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Discursos Financeiros de Ruy Barbosa

DISCURSOS e ESCRIPTOS de Rui Barbosa
Direitos autorais
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DO MESMO AUCTOR

A liòert'■"'* religiosa. Conferência no Valle dos Benedictinos, 21 de


julho. 1876. No Boletim do Ornnde Oriente do Brasil, TU,. 5-8,
1876, pags. 670-700.
O Papa t o Concilio, por Janus. Versão e inlrodnrxjâo de R. B. (Rio,
1877.) [Link]-808.
Reforma do ensino secundário e superior. Parecer e projecto na ra-
mara dos deputados em 1882 (Rio, 1882.) 1 vol. in-foL, 114 pasrs'
Reforma do ensino primário. Parecer e projecto na camara dos de-
putados, 1882. (Rio, 1883.) 1 vol. in-fol., 378 paga.
Emancipação dos escravos. Parecer em nome das comtnissões do
orçamento e justiça civil. (Rio, 1884.) I vol. 114 pags.
Lições de, coisas, de [Link]. Versão e adaptação. (Rio, 1886) xxxvi-
616 pags.
Eleição directa. Discurso no meeting da Bahia em 1874. (Bahia, 1874.)
Outro Alves. Elogio do poeta. Pelos escravos. (Bahia, 1881.) 70 pags.
O marques de Pombal. Discurso em 8 de maio. 1882. (Rio, 1882.)
34 pags.
O desenho e a arte industrial. Discurso. (Rio, 1882.) 31 pags.
José Bonifácio. Discurso em S. Paulo. (S. Paulo, 1887.)
O anno politico dc 18S7. (Rio, 1888.) 152 pags.
Swift. Ksludo lilterario, prefixo á versão das Viagens de (rutUver.
(Laemmert, 1888.) 44 pags.
Governo Provisorio. Relatório do ministro da fazenda Rug Barbosa.
(Rio. 1891.) 464 pags.
Elemento servil. Discurso nu cumaia dos deputados, 23 de julho,
1884. (Rio, 1884.)
Conferência abolicionista no Polytheama, 7 de junho. 1885. (Bahia,
1885.)
A situação abolicionista. Conferência, 2 de agosto, 1885. (Rio, 1885.;
Oommemoraçào da lei de 7 de novembro de IH-tt. Conferência. (Rio,
1885.)
A abolição no Brasil. Conferência. (Rio, 1887.)
Homenagem ao ministério Dantas. Conferência abolicionista. (Rio,
1885.)
Discurso no Congresso Nacional, em 16 de dezembro, 1890. (Rio,
1891.)
FINANÇAS S POLÍTICA

DA

REPUBLICA

DISCURSOS B ESCRIPTOS

CAPITAL FEDERAL
xiviFxxiussoxs.x^
7 Rua Nova do Ouvidor 9

1892
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n «Hiii M m iiíaíiça»

APPÊLLO

UO ODIO PARA A VKKDAUE

DAS FACÇÕES PARA A NAÇÃO

DA cm'Kl SÃ O [Link]

A SERENIDADE LUMINOSA DO FUTURO


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1
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PREÂMBULO DO EDICTOB
%

Reunindo, em livro, os tres discursos proferidos pelo sr. Ruy


Barbosa, no senado, acerca da questão financeira, aos seus artigos,
enfeixados sob o titulo de Manifesto á Nação, que se publicaram no
Diário de Noticias, no Combate, no Jornal do üommercin, no Diário
da li ihia e em varias outras folhas nos diversos estados, temos em
mira dar ao publico a justificação do papel desse homem de estado,
financeira e politicamente, no governo da revolução.
U Manifesto á Nação, ao qual nem por parte dos outros membros
do Governo Provisorio, nem pela de quem quer que seja, se oppoza
menor contradicla, apezar da amplíssima e prolongada publicidade,
que tiveram esses escriptos, assume, em presença desse assentirnento
geral dos contemporâneos, as proporções de ura documento bisto-
rico do maior valor contra certas falsificações irresponsáveis da ver-
dade, tecidas em desabono da dictadura de 15 de novembro.
Da impressão produzida pelos seus discursos financeiros no
senado as dimensões estreitas daquella casa não permittiram ser
muito grande o numero das testemunhas. Como elemento, porém,
de reconslrucção da vida contemporânea, em que os fados e os
sentimentos se apagam rapidamente, reproduziremos da imprensa
alguns vestígios significativos.
O Pais, de 14 de janeiro deste anno, dando contada sessão
da vespera, exprimia-se assim ; <
"A sessão de hontem não pôde ter aqui a repercussão gran-
diosa do que foi no recinto do senado. <1 chronista não conseguirá
dar uma idéa remota do que foi o discurso do sr. Huy Barbosa
que mais uma vez demonstrou ser o alto esgrimista da palavra. '
• • •
v,|, preâmbulo

Quer na profundeza analylica da situaçfto financeiral a


e dos PJ^rtos
apresentados, quer pela aniinação deiuustheniea ' ^ ,
lorida pela luz de uma imaginação prismática, S- ex. ' brou 9e
pelo sublime. Brasileiros, nos devemos orguíhar,
junto «le nós uma mentalidade tão poderosa, uma c®re{^^° ta0
complexa, avigorada por um estudo incomparavelmente bem e. \ li-
mado.

" Para cqaiar o seu monumental discurso, de que esta chrn-


nica é uma miniatura microscópica, o sr. Ruy Barbosa pediu
para entrar em algumas considerações geraes sobre política.
" E'-nos impossível acompanhar o orador na peroraçâo bome-
rica que produziu. S. ex. desenhou o quadro da nossa política,
descarnando a nossa Índole e o nosso preparo político e moral,
apontando os vicios da nossa educação entibiada pelo desenvolvi-
mento nos braços da escravidão, a herança dos antigos vícios co-
loniaes e dos moldes da política do passado, que fez germinar em
nós, pelo atavismo, a política das paixões. E na serie immensa
da sua larga apreciação histórica mostrou a incohereneia dos
nossos applausos com as nossas recriminações, o julgamento lacile
impensado sobre os homens públicos.

"A peroraçâo do sr. Ruy Barbosa, emfim, foi como urna


grande cupola de verdades históricas e políticas, cobrindo as
paixões e os odios que fermentam aclualmente no nosso paiz.
O Diário do Cbmmercio, resumindo, no seu boletim, o discurso
de 13 de janeiro, dizia:
" Si da parle financeira do discurso de s. ex. só demos um
pallido transumpto, n'esla parte o orador teve rasgos tão elevados
que se nos tornou materialmente impossível acompanhal-o.
" Ao descer da tribuna irromperam de todos os lados do senado
enlhusiasticos applausos e palmas ao orador, que foi abraçado por
seus collegas e pelas pessoas presentes.
A sessão terminou ás 5 horas da tarde."
Dias depois (em 18 de janeiro) tornava o Paiz ao assumpto,
deste modo : «
" Com a devida venia, transcrevemos do Diário de Noticia* a
peroraçâo do discurso, ha dias pronunciado no senado pelo emi-
nente senador bahianoo sr. dr. Buy Barbosa.
" Offerecemol-a aos nossos leitores, não sómente como um dos
mais bellos e soberbos trechos de eloqüência que jamais tenham
PREÂMBULO « e IX-
■echoado na tribuna de um parlamento, como também como uma
das mais conceituosas apreciações da psychologia social de um
povo.
" Somos suspeitos com relação aoilluslre senador.
" Tendo pela sua alta capacidade intellectual e pela sua elo-
qüência sem par a mais profunda admiração, mal podemos pre-
tender formular um juizo. que pareça imparcial sobre-a sua cul-
■ minante personalidade política.
" Diremos apenas que, em outro qualquerpaiz civilisado, um"
■ talento de tal quilate, um homem de tal valor seria «onsiderado
uma gloria nacional, e seria reverenciado como uma potência.
" Entre nós, porém, graças ao vicio atavico da nossa edu-
cação, graças ao espirito da maledicencia, tão generalizado entre
nós, graças á leviandade e á petulância dos ociosos e dos igno-
rantes, que em tão grande numen) concorrem, para formara opi-
nião, mesmo dispensando-se do trabalho de ler, e de raciocinar,—
os homens públicos, ainda quando eminentes como o illustre senador
pela Bahia, são alassalhados na sua reputação e babujados pela
calumnia, procurando os invejosos e os inimigos manchar-lhes a
reputação moral, já que não podem eximir-se ao jugo da admi-
ração, que lhes inspiram os seus extraordinários dotes intellecluaes,
desde que não ousam escurecel-os.
" O illustre senador, pela própria culminância da sua vasta
capacidade, tem sido o alvo da mais desabrida hostilidade.
" A verdade, porém, é que o seu trabalho de dois annos. desde
que entrou para o Governo Provisorio, eqüivale a um cabedal
opulento ; e. de cada vez que a sua palavra se faz ouvir, elle con-
quista applausos universaes.
" Taes individualidades são um patrimônio honroso para as
nações, que têm a fortuna de possuil-as, e, como forças creadoras
que são, têm direito á consideração universal, desde que nenhum
facto, nenhuma prova se adduz contra a sua integridade moral.
" Erros commetteu talvez o illustre ministro da fazenda do
Governo Provisorio ; mas em nenhuma sociedade política já appa-
receram homens infalliveis e impeccaveis".
No dia seguinte, o Diário do Cummercio, estampando a mesma
transcripção, dizia:
" Com a devida venia dos nossos collegas do Diário de No-
üeim, transcrevemos hoje a notabilissima peroraçâo do discurso
ultimamente pronunciado no senado pelo illustrado e eminente
estadista dr. Ruy Barbosa.
" Bem poucas vezes os annaes do Parlamento Brasileiro re-
gistraram documento de tanta valia, quer como peça litleraría,
quer como estudo dos homens e das cousas, vistos através da lente
preciosíssima do enorme talento do orador, que a proferiu."
x •- PREÂMBULO
• • »
Completam esla publicação as duas cartas do sj-, Ruy
Barbosa ao Combate e ao Jornal do Oommercio, acerca do (ratado
americano, nas quaes se demonstra, mediante prova material,
a ii responsabilidade do governo brasileiro por esse convênio,
celebrado sem a condição essencial, a que deviam, segundo as in-
slnicções jladas ao nosso ministro em Washingtofi, ficai- subor-
dinadas Tis nogociações. •

liTTi. 27 de maio de 1892.


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* * *
E
ÍNDICE

[Link]:
I — O papel c a Imiíxh do cambio»—Em 3 íli' no-
vembro <Ie 1891 1
II — Os bancos emissores — O projeeto official.
—Em 12 de janeiro de 1892 129
III — A reforma em projeeto — A mobilização do
lastro dos bancos—O imposto em ouro
— Império e Republica.—Em 13 de ja-
neiro de 1892 219
iLvíCanifestc á, nação 301
O tratad.o americano 403
-A-ppend-ices :
I — Emissão nos Estados-Unidos 419
II — Repressão do jogo de Bolsa pelo Estado 421
III — Pressão dos bancos estrangeiros pata a baixa
do cambio 425
IV — Tabella do cambio em 1891 429
V — A Republica em França 433
VI — A política sob Washington e a administração
financeira de Hamilton 437
VII — A malignidade contemporânea 445
VIII — O incidente da Quinta do Cajú 403
IX — Ainda o tractado americano 471
Errata 477

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VPEL E A BAIXA DO CAMBIO


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DISCURSO DROFEBIDO NO SKNAUO

EM SESSÃO DE 3 DE NOVEMBRO DE IXDl

O mí. Ruv Bakikisa tyaoriviento gerai de attenção): —


O nieu\í'stiidi> de saúde, sr. presidente, ainda não me jkt-
mittia participar em trabalhos de grande concentração
mental, como este debate. Sou, não obstante, forçado a
intervir nelle, c largamente; forçado pela seriedade exce-
pcional do assumpto; .forçado pela insistência com que,
nas controvérsias que elle suscita, o meu nome 6 constan-
temente chamado ií autoria; forçado pelas relações imme-
diatas entre esse assumpto e o caracter das responsabili-
dades que me incumbem como collaborador na mais dif-
ficil das tarefas para a fundação do governo republicano,
responsabilidades que encaro com a consciência de quem
revê neste capitulo de sua fé de offieio o episódio menos
inútil dos seus serviços ao paiz,
2 • .'A (QUESTÃO FINANCEIRA

Devo esperar, pois, (pie o senado, gentil e magnâni-


mo sempre, relevará hoje á minha palavra, á conta do
meu estado physico, os esmorecimentos da convalescença
e, á conta de minha posição singular no clebate, a extensão,
a mnlt/plicidade, a aridez do desenvolvimento, que tenho
de dar-lhe. Não se trata, com efíeito, da minha defesa
[Link] seria cabalmente feita, cedo ou tarde, pela
justiça do tempo : poderi diea tentes nnnt sapietdissimi. Eu
a deixaria de bom grado a esse reparador infallivel, único
recureo d'aquelles, que, nas questões (jue apaixonam os
mais irritaveis interesses humanos, ousam trabalhar pela
patria com independência de espirito e confiança no futuro.
Formei-me na escola do respeito á opinião publica, que é
a escola da honra; mas também me creei na hygiene d'essa
altivez moral, (pie nos envolve o animo na frie/a impe-
netrável do desprezo contra as influencias bastardas, (pie
usurpam a dignidade e os direitos d'esse tribunal da con-
sciência civica. Não se trata, porém, da minha justificação
individual. Não 6 a minha causa, que se litiga : é a causa
da Republica. Sob a crise financeira, que se pensa em re-
solver, insinua-se subtilmente a crise política de 15 de
novembro, <pie a especulação procura prolongar.
A dynastia que a revolução descorôou, valetudinaria,
incapaz, exhausta, desprestigiada, liquida-se silenciosa-
mente do outro lado do oceano. E' um elemento morto. A
(asa reinante, porém, nos últimos momentos de sua exis-
tência política, descera a uma triste condição de subalter-
nidade, prefacio da sua eliminação imminente, e estava
sendo apenas objecto de exploração ás grandes ambições
dos chefes de partido. Mas essas conveniências, que a re-
volução deslocou do poder, encarnaram-se em numerosa
O PAPEL E A BAIXA DO GAMBIÔ ^ 3

familia dedesthronizados, (juc não sc resignam. Elias en-


venenaram contra nós os preconceitos da opinião europóa ;
cilas retribuíram com a ingratidão da calnmnia a clemên-
cia do governo revolucionário; ellas procuraram tisnar, com
a obliqüidade de consciência dos vesgos, as reputações re-
publicanas ; cilas nutriram contra o nosso credito a guerra
das novcllas telegraphicas ; ellas, ainda agora, se deliciam,
applaudindo á janella dos boteis, quando a desordem
criminosa passa pelas ruas.
Não cuideis que tenho em mente a sombra d'essa
hypothese, a que a irrisão popular ligou a justa alcunha
de sehaxtianwmo. Faço bastante justiça ao siso dos meus
ouvintes, para não os entreter com os medos, com os ri-
diculos d 'esse espectro. Uma republica unitaria, entre nós,
seria talvez apenas um simples entreacto revolucionário,
capaz de terminar pela restauração.
O sr. QriNTrxo Bocatüva : — Apoiado.
O sr. Ruy Ha uiíosa;—Alas, no dia em que o Governo
Provisório proclamou a forma federativa, no dia em que o
Congresso Constituinte entregou aos Estados o foral da
sua autonomia, ficou estabelecido para sempre o dilemma
entre a Republica e o desmembramento. {Apoiados.)
Quando alludo, pois, á crise política, não me refiro a essa
visão de zanagas, a esse sonho de enfermos. Alas, se as
instituições recem-creadas estão acima do perigo material,
se a sua estabilidade formal assenta em necessidades
inamoviveis, superiores ás conjurações de interesses, não
pôde ser, todavia, indilfcrcntc ao estado moral da Repu-
blica essa campanha dos carvociros do império, alimentada,
ha dois annos, com a tenacidade das conjurações, contra
os seus homens, as suas inspirações, as suas obras.
• • I

••
• •
4 * A QUESTÃO FINANCEIRA

Esse trabalho pervicaz, subterrâneo, saturando de fel as


nascentes de onde corre o sentimento popular, promove no
espirito da nação um sccpticismo dostrujdor, cuja influen-
cia tenderia a inaugurar entre nós uma política de aventu-
reiros, 'entregando a sorte do paiz á impudeneia dor mais
cynieos, á audacia dos mais atrevidos. Com esta aocão
solapadora contam os nossos adversários, tanto, [ndo menos,
quanto parece desconhecerem-n'a os nossos amigos, coope-
rando inconscientemente nella. E, como as finanças são o
nervo dos Estados, é no terreno tias finanças que, desde
os primeiros mezesda Republica, se abrio contra nós o fogo
da rcacção. (Apokulox.) Corpo informe, aspiração inconfes-
sável, acertou ella na fortuna de penetrar, sob as suas fôrmas
larvadas, no seio de muitas convicções republicanas, e
explorar habilmente, nas maiorias irreflexivas, esse fer-
mento de desordem, esse gênio de opposição, essa indole
de combate, essa superficialidade nos Juízos, essa facilidade
nas sentenças, essa leviandade na imputação do mal, em
que o captiveiro civil e o captiveiro político educaram o
temperamento da nossa nacionalidade.
Os republicanos, em grande parte, não percebiam, e
infelizmente ainda não percebem, até hoje, ojogo, deque
são victimas. A monarchia, que sossobrára aos clarões da
mais fantastica illuminação chineza na Ilha Fiscal e do»
mais caprichosos fogos de vista na rua do Sacramento,
encontrou para logo quem viesse contrapor as exceHmdax
da sua política financeira aos erro* financeiros da revolução.
Bem sabiam esses que o desmemoriamento é o mais con-
stante entre os caracteres psychologicos da opinião entre
nós. Somos um povo deamnesicos, uma raça de esquecidos.
Dir-se-hia que não temos consciência da memória, senão
O PAPEL E A BAIXA DO CAMBIO 5

pelas suas lacunas. Em França, foraiuos capazes tle


restaurar Bonnpnrtc depois de 1815, Polignae depois de
1830, Guizot depois de 1848, Olivier depois de 1870.
Crer-se-hia que fitava os olhos em nós a ironia d'aquelle
estilista francez, que disse: " Perder uma grancle monar-
chia6 ser um grande estadista; mede-se o Immem pelas
rninas (pie elle arrasta comsigo." A luz artificial, com que
se dispõe a scena para a regalvanisação dos defuntos, é a
(pie vem destingir-se em reflexos desfavoráveis sobre a
actividade dos vivos. Disso temos o exemplo mais memo-
rável nessa preeonisação das ultimas finanças do império,
respondendo, como acompanhamento indefectível, á detrae-
eão systematicamente exercida contra as primeiras finanças
da Republica.
As influencias cujo peso arrastou a realeza ao naufrá-
gio, propõem-se hoje a ensinará Republica nascente a arte
da salvação. Com a mais transcendente generosidade, os
destruídos pela revolução vêm eommuniear íí revolução o
segredo de não se destruir a si mesma !
O contagio perverso vai-se insinuando em adheren-
eias surprehcndcntes. Seus oráculos, formulados em lin-
guagem que lhes photographa a origem, penetram, com a
solemnidade preteneiosade decisões infalliveis, atêao fundo
das eommissões parlamentares. Uma parte da opinião repu-
blicana, pura, honesta, mas ingênua e desvairada como
bando de crianças, illudidapela irisação do disfarce trans-
parente, senta-se descuidada aos joelhos da seducção, recan-
tando docilmente a mesma solfa, que lhe cantam. E, assim,
da malicia de uns com a innocencia de outros, da inexpe-
riência dVstes, fascinada pela esperteza (faquelles, se com-
põe esta situação inenarrável, em que os nossos inimigos
C> «' A QUESTÃO FINANCEIRA
são os curadores mais eloqüentes dos nossos interesses, e
eomo plano de salvação financeira se desenha a mina do
edifício levantado pela administração republicana, a mina
d'esse edifício de sólidas esperanças {apoiados), em glorifi-
eação posihnma dos sophismas sepultados no esboroamento
da monaivhia. {Apoiados. Muito bem.)
Aqui está, senhores, o sentido, em que eu, ha pouco,
vos fallava em crise política. Não trato da política, que
divide um regimeu era partidos degladiantes, mas da que
reúne todas as opiniões filiadas ao mesmo regimen contra
os elementos hostis á prosperidade dVlle. Em nome d'essn
política, politiea de união, a politica republicana, contra a
politiea amoirpha, inconfessada, que se empenha em turvar
de calamidades as origens da nossa nova existência nacional,
venho, sr. presidente, rememorar a historia de hontera,
com os factos, os documentos, as opiniões dos nossos anta-
gonistas nas mãos, mostrar a caducidade agonisante da
monarchia sob essas mesmas apparencias esjxK-iosas da
herança financeira recebida pela revolução, mostrar a legi-
timidade das medidas, com que nos buscámos premunir
contra os-embaraços d'essa successâo espinhosa, mostrar a
vacuidade das accusações amontoadas contra essas medidas,
mostrar os riscos incalculáveis do erro contido no plano de
destruição, que tende a fazer d'ei Ias tal mu rasa. Emissão,
conversibilidade, cambio, direitos em ouro, mobilisação do
lastro metallico, todos esses problemas de agora são os
mesmos problemas de hontem, os mesmos do principio de
1890. A historia, pois, é que ha de ser o nosso facho no
labyrintho d'e8te julgamento, a historia, o exame calmo
das circnmstancias de então e das circnmstancias de hoje.
Muito vale o cabo submarino ; muito pôde a City, ainda

<c
O PAPEL E A BAIXA DO CAMBIO J

apenas vagamente entremostrada nos longos duvidosos de


unm miragem telegraphica. Mas, se tão faltos somos da
consciência de nós mesmos, fjuo não possamos julgar dos
interesses da administração da nossa fortuna, senão sob o
dietame das manifestações de ura anonvmato estranho,
problemático, impalpavel, vamo-nos então logo, sem ceri-
monia, como o Egypto, sortir de ministros dos finanças
nos mercados europeus. (Apoiados.)
Quero, sr. presidente, neste debate, occupar-me exclu-
sivamente com os faetos, não com as pessoas ; bem que
a minha tenha sido constantemente alvo dc aggressões
insólitas, deseommunaes. Perante a minha consciência, nada
me honra mais do que essas investidas furiosas, pela natu-
reza da sua origem, pela orientação das suas intenções.
Quando a reputação de um homem poli tico, em medidas
(pie envolvem grandes interesses geraes do paiz, collide
com vastos e poderosos interesses particulares, essas tem-
pestades deaffrontas são a dignifieação immediata do liem
praticado. Tentar retaliações, pois, seria lutar ridicula-
mente contra um triste phenomeno moral, cujo effeito é
nobilitar as suas vietimas. (Apoiados.)
Mas ha um direito, de que não prescindo: o da
franqueza sem reservas. Em momento tão grave, não
quero incorrer naquella fiiiqueza, pela qual, sem razão, a
meu ver, se justiçou o actual ministro da fazenda no
famoso parecer de um eminente membro da outra camara :
"a de não dar o nome ás cousas". E, por fallar nesse
documento, devo declarar logo que não me referiria a elle,
se uão fosse o oommentario mais conspicuo do projecto da
commissão mixta. Como tal, porém, elle se impõe á nossa
consideração attentissima. E' um dos mais caracteristicos
\ l' f A QUESTÃO FINANCEIRA
eymptoma» do tempo, das suas inversões, das suas surprezas.
Como poderia eu lel-o, sem me sentir singularmente
impressionado? Nafjuellas linhas, humídas do baflo da
historia imperial, na têa d'aquelle eseripto, atravfe de cujas
malhas se võ trabalhar a aranha das minas..
t
O su. Amaro Cavalcanti : — Apoiado. Está tjer-
leitamente faracterisado.
Osr. Ruy Babbosa : — ...ninguém seria capaz de
sentir o calor das sympathias revolucionárias, com que o
i 11 ustre conde do império, uma das primeiras visitas ipie
me honraram no dia immediato ao movimento de lõ de
novembro, subia as escadas de minha casa, levando a
irradiação do enthusiasmo no semblante, para me enver-
gonhar a mim, noviço em republica (riso), com os seus
protestos, de republicano de todos os tempos, em apoio das
instituições que despontavam. No pessimismo absoluto
d'aquelle documento, na frieza glacial dos seus golpes, no
azedume das suas apreciações, por onde não passa um sopro
de benevolência, contra todas as administrações republi-
canas, qualificadas, sem excepção, por s. ex. com a nota
geral de "imprudência e incapacidade", está-se sentindo
vibrar o contacto de outra mão, regelada e hostil. Dir-
se-hia resoarem alll os echos d'aquella cólera torva, que
deixava as nossas praias após a revolução, amaldiçoando-a
como o fructo da iniqüidade. Crer-se-hia ver sangrar alli
uma d'essas feridas eternas, que as revoluções abrem, e as
nostalgias do poder envenenam :

Immortale odium et nunquam sanabile vulnua.

O homem, a quem coube a missão de desmontar o


plano político das finanças da monarchia, não podia esperar
O PAPEL E A BAIXA DO CAMBIp , a,
misericórdia do monarchismo revivescente. Quando
muito, mo caberia estranhar o murmúrio qne dos arraiaes
da democracia histórica vem engrossar o côro das aspi-
rações imjierialistas, notar o esquecimento de que essas
finanças, simples traducção d'essa politica, representavam
o plano de consolidação preparatória do terceiro reinado
pelo extermínio radical do germen republicano. (Apoiados.)
A herança do império, indecisa entre uma princeza impo-
pular e um príncipe menor, devia ser previamente adju-
dicada a um partido e definida pela escolha de um grande
chanceller. Uma tal mutação na monotonia da politica
bragantina demandava lances de grande apparato, capazes
de aureolarem pelo seu reflexo a cabeça do vice-imperador.
O partido liberal foi chamado ao poder nessa opportu-
nidade extraordinária, que o organisador do seu primeiro
gabinete contribuirá para apparelhar, e que, no governo,
aproveitou maravilhosamente, alliando adirecção das suas
medidas financeiras ás exigências eleitoraes e parlamen-
tares da situação.
Senão, vêde. Quaes são as creações d'essa época, que
a lenga-lenga dos meus inimigos me accusa de haver des-
truído com mão quasi sacrilega?
Senhores, eu não encontrei no activoda administração,
a que succcdia, senão isto :
O empréstimo interno de 100.000 contos, estatuído
]>olo decreto de 27 de agosto ;
Os bancos de circulação metallica, projectados pelo
regulamento de 6 de julho ;
O resgate do papel-inoeda, estipulado com o Banco
Nacional nocontracto de 2 de outubro.
Pois bem. Os meus actos, a minha administração
10 • . A QUESTÃO FINANCEIRA

contribuiram de algum modo, directa ou indirectamente,


para a ruína das esperanças, com que essas medidas se
annunciavam f Inutilisei eu alguma d'ellas, ou cooperei,
para que os seus benefícios não se verificassem"?
O exame d'csta questão é fundamental na defesa das
finanças da Republica. Haveis de permittir-me, pois, que
o faça, cotn a clareza e a demora precisas.
Ora bem, senhores. Dessas três manifestações, em que
se resumia a administração financeira do ultimo gabinete
imperial, a que primeiro se nos antolha, é o uso dado pelo
império ao empréstimo de 28 de agosto. A importância no-
minal d'esse empréstimo foi de 100.094 contos. Mas elle nos
absorveu logo, em despezas concernentes ã sua emissão e
ao seu serviço, a quantia de 11.507;100$4'29, que o redu-
ziam, portanto, ao valor effectivode 98.186:893^571. Mas,
tendo-se a subscripção aberto, segundo o texto publicado
no Diário Ojficial e nas outras folhas do dia, com a cláu-
sula de que as entradas seriam feitas cm moeda corrente,
e não em ouro, como reza o autographo imperial e a col-
lecçâo das leis, a importância realisada pelo Thesouro, era
virtude das diífercnças de cambio, soffreu ainda um
desfalque de 9.442:671 f 103. 1 Sommadas essas deducções,
verificamos (pie o produeto real do empréstimo se limitou
a 88.744:222^408. J/w.s, por contrcictos que achei feitos
com os bancos, S.j..,500 contos se deviam consumir em auxi-
lios á lavoura.
Nunca se poderia ter inventado cousa mais inútil aos
verdadeiros interesses da agricultura do que esse genero de

' Relatório do ministro da fazenda Ruy Barbosa, pags. 138-41.


O PAPEL E A BAIXA DO CAMBIQ > Ilí
auxílios, aliás onerosissimos ao Thesouro. Este fornecia
dezenas de milhares de contos, sem juros, por prazos que
variavam de sete a vinte e dois annos, a certos estabeleci-
mentos bancários, obrigados, pelos ajustes com a fazenda,
a emprestarem á lavoura o duplo dessas quantias, a prazos
de um a quinze annos, com o juro de 6 ü/0. Os benefícios
d'esse systema experimentaram-se apenas na victoria elei-
toral do gabinete, que presidiu á distribuição, na mais ou
menos prompta liquidação do passivo das casas commer-
ciaes relacionadas com a lavoura, na prosperidade dos
estabelecimentos de credito favorecidos por essas generosas
anticipações e na agiotagem sobre os títulos desses bancos.
O desenvolvimento agrícola do paiz, porém, não vencia
com isso o menor terreno. Senão, ouvi o que, a esse respeito,
escrevia, compeudiando os resultadofe dessa experiência, o
decano da nossa imprensa diaria :
"Uma questão bastante debatida duraiPe o anno foi a de auxí-
lios á lavoura. Oremos piamente que ha pouco», entre os nossos leitores,
que não considerem má a própria nomenclatura de auxilio... Em 31
de maio a quantia adiantada pelo governo aos intermediários
chegou á importante somma de 41.300:000$000. Essa somma repre-
senta um encargo annual de cerca de 1.800:000$000, contribuição do
povo não se sabe a favor de quem... Durante os últimos mezes do
império o furor para organisar bancos foi agudo, estimulado maxime
pelos favores oferecidos aos bancos intermediários nos chamados
auxílios á lavoura." 1
Como deviamos nós proceder ante esse estcril e perni-
cioso legado da política imperial ? líatifieando-lhc os encar-
gos ? Era evidente que não. Logo que as circumstancias,

1
Jornal do Commercio. Retrospecto Covunercial de 1890,
pags. õ-7.
c
A QUESTÃO FINANCEIRA

pois, m'o permittiram, tratei de susjwnder, innovando 09


contractos celebrados com os bancos pelo meu antecessor,
a continuação desse regimen de libcralidadcs inconvenien-
tes. O resultado foi, para os cofres públicos, uma economia
do 27.250 contos.
Será um crime, ou um mérito, essa deliberação
da política republicana ? Serviria cila melhor ao paiz, se
acabasse de despejar esses 27.000 contos na voragem da
especulação ? E não teremos nós o direito de reclamar,
para o nosso activo, não só essa economia realisada, como
a condemnação ofticial da legitimidade d'esse regimen f
{Apoiados.')
Entretanto, a esse ponto exclusivamente se limitou a
acção positiva do primeiro ministério da Republica contra
as finanças do derradeiro ministério da monarchia.
Emquanto ao mais da situação que encontrámos, a nlui-
ção d'aquclla ordem de cousas produziu-se espontanea-
mente, graças á natureza precaria dos elementos, em que
ella se firmava.
O ministério 7 de junho enfrentóra ousadamente o
problema da conversão do papcl-moeda. Mas, além de
serem intrinsecamente defeituosas as condições, em que a
convencionou, mui pouco estáveis eram as circumstancias,
de cuja permanência ella dependia.
Data de muito mais de meio século, entre nós, o pen-
samento da eliminação do papcl-moeda. A lei n. 5$, pro-
mulgada, sob a regencia, em 8 de outubro de 1833, depois
do ouvida a comraissão nomeada, em janeiro d'esse anno,
para estudar o assumpto, autorisou a creação de um banco
de circulação e deposito, sob o nome de Banco do Brasil,
que devia substituir por notas suas todo o papel fiduciario
1
O PAPEL E A BAIXA DO CAMBIO B?
do governo, percebendo por isso a prestação annua de
cinco por cento do seu total.
Vinte annos depois, tendo sido nullos os fruetos do
primeiro tentamen, a lei de 5 de julho de 1853 planejou a
instituição de um estabelecimento designado sob o mesmo
nome e proposto A mesma tarefa. A esse instituto de cre-
dito se commettia a funeção de resgatar 2.000 contos, an-
nnalmcnte, do papel que então fazia as vezes de numerário.
O novo Banco do Brasil adiantaria os primeiros dez mil
contos, a titulo do empréstimo, isento de juros, durante o
privilegio d 'esse estabelecimento, isto é, pelo espaço de
trinta annos, e rcstituido, no termo d'essc prazo, pelo Es-
tado em apólices de 6 ^ ao par. Logo que a conversão
passasse do 10.000 contos, o cxceaso seria pago trimestral-
mente pelo governo, a quem ficava o direito de obrigar o
banco, sempre que elevasse o seu capital, a lhe empregar a
terça parte na expansão das operações do resgate.
São evidentes, nessas duas leis, as precauções, de que
se procurou rodear o interesse do Estado, evitando, por um
lado, que, sob o pretexto de melhorar o credito do The-
souro, se lhe aggravassem na realidade os encargos, — de
outro lado, que, sob a côr do extinguir-se, para as notas
do governo, o curso forçado, se apparolhasse em vantagem
de um banco emissor o beneficio d 'essa situação privile-
giada.
A ultima (Tcssas d ias preoccupações constantes do
legislador é manifesta no art. 30 da lei dc 1833, que im-
punha ao Banco do Brasil a obrigação de trocar as suas
cédulas á vista, pena de pagar aos seus portadores o juro
annual de 12% desde a data da apresentação ató á do
embolso.
<
i4 ' < A QUESTÃO FINANCEIRA \
'A
A outra evidencia-se na disposição da lei de 184(>, ^
pela qual a autorisação conferida ao governo se circum- ,
serevia ás operações de credito precisas, para elevar o '
valor do papel-moeda ao par, e nelle conservai-o.
Ora, não se eleva o valor do pa{>el do Estado, </m-
promettendo-lhe o credito em novos e maiores gravames,
como -e dava com a operação ajustada, era 1889, no eon-
tracto com o Banco Nacional. Esse contrai to feria, ]>ois,
flagrantemente a lei de 184(j, não revogada pula de 24 do
novembro de 1888 em que clle se estribava, mandando
converter títulos de uma divida sem juros, como 6 o papel-
moeda, era rendas de 2 '/v de amortisação e 4 /,' de juros em
ouro.
O sr. Amaro Cavalcanti:— Para afinal fiear
jiajiel por papel.
O sr. Ruy Barbosa :— Esse contracto prejudicava,
pois, o credito do Estado, augmentando-lhe a despe/a
com os juros e a amortisação de uma divida, até então in-
conversivel, e de então em diante consolidada mediante
operação de credito não permittida na lei de 1888 nem nas
tradições legislativas anteriores do nosso regimen finan-
ceiro. Além d'isso, violava ainda as conveniências da fa-
zenda nacional, deixando ao banco o arbítrio de pagar em
notas suas, em vez de ouro, as notas do governo, que re-
misse ; clausula de que o banqueiro do resgate necessaria-
mente havia de utilisar-se, para saldar as suas contas na
espccie, ouro, ou papel, a que o agio fosse desfavorável.
O estado legislativo creado pelas leis de 1833, 1840,
1853, e não alterado pela de 1888, recebeu golpe ainda
mais grave na primeira das duas considerações, a que
acima alludi. O contracto de 2 de outubro, propoudo-se a

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V O PAPEL E A BAIXA UO CAMBÍO i 15
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tinsüir a circulação inconversivel do Theaonro, preparou
simplesmente a circulação inconversivel do Banco Nacio-
nal/ E' o que irresistivelmente resulta da clausula desse
cc/ivepio, onde se resalvara, para a emissão d'essc estabe-
lecimento, o direito ao curso forçado, nos casos, não só de
guerra e revolução, como de crise política, ou. financeira.
I Não me será difficil demonstrai-o.
A emissão do Banco Nacional, com efíeito, não se re-
vestia das condições esscnciaes para lhe assegurar a con-
versibilidade, uma vez que as suas notas eram garantidas
apenas por um deposito metallico igual á terça parte do
seu valor. Realmente a proporção de 1:3 entre o lastro e a
circulação, que elle alimenta, não pôde manter o troco á
vista, senão nos paizes onde o estado normal do cambio é
o da paridade ; porque, fóra de tacs condições, a menor
inquietação no mercado promove a affluencia das notas
ao troco, em corrente incoercivel, que esgotará os estabe-
lecimentos emissores, obrigando-os a fecharem, se o curso
forçado não os vier salvar. 1

1 "E' claríssimo que a relação de 1 para 3 podia ser boa,


como o é ainda em alguns paizes, onde as condições econômicas e
monetárias são assás regulares; mas não o é, nem pode ser em
um paiz quasi privado de moeda melallica e em condições econo-
micas nada prosperas. As mesmas pbrases, com que os dois rela-
tores confessam a difficuldade, que o cidadão italiano enconlra, de
converter em moeda metallica o bilhete de banco, que aliás deveria
ser convertivel á vista, são provas da insutíiciencia da relação de
1 para 3. Era talvez caso de tratarem os relatores amplamente a
questão e examinarem se não seria para adopfar. não diremos já o
systema de uma reserva igual á circulação, mas reduzir, por exem-
plo, de 1 para Sal para 2 a proporção entre a reserva e os bi-
lhetes." Be Jouannis ) La banehe di emisnonee ü credito in Italia.
1888. Pag. 102.
"Se actualmente o papel moeda não se pode converter, abi
está a prova do facto de que a reserva metallica do terço não basta,
para estabelecer o troco dos bilhetes postos em circulação,
•16 • . A QUESTÃO FINANCEIRA

Ora, só em raríssimas e breves intercadencias se tem


logrado, neste pai/, o cambio ao par.
O sr. Amaro Cavalcanti : — E' faeto sabido. Kào
se pôde contestar.
O sr. Ruy Barbosa : — Um relance d'olhos pela his-
toria d'elle entre nós vos apontará, em poucos momentos,
essas raptdas excepções, se não vos fatigar a monotonia
d'este percurso entre ásperos e solitários algarismos.
Em 1857 a mídia annual varia de 231 a 28 ; em 1858
de 24 a 27 ; em 1859 de 23 | a 27 ; em 18(J0, de 24 ^ a
27 i ; em 1861, de 24 | a 26 | ; em 1862, de 24 } a
27| ; em 1863, de 26 | a 27 | ; em 1864, de 25 | a 27 | ;
em 1865, de 22 f a 27 ^ ; em 1866, de 22 a 26 ; em 1867,
de 19 | a 24 f ; em 1868, de 14 a 20 ; cm 1869, de 18 a
20; em 1870, de 19 | a 24 f ; cm 1871, de 21 | a 25 ^ ;
em 1872, de 24 | a 26 § ; em 1873, de 25 J a 27 ^ ; em
1874, de 27 | a 26 |.
Em 1875 (tomando a mídia quinzena!) o cambio
subiu a 27 apenas durante 6 me/es c meio.
Em 1876 manteve-se a 26 durante os dois primeiro^
me/es, fixou-se em 25 nos cinco seguintes, baixou a 24 em

"A experiência, entre nós, na Ilalia, demonstra que a relação de


1 para 3 entre reserva e circulação não constitue uma lei econômica,
observada a qual se assegure a conversibilidade.
"Essa proporção não tem nenhum fundamento seientifleo. A
sabedoria dos nossos legisladores e dos economistas officiaes é que
a arvorou primeiro em dogma de sciencia, depois em disposição do
regimen bancario.
"EUa é apenas uma regra empírica, que tem provado bem em
certas condições de Jacto, das quaes absolutamente depende o seu
bom ou máo resultado.
"E a condição, qual a exprime Palmer, era que um terço da
reserva bastaria ao Banco da Inglaterra, emquanto o cambio esti-
vesse ao par.'" Giornulc degli Economisli, julho de 1891, pag. 8-9,
O PAPEL E A BAIXA DU CAMBIO

setembro e outubro, descendo ainda a 2'-i neste ultimo


mez, e voltando a 25 nos últimos 45 dias do anuo.
Em 1877 equilibrou-se em 24 durante oito mezes e
meio, intcrcaladaniente, subindo, em julho, outubro e no-
vembro, a 25, e descendo, por três quinzenas, em abril c
maio, a 23.
Em 1878 conserva-se, de janeiro á primeira quinzena
de maio, em 24, desce logo a 23, onde fica até ao fim de
outubro, baixando então a 22, até 15 de novembro, e d'alu
em diante a 21.
Em 21 eontinúa nos dois primeiros mezes de 187í> ;
eae a 20, de março a abril ; a 19, de maio a Julho, para
oseillar entre 20 e 23, de julho a dezembro.
Em 1880 mingua de 23 a 20 nos cinco primeiros
mezes, fluetuando entre 21, 22 e 23, de meiados de maio
a fins de dezembro.
Em 1881 apenas no mez de agosto ascende a 23, eo-
tando-se, durante seis mezes, a 22, e a 21 durante cinco.
Sustenta-se a 21 em todo o anuo de 1882, exoepto na
ultima quinzena de janeiro e nos dois mezes subsequentes,
durante os quaes permaneceu em 20.
No decurso de 1883 esteve sempre em 21. Em 1884
desceu gradualmente de 21 a 19, continuando a declinar
constantemente em 1885, de 39, em janeiro, a 17, em
novembro, para subirem dezembro, a 18.
Em 1883 elevou-se de 17 a 21. Em 1887 fixou-se
na média de 22; descendo, em março e abril, a 21, e
subindo, em dezembro, a 23. ,
De janeiro a setembro de 1888 subiu de 24 a 23, ele-
vando-se, em outubro, acima de 27, taxa em que se man-
teve até abril de 1889 ; pairando, (}(• maio a junho, entre
0
(
í. c
1« ' < A QUESTÃO FINANCEIRA
ossa e a de 26, para reasoender, em julho, a 27, mantendo-se
acima desse nivel até novembro, e descendo, em dezembro,
a 25, 26/32.
Assim (como por essas médias quinzenaes e mensaes
acaba a camara de ver) de janeiro de 1876 a outubro de
1888, isto é, durante 13 annos, o cambio manteve-se
sempre abaixo de 27, attingindo essa taxa apenas passa-
geiramente em 1858, 1859, 1860, 1862,1863, 1864, 1865,
em seis mezes e meio no anno de 1875, nos últimos três
de 1888, e, em 1889, de janeiro a abril, assim como de
julho a novembro.
Tomado o período de 1875 a 1889 (15 annos), temos
o cambio abaixo de 27 durante 10 mezes, abaixo do 26
durante 10, abaixo de 25 durante 16, abaixo de 24 du-
rante 21, abaixo de 23 durante 24 mezes e meio, abaixo
de 22 durante 42 mezes, abaixo de 21 durante 9, abaixo
de 20 durante 12, abaixo de 19 durante 10, abaixo de 18
durante 3 mezes.
A conclusão destas cifras é ineluctavel. Em paizes
onde a paridade no cambio é ephemera e excepcional issima
como aqui, dar á circulação conversível a extensão tripla da
sua base é zombar da eterna credulidade do povo. (Apoia-
dos.)
Nas condições do Banco Nacional e do contracto que
o favoreceu com a promessa explicita da inconversibilidade
para os casos abrangidos na definição amplíssima de "crise
política ou financeira", o sophisma da conversão annun-
ciada é ainda mais obvio. Como, dentre todos os bancos
emissores, sõ um desfruetava os beneficies dessa promessa,
a desigualdade instituida assim em seu favor o in-
vestia na posse de um monopolio inexpugnável. E, em
)
3 '
O PAPEL E A BAIXA DO CAMBIO 19

proscnça [Link] monopolio, em presença da missão, confiada


ao estabelecimento, que o exercia, de proceder ao resgate,
com as vantagens inherentes, ])clo contracto de 2 de ou-
tubro, a essa tarefa, não havia concurrencia possivel na
emissão. Que era, pois, da liberdade bancaria, assegurada
pela lei dc 24 de novembro, pelos regulamentos de 5 de
janeiro e 6 dc julho? Desapparecera. A' sombra dos
textos, que pretendiam finnal -a, se inaugurára de facto o
monopolio tia emissão. Dest'arte a situação do nosso meio
circulante ficava entregue ao Banco Nacional, constituído,
para com elle, na posição de regulador exclusivo e sobe-
rano. (Apoiados.)
A conseqüência 6 que qualquer movimento de des-
confiança generalizada contra aquelle estabelecimento,
qualquer corrida contra elle assumiria logo as proporções
dc crise. Ora, as corridas se succederiam, e repetiriam, mal
o cambio descesse abaixo do par; porque não ha quem não
prefira ouro a papel depreciado. Uma vez dado o primeiro
impulso, a corrente seria irreprimivel, crescente, apres-
sando-se cada voz mais os portadores de notas em apro-
veitar o lastro metallico, antes de exhausto, uma vez que
esse lastro cobria apenas um terço do papel emittido. Toda
a corrida, pois, contra o Banco Nacional seria o principio
de uma crise financeira; porque, se o curso forçado não
viesse sustai-a, o resultado inevitável seria a fallencia do
estabelecimento. Toda a corrida, por conseqüência, arras-
taria, mais ou monos immediatameute, o curso forçado. E,
como as corridas haviam dc ser o resultado ordinário das
baixas do cambio,— n'um paiz onde estas são quasí pe-
rennes, claro está que não era a circulação metallica, mas
a continuidade do papel ineonversivel, o que o contracto
(
( (
20 , v , A QUESTÃO FINANCEIRA

de 2 de outubro vinha effectivamente implantar. (Apota-


dos.)
O curso forçado estava, [kus, implidto na clausula S1}
d'esse contracto. Os bilhetes do llaueo Nacional não
seriara conversíveis, senão cpiando ninguém pensasse em
convertel-os. Naesscncia, portanto, o que o contracto de 2 de
Outubro estipulou, foi simplesmente isto: dar o monopolio
da emissão ao Banco Nacional, e transformar a emissão
inconversivel do Thesouro na emissão inconversivel, muito
mais vasta, d'esso estabelecimento. ^Apoiados.)
Abi tendes como, sob as appareneias da monarehia
constitucional, se exercia rasgadamente a dictadura dos
ministros do rei. {Apoiados.)
A' primeira depressão do cambio, que não podia tardar,
se apagaria o meteoro da convertibilidade, e o curso
forçado reassumiria o seu sceptro immemorial entre nós.
Alas ninguém ignora a tendência á perpetuação, a longevi-
dade singular d'esse regimen, uma vez inaugurado, por
mais estreitos limites de tempo, que, se lhe prefixem, h'
assim que, na Inglaterra, estabelecido em 1797, por al-
gumas semanas, prorogado em seguida por um mez,
estendeu-se, por mais de duas décadas, até ao anno de 18] 9.
Entre nós, o governo deu, em 1864, curso obrigatório ás
notas do Banco do Brasil, prescrevendo-se que, dentro em
pouco, volveriam a ser reembolsáveis em ouro. Pois ainda
o não são hoje, vinte e nove aunos depois. E advirta-se
que, n'um e n'outro caso, o favor obtido resultava natu-
ralmente da situação em que os dois governos haviam eol-
loeado essas duas instituições de credito, esgotando-lhes as
reservas metallicas á força de empréstimos successivos ; o
mesmo que, de 1848 a 1850, de 1870 a 1878, succedeu

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O PAPEL E A BAIXA DO CAMBIO* *21

com o Banfo de França, qne durante a guerra prussiana,


emprestou ao governo de sen paiz a somma colossal de
1.470 milhfK-s sem juros.
Ao Banco Nacional, porém, não se pediam sacrifícios de
especie nenhuma. I'ma clausula geral do seu assento de
baptismo dotava-o com a posse virtual do curso forçado,
apenas dependente, para sua verificação, de eircuinstâncias,
que não lhe seria ditlicil ageitar. Não tendo senão qne lucrar
com as crises, condição da ineonversibilidade para as suas
notas, o Banco Nacional estava constituido, por uma especie
de investidnra privativa, em promotor natural d'essa 8
eommoçõc- no mercado financeiro. {Apoia<loa.\
O Banco Nacional não podia, portanto, sr. presi-
dente, desempenhar seriamente as íimeções de conversor do
papel moeda e fixador permanente da circulação metallica
entre nós;—já porque as condições do paiz, as suas
condições econômicas absolutamente se oppunham a essa
transformação financeira (apoiadou); cessas condições natu-
raes não se supprem mediante artificios legislativos (apoia-
ihis), nem a poder de combinações especiosas, creadas pela
administração a beneficio de interesses políticos ou elei-
toraes {apoiados); já porque esse estabelecimento não
sc constituiria em condições de idoneidade para empreza
tamanha.
As relações dVsse estabelecimento com a especulação,
de mais a mais, eram congênitas. As acções do Banco Na-
cional, ao constituir-se, foram distribuídas comoagiode
4õ$000 cada uma, agi o preparado, não a beneficio do esta-
belecimento, mas como gratificação aos incorporadores.
O sr. Quintino Booayijva :—TVessc eseandalo não
sc falia. (Apoiados.)
A QUESTÃO FINANCEIRA

O sr. Rüy Barbosa : — De semelhante íaoto, cuja


moralidade não qualificarei, não havia então exemplo entr-
nós.
Claro está, pois, que cada possuidor de um (Pessei
títulos era irresistivelmente attrahido pam o jogo pelo inter-
esse de resarcir a importância d'essa differença, em qn*
era prejudicado ; aspiração de cujo bom êxito ninguém du-
vidava, ante a perspectiva dos lucros promettidos a essr
instituição de credito pela posição excepcional, que lhe
asseguravam as liberal idades do governo para com ella.
Os accionistas do Banco Nacional compunham, pois, nina
freguezia innuineravel para a agiotagem e um exercito de
intransigentes contra qualquer futura tentativa financeira
queattentasse contra a situação artificial, cm que elles natr-
ralmente firmavam a esperança da compensação ambicic—
nada. A derrama, que se fez d'essas acções, foi o lençol de
petroleo, em que mais tarde se ateiou e propagou a confla--
gração contra os decretos do 17 de janeiro.
O sr. Quintino Bocaycva e outros:—Apoiado,
O sr. Ruy Barbosa;—Assim, o jogo...
O sr. Ramiro Barcei.IíOB :—Porque o permittiu a
governo provisorio dictatorial ?
O sr. Ruy Barbosa:—Julga v. ex. que no arbítrio
das dictaduraí ha meios, para exterminar o jogo? E'julgar
que as dictadurus possuam o talisman de transformar a
natureza humana, e reformar os hábitos moraes dos povos.
Contra esse vicio os governos não podem actuar senão por
medidas raoderadoras ; e essas, empregou-as, na medida do
possível, o Governo Provisorio. {Apoiados.) Haja vista
decreto de 13 de outubro...
Peço ao nobre senador pelo Rio Grande do Sul nu
t o

O PAPEL E A BAIXA DO CAMBIO» • 23

l>c'riiiittíi seguir o fio da minha demonstração, (jue, para


ser util, carece de não ser interrompida.
O [Link] miro Baroeelos:—Desculpe [Link]. Não tenho
u intenção de interrompei-o.
O hr. Ruy Barbosa:—A jogatina, estabelecida pelos
bancos auxiliadores da lavoura, tocou ao auge, sob a fasci-
nação exercida pelos títulos do Banco Nacional. A tavo-
lagcm de bolsa chegou então a competir, na phrase do
Jornal do ('minicrcio, "com o exemplo dos tempos triste-
mente íhmosos de Law." 1

1 "Não ha quem ignore o descommunal desenvolvimento, que


tiveram os transacçôes tia Bolsa no trimestre de agosto a outubro.
Títulos houve, que. sem fundamento ou explicação plausível, subi-
ram 30 0/o em um dia, e 150 % em um mez. A cada passo se annun-
riavam fortunas feitas em poucas semanas, ás vezes em poucos dias.
Pessoas, que jamais se tinham envolvido na compra e venda de
títulos, apressaram-se em apurar suas economias, para aproveitar
a occatião, cedendo ao contagioso enthusiasmo, despertado pelos
contos fantásticos que á surdina se propalavam na rua da Alfân-
dega.
"Que factores concorreram, para manter este enthusiasmo em
escala progressiva durante Ires mezesi1
"0 primeiro foi sem duvida a resolução, que tomou o gabinete
7 de junho, de conceder importantes auxílios pecuniários á lavoura
do paiz por intermédio dos bancos. Não vencendo juro as sommas,
que o Estado emprestava a estes por longo prazo, e pagando os mu-
tuários a taxa de 6 7o interesse pelos empréstimos agrícolas,
claro é que as instituições de credito gozavam de um capital gra-
tuito, que muito augmenlaria os lucros a dividir pelos accionistas.
Naturalmente os títulos dos estabelecimentos assim favorecidos
passaram a ser mais procurados, e cotados com maior agio. A pro-
i ura e o agio desses títulos bem depressa traçaram o plano a seguir,
e que foi largamente executado. O raciocínio era simples e logico : a
verba dos auxílios ofliciaes á lavoura estando ainda longe de esgo-
tar-se. convinha fundar novos bancos, que obteriam do governo os
mesmos favores já concedidos a alguns dos existentes, e cujas acções
seriam evidentemente subscríptas sem demora, pela certeza, que
tinham os subscriptores, de que cilas seriam dentro em poucos dias
procuradas com prêmio. Escusado nos parece lembrar que o capital,
com que se fundavam esses bancos, era sempre avultado, afunde
que fosse lambera avultadaa quota de auxílios concedida pelo go-
verno.

#
V ° -
(
< (
24' ' A QUESTÃO FINANCEIRA

A febre cias especulações de bolsa não naseeu, por-


tanto, das finanças republicanas. Era enfermidade preexis-
tente, que, durante as ultimas semanas da mona reina, se
exacerbara até ãs proporções de delírio agudo. Não será,
pois, estranha a impavidez, com que os representantes
dessas tradições, os que nellas se opulentaram, apedrejam
aetualmente os governos republicanos como autores da
propagação desse mal? Têm os progenitores do Banco
Nacional o direito de responsabilizar-nos pelo desenvol-
vimento da infecção, que elles mesmos, a beneficio dos
seus interesses, inoculararn nos costumes da praça ? (Apoia-
dos.) Para fallar como Catão, não haverá nada mais do
(pie disfarçar-se, a proposito, nos hábitos da austeridade c
do desinteresse ?

"O segundo faclor foi a execução <la lei concernente á plurali-


dade dos bancos de emissão. Acreditando que o serviço da emis-
são bancaria, sob a base de— um de reserva melalliea para Ires de
bilhetes—é sempre lucrativo: esquecendo que o caracteristico da
nota de banco, de ser pagavel em ouro á vista e ao portador, tormi-
a um instrumento de trocas extremamente delicado e perigoso, so-
bretudo para os pequenos bancos; ignorando, emfim, ou parecendo
ignorar, que a manutenção do cambio ao par durante dous a Ires
[Link] não é signal infallivel da existeccia abundante e estável de
ouro uo mercado, diversos bancos do Rio de Janeiro e de outras
localidades requereram a faculdade de emissão e prepararam-se
para exercel-a, elevando ao triplo, ou mais, o seu primitivo capital.
"O que se passou sob o impulso destes elementos promotores
«Io jogo, está na mente de todos. As subscripçfies fechavam-se em
dous dias, em um dia, em duas horas, annunciando-se que ellas
haviam excedido tantas e tantas vezes as quantias desejadas. A to-
mada de acçfie.s fazia-se, não só com animação, mas com loucura,
com delírio, com syncopes e pugilatos, como não havia exemplo
desde os tempos tristemente famosos de Law. No dia seguinte as
cotações da bolsa0 affirmavam que esses títulos tinham procura com
20, 50 e até 100 /j de prêmio !
"A febre do jogo propagou-se por todas as classes da popula-
ção, creando esperanças insensatas, e estendeu-se das acções de
bancos aos títulos de companhias de toda a especie." Jornal do
Cummercio, pa secção Questões Econômicas, em 18 de Dezembro
de 1889.
í

O PAPEL E A BAIXA DO CAMBlrt 25


Quid, si quis vullu ton-o feras et pede nudo,
Exiguceque toga; siuuilans loxlore Catonem,
Virtutemque representei, moresque Calouis ?

Não fomos n<'»s os semeadores do jogo, como não fomos


os creadores da crise, a que tivemos de acudir nos primeiros
me/cs da revolução. A crise monetária, em que dosapparc-
ceram os bancos mctallicos, apenas esboçados, estava
annunciada pela imprensa desde muito antes. A Nação,
orgão do partido conservador, vaticinãra-a solèmnementc
em outubro, responsabilizando por cila as medidas finan-
ceiras do gabinete 7 de junho. 1

1 "O ultimo empréstimo contrahido em Londres, em ma-


xima parte disponível até a organisaçfto do actual gabinete, e outras
transaçties ajustadas e realizadas com valores do paiz, elevaram,
sem duvida, o nosso credito sobre o nosso debito ; do que resultou
um saldo realizável cm moeda metallica—única acceita nas liqui-
dações interuaeionaes
"Estes eapilaes privados do eoslnmeiro e IVnctifero emprego,
naluraliiieiite demandavam colloeução nas industrias e no com-
mercio.
"Eis a razão da abundancia de eapilaes disponíveis, sem cri-
tério, éxaggerados pela avidez da agiotagem, determinando a inva-
são da febre no mercado ilas novas e arrojadas emprezas com fundo
social muito e muito superior ao realizável.
"Desta desproporção provirão inevitáveis prejuizos e lastimá-
veis minas. A' improvisada riqueza dos especuladores pobres cor-
responderá a repentina pobreza dos ricos especulados.
"O ministério da fazenda,ao passo que soltava o credito de todo
o correctno. pelo regulamento de 6 de julho, lançava nos mercados
mais consideráveis do Império o enorme empréstimo de
inO.O(lO:UUO$unn effeciivos (decreto do 27 de agosto), isto é, des-
apropriava das industrias e do commercio os capitães disponíveis. (•
que não eolligiu o tbesonro, como era de costume, por anticipaçâo
de receita, absorveu de um só trago, tornando mais difficil. senão
afOictiva, a situação ereada sob a esperança de haver renunciado do
commercio dos capitães fluetuantes e cedido virtualmente aos
bancos a sua clientela.
"Era constante e invariável o processo do thesouro; ao prin-
cipio arrecadava os eapilaes fluetuantes por empréstimo a juros e
4
I

-26 < A OUESTÂÜ financeira

Se a utopia tia circulação metallica, nrchitectada eoim


medida de grande enscenação nos dois últimos mezes dt
monarehia, desabou logo após os acontecimentos de novem-
bro, não foi por effeito destes. {Apoiados.) A crise estavs
prevista pelos mais competentes. Os seus pródromos eram
palpáveis. Ella teria estalado sob a monarehia, se a Repu-
blica não se apressasse. A baixa do cambio havia forço-
samente de dar-se, apenas cessassem os effeitos dos emprés-
timos contrahidos no exterior. E o Banco Nacional, em
presença da crise declarada, ou teria do receber do governo,
em nome do seu contracto, o curso forçado, ou de recolher
atropelladamente a sua emissão, como pouco depois veiu íl
fazer.
O edifício levantado na vespera jkíIo meu antecessor
cabia, pois, de si mesmo em minas, pela inconsistência dos
seus alicerces. A revolução, por este lado, foi uma cir-
cunstancia providencial para os autores da grande phantas-
magoria, que, graças a esse faeto, puderam ver rebentar em
mãos alheias a explosão preparada pelos seus erros. 1
{A poiados.)

prazo curto, depois consolidava a divida por títulos de renda.


Agora, supprime a primeira fôrma, e vai direito ao fim !
"Desviados os capitães disponíveis por esta funesta e irresia-
livel concurrencia, se ella não é causa principal da crise imminente,
não pôde escapar da responsabilidade de a apressar, e tonml—a
muito mais cruel. „ A Mição, 17 de outubro de 1889.
1
Não pôde ser suspeita de parcialidade a meu favor a Ga-
zeta da Tarde, que, em editorial de 22 de janeiro de 1890, dizia:
"A primeira idéa dos bancos de emissão que surgiu nestes ulti-
mos annos no nosso parlamento, era fundar laes eslabelecimenlos
era base de fundos públicos ; e nesse sentido um ex-ministro da fa-
zendo pronunciou notável discurso no senado, que causou verda-
deira sensação.
No interstício que mediou entre a segunda e terceira discussão
de tal assumpto, naquella casa do parlamento, o mesmo senador
deixou-se offuscar pela promessa de introduzir grandes capitães
3

O PAPEL E A BAIXA DO CAMBIO 27

O Governo Provisorio estava, pois, i ncon tostavel-


tnente entre estas duas alternativas : dar ao Banco Nacio-
nal o curso forçado, submettendo-se á elaustda S"- do
eontracto de 2 do outubro, ou reformar e alargar sobre
novas bases o meio circulante. (Apoiiidos.)
O curso forçado? Mas o proprio Banco Nacional rc-
piidiára o eontracto, fjue o autorizava, solicitando ao go-
verno cniprestimos dc papcl-inocda, mediante o uso do
direito de emissão, <pic atc/í importância dc 25.000 contos
facultava ao Tbcsouro a lei dc 18 de julho dc 1885.
Ilepois, css(! estabelecimento, com um encaixe dc 27.000
contos e uma emissão apenas dc 17, não apresentava as

estrangeiros no Brasil, já porque na Europa abundava capital sem


emprego, já porque o nosso governo, desafogado por algum tempo
de comprar cambiaes, não concorreria ao mercado para compra des-
tas. já ponjue estava encaminhada numerosa corrente de immi-
graçâo para o Brasil.
"Então surgiu a tal emenda, determinando que a base dos ban-
cos de emi-são fosse metal; e nesse sentido votou-se a lei, que
tratou-se dc pôr em execução.
"Mas, pouco [Link] que inten-ompeu-se conipletamente a
t dri ente de im migração : o governo, a pretexto de auxiliar os lavra-
dores. cufroii na via do esbanjamento, a nossa producçâo diminuiu,
o trabalho agrícola revolucionou-se completamente, o equilíbrio,
como é artificial, desfez-se, e a primeira praçacoramercial da Ame-
rica iio Sul chegou a estar sob o estado de pressão, que todos pre-
senciaram.
"O cambio estremeceu logo, e começou a baixar, o ouro a
subir, e os próprios bancos que tiveram o direito de emissão, fize-
ram sentir que desistiriam desse favor.
"A lavoura, verdadeiramente, não tirou nem um proveito real
dessa organisação bancaria, e o ultimo ministro da fazenda do im-
pério deixou entrever mais de uma vez que não estava satisfeito
com a sua obra.
"Coube ao honrado sr. Ruy Barbosa aparar a bomba, que es-
lava a explodir: e tratou de remediar os males, que encontrou, e
ameaçavam augmeutar, dotando o paiz de outra organisação ban-
caria. respeitando o que achou feito, mas procurando principal-
mente desafogar o Estado de seus compromissos, auxiliando effi-
cazmenle a nossa agonisanle lavoura. „
(

,28 , A QUESTÃO FINANCEIRA

condições de solidez e a extensão de base necessárias para.


aspirar a essa situação. Se ao menos elle elevasse o seu
deposito metalllco de 30 a 50 ou 60 % do seu capital,
isto 6, de 27 a 45 ou 50.000 coutos... Mas, em summa, o
facto é que o proprio Banco Nacional não se reconhecia
habilitado para taes fhncções: aliás não deixaria de re-
clamar pela faculdade, que lhe assegurava o seu contractu
com o Thesouro. {Apoiados.)
Esgotei, pois, os recursos, que me proporcionava a lei
de 18 de julho, transpuz mesmo o limite legal, depois de
conceder aos bancos, que m'o requererarn, a emissão no
triplo sobre ouro nos termos do regulamento de 6 dejulho
de 1889, e ver, não só que nenhum delles se utilizava desse
direito, como que o Banco Nacional recolhia precipitada-
mente a sua emissão, reduzida de 17.410:2008000, em 30 de
novembro, a 11.055:054^660 em 31 de dezembro. A con-
versibilidade, ensaiada na véspera, com as pompas «lo
triumpho, pelo ministério 7 de junho, abortava estrondo-
samente aos primeiros passos, renegada pela própria insti-
tuição, era cuja fachada a monarchia inscrevera o distico
dos pagamentos em ouro. (Apoiados.)
Com a baixa do cambio a circulação metallica des-
fez-se como bolha de sabão. Teria tido, para a alta do
cambio antes da revolução, alguma influencia a espectativa
da regeneração do meio circulante por obra do Banco Na-
cional? Teria tido, para a sua baixa, alguma influencia a
quéda da monarchia ? Nem uma nem outra hypothese se
podem sustentar. (Apoiados.)
Esperar a regeneração do meio circulante pela circu-
lação metallica, n'uin paiz de cambio mudavel como o
tempo nos climas tropicaes, é cahir n'um circulo ocioso.
)

O PAPEL E A BAIXA DO CAMBIO 29*

Kssa nuifabilitladc do cambio, essa sua de])ressão habitual


denunciam a insufficiencia dos recursos ordinários do paix
na liquidação de suas contas com os mercados do exterior.
Não é, portanto, a circulação metallica que nos ha de
firmar o cambio alto ; é, pelo contrario, a estabilidade do
cambio ao par, efteito da prosperidade econômica da nação,
que nos lia de permittir a circulação convcrsivel. {Apoia-
(lo8.) < )s metal listas invertem os termos do problema, c
por isso as suas creações não passam de castcllos de cartas.
Os saldos a favor do pai/,, nas liquidações internacionaes,
rci-eram
1 o cambio favorável; o cambio duradouramente ta-
voravel determina a circulação metallica. Nós, ao revés,
queremos pela circulação metallica, artificialmente prepa-
rada, fazer o cambio, apoiando-a em saldos transitórios,
promovidos por empréstimos externos. E' uma pretensão
puerilissima. (/Ijtoiadox.)
Acima do par esteve o cambio em 1862, em 1863, em
J 864, em 1860; acima do par, em 1873 e 1875. E não
havia Banco Nacional, nem se cogitava no resgate do
|Uipcl-moeda. Por outro lado, em 1868 desceu o cambio a
]4 ; em 1869 a 1870, a 19 e 18; cm 1886 e 1887, a
17 7/8 e 17 13 16 ; e, entretanto, não estávamos então sob
governos republicanos.
Sc nos fins do segundo reinado o estado do Thesouro
não se achava nas condições "miseráveis", de que se quei-
xava Pedro 1 no discurso da corôa em 1820 ; se a monar-
[Link] não nos deixou um cambio "a par da nullidade",
qual o de que o ministro da fazenda se lamentava ás câ-
maras, no seu relatório, em 1832, é que, a poder de di-
vidas sobre dividas, o Brasil illudia os drficifx orçamentá-
rios e os déficit* do balanço commercial. {Apoiados.)
'30 'A QUESTÃO FINANCIEI R A

Para nos convencermos de qne a descensão do cambio


não resulta^ como querem os meus antagonistas, do systeina
de emissão creado j)elo decreto de 17 de janeiro, bastará
considerarmos o quadro das taxas cambiacs desde novem-
bro de 18HÍ) até essa data. Em novembro d'aqnelle anno <»
cambio abriu a 27 i. Xo dia 20 estava a 27 Em fins
d'esse raez fechou a 27 jj. Aos 9 de dezembro se taxava em
27 No dia 14, a 27. TSo dia 16, a 26 $. No dia 23, a
26. No dia 24, a 2õ f. Em 21 de dezembro se cotava a 2õ.
Em vinte e um dias, pois, os primeiros vinte e um dias de
dezembro, o cambio descera mais de 2 J, pro|)oreão formi-
dável, que, a continuar depois do decreto de 17 de janeiro,
nos teria reduzido o cambio, no 6m de abril, a 13 L En-
tretanto, ainda em novembro de 1890 tínhamos cambio a
24 |,e ainda em dezembro a 22 d. O movimento de baixa
foi, pois, incomparavelmente menor após os decretos de 27
de janeiro do que nos dois mezes de republica anteriores
a elle.
E aqui, senhores, se me depara oocasião de oppor
defeza cabal a uma censura articulada contra mim, nesta
casa, durante a doença que me afastou dos seus trabalhos.
Attribuiuo honrado senador pelo Piauhy o bom cambio dos
tempos da minha administração ao uso de meios artifi-
eiaes, isto é, ã intervenção de sacrifícios do Thesouro. E i>
nobre senador pelo Rio Grande do Norte 1 mostrou-se
tomado de espanto, como em presença de facto mys—
terioso e ignorado.
0 sh. [Link] Mabtiks : —(inem foi o senador pelo
Piauhy ?

