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Fatores do Diagnóstico Tardio do VIH em Moçambique

ACTORES DE ABANDONO DO TRATAMENTO ANTIRETROVIRAL NOS PACIENTES

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ACTORES DE ABANDONO DO TRATAMENTO ANTIRETROVIRAL NOS PACIENTES

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Universidade Nova de Lisboa

Instituto de Higiene e Medicina Tropical

W
Fatores que influenciam o diagnóstico tardio em pacientes com VIH atendidos no Centro
de Saúde de Ndlavela, Maputo - Moçambique
IE
EV

Universidade Nova de Lisboa


Jeremias Salomão Chone
PR

DISSERTAÇÃO PARA A OBTENÇÃO DO GRAU DE MESTRE EM SAÚDE PÚBLICA E


DESENVOLVIMENTO

outubro, 2021
Universidade Nova de Lisboa
Instituto de Higiene e Medicina Tropical

Fatores que influenciam o diagnóstico tardio em pacientes com VIH atendidos no Centro

W
de Saúde de Ndlavela, Maputo - Moçambique
IE
EV

Autor: Jeremias Salomão Chone


PR

Orientador: Professor Doutor Luís Varandas


Universidade Nova de Lisboa
Coorientadora: Professora Doutora Ana Abecasis
Instituto de Higiene e Medicina Tropical

Dissertação apresentada para cumprimento dos requisitos necessários à obtenção do grau de Mestre
em Saúde Pública e Desenvolvimento

Apoio financeiro de Camões – Instituto da Cooperação e da Língua, I.P


Dedicatória

Dedico esta dissertação a:

Deus, em primeiro lugar, por ter-me dado forças para superar todas adversidades e
o dom da sabedoria para concluir esta etapa de formação.

Minha família, meus pais, em particular, o meu pai que infelizmente partiu sem me
ver a terminar este ciclo importante de vida, irmãos, namorada e amigos pelo apoio
incondicional em todos os momentos deste marcante momento da minha vida.

W
IE
EV
PR

Ad augusta per angusta

i
Agradecimentos
Agradeço, primeiramente, a Deus Todo-Poderoso pela saúde, graça e sabedoria.

Ao Camões – Instituto da Cooperação e da Língua, I.P., pela bolsa de estudos


fornecida para realizar o Mestrado em Portugal que me abriu a janela do futuro que hoje
vislumbro.

Aos meus orientadores, Prof. Doutor Luís Varandas e a Profª. Doutora Ana
Abecasis pelo imensurável apoio, suporte, entrega, paciência, desprendimento do tempo
que lhes coube, amizade sincera, suas correções, têm o meu maior agradecimento.

W
Ao meu Pai, dr. Salomão Jeremias Chone (in memoriam), à Senhora minha Mãe,
Cidália Manhice, meus irmãos Salomão Jeremias Chone Júnior e Gizela Paulo Chone por
serem o meu porto seguro, provendo apoio incondicional em todos os momentos.
IE
À minha namorada, Nésia Dalila Afonso Tlhemo, pelo amor e compreensão da
EV
minha ausência sem nunca ter se queixado por isso.

À minha “segunda mãe” em Portugal, Elisa Sitoi, que me fez sentir em casa e
tratou-me sempre como filho.
PR

À Profª. Doutora Isabel Craveiro e a Divisão Académica do IHMT, que forneceu


todo o apoio necessário desde a candidatura e auxílio na minha chegada a Portugal.

