Tudo começa por algo.
Isso, inicia numa noite de sexta-feira.
Naquela noite, olhava para ____, completamente entregue. Seus olhos inchados, as
lágrimas correndo continuamente; sabia que sempre cantava, mas naquela noite, era uma
entrega; seu coração bombardeava palavras de amor através da sua boca. “Senhor, me perdoa,
não deveria olha-lo…” pensava, enquanto cerrava meus olhos, tentando focar. Mas, subitamente,
eles se abriam, focados nele. Me sentia envergonhada, como se fosse a única a vê-lo ali; me sentia
envergonhada, pois estava focada na entrega de outra pessoa, e não a minha. “Não sou guiada
por isso”, dizia baixinho, enquanto me envolvia novamente na atmosfera de louvor. Dizia, em
meu coração, “Senhor, além da minha entrega, creio que encontrarei um homem que se entregue
tão facilmente a Ti”, enquanto chorava.
A música havia parado, mas todos estavam louvando altamente, entregando o seu
coração. Quando bati o olho nele, de relance, ele estava completamente ao chão. Só se ouvia o
louvor diretamente do seu coração; cerrei os olhos mais uma vez, me virando de lado, dizendo
em tom baixo mais uma vez “não sou guiada por isso”. Meus olhos queriam vê-lo, mas não
poderia deixar com que minha emoção me roubasse… não, de novo. Já não era a primeira vez;
era sempre diferente quando ele aparecia para cantar. ____ sempre entregava o seu coração no
altar, algo tão sincero, que me fazia entrar facilmente neste lugar, juntamente com ele e com
outros.
Todos sentaram e a ministração havia começado. Minha amiga, Hanna, olhava para mim,
dizendo baixinho:
______, está tudo bem? Te vi um pouco… distraída? ——
Relutei, respondendo: — O quê? Não… Estou bem. — O problema? Hanna me conhecia
bem demais; sabia que eu estava escondendo algo, só não sabia o quê. Ela ergueu uma das
sobrancelhas, confusa, mas virou para frente. Engoli seco. Estava tão óbvio?
Mas, algo estava para explodir dentro de mim quando, rapidamente, ele se sentou ao meu
lado. Nos olhamos, eu ainda em choque pelo seu ato repentino, enquanto o seu sorriso entregava
calmaria.
— Está tudo bem, _____? Parece que viu um fantasma… apesar que eles não existem. — diz
ele, soltando uma risada irônica. Fiquei sem palavras, somente olhando para ele. Não sabia como
reagir.
— Hm? Está… tudo bem! E sim, fantasmas não existem. — respondi, me atropelando nas
palavras. Ele riu novamente, baixinho. “____, foca!” minha mente dizia, enquanto virava meu rosto
para frente de novo, balançando a cabeça cheia de pensamentos. Entretanto, o seu olhar
permaneceu em mim por alguns minutos, até que se virou para frente também.
Era engraçado. Há quem dizia que éramos parecidos, como espelho do outro; enquanto
eu sorria para a direita, ele também; se cruzasse a perna esquerda, logo era ele. Se ele desfizesse,
eu também. Se alguém chamasse atrás, os dois viravam para trás; parecia algo combinado.
Hanna, inclusive, era a primeira a comentar algo estúpido, como “foram feitos um para o outro”.
Quando terminou, todos nos levantamos rápido; ele, porém, permanecia mais alguns
minutos até que tudo estivesse no seu devido lugar. Levava o seu violão nas costas, apegado, não
soltava nem para sentar no banco, onde todos nós nos encontrávamos após cada culto. Ele,
sempre, brincando com todos; era tão engraçado e irritante ao mesmo tempo, as suas piadas me
faziam rir e ao mesmo tempo, pedir para que ele ficasse quieto. Sentada ao lado de Hanna, com
braços entrelaçados, pois sempre estávamos grudadas, ela aproveita para me escoltar.
— _____, seja sincera comigo. — ela diz, baixinho — Era ele o motivo da sua distração? —
apontava levemente para ele. O seu ato me fez dar um leve tapa em sua mão.
— Eu não posso nem dizer que você está louca, né? Eu não estava distraída, muito menos
por causa dele. Esqueça! — respondi, baixinho porém firme. Ela não se contentou. Como disse,
Hanna me conhecia melhor do que qualquer pessoa; as vezes, me irritava o tanto que ela sabia
sobre mim.