1
O sr. Amaro Cavalcanti,
O PAPEL E A HAÍXA DO CÃMBIQ 31

O hr. Ruy Barbosa :— Parece-me que v. ex.


(J su. Elyseu Martins ;— Eu não disse isso. Disse
que a alta do cambio, no ultimo ministério da monarchia,
era devida a medidas artilieiacs.
(1 sr. Amaro Cavalcanti k Eliseu Martins
trocara apartes.
O sr. Ruy Barbosa :—O honrado senador pelo
Rio Grande do Norte não se enunciaria como se enunciou,
se houvesse lido o meu relatório, isto 6, se não se propu-
zesse a condemnar-me antes de conhecer, porque assim
digamos, os autos da questão. Naquelle documento official
encontrará s. ex. a confissão franquissima do arbítrio, que
pratiquei, e a sua justificação irrecusável.
Se,-em tempos ordinários, não se deve admittir alte-
ração nos phenomenos naturaes do cambio pela interfe-
rência do Thesouro, outro tanto não se poderia dizer em
absoluto a respeito de épocas anormaes, como as de revo-
lução e mudança na forma de governo. No dia immediato
a uma commoção como essa, em face da revolução, em
presença do desconhecido, a temperatura natural do cambio
é naturalmente de zero. O governo seria imbecil, se não
prevenisse esse resfriamento, se não oppuzessc a essa algidez
imminentc os recursos mais heróicos. {Apoiados.)
Imaginai que elementos de exploração não offereee-
riamos á propaganda anti-republicana no estrangeiro eás
apprehcnsõcs dos ânimos inquietos no interior, se o cambio,
precipitando-se por um doelive a pique, substituísse ins-
tantaneamente, no mercado, a febre da véspera pelo desa-
lento e pelo terror. Podeis comparar os damnos de ordem
social, de ordem política, de ordem financeira, resultantes
d'ahi, com os saerificiospecuniários reclamados para evitar
(
i r
'32 'A QUESTÃO FINANCEIRA

esse desastre ? Não seria elle, para a revolução nos seus


primeiros dias, golpe destruidor? (Apoiados.) Eu croio}
senhores, que sim ; e, por isso, longe de arrepender-me,
vejo no meu procedimento a satisfação de um dever impe-
rioso. (Apoiados.) Pratiquei simplesmente um acto de senso
commum, que, em eireumstaneias analogas, não hesitaria
nunca em tornar a praticar. O que era, sob a monarchia,
estratagema ordinário da vaidade dos ministros, foi, soh a
minha administração, necessidade ineluctavel da conser-
vação republicana. O sacrifício aliás não se prolongou
além das primeiras semanas da dictadurâ.
Não foi, portanto, o governo republicano que matou u
circulação metallica. Ella era apenas um embryão incapaz
de vida, e morreu pela impossibilidade orgânica de viver.
Apenas o saldo transitório das nossas tnmsacçõcs com o
estrangeiro, desapparecendo, inclinou o cambio contra nós,
os bancos emissores reconheceram a sua impotência, o
renunciaram á emissão. A tentativa de 1M8!), mallogl ando-
sc ao nascedouro, como as de 18.'13 c I8õd, veiu simples-
mentc-sobrepôr novo argumento, ainda mais decisivo, aos
dois anteriores contra a exequibilidade dessa aspiração,
emquanto as nossas condições econômicas não forem outras.
(Apoiados.)
Ouço argumentar pela possibilidade dos pagamentos
em ouro com o exemplo da Italia. Mas, senhores, a lição
da Italia é contraproducente. Ella nos mostra que não
basta proclamar a conversão do papel-moeda, nem mesmo
consagrar a esse desiderntum sacrifícios eolossaes, para
realmente obtel-a, ou, em todo o caso, para firmal-a.
"Operação complexa, delicada, controversa, pendente de
um fio," a conversão, naquelle paiz, não se fez, senão
O PAPEL E A BAIXA DO CAMBIO 88.

graças ao auxilio dos banqueiros francezcs; e esse fio,


ligado íis sympathias políticas de uma nação estrangeira,
cortou-se com a simples adhesão da Italia á tríplice
alliança. 1 Sob a acçâo erosiva das circumstaucias
econômicas do paiz a basé inctallica da cinadação se corroeu
rapidamente, e a inconversibilidade restabeleceu-se pela
força inooutrastavcl dos factos, com a qual não podem
theorias, nem prescripçijes legislativas. {Apoiados.)
Eu junto, senhores, íi asserção a prova, lendo-vos as
palavras de lioccardo 2, n'um [Link] publicado em
1888.
" A circulação metallica," diz ellc, "«6 existe entre
ufa nominal mente •, e, j)or j»onco que se realizasse no serio
a troca dos billu'tcs,m-t««ios os lastros metallicoa dos baneos
e do Tbesonro dissolvcrem-se rapidamente, sendo um e
outros obrigados a recorrer ao estrangeiro, para se reabas-
tecerem, sujeitando-se a sacritíeiosgravíssimos."
No (iiornali degli Economisti, em um artigo de julho
deste anuo, encontro o mesmo depoimento : {Lf)

"Os Uiacos thn Jeito depender dn liquidarão de mar earteira» a


obrigação de reembolsar os j/ortadores de notas... 0 bilhete de banco,
rntre nós. não ê conversível de Jacto... Os bancos são impotentes jntra a
troco dos seus bilhetes ; o governo, impotente para coagir os bancos.
0 estado de facto perdurará, pois, coin uma aggravante ; n saber :
que o governo, lendo preferido legalizar o excesso da circulação,
em vez de reservur-sc, ou então de proporcionar modo e prazo para
a sua reducção gradativa, sanccionou implicitamente o principio da
inconversibilidade." *

] Fournieh dk Flajx : Le progrls du papier-monnaie. Journal


des Éoonomistis.
2
Sépl. 1891, p ig. 370.
3
L'economia nazionale e te banche, pag. 00.
Proroi/a o eorfo forzoso f Pags. 4, 7 e 15,
5
(

-34 . A QUESTÃO FINANCEIRA

Ambos esses testemunhos são da própria Italia. Eu


poderia trazer-vos outros, não menos positivos, sobre o
estado actual da circulação fiduciaria naquclle pai/,. Tenho
aqui uma correspondência do Times, em agosto do anno
corrente, onde se diz: "Continuamos a estar sob o curso
forçado, o regimen do papel com circulação irrecusável em
todas as transacções celebradas no interior do paiz." J
Poderia ler-vos ainda outros documentos, de origem fran-
ceza ^ confirmando, ainda não ha dois mezes, a attes-
tação dos cpie acabais de ouvir. Bem pouco valeu, pois, ã
Italia a conquista laboriosa de Magliani, baldada, pouco
após o seu triumpho, pela resistência das condições
naturaes, em um paiz onde o balanço das transacções com
o estrangeiro é ordinariamente favorável a este.
Pela força das mesmas influencias orgânicas era
inevitável (pie entre nós suecedesse e continue a suceeder
o mesmo. (Apoiados.) Por mais metallista (pie fosse o
primeiro ministro posto pela revolução á testa da fazenda,
— podia continuar a confiar na conversibilidade, quando

1
" We are still under the corzo forzoso, lhe rhjime of lepal
tender of paper money in discharge of ali internai obligations."
(íímes, weekly edit., 18 ag. 1891, pag. 16.)
2
[Link]íI) ; Déftrteialwn des richesse*. 188!), pag. 275. Ahi se
diz; "Na Italia Já não circula o ouro. e já se falia em restabelecer o
curso forçado."
Outra autoridade :
"A Italia vio-se constrangida a conservar quasi intacto, se nfto
a legislação, ao menos o mecanismo do papel moeda. Ella possue,
ao mesmo tempo, uma circulação fiduciaria de banco, na impor-
tância de 1.150 milhões e uma circulação fiduciaria do Estado no
valor de 343 milhões; ao lodo : 1.498 milhões. Esse total não seria
demasiado, considerando-se a população da Italia, se o troco dos
bilhetes se effectuasse em plena liberdade no paiz todo. Mas longe
disso, rodeiam o troco das maiores difticuldades. que o tornam qüasi
illmnrio. Assim na circulação ordinária da Italia não te et. «enão
papel.'''' De Fi-auí : loc. cil., pag. 371.

r
O PAPEL E A BAIXA DO CAMBIO 35*

ollí» espontaneamente se retrahira, e desapparecera, antes


que a administração republicana cogitasse na mínima alte-
ração do regimen deixado pela monarehia ? Por mais que
pjigc ministro estivesse deliberado a manter o gtniu quo
injperial em matéria de emissão, — podia continuar a
çgjjerar no contracto de 2 de outubro, quando o proprio
Banco Nacional convidara o governo a dilaceral-o pela
cláusula õa, unia das suas cláusulas vitaes, pedindo ao
Jljcsouro, antes do decreto de 17 de janeiro, novas emis-
de papel inconversivel ? {Apoiados.)
Kis porque o preceito da conversibilidade desappa-
reccii naturalmente do regimen creado por nós em substi-
tuição da chi mera legada á Republica pela monarehia.
O troco em ouro era uma impostura consagrada nos
textos, mas contrariada pela realidade. {Apoiados.) Uma
reforma honesta não podia prolongar esse engodo, cuja
fallaeia todos os bancos de emissão acabavam de confessar.
O sr. Amaro Cavalcanti : — Não tem ouro quem
quef, mus quem pôde tel-o.
O sr. Rt y Barbosa : — Entretanto, se o systema
do circulação regulado pelos decretos de 5 de janeiro e 6
de julho de 1889 cahia, minado pela sua base—a conver-
sibilidade—, força era provera substituiçãod'esse regimen,
dar ao paiz o meio circulante, de que elle carecia, e que
a lei de 24 de novembro de 1888 avaliara em 600.000
contos.
A circulação inconversivel era fatal. Mas ella podia
assentar a sua garantia em especies metallicas, ou em
titulos do Estudo, e podia concentrar-se em um só estabe-
lecimento, ou dividir-se por muitos.
Na escolha entre a pluralidade e a unidade bancaria.
I

c
A QUESTÃO ELVANGEllU

as tradições da derradeira phase do império nos offereeiam


indHferentemontc apoio a qualrpicr das duas soluções;
porque, ao passo que a lei do 1888 e os dois regulamentos
de 1889 se pronunciavam pela liberdade, sob um regi meu
analogo ao dos Estados-Unidos, o contracto de 2 de outu-
bro gizava o monopolio, personificado no Banco Nacional.
Decidimo-nos pela pluralidade, porque não tinhamos o
arbítrio da selecção. A torrente dos sentimentos federa-
listas impnnba-nos a necessidade de transigir com as exi-
gências dos Estados. A inouoemissão bancaria, ao ama-
nhecer da revolução federativa, seria uma provocação a
forças, contra as quaes não havia poder, que lutasse.
{Apoiados.)
Quanto ao lastro das emissões—ouro, ou apólices—
as tradições nacionaes eram, incontostavelmente, pelo
ultimo, de preferencia ao primeiro alvitre. Ainda no de-
bate sobre a lei dos bancos emissores em 1888, essa fira a
opinião predominante no senado imperial. Os bancos de
emissão, creados, em 1857, no Brasil, em numero de cinco
ou seis, tinham cm títulos da divida publica metade do seu
lastro.1 Emlim, as maiores autoridades financeiras, neste

1
"De facto ; é preciso relembrar : bancos de emissão, funda-
dos sobre a garantia de apólices da divida publica e, mesmo, de ou-
tros títulos de credito, menos valiosos, já tivemos no paiz, e
manda a verdade accrescentar, sem nenhum desastre verificado.
"Todos se lembrarão, sem duvida, da creação de seis bancos
d'essa especie, autorizados pelo então ministro da fazenda, Souza
Franco, no anno de 1858.
"Estes bancos começaram a operar debaixo do maior favor e
confiança, e não pouco lhes deveram o comiaercio e as industrias
nacionaes n'aquella época ;—esta é a verdade.
Quanto ás razões, que teve depois o governo, para coarctal-os
em sua acção, ou mesmo para supprimil-os,—nenhuma se encontra
séria e ponderosa ; nos documentos relativos, sómenle dous são os
motivos apontados,—o receio das extravagâncias do credito e as

c
O PAPEL E A BAIXA DO CAMBIO 37
paiz, comprehenderam sempre a superioridade da apólice
oni o, dadas as nossas condições econômicas, para esse
effeito especial.
lalera o parecer do barão de Maná, unidos espi-
"tos de mais alto tino e talvez o de mais profunda aptidão
pcuiea nestes assumptos, que este pai/ já possuiu :

a moeda e os hillietes de banco converliveis á vontade


^os poiladores , dizia ellc "constituem o maior por excellencia
uuisacções monetárias de qualquer paiz, porquanto esse typo
^ ativo do valor não çonstitue unicamente ordens á vista
i], !!t! 1 0 c'aPBal do paiz que lhe dá circulação, mas tem a vantajíem
' ■"'•'''ilo pnra o mesmo fim pelo valor convencional que seu
110
'l1*5 empresta, em Ioda a parte, aonde o coiumercio tem
ndido sna acção civilizadora. o que. na verdade, nada deixa a

'ie nunaij 'p ^'''I"co Bratü, que se julgava ferido no seu direi'o
Pnblicaò-'' ClUe '0r;lm"s na etpeeie. convém ainda accrescentar: de
Pos'M( 'iores.
Üaàené ln SSOreS concernentes ao fado da suppressão dos
"e' ' nai: : 'e extrahimos o seguinte :
levados' 0' c on' lron
onúttir,
0 sobre este ponto, a convicção a que fomos
stauji.j 'i . l ' dos documentos com as próprias circum-
estenelr/ "Pi-*15, n"estes, vamos dizer francamente í N'este paiz,
do w • )Vei<#cM, tudo gyra, move-se. quieta-se, vive, ou morre,
sido
ni
ç' 1 08 'nanieutnl...
e 0 sr
Os nossos bancos de emissão haviam
aio ' d "i ò? '"' ,P ' - Souza Franco, ministro da fazenda, de
Silva Pb.' dezembro de 1858, e os srs. Torres Homem e
mesmo61 laZ' ^ue "le superam, professavam idêas oppostas ao
interngqp10^'^ 11 0
'' .' P0's> do desejo, o Banco do Brasil, cobrindo os
iiut . í8 neeionistas com o pretexto de satisfazer aos fins da
tt 0 cm
obter o '!''.
1
u'- rnen 0 Pcr0 ^ dos interesses geraes do Estado, procurou
pretencr0 '0 novo
u 1a^ riece s 8v,vpl'no. o qual, transformando a sua
nos oulr S Ja " ® 'dade publica, não podia deixar de ver,
gota ' ncos emissores coneurrentes, uma anormalidade pcri-
era ur
'"F 'n C U . a pente fazer cessar.
(im econ 11 ^ ' ce^e'n'e lei de 22 de agosto de 1860, qualificada por
foi ter r, c" ?00 Lancez la loi dcs entra ves. e cujo único resultado
Pres^i™ e .... Cruzeiro, Pa'z 'le 26 instituições
de janeiro debancarias
1880. de emissão até ao
Em 1879, no Jornal do Commeroio.
íiS A QUESTÃO FINANCEIRA
desejar,— não se se^ue que essas condições superlativas de um
optinio meio circulante, dos paizes que possuem amplo* recw-go*
para mantel-as, não pn**ani »fr ivbHituiila» rom vantagem, rpoi
grande vantagem. me»mo, pelo papel não converti rei, de banco» d,,
inteiro credito, de grande capital, que. forçados pelas circumstan»
cias especiaes de qualquer paiz, se vejam compellidos a conservar
em una carteira, em vez de ouro. titulo» do fátado. representandii
suas notas em circulação.
•' Os melaes preciosos, escolhidos de preferencia para servirem
de motor ás transacções, são apenas mercadoria, sobre a qual,
devido a essa applicação especial, a lei econômica da offerla e dq
procura actúa com maior intensidade, em circumstancias dadas.
Produz-se então procura excepcional, que determina violento abalo
nas transacções, depreciação geral de todos os valores, e, conse.
guintemente, perdas enormes.
" Quem ha abi, tão pouco lido na historia financeira do mundo,
que não aponte com o dedo até as datas, em que os terríveis effeitog
d'essas crises se fizeram sentir no mundo cominercial ?

■' Admiltindo (pie um regimen de circulação metallica responda


melhor ás exigências do commercio internacional, facilitando,
como facilita, o pagamento, sem grande difterença, dos saldos, qne
a permuta de valores determina entre paizes diversos, pergunta-
remos aos que nos querem felicitar com essa vantagem se não se
pôde comprar ouro demasiado caro?
" Dois são os caminhos, qic> a razão e a consciência indicaiu,
para alcançar semelhante fim (acquisição de ouro): augmenlo de
producção, em escala bastante grande para assegurar o ingresso de
metaes em representação dos saldos a favor do paiz durante a plo-
Ihora produetiva ; ou fazer uso do credito no exterior, para conse-
guir uma grande importação de metaes.
" A primeira hypothese luta com difficuldades invencíveis.
" O trabalho,que cria a riqueza, escassêa, em vez de augmenlar.
" Se a primeira hypothese é por eniquanlo impossível, a se-
gunda nem é discutível; importar metaes, para vel-os seguir de
lorna-viagem, talvez pelos mesmos vapores por que foram impor-

(
O PAPEL E A BAIXA DO CAMBIO 39
lados, seria o cumulo dos disparates : o absurdo não se discute,
rejeita-se. "

O sr. AfTonso Celso advogava longamente, no debate


jiarlamentar de 1888, as mesmas idfas. Em um discurso
onde s. ex. demonstrou tjue, nos dois continentes, a
base das emissões consistia em duas partes de papel para
uma de ouro, e que este não representava garantia superior
á daquella, exprimia-se s. ex. assim :

" Sincera e francamente, os autores do projecto estão conven-


cidos dc que, nas condiçOes de nosso paiz, com uma circularão ti-
duciaria inconversivel, sob o regimen do déficit permanente, sem
exportação que chegue pura pagar o que imporia e os compro-
missos que tem no estrangeiro, abalado ainda pela grande crise por
que passou, nestas condições, os autores do projecto entendem
que contar com bancot de fundo metadico ít ter por demais optimitta,
i' uma verdadeira utopia.

" A garantia dos títulos de divida do Estado é precaria, disse o


nobre senador: seguramente, é precaria ; mus eu observo a s. ex.
— J" não é mais precaria, ou mais fallivel do que aquelia, com
que se contentaram, e se têm dado perfeitamente bem nações, que
dispõem de recursos immensaraente superiores aos nossos ; — 2?
garantia», que não sejam precaria», não a» ha, não houve, não haverá
jamais{Apoiados.) "
Depois de revistar o regimen da garantia das emis-
sões nos diversos paizes, continuava s. ex.:
" Ora, sr. presidente, v. ex. o esta vendo, a lição, que se colhe
desta longa resenha, é que, em todos os Estados, a garantia da
maior parte dos bilhete» de bancos de emissão consiste, principalmente,

' Senado, em sessão de 20 de junho de 1888.


A QUESTÃO FINANCEIRA
não s6 nos títulos da divida publica, mas em outros valores oomrne f
ciaes de fácil desconto, e que as reservas metallica» em geral não rg-
presentam mais de um terço da ■emissã'1.
" Depois, releva lembrar que a emissão não excede, é tão só-
merite igual no valor nominal das apólices depositadas, exaclamçjile
como os 14 milhOes de libras em bilhetes, que o banco de Inglv
terra pode lançar na circulação, excedentes ao seu fundo metal-
lico...
"Essas garantias podem falhar; inas são pelo menos tão seguras
como as dos diversos bancos, cujo mecanismo rapidamente des,-'
crevi.
"Não falham também as consistentes em reservas melallicas ?
Que nos ensina a historia Jos dois grandes bancos, sempre invocados
como exemplo, o da Inglaterra e o da França? Ensina que, apezar
da somma immensa de ouro, que possuem, e de seus extraordinários
recursos, mais de uma vez viram-se á borda do abysmo da bancar-
rota, que evitaram lançando mão dos expedientes extremos de
morosidade nos pagamentos, pela contagem de moeda a moeda, c
do curso forçado por muitos annos."

O sjí. Amaro Cavalcanti :—Eu já li esse trecho


ao senado, elle dizia a verdade, que ainda é a verdade
actual.
O su. Ruy Baruoba :—-No mesmo auno e na mesma
discussão, um dos mais ferozes inimigos que a Republica e
as finanças republicanas viram assanhar-se contra si, apon-
tava como a origem principal da nossa atrophiá econômica
a indigencia de meio circulante, e punha nos bancos nacio-
nacs, á americana, assentos sobre titulos do Estado, o
remedio a esses males. Não se podia exaltar mais caloro-
samente esse regimen do (pio o fez então o sr. Lafayette :

"Para os grandes prejuízos, que lím os bancos de emissão, o


Banco Nacional oflerece uma garantia, uma solidez, que não têm
os bancos metallicos. (Apoiados.)
(» PAPEL E A BAIXA DO CAMBIO 41
"A ruinn dos bancos metallicos é cansada polo excesso da
(•missão: mas ha leis econômicas, qne corrigem esse excesso, que
Itrepara a sua ruína na hypolhese de crise. São ires essas leis, as
quaes o orador aprecia deiidaraenle em relação aos bancos nacionaes,
jfiostrando como, sendo ei Ias rigorosamente applicadas, liaverá toda
„ garantia. Accresce que o bilhete etniüído pelo Banco Nacional
(imda-se na mesma confiança, que tem o papel moeda; e por isso
não poderá haver agioenfre elle e o papei do governo. Se a base do
[lapei-moeda é a confiança no Estado, a mesma é a do papel do
Itanco, visto que elle representa a apólice, e a apólice representa o
crédito do Estado..
"Depois de uma desenvolvida demonstração dos princípios,
f jiie tem estabelecido, diz o orador que, das considerações que tem
f .ito, resulta este importanlissimo coroliario: que os bancos nacio-
jices oderecem ao publico, ás pessoas que enlram-com elles em re-
lações, garantia de maior solidez que os bancos metallicos.
" 0 orador e os seus coilegas signatários do projecto parlem
( |'es(e conceito: qmo meio cirenlante exittenteê nbmlntameMe iimif-
ficientepura o império. Como essa proposição tem sido contestada,
ydduz varias considerações, para demonstrar a sua verdade, apoi—
aijdo-se. princijialrnente, em dados officiaes, que analyza delidn-
ptenle. Vendo que lia apenas em circulação cento e setenta e Ires
jiiitliões de papel-moeda, acha que essa som ma não é bastante
para as transacções, em todo o império, com 20 províncias, que
são Como que 20 estados, e com ti praças commerciaes, sendo as
do Norte autônomas em relação ás do Sid, e lendo com eilas rela-
ções insignifleantissimas. Accresce a necessidade de numerário, fara
jiagcimeuin das salários, que a lavoura d'aqui por diante terá de
pagar, e que o orador já ouviu calcular a homens práticos em
á0.000:000$000.
" Para provar a escassez do meio circulante, odi-rece ainda
outros argumentos, directos e positivos.
" Refere-se principalmente ao preço baixo, por que se vendem
as propriedades no centro do commercio nesta capital, e á dimi-
nuição dos alugueis dos estabelecimentos, quando é certo qne o
commercio tem augmentado, como prova o imposto de industrias
42 A QUESTÃO FINANCEIRA
e profissões. Assim lambem os desconlos no Rio de Janeiro são
hoje elevadíssimos, além disso difíceis, e ntc impussivcia me*mo
sobre a garantia de apólices. A razão èa falta dz numerário. 0 orador
está informado de que se tem já offerecido garantia de libras ster-
- linas para um empréstimo de papel-moeda, não tendo podido reali-
zar-se a operação, por não haver numerário. ' 1
Isso se dizia cm 1888.
O sr. Theodureto Souto :—Mas agora tudo esque-
cem.
O sr. Ruy Barbosa :—O sr. Saraiva, menos enthu-
siasta que os outros, não pôde, todavia, contestar que a
emissão sobre ouro era apenas um desideratum do longín-
qua exequibilidade neste jiaiz. "Sou um pouco metallista,
dizia elle, e desejaria que pudéssemos organizar bancos
cora base metallica; mas reconheço, com os autores do
projecto, que talvez isto não seja possível aqui, por muitos
annos, visto como o Brasil está segrogado de todas as pra-
ças, onde o ouro abunda."
Xa imprensa brasileira, aqui e na Europa, 3 não foi
s6 o jornalismo sympatibco ao governo que recebeu as

1
Senado, sessão de 26 de junho de 1888.
!
O Brieil dizia, em Paris, aos 18 de janeiro de 1891 :
" Voilà, sans commentaires, tout ce que la Republique a hérité
de PEmpire en fail de banques d'émÍ8SÍon. Mais n"a-t-elle pas
hérité aussi de l idée dominante à cette époque de la pluralilé des
banques d"émission. idée que la monarchie aurait mise en pratique,
bon gré, mal gré, afm de satisfaire Popinion publique de la eapi-
tale et des provinces, et de conjurer Ia crise qui menaçait la bourse
de Rio, due à la spéculation des derniers temps de PEmpire?
" C'est pourquoi Tun des premiers actes du gouvernement pro-
visoire a donc été de faire ce qifaurait fait son prédécesseur : il a
d"abord nutorisé la Banque du Brésil, le plus ancienet le plus haut
colé des établissements de crédit bresiliens. à devenir une banque
demission, et ensuite il a dérrelé la fondation de la Banque des
Etats-Unis du Brésil et des banques régionales.
O PAPEL E A BAIXA DO CAMBIO

instituições dei? dc janeiro com vivo acolliimento. Eu


poderia citar-vos, da parte da imprensa fluminense mais

"En agissant de Ia sorte, M. Buy Barbosa a noa seulement


donné pleine satisfaction à Popinion publique, qui, dans les der-
niera tem ps de la monarchie, se montrait décidée à reagir contre
certaines ali ores ullra centralisalríces, relalivetnent à la constitu-
tion de la fíauifi/e Nacional, mais il a en même temps mis la
place de Bio à l abri de Ia crise financière que le manque de
numéraire rendait iinminente et redoutahle. Cês banques au lieu
davoir une encaisse mélallique, 1111 dépôt comme les banques
Nacional et Brazil, étaient teimes de faire un dépôt en lilres de
la delle inlérieure, servant à garantir leu rs émissions de billets au
porteu r.
"Ce n'est done pas le gouvernemeut de la Bépublique Ia cause
prirnordiale de la diversilé et de la pluralilé des banques d'éinission:
ii a trouvé ces banques prétes à édore, et on comprend qu 11 ait
faitcontre fortune bon cceur, étant donné que Popinion publique
élail manifeslement conlre Pidée du monopole des émissions de
billets de banque, et qu'il avait besoin, au moment de son avène-
mentau pouvoir, de mettre en évidenceces tendences décentrulisa-
riccs.
"Si ces raisons no suffisent pas a prouver au premier abord que
les décrets successifs de M. Buy Barbosa lui ont élé dictés par les
circonslances, c'esl qu'on ignore que le réveil de I inítialive et des
forces productives du Urésil depuis Pabolilion du travail servile, et
Ia déchéance de la monarchie, auraít pour conséqueuce une crise
économique et financière, si le gouvernemeut provisoire n avait pas
apporté promptenienf un reeiède au manque d élasticilé du papier-
monnaie inconverlible de PÉlat, et à Pirjsuffisance de 1 emission des
banques Nacional et Brazil.
]V"outro edictorial escrevia, ainda, o eminente publicista :
"Ce remède a éfé la créalionde la Banque des Etats-Unis du
Brésil et des banques régiouales, d"après le système nofd-americain,
mais ayant sur lui Pavautage que les apólices qui se trouvent en
dépôt au Trésor pubJio ne constiluent pas seulement lagarantie des
émissions de bilbds au porteur, mais elles servent en même temps
de moyen pour le rachftt de la dette intérieure.
"Cest à nosyeux le système de banque d'éinission qui convient
mieux à nolre pays et qui offre plus de garanlies aux porteurs des
billets de ces banques ; caí ces billets sont representes par leur equi-
valenlen titresdela dette publique, en outre de 1 avantoge que ces
banques ont de ne pas augmenler la demande d or monnayé. donc
Ia prime de Por, ce qui esf le cas des banques d emission qui ont
une encaisse métulUque."
44 A QUESTÃO FINANCEIRA
hostil á minha administração 1, vozes de applauso calo*
roso, traduzindo o sentimento publico de (pie o ministro

1
Eis, com effeito, o que dizia a Gazrta da Tarde (folha
insuspeitissima relativamente ao onulor), em 18 de janeiro de 1890;
"De dia para dia impõe-se á consideração publica pela sua
largueza de vistas, como estadista, e sen atilamento como admi--
nistrador, o sr. Ruy Barbosa, encarregado em boa hora da pasta
da fazenda, e que tomou sobre seus hombros a urgente tarefa de
reconstruir o paiz financeiramente.
"ü decreto de 17 de janeiro prove sobre a organização de
bancos de emissão, pondo esta mais de accftrdo com as condi-
ções econômicas do paiz. a situação do credito nacional e as
necessidades do nosso oornmercio e da nossa lavoura.
"O honrado ministro assusta-se. com razão, diante da idéa de
augmentar a massa de papel do Estado ; e, vendo diariamente os
inconvenientes em nosso paiz da emissão sobre base melallica.
pensa que o único meio efficaz de fortalecer o credito nacional
é dar base solida ao edifício economico e linanceiro do paiz; ora,
basear o novo systema de circulação sobre apólices, com o que
expande-se o meio circulante, proporcionando-se ao desenvol-
vimento economico do paiz o recurso, de que necessita, e mi-
norando, senão extinguindo, as obrigações da divida nacional,
cujo serviço absorve immensa parte da nossa receita."
Quatro dias depois dizia ella:
"0 actnal ministro da fazenda, attentas as condições da
praça e as dos bancos que tinham direito de emissão sobre base
melallica, e que estavam para desistir d'esse direito, á vista do
estado do cambio e da subida do ouro, prneuron o unico meio.
que havia, pura attenuuir tal extailo de emita*, sem ferir direitos
adquiridos, attendendo á situação creada pela nova ordem de
cousas."
E ainda no dia seguinte (2U de janeiro), essa folha se pro-
nunciava assim :
"A posição do sr. ministro da fazenda, em frente das dif-
flculdades da praça, quando o primeiro estabelecimento de emis-
são creado sobre base de ouro confessava a inefficacia do seu
systema, pedindo o auxilio do thesouro, era realmente diffici-
tima: achava-se de um lado entre contractns celebrados; do
outro estava a praça, que reclamava medidas, que a livrassem
da pressão, em que estava; do outro lado o credito retrabia-se,
o ouro subia de preço, e escondia-se ; e só restava voltar aos
bancos de emissão sobre base de fundos públicos, acaulelaudo-se
o interesse do Estado, e regularizundo-se de uma vez a questão
do curso.
"Diminuindo a nossa exportação, e não havendo diminuição
na importação, é claro que o meio circulante ficaria depreciado»
O PAPEL E A BAIXA DO CAMBIO 4.'»

onvemlára pelo oaminlio inevitável, <lc (jue acmlira á situa-


çfio com o especifico natural para as suas (lifficnldados.
Não foram, portanto, pliantasias do «roverno revolu-
cionário que inspiraram as nossas medidas. Na tradição
invariável do nosso paiz é que fomos beber, nas lições de
nossa historia, nas opiniões constantes dos nossos finan-
ceiros,
O su. [Link]ío CavAIjCAXTI : — E no im[x>rio das
eire imstancias ; porque v. cx. não podia inventar ouro. Era
um momento igual ao de agora. Dêem-me ouro, (pie ea o
prefiro ao papel.
O BB. lirv Barbosa:—Eu poderia ainda appellar
para os exemplos de paizes corno os Kstados-l'nidos, a
Inglaterra...
O mb. [Link]» Cavaccaxti :—Apoiado. E' o que
têm feito os maiores paizes do mundo.
O sr. Ruv Barbosa:—As circmnstaneias, com
effeito, não me deixavam então outro rumo. Com o cambio

e foi iirevendo tudo isso. que o honrado ministro da fazenda


leve de earrealuir uma combinação, em que se facnlt issem á letra
liypolliecuria applicações até aurora exclusivam nt ■ reservadas
ás apólices. . ... .
••Com isso leve-se em vista prmcípalmeide attender as ne-
cessidades da lavourá. para o que teve-se de retocar a legis-
lação sobre as sociedades anonyraas e o regimen bypolbecano,
laiiçando-se as bases do único regimen razoável para o credito
movei.
"Deu-se, pois, ao credor as segurançus conveuieidts, para
que o credito se facilite aos que necessitarem solicital-o,
"Entendemos, porém, (pie o projeclo é falho cm um ponto:
devia-se dar curso forçado as notas do banco emissor ; pois isso
augme111ar-lhes-hia a garantia, bem que ellas talvez já estejam
sufilcieidemente garantidas, já pelo fundo dos bancos e por outros
ben» tfiie pôde adc|iiirir. •
".Nem pêide haver perigo nesse direito de emissão, pois esta
não poderá exceder a importância das apólices, que conatiluirem
o fundo social dos bancos, nem a sua circulação^ultrapassar
os limites da cirruniscri|ição territorial de cada UHl.
46 A QUESTÃO FINANCEIRA

a 5 dinheiros abaixo do par, a acquisição de ouro, par^


lastro do papel bancário, envolveria, para os bancos emis»
sores, sacrifícios, que não se poderiam compensar, senão
admittindo a emissão no duplo, polo menos, da sua baso^
garantia manifestamente inferior á da circulação co» '
berta em sua totalidade por titulos da divida nacional,
(Apoiado*.)
Admittindo, porém, que não procedesse esse motivo
outro, da mais poderosa actualidade, nos coagia áquella
direcção. A procura de ouro para o deposito metallico dos
bancos aggravaria as circumstancias do mercado cambiario,
crcando mais uma força de pressão para a baixa.
Varias considerações, de ordem geral, actuavam n*,
mesmo sentido. Immobilizar ouro, n'um pai/ onde a ciivl
colação padece por deficiência d'clle, era trazer mais mp
elemento pathogenico ao organismo depauperado c onfcr^
miço. Pelo contrario, retirar apólices ao mercado, seria
desviar os capitães particulares d'essa collocaçüo estéril U
zadora, encaminhai-os para o movimento da vida indrs.
trial, e convertera divida do Estado em instrumento de
progresso. (Apoiados.)
E' o que os americanos tinham comprehendido ç
praticado admiravclmcnte nos seus bancos nacionaes. Es-
posando o grande exemplo, o decreto de 17 de janeiro
modificou apenas o systema de garantia com encargos mui-
onerosos ao emissor e de inestimável beneficio para o
Thesouro. Por uma idéa absolutamente original, dr
incalculáveis conseqüências para a vida econômica e fiuan'
ceira dopaiz, a emissão, a par «Ias suas funeções peculiares
como meio circulante, exercia simultaneamente as dr
consumir a divida do Estado ; porque as apólices de lastro

(
O PAPEL E A BAIXA DO CAMBIO 47
hancario deixavam de vencer juros contra a fazenda no
termo de cinco annos, e consideravam-se resgatadas no
fim de ciueocnta ; ao rovóz do que acontece nos Estados
Unidos, como cm toda a parte, onde os titulos deposita-
dos continuara a representar a mesma obrigação por parte
do Thesouro, ea constituir propriedade absoluta dos bancos
depositantes.
O sr. Américo Lobo: — Aqui os titulos ficavam
sem valor.
O sr. Ruy Barbosa : — Se sob esse regimen se
entrasse na circulação raetallica, os bancos ver-se-hiam
obrigados a consagrar ao serviço da emissão o duplo do
seu valor; isto 6, ao lado de uma somma egual a ella,
cancellada, em apólices, a favor do Thesouro, outro tanto
cm metal para o movimento do troco. A emissão de 50.000
contos, por exemplo, reclamaria mua base immobilizada
de 50.000 contos, em titulos, no erário nacional, e um
fundo disponível de 50.000 coutos em especies, para o
troco nos cofres do estabelecimento. D'est'arte o systema
arguido de immoral pela cegueira da reacção, pela igno-
rância c pela má fé dos seus oppuguadores, não pôde sus-
tentar-se ora conseqüência do excesso da severidade, que o
caracterizava; pois immolava os bancos ao Thesouro.
{Apoiados.)
Nos termos d'essc systema, entretanto, sob o qual o
Banco dos Estados-Unidos realizou a sua primeira emissão
de 50.000 contos, vinha a lucrar o paizlogo uma reducção
de 50.000 contos na sua divida, reducção desprezada e an-
nullada agora, com fidalga prodigalidade, pelo projecto que
eu combato.
D'ahi,por circumstancias que adianto tratarei,passando
48 A QUESTÃO FINANCEIRA

da emissão sobre títulos á emissão sobre ouro e da plural^


lidado bancaria á raonoemissão, concentrada no Banco da
Republica, cbeganios á circulação actual de õl 2.000 contos,
na qual as prevenções de uns e as irreflexções do outros
descobrem a origem da situação climaterica, era que sO
debatem as nossas finanças.
O erro d'essa interpretação é palpavel. Ella jiarte <la
mais grosseira petição de principio. Ella inverte a posição
lógica dos termos da questão. As baixas do cambio não sO
explicariam senão por excessos na circulação fiduciariu?
Em tal caso, sim, a conclusão seria eorrecta : verificada a
baixa do cambio, provada estaria a superabundancia do
meio circulante. Mas, se para a baixa do cambio, ha outra»
causas, tão poderosas quanto essa, mais poderosas mesmo
do que ella, e se a existência «Vossas causas f certa, é noto-,
ria, í' impiestionavel entre nós,—concluir da depressão do
cambio a exaggeração do papel-moeda, é peet-ar contra o-X
rudimentos do senso eommum. ipoiailox.) A dialeetica doH
«pie attribuem a crise actual a uma circulação hypertro-.
[Link] exactamente por prova<lo;o que está por provar.
(Apoiados.) Para que essa conclusão procedesse, neccessa>
rio seria, desde que a exuberância da emissão é apenas uma,
d'entre as muitas determinantes possíveis cVesse phenomeno
necessário seria, repito, demonstrar, por exclusão de partes,
a acção predominante ou solitária d'essa causa. {Apoiados.)
E' o que ainda ninguém fez. E é o «jue tanto mais
mxx-ssario seria fazer, quanto a historia da circulação
inconversivcl, nos paizes que a têm experimentado, trans-
borda em exemplos de divergência constante, de opposição
habitual, de contrastes eloqüentíssimos entre as variações
do ágio do ouro e a somma das emissões, baixando
O PAPEL E A BAIXA DO CAMBIO 49

frequentemente o valor do metal, quando estas augmentam,


crescendo o preço dollc, quando cilas diminuem. (Apoiados.)
A importância capital d'esta demonstração impõe-me
o dever de fazel-a, com os dados mais categóricos, não
obstante o risco dc tomar-me enfadonho ao senado.
(Não apoiados.)
Tenho presente, por exemplo, o mappa confrontativo
das emissões com o agio do ouro, em Inglaterra, nos dois
primeiros deccnnios do século actual, isto é, sob o curso
forçado, que terminou alli em 1819. Aqui o tendes:

V. Papel em circul. Papel em circtil.


(31 de afrosto ütí (mediado
cada anuo) anno) Preço da onça
s.
ÍS de ouro em papel
em milhôeg e milharea de milhões
esterlluoH

L. S. D.
1800 15,047 15,841 3 17 10 i
1801 14,566 16.170 4 5 0
1802 17,097 17,054 4 4 0
1808 16,983 16,848 4 0 0
1804 17.153 17.345 4 0 0
1805 16,388 17.242 4 0 0
1800 21.027 17,135 4 0 0
1807 19.678 17.405 4 0 0
1808 17,111 17,685 4 0 0
1809 19,574 19,002 4 0 0
1810 24,793 4 10 0
1811 23.286 4 4 6
1812 23.026 4 15 6
1813 24,828 5 1 0
1814 23,368 5 4 0
1815 27.248 4 13 6
1810 26.758 4 13 6
1817 29.543 4 0 0
1818 26.202 4 0 0
1819 25.252 4 1 6
1820 24,299 3 19 11
1821 20,295 3 47 10 è
50 A QUESTÃO FINANCEIRA
Por aqui se está vendo oomo divergem entre si as
duas curvas. Em 1801, com uma circulação de 16 milhões
esterlinos, a onça de [Link] custava £ 4-5 s.; ao passo que,
no anno seguinte, crescendo o papel quasi um milhão, o
preço do ouro desceu 1 s. por onça. Em 1880 a emissão
montava em perto de 17 milhões, e a onça de ouro valia
£4.; entretanto que, em 1817, o papel subia a 29 1/2 mi-
lhões, isto é, crescera 12 milhões e meio, ou quasi 80 "/o, e
o valor do ouro continuava a ser de £ 4. Em 1813 circu-
lavam 24 milhões em papel, e a onça de ouro importava
em £ 5-ls ; quando, em 1815, sob uma emissão superior a
27 milhões, o valor do ouro baixava a £ 4-138-6(1.
Emfim, considerando os extremos d'esse periodo, encon-
tramos o custo da onça normal de ouro quasi egual em 18(J0
e em 1820, quando, na primeira dessas datas, a emissão
era de 16 milhões, ao passo (pie subia a 24 milhões, isto é,
crescera 50 0/o, na segunda.
" Todos estes dados", observa um celebre economista
italiano, "manifestam claramente que entre o agio c a
quantidade de papel-moeda não se pôde verificar a minima
relação directa na Inglaterra de 1797-1821. Torna-se,
d'est'arte, inintelligivel o porque Ricardo e os autores do
Bullion Report sustentaram theoria opposta, e confirma-se
esplendidamente a theoria de Tooke, que attribue o agio á
grande exportação do metal, resultante dos empréstimos
contrahidos, em Inglaterra, pelos governos estrangeiros,
dos subsidies dados em metal a governos de outros paizes
paio governo inglez, das compras de cereaes no exterior,
das colheitas mallogradas, etc."
Sobre informações officiaes, reunidas por Ale. Culloch
no seu clássico Riccionario do (hmmercio, Boccardo

X
(
O PAFEL E A BAIXA DO CAMBIO

construiu cst'outro (jiiaflro, que precisa oagiode ouro, lado


a lado cora a importância da circulação ora cario anno,
durante o mesmo lapso de tempo ;

MEDIA DOS BILHETES EM «tiid rui OBRO


c— CIRCULAÇÃO

1800 1 15.047.180 Par


1801 " 14.556.110 8 7 s. 8 d.
1802 " 17.097.630 7 5 10
1803 " 15.983.330 13 2i
1804 " 17.163.890 r
r 13 2
1805 " 16.388.400 2 13 2
1806 " 21.027.480 2 13 2
1807 " 19.678.360 2 13 2
1808 " 17.111.390 2 13 2
1809 " 19.574.180 8 7
1810 " 24.793.980 13 9 6
1811 " 23.286.850 7 16 10
1812 " 23.026.880 20 14 9
1813 " 24.828.820 22 18 0
1814 " 28.358.890 25 2 6
1815 " 27.248.670 16 4 3
1816 " 26.758.720 16 4 3
1817 " 29.513.780 2 13 2
1818 " 26.202.150 2 13 2
1819 " 25.252.690 4 9 0
1820 " 24.209.340 2 12 0
1821 " 20.295.300 Par

Emquanto a emissão, de 14 milhões, em 1801, sobe a


I 7 em 1804, o a^io do ouro desce de £ 8 a £ 2 ; taxa que se
mantém ainda em 1807, quando a circulação crescera
a 2 milhões. Pelo contrario, em 1809, o papel se
reduzia a 19 milhões, e o ágio quadruplicava, elevando-se
f
52 A QUESTÃO FINANCEIRA
de £ 2 a j£ S. Mais tarde, em 1818, a emissão rcasoendia a 26,
e o agio rodesciade £ 8 a £ 2. Em 1810 c em 1813 a circu-
lação era de 24 milhões. Pois bem: no primeiro anuo o
agio se cotava em £ 13 ; no segundo, cm £ 22. Em 1812
a circulação orçava por 23 milhões esterlinos, fixando-se o
agio do ouro em £20. Em 1817 o agio descia a uma taxa
dez vezes menor, isto é, a £ 2 ; entretanto, a circulação fidu-
ciaria crescera 25 '■/(, subindo a 29 milhões. Dois annos
depois baixava a 25 milhões o papel circulante, e o agiu,
ao revéz, duplicava.
"D'estas informações resulta evidentissimo, segundo
Boccardo, este aphorisma economico: (te oscillações do
cambio não se explicam pela simples theoria quantitulivu
das emissões. Muito mais eflicaz do que essa causa é o
estado em que se acha o balanço do commercio." 1
A Áustria offerece-nos outro campo seguro de demons-
tração, que resulta d'esta estatística, organisada sobre
dados officiaes :

1
Boccardo : Le banche e il corso Jorzato, pag. 48-9.
" Entrando em maiores particularidades, com a historia desses
tempos na mâo, se averigua que, aos 28 de fevereiro de 1814,
quando a circulação era apenas de £ 24.801.180. o preçoda onça de
oiro subia a 5 /10 «, ao passo que, em julho, desceu a 4 n2 », quando
a emissão crescia continuamente, até chegar, em agosto, á somma
de £ 28.368.290. Note-se, outrosim, que preço quasi idêntico vigo-
rara no principio de 1808, com 4 l. 11 «., emquanto a circulação era
apenas de £ 18.252.780. Seria possível que um augmento de mais
de 10 milhões esterlinos em circulação determinasse um accrescimo
de apenas 1 schilling no custo da onça, se exercesse influencia sobre
o agio a quantidade de papel-moeda emittido V Exprimindo com
outros algarismos tactos idênticos, descobre-se, por exemplo, que o
preço, em papel, do ouro por onça normal {standard) locou o máxi-
mo do periodo de 1797-1821 em fevereiro de 1814, chegando então
a 108 schillings, ao passo que o máximo da circulação só se pro-
duziu em agosto de 1817, quando o preço da onça normal baixara a
78 schillings " C. Febbaris : Monda e corso fonom. Milano. 1879.
Pag. 31.
O PAPEL E A BAIXA DO CAMBIO 53

Oirculaçáode Circulação do
ANNOS

papel i niedi:. papelminoi media


do armo ) em. Açio . media do ) em A/arlo (media
mflhõea .lê flo- ao Anno) i i
85 niilhòet* de flo- do anno)
rira •< ri us

184S 222.97 9.36 1863 396.65 133)9


1849 250.47 18,85 1864 375.82 15.72
1850 255.36 19.82 1865 351.10 8.32
1851 215.63 26.05 1866 499.78 19.84
1852 194.54 19.75 1867 548.15 24.31
1853 188.30 10.62 1868 574.51 14.48
1854 383.49 27.75 1869 598.76 21.02
18.55 377.88 20.62 1870 649.00 21.89
1856 380.18 5.37 , 1871 690.93 20.38
1857 383.48 5.50 1872 694.35 9,27
1858 370.02 4.12 1873 702.97 8.14
1859 466.75 20.62 1874 639.04 5.24
1860 474.86 32.25 1875 635.11 3.40
1861 468.87 41,25 1876 629.58 4.70
1862 426.87 28.07

De 1^50 para I Xõl a quantidade dç papel em circu-


lação desce de 2üõ a 21 õ milhões de florins: o agiu sobe
de 19 a 26. De 1852 para 1856 a emissão expande-se de
191 a •'Í80 milhões, isto è, duplica. O agio, pelo contrario,
desce de 19 a õ, isto é, redus-m ao terço. Baixa a emissão
de 171 milhões, em 1860, a 468 em 1871. Inversamente,
o agio sobe de .'12 a 41. De 1865 para 1873 a emissão
dobra : vai de 351 a 702 milhões. O agio, ao envés disso,
reduz-se de 8,32 a 8,14. Em 1868 a circulação é 75 mi-
lhões maior (pie a de 1866. Entretanto, o agio 6 25 /
menor. Em 1870, 1871, 1872, 1873 a emissão alarga-se
de 649 milhões a 690, a 702; o agio, oppostamente, vai
descendo de 21 a 20, a 9, a 8.
A Rússia anxilia-nos com estes exemplos, de cunho
também offieial :

0
54 A QUESTÃO FINANCEIRA

•o Circularão de CD C!ivulai/ãu lie


O papel no 1? de O impi-l no 1? de
z; Januiro de cadu K Junetro de cadn
z; «uno SC nono
<
1
1863 691.10 4.71 1869 724.41 24.84
1864 636.51 17.73 i 1870 721.79 28.30
1865 651.11 21.6 1871 715.81 19.16
1866 650.46 28.14 1872 718.83 16,77
1867 649.54 17.27 1873 763.87 16.30
1868 657.47 16.21 1874 792.26 16.77

A emissão, na Rnssia, reduz-se de (üll milhOes <lc


rublos, no anno de 186^, a 636 milhões nu anuo seguinte.
Etn contraste, o agio quadruplica : sobe de 4 a 17. Con-
tinua a se cercear a circulação de 651, em 1865, a 650
milhões no anno immediato: e o agio prosegue na sua
ascensão, elevando-se de 21 a 28. Pelo contrario ; o papel,
de 650 milhões, em 1866, estende-se a 657 em 1868, em-
ijuanto o agio cáe de 28 a 16. Em 1872 circulam 715; em
187-1 gyram, no paiz, perto de 800 milhões; e, todavia, nos
dois annoso agio é idêntico ; 16,77.
"Aquella nação", pondera um economista contempo-
râneo, "não augmentou, por certo, a sua fortuna em pro-
proções tacs, n'um decennio, que carecesse de recorrer a tão
ingente accrescimode meio circulante. Antes, «e ha inih,
ipie flevwHf apresentar symptomas de descrédito no papel,
em conseqüência da sua quantidade, é particularmente a
Rússia, cujo curso forçado é já secular, e padece por
demasia de emissão. Entretanto, nem aqui acha confirmação
a theoria quantitativa." 1

1 Kerrabis : Mo neta r corzo forznso, 34,


O PAPEL E A BAIXA ÜO CAMBIO 66
Não 6 menos concludente a lição, que apresentam os
jatados Unidos-Norte-Amerieanoe, e que se resume nesta
jjjboa comparativa :

■n Circulação de Cjrcnlaçilodo
napel aos
Junho íem."íomldo ipaiwl aos de
O ACIO unho (em ml-i ACiIO
lliôes c milha-!
pp.m «Io milhftes Ibôes o milha-j
rea de milhõi^
• Io dollars) • le dollarn)

18(i2 147.72 13 6/8 I 1869 391.66 33 6/8


1863 411.22 46 1/8 1870 398.43 16
1864 649.09 108 7/8 1 1871 397.70 11 6/8
1866 692.92 68 2/8 1872 399.26 12 4/8
1866 608.87 41 4/8 1873 401.68 14 5/8
1867 636.87 38 4/8 1874 428.66 12 2/16
1868 444:20 39 7/8 1875 418.46 14 2/8

A circulação avoluma-sc de 1864 a 1865: 649 mi-


IhOes de doliars no primeiro anno; 692 no segundo. O
agio, ao revés, abate-se de 103 a 58. De 1869 a 1870 con-
tinua a engrossar a emissão: 391 milhões no primeiro
anno : 398 no immediato. O agio, em sentido inverso,
Baixa a menos de metade : de 33 a 15. Cresce ainda o
papel de 401 milhões, em 1873, a 428 em 1874 ; c o agio
diminue de 14 a 12. Ao contrario, de 1867 para 1868, o
paj)el soffre uma reducção de 108 milhões, c o agio cresce
de 38 4/8 a 39 7/8.
O sn. Josí; Hyoiifo: —Que eonclne v. ex. desses
factos ?
O sr. RíJY Barbosa : — O que toda a gente con-
cluirá : que não ha correlação forçosa entre as variações do
cambio c a quantidade das emissões.
Os srs. José Hvoiíto e Theodoketo Souto dão
apartes.
:.n V QUESTÃO FINANCEIRA

O sr. Ruy Barbosa : — Antes de prooeder íi leitura


d'estes dados, deixei, creio eu, bem clara a minha these.
Demonstrada a divergência constante entre o estado da
circulação c o agio do ouro, entre a importância das emis- |
sões e as taxas do cambio em paizes de primeira ordem,
sob o dominio do papel inconvcrsivcl como o nosso, fi-
cará evidenciada a improcedencia da conclusão, que até
aqui se tem querido assentar; a não ser que, por elimi-
nação de partes, se pudesse demonstrar a ausência, entre
nós, para a depressão cambial, de outros factores, gran-
des, numerosos o irresistíveis. [Cruzam-se apartes dos «•«.
Amaro Oiva/eanfi, José Ihjrjino e Thcodorcto Souto.)
Deixo, porém, a palavra, ácerca dos Estados Unidos,
a uma autoridade official c a um financeiro, cujo nome
figura em campo adverso aos expansionistas do papel
moeda. E' Hugh Mac Culloch, em um dos seus relató-
rios como fiscal do meio circulante, emnptroUer of lhe eur-
rency. São d'elle estas reflexões :
" O ouro, em Nova-York, no mcz de janeiro de 1802. estava ao
prêmio de 11/2^. D"ahi a pouco desceu a 1 $>, de onde subia, em
10 de outubro, a 37, fechando, em 31 de dezembro, a 34 %. Aos 24
ile fevereiro de 1863, tocava elle a 72 1/2 fí, baixando, em 26 de
março, a 40 1/2. e subindo, doze dias depois, a õ9 1/2 '/i. Alguns
dias mais tarde, cahiu a 46. e depois a 23 1/2. Em 15 de outubro
elevou-se a 24, não subindo além d'esse ponto no decurso do auno.
No 1? de janeiro de 1864 abriu a 52, crescendo a 88 em 14 de
abril, e decrescendo, em 19 d'esse mez, a 19 ^. Ao passar a lei
sobre o ouro. em 22 de julho, ascendeu o agio a 130. descendo, no
dia immediato, a 115. No 1? de julho forçaram-n"o a 185 ; mas no
dia seguinte, revogado aquelle aclo, baixou a 130. Aos 11 d'essemez
reascendeu a 184; no dia 15 declinou a 144, e, depois de varias flu-
ctuações, desceu, em 26 de setembro, a 87 ; elevando-se assim, em
1864. entre o 1? de janeiro e o 1? de julho, de 52 a 185. e baixando,
O PAPEL E A BAIXA DO CAMBIO 67

pntr" 0 ^ <'<i jullm e 26 de setembro, de 185 a 87 Nenhuma des-


jludunqõet f deve ao augmenio ou d reducqão do impei. Pelo con-
tra/''"' K " our" s"'''" rapidamente, por occasitlo de avultar a
mina de papel, também desceu em seguida a amplos reforços de
emlssãó. Nada poderia provar maisconcludentemente o erro da opi-
nigo, segundo a qual o ouro é sempre o padrão do valor, e se attribue
o aH0 PreÇ0' flu<! elle gozou nos Eslados-Unidos, no decurso da
guerra' a exagero da circulação,—nada o evidenciaria mais decisi-
varoen'e do que este breve quadro das variações do custo do ouro
no mercado de Nova-York." 1
Não são diversos, na Italia, os ensinamentos da ex-
periencia. Ella compondia-se nestes algarismos :

OirccilaQão cá o fc>iI Hetes


Quota
BANCÁRIOS DO ESTADO TOTAL porhaul- Aglodo
tante ouro

1866 852.460,125 250.000.000 612, 450,125 26.98 5,47


1867 587,038.580 250.000,000 837. 033,680 82.99 13.40
1868 625,706,748 278.000,000 903. 706.748 35,44 5,62
1869 624.047.635 278,000.000 902. 047.635 36,52 3.40
1870 680,346,577 445,000,000 995, 346,577 38,41 5,30
1871 634.576.288 629,000,000 1,263 ,576.288 47.14 7,30
"872 690,532,439 740.000.000 1.430 532,439 52.99 11,16
1873 733.167.236 790,000,000 1.523 167.236 56,06 15,80
1874 702,121.660 880.000.000 1,682, 122,660 57,97 10,80
1875 607,416,944 940,000,000 1,607. 416,944 48,18 8,15
1876 701.847.991 940.000,000 1.641 847.991 59,52 8,80
1877 689.746,079 940,000.000 1.629. 741.079 58,68 9,05

Em 18(37 a 68 a circulação augmenta de 837 a 903


milhões. O ágio, pelo contrario, desce de 13 a õ. Em 1873
é de lõ a taxa do agio, em uma circulação fidnciaria de
1.523 milhões. No anno seguinte a emissão tem-se elevado
a 1.582 milhões. Mas o agio, inversamente, baixa 50 %.
1
Mac Culloch : Comptroller s Reporl, 1863,
58 A QUESTÃO FINANCEIRA
Era 1875 a sorama do papel cresce ainda mais : é de 1.607
milhões. E o agio continúa em progresso enorme, descen-
do de 10 a 8 . Ao revés, a circulação de 1.641 milhões, no
anno de 1876, reduz-se a 1.629 no immediato ; e o agio,
alterando-se em direcção opposta, cresce de 8 a 9. E, se
tomarmos o anno inicial e o anno terminal do período,
com ura accrescimo de 106 milhões na emissão vemos
coincidir, pelo contrario, uma reducção de 6 ^ no agio do
ouro : 15, em 1877 e 9 em 1878.
Commentando estes factos, escreve Boccardo 1, epie
insisto em invocar como autoridade insuspeita, que é:
Em 1889 a cifra média da circulação bem pouco differe da de
1868 ; ao passo que o agio diminue quasi dois terços. Em 1870 o
agio augmenta, bem que a circulação haja diminuído. Em 1876,
com uma circulação notavelmente menor que a de 1875, o agio
apresenta accrescimo, comquanto ligeiro, o qual se accentua mais
em 1877, posto que a circulação cresça apenas de um modo insi-
g lificante; e, em 1878, o agio quasi não muda, apezar de terem-se
reduzido sensivelmente as emissões. Que prova esta falta de
correspondência entre as variações do agio e as da circulação, a
não ser que a influencia d'estas ultimas é muito inferior á que as
outras causas exercitam ? "
Em seguida, depois de transcrever de um periódico
napolitano 8 um curiosissimo estudo sobre o assumpto,
eonclue nestes termos :
" Não se poderia achar confirmação mais evidente da doutrina de
Tooke, nem mais esmagadora confulação da theoria de Ricardo,
1
3
Boccardo : Le Btinche e il corso forzato, pag. 55.
II Piccolo, pag. 61.
"O ministro assusta-se, ao ver que o agio, o qual,em 1875, regu-
lava, termo médio annual. 8.27, subiu n 8.47, na média de 1876, a
9.63. na média de 1877, a 9.45. na de 1888.
"0 agio cresceu especialmente nos dois últimos annos: teria
O PAPEL E A BAIXA DO CAMBIO
actualmonfe robabilitada pelo ministro Majorana. Não se poderia
desejar mais clara demonstração de que a influencia das emissões,
quando não sejam extravagantes, sobre o agio, ê mínima, em eom-
parnçãn da que, a este respeito, exercita o estado desfavorável do ba-
lanço eeonomico e commercial da nação. E, quando se pergunta se
será possível, mediante actos do parlamento, diminuir, ou evitar as
depreciações da moeda-papcl. nãoé licito dar a essa pergunta outra

crescido mais, se não se tivesse reprimido a circulação consoreial,


e [Link]. se decrescesse a circulação bancaria,
"Mas a verdade é. pelo contrario, que a circulação em nada
contribue para esse resultado, ou se nelle entra de algum modo,
será como companheira de infortúnio, que lambem se resentia da
repercussão de outra causa. E essa causa é a inércia dos mercados,
é o balanço daspermutas internacionaes, é o elleito da crise bellica
do Oriente sobre as condições da divida publica, é o torpor do mo-
vimento commercial.
"O ministro publica um espelho mensal das variações do agio.
Pois bem : coteje-a com o quadro mensal da circulação dos bilhetes
ao portador do Banco Nacional (o único que a augmentou), e vem
como um e outro não andam em correspondência entre si. Eis a
prova : armo de 1877, janeiro, 888 milhões, agio 8.Õ1; em fevereiro
a circulação diminue (878 milhões), e o agio desce a 8.41; março,
a circulação diminue ainda mais (381 milhões), e o agio mantem-se
o mesmo ; mas vem abril, a circulação subsiste qual era, e o agio
salta a 10.61 : em maio a circulação não se move, e o agio vai ainda
acima, 12.91 ; em junho a circulação engrossa (381 milhões), eo
agio. ao revés, desce a 10.11 ; em julho a circulação se expande com
um accrescimo de 16 milhões de uma vez (397), e o agio baixa a
9.91: em agosto a circulação não se altera, e o agio desce (9.63);
em setembro o banco aügmenta a sua emissão (396 milhões), e o
agio desce ainda (9.55); em outubro o banco continua a lançar
mais papel no mercado (407 milhões), e o agio obstina-se em de-
clinar. descendo ainda em novembro, continuando a descerem
dezembro, e indo assim por diante até março de 1878. Em março a
circulação do banco (bilhetes ao portador) é de 367 milhões, menos
do que nos mezes precedentes, o o agio sobe a 9.47 ; em abril a
circulação restringe-se ainda (848 milhões), e. a despeito disso, o
agio sobe (10.32): em junho o banco aügmenta a circulação (865
milhões), e o agio precipita-se a8.42; em julho o banco eraitte mais
papel (888 milhões), e o agio desce ainda (8.26); em agosto o banco
diminue um pouco a sua emissão (381 milhões), e o agio cresce
(8.75) ; restringe-se ainda o papel em setembro (379 milhões), e o
agio sobe mais (9.41). A circulação, pois, não se acha de accdrdo,
no seu movimento, com o agio senão nos dois mezes de outubro e
dezembro."
60 A QUESTÃO FINANCEIRA
resposta que não a de Minghetti : " Seria sonho pensal-n. A tu/ re-
sultado não se pôde chegar senão pela effieacia do nosso trabalho e da
nossa producção. " 1
Fcrraris, apreciando estes dados estatísticos, friza
ainda mais categoricamente o corollario, ipicdVllcs resulta :
"Estes dados acerca da Itnlia não carecem de commenlano :
é evidente que o ugio não se resentiu do avgmento do papel ; visto
como, ao passo que este se mantém em continuo crescimento, o
agio oscilla entre um máximo e um minimo assás distantes, isso em
todos os annos e sem regularidade. Nos quatro annos posteriores
áquelle, em que a quantidade do papel foi fixada eslavelmeule,
nem mais se augmentou. até descresceu (baixando a circulação
bancaria de 701,8, em 1876, a 689.7, em 1877), o agio, em vez de
melhorar, continuou n exacerbar-se, orçando, talvez, nos últimos
mezes de 1878, por 10 " 8
A historia financeira da França, durante a ultima
phase do papel inconvertivel n'aquelle paiz, esteia notavel-
mente a verdade, que procuro evidenciar. Eis o cotejo es-
tatístico entre o valor do ouro e o da moeda fiduciaria,
naqnella nação;

CIRCULAÇÃO r/2 AGIO


ANNOS

§ Muxl-
Em militAct* de V.
Duta do rnez francos •< Data do mez nm i»m«;
porvào
por mez

6 de julho...
1871 2073 1871 8 de agosto.. 0.4
26 de dezemb. 2293.4 1872 31 de janeiro. 1,4
1872 4 de abril.... 2372.6 „ 10 de maio... 0.3
24 de junho.. 2212.5 31 de julho... 1.5
30 de novemb. 2678 31 de dezemb. 1.2
( „ 26 de dezemb. 2866.8 1873 10 de janeiro. 1.3
.t 3 de abril.... 2782.1 80 de junho... 1.2
31 de outubro 3071.9 9 de outubro
1873 — fevereiro entre 2500 p annos segs. 0
e annos segs. e 2600
1 "
1
Uoccardo: Le Banche e il corso forzato, pag. 58.
• Feioiaius : Aloneta e corso forzoso, pag. 36.

(
O PAPEL E A BAIXA DO CAMBIO 61

No anno de 1871, em 26 de dezembro, a massa da


:
e:n 33do representa 2.2í)3 milhões de francos ; e o agio, um
mez depois, se taxa era 1,4. Três mezes depois a emissão se
eleva a 2372 milhões, istoé, cresce cerca de 80 milhões, co
agio baixa a 0,3, a saber, a um quinto da sua taxa tres mezes
antes. De 24 de junho a 30 de novembro, em 1872, a
circularão cresce de 2.212 a 2.878, e o agio desce, pelo
contrario, de 1,5 a 1,2. E, afinal, em 31 de outubro,
quando a circularão toca ao seu mais amplo limite, orçan-
do por 3.071 milhões, o cambio firma-se ao par, de onde
mais não se arreda.
De modo que, cm Franja, a despeito do crescente au-
gmento de pa])el inconversivel, o agio não cessou de des-
cer, até fixar-se ao par, exactamente quando o paj)cl in-
conversivel tocava ao seu zenith.
O sr. Ramiro Barcellos : — Graças á sabedoria da
directoria do banco.
O sr. Ruy Barbosa : — Nesse caso reformemos as
directorias. Não derroquemos o systema.
Os sus. Ramiro Barcellos e Amaro Oavai.-
canti dão apartes.
O sr. Ruy Barbosa ; — Consigno a declaração do
nobre senador, que, para o caso, é um argumento deci-
sivo a meu favor, aniquilando os sophismas tecidos até
agora contra os aetos financeiros da dictadura.
Si o vicio está na applicaçào, e não no systema, como
6 que os amigos do projecto regenerador fulminam contra
o systema as condemnações mais trovejantes ?
O sr. Amaro Cavalcanti : — O projecto deixou
todos os defeitos, contra os quaes reclamava.
O sr. T. Souto :— E creou outros.

>
62 A QUESTÃO FINANCEIRA
O SB. R. Barceixos :—Sim, foi a commiasão qne
fez isso...
O su. T. Souto :— Creou a liquidação, c indicou k»,
go o liquidante.
O sr. A. Cavalcanti :—Já lia gente com a saccolu
prompta.
O sr. Ruy Barbosa : — DVsse exame geral da
questão, estudada praticamente nos factos, parece indispiu
tavelmonte resultar a synthese, em que um dos mestres
na matéria 1 exprime as suas conclusões (/é):

" Rectilliemlo os fruetos de longa investigação, diremos que, .


nas condições dos Estados civilizados contemporâneos, a quanti.
dade do papel não exerce influencia sobre a medida do ágio. E hciq
poderemos aftinuar que não se conseguirá forçar o mercado naciu. '
nal a receber quantidades de papel superiores ás suas necessida-
des. Os bancos são muita vez obrigados a ter ociosa grande som. •
ma de notas, como se viu. em Inglaterra, de 1809 a 1810, e iiu ■
Rússia de 1854 a 1857. Na Áustria o governo, em 1851), mutuou j
147 milhões de florins ; mas a circulação real. que era de 370.02
milhões, subio apenas a 466,7 milhões, e não a 517,2. Falta, etq
grande parte, á circulação em papel o grande principio regulador,
como Fullarlon lhe chamava, da circulação fiduciaria, isto é. a
volta regular e periódica dos bilhetes ao banco emissor; mas nem ,
por isso se vá suppor que um mercado saturado de papel se deixe
forçar a absorver novas quantidades. E" o que facilmente se per. ■
cebe depois das crises econômicas : assim, a Áustria viu diminuir
a sua circulação de 702,9 milhões de florins, que era em 187-3. au-
uo de crise, a 639 milhões no subsequente. "

Entre nós a exporiencia de casa vem corroborar ad-


miravelmente a mesma these.