À Direção do Centro de Saúde de Ndlavela, aos profissionais de saúde que


trabalham com VIH, pela sua colaboração.
A minha gratidão é também extensível a todos os amigos e colegas do Mestrado,
pela amizade e companheirismo que direta ou indiretamente ajudaram na solidificação da
minha formação.
A todos, o meu muito obrigado!

ii
Resumo
Introdução: Mundialmente, há francos progressos na luta contra a infeção por VIH. No
entanto, alguns desafios permanecem incluindo a alta prevalência do diagnóstico tardio,
mesmo após a disponibilização generalizada dos testes de diagnóstico. As desvantagens do
diagnóstico tardio são inúmeras, desde a redução da sobrevida da pessoa infetada, aumento
da suscetibilidade às infeções oportunistas e maior risco de transmissão da infeção. Assim,
o diagnóstico tardio constitui um dos grandes desafios para o controle da pandemia do VIH.

Objetivo: Analisar os fatores que influenciam o diagnóstico tardio da infeção por VIH em
pacientes atendidos no Centro de Saúde de Ndlavela, Moçambique.

Metodologia: Trata-se de um estudo transversal retrospetivo, realizado no Centro de Saúde


de Ndlavela que incluiu pacientes diagnosticados com VIH diagnosticados entre 2015 e

W
2020. Para este estudo usou-se a definição da European Late Presenter Consensus working
group, que considera diagnóstico tardio de VIH, o indivíduo que no momento do
IE
diagnóstico tiver uma contagem de linfócitos TCD4+ inferiores a 350 céls/μL ou,
independentemente da contagem dos linfócitos, apresentar alguma doença definidora da
SIDA. A amostra foi selecionada através da abordagem por conveniência. A regressão
EV
logística bivariada e multivariada foi utilizada para identificação dos fatores associados ao
diagnóstico tardio, pelo cálculo do Odds Ratio Bruto (OR) e Odds Ratio Ajustado (ORa),
respetivamente.
PR

Resultados: Um total de 519 participantes foram incluídos na pesquisa, sendo que cerca de
47% foram classificados como diagnóstico tardio da infeção por VIH. O sexo masculino
[ORa=2,41 95% IC (1,85-4,35)], a faixa etária dos 35-49 anos [ORa=1,49 95% IC (1,05–
2,97)], diagnóstico feito aquando do início dos sintomas [ORa=4,03 95% IC (2,60-6,15)],
teste iniciado pelo provedor de saúde [ORa 2,19 95% IC (1,87 – 3,04)] e medo de estigma
[ORa=2,80 95% IC (1,47-3,36)] foram os principais fatores de risco para o diagnóstico
tardio da infeção.

Conclusão: Neste estudo foram identificados fatores sociodemográficos, comportamentais


e psicossociais potencialmente determinantes para o diagnóstico tardio da infeção por VIH.
São necessárias ações que promovam a redução do diagnóstico tardio, centrando-se nos
fatores de risco e grupos populacionais com maior probabilidade para o diagnóstico tardio.

Palavras-chave: Diagnóstico tardio, VIH, Moçambique, determinantes

iii
Abstract

Introduction: There are progresses in the fight against HIV worldwide, however,
challenges persist in the control of this infection. Including the high prevalence of late
diagnosis, even after the widespread of diagnostic tests. The disadvantages of late diagnosis
are tremendous, from reduced survival of the infected person, increased susceptibility to
opportunistic infections and the risk of transmitting the infection. Therefore, late diagnosis
is one of the major challenges for controlling the HIV pandemic.

Objective: Analyze the factors that influence the late diagnosis of HIV infection in patients
seen at the Ndlavela Health Center, Mozambique.

Methodology: This is a retrospective cross-sectional study, carried out at the Ndlavela

W
Health Center include patients diagnosed with HIV between 2015-2020. For this study, the
European Late Presenter Consensus working group definition was used, which considers
IE
late HIV diagnosis, the individual who at the time of diagnosis has a TCD4 + lymphocyte
count below 350 cells / μL or, regardless of the lymphocyte count, has an AIDS-defining
illness. The sample was selected using the convenience approach. Bivariate and
EV
multivariate logistic regression was used to identify factors associated with late diagnosis
Odds Ratio (OR) and Adjusted Odds Ratio (ORa) respectively.

