar?
— Eu só tenho muita merda para resolver — eu digo a ele. — Eu sei que
não estou… certo. Eu nunca estive certo. Eu estou fodido, e eu só preciso…
me consertar.
Revirei os olhos ao ver o quão idiota isso soou.
Ele franze a testa e balança a cabeça. — Não há nada de errado com você.
Agora é a minha vez de zombar. — Diz o serial killer.
Ele concorda rigidamente. — Justo. Mas podemos ser fodidos juntos.
Eu adoro o som disso.
— Faça-me um favor, por favor. Se você decidir sair e, você sabe…só tome
cuidado.
É o único aviso que posso dar a ele. O pensamento dele matando Eric me
impede de dizer mais. Pelo menos agora.
A suspeita brilha em seus olhos, mas ele diz: — Eu não faria isso sem você.
Puta merda.
Não entendo como ele consegue me fazer sorrir agora. É só um sorriso
pequeno e some rápido.
— Eu só preciso de um tempo, Stone.
Dando um passo à frente, ele agarra a lateral do meu pescoço, inclinando-
se para perto. — Você sabe que eu te darei tempo se for disso que você
precisa. Mas não pense que eu vou deixar você ir tão facilmente, Callum.
Ele pressiona a testa contra a minha e fecha os olhos, segurando-se de algo.
Então ele me solta e sai da sala.
Ele é perfeito.
E eu sou uma maldita bagunça.
Vinte e Quatro
Stone
Apesar do tempo que eu concordei contra a vontade, a química minha e
de Callum no gelo não sofreu muito. Eu gostaria de pensar que isso significa
que o que quer que o esteja incomodando não é algo que não possamos
superar. Que eu o terei de volta em breve. Na minha cama. Nos meus braços.
No meu pau.
Porra, sinto falta dele.
E só se passaram alguns dias.
Não há como evitar um ao outro durante os treinos e jogos, mas como não
há nenhuma hostilidade real entre nós, as coisas pelo menos têm sido
civilizadas. Ajuda que ele pareça estar evitando Eric um pouco mais do que
o normal. Não sei se isso tem algo a ver com saber meus sentimentos em
relação ao idiota ou se algo aconteceu entre eles.
A primeira vez que suspeitei disso, Eric poderia ter acabado encolhido em
uma pilha das bordas durante um jogo.
Durante nossas aulas de anatomia, eu me sento atrás de Callum em vez
de ao lado dele porque não podemos evitar um ao outro completamente lá
também. Estou dando tempo a ele, mas não vou deixar que ele me esqueça.
Vou ficar o mais perto que puder.
Toda vez que meus olhos se encontram com os dele, vejo uma tristeza
neles. Uma saudade.
Ele está se machucando tanto quanto a mim ao colocar essa separação
entre nós.
Ou talvez punindo a si mesmo.
De qualquer forma, eu odeio isso pra caramba.
Se eu o respeitasse menos do que respeito, estaria acabando com isso.
Pelo menos vencemos nosso primeiro jogo do fim de semana hoje à noite,
mas apenas por um ponto. Normalmente, como era um jogo em casa, eu teria
oferecido uma carona para Callum depois. Ou insistido mais uma vez que
ele fosse para casa comigo. No entanto, Jesse estava lá, e eu os vi entrando
no carro dele juntos depois do jogo.
Ele tem muita sorte de ser colega de quarto do Callum.
Se fosse Eric, o fedor de borracha queimada estaria enchendo o ar frio da
noite enquanto eu saía atrás deles.
Em vez disso, vou para casa obedecendo às leis de trânsito.
Alguns dos caras estavam saindo para tomar cerveja depois do jogo, mas
quando Callum recusou o convite, eu senti que estava tudo bem para eu
fazer isso também. A última coisa que eu sinto vontade de fazer hoje à noite
é fingir que estou de bom humor quando definitivamente não estou.
Felizmente, não é o tipo de humor que requer um certo tipo de liberação.
Além disso, mesmo que fosse, acho que não conseguiria fazer isso. Não sem
Callum. Não quando prometi a ele que daria isso de novo em breve.
Eu o terei de volta eventualmente. Eu deveria salvá-lo.
Eu só queria saber o que está acontecendo com ele para poder consertar
isso.
Assim que chego em casa, tomo um banho rápido e visto um short de
basquete. Pego uma barra de proteína e um saco de salgadinho de cebola e
desabo no sofá. Estou muito cansado para tentar pensar em outra coisa para
o jantar, e não estou com tanta fome assim de qualquer maneira. Como
metade da barra de proteína e algumas batatas fritas antes de pegar meu
telefone e abrir minhas mensagens com Callum.
Estou assumindo que dar tempo a ele inclui dar espaço a ele também. Mas
ele também está bem ciente de que não vou deixá-lo ir sem lutar.
Com qualquer outra pessoa, eu estaria jogando meu orgulho pela janela.
Com Callum, eu não tenho nenhum, para começar.
Então mando uma mensagem para ele.

Eu: Já resolveu suas coisas?


Ele não lê a mensagem imediatamente.
Novamente, não tenho orgulho para ferir quando se trata dele, olhando
para a tela até que a mensagem diga lida. No entanto, mesmo depois disso,
vários minutos se passam antes que ele esteja digitando uma resposta. Uma
resposta curta, ainda por cima.

Callum: Não.
Solto um suspiro e me encosto nas almofadas. Juro que ele é um dos
homens mais teimosos que já conheci.
Não é de se espantar que ele jogue hóquei.

Eu: Posso ajudar em alguma coisa?

Callum: Não.
Da próxima vez que ele quiser algo mais violento, não terei problemas em
atender.
Estou prestes a desistir por hoje - com planos de recomeçar logo de manhã
- quando recebo outra mensagem.

Callum: Por que você acha que algumas pessoas fazem coisas ruins?
Finalmente. Agora estamos chegando a algum lugar.
No entanto, é um enigma. Um que eu tenho que decifrar.
Ele está falando sobre si mesmo? Ele tem se sentido culpado pelo quanto
ele gosta da morte?
Ele está falando de mim? Ele está tendo dúvidas sobre dividir a cama com
um assassino?
Ou ele está falando de outra pessoa completamente diferente?

Eu: Depende. De que tipo de pessoas estamos falando?


Observo por cerca de dois minutos enquanto aqueles pontos dançam na
minha tela.

Callum: O tipo de pessoa que você sabe que o bem existe nela porque
você viu. Mas você também viu o mal. Talvez eles sejam mais maus do que
bons. Talvez eles tenham tendências psicopáticas. Ou talvez eles sejam
realmente apenas psicopatas. O tipo de pessoa que nunca machucaria você,
mas machucaria outras pessoas. É apenas a maneira como eles são
programados?
Certo, então é sobre mim.
Ele descobriu que eu matei o padrasto dele? Isso parece improvável. Se
tivesse descoberto, suspeito que ele seria mais direto.
Talvez eu não devesse ter contado a verdade sobre meus desejos
assassinos, afinal? Talvez eu devesse ter contado a versão da verdade que
minha irmã conhece, aquela que, se eu tivesse contado a ele desde o começo,
poderia tê-lo levado a juntar as peças do quebra-cabeça de quem realmente
matou seu padrasto.
Eu deveria ter contado as duas coisas. Prefiro que ele saiba de tudo.
O que significa que preciso parar de guardar segredos dele. Todos eles.
Claro que não posso contar todas as verdades a ele pelo telefone, e é por
isso que ele está enviando mensagens em código.

Eu: Isso é parte disso. Mas talvez às vezes eles tenham mais razões do
que isso. Talvez eles se entreguem a esse lado de si mesmos enquanto
também buscam algum tipo de propósito maior ou absolvição. Algo que os
ajude a se sentirem um pouco menos mal do que realmente são.

Callum: Acho que todos nós estamos lutando contra a escuridão de


nossas mentes.

Eu: Não estamos lutando. Estamos sobrevivendo.


Alguns minutos se passam antes que ele responda.

Callum: Boa noite, Stone.

Eu: Boa noite, Callum.


Quase digo a ele que ele é meu.
Quase digo a ele que vou buscá-lo.
Quase conto a ele o que estou morrendo de vontade de contar há semanas.
Em vez disso, vou para a cama. Porque é isso que tenho que fazer por ele
agora.

Nosso segundo jogo do fim de semana não vai tão bem quanto o primeiro.
É outro jogo de um ponto, exceto que, dessa vez, o ponto é a favor do outro
time.
Eu até consegui me manter sob controle de alguma forma depois que um
dos tacos do time adversário atingiu Callum acima dos ombros enquanto
eles estavam lutando na frente do goleiro. Enquanto eu deixava aquele
jogador patinar para a área de penalidade, eu peguei o olhar de Callum. Não
posso dizer que estava cheio de decepção, mas sei que ele estava pelo menos
um pouco orgulhoso.
Até que o jogador que o acertou com o taco no alto voltou ao gelo e eu
acidentalmente o derrubei na jogada seguinte.
Se ele pensava que eu não me importava mais, ele estava enganado.
Se alguma coisa, ele me tem tão firmemente enrolado em seu dedo que eu
estava disposto a me vingar em um grau menor e tomar uma penalidade
menor em vez de uma maior. No entanto, se ele espera algo menos, não acho
que sou capaz de me segurar tanto assim.
Mesmo conseguindo me conter um pouco, ainda perdemos.
Callum parecia mais descansado, mas ainda havia algo que me
preocupava. Como se ele não estivesse totalmente ali. Muito dentro de sua
própria cabeça. Não que eu esteja culpando a derrota nele. Nenhum de nós
jogou o nosso melhor jogo. Eu preferiria culpar todos os caras que saíram
para comemorar ontem à noite.
Eles definitivamente não estão comemorando esta noite.
Ao sair do vestiário, vejo Callum indo para a saída dos fundos. Não vi
Jesse aqui esta noite, então me pergunto se ele está planejando ir andando
para casa. Tenho que ir para o estacionamento de qualquer maneira, então
não é tecnicamente perseguição quando o sigo.
Estamos na metade do estacionamento de funcionários e alunos, e Callum
continua. Então, sim, parece que ele está caminhando para casa.
Ou pelo menos planejando fazer isso.
Mas tenho planejado algo diferente.
Vinte e Cinco
Callum
Como seria sobreviver à escuridão da minha mente? Além do que eu já
tive que fazer.
Eu sei como seria.
Eu pertenceria a Stone.
Eu me entregaria a ele completamente. Eu não daria a mínima para quem
ele matasse, contanto que ele matasse por mim.
Eu seria dele.
Totalmente, inequivocamente dele.
Mas ele seria meu também.
Eu o ouvi naquela noite no quarto do hotel enquanto ele aquecia os dedos
na minha bunda e eu estava cochilando. Ele se entregou a mim, então por
que eu não posso me entregar a ele? É só teimosia? É medo? É que a pouca
luz que minha alma pode possuir está tentando tanto impedir que a
escuridão a apague antes que ela fique preta?
Estou tão cansado de ser teimoso e medroso que quase não me importo
com o resto.
É onde minha cabeça esteve a noite toda. Não no jogo que acabamos de
perder. Não para onde meus pés estão me levando. Eles estão no piloto
automático, e eu só posso esperar que eles estejam me levando na direção de
casa.
Se me levassem para o Stone, eu não ficaria surpreso.
Estou tão fora de mim que não percebo que cheguei ao fim do
estacionamento até começar a descer o caminho entre dois dos prédios
acadêmicos no meu caminho pelo campus. Também não registro o som de
passos atrás de mim até que eles estejam bem em cima de mim.
Uma mão cobre minha boca, me impedindo de gritar em choque. A
próxima coisa que sei é que minhas costas estão pressionadas contra a
parede do prédio mais próximo, uma segunda mão na parte de trás da
minha cabeça para evitar que ela bata no tijolo.
— Sou só eu.
A voz de Stone chega até mim menos de um segundo depois, me
impedindo de entrar em pânico por mais de dois batimentos cardíacos
acelerados. Porque ele não conseguiu se anunciar antes está além da minha
compreensão.
Ele achou que eu fugiria dele?
Imagino que seja exatamente por isso, porque a mão dele ainda está
cobrindo minha boca e seu corpo me prendendo entre ele e a parede.
— Tenho que quebrar minha promessa a você novamente, Callum.
Bem, isso parece ameaçador.
No entanto, não entro em pânico nem luto porque, apesar do que ele disse,
não tenho medo dele.
— Eu tenho que te forçar a fazer algo. Eu preciso que você venha comigo
para algum lugar hoje à noite. Não é meu apartamento, mas eu não posso te
dizer onde.
O primeiro lugar que minha mente vai é que ele finalmente vai matar por
mim de novo. Eu não percebi quanta tensão eu estava segurando até que ela
desapareceu.
Stone deve sentir isso porque ele diz: — Não é uma morte.
A decepção que se segue deixa algo bem claro.
Eu o quero.
Eu quero as mortes dele.
E acho que não me importo com o que mais vem com isso.
A mão de Stone cai, movendo-se para a parede ao lado da minha cabeça.
Seus olhos imploram para mim no escuro. — Não diga não.
— Se eu disser?
Um canto da boca de Stone se inclina para cima. — Eu sempre posso te
enfiar no porta-malas do meu carro de novo.
Reviro os olhos, mas não consigo dizer se é uma brincadeira.
— Sério, Cal. Por favor, confie em mim.
Suas sobrancelhas estão franzidas, aquela visão familiar de uma luta
interna acontecendo logo atrás de seus olhos. Ele não quer me forçar. Se eu
tivesse que adivinhar, ele nem sequer tomou uma decisão sobre se iria em
frente com isso.
Eu escolho ter misericórdia dele e não fazê-lo decidir.
— Bem.
Uma leve rajada de ar quente passa fantasmagórica pelos meus lábios
enquanto ele solta um suspiro. Tem gosto de alívio.
Não sei se estou chateado por ele ainda estar me tratando com tanto
cuidado ou se estou espantado com qualquer superpoder que eu tenha sobre
um assassino literal. Se eu me dirigisse para o último, talvez essa primeira
parte não me incomodasse tanto.
Colocando minha palma contra seu peito, eu empurro. Ele recua
facilmente.
Não consigo deixar de sorrir. — Você é meio que minha vadia, não é?
— Sim — ele responde sem hesitar um segundo.
Balançando a cabeça, eu rio. — Vamos, vadia.
Nós voltamos para o estacionamento, e eu sigo Stone até seu carro. Ele
ruge para a vida, e o assento faz barulho sob mim enquanto ele sai do
campus e vai para a rodovia.
— Você ainda não pode me dizer para onde está me levando?
Seus olhos permanecem na estrada à frente. — Pensilvânia.
— O quê?
Meu coração imediatamente sobe à garganta. Voltei para a Pensilvânia
para jogos, é claro, mas a ideia de voltar para lá com Stone me deixa nervoso.
Ele se estica e segura minha mão, apertando-a. Tirando o olhar da estrada
o suficiente para me dar um sorriso reconfortante, ele diz: — Confie em mim.
Eu posso confiar em Stone. Eu confio em Stone.
— OK.
Ele tira a mão, e eu quase a pego de volta. Porque sei que estou mais perto
de tomar uma decisão sobre ele. Sobre tudo.
Mas vou esperar até o que quer que Stone tenha planejado.