1
G. Feiuiaiuk ; Oj). cif.. pag. 37.

I
O PAPEL E A BAIXA DO CAMBIO 63

A omissão inconversivel do Thesouro, de 33.388


contos, om que importava no anno de 1838, foi elevada
a 39.963 pela lei n. 91, de 23 de outubro dVsse anno. Re-
ferindo-se a essa expansão do nosso papel official, o vis-
conde de Mauá escrevia : " Na Europa mal se poderá
comprchcndcr que um aagmeuto de notas inaonvertiveix
determinasse mdhorammto semi rei na» eonsliçõea monetá-
rio* do paiz."
Dois annos depois o nosso meio circulante recebia um
accrescimo de 4.704 contos. Como se houve o cambio, sob
essa nova expansão do meio circulante ? " Não affectou
o valor d 'esse papel (attesta ainda o visconde de Mauá),
que continuou a ser exclusivamente regulado pelo valor
dos produetos exportáveis, sem nenhuma referencia á
moeda mctallica, cujo valor era completamente dominado
por esse papel, não sendo raros os casos, em que o cambio
se elevou acima do par. "
Reiteradas emissões sueeederam-se durante a guerra
com o Paraguay, elevando-se então o nosso meio circu-
lante a quasi o duplo do que era, isto 6, de 51.000 a
90.000 contos. Influiram ellas depressivamente sobre o
cambio? Não, responde ainda a mesma autoridade:

A' primeira vista, a elevação do meio circulante, no curto


período de cinco annos, sem que as transacções pudessem augmentar
proporcionalmcnle nesse prazo, deveria produzir a perturbação, que
os economistas denunciam como cousa certa em laes casos.
" Deu-se o facto?
" Não, certamente. A' medida que esse papel foi derramado
na circulação do vasto império, se foi elevando o seu valor, e a sua
escassez novamente se manifestando, a ponto de ser necessária,
poucos annos depois, uma nova emissão, para fazer frente a uma
nova deflcencia reconhecida e provada ; votando-se a lei de 29 de

1
64 A QUESTÃO FINANCEIRA
maio de 1875, chamada dc auxilio aos bancos, que foi a medo
applieada, salvando-se as instituições de credito, que tinham as
apólices e bilhetes do Thesouro em quantidade sufficiente, para
garantir com esses títulos os adiantamentos, que solicitavam.
" O estada do cambio era tal que, depois de realizada toda a
bom emissãn, bastavam 97$ do nosso papel moeda, para obter uma
letra de cambio de 100$ em ouro, cobravel em qualquer praça es-
trangeira.
" Querem provas mais decisivas? Impossível é fomecel-as.
Querem prova igualmente decisiva de que, não os melacspre-
ciosos, porém outras causas, influíram no valor desse papel? Aqui
a têm.
Depois de recolhida a totalidade do papel, que entrou na
circulação em auxilio dos bancos, em obediência á lei, o cambio
baixou notavelmente, e tem declinado mais. "

Ministro da fazenda nessa época, o senador Zaeharias


attestava igualmente a innocuidade dessas repetidas am-
pliações do meio circulante em relação á taxa do cambio.
São dclle, no seu relatório, estas passagens:

" Quando o corpo legislativo discutiu, o anno passado, a pro-


posta do governo sobre a emissão do papel-moeda, asseveraram
muitos dos seus illustrados membros que de semelhante emissão
resultaria uma baixa extraordinária de cambio. Sem repetir o que
em sentido contrario se ponderou naquelle debate, é fácil de-
monstrar que a causa da crise não foi a depreciação do meio circu-
lante.
" E a prova mais irrefragavel de que a emissão de papel-
moeda não acluou sobre a situação monetária pelo modo extraor-
dinário que a todos surprehendeu, é que o governo começou a
realizal-a definitivamente na occasião da queda precipitada do
cambio e da alta dos preços dos metaes, e, não obstante, a crise mais
tarde diminuiu de intensidade ; e hoje, apezar de termos em circu-
lação mais de 25 mil contos mais do que em fins do anno passado,
o cambio reassumiu a cotação, que tinha antes da crise, e o preço

t
O PAPEL E A BAIXA DO CAMBIO 65
dos inetaes baixou na mesma proporção, porque algumas operações
oambiaes já efFectuaram-se a 20, e os metaes foram vendidos
a 12f000. "
O autor da política financeira, que os nossas adver-
sários não cessam de lançar-nos em rosto, como a antithese,
o avesso tias finanças republicanas, é, de quantos se tém
occupado com o assumpto, o que mais cmpkaticamente
enunciou a condemnação da theoria mctallista neste pai/.
í fuçamos o sr. A. Celso: (lê)
" A prova, senhores, de que a nossa circulação iiduciaria não
inílue, nesta praça, para a queda do cambio, fornecem-n'a Ires
factos, altamente significativos:
" Os annos de 1859 e 1860 marcam a época da maior expansão
do credito entre nós. Foi então que a emissão do papel-moeda teve
mais brusco e mais considerável augmento. Dcsdpparecern a moeda
metnlHca ; emittia o Thesouro, diversos bancos emitliam, e lambem
as suas caixas filiaes.
" Os 51 mil contos, que Unhamos ern circulação, subiram
rapidamente a 90 mil. Entretanto, o cambio nunca desceu de 23,
e subiu a 27 d.
" Quinze annos mais tarde, o cambio eslava entre 25 e 26 ;
deu-se nesta praça uma crise monetária; os bancos sentiam-se
ameaçados, e o governo entendeu dever ir em seu auxilio.
" Foi autorizada urna emissão de 25 mil contos; o que acon-
teceu ? O cambio, longe de baixar, subiu até 28, e foi além.
chegando a 28 3/8, A proporção que o papel ia-se introduzindo na
circulação: e, ao contrario, quando o governo tratou de recolher
esta nova emissão, foi descendo até 2!)
" Ainda agora mesmo, por orcasiâo do decreto promulgado pelo
meu iIlustre antecessor" (alludia ao sr. Silveira Martins, sendo
então de 40 mil contos o accrescimo da emissão), " não houve
nenhuma baixa de cambio. Pelo contrario, houve alta.
" Loyo. o papel-moeda não influe para a baixa de cambio." '
1
Em 1879, na camara dos deputados.
9
66 A QUESTÃO FINANCEIRA
A formula do sr. A. Celso é, pois, esta: entre nGí?,
o papel moeda não influe para a baixa de cambio. AinrJ^
ninguém deu a esse pensamento expressão tãodesassombradív
e radical.
Querem outra autoridade imperial ? outro pontifica
da sabedoria inhumada nos destroços do throno? Pois f.
consultarem o sr. Laíãyette. Vão ouvil-o demonstrar que
a depressão do cambio, entre nós, exprime apenas a ca réstia
do ouro como mercadoria, e não a depreciação do papel :
" Gomo se diz que o cambio desmerecera, que o papel moeda
está depreciado em relação ao ouro, passa a mostrar corno a depre*
eiação, que se sente, comparando o papel moeda com o ouro nas
operações de cambio, não tem a significarão, que se lhe quer da>.
Ella provém do estado do nosso balanço do commercio. Se a eX'
portação offerece sobre a importação um saldo a nosso favor, ba.
por outro lado, aggravando esse saldo, as quantias, que o governo
tem a despender na Europa, e que, pelo relatório do actual nobre
ministro da fazenda, consta que só de 1 de abril de 1886 a 30 de
maio de 1887 subiram a49.000:000$; ba mais as sommas, que i,s
portuguezes que residiram no Brasil, e se retiraram pura a Europa,
abi recebem annualmenle, e que o orador calcula em 10.000:000$
fortes, ou 20.000:000$ da nossa moeda ; ha também os fretes da im-
jiortaqão, fretes que um economista da Europa calcula em 10$) do
valor das mercadorias ; ha ainda o contrabando, que os economista*
avaliam em 5 $ de toda a importação, chegando, portanto, á com
clusão de que ha um excesso de 98.000:000$, dos quaes deduzidos
24.000:000$, que é a média da differença entre a importação e a
exportação a nosso favor, ficamos com um balanço do commercio
contra nós de 74.000:000$, approximadamente.
" Apreciando detidamente este ponto, procura provar como
essa differença í saldada por meio dos empréstimos, que o governo
faz constantemente ; situação igual á da Rússia em 1815.
" Pelo calculo do orador, o empréstimo de 4 milhões ster-
linos, feito pelo sr. marquez de Paranaguá, o de 6 milhões

(
O PAPEL E A BAIXA DO CAMBIO 67
realizado pelo sr. Belisario, e agora o de 6 milhões realizado pelo
actual sr. ministro da fazenda, sommando um lotai de J6 milhões,
valem a somma redonda de 160.000:0ü0$000, somma com que se
tem saldado o nosso balanço do eommercio.
" Assim, precisando de ouro, na Europa, e não o tendo, ob-
teinol-o pelas cambiaes ; mas, como estas são inferiores ás neces-
sidades, o ouro sobe 5,10, 15%.
" Não é, pois, o papel-moeda que diminuo de preço, i o ouro
que eobe, como mercadoria rara no Brasil.
"Se ha. portanto, só raridade no ouro, não procede o argu-
mento da depreciação da moeda. " 1
Não basta ? Estudai as osoillações do cambio em
1890, e haveis de extrahir das eircumstaneias sempre a
mesma conclusão. Quando o decreto de 31 de janeiro rc-
duzio de 450.000 contos a 200.000 a emissão concedida
no de 17 dVsse mez, o cambio, em vez de subir, com essa
subtracção de 250.000 coutos á somma da circulação pro-
jectada, baixou progressivamente de 24, cm principio do
fevereiro, a 21 1/2 em fins de março.
Mais tarde, quando, após o acto que reaugmentou o
meio circulante, concedendo 100.000 contos de emissão ao
Banco do Brasil e ao Banco Nacional, se promulgou o de-
creto de 29 de agosto, autorizando ainda ao Banco dos
Estados-Unidos uma emissão dc 50.000 contos, o cambio,
longe de abater-se, crescia de 20 1/2 a 21, 21 1/2, 22,
22 1/2, fechando, em 21 de outubro, a 24 1/8, e abrindo,
em novembro, a 24 1/4.
Logo, a baixa do cambio não significa exaggeração
nas proporções do meio circulante, não autoriza a presum-
pção de excesso na sua somma. Logo, não ó partindo do

1
Seiiiulo, era 26 de junho de 1888.
68 A QUESTÃO FINANCEIRA

estado d« cambio que se ha de inferir a demasia na emis-


são. (Ajjoiadox.) Pelo contrario, depois de medir a emissão
relativamente ás necessidades do pai/., e verificai dest arte
se ella transborda, ou não, o limite d'essas necessidades,
é que poderemos deprehender se a quantidade da circu-
lação contribue, ou não, para o abatimento do mercado
cambial. {Repetido* apoiado*.)
Como medir a quantidade de moeda metalliea ou
fidueiaria ? Como avaliar a sua graduação, com respeito
ás necessidades do pai/. ?
O meio circulante de um povo não se avalia jada
sua quantidade, considerada em absoluto, mas sim—de
um lado, pelo seu poder de circulação, isto é, pela maior
ou menor facilidade com que ella gyra no paiz {apoiados);
— de outro lado, pela economia, que se faz, do seu uso di-
recto, mediante os artifícios commerciaes destinados a re-
presental-o, e dispensal-o. {Apoiado*.) " Um wagon, uti-
lizado em dez ou vinte viagens, representa uma sornma de
transportes dez ou vinte vezes superior aos serviços do
mesmo vehiculo viajando apenas uma vez. "
Nem toda a moeda emittida 6 moeda circulante. Ora, só
a moeda que circula, pôde repletar a circulação ; só a moeda
que atravessa o mercado entre as duas correntes da offerta
e da procura, pôde, quando cxaggerada em sua somma,
actuar para a depreciação de si mesma. A parte das emissões
effectuadas, que hiberna, pelas circumstancias eapeciaes de
certos paizes, nas mãos de seus detentores, a parte que se
eclipsa do movimento das transacções,—essa parto, por
isso mesmo que não funeciona, que não se sente, que não se
descobre, é um elemento inerte, que não pôde influir para a
valorização ou desvalorização geral da moeda. {Apoiados.)
O PAPEL E A BAIXA DO CAMBIO
K' uma das maiores autoridades oontemporaneas
,jiicm o diz : {Lendo)
" E" inútil negal-o : as doutrinas da escola metalliea tinham o
vicio original de qnasi todos os iheoremas assentados por aquelle
grande metaphysico da economia política, «pie foi David Ricardo :
serem nlmiamente rígidas e absolutas. Partindo <ln errônea «iippoüa
de que Ioda a moeda de um paiz se ache effectivamenie, em riretdaçãn.
Overstone e os seus eminentes adeptos haviam transcurado o intlu xo
moderador, que exercitam os deposites disponíveis (/loards), nos
quaes boa parte do capital monetário se recolhe durante os períodos
de calma e prosperidade, e dos quaes emerge nos momentos de
emprego mais lucrativo. " 1
No Brasil somtnas enormes dormem empoladas, es-
tagnadas, esquecidas (apoiados), nas gavetas do habitante
das cidades, nas arcas do operário urbano, nas cintas do
trabalhador agrícola (apoiados), nos cofres dos proprietá-
rios ruraes, nas botas do sertanejo (apoiados), nos escon-
derijos dos pobres e nas secretárias dos ricos, nas casas da
população sedentária e nas malas da população fluetuante.
(Muitos apoiados.)
O sr. Esteves JuxiOK :—E' uma verdade, que nunca
se poderá negar.
O sr. Bamiho Barceeeos:—Mas, se ha tanto papel
jmr abi, para que emittir mais ?
O sr. Rev Barbosa : — Senhores, eu não creio que
estejamos a matar o tempo em simples jogo de palavras
sem sentido. O aparte do nobre senador, tão alheio ao que
eu vinha dizendo, dá-nos a idéa de que s. ex. despertasse
na oeeasião, deixando oahir da bocca as ultimas palavras

1
Boccardo ; II riordinamento degliinsHlrdi diemissione. 1888.
Pag. 15.
70 A QUESTÃO FINANCEIRA
de um sonho. Mas então como discutir, quando se reduz a
lógica a desconchavos taes?
Que dizia eu ? Que essa vasta cópia de papel, sonegada
ao movimento commercial pelo atrazo dos nossos hábitos, ou
pelas condições materiaes do nosso pai/, representa unia
quantidade ociosa, arredia da circulação, estranha a dia;
e concluia que, por conseqüência, ao calcularmos o vohuue
real do meio circulante, não podemos computar na siui
somma essa porção inactiva, paralvzada, ausente, do mes-
mo modo como, ao estimarmos os recursos do trafego do
uma estrada, seria absurdo eomprehender no material mil
os carros, cujo uso se não pennitte. A que vem, pois, que
relação tem com o que eu dizia o aparte do nobre senador
pelo Rio-Grande? Tem s. ex. meios de mobilizar essa
parte dormente da circulação ? Se os não tem, porque não
os ha, então conclua commigo que á quantidade nominal
das emissões havemos de abater essa parte retrahida,
havemos de desprezal-a, para calcular a circulação
real, e que, feita essa deducção, a margem deixada por
ella nos habilita, e nos obriga a preencher a ditlcrença
mediante supprimentoa correspondentes ao desfalque ve-
rificado. {Apoiados.)
Não estou, senhores, engenhando novidades, ou aven-
turando heresias. Sob o Império já se dizia o mesmo. Eeu
cito o Império, porque estão em moda as resurreições im-
periaes (W«o); porque as sombras do Império andam va-
gueando entre nós ; porque as próprias hostilidades repu-
blicanas contra a política financeira do Governo Provisorio
são, muitas vezes, simples manifestações inconscientes de
uma infiltração monarchica, habilmente insinuada nos es-
piritos mais adversos ao regimen extineto.

f
O PAPEL E A BAIXA DO CAMBIO 71
O que eu, ha pouco, vos affirmava, é o que o sr. A.
Celso sustentava, no antigo senado, em 1888. 1 Eu creio
que a autoridade do sr. A. Celso não será suspeita aos en-
thusiastas do projecto.
O sr. Amaro Cavalcanti :—Sem duvida, não será ;
í autoridade. Alas deve ser verdadeiro hoje, como hontem.
O sr. RüY Barbosa :—Dizia o sr. Affonso Celso :
m
" Sr. presidente, não só vão temo* habito», qve ãispen»em
grande mxma de numerário, mus temol-os que « exigem em maior
quantidade do que em outros paizes; para o que também concorrem
as nossas grandes distancias, a falta de transacçOes commerciaes
entre as povoações do interior e a disseminação da população.
" Na Europa e nos Esfados-Unidos ninguém guarda senão
pequenas sommas, destinadas as despezas de alguns dias ; aqui !;
o contrario; todo* trazem no bol*o, ou coneercam na gaveta quan-
tia* mai* ou menos a eu/fada*, de que não carecem immediata-
inenle. Fazem-n'o todos, desde as classes mais elevadas até o ope-
rário, que põe as suas economias em uma cinta, á espera de oppor-
lunidade para saccar uma letra em favor da familia ausente.
" Vem isso, em parte, de não existirem entre nós estabeleci-
mentos de credito, onde se possa com facilidade depositar e retirar
quaesquer quantias.
" 0 resultado é que uma certa massa de dinheiro, que se não
pôde bem calcular, ma* é considerarei, fica inerte, retirada da
circulação, e a diminue.
" Tudo isto prova não podermos organizar bancos agrícolas,
ou hypotbecarios, sem augmentar-se o meio circulante. (Apoiados.)
Sr. presidente, com relação ao nosso papel-moeda, occorre uma
circumstancia especial. Diz-se que o papel-moeda não emigra,
mantendo-se sempre dentro das fronteiras do paiz, a que per-
tence.

1
Sessão de 20 de junho.
72 A QUESTÃO FINANCEIRA
" Ao papel-moeda brasileiro acontece o contrario; sae do in\.
perio, e viaja. Quem se der ao trabalho de compulsar os manh
festos dos vapores, que nos vêm do Rio da Prata, verificará que
todos elles eonduzem-nos grandes somnias em notas do Thosouro,
" O sn. Silveira Martins:—Correm em Ioda a campanha do
Estado Oriental. "
Essa ditferença entre a importância apparente v a
importância effectiva da circulação é ura elemento de aU
eance fundamental. A ella, porém, accrescem outras con.
sideraçfies, não menos fundamentaes; a saber : as variações
na necessidade de meio circulante, conforme a natureza das
applicaçõcs do capital, e a maior ou menor facilidade, a
difficuldade, maior, ou menor, de circulação em cada paiz.
(Apoiados.) A perfeição, a este respeito,consistiria em operar
com a menor somma possível de meio circulante a maior
somma possível de travsacções. Ora, quanto menos adian-
tado se acha ura paiz, tanto mais lento é o circular da
moeda, e tanto maior somma delia, portanto, se requer
para o mesmo numero de operações, para a mesma quanti-
dade de permutas. Sumner, no seu livro sobre a circu-
lação americana1, que é a historia classica e a philoso-
phia mais severa da moeda naquelle paiz, discrimina o pesa
attentamente esses vários elementos, esses elementos capi-
tães do problema, a que os nossos metallistas de occasião
vão fazendo vista grossa.
Eis como elle se enuncia a respeito : (Lê)
" A quantidade convenienle da circulação em papel varia, con-
forme as exigência» de cada paiz quanto ao movimento da» permutas.
Prefixar o limite, em que se devera considerar legitimas essas
exigências, ninguém o poderia. Não ha regra, que o determine..
1
A Historg of American Currencu. Ed. de N. York, 1884.
Pag. 221.
»

O PAPEL E A BAIXA DO CAMBIO 7:1


pião dependf só da população, da riqueza, ou da somnia ilas per-
mutas. Não tem relação certa com alguma quantidade conhecida,
ou verificável. Umpaiz agrícola necessita de maior quantia, ■para. a
mesma população e a mesma riqueza, do que um paiz fabril. Um
paiz de população esparsa necessita, de mais. nas mesmas eircum-
stancias, do que outro, demasiadamente povoado. Um paiz. onde.
escasseiatn os meios de communicação, demanda maior nhundancia
no meio circulante, coeteris pari bus, do que um paiz bem servido
em vias de communicação. Ocioso seria tentar calculal-o a tanto
por cabeça, ou a tantos por mil de fortuna. Outro elemento, que. eco-
nomiza o uso do meio circulante, são as combinações bancarias e o
processo das rnrnaras de compensação (clearing houses). que, como
a extensão dos caminhos de ferro e todas as facilidades de trans-
portes. concorrem, para reduzir a necessidade d'esse instrumento
de troca. "
Ora, nós somos rim paiz quasi exclusivamente agrí-
cola ; sumos nm paiz <le população esparsissima; somos
um paiz atrazadissimo em meios de transporte (apoiados);
somos nm paiz, onde quantidades incalculáveis de meio
eircnlanté se imraobilizam em accnmulações particulares,
c onde o mecanismo usual das permutas, em estado ainda
quasi rudimentar, põe eontinnamente em contribuição o
emjirego material da minsla, real, ou representativa.
(Apoiados.)
Newmark, invocado, em 1888, jjelo sr. A. Celso,
dá-nos a Ver como, nos mercados monetários de Londres,
Paris, Nova-York, os negocios se liquidara por meio de
lettras, ordens de pagamento e cheques na razão de t)0 ^,
cm bilhetes de banco lia de 9 e na dc 7 ^ cm nume-
rário. O metal, reunido ao papel bancário, eoueorre ape-
nas na razão de 10 fé. Tudo o mais se reduz ao jogo de
combinações, utilizadas para evitar o emprego de meio cir-
culante.
10
74 A QUESTÃO FINANCEIRA

O sr. Amaro Cavalcanti :— E ao jogo de papeis


de credito, que se podem usar subsidiariamentc, e que nós
não temos.
O SR. Ruy Barbosa :—Maurício Rlock, resumindo
recentemente a estatística do deposito dos bancos de emis-
são nos Estados-Unidos, mostra que 4õ c/c sobre o
total d'esses pagamentos se realiza em cheques, e mais de
46% em movimentos da Clearing House. Isto é, no jogo
dessas transacções, que tão gigantesca somma de valores
representam, não ha deslocação de meio circulante senão
na diminuta porcentagem de 8 para 92. 1
Quão incalculavelmente superior a essa não é, entre
nós, a tradição, a remoção, a cxhibição real da moeda nas
transacções do mercado ? (Apoiados.)
Prescindamos, porém, d'esse aspecto da questão. Bas-
taria, ainda assim, para nos impor a necessidade de uma
circulação muito mais copiosa do que a da Europa e a
da America do Norte, a vastíssima extensão do nosso ter-
ritório c a disseminação incomparavel das populações en-
tre nós. E' o ponto especialmente considerado por um dos
economistas europeus, que mais ev-profaiso se occuparam
deste assurapto. (Lê)

"De que pôde depender a quantidade de circulação fiduciari#


existente n'um paiz ? A circulação fiduciaria tem a sua norma
quantitativa na qualidade das permutas, que se realizam ; porque
o papel flduciario substitue a moeda, e a quantidade de meio cir-

1
" No hace mucho, yo notaba un dato estadistico sobre la
circulacion en New York, dei cual resulta que noventa por dento dc
la circulation total se hace em chieques. "
N. A. Calvo ; Introdvcçãn & HiMoria Finannera dc Io» Estado*
Unidos por A. Bolles, traducida por A. de Guerrico. Vol. I. Buenos-
Aires, 1887, pag. 38. Jnnrnnl [Link] Econnmistes. abril de 1891.
O PAPEL E A BAIXA DO CAMBIO 75
cuianle determina-se, ou se trate de moeda metallica, ou de billie-
tes de banco, pela quantidade das trocas, dividida pela rapidez com
que o meio circulante, graças á perfeição fias vias e meios de trans-
porte. pàde transmittir-se de mão á mão. " 1
Afa.s, ainda quando abstrahissemos de todas estas dif-
fereuças, isto é, ainda supjmndo ao Brasil um território
tão limitado e uma população tão compacta como a das
regiões ouropéás, ou a da jxtpnlosa republica anglo-ame-
ricaoa, a nossa emissão actnal 6 exignissima, comparada
a d 'essas nações.
Dividida pelos nossos 15 milhões de almas, a nossa
circulação, boje, de512.0U0 contos, representa uma quota
do por habitante. Se essji emissão for elevada a
600.ÍH)0 contos, nos termos do projecto do governo, a
proporção per capita, ainda assim, não passará de 408000.
A França, modelo a cuja excellencia não me poderão
objectar, com uma população de 39 milhões de homens,
conta uma circulação fiduciaria de 3.500 milhões de
francos, que já se cogita em elevar a 4 milhões. 2 Man-
tida a somma actnal, o quociente por indivíduo 6 de 80
francos, ou," digamos, a um cambio médio, 408000. Au-
gmentada a 4 milhares, a porção por cabeça seria de 102
francos, ou, segundo a mesma equivalência, 518000. Nesta
hypothese, o excesso, em relação a nós, ó de 188000 por
habitante, e de 78000 na primeira.
No Estados-Unidos as emissões se distribuem na ra-
zão de 8 23, 45, isto é, 478000 por habitante. Ora, em con-
fronto d'este, o nosso quociente individual (338000) 6

' DeJohaxnis; Le Jlanche de emmione e il credito in Italia.


1888.2 Pag. 100.
Fouhnikh de Flaix : Organisat. eomparative de la Banque
de France et des banques de circulai. Paris, 1891. Pag. 32.
76 A QUESTÃO FINANCEIRA

42, 4 % inferior. E inferior continuará a ser, ainda quando


elevemos a circulação actual a 600.000:000$, correspon-
dentes a 40$000 por cabeça.
O sr. Américo IjObo:—Mas lá o papel é conversível.
O sr. Rrv Barbosa ;— Isso nada faz ao caso. Salvo
se se pudesse attribuir ao papel de curso forçado maior
elasticidade, capacidade maior de circulação do que ao
papel eonversivel, quando, pelo contrario, a realidade é
antes o opposto. Mas a verdade (i que, se as transacções e
condições de um pai/, reclamam certa somma de moeda
Mnciaria, a necessidade é sempre a mesma, seja essa moeda
eonversivel, ou inconversivcl. {Apoiados.)
Quero dar por um instante, porém, que tenha razão o
nobre senador por Minas Geraes. Tomemos então, nos
Estados-Unidos, uma época anterior aos pagamentos á
vista : o anno de 1865, por exemplo. O papel inconver-
sivcl correspondia, nesse tempo, a $20.57, ou mais de 418
por habitante, quociente mais de 8$000 superior ao nosso
presentemente.
Attentemos agora, porém, na distribuição do povo
pela área, que eUe occupa em cada paiz. A circulação é
tanto mais rapida, quanto menos extensa a superficie habi-
tada, quanto mais densa a população.
Ora, no Brasil, a população chega a ser rarefeita, ao
ponto de corresponder a 1 habitante por 10 kilometros
quadrados. Tomemos, porém, a media, que é de 1,7 por
kilometro. Nos Estados-Unidos a proporção por kilometro
sobe a 13 habitantes. A densidade é, portanto, alli, oito
vezes maior que a nossa. A circulação monetária torna-se,
pois, oito vezes mais fácil ; o (pie eqüivale a ser oito vezes
mais abundante,
O PAPEL E A BAIXA DO CAMBIO 77

Em França, o território (528.400 kilometros qua-


drados) é quinze e meia vezes menor do que o nosso
(8.300.000 kilometros quadrados). Sob este simples
aspecto, por conseqüência, o poder circulante da moeda 6
quinze vezes mais activo alli do que aqui ; o que vale
tanto, quanto a existência, naquelle paiz, de uma circula-
ção quinze vezes mais copiosa do que a nossa. E' enorme
a diffbrença ? Pois bem : a comparação das densidades
entre a população franceza e a brasileira vem nos collocar
cm inferioridade muito mais desmesurada ainda. Km-
qtianto o Brasil enumera 1,7 habitantes por kilomctro (pia-
drado, a França conta, pela mesma unidade métrica de
terra, 72 habitantes. A população alli é, portanto, 43 vezes
mais es[>es8a ; o que eqüivale a uma quantia de meio cir-
culante f/uarmUi e três vezes mais ampla.
Notai que não levo aqui em conta a nossa inferiori-
dade no desenvolvimento do systema de transportes, na
actividadc do movimento economieo, no habito de não
immobilizar o dinheiro em reservas domesticas, no uso das
equivalencias commereiaes destinadas a representai-o, sem
cmpregal-o dircctamente. Como ha, pois, ainda quem
continue a arguir de excessivas as nossas emissões ? Que
espirito desprevenido não sc revoltará diante deste para-
doxo ? {A-poiadox.)
O su. Amaro Cavalcanti :— E note-se que sc
trata de paizes, cujas industrias estão feitas, e onde o meio
circulante apenas serve como simples laço, ao passo que,
entre nós, o meio circulante entra como factor.
O hr. Rby Barbosa :— Se o europeu, que senten-
ccia contra nossas instituições, sem conhecer as nossas cir-
eumstancias, sem ter a minima idéadas id\ osincrasias do
78 A QUESTÃO FINANCEIRA

nosso paiz, estudasse aqui, de vim,a» peculiaridades d'esta


questão, não ouviríamos os despropósitos, que a este res-
peito estamos ouvindo, ha um anuo. {Apoiados.)
Tenho aqui duas apreciações de penuas estrangeiras,
publicadas o anno passado em periódicos europeus e,
escriptas uma por um americano, outra por ura inglez,
sobre o problema do nosso meio circulante. Ambos consi-
deram moderada, para as nossas condições, uma circulação
de 500 a 600.000 contos. Ides ouvir; {Lê)
" A emissão de i. 51.700.000", diz o primeiro, "não é, para o
Brasil, volume sufüciente de meio circulante. A extensão do paiz
é inimensa; e o raro uso de cheques, com o haliito, commum alli,
de relerem os indivíduos em seu poder largas quantias, em vez
de deposital-as nos bancos, toma necessária no Brasil uma emissão
per capita muito maior do que nos Estados-Unidos da America, ou
em Estados europeus como a França,ou a Grã-Bretanha. Os pequenos
negociantes, os taverneiros, por exemplo, no Rio de Janeiro, apenas
excepcionalmente depositam nos estabelecimentos. De ordinário
preferem ler comsigo o seu dinheiro até á época de pagamento aos
importadores ou negociantes em grosso, satisfazendo então os seus
débitos com as sommas accumuladas em casa no decurso de seis
a nove mezes. O mesmo succede com as classes, que vivem de
sulario. Um homem, que perceba, supponhamos, um salario de
um conto de réis, não o recolherá a um banco ; arrecadal-o-ha na
gaveta para as suas despezas correntes. Os agricultores e outros
habitantes do interior amuam grandes sommas, para satisfazer ás
suas necessidades ; e esse dinheiro leva mezes, ou annos, para ir
ler aos bancos. A receita das alfandegas, em vez de se depositar
nos bancos, e por elles transmittir-se para o Rio de Janeiro, accu-
mula-se em sommas importantes, expedidas periodicamente pelos
paquetes para a capital. Sei, por exemplo, do uma somma de 800
contos aferrolhada mezes naalfandega do Pará, até ser transpor-
tada em um vapor para a capital, viagem de treze dias de duração
nos melhores vapores." •

' A. M. Gibson ; No Ecominist de 23 de dezembro de 1890.


pag. 157-1.
O PAPEL E A BAIXA DO CAMBIO 79

O segundo manifesta nestes termos o sen parecer: {Lê)


"Uma emissão dê 45.000.000 não é excessiva para este paiz
cujas exportaçOes annuaes passam de X. 25.000.000 só em café,
borracha e assucar. O paiz é vasto, e grandes sommas de dinheiro
ficam praticamente immobilizadas no remoto sertão, nos centros
de negocio, para objeclos commerciaes." 1
E quando ó, senhores, que a emissão autorizada pelo
Governo Provisório começou a incorrer em excesso?
Antes do decreto de 10 do dezembro, que creou o
Banco da Republica, a somma da circulação existente e
aummciada, inclusive o papel do Thesouro, segundo a
legislarão em vigor, subia a 547.000:000^000.
Sommadas, com effeito, no seu todo, as emissões con-
cedidas antes do decreto, que fundou o Banco da Repu-
blica, teremos :
Emissão realizada em notas do Thesouro c
dos bancos 285.943:914$000
Emissão por se fazer:
Pelo Banco dos Estados-ünidos do Brasil 50.201:960$000
Idem Unifto deS. Paulo 34.20();000$fl0u
Idem Emissor do Sul 13.000:0001000
Idem do Brasil 28.700;400$000
Idem Naãonal do Brasil 21.44():140$000
Idem Emissor da Bahia 14.500:000$000
Idem da Bahia 10.000:000$000
idem do Norte 19.000:000$000
Idem de Pernambuco 30.000:000$000
Idem de Credito Popular 40.000;000$000
546.992;414$000

1
John Hakolti: No South-American Journal de 10 de agosto
de 1890. pag. 204.
A QUESTÃO FINANCEIRA

Seria sobeja essa quantia de papel ? Venha a resposta,


não de mim, senhores, mas de quem a possa dar insuspeu
tamente. No meio do temporal desfeito contra as finanças
do Governo Provisorio, eu buscarei o immaculado, o rege-,
nerador, o impeecavel, aquelle que contra nós vibra os raios
de mais alto. Bem vCdes que alludo ao ex-presidente do
Banco Nacional, uma especie de Júpiter Olympico nos
estampidos e clarões do manifesto financeiro. (Riso.)
Pois bem : quando a somma de ])a]iel já se elevava
a ó-[Link] contos, escutai como pensava essa autoridade
oracular. (Riso.) A informação é ministrada pelo Jorvot
do (Jommercio, na Gnzefilha de 21 de outubro de 1891, sob
a epigraphe O governo e o Banco Nacional; (TJ)
"Consta-nos que os srs. conde de Figueiredo e liarão de Sal-
gado Zenha, presidente e vice-presidente do Banco Nacional, pro-
curaram hontem o sr. ministro da fazenda em sua casa. e, enun-
ciando-se sobre a nossa situação financeira, manifestaram o seu mni»
absoluto apoio ao sr. ministro, pela direcção gae vai dando ao» tte.
gocios, especialmente pelas medidas concernentes á arrecadação
dos direitos de consumo em ouro e fixação do deposito necessário
a constituição das sociedades anonymas.
"Entendera elles que r»»n* medida» vieram segurar o credito do
paiz, e atalhar ejfieazmride a crise, que o abuso da especulação es.
fava promovendo; «. persuadida d'isto. a directoria d'aqueHe estabe.
lerímenio consignou-lhes. em sua ultima sessão, um roto de apjdauso.
"Acompanhando a orientação financeira dada aos seus actos
pelo sr. ministro da fazenda, são de opinião os dois eminentes ban-
queiros que «c torna, não só conveniente, como preciso e urgente, alar-
gar a emissão bancaria, que a principio poderia parecer excessiva e
arriscada, mas que agora as drcumstancias mostram ser de indecli-
nável necessidade. D isso <! prova, além de outras, a própria emissão
do Banco Nacional, que, aebando-se já elevada a mais de 40.000
contos, pouco se sente nesta praça, sendo quasi toda absorvida pelos
Estados, á medida que se vai realizando. "
O PAPEL E A BAIXA DO CAMBIO 81

Na Gazdilha do dia ímmediato, sob o mesmo titulo,


e no lugar de honra,.com precedência a todos os outros as-
sumptos, voltava o grande orgão a esse : (Lê)
"A noticia, que hontcm demos exclusivamente, sob este titulo,
não podia deixar de causar grande sensação nos círculos financeiros
e coinnierciars. Um representante do Jornal conversou com vários
banqueiros sobre o assunipto. Todos reconhecem que, sejam quaes
forem as conseqüências de novas emissões, o triumpho alcançado
pelo sr. ministro da fazenda na segunda-feira foi importante. Nem
um deiles contestou o facto da falta de dinheiro, o qual se tem es-
coado para os Estados ; um, porém, dos de maior peso, duvida que
esta immigração seja permanente, mas crê que, depois de servirão
movimento das safras, reaffluirá a esta capital.
"Disse ainda outro banqueiro proeminente ao nosso represen-
tanle : "O Banco Nacional fallou por nós todos : tamanha é a falta
de dinheiro na praça, que, no dia 30 de setembro, o Banco do Brasil
e o Banco dos Eslados-Unidos tinham juntamente 7.õl0:000$000
em caixa, quando só o London & Brazilian Bank, com pequeno ca-
pital, accusava no seu balancete 7.91õ:000$000."
A somma das emissões realizadas e autorizadas mon-
tava a 047.000 contos. E, entretanto, o illustre conde,
depois de consignar ao ministro, nas actas do seu banco,
um voto de louvor, ia á sua presença penitenciar-se da
guerra, que lhe promovera em periodo anterior da sua ad-
ministração financeira, e reclamar-lhe o alargamento da cir-
culação, como providencia não só util, mas "precisa, ur-
gente e de indeclinável necessidade ".
Que fez o ministro ? Cedeu á instância d'essas recla-
mações, solemnemente articuladas, em com missão especial
dos seus collegas, pelo banqueiro, que, na linguagem dóelles,
"faltava por nós todos Acquiesceu, deferiu aos postu-
lantes. Pois bem : o que, nas palavras d'e]les, se lhe exigia
11
82 A QUESTÃO FINANCEIRA

então como "necessidade urgente o indeclinável", hojclhV»


imputam a crime esses mesmos, qiieIh'osnpplicavam como
salvação.
Continuemos, poróm, senhores, a nossa exhumação da
verdade, pisada aos pés de tantos interesses. Aeeedi {\ voz
do commercio, interpretada pelo presidente do Banco Na-
cional. Desenvolvi a emissão pelo decreto de 10 de dezem-
bro, que constituiu o Banco da Republica. Kram excessivos
os limites da emissão, (pie nesse acto lhe fixei ? Ninguém
o disse ; ninguém, nenhum dos tonantes de boje.
Decorreram mezes. Ia o Banco da Republica encetar
as suas funeções. Na vespera, no dia 19 de fevereiro, a lin-
guagem do Jornal do Oommrrrio, o maior dos nossos or-
gãos de publicidade, ainda era esta : (Lê)
"Não tratamos de saber se a som ma de 600.000:000$ em papel-
moeda é, ou não, excessiva ; porque, ftn um paiz que pom/f vm aj»-
tema muito primitivo de permula» interna», ninguém f. rapaz de
fixar definitivamente o quantum do meio circulante neceniarw ás ope-
rações eommerciaes, ás industrias, etc."'

Ainda então não se acoimavam de desmedidas as pro-


porções dadas pelos actos do Governo Provisório ao nosso
meio circulante. Passaram tempos. Jã se estendia jielo
mercado a emissão do Banco da Republica. Havia mais de
dois mezes que elle funccionava ;ea opinião do Jornal do
Commercio ainda era esta : (Lê)

" O facto é que nunca o nosso commercio legitimo esteve em


melhores condições do que as em que está hoje. Qualquer banqueiro
dará testemunho, não só do volume de transacções, mas do modo
prompto, porque as estão saldando.
" A incerteza que existe aqui, provém das emissões de papel
que não Um sido applicadas eom critério, e da falta de prudência da
O PAPEL E A BAIXA DO CAMBIO 83
parte de muitos homens, que, pela sua posição e responsabilidade,
tinham obrigarão de conservar-se fora do torvelinho do jogo." 1
Contra a quantidade da emissão ainda não seboqne-
java reparo. A]nuas se eritieava o uso d'ella, a sua appli-
cação injudieiusa. Isto ó, não se culpava a lei, não se
reprovavam os meus actos. A execução, era matéria alheia á
gerencia do governo, é que era errônea, no parecer d'esâes
apreciadores.
E não era s'i a imprensa menos suspeita que se pro-
nunciava assim. Era, com ella, o commercio; eram os
bancos ; era todo o mundo das finanças. A praça agitára-
se, procurando sondar as origens da pressão cambial, que se
exaggcrava. Cma commissão de banqueiros constituiu-se,
para proceder a um exame, I Ias suas mãos sahiu um parecer
maduramente reflectido. K esse parecer, ácerca da especie,
reza assim : {Lf)
" Além d'estas causas perues e patentes, alguns dos signatários
d este parecer opinaram que podem concorrer lambem para a de-
preciação da nossa moeda a emissão de papel bancário e a cobrança
em ouro dos impostos aduaneiros. A maioria, porém, opina, quanto
á emissão bancaria, que, /tos imites actvaee, e mesmo ampliada
prudente, e gradaiívamente, não pôde ella por si só concorrer para a
baixa do cambio.
" Releva, porém, reconhecer que a transformação do trabalho
agrícola e o desenvolvimento das industrias, disseminadas por uma
enorme extensão do paiz, obrigando ao pagamento de salarío a
todos os trabalhadores ruraes e a operários de toda a especie, empre-
gados na conslrucção de estradas de ferro, melhoramento de portos,
exploração de minas, fabricas e usinas, exige hoje muito maior sommn
de meio circulante, da qual grande parte permanece por muito
tempo inactiva no interior do paiz, relida não só pelos próprias

' Xa "Gazelilha", em 7 de abril de 1891,

•>
84 A QUESTÃO FINANCEIRA
operários, como principalmente pelos industriais e. hwraiores, qnr
são forçados a ter somnms avultadas em deposito, para acudir ás
suas necessidades, em virtude do difficil e moroso transporte do
dinheiro a tão longiquas paragens ; provindo d'ahi que a sornma
effectivamentc em circulação è muito menor do que a totalidade da
emissão. "
Apenas uma diminuta minoria na com missão, alguns
dos signatários do parecer de 14 de abril, suggerirama
hypothese de que a emissão tivesse parte na producção elas
circumstancias actuaes. Não o afirmavam. Insinuavam
dubitativamente que essa poderia, talvez, ser uma, entre
varias causas. Mas a generalidade da coramissão bancaria
não percebia tal relação de causalidade. Approvava a
emissão feita. Opinava pela sua expansão gradual.
Succedem-se mezes e mezes. As dificuldades exacer-
bam-se. A pressão commercial toca ao seu período agudo.
Detona a tempestade contra as emissões. Pois bem : ainda
então é tão duvidosa a influencia d'ella.s, para esses resul-
tados, ou tão manifesta a sua irresponsabilidade nellcs,
que a Gazeta de Notiaias, era sucoessivos editoriaes, sus-
tenta a modicidade da circulação actnal, e não vê incon-
veniência no seu desenvolvimento até ã somma do
600.000:0008000. São delia, em 22 de setembro desto
anno, estas linhas : {LU)
NCio se nos afigura demasiada a somma de <>U0.U00;00O$O(fi
paru total da moeda de um puiz tão vasto como o nosso, e l0'
entrou n'uma phase de grande desenvolvimento."
Ora, de todos os adversários suscitados contia a politid1
financeira do Governo Provisorio,esse periódico foi incoo'
testavelmente o mais formidável, o mais tenaz, o mais if
transigeOte, o mais fogoso, o mais hábil. E, todavia, no qi,L'
O PAPEL E A BAIXA DO CAMBIO Só

respeita aos limites da omissão, elle não comprehende a


egjeama actnal, nãoadmitte que se possam filiar á quanti-
dade do papel circulante os contratempos commerciaes, por
que passamos. 1
Nesse alvoroto contra a emissão, nessa cruzada con-
tnl ella, nesse jroljxal-a sem tréguas, não se pode ver

UI1i effeito natural dos factos, um movimento reflexivo


da opinião. E' uma guerra de senha, uma guerra de
moda, ou uma guerra de enxurrada. Os que applaudi-

1
"Em paizes como o nosso, o mal das emissões do papel
inconvertivcl não eslá tanto nas próprias emissões, como fio em-
prego que lhes é dado. Tenha o banco, que goza da faculdade de
einiUir, o caracter de regulador perfeito das verdadeiras necessi-
dades do meio circulante, seja elle um thennomelro exacto da
urgência o das conveniências das transacções, e as emissões terão
attcimado, pelas vantagens do seu emprego produclivo, as condições
sua inconsistência corno papel inconvertivel.
"O plano lixa o máximo da emissão em 600 mil contos e esta-
belece as condições do resgate.
"Preferíamos, corno dissemos, a limitação da emissão á que já
ps lã em circulação; mas não nos parece que o que fica a emittir,
possa provocar perturbações na vida econômica do paiz, desde que o
.roverno fiscalize rigorosamente essa nova emissão, não aaiitorizanrlo
senão no caso delia se tornar urgente e imprescindível.
"Dado o desenvolvimento que tiveram todas as industrias,
dado o accrescimo de necessidades que todos reconhecemos, não se
nos afigura que, em lhese, ninguém possa considerar excessivo, para
um paiz como o nosso, o meio circulante de 600 mil contos, sujeito
ao resgate, que pode ser accelerado, se houver tinoe critério na
alia administração da nação."' Onzeta de Noticia», editorial de 2) de
outubro de 1891.
"O plano do governo, como já provámos, restringe a faculdade
da emissão de mais de 700 mil contos a 600 mil. Destes estão em
circulação 512 mil.
"Não havendo outro meio circulante senão a moeda fiiluciaria.
nós desejaríamos ser convencidos de que, tendo de ser applícados a
salários da lavoura cerca de 100 mil contos, ha excesso de nume-
rário para o movimento industrial e commercial de ura paiz, que
se acha n'uma caracterizada phase de expansão e desenvolvimento.
"Este ponto parece-nos de capital importância, para ser levado
em conta nas providencias, que se acham em elaboração." Gazeta
de Noticia», editorial de 23 de setembro de 1891.
86 A QUESTÃO FINANCEIRA
ram as cruissOes, os que as promoveram, os <pie as cpii-
zeram alargada até onde o Governo Provisorio as alar-
gou, os que depois não tiveram contra ella, durant* •
mezes e mezcs, nas posições mais resjxmsaveis da im-
prensa, unia phrase de censura, despertam repentinft-
mente, agora, descortinando, por intuição instantânea, «>
que até então não haviam entrevisto na contemplação
diuturna dos tactos.
Mas, senhores, se entre pheuonicnos extraordinários,
enormes, como a haixa actual do cambio e a expansão
do meio circulante, a dependência é sensível, é certa, õ
evidente, como agora se pretende, os profisslonaes, o-s
technicos, os competentes, que não preseuliram esses re-
sultados, padeciam de cegueira inexplicável. Conseqüên-
cias de tamanha vastidão não podiam passar despercebi-
das a espíritos sagazes, amestrados, seguros, como os qiio
hoje dogmaticamente explicam todos os males pela emis-
são, em cujo desenvolvimento, ainda ha pouco, não dir-
eerniam excesso. {Apnladoa.) Ou então não foi do Go-
verno Provisório a incapacidade : a incapacidade 6 nacio-
nal. E não nos resta outro remedio contra ella, senão
mandarmos estudar estas cousas por uma commissão de
inglezea. {11 Lio.)
Venham elles. Mas que ao menos, para julgar doH
factos, e afferir as responsabilidades correspondentes, tra-
gam da nossa historia contemporânea alguma tintura mais
do que a que possuem entre nós as autoridades indígenas.
Se a sciencia européa souber que, em 1888, os estadistn-s
do império avaliavam em (100.000 contos as nossas ne-
cessidades de meio circulante, naturalmente concluirá que
não podiam orçal-a em menos dessa quantia os estadistu-s

í
O PAPEL E A BAIXA DO CAMBIO 87
^publícancs, dois annos depois, quando a simples trans-
forrn^Ǯ0 <'0 regimen do trabalho, substituindo a escravi-
dão pe'0 salariado, impunha ás relações industriaes c cora-
i1iei-c'iaes uma expansão no meio circulante igual, jwlo
mcnoS a 20 ^ dessa imjwrtancia, isto é, a um angmeuto,
pelo menos, de 120.000 contos. (Apoindox.)
Se os nossos curadores londrinos se deslocarem da
Cih/, Para vir estudar a questão no theatro d'clla, hão de
fazei-o com mais rainuciosidadc pratica e menos rhctoriea
do que entre nós se costuma. Chegará então ao seu conhe-
cimento que á gratuidade na cultura dos campos c na in-
dustria das cidades suceedeu aqui o labor remunerado, re-
presentado por uma população calculavel, talvez, em um
milhão e tresentos mil trabalhadores, correspondentes, na
somma dos salários, a 115, a 120 ou a 140.000 contos dc
despeza annual. 1 Essa necessidade não existia em 1888.
Existe hoje; c, existindo, ha dc satisfazer-se mediante
auginento equivalente na emissão. (Apoiados.)
E, se eu tiver a honra, que não mereço aos meus ag-
gressores, de ser lido na justificação dos meus aetos, no
meu relatório, escrupulosamento baseado em estatísticas
officiacs, o inquiridor estrangeiro convencer-se-ha de que
a absorpção do meio circulante pelos nossos centros agrí-
colas cresceu, de um semestre para outro, após a emancipa-
ção dos escravos, em proporção superior a 500
Accrescentando esse a todos os outros elementos, que
se juntam, para nos obrigar ao alargamento do meio cir-
culante, podereis agora dizer-nos em quanto deveria o Go-
verno Provisório estimar a somma da emissão indispensável
1
Jídafnrio do ministro da fazenda Jduy Jiarbosa. Rio, 1891.
Pags. 85-92.
88 A QUESTÃO FINANCEIRA
ú vida econômica do paiz, quando o governo imperial
a avaliava em 600.000 de papel bancário, sobrepostos a
180,000 contos do papel do Thesouro. {Apoiados.)
(3 hr. Américo Lobo : — Mas, se a emissão é pe-
quena, porque os bancos não a completaram ?
O sr. Rüy Barbosa : — Forque as emissões não se
despejam de um jacto sobre o mercado, e porque os ban-
cos, com a baixa excessiva do cambio, encontraram difíi-
culdades invencíveis na acquisição das espécies necessárias
á constituição do lastro.
Afinal, senhores, se eu ainda precisasse de evidencias,
para estabelecer esta evidencia evidentissima, a racionali-
dade do critério, com que, neste assumpto, procedeu a
primeira administração republicana,—este só argumento
me bastaria : o regimen firmado no projecto dacommissão
mixta, antes das modificações, a que o submetteu a camara
dos deputados. Como se houve, effectivãmente, o projecto ?
O projecto cortava a emissão do Banco da Republica no
ponto onde está. Mas conservava aos bancos de emissão
regionaes as suas faculdades emissoras, e ampliava-lhes o
prazo, emaneipando-os do limite do dois annos, que lhes
prescreve o decreto de 7 de dezembro de 1890.
Ora, claro está que, se os honrados membros da com-
missão vissem na superabundancia do papel a origem dos
infortúnios actuaes, a solução, a respeito dos bancos regio-
naes, seria outra. Se o que detinha a commissão fosse
apenas a consideração de respeitar-lhes os direitos, bastava
mantel-os nos limites, em que o acto da fusão bancaria os
localizava. Logo, abrindo-lhes aensancha de um periodo
maior para o exercicio d'esse privilegio, reduzido, em faoe
do decreto de 7 de dezembro, a trese mezes de duração
O PAPEL E A BAIXA DO CAMBIO 89
apenas, o projecto da commissão mixta indirectamente, in-
voluntariamente, confessa a existência de necessidades con-
traídas á fixação absoluta do meio circulante nos limites cm
<jiie presentemente está. {Apoiados.)
Mas, se o abatimento actual do cambio não tem a
sua causa na quantidade da circulação fiduciaria, quaes
então as causas d'essa anomalia singular ?
Senhores, o numero d'essas causas, o concurso simul-
tâneo d'ellas é tão sem exemplo entre nós, quanto sem
parelha são, em toda a nossa historia, as proporções do
phenomeno que nos impressiona.
Essas causas vém de longe. E, quando outras não
houvesse, para imprimir á baixa, natural por cffeito de
vários motivos preexistentes, uma acceleração violenta,
bastaria a attitude do meu sueeessor im media to em relação
á política financeira do Governo Provisorio, attitude a
que vieram contrapor-se, a que se estão contrapondo, no
mais notorio contraste, os actos e planos do actual mi-
nistro da fazenda. Ao passo que particularmente me escre-
via, era carta que como curiosidade conservo no archivo dos
meus papeis preciosos, felicitando-me pelos meus "serviços
á patria", que s. ex., por um requinte de amabilidade, qua-
lificava de "incomparaveis",—de publico outra cousa não
fez, em longa successâo de actos, senão ostentar o proposito
de contrariar, nodoar e abalar as reformas financeiras do
seu antecessor.
Sua intervenção, com os restos da autoridade legisla-
tiva que ainda lhe proporcionava a dictadura expirante,
sua intervenção no regimen das sociedades anonymas foi
uma catastrophe. (Apoiados.) E a retrai tação, a que s. ex.
se viu obrigado em outro decreto, quasi immcdiato, nem
12
90
A QUESTÃO FINANCEIRA
<ie leve attennou as conseqüências calamitosas, que a sua
primeira medida instantaneamente semeára. {Apoiados.)
'' meii decreto de 13 de outubro, acolhido com o mais vivo
apoio em todas as espheras da opinião, applicára aos ters-
vanos da Bolsa o correctivo gradual c discreto, epie as
eircumstancias permittiam. Em situação delicada como
essa, a cura não podia tentar-se, senão poupando cuidado-
samente o organismo do enfermo. As loucuras de uma crise
de especulação não se cortam cirurgicamcnte, com a vio-
lência e o terror: sanam-se, digamos assim, pelos meios
physioh >gicos, a poder de hygicnc, com tolerância e lir-
meza, reprimindo as demasias, scln intervir nas fontes
espontâneas do movimento e da vida. (Apoindos.y Não
pensava assim o meu successor : o processo hypocratico de
s. cx. consistiu cm curar o doido, cortando-lhe a cabeça-
{1 filar ida de.) As transacções foram, de um momento para
outro, lulminadas de paralvsia. A praça retrahin-se toda-
A desconfiança e o pavor cerraram, cm espasmo irredu-
ctivel, os canaesda circulação commercial {apoia d cm) i suc-
cçdendo a uma exaggeração de activ idade, que devia repri-
mir-se pouco a pouco, a algidez, a adynamia, o collapso
orgânico, contra o qual não ha mais tonicos, nem revtd-
sn os, que possam operar reacção.
1'roudhon, no seu Manual do especulador de prava.
qualifica a Bolsa como a mais tremenda potência dos
tempos antigos e modernos, na paz e na guerra, superior
aos templarios, aos dominicos, aos jesuitas, aos tribunaes
wehmicos, á maçonaria, á imprensa, ãs milicias dos papas,
aos exercites dos conquistadores, ás organisações myste-
riosas dos revolucionários. O nobre ex-ministro da fa-
zenda, dietador ás direitas, não podia tolerar ao seu lado
O PAPEL E A BAIXA DO CAMBIO ítl

omnipotência estranha (riso): atestou-se, pois, eoin o


iiiüiistro, deslocou sobre elle o peso cyclopeo do seu poder,
ac']iatou-o. (líiso.)
Do mesmo mexi o como os constituintes de 1890 pu-
zeram timbre em nos dotar de uma constituição mais
adeantada, mais liberal, mais descentrnlista, mais tudo que
a americana, não havendo liberalismo, nem democracia,

nen» federação, que lhes bastasse, ao ponto de ficar o go-


verno da União sem terras, nem propriedades, oceupando
um domicilio quasi de aluguel, — assim se queria também
uma Republica limpa de especulação, uma bolsa estreme
de jogo, uma praça escorreita de transaeções duvidosas.
(Ri*"-)
Os ingle/cs, nossos resjieitaveis censores, tiveram
assás de bom senso sempre, para não cultivar esse ideal.
Xeiihum pai/ registra períodos de jogatina mais frenética,
inundações de emprezas mais excêntricas, nem mais devas-
tadoras epidemias de abusos sobre organizações de socie-
dades anonvmus. Ix-iam o livro de Franeis sobre a bolsa
de Londres, The London Stock Exchange, Que phantasia
poderá coni|K'tir com as extravagâncias da realidade histó-
rica naquelle pai/ '.' I'm delirio dc especulação talou a
Inglaterra de 1X21 a 182Õ. Quems uma ligeira idéa da
inventividade dos projectadores de companhias naquella
terra ? Pois saljei que se chegou a especular sobre a pedra
philosophal ! (Hilaridade.) (Lê)

" Entre us companhias, que diariamente surgiam, formou-se


uma. para fabricar ouro. Segundo os annuncios, o bom êxito era
certo. As acções foram arrebatadas com furor. Mas, concluída a
sua coIlocação, os açç.jonistas foram advertidos de que, como o
custo da fabricação de uma onça de ouro se elevaria ao dobro dq
í)2 A QUESTÃO FINANCEIRA
preço de uma onça de ouro natural, força era dissolver-se a com-
panhia, guardando-se as entradas realizadas, para cobrir as des-
pezas até então feitas. " 1 {HUaridade.)

A que se reduz, em cotejo com esses rasgos do gênio


europeu, a fertilidade dos nossos inventores de prospectos
industriaes ? Querem envergonhar-nos a n6s, á. Republica
e á dictadura de 1889 com as extravagâncias da especu-
lação no Rio de Janeiro. Mas onde iria parar então a
respeitabilidade britannica, se lhe applicassemos essa pedra
de toque ?
Da Inglaterra fácil 6 a transição para a França. E
que paiz nos offerece espcctaculos de especulação em mais
extraordinária escala? Vêde o que foi alli a crise de 1882,
narrada por penna franceza; (U)

" Ha cerca de um mez que se declarou uma crise sem prece-


dente, e desde então reina soberana no mercado de Paris. Depois
de haver anniquilado a Bolsa de Lyão, accommetle as nossas prin-
cipaes cidades, onde os desastres commerciaes se entrelaçam a
ruinas financeiras... Qual é, no momento actual, a situação do
mercado financeiro francez, e mais particularmente a da Bolsa de
Paris? Responder-se-ha n'uma palavra: esse mercado cessou de
existir. Não está sómente, no dizer commum, de pernas para o ar,
subvertido, arruinado: está anniquilado. " 8

E de que resultou essa crise espantosa ? Exactamente


dos mesmos erros, dos mesmos vicios, das mesmas immo-
ralidades commerciaes, que arripiain agora contra a Repu-
blica Brasileira o pudor virginal dos mais matreiros lobos

1
Francis: Op. cit. Trad. de Durcflí, pag. 272.
8
Geoboes Ebstein ; La crise finaneiire de 1882. Paris, 1882.
O PAPEL E A BAIXA DO CAMBIO 93

Bolsa) disfarçados em furibnndos profligadores da es-


pgculaǮ0* Ollvi, senhores: {Le)
" O (lue fez o mal, o que produziu esta crise, é lerem-se creado
Uegocio® improduclivos em excessivo numero, sobretudo bancos, e
terem-86 diwipado as economias de muitos annos... Em ultima aua-
)ygej tudo estava em que, ha dois annos, a França empregava as
^uíis economias em emprezas, estereis ou imaginárias, e perdera
feitas suas economias... E', por assim dizer, outro resgate de muitos
rnilharf* de milhões, pago á especulação, como se pagou aos a/le-
rnãM 0 rell9ate de 1871. Resarcimos o nosso primeiro prejuízo de
Igíl com as economias ulteriores, accumuladas em 1872,1873 e
l874i l116 rt'fizeraln a fortuna do paiz. Agora a perda que acabamos
Ue soffrer, a de 1881 e 1882, não poderemos cobril-a senão com as
economias persistentes de 1882, 1883 e 1884. " 1
A França pagou, pois, á especulação, cm um só an-
n0 resgate igual ao que lhe custara, na guerra contra a
Allemanha, a libertação do território nacional. Ha abi
eomparação entro esse e o nosso quinhão de prejuízos ?
Quem se lembrou, todavia, alli de responsabilizar por
essas desgraças o governo republicano, ou de atalhal-as
por meio dc catanadas á Roldão e Oliveiros ? (Rim.)
O SR. Presidente:—Peço Ihtcnça para observar ao
orador que está terminado o tempo da 1* parte da ordem
do dia, pedindo-lhe que restrinja as suas observações.
Murros SRS. senadores :—Requeira prorogação de
hora.
0 sr. Saldanha Marinho (levantando-se) : —Peço
prorogação de hora. Não se pôde deixar em meio um dis-
curso d'esta ordem.
(Consultado o senado, resolve pela ajfirmativa.)