Results: A total of 519 participants were included in the survey, nearly 47% of participants
PR

were classified as late diagnosed. The male gender [ORa=2.41 95% CI (1.85-4.35)], the age
group of 35-49 years old [ORa=1.49 95% CI (1.05-2.95)], diagnosis done when symptoms
started [ORa=4.03 95% CI (2.60-6.15)], test initiated by the health professional [ORa=2.19
95% CI (1.87-3.04)] and fear of stigma [ORa=2.80 95% CI (1.47 - 3.36)] were the main
risk factors for the late diagnosis of the infection.

Conclusion: In this study, socio-demographic and psychosocial behavioral factors that


were potentially determinant for the late diagnosis of HIV infection were identified.
Actions are needed to promote the reduction of late diagnosis, focusing on risk factors and
population groups most likely to delay diagnosis.

Keywords: Late diagnosis, HIV, Mozambique, determinants

iv
Índice
Conteúdo Página
I. Introdução ................................................................................................................................... 1
II. Enquadramento teórico ............................................................................................................... 3
2.1. Patogenia do VIH ..................................................................................................................... 4
2.2. Situação epidemiológica de VIH no mundo ....................................................................... 6
2.3. Situação epidemiológica de VIH em Moçambique............................................................. 7
2.4. Dinâmica de resposta moçambicana para VIH e SIDA .................................................... 10
2.5. A terapia antirretroviral ..................................................................................................... 13
2.6. Definição do diagnóstico tardio da infeção por VIH ........................................................ 16
2.7. Prevalência de diagnóstico tardio da infeção VIH ............................................................ 19

W
2.8. Fatores associados ao diagnóstico tardio .......................................................................... 24
2.9. Impacto do diagnóstico tardio na luta contra VIH ............................................................ 28
III.
IE
Objetivos ............................................................................................................................... 32
3.1. Objetivo geral ........................................................................................................................ 32
3.2. Objetivos específicos ........................................................................................................ 32
EV
IV. Materiais e métodos .............................................................................................................. 33
4.1. Desenho de estudo............................................................................................................. 33
4.2. População de estudo .......................................................................................................... 33
PR

4.3. Local de estudo ................................................................................................................. 33


4.4. Cálculo do tamanho da amostra e amostragem ................................................................. 34
4.5. Critério de inclusão ........................................................................................................... 35
4.6. Critérios de exclusão ......................................................................................................... 35
4.7. Procedimentos de recolha dos dados................................................................................. 36
4.8. Medidas das variáveis ....................................................................................................... 38
4.9. Forma de tratamento e análise dos dados .......................................................................... 39
4.10. Considerações éticas ..................................................................................................... 40
V. Resultados ................................................................................................................................. 42
5.1. Descrição dos resultados sociodemográficos, comportamentais e sociais ............................. 46
5.2. Fatores associados ao diagnóstico tardio da infeção por VIH................................................ 50
VI. Discussão dos resultados ....................................................................................................... 53

vi
6.1. Limitações do estudo ............................................................................................................. 60
VII. Conclusões ............................................................................................................................ 62
7.1. Recomendações para o MISAU ................................................................................................. 63
VIII. Referências bibliográficas ..................................................................................................... 64

W
IE
EV
PR

vi
Lista de siglas, abreviaturas e acrónimos

ACTG AIDS Clinical Trials Group


ADN Ácido desoxirribonucleico
AT-C Aconselhamento e Testagem na Comunidade
ATIP Atenção e Testagem Iniciada pelo Provedor de Saúde
ATIU Atenção e Testagem Iniciada pelo Utente
ATS Aconselhamento e Testagem em Saúde
CDC Centro de Controle e Prevenção de Doenças
CNBS Comité Nacional de Bioética para Saúde