— Só quero que saiba que, se for ele, eu apoio. É um bom homem, certo? Assim, pelo que
aparenta… — ela piscou o seu olho direito, rindo após dizê-lo. Revirei os olhos.
— “Se for ele” o que? Hanna, está indo longe demais. Eu e ____ somos… amigos? —
respondi, incerta. Nunca estive certa do que éramos; sempre o vi, brincávamos com o outro,
conversávamos, mas não era algo que eu diria “somos amigos”. Sabe, existem pessoas que não
são somente conhecidas, mas também não são seus amigos…. existe algum rótulo para isso? Só
sabia que, no fundo, o admirava.
O problema não era minha admiração, mas o quão difícil era esconder isso de Hanna. Ela
sabia que, dentro de mim, existia algo; uma garota esperta, impossível de ser enganada — crente,
né? —. E quando penso que o assunto está resolvido, ele se aproxima, nos cumprimentando:
—— ______, Hanna… bom ver vocês! —- o seu sorriso caloroso era acalento. Ele sempre
era simpático, gentil, mesmo nos seus piores dias. Acredite, eu estive em todos eles!
—— _____, bom ver você também! Ficará por quanto tempo dessa vez? — Hanna pergunta,
rapidamente girando os seus olhos a mim, esperando minha reação. É, isso mesmo que você leu:
_____ era itinerante; vivia indo de cidade em cidade, semana a semana, levando o seu dom para
várias igrejas. Por conhecê-lo há tantos anos, já deveria estar acostumada a isso, porém, era
sempre doloroso. Todas as nossas despedidas foram tristes, pelo menos para mim. Sei que, todos
nós temos um plano estabelecido e devemos ser movidos por isso, mas isso não substituia a
saudade. Engoli seco mais uma vez, tentando mascarar o quanto aquela pergunta me afetara.
— Bom, para a surpresa de vocês, ficarei 1 mês. — respondeu, em alto e bom som,
enquanto seus olhos me fitavam. “O que?”, uma frase tão repetida pelo nosso grupo de amigos,
que vibraram ao ouvir a novidade. Realmente, era algo de celebrar; quando nos visitava, ficava
entre 2 dias e 1 semana, isso quando não tinha que ir e voltar diversas vezes durante esse
intervalo… senti que poderia explodir, não sei se de felicidade ou desespero. Hanna me olha,
sorrindo; ela sabia que aquilo iria mexer comigo.
— Uau, que maravilha! Que grande milagre é esse? — reforçou Hanna, fingindo surpresa,
mais uma vez girando seus olhos para mim no aguardo de uma reação. Nesse momento, estava
começando a me irritar — Deus, me perdoa! —.
— Bom, — ele responde, feliz — a agenda está mais tranquila, então poderei passar mais
tempo com vocês, minha família.
Uma coisa pequena, tão mínima, porém sempre admirei nele: o seu amor pelo lugar que
o enviou. Sempre aprendemos com nosso pastor que “não há melhor lugar do que a nossa casa”,
e ____ sabia bem disso; a sua maior felicidade era estar na cidade, investindo o seu tempo aqui
conosco. Era um sentimento recíproco; nosso pequeno grupo de amigos, composto por 6
pessoas, mais as centenas de membros, também amavam tê-lo.
Para celebrar, paramos no nosso restaurante preferido, que ficava há algumas quadras
de onde congregávamos. Era um lugar de aconchego; tivemos tantas conversas, brincadeiras e
despedidas naquele lugar; inclusive, a primeira vez que o enviamos, nos despedimos ali. Lembro,
até hoje, do seu abraço apertado, enquanto me dizia “o chamado sempre vai valer a pena, _____”.
Que dor! Mas não era um momento de despedida, e sim… de boas vindas? Deveríamos cantar a
música do visitante para ele? Melhor não… mas, os meninos tentaram puxar para ele, enquanto
o mesmo se escondia atrás de uma cadeira, tão pequena que não escondia nem a sua orelha.
Sentia tanta saudade daquelas noites. Não que tínhamos deixado de ter; independente de
_____ estar lá ou não, sempre passávamos naquele mesmo restaurante, pedindo a mesma coisa —
e sendo o motivo de irritação dos donos, mesmo pagando até a mais, de tanto que gostávamos
do lugar —, mas dessa vez era diferente: ele estava lá. Sua presença deixava tudo completo; e
pareço uma tonta falando isso. Me perdoe, leitor, não sou obcecada por ele… isso tudo se resume
em saudade.