1
Léon Say : La Pnlitique financièrc de la France. dourml de*
Économistes. Nov. de 1882, pags. 158-59.
04 A QUESTÃO FINANCEIRA
O si!. Presidente : — C) sr. Ruy Barbosa pôde co^.
tinuar o seu discurso.
O su. Ruy Barbosa : — Se a França e a Injçla-
torra nações onde a cultura moral é tão profunda, onde
a economia 6 uma virtude tão generalizada, onde a expe-
riência mercantil 6 tão sagaz, não conseguem sempre evi-
tar as regiões funestas, onde rodopia o cyclone do jogo,
— que pretençâo é a nossa ao privilegio da marcagern
sem accidentes ? O nobre ex-ministro da fazenda fez como o
navegante, que, ao soprar do tufão no largo oceano, Cm
vez de curar da marcação e dos ventos, mandasse largar
ancoras em procura do fundo. Não ha casco, que resista a
essa manobra. O barco não podia fugir ás oscillaçõcs da
vaga, senão para se sepultar na immobilidade da voragem.
O nec pias ultra de s. ex. fez recuar, cm mui pe-
quena parte, a especulação improba; mas, ao mesmo tem-
po, matou a especulação honesta, os emprehendimentoe
úteis, os projectos fecundos. O decreto de 14 de fevereiro
foi um ataque de estupor no mercado. (Apoiailo#^)
A agiotagem c um principio morbido, tão subtil na
sua propagação e tão dilatado no seu campo, que as
leis destinadas a reprimil-a são mais ou menos lettra mor-
ta em toda a parte. 1 Para essa especie de perversões
moraes só as medicações lentas, os regimens gradativos.
Ingerindo de umfolego a droga, em vez de assimilal-a em
dóses fraccionarias, o paciente beberia o anniquilamcnto,

1
" Pur troppo la legtre in caso cTaggiotaggio è lettera morta,
perchè la sua applicazione è quasi senza esempio alleso dãmpossi-
bilità de la prova e perchè lutli vi sono eomplici." Piccinelu :
Apprezzamento dei valori pvMIH e deite operaúoni dl horta,, Milan»,
1891. Pag. 21»!.
O PAPEL E A BAIXA DO CAMBIO 95

em vez da cura. K, quando se vé o administrador nacional


das finanças operar d'cste modo, forçosamente a desconfi-
ança, a suspeita, o medo hão de apoderar-se dos unimos,
e marasmal-os. (Apoia/Ios.) Toda a gente enxergou desde
então no ex-ministro da fazenda a jiersonifieação de uma
idéa fixa, a demolição em svstema, o odio á situação dei-
xada pelo sen antecessor. E, entrevista á luz do primeiro
go]Ite desfechado, a persjtectiva de um radicalismo des-
truidor contra as finanças da primeira dictadura espalhou
pelo mundo dos interesses eommcrciaes uma impressão de
esmoreciiuento absoluto.
Não tardou que outro acto do meu successor viesse
confirmar essas apprehensòes.
Zelar a resjieitabilidade <lo estabelecimento, onde a
legislação em vigor assentara o centro da nossa circulação
monetária, era o primeiro dever do ministro da fazenda.
Proteger esse estabelecimento contra a especulação, elevar-
lhe o credito, promover a confiança publica nas emissões,
era servir ãs mais alta- conveniências naeionaes. Longe
d'isso, o nobre ex-ministro da fazenda inflingin-lhe pre-
juizos, que só de mão inimiga se poderiam esperar, com a
compra da emissão do Banco do Brasil, transacção dam-
nosa c indefensável, cuja responsabilidade pertence ao meu
successor. Já tive occasião de caracterizar, no Diário de
Xoiieias, era tres editoriaes, a importância d'esse erro,
para não dizer d'essc crime.
A emissão do Bancodo Brasil estava quasi eoncluida,
tendo clle, no Thesouro, apenas ura lastro disponível de
2.160:000.$. Esse lastro dava ao Banco do Brasil o direito
deemittir ainda 4.320:000$. Ao Banco da Republica, pelo
direito que lhe assiste á emissão no triplo, a acquisição
% A QUESTÃO FINANCEIRA

d'es3e resto de ouro depositado conferia a faculdade de


emittir 6.480:000$. Que fez o ex-ministro da fazenda?
Autorizou o banco adquirente a emittir, não sobre o lastro
disponível somente, mas sobre a totalidade do deposito já
penhorado á emissão do banco vendedor; isto é, autorizou
o Baneo da Republica a emittir 6.480:000$ sobre os
2.160:000$ livrese 22.840:060$ sobre a parte do deposito
jã absorvida pela emissão dupla do Banco do Brasil.
Por esse eontracto, pois, se legitimou uma emissão
cinco vezes maior do que a legalmente possível; livrando-se
o Banco do Brasil, ao mesmo tempo, da responsabilidade
de uma emissão de 45.000 contos, que veiu sobrecarregar
o Baneo da Republica, a troco simplesmente do direito de
emittir 30.000. Era uma transgressão grosseira do decreto
de 7 de dezembro ; era um acto de protecção escandalosa
ao Banco do Brasil; era uma ferida na reputação do Banco
da Republica dentro e fóra do paiz. E, sobretudo, em
época do cambio descendente, de murmurações contra o
papel-moeda, era uma providencia expansionista, uma
dilatação illegitima do meio circulante. (Apoiados.)
Não fui eu só que a capitulei assim. Não faltou, na
imprensa imparcial, quem a recebesse do mesmo modo.1
E esse golpe, desfechado a fundo no regimen financeiro da
Republica, repercutiu desastrosamente na Europa. Não

1
Étuile du Sud, 31 de março :
" Quando calculávamos o escoamento do ouro e as probabili-
dades de reerguer-se o cambio, não considerávamos como perigo
immediato a faculdade de emittir papel-moeda, autorizada aos
bancos de emissão, si ella se mantivesse strictamente nos limites dos
decretos, que a instituíram. Mus, eis que principiamos a transpor
esses limites; e nisso ha perigo... Este facto contribuirá para a de-
preciação do papel-moeda, e, portanto, para a baixa do cambio."
O PAPEL E A BAIXA DO CAMBIO 97

teremos aqui ura factor constóeravel de depreciação para o


nosso papel, um sério elemento para a baixa do cambio?
{Apoiados.)
Mas não se limitou a isso o contingente, com que para
esse resultado cooperou o governo actual. Instituindo a
cobrança, dos direitos de importação em ouro, tive a cau-
tela de premunir, no meu relatório ^ os executores
d essa medida contra a inversão, que sedaria nos seus
resultados, se o Tliesouro por cila se convertesse em atra-
Acssador e immobilizador da moeda mctallica.
Dizia eu: (Zé)
" Na execução cPesta medida, é essencial que a administração
b|e comprehenda o espirito, e a não adaltere, convertendo-a em
1,1610
de absorver e monopolizar, a beneficio do Tliesouro, o cabe-
dal Rietallico do nosso mercado. Entendida e applicada assim, eüa
s
cna, cm grande parte, contraproducente nos seus resultados. Sem se
'cgerir em operações da praça, e transformar o Tliesouro em espe-
culador, o (jue absolutamente não lhe é licito, cumpre ao governo
utilizar em proveito do movimento commercial, com discreção e
tiudeucia, essa aceumulàção de ouro, determinada pela cobrança
''os direitos de Alfândega, procurando entreter, por meio dVUe,
'una corrente de circulação, que facilite aos contribuintes os seus
deveres para com o Estado.
" Não digo que essa necessidade seja de ordem permanente,
'^•as, nos primeiros tempos, pelo menos, emquanto a nossa silu-
a
Çao financeira se não consolidar, a ausência d'essa precaução
desnaturará o regimen estabelecido, esterilizando-llie consideravel-
foeíite as propriedades bemíazejas."
Ora, jirecisamente nesse erro c qne foi cahir o meu
successor. E fPeSarte s. ex. mantinha do regimen esta-
'lelecido a parte onerosa, coarctando-lhe ao mesmo tempo
as
bineções bemíazejas. Era o meio de tornal-o odioso,
1
Pag. 331.
1S
98 A QUESTÃO FINANCEIRA
revoltar contra elle os interesses, desencaminhar em pre-
juízo d'elle a opinião, e leval-o a actnar sobre o cambio
como força deprimente. {Apoiados.)
O sr. Quintino Bocayuva :— Apoiado.
O sr. Rdy Barbosa :— No acto da minha adminis-
tração, que mandou proceder ao recolhimento dos títulos
do empréstimo interno de 1889, tinha eu em mira dois
fins : elevar o credito do Estado, economizando no orça-
mento os encargos annuaes dessa divida, e converter a
parte do lastro bancário empregado nessa operação em
elemento de alta no mercado cambial. O cambio resentiu-se
beneficamente, na época cm que puz por obra essa medida,
mercê da qual esse empréstimo se representa hoje, no mer-
cado, por uma somma apenas de 19.000, em vez de
109.000, que encontrei. O meu successor mandou sobre-
estar immediatamente nessa operação, eliminando, com
isso, da situação financeira essa influencia salutar. Mas
ahi não pararam os seus desacertos palmares.
A medida adoptadaem maio pelo governo, mandando
vender o ouro ao cambio da véspera, ou ao do dia, não
serviu, senão para aggravar as circumstancias. Por cila
não só ocoramercio continuou a ficará mercê da especula-
ção, como o proprio governo se entregou nas mãos da
agiotagem, estabelecendo que o preço do ouro fosse regu-
lado pelas taxas bancarias do cambio. [Apoiados.)
O sr. Quintino Bocayuva e outros j— Apoiado.
O sr. Ruy Barbosa :— Essa deliberação era tanto
mais temerária e absurda, quanto é notoria a distancia,
que vai entre essas taxas e a realidade do proprio cambio
effectivamente praticado pelos bancos. {Apoiados.) Com
effeito, a cotação official do cambio, entre nós, isto é, as
O PAFEL E A BAIXA DO CAMBIO 99

tabellas que os estabelecimentos expõem, obedece ás regras


de um jogo usualmente explorado por elles. Quando
querem sacar, vendendo cambiaes, os bancos baixam as
tabellas, fazendo cm particular concessões aos tomadores.
Quando lhes convém, pelo contrario, comprar letras, ele-
vam as tabellas, limitando-se a dar pequenas sommas,
salvo quando as trausacções versam sobre café; tabellas
que se reduzem logo depois de compradas as letras.
O sr. Amaro Cavalcanti:—Essa é que é a ver-
dade. Quem está no commercio, sabe que as cousas se
passam assim.
O sr. IIuy Barbosa : — E abi está, senhores, como
a acção oflicial, a poder de erros reiterados, trabalhou
inconscientemente para a baixa, ao mesmo tempo que, por
golpes insistentes, derruia a política financeira do governo
de 15 de novembro. Foi assim que vimos cahir por terra,
em muitos dos seus pontos capitães, o regimen economico
instituído sob o primeiro período da dietadura.
Quando um administrador, na applicação de refor-
mas delicadas c complexas, se reserva o direito de obede-
cer-lhes em certos pontos, e derogal-as em outros, substi-
tuindo pelo seu arbitrio pessoal os designios expressos do
legislador, e transtornando a harmonia delineada no plano
da lei,—a quem, na confusão que se seguir, tocará a res-
ponsabilidade dos males emergentes? Ao reformador,
cujas concepções, na applicação, se mutilam, se desfigu-
rara, se invertem, ou ao executor arbitrário, que desco-
nheceu e violou a correlação organica entre elementos
inseparáveis na reforma em execução? {Apoiados.)
Uma espccie, de obsessão, o impulso de uma força
singular parecia actuar sobre o meu succcssor, iuduzindo-o
100 A QUESTÃO FINANCEIRA

a conspirar som tregnas para esse abatimento crescente de


cambio, que devia ser mais tarde o esoolbo do proprio
governo, a que s. cx. pertence.
O acto do nobre ex-ministro da fazenda, remettende
para Londres 6.000 contos em ouro, depois de revogar o
meu despacho, que habilitava o governo a angmentar os
nossos recursos na delegacia do Thesouro, sem diminuir o
Hiovh existente no j)aiz, acecitando, na metrópole ingleza, o
deposito correspondente a uma parte da emissão do 11anco
de Pernambuco, foi mais um passo nesse caminho fatal-
Não faltou quem mostrasse a s. ex. os máos ctfeitos des-c
expediente. Mas o nobre ex-ministro era inflexivel na sua
politiea de varrer o ouro do mercado, armazenando-o, por
nm lado, no Thesouro, expedindo-o, por outro lado, para
o estrangeiro. O seu lemma poderia formular-se nestas
duas palavras: ilornietallizdr <r circuliição. (Apoiadox.)
Outras cireumstaneias vieram eonjurar-se aetivameute
neste sentido. O empréstimo do Banco Popular ao lis-
tado Oriental, erro pelo qual 6 também responsável o
governo, que não podia consentir nessa desnaturação das
funoções d'aquelle estabelecimento, desviou para o Rio
da Prata a som ma de 6.000 contos. N'um mercado como
o nosso, sensível em extremo á acção da mais ligeira
corrente metallica, essa dupla sangradura, a eliminação
d'esses 12.000 contos, devida unicamente á incompetên-
cia da administracção da fazenda, não podia deixar de
traduzir-se em conseqüências lamentáveis na taxa do
cambio. {Apoiado*.)
Essa extravasação do ouro avolumou-se inimensii-
mente por muitas outras perdas de origem accidentah
Enormes som mas teve o Banco do Brasil de remetter
O PAPEL E A BAIXA DO CAMBIO 101

inopinadameiite jiara a Europa, em conseqüência da sus-


])ciisão dos pagamentos })cl() Enylish Bank nf Bi ver Pinte.
Outras foram exportadas tamhem para além-mar, afim»
de realizarem a compra do Bnytinh Bnnk qf Rio de Ju-
neieo, effcctuada por uma associação nacional. A fusão do
Banco Nacional, originando largas [Link]çõos sobro a parte
dos seus títulos co 1 locados no outro continente, subtrahiu
tafiibcm importante somma dc moeda metalliea ao nosso
mercado. A penúria crescente do numerário aggravon-se
ainda com as grandes compras de eambiaes, destinadas á
realização do lastro das emissões sobre ouro.
Mas acima de todas essas operações se destacou o em-
préstimo da Companhia CJeral de Estradas de f erro. Era.
ao que me consta, uma operação de 14.000.000 libras
«terlinas, dos qnaes 12 milhões se deviam emittir na
Europa e 2 1/2 aqui. A emissão d'aqui realizou-se, graças
á confiança, que tinham os eapitaes brasileiros, de que
a verificação das suas entradas forçaria a emissão de Lon-
dres. Mas esta, segundo o eontracto com os banqueiros
europeus, estava subordinada a outras condições,verificáveis
aqui, e que não se verificaram. Resultado total: em vez
de recebermos ouro de Londres, mandámos para Lon-
dres, pelo contrario, milhão e meio, lõ.OOO contos em
ouro. isto é,senão falham as minhas informações, aca-
baram de limpar-nos quasi de todo o pouco metal, que
nos restava. Quinze mil contos em especies, exportados
ein sós três mezes, por conta de uma simples operação par-
ticular !
Reunindo-se a esse inaudito concurso de causas, con-
vergentes todas para o mesmo resultado, um laeto novo
tia historia econômica do Brasil veio inverter contra nós a
102 A QUESTÃO FINANCEIRA

corrente de um dos factores que mais eminente papel rc


presentaram aqui, em todos os tempos, na elevação das
taxas cambiaes.
Os capitães estrangeiros, apprehensivos deante tia re-
volução, retrahiram-se de nós ; os capitães brasileiros,
pelo contrario, profundamente çonfiados na 6ra republi-
cana, e Julgando ver iiíHjndustrias já creadas entre nós
pelo dinheiro europeu o emprego menos arriscado, mais
prompto, mais fruotifero, emigraram, absorvendo-se na
acquisição d'ellas. 1 Dest'arte, a transfusão de substancia

1
"Mais Ia libération des noirs, en créant le regime du salarial,
a renda bien rnoins productive pour le capital fancienne culture, et
c'est ce qui explique ce grand déplacement de capitaux qui a'opère
au Urèsil, ce rt/aA general des Brésiliens,— fuvorisé par la nouvelle
legislation sur le crédit, les sociétés, le transferi de la propriété
foncière,—vers les entreprises indnsirlelles et les valeurs inobilières
quiassurent une rémunéralion plus grande au capital.
"Ce déplacement logique est tellernent prononcé,qu'il provoque
jusqu'au rachat, sur une grande échelle, par les nouvelles sociétés
ou les capitalisles indigènea, de fonds d'Etat, actions de banque et
valeurs industrielles de leur pays, que détienl TEurope, et déjà
même les capitaux du Brésil vjennent créerdes Banques de ce côté-ci
de TAtlantique." Revue Franco Sud-AinèrUmne, 5 de março, 1891.
"Outre la politique, qui se mel en tout et partout, les achats
d'or pour le paiement desdroits dlrnportation, au Brésil, pourcelui
des actions de la Banque nationale, que les capitalistas de Rio ont
acheté à Paris; pour le rachat de Pactif et du passif de PEnglish
Bank, à Rio de Janeiro, etc.; ont augmenté à lei poinl la demande
de numéraire qu il est même surprenant que le taux du change se
maintienne à environ 19 1/4 deniers, ou 405 reis par franc.
"Nous sorames en ce momcnt en présence d'un phénomène
économique bien curieux. Naguère, les capitaux européens érai-
graient au Brésil pour y créer de nouvelles industries, conslruire
des chemins de ter, exploiter des mines et des lignes de navigation,
fonder des établissements de crédit, etc.; aujourd'hui, ces capitaux
retournent en Europe, ncn pas parce qu'ils se trouvent mal chez
nous, mais parce que nos capilalistes s'efforcent de rachelertant
qu'ils peuvent de ces industries, et en seraient peut-être maitres
de la plupart si Pagio de Por, en rnontant à 28 0/0, ne leur avait
pas montré qu'il était lemps de s'arrêter.
"Ne nous plaignons pas trop de la politique, si le taux du change
continue à lléchir. lantqu^n voudra racheter les industries exploi-
O PAPEL E A BAIXA DO CAMBIO 103

vigorizadora, que nos alimentava, cessou repentinamente,


e a escassa, que ainda tínhamos, entrámos a perdel-a em
sangraduras copiosas. {Apoiados.)
Dizei-me : em todo o nosso passado financeiro, quando
foi jámais que se estabeleceu contra o cambio um appa-
relho de pressão tão estupendo ? Quando se viu elle jámais
submettido a esse regimen espoliativo ? Quando se conju-
raram simultaneamente influencias tantas e tamanhas para
esse effeito ? {Apoiados.)
Entretanto, sr. presidente, longe de havermos esgo-
tado a enumeração d'ellas, agora é que nos acercamos
das mais actuantes, das mais extensas, das mais fortes.
Ainda não fallei na causa política. Haverá nada,
a que o cambio seja mais sensível do que a esse princi-
pio perturbador ? Sobre taes phenomenos de dois modos
influe ella, qual a qual d'elles mais efficaz. Por acçào
moral dirccta, arrefecendo, ou paralyzando as trans-
acçõcs; por acção positivamente material, promovendo, pelo

tées par les capitalistes europécns, au lieu rPen créer des nouvelles,
Pagio de Por seratenu de monter : ces industries couteid loujours
trop cher, en les payant au comptant et rubis sur Pongle." Brênl,
8 fevereiro, 1891.
E' o que mesmo longe de nós percebiam os que seriamente se
occupavam com os nossos interesses. U Brèsil, de Paris, escrevia,
ainda, em 8 de fevereiro desse anno:
"La politique, on le voit, a peut-être plus que la balance com-
merciale, ou toute autre cause, prise séparémenl, une influence
immédiate sur la marche et les oscillations de ce baromètre qu'on
appelle lechange, qui monte si elle est sage, et descend dès qiPelle
donne le moindre signe de vouloir sortir de la légalité;
"Si j'étais membre du Congrès, je suspendrais à ma fenêtre
cet averlisseur automatique, et je réglerais ma eonduite d"aprèsses
indications. II est Pindicatcur infaillíble du degré de conflance
qu'inspirenl au public ses représentants au Parlemcnt et les pouvoirs
suprêmes du pays."
104 A QUESTÃO FINANCEIRA

susto, a emigração <lo capital, do ouro, de todos (,s


valores mobilizaveis. A eoimnissâo dos banqueiros flunip
neuses, em abril (l'este anuo, no parecer, a que já ti\.e
oceasião de alludir, registrava, entre os factores mais poq,
derosos das oseiIlações do cambio na aetualidade, a <l< ^
confiança natural, uc bcrti que não justificada, do entra^
geiro na estabilidade das nossas instituições.
Essa desconfiança, em boa parte explicável ante
destinos obscuros de uma revolução, que substituirá inos]iç,
radamente a Republica pela monarchia no seio de ura povo
monar^hicamente creado desde as suas origens, foi, <je
outro lado, em grande parte, entretida também pela insu
reição geral da Europa (ionservadora contra o escândalo cja
suppressão de um throno sem perpetração de crimes, nem
turvação da paz. Imaginae que, em respeitável edictoriq^
ura veneravel orgão de ])ublicidadc como o Jornal dos />,,
bates, a quinta essência do bom senso critico e da discreçijo
politica, libellando contra o Governo Provisorio por eriiqe
de tyrannia,—um dos artigos era que estribava as suas ar-
guições, era o de havermos obrigado o imperador a embarcar
na madrugada do dia 17, quando na véspera, de tarde, Um
tinhamos concedido para isso o prazo de vinte o quatro
horas. {Riso). Quando os mais sábios, os mais sérios, os mais
justos se puerilizam assim, para accusar com taes nugas Um
governo de revolução no seu período mais critico, bom é
de imaginar a somina de adulterações, a que não havia de
ter andado exposto, na Europa, o credito do nosso noiqc.
{Apoiados).
Ora, o cambio 6 o registrador sensibilissimo d'essas
impressões moraes, quando cilas se generalizam, c ]>ersis-
tem. Depois, com as prevenções do exterior, vieruni
O PAPEL E A BAIXA DO CAMBIO 105

competir, no interior, circumstancias deploráveis : as condi-


ções, em que se deu a eleição do presidente da Republica ;
as apprehensões geraes, exploradas a propósito da doença
simultânea do cliefe do Estado e do seu snccessor consti-
tucional ; a ausência de cordialidade nas relações entre o
executivo e o Congresso (apoiudox) ; este ambiente de ex-
citação, de insegurança, de receio, que domina os ânimos ;
esta pressão de boatos, de invenções, de suspeitas, de pro-
phecias sinistras fluetuando n'um horizonte aberto, aliás,
pela mais generosa das revoluções, ás mais limpidas espe-
ranças. {Apoiados.)
O sr. Quintino Bocaytjva :—Chegando-se a fallar
em revolução, ou dissolução do Congresso.
O sr. Ruy Barbosa :—Tão grave concurso de máos
influxos políticos nunca operou sobre nós, desde o termo
d'aquelle período de commoções c desordens, com que a
reacção dos vicios do primeiro reinado actuou sobre o jie-
riodo inicial do segundo.
(íraças aos vicios do segundo reinado, que agora es-
fervilham contra a Republica, do mesmo modo como os
do primeiro se agitavam contra a revolução de 1831,
vimos uma situação, que devia ser de benevolência e csjhí-
rança, porque nunca houve, entre duas formas contrarias
de governo, passagem revolucionaria com tão leve inter-
correncia de arbítrio e de mal, annuviar-se de vagos ter-
rores, adensados pelo eoutinuo soprar de phantasias agoi-
rentas. Não se sabe de onde vem essa tristeza, para onde
vae essa desconfiança. Mas o espirito de um povo, que o
regimen depressivo da monarchia educou no desconforto,
no medo, na descrença do bem e na credulidade do mal,
acolhe as conjecturas mais absurdas, imbue-se facilmente
14
10B A QUESTlo financeira
iiíiri phantasias mais frivolas, aíoga-se nos pesadelos mais
sombrios. N'um dos JEstados do norte, lia bem pouco, um
dos telegrammas de sensação, profusamente espalhadoB
pelas escpiinas, dizia ; "Deodoro morto. Floriam» apunha-
lado. Barreto fuzilado. {Hiktridade.) Mil e quinhentos sol-
dados saqueiam a capital. Grande inquietação publica."
(Hildriditde.)
Rimo-nos aqui nós, senhores, que vemos da falsidade
apenas o seu lado risível. Mas eu vos asseguro que esses
espantalhos nunca deixam de surtir seu etfeito. K as mais
das vezes a Europa não nos tem julgado, nestes dois annos
de Republica, senão através de aleivosias d'este genero,
grotescas, ou monstruosas. (Apoiados.)
1 Ventre todas essas convergências fataes ao cambio
internacional, porém, a mais assignalada é a (pie ora
vamos tocar: a inferioridade da importação ã exportação.
Xão sei se carecerei de autoridades, senhores, para demons-
trar aqui este rudimento em matéria de finanças : que a
paridade no cambio é iucompativel com o desequilibrio
entre o activo e o passivo de uma nação nas suas relações
commerciaes com o exterior. (Apoiados.)
Xão sei se carecerei de autoridades, para rnejustificar
(Veste asserto... eu tão sem autoridade, como sou (não
apoiados), em assumpto, onde hoje não se errará, dizendo
que as autoridades se contam pelas cabeças. (Riso.)
Só uma assembléa de analphabetos nestas questões
poderia controverter essa verdade axiomatiea. O senado
conhece-a melhor do que eu. () cambio c, sobretudo, a
resultante desse movimento immenso e continuo de
valores, que, sob mil formas diversas, em duas correntes
oppostas, passam c repassara as fronteiras de um paiz.
O PAPEL E A BAIXA DO CAMBIO 107

Exportar (' emprestar. Importar é dever. E, quando, no


encontro entre o debito e o credito, no trafego entre dois
povos, a obrigação (pie se contrae excede o valor do titulo,
,|,,c se adquire, inevitavelmente o poder permutativo da
moeda metallica, a única em que se resolvem as transacçõcs
internacionaes, crescerá na praça devedora em razão directa
,1,, que cila exercer nos mercados estrangeiros. Baixa
nesse caso o cambio1, isto 6, cresce a som ma de moeda
nacional precisa para estabelecer a equivalência de troca
(|0hmetaes com a mesma somma da moeda nacional.
Nas fluetuações do cambio entre nós os espirites mais
competentes sempre discerniram a acção preponderante
dessa causa, a causa geradora por excellencia de taes
resultados.
[Tm dos testemunhos mais considerados no inquérito
aberto (tela camara dos deputados, em 1837, sobre a séria
depressão por que o cambio passou nesse auno, enunciava-se
assim : (L?)
'• A grande, a principal cansa das differenças de cambio, nas
operações conimercians entre differentes nações, ou entre as diver-
sas partes de um mesmo paiz, é o exigir uma de outra nação, ou
uma de outra província da mesma nação, maiores valores em arti-
gos de sen consumo do que os d'aquelles que pode dar em troco
dVIles. "Tal ha sido", dizia elle, "e é ainda a posição do Brasil; e,
emquanto assim continuar, istoé, devendo mais do que pode pagar,
ou consumindo mais do estrangeiro do que produz para pagar-lhe,
o cambio com as outras nações será sempre contra si, e os metaes
preciosos, assumindo o caracter de mercadorias, sahirão do paiz
com ellas." 2
1 Uso da linguagem familiar entre nós ; porque, nos estylos
econômicos, diz-se, pelo contrario, que sobe o cambio, quando o
papel nacional se deprecia, e vice-versa.
2
Pag. 331.
108 A QUESTÃO FINANCEIRA

Uma opinião magistral, que nunca me cansarei de


citar, porque nenhuma, praticamente, entre nós, demonstrou
profisciencia maior em assumptos economicos,—o visconde
de Mauá, escrevia, em 18(10, a propósito da crise de 1859:
(Lá)
" O curso do cambio, entre nós, corno em toda a parte, tem sido
sempre determinado pela lei econômica que rege os preços, quero
dizer, a offerta e a demanda: se abundam os saques sobre as
praças, com que temos relações commerciaes, o cambio eleva-se;
se, pelo contrario, escasseiain, o cambio declina. Este principio
universal actua em nosso paiz com a mesma força que em qualquer
outro, sem embargo do estado anormal da nossa situação monetária,
quaesquer que sejam as causas da maior ou menor offerta, da
maior ou menor demanda. Não temos, por ora, essa industria
fabril, que, segundo o gráo do seu desenvolvimento, reduz, no
espaço de dias, ou mesmo de horas, matérias primas e artigos
exportáveis, com todo o augrnento de valor proveniente do tra-
balho e despezas da fabricação; os variados produetos do nosso
reino mineral pouco ou nada influem nos valores que exportamos,
porque a mão do homem apenas tem palpado pela superfície esse
inexgolavel manancial de recursos, e não de riqueza, como muitos
suppõem. Assim, pois, o subido valor dos artigos, que importamos,
e consumimos, tem de ser pago, em sua quasi totalidade, pela
nossa producção agrícola... Para mim, portanto, é fôra de duvida
([iie a importância da itosm prodmçõb agrícola exportável, regulada
pelo» seu» valores nos mercado» consumidores, ê o que determina o
curso do cambio.'" 1
E, impugnando a errouia dos que peusam o contrario,
dizia o nosso illustre conterrâneo: (Lá)
" Para se poder com razão attribuir a queda do cambio á
excessiva emissão dos bancos, ou a uma circulação de papel

1
Relatório du commissão de inquérito nomeada jtclo aviso do
ministério da fazenda de 10 de outubro de 1859, pag. 29.
O PAPEL E A BAIXA DO CAMBIO 109
inconverlivel superior ás necessidades das transacções, fôra mister
demonstrar:
" 1 ? Que a convertibilidade do papel moeda existente em cir-
culação se achava decretada, ou, pelo menos, que era uniforme-
mente praticada antes da perturbação ;
"2? Que o meio circulante, nessa época, era realmente supe-
rior ás necessidades de transmissão de valores ;
"3? Que se não dão outras causas, que, era épocas anteriores,
era qne a circulação consistia exclusivamente em papel-moeda do
Eslado, produziram o mesmo resultado." 1

Ora, continuava o eminente brasileiro. " ninguém


ousará por certo uma só destas proposições. " Porque ?
Porque, quanto á primeira condição, "as notas existentes
em circulação antes da crise só eram realizáveis em ouro
durante breves intermittencias". E, nesta parte, a situação
presentemente ó a mesma que em 18G0. Quanto ao se-
gundo ponto, não se podia considerar superabundante o
papel fiduciario, quando "a procura de capital fluetuante
era superior á offcrta, como prova o simples facto de ter-se
conservado a taxa dos juros, que é o verdadeiro barometvo,
sempre acima do termo médio do juro mercantil da praça".
E aqui, igualmente, as circuinstâncias actuaes são idênticas
ns dc então. Quanto á terceira cláusula, emfim, tinha oc-
corrido, naquelle período, uma das causas mais fortes, que,
em outras occasiões, determinaram a quéda do cambio. E,
a este respeito, se a hypothese vertente se differença da-
quella, é simplesmente, em que, para a deelinação do cam-
bio se conjuram actualmente quantas causas fortes, não
uma só, podem contribuir em tal sentido. {Apoiados.)

1
Relatório da citada cmnmissão de inquérito, [Link] A, pag. 93.
110 A QUESTÃO FINANCEIRA

Mas, senhores, nunca em período nenhum da nossa


historia, a superioridade da importação á exportação as-
sumiu grandeza comparável com a deste anuo. Km abril
a commissão dos banqueiros apontava nesse desequilíbrio
"uma das causas mais importantes desta depreciação no
valor relativo da moeda nacional". Em fins de maio o
Jornal do Commercio demonstrava, com algarismos eon-
froutativos, que "a causa principal da permanência do
cambio tão baixo (■ a falta de letras pela carência do café". '
Uma grande safra desse producto embalara-nos cm espe-
ranças de melhora. Mas, ou por insnfficiencia da nossa
viaçâo actual, ou por defeitos no seu rcgimen, a safra do
café jaz, em grande parte, entalada nas estradas; e essa
crise no movimento dos transportes paralyza as trans-
acções sobre a colheita.
A par desse desmedido cerceio na exportação, a
importação, j>elo contrario, revestiu proporções gigan-
tescas, assoberbadoras. (Apokidm.) Uma das folhas

' "Gazelilha" de 23 de maio de 18ítl :


" E' geralmente sabido que a falta de letras, pela carência de
cate, é a causa principal da permanência do cambio tão baixo. Para
demonstrar este facto, damos aqui o numero de saccas, (pie entraram
nesta praça, do dia Io ao dia 20 de maio de 1885 a esta parle:
188 5
188 6
188 7
188 8
188 9
189 0
189 1
" Vê-se, pois, que desde 1885 nunca houve menos entradas de
café. neste periodo do anuo. do que agora. Depois de 1891, as
menores entradas foram em 1888, em conseqüência das festas da
emancipação, que occorreram nesta quinzena. Ainda assim, porém,
a quantidade recebida foi quasi o dobro da que tem vindo este
mez,"
O PAPEL E A HAIXA DO CAMBIO 111
estrangeiras, publicada entre nós, calcula em dezoito meze*
o lapso de tempo necessário meramente para descarregar
as mercadorias estrangeiras, que actualmente se accu-
niulam no porto desta cidade. E, segundo infbnnayões
authenticas, ministradas ao publico jx-lo governo, a
verba do material para estradas de ferro e fabricas,
importado livre de direitos, pela alíandega desta ca-
pital, no primeiro xemestre deste anno, é sujterior á im-
jKtrtayâo total desses artigos em todo o decurso do anno
passado e três vezes maior que a mesma importação nesse
ramo de productos nos annos de IXMe 18tdL 1 Suppondo,
como se presume, (pie, no segundo semestre, a ])ro])or<;ão
subsista, se não crescer, teremos, nessa parte, a importação
este anno, 107 (/f maior que em 1890, nem rezes maior (pie
cm 1889, uri* reze* maior que em 1888.
Assim, ao passo que a Republica não recebo do estran-
geiro os supprimentos de ouro, com que os empréstimos

1
Jornal do Ornnnureio, 11 de agosto de 1891.
Material para eitradas de ferro, imporfrido Urre de direito* no* pe
rindo* abaü o mencionado* peta Alfândega da Capital Federal

lv semestre
MERCADORIAS Anno 1888 Anno 1889 Anno 1890 do exercido
de 1891
rela UirifH: 1
l/K-oniotlvas r»2:o74!fooo 4oi :598:0«li0(KI
TrilíiOM r»3ô:7H2S<KI0 47U:44<» l,7o;i:fU7^MH( 1,403^509000
HjTucntoiMnoH — l,:(l(t:7(iuè£2u 1,041 :o:ué8bo 2.508:1 ÍOÇOÜÜ 4,831:0219600
2,Ü24:»W$2*i0 2,1(l3:561$8tí0 4,673:3409000 6,688:3229360
Por lelíí e«peci«e«:
.Mulcrlnl fiara d 1 vernaa em prezas 948^38^260 !Pi3:cM«$7."V0 4,067:9889500 2,213:7729000
21«73;:}7(lf480 8,987:3009610 6,741:33796(8) 9,047:094|860

Alfândega da ('.apitai Federal, 10 de Agosto de 1891.


112 A QUESTÃO FINANCEIRA

cio império periodicamente nos renovavam o cabedal


esgotado; ao passo que o capital peregrino se retira de eru-
prezas nossas, e o capital brasileiro se transfere, na compra
dellas, para a algibeira enropfa ; ao passo que o angmento
da produeção agrieola é neutralizado, em grande parte, pela
obstrucção das vias de transporte, — a importação apre-
senta nma intumesceneia desmesnrada, inaudita, fabulosa,
(iue calculo poderá medir, pois, o desnivelamento entre a
massa das entradas e a das sabidas,entre a violência na ex-
tra vasa çã o do ouro, conseqüência inevitável desse desnive-
lamento, e a baixa do cambio, resultado fatal da evacuação
metallica? (Apoiado*.)
Como qualificar., portanto, o espantoso telegramma,
onde, em nome da City, se nos vem affirmar que a impor-
tação, no Brasil, é inferior á exportação ? Somos nós um
povo de cretinos? Ou a City não conhece os negociosd'este
paiz melhor que os da lua; ou (o que é mais plausível)
a City anda mettida nestas oousas como Pilatos no credo.
(Apoiados.) A telegraphia tem cPestas applicações, a cu-
jas conseqüências a própria Europa não escapa. Quem lér
as brochuras de Chirac acerca da Agiotagem sob a Terceira
Republica, lá irá encontrar a historia dos despachos mvs-
teriosos e assustadores, com que, em 1884, a poder de ro-
mances terríveis, expedidos, pelo cabo, de Tonkim para a
França, se extorquiram ao corpo legislativo 200 milhões de
novos créditos para a mal aventurada expedição, a que
deve a impopularidade o nome respeitável de Júlio Ferry.
Em tempo de guerra.... vós conheceis o resto do annexim.
(Riso.) E a crise é a guerra.... guerra de interesses e san-
cadilhas, guerra de perfidias e desplantes,onde a Republica,
ou, pelo menos, a desforra dos vencidos contra os homens
O PAPEL E A BAIXA DO CAMBIO 113

da revolução 6 o alvo, a que se mira por entre os subter-


fúgios dos especuladores. (Apoiados.)
Tocando na especulação, senhores, estamos em pre-
sença da entidade formidável, que, explorando, uma a uma,
todas as causas até aqui enumeradas, utilizando-as, ampli-
ficando-as, moldurando-as em apparencias tenebrosas, re-
presenta, na situação actual da nossa praça, o mais ignó-
bil e o mais perigoso dos papeis. {Apoiados.)
Não trago, senhores, urna carranca de convenção,
para intimidar ingênuos. As maiores nações do mundo
tóm experimentado os estragos d'esse flagello. Na França
todas as revoluções liberaes tiveram de lutar contra as
Conspirações do despeito político no mundo dos capitães.
{Lendo) "Em um paiz agitado como o nosso", diz Cozic,
no seu recentissimo livro sobre a Bolsa 1, "ha sempre um
sem numero de descontentes, os quaes, tendo vivido á custa
do governo derribado, são naturalmente inimigos implacá-
veis do governo reoemvíndo. E' o que experimentámos no
advento da Restauração. E' o de que tivemos outra prova
após a revolução de 1830. E' o de que igualmente nos pude-
mos certificar depois da proclamaçâo da segunda Republica,
em 1848, e depois da proclamaçâo da terceira, em 1870.
E, em argumento para corroborar esta affirmativa, já tive
occasião de citar o exemplo de um velho especulador, bem
conhecido a toda a Bolsa, que nunca pôde comprehcnder
como se tentasse entrar cm negocios sob uma Republica
em França."
Os Estados-Unidoe, com a sua admirável pujança
econômica, a prodigiosa opulencia da sua fortuna, a

1
La Bourse, pag. 245.
18
114 A QUESTÃO FINANCEIRA

exuberância tropical do sen commcrcio, a estupenda aclivi-


dade das suas forças industriaes, o espirito viril do seu povo,
não resistiram á invasão d'esse paradtismo voraz. E é jus-
tamente quando o paiz se debatia nas afllicções heróicas
da luta separatista, que a peste da especulação reinou
triumphantemente, alliando sua influencia á influencia da
guerra, para abater até ao pó o credito da nação, e depre-
ciar-lhe a moeda até á ameaça da bancarota. Essa classe
de interesses conta os lucros, e não lhes resente a in-
fâmia :
Quid enim salvis infamia numis V
Uma pagina de um documento official da época, uma
pagina do relatório do inspector da moeda 1, vai entre-
mostrar-vos esse quadro da agiotagem corvejando sobre
as calamidades da grande nação americana : (Lê)
" Não se manifestou menos decididamente a hostilidade ao
g'■vemo pelos esforços empregados, em nossa metrópole comtner-
ciai, para depreciar o meio circulante, do que pelas aggressões do
inimigo nos campos de batalha; e, infelizmente, a diligencia dos
amigos da rebeliião, junta á dos agentes dos Estados rebeldes, em
proslrar o credito nacional, foi corroborada e auxiliada por mi-
lhares de collaboradores, no seio dos Estados leaes, cuja fidelidade
politica não seria generoso pôr em duvida. Immensos interesses
puzeram-se em acção por toda a parle, centralizando-se em Nova-
York, para exaggerar o preço do ouro, improvisando-se pelo bom
êxito d'elles magníficas fortunas... O ouro tornou-se artigo favorito
de jogo. Aggravou-se-lhe o custo por esses artifícios e maniversias tão
bem conhecidos na praça... 0 effeito d'isso foi, não alluir o credito
do governo, mas aggravar enormemente as expensas da guerra e o
preço da subsistência ; visto como, por mínima que fosse a rdução
entre o preço da moeda metallica e os nossos produclos nacionaet "

1
Mac [Link] : Report of lhe comptroller of lhe ourrency.
O PAPEL E A BAIXA DO CAMBIO 115
(chamo para este ponto especialmente a vossa atlenção) ''cada alfa
do ouro, fossem quae* Jomem os meios, por que se oòíinha, era utili-
zado petos especuladores, para justificar um augmcnto nos preços,
com grande prejuízo do thesouro e afflicção do povo. "

Supporeis talvez tpie nessas nianconununaeões não


entraram senão vulgares miseráveis, burlões ordinários de
praça ? Enganais-vos: o capital dos estabelecimentos de
credito auxiliava effectivamente, nessas emprezas contra a
reputação e a fortuna do paiz, os jogadores da bolsa... Alli,
onde o mal ás vezes parece que tenta emular em grandeza
com o bem, alli se assistiu ao maior commettimento de
agiotagem, que o mundo conhece. Organizado em i m
svndicato de proporções phantastieas, o Golã liing, \ m
grupo de especuladores, propoz-se a atravessar absolu'a-
mente o ouro em cspecie, os vales de ouro do thesouro, as
notas bancarias de ouro existentes na praça de Nova-Yoi k.
Ao cabo de algum tempo, a conjuração abarcava inteira-
mente o metal e as equivalencias metallicas do grande
mercado. E, cmquanto a circulação se exhauria completa-
mente, o cambio descambava por uma escala aterradora. O
acervo da commandita chegava a duzentos mil contos em
espeeies (100 milhões de dollars), e o agio subia, em 186Í),
a 160 %, altura a que nunca tocára, nem mesmo nos pciores
dias da guerra civil. Afinal ia rebentar o krach, o terrível
syndicato ia tocar o termo das suas esperanças, ia estalar a
ruina dos Estados-Unidos...
O sií. Amabo Cavalcanti:—Como entre nós se
proiecta.
O sr. Euy Barbosa :—... quando o secretario do
thesouro derramou na praça, de golpe, quatro milhões de
dollars em ouro. O agio baixou instantaneamente 12 %.
116 A QUESTÃO FINANCEIRA
Estava conjurada a procella. 1 Mas as minas, ainda
assim, foram tantas, que essa data ficou assignalada, na
historia americana, com o nome de Black frtday. Nos
annaes da agiotagem figurará para sempre, com honras
sinistras, o dia 23 de setembro de 18G9, a sexta-feira negra.
Entre nos, não é de hoje que a especulação ensaia
forças contra o credito da moeda nacional. De bem
longe poderíamos ir buscar-lhe a procedência. Mas, para
verdes que não é uma enfermidade republicana, que o
mal tem, pelo contrario, velhas raizes no antigo regimen,
bastará recordar-vos o que, a esse respeito, escrevia, lia
sete annos, um dos homens, que com intelligencia mais
sagaz e experiência mais intima da corrupção denun-
ciada 2, palpou e mediu esses males, anteviu-lhes e pre-
disse-lhes a recradescencia : (Lê)

"Aviltando a nossa moeda com taxas de cambio quasi sempre


inexplicáveis e incomprehensiveis, o monopolio accelera o movi-
mento de capitães para fora do paiz de um modo assustador,
além do enormissimo prejuízo, que nos causa, forçando-nos a pagar
as nossas importações por mais do que devêramos pagar, e a vender
as nossas exportações também por menos do seu valor. Pelo terror
das taxas elle afugenta-nos o capital, e deprecia-nos os nossos
produetos. Cumpre que atalhemos em tempo esse mal, se quizermos
evitar a um florescente e rico império a situação humilhante, em
que se deixam cahir não raro povos imprevidentes, dissipadores,
descuidosos, sem capital, sem credito, sem finanças, e que, nas
supremas agonias, empenham as jóias do Estado, cedem pedaços

1
Gibso.n : Thr Stoclc Exchange» nf Lonclon, Pari» and New-
Yorl-, N. York, 1889, pag. 76, Cognetti de Mahtiis; La circolazione
deüa nchezza negli Etati Uniti d'America, pag. 135. Thefir»t century
oj the Republic. N. York, 1876, pag. 258.
8
Souza Carvalho : Diário do Braeil, 28 de janeiro de 1884.
O PAPEL E A BAIXA DO CAMBIO 117
de território, hypolhecam as rendas das alfandegas, e, até, às vezes,
submeltem a fiscalizações estranhas a própria administração
publica."

Sob a Republica innumeros elementos, como jíí


vistes, confluiram para a tumcfacção do agio do ouro ; e a
especulação cevou-se nesses elementos, medrando nelles,
como o cancro no organismo que destrúe.
Tenho aqui algarismos, que poderia ler, sc não fosse
o receio de fatigar-vos (não apoiados), se já não me sen-
tisse fatigado eu mesmo, para vos evidenciar o trabalho de
demolição lenta, que, a este respeito, exerceram, depois da
revolução certos estabelecimentos estrangeiros. O quadro,
que tenho em mãos, abrange o lapso de tempo decorrido
entre o 1? de dezembro de 1889 e 17 de abril de 1890 :
cinco mezes de vida republicana. Pois bem: as taxas
affixadas pelos bancos estrangeiros, estiveram abaixo das
taxas estipuladas pelos bancos nacionacs 30 % durante o
roezde dezembro, 65, 380/0 durante o mez de janeiro,
] 7, 40 0/0 durante o de fevereiro, 65, 38 % durante o de
março. Ao todo uma inferioridade de cambio, uma aggra-
vação de agio correspondentes a 178,16 0/0 cm 101 dias. 1
Tomada a mídia nos quatro mezes, temos uma baixa de
44,50 % nas tahcllas estrangeiras em relação ás dos nossos
bancos. Quer dizer: uma força de 40 puxando para a
baixa, emquanto outra tirava para a alta na razão de 100,
reduzidos, pois, a 60 pelo impulso contrario da primeira.
Não bastará ? Pois ahi tendes uma circumstancia
ainda mais significativa. No movimento do mercado, em

1
V. nos appeudiccs.
118 A QUESTÃO FINANCEIRA

14 de abril de 1890, onenntrareis estas vendas de ouro na


Bolsa :
Libras 1.000 a. 11$140
2.000 a, 11$160
1.000 a 11^0
Ora, nos bancos o cambio estava, ás 2 horas, a
21 1/4=11 $294, e pouco depois a 21 1/6=11$:1G4, isso a
90 dias de pra w, quando os compradores poderiam adquirir
ouro á vista por 11 $140,11$160 e 11 $180. Isto é, vendia-
se a realidade, o ouro em espécie de contado, a preço mais
baixo do que o ouro a prazo, o ouro em promessa, o ouro
em espectativa. Só a especulação pôde operar esses milagres
de absurdo, essas maravilhas de contrasonso. Ora, ahi
tendes, senhores, o cambio official apanhado em flagrante
de exaggeração systomatioa do preço do ouro, de falsificação
depreciativa no valor da moeda brasileira.
Este anno a imprensa dos arraiaes mais insuspeitos
não cessou, por muitos mezes", de denunciar nos manejos
da agiotagem despatriotica a origem do nosso desequilíbrio
cambial. Assim pensava, por exemplo, o Jornal do Oom-
mercio, em 15 de abril, quando o cambio já descia a
17 8/4. Aos seus olhos, estávamos então em presença de
"uma crise especulativa muito coinmum, muito conhecida." 1
Assim continuava a crer em (j de maio 8, quando o
cambio já baixava a 16 3/4. "A baixa constante", dizia
ellc, "é, em grande parte, devida á especidação." Assim
opinava ainda no dia seguinte s, quando o cambio de-
clinou a 16 1/2. "O mercado", escrevia elle, nessa data.

• "Gazclilha", sob o titulo "O estado aclual da praça"


1
"Gazetilha", sob o titulo "O cambio".
» "Gazetilha", sob a mesma rubrica.
O PAPEL E A BAIXA DO CAMBIO 119

"continua apathico, prem de especuladores, que sem capi-


tães entre nós, excepto o nosso, aproveitam-n'o para descré-
dito do paiz no estrangeiro e para gravar as classes menos
favorecidas."
Bem vedes, senhores : é o terro em braza, applieado á
ulcera da especulação. Eu não poderia usar de linguagem
mais cáustica, de qualificativos mais severos, para stygmati-
zar essa fôrma innominavel da agiotagem : a da usura im-
migraute, que, sem ao menos capitães seus, vem incrustar-
se, como os commensaes orgânicos, na fortuna de uma
nação hospitaleira e generosa, para arruinal-a á custa dos
recursos com que ella os alimenta. Mas, circumstancia
notável, de junho em deante, já não se boqueja nesses para-
sitas. Na especulação não se falia mais ! E' como se as
suas façanhas tivessem cessado. Todos os nossos males são
agora proezas da emissão ! Desappareceram então acaso os
especuladores ?... Longe d'isso : a praga lastra de dia em
dia, cresccndo-lhe as forças com a diminuição das nossas.
Que nova linguagem então 6 essa na apreciação dos mesmos
lactos ? Maio devia abrir uma era de pacificação. Já não
havia expiações revolucionárias. O seio da patria reabria-se
aos exilados. Era tempo de enfloresoer a oliveira nos cora-
ções. O que vimos, porém, foi o contrario : o vento maligno,
que nos soprava de longe, através do oceano, rodou para
aqui. E a especulação entrou n'um período de desafogo sob
a protecção das baterias dirigidas contra as finanças repu-
blicanas. Era a bemaventurança dos especuladores, contra-
riados até á véspera pelo grito das vedetas, e agora auto-
rizados a manobrarem livremente.
Nem, senhores, o cambio podia deixar de perder o
seu caracter de registrador natural das perturbações da
120 A QUESTÃO FINANCEIRA

circulação, não podia deixar de converter-se em simples


jogo, entregue ás manipulações da especulação, n'uma praça
onde esse ramo de operações vive sob o dominio absoluto
de um monopolio sem correctivo. E aqui, por mais es-
tranha que pareça a anomalia, não pôde haver erro de
apreciação, nem exaggero no enunciado. O facto acha-se
estabelecido por autoridade, cuja competência, cuja insus-
peição, sobretudo, excluem contradictores. O secretario da
legação britannica entre nós endereçou ao governo da
rainha um relatório ácerca das nossas circumstancias coin-
merciaes, do qual o Jornal do Commcrcio nos deu a
sumrua. 1 Nesse documento official, o sr. Lowther, entre
as causas da declinaçâo do cambio actualmente, põe em
relevo "a situação preponderante, adquirida pelo London
and Brazilian Bank, que se tem conetituido virtualmente o
arbitro único do cambio".
Estamos, portanto, entregues, sem coneurrencia,
sem reservas, á discrição de um estabelecimento europeu,

1
Diz o Jornal do Coramercio :
" Passando á questão do cambio, mostra o representante do
governo britannico, no Rio de Janeiro, por meio de uma labella
mensal, que de janeiro de 1890 a julho de 1891 baixou o cambio de
25 3/8 a 10 7/8, atfribuindo. em grande parte, essa situação á falta
de confiança, que exisle na Europa, e aos excessos da especulação.
" Além disto, foram removidos para a Europa, por seus dones,
importantes capitães, dos quaes parte somente tem sido reinlro-
duzida. no Brasil; extensas emissões de papel-rnoeda. elevando-se a
três vezes a importância dos depósitos metallicos; a facilidade com
que, para fazer frente às suas obrigações, o governo negocia em-
préstimos exteriores; a importação excessiva de machinvmos c outros
artigos para emprezas futeis; émílm, a situação preponderante
adquirida pelo London and Brazilian Bank, que se tem constituído
virtualmente o arbitro único do cambio ; eis outras tantas causas da
situação actual, para cuja explicação refere-se ainda o sr. Lowther
ao artigo publicado, sobre o mesmo assumpto, pelo Jornal do Com-
mercio de 24 de julho de 1891, "
O PAPEL E A BAIXA DO CAMBIO 121

o quíil nem ao menos se abona com a garantia de impor-


tantes capitães realizados no paiz, que alliera os seus
interesses aos nossos. Se a fortuna da nação depende essen-
cialmente da valorização da nossa moeda ; se a valori-
zação da moeda nacional está ligada ao credito do Estado ;
se o nosso credito, nas relações commerciaes, tem por in-
dicador o cambio; e se o cambio degenerou em manifesto
monopolio, individualmente usufruído por um instituto
particular e estrangeiro, temos dcante de nós, por este
sorites irresistível, o espectaculo sem precedentes de uma
nação inteira, explorada nos seus mais graves interesses
financeiros por uma casa partícular de especulação mercantil.
Edest'arte um simples millião esterlino, meneado secundum
arfem u^nra por ambições que o patriotismo não refreia,
põe e dispõe impunemente das mais melindrosas conve-
niências ilo paiz. (Sensação.)
O cambio jaz, portanto, sob immensa montanha de
causas deprcssoras, tantas c taes, quaes nunca se reuniram,
pelo numero, pela grandeza, pela intensão, pela conti-
nuidade. Se alguma cousa, pois, lia, para admirar, 6 que
a baixa não fosse mais rapida, mais violenta ainda. Se a
pressão d'csse amalgama compacto de influencias exhaus-
tivas sobra, logo, para explicar o phenomeuo, não ha o
menor fundamento para lhe buscar a provenicncia na
acção do papel-moeda. (Apoiados.)
Attribuir, pois, a este "a origem primaria e determi-
nante" do resfriamento do cambio, C contra verter as regras
do processo logico, da razão scieutifica, em face das quaes
não temos o direito de ir buscar o fio d'este resultado no
concurso d'essa causa, senão quando outras não domina-
rem evidentemente a situação. (Apoiados.)
122 A QUESTÃO FINANCEIRA

Não me arreceio, portanto, das duas pontas do argu-


mento, em que, n'um grande orgão do jornalismo flumi-
nense, vi condensar-se, com pretenções a irrespondível o
raciocinio dos adversários da emissão. Podemos sim re-
conhecer com elles :
1? que nunca se agglomerou entre nós tamanha somma
de papel-moeda ;
2? que nunca o cambio nos foi tão desfavorável.
Mas a estas duas proposições se responde victoriosa-
mente;
1" que nunca o pai/ necessitou de meio circulante cm
quantidade tão larga; porque a população, a producção,
a remuneração do trabalho, a actividade fabril e commcr-
cial cresceram insolitamente, desproporcional mente, in-
calculavelmente nestes últimos annos ;
29 que, em toda a nossa historia financeira, não ha
exemplo de pressão tão anniquiladora contra o cambio,
exercida por cireumstancias e elementos absolutamente
alheios ao papel-moeda. {Apoiados.)
O barometro das exaggerações do melo circulante não
ê a taxa do cambio, que pôde oscillar sob a acção do ou-
tras influencias : é a taxo de juro. Baixa o juro, quando su-
perabunda a moeda corrente ; sobe, quando ella enrarece.
Ora, o juro, que o proprio Banco do Brasil annuncia a
8 %, sobe, na realidade, actualmente a 12 %. Esta, hoje, a
sua minima taxa usual ; e a difficuldade em obter dinheiro,
ainda com o abono dos titulos mais garantidos, ainda sob
a caução dos valores mais solidos, é desanimadora. {Apoia-
dos.) Como affirmar, pois, que o papel superabunde ?
E' a desconfiança, que o subtráe á circulação, tem-se dito.
E os que o dizem, repetindo pela toada o que ouviram a
O PAPEL E A BAIXA DO CAMBIO 123

outros, tôm a presumpçao de não incorrer era disparate.


Mi is eu não vejo nessa proposição outra cousa. A moeda
aviltada barateia, borbota no mercado repleto e transbor-
dante, rejeita-se das mãos com a repugnância com que se
evita o contacto da peste. (Apoiados.) Enthesourar um
valor depreciado é tolice, que a estupidez de alguns po-
derá commetter, mas que o senso commum, a intuição
vulgar, o simples instincto do povo repellera. Se a previ-
dência do interesse particular, desconfiado, sonega á cir-
culação o papel-moeda, é que este não é o objecto d'essas
desconfianças, é que, pelo contrario, essas desconfianças
lh'o tornara mais caro, mais precioso, mais cobiçado.
(Apoiados.)
Ou isto é a evidencia, on não ha evidencia nestes as-
snmptos.
Não faz ainda muitos dias, acabámos de tirar acontra-
prova de que a aggravação do ágio do ouro não tem a
minima relação com a quantidade do papel emittido. Aos
19 do raez passado, a caraara dos deputados votava a redu-
cção do papel-moeda aos seus limites actuaes, vedando
inflexível mente além d'elles qualquer emissão ulterior.
Essa deliberação da camara triennal grangeou-lhe pane-
gyricos delirantes entre os adeptos d'essa idéa.
O sr. Amaro Cavalcanti :— Hymnos de victoria.
O sr. Kuy Barbosa :— Hymnos de victoria, salvas
de bravos acolheram essa deliberação.
O sr. Amaro Cavalcanti : — Temo muito de uma
lei econômica, que passe sob taes influencias, como se fosse
uma lei política.
O sr. Rcy Barbosa : — Disse-se que, por esse sim-
ples acto, o Congresso actual passaria gloriosamente á
124 A QUESTlO FINANCEIRA

posterirlarlr. Annnncion-se qncosso voto dotcmiinaria para


logo a alta, certa, firme, progressiva do cambio. Como por
obra instantânea d'essa cspcctativa, com cfíèito, o cambio,
na mesma data, tolephonicamontc avisado pelos recados
da camara para a praça, subiu 2/4 nas tabollas de ura esta-
belecimento (festa cidade.
O sr. Amaro Cavalcanti : — Durou poucas horas.
O sr. Kuy Barbosa:—Na manhã seguinte o Jornal do
Commercio, exultante, escrevia esta strophe com pretenções
de prophccia: (11) "Hontem mesmo o cambio attestou quão
acertado foi esse acto, c quanta esperança advem ao pai/ da
política, que assim em boa hora ficou firmada, e logica-
mente se ha de desenvolver." Mas nunca houve alegria
tão immediatamente agourentada, nunca se ouviu pre-
dicção desmentida tão depressa. O cambio, que, no dia 20,
tivera por uma hora a cotação dc 14 3/4, no dia 21, em
vez de elevar-se, ou manter-se, descia a 14 1/2, no dia
23 a 14 1/4, no dia 24 ali; e no dia 28 estava a 13.
Isto é, em oito dias, cahiu um pcnnv e tres quartos : quasi
1 /4 por dia.
Tomando agora o período, que vem dc õ de setembro
a 19 de outubro, dia em que a camara se pronunciou con-
tra a continuação das emissões, achamos, na primeira d'es-
sas datas, o cambio a 15, na segunda a 14 1/4. A saber,
nos quarenta o cinco dias anteriores ao voto (faquclla casa
reduzindo a emissão, o cambio baixou 3/4. A depressão
foi apenas de 1/64 diariamente. Temos, pois, quea propor-
ção da baixa no primeiro período para a do segundo está
na razão dc 1/4 para 1/64. Por outra: após o voto restri-
ctivo da camara triennal a baixa precipitou-se com unia
O PAPEL E A BAIXA DO CAMBIO

celeridaclo dczeseis rezes maior que anfes d'esse mio ; visto


quo 1/4 contém 1/04 dezeseis vezes. 1
Logo, para os qno vêem nas indicações do cambio o
critério decisivo, por onde averiguar se a circulação soffro
em conseqüência de demasia, ou mingua, no meio circulante,
a dcsillnsão é esmagadora. A lição d'esses dias teria
provado arithmcticamentc que a ameaça de reduzir as
emissões exerceu pasraosa influencia depressiva na eo-
lumna tlicrmomctrica, na temperatura vital do mercado
monetário, isto 6, quo a circulação se perturba, não por
engorgitamento de papel, mas por escassez d'clle. Os me-
tallistas caem assim fulminados pelas suas próprias armas.
(Apoiados.)
Xão devo, porém, aproveitar-me do argumento cru-
ciantc, offerecido por elles contra si mesmos. Mas, se não
quero attribuir & perspectiva de diminuição na somma do
papel abaixa phenomenal subsequente ao dia 20, ao menos
fica ineluctavelmente verificado também que a baixa ante-
rior a essa data não se liga á perspectiva de augmento na
emissão. Sob a espectativa do augmento o cambio descia
lentamente, linha alinha : sob a immineneia da reducção
tombou aos eovados, como um corpo no espaço, como a
columna de mercúrio mergulhada no gelo.
O sr. Theodtjeeto Souto : — Depois do prqjecto
salvador. Que salvação !
O sr. Amaro Cavat/ axti :— isso é symptomatico.
O sr. Ruy Barbosa : — Eu desejo que me eompre-
hendam bem, senhores. Xão pertenço ao numero dos que,
a respeito de circulação fiduciaria, constituem a escola

1
Ver, nos appcndices, a Inhella.
12fi A QUESTÃO FINANCEIRA
dos desabusado». Não creio na innoeencia dos excessos
de papel. Não desconheço (jue as suas intemperanças píÃ-
dera ser perniciosas no mais alto grão. Nego apenas 'pie
os symptoraas financeiros da actualidade indiciem um Cgso
de supersecreção nas funcções emissoras. Aftírmo (pie a
ooncurrencia de outras condições, materialmente palpá-
veis e enormemente desenvolvidas, nos offerecem a ifcoi
gnita (Testa situação. A1 as tão longe estou de considerar
inditferentes as immoderações na emissão bancaria, (pie,
no systema do decreto de 7 de dezembro, a submetti si
uma escala de expansão gradual, subordinando-a ao ivs-
gate do papel-moeda, epie não permittiria a sabida t"ta 1
d'ella senão no termo de cinco annos. E, se permítti
ao grande banco federal a emissão de 600.000 contes,
não foi senão para que o ultimo terço (Testa quantia
substituisse o papel do thesouro, á proporção que este so
recolhesse no vazio por elle deixado. (Apoiados.)
Nessas idãas, que reciprocamente se modificam e
completam, ha a interdependência de elementos conver-
gentes, um dos quacs não se pôde subtrahir, sem preju-
dicar a harmonia do resultado, e crear novas respon-
sabilidades, ãs quaes 6 absolutamente alheio o plano
primitivo. (Apoiados.)
Eu quizera, nos meus antagonistas, senão justiça
para commigo, ao menos lógica na ligação entre as suas
premissas eas suas conclusões. Se, como elles sustentam,
a emissão effectuada se malbaratou, em grande parte,
desencaminhando-se em applicações abusivas, não é de
excesso que padece a circulação fiduciaria, mas de má
distribuição nos seus recursos. (Apoiados.)
Se, como procuram demonstrar, a administração
O PAPEL E A BAIXA DO CAMBIO 127

do Banco da Republica se resente de defeitos, que des-


regram o exercicio das suas funeções, é contra a execução
imperfeita da sua lei que se ha de concluir, não contra
a organização do seu regimen. (Apoiados.) Se acaso,
como querem, esse estabelecimento não correspondeu á
missão econômica, a que o destinara o seu decreto orga-
; nico, não se concebe que o meio de reformai-o esteja,
como no projccto da camara, em lhe alargar os commo-
dns e vantagens do privilegio, exonerando-o do encargo
capital, a que estava adstricto. (Apoiados.) Se o equilíbrio
íimccional do nosso credito se alterou por ingestão ex-
cessiva de papel, não se pôde, sem interverter a ordem
do senso commum, adoptar como remédio ao mal a rescisão
do contracto de resgate. (Apoiados.)
Na descensão do cambio após a primeira victoria
d esse projecto obti vemos a evidencia de que elle não
consulta o sentimento publico, de que não é a guerra
inexorável ás emissões o que a opinião almeja, de que as
cansas da situação não são as que o projecto presume.
O sk. Ramiro Barcellos dá um aparte.
t) sr. Ruy Barbosa : — Eu felicito-me pelo aparte
do nobre senador pelo Rio-fírande do Sul, e Ih'o agra-
deço como obséquio e serviço.
O sr. Amaro Cavalcanti: — Apoiado.
O sr. Ruy Barbosa : — Quaesquer que sejam as
■nflueneias, a que o meu discurso e as idéas nelle emit-
idas possam ser desagradáveis, o tempo virá demonstrar
quem, d'entre nós, está defendendo aqui praticamente os
interesses reaes do paiz. (Apoiados.)
O sr. R. Barcellos dá ura aparte.
J2S A QUESTÃO FINANCEIRA
O hh. Ruy Barbosa : — Se v. ex. me tivesse pres-
tado o auxilio da sua attenção, com a mesma benevolên-
cia singular, com que agora me favorece com o concurso das
suas interrupções, ter-me-hia ouvido demonstrar que não
foram as medidas do Governo Provisorio, mas as vacilla-
ções dos nossos suceessores em relação a ellas, foi isso que,
com a cooperação de circurastancias naturaes, alheias á
influencia do poder, preparou os resultados actuaes.
O sr. R. Barcellos : — Na opinião de v. ex.
O sn. Ruy Barbosa: — Não me tenho limitado,
senhores, a emittir opiniões; articulei factos, multipliquei
documentos, amontoei algarismos, abusando da attenção
do senado com um discurso árido (muitos vão apoiados),
mas argumentado, pratico, repleto de dados sufficientes
para levarem ao espirito a evidencia de que não obedeço a
idéas preconcebidas, nem a suggestões do amor proprio, a
que nunca me submetti, tendo tido sempre a coragem moral
de confessar os meus erros, e emendal-os, com a isenção
que o patriotismo impõe aos homens de governo. (Muito
bem.)
Hontem, quando, em seguida a uma impngnaçâo
ampla e victoriosa, como a que soffreu o projecto da ca-
mara dos deputados no discurso do nobre senador pelo Rio
Grande do Norte 1, que por três horas occupou a tribuna,
esse projecto passou da segunda para a terceira discussão,
vencedor simplesmente pelo numero de votos, sem que
ninguém se levantasse, para murmurar em sua defeza uma
palavra...
O sr. Theoduheto Souto: — Facto inaudito.

1
0 sr. Amaro Cavalcanti,
O PAPEL E A BAIXA DO CAMBIO 129

() sn. Ilcv Barbosa: — ...ouvi dizer, nas ante-oa-


manis e '"is eormiores desta casa, que esse resultado era
um aeouteeimeuto politieu de I iene tiros efieitos, "pura tran-
qnillizar a praça".
X>iffieilmente pude eonter, sr. [iresidento, u indignarão»
.jiie esse juizo me inspirou. Não sei, senhores, se estamos
aquietando, ou inquietando a praça neste combate dado
ao prqjeeto financeiro da outra camara. A[x-nas sei que
(.ste eondiate 0 uma obra de eonseienria, de reflexão, de boa
$ t. que não fomos mandados aqui, para asserenar com
votos politicos impressões a que a nossa convicção se
opponha. (Apoiado*.)
A praça não é um mundo de sensações irreflexivas,
dominado pelos melindres do hysterismo. E' uma socie-
dade de espíritos amadurecidos no trato da realidade, edu-
cados no estudo attento dos interesses práticos, amigos, jior-
lanto, da luz, que o debate derrama, quando o debate (• in-
dependente. (Apoiado*.) Não lhe podem, portanto, inspirar
confiança delilierações silenciosas, instantâneas, automá-
ticas, em matérias onde só a anal vso eserupulosa pôde levar
a conclusões seguras, onde um passo em vão é um desastre,
e um desastre envolve sinistros incalculáveis. (Apoiado*.)
Voto, sr. presidente, a mais profunda reverencia tio
senado. Liberal, democrata, republicano, fundador da
Constituição de meu paiz, ninguém zela mais do que eu os
créditos desta instituição fundamental no regimen que
ereámos. Nas minhas explosões de franqueza, mesmo, se
quizerem, nos abusos delia, nunca me aetuou no animo,
nunca me passou por elle um sentimento, que não seja de
respeito a esta camara. Por isso mesmo nunca receiarei
desagradar-lhe com a niftis destemida expressão da verdade,
ir
130 A QUESTÃO FINANCEIRA

ti nica homenagem condigna de uma assembléa de legisla-


dores. E aqui está jwr que vos digo que a approvAçgo
symbolica de uma reforma financeira, violentamente abalada
por um discurso como o do nobre senador pelo Rio Grahde
do Norte, que essa approvação sem a mais ligeira resposta
ao fogo de adversário tão formidável, é um desses factus,
com os quaes nada tem (pie lucrar o prestigio desta «isa,
nem o credito das instituições republicanas. (Apoictrfos.)
Sua precipitação mesmo, longe de soecgar, deveria soUrc-
saltar os interessados ; tanto mais quanto esse voto não
envolve a opinião da casa, e foi dado apenas sob a reserva
da terceira discussão. (Apoiados.)
E, quando, cm questões desta seriedade, depois de im-
pugnações victoriosas, como a do nobre senador pelo Rio
Grande do Norte, um projecto desta ordem, um projocto
de destruição o rui na, um projecto de subversão e anarehia
passa de tropel, sem a menor tentativa de defeza, tenho
o direito de dizer que não é a tranquillidade o que se colhe
para o espirito publico, mas a duvida, o esmoreci meu to,
o medo.
O sr. A. CavaXíCANTI : — E a suppoeição de que a
votação foi o resultado de um conluio.
(Crmani-He outrOH apartes entre os «rs. lictviiro lior-
celloH e A. Givalcnnti.)
O sií. Presidente ;—Attenção ! Quem tem a pa-
lavra, 6 o sr. Ruy Barbosa.
O sr. lluv Barbosa: — Não estamos aqui, para
obedecer a pressões exteriores, por mais respeitáveis que
sejam. Curvarmo-nos subservientemente ao peso da at-
mosphera formada em roda de nós, 0 prevaricar aos nossos
devores. Os debates parlamentares não são apenas espelho,
O PAPEL E A BAIXA DO CAMBIO 131

.são tamliein escola da opinião. {Apoiados.') K a opinião,


senhores, nem sempre é essa parte da sociedade, (pie
mais se apta, mais se evidencia, mais falia. () legislador
tem de ir sondar, abaixo dessa superficie fluctnante,
as camadas profundas. Nellas 6 que se acha a garantia
da independência das assembléas políticas contra as maro-
tas superficiaes, que não representam a força do oceano.
Dir-se-hia (pie nos querem reduzir ao papel de boas
pes-oas, á condição de hypnotizados. Teremos que seguir de
atoagem os nossos rebocadores ! Ha uma enfermidade?
Elles a diagnosticam. Ha uma therapeutica ? Eli es a
prescrevem. Só nos restaria subscrever a formula dictada.
Em dia é o papel que anemi/a a circulação. Acabe-se
com afl emissfies ! Outro dia ê a cobrança em ouro que
encarece o metal, e esjialha a fome. Extinga-se o imposto
em ouro ! Estudou-se, liquidou-se, provou-se jamais a de-
rivação etiologica entre estas alterações da nossa vida or-
gânica c as suas ineulcadas causas ? Qual c o trabalho de
analvse regular, a que, sobre estes pontos, Já se procedeu ?
Eu não o conheço. Quanto á circulação bancaria, presumo
ter-vos demonstrado a inanidade das asserções, que a
taxam de excessiva. {Apoiados.)
Do imposto em ouro, que adeaute discutirei, não
posso dizer outra cousa: elle salvou as finanças america-
nas ; elle moderou a depreciação do papel russo; elle
nunca mais se eliminou dos paizes, que uma vez o perfi-
lharam; elle resguarda o tbesouro do flagcllo das differen-
ças de cambio ; elle enfreia o especulação; elle modera as
exaggerações docommereio importador, exercendo a inter-
venção mais bcmfazcja para o equilíbrio do balanço eom-
mereial ; elle não teve, entre nós, sequer o foir plny, a
182 A QUESTÃO FIXAXCEIRA

prova IpíiI (In experienoiu veriticadora, porque, apenas


tentado, logo o eondemnaram, logo <> puzeram de parte,
logo o trocaram em sueeedaneos mais ou menos infiéis,
mais ou menos heterogêneos, mais ou menos contrapro-
ducentes. E, todavia, querem a abolição da cobrança cm
ouro ! São concessões ao impulso da corrente : vamos lan-
çando nella os remos um a um, e deixando derivar o
barco, que deviamos guiar, ao tom das exigências, que n<i-
sacodcm, exautorados, de fraqueza em fraqueza.
Sr. presidente, ha quasi quatro horas que occupo :i
attenção da casa. Não quero continuar a abusar d'ella...
Murros srs. sexadouks :—Não apoiado. Continuo.
O sb. Ruy Barbosa : —... c eu mesmo já me sinto
sem forças, para proseguir. Com tudo, não me será licito
abrir mão da palavra, sem percorrer, nos seus vários ele-
mentos, a reforma financeira, que se projecta. Reorgani-
zação do Banco da Republica, direitos dos bancos regio-
nacs, imposto cm ouro, mobilização do lastro metallieo são
outras tantas faces do assumpto, que a minha posição |)e.—
soai na questão me obriga a perlustrar, ainda que ligeira-
mente.
Peço, pois, licença, para proseguir amanhã.
Vozes :—Oavíl-o-hernos com muito gosto. Este dis-
curso ficará como um acontecimento.
(O orador f viratnmU> feliriftido r abraçado por w-
nndore* c ouvinte*. Lrrrnitn-sr a He«*no.)
II

OS BANCOS EMISSORES
O OPmOJ-BOTO Oininxox^rj
DISCURSO PHOFKHIDO XO SENADO
EM SESSÃO DE 12 DE JANEIRO DE 1892

O sit. Jírv Baubós.v (inorhtienfo geral éc (Menção):


—Sr. presidente, rogo :i v. c.x. ;i bondade de enviar-me
as emendas agora apresentadas, e jx>ço-lhe que me remetta
o projecto offieial. ( O .ir. prcsidrutr mrla os donivinito-i
pedidos.)
Acaba de ser apresentado nm projecto substitutivo,
f|ueinnova completamente a direeção dada ao debati-, e eu
requeiro ao senado, ao menos, a eoneessãn <le dez minutos
jmra a leitura desse projecto, que notoriamente é o do go-
verno.
(Consultado o senado, approva o requerimento.
Suspende-se a sessão a 1 hora c 20 minutos da tarde.
(Vmtinúa a sessão a I hora e .o>0 minutos da tarde.)
() su. Krv Barbosa (movimento r/eral de atfenção) :
—Hoje, sr. presidente, que se reabre o debate acerca do pro-
jecto financeiro, o senado permittir-me-ha concluir o meu
discurso, interrompido, a 3 de novembro, pela dissolução
do Congresso,
134 POLÍTICA e finanças
Quando por al não mereça elle a vossa attenção e
sympathia, valha-llio, ao menos, asua condição de rictimu
do golpe de lidado ( rixo), a sorte singular, f|iic lhe coube,
de ser a ultima emissão de voz desta tribuna, snftboada
pela violência que nos dispersou; de resumir no sen destino
os dois grandes aecidentes da existência deste Congresso,
dissolvido pela força c restituido á palavra pela lei ; de re-
presentar, por que assim digamos, a continuidade da nossa
vida parlamentar, através da syneopo, que ameaçou ex-
tiuguil-a.
O terrível acontecimento, sob cujas conseqüências a
republica ainda se debate, como um navio ferido e incen-
diado pelo raio em pleno oceano, abriu um abysmo aos
nossos pés, detonou-nos sobre a cabeça com a ameaça da
guerra civil, levantou do fundo das nossas esperanças um
grito de naufrágio; mas não afastou a questão financeira
uma linha da orbita, em qüe nós descrevêramos o seu gyro.
Tão certo é que, na região superior onde se equilibram esses
problemas, as paixões políticas não podem penetrar senão
como correntes perturbadoras da verdade, como causas de
pressão, que ê necessário varrer do ambiente, para restabe-
lecer a serenidade atraospherica, c dar á intelligencia do
observador o ar livre, a impressão nitida, o horizonte limpo
dos faetos. ( Muito bem.)
Sc o gênio mão da rixa política não transgredisse vio-
lentamente essa linha de respeito, a questão financeira não
seria o clarim emboeado contra o («overno Provisorio jxdos
seus inimigos, o prelio entre a opposição o o primeiro
ministério constitucional da Kepubliea não se teria ferido
principalmente no terreno da questão financeira, a dictadura
de 3 de novembro não teria buscado na questão financeira
O rUUJECTU AMAKJ 135
o vallijicouto do seu erimc, u questão financeira, em
smnina, teria prevenido o golpe de Estado por um armistício
de bom senso entre os dois belligerantes, e estaria hoje resol-
vida pela transacção, que afinal deve resolvei-a. (Apoiados.)
E a prova está em que, no dia immediato áquelle,
em que o projeeto da outra eamara, energicamente com-
batido e absolutamente indefeso na tribuna desta casa,
triumphava enigmatieamente no escrutinio, ])or um voto,
a que a alegria dos vencedores não se acanhava de im-
primir caracter poli tico, — no dia immediato a esse, na
sessão em que tive a honra de oceupar a attenção do
senado, o projeeto do sr. Amaro Cavalcanti, verdadeira
antithese daquelle, recebia, sem esforço do seu autor, o
apoio de 28 assignaturas, numero correspondente á maioria,
á certeza prévia de victoria na ultima diseussão. Tamanho
era o poder de tluetuaeão da evidencia, que olle repre-
sentava, no meio dos elementos agitados e turvos, que ala-
gavam o campo do debate. (Muito hrm.)
() nobre senador pelo Rio (írande do Norte, adversário
irreduetivel da política Lucena, teve, entretanto, a felicidade
de perceber que os destinos passageiros do ministério não
se podiam confundir cora a sorte de uma questão, que
enlayãva nos seus ramos todo o futuro do paiz. A polí-
tica, que entre nós ainda não despiu os hábitos da vida
primitiva, não hesitava era levar o machado ás raizes da
arvore, para desmontar o inimigo, que nclla se refugiára.
Ora, o maior serviço ao inimigo consistia exaetaraente
nessa confusão, cuja sombra protectora era o seu ultimo
abrigo. (Apoiado*.) Por nossa fortuna, a discriminação
principiara a se fazer, e um sopro apaziguador já enca-
minhava a controvérsia, nos últimos momentos, para o
I3fi PALIXODIAS
rumo da m/.ão ; de mudo que uma das peiores aggravantes
do gol] 10 de Kstado está na iiiepcia de cahir sobre o
Congresso, em nome da questão financeira, precisamente
quando aqui se começava a desenhar, sob a influencia delia,
o iris da bonança. ( ApoiadoH.)
Twlavia, senhores, esse turbilhão, (jue arrebatava uo
seu retlemoinhu a questão financeira, não semeou poucos
escolhos no caminho da restauração constitucional. Pela
minha parte, não me cansava de advertir os nossos amigos
contra o risco de que a machina infernal, ideada pelo
espirito opposieionista contra o governo de então, viesse
a estoirar nas mãos de seus sueeessores. Ainda bem
que a reforma bancaria pôde ficar reservada, para
receber a sua sentença, cm dias mais remansosos,
de Juizes mais calmos. Mas desses orçamentos, que a
opposição talhou, sol) disposições de animo hostis á admi-
nistração adversa, aquellcs mesmos que os engendraram,
tõm de lutar agora com as diflicnldades, talvez invenciveis
em muitos pontos. E queira Deus que, ainda por esta face,
o programma da legalidade não seja sensivelmente des-
mentido; queira Deus que, pela força das circumstancias,
a dictadura financeira não venha dobrar a dictadura
política, aetualmentc exercida pelo centro sobre os
Estados.
Oxalá que nos aproveite a lição contra o sestro de
subordinar a leis jn-ssoaes e a leis de expediente os grandes
problemas do futuro, os interesses permanentes da nação.
Legislou-se, na Constituinte, sob o influxo da desconfiança
jtessoal contra o marechal Dcodoro (qpo/«dos); e a isso deve
a Constituição graves erros, cujas conseqüências bem cedo
principiaremos a sentir, Legislou-se, no Congresso, em
política de combate 137

matéria financeira, sob a preoccupação da suspeita contra


o gabinete Lucena ; e a isso deve a actualidade não pe-
quena somma dc arrependimentos, desillusões e eraba-
raços. (Apoiados.) Deviamo-nos corrigir com o ensina-
mento. Pois bem : ainda agora, sob a preoccupação de
combate ao Prothen sebastianista, o ardor republicano
sacrifica a tranquillidade, os princípios c os créditos da
Republica á bandeira fóssil da nacionalização do commereio
a retalho (apoiados), symholo do mais retrogrado passado
(apoiados), (pie nos remove da civilização americana para
a civilização chineza, e, cuidando esmagar o bragantinismo
dos eommendadores portnguezes, não faria mais que ni-
velar com a esphera política delles o liberalismo da nossa
democracia. (Muito bem.)
Habituados ã frágoa incessante da opposição, os ele-
mentos republicanos carecem de passar por longo processo
de resfriamento, antes que se tornem elementos de governo.
Até então, sob o veso do officio antigo, muitas vezes ha de
suocèder aos chefes das legiões hoje alistadas na paz a
tabula da gata metamorphoseada em princeza, (pie, vendo
correr um morganho, lançou-se de quatro pés por baixo
dos moveis ã caça do roedor. (Riso.)
Ora, esse trabalho de arrefecimento do brazeiro,
onde se forjou a revolução, é necessariamente lento; e,
para o accelerar, só nos poderia valer o expediente, infeliz-
mente incxequivel, de fazer passar, um após outro, durante
quinze ou trinta dias, os mais exaltados pela atmosphera
resfriadora do governo. (Apoiados.) Os membros da com-
missão mixta, chamados ao ministério actual, já devem estar
habilitados a dar testemunho da mudança immediata de
pontos de vista operada por uma transição dessas. O proprio
18
138 • REAGÇÕE8 GONTllA-REACÇÕES

