Liturgia, Rito e Ritual
Izautonio da Silva Machado Junior, MI, KT
ARLS Vale do Jamari nº 38 - GLOMARON
Os vocábulos Liturgia, Rito e Ritual são usados com frequência na
maçonaria, no entanto muitas vezes mal aplicados e menos ainda
compreendidos.
O QUE É LITURGIA
Liturgia (do grego leitourgia), significa serviço, ação, trabalho ou serviço
público. Nesse sentido, não visa a utilidade particular, mas a comunidade.
A liturgia pode ser conceituada como um conjunto de atos preordenados
para o desempenho de um serviço público, cujo objetivo é estabelecer
uma ordem coerente dos mesmos, de modo a propiciar que os
assistentes percebam qual a finalidade da cerimônia que está sendo
realizada.
A liturgia pode ser de ordem social ou religiosa.
Assim é que existem no plano social diversas formas de liturgias. Por
exemplo, no Poder Judiciário, quando se estabelece uma sequência de
atos ordenados que têm por escopo promover a Justiça; ou em uma
Inauguração de edifício público, onde os atos solenes realizados buscam
demonstrar ao público que aquela construção terá uma importante
finalidade social.
Do mesmo modo, na esfera religiosa existem as formas de liturgia. Por
exemplo, as missas católicas e os cultos judaicos, onde se pretende,
através de uma ordem de atos cerimoniais e rituais, transmitir os
conceitos e sentimentos religiosos que fomentam a fé e orientam os
devotos a seguir os seus princípios.
Interessante anotar que no Antigo Testamento da tradução grega da
Bíblia (Bíblia dos Setenta), o vocábulo “liturgia” é designativo do serviço
de culto do Templo de Jerusalém. Somente mais tarde é que o termo
passou a se referir também às celebrações cristãs.
A liturgia possui como tipos a liturgia cerimonial (da cerimônia) e a
liturgia ritual (do rito).
Enquanto a cerimônia é o nome atribuído às formas exteriores de um
ato, o rito se relaciona com os aspectos essenciais do ato.
O objetivo central da liturgia cerimonial é transmitir a sensação de
ordem e beleza, através das formas exteriores dos atos praticados.
O objetivo central da liturgia ritual é transmitir os elementos essenciais, a
expressão dos mitos e símbolos, a interiorizar nos participantes os
conteúdos iniciáticos.
Por exemplo, um Sacramento do Batismo Católico.
A liturgia cerimonial pode ser identificada pelos
atos de entrada do sacerdote, pelos objetos ou
pelas vestes usadas (ordem e beleza).
A liturgia ritual está na essência do ato em si, que
ocorre quando o sacerdote molha com água a
cabeça do batizado, consagrando-o na fé cristã
(aspecto simbólico).
Trazendo esses conceitos para uma sessão maçônica:
A liturgia cerimonial pode ser observada em elementos
exteriores, como o sentido da circulação em loja, as
músicas tocadas, a procissão de entrada, a formação de
abóbada de aço, os títulos das autoridades maçônicas, a
posição de sentar, o local de se paramentar etc.
A liturgia ritual pode ser identificada em atos como a
abertura e o fechamento da loja, a disposição das
Grandes Luzes (Esquadro, Compasso e Livro Sagrado), a
verificação pelo Cobridor se o Templo está coberto, as
provas da Iniciação, os sinais, toques e palavras etc.
Todos estes são elementos simbólicos e iniciáticos,
essenciais da liturgia.
O QUE É RITO
A palavra rito (do latim ritus) significa “ordem prescrita” ou “ordem estabelecida”, e
traduz um uso ou costume aprovado.
O rito é uma forma de expressão de um mito. Não abordaremos o tema do mito
pois fugiria do nosso objetivo, mas é fato que a maçonaria se estrutura em torno de
mitos, como por exemplo:
1) a transição das Trevas para a Luz (Iniciação)
2) a Construção do Templo de Salomão
3) a Lenda do Terceiro Grau
O mito é o coração de um rito, pois este se estrutura de modo a expressar aquele.
Historicamente, alguns dos primeiros ritos conhecidos foram
os primitivos Ritos adivinhatórios e os Ritos sacrificiais, onde
se pretendia influenciar as forças invisíveis e as divindades
por meio de oferendas ou homenagens.
Com o tempo, foram se desenvolvendo, de um lado, os ritos
sociais, como o casamento e o funeral, e de outro lado os
ritos religiosos, por meio de cerimônias e cultos.
Os ritos possuem um aspecto exterior, manifestado pela
liturgia cerimonial, e um aspecto interior, exprimido pela
liturgia ritual.
Em termos maçônicos, o rito é um método de conferir
a luz maçônica, e se vale para esse objetivo de uma
coleção de graus, onde cada um deles contém uma
etapa de conhecimento e progresso nos estudos. Os
ritos determinam o conjunto de diretrizes gerais pelas
quais se praticam as sessões, e por intermédio do qual
se expressam os elementos da Ordem.
De acordo com Alec Mellor, a terminologia maçônica
se inspirou na Tradição da Igreja Católica, que se
divide em 6 (seis) ritos: Latino, Bizantino, Armênio,
Antioqueno, Caldeu e Alexandrino.
Os ritos maçônicos se distinguem entre si pela forma, e possuem pontos
fundamentais em comum, que são uma síntese da essência da maçonaria.