As horas passavam, e durante muitos pratos de comida, risadas altas e conversas duras,
me pegava o admirando. De novo. Elijah, que estava do meu lado, ria da minha cara; confusa,
perguntei:
— O que há de tão engraçado, querido?
— Você parece uma tonta, só isso — sua risada abafada era irritante. Elijah era o tipo de
amigo que te humilhava, para depois te exaltar; e como a Hanna, me conhecia muito bem. — ____,
os anos passam e você continua caidinha de amores… é engraçado como algumas coisas nunca
mudam, principalmente as situações não resolvidas.
Elijah estava certo. Meus sentimentos não eram algo muito bem resolvidos; são tantos
anos carregando, que hoje em dia já não sei como lidar… e quando vejo, já estou bobeando
através de olhares, ou de palavras atropeladas. Anos sem saber o que ele achava, o que ele dizia
sobre mim, ou sequer se ele sabia realmente quem eu era. Como disse, não éramos conhecidos,
mas também não amigos. Eu só sei se que, de alguma forma, sempre estivemos presente na vida
do outro… e isso me consumia, porém, sempre tentei mascarar com outros assuntos, tentando
apagar a minha bobeira. Falhei.
— Elijah… essa situação está bem resolvida, obrigada. — respondi, tentando ser firme,
encarando-o seriamente. Elijah se fez de entendido, acenando com a cabeça, porém soltando
mais uma vez a sua risada abafada. Meus amigos não me davam muita moral…
Enquanto isso, do outro lado da mesa, ____ olhava diretamente para nós, tentando
entender o assunto. Pude perceber um leve desconforto em seu rosto, porém guardei para mim,
pois quando o olhava diretamente, ele sempre sorria, mesmo que de canto de olho, ele estava
visivelmente desconfortável. Balancei a cabeça novamente, relevando qualquer pensamento; um
fato sobre mim é que sempre levo tudo ao pessoal! Qualquer atitude, expressão ou fala eu penso
que é para mim ou sobre mim… me acho muito importante na vida das pessoas, sabe? Então,
quando isso acontece, balanço a cabeça para não cair na própria loucura.
E após horas intermináveis, cada um foi para sua casa. O que me impressionou — mas
nem tanto —, era a sua gentileza; sempre fez questão de me deixar em casa, ainda mais pela
confiança que minha família tinha nele. E também, isso se dá ao fato de sermos vizinhos… pois é.
Vizinhos. V-i-z-i-n-h-o-s. E para melhorar a minha vida, nossas janelas se batiam; lembro que,
quando éramos mais novos, brincávamos de bola pela janela, até que um dia quebramos o vidro
de uma das janelas e decidimos parar (na verdade, levamos a maior bronca e ficamos
traumatizados)
Você deve se perguntar: “e realmente não se consideram amigos?”, como disse, nossa
relação parece confusa para mim. Crescemos juntos, vizinhos desde crianças, congregamos no
mesmo lugar, estamos na mesma roda de amigos… mas se te contasse as vezes em que
conversamos de fato, não se conta até 5. Sempre estivemos presente, mas de longe. Esquisito,
não? Mas acredito que se deve ao fato de ser completamente tímida perto dele; é quase
impossível manter uma conversa sem que eu me atropele, gagueje ou fique em silêncio, deixando
ele desconfortável. Entretanto, ele sempre tentou puxar assunto.
Enquanto estávamos no carro, ficamos em silêncio. Era sempre assim, até ele quebrar o
silêncio, o que não diferenciou dessa vez.
— _____, como está o seu pai? A sua irmã permanece morando com vocês? — perguntou,
não tirando os olhos da via. Engoli seco.
— Ah, ele está bem, melhorando a cada dia. E não, minha irmã se mudou há 1 mês. —
respondi firmemente. Nessa hora, ele me olhou; conhecia aquele olhar… era de preocupação, e
culpa. Ele se culpava de ter perguntado sobre minha família… e se preocupava se eu me
desmontaria de chorar em sua frente. Havia exatamente 1 ano desde que minha mãe havia
partido, e ele sempre perguntava como estávamos, mesmo de longe. Mesmo assim, a culpa o
consumia, pensando que tivesse feito uma pergunta indelicada.
— Perdão por perguntar sobre isso… — ele me olha firmemente, a entonação
entristecida. Sorrio, de maneira fraca.