W
COHERE Collaboration of Observational HIV Epidemiological Research Europe
CTZ Cotrimoxazol
DFC Dose Fixa Combinada
IE
DTG Dolutegravir
EV
EUA Estados Unidos da América
FRELIMO Frente de Libertação de Moçambique
GATV’s Gabinetes de Aconselhamento e Testagem Voluntária
gp120 Glicoproteína 120
PR

HAART Highly Active Antiretroviral Therapy


HD Hospital Dia
HR Hazard Ratio
HSH Homens que fazem sexo com homens
IMASIDA Inquérito de Indicadores de Imunização, Malária e HIV/SIDA
IRIS Síndrome Inflamatória de Reconstituição Imune
IST Infeção Sexualmente Transmissível
MASTER Standardized Management of Antiviral Therapy
MISAU Ministério da Saúde
MoT Modos de Transmissão

vii
MTS Mulheres Trabalhadoras de Sexo
NIH National Institute of Health
NIP Número de Identificação do Participante
OMS Organização Mundial de Saúde
ONG’s Organizações Não-Governamentais
OR Odds Ratio Bruto
ORa Odds Ratio Ajustado
PALOP Países Africanos de Língua Oficial Portuguesa
PEPFAR President's Emergency Plan for AIDS Relief

W
RNA Ácido ribonucleico
RR Risco Relativo
SAAJ
SIDA
IE
Serviço Amigo do Adolescente e Jovem
Síndrome da Imunodeficiência Adquirida
SNS Serviço Nacional de Saúde
EV

SPSS Statistical Package for Social Science


TARV Tratamento antirretroviral
TB Tuberculose
PR

UATS Unidades de Aconselhamento e Testagem em Saúde


UNAIDS Joint United Nations Program on HIV/AIDS
VIH Vírus da Imunodeficiência Humana

viii
I. Introdução
A infeção por vírus da imunodeficiência humana (VIH) causa uma doença infeciosa
crónica que se caracteriza, laboratorialmente, por uma depleção progressiva das células
TCD4+. Na ausência da terapia antirretroviral muitos indivíduos infetados com VIH irão
desenvolver a forma clínica da doença designada síndrome da imunodeficiência adquirida
(SIDA) em, aproximadamente, 10 anos, variando este período com as características do
hospedeiro e a virulência do genótipo do vírus (1).

VIH foi descrito como o agente causador da SIDA, pela primeira vez, nos Estados
Unidos da América (EUA), nos finais do século XX. Os primeiros casos da doença foram
descritos em homens que praticavam sexo com homens (HSM), mas a ocorrência em outras

W
categorias de doentes, a descoberta do agente causador e das vias de transmissão, veio
confirmar que não era exclusiva dos HSM (2).
IE
Não existe, até hoje, uma cura ou terapia capaz de erradicar por completo a infeção,
contudo, a terapia antirretroviral é uma forma eficaz de a controlar. A terapia antirretroviral
EV
trouxe benefícios diretos, para as pessoas infetadas, aumentou a esperança de vida e reduziu
as comorbilidades associadas à infeção por VIH e indiretos, para as não infetadas, pela
redução do risco de transmissão.
PR

Apesar do progresso evidente a nível mundial na luta contra VIH, algumas


adversidades mantêm-se no controle desta infeção, incluindo a alta prevalência do
diagnóstico tardio, mesmo após a disponibilização generalizada dos testes de diagnóstico.

O European Late Presenter Consensus working group, define como sendo um


diagnóstico tardio de infeção por VIH, o indivíduo que no momento do diagnóstico tiver
uma contagem de linfócitos TCD4+ inferior a 350 céls/μL ou, independentemente da
contagem dos linfócitos, apresentar alguma doença definidora da SIDA e, diagnóstico
muito tardio, o indivíduo que no momento do diagnóstico tiver uma contagem de TCD4+
inferior a 200 céls/μL ou, independentemente da contagem dos linfócitos, apresentar
alguma doença definidora da SIDA (3,4).