Chegamos à Pensilvânia um pouco depois da meia-noite. Devo ter


cochilado porque quando meus olhos se abrem, percebo que o carro não está
mais se movendo.
Olhando pela janela, vejo que estamos estacionados na entrada de uma
casa térrea de tijolos vermelhos em um bairro agradável e tranquilo. Olho
para a minha esquerda e vejo Stone rolando a tela sem rumo em seu telefone.
— Há quanto tempo estamos estacionados?
— Cerca de quinze minutos. — Ele desliga a tela e me encara. — Eu não
queria te acordar.
Apesar de ter acabado de dormir em um carro, eu estava relaxado. Não
dormia tão profundamente há dias.
A luz da varanda da frente inunda o rosto de Stone, e o sorriso fácil ali me
faz esquecer completamente qualquer moral estúpida à qual eu ainda possa
estar me apegando.
Eu poderia tentar salvar minha alma correndo o risco de perder minha
mente para as sombras. Ou eu poderia deixar Stone salvar minha mente e
me preocupar com minha alma mais tarde. Ele me salvou tantas vezes, talvez
ele encontrasse uma maneira de salvar isso também.
— Onde estamos? — pergunto enquanto olho para a casa.
— Minha casa. Bem, a casa da minha família.
Meu olhar se volta para ele. — Por quê?
Sinto que deveria estar surtando agora com a ideia de conhecer a família
de Stone. Mas não estou. Talvez só um pouco surpresa.
— Você verá — é tudo o que ele diz antes de abrir a porta e sair do carro.
Eu o sigo para fora e para a porta da frente da casa. Ele a destranca com as
chaves na mão, e nós entramos. Não tenho certeza do que eu estava
esperando, mas não acho que era algo tão... normal.
Um sofá de couro marrom e um conjunto de sofás ocupam a maior parte
da sala de estar, cercando uma mesa de centro de mogno. Embora já passe
da meia-noite, a luz de uma luminária em uma das mesas laterais lança um
brilho amarelo fraco no cômodo. Fotografias de família ocupam espaço em
algumas pequenas estantes de livros e estão penduradas ao longo das
paredes. Acima da lareira, há um grande retrato de um jovem Stone com sua
irmã e seus pais. Há uma pequena cabana de madeira e um lago ao fundo.
Stone me contou um pouco sobre sua família. Como seu pai morreu
quando ele tinha doze anos. Como sua mãe trabalha demais como
enfermeira de pronto-socorro. Como sua irmã mais velha ainda mora em
casa para ajudar a mãe e trabalha no antigo escritório do pai como analista
de TI.
Acho que, mesmo sabendo de tudo isso, não tentei imaginar como seria a
casa de pessoas que criaram um serial killer.
— Minha mãe está no trabalho agora — Stone diz enquanto olha pela
esquina para a cozinha onde a luz acima do fogão está acesa. Ele se vira para
mim e pergunta: — Você gostaria de beber alguma coisa?
— Estou bem.
Estou mais curioso sobre o que estamos fazendo aqui.
— Tudo bem. Vamos lá.
Ele segue por um corredor, e eu o sigo. Há mais fotos emolduradas
alinhadas nessas paredes também. Algumas são dos pais dele. Algumas são
dele e da irmã. Há fotos de formaturas, festas de aniversário e férias. Eles
parecem uma família tão feliz.
Algo no meu peito dói. Algo para mim e algo para Stone também.
Chegamos a um conjunto de portas duplas, e Stone bate. Dois segundos
depois, há um zumbido mecânico e então um clique, como uma fechadura
elétrica.
Quando ele abre a porta, a primeira coisa que me chama a atenção é o
contraste entre este cômodo e o que vi do resto da casa.
Aqui está a falta de normalidade.
Há pelo menos meia dúzia de telas de vários tamanhos ocupando a parede
mais distante. Uma mesa de canto está situada no lado direito da sala com
outra mesa empurrada contra ela. A única luz vem do brilho dos monitores
e LEDs de arco-íris abaixo das mesas e piscando de vários teclados.
É como uma espécie de covil maligno.
Eu me viro para Stone e arqueio uma sobrancelha. — Analista de TI?
— Entre outras coisas.
A voz feminina vem de mais para dentro da sala. Quando o que parece
ser uma cadeira de jogo cara gira, vejo a irmã de Stone empoleirada nela com
as pernas cruzadas.
Acho que a reconheceria mesmo se não estivéssemos dentro desta sala
nesta casa. Eles são tão parecidos. Mesma pele de marfim e sorriso lindo.
Mesmos olhos penetrantes, embora os dela pareçam ser de um tom mais
brilhante de verde. A maior parte do cabelo dela é preta como a de Stone,
mas as seções frontais ao redor do rosto são de um rosa-choque.
Ela sorri para o irmão e salta da cadeira antes de atravessar a sala e se jogar
nele.
— Já estava na hora, idiota — ela diz enquanto se afasta do abraço e lhe
dá um tapa no ombro.
Ele ri. — É bom ver você também, Lace.
Ela se vira para mim, ainda sorrindo. — Este deve ser Callum.
Olho para Stone com outra sobrancelha levantada.
— O quê? — ele pergunta com um sorriso descarado. — Não consigo ficar
quieto sobre você. Você está realmente tão surpreso?
Balançando a cabeça, viro-me para Lacey com as bochechas um pouco
coradas. — É um prazer conhecê-la. Espero que não tenha acreditado em
tudo o que ele disse.
— Eu não sei. — Ela dá de ombros. — Ele nunca mentiu para mim antes.
— Apenas por omissão — admite Stone.
— Veja, até isso é verdade. — Lacey ri baixinho enquanto me encara. —
Ele já me contou o que você veio ouvir.
— O que eu… — Olho entre os dois. — Desculpe. O quê?
— Você sabe. Sobre como ele escolhe suas vítimas. Ou, tecnicamente,
como eu as escolho para ele.
Puta merda.
Bem, se Stone estava planejando jogar uma bomba em mim esta noite,
missão cumprida.
Quando meus olhos encontram os dele, vejo um olhar familiar neles. Ele
está me observando, me estudando. Vasculhando tudo o que vê enquanto
disseca minha reação. Não tenho certeza do que ele testemunha ali porque
não tenho a mínima ideia do que diabos pensar agora.
Voltando-me para Lacey, pergunto-lhe: — Você sabe o que ele faz?
Ela ri de novo. — Claro. As primeiras vítimas dele foram os três homens
que me agrediram quando eu tinha dezenove anos. Isso fez com que nós dois
nos sentíssemos muito melhor.
Agora é só bomba após bomba. Elas estão explodindo na minha mente, e
tenho a sensação de que vou sentir os tremores secundários por um longo
tempo depois desta noite.
Lacey era a pessoa de quem Stone estava falando quando disse que
alguém próximo a ele havia sido atacado. Ele passou muito tempo
pesquisando o que vem depois de um ataque como aquele. Ele matou por
ela. Suas primeiras mortes.
Seus instintos de proteção claramente não começaram comigo.
Aquece meu coração que ele ame tanto a irmã. Que ele seja capaz disso.
Admito que sinto algum alívio.
O jeito que Lacey fala faz parecer que não é grande coisa. Eu sei que isso
não pode estar certo. No mínimo, ela fez muita cura. Talvez mais do que eu.
Seria egoísmo da minha parte ficar com ciúmes, então eu foco nas últimas
palavras dela. Claro, eu não acho anormal se alegrar com a morte do seu
agressor. No entanto, o puro deleite no tom dela me faz pensar se ela poderia
compartilhar algumas das tendências psicopáticas de Stone.
Mas a maior revelação é que Lacey sabe. Ela não só sabe, mas escolhe suas
vítimas para ele.
— Como? — Minha voz falha na única palavra. Eu limpo minha garganta.
— Como você os escolhe?
— Eu vou te mostrar — ela diz, parecendo muito feliz em fazê-lo
enquanto agarra minha mão e me puxa em direção à sua configuração
impressionante.
Stone nos segue, permanecendo em silêncio.
Lacey se joga na cadeira e a rola até ficar na frente de um teclado diferente.
Ela começa a digitar, os sons estridentes dos interruptores mecânicos
enchendo a sala. A tela maior na nossa frente alterna entre várias janelas e
aplicativos. Enquanto isso, outras telas parecem estar executando código de
computador ou operando por conta própria.
— Aqui. — Ela aponta para um dos monitores menores onde fotos de
presos estão passando junto com nomes e informações. — Criminosos
sexuais registrados.
— É isso? — pergunto, um pouco menos impressionado.
Ela ri e balança a cabeça. — Não.
Reviro os olhos, mas não consigo conter um sorriso.
Os dois também são espertinhos.
— É apenas uma referência que eu uso — diz Lacey. — Entre muitas
outras. A maioria dos nomes que envio para Stone não está nesta lista. São
aqueles que não foram pegos e punidos que estamos mais interessados.
— Então como você conseguiu esses nomes?
A mão de Stone toca minha parte inferior das costas. Olho para ele por
cima do ombro e o vejo encarando a tela maior, seu maxilar estalando. Ele
gravita para mais perto de mim, como se tivesse medo de que eu
simplesmente desaparecesse a qualquer segundo.
Lacey abre um navegador Tor. Eu o reconheço porque o usei uma vez, há
muito tempo.
— Há muitos sites na dark web que são espaços seguros para
sobreviventes de agressão sexual e violência doméstica. Não é só para
criminosos, sabe. Criei meu próprio site depois que Stone veio até mim e
disse que queria fazer mais, que queria justiça para mais pessoas do que
apenas eu.
Olho para Stone novamente. Desta vez, ele encontra meu olhar com um
olhar penetrante.
Então sua irmã não sabe sobre seus impulsos assassinos mais básicos.
Eu posso viver com isso.
Especialmente se isso significa que Stone está matando pessoas que
merecem.
O que isso significa para o tio de Eric, eu ainda não sei. Agora mesmo, essa
é a última coisa em minha mente.
Porque quando Lacey abre um fórum com uma URL que consiste em uma
sequência de letras e números aleatórios... eu também reconheço isso.
— Normalmente, espero até que esses nomes tenham alguns casos contra
eles — ela diz enquanto percorre vários tópicos. — A menos que o crime seja
mais grave ou haja vidas inocentes em risco. Gosto de ter certeza antes de
enviá-los para Stone para que ele possa eliminar a escória do universo um
por um. Mas então tem…
Não estou mais prestando atenção no que ela está dizendo. Meus olhos
ficam um pouco fora de foco, luzes multicoloridas piscando na minha visão
periférica.
— Callum?
A voz de Stone me puxa de volta para sua gravidade, e eu me viro para
encará-lo. — Foi você.
Seu corpo está rígido, sua boca em uma linha fina. A subida e descida de
seu peito é um pouco mais áspera do que o normal, combinando com o
lampejo de medo em seus olhos.
— Você matou meu padrasto. — As palavras saem como um sussurro
trêmulo, mas cheio de convicção.
Eu sei.
Stone nem pisca enquanto me mantém prisioneiro com nada além de seus
olhos. Eles estão tão cativantes como sempre. Ele tem medo de que eu saia
correndo a qualquer momento, mas mesmo se eu tentasse, acho que me
perderia nas florestas que compõem sua alma.
— Uau. — Lacey quebra o breve silêncio. — Quem era seu padrasto?
Não quebro a conexão entre mim e Stone desviando o olhar enquanto
respondo. — Lewis Gibson.
— Lewis Gibson. Lewis Gibson. — Lacey murmura o nome dele várias
vezes. Não ouço o som das teclas, então acho que ela está tentando lembrar
o nome em vez de procurá-lo. — Oh merda. Desculpa, Callum.
Não sei pelo que ela está se desculpando. Pelo que ele fez comigo? Por
tudo que compartilhei naquele fórum porque, como ela disse, era um espaço
seguro? Por ter mandado o irmão dela matá-lo?
— Lace — Stone diz, o olhar ainda preso ao meu. — Você pode nos dar
um minuto, por favor?
— Claro. — Há o rangido da cadeira dela, o zumbido da fechadura
elétrica, o som dos passos dela, a porta se abrindo. — Só por favor não foda
no meu escritório.
Então estamos sozinhos.
O pomo de Adão de Stone se move com uma deglutição. — Callum, eu...
— Você me salvou.
Seus lábios se separam, e uma rajada de ar passa por eles. Seus ombros
caem como se o peso do mundo tivesse sido tirado deles.
Ele realmente achou que eu o odiaria por isso?
Como ele pôde pensar que eu não seria grato?
— Por que você não me contou? Por que você não me contou nada disso?
— Eu não poderia te dizer que Lacey sabia, não sem a permissão dela. Eu
nunca disse a ela que gosto de matar só por matar. Ela pode suspeitar, mas
se continuarmos com a minha matança da escória do universo como ela
gosta de dizer, então ela não precisa se preocupar comigo saindo dos trilhos.
Mas eu também não poderia te dizer isso porque então você poderia ter
adivinhado que eu fui o único a matar Lewis. E... porra, Callum. Eu estava
com medo. Eu não posso...
Dando um passo à frente, coloco minha mão contra o lado do seu rosto.
— Você me salvou, Stone.
Ele se inclina para o meu toque. — Você teve que se mudar para um estado
totalmente diferente. Abandonar seus amigos. Isso mudou sua vida inteira.
— Para melhor.
— Desculpe por não ter te contado — ele diz enquanto coloca sua mão
sobre a minha, segurando-a para ele. — Eu simplesmente não sei o que faria
se te perdesse. Acho que não conseguiria aceitar. Eu faria qualquer coisa para
ficar com você. E nós dois sabemos que se eu te machucasse, eu teria que me
machucar também.
Sorrio e balanço a cabeça. — Isso é tão tóxico.
Sua outra mão sobe e envolve meu pescoço em uma demonstração de
posse contra a qual não tenho forças para lutar.
Que não quero mais lutar.
— Você entende o que estou lhe dizendo? — ele pergunta.
Seus dedos tremem em volta do meu pescoço. Seu corpo inteiro quase
vibra com o esforço de segurar o que ele realmente quer dizer.
Ele está guardando isso para mim.
Mas ele não precisa mais fazer isso.
— Que eu sou seu.
Outra respiração cheia de tensão sai de seus lábios e passa sobre os meus
enquanto ele se inclina para frente, pressionando sua testa contra a minha.
— Diga de novo.
— Eu sou seu, Stone. Eu pertenço a você.
Então ele me beija. E eu sei que ele vai me reivindicar tão completamente
que nunca mais vou duvidar.
Vinte e Seis
Stone
Callum Hayes é meu, porra.
Ele é meu já faz um tempo, mas graças às estrelas eu finalmente posso
dizer isso. Espero que ele esteja preparado para pertencer a mim pela
eternidade.
Eu o teria reivindicado depois que ele disse essas palavras, mas eu tinha
trabalho a fazer.
Ele estava exausto do jogo e da longa viagem e de todas as revelações que
não esperava ter esta noite, então o levei para meu antigo quarto e coloquei
nós dois na cama. Ele adormeceu agarrado a mim, o que tornou um pouco
difícil me livrar sem acordá-lo.
Fiquei fora por quase duas horas. Quando volto, Callum ainda está
dormindo pacificamente na minha cama.
Tomo um banho rápido, esfregando a sujeira e o sangue, antes de subir de
volta com ele. Eu me acomodo atrás dele, envolvendo meu braço em volta
de sua cintura e puxando-o para perto. Não demora muito para eu me juntar
a ele no sono.
Algumas horas depois, sou arrancado do sono quando o corpo que ainda
estou segurando começa a se contorcer e choramingar.
Não tenho certeza se minha mente está totalmente acordada ainda, mas
meu corpo se move como se soubesse exatamente o que fazer. Depois de
molhar meu dedo com minha própria saliva, deslizo minha mão por baixo
do cós da cueca dele.
— Você está bem, Callum — sussurro em seu ouvido enquanto
lentamente empurro meu dedo dentro dele.
Ele se contorce e soluça, mas eu não paro.
Transforme todas as minhas coisas ruins em boas.
— Sou eu, bebê. Você está seguro.
Enquanto enfio meu dedo um pouco mais fundo, ele começa a relaxar. Ele
solta um pequeno suspiro no travesseiro, um ruído mais calmo do que os
que ele vinha fazendo antes.
— Stone — ele murmura, sua voz rouca de sono, ainda sem ter acordado.
— Estou aqui. Essas sombras não podem te tocar quando estou com você.
Mais da tensão em seus músculos se afrouxa.
Enquanto isso, meu pau está ficando duro enquanto estou aqui deitado
com meu dedo em sua bunda.
Ele disse que eu poderia usar meu dedo ou meu pau…
Porra, eu só quero estar dentro dele.
Beijo-o suavemente no pescoço, abaixo da orelha, antes de remover meu
dedo. Rolando apenas o suficiente para alcançar o frasco de lubrificante que
eu poderia ter deixado estrategicamente em cima da mesa de cabeceira,
agarro-o e rolo para trás. Abaixo nossas boxers e aliso meus dedos e meu
pau. Lentamente, empurro meu primeiro dedo de volta para dentro dele e
trabalho em um segundo, esticando-o para abrir. Ele suspira novamente e
murmura algumas palavras ininteligíveis.
Ele realmente dorme muito mal.
Depois de fazer o que posso com meus dedos, eu os tiro e alinho a cabeça
do meu pau com seu buraco. Lenta e cuidadosamente, eu empurro para
frente, empurrando gentilmente além de sua borda.
Callum grunhe, e eu fico parado.
Ele fica um pouco rígido de novo, mas apenas por alguns segundos.
Conforme sua tensão se desenrola mais uma vez, eu avanço um pouco mais
fundo. Centímetro por centímetro firme, eu enfio meu pau dentro de sua
bunda apertada e quente.
Ele está perfeitamente relaxado agora, respirando firmemente. Eu agarro
seu quadril e tento estabilizar minha própria respiração. Ele é tão bom pra
caralho. O prazer formiga na base da minha espinha. Quando ele geme e
rebola os quadris, minha respiração me deixa completamente.
Ele também disse para acordá-lo assim.
Eu me afasto até que apenas a cabeça do meu pau ainda esteja dentro dele.
Excruciantemente fodendo devagar, eu empurro de volta.
Eu mantenho cada estocada sem pressa. Só para senti-lo.
— Mais forte.
Meus quadris vacilam. Eu fico imóvel de novo, apertando meu aperto em
sua cintura para me impedir de empurrar de volta nele. — Porra. Você está
acordado?
— Estou agora. — Sua voz é rouca e ainda um pouco sonolenta enquanto
ele empurra meu pau de volta. — Foda-me mais forte, Stone.
Esse é todo o empurrãozinho que preciso.
Eu imediatamente pego um ritmo brutal, fodendo nele com uma urgência
selvagem. Os lençóis se movem abaixo de nós onde estamos deitados de
lado. Callum geme alto enquanto pega minha mão que ainda está segurando
seu quadril, apertando-a através de qualquer sentimento que esteja
iluminando seu corpo. Então ele a puxa para longe dele e a arrasta sobre sua
cintura e para seu pau. Quando meus dedos o envolvem, eu o encontro já
duro e vazando.
Seu próximo gemido é um comando não dito. Eu obedeço, acariciando-o
com um punho fechado.
— Esse pau é meu, não é? — pergunto, falando baixo em seu ouvido.
— Sim.
— Essa bunda é minha, não é?
— Sim.
Enquanto continuo a penetrar nele, deslizo meu outro braço sob sua
cabeça para poder envolver minha mão em volta de sua garganta. O barulho
que ele libera ressoa por nós dois enquanto ele afunda em mim, suas costas
pressionadas contra meu peito. Ele empurra na minha mão e de volta no
meu pau.
— Você é todo meu, não é, Cal?
— Sim. Todo seu — ele diz, soando próximo de soluçar. — Eu sou seu,
Stone.
— Porra, é isso mesmo. Vou te reivindicar e te marcar também. —
Abaixando minha cabeça, lambo um caminho onde seu pescoço e ombro se
encontram. — Bem aqui. Ok?
— Sim — ele diz novamente.
Cravo meus dentes na pele, mordendo até que ele resiste novamente,
fodendo meu punho enquanto se fode no meu pau.
— Porra — ele geme. — Vou gozar.
Eu adiciono um pouco mais de pressão com meus dentes. Não estou nem
perto de romper a pele, mas pelo menos as marcas dos meus dentes vão
durar um tempo.
Um momento depois, Callum grita enquanto jorros de esperma jorram
sobre minha mão e os lençóis. Sua bunda aperta em volta do meu pau, me
enviando para mais perto daquela mesma borda que Callum está voando.
Coletando o máximo de sua liberação que posso em dois dedos, eu os
trago para cima e pinto seus lábios com isso. Ele abre a boca e eu enfio meus
dedos lá dentro. Quando ele começa a chupá-los, gemendo enquanto lambe
seu próprio esperma, eu me desfaço, empurrando nele e derramando em sua
bunda.
Callum cai no meu colo.
— Ainda não terminei com você — sussurro em seu ouvido.
Soltando sua garganta, eu o rolo e o empurro para baixo até que seu peito
esteja plano na cama. Movendo-me para baixo, eu abro suas pernas e me
acomodo entre elas.
Ele me olha por cima do ombro, suas pálpebras ainda pesadas de sono e
agora uma névoa pós-orgasmo. — O que você está fazendo?
— Vou te mostrar o quanto você é meu.
Eu agarro seus quadris e puxo sua bunda para cima no ar. Agarrando cada
nádega, eu as abro e gemo ao ver seu lindo buraco, rosa e abusado e
brilhando com meu esperma. Eu me inclino para frente e passo minha língua
sobre ele.
— Oh, merda! — ele grita.
Se minha mãe estivesse em casa ou minha irmã não tivesse isolado
acusticamente seu escritório, eu poderia ter enfiado alguma coisa na boca de
Callum para mantê-lo quieto.
Mas, por outro lado, talvez eu não consiga.
Eu giro minha língua em volta do seu buraco, coletando cada gota da
minha liberação antes de empurrar além da sua borda. Ele se engasga com
um soluço enquanto empurra de volta contra o meu rosto.
Alcançando abaixo dele, agarro seu pau. Ele já está meio duro e dá uma
pequena contração na minha mão.
Recuando, pergunto: — Você vai gozar de novo por mim?
Ele balança a cabeça fracamente. — Não. Por favor.
Eu dou uma estocada leve nele, e ele endurece um pouco mais. — Tem
certeza? Você é tão bom em me dar dois, bebê. E você é lindo pra caralho
quando faz isso. Eu nunca vi ninguém mais capaz disso.
— Então é como um superpoder?
Eu rio. — É. Assim como um superpoder.
Ele choraminga enquanto empurra na minha mão, seu pau quase
totalmente duro agora. — Vou tentar.
— Bom garoto. Vou terminar de te limpar agora. Quero que você goze
com minha língua na sua bunda.
E é exatamente aí que minha língua retorna. Mantenho minha mão em
volta do seu pau, acariciando-o enquanto como sua bunda, saboreando nós
dois. Estou obcecado com os grunhidos, gemidos e choramingos que saem
dele enquanto extraio um segundo orgasmo. Lambo suas paredes internas,
sacudindo minha língua o mais fundo que posso para engolir cada
pedacinho do meu esperma que esteve dentro dele.
Seu corpo inteiro convulsiona enquanto ele se desfaz, e seu gozo escorre
pelos lençóis.
Eu o mantenho ereto mesmo quando o sinto perto de desabar. Depois de
dar uma última lambida em seu buraco, eu volto para a cama, puxando-o
comigo para o meu lado para mantê-lo longe da bagunça que ele fez. Eu vou
trocar os lençóis de manhã.
Callum se enrola contra mim, nossos peitos suados e arfantes. Ele me beija.
Fico um pouco surpreso quando sua língua cutuca meus lábios. Eu nunca o
negaria, então os afasto, sua língua imediatamente mergulhando para
provar a minha. Ele geme, então dá aos meus lábios um último roçar com os
seus antes de deixar sua cabeça cair no travesseiro.
— Obrigado.
— Essas sombras não podem te tocar quando estou com você — digo a
ele novamente, segurando-o um pouco mais forte.
Ele assente. — Eu não pertenço mais a elas. Eu pertenço a você.
— É isso mesmo, bebê.

