EXAME PORTUGUÊS 12
FERNÃO LOPES, CRÓNICA DE D. JOÃO I
(1.ª parte)
CONTEXTO HISTÓRICO
• A Crónica de D. João I (1.ª parte) diz respeito a um período marcado por tensões políticas devido à crise
económica e social do século XIV.
• Com a morte do rei D. Fernando, o Formoso, surge um problema de sucessão.
• É proclamada regente sua mulher, D. Leonor Teles, apoiada pelo manipulador e «astucioso fidalgo galego»
Conde Andeiro (que pretende a anexação de Portugal a Castela).
• Álvaro Pais, antigo chanceler-mor dos reis D. Pedro e D. Fernando, toma a iniciativa de matar o Conde
Andeiro e escolhe para essa tarefa D. João, Mestre de Avis (irmão do falecido D. Fernando e filho ilegítimo
de D. Pedro e D. Teresa Lourenço), que aceita a incumbência.
• Eis o esquema de Álvaro Pais: «à mesma hora em que o Mestre fosse matar o conde, a população seria
alarmada com a notícia de que no paço queriam matar o Mestre, e era urgente acudir-lhe. A multidão
acorreria ao paço e ninguém ousaria fazer mal ao Mestre». As coisas passaram-se exatamente como
Álvaro Pais previra – o Mestre entrou no palácio real com homens armados, matou o Conde e apareceu à
janela, mostrando que escapara à suposta cilada, o que levou a multidão a aclamá-lo em delírio «Regedor
e defensor do Reino».
• «Estes factos desencadeiam levantamentos populares em várias regiões. O rei de Castela tenta sufocar
a revolução [com o cerco de Lisboa], mas a peste dizima as forças invasoras e obriga-as a retirar».
• O Mestre de Avis é aclamado rei de Portugal nas Cortes de Coimbra de 1385. «A monarquia nascida da
revolução depressa reencontra o equilíbrio e restabelece, sob a égide de um poder real robustecido,
a primazia política da nobreza».1
A PROSA DO CRONISTA FERNÃO LOPES
• Cumprindo a missão que lhe tinha sido atribuída de registar a história dos reis de Portugal, Fernão Lopes
(século XV) criou um novo estilo e afirmou-se como um notável prosador:
– com o objetivo de relatar os factos históricos tal como eles teriam acontecido e de levar o leitor a «pre-
senciar a cena» (visualismo descritivo), a sua escrita é marcada por uma «minúcia descritiva» (abundam
pormenores) que se traduz num forte realismo;
– na Crónica de D. João I, que descreve, na 1.ª parte, os acontecimentos mais marcantes da crise de 1383-85,
Fernão Lopes atribui particular importância aos seguintes «quadros»:
> motins da «arraia-miúda» (povo de Lisboa);
> o cerco de Lisboa.2
• Na Crónica de D. João I (1.ª parte), testemunhamos a afirmação da consciência coletiva, ou seja, o papel do
povo, como herói coletivo, que age unido por um mesmo propósito, acudindo ao Mestre (quando julga que o
querem matar, insurgindo-se contra D. Leonor, acusando-a de traição) e resistindo durante o cerco à cidade
de Lisboa.
• Na mesma crónica, verificamos a presença de atores individuais e coletivos: os primeiros são o Mestre
de Avis e Álvaro Pais; os segundos correspondem à «arraia miúda» (populares), que se juntam, como força
unificada, para defender com as próprias mãos a sua terra, fundando o sentimento nacional.
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1
José Hermano Saraiva, «A Revolução de 1383-1385», História de Portugal – 1245-1640, Lisboa, Publicações Alfa, 1983,
pp. 79-89 (adaptado)
2
Manuel Rodrigues Lapa, «Lições de Literatura Portuguesa – Época Medieval», História Crítica da Literatura Portuguesa (Idade
Média), Lisboa, Editorial Verbo, 1998, pp. 452-454 (adaptado)
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