1
Várias pesquisas apontam para o facto de, mundialmente, o diagnóstico da infeção
por VIH acontecer tardiamente, o que leva a situações clínicas desfavoráveis e
complicações na saúde dos pacientes (5–7).

As desvantagens do diagnóstico tardio são inúmeras, desde a redução da sobrevida


da pessoa infetada, aumento da suscetibilidade às infeções oportunistas, maiores custos
para o sistema provedor de saúde, e do ponto de vista de saúde pública, aumenta o risco de
transmissão perpetuando novas infeções (2,7–13).

A escolha do tema prende-se ao facto de Moçambique ser um dos países mais


afetados por VIH no mundo, ter a maior incidência e prevalência entre os Países Africanos
de Língua Oficial Portuguesa (PALOP), constituir, ainda, um importante problema de

W
saúde pública e por se registarem cada vez mais novos casos de infeção (14). Por outro
lado, em Moçambique, não existem estudos publicados que retratam os fatores que
IE
influenciam o diagnóstico tardio da infeção por VIH.

Moçambique localiza-se no sudeste do continente Africano, estando limitado a


EV
leste pelo Oceano Índico, e fazendo fronteira a norte com a Tanzânia, a noroeste com o
Malawi e Zâmbia, a oeste com o Zimbabué, e a sul com África do Sul e o Reino de
eSwatini1 (Essuatíni) (15). O país conta com uma população de cerca de 29 milhões de
PR

habitantes dividida em 11 províncias. Maputo é a capital e Nampula a província mais


populosa do país, a única língua oficial, em Moçambique, é o português.

O estudo foi realizado no Centro de Saúde de Ndlavela, em Maputo, por esta ser a
segunda província com maior prevalência de VIH em Moçambique (14,16). A presente
pesquisa é um estudo transversal, retrospetivo, que visa identificar os fatores associados ao
diagnóstico tardio da infeção por VIH, em pacientes diagnosticados no Centro de Saúde de
Ndlavela, entre os anos 2015 e 2020. Esta pesquisa ajudará no reforço das estratégias de
rastreio e empowerment das pessoas em maior risco de diagnóstico tardio, como uma forma
de atingir os objetivos “90-90-90” e controlar a infeção por VIH até 2030.

1
Antiga Swazilândia

2
Enquadramento teórico

II. Enquadramento teórico


Vírus da Imunodeficiência Humana (VIH), é um retrovírus causador da Síndrome
da Imunodeficiência Adquirida (SIDA). Pertence à família Retroviridae, subfamília
Orthoretrovirinae, género Lentivirus, sendo composto por moléculas de ácido ribonucleico
(RNA) (17).

Os retrovírus são caracterizados pela capacidade de transcrever o seu RNA em


ácido desoxirribonucleico (ADN) antes da integração do genoma do vírus na célula
hospedeira (17,18).

SIDA é uma doença infeciosa crónica que se caracteriza por causar falência

W
progressiva do sistema imune e, consequentemente, maior suscetibilidade dos doentes às
infeções oportunistas (19,20).
IE
Os agentes etiológicos da SIDA são dois vírus distintos: VIH-1 e VIH-2, sendo o
primeiro o mais comum. Estes dois tipos de vírus apesar de partilharem propriedades
EV
antigénicas, moleculares e biológicas diferem entre si em cerca de 55% das suas sequências
nucleotídicas (19).

Os primeiros casos de doença foram notificados em três cidades dos Estados Unidos
PR

da América (EUA), Los Angeles, Califórnia e Nova Iorque (21). Três anos após a
notificação do primeiro caso da doença, foram notificados 593 casos novos de SIDA, destes
243 resultaram em morte dos pacientes, representando uma taxa de letalidade de 41% (22).

VIH-1 foi isolado pela primeira vez, em maio de 1983, no Instituto Pasteur de Paris
pela equipa de pesquisa liderada pelo Professor Luc Montagnier. Dois anos mais tarde foi
isolado e identificado, pelo mesmo grupo de pesquisa, VIH-2, em pacientes oriundos da
África Ocidental (19,23,24).