Acho que Callum e eu dormimos como bebês depois da nossa diversão no


meio da noite. Nenhum de nós queria acordar quando meu alarme tocou de
manhã. Acabei cochilando pelo menos meia dúzia de vezes.
Podemos ter começado mais tarde do que eu queria, mas finalmente
estamos na estrada agora.
O sol está espreitando sobre as colinas cobertas de árvores à distância
enquanto dirijo pela estrada secundária que levará à surpresa de Callum.
Depois que saí da rodovia principal e me recusei a dizer a ele para onde
estávamos indo, ele passou os próximos cinco minutos resmungando.
Não me incomodou. Nunca estive tão feliz.
Ele também ficará feliz em breve.
Ele conheceu minha mãe esta manhã, o que eu não esperava. Ela tinha
chegado em casa em algum momento no meio da noite para dormir algumas
horas e tomar um café da manhã rápido antes de voltar para o hospital.
Estava tudo bem porque Callum e eu precisávamos ir, e eu me sentiria mal
por encurtar o tempo com ela. Prometi a ela que voltaríamos para visitá-la
em breve.
Callum deve ter terminado de ficar de mau humor porque ele se vira para
mim com um sorriso e diz: — Sabe, você e sua irmã são como Batman e
Alfred.
Bufo. — Sério?
— É. Você é meu Cavaleiro das Trevas. Você até tem o Batmóvel, e ela
comanda a Batcaverna.
— Isso faz de você Robin?
Ele zomba. — Nah. Robin é legal, mas ele não tem superpoderes como eu.
Alcançando o console central, pego sua mão e aperto. Só pelo simples fato
de que já sinto falta de tocá-lo. — É, você é muito mais legal que Robin.
Poucos minutos depois, depois de dirigir pelo meio do nada por um
tempo, paro em uma entrada de terra parcialmente escondida por árvores e
arbustos. O carro sacode sobre terra e as pedras por quase um quilômetro
antes de uma cabana de madeira aparecer. É pequena, apenas um quarto e
um banheiro. O lago atrás dela, no entanto, se estende por quilômetros.
Callum se inclina para frente em seu assento. — Essa é a cabana da foto
pendurada sobre sua lareira.
— Era do meu avô — explico. — Ele passou para o meu pai, e meu pai
passou para mim. Foi transferido para o meu nome quando eu tinha dezoito
anos. A terra provavelmente vale mais do que a cabana, mas tenho muitas
boas lembranças daqui. — Estaciono o carro e olho para a cabana à nossa
frente. — Meu pai costumava me trazer aqui para pescar. É tão silencioso.
Ninguém por perto por quilômetros. — Olho para ele e deixo meu olhar
percorrer seu corpo enquanto mordo meu lábio. — Ninguém por perto para
ouvir você gritar.
Ou qualquer outra pessoa, nesse caso.
Eu rio da maneira como as bochechas de Callum coram. Desligando o
motor, pego uma sacola do banco de trás e saio do carro enquanto ele faz o
mesmo.
— Então o que estamos fazendo aqui? — ele pergunta quando nos
encontramos na frente do carro. — Vamos pescar?
Agarrando sua mão novamente, puxo-o para mim e lhe dou um beijo. —
Eu já peguei o peixe. É hora de filetá-lo.
Seus olhos brilham, e eu sei que quero continuar fazendo-o feliz assim
pelo resto da minha vida.
Vinte e Sete
Callum
Quando entramos na cabana, a primeira coisa que vejo é o peixe que Stone
pescou.
O homem está amarrado a uma cadeira no meio da sala de estar com
lençóis de plástico no chão abaixo dele. Assim como eu tinha estado no
apartamento de Stone não muito tempo atrás.
Ele está sujo e ensanguentado, com o jeans rasgado. O cabelo curto está
espetado em todas as direções, e há fita adesiva sobre a boca. Um rastro de
sangue seco vai do nariz e sobre a fita até o queixo. A cabeça pende para um
lado, os olhos fechados.
— Quando você fez isso? — pergunto.
Stone vem atrás de mim, suas mãos na minha cintura enquanto ele se
inclina. — Ontem à noite, depois que você dormiu pela primeira vez. Eu só
fiquei fora por algumas horas.
Enquanto ele começa a depositar beijos suaves abaixo da minha orelha e
na lateral do meu pescoço, o homem na cadeira geme. Suas pálpebras
tremem. Quando ele nos vê, seus olhos se abrem e sua espinha se endireita.
— Você quer saber o que ele fez? — Stone sussurra em meu ouvido.
O sujeito começa a lutar contra as amarras que o prendem no lugar,
murmurando palavras por baixo da fita.
Tudo o que posso fazer é concordar.
Não preciso saber, mas depois de ver o quanto Eric ficou arrasado por
causa do tio, acho que pode ajudar.
Eu sei que preciso contar a Stone que alguém está atrás dele. Passei a maior
parte do caminho até aqui com os olhos no espelho lateral para ter certeza
de que não estávamos sendo seguidos. Mesmo sem saber que Stone estava
planejando isso, tenho sido extremamente cauteloso.
Mas não posso contar isso a Stone sem contar a ele quem. Mesmo que Eric
tenha invadido meu quarto e minha privacidade, ele ainda é meu amigo. Ele
é provavelmente o único cara do ensino médio que eu ficaria feliz em ver.
Não quero que Stone o mate.
Então, novamente, se Stone só mata os bandidos, o tio de Eric era um
deles? Se ele era, Eric sabe?
Talvez eu consiga descobrir como resolver tudo sem que ninguém morra.
Vou me preocupar com isso mais tarde, é claro.
— Você quer contar a ele, Matthew? — Stone pergunta ao homem como
se realmente pudesse.
Matthew para de lutar contra as cordas para encará-lo.
— Ok, tudo bem.
Stone tira as mãos da minha cintura, envolvendo os braços ao meu redor
para colocar as palmas das mãos espalmadas sobre meu estômago, a frente
pressionada contra minhas costas. Ele apoia o queixo no meu ombro
enquanto nós dois olhamos para frente, para seu refém.
Meu coração já está começando a bater descontroladamente com a
adrenalina, antecipando uma espécie de calma etérea que logo virá.
— Matthew aqui é um pedaço de merda fantástico. Ele passou oito anos
de seu casamento de nove anos batendo na esposa. A última vez foi tão ruim
que a colocou no hospital lutando pela vida.
Bem, pelo menos saber disso me deixou ainda mais ansioso para ver o que
Stone fará com ele.
Quero vê-lo ser aberto.
Quero vê-lo sangrar.
— Ele passou alguns anos na prisão enquanto sua esposa pedia o divórcio
e se mudava para longe. Mas aparentemente isso não foi bom o suficiente.
Ele ainda ama bater em mulheres. Você não, Matthew?
Mais uma vez, ele começa a se debater, e seus xingamentos abafados,
súplicas ou o que quer que ele esteja tentando dizer ficam mais altos.
Stone levanta o queixo, seus lábios roçando a concha da minha orelha. —
Você quer ouvi-lo gritar?
Novamente, tudo o que posso fazer é concordar. Minha respiração está
superficial e pesada. Minha cabeça está um pouco leve porque tenho certeza
de que todo o meu sangue está escorrendo para outro lugar.
Com certeza, quando Stone abaixa uma das mãos sobre minha virilha,
meu pau meio duro se interessa, engrossando ainda mais. Ele cantarola no
meu ouvido e esfrega contra minha bunda, seu pau ficando duro também
enquanto ele espalma o meu sobre meu jeans.
— Porra. Eu amo que você seja tão depravado quanto eu. Sua bunda foi
feita para o meu pau, e sua mente distorcida foi feita só para mim.
Tenho quase certeza de que ele foi feito para mim, mas vou deixá-lo
acreditar que é o contrário por enquanto.
Matthew também pode ser homofóbico, a julgar pela forma como a parte
do seu rosto que vejo se contrai em desgosto.
Mate-o, porra.
Stone me solta e dá um passo para trás. Eu quase gemo com a perda do
corpo dele contra o meu, mas estou muito animado para o que vem a seguir.
Ele me puxa para uma mesa que fica encostada na parede, bem ao lado da
porta, e diz: — Sente-se aqui. Você terá a melhor vista.
Não há cadeira - provavelmente é a que Matthew está ocupando - então
pulo em cima da mesa, ao lado da bolsa que Stone deve ter colocado ali
quando entramos.
Meus olhos dão uma rápida olhada ao redor da sala. Eu não tinha prestado
atenção nenhuma no interior da cabana quando meus olhos pousaram em
Matthew. Praticamente os únicos móveis na sala de estar são a escrivaninha
em que estou e um sofá de tecido bege gasto. Há algumas portas fechadas
que provavelmente levam a um quarto e um banheiro, e há uma pequena
cozinha à esquerda. Varas de pescar e fotos antigas estão penduradas nas
paredes.
Depois que Stone tira sua faca com cabo de pau-rosa de sua bolsa, ele se
aproxima de seu prisioneiro com um sorriso sinistro em seu lindo rosto.
— Meu cara quer ouvir você gritar, Matthew.
Os olhos do homem se arregalam. Suas narinas se dilatam.
Stone arranca a fita.
— Seus filhos da puta! Seus sujos e nojentos v...
Quando a faca de Stone está cravada profundamente em sua coxa, o grito
ensurdecedor de Matthew interrompe a calúnia homofóbica que, sem
dúvida, estava prestes a sair de sua boca. Só fica mais alto quando Stone
puxa a lâmina de volta.
Mesmo com as lágrimas se acumulando em seus olhos, Matthew ainda
encara Stone enquanto ele luta contra as cordas. — Eu vou foder vocês dois
tão feio que...
Stone enfia a faca na outra perna de Matthew.
Outro grito atravessa a cabana.
Inclinando-se para frente, Stone abaixa a voz para um rosnado assustador
e profundo enquanto Matthew choraminga. — Se eu já não estivesse
planejando te matar, certamente faria agora por pensar que você poderia
chegar perto dele. Ele é. Meu. Porra.
Meu pau pressiona dolorosamente o zíper da minha calça jeans ao ouvir
essas palavras.
Não é tanto o grito. Ou mesmo o sangue pingando das pernas do homem
nos plásticos.
É Stone.
Vê-lo solto é algo lindo.
Ele é o trovão estrondoso na tempestade.
As ondas violentas que viram os navios.
O vendaval uivante que arranca uma floresta.
Mas…
Quero vê-lo matar.
Stone torce a faca na perna de Matthew antes de puxá-la para fora. O
próximo grito é mais fraco, seguido por soluços sufocados e molhados.
Quando ele me encara, minha respiração fica presa. Seus olhos estão mais
escuros do que eu já os vi, pupilas dilatadas, quase nenhum verde visível.
O vendaval uivante que arranca uma floresta.
Ele anda em minha direção, com sangue pingando da faca. Mas isso não o
impede de jogá-la na mesa enquanto se acomoda entre minhas pernas,
passando os dedos pelo meu cabelo. Ele a agarra pela raiz e puxa minha
cabeça para trás. Quando meus lábios se abrem em um suspiro, sua língua
mergulha dentro da minha boca. Ele me devora, seus lábios se movendo
contra os meus com tanta força que acho que podem ficar roxos. Seus dentes
afundam no meu lábio inferior.
Meu pau fica completamente duro em um instante. Ele não está se
segurando nem por um momento. Eu agarro firme em seus quadris,
agarrando-me a ele como se minha vida dependesse disso. Porque mesmo
que eu esteja sentado, corro o risco de um colapso total.
Stone finalmente me dá uma chance de respirar quando ele puxa minha
cabeça mais para trás. Sua boca se move sobre meu maxilar até minha
garganta. Ele beija, lambe e morde enquanto eu fico ofegante, olhos
fechados, focado apenas em cada sensação que vem de seus lábios, língua e
dentes.
— Você tem algum pedido? — ele pergunta contra meu pescoço.
Suas palavras chegam aos meus ouvidos com rapidez suficiente, mas é
como se elas ricocheteassem no meu cérebro.
— Pedidos? — Minha própria voz soa distante.
Ele beija minha garganta. — Você me colocou na coleira, Callum. — Ele
lambe meu pomo de Adão. — Eu farei qualquer coisa por você. — Ele morde
minha pele. — Como você quer que eu o mate?
Oh.
Matthew está fazendo barulhos patéticos, grunhidos e choramingos. Mas
é pouco mais que ruído branco, enquanto imagens de todas as suas possíveis
mortes passam pela minha mente.
Antes que eu possa decidir por um, Stone pergunta: — Lento? Rápido?
— Hum. — Eu suspiro quando seus dentes raspam meu ponto de pulso.
— Rápido.
Embora eu ame ver Stone em ação, é a morte final que eu mais desejo.
Eu gemo enquanto ele esfrega sua ereção contra a parte interna da minha
coxa, dura como uma Stone em seu jeans. Ele esmaga sua boca na minha
novamente. É uma exploração ardente e apaixonada de sua língua quente
entre o toque avassalador de seus lábios macios e o beijo brutal.
Se eu tivesse que escolher entre isso, nós e o fim do mundo, eu escolheria
o mundo.
Já que o mundo não está acabando agora, o beijo deve acabar. Stone pega
sua faca e dá um passo para trás. Ele anda para trás sem tirar seus olhos
escuros de mim.
É como se ele ainda estivesse me possuindo.
— Por favor — Matthew choraminga, piscando para passar por todas as
lágrimas rolando por suas bochechas. — Eu não vou machucar mais
ninguém.
Agora ele quer implorar. E mentir.
Felizmente, sei que isso não vai parar Stone. Ele se aproxima, o ceifador
mais sexy que já vi, e contorna a cadeira até ficar atrás dela. Sem tocar no
homem com nada além da faca, ele desliza a lâmina suavemente e sem
esforço pela frente da garganta do homem. Há um grito confuso pouco antes
de uma cachoeira carmesim escorrer por seu pescoço, encharcando a frente
de sua camisa.
Estou hipnotizado enquanto observo cada uma de suas tentativas
desesperadas de respirar. Mais e mais sangue jorra, escuro, viscoso e
borbulhante. Seu corpo estremece. Seus olhos estão abertos, frenéticos,
pupilas dilatadas.
Estou encantado, sob o feitiço da Morte. Ou de Stone.
Talvez sejam a mesma coisa.
— Você é lindo pra caralho.
A voz de Stone me puxa um pouco em direção à superfície de onde eu
estava à deriva naquele mar de calmaria que provavelmente poderia me
levar tão longe que eu nunca mais conseguiria encontrar a costa. Talvez
enquanto Stone estiver lá, eu não me perca. Eu não me afogue.
Ele ainda está de pé atrás do homem sangrando na cadeira. Mas seus olhos
estão fixos em mim.
— O quê? — pergunto por que não consigo pensar em mais nada para
dizer.
Meu corpo e minha mente não parecem meus. Cada músculo está solto,
livre de tensão, estresse e preocupações. É como se eu nunca tivesse
conhecido o que é ter medo, raiva ou infelicidade. Nada de ruim existe.
Stone lentamente contorna a cadeira, deixando a faca cair no plástico
enquanto meu olhar retorna para a vida desaparecendo dos olhos de
Matthew. Stone toma cuidado para não atrapalhar minha linha de visão do
presente que ele me deu enquanto se aproxima. Mesmo quando ele para pra
ficar entre minhas pernas novamente, ele se inclina para um lado.
Com os lábios no meu ouvido, ele pergunta: — Você sabe o que a borboleta
monarca simboliza?
Estou flutuando tão longe que nem registro o quão aleatórias são suas
palavras. — Como no nome do nosso time?
— Sim. Você é tão lindo e gracioso quanto uma, especialmente quando
está voando pelo gelo. — Ele me beija abaixo da orelha, enviando um arrepio
bem-vindo pela minha espinha. — Mas elas também simbolizam
renascimento. Transformação. Vocês têm isso em comum também.
Enquanto Stone agarra minhas coxas e beija ao longo do meu pescoço,
minha cabeça se inclina, concedendo a ele mais acesso. Enquanto isso, a
cabeça de Matthew pende para baixo, o sangue ainda fluindo de seu pescoço
e se acumulando no plástico abaixo.
Ele está morto.
Eu sei por que posso sentir.
— O que você quer dizer? — Acho que digo em voz alta. Minha voz meio
que ecoa dentro da minha própria cabeça como se meus ouvidos estivessem
cheios de algodão.
— Eu posso ver isso em você. Uma metamorfose. Quando você
testemunha a morte, isso faz você se sentir vivo. Você está se livrando de
todas essas coisas ruins. Você está abandonando-as e se tornando algo ainda
mais bonito do que você já era.
Eu me inclino para trás, desviando o olhar de mais uma morte que me
mudou para olhar nos olhos de Stone. — Eu te amo.
Ele sorri. — Eu sei.
Porque ele sabe. Porque eu já disse a ele que sou dele. Uma vez que eu fiz
isso, eu já o amei. Essa foi minha grande confissão, não essa.
— Eu também te amo — ele diz. — Você é meu, Callum, e sempre será
meu. Eu quero te dar tudo o que você quer. Para sempre. Mas eu acho que a
única coisa que eu nunca poderia te dar se você quisesse era deixar você ir.
— Eu nunca vou querer isso.
Ele me beija. Não é tão selvagem e louco quanto o último. É tão profundo,
mas um pouco mais suave, um pouco mais lento. Mais uma vez, ele esfrega
sua ereção contra minha coxa. Não sei se estou duro de novo ou ainda duro,
mas meu pau responde pulsando em meu jeans.
— Eu quero que você me foda — Stone rosna contra meus lábios.
— Porra.
Como se suas palavras falassem com a parte mais primitiva de mim,
minhas mãos disparam para agarrar a parte inferior de sua camisa antes que
eu a tire dele. Eu a jogo fora, então coloco minhas mãos na parte de trás de
sua cabeça para puxar sua boca de volta para a minha. Ele me deixa controlar
o beijo por alguns segundos antes de remover minha camisa em seguida.
— Você gostaria disso, bebê? — ele pergunta enquanto passa as mãos pela
minha barriga até o meu peito. — Você quer foder um assassino?
Eu gemo enquanto ele aperta meus dois mamilos. — Sim. Porra, sim.
Ele mencionou isso antes. Mas, antes, eu estava com medo. Eu nunca
transei com ninguém.
E se eu for péssimo nisso?
No entanto, agora mesmo, não tenho a mínima preocupação no mundo.
Eu daria a ele qualquer coisa pelo que ele me deu.
Quando concordo, Stone está tirando os sapatos e abrindo o zíper da calça
jeans. Quando me abaixo da mesa, balanço um pouco, minhas pernas estão
fracas. Stone me ajuda a me firmar, depois desfaz minha calça jeans também.
Ele alcança minha boxer e agarra meu pau duro. Eu gemo e empurro em sua
mão.
— Porra. Preciso de você dentro de mim.
— Então vá para o sofá, porra.
Ele sorri enquanto me solta e pega sua bolsa, pegando um frasco de
lubrificante. Então ele tira o resto de suas roupas e dá um passo para trás. Eu
mordo meu lábio enquanto meus olhos percorrem seu corpo glorioso e nu.
Eles olham brevemente para o morto atrás dele, então de volta para ele.
Nunca quis transar com ele tanto quanto agora.
Meu lindo assassino.
— Stone. — Seu nome sai como um gemido, um lamento e uma súplica.
— Eu te quero tanto.
— Então venha me buscar.
Eu abaixo meu jeans e saio dele. Enquanto ele anda para trás, meu olhar o
segue antes que eu consiga fazer meus pés fazerem o mesmo. Quando meu
cérebro lento os convence a se moverem, ele já está no sofá. Eu ando pela
cena do crime, evitando as lonas de plástico, e paro no final do sofá enquanto
Stone fica em pé na frente dele.
Nossos olhos ainda estão travados. Então os meus caem em seu pau
enquanto ele o acaricia.
— Você quer me preparar ou quer me ver fazer isso sozinho? — ele
pergunta, com a voz sedutora e rouca.
Porra.
Posso dizer as duas coisas?
Mesmo que meu coração esteja acelerado e minha respiração esteja um
pouco irregular, ainda estou naquele torpor pós-morte, naquele estupor
feliz. Se algum dia eu tiver confiança para fazer isso, será agora.
— Posso?
Ele geme. — Porra, sim. Deite-se.
De alguma forma, consigo fazer meus pés se moverem novamente. Deito-
me e Stone sobe em cima de mim, montando em mim com sua bunda na
minha cara. Não tenho a chance de fazer nada antes de uma boca quente e
molhada envolver meu pau.
— Porra.
Fecho os olhos e jogo a cabeça para trás enquanto ele me chupa para baixo.
Sua língua desliza ao longo do meu eixo enquanto seus lábios se movem da
base para a ponta. A sucção, o calor, o fato de que é a boca de Stone em mim,
tudo isso é perfeito pra caralho.
Então o calor dele desaparece.
— Você esqueceu o que deveria estar fazendo?
— Sim.
Ele ri e então pega meu pau de volta em sua boca. Tento me concentrar
além do prazer percorrendo por mim. Quando eu alcanço para massagear
sua bunda, ele geme, o som retumbando em volta do meu pau e tornando
esse esforço ainda mais difícil.
Abrindo suas nádegas, gemo ao ver seu buraco.
Quero entrar nele, porra.
Levantando minha cabeça, lambo ao redor de sua borda, e ele geme
novamente. É encorajador, então eu faço de novo. E de novo. E... porra.
Simples assim, eu estou viciado. Precisando de mais, eu enfio minha língua
dentro dele como ele fez comigo. Seu próximo gemido é tão alto e tão longo
que eu tenho que me segurar para não gozar em sua boca.
Enquanto eu trabalho em um dedo junto com minha língua, Stone se estica
para trás, me entregando o frasco de lubrificante. Eu o pego e removo minha
língua e dedo de sua bunda para derramar um pouco em minha mão e sobre
seu períneo.
Estou tremendo pra caralho por todo o corpo pelo esforço de lutar contra