Congresso poderá depor no caso, com esse seu voto de cr&»


ditos para a sustentação das legações, que pouco ant^fc
extinguira. {Apoiados.)
E, si quercis, ainda neste assumpto, outro excmplt»
da distancia entro a critica e a arte, vêde o orçamento
adoptado para a despe/a do ministério da fazenda. Eo
achara essa despeza orçada j)eIos meus antecessores eih
62 mil contos,e reduzi-a a 61 mil. Devia ter, por esse,quando
por outros e tão sérios motivos não fosse, adquirido íoress
de administrador economico. Mas as misérias desaçainiíi-
das contra o Governo Provisorio tinham decretado a inseri-
pção do meu nome entre os ministros prodigos. Resignei-
me, para não aturar o supplicio de Sysipho, rolando o
aborrecimento de uma defesa tantas vezes refeita pela evi-
dencia quantas desfeita pela má fé; resignei-me, appellando
para esse dia depois do outro, que representa a ducha glaeifll
da experiência vibrada sobre a nuca dos phraseadorCs
políticos, dos irreconciliaveis, dos fabricadores de pro-
grammas, dos devoradores de reputações {muito hem);
resignei-me... c vejo consignarem-se agora á despeza do
ministério da fazenda setenta mil, em vez dos sessenta e
um mil contos, «pie eu pedia.
Para nós, sr. presidente, não ha mudança de ponto de
vista no tocante á questão financeira, porque nós sempre u
collocamos fóra da linha das reacções, que, ha dez mezes,
arrastam a Republica no seu torvelinho. O governo
Lucena estreou-se pela reacção contra a independência da
minoria do Congresso, que recusara os seus suffragios il
candidatura Deodoro. Por sua vez, o Congresso buscou
reagir contra essa reacção, armaudo-se com a prerogativa
financeira. A reacção financeira, de sua parte, serviu como
FALSA LEGALIDADE 139

uni dos pretextos ao attentado de 3 de novembro contra a


Constituição Federal. Agora, em revindieta ao crime de
3 de novembro, as constituições dos Estados caem uma a
uma, golpeadas nos seus governadores, nos seus congressos,
nas suas magistraturas. (Apoiados; muito bem; muito bem.)
E essa reacçâo, por seu turno, não será também ponto
de partida a novas contra-reacções ? Eu sinceramente o
desejo, na profunda convicção, em que estou, de que cada
reaeção seria uma loucura maior, um crime ainda mais
funesto do que a reaeção precedente. Mas teremos o
direito de esperal-o ? Neste vai-vem de desforços, a cada
violência responde uma violência maior. Até quando?
Até que o ultimo vencedor abdique a soberba do triumpho,
ou o ultimo vencido renuncie ao desaggravo da humi-
lhação. (Muito bem.)
Antes disso não haverá paz, não haverá administração,
não haverá finanças. Pitt e Gladstone seriam incapazes de
reerguer o credito, em um paiz entregue á malária das
revoluções militares. O nobre ministro da fazenda devia
ter posto a base de todo o seu programma na legalidade,
mas na legalidade real, coherente, sincera, inflexível (apoia-
do*), em uma legalidade, que, para fazer guarda ao pacto
federal, não fizesse taboa raza nas constituições dos Esta-
dos (apoiados; muito bem) ; em uma legalidade, que não
tivesse uma côr, uma medida, um rosto para cada circum-
stancia e para cada interesse (muito bem); em uma lega-
lidade, que, pelos seus repetidos ludibrios, não convertesse
o proprio nome de legalidade numa expressão quasi pu-
denda. (Muito bem ; muito bem.)
Fosse essa a legalidade instaurada pela victoria de
23 do novembro, o a força do governo coroado por tamanha
140 O CAMBIO

victoria só se poderia comparar á immensidade tia sua


missão. Mas faltou-lhe a energia do direito, a convicção
republicana, o sentimento da lei; e eil-o que se esgota de
arruaça em arruaça, de acclamação em acclamação, de pro-
nunciamento em pronunciamento. (Muito bem.)
O sr. Rosa Júnior :—Acclamaçõcs encommendadas.
O sr. Riiy Barbosa :— Queira o nobre ministro da
fazenda consultar o cambio, em que a mensagem do 18 de
dezembro foi buscar indicios concludentes da "confiança
na nova ordem estabelecida". Por que motivo, depois do
uma alta minúscula de meio penny, está clle, ha mais de
quarenta dias, peguinhando nos mesmos 12 1/2 do pri-
meiro momento de esperança ? Porque a victoria legalista
de 23 de novembro, em vez de fechar com uma porta de
bronze e granito o periodo da desordem, abriu, pelo con-
trario, sobre o paiz as reprezas da anarchia. (Apoiadoa.)
O sr. Ramiro Barcellos :—Isso vem de longe, vem
do dia 17 de janeiro, quando anarchizámos as finanças.
O sr. Ruy Barbosa :— Abi vem s. ex. com o seu
eterno chavão...
O sr. Ramiro Barcellos :—Eterno, porque é ver-
dade, que ainda perdura.
O sr. Ruy Barbosa :—... com o seu eterno chavão,
tantas vezes rebatido, quantas reuascentc.... chavão im-
penitente, qne a realidade pulveriza.
O sr. Ramiro Barcellos :—Impenitente é v. ex.,
que, ha dois annos, produziu o mal, e ainda o não reco-
nhece. V. ex. é o responsável único do actual estado de
cousas; v. ex. não quer reconhecer a opinião do paiz.
O sr. Ruy Barbosa :—A opinião do paiz não é a
opinião dos destemperados, não (• a opinião das ignorancias
DECRETO DE 17 DE JANEIRO 141
irrwoneiliíiveis, não 6 a opinião das competências impro-
visadas, não 6 a opinião dos repentistas financeiros, não é a
opinião emprestada e protenciosa dos cabecilhas dc grupos,
c|iie, armados em autoridade pela sua confiança em si
mesmos, arrognm-se o direito de governar o Estado, e
impor ás novas instituições oempirismo dos seus caprichos.
[Apoiados; muito bem.)
O sr. Ramiro Barceixos :—Foi o que v. cx. fez.
Eu o mostrarei a v. ex., quando tiver occasiâo de fallar.
O sn. Ruy Barbosa :—V. ex. não me dirá nada de
novo. Tenho lido e ouvido o que costuma dizer; sei (pie
irá repetir as mesmas consas.
O sr. Ramiro Baroellok ;—Está enganado. Tenho
dc dizer cousas novas, não para v. ex., mas para o senado.
Tenho de dizer cousas interessantes c hei de contar a histo-
ria do decreto de 17 de janeiro.
O sr. Ruy Barbosa :—Pôde contar as historias, que
quizer. (Multo bem.) Xão me ferirá. Quando os acommet-
timentos de meus inimigos lhes parecerem mais trium-
pbantes, quando os seus botes campearem mais seguros do
alvo, hão de vel-oê recuar sobre a leviandade do aggrcssor,
como as investidas da serpe, golpeada nas vertebras e
chumbada ao sólo na paralysia da sua raiva. [Muito bem.)
Eu não tomo a cabeça collcante do réptil, que uma cipoada
vingadora da verdade bastará, para deixar mutilado no chão,
esbravecendo na impotência do seu veneno. [Muito bem.)
Xão temo, porque a minha consciência 6 forte, sã
e inteiriça. Não 6 uma dessas consciências serzidas de con-
vicções de empréstimo e retalhos de rhetorica. E' a
depositaria de um thesouro dc faetos, que a prudência me
aconselha resguardar contra a luz, emquanto a petulância
142 DECRETO DE 17 DE JANEIRO

dos diffamadores não me transbordar a taya da indignação,


recalcada pelas injurias quotidianas. Mas, si me violen-
tara, si me collocara entre os perigos de um silencio vil-
mente interpretado pelos inimigos e os inconvenientes de
uma franqueza antipathica aos discretos, eu rasgarei todas
as vendas ; e então se verá que a historia dos decretos de
17 de janeiro, si para outros pôde ser phantasma, para
mim talvez radie como um trophéo. {Muito bem.)
Ameaça-me o nobre senador com a historia desses
decretos. Bem vinda seja ella. Ha que tempo lhe espero eu
a hora, e com que ancia ! Mas advirta bem s. ex.: a
historia não C a nésgada verdade, qne se espreita pela fisga
das portas ; não são as missangas suspeitas, que a curiosi-
dade das ruas escolhe nas mãos dos mascateadores de bisbi-
Ihotices ; não são os pedaços maculados de reputações, que
se estracinham na dentnça dos boatos. Contem, como qui-
zerem, a chronica do decreto de 17 de janeiro. Após a
historia canoannière, a historia de carnaval, o escândalo
phautasiado em historia, eu levantarei deante dc vós a ver-
dade na sua solida plenitude, na sua transparência crvsta-
lina, na sua incorrnptivel sinceridade. A historia, então é
que a tereis: o facto, o depoimento, o documento. Já me
tarda o plenário, em cuja presença ella tem de testemunhar
contra a cainçalha, que me ladra aos calcanhares. Preste-me
o honrado senador este serviço: dê-me a occasião, que eu
cobiço, de arrancal-a aos esconderijos, onde se bate moeda
falsa, cxhibil-a ao publico na sua pureza esterlina, e mas-
cotar, a piloadas dc mascoto, com o martello da analyse
irresistível, a escória, a liga fraudulenta, com que crimi-
nosamente andam a embair o paiz, á custa dos interesses
delle e do meu nome. {Muito bem.)
DECRETO DE 17 DE JANEIRO 143
Querem dilatar esta situação... Pois que a dilatem...
A minha honra não lia de ficar no campo da carniça, en-
tregue ao corvejar dos maldizentes, cujo patriotismo 6 a
calumnia, cuja politlea 6 o descrédito, cu jo idóal 6 o terror
diffaraatorio. {Muito hem.) Eu sei como se quebram os
(■olmilhos ás paixões odientas, a que a minha reputação
foi atirada pela democracia da intriga, por essa forma
epileptoidé da democracia, como o encarne aos cães de caça
grossa (muito hem, muito hem)... paixões, que, habituadas
a se repastarem na gangrena de casa, si uma vez cravam as
presas cm uma vietima pura, nunca mais se cansam de
estraçoal-a. (Muito bem, muito bem.)
Conheço esse cortejo necessário das revoluções.
Todas ellas têm, na faraudula da retaguarda, para esfer-
vilharem á vanguarda nos dias bruscos, essa alluviâo de
negociantes de honestidade apregoada. São os que mais
gritam. São os que fazem profissão de salvar a causa pu-
blica, exercendo as altas justiças da mfamação habitual. Xas
horas caniculares das grandes crises, quando a consciência
popular se dilata na receptividade das grandes sêdes, passam
elles timbaleando o trem de vivandeira, com a tigella
de sôpas de alho para cada aberração de paladar. Mas, a
um pi paro te da verdade, ha de entornar-se-lhes o cálcio... E,
emquanto os depravados continuarem a se saciar na massa-
morda barata das çolarcjas, a maioria honesta acabará
por enjoal-a. (Muito bem) O nobre senador convencer-se-ha
então de que anda illudido nas suas coloras contra mim, c
deve invertel-as para o lado opposto.
Eu suppunha que de taes contactos nos preservaria a
magestade desta camara. Cuidava que, ao menos nesta
tribuna, no cumprimento de um dever cm que se me
144 NA DEFENSIVA

impunham necessidades sagradas, na defeza de ura passado,


cuja limpidez nã[Link] ao de ninguém (muito bem, multo
bem; numerosos apoiados)... um representante da nação,
que pôde levantar a cabeça intemerata entre os seus collegas,
estivesse, ao menos aqui, resguardado de taes projectis,
que a nobreza desta instituição, os cstylos leaes desta casa
não deviam tolerar. (Numerosos apoiados; muito bem, multo
bem.)
O sr. R. Bakcellos dá um aparte.
O sk. Presidente:— Peço ao sr. senador que não
interrompa o orador com tantos apartes.
O sr. Ruy Barbosa :— Sr. presidente, v. ex. 6 tes-
temunha : as minhas palavras ainda não tiveram um mo-
vimento de aggressão. Podem accusar-me de calor, de
vehemencia, de impetuosidadc na justificação de minhas
idéas, ou na reivindicação da minha honra; mas nunca
me apanharão em rebeldia flagrante contra as leis da
urbanidade, invioláveis aos que tiverem o sentimento
do respeito devido á altura deste logar. Defendi-me, até
agora, como me tenho defendido sempre, como me hei de
sempre defender, sem modo a aggrcssores gratuitos, para
com os quaes não tenho divida nenhuma, dos quaes nada
receio,'aos quaes provoco para todos os campos e a todas
as desforras, que quizerem. (Muito bem, muito bem.)
() meu nobre amigo, o sr. Quintino Boeayuva, designa-
va-me um dia como "opára-raio do Governo Provisorio".
Era natural que a centelha dos odios procurasse então de
preferencia a cabeça do ministro collocado, pela natureza
das reformas que a situação lhe commcttia, nas eminências
electrizadas pelo encontro das cobiças opulentas e dos mais
inflammaveis interesses. Já não sou, felizmente, a ponta de
POLÍTICA DE RANCOR 145

platina, erigida em defeza do paiz, na região onde se


embatem essas deflagrações violentas. Mas o fuzilar dos
rancores insaciáveis continua a me visitar incessantemente
no fundo do meu nada, não se me consentindo sequer o
privilegio dos decahidos, o repouso misericordioso, o esque-
cimento balsaraico dos abandonados. Como si o meu pro-
granuna evidente não fosse a renuncia a todas as aspi-
rações ! Dir-se-hia qne essa indifferença mesma desorienta
os inimigos. Não me poupam sequer no meu retiro, no
meu sileneio, como hontem não me poupavam nem na
doença, e salteavam-me pelas costas, quando enfermidade
quasi mortal me afastava dos trabalhos do senado. Por
que crime ? Por aqnelle que as paixões da ambição
nunca perdoarão aos homens, que não se confundem com
ellas : o de desprezal-as. (Muito bem.)
Não era permittido, talvez, desdenhar das gratificações,
que ellas disputam. Ora, eu não comprehendo que o poder
seja cobiçavel, senão como instrumento da pratica do
bem. Mas, num paiz sem opinião publica, nem partidos
políticos, onde, portanto, o poder se vê entregue, quasi
sem resistência, ao gênio das paixões do mal, um homem
de alguma educação política não pôde ambicionar posições,
que acariciariam a vaidade dos fatuos, mas não satis-
fazem á consciência dos esclarecidos, li aqui estã por
que quantas posições me couberam, as mais altas do paiz,
deixei-as cahir todas, uma a uma, snccessivamente, com a
satisfação deliciosamente saboreada de um espirito qne
enveredou, sem saudades, pelo caminho da paz c do olvido,
prêmio exquisito e divino das vidas consumidas ou abre-
viadas no serviço da patria.
Volvendo, porém, ã questão...
19
Urt DECRETO DE 17 DE JANEIRO
O sr. R. Barcrij/ws:—Náo sei jwrque, quando
iiilla no decreto de 17 de janeiro, o nobre senador uffligo-sc,
incommoda-se.
O sr. Ruy Barbosa :—A santa boa fé destas almas !
Apontam o decreto de 17 de janeiro como a obra do Ante
Christo, entremostram na sua historia os mysterios mais
tenebrosos. E depois é apenas por se ter íallado no de-
creto de 17 de janeiro qne cn me afflijo ! Seraphica sim-
plicidade !
Quando o nobre senador, aventurando atfrontusa-
mente uma proposição, que é incapaz de justificar, respon-
sabilizou o decreto de 17 de janeiro como a causa uni-
versal dos males do paiz, tão certo é como não estarmos
em uma assembléa de néscios, que a intenção de s. ex. era
fulminar-me, litteralmente fulminar-me, com a mais sup-
pliciativa accusação, a que já se vinculou o nome de um
homem politico. Com os quatro pregos da sua rhetorica me
quiz excruciar como o autor de todas as desgraças de minha
terra; e porque eu desfaço, com um movimento do pé
indignado, o apparato ridiculo dessa expiação calumniosa,
—o accusador adocica-se em lieata ingenuidade, espan-
tando-se de que eu me indisponha ! Ora, é zombar desta
casa. (Muito bem.)
Que essa justiça cannibal, essa justiça dos estados
rudimentares da consciência celebre os seus tripudies nos
desvãos equívocos da imprensa, onde o anonymato vive
em padreação com a ealumnia, comprehendo. Mas que
venha sacudir-se na tribuna do senado contra um dos fun-
dadores da Republica, ainda que dos menores, um daqnelles
cuja vida se expoz na organisação delia, cuja vida peri-
garia ainda, si ella perigasse,—passa os limites do tolerável.
FINANÇAS DA ANARCHIA 147
O kr. R. BarcelIíOS :—Eu hei de apreciar o decreto
de v. cx. Eu lhe mostrarei que dellc se deduzcm todos os
nossos inales.
O sr. Ruy Barbosa :—Não mostrará nada. Não
sahirá do terreno das apreciações individuaes, que reflectem
apenas o prisma do apreciador. E as apreciações de s. ex.
não nie intimidam, não me fazem recuar ; porque todas
cilas são vistas, velhas e vãs.
Sou incapaz de averbar pessoal mente de calumniador
a um membro desta casa ; mas tenho o direito de pôr o
stygma de calumniosas ás increpações, dignas delle, que
antes de toparem por estas alturas, já se viram arrastadas,
em condições bem diversas, fora deste recinto.
C) sr. R. Barceixosj—Eu sempre ataquei o decreto
de v. ex., desde que tive occasião de pronunciar-me a
respeito. Portanto, v. ex. não pôde dirigir-se a mim
neste ponto. Não sei a quem se refere.
O sr. Ruy Barbosa: — Mas a argumentação do
nobre senador já teve exhuberantissima resposta no meu
discurso de de novembro, quanto á supposta influencia
tias emissões na depreciação do credito nacional. Pelo
que toca á outra parte das minhas responsabilidades finan-
ceiras, estaria s. ex. já ouvindo a refutação dos seus erros,
conhecidissimos e trilhadissimos, si me não tivesse cortado
o discurso com interrupções provocadoras.
A anarchia, dizia eu, quando o nobre senador me
distrahiu com o seu canhonaço á queima-roupa, a anar-
chia é, de presente, a grande responsável jxdo esboroa-
mento financeiro, que augmenta de dia para dia. (Apoindos.)
Não? não o quer o nobre senador? Não aeceita esta
sentença de evidencia axiomatica? Pois bem ! Não ha
148 O CAMBIO DA ANARCHIA

mais que quatro ou seis dias, em presença de um desses


boatos de meia hora, que percorrem ahi a área de alguns
quarteirões, uma das folhas mais addictas ao governo
aetual, o Jornal do Oommercio, attribuia a essa circum-
stancia de alguns momentos de duração e algumas ruas de
perímetro a baixa do cambio, que com cila coincidiu.
Ora, si o cambio é essa vibraiilissima sensitiva, melin-
dravel ao menor roçar de um desses rumores ephemeros,
de qualquer desses libéllulos de Bolsa, que nascem num
grupo de especulação, e noutro grupo vão perder as azas
pouco adeante,—que não será do cambio, a mimosa assus-
tadiça, timidissima, das algibeiras, quando a desordem rue,
de toda a parte, sobre o mercado, em bifadas brutacs,
annunciando-nos a instabilidade, o pavor, a desorgani-
zação no paiz inteiro? Pois ha cambio, que resista a
situações destas? Si elle estivesse hontem a 27,não devia
estar hoje a zero, como si uma capa de neve envolvesse
instantaneamente a columna do thormometro ? [Apoiados.)
O registrador cambial retrahia-se, e gelava (ao que se
diz), ante o volume crescente das emissões. De um mo-
mento para outro, com o advento do governo que o nobre
senador estremece, o curso das emissões recúa, contra-
impellido sob ura programma intransigente de reducção.
Que devia sueceder, si abaixa do cambio significasse sobre-
excesso de papel no mercado ? Evidentemente a baixa mi-
noraria, ou estacionaria, pelo menos. Mas tal não succedeu.
Após melhoras ligeirissimas, insignificantes, a tendência
depressiva cresceu, firmou-se, c domina, com ameaças recru-
descentes.
De 24 a 2õ de novembro manteve-se o cambio entre
12 1/4 e 12 1/2. De 26 de novembro a 5 de dezembro
O CAMBIO DA ANARCHIA 149

oscillou entre 11 3/4 e 12 1/2. Do dia 7 ao dia 11 couser-


vou-se entre 11 1/2 e 11 3/4. No dia 12 subiu a 12, baixan-
do, no imniediato, ali 3/4, no dia seguinte a 11 1/2, e os-
cillando entre essa taxa e a de 11 7/8 até ao dia 21. No dia
22 ascendeu a 12, fluetuando entre essa cotação e a de 12
5/8 até ao dia 24. Dahi em deante continuou ellc no mesmo
catingar. O movimento, segundo o Jornal do Commercio,
foi "menos que regular" nos dias 24, 25, 28 de novembro,
1,2 4, 15 e 23. Foi "pequeno" em todos os outros dias,
desde 27 de novembro a 24 de dezembro. No dia 25 de
novembro o mercado paralyzou-se completamente desde 1
liora da tarde. No dia 7 os bancos recusaram-se a taxai-,
retirando as tabella». No dia 0 não houve taliellas nos
estabelecimentos. E no mesmo atoladiço continuámos até
hoje. Algumas vezes, de um dia para outro, se deu a baixa
precipite de meiopenny. Assim do dia 5 para o dia 7, assim
do dia 7 para o dia 9. Em sumraa, variando cm oscillações
continuas, de 25 de novembro a 25 de dezembro, o cambio,
que na primeira dessas datas subira a 12 1/2, não tinha,
um raez depois, conseguido, nem conseguiu, até agora,
elevar-se acima dessa taxa.
Quem ha de responder por tal decepção, a não ser a
anarehia reinante? (Apoiados.)
Mas o governo, asseveram os seus th uri fora rios, não
é o autor da anarehia. A anarehia é a prole do golpe de
Estado. Eu seria o ultimo dos homens capazes, neste paiz,
de desculpar o golpe de Estado. Faço justiça á sua influ-
encia anarehizadora. Mas o governo, que suffbcou o
golpe de Estado, teria estrangulado a anarehia, si proscre-
vesse de uma vez, irreconciliavelmente, a illegalidade.
I llegallidade e anarehia são nomes do mesmo demonio.
150 DECEPÇÃO DA LEGALIDADE

Que fez, porém, o governo ? Quiz construir uma ordem fóra


da lei, e perdeu-se ; porque fóra da lei tudo é desordem.
[Muito bem.)
Foliando assim, tenho o direito de considerar-me
amigo mais verdadeiro do governo, melhor amigo seu do
que os commensacs da esphera official, que lhe lisongcia0
os caprichos, que o coroão arbitro da política dos Estados,
que, com o mais iusolente vilipendio da Constituição
federal, o enthronizam na magistratura revolucionaria de
grande eleitor' e destituidor-mór dos Governadores. ljU
qualifico decididamente essa theoria dehybrida, falsa, des-
leal e anti-republicana. [Link]-a de arrastar o governo
á sua perda. (Apoiados.)
Estas verdades, o paiz inteiro as sente, o paiz inteiro
as repete, o paiz inteiro as deplora. Pela minha parte as
enuncio, não com a sobranceria de adversário trium-
phante, mas com o pezar de amigo consternado. Queria
sinceramente poder estar entre os servidores mais zelosos
drlsta situação ; porque nenhuma alvoreceu ainda entre
esperanças mais lisongeiras, suscitando tamanhas acclaiw1'
ções geraes, irapoudo-se até ao despeito dos vencidos, 6
arrancando adhesões nos campos mais oppostos. [Apoiado*)
Mas poz-se-lhe á prova a sinceridade, c todas as illusõe»
se dissiparam. Viu-se que apenas mudámos na especie da
illegalidade. Quebrou-se o talisman d'aquella victoria. d1
desordem engravesccu, acesa como nunca. Assanharam-86
os instinetos de dominação militar, já sopitados pela orga-
nização civil dos Estados. O paiz desanimou, convém
cendo-se de que a Constituição republicana ficara send11
apenas um bello guarda-sól cliinez para as ousadi»8
da dictadura. E o estrangeiro percebeu que não haVU1
O CREDITO E A DESORDEM 151

mais, que construir sobre esta ar&i movediça. {Muito


bem.)
Subvertido o governo constitucional, perpetuada [Link]-
boluçaOj dissolvida a harmonia nos Estados, acabada toda a
^afiança na estabilidade das instituições, seria imbecili-
1 pensar em credito publico, c ridículo sonhar cora a
^dorização da moeda nacional. As causas do mal abi
ls
tão, próximas, palpáveis, estupendas na decomposição
pulitiea do governo, na espliacelação geral da Republica.
(Apoiados.) Mas o nobre senador pelo Rio Grande do Sul
'dornioeeu a 17 de janeiro de 1890, sob os terrores de
'11Tl pesadelo, e não sente outra consa senão o peso do seu
Ul
cnbo. A desgraça financeira do paiz é o ephialta da sua
"bscasao somuolenta ! Fóra dessa acanhadissima idéa fixa
i ""'da mais vê, nada mais ouve, nada mais entende.
b>ejam quaes forem as calamidades, que tumultuem
s
' 'bre a patria, o decreto de 17 de janeiro ha de ser eterna-
1U(
'ute o responsável. Si após a anarcliiã fossemos talados
a,
nda pela sêcea, pela fome, pela peste, pela invasão es-
'''Uigeiva, ainda o decreto de 17 de janeiro continuaria
d s
er denunciado por s. ex. como a Besta do Apocalypse.
J1
"ubaldo accumulei faetos sobre factos, algarismos sobre
Sarismo,s, documenfeg sobre documentos, evidencias sobre
• \ ulencias. Em balde mostrei que, de quantas cansas perver-
podem influir contra o cambio, independentemente
J
quantidade do papel, todas se deram as mãos num
^'Ucerto inaudito, oactuaram para a baixa cora uma força
pressão sem exemplo. Embaldo evidenciei que o único
(Su
ltado admirável é não serem as eircumstaocias ainda
Ulis
desastrosas, sob esse concurso de factores depau-
<!1
P antes, quando um só, na escala em que todos elles se
152 A EMISSÃO

desenvolveram, bastaria, para originar depressões aterra^


doras. Embalde vos fiz ver, com o testemunho irrecusável
das estatísticas, a iusuffioiencia da nossa eirculayão aetual,
ante os cálculos dos estadistas do império, ante os juizes
da imprensa contemporânea, ante os pareeeres de aprecia-
dores estrangeiros, ante as condições materiaes, os uses c
as necessidades do nossa terra, ante os annaes da moeda
fiduciaria nos paizes de papel inconversivel, ante a somma
das omissões nos Estados mais famosos pela excellencia do
sen regimen financeiro. Tndo em vão !... {Muito Lem.)
Tndo cm vão... porque entre todas as cumplicidades da
maledicencia se assentara o plano, digno dellas, de firmar,
na patria analphabeta da leviandade e da injustiça, a con-
vicção da perversidade ultra-infernal do Governo Provi-
sório c do meu papel satanico no seio desse governo.
(Muifo bem.)
Confesso a v. ex., sr. presidente, que, a despeito dos
meus hábitos de philosopliia na apreciação desses tristes
phenomenos moraes, me é difficil proseguir com frieza de
animo neste debate. Nas almas mais adeitas a euthesourar
o desprezo da injustiça, ha crises de indignação, que varrem
violentamente as maiores reservas de indiflercnça.
Todo o angmento de circulação inconversivel, por
mais necessário que seja ás exigências do consumo,
cm um paiz onde a circulação mctallica (' impossivcl,
determinará forçosamente a baixa do cambio ? Si não,
—como poderemos attribuir a esse elemento abaixa aetual,
(piando é notoria a conUnencia de outros mais deprimentes'!
Si sim,—como é que a baixa, oecasionada p<'la presença de
um governo emissionista, vem aeeelerar-se sob uma admi-
nistração hostil ás emissões? (Apoiadon.)
O GOVERNO E OS BANCOS EMISSORES 153

Deantc desta maneira de interpretar a razão das


cousas, deixem-me dizer, passam-me pelo espirito reminis-
ceneias de Sganarello : afi^ura-se-me estar ouvindo ex-
plicar pelo grande medieo de Moliòre as causa# rennn, os
mvsterios da therapeutiea soporativa, interpretados á guisa
destas criticas financeiras:

Mihi (lemanilatis rationrm qnare.


Opium fácil domiire.
■ A cela respondeu
Quia est in eo
Virtns dorniitiva.
(I filariilasfe.)

Seria ocioso estender ainda hoje considerações, em


matéria (pie tanto aprofundei no meu ultimo discurso.
Mas em face das eircumstancias mais recentes, não
serii de todo fóra de proposito chamar-vos a attenção para
a attitude bcllica assumida pelo governo contra o Banco
da Republica. Sob o pretexto do descrédito irrogado á sua
administração, espalharam-se, íí sombra das influencias li-
gadas ao governo, as noticias mais pavorosas quanto íí
solvência dessa instituição, á sua moralidade, áestabilidade
da sua vida. De ouvido em ouvido se lhe propalou a fallencia
immincntc, estimulando-se o publico, no interior, a rejeitar
as notas da sua emissão. A taes golpes sobre a reputação do
estabelecimento, que representa, nas finanças do paiz, o
papel de regulador, o centro da sua circulação fiduciaria,
não podia deixar de ser profundamente sensível o valor
do meio circulante. {Apoiados.)
I m banco de emissão não pôde resistir ao embate das
antipathias de um governo hostil, no proprio paiz, a cujas
20
154 POLÍTICA E CAMBIO
necessidades esse banco tem de servir. Ninguém ignora
que o papel inconversivcl está sujeito aoscillar conside-
ravelmente sob a acção de causas extrinsecas ao seu mere-
cimento. Ora, dessas causas, nenhuma pôde ser mais forte do
que a especulação política, maiormente si ella vai encar-
nar-se na administração do Estado. Tem-se visto a circu-
lação fiduciaria dc um paiz depreciar-se ao influxo até de
campanhas de bolsa movidas por governos estrangeiros.
E' assim que a Allemanha, pela manipulação oflieial
exercida sobre a praça de Berlim, conseguiu o mais extra-
ordinário desagio do papel russo. Diz um escriptor desta
nacionalidade: (Xá )
"A guerra econômica dirigida por Bismarck contra a Rússia,com
encarniçamenlo sem igual, exerceu, em um momento dado, acção
tão funesta «obre o cambio e os títulos russos, que estes desceram,
a cotações nunca vistas durante as crises mais terríveis da nossa
[Link] feri cia nacional." 1
Imaginae agora quaes não hão de ser os resultados,
quando a solapa for praticada, no paiz mesmo, pelo governo,
cuja confiança deveria indicar a medida da confiança da
nação no estabelecimento emissor. (Apoiados.)
Na organização do regimen das emissões entre nós
tive occasião, senhores, de variar em dois sentidos. E não
me pesa de confessa-lo. " Tenho-me por feliz em não ser
um desses homens, a. quem o tempo e a experiência nada
ensinam." 2 Politicamente eu me envergonharia antes
de pertencer á " turba de indivíduos, que não conhecem,

1
De Cyon : La Rassie conlemporaine,—Paris, 1891,—Pag. 207.
2
Les dúcours de M. le Prince de Bismarck. 1802-85.—Vol. I,
pag. 305.
VARIAR E GOVERNAR 155

na sua vida inteira, senão uma idéa só, com a qual nunca se
puzeram em contradicção." 1 (Iíího.) Governar, senhores,
6 variar. Não ha nada mais distante do absoluto, mais
incompatível com elle, do que as necessidades praticas do
governo, A maior escola dessa grande arte, a Inglaterra,
ó, ao mesmo tempo, o maior theatro de transmutação nas
convicções dos homens de Estado. Robert Peel, o mais
celebre reformador queella produziu neste século, tem todas
as suas glorias nas suas variações de opinião. Todos os ho-
mens de acção, obrigados a lutar com situações excepcionacs,
todos os que põem aos hombros as responsabilidades de uma
política em épocas de revolução e reconstrucção nacional,
foram sempre chamados a contas jjelos logicos, isto é, pelos
utopistas, como réos de inconsistência, versatilidade e
contradicção. {Apoiados.)
Renhida era, em França, sob a monarchia dejulho,
a luta entre os adeptos do Banco de França e os partidá-
rios dos bancos departamentaes. O governo de Luiz Fe-
lippe batia-se j)elo monopolio do banco ; os partidos de
opposiçâo, o partido radical, o partido republicano, o par-
tido socialista pugnavam intransigentemente pela plurali-
dade dos estabelecimentos emissores. Mas sobrevem a re-
volução de fevereiro, desapparece a realeza, eonstitue-se o
governo provisório. Que solução achou nas mãos deste a
questão bancaria? Feios decretos de 27 de abril e 2de
maio de 1848 cahiram os bancos departamentaes,e firmou-se
o privilegio do Banco de França, dceretando-se-lhe o curso
forçado. E quem assignava esses decretos ? Lamartine,

1
Op. cit,—Vol. XII, pag. 287,
156 M0N0EM1SSÃÜ

Luiz Blanc, Ledru Rollin, os mais fogosos sustentadores


da liberdade dc emissão. 1
Eu não podia recusar-me a esse tributo, imposto pelo
bom senso patriótico ao amor proprio individual. Xa questão
dos lastros bancários, variei do papel para o ouro, não con-
vencido, mas cedendo á pressão exterior. Essa pressão,
desenvolvida por uma alliança dc opulentos syndicatos, seria
bastante forte, para rebentar e estilhar o mecanismo das
novas instituições, si o governo lhe não abrisse essa escapa.
Cedi, pois, ao menor dos dois males. Variei, outrosim, da
pluralidade estatuída no decreto de 17 de janeiro, para a
unidade, planejada no decreto de 7 de dezembro. E alu
variei convencido.
Nem eu tivera jamais opiniões declaradas em sentido
opposto. Xa minha lueta contra o ministério Ouro-Preto,
eu não defendera a pluralidade, senão como o regimen pre-
scripto pelo nosso direito positivo. Nos meus primeiros
decretos não estabeleci a pluralidade, senão como compro-
misso com as tendências federalistas, em cujo nome a revo-
lução acabava de fazer-se. Mas nunca elevei semelhante
solução á altura de doutrina. Nesse assumpto enxerguei
sempre uma questão de vantagens, nunca uma questão de
principies. Ora, na apuração das vantagens, tamanho é o
excesso destas em favor da unidade bancaria, que o proprio
federalismo, nos paizes como a Suissa, onde ellc mais
caracteristicamente se personifica, já lhe sacrificou a lógica
do seu systema, caminhando rapidamente para a centra-
lização.

1
àchille Plehano: Uuità (li emimone, libirfn di credito, pag. 3i,
MONOEMISSÃO 157
Em uma nação como u Brasil, ao começar da expe-
riência federalista na organização da Republica, eu acredito
ipie as mais evidentes necessidades políticas nos dictavam,
como laço essencial da União, contra o movimento centri-
fugo, «juc a éxaggeração das reivindicações da autonomia
local poderia imprimir ao paiz, a concentração das emis-
sòes num grande estabelecimento de credito nacional.
(Apotados.)
Uma das maiores autoridades que este sccido conhece
em matéria de organização bancaria, o Conde de Cavour,
insistia sempre na excellenciadesse regimen :
" Eu creio firmemente que um paiz, empenhado em subir a
um alto grão de prosperidade material, e ver desenvolvidos com a
máxima actividade os seus meios de producção, deve possuir um
grande estabelecimento de credito : o exemplo das maiores nações
no-lo prova. Si a Inglaterra, penso eu, não tivesse tido o auxilio de
seu banco nacional, os seus progressos teriam sido mais lentos do
que foram. Todos sabem de que efflcaz ajuda tem sido o Banco de
Inglaterra para o governo inglez; não sei si Pitt, com todo o seu
gênio, conseguiria sustentar a luta contra Mapoleão, si não se
apoiasse no concurso do banco. Grandíssimos serviços tem prestado
ao seu governo o Banco de França ; e, á nossa custa, já nós mesmos
experimentamos de quainmanbo prestimo tem sido, para o governo
austríaco, o Banco de Vienna. Mão se lograria o mesmo subsidio
das instituições de credito, si, em vez de um estabelecimento pode-
roso, existissem uns poucos de fracos; isto é evidente." 1
Mas Pitt mesmo não hesitou era declarar muitas vezes
que, si não fôra o Banco dc Inglaterra, não poderia sus-
tentar a luta de gigante, que sustentou, cora Bonaparte; os

1
Gavour : Dimtrri parlamcnlari raccolti e publicati per or-
dine delia ca mera dei deputati.—Vol. III, pags. 340-43.
158 MONOEMISSÃO
estadistas austríacos reconhecem que, sem o Banco de
Vienna, o império da Áustria não se teria mantido; e, quanto
aos bancos americanos, não falta quem acredite, com a
mais alta competência e os mais sérios argumentos, na
opinião, propugnada por Cavour, de qnc os immensos
desastres economicos e financeiros desse regimen se teriam
evitado, si houvesse, nos Estados-Unidos, um banco cen-
tral, capaz de temperar a desordenada acção de todos
aquelles bancos locaes. 1
A Italia é um dos raros paizes de primeira ordem,
onde as difficuldades de um regimen bancário construído
aos pedaços ainda não permittiram a realização das as-
pirações do seu grande estadista. Mas as mais abalizadas
autoridades sentem alli a urgência dessa reforma, da
qual, não ha muito, escrevia mn dos especialistas no
assumpto ;
" No complicado movimento do mercado financeiro e mone-
tário do mundo, ficamos isolados á mercê dossuccessos. E, ao passo
que com palavras altisonantes ouvimos todo dia glorificar a enér-
gica acção italiana no campo político, continuamos, entretanto, a
assistir, inertes e impotentes, á depreciação dos nossos valores, á
baixa persistente do cambio, á esquivez das correntes metallicas para
comnosco, ao depauperamento tios nossos recursos, á nossa pro-
gressiva decadência econômica. Na Inglaterra, na Allemanha, em
França, vemos, pelo contrario, os grandes bancos centraes de olhos
vigilantes, com a acção prompta ao mínimo facto indicador de
variações no mercado financeiro e monetário. Para isso, como para
muita outra cousa, nós nos limitamos a confiar na Divina Pro-
videncia." 8

' Ib. Pags. 377-381.


' [Link] : U/dtà di emmione. (Torino, 1890), pag. 69.
MONOEMISSÃO 159

Todas as nações, era snmma, vão-se norteando por essa


direeção, e o termo scientifico do problema parece, afinal,
destinado a ser esse. Si me pcrmittis, ler-vos-hei ojuizo
de nm pontífice na matéria, a palavra qnasi oracular de
Wagner: (Xá)
" No concernente á funcção especial da emissão de bilhetes,
a centralização apresenta vantagens particulares. Em verdade, si
não podemos negar que um syslema descentralizado de bancos
de emissão, qual, por exemplo, o existente na Escossia, se adapte
a acompanhar as vicissitudes periódicas da necessidade, que a
economia social tem, de instrumentos de circulação, não é menos
certo que o systema dos grandes bancos centralizados, dispondo de
uma extensa lê de de filiaes, não cede vantagem, por esse lado,
ao outro,—ao mesmo passo que melhor consegue, em tempos críticos,
resistir á tempestade. A historia do Banco de Inglaterra, nas crises
comrnerciaes de 1825, 1847, 1857, 1856, a do Banco do França, nos
annos de 1848, 1866, 1870, 1871, a do Banco da Prússia em 1857,
em 1866, em 1870. a do Banco Austriacô, em 1873, abi estão para o
demonstrar."
Mais:
" As retiradas de depósitos e a soíTrega apresentação de bilhetes
ao troco o;j não se produzem, ou se dão em gráo muito menor
no caso de um grande banco central. Soe acontecer, até, em quadras
de crise, affluirem a esse grande e solido estabelecimento os depó-
sitos, que se retiram dos outros bancos (Banco de Inglaterra em
1875 o 1866). Dest arte o grande banco central vem a se achar em
condições de satisfazer com facilidade e segurança superiores a maior
procura de credito, que se manifesta exactamente em occasióes de
crise, a preencher as lacunas, que em todo o systema de credito se
descobrem, e superar assim, no verdadeiro interesse da economia
social, os obstáculos das crises. Ora, esta é a vantagem maxima, a
mais decisiva, que pôde recommendar a centralização, em confronto
com a multiplicidade de bancos menores, especialmente no que res-
peita ás funcções emissoras. Os ensinamentos recentes da historia
160 O DECRETO DE 7 DE DEZEMBRO
bancaria na Inglaterra, na Allemanha, na França, acareada com a
da Escossia, a dos bancos provinciaes inglezes, a de Hamburgo(1867),
a dos pequenos bancos allemães (1866) e lambem a dos Eslados-
Unidos, tão para sempre deeiMrm a este respeito." 1
E ainda :
" Nas grandes calastrophes do Estado, a possibilidade do apoio
de um grande banco central, poderoso e bem administrado, con-
stilue um alto interesse publico e [Link] catastrophes
e as calamidades financeiras d'ahi originárias mais facilmente se
podem vencer com a condjuvação de um banco dessa especie; por isso
que a sua circulação monetária se mantém relativamente illesa. ou
menos abalada, e é facilmente susceptível de restituir-se ás condições
normaes, como nos mostra a historia financeira e bancaria da Ingla-
terra, no período iniciado em 1797, a da Áustria, a partir de 1848.
a da França de 1879 em deante." 8

Eis a instituição, com que ambicionei dotar a minha


patria. Commetti um attentado"? E' o que se suspei-
taria deaute das fulminações, que vejo presentemente
vibrarem-se contra o decreto de 7 de dezembro, qualificado
de "desastroso" por censores de valor mais ou menos
fortinho na especialidade. Si esses sentenceadores cruéis
tivessem ao menos lido o acto, que discutem, já eu não mur-
muraria. Mas cuidaes (pie o leram? E' não conhecer
a terra, em que vivemos. Pois devéras ntn critico destas
cousas graves, com o ouvido educado na alta scicncia de
apanhar no vôo a informação, que o vento leva, carecerá
de baixar aos processos rasteiros do estudo, para julgar
reformas financeiras? Si realmente o crídes, senhores, em

1
Wagner : J>> r erri/if vml das Banktoesen j 65. No Volkswir-
thschaflstehre, de tí. Schõnbero, vol. 1. (Tubingen, 1855), pag. 452.
2
Op. cif.. ? 81, pag. 467.
O DECRETO DE 7 DE DEZEMBRO 161
verdade, ein verdade vos digo que confimdis o Brasil cora
a lua. {liko.)
Senhores, esses raesmos queactualraente se oceiipani era
raorcegar o decreto de 7 de dezembro, receberam esse decreto
com applausos. Nunca houve reforma, que mais calasse na
opinião. Toda a imprensa lhe abriu os braços. Não houve
quem lhe oppuzessc reparo. A Étoiledu Sud, representando
conspicuamentc o jornalismo estrangeiro que aqui professa
conhecimentos especiaes na matéria, escrevia :
" Por loiiga que seja a tarefa, a que nos adscrevemos, traduzindo
e publicando a notável exposição de motivos do sr. Ruy Barbosa
acerca da fusão dos bancos, não hesitamos em emprehendel-a.
Aquelles, dos nossos leitores, que se dessem boje ao trabalho de
rever os dois artigos escriplos por nós, nestas colunlnas, em 12 e 19
de outubro de 18S9, sob o titulo um tanto salyrico de Emmão de
bancos.', comprehenderão o prazer, ipie sentimos, ao ver satisfeitos
os votos, que então formávamos, sem outra autoridade, afora a que
nos dá o nosso ardente desejo de ver o Brasil afastar-se de aven-
turas, que malbaratariam o brilhante futuro reservado a este paiz.
"Nem é só isso; o documento infra-trauscripto encerra uma lição,
que não fructifieará somente no Brasil, com quanto o sr. Ruy Bar-
bosa modestamente diga ter lido em mira apenas " submelter aos
olhos de seus concidadãos as paginas da realidade experimental,
único preservativo contra a invasão das enfermidades inherentes
ao seu temperamento oratorio e idealista, as mais damninhas de
quantas podem affligir um povo em épocas de reorganização geral
das instituições."
Era Paris, o Brésil, invocando o conceito do Jornal
do (hmmercio ácerca dessa reforma, escrevia:
" Este juízo merece tomado em consideração ; porque é o
da f/ronde maioria do publico no Bratil, a que o decreto de ftisão do
Banco Eaeional com o das Estados- Unidos satisfaz completamente." 1

1 Lc BtísU. 18 de janeiro de 1891, sob o titulo Euniti ban-


quaire au BrisiL
21
A FUSÃO DOS BANCOS

E qual era essa opinião do decano da nossa imprensa


periódica, a respeito do decreto de 7 de dezembro, invocada e
assignalada como a dopaiz em sua grande maioria? Eil-a,
qual a transcreveu o Brésü, de onde a reproduzo :
" E' um acontecirnenlo de grande alcance, que a homo ver, se
recommenda muito pelo senso pratico, tanto dos interessados nessa
operação, corno do ministro da fazenda, que deste modo se póile
approximar das verdadeiras idéas sãs na matéria " 1
Abi tendes, portanto, a approvação do nosso grande
orgão jornalístico, preiteada, em termos inequivocos, ao
decreto de 7 de dezembro. ()ra, a esse decreto deve o Banco
da Republica a sua organização presente, e nesse decreto se
traçaram á emissão bancaria os limites aetuaes.
Como admittir, pois, que me Hagellein boje pelos
mesmos actos, que bontem me palmeavam ? E' o caso de
appliear aos jornalistas o lembrete de Qnintiliano a outra
especic de esquecediços : Mendncein memorem esse opportcl.
Escrever requer, pelo menos, memória.
A opinião publica estava, portanto, commigo. Apoiei-
me nella, cuidando prestar o maior dos serviços á estabili-
dade financeira das novas instituições, eom a alliança, (pie
promovi, entre as duas influencias, cujo antagonismo divi-
dira e conturbara, no primeiro anuo da Republica, a praça
do Rio de Janeiro.
E qual 6 agora o centro da eampanba aberta contra o
Banco da Republica? Onde está o general dessa guerra
implacável ? No ex-presidente do Banco Nacional, precisa-
mente, naquclle que, com a sua firma, ao lado da do pre-
sidente do Banco dos Estados Unidos, me solicitou a fusão

1
Jornal do Commercio, de dezembro de 1890.
AS EMISSÕES E O BANCO NACIONAL 163

dos dois bancos. E é a própria mão, que se estendia


para mim, requerendo essa medida, é essa a que deixa
cahir sobre a minha administração, da qual o systema
encarnado no Banco da Republica era o transumpto e a
cupola, a picha de " incapacidade " ? ! Pois a política não
pôde observar, sequer, as apparencias da moral? E 6 soba
capa da paixão patriótica que se hão de asylar esses des-
dobramentos da consciência? (Muito bem.)
Falia em excesso de emissões boje, quem, sr. presi-
dente? Quem ? O sr. de Figueiredo ! Mas já excede todos
os limites essa zombaria de máo gosto. Já não ha paciência,
que a comporte ! Senhores, em outubro de 1890, a somma
das emissões outorgadas sob o Governo Provisório já se
elevava a 512.000 contos. Nesta época me procurou o
sr. de Figueiredo, dirigiu-me, por parte do Banco Na-
cional, uma representação. Para que ? Para impugnar as
emissões concedidas ? Não, senhores : para reclamar o
auffmento deltas. Eis a famosa petição, que agora vê a luz
pela primeira vez:
" Sr. ministro.— 0 Banco Nacional do Brasil, fiel aos princípios
que determinaram a sua fundação, e que se resumem em colla-
borar, quanto lhe seja possível, na consolidação e desenvolvi-
mento do credito nacional e no auxilio devido ás industrias úteis e
ao commercio legitimo,-que são os factores mais importantes da
riqueza publica, contcio dos seus devores, vem perante v. ex. fazer a
seguinte exposição :
" Tem este banco como incontestável que a creação successiva,
desde algum tempo, de estabelecimentos de credito e de emprezas
industriaes no paiz e principalmente nesta praça, constUue o enr/nja-
mento de responsabilidades muito excedentes As forças dos acluaes
elementos de circulação, o que já se acha aflirmado pelas difficuldades
manifestadas nesta praça e pelo augmento presumivel dessas diffi-
culdades em virtude dos conlinuos e avultados pedidos de moeda
164 AS EMISSÕES E O BANCO NACIONAL
para as praças de alguns Estados do norte. Pôde, poi», assegurar-se
que os elementos actwacs de circulação, sufficientes e talvez super-
abundantesem períodos não remotos, são hoje escassos para attender
ás necessidades imperativas dos estabelecimentos de credito e das
emprezas industriaes, que mereçam e devam ser amparadas.
"Reconhecendo este banco que as ultimas medidas financeiras
por v. ex. promulgadas constituem parte essencial de um plano, que
concorrerá efficazmente para consolidar e augmentar o credito do paiz,
e applaudindo o necessário e justificado correctivo com que v. ex.
entendeu difíicultar as organizações deficientes de garantias para o
capital associado, julga este banco secundar as vistas de v. ex, soli-
citando, como solicita de v. ex., o augmento da faculdade emissora com
as mesmas condições da que anteriormente lhe foi concedida. Re-
leve v. ex. ainda ponderar-lhe que este banco, obtida a concessão,
que impetra, está habilitado a fazel-a effectiva em curto prazo, e a
concorrer por esse meio para superar, ou, pelo menos, diminuir as
dificuldades crescentes desta praça.
"Rio de Janeiro, 20 de outubro de 1890.—Banco Nacional do
Brasil—O presidente, Conde de Figueiredo."

A probidade das accusações, que me pretendem ferir,


eil-a, senhores, a que se reduz ! {Sensação.)
A faculdade emissora elevava-se a quinhentos e doze
mil contos. O presidente do Banco Nacional exora o g0'
verno a expandil-a, solicitando essa medida como neces-
sidade incontestável. Que faz o ministro ? Annue, dando ao
estabelecimento resultante da fusão do Banco Nacional cora
o Banco dos Estados-Unidos o augmento, que aqnelle ban-
queiro solicitava para o Banco Nacional. E agora o mesmo
financeiro, que provocou essa reforma em nome das ur-
gências mais indeclináveis do paiz, ousa canhoneal-a como
um acto de ignorância minha, de imprudência minha, àe
inaptidão minha, senhores ! Mas em verdade, si ha entre
O BANCO DA REPUBLICA 165
n
üs ura réo, si ha de haver uni condemnado, quem é esse ?
®11) ou o famoso banqueiro? (Apoiados)
E de que modo procedi, nessa organização, agora
Walsinada no terrivel manifesto annexo ao projecto da
comrnissão mixta, de que s. ex. é signatário? Chamando os
presidentes dos dois bancos, que impetravam o consorcio, a
eollaborarem eommigo, nessa combinação, á qual não in-
Co
rporei uma idéa, que não recebesse acquiescencia expressa
dos dois eminentes banqueiros. Si errei, pois, quem não
rrrou eommigo ? (Apoiados.) Como 6, portanto, que um
dos protogonistas, nessa solução harmonizadora, cuja fór-
mula deu molde geral e definitivo ao novo regimen do
meio circulante, revolta-se hoje, com esse aprumo, contra o
plano, cm que c, tanto quanto eu mesmo, parte capital ?
Como é que s. ex.,particeps criminis, julga desvencilhár-se
da sua responsabilidade solidaria, simplesmente por assi-
gnar contra a obra commum o escândalo dessa palinodia
com esgares de verrina ? (Muito bem.)
A oüy dos telegrammas, a city dos boatos de sensação,
a
mentora ideal das nossas finanças, o oráculo ultramarino
dos nossos interesses quer, entretanto, a liquidação do Banco
da Republica, e dirige-se, para isso, aos legisladores bra-
s
deiros com a autoridade de mãi, que houvesse gerado nas
'mtranhas de suas sympathias a fortuna deste paiz e a
Soi
'te da Republica, deste paiz sangrado pelos empréstimos
es
h'ãngeiros, da Republica amofinada e vilipendiada pelas
Invenções europcas. Mas liquidar o Banco da Republica
Pmque? ! Porque as emissões superabundem ? Mas já vos
c
monstrei que não 6 licito proferir sériamente este asserto,
'"'to a lição raathematica dos algarismos. (Apoiados.)
O se, Amaeo Cavalcanti ; — E' impossivel.
166 O BANCO DA REPUBLICA
A emissão não 6 excessiva ; eu o demonstrarei cora alga-
rismos.
O sn. Ruy Barbosa : — Porque o Thesouro des-
empenhe melhor as ínncções de emissor...
O sr. Amaro Cavaxxjanti :—E' ura erro.
O sr. Theodureto Souto :—Apoiado, seria voltar-
mos ao século passado.
O sr. Ruy Barbosa :—... a que os mandamentos
do cabo submarino pretendera fa/.el-o voltar ? Mas esta
proposição desafia o senso oomraum. Qnal 6, hoje, o econo-
mista, qual é o financeiro, hoje, capaz de antepôr o papel
fiduciario do Thesouro ao papel tídueiario de bancos bem
constituídos'! (Apoiados.) E por que artes da lógica os
que repellem a circulação sobre a base de titulos do Estado,
hão de advogar a emissão de cédulas do Thesouro
(apoiados), quando esta corre tendo por todo lastro uma
promessa sem vencimento, nem garantia especial, e aquella
assenta em um fundo especial de valores de primeira ordem,
consignados ã sua garantia? (Apoiados.)
E' errônea, 6 desastrosa a organização do Banco da
Republica ! Mas ainda ninguém teve a consciência de es-
pinçar as fibras viciosas, que a mazcllem. O Império dera ao
Banco Nacional a emissão no triplo. O Governo Provisório
deu ao Banco da Republica a emissão no duplo; visto que
o terço addicional se reserva, no decreto de 7 de dezembro,
para a remissão do papel-moeda. O Império fizera do res-
gate do papel-moeda uma especulação maravilhosa para o
Banco Nacional, contractando a substituição das notas, que
elle recolhesse,por titulos de renda em ouro a 2^ de amor-
tização e 4 ^ de juro. O Governo Provisório reduz a um
terço essa remuneração, obrigando o Banco da Republica
CONVERSIBILIDADE 1C7

ao recolhimento gratuito de duas terças partes da emissão


official. Dir-se-ha que as notas do Banco Nacional eram
realizáveis cm ouro. Mas já vos mostrei que esse compro-
misso não fora contraindo sinão sob a segunda tonção do
curso forçado. {Apaiados.) Esse compromisso era uma
burla, como está destinada a ser uma burla essa disposição
do projecto da commissão mixta, que, para a iniciação do
troco em ouro, fixa apenas um trimestre de cambio entre
26 3/4 e 27. O cambio esteve acima de 27 desde outubro
de 1888 até abril de 1889 (sete raezes); esteve acima de 27
desde julho a novembro de 1889 (quatro mezes), como es-
tivera entre 26 12/16 e 27 15/16 durante dez mezes em
1875, sem que nenhum desses longos periodos de elevação
o preservasse de descambar depois rapidamente. Um em-
préstimo estrangeiro bastará, para nos dar mezes e mezes
de cambio ao par e acima delle; mas, quando ao fluxo sue-
eeder o retluxo, as corridas pelo troco levarão os bancos á
mina, ou á solicitação do curso forçado. {Apoiculox.) Em
finanças, como em política, como em todas as cousas, é
preciso não querer de mais, para não perder tudo:

Cnmelus dcnideram oornua etiam tíures perdidit.


Nestes assumptos os rotulos vistosos são sempre in-
signes illusõcs. E aqui está porque, nos decretos de 17 de
janeiro e 7 de dezembro, não ousei estipular para a iniciação
da conversibilidade um prazo de paridade no cambio inferior
a doze mezes. Emquanto o desenvolvimento da fortuna
publica e a expansão das nossas forças produetoras nos
não pudessem assegurar essa aturada fixidez nas taxas
cambiaes, parecia-me arriscado, e frustraneo o annuncio de
volta aos pagamentos em ouro. Adoptaudo período mais
168 EMISSÃO E RESGATE

breve, eu receiaria ceder a imaginação, e enganar o puix


inutilmente.
O único perigo verificável no plano do Banco (]a
Republica seria o de (pie a sua emissão invadisse torren-
eialmente o mercado, cm vez de espraiar-se pouco c pouco
por elle, par a par com as suas necessidades. Mas o governo
tinha ao seu alcance os meios de influencia, os recursos
de expediente mais simples e efiicazes, para conter os
descomedimentos da emissão precipitada. {Apoiado^
Basta considerar que um só bilhete emissivel não entra nu
thesouraria dos bancos emissores, antes de transitar pela
Caixa da Amortização, isto ê, antes de receber o ríato do
governo. Depois, no proprio decreto orgânico do Banco
da Republica estava posto o veto a essas demasias, desde
(pie alli se consigna um terço da emissão para o resgate
do papel-mocda, e se prescreve um quinquennio j aru a
ultimação deste. (Apoiados.) A emissão, pois, regular-
mente dirigida, não podia chegar ao seu limite senão no
termo de cinco annos.
Examinem attcntamente o decreto de 7 de dezembro,
c apontem-me (eu obtesto, eu provoco os meus adversários
a essa liquidação), apontem, á luz da sciencia bancaria, as
disposições desse acto, que cila não sanccionc. As trans-
acções do banco estão limitadas, alli,pelo [Link],a operações
"em depósitos de dinheiro e valores,empréstimos garantidos,
câmbios,créditos e metaes preciosos". Haverá, nesta enume-
ração, algum gênero de negocios, vedado aos bancos emis-
sores pela natureza de suas funcçôcs ? Outras operações
commerciaes e industriaes só se lhe toleram "por conta de
terceiros, mediante commissâo e com as precisas garan-
tias". Quanto ás faculdades hypothecarias e ás concessões
O [Link] DA REPUBLICA 169

iniluetriaca coinprelicudida.s no patrimônio do grande


banco, na herança recebida por elle do Banco dos Estados
Unidos do Brasil, o sen decreto orgânico o encaminha a
aliena-las, designando logo os estabelecimentos, a que se
deverão transferir esses direitos. Onde estão, pois, as defor-
midades do decreto de 7 de dezembro? (A /joiados.)
Bem diversamente o aquilatava o Jornal do Covi-
mercio ainda no 19 de fevereiro do anno passado, á ves-
pera da abertura do novo instituto emissor. Sua lingua-
gem era então, nem mais, nem menos, esta :

" Gravíssimo problema será u melhor maneira, por que poderá


o banco empregar a sua emissão. Os cavalheiros, que se acham á
frente da nova instituição, conhecem perfeitamente a sensibilidade
do nosso mercado de cambio. Sommas importantes de papel moeda
lançadas deehofre no mercado não podem occasionur senão os mais
deploráveis resultados para o commercio e mesmo para credito do
paiz. Qmtdo a nó», a solução extá em nc/Mr nté gne/tonfo vai a ver-
dadeira procura, a legitima procura dos industriaes, do commercio
e da agricultura do paiz, e não a insaciável voragem dos especula-
dores, que nunca poderá ser satisfeita, e em restringir n emimãn tão
só mente a esta proenra. Desta fôrma estamos persuadidos de que o
Jlnuco da Repnhlieaprestará valiosos serviços ao paiz inteiro. E islo,
estamos certos, é, e ha de ser sempre o alvo, o desejo e o proposito
dos dignos cavalheiros, que formam a directoria."

A minha obra, pois, a obra <lo Governo Provisorio


era um poderoso instituto de emissão, talhado nos seus
moldes orgânicos, segundo ojuizo insuspeito do decano de
nossa imprensa, talhado, segundo o Jornal do Commercio,
para "prestar valiosos serviços ao paiz inteiro". (Apoiados.)
Accusam-lhe de erros a. administração. Qnaesqner que
esses erros fossem, que responsabilidade tenho eu nelles, si
22
170 O BANOO DA REPUBLICA

não são resultado natural do organismo, que tacs louvores


ainda hontem merecia ? {Muito bem.)
Na escolha do pessoal, que lhe compõe a directoria,
deixei aos aceionistas do banco a liberdade, que se lhes devia
respeitar. Seu chefe era um cidadão, em que não me enver-
gonho de haver confiado, 1 Tenho ouvido render, pelos seus
próprios inimigos, as mais amplas homenagens á sua pro-
bidade pessoal. Era um nome limpo, respeitado, sem
tradições na chronica da agiotagem. (Apoiados.) Nem eu
tinha quasi onde escolher; porque essa raça de banqueiros,
(pie Napoleão I sentia a necessidade de crear em França,
muito mais por crear está ainda entre nós. (Apoiados.)
Na selocção de seus companheiros o illustre presi-
dente do Banco da Republica dispoz da maior indepen-
dência. A instâncias suas, apenas lhe indiquei dois nomes,
(pie me pareciam aconselháveis pela sua filiação republi-
cana : o do dr. Felicio dos Santos c o do sr. Rodolpho
de Abreu. Nenhum delles era pessoa das minhas relações
particulares. Mas eu conhecera o primeiro entre os mais
antigos imaginadores da republica no Brasil, e vira

1
" Ouvimos dizer que ficou assentado que os estatutos do
Banco da Republica dos Estados Unidos do Brazil serão reformados
no sentido de reduzir-se o numero de directores a cinco e a cinco o
numero de membros do Conselho Fiscal.
" Parece que, além dos quatro senhores já por nós citados, os
srs. Guahy, Caetano Pinto, Durval e Gonçalves Duarte, será também
direclor o sr. Pedro Gracie.
" Lastimamos sinceramente que o sr. conselheiro Mayrink
não tivesse querido ficar na direcçãodo banco, que fundou, e cujas
tradições deveria representar. Não concordamos com as acluaes
idéas financeiras de s. ex., nem com os seus methodos; mas
sempre respeitámos a inteireza do seu proceder. Quizeramos vêl-o
cercado de novos collaboradores. e não ceder-lhes o seu logar e
responsabilidades." Jornal do Oommei-cio, 29 de janeiro de 1892,
Parle editorial,
O BANCO DA REPUBLICA 171
consagrar a sua competência financeira por trabalhos e com-
missões desse gênero no parlamento imperial. O outro,
hábil negociante, 6 o candidato que os republicanos piinei-
ros haviam opposto, nas vésperas da quída do Império, ao
irmão do presidente do conselho, pelo quarto districto dc
Minas-Geracs. Lembra-me que o advogado do banco foi
também escolhido a pedido meu. Esse advogado era o
velho chefe do partido republicano, o sr. Saldanha Mari-
nho. Empenhei-me também pela nomeação de um enge-
nheiro. Esse engenheiro é um republicano histórico : o
dr. Almeida Pernambuco. Cabia-mo nomear o fiscal: mais
um republicano entrou por esta porta no grande banco : o
dr. Silvio Roméro. Meu proposito era apoiar o novo esta-
belecimento em ligações republicanas, por todos os lados.
Mas não me ingeri na sua administração, não tenho nella a
minima solidariedade. {Apoiados.)
Por menos feliz, poróm, que fosso a dirccção do
Haneo da Republica,—estará perdida, por isso, essa insti-
tuição? Não, senhores. Os maiores bancos do mundo
tôm atravessado crises semelhantes. Mas vencem todos
os perigos, quando o critério dos governos os auxilia.
{Apoiados.)
Quero cingir-me acs exemplos tio casa. Quantas
vezes não esteve quasi a pique de sossobrar o Banco do
Brasil? Em 1836, tendo soflrido escoamento notável
o seu fundo metallico, pelo troco das notas, que crescera
na razão dc 49 obteve o banco do governo elevar
permanentemente a sua emissão ao triplo do fundo dis-
ponível, e constituir cm prata metade desse fundo. Na
pressão monetária de 18Õ7, esse estabelecimento, soffreudo
violentas corridas, suspendeu logo, por arbítrio da sua
172 O BANCO DA REPUBLICA
directoria, o troco dos seus bilhetes em ouro, não reassu-
mindo o pagamento delles senão era agosto de 1858.
Mas, em 1859, sob os ctfeitos da crise que devastara a
Europa nos dois annos anteriores, o banco cessou de
novo o troco de suas cedidas, a que só volveu tres annos
depois. Sob a crise de 1804 a emissão do Banco do Brasil
se elevou quasi ao quintuplo do seu fundo disponível...
Um sr. SENADOR :—Ou mais, segundo disse o re-
latório.
0 sr. Ruy Barbosa :—...c as suas caixas fdiaes
excederam ua soraina de 10.808;0d.''8282 a emissão auto-
rizada. Em setembro desse anuo um decreto do poder
executivo deu curso foryado ás suas notas. Xo anuo
de 1874 o Banco do Brasil fechou o seu balanço apenas
com duzentos e tantos contos em caixa. "Xão temos mais
dinheiro disponível: o melhor é fecharem as portas, que
nós faremos o mesmo", respondia um de seus dircetures
aos de um dos outros estabelecimentos, que lhe solicitaram
auxilio nessas difficuldades. 1
Porque liquidar, pois, o Banco da Republica? EUe
tem nos recursos do seu privilegio, sob tuna administração
reformada, os meios do resistir aos embates da crise, c
resarcir-se dos prejuizos denunciados. (Apoiados.)
Senhores, o defeito original do plano do Banco da
Republica, expansão do plano do Banco dos Estados
Unidos, só o não sabem aquelles, que, da historia desses
dois estabelecimentos, conhecem apenas as sentenças de
alto cothurno, com que espectaeulosamente se ministra ao
publico a critica dos descontentes. Alas quem, como eu,

1
Souza [Link] : A crise da praça. Pag. 89.
O BANCO DA REPUBLICA 173

tiver acompunhado, por sol» a austeridade ostensiva das


lições doutrinadas íí opinião, aquella expressão real do
pensamento, onde se ocenlta a verdade, a linguagem
intima dos deelamadores, não pôde ter duvida nenhuma
de que o único aggravo não perdoado á dietadura, na
e reação desse regimen, está em não havei-o filiado ás
potestades, que a revolução desmantelou, e a que me
parecia o maior dos crimes entregar financeiramente a
llepnblica. {Apoiados.) Tivessem os decretos de 17 de
janeiro c 7 de dezembro confiado a situação ao Banco
Nacional e suas dependências, e os demolidores de hoje
seriam os maiores apologistas da instituição, que ora se
tenta destruir. (Apoiado*.)
Teria eu evitado os abusos, que hoje se accusam, si
ligasse a responsabilidade do governo á administração
do banco, reservando-lhe parte na directoria deste, con-
tbrme uma, d'entrc as muitas ideas de indicação mais ou
monos empirica, que neste debate se têm suscitado entro
as medidas reíbrmadoras ? Estou certo que não. A meu
ver, a interferência da administração publica na compo-
sição da directoria, a designação do presidente do banco
pelo governo não asseguraria ao estabelecimento melhor
gerencia, não daria á sua fiscalização maior seriedade, e
teria como resultado apenas cntretceer a vida da instituição
com os interesses políticos, insinuando nestes novo genero
de corrupção, e inoculando naquella um principio de ruína
ainda mais activo. (Apoiado*.)
Não quero, senhores, embandeirar theorias. Questões
desta ordem não se resolvem por theses abstractas. A
acção directa do governo sobre a administração dessas
Instituições tem dado fruetos dc prestimo nas grandes
174 O BANCO DA REPUBLICA
burocracias (relevem-me o barbarismo), nas grandes buro-
cracias imperiacs, na Rússia, na Áustria, na Prússia, na
França, que, através do todas as revoluções políticas,
pcrpettía as tradições administrativas da autocracia napo-
leonica. Mas cu acho, a esse respeito, mais transplantavel,
mais conscntaneo aos nossos sentimentos, mais homogêneo
com as nossas instituições o exemplo dos inglezes.