Dos dois genótipos, VIH-2 é menos patogénico, menos transmissível e mais


prevalente em pacientes provenientes da África Ocidental (23–26). Todavia, VIH-1
representa cerca de 95% das infeções por VIH a nível mundial. Igualmente, é mais
virulento e com maior suscetibilidade à resistência ao tratamento antirretroviral (23–27).

3
Enquadramento teórico

A descoberta do VIH, constituiu um dos maiores avanços científicos dos últimos 50


anos. A epidemia de VIH e SIDA cresceu exponencialmente, sendo uma das mais
avassaladoras doenças infeciosas que a humanidade já se deparou ao longo da sua história
(21).

2.1. Patogenia do VIH


A infeção por VIH é caracterizada por uma redução funcional progressiva do
sistema imunológico, consequente à perda gradual das células TCD4+, que se inicia no
momento da infeção e se mantêm pela replicação viral (18). A fase mais avançada da
infeção por VIH, com a presença de uma variedade de manifestações clínicas, é designada
por SIDA.

W
Esta infeção pode ser contraída por diversas vias, tais como, a sexual, o aleitamento
materno, a transmissão vertical (da mãe infetada para o filho), transfusão sanguínea e uso
IE
de objetos perfuro-cortantes onde se encontra o vírus presente (28).

A infeção por VIH leva, progressivamente, à destruição das células TCD4+,


EV
resultando em imunodeficiência. Estas células são as mediadoras centrais da resposta
imune em humanos, coordenando de maneira crucial a resposta imune celular e humoral
contra as infeções (24).
PR

As células TCD4+ são os principais alvos do vírus. Esta seletividade foi


inicialmente demonstrada em 1986 e deve-se à ligação específica da glicoproteína 120
(gp120), a glicoproteína do envelope externo do VIH, a recetores destas células, iniciando
desta maneira a entrada viral e consequente interferência na função destas células (20,29).

Após a entrada do vírus, inicia-se a replicação viral. O genoma proviral se integra


no DNA da célula hospedeira através da enzima transcriptase reversa. O principal
mecanismo da perda destas células é a infeção lítica e destruição celular durante a
replicação viral e produção de viriões (28).

No decurso natural da infeção, se não houver nenhum tratamento, haverá um


declínio gradual e considerável das células TCD4+, dos normais 500-1600 céls/μl, para

4
Enquadramento teórico

menos de 500 céls/μl (30). Esta perda progressiva ocorre de forma variável em cada
paciente infetado, no entanto, estima-se que em média 60-100 céls/μl TCD4+ são perdidas,
por ano, após a infeção (31,32). Quando o número destas células for inferior a 200 céls/μl,
o paciente torna-se mais suscetível às infeções oportunistas (30,31).

A primeira fase da infeção por VIH é aguda, autolimitada e caracteriza-se por uma
resposta inicial à infeção com sintomas inespecíficos, nomeadamente, mialgias, cefaleias,
febre, odinofagia, que podem assimilar-se a uma gripe comum (28,33). Esta fase é também
chamada de primoinfeção.

Na fase aguda, existe um alto nível de produção viral, viremia e infeção


disseminada dos tecidos linfoides periféricos com uma pequena redução das células

W
TCD4+. Portanto, desenvolve-se uma resposta imunológica específica contra VIH,
evidenciada pela conversão sorológica, que acontece de três a 12 semanas após a exposição
IE
ao vírus. Este período, do momento da infeção até à seroconversão, é chamado de período
de janela (33).
EV
Algumas semanas após a seroconversão há uma redução da viremia, todavia, esta
redução não significa o término da replicação viral que acontece dentro das células TCD4+,
macrófagos e nos tecidos linfoides (28).
PR

Posteriormente, na fase assintomática, há uma contenção relativa do vírus, o sistema


imunológico encontra-se ainda intacto, mas há uma replicação contínua do vírus que pode
durar meses ou mesmo anos (28).