— Você sabe que não precisa se desculpar sobre isso, entendo a sua preocupação… sei o
quanto se importa com a minha família.
— A questão, _____, é que você é importante para mim. A sua família… é resposta de oração
para a minha. Eu não posso evitar de me preocupar com você, com seu pai, e até com sua irmã,
que quase não tive contato. — mal sabia ele como as suas palavras me remexiam por dentro.
“Você é importante para mim” ecoando na minha cabeça, como um disco arranhado na vitrola.
— Eu sei. Você… sua família… são importantes para mim… para nós… também. — mais
uma vez, eu me atropelando para falar algo tão simples, enquanto minhas bochechas ficam
rosadas de vergonha. “Espero que ele não tenha percebido..”, pensei. E pensei errado. Ele havia
notado, assim como notava cada detalhe meu. Cada expressão. É mais um na lista dos “Os que
conhecem ____ até de ponta cabeça”
— Engraçado como o tempo passa, e ainda assim, você não consegue montar uma frase
normal sem ficar completamente envergonhada. — ele ri, achando a situação fofa. Eu, entretanto,
queria me jogar da janela do carro… não conseguia nem sequer responder o seu comentário, com
medo de gaguejar.
Passamos o resto do tempo em silêncio, somente apreciando a companhia. Eu o olhava
discretamente pelo meu retrovisor, enquanto ele, mais direto, me olhava toda vez em que o carro
parava. Era sempre assim; um show de silêncio e troca de olhares. Ao chegar em frente da minha
casa, sorriu, dizendo sempre as mesmas palavras “foi muito bom estar com você, ______, oro para
que você descanse bem”, e eu sorrio, respondendo “também foi muito bom estar com você, _____, e
oro para que durma tão bem que consiga acordar cedo sem resmungar”, sabendo que era um mau
hábito seu. Lembro que, quando estudávamos, sempre reclamava de ter que acordar deveras
cedo para estudar, e que “não valia a pena todo o esforço” e eu ria, tentando dar uma boa
justificativa.
Depois de soltarmos as mesmas palavras, ele desce para abrir a porta pra mim. Suas
pequenas atitudes me faziam gritar internamente, como uma garotinha. Ele fecha a porta,
esperando enquanto encosta no carro, checando se realmente vou entrar em casa, ou se não
esqueci a chave — era um costume. Dessa vez, por sorte, a chave estava comigo; abro o portão,
num ato desesperado, pois o meu surto de garotinha ainda não tinha passado. Ele, entretanto,
solta um riso, admirando o meu nervosismo. Quando consigo abrir o portão, suspiro aliviada; ele,
entretanto, se torna um pouco mais sério, “boa noite!” num tom que parecia mais triste. Viro para
ele, respondendo “boa noite” ainda desesperada; e ao trancar, encosto a cabeça, quase me
derretendo.
Dou um beijo no rosto de meu pai, que sorri ao me ver. Ele só dorme quando chego em
casa, nem que eu fique a noite fora. E, como sempre, ele pergunta:
— O ____ já chegou? Já faz um tempo desde que o vi.
— Sim, papai. — respondo, animada — E disse que vai passar 1 mês por aqui.
Meu pai me olha, um pouco desconfiado.
— Ele quem te trouxe em casa?
— Sim, papai.
— Interessante.. foi tudo bem? — ele continua desconfiado.
— Claro que sim, papai. Você fala isso como se não o conhecesse… — respondo, um pouco
confusa.
— Ah.. eu sou seu pai. Devo saber se você está segura… — meu pai era um péssimo
mentiroso (graças a Deus né?), e terrível em esconder o seu ciúme. Mesmo o conhecendo há
tantos anos, sempre desconfia de que algo acontecera entre eu e _____. Reviro os olhos, rindo pela
sua terrível atuação, logo subindo as escadas para o quarto. Encontro, em minha cama, a
meritíssima Pandora, a gatinha preta mais preguiçosa do mundo. “Você não tem preguiça de se
espreguiçar na minha frente?” digo, enquanto acaricio sua barriga. Quando olho de frente à
janela, vejo algo diferente: as cortinas do quarto de ____, que agora permanecem abertas de novo.
Agora, eu sabia que não teria mais paz para estudar ou fazer devocional, porque ele estaria ali.
Após tomar um banho quente e vestir um bom pijama, sento perto da janela, terminando um
livro sobre submissão e honra. Após alguns minutos, caio em um sono profundo, com o livro em
meu colo.