"Nenhum estadista inglez consentiria em incorrer na responsa-


bilídade da escolha de um governador do banco. A qualquer
pânico, que occorresse, a opposição não deixaria de dizer á cantara
dos communs que a incompetência do governador, nomeado pelo
ministério, tornara mais aguda a crise, si é que não fôra a causa
das desgraças derramadas sobre o paiz. Ou poderiam inverter-se
os papeis, e acontecer que o ministério actualmento no governo se
compuzesse do partido contrario áqnelle, de onde sahira o mi-
nistério que elegeu o governador do banco. Em tal caso o
gabinete, sem duvida, exprimiria as suas queixas contra o proce-
dimento do governador nomeado pelo partido adverso. Os mi-
nistros não se importariam de ferir o amor proprio do governador:
pois, si este se demittisse, ficariam com um bom poslo para ohsequiar
a. algum dos seus amigos. Nada seria mais deplorável do que a trans-
ferencia da direeção do banco pura as mãos dos partidos, em cujo
poder havia de converter-se cm arma polilica." 1

Máo conselheiro 6, nestes assuraptos, o rigor logico,


por que neste paiz tão facilmente costumamos apaixonar-
nos. Fascinada por elle, acredita muita gente na existência
de uma relação natural entre o monopolio da emissão
e a conversão do banco emissor em banco de Estado.
O argumento plus sonat quam valei. Cavonr, com o sen

' Ba c ca oi : Lmnbard Sired .


O BANCO DA REPUBLICA 175

infallivel critério, dissipa victoriosamcnte essa illnsão.


m
" Eu creio" (dizia) " ser erro, gravissimo erro : o governo não
pôde, não deve dirigir, nem ter muita ingerência em bancos de
circulação e desconto. As operações do um banco de circulação e
desconto são delicadíssimas: convém, de certo modo, regular a
medida do credito pelas circumstanciaseconomicas,asquaes variam
de um dia para outro, e medir a largueza do credito pelas
condições presentes e futuras. Requer-se, para isso, grande
pratica dos negocios, grande habilidade, e, sob certo aspecto,
absoluto desprendimento de preoccupações políticas. Um banco
governativo, pois, a meu ver, seria sempre pouco bem dirigido; pois,
no regular-lhe as operações, se requer indispensavelmenle que as
pessoas propostas a semelhante serviço não alimentem prevenções
por este ou aquelle lado. Necessário é que as operações se combinem
segundo o interesse do banco e o do commercio em geral, não para
favorecer agora uma, agora outra parcialidade. Ora, muito seria de
temer, quando fosse um banco puramente official, quando os seus di-
rectores fossem agentes iramedialos do governo, que as operações não
se dirigissem unicamente por considerações econômicas. Os ministros
são homens; e não é possível despojar-se inteiramente uma pessoa do
sympathia e predisposições a favor dos que professam as mesmas
opiniões, dos que eommungam nos mesmos sentimentos, e militam
nas mesmas fileiras. Na minha opinião, portanto, um banco
dirigido por ministros, ou agentes de ministros, pouco satisfaria ao
publico, e pouquíssima confiança inspiraria ao commercio e ao
paiz. "
E, com cffeito, na Italia, a experiência da intervenção
governativa na administração dos estabelecimentos emis-
sores tem suscitado contra esse regimeu a animadversão
universal. A Cde como se pronuncia um recentissimo
depoimento : {Lê)
" A experiência tem confirmado, também na Italia,/)or concurso
ora unanime, que a ingerência do governo tem sido perniciosa.
176 O BANCO DA REPUBLICA
Induzindo os bancos a excederem o limite das emissões, em vantagf»!,,
de particulares, elle tem mostrado não saber tutelar o interCss,-
geral dos portadores de notas, conseguindo somente onerar-se nm;
toda a responsabilidade da desordem actual, que deveria recatar
toda sobre os institutos emissores. " 1

São factos, senhores, o (jue ides ouvir: {Continiumrli


a ler)

" E' caraclerislico o fado de que a instituição, que mencr


porcentagem apresenta nas reservas, é o Banco Nacional. Isto
provém das emissões extraordinárias, solicitadas pelo desinteres-
sado amor proprio dos nossos ministros, ein subvenções a eslahele-
cimenlos periclitantes...
"Onde quer que os directores de bancos não têm no coipn
(e porque haviam de tê-la?) essa terrível ferocidade, onde quer qm
os ministros e outros funccionarios públicos exercitam a sua imilli-
forme iufluenciá em serviço de em prezas sociaes, de que são acrio-
nistas, ou em que têm como accionislas os seus eleitores ou amigos
políticos,—importa emancipar dessas as direcionas, para tmlliticar
a influencia delles sobro cilas... Emquanto durar essa commoda
confusão, nesta, como em tantas outras cousas da vida parlamenlar.
para o governo serão responsáveis os bancos, para os bancos o
governo, e para o publico ninguém. " -

A experiência italiana 6 essa ; e um dos grandes


escriptores cujo nome enche a historia contemporânea da
economia política naquelle paiz, traça-lhe maravilhosamente
a synthese nestas linhas memoráveis : (U)

" Não se concilia com o serio proposito de assegurar c proteger


o andamento calmo o sereno dos intitutos de emissão um syslenui,

1
Proroga o eorao forzoio * No Giornnle degli Economisfi,
iuglio,
2
1891, pag. 14.
Jb id.
O BANCO DA REPUBLICA 177
que expõe a direcção e administração delles a todas as vkissitudes
dos partidos, que se succedem no jjoder, e ás vontades variáveis
do governo. São já hoje excessivas, segundo a opinião de sábios
e prudentes" (opinião não menos corrente no Brasil) "as occasiões
e ingerências, em que o poder executivo pode exercer perigosa e
perturbadora acção política nos vários ramos da administração.
Bem longe de crear novos estímulos e incentivos a ambições e pre-
tenções, entre essa numerosa classe de políticos, que se presumem
idoneos para todas as funcções e exonerados de todos os requisitos
de preparação profissional para as exercitar,—o que, pelo contrario,
se faz sentir, é a necessidade urgente de oppôr validas e efticazes
defezas contra essa tendência viciosa e ameaçadora, que conslitue,
talvez, um dos peiores achaques do systema parlamentar " 1

Já vimos suscitar-se essa controvérsia no parlamento


brasileiro, a proposito da presidência «Io grande banco hy-
potliecario, a que o nosso governo se propunha afiançar
juros sobre uma emissão de 400.000:000$. E os mais con-
servadores dos nossos estadistas declararam-se contra a no-
meação do presidente pelo governo.
Eis a opinião do senador Zacarias :
" O orador quer para o governo toda a fiscalização; mas apre-
suleneia deve ser deixada A escolha dos accionistas.
" O orador não deseja que o governo faça uma tal nomeação:
deve ser ura lugar pingue, pago pela companhia; apara lá irá um
medalhão.
" E' um presente político.
" Quando se organizou o Banco do Brasil, tendo o presidente
[Link]. o maior vencimento que então existia, como as cousas se
passaram ? O autor do projecto, o sr. Visconde do Itaborahy, era
ministro, e nomeou primeiro presidente do banco o conselheiro
Serra.

1
Boccahdo: liiordinamento degli istilufi de emissione. Pag. CO.
17* n BANCO DA HEPUBLICA
" Logo dupois que esle fulleccu, foi prosiiieute do banco o iiij.
nistro, que o creou, e assim foi sempre preenchido o logar, até que
o orador chamou, para dirigir o banco, em situação critica, o
nobre visconde de Inhomerim.
" Mas que proveito tirou o Banco do Brasil com esses presi-
dentes ofdciaes e de ostentação ? Nenhum. Nada embaraçou que elle
se desviasse da senda, que devia seguir por lei, E, pois, amestrado
pela experiência, o orador não pôde approvaro penmmento de an- nu.
meado pelo governo o previdente do banco. O presidente deve ser o
que lor indicado pelos accionislas : comece por abi a sua responsa-
bilidade.
" U governo, que quer dar impulso ás instituições bancarias
de hypotheca com a idéa de garantia de juro, tenha, não um presi-
dente, que ainda de longe se assemelhe ao presidente do Banco do
Brasil, segundo as attribuições que lhe forem dadas, mav umfivctU.
" O fiscal é de menos ostentação, é certo, do que o presidente;
mkm vai exercer funeção mm» tdil, qual a de assignar as letras hypo-
pothecarias, que têm de ser lançadas em circulação.
" São ha neeevvidade do previdente ; basta o fiscal na sede du
banco.
" tiomo se ha de suppôr que, creando-se agora, no Brasil, um
banco, sob a presidência de um distinclo cidadão, esse banco vá ser
melhor dirigido do que foi o Banco do Brasil, que o foi pessima-
mente ? Não pôde acreditar nisto. Acredita mais na fiscalização; por-
que, na ordem dos indivíduos, que não são barões, nem viscondes,
ha muitos capazes de ser fiscaes." 1

E com estas idéae acabaram por concordar as com-


missôes, cujo projecto, neste ponto, clleVombatia, reconhe-
cendo o parlamento os inconvenientes da participação do
poder publico na administração de estabelecimentos ban-
cários, ainda quando concessionários do monopolio da
emissão, e de nm monopolio, como o dc que então se tratava,

1
Senado, sessão de 3 de outubro de 1875.
O BANCO DA REPUBLICA 179

reforçado com a fiança do Thesouro. Dessa conclusão foi


orgão o senador Teixeira Júnior, cujas palavras lerei :

" A razão, pela rpial. no ^ 5-do projrcto ria commissão, se es-


tabeloceti a clausula de competir ao governo a nomeação do presi-
dente da administração central e de um dos membros da commissâo
na Europa, acha-se explicada no proprio paragrapho :parapreen-
c/iff a» fiinrrôr* ilr *c-« Jixcnl.
"Não pretendemos (pie o governo intervenha na administração,
nem na direcçâo da companhia. Quizemos apenas reconhecer um
direito incontestável do Estado, qual o de fiscalizar essas operações,
r/cxdc qm nmmir a retpomabilidtule Hn garantia dos juro» e nmnr-
fizeição dn elevada snmvin de 400.000;000$0()0.
"O nobre senador(Zacarias)não contestou essa fiscalização. Con-
testou apenas a conveniência de inserir-se no projecto o direito de
nomear o governo o presidente, porque, rorm muito bem explicou,
s. c.r., o lognr de presidente deve competir Apropria directoria. como 6
geral em toda» a» pragas.
" Sobre este ponto creio'que as commissões não farão nenhuma ob-
jecção; e não ha. inconveniente em-se adaptar o artigo, salva a redacção.
.Substitua-sc o termo—presidente, e diga-se ■. o governo terá o direito
de nomear um fiscal."

K é o rpie se fez no decreto de 1890.


Xenhum paiz se viu até hoje mais sacrificado pelos
seus bancos de emissão do que a Republica Argentina,
Todavia, em nenhum ainda accentuou o governo mais
amplamente a sua autoridade, participando na escolha dos
directorcs, e influindo na administração desses institutos.
E os economistas de competência mais irrecusável, como o
sr. Leroy Beanlieu, attribuem as extravagâncias inauditas
dos bancos pia ti nos exactamcute a esse connubio da sua
direcçâo com as influencias políticas do governo. K' o fa-
moso profissional francez quem falia : (Lê)
180 Ô BANCO DA REPUBLICA
" O que levou a Republica Argentina aos cruéis apuros,
que ella ainda não ousa encarar face a face,/oram o« bancos de Jus-
tado, isto é, bancos em que entram como accionislas as províncias
e o Estado, que se administram por empregados públicos, tirem sub-
mettidos a todas as influencias governativas, e não obedecem a freio
de especie alguma." 1

Eu creio, senhores, que, approxi mando-nos desse


typo, não teríamos nada que ganhar ; e não comprehendo
como os que vivem a debuxar absurdas semelhanças entre
as circumstancias do Brasil e as daquelle paiz, vão buscar
precisamente na imitação de unidos erros mais responsá-
veis pela desorganização financeira da republica vizinha
panaefa contra os nossos males actuaes. (Apoiados.)
Pelo facto de conferir um privilegio na faculdade
exclusiva da emissão não adquire o Estado o direito de
admiuistral-o. Fiscalizal-o, sim, esse éoscu direito coseu
interesse. {Apoiados.)
Si a fiscalização de hoje não satisfaz aos seus fins, re-
constitui-a, fortalecei-a ; dae-lhe a autoridade, a acção, a
energia cfficaz. A idéa de propor ao banco um presidente
nomeado pelo poder não se legitima, senão pela vantagem
de subordinar a instituição A vigilância directa do Estado.
Mas essa vigilância se enfraquece, em vez de robustecer-se,
degenera, em vez de moralizar-se, com a partilha da in-
fluencia na administração do estabelecimento. (Apoiados.)
O pasto offerecido entre nós ás paixões do governo, á
gula politica, já 6 vasto cm demasia. As maiores posições
do Estado acham-se hoje entregues á sêde de poder, que
devora as democracias. Não inflammeis ainda esses

1
Etoile du Sud, 20 de dezembro de 1890.
PRENUNCIÓS DO PROJECTO 181
a])|K'titos com o incentivo da seducção extraordinária,
que a presidência do Banco da Republica lhes depararia,
si esse cargo entrasse no espolio das graças tio go-
verno. (Apoi/idos,) A grande instituição de credito não
tardaria em se rcsentir profundamente da invasão dos
interessiculos eleitoraes e parlamentares, cujo gusano a
bromaria ate ao cerne. Não ha organização financeira, que
resista a essa carcoma, em paia como este.
Em vez disso, o que «tin iria era deixar ao cargo o
seu caracter severamente technico, estreitar as suas affini-
dades com a vida commercial, alongal-o do circulo, onf1o
a política se debate ; e o único meio accommodado a esse
desideratum c entregar o provimento dessas funeções
á aasembléa dos interessados no desenvolvimento do
banco. (Apoiados.) Por menos bem que ella escolha,
escolherá sempre melhor do que o ministro da fazenda. Os
inglezes, que, em matéria de bom senso politico, não são
tão mal servidos, como as nossas notabilidades ima-
ginam (mo), não quereriam para os seus chancclleres do
thesouro esse presente grego. E, si houver, entre nós,
estadistas, que pensem diversamente, será porque, no
connuum dclles, o critério ó menos forte do que a ambição.
(Apoiado*.)
Bem receio eu desse sentimento perigoso, que perso-
naliza, nesta ópxa, as questões menos políticas, envol-
vendo-as na corrente das lutas mais iracundas. O projecto
financeiro, que acaba de entrar em debate, 6 um caso typico
dessa perversão funesta. (Apoiado*.)
Da fórmula magica, a que vamos dever a restauração
das nossas finanças, já ouvíramos, ha dias, o prenuncio
entre as effusôes de um banquete, cujo pospasto se votava
182 POLÍTICA E BANQUETES

á liberdade religiosa c á liberdade bancaria. Hoi\ve


ignorantes, como en, que acharam forçada essa gcniinai,.j0
entre duas ideas, como essas, nem eqnevas, nem semclhnntes
em anthenticidade ; pois, ao passo que a liberdade religi<)Sa
c tão indisputável como a consciência mesma, e data qas
primeiras conquistas da philosophia e do christianisq10
a pretensa liberdade bancaria ainda não se sabe, ato hqje
si constituo uma entidade scientifica, c, na categoria qas
doutrinas mais duvidosas em economia politica, vive «.n_
tregue ás disputações das escolas.
Mas a eloqüência patriótica necessita de multiplicar 0
catalogo das liberdades jwssiveis : cada uma dcllas, quando
mais não valha, vale, ])clo menos, um tropo de rhetorira
uma flor de bom gosto na palavra rescendente dos oradores,
um artigo novo de especiaria na cozinha dos jantares
sábios. (Riso.)
Ninguém ouse esmordicar na importância des^s
ágapes políticos. Longe de mim tão mesquinho jienla-
mento. Nós conhecemos a relação physiologica entre a
politica e o estomago, como conhecemos a relação historica
entre o estomago o as revoluções. A campanha <los
banquetes, cm França, eondemnou Luiz Felippc ao jejqm
do exilio, e assentou os republicanos á mesa do orçamento.
E' na sobremesa dos festins, dignificados pela grandilo-
qüência dos maiores estadistas, que a politica inghjjyi
procede, muitas vezes, á chvlificação dos seus pro-
grammas. As enscenações gastronômicas não se prestam
alli á satyra; porque o prosaismo do meio desappanx-e
ante a magnificência das consagrações. O convívio onde
se desdobra a palavra de Lamartine, ou de Gladstone,
passa por uma especic de transfiguração j o refeitório.
O BANQUETE DAS LIBERDADES 183

onde os grandos chefes políticos, os grandes administra-


dores, os grandes feiticeiros da eloqüência parlamentar
esparzcin thesouros de experiência e talento, assume as
proporções de uma escola.
Isso entendo eu. Mas suppor que haste reunirmo-nos
os membros de uma c-oojKirativa de admiração mutua em
yolta de um arco de ferradura, e dizer :—"Eu sou, tu fs,
iióe somos a liberdade";—"Eu sou a liberdade bancaria,
tu és a liberdade religiosa, nós somos as liberdades
conquistadas e as liberdades eonquistaveis"... suppor que
baste isso, para impressionar o paiz, e adormentar a
historia ; suppor que isso baste, para converter o trielinio
em templo e o ehampagne nas especies da eueharistia,
disputadas pelos crentes como pão do espirito liberal...
é acreditar que uma grande nação possa governar-se por
academias de theoristas, e que o segredo dos grandes pro-
blemas políticos, perdido nos debates dos parlamentos,
fosse immergir a sua incógnita na faeundia espumosa dos
postres. [Muito bem.)
Peça de centro em todas essas festas, não foi esque-
cido, na commemoração, o Governo Provisorio, nem o
decreto de 17 de janeiro. A cada grão de incenso em
oblação aos heróes das liberdades celebradas, um grão de
assafétida em odio ao governo que fundou a Republica, e
especialmente ao ministro que lhe inaugurou as finanças.
ITm illustre deputado pelo Rio Grande do Sul, conheci-
dissimo pelo seu antagonismo ao meu nome, aproveitou
mais esse lance ruidoso, para assignalar a sua irrespon-
sabilidade na reforma bancaria, e envolver-se na sua
divergência como na túnica de um vidente, que não se
tivesse nodoado no pó dos nossos erros. Mas a verdade
SOLIDARIEDADE DO GOVERNO PROVISORIO
184
outra. Na conferência ministerial de 30 de janeiro (it.
s ex
]S0O, - - acceitou o pacto de solidariedade foD1|;1i
ninosco, e autorizou-nos a mandar commnnicar á najfc0
ir totlas as folhas desta cidade, que esposava a mij^a
..forma, com as alterações daquella data. Horas depoj-,
certo, s. ex. deixava o governo, repudiando outra yeZ
i oommunhão, em que se inscrevera ; mas esse fiu,to
jrovará simplesmente a volubilidade do seu espirito, a
inconsistência das suas opiniões, ou a subordinação dos
1B actos á pressão disciplinar da sua igreja philoao-

phica.
Senhores, já me enjôa essa controvérsia eterna sobre a
olidaridade dos meus collegas nas minhas reformas finan-
ceiras. dá me nauseia esta especulação desleal. Si ha hoip-a
entre homens políticos, essa solidariedade 6 inquestionável.
{Apoiados.) Houve, realmente, a principio, divergências
entre nós, quanto aos decretos de 17 de janeiro ; mas essas
divergências expiraram na madrugada de 31 desse mez,
quando, após uma conferência ministerial de 7 horas, o 00-
verno Provisorio cm peso mandou annunciar á nação, p,,]-
uma fórmula redigida e adoptada em commum, com a
acquiescencia expressa do ministro promotor da crise, o
accôrdo unanime e absoluto do gabinete. Com a acquies-
cencia expressa desse ministro, repito; porque o pregão
solemne da rcsjwnsabilidade collectiva nas minhas medidas
financeiras se firmou com a adhesão mais emphatica do
nobre representante do Rio Grande do .Sul, cujos amigos
procuram agitar constantemente essa recordação como
gloria sua e ignomínia nossa.
Para definir a transformação, que essa conferência
ministerial operou no espirito dos meus companheiros a
O MARECHAL FLORI ANO SOLIDÁRIO 186
íavor do meu acto, basta o procedimento deBenjamiu Con-
stant. Antes, tào absolutamente identificado se achava cllc
com os antagonistas da reforma bancaria, que, ainda ao
entrar para a reunião, me perguntava : " V. cx. compa-
rece ao despacho?" Depois, a sua linguagem era inteira-
mente de applausoás minhas medidas, nunca me faltou o
apoio de seu votd, e muitas vezes tive o do seu enthusiasmo.
Houve mesmo oceasião, no seio do gabinete, em que
s. ex., fitando um dos nossos eollegas, cujo parecer se ma-
nifestara contra certo projecto meu, disse, com accentuada
intenção : " Acompanho, cada vez com mais confiança, o
sr. ministro da fazenda, com quem preferiria errar, a acertar
com outros." Deixem, pois, repousar a alma heróica do
grande patriota: sua evocação não aproveitaria a tacs
maehinaçõcs. (Apoindo.t.)
Anda entre os amigos do governo actual, não sei se
diga, a manha, ou a mania, do traçar profunda separação
moral, uma especie de cordão sanitário, entre elle c
o governo de 15 de novembro. Pela minha parte,
nada tenho que perder com a discriminação. Mas, como o
de que se trata, 6 do lavar a historia republicana de mas-
carras indignas, com que o purismo jacobino se diverte cm
mascaval-a, direi : nos meus actos financeiros não ha nin-
guém mais solidário do que o actual presidente da Republica.
S. ex. suffragou sempre com a maior expansão os meus pro-
jectos, que eu costumava submetter á sua approvação, cm
sua casa, antes de leval-os a conselho. Usava dizer o meu
honrado collega (c disso tenho testemunha) que commigo
estaria prompto para ir aonde quer que fosse. A discrimi-
nação posthuma do responsabilidades, a que agora se aspira,
(•, pois, uma perfídia, que não ha de vingar. (Apoiados.)
24
186 DIGRESSÃO HISTÓRICA
Estas consas esquecem-se á ontremosa, nos banquete»,
onde os licróes celebram as suas bfldas eom a inimortali-
dade ; esquecem-se, porque a gloria embriaga, a miragem
dos applausos da posteridade tolda as cabeças quentes
dos vapores do vinho espumigero; o, nessas mesas, cuja
atmosphera do paixão e deliquio obscurece o eerebro,
não eal)c facilmente um talher íí verdade. E' por isso (pio
no festim onde se relembrava o decreto de C de janeiro, a
nosssi earta da liberdade religiosa, não houve uni convite
obrigado para os membros do Governo Provisiorio. Neíti
cortezia eom elles ! E para que ? O conquistador da lilief-
dade de cultos no Brasil não £ o nobre deputado jx-lo Rjo-
Grande do Sul? O Governo Provisório não andou, nesta
questão, á sirga do illustre positivista ? Que foi esse go-
verno mais do que a barca, onde s. ex. hasteou a sua
bandeira, e (pie os seus pulsos athleticos alaram de reboque ?
Não ha, sr. presidente, irrisâo mais audaz ! Vai por
dois aunos que cila manobra, invadindo sorrateimrnente
os direitos da verdade. Da minha bocca, da minha penna
ainda não sahiu reclamação, ou queixa. Mas já é tempo,
mais que tempo, senhores, de oppôr embargos a esse
acintoso demudamento dos Cactos, a este systeina de es-
crever a historia, como se armam os palanques de feira
com sarrafos pintados e apothcoses de pajielão. (Muito
bem.)
Na elaboração do decreto de G de janeiro, os que hoje
lhe reclamam a honra da paternidade, não tiveram senão a
parte de perturbadores. (Apoiados.) Emquanto nós estu-
dávamos a fórmula a um tempo mais completa e mais
discreta da solução, o elemento personificado polo nobre
representante do Rio Grande do Sul empanava a serenidade
DIGRESSÍO HISTÓRICA 187
í[Link] conquista, cmbáraçava-a, rctaixlava-a,roncitando, por
uma carga cstratcgica de tclcgrammas, os Estados a pro-
clamarem desordenadamente, cada qual a seu bel-prazer, a
separação da igreja. Era ercar difficuldades formidáveis á
reforma, que não se podia effectuar utilracnte, senão por
um acto nacional, em que o mesmo regimen abrangesse
todas as províncias da União. {Apoiados.)
Nesse meio tem}», o Governo Provisório, onde se con-
tavam defensores mais conhecidos c muito mais antigos da
lil>erdade religiosa do que o nobre deputado pelo Rio Grande
do Sul, homens que haviam dedicado livros a essa questão,
que i>or amor delia tinham suscitado os obstáculos mais
poderosos á sua carreira política nos cxlios da influencia
clerical,—o Governo Provisorio meditava o problema, e
inquiria acerca dos meios de resolvel-oem toda a sua inte-
gridade. Conhecendo a devoção, com que eu cultivava,
desde o principio de minha vida publica, essa especiali-
dade, as lutas, a que por ella me, expuzera, os trabalhos,
que lhe consagrara, o chefe do Estado encarregou-me par-
ticularmente de estudar o assumpto, e formular os termos
da reforma. Para esse tim tive repetidas conferências com
o mais eminente prelado da igreja brasileira, o bispo do
Pará, meu antigo mestre, de quem as minhas opiniões
nesta questão me haviam separado. Porque não era atur-
dindo as consciências com o estrepito de improvisos vio-
lentos que havíamos de estabelecer a liberdade religiosa :
—era, pelo contrario, inquietando o menos possível as almas,
e poupando á liberdade de cultos, (pie desejávamos firmar
na maxima plenitude e com a maior solidez, a hostilidade
das tradições crentes, em um paiz educado pelo catholieismo
e pela superstição.
188 O DKCHETO DE 6 DE JANEIflO

O sr. Elysed Martins :—Apoiado : política 6


política.
O sr. Ruy Barbosa :— Mas, bem. Deixemos essas
cireumstancias. Cinjamo-nos ao decreto de G de janeiro.
Quem o fez ? Quem o propoz ? Quem o defendeu ? Quem
o conquistou ?...
Perdôc-me v. ex., sr. presidente, este desvio. Não ó
divagaçâo ; 6 um elemento histórico de critica da mora-
lidade republicana...
- O sr. Elyseu Martins :—Muito «ntil.
O sr. Ruy Barbosa : —... indispensável á aprecia-
ção da política, cm cujo nome somos condcmnados, e em
cuja glorificação se levanta a reforma, que impugno.
Pois bem ; tom o nobre deputado j>elo Rio Grande do
Sul algum quinhão nesse projccto, que os seus amigos
alardôam como obra dclle? Não: absolutamente ne-
nhum.
O sr. Theodurbto Souto :—Isto é extraordinário !
O sr. Ruy Barbosa:—S. cx. elucubrara um projecto,
e apresentou-o. Mas esse projccto foi integralmente rejei-
tado. Não sc salvou dellea menor partícula.
Submctti então aos meus collegas e ao chefe do
governo o que eu redigira. E esse foi approvado una-
nimemente, ipsis UtterUs, da primeira á ultima linha, da
primeira ã ultima palavra, sem alteração de uma vírgula,
nem de um til, na mesma sessão em que o offereci ao
exame do gabinete. O nobre deputado pelo Rio Grande
do Sul tentou modifica-lo ; oppoz-lhe varias emendas.
Todas, sem cxccpção, foram repcllidas. De modo que o
decreto de G de janeiro é, ipms virgnlw, o meu projccto.
(Senmçõo.) E, cireumstaneia significativa, para cumulo do
O PROJECTO OFFICIA1. 189
authenticação de sua origem, o texto do decreto, o seu
autographo official é lavrado, lodo clle, de meu punho.
De modo que nem na parte intelleotual, nem na material,
ha alli concurso de outrcm.
O SR. THFxmuRETO Souto :—E 6 assim que se es-
creve a historia !Isto éumeievòe non vohix...
O sr. Ruy Barbosa :—E' assim, com effeito, que se
anda escrevendo a historia ! Não se me daria, entretanto,
de deixal-a escrever mal, si o prejuizo fosse meu. Não
pleiteio glorias, ou méritos. Com a funda experiência das
cousas, que hoje possuo, com as amarguras d'alma, que
bebi na política até á saciedade, nada mais ambiciono
fora do meu lar. Depois, ao meu temperamento não é menus
antipathico o papel de pavão do que o de gralha. Mas a
inalação desses enliços contra a verdade habilita o paiz a
conhecer as influencias, que hoje lhe querem disputar o
governo, e caracteriza o igrejario de uma especie nova de
jesuitismo serai-philosophioo, semi-rcligioso, semi-politico,
a que nos vai cabendo a sorte de servir de anima vilix.
(Muito bem.)
O projecto, deposto hoje na mesa do senado, que a
casa dignou-se conceder-me cinco minutos para ler,
antes de analyzal-o, já nos entremostrára o perfil entre os
fumos do banquete solcmnizador das nossas liberdades, a
semana passada. Já então se deixára entreluzir a empreza
hercúlea, que o governo tomaria aos hombros, de regene-
rar as emissões, substituindo papel bancario garantido por
papel escoteiro do Thesouro, c desfazendo-se dos bancos
emissores pelos processos expeditivos, por que a guilhotina
se desfaz dos scelerados.
O rompimento, sr. presidente, do contractos, como os
190 A FÉ DOS CONTRACVTOS

que os decretos de 17 de janeiro o 7 de dezembro estip^_


laram entre o governo da nação e os capitães asscK;iad^s
aos bancos emissores, é uma dessas façanhas...
O SR. Theodureto Souto:—Um absurdo, um
salto aos bancos.
O sr. Ruy Barbosa ;—...uma dessas proezasde
enormidade tão desmarcada, (pie seria quasi injuria i\0
senado occupar-me em lhe arrazoar a refutação. S*.,,
caracter extorcionario é palmar, clamorosa a sua opposiçã,,
ás leis da honra. Ninguém poderá medir as consequeueup
deste programma de iniqüidade...
O sr. Amaro Cavalc anti :— Apoiado : preeedente
jiessimo.
O sr. Ruy Barbosa ;—... o alcance da influencia
immoral, que este acto ficará exercendo entro mis.
O sr. Theodureto Souto :—E a inutilidade, a in.
opportunidade.
O sr. Ruy Barbosa :—Quão diverso não 6 o espi-
rito jurídico dos povos, onde a política ainda não pro-
screveu destas questões os deveres de honestidade ? Na
I tal ia, por exemplo, eis como discorria a seieneia econô-
mica, em presença de convenções analogas ás nossas entre o
governo e os bancos :
" Esta lei tem um caracter essencialmente contractual, coma
lei que entre o Estado e o consorcio dos bancos cria direitos o de.
veres recíprocos, outorga faculdades, impõe obrigações. Nesta lei o
Estado obrava, segundo uma dislineção vulgar na jurisprudência
de todos os povos civilizados, em sua dupla qualidade de entidade
política soberana e pessoa civil. Como soberano, decretava regras
imperativas para todos os cidadãos; como pessoa civil, estipulava,
com os institutos de credito que elle constituirá em consorcio ban-
cário, vincnlos de direito, dos quaes nasciam para elle, como para o
A FÉ DOS CONTRACTOS 191
consorcio, obrigações bilaieracs, a que não é licito a nenhuma das
tinas partes conlrahentes fazer modificações, sem o concurso e
uJlíesão expressa da outra. Essa lei é uma daquellas, nas quaes o legis-
lador apparece, para fadarmos a linguagem syslematica de Rosmini,
no dnylo caracter de. autocrata e de socio. E, si, na primeira destas
fiincções a sua autoridade não conhece outros limites além dos esla-
belecidos pelo fim geral da sociedade civil e da lei natural e moral,
no segundo, pelo contrario, o legislador está sob o império de re-
lações de direito convencionaes, como qualquer contractante pri-
vado.
" Admiltindo, por um momento, que o direito dos bancos
haja de considerar-se como uma dessas concessões, que o Estado
faz, ou tira, a seu bel-prazer, sempre lhe ficaria, comtudo, o
dever de não reliral-a, nu diminuir-lhe o valor, sem indemnizar os
bancos... E nesta opinião parece concorrer o honrado Majorana,
quando escreve ; "Um vinculo á aeção dos poderes do Estado não
se pôde jamais presumir; deve, pelo contrario, ser expressamente
determinado, e sé tem valor, quando não importa abdicação de
qualquer faculdade, que interesse ao bem commum. Além de que,
em .tal hypothese, não confere jus a ser mantido por toda adoração
estipulada, ou em todos os termos convencionados, vias firma
unicamente o direito á indnnnização. Necessário seria, pois, liquidar
a indemiiização. Mas será isso cousa possível? " 1

O híí. TiiEonrnKTO Softo :—O Estado vai soffrer


umas jwuca.s de acyõcs dc indemnizarão.
O sr. Ruy Barbosa :—Não mo demorarei, senhores,
em demonstrar a autoridade legislativa dos aetos do Go-
verno Provisorio, cm matéria de reformas. Essa autoridade
foi-lhe solcmnementc rcconheeida nos trabalhos da Consti-
tuinte. E não precisava de scl-o; porque estava na
essência das eousas, na lógica dos faetos, na necessidade

1
Boccardo: Le banche e il corso fonato, pags. 17-18.
192 A FÉ DOS CONTHACTOS
das revoluções. Dos actos desse governo, (jue tal earacter
revestem, os que mais insignemente empenharam a fé
do Estado, são os que interessam o regimen do meio cir-
culante ; porque esses tocam substancialmente ao credito
publico, e envolvem a fortuna particular cm sacrifícios
colossacs. Por uma dessas noções elementares, pois, que só
se desconheceriam cm sociedades selvagens, cujo estado
moral ainda não se elevasse até á noção da propriedade, as
medidas bancarias da diefadura de 15 de novembro consti-
tuiram relações bilateraes, que nao se poderiam dissolver
senão por accôrdo mutuo das partes, uma das quaes não
pódc e.r proprio marte descartar-se dos seus deveres, e
resilir os direitos da outra. {Apoiados.)
O sii. Theoi>uhkto Souto :—O projccto nem sequer
falia em accôrdo !
O su. Ruy Barbosa :—Xão pode o governo, pois,
arriscar o passo ensaiado no projecto, sem divisar no hori-
zonte a nuvem de indemnizações, que essa desloeação
imprudente do elemento juridico virá condensar em tempes-
tade violenta. Contará clle acaso com a complexidade dos
elementos do litigio, isto 6, com a difficuldadc na estimação
das perdas c damnos reclamados, para escapar á indemni-
zação, illndindo-a? Seria improbidade, que não se pódr
presumir. Mas o proprio silencio do projecto já não 0
decente. Agora, si o estudarmos á luz de algumas das suas
disposições, o seu systema nos revelará outra physionomia
singular.
O SR. Tjieodureto Souto :—O projecto não t"ra
systema, nem regras, nem nada.
O sr. Ruy Barbosa :—Si o projccto não cogita cm
frustrar o dever de indemnização, é porque não tem, ao que
A FK DOS CONTRACTOS 193

parwv, consciência desse dever. A ameaça de liquidação


forçada, para os estabelecimentos que não subscreveram A
iisurpação dos seus direitos pelo Thcsouro, denuncia nas
regiões da politica um estado mental, em que só resta o
sentimento da força, e desappareccram os laços moraes da
soeitslade. O poder investe-se abi desempeuadameute em
siiherano do cabedal alheio.
O sn. Amaro Cavalcanti :—Apoiado.
O sr. I v t' v Barbosa:—Verdade 6 que são brasi-
leiros os eapitacs envolvidos nessas grandes transacçõcs.
O sr. TinooDURi-rro Souto :—Ah ! si fossem estran-
geiros, não se atreveriam a ataeal-os.
O sr. Buy Barbosa:—Sim; fossem europeus esses
capitães, tivessem para a sua defeza os morrões de uma
esquadra estrangeira, e nãoeorreriam este risco. Cs velhos
hábitos do Império não se curaram ; inveteram-se, e re-
quintam. O capital ea intelligencia, que se tiverem de
aventurar á permuta de obrigações e direitos com o go-
verno deste paiz, fujam da nacionalidade brasileira, que
vai-se tornando um alçapão de molas surdas nas mãos do
poder. Tempos virão, não longe, si não mudarmos de
moralidade, em que o artigo fundamental, nos estatutos de
todas as emprezas de dependência official neste paiz, será a
adopçüo de qualquer bandeira estranha, como garantia
contra os eshdos indígenas do nosso governo.
Senhores, confessemos : a polemica sobre estes rudi-
mentos de ethica legislativa humilha os representantes da
nação, e desautora a tribuna política. Mas a nossa contin-
gência é esta ! Carecemos de bater-nos, sob a armadura
das grandes lutas, por estos principies embri onários da
26
1ÍU NOVO GOLPE 1>F, ESTADO

consciência vulgar, em uma assembleit (lc juriseonsultoH,


administradores e estadistas !
Considerae, senhores, por exemplo, o caso do Haiioo
de Pernambuco. Attendendo ás exigências do governo
daquelle Estado, cujo thesouro estava em termos de fallir,
o Banco de Pernambuco foi incumbido polo (íoverno Pro-
visório de uma emissão addieional de 10.000 contos, des-
tinada a auxiliar com um empréstimo dessa quantia, em
condições mui favoráveis, as finanças pernambucanas. Tào
dura era a estreiteza dessas, que o estabelecimento emissor
teve de preterir os interesses mais valiosos de sua carteira,
empregando nessa transacção gravosa a parte inicial da
sua emissão, cujos lucros seriam outros, si outro emprego
cila tivesse. Imaginae agora que, após esse sacrifício, o
dispam de todos os seus privilégios, e dizei-me si essa
instituição de credito não terá o direito de considerar-se
espi>1 iada. (Apoiados.)
Si o legislador brasileiro já não conhece a lei inerme
da honestidade, que brilha no fundo das consciências, não o
deterá ao menos alei militante dessa Constituição, em
nome da qual acabamos de fazer uma revolução, e mudar
o chefe do Estado? (Apoiados.) Ella afiança, entre os di-
reitos invioláveis, a propriedade particular e a segurança
dos contractos. Adoptando este projeeto, pois, oCVtngrcsso,
irmanando-se com a dictadura de 3 de novembro, e des-
legitimando-se como o poder faccioso que a declarou, per-
petraria o crime de um golpe de Estado, cujas consequencias
viriam repercutir no seio de milhares de fortunas, e le-
vantar contra a situação tremendas reaeções populares.
(Apoiados.)
O projeeto estatuo, no art. 39, que "os depósitos
VIOLAÇiO DE DEPOSITO 195
oousistentes <'111 apolicrs j>a<siiiTio ao Estado |h;1o wu valor
ao par c os dcpusitos iuetalli<-os ao cambio nanm menor
de 13 1/2."
Vêde a honorabilidadc deste depositário ! OTliesouro
i-ooebeu cm custodia o lastro das einissõcs. Tão sagrado era
c&e. deposito, atí; hontem, que não se queria reconhecer á
administração nem o direito dc mobilizai-o, substituindo-o
por garantias «j 11 ivalentes, numa operação (juc não lesava,
ou abalava os interesses de ninguém. Hoje, entretanto, in-
ventam para o depositário a laculdade soberana do apro-
priar-sc do deposito, fixando a sen talante as condições e
o preço da aequisição. (.dpo/aí/oíi.)
Do ouro o governo assenhorear-se-ha, não pelo cam-
bio do dia, expressão real do valor confiscado, mas pela
taxa que llic aprouver, sempre mais favorável do que a taxa
corrente aos interesses do eontíseador. Conjincodor, digo
bem ; jtorque não se trata de expropriação, mas de verda-
deiro confisco. \a expropriação o preço 5 debatido entre as
partes, ou regulado por lei anterior. Aqui uma lei nd hoc,
decretada pela força, anunlla a projtriedade, falseando o
valor, de que ella goza no mercado. {Apoiadon.)
Xa faculdade, <pi<', jmr este texto, se reserva ao go-
verno, dc extorquir pelo seu valor nominal em papel apó-
lices, (pie elle se coniprometteu a remir pelo seu valor no-
minal em ouro, na de chamar ao seu dominio e uzo o ouro
dos lastros, |>or um cambio que elle pôde, ao seu sabor,
taxar desde 13 1 2 até 27, quando o cambio real é de 12,
com probabilidade imminente de descer,—ha taes despe-
nhadeiros de arbítrio, que a sonda do critério moral não
sabe medil-os. (Ajjolodos.)
Xestc projccto se esconde ou a ruina dos bancos, ou a
1% ENTRE RUÍNA E RUÍNA
ruína do erário, ou a ruiua do erário e dos bancos, segundo
a escolha que o governo discricionariamente se reserva. Não
lia alli senão sombras c trapas. C) governo poderia apo-
derar-se das especies ao cambio de 27, pagando-as aos bancos
desapropriados cm papel do Thesouro pelo seu valor no-
minal ; e nesse caso a extorsão, infligida á fortuna particular,
se mediria pela diffcrença entre esse e o valor real do papel.
Poderia, por outro lado, tomar-lhe o ouro ao cambio fixo de
13 1/2; e, nessa hypothcse, a ditíerença de 100 por 100 entre
essa taxa c a de 27 representaria, para os bancos, a exone-
ração de uma responsabilidade equivalente a essa ditíerença
e, para o Thesouro, a assumpção, a descoberto, de uma res-
ponsabilidade correspondente. Com a-< apólices abrangidas
no lastro dos bancos <> projecto se presta á mesma alterna-
tiva. De modo que não ha, por elle, meio termo : ou zelar
o Thesouro, fraudando os bancos, ou poupar os bancos,
sacrificando o Thesouro. Como obra official, pois, o projecto
ou é a mascara de uma inépcia, ou a mascara de um crime.
(Apoiados.)
Emquanto a execução lhe não definir a tendência, a
lettrado seu texto autoriza indiffcrentemente as duas hvpo-
theses oppostas. Eu acceito a mais favorável ao governo : a
da lisura, a da boa fé. Mas, ainda admittida a contraria, a
deshonesta, a lesiva á propriedade dos bancos, nessa mesma,
a fazenda nacional não se salvaria de immcnsos, estron-
dosos e arruinadores prejuízos. {Apoiados.)
O sr. Amaro Cavalcanti :—Sem duvida que não ;
e neste ponto 6 que eu principalmente o contesto. E' um
projecto lesivo ao credito publico e aos interesses do The-
souro.
O sit. Tiieodureto Souto :—E' a bancarota.
O PROJECTO OFFICIAL 197

O pr. Ruy Barbosa: — A mensagem de 18 de


dezembro anminciava-nos medidas rigorosas para a reva-
lorização do meio circulaníc. Será este, senhores, o salva-
(erio promcttido ?
Afãs o resultado necessário deste projeeto é, i>elo
contrario, a desvalorização do meio circulante, o desbo-
roamento do credito publico, a desorganização irreparável
das finanças nacionaes. {Apoiado*.}
As reformas do Governo Provisorio assentavam ua
preoeeupação do reduzir a divida consolidada, consu-
mindo-a no lastro das emissões sobre apólices, e resgatar
o papel-moeda, substituindo-o por papel baneario, isto é,
trocando a responsabilidade im medi ata do Tbcsouro ]>ela
dos esfalreleeimentos emissores. O intuito, portanto, d'esse
systema era cortar a divida jmblieu nos seus dois ramos,
extinguindo, em cinco annos, o pajxd-moeda, e reduzindo
a massa dos titulos do Estado.
Do empréstimo de 188!) deixei recolhidos 90.000
eontos, graças, em parte, ao deposito dos bancos emissores,
«■ em parte, <4 operação preseripta no decreto n. 828 I>,
de 6 «le outubro de 1890. Si a essas addições reunirmos
a pareella de apólices de outras emissões igualmente ean-
eellada no lastro da circulação fidueiaria, teremos, unica-
mente <'m apólices immobilizadas no Thesouro pelos
bancos de circulação, somma superior a 100.000 contos.
Mas, como o decreto de 7 de dezembro provia ao resgate
do papel-moeda no termo de um quinquennio, chega-
riamos, por essas diversas verbas, a uma redueção de
280.000 eontos, pouco mais ou menos, na divida nacional.
Que íiiz agora o projeeto ? Acaba com o resgate eommet-
tido ao Banco da Republica, em vez de habilitar esse
19g O PROJECTO OFFICIAL

c<jtal)t'leoimento a exwutal-o, e maiida restituir ;í circula'


cão as apólices arrecadadas. Quer dizer: abre iniio d''
reducções, (jiic ulliviariain cm [Link] contos os cncurgt
do Estado. Isto, por uni lado. Por outro, encampa 'l
rcsjionsabilidade das emissões feitas, na importância d1'
365.000 contos, onerando o Thesonro, da noite para o dia.
com esse fardo gigantesco.
Portanto, senhores :
— reducções, que se desprezam 280.000:000$000
— gravames, que se assumem 365.01)0:00090#
— emissão nova, a que o projecto auto-
riza o Tlicsouro 25.000:0O0fK)00
670.000:000^000

São, jHirtanto, 670.000 de peso, que se deixam KcaO


de unia vez, sobre as nossas finanças extenuadas, como u
monolitho de um tumuío phantastioo, destinado a impedir
o milagre da resnrreição. {Mvito bem.)
Nem é tudo. Com o recolhimento do empréstimo
de 188!) eu assegurara ao Thesonro uma rcducção anmud,
no serviço dos juros de nossa divida, correspondente a
4 sobre 5)0.000 contos, ou 3.600 contos de economia
orçamentaria em cada exercício financeiro. No prazo de
50 annos eram 180.000 contos de juros, poupados ao
Thesonro. Com as medidas prqjectadas renascem pssra
encargos ; e, addicionados ás responsabilidades que aca-
bamos do computar, perfazem o total monstruoso dc
850.000 contos, em ônus, que se poderiam evitar, que, em
grande parte, já estavam removidos, e que agora volunta-
riamente se assumem, ou se perpetuam pura o Thesonro.
O PKOJECTO OFFICUL 199

Em vez de 4110.000 oontos, de que cllo Se de8íitentaria, a «c


_ observarem os netos do < Inverno Provporio, vão sohrpear-
regal-o eom 850.(XX). Vêde quanto Incramos na troea!
E sob que nnspieios nos preeipitamos nessa aven-
tara 1 l ma naeão, enjas firianças se achassem folgadas,
e qne snbmcttesse o eollo, de nm dia para outro, íi
immensa mole <le díiõ.OtX) 2Õ.000 contos, uma nação
qne volnntariamente deixasse cahir sobre o Thesonro essa
montanha de 390.000 Contos de responsabilidades, me-
receria tornar-se a tabula das nações, e incorrer noescameo
dos povos intclligentes, como a Bedcia <la civilização
moderna, tine diriamos, pois, si essa nação estivesse
em extremidades financeiras semelhantes ás nossas? si
a «na legislatura acabasse de votar nm orçamento, como o
brasileiro deste anuo, onde os impostos se elevaram para o
exercicio entrante, na proporção de HO '/f, e, ainda assim,
não fugimos ao déficit, «pie pelos mais competentes se
calcula, no mínimo, em 50.000 contos ? (Apoiado».)
1 )esse modo procederia o suicida, que, já encravi-
lliado e qnasi insolvente, se encasquetasse na mania de
apressar o desastre, e sepultar os credores sob ama ca-
tastrophe de sensação. 10 aereditaes revalorizar com isso
o meio circulante ? ("orno, senhores ? Pois, si os nossos
recursos nos não permittem arcar ao menos com as neces-
sidades orçamentarias do paiz, si a desproporção entre
essas necessidades e esses recursos acabam, agora mesmo,
de assignalar-se em condições desacoroçoadoras,—tendes a
coragem de aeenmnlar ainda sobre os peitos do contri-
buinte essa quantidade esmagadora fie responsabilidades
novas, mpromissos alheios? (Apoiado».)
Quando os nossos déficit* orçamentários eram menos
O PROJECTO OFFICIAL

vastos, c o nosso rcgimen tributai mais benigno, 180.000


contos do papel-moeda representavam para nós nm acervo
de compromissos insnpenivcis ; o, para tentar a iniciação
do sen resgate, foi mister recorrer a instituições particu-
lares, animando-as a esse emprehendimento eom iavoivs
espcciaes do Estado. Aggrava-se, porém, agora, eomo se
acaba de aggravar, a nossa fraqueza orçamentaria; ercaob
a insuffieieneia do nosso aetivo, para aeudir íis próprias
exigências triviaes da administração; c o governo, pelo
contrario, em vez de reforçar o mecanismo do resgate,
apoiando-se, para o assegurar, ainda com mais vigor
no concurso dos eapitaes particulares, dispensa todos es
anxiliares, c triplica a massa de papel do Thesouro. Ou
isto é a loucura, ou devemos abolir este nome da nomen-
clatura das desgraças humanas ! [Apoiado».)
E ainda esses reformadores envolvem os seus dis-
cursos em phrases roçagantes acerca das misérias da iueon-
versibilidade ! Mas a ineonversibilidade tinha um hori-
zonte de limitação, cmquanto prevalecia o compromisso
official de não augmentar o jmpel do Thesonj'o, e o resto
do pajrcl circulante assentava na garantia de eapitaes pri-
vados. Então a conversibilidade podia repontar mais ou
menos proximamente, já pela inlluencia moral do credito
do Estado, com a equilibração progressiva dos seus orça-
mentos, já pela aeção directa de eompeusações dadas aos
bancos em troco da coadjuvação aetiva d'estes na rcdncçío,
ou valorização das emissões. Mas incorporar essas emissões
ao passivo do Thesouro, é dilatar a perspectiva da con-
versão como o horizonte do alto oceano, é pôr esse hori-
zonte no infinito, é decretar a eternidade do papel incon-
versivel. [Muito bem.)
O PROJECTO OFF1CIAL 201

Não, senhores ; não ha, na historia financeira <lo


mundo, exemplo assimilável a este. Converter o bilhete
do banco em papel-mocda, isto é, transferir dos bancos
para o erário a responsabilidade das emissões, é facto vir-
gem. O contrario tem-se visto : desafogar-se o Thcsouro
de emissões offieiaes, resgatal-as, a troco da emissão ban-
caria. Isso sim : <!• util, é Justo, é sensato. Isso redunda em
vantagem das emissões, e concorre para as acreditar ;
porque substitue a responsabilidade indefinida e talvez
irrealizavel do Thesouro pela de associações particulares,
assente em garantias precisas, obrigada a uma realização
prevista e mais ou menos solidamente apparelhada para
ella. Mas o contrario ! Exonerar o governo os bancos
emissores, e opprimir-se a si mesmo com o tremendo espo-
lio das responsabilidades delles, é caso nunca visto. São
farfaneias de nababo arruinado, a quem, com a con-
sciência e a fortuna, sc esvahisse o sentimento da própria
reputação. As nações mais poderosas, os Estados mais
opulentos viram a omissão bancaria aviltar-se ás maiores
depreciações, baixar a um desagio ainda jieior do que o
nosso ; e, todavia, nunca se aventuraram ao reeeifuario de
eurandeiros. Porque, senhores, 6 preciso quasi acreditar
em feitieeiria, para imaginar que as emissões desacredita-
tadas dos bancos se retemperem ao contacto do Thc-
souro, e que o credito publico se restaure, quando o
governo da nação se obera. {Apoiados.)
Vamos melhorar o papel circulante, senhores !
Vamos. Mas como? Substituindo as cédulas dos bancos por
cédulas do Thesouro ? Mas, de todos os gêneros de moeda
fiduciaria, a que de peior cotação goza, em economia politiea,
é o papel-moeda, as emissões do Thesouro. {Apoiados.)
26
á()2 (» PliOJECTO 0FFIG1AL
O se. Ramiro Barceei/)s :—E' o papel inconverelvel
dos bancos.
O se. Rijy Barbosa :—Não ha tal; v. cx. labora cm
erro palmar. E' o papel ineonvcrsivel do Estado. Em
poucas palavras, d'aqui a pouco, o demonstrarei.
Diz o nobre senador : "E' o papel ineonvcrsivel dos
bancos." Onde está então o mal ? Em ser bancário o
papel ? Ninguém o sustentaria. Em ser ineonvcrsivel ?
Isto sim. Mas então preparemos a conversibilidade. Ora,
o meio de aprestar a conversibilidade está justamente em
não prescindirmos dos bancos, em favorecel-a me-
diante convenções, ao mesmo tempo equitativas e severas,
com o capital particular. O meio, pelo contrario, dealongal-
a, de cmbrulhal-a, de impossibilital-a, está em passar-
mos da emissão bancaria para a emissão governativa.
{Apoiados.)
Si o papel dos bancos pocca por ineonvcrsivel, indi-
que o nobre senador pelo Rio Grande do Sul os expe-
dientes efficazes, para o melhorar, tornando-o de ineon-
vcrsivel em conversivel. E' por esse lado que s. ex.
deveria encarar a questão. Emquanto nos não convencer
de que a conversibilidade do papel bancario se tornou
absolutamente impossível, do que os meios indicados, por
exemplo, no projecto do nobre senador pelo Rio
Grande do Norte, ou em alvitres de outra ordem, inspi-
rados na mesma idéa, seriam inúteis para chegar á con-
versibilidade, não terá logrado a iustificação da sua
these.
O se. Ramiro Barcelros: — Mas si chegar lá?...
O sr. Ruy Barbosa : — Terá descoberto a jiedra
philosophal. [Riso.)
O PROJECTO OFF 1(11 AL 203

O SR- Ramiro Ba rcellos :—A pedra philosophal


estará descoberta, quando esse systema fizer a felicidade
do paiz.
O su. Ruv Barbosa;—Apedra philosophal estará
descoberta, no dia, em que a responsabilidade náa e simples
de um governo endividado representar maior poder de
credito do «pie a garantia dos depósitos dos bancos, refor-
çada pelo seu activo; no dia em (pie as emissões do The-
souro deixarem de constituir uma expressão mais cruae
mais pertinaz de ineonversibilidadc do que as emissões
bancarias. {Apoiado*.)
Si a ineonversibilidadc 6 um vicio de organização dos
bancos emissores, dos elementos do seu systema de emissão,
não haverá possibilidade pratica de reformal-os, renovando
o contracto com o capital empregado nessas instituições ?
O sr. Amaro Cavalcanti:—O remédio seria acredi-
tai-as, em vez de desacredital-as.
O sk. Ramiro Barcellos dá um aparte.
O sr. Ruv Barbosa :— Perdôe-me : si os estatutos
actuaes dessas companhias embaraçam a interferência sa-
lutar do governo, é negociar o governo com cilas ; novos
ajustes poderão crear circumstaneias mais favoráveis ao
interesse geral.
Um sr. Senador : — Em lugar disso, lhes movem a
campanha do descrédito.
O sr. Ruv Barbosa : — O descrédito é a tendência
ingenita ao projecto.
O sr. Ramiro Barcellos:—Parece-lhe.
O sr. Ruv Barbosa :—Parece, e é : vou demonstrar.
Primeiramente, senhores, das duas fôrmas de curso
forçado, o papcl-mocda e o papel bancário, o projecto
204 Q phoJECTO OF FILIAL

adepta a que mais abala o credito da nação, o a quemeno,


qualidades intrínsecas de regeneração offereoe : o papeL
moeda, a emissão pelo Thesouro. Essa mferiondade qm^
negar-m'a, ha pouco, o nobre senador pelo Rio Grande d0
Sul. Mas era negar um axioma economioo. Hoje, nao
ha autoridades, que o contestem-
No prefácio do celebre Wagner, o famoso [Link]*
allcmâo em questões de moeda e bancos, ao livro de Hirsclu
feld sobre as finanças franoezas durante a ultima guerra
s. ex. encontrará esta proposição como um dos thcoremas
comezinhos no assumpto:
" Quando, em grandes crises políticas, se tem de recorrer á
emissão de papel-moeda, è preferível sempre não emittir directa,
mente papel do Estado, mas empregar, para a emissão, um grande
hanco nacional, e proceder, assim, demissão sob a fôrma de bilhete,,
bancários. D., mesmo modo, sob o curso forçado, o papel-moeda
conserva assim melhor a natureza do bilhete do banco ; e o pheno-
meno do regresso periódico e regular dos bilhetes ao banco opera-se
destarte em relação a uma parte mais ou menos grande da circu-
lação fiduciaria."
Folheie s. ex. o celebre Manual de Economia Política
de Schonberg 2, e lá encontrará, na monographia consa-
grada ao credito e aos bancos, o mesmo postulado scienti-
íico, sem luxo de demonstrações, como verdade de eviden-
cia trivial. Diz alli o mestre :
"As emissões de papel-moeda por conta do Estado (Áustria o
Estados-Unidos) são tão perniciosas á circulação monetária, quanto
o recurso dos empréstimos contrahidos pelo Estado nos bancos de
emissão, si é que não são ainda mais perniciosas."1 3
1 Die Finanzen Prankreiehs nach dem Kriege 1870-71. Ber-
lim. 8187õ, pags. 5-6.
3
Gostav Schõnbeho : Volkwirthschaftslehre. V. I.
Waonep : Der credtí and das Bankwesen, 181, pag. 467.
d PROJECTO OFFICIAL 205

Note bem o nobre senador polo Rio Grande do Sul :


as emissões do Thesouro representam compromissos ainda
mais fataes ao credito do Estado que os empréstimos
contrahidos por olle nos bancos. Porque ? Porque taes em-
préstimos não se contraem sem possibilidades de solvência
mais ou menos próxima : é uma classe de divida, que a le-
viandade dos governos não se reserva o direito de perpe-
tuar. Os orçamentos são obrigados a acudir com recursos
efficazes para a sua amortização. Com o papel emittido
por conta da nação occorre o contrario ; são débitos, em
que a qualidade dc credor e a de devedor se confundem,
até certo ponto, no contribuinte, era que os portadores dos
titulos de obrigações não têm meio juridico de reclamar-
lhes o pagamento, e em que, portanto, a administração,
mordomo mais ou menos invigilante de encargos que a não
incommodam, adormece nos seus deveres, e deixa eternar-se
o grava me sobre o Thesouro. Ora, imaginae que o governo
brasileiro encontrasse agora estabelecimentos de credito, dis-
postos a lhe facilitarem um empréstimo de 390.000 contos,
e se lançasse à caeur líyer nesse empréstimo, ü nobre
senador levaria as mãos á cabeça. Pois bem ; o governo fará
peior: emittirá, sob a sua iramediata responsabilidade, essa
quantia ; e o nobre senador bate palmas ! (Muito bem.')
A conversão das emissões bancarias cm emissões do
Thesouro espaça para as kalendas gregas o resgate, inaugura
a perennidade do papel inconversivel. Eis a sua primeira
chaga. Logo, si o credito de uma emissão fiduciaria
está na razão directa das suas possibilidades de resgate, a
mais desacreditada casta de emissão 6 a que se faz pelo
Thesouro. (Apoiados.)
E' obvio, é incontestável.
O PROJECTO OFFICIAL
20b
Outro defeito capital. As emissões bancarias entret^m
)]il regimen de fluxo e rcfluxo continuo entre os estabclc-

'.jmentos emissores c o mercado : o papel avoluma-se ou


iliminue, espraia-se, ou recolhe, segundo as necessidade^' da
Circulação. O papel do Thesouro, pelo contrario, aíb^i o
mercado, sem um regulador, uma comporta, que o gradue:
t, encharca-o. Ha entre elle e o papel dos bancos a mc^ua
(Jifferença que entre a agua corrente e a agua empantanqd»1
unia fertiliza, e sanifica ; a outra apodrece, e empegta.
(}[uito bem.)
Evidentemente essa estagnação inevitável,característica
(ias emissões officiacs, sujeita o valor dessa especie de piqk-l a
aviltaçõcs violentas,que, na circulação bancaria,o movi meu to
automático de expansão e contracção corrige, ou attenua.
A natureza da operação, que o projecto delinôa, en-
cerra, depois, cm si mesma, uma causa de depreciação po-
derosissima : a diminuição da sua garantia. A omissão por
conta do Thesouro é um mutuo, que o Thesouro coutrao
com o publico, um ônus, com (pie elle se grava. Poig bem:
toda a divida (especialmente as dividas sem termo de pa-
gamento, nem recursos definidos para a amortização), toda
a divida diminue as forças econômicas do Estado, o seu
poder de solvência. Na razão directa desse facto decresoe a
confiança na resgatabilidade dos compromissos contrahidos,
o credito do governo enfraquece, os títulos, cm que elle se
representa, depreciam-se. Augmentando, pela encampação
das emissões bancarias, em 390.000:000$ o passivo federal,
cercearcis, portanto, o seu credito na proporção dc
390.000:000|00ü. E a garantia da emissão des vai ia-se n-i
razão directa dessa desvaliação inflingida ao credito do
Estado, {Apokulos.)
(I [Link] OKKICIAI, 207

Porque accusaveis de imprestável a emissão ligada ao


decreto de 17 de janeiro? Pela pretensa insufficieneia de sua
base : consistindo esta em títulos do Estado, não se tradu-
zindo em especies metallicas, não podia (argnmontarieis)
servir de lastro a uma circulação normal. O refrão desses
tempos era ;—Papel não abona papel; papel abonado por
apólices vem a dar no mesmo que uma divida afiançando
outra; gyramos em um circulo vicioso.—A reforma, dizia-se
se então, dizia-se ainda ha pouco, ha de inspirar-se no
pensamento de romper este sophisma.—E que faz agora o
projecto do nobre senador, o projecto do governo? Dá
maiores garantias a essa emissão? Não; reduz essas ga-
rantias a uma fórmula ainda mais fraca.
O systema de emissão estabelecido no decreto de 17
de janeiro, cópia da experiência de outros paizes e da nossa,
fundava-se neste principio, dos mais elementares na pratica
commercial: uma firma idônea, reforçada por outra ainda
mais valida, duplica a segurança do titulo afiançado. Ada-
ptando ao assumpto essas noções de evidencia mercantil, o
decreto de 17 de janeiro deu como reforço á responsabi-
lidade dos bancos emissores, consistente nos seus valores
de carteira, no capital das suas acções, nos seus haveres
moveis e immoveis, nos seus direitos o privilégios, no seu
credito commercial, a responsabilidade da divida do Estado;
isto é: reuniu duas garantias, apoiando-se e fortalecendo-
se mutuamente. O projecto elimina uma dessas garantias,
e diz: o resultado melhor, a segurança é mais certa. Não
valia nada o papel dos bancos, quando tinha por garantia
as apólices da divida publica, titulos a cujo serviço se acha
empenhado, não só o credito, como o patrimônio da nação.
Mas, removida essa garantia, essa especie de hypotheca
208 O [Link] OFFICIAL

legal, e substituida por uma promessa vaga, as emissj^


em que ella se apoiar, sobem então de credito e va{n[.
Senhores, isto não tem senso commum. (Apoiados.)
O sr. Ramiro Barcem/)3:—Mas v. ex. não vê
a questão não 6 de duas ou tres garantias? A garantia
Estado é a garantia solida, que ahi estã ; a questão ó (](l
emprego, que aquellcs, que representam a primeira íh ^,^
dão ás emissões...
Os sns. Amaro Cavataanti e Emseu Mart^^
dão apartes.
O sr. Ruy Barbosa (ao sr. Ramiro BarceUos) .
Não é difficil rebatera illusão do nobre senador.
Em primeiro logar, não é tão nulla essa garantia, C|(|l.
o projecto elimina ; a garantia consistente na responsai,;,
lidado dos bancos representa capitães ligados a essas insti-
tuições, capitães, valores reaes, que não são fbrmqjag
vãs.
Ha, portanto, essa garantia, que ê uma realidade e,
ao lado delia, a garantia do Estado nos titules da Sl.a
divida. (Apoiados.)
Y. ex. dirá : " Garantia por garantia, tanto vale adas
declarações feitas no corpo das notas, como a das a poli,., -
emittidas pelo Estado." Ha, porfm, uma dilíèrença funda-
mental : ê que, no systema em vigor, nós nos serviamos de
uma divida já emittida pelo Estado para recunha de garantia
á divida contrahida pelos bancos. Portanto, com a emissão
bancaria não augmentavamos as responsabilidades do Es-
tado ; ao contrario, as diminuiamos: prescrevendo que essas
apólices ficariam cancelladas, não venceriam mais juros,
e, no fim de certo lapso de tempo, ficariam extinetas ipso
fado, restringiamos a divida do Estado, augmentavamos
O PROJECTO OFFICIAL 20i>

na mesma proporção o sen credito, avnltavamos a impor-


tância moral e econômica da garantia exprimida nos títulos,
que serviam de base á circulação. Agora, pelo contrario...
O sn. Ramiro BarceUíOS: — Tudo isso é artificial,
porque partiu do um ponto, e voltou ao mesmo ponto :
o credito do Estado.
O sr. Ruy Barbosa : — Agora, pelo contrario, que
faz o projecto ? Emitte uma divida nova, para substituir a
emissão bancaria; emittindo uma divida nova, reduz as
energias econômicas do Estado, depaupera-lhe o credito,
enfraquece-lhe aposição financeira; c toda a gente sabe
que o valor de uma entidade financeira qualquer, no mer-
cado, está na razão inversa das dividas e responsabilidades,
que sobre ella pesarem. Logo, si o projecto multiplica os
compromissos do Thesouro em proporções inauditas, não
rehabilita a emissão aviltada: leva-a, pelo contrario, a um
grão ainda inferior de aviltamento.
Disse o nobre senador pelo Rio Grande do Sul que,
noregimen da emissão instituída pelo decreto de 17 de
janeiro, tudo era artificial,visto como "partia de um ponto,
e voltava ao mesmo ponto: o credito do Estado." Artificial
6 essa maneira de baralhar cousas tão distinetas.
No systema da legislação fixada pelo decreto do 17
de janeiro, a nota do banco tinha após si a apólice, valor
já creado c circulante, valor produetivo c de responsabi-
lidade exigivel em condições determinadas. No systema do
projecto elimina-se o bilhete de banco, afiançado pelo
activo da companhia, que o sustenta, desapparece a apólice,
riqueza penhorada á valorização do compromisso assu-
mido, e fica simplesmente a cedida do Thesouro, isto é, um
papel de divida rcsgatavel, ou irresgatavel, ao arbítrio do
27
íiln (» l'[Link] AL

devedor. Considerar equivalente a garantia nessas dn. 4


especies de circulação é escarnecer da evidencia. (Apoiado^}
E será igual, porventura, o valor circulante do oredq,,
do Estado nessas duas manifestações d i fie rentes: a apoia-,,
a nota do Thesonro ? A apólice é ronda ; a nota não é •
apólice pôde ter amortização ; a nota não se amortiza ; a
apólice gyra fora do paiz, e tem cotação nas bolsas estran-
geiras ; a nota não corre senão no mercado nacional ; a
falsifica-se, perde-se, anmdla-se ; a apólice é inviolável c
indestructivel ; a nota não goza de privilégios ; a apoli^,.
desfrneta os maiores, que a lei pode conferirá propriedade
a nota 6 um bem movei; a apólice (• equiparada aos haveiyg
immobiliarios ; a apólice assenta na liypotheca dos
do Estado ; a nota não tem senão a garantia abstracta de
um compromisso de pagamento indeterminadamente
adiado. Como podereis sustentar, pois, que a nota pnri,
e simples valerá tanto, quanto a nota apoiada na apolic*?
(Apoitidos.) Entretanto, ides ainda mais longe: invertais
a lógica palpavel do bom senso, teimando em (pio a
emissão bancaria, isto é, o consorcio da apólice com a nota-
vale menos do que anota sem o arrirao da apólice, o papel
desgaruntido e nú do Tliesonro !
As emissões autorizadas pelo decreto de 17 de janeiro
não ampliavam a divida publica. Pelo contrario, tinluna
por base a redneção delia ; porque as apólices consignadas
ao lastro dos bancos deixavam de vencer juros, e ficavam
logo virtualmente remidas, considerando-se ipsojure ex-
tinetas no prazo de eincoenta annos. Diminuindo o debito
da nação, nós, portanto, lhe fortalecíamos o credito.
Apenas nos servíamos de valores já existentes (os titules
do Estado), iiumobilizando-os em caução a uma divida
O 1'KUJEGTO UFKIÜIAL 211

particular (as notas do banco). O projecto, }>clo contrario,


reanjíincnta o passivo federal, devolvendo .•1 circulação
essa parte da divida já canccllada ad pcrpetuum, e, j)or
outro lado, trcsdobra a massa de papel do Thcsouro. Pois
não será obvio que deste modo se amcsquinha o credito do
Estado, isto é, a garantia da nova emissão, na ra/ão con-
juncta dos compromissos extinctos, (pie restabeleceis, e dos
compromissos alheios, que assumi» ? (Apoiados.)
Essa conversibilidade, cxequivel talvez cm um futuro
mais ou menos proximo, não se remove assim para além
dos limites da previsão humana ?
(.) su. T. Souto:—Ficará impossível.
O su. KüV Baubosa :—Não é isso evidente ?
Quero conceder, hypotheticamente, (pie o plano hoje
em vigor nos bancos emissores atrazo a conversibilidade.
Mas esse plano é susceptível de correoção...
O su. A. Cavalcanti :—E 6, com certeza.
O se. Hrv Barbosa :—... é susceptível de melhora-
mento, é susceptível de progresso ; e a conversibilidade
poderia vir, por elle mesmo, em prazo tanto mais breve,
quanto maior fosse a prudência do legislador em respeitar
os direitos adquiridos (apoiados), c não desmoralizar
instituições, a que estão presos os interesses do Estado.
(Apoiados.)
Mas o systema, que o projecto estabelece, é o da incon-
versibilidade desenganada. (.Apoiados.) Salvo si, por trás
delle, se reservam espectativas occultas aos nossos olhos e
devassaveis aos de outros,—ninguém, através do plano, (pie
aqui se acha, pôde acreditar na seriedade desta reforma,
no seu caracter definitivo.
212 O PROJEGTO OFFICIAL