Nesta fase os pacientes, podem ocasionalmente apresentar certas infeções


oportunistas tais como: Herpes-simples, Herpes-zoster e Candida albicans (28). Existe
ainda, nesta fase, uma replicação viral em níveis muito baixos, dependendo das
características imunológicas do paciente infetado (33). Após um período variável, inicia-se
a redução do número de células TCD4+ e o sistema imune começa a desvanecer. A febre,
linfadenopatia persistente, fadiga e erupções cutâneas declaram o início da descompensação
do sistema imunológico.

5
Enquadramento teórico

Finalmente, segue-se a fase crónica da infeção que é caracterizada por aumento


abrupto da viremia e da doença clínica, o paciente geralmente apresenta febre por mais de
um mês, diarreia sem causa aparente, perda de peso em mais de 25% do peso habitual,
desenvolve também infeções oportunistas tais como: Sarcoma de Kaposi, tuberculose,
toxoplasmose e manifestações neurológicas que definem a fase de SIDA (28,33).

[Link]ção epidemiológica de VIH no mundo


Estima-se que no ano de 2019, existiam no mundo cerca de 38 milhões de pessoas
vivendo com VIH. Grande parte desta população é da África subsariana, região de onde se
integra Moçambique, representando cerca de 54% das pessoas que vivem com VIH a nível

W
mundial (4,5,11). No mesmo ano, 59% das novas infeções ocorreram, também, na região da
África subsariana, em pessoas com idades compreendidas entre os 15 e os 49 anos (35).
IE
Desde 2010, houve uma diminuição da incidência de VIH na região em cerca de
38%, por outro lado, as mortes relacionadas com SIDA reduziram-se em 49% (35). Este
EV
decréscimo indica avanços significativos na luta contra esta epidemia e no aumento da
esperança média de vida das pessoas infetadas por VIH.

Apesar de ter havido redução na incidência da infeção por VIH a nível mundial,
PR

nalguns grupos populacionais denominados populações-chave, houve aumento da


incidência de VIH nos últimos anos, comparando com a população geral (36).

São populações-chave aquelas que, devido a comportamentos específicos, estão


mais expostas e em maior risco de contrair VIH, nomeadamente, os HSH, mulheres
trabalhadoras do sexo, reclusos, transgéneros e pessoas que usam drogas injetáveis (37).

No concernente aos objetivos “90-90-90”, que preconiza que até 2020, 90% das
pessoas devem conhecer o seu estado sorológico para VIH, 90% devem estar em tratamento
antirretroviral (TARV) e os outros 90% devem estar com a varga viral suprimida. Estima-
se que, em 2019, mundialmente, 81% das pessoas VIH positivas conheciam o seu estado
sorológico para VIH, 82% que conheciam o seu estado sorológico estavam em tratamento

6
Enquadramento teórico

antirretroviral e 88% que estavam em tratamento antirretroviral alcançaram a supressão


viral (38).
É por demais evidente que o alcance dos objetivos “90-90-90” não vai acabar com a
epidemia de VIH, mas alcançar estes objetivos e o tratamento antirretroviral atempado, vai
reduzir de forma significativa a incidência e mortalidade por VIH, em todos os grupos
populacionais.

2.3. Situação epidemiológica de VIH em Moçambique


O primeiro caso de SIDA que se tem registo em Moçambique data de 1986,
seguindo-se um escalar da epidemia a níveis inesperados (39).