um orgasmo enquanto ele continua chupando meu pau enquanto eu
lentamente enfio um dedo de volta dentro dele. Então dois. Eventualmente,
eu coloco um terceiro dentro dele. A essa altura, minhas bolas estão
apertadas, e há chamas lambendo a base da minha espinha.
Antes que as coisas acabem, muito antes do que eu gostaria, Stone sai de
cima de mim.
— Preciso de você dentro de mim, Cal. — Ele rasteja para frente e apoia
os antebraços no braço do sofá. Ele olha para mim por cima do ombro. —
Agora mesmo, porra.
Eu me arrasto para cima de meus joelhos, me acomodando entre suas
pernas atrás dele. Minhas mãos estão tremendo enquanto eu derramo
lubrificante sobre meu pau, pingando um pouco na almofada. Jogando a
garrafa no chão, eu alinho a cabeça do meu pau com seu buraco e lentamente
empurro para frente.
Não percebi que estava prendendo a respiração até que minha coroa
desliza por sua borda e todo o ar sai rápido dos meus pulmões. Eu desabo
para frente em cima dele, meu peito pressionado em suas costas. Meu pau
desliza um pouco mais fundo. Cores explodem atrás das minhas pálpebras.
Ele é tão apertado e quente pra caralho. Nunca senti nada parecido.
— Porra — eu gemo. — Você é tão bom pra caralho.
— Você também. — Ele está ofegante embaixo de mim, suas costas se
movendo erraticamente sob meu peito. — Foda-me, Callum. Por favor. —
Novamente, ele olha para mim. — Vou te contar um segredo. Eu sempre
quis ser fodido depois de uma morte.
Puta merda.
— Então eu te darei o que você quer, assassino. Assim como você sempre
faz por mim.
Ele geme enquanto eu me levanto dele e agarro seus quadris. Enquanto eu
lentamente me afasto e empurro de volta algumas vezes, deixando-o se
ajustar, eu observo meu pau deslizar para dentro e para fora de seu buraco.
Porra, isso é gostoso.
Na próxima vez, eu empurro nele. Suas costas arqueiam, e o barulho baixo
que ele faz se junta a todas as luzes brilhantes e cores que compõem os fogos
de artifício de prazer que enchem meus sentidos.
Aumentando meu aperto em seus quadris, eu o fodo com uma
necessidade selvagem. Uma necessidade que eu sei que sempre sentirei
somente por ele. Este homem que matou por mim. Este homem que viu mais
de mim do que qualquer outra pessoa já viu. Este homem que me salvou e
me arruinou ao mesmo tempo.
Estar dentro dele é uma onda de poder que nunca pensei que seria capaz
de sentir.
— Porra, sim. — A cabeça de Stone rola para trás em seus ombros. Ele
geme. Sua voz sai rouca e sem fôlego, o que só me excita ainda mais. — Você
me fode tão bem, bebê. Se essa for minha recompensa, eu mato por você
quando você quiser.
Ao lembrar disso, meu olhar vagueia para o centro da sala, para o corpo
sem vida caído na cadeira.
Meus quadris vacilam enquanto aquela sensação familiar me domina. Ela
não foi a lugar nenhum. A calma, a euforia. Mas é como se uma segunda
onda dela me atingisse com mais força do que a primeira.
Não consigo desviar o olhar da morte recente, da aura de morte que ainda
a cerca.
— Stone — eu choramingo, meus dedos cravando em seus lados com
tanta força que podem deixar hematomas.
— O que você precisa, bebê?
Eu balanço minha cabeça que está parecendo um pouco leve demais. —
Eu não sei.
— Eu sei. Deite-se novamente.
Deixar o calor apertado da bunda dele é a última coisa que quero fazer.
Mas depois que consigo fazer isso, praticamente desmorono, como se
estivesse perfeitamente contente em deixar a corrente de todas essas
sensações me levar para baixo.
Stone se levanta o suficiente para se virar e montar em mim. Agarrando
meu pau, ele abaixa seu corpo novamente, empalando-se nele.
Meus olhos rolam para a parte de trás da minha cabeça enquanto agarro
suas coxas. — Porra.
Inclinando-se, ele segura meu queixo, forçando meu olhar a encontrar o
dele. Ele me encara com olhos semicerrados enquanto monta meu pau, seu
próprio pau batendo contra meu abdômen. — Eu sei exatamente o que você
precisa, Callum. Nós sempre podemos dar um ao outro o que precisamos.
Ele vira minha cabeça para o lado, então meus olhos pousam no corpo
morto na sala, aquele que ele matou para mim. Sua boca desce na lateral do
meu pescoço, roçando seus lábios na minha pele, a ponta de sua língua
lambendo meu ponto de pulso.
— Você pode olhar para isso — ele diz, seu hálito quente girando entre
nós como fumaça. Suas coxas flexionam sob minhas mãos. — Olhe o que eu
fiz por você enquanto eu me fodo no seu pau. Lembre-se do jeito que minha
faca deslizou pela garganta dele, do jeito que todo aquele sangue saiu
jorrando dele. Do jeito que eu segurei sua vida em minhas mãos e a tirei para
que você pudesse se sentir vivo.
— Porra, Stone. — Eu empurro para cima dele, perseguindo um pico de
prazer carnal enquanto estou nadando em um tipo diferente de euforia da
visão em que meus olhos estão fixos. — Eu vou gozar.
— Eu também, bebê. — A mão dele que não está segurando meu queixo
vai para seu pau. — Vou gozar em você, porra. Marcar você.
Com seus lábios ainda contra meu pescoço, eu os sinto se separarem,
sinto-o ofegar contra minha pele antes que sua respiração cesse
completamente. Seu corpo treme acima de mim. Um momento depois, seu
esperma quente está disparando entre nossos corpos, derramando-se em
meu estômago.
Sua bunda aperta em volta do meu pau. Seus dentes afundam na curva do
meu pescoço.
Eu entro nele uma última vez e libero cada pedaço de desejo perverso e
prazer depravado que eu senti desde que Stone me trouxe para esta cabana.
Minha liberação se derrama dentro dele, e ele morde com mais força até que
eu esteja gritando e se engasgando com um soluço arrebatado.
A cabana se enche com os sons de nossa respiração pesada enquanto
começamos a acalmar. Stone lambe o local onde seus dentes estavam, então
o beija.
Quando ele levanta a cabeça, ele faz uma careta. — Eu te mordi um pouco
mais forte do que eu pretendia.
— Eu adorei pra caramba — eu digo, com a voz embargada.
Ele sorri e eu sorrio de volta.
Olhando para baixo, onde seu pau macio repousa contra meu abdômen,
ele gira seu dedo através de seu esperma, então o leva aos meus lábios. Eu
abro minha boca e o lambo. Ele geme, então bate sua boca na minha para
que possamos compartilhar o gosto dele.
Meu pau se contorce dentro do buraco dele, mas não tem a mínima chance
de eu ter dois dentro de mim dessa vez.
— Temos que limpar um pouco — ele diz, olhando para mim e depois
para o morto Matthew. Ele suspira enquanto olha de volta para mim com
um sorriso. — Muita coisa.
Vinte e Oito
Stone
Não saímos da cabana até o meio da tarde. Levamos o velho barco do meu
pai para o lago, amarramos alguns tijolos no corpo de Matthew e o jogamos
bem longe. O tempo estava perfeito, então ficamos lá fora por um tempo.
Callum ainda estava meio que flutuando em um torpor tranquilo, e eu não
queria tirar isso dele tão cedo. O barco balançava levemente na água como
uma canção de ninar enquanto eu o segurava e o beijava e dizia o quanto eu
o amava. Como eu nunca vou deixá-lo ir.
Finalmente posso dizer todas aquelas coisas que eu estava morrendo de
vontade de dizer.
Enquanto estávamos lá, cortei outro entalhe no jacarandá da minha faca
favorita usando meu canivete de bolso menor. Talvez eu tenha que comprar
uma nova em breve. Estou começando a ficar sem espaço.
Callum me observou trabalhar e disse: — É como entalhes em um poste
de cama, mas para garotos assassinos.
Quando voltamos para a cabana, tomamos banho e trocamos de roupa que
eu trouxe para nós dois, usando as roupas limpas que eu trouxe para nós
dois. Callum ficou quieto durante a maior parte do caminho de volta para
Connecticut. Eu esperava que fosse só porque ele estava aproveitando o
brilho do fim, mas ele parecia estar imerso em pensamentos. Eu tentei não
deixar o medo de que ele estivesse se arrependendo de tudo que tínhamos
feito me consumir, mas era difícil não fazer isso.
Talvez seja por isso que não o levo de volta para o apartamento
imediatamente. É o começo da noite quando estaciono na frente da minha
casa, então ainda temos bastante tempo para passarmos juntos. Talvez eu
consiga fazê-lo falar comigo sobre o que está pensando.
No entanto, acontece que não preciso me esforçar muito.
Dois segundos depois de entrarmos no meu apartamento e Callum fechar
a porta atrás de si, ele diz: — Preciso te contar uma coisa.
Colocando minha bolsa na mesa de centro, eu me viro para ele. — Está
tudo bem?
— Não realmente.
Merda.
Meu coração está batendo forte na garganta enquanto dou um passo em
sua direção. Tento engolir de volta. — Okay. Olha, se hoje foi demais para
você...
— Não é isso.
O alívio me invade, o ar em meus pulmões não está tão pesado.
— Provavelmente deveria ser — ele diz, sua boca virada para baixo em
uma carranca. Ele está fazendo aquela coisa em que se sente envergonhado
pelas coisas que não sente em vez das coisas que sente. — Eu provavelmente
deveria estar me sentindo diferente sobre isso do que estou, mas não estou.
Não tenho arrependimentos.
— Então o que está acontecendo?
Callum hesita. Ele olha mais para o chão enquanto inclina as costas contra
a porta. Ele respira fundo e olha de volta para mim. — Se eu pedisse para
você não matar alguém, você faria isso por mim também?
Não preciso pensar muito sobre isso. — Quero dizer que depende, mas
nós dois sabemos que eu faria qualquer coisa por você.
Ele assente, mas não diz nada por vários segundos.
— Callum, fale comigo.
— É sobre Eric.
Ok, retiro o que disse.
Só o nome do babaca saindo da boca de Callum é o suficiente para me
fazer ver rios de sangue. Juro por Deus que se Callum disser que Eric o
machucou ou o tocou, a coleira que ele tem em mim vai arrebentar.
— O que tem ele? — pergunto entre dentes, meu maxilar tenso.
A próxima voz que fala não é a de Callum.
— Ele sabe quem você é.
Eu giro tão rápido que o sangue escorre para minha cabeça. Um véu
carmesim cai sobre minha visão quando vejo Eric saindo do meu maldito
quarto.
Fica ainda mais sombrio quando vejo a arma em sua mão, pendurada ao
seu lado.
— O que diabos você pensa que está fazendo no meu apartamento? —
rosno.
Não deixo meu olhar cair para minha bolsa que está na mesa de centro,
mas considero o quão rápido eu poderia chegar até ela para pegar minha
própria arma. Provavelmente não antes que Eric pudesse puxar o gatilho.
— Você e eu precisamos ter uma conversa, Wakefield.
— Ótimo. Assim que Callum for embora.
Callum se aproxima de mim, e meu braço dispara na frente dele para
impedi-lo de ir mais longe. A mão de Eric se contorce em volta da arma, mas
ele não a levanta.
— Eu não vou a lugar nenhum.
— Ele está certo — diz Eric. — Nenhum de vocês irá.
Não tiro os olhos dele, mas minha carranca se aprofunda. — Quem diabos
você pensa que é, Vaughn?
Ele me encara sem piscar. — O cara cujo tio você assassinou.
Bem... eu não esperava por isso.
Eu não diria que estou surpreso. Com quantas pessoas matei nos últimos
seis anos, eu estava fadado a encontrar alguém próximo de uma das minhas
vítimas. Além de Callum, é claro. No entanto, o fato de ele suspeitar de mim
é lamentável.
Por ele.
Antes que eu possa clarear minha mente, Callum fala primeiro.
— Eric, seja lá o que você pensa que sabe, você está errado.
— Deixe que eu cuido disso, Callum — digo a ele sem tirar os olhos do
nosso companheiro de time.
Companheiro de time morto.
— Se eu fizer isso, vocês vão se matar.
É como se ele estivesse lendo minha mente.
Eric entra mais na sala de estar e para ao lado da mesa de centro. Quando
ele se abaixa para abrir o zíper da minha bolsa, eu vou para frente. Ele
levanta a arma. Eu congelo quando ele aponta para minha cabeça.
Não dou a mínima para mim. Só estou preocupado com Callum.
Se eu estiver morto, não poderei protegê-lo.
Olhando para minha bolsa, Eric arqueia uma sobrancelha. — Uma faca.
Uma arma. E lubrificante. — Ele olha de volta com um sorriso irritante que
eu adoraria tirar do rosto dele. — Fim de semana divertido?
— Vai se foder.
Ele pega a bolsa e anda para trás com ela para jogá-la no chão da cozinha.
— No sofá. Vocês dois.
Empurro Callum para trás de mim, planejando andar na frente dele em
nosso caminho para o sofá. Em vez de ir para lá, ele se move e passa por
mim. Eu imediatamente estendo a mão e agarro seu braço.
— Eric, você não precisa...
— Cale a boca, Cal — ele grita, apontando o cano da arma para seu
suposto amigo.
É aí que eu perco a cabeça.
Puxando Callum para trás, eu o empurro em direção ao sofá. Dou dois
passos na direção de Eric antes que sua arma esteja apontada de volta para
mim. Normalmente, eu não daria a mínima para me matar.
Mas as coisas mudam.
Se eu estivesse mais perto, eu arrancaria a arma da mão de Eric. Pelo
menos ele é esperto nesse aspecto e fica longe o suficiente de mim para evitar
isso.
Inclinando-me para a frente a ponto de fazer o dedo de Eric coçar no
gatilho, abaixo minha voz e falo tão firme quanto a tempestade que está
furiosa dentro de mim. — Aponte essa arma para ele de novo, e eu vou enfiar
na sua bunda e puxar o gatilho. Sem lubrificante.
— Pervertido— ele diz com uma cara séria. — Senta aí, porra.
A única razão pela qual faço isso é por causa do Callum.
Quando estamos sentados no sofá, Eric fica do outro lado da mesa de
centro, alguns metros atrás, e abaixa a arma.
— Agora — ele começa, com o olhar fixo em mim — você pode nos
poupar muito tempo se simplesmente confessar.
— Por que diabos você acha que eu matei seu tio?
— Eu vi os desenhos de Callum.
Pela primeira vez, tiro os olhos de Eric para espiar Callum. Sua cabeça está
abaixada, olhando para seu colo.
— Quando? — pergunto, olhando de volta para Eric.
— Outro dia. — Aquele tom presunçoso que eu já o ouvi usar antes
retorna. — Entrei no quarto dele enquanto ele estava tomando banho.
O sangue escorre para meus ouvidos, meu olho esquerdo treme e juro que
um molar quebra.
Calma, besta.
Ele só está tentando me provocar. Logicamente, eu sei disso. Isso ainda
não impede a besta dentro de mim de tentar se libertar da gaiola. E estou
muito perto de deixá-la sair.
O mais assustador é que enquanto Callum me mantém na coleira, eu
mantenho minha besta em uma. Mesmo quando a deixei sair da gaiola mais
cedo hoje na cabana, eu a mantive sob rédea curta porque não tinha certeza
do que ela faria enquanto matava com Callum no quarto. Nem mesmo a
besta o machucaria dessa forma - ela só quer outras coisas dele - mas ainda
temo do que ela seria capaz enquanto eu estivesse assim.
— Eu vi aqueles desenhos — digo a ele, minha voz tensa pelo esforço de
conter aquele pedaço de mim de rasgar Eric pra caralho. — Eles não provam
porra nenhuma.
— Não. — Eric dá de ombros. — Mas o homem que testemunhei você
assassinar naquela doca em Massachusetts pode.
Pois é, foda-se.
Fui seguido por duas pessoas naquela noite? Devo estar perdendo o jeito.
Mas faz sentido. Aquele fim de semana foi a primeira vez que Eric
apareceu. Ele deve ter chegado na noite anterior e seguido eu e Callum.
Callum está imóvel ao meu lado, então ele também não deve ter
percebido.
— Então você estava suspeitando de mim há um tempo para me seguir
naquela noite. — Eu me inclino para trás contra as almofadas, mas mantenho
meus músculos tensos, caso eu precise atacar. — O que me colocou no seu
radar em primeiro lugar? E por que me confrontar agora?
Como ele sabia que devia me seguir naquela noite?
Acho que nunca fui suspeito antes de Callum e Eric, e é por isso que nunca
fui muito paranoico sobre ser seguido.
Alguém mais está atrás de mim também?
Essa tem que ser a única explicação.
De que outra forma Eric poderia saber, a menos que estivesse trabalhando
com outra pessoa? Para outra pessoa?
— Porque eu estava esperando até poder provar que você matou meu tio
também — ele diz, evitando minha primeira pergunta. — Essa é sua
confissão?
Não vou morrer hoje. Também não vou para a prisão por causa desse filho
da puta. Então acho que isso só me deixa uma escolha.
— Qual era o nome do seu tio?
Eric hesita brevemente antes de responder. — Jim Adelman. Eu o chamava
de Jimmy.
Eu passo o nome pelo banco de dados na minha mente. Não lembro de
todos os nomes das pessoas que matei de cabeça. Mas esse mexe com a
minha cabeça.
— É, acho que me lembro dele. Acredito que ele tinha uma queda por
garotinhas.
O rosto de Eric se contrai. — O quê?
Ele está surpreso. Ótimo.
— Tem um telefone naquela bolsa ali — eu digo a ele. — Preciso que você
pegue para mim. Já que eu presumo que você vai atirar em mim se eu tentar
pegá-lo eu mesmo.
— Você está louco, porra?
Engraçado ele perguntar isso quando parece que ele é quem está prestes a
perder o controle.
— Não. Na verdade, estou me sentindo surpreendentemente racional
agora, já que você invadiu meu apartamento e apontou uma arma para o
homem por quem eu literalmente matei e não hesitaria em fazer isso de
novo. Você deveria ser grato por isso, Vaughn. Me dê a porra do telefone.
Sua mão está tremendo ao redor do cabo da arma. — Por quê?
— Então eu posso provar a você que tipo de homem seu tio era. Eu
prometo que você não quer saber, já que ele claramente significava o
suficiente para você fazer isso. Mas antes que você faça algo do qual irá se
arrepender, você vai saber a porra da verdade.
Ele levanta sua arma e mira na minha cabeça mais uma vez. — Ou eu
poderia simplesmente tomar isso como sua confissão e atirar em você, porra.
Callum se move ao meu lado. — Eric!
Eric já deve ter esquecido o que eu literalmente acabei de dizer, porque ele
aponta a arma para Callum novamente.
Nunca pensei em Callum como fraco ou covarde, mas talvez eu ainda não
estivesse dando a ele crédito suficiente. Porque encarar o cano de uma arma
não o impede de continuar seu ímpeto para frente para ficar de pé.
Antes que ele possa, minha mão pousa em seu ombro para puxá-lo de
volta para baixo enquanto eu pulo do sofá. Tenho a intenção de pular sobre
a mesa de centro e atacar Eric, mas ele aponta a arma de volta para mim
antes que eu possa.
— Você tem um desejo de morte, porra? — rosno. — Se você não mantiver
essa arma apontada para mim, você vai ter que descarregar esse pente para
me impedir de te rasgar em pedaços. E é melhor você torcer para que isso
seja o suficiente para me impedir, porra.
Seja a confirmação de que ele estava certo sobre eu ter matado seu tio ou
a notícia de quem seu tio realmente era, algo deixou Eric muito mais nervoso
do que quando ele se mostrou pela primeira vez. Seus olhos estão um pouco
vermelhos. O suor está se acumulando em sua têmpora. Sua mão que segura
a arma ainda está tremendo, o que me deixou um pouco nervoso também.
— Não pense que não vou, Stone.
— A maioria das pessoas não tem o que é preciso para matar. Você
realmente acha que tem?
— Poderíamos descobrir.
Balanço a cabeça. — Não acho que iremos. Vá pegar o telefone para que
você possa ver o porquê.
Ele procura uma mentira nos meus olhos, mas não encontra nenhuma. Seu
queixo treme. Seu olhar mergulha no meu peito, onde ele tem a arma
apontada enquanto contempla suas opções.
Eu praticamente consigo sentir Callum vibrando de desconforto atrás de
mim. — Eric, sério. Escute ele.
Finalmente, Eric começa a dar passos para trás na direção de onde ele
deixou minha bolsa cair. Ele mantém os olhos e a arma apontados para mim,
mas tudo bem. Ele não pode continuar assim para sempre.
Agachado, Eric enfia a mão na minha bolsa, tateando ao redor antes de
tirar meu telefone descartável. Ele olha para ele por um momento antes de
voltar. Ele o coloca no canto da mesa de centro mais distante de mim e dá
um passo para trás novamente.
— Não faça nada estúpido — ele diz.
— Como invadir o apartamento de alguém que você está acusando de ser
um assassino? — murmuro enquanto pego o telefone. — E então entregar
um telefone a ele?
Os olhos de Eric se estreitam e seu braço se estica quando seu dedo toca o
gatilho.
— Relaxa, porra. — Eu me viro um pouco para o lado e seguro o telefone
para que ele possa ver o que estou fazendo. Abro uma mensagem de texto
para Lacey. O nome dela não está salvo neste telefone, é claro, e este número
é um item descartável para ela também.