Os ritos são meios alternativos de se alcançar o mesmo objetivo, de
transmitir o conteúdo iniciático da maçonaria.
O QUE É RITUAL
Não devemos confundir liturgia (cerimonial e ritual) com rito e com ritual.
A palavra ritual (do latim ritualis), isoladamente, possui outros significados:
Como adjetivo, Ritual designa o que é relativo a ritos.
Como substantivo, designa o livro que contém a ordem e a forma de determinada
cerimônia, das dramatizações e representações ritualísticas.
O rito prescreve o conjunto de princípios gerais, enquanto que
o ritual é um conjunto de regras estabelecidas para a liturgia
das cerimônias maçônicas. Como explica Kennyo Ismail, ao
fazer analogia com termos jurídicos, o rito pode ser comparado
a uma “Lei” (um conjunto de preceitos e obrigações gerais),
enquanto o ritual pode ser comparado a uma “Instrução
Normativa” (que regulamenta como essa Lei deve ser
observada e praticada).
Como substantivo, ritual é o livro que serve como “manual de
procedimentos”. Chamamos de Ritual o livro que usamos nas
sessões, pois ele contém as fórmulas e instruções necessárias à
prática uniforme e regular dos trabalhos, como por exemplo a
fórmula ritualística de abertura e fechamento de uma sessão.
Enquanto o rito é um gênero, o ritual é uma espécie. Em
outros termos, o rito é “continente” (que contém) e o ritual é
“conteúdo” (está contido naquele). Cada rito maçônico pode
conter vários rituais, como o Ritual de Consagração de
Templo, os Rituais de Iniciação, Passagem e Elevação, o Ritual
de Cerimônia Fúnebre, O Ritual de Loja de Mesa (Banquete
Ritualístico), os Rituais de abertura das sessões etc.
Os ritos fazem uso da liturgia (cerimonial e ritual) para
alcançar a finalidade de transmitir o seu conteúdo iniciático e
simbólico, e também fazem uso dos rituais, para organizar os
seus procedimentos nas sessões e cerimônias. O rito sem
liturgia é inerte, sem vida. A liturgia é que dinamiza o Rito.
OS RITOS E SUAS VERSÕES
As versões se dão por meio de diferenças rituais dentro de um mesmo rito, que é o
mesmo em todo caso. É uma questão de forma, e não de conteúdo.
Como dissemos, é possível que a maçonaria tenha se inspirado na terminologia da
Igreja Católica, que possui ritos. O Rito Latino, adotado pela Igreja Católica
Apostólica Romana, possui também os seus rituais, como a missa, o casamento, a
crisma, o natal, o batismo etc., mas dentro do próprio Rito Latino, existem outros
que compartilham os seus mesmos elementos essenciais, que são os Ritos Romano,
Ambrosiano, Moçárabe e Galiciano (ou Lionês).
Fazendo comparação com a maçonaria, podemos ver que o mesmo ocorre com
seus diversos ritos.
O REAA varia na forma como é praticado nos diversos países, e mesmo dentro de
um mesmo país. No Brasil, vemos variações entre as potências simbólicas, como as
formas adotadas pela CMSB (rituais de Behring), GOB e COMAB, sendo que no
GOP-SP ainda existe o “REAA Francês”, cujos rituais são diferentes dos demais.
Também no Rito de York isso ocorre, na medida em que as Grandes Lojas
americanas adotam variações do mesmo rito. No Brasil, a maioria das potências
seguem o modelo da Grande Loja de Nova York, mas também encontramos
variações em nosso país, como na GL da Paraíba (Nevada), no GOMG (Tennessee) e
no GOP-PR (Pennsylvania).
Em todos os casos, se trata do mesmo rito, com os mesmos princípios essenciais,
mas com variações nas práticas rituais.
OS RITOS MAÇÔNICOS PRATICADOS NO BRASIL
O Brasil é um dos países onde a maçonaria pratica maior
quantidade de ritos diferentes.
Em nosso país, os ritos praticados pelas potências reconhecidas são
os seguintes: Rito Escocês Antigo e Aceito, Rito de York Americano,
Rito de Schröder, Rito Adonhiramita, Rito Francês ou Moderno, Rito
Brasileiro, Rito Joanita, Rito Escocês Retificado e Ritual de
Emulação (que o GOB denomina “Rito de York”).
Além desses, há outros ritos que são adotados por potências não
reconhecidas, como por exemplo o Rito de Memphis-Misraim.
FONTES DE PESQUISA
ASLAN, Nicola. Grande Dicionário Enciclopédico de Maçonaria e Simbologia. Londrina:
Editora Maçônica “A Trolha”, 2012.
ISMAIL, Kennyo. O que é Rito e o que é Ritual. Blog No Esquadro, 2013. Disponível em
[Link] Acesso em 09 de maio de 2020.
MELLOR, Alec. Dicionário da Franco-Maçonaria e dos Franco-Maçons. São Paulo: Martins
Fontes, 1989.
MENDES, Fábio. Ritual de Emulação – O grau de Aprendiz Maçom. Sorocaba: Edição do Autor,
2011.
MUNIZ, André Otávio Assis. Curso Elementar de Maçonologia. São Paulo, Richard Veiga, 2016.
[Link]
Izautonio 69 9 9994-5422
izautonio@[Link]