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Crônica de D. João I: Alvoroço na Cidade

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Crónica de D.

João I, Fernão Lopes


FICHA 8 • Afirmação da consciência coletiva
PRÁTICA
• Atores (individuais e coletivos)

Leia atentamente o excerto e responda às questões


de forma bem estruturada.

CAPÍTULO 11

Do alvoroço que foi na cidade cuidando que matavom o


Meestre, e como aló foi Alvoro Paaez e muitas gentes
com ele.

[...]
Soarom as vozes do arroido1 pela cidade ouvindo
5 todos braadar que matavom o Meestre; e assi como
viuva que rei nom tiinha, e como se lhe este ficara em
logo de marido, se moverom todos com mão armada,
correndo a pressa pera u deziam que se esto fazia, por Autor desconhecido,
Retrato de D. João I, séc. XV
lhe darem vida e escusar morte. Alvoro Paaez nom
10 quedava d’ir pera alá, braadando a todos:
– Acorramos ao Meestre, amigos, acorramos ao Meestre que matam sem por quê!
A gente começou de se juntar a ele, e era tanta que era estranha cousa de veer. Nom
cabiam pelas ruas principaes, e atrevessavom logares escusos2, desejando cada u͊ de seer
o primeiro; e preguntando u͊s aos outros quem matava o Meestre, nom minguava 3
15 quem responder que o matava o Conde Joam Fernandez [Conde Andeiro], per man-
dado da Rainha.
E per voontade de Deos todos feitos du͊ coraçom com talente4 de o vingar, como
forom aas portas do Paaço que eram já çarradas5, ante que chegassem, com espantosas
palavras começarom de dizer:
20 – U6 matom o Meestre? que é do Meestre? quem çarrou estas portas?
Ali eram ouvidos braados de desvairadas maneiras. Taes i havia que certeficavom
que o Meestre era morto, pois as portas estavom çarradas, dizendo que as britassem7
pera entrar dentro, e veeriam que era do Meestre, ou que cousa era aquela.
Deles braadavom por lenha, e que veesse lume para poerem fogo aos Paaços, e quei-
25 mar o treedor e a aleivosa 8. Outros se aficavom pedindo escaadas pera sobir acima,
pera veerem que era do Meestre; e em todo isto era o arroido atam grande que se non
entendiam u͊s com os outros, nem determinavom ne͊a cousa. E nom somente era isto
aa porta dos Paaços, mas ainda arredor deles per u home~es e molheres podiam estar. ͉as
viinham com feixes de lenha, outras tragiam carqueija9 pera acender o fogo cuidando
30 queimar o muro dos Paaços com ela, dizendo muito doestos10 contra a Rainha.
[...]
Entom os do Meestre veendo tam grande alvoroço como este, e que cada vez se
acendia mais, disserom que fosse sua mercee de se mostrar aaquelas gentes, doutra
guisa11 poderiam quebrar as portas, ou lhe poer o fogo, e entrando assi dentro per força,
nom lhe poderiam depois tolher de fazer o que quisessem.

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