Eu: Você pode me enviar todas as informações que você tem sobre Jim
Adelman?
Ela responde imediatamente.

Ela: Nisso.
Coloquei o telefone de volta na mesa. — Dê uma olhada na próxima
mensagem que vai chegar em cerca de um minuto. Se você não acha que seu
tio merecia morrer depois de ver o que você está prestes a ver, então eu diria
que você merece morrer também.
Voltando para meu assento ao lado de Callum, eu me viro para ele e o
beijo na têmpora. Ele já sabe que não tem a mínima chance de eu deixar Eric
machucá-lo, então a garantia pode ser um pouco maior para mim.
— Sinto muito — ele diz, olhando para mim com a testa franzida.
— Pelo quê?
— Por não ter te contado que Eric veio até mim sobre isso.
— Por que você não fez isso? — É Eric quem faz a pergunta, com o
telefone na mão livre.
A carranca de Callum se aprofunda enquanto seu olhar segura o meu. —
Eu não queria que você o matasse.
Foda-se minha vida.
Minha compostura está por um fio. A única razão pela qual estou me
esforçando para esconder o fato de que meu sangue está fervendo em todas
as veias do meu corpo, que tudo nesta sala está banhado em vermelho, é
para dar a Eric uma falsa sensação de segurança. Porque…
Eu quero matá-lo.
Por entrar furtivamente no quarto de Callum enquanto ele estava no
chuveiro. Por me seguir naquela noite em Massachusetts. Por tentar se
infiltrar na primeira linha para... o quê? Chegar mais perto de mim ou de
Callum para encontrar evidências contra mim? Por invadir meu
apartamento.
Mas acima de tudo?
Por apontar aquela porra de arma para o homem por quem estou
apaixonado.
Desde o primeiro momento em que comecei a sentir algo por Callum, senti
que fui programado para dar a ele tudo o que ele quisesse.
Mas isso?
Não sei se posso dar isso a ele.
A besta quer sangue, porra.
Meu telefone descartável vibra na mão de Eric. Seu olhar se move entre
mim e Callum antes de ele olhar para a tela e clicar no arquivo que Lacey
enviou. Enquanto ele lê o que está lá, seus olhos varrem da esquerda para a
direita, lentamente ficando mais vermelhos e um pouco molhados. Seu rosto
se contorce em linhas duras, nariz franzido, boca torcida em uma careta. Eu
sei que ele chegou ao pior quando sua pele empalidece.
Não me lembro de muitos detalhes das muitas indiscrições vis de Jim
Adelman, mas me lembro da essência. Além da agressão sexual de crianças,
Lacey também acredita que encontrou evidências suficientes - bem, o
suficiente para nós - de que ele pode ter sido pelo menos cúmplice da morte
de uma jovem.
A arma de Eric está de volta ao seu lado. Seu rosto agora está de um verde
doentio. Com seu foco ainda no telefone, agora é minha oportunidade
perfeita para atacar.
Antes que eu possa fazê-lo, a mão de Callum envolve meu antebraço e
suas unhas cravam em minha pele.
Certo, ele pode realmente ter um superpoder.
Mas estou amaldiçoando esse dom de previsão ou leitura de mentes ou o
que quer que seja, enquanto minha chance passa quando Eric levanta o olhar
para nós. Ele pisca, e uma lágrima rola sobre sua pálpebra inferior e escorre
por sua bochecha.
Ah, meu maldito coração sangrento.
Ele balança a cabeça, sua voz grossa e perturbada. — Isso não é verdade.
— É — digo a ele, mais do que feliz em esfregar na cara dele que o homem
com quem ele se importava era uma das maiores pilhas de merda que o
mundo é capaz de defecar.
— Eu não sabia. — Sua agonia paira pesada no ar, mas tudo o que faço é
absorvê-la. — Ele... ele era como um pai para mim.
Não dou a mínima.
— Sinto muito. Vocês dois. Juro que não vou dizer nada.
Ainda vou te matar.
— Eu também sinto muito, Eric — diz Callum.
Eu também sinto muito, bebê.
Algo mais parece tomar conta de Eric, seu peito subindo e descendo
rapidamente como se ele estivesse entrando em pânico. Ele deixa o telefone
cair na mesa de centro.
— Porra. — Ele engole em seco e balança a cabeça novamente. — Porra.
Porra. Porra.
No segundo em que ele vira as costas para ir até a porta, eu estou de pé.
Callum crava as unhas mais fundo. Quando olho para ele, vejo um olhar de
conhecimento em seu olhar suplicante.
Por que diabos ele tem que me conhecer tão bem?
Quando olho de volta para a porta, Eric se foi. Mas o que não se foi é a
nuvem vermelha velando minha visão, sangue escorrendo pelas bordas. O
trovão da porta da gaiola em minha mente. O rugido da besta em meus
ouvidos.
Acho que veremos quanto poder Callum tem sobre mim.
Não sei se será suficiente.
Vinte e Nove
Callum
— Me solte, Callum.
Qualquer outra pessoa estaria aterrorizada com Stone agora. Sua voz é
áspera e profunda e muito calma e firme. Seus olhos são escuros, dois vazios
que engoliram as florestas.
Eu já pensei antes que nunca o veria mais furioso, mas eu estava errado.
Aqueles tempos não têm nada a ver com ele agora.
Eu me levanto, mantendo um aperto firme nele. — Eu não vou deixar você
ir atrás dele.
Ele puxa o braço em sua direção, o que me puxa com ele até que meu rosto
esteja a centímetros do dele. — Você realmente acha que pode me impedir?
— Sim — digo-lhe confiantemente.
Suas narinas se dilatam, e seu olho esquerdo se contrai. Seu corpo inteiro
está vibrando. — Ele te ameaçou pra caralho. Ele invadiu sua privacidade.
Você não tem ideia do que eu quero fazer com ele agora.
— Eu posso adivinhar.
— Sim, bem, é cem vezes pior do que isso.
Sacudindo o braço, ele se solta do meu aperto, fazendo com que minhas
unhas arranhem e cortem sua pele. Sangue jorra para a superfície dos
arranhões superficiais enquanto ele se afasta. Enquanto ele segue na direção
de sua bolsa, vou até a porta, ficando na frente dela para bloquear sua saída.
Ele volta, enfiando sua arma no cós da calça jeans. Seus nós dos dedos estão
brancos ao redor do cabo da faca.
Ele para na minha frente. Eu odeio a visão de sua carranca direcionada a
mim, mas eu sei que não está realmente focada em mim. Está em Eric. Ele não
consegue se conter. Eu percebi que ele tem problemas de raiva entre os
muitos outros, e quando ele fica assim, há muito pouco que pode pará-lo.
Ele é uma besta selvagem, e ainda estou aprendendo a controlar as rédeas.
— Por que você está tentando protegê-lo? — Stone rosna. — Ele realmente
significa tanto assim para você?
— Não. Ele está de luto, e ele acabou de receber uma notícia que o
devastou. Ele ainda é meu amigo. Mas não. Isso é sobre você. Se você sair
por aí agora, você vai se foder. Você vai cometer um erro e se meter em um
inferno de problemas. Eu não estou disposto a te perder por isso, Stone.
Não consigo deixar de me sentir um pouco culpado. Quando Eric nos
disse que nos seguiu em Massachusetts, lembrei-me de ouvir passos naquela
noite. Eric estava me seguindo mais do que Stone.
A culpa é minha.
Minhas palavras não parecem penetrar a fortaleza de raiva que ele
construiu. Ele ainda está tenso, assassinato em seus olhos. — Como você
sabe que ele não vai à polícia?
— Eu sei que você está em algum tipo de fúria cega agora. Mas você não
o viu? Ele não vai te entregar, não agora que ele sabe a verdade. Estou
disposto a apostar muito mais nisso do que em deixar você sair deste
apartamento.
— Não é bom o suficiente. — Ele dá um passo à frente, olhos
semicerrados. — Saia do meu caminho.
É, isso não vai acontecer, porra.
Saltando para a frente, agarro sua mão que está segurando a faca,
arrancando seus dedos para agarrá-la sem me cortar. Ele a solta facilmente.
Sei que a única razão pela qual ele a solta é por medo de me machucar.
Se tem uma coisa com a qual sempre posso contar, é isso.
Assim que pego sua faca, passo por ele e vou até a sala de estar, me
afastando dele.
— Está tudo bem — ele diz, tirando a arma do jeans e dando um passo
em direção à porta. — Eu não preciso dela.
Tempos desesperadores e tudo mais…
Coloco a lâmina na minha garganta.
— Stone.
Com a mão na maçaneta, ele olha para mim e congela. — Que porra você
está fazendo?
— Eric não me machucou. Mas eu posso me machucar, então você
provavelmente deveria lidar comigo primeiro.
Sinto-me um pouco louco, mas não sou mais louco do que ele agora.
Ele tira a mão da maçaneta e lentamente se vira para mim como se tivesse
medo de fazer qualquer movimento brusco. O medo se juntou à raiva
gravada em todo o seu rosto e girando em seus olhos escuros.
— Não seja estúpido.
— Que tal você se olhar no espelho quando disser isso? — retruco.
Stone rosna enquanto dá um passo à frente. Em resposta, pressiono a
lâmina um pouco mais forte contra minha pele. Suas narinas se dilatam
enquanto ele solta um suspiro pelo nariz como um touro fodido.
— Pare com isso, porra.
— Você primeiro. Você sempre diz que vai me dar tudo o que eu quero.
Prove isso, porra.
Praticamente consigo ver a guerra acontecendo na mente dele.
Provavelmente é como um tiroteio lá dentro.
Acho que vamos ver se consigo escapar com uma faca num tiroteio.
Ele está tremendo mais do que nunca. Tenho quase certeza de que estou
olhando nos olhos da besta agora. Aquela que me comeria vivo se Stone
deixasse.
Talvez eu devesse estar correndo, mas não tenho medo dele. Só tenho
medo do que ele pode fazer que o afaste de mim. Gostei de ter que esperar
para vê-lo matar novamente para que ele pudesse planejar para que nós dois
estivéssemos seguros. Estou disposto a esperar novamente, não importa
quanto tempo leve. Também estou disposto a fazer o que for preciso para
manter o traseiro dele fora da prisão.
Finalmente tomando sua decisão, ele se inclina e coloca sua arma na mesa
de centro.
— Agora largue a faca — ele diz, com a voz rígida e cautelosa.
Não. Continuo segurando-a no meu pescoço. — Jure para mim primeiro
que você não vai atrás dele. Prometa que não vai matá-lo.
Ele desvia o olhar e seu maxilar treme.
Eu afasto a lâmina da minha garganta apenas para pressioná-la contra
meu antebraço. Ele dá um passo antes de eu deslizar o aço afiado pela minha
pele, cortando-a. Sangue escorre pelo meu braço e para o chão.
O pânico de Stone se torna algo tangível.
— Porra! Ok, ok! Ricochete!
Ele acabou de aplicar a palavra segura?
Era só isso que eu tinha que fazer em vez de simplesmente cortar o braço?
Seus ombros caem com a derrota, seu peito arfando. — Okay. Eu juro,
porra. Por favor. Por favor, largue a faca, Callum.
Desta vez, eu largo. Eu a abaixo para o meu lado antes de deixá-la
escorregar por entre meus dedos e bater no piso de vinil aos meus pés. Stone
leva uma fração de segundo para chegar até mim. Ele atravessa a sala e pega
meu rosto entre suas mãos antes de bater sua boca na minha. Eu não luto
com ele. Eu o deixo me beijar. Meu corpo já está drenado de cada grama de
energia de lutar com ele.
— Sinto muito — ele sussurra trêmulo contra meus lábios. — Sinto muito
mesmo. Eu perdi a cabeça pra caralho.
— Sim, você perdeu — concordo.
— Eu juro que nunca mais vou fazer você fazer isso. — Ele pressiona sua
testa contra a minha enquanto uma de suas mãos se move para a minha
nuca, apertando-a. — Eu deveria te punir por se machucar daquele jeito.
— Então faça isso.
Ele se afasta, com uma ruga profunda entre as sobrancelhas. — Callum…
Estendendo a mão, movo a gola da minha camisa para o lado, revelando
o local onde ele me mordeu com bastante força na cabana. — Suas marcas
ainda estão aí?
Ele estremece, e eu tenho minha resposta antes que ele fale. — Um pouco.
— Eu gosto das suas marcas, Stone. Eu gosto quando você é rude comigo.
Então que tal você me dar o que eu quero enquanto expurga um pouco dessa
porra de raiva que você tem? Nos dê o que nós dois precisamos.
Porque mesmo tendo vencido essa luta, ainda consigo sentir isso saindo
dele em ondas. É como se ele estivesse passando por abstinências de sua
droga habitual - o sangue que nós dois desejamos, só que de maneiras
diferentes. Ele ainda está tremendo, rosto vermelho. Sua respiração pesada
é quente em meu rosto.
Ele precisa disso como uma solução temporária.
Preciso disso para acabar com todas as dúvidas de que ele me vê como
fraco.
O vinco entre suas sobrancelhas se aprofunda à medida que ele passa por
mais um conflito em sua mente.
— Diga-me sua palavra segura.
A tensão que eu não percebia que estava apertando tudo no meu peito se
desenrola. A única palavra sai em um suspiro. — Ricochete.
Colocando a palma da mão espalmada contra meu estômago, ele me
empurra para trás, seguindo cada um dos meus passos com um dos seus.
Meu pau já está respondendo à maneira como seus olhos escurecem com
algo mais do que fúria.
— Eu nunca vou te quebrar, Callum. — A voz dele é aquele rosnado
profundo e rouco que eu amo. — Mas eu vou te destruir pra caralho.
Quando minhas costas batem na parede, sua mão sobe e envolve minha
garganta. Seu aperto aperta um pouco mais do que o normal. Não é o
suficiente para cortar meu ar, mas é o suficiente para me deixar tonto e ter
meu pau endurecendo.
— Você vai sentir somente a mim até o fim dos tempos — ele diz, seu
hálito quente beijando meus lábios. — Não haverá como me purgar de suas
veias. Não haverá como esculpir meu toque de sua pele. Não haverá como
livrar as memórias de mim de sua mente. Se eu não posso fazer nada disso
quando se trata de você, então eu também não vou deixar você. Você está
em todos os lugares porra, e eu não sou capaz de deixar você ir. Você me
pertence, e eu pertenço a você.
Mesmo que eu estivesse em condições de responder a isso, ele não me dá
a chance. Ele bate a boca na minha, mordendo com força meu lábio inferior
e me fazendo ofegar para que ele possa enfiar a língua dentro da minha boca.
Seu beijo é cruel, implacável. Ele esfrega contra mim até que meu pau esteja
dolorosamente esticado contra meu zíper.
Soltando minha garganta, ele agarra meu cabelo, puxando minha cabeça
para a esquerda para que sua boca possa se prender na lateral do meu
pescoço. Enquanto sua outra mão vai para o botão da minha calça jeans, ele
morde e suga minha pele, enviando choques de prazer e dor percorrendo
por mim.
Eu sei que ele está deixando sua marca lá.
Essas marcas são diferentes. Diferentes porque eu as quero.
O fato de que dessa vez foi totalmente intencional me faz sentir como se
estivesse pendurado em um fio desencapado.
Ele abre minha calça, mas não faz nenhum movimento para abaixá-la.
— Stone — choramingo. — Por favor. Toque-me.
Me soltando, ele empurra meu jeans e cueca para baixo em volta das
minhas coxas. Sua boca viaja para outro ponto na minha garganta. Ele suga
outra marca na minha pele enquanto desfaz seu próprio jeans com uma mão
e envolve a outra em volta do meu pau dolorido.
— Oh, merda — eu gemo enquanto enfio meu pau em seu punho.
Então suas mãos estão ao redor de nós dois, seu pau pressionado contra o
meu. Seu polegar desliza sobre minha fenda, usando nosso pré-gozo para
lambuzar nossos paus enquanto ele nos acaricia juntos. Eu balanço meus
quadris, amando a sensação dele contra mim, ao meu redor. Deixando suas
marcas em mim.
Quando tudo se foi, meus olhos se abrem enquanto ele agarra meus
quadris e me gira. Agarrando meus dois pulsos, ele os levanta e coloca
minhas palmas contra a parede de cada lado da minha cabeça. O corte no
meu braço esquerdo pingou sangue até meus dedos. Há manchas vermelhas
ao redor do meu pulso de onde ele me agarrou.
Com os lábios no meu ouvido, ele rosna baixo: — Fique aqui e não se
mova, porra.
Enquanto ele se afasta, não consigo deixar de imaginar meu sangue em
sua mão. Eu me contorço, esfregando meu pau contra a parede.
Ele retorna, pressionando o comprimento do seu corpo contra minhas
costas para me prender. — Achei que tinha dito para não me mover.
— Porra. Desculpa.
Ele se move para trás o suficiente para dar um tapa forte e pungente na
minha bunda nua, me fazendo soltar um suspiro sufocado e bater contra a
parede novamente. Sua mão fica lá, massageando rudemente uma nádega
enquanto ele esfrega seu pau contra a outra.
— Vou te foder com tanta força que você vai me sentir a semana toda.
— Sim — eu gemo. — Porra. Por favor, faça isso.
Ouço o estalo de uma tampa e então sinto o fio frio de lubrificante sobre
meu buraco. A próxima coisa que sei é que Stone está me abrindo, enfiando
dois dedos profundamente dentro da minha bunda. Eu grito com a
queimadura repentina. Conforme ele os enfia para dentro e para fora,
rapidamente se transforma em um prazer inebriante e crescente. Eu afundo
nele enquanto meus dedos se curvam, arranhando a parede.
— Estou te fodendo, Callum — ele diz enquanto me fode com os dedos,
adicionando um terceiro. Levantando a outra mão, ele enfia mais dois dedos
dentro da minha boca, me preenchendo tão completamente, tão
perfeitamente. Um barulho profundo ressoa contra minhas costas enquanto
começo a chupar. — Eu posso ser um assassino, mas você tem esse assassino
enrolado em seus dedos. Você tem tanto poder sobre mim que não tem a
mínima ideia.
Tirando os dedos da minha bunda, ele os substitui com a cabeça do seu
pau cutucando meu buraco. Continuo chupando os dedos na minha boca,
usando-os como outra coisa para me agarrar enquanto ele empurra seu
caminho para dentro.
Seu gemido baixo enche meus ouvidos enquanto sua coroa desliza pela
minha borda e ele lentamente afunda fundo, completamente. Há uma leve
queimadura enquanto meu buraco se estica ao redor dele, uma que é igual
em dor e prazer. Uma respiração áspera escapa dos meus lábios enquanto
descanso minha têmpora contra a parede, os olhos tremulando enquanto
flutuo em pura felicidade.
Ele não se move por vários segundos, seu peito estremecendo nas minhas
costas e sua testa pressionada na parte de trás da minha cabeça.
— Eu amo matar — ele diz, seus lábios roçando a pele úmida da minha
nuca. — Eu amo matar por você. Mas nada neste mundo jamais se comparará
à sensação de estar dentro de você.
Eu sinto o mesmo sobre vê-lo matar. Eu amo isso.
Mas eu gosto mais disso.
— Você estava certo em me impedir. — Centímetro por centímetro, ele se
afasta até que apenas a cabeça do seu pau esteja dentro de mim. — Se eu
tiver que escolher entre matar e ficar com você, sempre será você.
Ele pontua seu ponto batendo em mim com tanta força que me levanta na
ponta dos pés. Minha boca se abre em um grito silencioso que se perde em
algum lugar no caminho. Tirando os dedos da minha boca, ele os envolve
em volta da minha garganta, apertando.
A dor do alongamento lentamente se dissolve em ondas de choque de
prazer toda vez que seu pau esfrega aquele ponto dentro de mim que só me
fez acender assim por ele. Meu corpo nunca respondeu a alguém como
responde a ele, e sei que nunca responderá. Nunca me senti tão cheio, tão
completo, em toda a minha vida.
Eu nunca quero perder isso.
— Porra — eu gemo. — Vou gozar logo.
— Não antes de eu dizer que você pode.
Alcançando com a outra mão, ele agarra minhas bolas e dá um puxão não
tão gentil, me fazendo gritar. Ele se dissolve em um gemido enquanto ele
agarra a base do meu pau com força.
Ele continua me fodendo, implacável e impiedoso, e se inclina para frente
até que seu rosto esteja na minha linha de visão. Seu olhar intenso está preso
no meu antebraço. Especificamente, no corte sangrento que eu dei a mim
mesmo com sua faca. Eu posso praticamente ver o vermelho dele refletido
em seus olhos escuros.
— Você nunca mais poderá fazer isso consigo mesmo — ele rosna.
Então ele se inclina ainda mais e passa a língua por todo o meu antebraço,
lambendo o sangue molhado que ainda está lá.
— Oh, porra — eu choramingo, seguido de um longo e baixo gemido
enquanto meu pau pulsa em sua mão. — Stone, por favor. Quero gozar.
— Diga-me primeiro — ele diz, virando seu rosto para o meu, uma gota
de sangue em seus lábios. — Diga-me que você é meu.
— Eu sou seu. Só seu. Para sempre seu.
— O que mais é meu? — ele pergunta, batendo em mim até que não
consigo mais manter os olhos abertos.
— Minha bunda.
Ele acaricia meu pau com um punho áspero. — E?
— Meu pau.
— O que mais, Callum? O que mais pertence somente a mim?
Forço meus olhos a se abrirem para encontrar seu olhar. Embora os dele
ainda estejam escuros, as pupilas dilatadas, eu consigo ver as florestas neles
novamente.
— Meu coração.
A emoção gira dentro da névoa de seus olhos. — E o meu pertence a você.
Ele esmaga minha boca com a dele, e eu lambo seus lábios para sentir o
gosto do sangue. Sua boca então se move para baixo, beijando e
mordiscando meu maxilar, passando sua mão que ainda está em volta da
minha garganta. Sinto sua respiração quente contra a curva do meu pescoço,
no lado oposto de onde ele me mordeu antes. Seus dentes mordem, ainda
mais forte dessa vez. Ele empurra em mim mais duas vezes antes que seus
quadris parem. A sensação dele me preenchendo, me reivindicando e me
marcando, e sua mão ainda acariciando meu pau faz meu orgasmo seguir
logo depois do dele. Minha visão fica branca, minha cabeça confusa.
Seu corpo cai contra o meu enquanto recuperamos o fôlego.
Quando seu pau amolecido desliza para fora e ele me vira, eu encosto
minhas costas na parede. Olhando para ele agora, vejo uma diferença nele.
A besta recuou.
Ele nos deu o que ambos precisávamos.
Sua mão sobe, seus dedos esfregando meus lábios, lambuzando-os com
meu próprio esperma. O gosto do meu sangue ainda permanece na minha
língua. Ele me beija para provar tudo de mim.
— Eu nunca vou deixar você ir, bebê — ele sussurra contra meus lábios,
ainda sem fôlego. — Você sempre foi destinado a ser meu.
Aconteceu mais entre nós desde cinco anos atrás do que eu imaginava até
agora.
Por causa do abuso que sofri na infância, Stone assassinou meu padrasto.
Porque ele matou Lewis, algo nasceu em mim. Por muito tempo, pensei que
fosse um veneno, um câncer. Mas então ele voltou e me mostrou que não era
nada disso.
Era a outra metade dele.
A peça que faltava e que ele precisava, a peça que precisava para que ele
finalmente ficasse inteiro.
Assim como aquele disco no gelo que ricocheteou nas placas entre nós,
nós estivemos ricocheteando um no outro esse tempo todo.
Trinta
Stone
Já faz quase uma semana que Eric invadiu meu apartamento, e não o
vemos desde então. O treinador disse ao time que ele pegou pneumonia, o
que eu tenho certeza de que é uma mentira.
Eu quase espero que não. Eu quase espero que ele esteja em seu leito de
morte.
A única razão pela qual adiciono quase é por causa do Callum.
Esse garoto realmente me tem na palma da mão se eu não estou rezando
pela morte certa de Eric, porque isso o deixaria chateado.
No entanto, não vou reclamar que ele esteve ausente. Ou que não recebi
uma batida na porta dos policiais. Ainda assim, provavelmente seria uma
boa ideia se eu me mantivesse discreto por um tempo. Callum concorda.
Ele também estava usando as marcas que eu dei a ele naquele dia com
orgulho. Eu me ofereci para cobri-las com maquiagem nos primeiros dias,
mas ele recusou, o que apresentou alguns problemas para mim. Toda vez
que eu as via, eu lembrava de quando eu as dei a ele, e meu pau queria
afundar nele. Obviamente, eu não poderia fazer isso na aula.
Admito que adoro marcá-lo, colocar minha marca nele para que todos
vejam. Acho que também ajuda que ele se divirta com isso, que ele as ame
tanto quanto eu.
Quando elas começaram a desbotar e ficar amarelas nas bordas, ele me
implorou para renová-las enquanto estávamos na minha cama e meu pau
estava bem fundo em sua bunda.
Claro que eu obedeci.
Não tenho certeza de qual de nós devo culpar por estar distraído enquanto
deveríamos estar nos preparando para o nosso segundo jogo contra New
Hampshire. Meus olhos continuam pousando naquelas marcas roxas
profundas, e tudo o que eu quero fazer é arrancar suas almofadas.
Mas esse é um grande jogo. É o nosso último antes das férias de inverno
até depois do Natal. Também perdemos para esses babacas ontem, então
estamos todos querendo sangue.
Pegamos o gelo no primeiro período, e eu ganho o confronto inicial,
passando o disco para Nate. Ele vai e volta pela linha vermelha tantas vezes
que começo a ficar tonto. Fitz bloqueia tantos chutes para a rede quanto o
goleiro do outro time. New Hampshire se safa com muitas batidas legais
sobre nossos caras, e toda vez que revidamos, nós fodemos e temos
penalidades marcadas. Eles já tiveram dois tempos com jogadores a mais e
marcaram em um deles.
O primeiro período termina com a gente perdendo de zero a um.
No vestiário, o treinador está furioso. Ele parece prestes a acabar com
nossas vidas.
— Vocês, moças, podem fazer melhor do que isso! Fitz é o único lá fora
que realmente está fazendo seu maldito trabalho.
Eu admito. Fitz definitivamente melhorou desde o começo da temporada.
O treinador pega a luva perdida de alguém do chão e a arremessa pela
sala, sem dar a mínima se ele acerta alguém. Cabeças abaixam, mas ainda
acerta um dos defensores da terceira linha.
— O que eu sempre disse a vocês? Joguem sujo quando puderem se safar,
mas sempre joguem com inteligência. Vocês, seus idiotas, não estão fazendo
nenhuma das duas coisas.
O treinador sempre foi um pouco tenso, especialmente durante os jogos.
Ainda mais quando estamos perdendo. No entanto, algo definitivamente
subiu à cabeça dele. Mais do que o normal. Sua raiva é um pouco
surpreendente.
Não que ele tenha algo a ver comigo.
Olhando para Callum, vejo um pequeno sorriso nos lábios dele e me
pergunto se ele está pensando a mesma coisa.
Perto do fim do segundo período, o ala esquerdo adversário me derruba
com os patins, e eu caio no gelo. Com força. Não estou acostumado a levar
uma queda dessas, mas me livro rapidamente. Callum patina e me ajuda a
ficar de pé, com a testa franzida, enquanto o número dezoito é mandado
para a área de penalidade, nos dando um tempo com jogador a mais pelos
dois minutos restantes do período.
Nate assume o controle do disco em nossa zona defensiva e o passa para
Callum. Callum o arremessa para mim, e então corremos pelo rinque. Eu o
passo de volta, e ele o manda voando com um tapa no fundo da rede. A
lâmpada acende, e terminamos o segundo período empatados em um a um.
Segundos depois do terceiro, Callum está perseguindo o número dezoito,
suas lâminas espirrando gelo. Quando ele o alcança, ele joga seu ombro no
outro ala, esmagando-o contra as placas com uma força forte o suficiente
para fazê-lo cair no gelo.
É apenas uma batida legal.
Ele rouba o disco e o passa para Nate, que chuta para longe do goleiro do
outro time, nos colocando na liderança.
Quando a primeira linha sai do gelo, eu patino para perto de Callum. —
Olha você jogando sujo e inteligente.
— Só estou tentando te ensinar uma coisa ou duas.
Girando em minhas lâminas, eu patino para trás na frente dele. — Você
está dizendo que isso foi para mim? — sorrio como se eu já não soubesse que
foi em retaliação pelo babaca que me fez tropeçar.
Ele dá de ombros, tentando esconder um sorriso. — O filho da puta
mereceu. Mas pelo menos eu não fui jogado na área de penalidades. Viu?
Você pode fazer as duas coisas.
Callum sempre confiou um pouco mais na velocidade e na defensiva do
que na assertividade no gelo. Não que ele não seja capaz de ambos. Mas o
fato de que ele recorreu tão facilmente a um ato de agressão por mim me faz
amá-lo ainda mais.
Ao entrarmos pelo portão, o treinador dá um tapa no ombro de Callum.
— Bom, Hayes.
Nós nos sentamos no banco enquanto a linha de Brooks sai para o próximo
reinício do jogo. Eles conseguem manter nossa liderança.
Quando o tempo acaba, os Monarchs vencem.