O sr. T. SorTo :—Apoiado ; hão de crear novos


bancos, si já não estão cm mente.
O su. C. e Campos :—Então bastam os que existem.
{Ha outros apartes.)
O sr. Rity Barbosa :—Si o fim é a rui na dos bancos
actuaes, si o fim 6 simplesmente a liquidação destes, ser-
vindo a emissão official somente de interinidade prepara-
tória a outras substituições planejadas....
O sr. A. Cavalcanti :—Mas então sejam francos.
O sr. T. Souto :—Isto seria uma traição.
O sn. Huv Barbosa : —... parece que alirum direito
nos assiste a entrarmos na confidencia do segredo.
O sr. T. Souto :—O que se está fazendo, 6 desleal e
deshonesto.
O sr. R. Ba rcellos dá ura aparte.
O sr. Ruy Barbosa :—O nobre senador pôde estar
era illusão.
O sr. R. Barcellos :—Não me referi a v. ex.
O sr. Ri:y Barbosa :—O nobre senador, noviço,
como eu, nestes assuraptos, pôde ser eramaranhado em com-
binações, cujo segredo lhe escape.
O sr. R. Barcellos :—Não sei, nem conheço com-
binações algumas ; v. ex. conhece-me, e sabe que não digo
senão a verdade.
O SR. Ruy Barbosa ;—Não digo o contrario ; mas
sou obrigado, pela apreciação lógica das disposições do
projeoto, a acreditar que elle não é o termo derradeiro da
reforma.
O sr. [Link] Martins :—Não parece, cora effeito.
O sr. Ruy Barbosa :—Era verdade, sr. presidente,
si a reforma planejada é ingenuamente esta, no espirito dos
O PROJEGTO OFFICIAL 213

seus signatários, todos nós, sem a pretenção de sermos pro-


phetas, podemos augurar cjue eila determinará necessaria-
mente uma reforma ulterior; pois o Thesouro brasileiro não
pôde comportar a responsabilidade dos encargos, que este
projecto inconsideradamente lhe acarreta.
O sr. Amaro Cavalcanti :—Por certo, não pôde.
O sR. Rirv Barbosa :—Qual é, sr. presidente, o
paiz, que já procurou semelhante fórmula para solução de
difticuldades taes ?
O sr. Amaro Cavalcanti ; — Não conheço, não lia
exemplo.
O sr. Rrv Barbosa :—Que paiz lutou com depre-
ciação mais pavorosa da moeda fiduciaria do que os
Estados Unidos, onde cila chegou a se desvalorizar quasi
na razão de 200 /c ? E quando foi que o governo ame-
ricano sc lembrou de encampar a responsabilidade das
emissões ?
O sr. A. Cavalcanít: — Fez o contrario. (//«
muitos apartes.)
O sr. Rev Barbosa : — Em summa, sr, presidente,
eis a solução, que nos vem do campo adverso aopapdorio
dc 17 de janeiro !
O su. A. Cavalcanti :—Com eífeito, é uma con-
tradicção palpável que abi vem : papel por papel.
O sr, Ruy Barbosa :—Podeis extasiar-vos ante a
habilidade desta combinação: 6 a liquidação voluntária
do Thesouro, respondendo á liquidação forçada dos bancos.
E'a liquidação do Thesouro. Quem m'o poderá negar?
Que outra ficará sendo a situação do seu credito, quando
elle, por deliberação nossa, de uma hora para outra,
aggregar ao seu passivo, já gravoso, este sobrepeso de
214 O PROJECTO [Link]

390.000 contos? Mas os bancos emissores liquidarão


também, compnlsoriamente, por obra do projecto. E' o
meio, que elle achou, talvez, de attenuar os resultados ao
descrédito do Thesouro, aspiração espontânea da grande
reforma ! E que aproveitaria o governo com a liquidação
dictatorial dos bancos? Esta preciosa vantagem : um
quinhão largo no déficit do espolio, em que o erário, grande
credor, o maior dos credores, seria, por conseqüência, o
maior dos prejudicados. (Apoiados.)
Os autores do projecto parece ignorarem a signi-
ficação do credito para essas instituições commerciaes.
Si não perdessem de vista essa consideração capital,
haviam de levar em conta, nos seus planos dc arrazar,
que, eliminado esse valor—o credito—do activo de um
estabelecimento, o mais poderoso delles não teria ele-
mentos, com que saldar o seu passivo. O Raueo do
Brasil deve 28.000 contos ao Thesouro, e tem cerca de
cem mil em contas correntes exigivcis íí vista, quantia
mui superior á somraa do seu capital com as suas reservas,
Quem responde por essa ditterença? O seu credito, que
relem alli os depósitos do Thesouro, e entretem a con-
fiança aos depositautes particulares. Proceda-se á liquidação
violenta desse iustituto de credito; e que resultará ?
O sacrifício de todos os seus credores, uma eatastrophe nu
praça. Agora multiplicae esse desastre muitas vezes por
si mesmo : 0 o (pie teríamos de presencear com a liqui-
dação geral dos bancos emissores. O que se pretende
fulminar, como pena contra elles, f>, na realidade, a
comminação da maior das desgraças á fortuna publica <■
partícular. (Apoiados.)
E aqui está, senhores, porque, si a situação não fosse
GOLPE DE BOLSA 2ir.

demasiado grave, seria caso para rirmos, ao ver brandir


esta arma como castigo contra certos grupos do nosso
mundo financeiro, responsabilizados pela dictadnra de 3
de novembro, que, para esse fim, se convencionou designar
como "um goljKí de bolsa". Si o fosse, qitid inde ? A um
goljk1 de Bolsa revidaes com um goljK» contra o paiz ? A
agiotagem conspirou contra as instituições. Seja. Quereis
fazel-a [mgar o seu crime. Mas como ? Cora uma medida,
que seria a ruina financeira da nação e a mina do credito
das emissões, que se presume salvar. (Apoiados.) Os
judeus da praça tramaram contra a Republica. Justo
(• que expiem o attentado. Mas não ha de ser, creio eu,
oppondo ao assalto político da Bolsa o mais improbo
assalto material contra as bolsas de todos nós. Não se
flagellem estas innocentes pelo erro daquella criminosa.
Quanto desvario, senhores !
Depois este dístico de "golpe de Bolsa", posto á
dietadura de 3 de novembro, 6 uma arguição infeliz, in-
justa, inveridiea. (Apoiados.) Triste recurso para açular
paixões ! Para tornar possivel a victoria do projecto, era
necessário esbrazear os unimos na temperatura candente
da ira ; e então se inventou esta formula perversa. Que
importa que o golpe de Estado procurasse dissimular as
suas verdadeiras intenções sob o appello á questão ban-
caria"/ Não buscou clle, ao mesmo tempo, outro escudo
nos conluios sebastianistas ? Não lançou mão de outro
instrumento no grito do rebate dado ao sentimento reli-
gioso? E ninguém,todavia, se enganou com artifícios taes.
Dir-se-ha que os catholieos brasileiros eram cúmplices no
manifesto de 3 de novembro, porque esse manifesto apon-
tava ao odio dos crentes a impiedade das tendências do
216 GOLPE DE BOLSA

Congresso dissolvido? Que outra responsabilidade, j_


do que essa, poderiam os bancos emissores ter no erij^
de 3 de novembro ? E que se quer dizer com esse rotrq0
calumnioso? Que o Banco da Republica dispunha ,|a
Bolsa ? Mas quem não sabe, pelo contrario, que as esi^,
culações da Bolsa habitualmente lhe têm sido adversas •>
Que a dictadura se apoiava na Bolsa? Mas na BoW 0
golpe de Estado encontrou, logo no dia immediato, a
demnação da sua loucura. (Apoiado*.)
Todos os golpes de Estado envidam esforços á e^
de pretextos. Golpe de Estado foi a dissolução do Con-
gresso. Golpe de Estado é este projecto, (pie lacera a
Constituição nas garantias invioláveis da propriedade.
D'ahi a invenção do conspiradores de Bolsa, destinada y
illudir a questão de principies, e confundil-a com a3
antipathias de pessoas. Felizmente, no golpe de Bo(^a
ninguém creou. O golpe na holm, porém, todos o estão
vendo agora ; é a perspectiva deste plano : golpe na bolga
do patrimônio privado, na bolsa do contribuinte, na boÇa
da nação, golpe no commercio c no Thesouro, na riqueza
do paiz, na sua reputação e no seu futuro, (Apoiados.)
Mas agora a historia se vai transformando t>m
artigo de vendagem barata, que se fabrica nos cantos das
ruas, ao capricho de imaginações mais ou monos ferteis.
Não ha muitos dias, por exemplo, me via eu accusado,
na grande imprensa, de ter gasto aqui, no dia 3 de novem-
bro, quatro horas em defender os planos financeiros da
dictadura Lucena !
O sr. Elyseü Martins :—Só accusaassim quem
não entende a v. ex.
GALÜMNIAE, CALIJMNIAE 217

O sr. Ruy Barbosa : —Nem ao menos tiveram a


consciência dc ler-me ! E è assim qne condemnam !
Mas o senado ahi estíí por testemunha, ahi está por do-
rnmonto o meu discurso impresso : não proferi uma pala-
vra de defeza ás medidas financeiras do governo Lueena.
Si, em alguns pontos, os alvitres suggeridos ao Congresso
por aquelle governo coincidiam com as medidas financeiras
do Governo Provisorio, devia eu repudiar os meus aetos,
anteriores a esse projecto, simplesmente porque ellestrium-
phavam nas retratações do governo Lueena ? Que advogava
eu : os aetos desse governo, ou os meus ? Todos viram que
justifiquei a política financeira da minha administração, c
demonstrei que a baixa do cambio não se liga á exuberância
das emissões. Alais nada.
O sr. Theodtreto Surro :—Demonstrou perfeita-
meute. E' um dos mais bellos estudos, que tenho visto.
O sr. Elyseu Martins í—Não ha, absolutamente,
excesso de papel.
O sr. Ruy Barbosa :—Coube, porém, ao meu dis-
curso de 3 de novembro a desfortuna de coincidir com a
violência do golpe de Estado, e ver-se interrompido por
elle. Plssa casualidade valeu-lhe, da parte de um jornalista
ministerial, a qualificaçãolisonjeira de—"canto do cysne".
Era obséquio. Podiam chamar-lhe, com o mesmo apro-
posito, "o pio do raoeho". Nesse caso, o cpigramma da
dietadura me graugearia as palmas da revolução. Perdi
essas honras; e, ainda em cima, de vez em quando a
amahilidade imprudente do escriptor lucenista passa-me a
zunir pelo ouvido, como pedrada, em que se diverte o
zelo espasmodieo de certos patriotas. Entretanto, o intuito
do autor era innocente, bem que a fineza fosse immereeida.
88
218 CALI MXIAE, CALUMNIAE

A que a devi eu ? Unicamente, senhores, a que esse jorna-


lista nunca recebera das minhas mãos o menor beneficio.
(Riso.) Fosse elle um beneficiado meu, e a sua gratidão
provavelmente se teria traduzido em antipathia e mor-
dacidade contra o meu nome. A experiência de outros
m'o assegura...
Sr. presidente, não sei si peça á casa o favor de con-
ceder-me prorogação da hora. ou si solicite licença, pira
continuar amanhã.
O sn. [Link] e Campos:—A', ex. está muito íiiti-
gado. (Apoiailos.)
O su. [Link] Martins ;—V. ex. poderá continuar
amanhã. (Apoiados.)
O sr. Utty Barrosa :—Então requeiro á casa per-
missão, para continuar amanhã. {Muito bem, muito bem; o
orador é abraçado e comprimentado.)
III

\ REFORMA EM PROJECTO

A MOBIMZAÇAO DO DAHTRO DOS BANCOS O IMPOSTO


EM OBRO—IMPÉRIO K REPÜBLB A

DISCURSO PROFERIDO NO SENADO

EM SESSÃO DE 13 DE JANEIRO DE 1892

O sr. Presidente:—Tem a palavra, para eontinnar


o sen discurso, o sr. Huy Barbosa.
O sr. Ruv Barbosa :—Rcflectindo, sr. presidente,
esta manhã sobre oaleijão ínformee malfazejo...
O sr. Elyseu Martins :—Apoiado.
<) sr. Ruy Barbosa :—...com que a teratulogia polí-
tica destes tempos vai enriqueeer os seus quadros, lem-
brou-me a chi mera bomLycinam In vácuo, do livro de Ra-
bclais, e deplorei não ter tempo de ir buscar em Pantagruel
e (íargantua a philosophia desta reforma, ou, pelo menos,
o bom humor de enearal-a, e rir, em vez de entristecer-me.
De feito, quando vemos os apostolos da liberdade
bancaria offerecerem ao Estado o sceptro c corôa do mo-
nopolio da emissão ; quando vemos os mctaUidas substi-
tnirem o seu programma de regeneração do lastro dos
O PROJECTO PALINODIA
bancos jxslo (ia circulação sem lastro ; quando vemos os
autagonistas do papel inconversivcl extinguirem o resgate,
adopíarem a peior das fôrmas do papel-moeda {apoiados),
e triplicarem da noite para o dia a emissão do Thesouro ;
quando vemos os restauradores do cml i to publico, logo
após a votação de um orçamento, que elevou 1 vrauuicauiente
os impostos, terem a coragem de esmagai' ainda o paiz
sob a responsabilidade de uma divida do 370.000:000|i,
nesta orgia do extravagâncias, a tentação que se sente,
é a de empunhar "a diva botelha" do Democrito gaulez, e
brindar á fortuna.
Infelizmente, abstêmio, praticando em absoluto a
guerra ao álcool, tão sabiamente reeommcndada outro
dia, aqui, pelo nobre representante do Rio Grande do
Sul, a proposito do voto australiano, não bebo nem
nos grandes dias, como este. Sou mesmo dos «pie consi-
deram pouco reeommendavcl, neste clima, a pratica in-
gleza de desenvolver programmas políticos á sobremesa
de jantares. 1*1 aqui está como o meu discurso vai ser
grave c severo, em vez de folgazão e galhofeiro.
O projeeto é uma apostasia, que se faz aggressiva,
pura oeeultar a sua vergonha. (Apoiados.) Tudo o que,
ha dois a unos, servia de bordão aos insultadorcs «lo Go-
verno Provisório, todas as profissões de fé dessa campanha
são calcadas aos pés daquelles mesmos, que hontem as ar-
voravam em bandeira. De todo esse aranzel de reivindi-
cações, que é, pois, o que resta ? Princípios ? Convicções ?
Verdades ? Não: apenas o verme das questões pessoaes ras-
tejando no tapete do debate. (Muito bem.)
A questão pessoal, entre nós, senhores, é o elemento
falsificador da questão financeira. De trás dos bastidores,
QUESTÃO PESSOAL 221

elemento soprava e dirigia os maroiços desencadeadoe


Coijtt® 0 Baneo dos Estados Unidos desde a sim annun-
ciaíão, estando elle a|)cna8 em projecto. Uma instituição,
sr presidente, que vinha inaugurar o regimen novo, dictado
[Link] circumstancias da revolução, que transformara o go-
vergo do paiz, não podia encontrar alhanado o terreno.
])ev ia, porém, ao menos, es^ierar boa vontade e svmpa-
tldíi dos mais interessados na prosperidade da situação, que
Bo ijdeiava. {Ajjoiadon.)
Ijonge disso, os amigos da revolução eollaboraram
infantilmente no assédio inimigo contra essa creação repu-
blicana ; e os golpes nella desferidos não olharam a
recursos, prodigalizaram largamente a corrupção, estimu-
lara111 por todos os modos os esforços dos interessados
na sustentação do regimen antigo, no mallogro do novo
regimen, o qual não encontrou na opinião revolucionaria a
perspicácia de comprehcndcr que o de que se tratava, era
simjdesmente de ferir pela raiz, vitalmente, a Republica,
insegura c vacillante.
Não conheço exemplo de marulhada igual contra insti-
tuições desta ordem. É que,em qualquer outra parte, se acha
muito menos reduzido o cabedal de bom senso publico,
estão mais educados os costumes políticos, c não será tão
faeil aos especuladores agitarem a opinião com o furta-côr
de mentidos interesses nacionaes. {Muito bem.)
Essas hostilidades agoirentaram desde as origens o
Banco dos Estados Unidos; resultado natural em um
paiz, do qual, com certa razão, ha pouco, se escrevia, na
Europa, que se parece com a Rússia "em ter poro, mas não
publico." {Apoiados.)
Xão obstante, as creações financeiras do Governo
222 DEMOLIÇÃO DAS FINANÇAS REPUBLICANAS
Provisorio iam-se cimentando animadoramente, enuiuanto
o puder não passou das nossas mãos a outras, mditferentcs,
pala sua iuconsciencia, ã sorte da snccessão, que reccbiaiu.
(Ajwinãon.) Para que a mina invadisse essas instituições,
era mister que os sitiantes alliciassem a cumplicidade cio
governo na pessoa do meu succcssor, a encarnação da ce-
gueira que volta as costas ao céo, para cavar a terra com a-
unhas á procura de luz. A missão dos nossos successores
era consolidar os alicerces da nossa obra. Pois bem : cs-e-
alicerces entregaram-se aos instinetos èsfossadores da tou-
peira. O cdificio estava perdido. Lavrava-lhe a ruina domli
havia de esperar-se que lhe viesse o amparo, a deleza,
vigilância tutelar. Dae por inimigo ao Banco de Inglaterra
o governo de Inglaterra, e o credito do segundo estalnde-
ciraento bancario do mundo oscillará nos seus ei\<
(ApoiailoK.) Como poderia resistir a provações taes uma
instituição incipiente, rccem-crgnida no solo movedioo
de uma revolução ? (Apoiados.)
Desde então, sr. presidente, já não subsistia em -egu-
rança consa nenhuma, do que o (loverno Provisorio plane-
jara ; e as mais delicadas dentre as nossas instituições cone -
çaram a ser golpeadas do fundo á snjicrficic. Onde quer que
havia, no mecanismo, uma peça essencial, logicamente
entrozada no conjuncto, davam-se pressa cm substituil-a por
um enxerto bastardo e absurdo. Onde quer (pie uma das
molas do apparelho não se dobrava doei 1 mente entre o-
dedos do serralheiro do obra grossa, trocavam-n'a logo ji,.
primeiro disparate mecânico inenleado ]>clo albardeiro «Ia
vizinhança. Tudo se torceu, tudo se falseou, tudo se oan-
fundin. De um systema cheio de correspondências complexa-
e subtis, onde não se podia tocar cm qualquer parte, -em
RESPONSABILIDADE DOS DEMOLI DORES 22.1
modificar a acção das outras, fizeram um atamancado de
forros velhos, digno de figurar numa exposição industrial
de doidos. Em toda a combinação da intclligcncia e da
arte ha eorrelações, compensações, harmonias, oue se não
podem alterar, sem tirar á obra, epie dellas se teee, a
utilidade e o caracter. [Apoiados.) De toda essa ereaçâo,
ipie se articulara com lenta paciência, com funda reflexão,
com attento escrúpulo no systema de freios e contrapesos,
destinados a estabelecerem o eqnilibrio do movimento e
a congruência dos etícitow,—não houve membro, por onde
nao passasse o desaso do aldravão funesto, que elle não
torcesse, deslocasse, ou snbstituisse. A construcção, que ahi
está, não é, pois, a nossa... Ponham-lhe no frontispieio
a talxdeta de Ara ripe A- C. São os engenheiros dessa
confiisão. (vlpoleulos.)
Que resta, com effeito, das instituições ereadas jxdo
' inverno Provisorio ? Que ficou dessas instituições desde
-- de janeiro de 1891 '! Nada, sr. presidente, nada, anão
w
'i' a parte onerosa, a diflicil, a menos sympathica do
plano. Mas os elementos combinados de projwsito para lhe
neutralizar a severidade, para lhe corrigir os attritos, para
"'e contrabalançar os inconvenientes, cederam um a um
110
abalo da opposição systematica, agitada contra ellas
pelos actos da administração publica. (Apoiailox.)
Que systema financeiro poderia resistir á hostilidade
caprichosa exercida contra elle pelo governo do paiz,
durante me/es e mezes, na quadra de sua iniciação,
através de intempéries revolucionárias? ( Apoiado*. )
* orno í», pois, que, agora, no apurar a responsabilidade
dessas instituições, se poderá eqnitativamentc deixar
de ir buscar a origem dos males públicos na malignidade,
224 O PROJECTO OFFICIAL
ou na inépcia, dos malfeitores financeiros, que as fal-
sificaram ?
Abriu-se contra as finanças republicanas a guerra dos
convicios, abriu-se a guerra dos boatos, abriu-se a guerra
das insinuações infamatorias ; e todos aquclles, que tiuhaiu
um despeito, que jogar contra a Republica, todos os que
tinham uma esperança na monarchia, todos os que tinham
contas, que ajustar com o Governo da Revolução, com-
prchenderam aexcellencia da opportunidade, o atiraram ,-c
de corpo e, alma ao campo, tanto mais animados, quanto
não 0 cxigno o numero dos que profo-am, a respeito da
moral democrática, a doutrina que compõe hoje o estofo dc
certas agitações, a julgar das quaespcla sua orientação ha-
bitual, já não sei bem si a democracia destes tempos é
a inveja,como queria Proudhon,ou si é, antes, a ignorância,
a calumnia c o enredo.
O sn. Elysbu Martins:—Muito bem.
O sr. Rtjy Barbosa : — A reforma financeira, que
ora ameaça o paiz, senhores, 6 uma lagarta nova da
questão pessoal, mais uma larva dessa chn salida odiosa.
(Apoiados.)
Esse plano (salvo o respeito aos indivíduos, mas
guardada a liberdade de apreciação das eousas),—esse
plano é o mais colossal artefacto de ignorância financeira,
que já se discutiu nas assembléas políticas deste paiz. E' a
mais monstruosa tentativa de espoliação publica.(ApoUidon.)
E' o atteutado mais brutal contra o credito da nação.
{Apoiados.)
Senhores, careço de suftbear os meus sentimentos,
de comprimir violentamente as minhas convicções, para
não qualificar com a devida severidade a tendência taladora
PROPRIEDADE E INDEMNIZAÇÂO 225

dcflc prqjecto. Choga a me parecer, ante essa fúria dc


desorganização, que anda grassando entre nós verdadeira
epidemia de loucura...
O sr. Thbodureto Soüto :—E de deposições.
O sr. Rtjy Barbosa:—... que os poderes públicos
perderam a ra/ão, que tudo se precipita, aqui, vertigino-
samente para o impenetrável.
Queremos ser republicanos, e não temos sequer o
sentimento da justiça na mais rudimentar de suas fôrmas.
(Apniailos.) Queremos campar de livres, e não sentimos,
ao menos, pela propriedade esse respeito elementar, que a
policia é instituída para manter. {Multo hera.) Queremos
avantajar-nos ao império deposto ; e a for, a nata, o mimo
das nossas reformas 6 esta revelação, nas classes dirigen-
tes, de ura estado social, em que se perdeu a consciência
iurídiea, e jã se não distingue uma reivindicação de um
roubo. (Apoimlon.)
Muito menos baixo era o nivel moral das preoccupa-
ções do sr. Araripe. 8. ex. concebera o pensamento da
encampação das emissões; mas mediante expropriação
regular, isto 6, mediante indemnização aos bancos expro-
priados. O confronto entre essa concepção c a do prqjecto
sublimaria o sr. Araripe, juridicamente, ã altura de i.m
D'Aguesseau, politicamente, á de um ( Jladstone. E' que o
sr. Araripe ainda se deixava embaraçar, ás vezes, com a
rabugem de miseráveis considerações de direito. O prqjecto
áureo não desce a tacs baixezas. Fila pela gola o capital
particular, que commetteu a tolice de cabir na corriola de
um contracto com o governo, e diz-lhe : " Ou estas con-
dições, ou a liquidação forçada ! "
A HOI^A. 01 A VIDA
Souto :—Ou a bolsa, ou á
o SR. THEODtTBETO '
vida !
akrosa :—Pois, senhores, não e i
ilesa,,, (|uc ine aizm • " A bolsa, ou a vida " ?
AUUBS :■—^ 'sto ^ mna liqni<biçà0
O sr. Campos Sai-ui^
e
lla está lançada pelos faeío».
O sr. [Link] Martiv- ■Xão apoiado ; os laetoA
n
ão jtistificam isto. J
O dá. liirv Barbosa E que faz uma creatnra h1K
mana, dotada de consciência e brio, em presença dessa*
ennmnpações do alheio? Keclama, si pôde, o auxilio dí»
justiça. Si não píklc, defende-se pelas armas.
O sr. TheodurRTo Souto :—12 ha dc ser invocado
o auxilio dos tribunaes.
O ,sR> [Link] Martins :—12' a legalidade trimu-
phante !...
O sr. Ruy Barbosa:—Que vemos,com effeito, nes^c
projeeto, quer o consideremos no seu pensamento geral,
quer nos meios destinados a servil-o
Pois ellc não começa, chamando ao Thesouro a
propriedade dos deposites bancários, e ageitando, paru
commodidade do seu negocio, um cambio de lavra sua ?
O sr. Campos Sauues :—I2m compensação da res-
ponsabilidade, que retira.
O sr. Rca- Barbosa :—Não lhe pediram os bancos
e-isa mercê. V. cx. sabe rpie invicto non datar beneficium.
O sr. Campos Saruês :—Mas o credito publico re-
clama.
O sr. Ruy Barbosa :—Não reclama tal. Jãdemons-
trei hontern que o credito publico 6 o primeiro sacrificado.
O sr. Campos Sarres dá um aparte.
A CILADA DO PKOJLCTO 227

O .sr. Ririr Barbosa :—O i|ue neste projccto resum-


bra, é (perdoem-me a phrase) uma formidável cmbaçadela
armada ao paiz.
O SR. Camros [Link] ;—Y. ex. está injusto. Os
autores <lo substitutivo estão procedendo com toda lealdade
c franqueza.
O sr. Ruv Barbosa :—Eu não toco em pessoas.
() sr. Campos Sabres :—Não pôde dizer que o pen-
samento do projecto seja uma cmbaçadela.
O sr. Huy Barbosa:—Salvo sempre a boa fé dós
meus adversários, e sou incapaz de offender os meus ami-
gos. Mas reivindico o direito de aquilatar os actos, as
opiniões, os programmas. Apreciar um fãcto não 6 ferir
um indivíduo. Essa confusão, tantas vezes utilizada em
casos como este, paru desarmar a razão critica, não pôde
sustentar-se perante as liberdades necessárias desta tribuna.
Os honrados signatários do projecto, a cujas inten-
ções faço a mais plena justiça, e em cuja lealdade acredito,
não estão livres de erros e ciladas, fataes aos interesses da
nação.
O sr. Campos Sabres ;—Em erro podemos cahir,
mas em cilada não é possível.
O sr. Rrv Barbosa :—Que ineffavel talisman pos-
suem então ss. exs., para atravessarem as regiões enga-
nosas da politica, sem receio a ciladas?
O sr. Campos Sabres :—Cilada armada por nós
mesmos ?
O sr. Rpv Barbosa :—E porque não? Quantas
vezes a cilada, (pie nos ha de perder, não está em nosso
proprio espirito, nas prevenções, que nus deslumbram, nas
paixões, que nos embriagam, ou nos interesses, que nos
228 RETICÊNCIA DO PHOJECTO

absorvem ? Quantas vezes, nas suggestòes, que nos livpno-


tizam ? Quantas, nas companhias, que nos fas inam, ou nos
amigos, que nos traem ? {Apoiados.}
Xo prqjecto da eamara dos deputados havia mais
translucidez, mais coragem de arrostar a verdade dos com-
promissos assumidos, das novidades aventuradas. Klle
estalxíleeia, para o governo, o direito de mandar proceder á
liquidação dos bancos, que nella incorressem, por conta do
Theso iro e intermédio de outro estabelecimento, que o
ministro da fazenda escolhesse. Xesse attentado manifesto
contra o direito commum estava clara, pelo menos, a
hypothese prevista de ura deus ex-mmhinâ, intervindo após
a ruina geral, para recompor as cousas, e salvar a situação,
dando-lhe por chave os interesses do salvador.
Osu. Theoduiikto Souto :—Foi uma emenda da
ultima hora na eamara, (pie passou ob e subrepticia-
mente.
O sr. Hrv Barbosa :—A coragem cirúrgica, com que
o nobre representante do Rio Grande do Sul corta a torto
e a direito nestas cousas, desmentiu-se neste ponto, dei-
xando abi uma reticência, cujo subentendido aliás é obvio.
O seu prqjecto manqueja por falta desse artigo, corollario
necessário delle. E, si essa disposição não sc enuncia já,
ha de vir, ha de emergir da fatalidade das cousas, da crise
inevitável, (pie o prqjecto vai abrir : porque o governo da
Republica não pôde ter a pretenção de arcar com a situa-
ção incomportavel, que esta reforma levantará no paiz, aca-
çapaudo o credito do Estado sob essa alluvião esmagadora
de papel moeda, innuensa e inesperada avalanche de res-
ponsabilidades irresgataveis. {Multo bem.} Logo que a
situação se definir, armado com o saias popidi, o governo
O SALVADOR 229

providenciará na plenitude da diotadura conferida pela


necessidade ; e a força das circumstancias levantará então
do fundo do desconhecido o mune inesperado c mysterioso,
cuja magnanimidade se amiserará de nós. O espolio, seu de
jure nesse caso, será uma pequenina eompensação a tama-
nhos serviço»; e então se decifrará o enigma, agora obscuro,
com o advento do grande banco, o enviado, o hemquisto, o
(«ilvador, concebido c gerado no ventre da sabedoria finan-
ceira, que o Atlântico, em viagens sucoeasivas, anda a
jnostrar, com orgulho, ora a um, ora a outro continente.
0 su. TtiKomHCTu Souto:—O novo Banco Na-
cional.
1 "\i su. bknador :—Ha de ser obra do Congresso, e
jiào de um ministro.
O »r. He v Barbosa :—Ha dj vir, ou seja obrado
iim ministro, ou seja obra de um congresso,—justificado jiela
necessidade fiagelladora e irresistível das circumstancias, nas
qiiaes reside aquella i()rya,eloqüentemente definida,ha pouco,
pelo nobre representante de H. Paulo... das cireumstancias
que justificam tudo, das circumstancias que legitimam tudo,
das cireumstancias em cujo reservatório providencial não
lia temeridades, nem crimes, que a administração não
encontre meios de canonizar. {Apoiados.)
Senhores, temos o direito de dizel-o, porque o estamos
vendo, e os honrados signatários do projecto devem
enxergai-o ; este projecto não ó uma solução : é uma arma-
dilha.
O su. Tiikodureto Souto :—Nem pôde ser solução.
O sr. lírv Barbosa :—Este projecto dedróe, para
Onieçar: realiza a formula marcial de Lojtez. Arraza, limpa
o terreno, para o semeador feliz, aquelle em previsão de
230 SUMMA DU FROJECTO OFFICIAL
* quem se esconde o thesonro, que O interessado sabe OjkJc
opportunâmente lia de ir dessoterrar.
O ali. Theodureto Souto :—Mas uecnnnilu mina-,
faz um montão dellas.
O sr. Ruy Barbosa :—Em sunima, sr. presidei)t,.;
para os bancos emissores o projecto é uma extorsão crijíiU
nosa. (Apoiado».) Para os portadores de notas, isto 6, ]«aea
a população inteira da Republica, cm cujos bolsos and:i'u
as cedidas dos bancos emissores, é, sob o rotulo de unia
garantia, um calote,ornais descomposto dos calotes. {Muito
bem.) Não ha, com et} ei to, em todo o projecto, a menor
providencia acerca do resgate, a menor palavra sobre a con-
versibilidade. Para o Tlicsouro, é a condem nação ás galfg
perpétuas do descrédito financeiro. (Muito bem.) Oh ! que
risadas para o "meirinho inglez" ! Um erário que não pôde
com a responsabilidade de uma omissão de 180 mil contos,
instantaneamente a eleva a Õ50 mil. üb ! que famosa rege-,
neraçâo da moeda fiduciaria 1 {Apoiado».) Um jiaiz, cujos
títulos andam cotados na Europa a (>2, esposa, do um din
para outro, uma divida de .'iíiõ mil contos. Oh ! como u
Europa nos vai achar grotescos ! (Muito bem.) Como vão
subir os valores brasileiros! Como se vai revalorizar o
papel desvalorizado ! (Muito bem.)
Adoptando esta solução, revelar-nos-hemos um povo
sem consciência, nem fé, um paiz sem moralidade, nem
senso [Link] contractos sagrados, saqueamos
a algibeira particular, adoptamos voluntariamente a nossa
própria fallencia, convertemos o descrédito dos bancos em
deshonra do Estado. (Muitos apoiados.)
O sr. Amaro Cavalcanti :—Espero que não será
lei do paiz.
MOBILIZAÇÃO DO LASTRO METALLICO 231

O sr. Ruv BarijosA;—Mus, senhores, na reforma


financeira ainda se levantam duas grandes questões, em
que me é inevitável entrar, já pelas suas relações profundas
com a matéria do voto, que vamos proferir, já pelo seu
papel na obra do Governo Provisorio : a mobilização do
lastro das emissões e a cobrança dos direitos em ouro.
Eu creio que a soberania do legislador tem limites
ainda quando se diz indefinida, como no parlamento de
Inglaterra, nos comicios populares sol) o governo da demo-
cracia pura, ou nas assem bicas constituintes. Por mais
incontinada, que pareça, ha de ter, ao menos, os confins do
senso commum. Estava nas mãos do Congresso declarar a
abolição da cobrança cm ouro ; mas não estava em suas
mão.s obrigar o poder executivo a fabricar o nobre metal.
Ora, 6 o que faz o projeeto da eamara, quando, revogando o
decreto de 6 de outubro, prescreve,ao mesmo tempo,a recon-
stituição do deposito metallico dos bancos. Essainjnneção
contradictoria vai esbarrar nos mysterios da pedra philo-
sophal. Para ofaserval-a, seria mister reviver administra-
tivamente a alchimia, crear no Thesouro uma secção de
pratica das sciencias occultas, converter a Casa da Moeda
em laboratório de transmutação dos metaes. {Jilm.)
Xinguem ignora, nesta casa, que a mobilização do
lastro metallico dos bancos (• um dos arbítrios da minha
administração, um desses arbítrios pelos quaes tenho fé de
haver concluido, neste mundo, a cxpiaçâo dos meus pec-
cados, e estar no caminho do céo, por mais que me ande a
agourar o contrario o vôo negro de certas aves de máo
nome. f Riso.) Graças a essa medida minha, reunida ao
svsterna de emissão creado pelo decreto de 17 de janeiro,
deixei recolhidas as obrigações do empréstimo de 1889 em
232 MOBILIZAÇÃO 1)0 LASTRO METALLICO

importância não inferior a 90 mil contos. Eu snppnnlia


haver prestado, com isso, um serviço não despieiendo ao
credito da nação, na presumpção, em que me achava, de
que o credito de um pai/ c tanto maior, quanto clle menos
deve, ou mais depressa amortiza as suas divida8.(ylpoto<ío.s.)
Agora sei que, polo contrario, o meio de nos reeora-
mendarmoe ao mercado monetário dos dous continentes è
endividarmo-nos, especialmente si nos endividarmos em
Londres. Isso traz ouro, dá-nos a bemaven tu rança de uns
me/es de cambio alto, e estreita a tutela paternal de Lom-
bar d Street sobre nós. (Muito bem.) Ao menos, a mouar-
chia procedia invariavelmente assim ; o é graças a esse
habito invariável que entre cila c os nossos credores se
estabeleceu o modu» vivendi hoje recordado com tão vivas
saudades.
Para ordenar a applieação do lastro das emissões ao
recolhimento dos titules desses empréstimo, fundava-me eu
no caracter geral dos depósitos confiados ao Thesouro, na
equivalência de honra entre o ouro c os titulos do Estado
em ouro, nas múltiplas vantagens, de ordem financeira e
de ordem econômica, asseguradas ao pai/, de um lado, com
a reducção dos juros do seu debito, de outro lado, com a
circulação do metal, amparada contra o escoamento total
dcllc pelo regimen mctallico dos impostos aduaneiros.
{Apoiados.)
Mas o meu successor, homem do allegado e provado.
não achou, entre a poeira c as traças da rotina, jurispru-
dência, que legitimasse a minha ousadia ; e um dos pri-
meiros passos, cora que retratou a sua administração,
encetando a errata da minha, foi sobreestar na execução
do decreto n. 823 B, de 6 dc outubro de 1890.
MOBILIZAÇÃO DO LASTRO METALLICO 2;í3

Recuando, com pio horror, ante o meu sacrilégio,


e fechando as portas do tabernaculo sobre as pilhas do
metal, que eu julgara melhor empregado em alliviar a
divida publica, desvinculando o ouro, e substituindo-o por
apólices na garantia das emissões, disse o sr. Araripc : (JJ)
" Em minha opinião deve ser considerado sagrado, e, portanto,
conservado cm especie, o fundo metallico, que garante a emissão
dos bancos; embora se diga que esta, só sendo convertivel quando o
cambio se mantiver ao par durante doze mezes, nenhum perigo
haverá, mas pelo contrario conveniência, em empregar tão grande
somma em resgate de títulos do Estado, que, guardados no The-
sonro, lhe depararão meios, cm qualquer emergência, para a
aequisição do metal preciso ao reembolso dos bancos emissores." 1

O meu segundo successor no ministério da fazenda,


aliás não menos jurista, não menos magistrado que o seu
antecessor e collega, divergiu solemne c radicalmente
dellc neste assumpto. Xa sua exposiyão financeira ao
Congresso, com effeito, o sr. de Luceua qualifica a mobiliza-
ção do lastro como "idéa capital", " idéa imprcseindivel",
" idéa imposta jx-las necessidades da nossa administração
financeira". 8 O sr. Araripe, que estadeava a sua dissi-
dência cm relação a mim, neste assumpto, como um dos
bcncficios da sua administração reparadora, não se mcchcu
do gabinete. De onde dcprehcndo ques. ex. reconsiderára,
e acabou, afinal, reconciliado commigo na profanação dos
lastros, a que o sr. de Lucena subscreveu, dando-lhe ainda
maior amplitude, adaptando-a a novas applicações.

1
Relntnrio no Pretidente da Rejmblica, pugs. 4-f).
2
Exposição aunexa á mensngem tio Presidente da Republica
ao senado. Diário do Congrttto Nacional. 20 sei. 1891, pag. 1.219.
30
2:i4 MOBILIZAÇÃO 1)0 LASTRO METALLICO

Mais um ponto cardeal da minha gestão tinanccira,


cm que o tempo obrigou os que tinham nas mãos as res-
ponsabilidades do governo a reconhecerem, não só a
conveniência, como a inevitabilidade dos meus aetos.
(Apoiados.) lv' ura desaggravo, em que espíritos dos menos
propensos á vaidade encontrariam motivo para desvaneei-
mento e ufania.
.V mim tal satisfação não compensaria, nem de leve,
o pezar de aehar-rae, ainda neste ponto, em antagonismo
com o projecto da eamara dos deputados, inspirado pela
eomraissão mixta. A commissão determina ao governo
qne recomponha em ouro o lastro dos bancos. Mas, como,
ao mesmo tempo, desvia da rua do Sacramento o unieo
veio de ouro aecessivel ao governo, mandando cobrar
em papel os direitos de alfaudega, parece evidente que o
projecto impõe á administração publica um dever, com
o conhecimento prévio de que cila não poderá desempe-
nhal-o. (Apoiados.) Não recebendo ouro em impostos, o go-
verno não teria meios de obtel-o, senão comprando-o no
mercado. Mas, como o cambio, ao passar desse voto
naquella casa do Congresso, estava abaixo de 15, e abaixo
de 13 se acha ainda hoje, claro está que o ministério não
poderia obedecer, senão abrindo rombos gigantescos no orça-
mento, ou procedendo a formidáveis operações de credito,
isto é, onerando o Thesouro com vastos sacrifícios,sacrilieios
incalculáveis, para os quaes o projecto o não habilita.
Ahi está, pois, uma disposição para ingkz ver, ou
antes, permittam-me, uma disposição para rir. Populus vult
decipi, decipiatur.
O rasgo do sensação brilharia unicamente ikIo
apparato do espectaeulo. (Apoiados.) Si ti\-esse o voto
MOBILIZAÇÃO DO LASTRO METALL1CO 235

.Io st-uailo, valer-lhc-hia salvas de applausos em tele-


graminas nltramarinns. Mas, soja qual fora emjihaso do
jiroooito, o jMalor exmitivo não n'o ouuiprc, não n'o
cumpriria, não n'o pcnleria cumprir, emquanto lhe não
revelassem o segredo alchimioo da producoão do ouro pela
industria humana. Helovcm-me a ironia : quando apoli-
tiea brinca tão iniKwontemente era assumptos tão graves,
não lia outra fórum natural |)ara a expressão do pensa-
mento. JHJficile ent mtyram non xeribere, dizia Juvenal.
A utilização do lastro metallieodo papel bancario em
operaçfies tendentes a melhorar o credito do Estado não
era innovação minha. Entre nós mesmos ella encontra
precedentes, no que se fez, durante a guerra cora o Para-
guay, sob a lei n. l..'54í,', de 12 de setembro de IStid, e o
deerato n.:5.72(), de 8 de outubro d'esseanno. Não a adoptei,
senão justifieando-a cora razões de deliberar, que ainda
não vi refutadas. E tive a satisfação de eertifiear-me de
que a impressão, no publico, nas classes competentes, foi
das mais favoráveis ao procedimento do governo.
(,l poiadoa.)
Haja vista este juizo, emittido por ura periódico
estrangeiro, dos mais babeis era assumptos financeiros,
dos mais era eontaeto com os interesses eominereiaes, dos
mais iude|K'ndentes na defeza das suas convicções: (/>.)

"Quanto ao empréstimo <le ISS!) em ouro, [Link] tão natural e


fácil, quanto o seu resgate irnmedialo. 0 lattro metallieo río* batiros
tU etnifsnn não pôfln ter destino moi* uti! e patriótico.'' '

1
JltoUedu St/d, 18 de outubro de 18ítt),
236 MOBILIZAÇÃO DO LASTRO METALLICO

E até no seio da imprensa que mais fogosamente


me combateu, não me faltaram adhcsões, que ainda recen-
temente se manifestaram no apoio dado a essa restauração
da minha medida pelo projecto do governo passado. São,
comeffeito, da Gazeta de Noticia* 1 estas phrases ; (Lé)

" O parecer dos outros membros da com missão " (minoria da


commissão do senado) " é, fóm de duvida, o que offerece mais
amplas bases para as medidas, que convém adoptar; mesmo porque
trata da mobilização do ouro,que existe no Thesouro, e da sua conversão
em apólices inalienáveis, providencia de rffeito seguro na actnalidade,
pela sua influencia bencfica na taxa do cambio."

Dois íins tinha, realmente, em mira essa providencia.


O primeiro, immediato e transitório, consistia cm beneficiar
o mercado monetário,aetuando salutarmente sobre o cambio,
em que não foram imperceptíveis os seus efieitos. O segundo,
estável, permanente, amplo, era alliviar o erário nacional,
com o recolhimento do empréstimo de 1889,em uma despeza
de 4 454 contos annualmente.
Essa reducçâo
1 considerável e duradoura nos encarmis
orçamentários da Federação não podia deixar de desafogar
consideravelmente o credito do paiz, e aproveitar, portanto,ã
estimação do nosso meio circulante. A vantagem, por esse
lado, me parece incontestável. (Apoiados.)
E sob (pie pretexto a combatera os seus antagonistas ?
Sob o de que essa operação desnatura e enfraquece a ga-
rantia das emissões. Por isso " se pronuncia formalmente
contra cila " o sr. de Figueiredo.

1
Editorial, em 24 de setembro de 1891.
MOBILIZAÇÃO DO LASTRO METALL1GO 237

Ora, acontece que eu suppunha ter cm s. ox. o maior


pancgyrista dessa medida ; porque ninguém a advogou
com mais segurança de tom, mais calor de convicção, mais
abundancia de motivos do que s. ex. Vou reproduzir as
suas palavras, de um compte-rendu do sr. Ijouís Guilainc,
que, na Rcvue Franao Sud-Amériraine, expunha a lingua-
gem do nosso banqueiro nestes termos : (Li"')

" O sr. de Figueiredo, reconhecendo que o governo brasileiro


aliena^-contra fundos públicos 4 188!), os depósitos dé ouro dos
bancos, e (pie essa alteração da garantia da circulação fíduciaria
produzira, á primeira vista, má impressão na Europa, fez-nos ob-
servar ipie na realidade não ha diminuição da garantia-, porquanto
os fundos públicos em ouro, resgatados com depósitos metallicos,
representam o equivalente em melai, e que o que vale no ouro é o
proprio ouro (ouro é o que ouro vale).
"A depreciação desses fundos públicos poderia enfraquecer a
garantia ; mas, por outro lado, como os bancos não são obrigados á
conversão do seu papel, senão quando ó cambio se mantiver, du-
rante um anno, ao/par de 27 d., ou acima, por 1$, ecomo a previsão
quasi que indica (pie essa volta ao par só se dará no período de
longos annos, segW-se (pie o papel é legal e virtualmente inconver-
tivel, e que, no dia em que se tornar convertivel, terá o cambio
subido, e igualmente melhorado o credito do paiz, permittindo a
realização, muito vantajosa, dos fundos do Estado de garantia e a
reconstituição dos deposites de ouro para a conversão do papel.
" Além disso, o governo brasileiro, em vez de deixar esses de-
pósitos de ouro immobilizados e improduetivos, tem toda a vantagem
em ápplical-os no resgate dou fundos públicos, valorizando assim estes
fundos, e poupando ao Thesouro, sobre os que resgatou, o paga-
mento de um interesse animal de 4 '/c em ouro. Resulta, pois, que
a mobilização dos depósitos de ouro dos bancos, não mãlificando de
modo algum a garantia de seu papel, ê muitinsimo favorável ao ore-
dito do Falado, diminuindo a divida em circulação e o respectivo
serviço.
238 MOBILIZAÇÃO DO LASTUO METALLICO
" Si o governo de Juurcz Celraan, em Buenos-Aires, houvesse
seguido o mesmo systema, não leria provavelmente o agio aüingido
ás proporções, a que chegou.
■' Infelizmente sahe-se que os depósitos de ouro dos bancos ser-
viam, não para a acquisição do fundos do Estado, como preceituava
a lei de 1887, mas sim para o resgate de uma parle do papel-mneda;
julgava o governo que por essa fôrma faria subir o valor deste; mas,
ao envés d'isso, o que restava em circulação, não lendo mais ga-
rantia real, devia forçosamente depreciar-se, tanto mais que o pa-
pel, tão desastradamente retirado, foi, por nm cumulo, posto cm
circulação pelos descontos do Banco Nacional Argentino.
"Força é, pois,reconhecer que as condições, segundo as quaes se
elTccluou a alienação dos depósitos de ouro dos bancos, no Rio da
Prata e no Brasil, são essencialmente differcntes, e que o papel brn-
«ileiro não perde, por ema alienação, eu xtuu garantia* reaet, como
aconteceu ao pape] argentino. " 1

A mobilização do lastro não podia ter deíeza mais


categórica. {Apoiados.) O patriota sem prevenções po-
liticas na Europa rebatia assim, antecipadamente, o op-
posieionistu apaixonado no Brasil.
Agora s. ex. se destaca proeminentemente, entre os que
pugnam pela " reconstituirão " do deposito dos bancos
emissores. A plirase adoptada 6 uma dessas, que fazem
fortuna exactamente pela infidclidade da expressão. Dando
a suppôr um desfalque na base das emissões, desperta o
alvoroto nos ânimos, chama os interesses a postos, e gran-
geia aos reparadores do aggravo as sympathias do capital
sobresaltado.

5
Jornal do Commercio. 24 dc abril, 1891, Oazrtilhn, sob o
titulo " 0 >r. donde de Figueiredo, "
MOBILIZAÇÃO DO LASTHO [Link] 239

Mus um momento de reflexão nos levaria a conehisíies


hcm diversas. Na opcrayão de que se trata, o ouro suhsti-
tue-se jKir titules do Estado em ouro. A nação obrigou-se
a lhes pagar em ouro a amortização c os juros. Pôde a
legislatura nacional contestar a emiipolleueia entre essas
rendas e o metal, que cilas representam ? (Apoiados.) Si o
credito do paiz é uma realidade, e não um mytho, ao menos
para os orgãos politieos do paiz, tem esses o direito de j)ôr
em duvida a eorrespondcncia real entre um compromisso
do Thesouro o a espeeie, em epie ellese estipula '! Qualquer
eseripto eommereial, atiança<lo por uma responsabi-
lidade idônea, desfrueta, no mercado, a cotação dos
valores, cm que esse eseripto convenciona a sua realização.
Pesará ouro, taxar-se-lia tomo ouro, si cm ouro lhe estiver
fixado o resgate. Salvo si a honorabilidadc do signatário e
a estabilidade dos seus recursos uão assegurarem a solvência
pontual do enqxmho eontrahido,
Dejwis, qual 6 o fim do deposito bancario, nas emis-
sões ? Actuar mystieamentc jxfla presença ? Não: estabelecer
um principio virtual de conversibilidade, habilitar o esta-
belecimento a encetal-a, quando as cireumstaneias o deter-
minem. Ora, em tal caracter, sob um systema de circu-
lação fiduciaria como o nosso, as apólices ouro dcsempenhain
tão cabalmente a fnncção de garantia, quanto o jtroprio
metal sonante.
Nesse systema a utilidade do deposito uão se põe á
prova, senão na hypothese eventual de se estaltelecer o
troco em ouro. Este, porôm, não se verificará, senão quando
o cambio se firme ao par durante um lapso de tempo mais
ou menos largo. Alas, nessa eventualidade, quando o troco
se tornar possível, é exactameute quando os interessados
240 MOBILIZAÇÃO DO LASTRO METALLICO

se absterão de procural-o, não havendo proveito em embol-


sar ouro, quando o papel representa a sna equivalência
exaota. A procura de ouro cresce na razão directa do seu
afíio, e cessa com a extineção delle. Logo, a própria casua-
lidade da depreciação das apólices depositadas em caução
do papel eraittido não tem alcance pratico, no que respeita
ãs suas funeções como garantia do troco. Si o troco
se acha subordinado ã paridade no cambio, c si a paridade
no cambio desinteressa da conversão os portadores de
notas, claro estã que os bancos emissores não careceriam
de realizar o valor dos títulos, que substituissem o ouro,
senão em eircnmstancias, nas quaes, por outro lado, não
haveria, para o serviço da emissão, necessidade delle.
{Apoiados.)
Abolido o imposto em ouro, a reintegração mctallica
do lastro das emissões não é possibilidade, que se discuta,
{Apoiados.) Não ha meios de elíectual-a. Mantida a co-
brança em ouro, a renovação mctallica do lastro perdoa
sua razão capital de ser. {Apoiados.) Com cffeito, a unira
objecção pondero® á substituição do ouro por títulos desse
typo na garantia das emissões está no risco da depreciação
delles e na difficuldadc, em tal caso, de obter opportuna-
mente, quando a necessidade o reclame, a sua equivalência
em metal. Mas semelhante difficuldadc não se daria, em-
quanto o governo sc achasse apercebido, pela cobrança em
ouro, com esse manancial infallivel de recursos metallieos.
{Apoiados.)
Demais (pensem embora o contrario os que suppõein
durável a conversibilidade num [>aiz de cambio versátil
como a temperatura do ambiente), si os pagamentos em
ouro, não só não sc podem estabelecer, como, estabelecidos,
MOBILIZARÃO DO LASTRO METALLICO 241

não hc poderão manter, senão quando e emquanto a moeda


fiduciaria se mantenha ao par, ou côrca deste, a conse-
qüência é que, nos c4isos de troco era ouro, o governo poderá
sem])ri' honrar os deveres de depositário, sem prejuízo, para
o contribuinte, na acquisição das especies destinadas ã
reconstituirão do deposito reclamado jwlos depositantes,
isto é, na entrega aos bancos do metal agora substituído por
títulos do Estado. (Apoiados.)
A forra destas considerarões centuplica em face de
uma das cláusulas mais importantes no projecto dacamara
dos deputados. São justamente os antagonistas da mobi-
lizarão os que delia afastam assim de todo em todo a
ultima possibilidade de risco.
O projecto, com effeito, dispõe, no art. (i?, paragrapho
uni co :

" A conversibilidade da nota á vista, em especie metalliea,


íomar-se-lia effectiva, logo que por lei seja decretada a abolição do
curso /orçado,"

No regimen até agora estabelecido, os pagamentos em


ouro ficam dependentes de uma hypothese remota, difficil,
mas, em todo easo, estranha á futura intervenção do
legislador, verificável independentemente de sua vontade :
o equilíbrio cambial. No regimen alvitrado pelo projecto,
pt>rém, a interferência prévia do Congresso, provocada
especialmente pelas circumstancias, é condirão essencial,
para se inaugurar a conversibilidade. Não ha possibilidade,
pois, de (pie ella se produza inopinadamente, sem (pie o
Thesouro e os bancos disponham de tempo, afim de se
prepararem para os pagamentos em ouro. Antes disso o
poder legislativo teria de examinar a situação, verificar si
31
242 DIREITOS EM OURO
as condições do paiz aconselham, ou vedam a abolição do
curso forçado. E, como da abolição do curso forçado resul-
taria immcdiatamentc a conversibilidade da nota, á vontade
do portador, claro está que a legislatura não a deliberaria,
antes dc examinar o problema a esse aspecto, adoptando
as precauções necessárias, para que a obrigação do troco
em ouro não colhesse de sobresalto, desprcvenidos, os esta-
belecimentos emissores e o governo. {Apoiados.)
Agora, senhores, outra questão, que faz parte do
acervo do Governo Provisório, e que, por sua importância
excepcional, abriu época em nossa historia financeira : a
cobrança dos direitos de importação em ouro.
Espelho de grandes lições é a historia desta questão.
Nella vemos com que facilidade os grandes interesses do
Estado vogam á mercê de propagandas desorientadas
e violentas, que não raro cegam a legislatura, arrastando-a
a erros irreparáveis, a capitulações desastrosas, sob o im-
pério de agitações, nas quacs o egoismo e a ignorância, a
malicia e a credulidade collaboram para'o mal do paiz.
(Apoiados.)
Ura desses erros irremediáveis está no artigo do
projecto da camara, que extingue a cobrança dos direitos
de importação em ouro. Essa deliberação envolve um
golpe tão incomparavelmente ominoso no futuro das nossas
instituições financeiras, que todo o meu respeito pelos pro-
motores desse movimento não me inhibiria de qualificar
de criminosa a tentativa, si eu não me considerasse obrigado
a resalvar a boa fé dos meus contradictores.
Não hesito, sr. presidente, em arrostar a impopulari-
dade da medida, a que se procura ligar o meu nome como
a um poste de odio : sinto, pelo contrario, a maior
DIREITOS EM OURO 243

satisfação em declarar, convencido e tranquillo, que a minha


razão e a minha consciência cada dia mais me applaudem
esse acto ; e quanto mais embraveoe contra elle a onda,
inconsciente, ou impura, da reacção, mais abcnçôo a inspi-
ração, que m'o dietou. Não 6 capricho de orgulho.
Fui governo, e dei, no governo, as maiores provas, as
mais freqüentes, de que não conheço amor proprio, quando
se trata de reformar os meus tu tos, de corrigir os meus
erros. Mas aqui não tenho uma linha, que ceder : minha
convicção é sempre a mesma. Sob o dominio, inevitável,
até agora, entre nós, do papel inconversivel, procurei,
na cobrança dos direitos em ouro, o dique ao illimitado
escoamento das especies, uma defeza contra os excessos da
depreciação, um principio de ordem capital na economia
do nosso regimen monetário, assim como no equilíbrio dos
nossos orçamentos. E, no dia em que eliminardes essa de-
feza, no dia em que romperdes esse dique, desideratum cm
que se empenham mais que ninguém os irreconciliaveis do
imperialismo impenitente, tereis cavado o maior dos pe-
rigos sob as nossas instituições financeiras, e preparado o
desmoronamento. A responsabilidade então não será nossa;
porque da obra do Governo Provisorio se terão alluido os
alicerces, desfalcando nos seus elementos essenciaes o sys-
tema deixado por elle.
(Ha apartes dos srs. Pinheiro Guedes e Elyseu Mar-
tins. O orador troca algumas palavras com o sr. Pinheiro
Guedes, e prosegue.)
Ao adoptar essa medida, não o fiz, senhores, arbitra-
riamente, nem a desfechei sobre o paiz de improviso, sem
estudar e preparar primeiro o terreno. O decreto de 10 de
maio, estatuindo a cobrança da quota de 20 0/0 em ouro
244 DIREITOS EM OURO

sobre os direitos de consumo, foi uma sonda lançada á opi-


nião. As criticas oppostas a essa providencia, no coiR-
mercio c no jornalismo, animaram-me ao passo radical
decreto de 6 de outubro ; porque essas criticas, era sl|a
generalidade, não atacavam a instituição da porccntag^bi
metallica nos direitos aduaneiros, senão exactamente pol%
vexames, com «pie o regimen mixto de ouro e papel, "u
satisfação desses impostos, pesaria sobre os importadora
Elle affligia o commercio com a complicação dos cál-
culos necessários, para determinar a proporção entre o
papel e as especies, nesses pagamentos. Não punha termo
pois, ãs inconveniências da cobrança em papel, com os scts
perniciosos effeitos sobre o movimento da importação e Us
variações do cambio, nem firmava, para o Thesouro, van-
tagens capazes de compensar os encargos, com que onerava
o contribuinte. A ter de abrir a experiência, diziam, pdn
maior parte, os impugnadores do decreto de 10 de maio,
fizesse-a logo o governo com a cobrança total cm ouro, q"e
não incorria nos defeitos mais graves da cobrança parcial,
e poderia trazer benefícios consideráveis ás finanças do Es-
tado. (Apoiados.)
Essas opiniões, a que a percussão do sentimento
publico pelo primeiro ensaio deu aberta, concentraram a
minha attenção na idáa, (pie o acto de 10 de maio eviden-
temente encerrava era germen.
Pela cobrança geral dos direitos de importação cm
ouro ja se pronunciara, entre nós, a commissâo parla-
mentar de inquérito, constituida em 188:5, da qual faziam
parte os srs. de Guahy e Manoel José Soares. 1
1 Relatório apresentado ao corpo'legislativo pela commissâo
parlamentar de inquérito. {Irnpr. Nadon. 1885. Pags.16—18.
DIREITOS EM OURO 245

As discussões travadas sobre o assumpto durante a


minha gerencia financeira provocaram as adhesões mais
competentes e formaes a esse pensamento. Uma represen-
tação, que me dirigiu o Centro Industrial em 29 do
setembro, solicitando o pagamento dos direitos de impor-
tação em ouro, termina assim :

" Satisfazendo a tão justas reclamações, o governo da Repu-


blica firmará em bases inabaláveis a gratidão do povo brasileiro,
completando a obra grandiosa da revolução, associando á gloria da
nossa liliertação política a da nossa independência e autonomia so-
cial e nacional."

Uma representação de importadores, endereçada


pouco depois ao Governo Provisorio, pronunciava-se no
mesmo sentido, em que também ouvi abundarem alguns
homens de experiência c habilidade commercial, capazes
de aconselhar-me.
Entre os meus collegas, no seio do gabinete, o alvitre
encontrou a acquieacencia de uns e o enthusiaamo de ou-
tros. Apenas ura, o sr. Cesario Alvim, divergiu, comba-
tendo-a, infundadamente, como opposta aos princípios or-
thodoxosda liberdade commercial.
Nessas fontes me inspirei; nellas retemperei a minha
convicção ; ellas communicaram-me a coragem necessária
a essa resolução, uma daquellasque nenhum estadista indi-
vidualmente ousaria, sem o impulso excepcional commu-
nicado pelas revoluções aos homens que as dirigem.
Na imprensa a decretação da cobrança em ouro des-
pertou applausos geraes entre as folhas mais abalizadas e
insuspeitas.
246 DIREITOS EM OURO
Eis, por exemplo, a linguagem da Étoile du Üud 1:
{Lê)
" O recente decreto, que eslatue a arrecadação dos direitos
de importação em ouro, captou, no Brasil, ao que parece, toila*
a* adhesôes, a julgar pelo silencio, que a este proposilo observara
os orgâos da opinião publica.
" JVern nm jornal, digno de tal nome, se levantou contra essa
medida. Poderia parecer mudez este silencio, se volvêssemos os
olhos cinco mezes atrás, quando o decreto de 10 de maio, que
prescrevia a cobrança de 20 fo em ouro sobre os mesmos direitos
de importação, provocou as reclamações, de que se fazia eco um dos
orgãos mais autorizados. 2
" Allegavam então que — "a medida não trazia vantagem á
situação financeira do paiz, e não fazia senão tornar mais precaria
a situação didicil e já embaraçosa do commercio de importação. "
" Que não se deveria esperar, portanto, após o decreto de 4 de
outubro, que augmenta na proporção de 80 % as " difticuldades" e
os "embaraços" da importação !...
" Entretanto, nem uma palavra, nem a menor queixa. Todos
parecem contentes; o Rio News mesmo, que usa o louvável costume
de exprimir até ao cabo o sen pensamento, chega a reconhecer que a
medida tem o seu lado bom.
" A imprensa nacional não deixou entrever nada em contra-
dicção a este asserto.
" Pelo que nos toca, a nossa opinião é que a medida é excéMente.
Si nos acoimarem de ousado, por nos exprimirmos assim, ao
menos teremos o merecimento de haver emitlido um juizo. 0 sr.
ministro da fazenda tem razão, quando, ao justificar o comple-
mento do decreto de 10 de maio, diz que este " peccava apenas
por timidez".
" Repetimos: o sr. Ruy Barbosa convenceu a ioda, a gente.
" Os direitos serão arrecadados no seu todo em ouro, d'aqui a
menos do um mez, e nenhuma voz se ergueu contra a medida."

1
2
18 de outubro de 1890.
Referia-se á Gazeta de Notó-ias.
DIREITOS EM OURO 247

A favor delia se manifestou positivamente o "orgão


autorizado", a que alludia a Eloile ãu Sud : mais de uma
vez a Gazeta de Noticia# rendeu a esse acto nosso a honra
dos seus louvores. E aliás esse periódico, bem se sabe,
foi um dos contradictores mais pugnazes, que encontrei no
ministério da fazenda, como tinha sido um dos adversários
mais formidáveis, que, em 1889, ao assumir ou a redacção
do Diário de Noticias, me receberam na imprensa.
Nenhuma adhesão, porém, podia ser mais signifi-
cativa que a do orgão dos interesses inglezes, o mais ouri-
çado e bravio dos inimigos, que me seguiram os passos,
sempre intensamente. O Rio News 0 dizia: {Lê)

" A cobrança dos direitos em ouro causará grande augmento


nos direitos de importação, quando calculados em numerário, a
taxa actual do cambio; mas á medida que o cambio subir, como i
natural que se dê, sob a influencia desta medida, e como certamente
subiria {but as tbe rate of exchange rises, as it s/utnld under this measure,
and as it certainly wou/d), si se limitassem as emissões, e o governo
fosse mais parco no gastar, o agio da moeda metallica reduzir-se-ha
constantemente, reduzindo-se assim o custo dos generos importados
{tbe currency rate will steadily diminish, and t/ms rcduce lhe. cosi oj
imported goods). Em conseqüência, é de esperar que se produza nova
complicação; pois, baixando o preço dos artigos de importação, dimi-
nuirá também a protecção, que por esta medida se liberaliza á
industria nacional, e teremos nova agitação, reclamando augmento
de tarifas.
"Não somos"", accrescentava elle, "não somos absolutamente con-
trários á arrecadação total dos direitos de entrada em ouro; essa
providencia é razoável e de perfeita equidade. ( We are not at ali
opposedto the colleclion of ali import duties in gold, for itis a reaso-
nable and perfectly equitable requirement.)"

4
Outubro de 1890.
248 DIREITOS EM OI RO
E, lembrando apenas a conveniência de moderar os
tributos aduaneiros quanto a certos objectos dc primeira
necessidade, os prodnctos aliraentioios, o papel, o keromie
cone] n ia : (/>)

" Estamos mais que satisfeitos por ver desapparecerem os mai-


logrados 20 fc em ouro sobre os direitos ; medida complicada, one-
rosa, irracional e extremamente irritante. Agora, si o governo
melhorar a tarifa, arbitrando os direitos sobre bases mais justas o
equitativas, estamos dispostos a louvar o novo regimen a todos os
respeitos (We xlmll be dUposed to commend the new regrdatiou ctt
every respeet.)"

