O Coração de Aethelgard
A bruma fria da manhã lambia as ruínas da Torre Cinzenta. Elara, a cartógrafa de vinte
anos, encolheu-se sob a capa pesada, mas seus olhos verdes brilhavam com
determinação. Ela não estava ali para desenhar mapas, mas para encontrar a lenda: o
Coração de Aethelgard, uma gema que, diziam, podia restaurar qualquer coisa — de
um reino em decadência a um único coração partido.
Seu guia era Kael, um velho caçador de peles com um sorriso de dentes estragados e
um conhecimento profundo das Terras Esquecidas. Ele apontou para uma fenda
escura na base das ruínas.
“O mapa de seu avô não mentiu, jovem. A entrada fica sob a estátua do Grifo Caído.
Mas, cuidado. Há uma razão pela qual essas ruínas são chamadas de ‘A Prisão da
Sombra’.”
Elara assentiu, segurando firme o rolo de pergaminho amarelado. Após remover a
poeira e teias de aranha, os dois desceram para o subterrâneo. O ar tornou-se pesado,
cheirando a mofo e metal velho.
O primeiro desafio foi a Câmara dos Sussurros. Dezenas de estátuas de soldados
caídos ladeavam a passagem. Ao tocarem a soleira, uma voz fria e etérea ecoou:
“Apenas a verdade avança.”
Kael tentou passar, mas as estátuas ergueram espadas enferrujadas, barrando seu
caminho.
“O que é isso?”, ele sibilou, puxando sua adaga.
Elara estudou o mapa. “Não é uma luta, é um enigma. O pergaminho diz: ‘Onde a
guerra cessa, o nome do Rei se dissolve. Qual era o título do grande Rei que uniu as
tribos antes da Queda?’”
Kael franziu a testa. “O Rei... Aethelgard! Ele era conhecido como ‘O Guardião da
Luz’.”
Elara correu até a última estátua, que segurava uma lâmpada apagada. Ela murmurou
o título, e a lâmpada acendeu com uma chama azul-pálida. As espadas das estátuas
baixaram, e a passagem se abriu com um rangido.
Eles continuaram por túneis escuros e escorregadios até alcançarem um vasto salão
subterrâneo. No centro, sobre um pedestal de obsidiana, repousava o que
procuravam: um cristal pulsante de um vermelho profundo, o Coração de Aethelgard.
Mas ele não estava sozinho. Guardando-o, estava o Draugr da Sombra, uma figura alta
e esquelética coberta por uma armadura negra, cuja única vida visível era o brilho frio e
maligno em seus olhos.
“Você não levará a gema, cartógrafa”, rugiu a criatura, sua voz um som de pedras se
quebrando. “Esta relíquia pertence à escuridão agora.”
Kael, com a agilidade surpreendente de um homem de sua idade, atirou um feixe de
corda em uma coluna distante para criar uma distração. "Vá, garota! Eu compro um
pouco de tempo!"
Enquanto Kael usava sua adaga e agilidade para desviar dos golpes lentos, mas
devastadores do Draugr, Elara correu para o pedestal. Ao tocar na gema, ela sentiu
uma onda de calor e memórias inundarem sua mente: a glória de um reino, a dor de
sua queda, e a face de seu avô, que dedicou a vida a selar a gema para que não caísse
em mãos erradas.
O Draugr, percebendo o perigo, lançou um grito que fez o chão tremer. Ele empurrou
Kael e avançou em direção a Elara.
Em um ato desesperado, Elara lembrou-se de uma última anotação no pergaminho do
avô: “O que restaura, não pode ser tomado; deve ser ofertado.”
Quando o Draugr estava prestes a atingi-la, ela não fugiu. Em vez disso, ela ergueu o
cristal em direção ao peito vazio da criatura, que era, afinal, apenas um guardião preso
e corrompido.
“Eu te liberto!”, ela gritou.
O cristal vermelho brilhou com intensidade solar. A luz atingiu o peito do Draugr. A
armadura negra se desintegrou em pó, e o brilho maligno em seus olhos se apagou. O
corpo caiu, revelando não ossos, mas a forma de um antigo e nobre guerreiro
finalmente em paz.
O silêncio tomou conta. Kael se levantou, ofegante. O cristal de Aethelgard agora
brilhava em um tom suave, morno, seguro nas mãos de Elara.
A missão estava cumprida. Enquanto subiam de volta à luz do sol, Elara soube que não
tinha apenas encontrado uma relíquia, mas também o seu próprio lugar no mapa do
mundo. A aventura de restaurar o reino, e talvez seu próprio coração, estava apenas
começando.