Como esse era nosso último jogo nas próximas semanas e saímos com uma
vitória, alguns do time decidiram sair e comemorar. Embora eu preferisse
levar Callum de volta para minha casa para que pudéssemos jogar sujo
juntos, ele queria vir. E é claro que eu não podia dizer não.
Era um jogo em casa, então um grupo de nós se encontrou em um bar que
alguns deles frequentam quando temos alguns dias de folga dos treinos e
jogos. Estamos todos bem cansados de semanas sem parar, então é
basicamente uma atmosfera tranquila.
Jesse também apareceu, o que não me deixou muito feliz. No entanto, já
superei a impressão inicial de que tive dele. Callum me disse que eles são
mais como irmãos do que qualquer outra coisa.
Acho que vou tentar não matá-lo.
Até nosso treinador e assistente técnico estão aqui, sentados no bar com
cervejas e envoltos em nuvens de fumaça.
Depois que Jesse pega uma cerveja, ele se junta a mim, Callum, Nate e
Brooks em uma das mesas de sinuca nos fundos. Ele se joga em um banco
com um suspiro pesado.
Callum sorri enquanto se apoia em seu taco. — Como foi seu jogo?
O time de basquete de Lynwood também teve um jogo hoje à noite.
— Estou aqui sem nenhum dos meus companheiros de time para beber e
afogar minhas mágoas. — Jesse toma um longo gole, então lança um olhar
penetrante para o amigo. — Como você acha que foi?
Callum ri. — Desculpa, cara.
— Tanto faz — ele diz com um encolher de ombros. — Parabéns pela sua
vitória.
— Obrigado. — Callum olha para trás para ver Brooks riscar a bola branca
depois de afundar a bola 8 em um canto. Ele ri. — Você perdeu.
— Porra, porra — Brooks resmunga.
— Acumulem tudo, suas vadias — digo a ele e a Nate.
Nate revira os olhos e dá um tapa na nuca de Brooks. Ele continua
resmungando xingamentos enquanto começa a rebater as bolas.
Recostando-me na mesa de bar mais próxima que reivindicamos, Callum
pega sua garrafa de cerveja e toma um gole. Eu me aproximo dele e coloco
meu braço em volta de sua cintura. Tenho testado gradualmente com que
nível de demonstrações públicas de afeto ele se sente confortável, mas ele
não se importou até agora. Provavelmente estou seguro, desde que não o
apalpe abertamente. Mesmo que seja difícil resistir à tentação.
— Vocês ainda não tiveram notícias do Eric? — pergunta Jesse.
Agarro o quadril de Callum enquanto minha raiva vem rolando como
uma onda gigante. Só de ouvir seu nome, corro o risco de virar.
Callum se inclina para mim, agindo como minha âncora. — Não. O
treinador disse que a pneumonia dele está bem ruim.
Ele também sabe que é mentira.
— Droga — Jesse diz. — Parece que vou terminar esse projeto sozinho.
Enquanto esperamos para começar o próximo jogo, deixo meus olhos
vagarem pelo bar em uma tentativa de me aterrar. Alguns dos nossos
companheiros de time estão em outras mesas de sinuca ou sentados em
cabines. A risada do treinador ecoa sobre a batida constante da música e
chama minha atenção para o bar.
A nuvem de fumaça que gira ao redor dele fica mais espessa enquanto ele
dá uma tragada no charuto.
Espere.
Um charuto?
Algo frio desliza pela minha espinha.
Lembro-me da cicatriz de Callum.
Lembro-me de que Eric não estava trabalhando sozinho.
Lembro-me da conversa que ouvi entre Eric e o treinador em seu
escritório.
Tudo volta rapidamente para mim.
— Callum?
Meus olhos ainda estão fixos no treinador, mas vejo Callum virar o rosto
para mim pela visão periférica.
— Sim?
— Você sabia que o treinador fuma charutos?
Ele solta uma risada incrédula. — O treinador não fuma. — Mas então ele
segue meu olhar. — Huh. Eu nunca o vi…
Suas palavras somem enquanto ele olha para a frente com as sobrancelhas
franzidas.
O treinador ri novamente.
O som se espalha pelo bar e, dessa vez, outro arrepio toma conta de nós
dois.
Eu me viro para Callum e vejo que seu rosto está branco como um lençol.
Seus lábios estão entreabertos, mas não sai nenhum ar. Ele está
completamente parado, congelado como uma estátua. Ele nem pisca, seus
olhos mantidos reféns pela coisa que está evocando memórias em sua mente.
O barulho do bar desaparece, substituído pelas batidas do meu coração
nos ouvidos.
— Callum?
Ele se move agora, sua mão se estendendo para esfregar seu lado. Bem
sobre a velha cicatriz.
A queimadura do charuto.
— Preciso de um pouco de ar — ele diz, engasgando-se com qualquer
veneno que esteja em seus pulmões naquele momento.
Ele encosta seu taco de sinuca na mesa do bar, mas ele desliza e quase cai
no chão antes que eu o pegue. Entrego o dele e o meu para Jesse e sigo
Callum ao redor da mesa de sinuca em direção à porta dos fundos do bar.
— Ei — Nate diz. — Ele está bem?
— Ele está bem — eu respondo. — Vocês joguem um jogo.
Callum está cambaleando, andando mais rápido do que seus pés querem
carregá-lo agora. Ele bate na porta dos fundos, abrindo-a. Quando o persigo
para o beco escuro, ele já está curvado do outro lado, uma mão na parede do
prédio oposto e vomitando no chão.
Eu me aproximo lentamente por trás dele e coloco minha mão em suas
costas, esfregando círculos suaves. — Está tudo bem, bebê. Você está bem.
Ele continua vomitando até não ter mais nada, tossindo tudo. Quando
termina, fica assim por um tempo, seu corpo tremendo.
— Callum, fale comigo. Por favor.
De alguma forma, mantenho minha voz calma e baixa por ele. Mas estou
realmente surtando pra caralho aqui, com medo de que o que estou
pensando possa ser verdade.
Se for, as paredes daquele maldito bar estão prestes a ficar cobertas de
sangue.
Em pé, ele limpa a boca com a manga longa da camisa. Ele funga e se vira
para mim. O brilho da única lâmpada sobre a porta dos fundos do bar é
fraco, mas é o suficiente para ver o tom esverdeado em seu rosto.
Quando ele fala, sua voz é crua e destruída. — Não foi só Lewis.
O mundo está desmoronando.
Tudo fica preto.
— Ele tinha amigos. — O queixo de Callum treme enquanto ele desvia o
olhar. — Às vezes eles usavam máscaras ou colocavam uma venda em mim.
Nas vezes em que não usavam, era como... eu estava condicionado a não vê-
los. Nunca me lembrava dos rostos deles.
Callum não é o único que está tremendo agora. Estou vibrando com a
energia potencial de violência e assassinato.
Seu olhar encontra o meu novamente, vermelho e molhado. Sua voz sai
em um soluço. — Desculpe por não ter te contado.
E assim, um pouco dessa energia desaparece. O preto nas bordas da minha
visão se torna cinza. Nem sempre tenho minhas prioridades claras, mas
quando se trata de Callum, eu tenho que ter. Tenho que saber que ele está
bem antes de ceder a qualquer outra coisa.
— Vem cá — eu digo, dando um passo à frente e envolvendo minha mão
em volta da parte de trás do seu pescoço para puxá-lo para mim. Eu o seguro
firme enquanto ele envolve seus braços em volta de mim, agarrando minha
camisa, agarrando-se a mim.
Não estou chateado com ele por esconder isso de mim. Se ele não estava
pronto para me contar, então ele não estava pronto.
Ele não está chorando, mas seu corpo ainda está tremendo em meus
braços, sua respiração está trêmula. Dou a ele alguns minutos enquanto
simplesmente o seguro, esperando afastar qualquer possibilidade de um
ataque de pânico iminente.
Enquanto ele parece se acalmar depois de um tempo, minha raiva retorna.
Eu estava errado quando pensei que não havia mais ninguém para matar
por ele. Agora que sei que há, minha besta nunca lutou tanto para sair da
gaiola, nem mesmo quando Eric invadiu meu apartamento. Isso é diferente.
Isso é mais próximo de como me senti na noite em que minha irmã foi
atacada. Só que pior.
Cada músculo do meu corpo está tenso, esticado até o limite.
Eu quero arrancar o coração de alguém.
Antes que eu possa apertar a nuca de Callum com muita força, eu afrouxo
meu aperto nele. Ele se inclina para trás para que fiquemos cara a cara, mas
ele mantém seu aperto na minha camisa.
— Preciso que você me diga uma coisa agora. — Há um eco na minha
voz, como se fosse tanto o protetor quanto a besta. Imagino se Callum
também consegue ouvir.
Ele engole.
— Treinador?
Seu peito sobe com uma respiração lenta, profunda e trêmula. Suas
sobrancelhas se abaixam ainda mais. Ele concorda.
Hora de arrancar um coração.
Eu esmago minha boca na dele. Não dou a mínima para o que ele estava
fazendo alguns minutos atrás, mas é só um beijo rápido o suficiente para eu
agarrar seus braços e puxá-los para longe de mim.
Girando, volto para a porta do bar.
— Stone!
Callum me alcança, parando na minha frente com as duas mãos no meu
peito. No entanto, toda aquela energia potencial se tornou cinética, e eu não
paro. Ele anda para trás enquanto eu avanço, como se estivesse pronto para
passar direto por ele. Ele é um borrão. A única coisa que está clara é o que
vai acontecer do outro lado daquela porta.
— Não enlouqueça de novo. Você não pode fazer isso aqui!
Isso consegue me parar.
Eu o encaro, seu rosto voltando ao foco. Olho para seu braço onde aquele
corte está escondido pela manga de sua camisa.
Não posso perdê-lo novamente.
Encontrando seu olhar, eu dou a ele o que ele quer dessa vez. Eu serei
paciente.
— Mas eu posso fazer isso?
Seu maxilar estala, e vejo uma determinação fácil cruzar seu rosto. —
Porra, sim.
Trinta e Um
Callum
As luzes da cidade passam em um borrão enquanto Stone acelera pela rua
vazia em direção ao seu apartamento. Eu olho pela janela sem realmente vê-
las, minha visão preenchida com nada além de formas pretas e uma névoa
de clarões brancos e amarelos.
Ainda me sinto um pouco enjoado, memórias perdidas que acumularam
poeira ressurgindo e se juntando ao resto daquelas sombras.
A cicatriz da queimadura de charuto no meu lado arde como uma dor
fantasma.
A risada do treinador ainda ressoa em meus ouvidos.
Como eu nunca o tinha visto fumar charutos antes? Talvez eu tivesse?
Talvez eu o tivesse visto, mas meu cérebro de alguma forma bloqueou isso.
Ele tende a fazer isso.
Dizem que memórias reprimidas podem retornar de repente com um
único gatilho. Acho que eu esperava que isso nunca acontecesse comigo.
Stone abruptamente bate o punho no volante. — Porra!
Minha cabeça vira para o lado, e meu coração salta para a garganta. — O
quê?
Os músculos de sua mandíbula se contraem loucamente, seu olhar duro
está fixo na estrada como se ele pudesse fazê-la desaparecer e encurtar a
distância restante.
— Precisamos falar com Eric.
Ouvir isso saindo da boca de Stone era a última coisa que eu esperava.
— Por quê?
A próxima respiração que ele dá é claramente forçada. — Acho que o
treinador sabe sobre mim.
Mesmo que nós dois tenhamos colocado nossos moletons de volta e o calor
esteja no máximo, arrepios sobem pelos meus braços. Os cabelos da minha
nuca ficam em pé. — Por que você acha isso?
— Acho que ele era a fonte do Eric. Não sei como ele sabe, mas acho que
foi ele quem trouxe o Eric aqui. Eu os ouvi no escritório do treinador algumas
semanas atrás. Presumi que o Eric estava apenas tentando se infiltrar na
primeira linha para chegar mais perto de você, mas agora acho que ele estava
tentando chegar mais perto da verdade. O treinador não faria isso porque
pareceria suspeito.
— Ele também pode estar preocupado que eu me lembre.
Stone concorda. — Se o treinador era amigo do Lewis, então ele também
poderia ser amigo do tio do Eric. Se eu estava matando todos os amigos dele,
faz sentido que ele arranjasse alguém para ficar de olho em mim. E em você.
Ele tem medo de que eu vá atrás dele, e ele está certo, porra. Ligue para o
Eric.
Tiro meu telefone do bolso e disco o número de Eric, colocando-o no viva-
voz. Ele toca algumas vezes, mas vai para o correio de voz.
— Porra. — Stone aperta alguns botões na tela sensível ao toque no meio
do painel, e outro toque enche o carro antes que a voz de Lacey saia pelos
alto-falantes. É alegre demais para a situação.
— O que posso fazer por você, maninho?
— Preciso que você rastreie um celular para mim. Callum vai te mandar
o número por mensagem.
Sem esperar mais instruções, envio o número de Eric para o que está no
visor.
— Está tudo bem? — Lacey pergunta.
— Nem um pouquinho — Stone responde, com a voz dura.
Lacey suspira. — Me dê dois minutos. E Stone? Tenha cuidado.
— Sempre tenho.
Assim que a ligação termina, Stone pisa fundo no acelerador, e o motor
ruge. Menos de dois minutos depois, estamos parando em frente ao seu
apartamento, e seu telefone toca.
Ele franze a testa enquanto olha para o texto. — Ele está na arena.
— Já passa de uma da manhã. O que diabos ele está fazendo lá?
Vou só pegar o que preciso e depois vamos para lá. — Ele abre a porta,
então para pra olhar para mim. — A menos que você queira ficar aqui.
Posso dizer que ele prefere que eu faça isso, mas balanço a cabeça. — De
jeito nenhum.
Lá dentro, Stone pega as armas que normalmente não carrega consigo
enquanto eu vou ao banheiro para escovar os dentes com a escova de dentes
que deixei aqui alguns dias atrás. Tenho ficado com ele com mais frequência
do que não na última semana.
Voltamos para o carro, e Stone nos leva até o campus. Levamos metade do
tempo que normalmente levaria para chegar lá se ele tivesse seguido o limite
de velocidade.
Seria uma pena que ele fosse preso antes de cometer um assassinato.
Depois de estacionar, ele se inclina sobre o console central, segura meu
rosto entre as mãos e pressiona seus lábios nos meus em um beijo rápido,
mas que se prolonga por um instante.
Ele está nervoso, mas ainda assim consegue se controlar melhor do que
eu.
Entrando pela porta dos fundos do estádio, passamos pelo vestiário e
descemos o túnel. O som dos patins no gelo chega aos nossos ouvidos
conforme nos aproximamos do rinque. A maioria das luzes está apagada. As
arquibancadas estão na escuridão enquanto o rinque é iluminado apenas
pelas lâmpadas diretamente acima do centro do gelo.
Stone e eu entramos na área do banco para ver Eric patinando sozinho. Ele
está de moletom e capuz, cercado por discos enquanto os atira na rede
solitária. Seus golpes são alimentados por raiva e força, em vez de precisão.
A maioria dos discos quica nas traves ou passa direto pelo gol.
— Vaughn.
Ao som da voz de Stone, Eric gira suas lâminas. Seus olhos se arregalam.
Pelo menos, tanto quanto podem através do inchaço ao redor do esquerdo.
Quase metade de seu rosto está pintado com manchas pretas, azuis e roxas.
Alguns dos hematomas estão amarelando nas bordas, então o inchaço
provavelmente estava muito pior do que está agora.
Abrindo o portão, eu saio para o gelo. Ele ainda não foi recapeado depois
do nosso jogo, então é fácil andar nele.
— Quem fez isso?
— Treinador — diz Stone.
Eric assente, embora não fosse uma pergunta.
— Por quê? — pergunto, tentando juntar todas as peças.
— Porque eu disse a ele que estava acabado. Que eu não o ajudaria mais.
— Ele se apoia em seu taco e estremece. — Tenho quase certeza de que ele
quebrou algumas costelas também.
— Então o que diabos você está fazendo aqui? — Eu pergunto
bruscamente.
— Senti falta de patinar e vim para clarear a cabeça. — Ele suspira e
enxuga o suor da testa. — Não que tenha ajudado em nada.
— Então eu estava certo. — Stone se aproxima de mim, suas mãos
fechadas em punhos. — Foi ele quem suspeitou de mim e te trouxe aqui para
tentar encontrar evidências.
Mais uma vez, Eric concorda. — Ele e meu tio eram amigos. Achei que ele
queria me ajudar a obter justiça. — Ele balança a cabeça e zomba. — Depois
que descobri a verdade sobre Jimmy, conectei os pontos. Acusei o treinador
de um monte de merda, e ele não gostou.
— Por que você não foi ao hospital? — pergunto. — Entregou ele?
— Porque eu estou com medo dele pra caralho. — Ele balança a cabeça e
desvia o olhar. — Porra. Eu pensei que ele ia me matar pra caralho.
Stone fica tenso ao meu lado.
Inclinando-se, ele abaixa a voz e diz: — Você precisa sair daqui. Agora.
Eu me viro para olhar para ele. — O quê? Por quê?
— Porque há uma razão pela qual ele não o matou.
Um arrepio percorre o gelo e se instala em meus ossos.
Um estalo ensurdecedor corta o ar. Menos de um segundo depois, um dos
painéis de vidro temperado atrás de nós se estilhaça, espalhando pedaços
sobre o gelo. Nós três nos abaixamos, e Eric deixa cair seu taco. Stone cobre
meu corpo com o dele, e posso sentir seu coração batendo no mesmo ritmo
selvagem que o meu nas minhas costas.
Esperamos, mas outro tiro não vem.
Em vez disso, há um clique no sistema de som, um ruído branco seguido
por uma voz que eu ouvia quase todos os dias nos últimos dois anos. Pela
primeira vez, ela alcança todo o caminho até aquele abismo, chamando as
sombras. Convocando-as.
— Muito bem, Sr. Wakefield. Pena que todas as suas revelações chegaram
um pouco tarde demais.
Stone se levanta, tirando sua arma do cós traseiro de sua calça jeans. Ele
se move ao meu redor, parando na minha frente, mesmo que não tenhamos
certeza de onde o tiro veio. Sua cabeça se move de um lado para o outro
enquanto ele procura nas arquibancadas escuras. Uma mão agarra sua arma,
a outra se estica para trás dele para agarrar meu lado, guiando nós dois em
um círculo lento.
Eric patina para se juntar a nós, ficando atrás de mim. Acho que é menos
um ato de proteção sobre mim e mais autopreservação do rebanho. Mas
então ele e Stone trocam um breve olhar e um aceno de cabeça, e acho que
talvez ele esteja tentando compensar o último fim de semana.
Ainda examinando as arquibancadas, Stone grita, sua voz ecoando pela
arena. — Covarde demais para se mostrar?
— São três contra um, garoto — diz a voz estrondosa do treinador. — Não
sou covarde. Só não sou estúpido.
— Nós concordaremos em discordar — Stone rosna de volta. — Que
porra você quer?
— Quero que você pare de matar meus amigos. E só há uma maneira de
parar um assassino. Não há, Stone?
Aquele frio que se enterrou em meus ossos fica mais frio. Eu agarro o
moletom de Stone e tento puxá-lo de volta para que ele fique entre mim e
Eric, mas ele se recusa a se mover.
Outro tiro é disparado. Desta vez, um painel de vidro do lado oposto do
rinque se estilhaça. Mais vidro acaba neste lado do gelo do que antes.
Presumindo o mesmo que eu, Stone se vira para ficar de frente para aquela
direção. Para ter acertado o vidro atrás de nós, o treinador deve estar no alto
das arquibancadas, nas partes mais escuras das sombras.
Onde ele sempre esteve. Eu só não lembrava.
— Você é um péssimo atirador! — grita Stone.
— Stone. — puxo seu moletom novamente, irritado com ele por provocar
um inimigo que não podemos ver.
— Eu sou?
Os outros ouvem o sorriso na voz do treinador ou isso é só comigo?
Eric se inclina um pouco mais perto de nós e fala em voz baixa: — Vou
tentar fugir e conseguir ajuda.
Eu acho que é uma ideia terrível quando ele diz isso, mas não sou rápido
o suficiente para pará-lo. Nem Stone, não que eu esperasse que ele tentasse.
Eric empurra suas lâminas para fora do gelo e acelera em direção ao portão
aberto. Ele consegue, mas quando ele coloca um patins no banco, um terceiro
estampido explode pela arena. Eric grita e cai, de bruços, metade do corpo
no gelo e metade fora. Ele fica imóvel.
— Eric! — Grito seu nome, mas ele não se move.
Mesmo que eu esteja preocupado com o local onde ele foi baleado, não há
a mínima chance de eu deixar Stone.
— Agora são dois para um — Stone grita, ainda de frente para a direção
dos tiros, dificilmente perturbado pelo que acabou de acontecer. — Pronto
para sair ou você ainda é um covarde?
Não há resposta. Tudo está quieto, exceto pela respiração pesada minha e
de Stone, o som do sangue escorrendo em meus ouvidos.
Os olhos de Stone vasculham as arquibancadas do outro lado da rua como
os de um falcão. Os nós dos dedos estão brancos ao redor do punho da arma.
Sua mandíbula estala, seu rosto nada mais é do que linhas duras e veias
pulsantes.
Um barulho quase tão alto quanto os tiros ecoam pelos alto-falantes como
um trovão. Quando um zumbido agudo se segue, sei que o treinador deixou
cair o microfone.
A distração é tudo o que é preciso para que o foco de Stone vacile. Mesmo
que não vacilasse, não tenho certeza se algum de nós poderia ter previsto o
próximo tiro que se segue. A explosão é mais alta. Mais perto. Stone solta
um grunhido alto antes que seus joelhos cedam e ele caia no gelo. Eu o
agarro, tento segurá-lo, mas não adianta. A arma escorrega de sua mão e
desliza alguns metros para longe.
Sangue escorre da perna de Stone, deixando o gelo vermelho. Seus jeans
rapidamente ficam encharcados ao redor do ferimento em sua coxa.
Ajoelho-me ao lado dele, meu olhar voando entre ele e a arma caída.
Tomando uma decisão, eu me levanto e vou pegar a arma.
— Não faça isso, Hayes.
Eu congelo a um passo de distância.
Olhando para cima, vejo o treinador Hill diretamente na minha frente, sua
arma apontada para meu peito, causando terror dentro dele. Minha espinha
se endireita e dou um passo para trás, instintivamente levantando minhas
mãos no ar.
Olhando para o cano da arma de Eric, não tive medo de que ele atirasse
em mim.
A arma do treinador?
O medo libera as sombras, e elas voam livres, me envolvendo em um
cobertor escuro de frio. Elas enrolam seus tentáculos em volta da minha
garganta. Não é da maneira reconfortante e segura que Stone faz. É
sufocante. Aterrorizante.
O treinador dá um passo à frente, e eu dou outro para trás, minhas juntas
duras. Stone rosna enquanto tenta se empurrar pelo gelo em direção à sua
arma, estendendo a mão esquerda para pegá-la, seus dedos a centímetros de
distância. O treinador chega lá primeiro. Seu pé pesado desce, esmagando a
mão de Stone sob seu sapato. Stone solta um rugido de dor.
Com uma risada que me faz sentir o aperto na garganta, o treinador
levanta o pé e chuta a arma para longe, fazendo-a ricochetear nas placas.
Stone cai no gelo, segurando a mão e ofegando.
Voltando seu foco para mim, o treinador se aproxima lentamente. Dessa
vez, eu mantenho minha posição.
— Eu realmente esperava que você não se lembrasse, Callum. — Sua
carranca falsa se transforma em um sorriso nauseante. — Embora, quando
consegui o emprego aqui alguns anos atrás, quase fiquei magoado por você
não ter se lembrado.
Eu abaixo meus braços para os lados. Não porque eu não esteja com medo.
Porque eu estou tão doente e cansado de estar com medo. E, agora, eu estou
um pouco mais doente. Enjoado. O jeito que ele está olhando para mim me
deixa quase vomitando em todo o gelo, embora eu já tenha esvaziado meu
estômago.
Levantando meu queixo, eu o encaro. — Vai se foder.
— Eu vi você no vestiário. — Ele se aproxima, perto o suficiente para
tocar. Ele abaixa a arma para passar o cano no meu lado sobre a cicatriz que
ele deixou. — Eu vi minhas marcas em você. — Levantando a arma
novamente, ele a usa para tirar uma mecha de cabelo suado do meu rosto.
— Você ainda meio que me excita.
Sim. Definitivamente vou vomitar em cima dele.
A bile sobe pela minha garganta e eu quero sair da minha pele.
— Fique longe dele, seu filho da puta nojento! — Stone grita, sua voz
tensa e desesperada. Ele está lutando mais do que nunca para ficar de pé,
mas entre sua perna, sua mão esmagada e seu próprio sangue manchando o
gelo, ele não vai a lugar nenhum.
— Fique abaixado, Wakefield — o treinador diz calmamente sem olhar
para ele. — Eu lido com você em um minuto.
Egoisticamente, eu poderia ficar feliz que ele vai me matar primeiro. Eu
odeio isso por Stone, mas... Eu não quero que minha última lembrança seja
dele morrendo. É egoísmo, mas é meu último consolo restante.
— Vá em frente e me mate — eu digo a ele enquanto ele move sua arma
para baixo em direção ao meu queixo em uma carícia revoltante que revira
meu estômago. — Não será pior do que o que você já fez comigo.
Ele dá dois passos para trás, sua arma apontada para meu peito e aquela
carranca falsa retornando. — Tão rápido para me esquecer de novo.
Eu balanço a cabeça. — Você já foi apagado.
Quando olho para Stone pelo que espero ser a última vez, vejo as lágrimas
em seus olhos primeiro. São essas lágrimas que me fazem querer lutar.
Então vejo a faca em sua mão.
E é aí que sei que vou lutar dessa vez.
O que acontece a seguir acontece em alguns piscar de olhos, meia dúzia
de batimentos cardíacos.
Stone arremessa a faca em nosso treinador, e eu me jogo no gelo. Sua faca
gira no ar antes que a lâmina fique cravada no braço do treinador. A arma
dispara antes de cair de seu aperto. A bala atinge outro painel de vidro,
chovendo mais na pista.
— Stone!
É Eric. Ele saiu rastejando do banco, deixando um rastro de sangue no
ombro. Ele desliza a arma de Stone em sua direção pelo gelo enquanto eu
corro atrás da do treinador. Elas estão em nossas mãos ao mesmo tempo.
Nossos primeiros tiros ecoam pelo ar simultaneamente. Eles acertam o
alvo, cada tiro no peito do treinador o derrubando.
Nós não paramos.
Nós atiramos até que os pentes estejam vazios e haja pelo menos uma
dúzia de buracos espalhados na frente do corpo do treinador Hill,
encharcando suas roupas, pintando-as e o gelo abaixo dele de escarlate. Ele
olha para si mesmo, lábios entreabertos, sangue escorrendo pelo queixo.
Ele cai de joelhos.
Então entra em colapso.
A arena fica em silêncio, exceto pelo zumbido em meus ouvidos. O sangue
se acumula sob o corpo amassado do treinador, transformando o gelo solto
em lama vermelha e brilhando sob as luzes da arena.
Deixo a arma escorregar dos meus dedos. Estou tremendo pra caralho,
mas não deixo que isso me impeça de correr pelo gelo para chegar até Stone.
No segundo em que o alcanço, pego seu rosto em minhas mãos e bato minha
boca na dele. Ele segura a frente do meu moletom com a mão ilesa e
choraminga contra meus lábios.
Pressionando sua testa contra a minha, sua voz quebra em um soluço. —
Eu pensei que ia te perder.
Balanço minha cabeça. — Nunca.
Ele me dá mais um beijo rápido e suave. Ficamos assim por um tempo,
recuperando o fôlego, nos recuperando da adrenalina. Eric ainda está por
perto, mas agora, somos só eu e Stone e o alívio de estarmos vivos. Juntos.
Baixando a voz para um sussurro só para nós, ele pergunta: — Vocês não
querem admirar nossa caça?
Quase rio.
Por muito tempo, pensei que nunca teria o que é preciso para matar
alguém, e talvez em qualquer outra circunstância eu não teria isso em mim.
Mas esta? Esta morte? Foi fácil. Eu posso sentir isso - aquele sentimento que
vem com a morte. Mas desta vez, há algo mais ali também que é ainda mais
potente.
Eu me livrei de algumas dessas sombras hoje à noite. Transformei-as em
borboletas.
Olhando de volta para o corpo do treinador, volto meu olhar para Stone
tão rapidamente quanto. — É lindo. Mas não tão lindo quanto você.
Stone sorri, seus olhos ainda molhados.
— Odeio interromper. — Eric se inclina contra as placas em frente ao
banco. Ele segura o ombro, com sangue pingando entre os dedos. — Não
deveríamos inventar uma história?
Stone e eu trocamos um olhar. Nós dois sabemos que isso não é algo que
podemos esconder jogando um corpo em um lago. Há tanto sangue no gelo.
Tinta vermelha derramada e pincelada em uma tela branca e em branco.
Ele olha para Eric. — Quão longe da verdade você está disposto a ir?
— Não importa até onde você me diga. Eu seguirei sua liderança.
— Na verdade — eu digo. — Eu tenho uma ideia.
Trinta e Dois
Stone
Duas ambulâncias estão estacionadas do lado de fora da arena. Junto com
uma van do legista.
Callum era meio que um gênio. Ligamos para Lacey, e ela plantou
algumas evidências bem contundentes no computador do escritório do
treinador. A história é que Eric as encontrou quando foi imprimir algumas
jogadas e o treinador o pegou. Eric mal escapou com vida. Quando ele voltou
hoje à noite para ver se as evidências ainda estavam lá para que ele pudesse
chamar a polícia, o treinador apareceu. Callum e eu estávamos lá para pegar
o telefone que ele deixou no vestiário, e nós simplesmente atrapalhamos. O
treinador ia matar todos nós, e o que tínhamos que fazer era legítima defesa.
Pelo menos a última parte é verdade.
Lacey até invadiu o computador da casa do treinador para plantar mais
evidências lá, mas aparentemente ela não precisava. Ela sabe que eu nunca
quero ver isso.
Sinceramente, eu deveria saber que esta noite era uma armadilha. Depois
que eu fiz a conexão entre treinador e Eric, treinador saberia que eu viria
atrás dele. Ele estava esperando, ganhando tempo. Usando Eric para me
atrair.
Funcionou. Até que não funcionou mais.
Callum e eu ficamos parados na beira do estacionamento, longe de todos
os outros, enquanto observamos uma das ambulâncias se afastar. É a que já
enfaixou minha mão esquerda - que felizmente não está quebrada - e
remendou minha perna. O ferimento à bala é apenas um arranhão feio. Eles
sugeriram que eu fosse ao hospital para levar pontos, mas já me costurei
várias vezes. Vou fazer isso quando chegar em casa. Posso não conseguir
jogar os próximos jogos que temos em algumas semanas, mas pelo menos
não devo ficar fora da temporada.
Os policiais já falaram comigo e com Callum, e estão falando com Eric, que
está sentado na parte de trás da segunda ambulância, cuidando do ombro.
Eles estão se certificando de que nossas histórias se alinhem. Passamos por
isso algumas vezes, então não estou preocupado.
A porta traseira da van do legista bate, e o veículo vai embora com o corpo
do treinador Hill. Eu envolvo meu braço em volta da cintura de Callum e o
puxo para mim, buscando o calor do seu corpo contra o frio do início de
dezembro.
Mantendo a maior parte do meu peso fora da minha perna machucada, eu
me inclino e dou um beijo em sua bochecha. — Como você está se sentindo
depois da sua primeira morte?
Faço a pergunta seriamente. Considerando que o ataque de pânico que ele
teve no começo do ano letivo foi porque ele queria testemunhar a morte
novamente, mas não queria fazer isso ele mesmo, estou pensando se preciso
me preocupar.
Mas Callum vira o rosto para mim e sorri. — Como você disse, foi nossa
matança. Estou bem. Eu prometo.
— É algo que você gostaria de fazer de novo?
Admito que matar com ele foi muito satisfatório, e eu não me oporia a uma
repetição. De preferência, sem meu próprio ferimento de bala. Mas só se
fosse algo que ele quisesse.
— Provavelmente não. — Então ele dá de ombros e me dá um sorrisinho
brincalhão. — Mas eu nunca direi nunca.
Um baixo estrondo vibra através do meu peito. — Provocador.
Alguns carros de polícia vão embora depois que alguém se aproxima e nos
diz que estamos livres para ir. Os paramédicos começam a fechar a segunda
ambulância enquanto Eric caminha em nossa direção, com o ombro
enfaixado e o braço numa tipoia.
Não pretendo contar isso a ele, mas ele era uma isca.
Quando acusei o treinador de ser um péssimo atirador, não o estava
subestimando. Era para dar a Eric uma falsa sensação de segurança. O
treinador iria nos eliminar um por um, a menos que eu o provocasse o
suficiente para que ele se mostrasse. Para desequilibrar a balança, eu tinha
que equilibrá-los primeiro. Eric tinha que ser um dano colateral.
E não, não me sinto culpado por isso.
Ei, ele está vivo, não está?
— Que bom que você está bem, Cal — Eric diz enquanto para na frente
dele. Ele olha para mim e acrescenta um pouco a contragosto. — Você
também, cara.
— Como está o ombro? — pergunta Callum.
— Ruim. Eles queriam me levar para o hospital na ambulância, mas eu
disse que eu mesmo iria. Não há ferimento de saída, então posso precisar de
cirurgia para tirar a bala. Provavelmente devo verificar minhas costelas
também. Provavelmente ficarei fora da temporada.
— Desculpe — diz Callum, parecendo sincero.
Eric dá de ombros com seu ombro bom. — É o que é. — Ele olha para mim
novamente. — O treinador disse que queria que você parasse de matar os
amigos dele. Parece que pode haver mais deles.
Concordo. — É, eu peguei isso. Não se preocupe. Eu vou cuidar disso.
Ele não se opõe a isso. — Eu ainda me sinto mal por tudo que fiz, sabe. Eu
realmente sinto muito. Nós vamos ficar bem?
Quero dizer não por que qualquer um ameaçando Callum não é algo que
eu normalmente seria capaz de perdoar. Nunca. No entanto, sinto os olhos
de Callum na lateral do meu rosto, sentindo seu olhar esperançoso.
Não é como se eu pudesse matá-lo. Não facilmente, pelo menos. Escondi
minha faca lá dentro para que os policiais não a encontrassem. Vou ter que
comprar uma arma nova também. Não estava registrada, então pudemos
dizer que ambas pertenciam ao treinador.
Deslizando meu braço para trás da cintura de Callum sob o pretexto de
apertar a mão do cara, eu fecho o punho em vez disso. Eu o puxo para trás e
o soco o mais forte que posso em seu ombro machucado.
Para seu crédito, ele não grita, apenas solta um grunhido alto enquanto
cambaleia para trás.
— Jesus, Stone! — Callum repreende, me dando um soco no ombro
também. Mas não tão forte.
— Agora podemos ficar bem. — digo a Eric com um sorriso satisfeito.
O rosto de Eric empalidece cerca de dois tons mais branco do que já estava
quando ele se aproximou. Gotas de suor escorrem por sua testa enquanto ele
respira com dificuldade em meio à dor. — Okay. Eu mereci isso.
— Você provavelmente deveria ir para o hospital agora. — Eu nem tento
esconder minha diversão.
Ele acena e começa a dar pequenos passos para trás. — Vejo vocês,
rapazes. Não tão cedo, espero.
Não consigo deixar de rir disso.
Enquanto ele vai para o carro, eu pego a mão de Callum e o puxo na
direção da minha. É uma caminhada um pouco lenta, a dor na minha perna
me faz mancar.
Quando chegamos ao meu Charger, Callum pergunta: — Você quer que
eu dirija?
Percebo a inflexão ansiosa em sua voz.
Levando-o para o lado do motorista, eu o encurralo contra a porta,
prendendo-o com minhas mãos em cima do carro. Eu me inclino e roço meus
lábios nos dele. — Você quer dirigir o Batmóvel, bebê?
— Talvez — ele diz, sorrindo contra minha boca. — E você sempre me dá
o que eu quero, certo?
Rosno antes de pressionar meus lábios com mais força nos dele, beijando-
o profundamente. Tirando minhas chaves do bolso da calça jeans, coloco-as
contra seu peito. Sua mão sobe sobre a minha, tirando-as de mim.
Quando começo a me afastar para contornar o carro, sua outra mão sobe
e agarra a frente do meu moletom. Eu paro, olhando em seus olhos que são
tão abertos, tão suaves.
— Você é tudo para mim, Stone — ele diz. — Só quero que você saiba
disso.
Meu coração incha dentro do meu peito. Eu sei que darei a esse homem
tudo e qualquer coisa que ele possa querer pelo resto da minha vida.
— Você é isso para mim também, Callum. Ninguém nunca teve um poder
sobre mim do jeito que você tem, e isso só fica mais forte a cada dia. Eu amo
pra caralho o poder que você tem sobre mim, e eu nunca quero que ele vá
embora. Eu pertenço a você. Eu sempre pertencerei. Para-sempre-porra.
— Para-sempre-porra — ele repete com um sorriso gentil.
Eu o beijo mais uma vez antes de me forçar a ir embora. Entramos no carro,
e Callum segura minha mão enquanto nos leva para longe da cena de outra
morte. Talvez seja a última que faremos juntos. Talvez não seja.
De qualquer forma, sempre pertenceremos um ao outro.
Epílogo
Callum

