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Estrutura de Defesa de uma Cidade Cercada

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Gonçalo Rosa
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PRÁTICA

vezes de noite os muros e torres com tochas acesas ante si, bem acompanhado de muitos
que sempre consigo levava. Nom havia i neu͊s revees dos que haviam de velar, nem tal a
35 que esqueecesse cousa do que lhe fosse encomendado; mas todos muito prestes a fazer o
que lhe mandavom, de guisa que, a todo boom regimento que o Meestre ordenava, nom
minguava avondança de trigosos executores.
De triinta e oito portas que há na cidade, as doze eram todo o dia abertas, enco-
mendadas a boõs homeɄs d’armas que tiinham cuidado de as guardar; pelas quaes ne͊a
40 pessoa, que muito conhecida nom fosse, havia d’entrar nem sair, sem primeiro saber em
certo por que razom ia ou viinha; e ali atrevessavom paos com tavoado17 pera dormir
os que tal cuidado tiinham, por de noite seerem deles acompanhadas, e neu͊ malicioso
seer atrevido de cometer neu͊ erro.
E dalg͊as portas tiinham certas pessoas de noite as chaves, por razom dos batees que
45 taes horas iam e viinham d’aalem com trigo e outros mantiimentos, segundo leedes em
seu logar; […] Acerca da porta de Santa Caterina da parte do arreal per onde mais acos-
tumavom sair aa escaramuça, estava sempre ͊a casa prestes, com camas e ovos e estopas,
e lenções velhos pera romper; e celorgiam18, e triaga19, e outras necessarias cousas pera
pensamento20 dos feridos quando tornavom das escaramuças.
50 Na ribeira havia feitas duas grandes e fortes estacadas de grossos e valentes paos, que
o Meestre mandara fazer ante que el-Rei de Castela veesse, por defender o combato da
ribeira; e eram feitas des onde o mar mais longe espraia ataa terra junto com a cidade.
E ͊a foi caminho de Santos, a fundo da torre da atalaia contra aquela parte, onde enten-
deo que el-Rei poeria seu arreal; outra fezerom no outro cabo da cidade junto com o
55 muro dos fornos da cal contra o moesteiro de Santa Clara; […]
Nom leixavom os da cidade, por seerem assi cercados, de fazer a barvacãa 21 d’arredor
do muro da parte do arreal, des a porta de Santa Caterina, ataa torre d’Alvoro Paaez,
que nom era ainda feita, que seeriam dous tiros de beesta; e as moças sem neu͊ medo,
apanhando pedra pelas herdades, cantavom […] e os Portugueeses fazendo tal obra,
60 tiinham as armas junto consigo, com que se defendiam dos Ʉmigos, quando se traba-
lhavom de os embargar, que a 22 nom fezessem.
As outras cousas que perteenciam ao regimento da cidade, todas eram postas em boa
e igual ordenança; i nom havia nɄu͊ que com outro levantasse arroido nem lhe empee-
cesse per talentosos excessos, mas todos usavom d’amigavel concordia, acompanhada
65 de proveito comu͊.
Ó que fremosa cousa era de veer! U͊ tam alto e poderoso senhor como el-Rei de
Castela, com tanta multidom de gentes assi per mar come per terra, postas em tam
grande e boa ordenança, teer cercada tam nobre cidade! E ela assi guarnecida contra ele
de gentes e d’armas com taes avisamentos23 por sua guarda e defensom! Em tanto que
70 diziam os que o virom, que tam fremoso cerco de cidade nom era em memoria d’ho-
meɄs que fosse visto de mui longos anos atá aquel tempo.
Fernão Lopes, op. cit., pp. 170 -176

17 20 22
Tábuas. Tratamento. A barbacã para a qual as moças
18
Cirurgião. 21
Muro feito entre a muralha e o seu apanhavam pedras.
23
19
Medicamentos da época. exterior (fosso) para proteção do Precauções.
cerco.

33

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