W
Moçambique faz parte dos países com maior prevalência de VIH a nível mundial.
Segundo o Inquérito de Indicadores de Imunização, Malária e HIV/SIDA (IMASIDA),
IE
Moçambique em 2015, apresentava uma prevalência de VIH, em pessoas com idades
compreendidas entre os 15-49 anos, de 13,2% (15,4% nas mulheres e de 10,1% nos
EV
homens) (14). As províncias de Moçambique com maior prevalência de VIH são Gaza
(24,4%), Maputo Província (22,9%) e Maputo Cidade (16,9%) (Figura 1) (14,40).
PR

Figura 1: Prevalência VIH em homens e mulheres dos 15-49 anos em Moçambique

7
Enquadramento teórico

Fonte: Ministério da Saúde (MISAU), Instituto Nacional de Estatística (INE), ICF. Inquérito de Indicadores
de Imunização, Malária e HIV/SIDA em Moçambique 2015: Relatório Suplementar Incorporado os
Resultados de Biomarcadores de Antiretrovirais. Maputo, Moçambique. Rockville, Maryland, EUA: INS,
INE e ICF. 2019

Em Moçambique, a taxa de incidência por VIH entre homens e mulheres de 15-49


anos, é de cinco novas infeções por 1.000 pessoas-ano de exposição e esta cresce de modo
acelerado a cada ano que passa (14). Este facto, por vezes, está associado ao
desconhecimento do estado sorológico o que faz com que os indivíduos infetados e não
tratados continuem a transmitir a infeção.

Estima-se que, em 2019, o número de novas infeções por VIH, foi de 130.000

W
[84.000–210.000] e cerca de 51.000 [35.000-70.000] mortes decorrentes da infeção (38).

IE
EV
PR

Gráfico 1: Estimativa do número de novas infeções por VIH em Moçambique


Fonte: Joint United Nations Program on HIV/AIDS (UNAIDS). AIDSinfo [Internet]. 2021 [citado 12 de
março de 2021]. Disponível em: [Link]

8
Enquadramento teórico

Em Moçambique, a prevalência de VIH em homens e mulheres de 15-49 anos, varia


consideravelmente consoante a idade, sendo que o pico da prevalência, em homens e
mulheres, é no grupo etário dos 35-39 anos (17,5% e 23,4% respetivamente). Quanto ao
nível de escolaridade, não existem diferenças entre ambos os sexos, contudo, nos homens
existe uma ligeira redução da prevalência à medida que o nível de escolaridade aumenta
(40).

No que diz respeito à região de residência, as regiões urbanas apresentam maior


prevalência de VIH que as regiões rurais (16,8% e 11% respetivamente) (13).

Em relação ao estado civil, existe uma maior prevalência entre os divorciados,


separados ou viúvos (28,6% dos homens e 27,8% das mulheres) e os que nunca casaram

W
apresentam prevalências mais baixas (11,8% das mulheres e 3,4% dos homens) (41).

Os homens que vivem em relações poligâmicas apresentam prevalências superiores


IE
de VIH quando comparado com homens que vivem em relações monogâmicas (15,1% e
11,9% respetivamente), por outro lado, nas mulheres a maior prevalência é naquelas que
EV
atualmente não vivem em união de facto (20%), seguido das que vivem em uma relação
poligâmica (14%) (13). A principal via de transmissão, representando cerca de 90%, é a
heterossexual (41).
PR

O Joint United Nations Program on HIV/AIDS (UNAIDS) desenvolveu um método


epidemiológico, o modelo Modos de Transmissão (MoT), que utiliza dados de prevalência
e de comportamentos de diversas pesquisas, para prever as estimativas da contribuição de
cada grupo populacional na incidência de VIH em determinado ano (37,42).

Em 2013, foi realizado em Moçambique, o estudo de distribuição da incidência de


infeções por VIH na população de 15 a 49 anos, onde se concluiu que a epidemia apresenta
características que oscilam entre as de uma epidemia generalizada e as de uma
hiperendemia (42).

Os resultados daquela pesquisa, demostraram que as duas categorias que mais


contribuem para o aumento da incidência de VIH em Moçambique são as pessoas em

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