Chegamos ao campeonato.
Nos últimos três anos jogando com o Lynwood Monarchs, nem chegamos
perto. Stone gosta de dizer que é tudo por causa dele porque, bem, ele é
arrogante assim. Ele certamente é um dos motivos. O time joga melhor com
ele.
Mas tenho certeza de que outro motivo é que todos nós queríamos dar um
grande “foda-se” ao treinador depois de tudo o que ele fez. Nada ficou em
segredo. Verdades e rumores se espalharam pelo campus como fogo na
semana seguinte.
Ele está apodrecendo no chão, e nós chegamos ao campeonato sem ele. Ele
nunca mereceu passar por isso conosco.
Stone ficou fora dos nossos próximos jogos. Sua perna e mão se
recuperaram rapidamente, então ele não teve que ficar fora por muito
tempo. Eric, por outro lado, se retirou completamente de Lynwood e voltou
para a faculdade na Pensilvânia. A única razão pela qual ele estava aqui foi
por causa do treinador. Ouvi falar dele algumas vezes, e ele disse que está
tentando dar ao pai uma chance de consertar as coisas. Estou feliz que ele
esteja tentando.
Estamos em Michigan para o campeonato, e tanto a família de Stone
quanto a minha estão aqui. Stone ficou surpreso que sua mãe tirou uma folga
do trabalho, mas eu podia dizer que ele estava feliz por ela ter tirado. Tentei
dizer à minha tia que ela não precisava trazer sua família até aqui, mas ela
não quis.
Minha tia, meu tio e meus primos conheceram Stone no Natal. Eles o
amaram, é claro.
Para um serial killer, ele é incrivelmente charmoso.
Passamos parte das férias com eles e a outra parte com a mãe e a irmã de
Stone. Foi... muito bom.
Embora eu tenha me mudado para a casa da família da minha tia quando
tinha dezesseis anos, passei mais tempo na casa do Jesse do que lá. Nunca
me deixei sentir como se eles fossem minha família também.
Sinto falta da minha mãe todos os dias. Sempre senti. Só nesses últimos
meses, tenho me lembrado de como é ter uma família.
— Ei. — Stone joga uma bola de fita em mim, me trazendo de volta ao
presente dentro do vestiário. — É melhor você estar pensando no jogo.
— Estou pensando em muitas coisas — admito enquanto visto meu suéter
sobre meus protetores. Viro-me para ele e deixo meu olhar percorrer seu
corpo. Ele está apenas com sua camada de base, tecido apertado agarrado a
músculos bem definidos. Ainda não consigo parar de olhar para ele sempre
que posso. — Como vamos ganhar este. Como temos que ganhar porque não
teremos você conosco no ano que vem.
Depois de vestir sua calça de hóquei, ele se vira para mim com aquele
sorriso dele que é lindo e arrogante ao mesmo tempo. — Vai sentir minha
falta no gelo, bebê?
Pego a bola de fita que caiu no chão e jogo de volta para ele. — Você sabe
que eu vou.
— Alguém vai sentir minha falta? — Brooks pergunta algumas estações
abaixo.
“Nãos” provocantes são jogados de volta para ele. Mais fita voa pela sala
em sua direção enquanto ele faz beicinho.
Enquanto as risadas ecoam, Nate se aproxima mancando de patins,
completamente vestido.
— Antes deste jogo, você deveria saber de uma coisa, Cal — ele diz, com
o capacete enfiado debaixo do braço. Seu sorriso é um pouco diferente do
dos outros companheiros de time. — O time e eu já conversamos. É unânime.
Eles querem que você seja o capitão deles no ano que vem.
Meu queixo cai. — Eu?
— Se você quiser.
Olho para Stone que está sorrindo como se já soubesse. Quando olho ao
redor da sala, encontro os olhos do resto do time em mim, todos sorrindo
também e olhando de volta com expectativa.
Limpando a garganta porque sei que minha voz sairia toda embargada de
outra forma, concordo. — Eu ficaria honrado.
Um coro de gritos e vaias ecoa por todo o vestiário, e alguns caras vêm até
mim para dar tapinhas nas minhas costas e me dar os parabéns.
Depois que todos voltaram a se arrumar, eu me viro para Stone. — Agora
vou sentir ainda mais sua falta. Teria sido divertido você me chamar de
Capitão.
Ele se inclina e abaixa a voz. — Eu sempre poderia te chamar de Capitão
na cama — ele diz com um sugestivo levantar de suas sobrancelhas.
Eu rio e balanço a cabeça, empurrando-o para longe.
Assim que o time está pronto, pegamos nossos tacos e seguimos pelo túnel
em direção ao barulho estridente da multidão. Nosso treinador assistente -
bem, nosso treinador principal agora - está nos esperando no banco. Ele já
nos deu nossa conversa motivacional pré-jogo no vestiário, mas ele olha
entre nós como se quisesse dar outra.
— Vocês conseguiram — ele diz, sua voz ecoando acima do barulho de
gritos e aplausos. — Não importa o que aconteça lá fora, joguem para vocês
mesmos e para mais ninguém.
Ele conduz a primeira linha para o gelo, e nos reunimos na linha vermelha
com o time do Maine para a queda do disco. O barulho na arena aumenta. O
sangue escorre em meus ouvidos. O disco cai, e é jogado para longe pelo taco
de Stone, direto para minha fita.
Eu saio, lâminas cortando o gelo enquanto eu passo por um defensor antes
de passar para Nate. Ele passa para Stone, que chuta para o gol. O disco
quica nas almofadas do goleiro, e eu o pego, mal evitando ser atingido por
um jogador adversário, nossas almofadas se esfregando enquanto eu patino
de volta para a linha azul.
O disco é passado, interceptado, quica no gelo. Estamos mais uma vez
aplicando pressão na zona defensiva do Maine quando Nate é duramente
acertado e cai. Eles o levam de volta para a linha vermelha e marcam em
uma corrida de homem ímpar.
Estamos perdendo por um no final do primeiro, mas a energia no vestiário
entre os períodos não diminuiu em relação a antes. Ainda está agitado,
nossos espíritos ainda estão altos.
Ganhemos ou não, nós chegamos até aqui.
Mas venceremos. Porque queremos mais.
No início do segundo período, Maine encontra um disco solto na frente da
rede e o passa por Fitz, assumindo a liderança por dois a zero.
Em vez de deixar que isso nos atrapalhe, estamos todos em busca de
sangue.
Stone e eu sentamos lado a lado no banco enquanto nossa segunda linha
sai. Maine aplica pressão em nossa zona defensiva por quase um minuto
inteiro, jogadores colidindo uns com os outros ao redor do gol, antes de Fitz
dar um tapa no disco para longe do vinco. Nosso ala direita o pega de volta
pela linha vermelha e tenta um chute que quica na trave. Brooks encontra
seu caminho na frente da rede e marca o rebote.
Quando a lâmpada acende, todos nós no banco ficamos de pé e
comemoramos.
O resto do período é preenchido com penalidades de ambos os lados
enquanto a guerra continua. Ambos os times se revezam em tempos com
jogadores a mais que não dão em nada devido à forte defesa de goleiro de
ambos os lados.
No final do segundo, são dois para um.
Ainda temos um pouco de recuperação para fazer, mas a comemoração
ridícula de Brooks do seu gol durante o intervalo do período mantém a
energia alta. Tenho quase certeza de que ele estava imitando o Hulk, mas foi
tão ruim que não posso ter certeza.
Ajuda que o treinador venha e o parabenize primeiro antes de nos dizer
onde precisamos melhorar nossas jogadas. Orientação real e conselhos
estratégicos em vez de apenas gritar e envergonhar.
Stone e eu somos os primeiros a sair do portão no começo do terceiro. Nós
assumimos o controle do disco, e nós dois o passamos de um lado para o
outro enquanto voamos para a zona do Maine.
Lembro-me dos exercícios que fizemos com Nate quando eu estava
começando a questionar meu ódio por Stone. Conseguimos mantê-lo longe
dos defensores adversários, como finalmente descobrimos como fazer com
Nate naquele dia. Mas, desta vez, eu alimento nosso capitão com o disco
onde ele está esperando na área do goleiro. Ele o pega com sua lâmina e atira
um chute de pulso na rede.
Nate empata o placar em menos de um minuto do terceiro período.
Nós nos aproximamos dele, dando-lhe tapinhas nas costas e nos ombros,
antes que a primeira linha saia do gelo.
À medida que o relógio começa a passar, nossos nervos aumentam um
pouco. Há mais penalidades, tempos com jogadores a mais e bloqueios na
rede. Quando sou chamado para uma penalidade menor após derrubar um
jogador adversário em uma chance de gol, Stone balança a cabeça
desapontado para mim no meu caminho para a área de penalidade. No
entanto, não perco seu sorriso brincalhão.
Eu observo nervosamente da área de penalidades enquanto o jogador
cobra seu pênalti, preocupado que minha penalidade atrapalhe. Felizmente,
Fitz o bloqueia, e o tempo com jogador a mais do outro time termina sem
um gol.
Assim que minha penalidade é anulada, corro de volta para o gelo. Nate
me passa o disco, e eu o carrego pela ala esquerda. Posso sentir uma presença
se aproximando de mim. Vejo-o na minha visão periférica, vindo em minha
direção a toda velocidade. Bombeio minhas pernas mais rápido, mais forte.
Assim que ele está quase em cima de mim, ele é impedido por outro corpo
colidindo com suas costas e jogando-o contra as placas atrás de mim. O apito
do árbitro soa.
Eu me viro e vejo o jogador que eu havia derrubado mais cedo caído no
gelo, e Stone parado sobre ele, olhando para baixo.
O cara nem me acertou, e Stone parece pronto para matá-lo pela tentativa.
Não estou mais surpreso.
Ele recebe uma grande penalidade por acertar por trás, e é a minha vez de
dar a ele um olhar de desaprovação. O meu é sem o sorriso brincalhão.
Faltam seis minutos para o fim do terceiro período, e agora o Maine tem
um tempo com jogador a mais de cinco minutos.
Embora Stone tenha sido muito melhor em mostrar algum autocontrole
no gelo, ele ainda escorrega ocasionalmente. Nunca foi tão ruim quanto o
jogo em que ele não parava até que o sangue do outro jogador fosse
espalhado no gelo, mas ele pelo menos conseguiu se controlar mais desde
então.
— Sério? — pergunto enquanto patino ao lado dele a caminho da área de
penalidades. — Não conseguiu nem se conter durante esse jogo?
Ele gira e patina para trás para sorrir para mim. — É meu último jogo. Se
eu tivesse que escolher entre cobrar uma penalidade por você e fazer um
último chute, eu escolheria a penalidade.
Balançando a cabeça, observo-o patinar para longe e entrar na área de
penalidade.
A primeira linha vai para o banco, e a de Brooks sai. Eles conseguem
segurar o placar empatado, assim como nossa terceira linha. Estou
reenergizado quando volto para lá, determinado a garantir que Stone não se
arrependa de ter escolhido sua proteção por mim em vez do último jogo de
sua carreira no hóquei.
Maine está aplicando pressão. Muita pressão. Nate e eu patinamos ao
redor da área do goleiro, fazendo o que podemos para ajudar nossos
defensores a proteger Fitz e o vinco do disco. Quando ele passa direto pelo
meu ombro, juro que ele leva meu coração junto.
Quando me viro, espero ver o disco no fundo da rede. Em vez disso, Fitz
está lá com ele na luva.
Todos nós batemos nossos tacos contra as almofadas de nosso goleiro
antes de patinar para o círculo. Nate pega a disputa de disco e consegue
arrebatá-lo do capitão do outro time. Ele o joga para mim, e eu o levo de
volta para a zona do Maine. Eu ziguezagueio em torno de um defensor e dou
a volta na rede ao longo das placas. No canto, olho para trás em busca de um
homem aberto. Nate está totalmente coberto, e eu tenho defensores correndo
em minha direção.
Então Stone sai da área de penalidade e patina para a linha azul. Eu não
tinha percebido quanto tempo havia passado, que nós realmente
conseguimos matar sua penalidade de cinco minutos.
Eu o entrego com o disco, direto naquela força invisível que nos conecta
mais forte do que nunca.
Ela atinge sua fita, e ele patina de volta, passando para um dos nossos
defensores. Ela é passada para Nate, depois de volta para Stone. Estou
circulando em volta da área do goleiro, observando-o. Esperando.
Nossos olhares se encontram.
Ele bate o disco no gelo. Eu o pego com minha lâmina e o jogo em direção
à rede. O goleiro pega um pedaço, mas ele passa, bem dentro da trave.
Ela atinge o fundo da rede e a lâmpada acende ao mesmo tempo em que
a campainha soa.
Aplausos irrompem por todo o estádio, tanto dentro quanto fora do gelo.
Meus companheiros de time correm para mim, o resto deles pulando o muro
do banco e patinando em nossa direção.
Stone me encontra primeiro, seus braços fortes me envolvendo enquanto
ele me levanta até minhas lâminas saírem do gelo. Luvas e tacos são jogados
por todo lado. Stone me abaixa, então remove meu capacete antes de tirar o
seu.
Antes que eu tenha qualquer ideia do que ele planeja fazer, seus lábios
estão nos meus.
Por um breve segundo o barulho da multidão fica mais alto. Nossos
companheiros de time assobiam e berram.
E então o barulho simplesmente… morre.
O mundo desaparece.
Tudo o que consigo sentir é a boca de Stone se movendo contra a minha,
seus braços me segurando com força.
Não me importa que haja milhares de olhos em nós. Não me importa o
que eles pensam.
A única coisa em que penso é em como estou perdidamente apaixonado
por Stone.
Quando ele se afasta, há um sorriso brilhante esticado em seu rosto. Seus
olhos brilham intensamente. Mais floresta, menos neblina.
— Case comigo?
Meus lábios se separam. Ganchos gigantes imediatamente afundam nos
cantos da minha boca e puxam, ampliando ainda mais o sorriso que eu já
tinha. Meu peito arfa enquanto olho em seus lindos olhos. — O quê?
— Eu tenho um anel no vestiário — ele diz sem fôlego. — Mas eu não
conseguia esperar, porra.
— Sim — respondo sem mais um momento de hesitação. — Porra, sim.
Tenho um vislumbre de umidade em seus olhos antes que sua boca
retorne à minha.
Nossa pequena bolha estoura logo depois, nossos companheiros de time
nos puxam para sua celebração. No entanto, mesmo quando somos
despedaçados, nossos olhares mal se afastam.
Podemos ter acabado de ganhar o campeonato, mas Stone é tudo o que
vejo.
Meu noivo, o assassino.
Epílogo
Stone

Estou acostumado a acordar no meio da noite. Não porque Callum ainda


precise de mim, mas só para o caso de precisar. Ele não tem mais tantos
pesadelos. Ele terá um ocasionalmente, e eu sempre fico feliz em esquentar
meu pau na bunda dele ou fodê-lo até acordá-lo para tirá-lo daquelas
sombras que estão muito mais fracas do que antes. Na maioria das vezes, no
entanto, não é preciso um dos pesadelos dele para que eu faça isso.
Tipo, agora, ainda em algum lugar entre o sono e a vigília, minha mão se
move como se meu corpo já soubesse exatamente onde ele quer estar.
As costas de Callum estão contra meu peito, meu pau já duro e cutucando
sua bunda. Ele está quieto e parado, sua respiração suave e estável. Ele não
está preso dentro de sua mente, dormindo pacificamente.
Meus dedos provocam a fenda de sua bunda. Há muito tempo começamos
a dormir nus por esse motivo.
Eu rolo para pegar o lubrificante da mesa de cabeceira e despejo um pouco
nos meus dedos antes de devolvê-los à sua bunda. Quando pressiono
círculos leves ao redor de sua borda, suas costas vibram com um zumbido
silencioso. Eu empurro para dentro, e o barulho se torna um gemido baixo.
Quando termino de esticá-lo, meu pau está pulsando pra caralho,
implorando para substituir meus dedos. Dou a ele o que ele quer,
removendo meus dedos e alinhando minha cabeça em seu buraco. Lenta e
gentilmente, pressiono meu caminho para dentro do calor apertado de sua
bunda.
Não é preciso muito esforço para não acordá-lo com o quão pesado ele
dorme. Ele não acorda mais a menos que eu queira.
Uma vez, eu o fodi tão devagar e manso que ele mal se mexeu até eu estar
gozando dentro de sua bunda. Demorou um pouco, mas porra, valeu a pena.
Então eu o chupei até ele gozar na minha garganta. Essa foi uma noite muito
boa.
Quando estou no fundo dele, eu o seguro perto com minha mão
espalmada sobre seu estômago. Meu pau se contorce dentro de sua bunda,
mas ele vai ter que lidar com não conseguir mais.
Por mais que eu adorasse transar com ele, não quero acordá-lo.
Callum tem um grande dia amanhã. Ele decidiu fazer seu mestrado, e ele
tem uma grande prova em um de seus cursos de biologia amanhã. Ele
também decidiu fazer o que eu fiz e jogar hóquei por mais um ano como um
veterano do quinto ano. Além de sua prova, ele também tem um jogo
amanhã à noite.
Então eu não o fodo. Eu não o acordo. Eu o seguro e fecho meus olhos para
tentar voltar a dormir.
Estamos no mesmo apartamento em que morei há dois anos. Callum se
mudou oficialmente para morar comigo depois que eu pedi em casamento,
e decidimos ficar aqui pelo menos até Callum terminar a faculdade. Ele quer
se tornar um ilustrador médico, e tenho toda a intenção de ajudá-lo a chegar
lá. Às vezes, ele fica estressado por ter que fazer um empréstimo para o
último ano porque se recusa a aceitar minha ajuda para pagá-lo.
Bem, estamos casados agora. As dívidas dele são minhas dívidas, e ele não
vai conseguir me impedir. Não com isso.
Além disso, estou indo bem como assistente de fisioterapia e, quando ele
terminar a faculdade, devo conseguir um emprego como fisioterapeuta em
algum lugar.
Em qualquer lugar.
Onde quer que Callum queira ir.
Nós conversamos sobre voltar para a Pensilvânia para ficar mais perto da
minha mãe e irmã, mas eu disse a ele que não há pressão caso retornar para
lá possa abrir essas feridas. Eu realmente estou bem em viver onde ele quiser
se estabelecer. Eu o seguirei para qualquer lugar.
Não sei quanto tempo mais durmo antes de ser acordado por algo
apertando meu pulso esquerdo.
A próxima sensação que percebo é aquele calor aconchegante e familiar se
movendo em volta do meu pau. Meus olhos se abrem em um gemido baixo,
e a primeira coisa que vejo é Callum acima de mim, sua cabeça jogada para
trás enquanto ele cavalga meu pau.
Leva um bom tempo para que qualquer outra coisa entre em foco. Estou
preso. Hipnotizado. Completamente arrebatado pela maneira como ele se
move em cima de mim, tendo seu prazer. A maneira como sua cabeça
balança em seus ombros, seus lábios entreabertos. A maneira como seu pau
corado espalha pré-gozo sobre minha pele toda vez que atinge meu
estômago.
A única coisa que tira minha atenção dele é perceber que estou deitado de
costas com meus pulsos amarrados na cabeceira da cama.
Não usamos as cordas pretas e sedosas com muita frequência, mas
decidimos mantê-las fora e acessíveis depois que Callum percebeu que a
única vez em que o amarrei não foi um acaso. Ele gosta.
Ele já me amarrou uma vez antes, mais por diversão boba do que qualquer
outra coisa. Mas não posso dizer que já acordei assim.
Eu também não posso dizer que odeio isso.
— O que você pensa que está fazendo? — pergunto, minha voz rouca de
sono.
Ele continua se fodendo no meu pau enquanto me olha de cima através de
olhos semicerrados. Ele sorri. — Bem, você não estava fazendo isso.
Estreito os olhos e puxo as amarras. — Espere só, bebê. Assim que eu sair
dessas cordas, vou fazer você pagar por isso.
Ele geme enquanto suas mãos descem sobre meu peito. — Mal posso
esperar.
Enquanto eu luto contra as cordas, tentando deslizar minhas mãos para
fora, ele afunda suas unhas em meus peitorais. Eu estalo meus quadris para
cima, e ele choraminga, arqueando suas costas.
Está escuro dentro do quarto, mas a maneira como ele move o corpo
chama minha atenção para os hematomas quase desbotados ao longo do
lado do seu torso. Durante um dos seus jogos no último fim de semana, um
jogador adversário o pegou no canto e o esmagou contra as placas com tanta
força que ele caiu. Aprendi a resistir à vontade de quebrar o vidro e derramar
o sangue dos outros jogadores no gelo quando coisas assim acontecem.
No entanto, seu número fica gravado em meu cérebro.
No dia seguinte, o jogador foi parado pela polícia por dirigir um veículo
roubado e passou o dia na prisão até que pudessem confirmar que o carro
realmente pertencia a ele.
Falhas técnicas acontecem.
Posso não ser capaz de vingar Callum sempre com meu método preferido
de violência física, mas tenho outras ferramentas no meu arsenal. Lacey me
satisfaz, mesmo que um pouco a contragosto, desde que não cause nenhum
dano permanente.
Infelizmente.
— Você está tão lindo montando meu pau — digo a ele enquanto paro
minha luta para apreciar a visão dele acima de mim um pouco mais.
Ele rebola os quadris, e eu gemo. — Então por que você não fica aí deitado
e aproveita?
— Você sabe que eu não posso fazer isso, bebê.
Eu sei que não é isso que ele realmente quer.
Eu adoro quando ele assume o controle. Quando ele me fode em vez do
contrário, especialmente depois que eu mato. No entanto, nós dois amamos
mais quando é meu pau na bunda dele. Minha mão em volta da garganta
dele. Meus dentes na carne dele.
Colocando meus pés firmemente apoiados na cama, eu empurro para
cima, batendo nele até que sua cabeça esteja balançando para trás em seus
ombros novamente, seus olhos fechados e seus lábios entreabertos em um
grito silencioso, suas unhas cravando mais fundo em minha pele.
Enquanto ele está distraído, retorno à minha luta contra as cordas.
A que está em volta do meu pulso direito está mais frouxa do que o que
está em volta do meu esquerdo. Não consigo deixar de me perguntar se ele
fez isso de propósito. Eu me concentro naquele, torcendo e sacudindo até
que ele se solte ainda mais. Assim que minha mão está livre, estendo a mão
para desamarrar o outro.
Assim que ambas as mãos estão livres, eu o agarro pela cintura. Seus olhos
se abrem e encontram os meus enquanto eu continuo a empurrar meus
quadris, fodendo dentro dele. Eu aperto meu aperto com força suficiente
para que eu possa deixar hematomas.
Mas fiquei obcecado em ver minhas marcas nele, as únicas que eu aceito
que estejam ali.
Também fico obcecado com o olhar dele quando ele as vê.
Estou obcecado com os pequenos gemidos que ele dá quando as deixo.
— Você realmente achou que eu deixaria você me amarrar?
— Eu esperava que não — ele admite sem fôlego.
Eu sorrio para ele antes de nos virar. Ele grita em choque enquanto cai de
costas com meu pau ainda bem fundo dentro dele. Levantando sua perna
direita, eu a empurro para trás até que seu joelho esteja quase em seu peito.
Eu a seguro lá e me ancoro com minha mão no colchão.
Inclinando-me sobre ele, envolvo minha outra mão em volta de sua
garganta e bato minha boca na dele.
Quero prová-lo.
Quero engolir todos os barulhos que ele faz para mim.
Quero devorá-lo até que ele viva dentro de mim, para que eu nunca fique
sem ele.
Claro, já existe uma parte dele que vive em mim. Ele fez para si um lar na
medula dos meus ossos, nas profundezas da minha alma escura. Ele é a outra
metade do assassino dentro de mim.
Ele é meu e eu nunca vou deixá-lo ir.
É a única coisa que eu nunca poderia conceder a ele, mesmo que ele
quisesse.
— Porra, você é tão gostoso, bebê — eu digo com meus lábios contra os
dele enquanto eu entro nele como uma selvagem. — Talvez eu devesse te
amarrar em vez disso. Nunca mais deixar você sair dessa cama de merda.
Ele geme enquanto eu bato naquele ponto dentro dele repetidamente,
trazendo sua outra perna para cima para envolver minha cintura. — Estou
tentado a deixar você.
Eu adoro fazer ele se sentir assim, fazê-lo se sentir bem. Acho que nasci
para dar prazer a Callum Hayes, tanto no quarto quanto quando lhe trago a
morte e a matança que ele deseja.
— Da próxima vez que você tiver um fim de semana de folga, talvez seja
exatamente isso que eu farei — digo a ele enquanto levo meu tempo
lambendo meu caminho até sua mandíbula em direção à sua orelha. — Vou
acorrentá-lo à cama em nossa cabana por dois dias inteiros. Dar-lhe banhos
de esponja. Alimentar-lhe com café da manhã na cama. Foder você tantas
vezes que você não saberá o que é estar sem prazer. Você não será capaz de
andar quando eu terminar com você.
Um gemido escapa livremente de seus lábios. — Parece um fim de semana
divertido.
— Faz um tempo que eu não mato por você também. — mordo sua orelha,
e ele choraminga. — Talvez enquanto eu tenho você amarrado como um
presente, eu traga um dos seus.
Já faz alguns meses desde que matei alguém. Não faço isso com tanta
frequência quanto antes. Lacey rastreou mais amigos do treinador Hill, mas
ela acha que ainda há alguns por aí. A rede da qual o treinador, o padrasto
de Callum e o tio de Eric faziam parte era muito maior do que qualquer um
de nós sabia. Cuidei de alguns e estou determinado a pegar o resto.
Eu me afasto um pouco bem a tempo de ver os olhos de Callum revirarem.
— Você gostaria disso, bebê? — Eu lhe dou um beijo rápido e suave
enquanto giro meus quadris em um ritmo que combina com o prazer
percorrendo pela minha espinha. — Eu vou amarrar vocês dois. À minha
mercê. Eu serei capaz de fazer qualquer coisa que eu quiser com vocês dois.
Ele vai ter uma morte lenta e dolorosa enquanto você assiste. Eu vou
derramar o sangue dele aos seus pés. E então eu vou fazer amor com você a
noite toda com o cheiro da morte no ar.
— Porra — ele geme, seguido por um gemido. — Stone.
Ele está flutuando agora.
Falar sobre a morte tende a fazer isso com ele, e eu adoro isso pra caralho.
Claro, uma morte real é ainda mais potente.
Ele é tão lindo assim.
Prosperando na minha escuridão. Renascido das sombras.
Como brasas da noite.
Restos de um incêndio, ardendo em suas cinzas. A parte dele que lutou
para sobreviver. Com minha escuridão, ele brilha ainda mais forte.
Quando sinto que ele está se aproximando, aperto um pouco mais meu
aperto em volta de sua garganta. Seus lábios se separam enquanto sua
respiração cessa. Movendo meu braço para que sua perna caia em volta da
minha cintura, uso minha outra mão para agarrar seu pau.
— Essa ideia faz você querer gozar por mim, bebê?
Seu aceno é quase imperceptível, e seu — Sim — choramingado não passa
de um sussurro abafado.
— Você é tão perfeito, Callum. — Roço meus lábios contra os dele
enquanto começo a acariciá-lo, batendo nele implacavelmente. — Você era a
peça que sempre me faltava. Mostre-me que eu sou seu também. Mostre-me
o quão bem eu faço você se sentir. Mostre-me que eu te dou tudo o que você
sempre precisará.
Seu corpo estremece sob o meu, e seu esperma escorre do seu pau, sobre
meus dedos e seu abdômen.
— É isso aí, bebê. Porra, você é tão bom pra mim.
Minha voz fica mais tensa, meus músculos mais tensos. Sua bunda tem
espasmos em volta do meu pau, arrancando meu orgasmo de mim segundos
depois do dele. Eu gozo com um rosnado enquanto enterro minha liberação
dentro dele.
Quando eu solto sua garganta, ele suga o ar. Eu caio em cima dele, e nossos
peitos arfam um contra o outro.
— É um encontro — sussurra Callum enquanto pisca para mim.
Eu sorrio e levo minha mão até o lado do rosto dele, roçando meu polegar
em seus lábios. — Eu farei isso acontecer para você.
Ele se inclina ao meu toque e beija a ponta do meu polegar.
Alcançando sua mão, eu a trago entre nós. — Afinal, você é meu, não é?
— pergunto antes de beijar o anel preto de aço inoxidável em volta do seu
dedo anelar.
— Eu sou — ele diz com um pequeno sorriso satisfeito.
Pressiono meus lábios nos dele. — Eu te amo, bebê.
— Eu também te amo, assassino.
AGRADECIMENTOS
O que diabos estou fazendo escrevendo um romance sobre hóquei?
Bem, honestamente, isso provavelmente não teria acontecido se eu não
tivesse encontrado uma capa pronta há um ano.
Eu li e amei tantos romances esportivos, mas nunca pensei que escreveria
um eu mesma. Eu geralmente não achava que conseguiria fazê-lo. Isso e é
muito diferente dos meus outros livros. Mas sabe de uma coisa? Eu estou
bem em manter todos vocês em alerta.
Então, meu primeiro agradecimento vai para Artscandare, que fez a capa
deslumbrante que inspirou este livro. Foi amor à primeira vista, e eu
simplesmente sabia que tinha que tê-la. Eu descobriria o resto mais tarde, e
estou tão feliz por ter feito isso porque me apaixonei perdidamente por esses
garotos de disco assassinos.
Obrigada a todos os meus leitores. Seja você novo ou tenha ficado comigo
no caos que é meu salto de gênero, sou grata a cada pessoa que pegou um
ou mais dos meus livros.
Obrigada aos meus assistentes pessoais e leitores alfa, Amber e Season, e
a todos os meus leitores beta, Cait, Christy, Kat, Leigh e Taylor. Cada um de
vocês ajudou este livro a se tornar o que ele é hoje.
Tenho muita sorte de ter uma equipe tão incrível por trás de mim,
incluindo minha equipe de publicidade. Às vezes, fico sobrecarregada. Da
pressão. Dos prazos que estabeleço para mim mesma. De apenas tentar
acompanhar tudo o que vem com ser uma autora. Mas também de todo o
apoio. Quando comecei a publicar há dois anos, nunca pensei que estaria
onde estou hoje, e não conseguiria sem todos vocês.
Obrigada por ler este livro. Espero que você tenha amado Callum e Stone
tanto quanto eu.
SOBRE A AUTORA
River Hale é um pseudônimo, criado porque sua mãe uma vez lhe disse
que ela leria tudo o que escrevesse. Ela é uma escritora viciada em chá e ama
tudo que é obscuro, distorcido, assombrado e bonito. Ela escreveu e publicou
livros mais apropriados que sua mãe tem permissão para ler sob seu nome
verdadeiro, mas ela sempre terá um lugar especial em seu coração para
romances darks.

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