Por sua parte, o Jornal do Oommercio, tão allieio a


sympathias para com a minha administração, não foi
parco na approvação dessa medida. Estava ella já em
plena execução, quando o grande orgâo se dignou de olise-
quial-a, com esta breve, mas completa apologia : ( Ia1)
" Em 13 de outubro o ministro da fazenda decretou que todos
os direitos de consumo seriam cobrados em ouro. Contra r»te de-
creto não houve queixa». Com efleito, não *e pôde negar que esta me-
dida era por extremo jvdificada. O Brasil tem compromissos impor-
tantes, (pie não podem ser satisfeitos senão em ouro. Aonde ir
buscar esse ouro ? Claramente nas alfandegas, de onde sáe tão
grande proporção da renda publica. Não havia neto do xr. ministro
da fazenda melhor fundado que a cobrança, do» direito» de con»v-
7no em ouro. " 1

Isso escrevia o Jornal em janeiro de 1891. Até então


o accôrdo continuava a ser unanime nas sympathias por
essa reforma, que depois se havia de tornar moda adul-
terar, e conspurcar, recommendando-a á aversão geral em

1
Retrospecto Oornmercial de 1890, pag. C.
DIREITOS EM OURO 249

todos os tons da gamnia declamatória. Principiou essa


balda a grassar, quando se entraram a experimentar as por-
tnrhaçrtes econômicas, de «pie busquei esorutaras causas no
meu discurso de, 3 de novembro. Era preciso filar um res-
ponsável pelos padecimentos, de que começávamos a sentir
a primeira invasão. Esse responsável estava assentado que
' devia achar-se entre as iunovações do Governo Provisório.
E o Governo Provisório não creara nada mais capaz, do que
a cobrança em ouro, de contrariar interesses particulares,
vícios de especulação inveterados. Todos elles, pois, vol-
taram o indice accusador contra a instituição importuna,
cujo apedrejamento entrou francamente em ordem do
dia.
Mas ainda então o conselho de banqueiros, eleito
dentre os principaes estabelecimentos desta praça, afim de
estudar as origens da crise incipiente, e formular-lhe os
remédios,recommendava energicamente, no parecer de 14 de
abril, a manutenção dessa medida. Eis a sua opinião: (Zf)
" Quanto á cobrança em ouro. pensa a commissão que, não
sendo conveniente, nas circumstancias actuaes do paiz, cogitar da
hypothese de contrahir empréstimos externos, para attender as des-
pezas, mesmo reprodnclivas, c nmito menos para occorrer ás exi-
gências de nosso credito no exterior, forçoso é que tiremos dos
nossos proprios recursos os meios necessários para o inadiável ser-
viço da divida externa.
" Para occorrer a taes despezas no exterior, dois processos se
nlTereriam : on a cobrança dos impostos em ouro. de modo a ficar o
governo habilitado com a reserva metallica necessária para aquelle
fim. on a troca de cnmhiaes, na praça, por moeda corrente. Em qual-
quer «testas hypolheses, ou a concurrencia do Thesouro no mer-
cado das cambiaes, on a dos particulares na procura do ouro para o
pagamento de impostos, produziria o mesmo resultado, isto é, a
baixa do cambio, com a diflerença, porám, He que este inconveniente,
32
250 DIREITOS EM OfRO
em relação á primeira hypothese (cobrança dos impostos em ouro),
pôde ler o correetivo, que abaixo indicamos.
" Com efTeito, si o governo, cobrando os impostos aduaneiros
em moeda metallica, commcltesse o erro de eulhesourar nas arcas
doerario publico todo o ouro arrecadado e o de enviar em espocie
parle deite, para fazer face aos nossos compromissos na Europu,
isto determinaria incontestavelmeiUe maior bairn do cíimlno. do <|iic si
ellc tomasse cambiaes na praça para aquelle serviço; porque o onro
remeltido, addicinnado ao encarcerado no Thesouro, excederia de
muito ao valor das cambiaes necessárias.
" Em hoa hora, porém, o governo começa n dispór das sobras, r cer-
tamente se servirá da outra parte para compra de cambiaes; o quo
fará que todo o ouro, arrecadado pelo erario, em curto lapso de leinpo
volte de novo á circulação : e, como por este syslema uma certa
massa de moeda metallica é forçada a não emigrar do paiz. deverá
elle concorrer andes para a elevação do cambio do 'pie para a suti
baixa.
"Assim é que o pagamento dos impostos de importação em
moeda metallica, nas condições especificadas, em vez de determinar
a baixa do cambio, deve contribuir para n tua elevação, e traduz-sc
apenas em uma aggravação transitória dos impostos aduaneiros,
sobejamente justificada pelo actual estado financeiro do paize pela
sua situação em face dos mercados monetários estrangeiros. "
Não lia discrepância entre essa maneira de considerar
oassumpto e a por que eu me expressara, ao promulgara
reforma. E o Jornal do Cpmmercio, ainda a osso tempo,
não variava de juizo; pois, no dia inunediato, apreciando
o parecer dos directores de banco», rematava por esta
fôrma: 1
" A parte do parecer relativa aos impostos em ouro ê, a notto
ver, a melhor exposição, que temos visto do assamjdo.
" Estamos de completo arcôrdo."
1
Jornal do Commerciu, abril, 15, 1891. üazetilha, sob a
epigraphe: "0 estado actual da praça."
DIREITOS EM OURO 251

Força é, pois, confessar, senhores, <jue, si eu tivesse


eri
'a(lo, no mesmo erro teria cabido commigo o paiz todo ;
lH,rqiR' a imprensa inteira adheriu a essa medida, e todas
as
' classes, mais 011 menos interessadas, a aceeitaram. Ora, de
'"'lis não precisa o legislador, parajustifiejiçâo absoluta das
rt>
h)rmas que dei-reta. {Apokulox.) Si ellas calaram nni-
v
"rsalmente na opinião, ao ponto de não suscitar reelama-
Çfies, ainda entre os a quem a matéria toca mais de ])orto,
a
ratificação geral do paiz ao acto do governo substitue a
rt
'sponsal)ilidade deste pela da nação, arbitra suprema dos
«"is próprios interesses.

Que eimmistaneias, porém, operaram a rajada evo-


bição de idéias, que a esse resjieito oecorren? Poucas lições
se poderão ofíerecer mais notáveis da facilidade, com que
se produzem e invertem os impulsos da maioria, nos go-
vernos de ojunião ; poucos exemjdos mais edificantes acerca
da necessidade de moderar esses impulsos, e resistir-lhes,
para servir melhor ao jiaiz.

O governo passado voltou á razão neste assumjrto.


F' um rasgo de l>oa fé, jm-Io qual mereceria louvores. E não
quero ragatear-lh'os. Mais uma questão, em que a prova
dos faetos o obrigou a se desdizer cm relação ãs medidas
financeiras do Governo Provisorio, que o meu suecessor
tão levianamente saerifieára. Não obstante, porém, a repa-
ração, que deste modo nos deu, tardia, eomquanto conclu-
dente, não posso, na interpretação das causas, que abalaram
e malquistaram o regimen do imposto em ouro, gerando, a
esse resjH-ito, uma opinião estonteada, não posso, na inter-
pretação dessas causas, deixar de assignalar, acima de
todas, a responsabilidade do pro]»rio governo, na pessoa do
252 DIREITOS EM OURO

secretario de Estado que cm seguida a mim exerceu a pasta


da fazenda. (Apoiados.)
Si o ministério não fraqueasse á pressão das primeiras
exigências oppostaspela rebeldia desinteresses particulares
ã execução desta medida; si pelas suas concessões immediatas
ã agitação, rumorosamente levantada, mui de industria,
para lhe levar ao espirito a desconfiança e o receio, não
procedesse com a condescendência dos fracos e a malleabi-
lidade dos inconscientes ; si, com a temeridade dos espavo-
ridos, não se aventurasse a suspender a execução do decreto
de 6 de outubro, reempolgando assim poderes da dictadura
extineta, e offerecendo aos refractarios a prelibação do
triumpho completo,— as reluetancias dos interessados não
assumiriam proporções de vaga imperiosa, não passariam
da reclamação á ameaça. (Apoiados.)
O Governo Provisorio teve mais de uma occasiào de
ver tempestearem velleidades semelhantes, e resistir-lhes
victoriosa mente. E' o que me succedeu com a cobrança dos
20 0/0 em ouro. As primeiras resistências, os balões de
ensaio exploraram activamente o terreno, procurando con-
gregar e organizar forças. Gs telegramraas, que constituem
hoje o instrumento usual e barato da impostura amplifi-
cada, cruzaram-se, fuzilando, de praça a praça. Mas, para
desacoroçoar os guerrilheiros, e desarraal-os, bastou sentir-se
que o governo não recuaria da deliberação adoptada ; c a
cobrança parcial era ouro não cessou, senão para ceder a
vez á cobrança total.
Quando esses movimentos egoisticos de classes, de
grupos, de conluios encontram a autoridade titubeante e in-
clinada á rendição, as suas pretenções não conhecem limites,
as suas victorias medem-se pelo seu arrojo. (Apoiados.)
DIREITOS EM OURO 253

Infrlizmente as democracias rara vez sabem resistir ao


ardor civium prava juhentíum. Infelizmente, para pôr
Jieito a essas correntes perigosas, os corpos collectivos são
ordinariamente menos viris do (pie a consciência das res-
ponsabilidades individuaes, quando esta se eneonraça
numa convicção e num caracter, contra as tentações da
popularidade, que, em certos casos, não é senão o reverso
do patriotismo.
Alheio n esse gênero de estudos e dominado pela am-
bição de converter em sympatinas a seu favor os resenti-
mentos, que o Governo Provisorio suscitara contra si pela
energia do certos actos, pelo caracter radical de certas
medidas, o meu snccessor era incapaz de fazer justiça á
importância da cobrança em ouro, ao alcance financeiro, ás
utilidades econômicas desse regimen, e mais incapaz ainda
ora de affrontar os estorvilhos, as malquerenças inevitáveis
na execução vigorosa dessa reforma.
Longe de fortaleoel-a, pois, como cumpria, s. ex.
começou compromcttendo-a com o expediente mais apro-
priado para desvirtual-a, qual o de fechar hermética meu te
to Thesouro as ospeeies, que jK)r via das alfândegas
accumulava. (Apoiado*.) L, antenas começaram a avultar
os resultados naturaes desse erro pela rareação immediata
do ouro no mercado, com indesculpável açodamento au-
nullou o decreto de tí de outubro, mandando receber em
pujiel os direitos, que esse decreto obrigava ao pagamento
em metal. Era um rasgo dietatoriu, a que s. ex. não tinha
direito: a revogação de uma medida legislativa por sim-
ples aeto de administração.
ü imposto em ouro foi coudemuado assim pelo mesmo
governo, que mais tarde teria de vir pugnar, arrependido,
254 DIREITOS EM OURO

jtola sna coiistTvação, contlcmiiado antes ijiic o critério de


uma experimcntayão regular lhe pudesse j)ôr a descoberto
a influencia real sobre a vida econômica do pai/,. {Apoiado*).
íí, o (|ue é mais singular, não vigorando ha seis ou nele
mezes, o decreto de 6 de outubro contiuúa a carregar
com as culpas de phcnomenos verificados sob um rcgimcn
opjwsto ao seu. [Apoiados.)
Nunca me passou pela mente que o pagamento dos
direitos de importação em ouro pudesse lançar rai/.es, e
obter a aequiesoeneia definitiva dos hábitos commereiues,
senão após um período de attritos e queixas, que só a acção
do tempo conseguiria reduzir pouco c pouco. Na primeira
phase dessa reforma a obtenção de recursos metallieos
havia de encontrar empeços, que o governo devia auxiliar
o contribuinte a vencer, promovendo a circulação do ouro
arrecadado, em vez de cnthesoural-o mesquinhamente.
(Apoiadoa.) Depois, essa reforma se destinava precisamente
a acabar com a mais perigosa e a mais poderosa classe de
especulação: a que se exerce no commereio importador,
provocada, fomentada, autorizada pela arrecadação dos
impostos de consumo em papel. E era de esperar (pie os
interesses associados a esse vicio se conspirassem energi-
camente contra a victoria do rcgimcn, que devia proscre-
vel-os. {Apoiados.)
A influencia do imposto em ouro como moderador
da importação é, com cffeito, a primeira, talvez, das suas
funeções e o mais insigne dos seus benefícios. No balanço
do commereio entre o paiz e o exterior ha deJicUe naturaes,
resultantes do movimento espontâneo das transaeções, da in-
ferioridade dos valores nacionaes consumidos nos mercados
estrangeiros em relação aos valores estrangeiros absorvidos
DIREITOS EM OFRO

pelo nuTCiulo nacional. Mas a esses accrescem os dcjlcits


voluntários, os ifefifits de ocrimão, (juc a especulação
conimercial produz, e tem o maior interesse cm produzir,
desde (pie os direitos de entrada se pairam em papel depre-
eiavel, e oeavillador mereantil lucra, poralii, as ditleren-
ças na o sei Ilação do cambio entre a época, em que embolsa
no paiz o valor das mercadorias importadas, e aquella em
que as paga no interior.
O processo da producção artificial desses dcjirH* é
simples. Hasta que o especulador compre, nos mercados
produetores, a longo prazo, elevando a importância das
suas encommendas além das exigências do consumo na
(pmdra da operação. Dessas exaggeraçõcs na importação
resulta inevitavelmente a baixa do cambio, proporcional
ao excesso dellas. E, como o valor desses supprimentos,
no paiz que os tem de absorver, ha de ser fixado segundo
o cambio, (pie a operação determinou, isto é, sob a in-
fluencia da depreciação gerada ])or ella, a conseqüência é
realizar o explorador as suas vendas, em moeda-papel, a
elevados preços. Mas esses déficit* intcrnacionaes são, de
-tia natureza, transitórios. O equilíbrio commercial tende,
pois, a se restabelecer, ou, pelo menos, tende a minorar o
desequilíbrio no excesso correspondente aos manejos da
especulação. O cambio, em conseqüência, melhora. E o
especulador, tão interessado agora na alta, quanto o era
na baixa durante a primeira phasedo sen negocio, paga,
no mercado estrangeiro, mediante cambiaes adquiridas
aqui a cambio alto, isto é, a modico preço, os artigos que
vendeu ao consumidor brasileiro a cambio baixo, isto 6,
a preços avnltados. As alternativas de alta c baixa
no cambio constituem, assim, copiosa fonte de renda
niRRlTOS EM OURO
para o eppwulador, quo compra tanto mais barato, c
rende fanfo mal» coro, r/nonfn maior é o variação do
comhin, no período em ijlte w d redobra a enn operação dr
compra e renda, ("om essas variações, poi«, naa quacs o
consumidor perde sempre, ganha as mais das ve/es o
especulador.
Evidentemente, esta situação é uma anomalia into-
lerável, a que urge pôr freio permanente e eflieaz. Ora.
o freio desejado está no pagamento em ouro dos direitos de
importação ; porque esse encargo, interessando constante-
mente o importador na alta do cambio, obriga-o a li-
mitar as suas cncommendas conforme as necessidades do
consumo. E' o que basta um dedo de senso cominum, para
comprei tender. [A poiadoe.)
O sr. Lerov Hcanlieti, autoridiide tantas vezes invo-
cada contra as finanças da Republica, e que, portanto, não
sahimos dos limites do nosso direito, invocando uma vez a
favor dellas, não aconselha outro correctivo em casos como
este. E' a receita porclle indicada á Republica Argentina,
qnc commetteu o erro de não abraçal-a em tempo: ( U)

"Creio indispensável tornar n* dirdtus dr nl/atulega par/nni*


lotai 011 parcialmente n» ouro. Certamente recebe a merca-
doria, isloé, a Republica Argentina, é quem tem de pagar as di spe-
zas da etdrega ; mas não ha nutro remedio. 86 nesim haverá dinhrir»
meiallico, ijue tanto lhe falta, r sc limitarão ae importar õee, nhlemlo-ne
ileefarle o etpiilibrio do cambio internacional."

Attribuir, ]>ois, a essa medida infiuencia depressiva


na estala do cambio, 6 commetter a mais elamorosa
interversão da realidade. Nos desregramentos da imjxtr-
taçâo, ampliada além do valor das exportações, jaz, sim, a
DIREITOS EM OURO 2.'"
«
rnai.« energica dentro todas as causas na prodnoção desses
desordens. (Apoiaflnx.)
E esta verdade impõe-se ainda cora mais força
aos que descobrem na exuberância do papcl-moeda o
principal faetor dos nossos transtornos financeiros ; porqi e
o papel superabundente anima naturalmente as temeridades
na importação, que o pagamento dos direitos de fronteira
em espeeies metallieas tende forçosamente acohibir.
Na cobrança dos impostos de alfandega em ouro
reside, pois, o contrapeso especifico aos inconvenientes do
papel ineonversivel. E' o que não escapou ao tino finan-
ceiro dos americanos, cujo exemplo seria crime despre-
zarmos. (Lf)
" Nós estabelecemos os juros da divida publica em ouro",
dizia, lia vinte amios. no senado americano, um dos seus mais
celebres financeiros, " e a cobrança da renda em ouro, para evitar
os extremos excessos do papcl-moeda ineonversivel. Desejávamos
assentar o edificio inteiro das nossas finanças no alicerce da
moeda metalliea, e ler continuamente em mira, como ultimo termo
da nossa política, a volta aos pagamentos em especie. Estou certo
de que, si não tosse essa disposição no acto legislativo de 25 de
fevereiro de l.%2, lodo o nosso systema financeiro teria naufragado
em 18(i4. Não havia outra cousa, para o ancorar á terra, a nâo
ser a arrecadação doe direito» em ouro, e o pagamento dos juros das
nossas apólices em ouro.
" Si os juros das nossas apólices nâo se satisfizessem em ouro
durante a guerra, de crer é que, na terrível depreciação de 1854, o
nosso papcl-moeda fosse varrido, e o povo repudiasse o meio cir-
culanlc legal. Eoi tal a depreciação, que eram necessários $286 do
nosso papel-moeda. para comprar $100 cm ouro. A simples
cobrança dos direitos de importação em ouro e o pagamento dos
juros da divida federal na mesma especie bastaram, pois, para
preservar dc mina a nossa circulação fiduciaria. Não fôraisso, eo
balão do papel-moeda teria arrebentado, como rebentou sob
83
DIREITOS EM OURO
nossos antepassados, na guerra da independência, como rebentou
na revolução francesa, como rebentou na Confederação do Sul,
onde veio a acabar pela completa destruição do credito publico,
ipie aliás cbegára a sobrepujar o nosso no mercado brilannico." 1

lím um pai/ do institniçõos políticas ossoncialmente


oppostas, a Rússia, a mesma idóa se nacionalizou com
analogos resultados. Instituido alli especialmente sob o
proposito de animar a industria nacional, e facilitar re-
cursos ao Thesouro, o pagamento metallico dos tributos de
Importação veiu a sobresahir pela sua effieaeia como pre-
ventivo contra a depreciação do pa])el nacional.
Tenho em mãos o mais recente dos livros publicados
acerca das finanças russas 2, o nellc encontro assignalada a
proemincncia desse merecimento, que o impressionismo dos
directores da opinião cm matérias financeiras entre nós não
sabe reconhecer-lhe.
Reproduzo as palavras do publicista russo, membro
da commissão scientifica do ministério da fazenda em sen
paiz, onde a sua reputação 6 uma das mais eminentes nestes
assumptos, e onde a sna obra produziu grande impressão
nos competentes. {Lê)

" Em vez de crear novos impostos, Reutern leve a feliz idéa de


prescrever o pagamento dos direitos de alfandega em ouro ; o que,
á taxa daoccasião, eqüivalia ao augmento de 31 % nesses direitos.
Desde a guerra du Griméa, isto é, desde o momento em que o curso

' Shekmax : Selected speeche* ov Kmnncr and Tnxatioii. (N. York.


1879.) Pags. 241 -42.
3
C. Skalkovskv : Lr» ministres de* Jinanees de ta Itussie.
1802-1890. Tradnit du russe par P. de Xewski. (Paris. 1891.)
Pags. 180 e 211.
DIREITOS EM OURO 259

do nosso rublo papel começou a baixar, os nossos fabricantes entra-


ram a solicitara transposição da unidade, quanto aos direitos adua-
neiros. ao valor metalIico; porque essa medida, uma ver. adoptada,
além de sustentar a taxa legal, em que eram tributadas as merca-
dorias estrangeiras, crearia, na eventualidade da baixa da cotação
do rublo papel, uma especie de prêmio supplementar aos productos
indigenas.
■■ Logo que se satisfez a solicitação dos nossos fabricantes, essa
providencia animou de modo notável toda a produeção das fabricas
e usinas: e, naturalmente encantados dessa medida, não recla-
maram. d ahi em deanle, senão modiQeações parciaes a certos pifra-
graphos da tarifa ordinária...
•' A arrecadação dos direitos de alfandega em ouroé a medida
que mais contribuiu, para impedir que o nosso rublo descesse a
50 kopeks. laxa de que eslava ameaçado."

() exemplo do império moskovita poderá não despertar


éeo sympathieo entre nós, bem que nenhum valor devam
ter prevenções políticas, em matéria de ordem puramente
financeira. (Apoiados.) Mas o dos Estados-Unidos? Essa
medida, que a eamara dos deputados repudiou, ó um con-
selho dos Estados-Uuidos. E' uma das maiores lições da
sua historia financeira. Na opinião do estadistas americanos,
a grande republica se salvou da banca-rota no papel-
moeda, graças á cobrança dos direitos de impo 'tação em
ouro. Para um paiz, onde o mal se diz o mesmo, a analogia
indicava a mesma medicina. Ella abi estava, graças á di-
ctadura de lõ de novembro; porque difiicilmonte uma
assombléa brasileira, com as nossas fraquezas babituaes,
sc animaria a promulgar esse regimen, e ainda mais difii-
eilmente se cncontrará dc futuro um parlamento nosso, com
a harmonia de vistas e a energia de acção precisas, para o
reerguer, si agora o abolirem. (Apoiados.) Mas, antes que
260 DIREITOS EM OURO
se ensaie sequer, antes que se estude em condições de
duração e aualyse sufficicntes para autorizar uma indueção
razoável, já a responsabilizam, já a enxovalham, já a con-
demnam :e, em obediência a theorias de aprioristas, a voei-
ferações de interessados, a suggestões de suspeitos, querem
proserevel-a definitivamente ! {Muito bem.)
Qual a experiência, em que se estribam, para
fulminar esta sentença? Si a providencia, de que se
trata, fosse ereação original da cabeça de um ministro,
poderiam contrapor á excentricidade dessa cabeça a com-
petência de outras, em maior numero, ou de maior
peso. Mas essa instituição tem após si, noutros paizes,
a prova experimental da sua utilidade. Foi apoiado
nessa autoridade, sobre todas valiosa, de uma indueção bom
sustentada, que o Governo Provisorio se abalançou a natu-
ralizar a idéa, legitimada pelos faetos. Mas apenas essa
idéa entra em principio de execução, para logo se amotinam
contra ella prevenções intolerantes ; um administrador in-
competente e irreflectido estimula a indisciplina dos ânimos,
apressando-se em suspender a lei ; o ensaio encetado cessa
durante longos mezes, emquanto nesse Ínterim a medida,
que não se executa, continua a ser stygmatizada como cau-
sadora de males coincidentes com a interrupção do seu uso ;
e, ao cabo, o expediente preconizado por todos os paizes, que
o experimentaram perseverantemente, cae repudiado pelo
único que não teve a perseverança de utilizal-o. Isso em
nome de que? Do cambio, que baixa, e dos preços, que
sobem. Desfarte o mesmo anatbema legislativo irmana,
como explicação simultânea das nossas desgraças finan-
(eiras, o papel-moeda, que ó o " veneno ", e a cobrança em
ouro, queéo "antídoto", a circulação inconversivel, que é a
DIREITOS EM OURO 261

" pestp e os direitos em metal, que são o "preservativo".


I tuas causas, de effeitos oppostos, amalgamadas como origem
conirauni do mesmo resultado! {Muito hniii)
A' população, irritada ou queixosa pela carestia dos
gêneros de primeira necessidade, indigitam o imposto em
ouro como origem da aggravação geral dos preços. E a
multidão, que não aprofunda questões desta delicadeza,
que commummente não se orienta ncllas senão pela toadi-
1 ha dos paradoxos mais sonoros, fez desta reforma o cão'
malhadiço, cm cujo dorso os necessitados, os descontentes,
os famintos cevam íi farta os aggravos da algibeira mal
nutrida. Nessas recri mi nações se tem descido até á puerili-
dade, até ao ridículo, até íi demência ; não havendo estrei-
teza, privação, ou agonia, que o rumor dos opprimidos
pela penúria não attríbua hoje aos malefícios do imposto
em ouro. Causa dó o estado mental, a que a ignorância
e o habito de receber a opinião feita pelos outros reduziram,
entre nós, a generalidade do povo.
O imposto em ouro não grava necessariamente a sub-
sistência das classes pobres; porque estas só em quantidade
relativamente diminuta consomem os artigos de producção
estrangeira.
A sua tendência 6, }>elo contrario, de protecção ás
classes laboriosas, cujos interesses anima, favorecendo o
desenvolvimento nacional do trabalho, e sobre as quaes
pesa infinitamente menos do que as tarifas dos nossos cami-
nhos de ferro. {Apoiados). A carestia monstruosa dos trans-
portes no interior e a morosidade intolerável delles, essas as
verdadeiras causas, as causas predominantes da exaggeração
dos preços no mercado dos produetos absorvidos pelas ca-
madas menos altas da população. {Apoiados.) As plantações
262 DIRETTOS EM OURO

<1ü interior deixam de enviar-nos sua? colheitas, de


distribuil-as ató á peripheria do paiz, porque a nossa
viayôo-ferrea, nas suas principaes artérias, soffre de mim
obstrucyão chroniea, reerndcscente, deseaj>oradora. O centro
não nos expede os mantimentos, que produz, nem produz
os (pie poderia produzir {apoiados) ; porque as nossas es-
tradas, ou pela insnffieieneia do seu material, ou |K'la
inconqtetcneia dc sua direcyão, já não transportam regular-
mente nem o café. {Apoiados. Mudo bem.)
Conheço o caso de um jiequeno locomovei de seis ea-
vallos, que gastou dois mezes para ir da Gambôa a Tau-
haté. Sei de um arado, que levou mais de quarenta dias
em transpor a distancia d'aqui a Pindamonhagaba. Mos-
traram-me, em novembro, o conhecimento de uma carga
de toucinho, remettida para aqui de Porto Novo do Cunha,
era meiados de agosto, sem que o seu consignatario, até
então, lhe pudesse pôr os olhos. São, hoje, factos triviaes.
Tornou-se mais difficil, mais demorado trazer o feijão, ou o
milho, dos nossos sertões á capital, do que conduzil-o desta
para a Austrália, ou receber da Austrália os produetos,
que ella exporta. (Apoiado*. Muito bem.)
O sit. La per ; — Do interior do Rio de Janeiro de-
moram-se dois e tres mezes.
O sr. Ri y Barbosa :—D'ahi, considerável diminui-
ção no abastecimento do mercado dos viveres produzidos
no paiz : o arroz, o toucinho, o assacar, o feijão, o café, o
sal.
E, todavia, o problema da administração e tarificaçào
das nossas vias férreas dorme o somno da rotina ; porque
é menos fácil estudal-o do que revossar despropósitos
contra o imposto em ouro. (Apoiados.)
DIREITOS KM DÜRO '2().{

As baixas <lo cambio, com as conseqüências qnc lhe


sTio inherentes, anfrmento no peso (Ias taxas de importarão,
ou no custo das mercadorias estrangeiras, avaliadas em
papel moeda nacional, só em ligeira escala podem interessar
a subsistência das classes mais desfavorecidas. Quereis tim
exemplo? Sempre mais ou menos contrario, na Rússia-, o
cambio, por effeito da emanciparão dos servos, em 18(11,
c da má safra, em 18(iít, sujeitou o valor do rnblo a uma
depreciação de 50 %. Quacs foram as consetpiencias dessa
desvalorização do papel fiduciario no tocante á producção
russa e á situação das classes laboriosas?
(laçamos um testemunho recente : (/J)
" Prefemli se que a baixa do rublo devia produzir, uu interior
da Rússia, uma alta sobre os produetos russos...
" Mas os produetos russos não augmontarani na proporção do
prêmio do eainbio. Si a vida de luxo eusla caro naquelle paiz, iL
que quasi tudo, que ella consome, lhe vai do exterior. Quanto á
vida ordinária, porem, ent/i notoriamente verificado que ella sae
menos caro na Rússia do que alhures, que alli se obtém a preço
muito baixo a mão de obra, a roupa, os viveres. as bebidas e a vi-
venda," 1
() sr. [Link]' Martins.—O contra riu do que se dá
no Brasil.
<) sr. Rity Barbosa :—\a Italia, depois de 1865, o
prêmio do cambio subiu a 25 'fi em prejuizo da moeda na-
cional. K qual, sobre os preços eommereiaes, a influencia
dessa depreciação do papel ? ( U)
"O cambio sobre o estrangeiro actuava. na Italia, com uma
força, que se elevou a 2õ porcento de todos os valores exportáveis.

1
Alpii. .[Link] : Le chaiuje/otsoyeur du libre te/mnye. C. IV,
| 1, pag. 29.
1)1 H RITOS K.M OfllO
«, todavia, o curto da rida italiana estava hngr ir ter nnffrido o
tn.rítrna alta ; de tnl modn íjup, alli tainbfm, tal qual na Rússia, o
cambio se constituirá o propulsor, o prolector da industria italiana,
em detrimento da actividade estrangeira.'' 1

Xo ' hile, era conseqüência da guerra [Link] e sen-


effeitos sobre a circulação monetária do paiz, n onrn r o
rtimhio estrangeiro snhlram 100 , descendo, era annos
posteriores, a RO c 8õ. Pois bem : (U)

" Ou preço», no Interior do Chile, não subiram... De cada vez que
no interior se manifestava tendência para a alta, logo a coutrafaalan-
çavam a cultura de novas terras, a abertura de. novas fabricas, a ex-
ploração de novas minas, novo impulso dado á producção. novas
forças utilizadas, a multiplicação de novas permutas, susleutalido o
valor do papel-moeda cm circulação." *

Si, pois, o custo geral da vida augnientou aqui ulli-


mamente, ainda para as classes «pie menos consomem da
producção estrangeira, as cansas reaes hão de ser outras,
(pie não a inflneneia da baixa cambial. [A/toiailos.) Mas,
si o faetor decisivo para essa exaggeração universal dos
preços está na depressão do cambio, e ai, como pretendem, a
repercussão desta vai aetnar mesmo sobre os produetos de
proveniencia brasileira, nesse caso a abolição da cobrança
dos direitos de entrada em espécies, removendo essa força
sobre todas restrietiva contra os abusos do eomniereio im-
portador, uggravarã o desequilíbrio do balanço commereial,
tornando cada vez mais desfavorável o cambio, e, conse-
quentemente, o custo da subsistência cada vez mais penoso.

1
Jb. I 2, p. 31.
' 1b. ^ 6, pags. 34—35,
DIREITOS EM OURO 265
r
Será, pois, uma providencia contraproducente. Peiorará
cruelmente as circumstancias, era vez de melhoral-as.
(Apoiado*.)
A exagfíeracâo actiiiil dos preços explica-se, ora boa
parte, por uma causa, que nenhuma providencia financeira
poderia evitar, ou modificar : o enorme accrescentamento
da população e, na mesma população, o enorme augmento
de consumo. (Apoiado*.)
Esse fãcto, que se fez sentir geralmente nas regiões mais
habitadas do paiz, em conseqüência já da immigração, jáda
transformação nas condições de vida, transformação inhe-
rente á passagem do captiveiro para a liberdade, nessa parte
considerável da população preexistente, que a lei de 13 de
maio emancipara, — esse facto revestiu, especialmente no
Rio de Janeiro, proporções desmedidas. A immigração de
procedência estrangeira, que de uma média de 42.000
almas nos dez annos anteriores a esse elevou-se a muito
mais de 200.000 era 1891,a immigração dos distrietos ruraes
para os núcleos urbanos, a immigração de todos os pontos
do paiz para a sua cidade central, convergiram simultanea-
mente, operando aqui uma verdadeira enchente humana.
(Apoiados.) Os nossos trabalhos estatisticos, a que ultima-
mente se procedeu, imperfeitissimos trabalhos, não nos
deixam ver, talvez, em mais de metade da sua extensão real
a immensidade desse facto. Cerca de três mil prédios, que,
ha pouco mais de um anuo, se achavam desoeeupados,
segundo os registros da Recebedoria, têm hoje moradores,
e são renhidamente disputados. (Apoiados.) As companhias
de transportes urbanos careceriam duplicar os vehieulos e
as linhas, para satisfazer ás necessidades da população.
Os hotéis, as pensões multiplicam-se, e desbordam. Apenas
34
DIREITOS EM OURO

começadas a levantar, ainda em alicerces, as casas em con-


strucção encontram in-continenti locatários, ou já estão
empenhadas a futuros inquilinos. Entretanto, segundo uma
declaração feita, na camara dos deputados, por um dos seus
membros mais eminentes, sobe a não menos dc 10.000 o
numero de prédios em edificação, presentemente, no
Rio de Janiero.
D'ahi, urna extraordinária procura de habitações, que
escasseiam, encarecendo o aluguel das casas (apoiado*),—
uma enorme procura de braços, com cuja raridade se luta
em todo o gênero de industrias, elevando os salários em
toda a cspecie dc serviços (apoiados), — uma incalculável
procura de artigos de consumo, que minguam, tornando
nimiamente dispendiosa a subsistência a todas as classes.
(Apoiados.)
A alta geral dos preços é, portanto, na sua maior parte,
resultado inevitável de uma dilatação immensa na procura,
sem alteração apreciável nas condições da offerta (numero-
sos apoiados) ... ao menos quanto aos objectos de primeira
necessidade, cujo fornecimento não podemos esperar do
estrangeiro; dando-se, até, a respeito do muitos d'ellcs, como
o feijão, o milho, a manteiga, a banha americana, o sal, a
carne sccca, reducção sensível no provimento do mercado.
A carne encarece por effcito necessário da sua rareza, com-
parada ao seu consumo, seja qual for a origem, aecidental,
ou maligna, de (pie essa rareza provenha. (Apoiados.) En-
carecem os viveres ; porque a pequena lavoura, a cultura
parcellar não se desenvolve, c porque os nossos caminhos
de ferro, já pela usura das suas tarifas, já pelas insuffi-
ciencias da sua extensão, já pelos defeitos do seu serviço,
não nos permittem irmo-nos sortir largamente nos vastos
DIREITOS EM OURO 267

abastccwlouros, que o interior do paiz nos depararia, si nm


amplo systema do viação, promptae barata no seu trafego,
animasse a agricultura na opulenta immensidade dos nossos
sertões. {Muito bem.)
Mas, a par das cansas legitimas, irresistiveis, contra
as qnacs seria demência revoltarmo-nos, a recrudesocncia
da careza alimenta-se também de aberrações immoraes,
infelizmente, na sua generalidade, superiores ao alcance de
medidas legislativas.
A especulação entrou cynicamente neste campo, e
apropriou-o ás suas sinistras manobras. Nos grandes sup-
pridores do consumo, (pie, por conluios denunciados até no
Diário Official, fecham os seus reservatórios abarrotados,
para impor depois aos consumidores taxas desusadas e
injustificáveis; nos monopolios de facto, explorados por
associações anonymas, que dominam, mais ou menos sobe-
ranamente, o mercado ; na ganancia do egoísmo mercantil,
que, á sombra do cambio e sob o pretexto do imposto em
ouro, imbutido á paciência indefesa dos clientes, não co-
nhece limites á cobiça,—temos em plena aetividade a hy-
perbole da especulação. {Apoiados.)
Eu nunca me proporia a elimina-la pelos correcti-
vos, mais ou menos maléficos, ou parvos, de um socia-
lismo impotente e risível, que tão levianamente se acon-
selha, por abi, como reacçâo contra esses males. Dissolver
companhias particulares, implantar na população hábi-
tos de mendicidade, systematizando a esmola, agigantada
nas proporções e solemne no apparato, promulgar leis
annonarias, reduzir artificialmente os preços, á custa de
sacrifícios do Thesouro, ou dos cofres municipaes, são
recursos perniciosos, insensatos, indefensáveis á luz da
268 DIREITOS EM OURO

áciencia, da justiça, da própria caridade. {Apoiados. Muito


bem.) Nada mais contrario a esta do que despertar na alma
dos fracos esperanças mentirosas. Mas qne a especulação
nos preços existe, abusa, tripudia ã nossa custa, em um
grão de avidez singular, inaudito, incoinmcnsura vcl,negal-o
seria negar a luz que nos alumia. Alguém houve já, que,
em repente de máo humor, qualificou o commercio como a
" arte de abusar da necessidade, ou do desejo, que o nosso
proximo tem de alguma cousa." Sem subscrever a defi-
nição, que me parece peccar por nimiamente absoluta,
ousarei dizer que nunca cila esteve porventura monos
distante da verdade. {Apoiados.)
O remedio a taes desvios, porém, não está nem no
empirismo socialista, com) que se vai saturando a opinião,
entre nós, de erros, cuja prolificação nos pôde ser desas-
trosa, nem na extincção do imposto em ouro, instituição
preservadora contra as demasias da importação, que nesta
hypercrise dos preços 6 o factor predominante. Ha de
estar, sim, na intelligencia dos consumidores e na aeção
reparadora da concurrcneia, onde os conchavos, formaes,
ou tácitos, da especulação, terão, mais cedo ou mais tarde,
que naufragar. 1
Mas, para evidenciar por um modo irreplicavel a
indispensibilidade do imposto em ouro, para evidenciar,
1
Um exemplo, entre outros, da efficacia bemfazeja desse
elemento, ao mesmo tempo que dos excessos da especulação no
preço dos gêneros de consumo. O custo do café moido subira rapi-
damente de 800 a ]$600 o kilo, nesta cidade. No dia 18 de outubro
uma casa retalhadora. na rua Gonçalves Dias, aununciou a
reducçâo do preço a 1$200. Era uma baixa instantânea de 2õ .
Pois bem: immediatamente todos os outros negociantes desse
genero declararam vender com a mesma reducçâo. E' uma circuiu-
slancia, e mínima, entre milhares, mas uma circumslancia que
alumia como clarão revelador.
DIREITOS EM OURO 269

ao mesmo tempo, a sna superioridade a qualquer outro


recurso,—basta, de um lado, notar que não se supprime
esse imposto, senão procurando-lhe succedaneo immediato,*
siiceedaneo que julgam ter encontrado no addicional do
õ() " — de outro lado, advertir em que esse succedaneo
envolve um regimen muito menos racional, muito mais
gravoso do que o imposto em ouro..
Substituindo o imposto em ouro pelos 50 "/o addi-
cionaés aos direitos de importação, d projecto da camara
nos fornece, em apoio da instituição que pretende abolir,
ornais irrefragavcl dos argumentos. [Apoiados.)
O cambio a 18 significa, senhores, uma depreciação
de 50 % no papel moeda. Sob o cambio a 18, pois, o
encargo accrescente, para o contribuinte, em virtude do
imposto em ouro, importa exactamente em 50 "/o- Desde
que o cambio suba, pois, a 18, o peso do tributo aecessorio
6 precisamente igual na hypothese da cobrança total em
ouro, ou na hypothese da cobrança total em papel, aggra-
vada pelos 50 c/c addicionaes.
D'aqui, duas conclusões inevitáveis :
Primeira :— que os 50 % addicionaes de imposto em
papel, equivalentes ao cambio de 18, ou a uma deprecia-
ção de 50 c/o no meio circulante, encerram, para o contri-
buinte, maior gravame do que o processo da cobrança
actual, calculada sobre a equivalência total do ouro ao
cambio de 20, correspondente apenas a uma depreciação
de .37, 50 ^ no valor do papel.
Secunda:—(e para esta conseqüência vos peço atten-
daes especialmente) que apenas o cambio passe de 18, isto
é, á medida que a depreciação st; reduza a menos de, 50 '/o,
os 50 addicionaes, no systema da cobrança em papel,
270 DIREITOS EM OURO

representarão um imposto crescentemente maior do que a


cobrança total em ouro ao cambio de 18. {Apoiados.) Ora,
,o cambio, entre nós, paira sempre, normalmente, acima de
18, e só excepcionalmente desce áquem dessa taxa. Logo,
substituindo a cobrança cm ouro pelos 50 ^ addicionacs
em papel, estabeleceis uma situação normalmente mais
onerosa para o importador, e tanto mais onerosa, quanto
mais favorável se torne ao paiz a taxa cambial. {Apoiados.)
Exemplificarei. Supponhamos um artigo de impor-
tação, que, calculado pelo valor official, ao cambio de 27,
pague 8§888, importância da libra esterlina ao par. Ao
cambio de 18, o desembolso do contribuinte será iuditlc-
rentemonte de 13$330, quer elle pague a totalidade do
imposto em ouro, quer pague a totalidade em jiajwl, com a
sobretaxa dos 50 %. Mas, si o cambio subir a 19, o im-
posto, pago em ouro, descerá a 12-8630. Si o cambio se
elevar a 20, o imposto, pago em ouro, baixará a 128000.
Si o cambio ascender a 21, o imposto, pago em ouro,
reduzir-se-ha a 118430. Si o cambio chegar a 22, o im-
posto, pago cm ouro, ficará em 108000. Isto 6, o contri-
buinte desembolsará cada vez menos, de grão em gráo, na
razão inversa da taxa cambiaria, até desembolsar, sob o
cambio de 27, apenas 88888. Ao passo que, pelo contra-
rio, sob o systema do pagamento em papel, com os 50 '/c
addicionacs, o sacrifício do imposto será invariavelmente
de 138330, esteja o cambio a 18, a 20, a 22, a 25, ou 27.
{Muito bem.)
Como instituição tributaria, pois, o addicional
de 50 f/(i representa uma fôrma de contribuição muito
menos tolerável do que o imposto em ouro. {Apoiados.)
Çorao proposta da caraara dos deputados, importa a

*
DIREITOS EM OURO 271

confissão de que o imposto em ouro é uma fonte de receita


impossível de extinguir-se, não se supprindo, acto continuo,
por outros meios de renda, que não não ha onde ir buscar,
senão á bolsa dos contribuintes.
Imposto por imposto, o (pie o projecto da camara
alvitra, o que acabais de votar no orçamento, é incontes-
tavelmente menos flexivel, mais antipathico, mais duro do
que o estabelecido pelo (íovemo Provisório. {Apoiados.)
Por outro lado, a imposição projeetada não offerece as
vantagens da imposição combatida, como regulador ade-
quado para locãlizar no paiz uma somma considerável de
especies metallicas, e cingir a importação ás, exigências
naturaes do consumo, limitando assim duplamente a de-
preciação da moeda nacional. (Apoiados.)
Os illudidos, os precipitados, os ignorantes, que não
se cansam de malsinar essa reforma, a grande calumniada,
fallariam de outro modo, si medissem a voragem, de que os
recursos creados por ella nos salvaram as finanças. Estivesse
o governo entregue, o anuo passado, como estava, antes do
decreto de 6 de outubro do 1890, ao Minotauro das diffe-
renças dc cambio; não possuísse, no Thesouro, accumu-
lados, graças a essa medida, os meios de aífrontar, com
honra, na Europa, os contratempos da situação; carecesse,
como noutros tempos, de baixar ao mercado, á procura
de ouro ;—e eq quero que me digam que seria do paiz
neste momento. (Apoiados.)
A opposição á cobrança cm ouro, entre republicanos c
patriotas, é, pois, uma attitude eéga, ingrata, digna dos
applausos do inimigo. (Muito bem.)
A mensagem presidencial, que abriu este congresso,
reconhece a divida em que o Thesouro está para com essa
272 DIREITOS EM OURO

medida, a contribuição delia para <> augmento da renda,


no exercício que acaba de findar. Essa contribuição é
enorme : eleva-se provavelmente a mais de um terço da re-
ceita arrecadada. Ainda assim, não obstou de todo o ponto
o déficit. Que dimensões não tomaria elle, pois, si não
fosse o imposto em ouro, então representado na sua equiva-
lência em papel ao cambio corrente ? (Apoiados.)
Na Rússia, inaugurado o pagamento metallico dos
direitos aduaneiros em janeiro de 1877, a receita das alfân-
degas cresceu de 52 milhões, nesse exercício, a 107 milhões
em 1883; produzindo-se assim um augmento de 105 % ,
ou de 67 'fi, si tomarmos por base do cotejo o anuo
de 1874. E eis como explica esse desenvolvimento da
renda, os benéficos effeitos da medida, que o gerou, um
economista que escreveu ex-professo das finanças russas ;
(U)
" Esse grande ereseimento deve-se principalmente ao decreto,
que estatuiu o pagamento dos direitos de entrada em ouro, provi-
dencia adoptada em 1876, quando as circumatancias politkas deter-
minavam a necessidade de reforçar os recursos do Thesouro, e
accumnlar a maior somma de ouro possível nas mãos do governo.
O novo encargo, imposto ao commercio, teve conseqüências mui
importantes para a agricultura, a industria e o bem-estar geral.
Em relação ao Thesouro, as conseqüências immediatas foram, a
principio, diminuição da receita em 1877, effeito das importações
gigantescas nos últimos mezes de 1876. encommendadas com o
fim de aproveitar a antiga tarifa, e em seguida um forte augmento,
que só se. defere em 1880" 1
Como é, pois, que o nobre ministro da fazenda -e
aventura A imprudência inenarrável de renunciar a essa
1
P. H. de Clfjicq : Les fmances de. Vempare de Jíussir. Pags.
48-49.
DIREITOS EM OURO 27n

poderosa alavanca financeira, cm uni periodo, como este,


de descensâo crescente do cambio, dc enfraquecimento im-
minente da importação, dc redneção provável nas nossas
fontes dc renda? Pois não vôem que os impostos addicionaes,
agora votados, não respondem pela baixa progressiva do
caniliio, e que, com o avultar delia, resultado necessário
da abolição da cobrança em ouro, desta agonia do credito,
a que nos trouxe, e que de dia em dia nos aggrava a de-
sastrosa política do governo, o produeto desses addicio-
naes representará uma receita cada vez menor ? O Thesouro
dispõe dc recursos em Londres até maio. Então será in-
evitável renovar alli a nossa provisão pecuniária. Com o
cambio actual, com o cambio ainda pcior, que nos ameaça,
quanto não custará isso ás forças do orçamento ? O governo
terá de descer então ao mercado em procura de ouro, dc
quantias consideráveis de ouro. Que terrível pressão não
exercerá esse íãeto sobre as circumstancias, já intoleráveis,
do mercado cambiario? Recrudescimeuto na baixa do papei
brasileiro o aggravação enorme do dcficit: eis, pois, as con-
sequencias próximas, impendentes, irresistíveis da revogação
do decreto dc (> de outubro, E como remediar, depois, tudo
isso ? Como, a não ser por um milagre, como debellar as
conseqüências deste erro espantoso? Que abysmo de impre-
videncia, senhores ! Que loucura suicida ! Quem receberá
esta herança? Quem a acccitará? Quem poderá liqui-
dnl-a ?
Como quer que seja, porém, si esse erro criminoso
for por deante, e prevalecer de vez, não se esqueça
que elle de si só contém a negação radical do plano firma-
do pelo Governo Provisorio. A responsabilidade das con-
seqüências passará então delle para os seus antagonistas.
35
274 O DOMÍNIO DO ALARIDO

Aúk não términos dado ã emixmo fiduciuria a* propor-


ções, que lhe demo*, em 7 de dezembro, com o fntulaçõo do
Banco da Bepuh/iea, si não houresKemox preedaheleeidú,
no decreto de 0 de outubro, eme eorrectlro necemario no*
poise* de [Link]ção inconrerticeJ. Rxtiiignindo <> contra*
f)esü rectificndur, tereis subtraindo ao edifieio parto
essencial da sua base, ter-nos-hèis condemnado ao pancl-
moeda, sem a mais especifica das garantias contra os
males do papel-moeda. A concepção o fundamentalmente
diversa da nossa. Aos seus autores, aos audazes, aos tenta-
dores da fortuna, aos exploradores do imprevisto, a esses
as glorias dotriumpho, ou os remorsos do naufrágio ! Nós,
os que clamámos contra esse desafio atirado á experiência,
teremos apenas que agradecer ao eéo o mallogro do nosso
vaticinio, ou deplorar a verificação do nosso prognostico,
tristes, si acertarmos, satisfeitos, si formos desmentidos.
(Muito bem.)
Mas a vozeriu manda : obedeça se. E' uma esin5-
cic de lynchamcnto legislativo, introduzido, sob as fôr-
mas deliberantes, nos processos da arte parlamentar : a
snppressão snmmaria do uma instituição severa, mas sal-
vadora, coroada pela experiência de grandes nações. Ha
murmúrios na atmosphera popular ; ha soffrimcntos, qne
não discutem ; ha coloras, (pio não reflcctem. Para propi-
ciar os ânimos, careciamos do uma execução expiatória, de
um holocausto descomraunal,correspondente era importân-
cia ao phrenesim das paixões convulsionadas. Seja, pois, a
victima essa instituição, cuja única fraqueza consiste em
não ter pontos de apoio, senão na conveniência geral,
contra as conveniências mais ou menos egoisticas, que ella
fere. (Apoiados.)
OS NOVOS PLEBISCITOS 275

K, para dar a isso ph vslonomia de eousa moderna,


inventou-se o pldmcito. Ku conhecia o plebiscito político,
manivela de tantos crimes perpetrados pelo eesarismo, em
nome da democracia, contra os direitos populares. lTm
plebiscito nacional pozna cabeça de Luiz Xapoleão a coroa
do imjjcrio, depois do crime de 2 de dezembro ; outro ple-
biscito nacional recoroou-o em vésperas da revolução, <pie
devia desthrouizal-o, eda invasão, (pie devia deshonral-o.
Os plebiscitos de agora, porém, são outros. Estes
destinam-se a resolver |)elo numero mudo, anonymo,
irresponsável, os problemas technicos da mais alta ad-
ministração profissional, a fraccionar o interesse pu-
blico em interesses de classes, destacando-os, e impon-
do-os um a um, sob o |>eso das exigências de cada grupo
social, aos orgãos do Estado, a consciência do legislador.
(.I/kíVo bem.)
('ada interessado será, de ora cm dcante, o arbitro do
sen contingente legal de sacrifícios para o bem [Link]
a existência collectiva. A inspiração é engenhosa. Foi sob
ignaes dictames (pie, na luta contra o captiveiro, os amigos
da escravidão pretendiam (pie a questão abolicionista se
resolvesse por um plebiscito entre os possuidores de escra-
vos. (Muito bem.) Do mesmo modo, agora, que se cogita em
adoptar o imposto sobre o fumo e o imposto sobre o álcool,
justo seria que, antes de deixarmos cahir o nosso voto so-
bre o assumpto, plebiscitássemos os produetores de tabaco
e os distilladoresdc aguardente, os alambiques e os estan-
ques, as cbarntarias e as tavernas. Trata-se dos seus inte-
resses : ellcs que deliberam. Não estamos aqui, senão para
os servir...
Entretanto, o íacto encerra desde já conseqüências
276 A POLÍTICA OO MEDO

moraes, <juo não se podem occultar. Ellc abre demite de


nós o mais melancólico horizonte. O signatário do inolvi-
davel jiarecer, que exprime, nu seio do congresso republi-
cano, a resurreição da política financeira da monarcbia
nos paroxismos, não ponde negar o caracter patriótico do
imposto em ouro, suas vantagens, sua necessidade. l\e-
solvido a eondeninar tudo, o implacável censor foi obrigado
a abrir exeepeão para essa, dVntre todas as idéas contidas
no plano do governo transacto. Todavia, no dia seguinte,
tinnava o projecto, abolindo o imposto em ouro, e dias de-
pois lhe votava a extincção total.
O que se está passando, não 0, pois, um movimento
de conversão, mas um movimento de deserção ; não 6 um
acto do espirito, mas uma victoria do medo, conselheiro
eterno do erro. A conscieneia do legislador abdica no in-
consciente. Somos arrastados no clamor das ruas, torrente
escura e revolta, que não se sabe as vertentes, de onde
nasce, que não escolhe o alveo, por onde corre, que não dis-
tingue os tributários, de que se engrossa. {Muito bem.)
O taverneiro, que, para fraudar a incauta clientela no
preço do álcool, ou da carne secca, insinua no ouvido ao
sertanejo, ao operário, ao carroceiro as negruras da Repu-
blica e do imposto em ouro, pai e mãi de todas as agonias do
pobre, representa agora uma somma de autoridade legisla-
tiva, que ninguém suspeitaria jámais: é trunfo, de envolta
com outros elementos semelhantes, entre as influencias sobe-
ranas dessa evolução para uma baixa especie de democracia,
cuja victoria constituiria a negação essencial de toda
a justiça, de toda a liberdade, de toda a sciencia.
Haveis de ver as reivindicações, que a espuma dessa
enxurrada conduz á sua tona. A questão social, que,
A ESPECULAÇÃO SOCIALISTA 277

na velha Europa, 6 resultado natural da fome, ao passo


<|uc, entre nós, está destinada a ser, pelo contrario, a pro-
genie maligna da politiquiee eleitoral applicada á explo-
ração do povo {muito bem), principia a ser importada a est<
pala, nefariamente, por essa casta de ambiciosos, que um
estadista europeu qualificava, ha muito, de "malfeitores
moraes." (Muito bem.) Não tardará, talvez, que essa potên-
cia tenebrosa, evocada pela especulação da mediocridade,
venha bater a estas portas, reclamando a intervenção com-
pressiva do Estado na coneurreneia das industrias, no re-
gi men dos salarios, na cotação dos preços, na distribuição
do trabalho, na protecção á ociosidade. E, quando o rumor
dessa ebulição tumultuaria, agitada pelas correntes mys-
teriosas do descontentamento, que uma conjuração infernal
explora contra a Republica, vier bramir em torno do Con-
gresso, só nos restará cahirmo», desarmados e impotentes,
de abdicação em abdicação, até á anarchia iucoereivel e a
miséria geral. (Muito bem.)
(Sendo 4 horas, o orador pergunta uo xr. presidente si
i-nreee de requerer prorogação da hora, paru continuar.
Osr. presidente responde que o orador pôde concluir o seu
discurso, independentemente de requerimento.)
O Sr. Ruy Barbosa ; — Duas influencias dppostas
contrariam, entre nós, senhores, a Republica no seu desen-
volvimento : a critica maldizcnte dos adversários e o zelo
impaciente dos amigos, l us, Iaudatores temporis ueti,
representantes da senilidade de um regimen, cujo descré-
dito era a tarefa revezada entre os seus próprios servidores,
não vêem na actualidade senão defeitos incuráveis. Os
outros, embalados em um ideal, abaixo de cujo nivel nada
presta, derramara incessantemente na vida republicana
278 O IMPÉRIO
« azedtnne de uma severidade immerecida o cruel. Pa.-
apreciaçõcs destes e daquelles resulta um eòro de melan-
colia c desesperança, que sacode, e dcsfrondesce, como vento
frio de inverno, as novas instituições. (Muito bem.)
Aos primeiros responde a longa historia do iiu|>erio,
vivida c clamada por elles mesmos, quando se afastavam
do seio da confiança imperial, desenganados, envergo-
nhados, indignados, com o peito cheio de amargas expe-
riências c a boca transbordante de confidencias escan-
dalosas contra a corôa, suas intrigas, suas jierfidias, suas
invasões, sua incompatibilidade com o merecimento,
a independência c a honra dos ministros. Pela fran-
queza terrível das suas revelações, quando livres da
tvrannia das mentiras eonveneionaes' no poder, os chefes
dos partidos monarehieos se encarregavam de dar ií propa-
ganda republicana as suas maiores armas, desmascarando
a nossa falsa realeza constitucional, expondo aos olhos do
publico, na mais despida nudez, a impostura da liberdade
política, sob que nominalmente vivíamos. (Apoiados.)
Luiz Honaparte, Luiz Felippe, Carlos X, em França,
Jorge III e Carlos 1, cm Inglaterra, forneciam á eloqnencia
erudita dos nossos homens de estado as analogias histories)-,
em cujo' fundo elles se compraziam de retratar o manhoso
absolutismo do príncipe reinante, os lados falsos, mesqui-
nhos, irritantes, miseravelmente corruptores do despotismo
imperial. (Apoiados.)
Eis oregimen de que nos falia actualmente com iu-
eonsolaveis saudades, eontrapondo-o como autithese fulgu-
rante aos erros do governo republicano, a nova idolatria
imperial, produeto serodio das criticas arrependidas e da-
ambições insaeiadas,que,depois de praguejarem,devorarem,
O [Link] MIIilTAH 270

arruinarem, impe]nilarizarem o império, julgam rehabi-


lital-o hoje, ajiplioando-lhe, em disfarce poHthumo, ao perfil
maculado dcestvgmasa desacreditada mascara liberal.
O caracter militar do movimento, (pie assignala o
1 terço desta revolução, é apenas um pretexto ; porrpie muito
ha (pie esse elemento influia decisivamente nas soluções
da política imperial. A abolição não se teria feito em
1888, si o exercito não houvesse resistido, com heróica tir-
meza, ã notificação do posto, (pie o ministério Cotegipe lhe
mandara occnpar, nas montanhas de S. Paulo, contra os
escravos foragidos. E, si, mupiclla phase da questão entre
o governo imperial c o exercito, cuja crise se declarou pelo
manifesto firmado com os nomes de dois gcucraes nas co-
Inranas iV O Pais, a corôa e o senado não tivessem capitu-
lado immediatamente, acccitando a ponte da transaeção
tardia c humilhante, que o sr. Saraiva, o sr. Celso c o sr.
Silveira Martins lhe depararam, o conHietoestaria resolvido
no dia seguinte, digo mal, naqúella noite mesma, ])or uma
explosão militar, maduramente preparada, em que nem
todos cs chefes liberaes erão innocentes, eque, si poupasse a
corôa na sua integridade material, seria para deixar mo-
ralmente anniquilada.
Xinguem, com effeito, poderia, attirmar si essa solução
transporia logo as fronteiras da Republica, ou si a tempes-
tade serenaria a uma simples mudança politiea, dentro
nos limites da constituição imperial. Mas o certo 6 que,
nesta ultima hvpothcse,o facto seria, na sua significação,
muito mais grave do (pie o foi a lõ de novembro. De
feito, um pronunciamento militar, impondo ao throno a de-
missão e nomeação de ministros, arrastaria necessariamente
uma cadêa incalculável de acontecimentos semelhantes,
2RO A REVOLUÇÃO DF. 1831

convertendo as reacçOcs militares em recurso usual dos


partidos contra a eorôn, introduzindo a allieiação politica
nos quartéis como instrumento eomesinho <le opposição,
ou de governo, e estabelecendo em permaiteneia, sobre
as minas moraes de um império deshonrado |)cla covardia
de seu chefe, a tvrannia caprichosa das bayouetas, sob a
appareneia das exterioridades parlamentares ; ao passo que
a intervenção excepcional do exercito como arma extrema
de uma nação em desespero, contra uma forma de governo
mantida apenas pelo egoismo dos partidos, não constituiria
precedente ordinário, não encerraria essa perigosa tendência
á habitualidade.
Não conheço revolução mais indignamente aceusada
que a de 1889, talvez por isso mesmo que nunca houve
revolução menos violenta, mais benigna, mais transigente,
mais organizadora, mais parca em damnos c contratempos,
() Brasil assistiu a uma revolução em IRdl. Kssa revolu-
ção desthronizou o rei ; mas eouservou a realeza. Não iu-
novou, pois, a fôrma de governo. Não transformou a con-
stituição. Não mudou, sequer, a casa reinante. E, todavia,
que commoção tremenda, que enormes prejuízos, que incal-
culáveis desastres financeiros não nos custou essa revolução
ronsfitiicionalwta, essa revolução traillcionallMa, essa revo-
lução monnrchisia !
Que o digam os documentos officiaes.
Abro o relatório da eommissão imperial, <pie procedeu
ao inquérito acerca da crise de 1864, e lá se me depara
este quadro : {Lf)
"0 pânico que acarreloti esse feito, a revolução de 1831.
foi geral. AsambiçOespuzeram-se em campo; tumultos e desordens
foram-se repelindo nas diflerentes províncias; a insubordinação da

(
A REVOLUÇÃO DE 1S31 2R]

tropa e sua revolta, cm diversos pontos puseram varias vezes em


perigo a ordem publica, a propriedade e a vida dos cidadãos.
" A auarcliia chegou a imperar em alguns pontos do império ; e
a crise, que se manifestou de uin modo assustador, foi aggravada
pela falta de segurança individual e pela fuga ou emigração de capi-
tães e de uma grande quantidade do commerciantes e capitalistas.
" Na cftrte, em differentes mezes, nas províncias do Espirito San-
to, Bahia, Alagoas, Pernambuco, Maranhão e Pará, a tranquillidade
publica foi perturbada por differentes com moções, ou pela insubor-
dinação e levantamento da tropa de linha. A capital de Pernambuco,
sobretudo, muito soffreu desta ultima causa: e uma crise violenta
manifeslou-se no seu commercio, victima da depredação, si não do
saque, que os soldados Cóm meti eram, além das demais causas, que
já de longe actuavam.
" E" difflcilcalculai'09 estragos caOsados em differentes pontos
do império por uma tal crise : todos os valores se depreciaram, os
títulos da divida publica baixaram, o cambio desceu ao ultimo ponto, o
papel-moeda soffreu grande rebate, chegando, em alguns logares, a
40 <fcr, e deram-se muitas quebras." 1
Si recorrermos aos teetemunJios contemporâneos, ouvi-
remos ao ministro da fazenda, no sen relatório de 1832
ao corpo legislativo, esta linguagem : (U)
" A revolução, pondo a descoberto muitos males, quede muito
longe nos vergavam, e aggregando-lbes de novo aquelles. que são
delia inseparáveis, produziu fatal esmorecimeufo em todas as fontes
da industria e da riqueza. 0 credito estremeceu: o commercio, ipie
delle se nutre, eutibiou : a agricultura, que só floresce com a tran-
quillidade interna, desfidleceu. Dahi veiu a alteração considerável
dus valores, a quebra das transacções e a mingua das rendas
publicas. Freqüentes commoções em diversos pontos, bem que

1
Relatório da com missão encarregado, pelo governo imperial,
por aviso de 21 de outubro e 28 de dezembro de 186b, de proceder «
nm inquérito sobre as causas principaes e accidentaes da crise do mez
de setembro de Iftfí.',. Hio de Janeiro, Typ. Nacional. 181)5. Fag. 1'J.
36
i>82 DE 1831 A 1840
terminadas em favor da ordem, de tal maneira tinham atterrado a
industria e a propriedade, que todos o» trabalhos úteis, todos os ser-
viços cahiram em um mortal torpor; o oommercio pamlizou-se. a ron-
fiança estremeceu, o credito publico e particular abalou-se: só havia
artivUbule em apurar Jundo» para emigração. Nesse estado de
violência, não é para admirar que as nossas rendas fossem reduzidas á
metade e,em algumas províncias, á terça parte do seu produeto ordi-
nário. " 1

Quanto ao cambio, o espectro que povôa hoje <le ter-


rores a atmosphera financeira, o cambio, na phrase desse
relatório, descera "quasi a par da nunidndr." 2
A ordem publica, que á dictadura de 1889 cabe a
gloria de haver mantido illesa e absoluta, viu abrir-se,
pela revolução monarchica de 1831, uma vasta éra de pro-
fundos abalos e cruentas revoluções. Em 1832 a tranquil-
lidade publica soffreu violentas perturbações na côrte, em
Pernambuco, em diversos pontos do Pará. Em 1833 e 1834
lavrava a luta civil em Pernambuco e Alagôas, devastan-
do-lhes o interior; dando-se tupiultos c sedições na capital
do império, em Matto-Grosso, no Ceará, em Minas Geraes,
em Maceió, no Recife. Só em 1835 cessou a guerra civil,
que assolava o centro de Pernambuco e Alagôas. Entre-
tanto, em 1835 e 1830 continuaram as desordens na pro-
víncia do Pará, com paralyzação do movimento industrial
e crise violenta ; e, quando, em 1837, ia-se restabelecendo a
paz naquelle extremo do paiz, rebentava a revolução na
Bahia, e aggravava-se a do Rio Grande do Sul, que se
inflammou em 1838, em 1839, cm 1840, operando-se nesse

1
Md.
2 Md.
O ULTKA-FEDEKAUSMO 283

anuo a invasão de Santa Catharina, e ateiando-se com


violência, em 1839 o 1840, a revolta no Maranhão.
O regimen, que, assentando no mais insolente dos
golpes de Estado, a dissolução de uma constituinte, e no
arbitrio de uma carta outorgada, atravessando, cm seguida,
um septenato de absolutismo brutal, nodoado pelas maiores
torpe/as c pelos mais negros crimes, careceu de descoroar
um rei, e transpor depois vinte annos de terremotos polí-
ticos, para entrar no período de paz e organização, em cujo
termo o imperador viu resumir por estadistas conservadores,
na tribuna parlamentar, o seu meio século de reinado, com
a epigraphe de— "mentira, [Link], cesarismo caricato" —
dá hoje á Republica lições de ordem, moralidade, libera-
lismo, capacidade financeira. Para assistir pacientemente a
este espectaculo, é necessário ter no sangue a religião da
hypocrisia, ou confundir este paiz com o valle de Aosta.
(Muito hem.)
A educação idealista da parte que mais adeantada se
suppòc na opinião republicana, auxilia o trabalho inimigo
com o mais poderoso contingente. Não nos bastava obtermos
uma constituição republicana, (pie se approximasse dos
mais altos modelos. Não nos bastava, ainda, que ella com-
petisse cora a mais maravilhosa das organizações republi-
canas, a dos Estados-Unidos, em princípios liberaes, em
expansão democrática, em instituições federalistas. Bem
pouco era isso para a nossa pretenciosa inexperiência, para
as nossas frivolas aspirações á perfeição immediata e abso-
luta, para o espirito de abstracção e de seita, que infeliz-
mente interveiu na gestação constitucional da Republica.
Dahi uma série de emendas, com que a Constituinte de
1890 suppoz democratizar o projecto do Governo Provisorio,
284 O IDEALISMO POLÍTICO

e reforçar a autonomia dos estados, entregando-lhes


o domínio das terras nacionaes, confiando ao suffra»io
universal directo a nomeação do chefe do Estado, reduzindo
a investidura definitiva do vice-presidente na presidência
da Republica aos casos de vaga no segundo biennio do
periodo presidencial, — temeridades absurdas, fatalissimas,
inconciliáveis com a subsistência da União, a estabilidade
do governo e o desenvolvimento normal do paiz. Ipoiadoa.)
Mas isso mesmo era insufficieute á poesia do nosso
radicalismo, ao radicalismo das nossas ambições. Essa
Constituição archi-democratica e ultra-federalista, des])reu-
dendo-se das mãos de seus autores, irreprehensivel, imma-
culada, virginal, como a visão da utopia, não devia, sequer
encontrar em sua execução os obstáculos, as decepções ns
desastres, a que a realidade nunca deixou de submetter os
regimens novos. A's primeiras contrariedades, aos pri-
meiros attritos da theoria com a pratica, ao aspecto dos
primeiros escolhos no caminho, aos primeiros signaes de
procella no horizonte, os ânimos se fechariam para logo á
esperança, a eloqüência dos oradores trovejaria maldições
bíblicas, c os mais tristes agouras annunciariam o naufrágio
imminente das novas instituições.
r
Tendência viciosa dos solitários do ideal nascousasdo
espirito, como nas da política, essa perversão hypocondriaca
do juizo, esses esmorecimentos habituaes da razão, essahv-
pertrophia pessimista do senso moral curam-se pela oommu-
nicação com a humanidade e com a historia, pela dilatação
do nosso eam|>o visual na ordem do espaço e na do tempo,
O homem vive do relativo debaixo do céo. A felicidade,
para os |>o%'os, como para os indivíduos, não se determina
senão por comparações. A philosophia do contentamento e
A REPUBLICA EM FRANÇA 285

ílíi esperança consiste simplesmente na sciencia de rectiticar


o Valor dos nossos dissabores á luz das analogias o dos con-
traste- semeados pelo exemplo alheio. [Multo bem.) O his-
to^iador não dispõe de ontro critério ; não se otíerece outro
critério ao estadista.
Julgada pela malevolencia dos irreeonciliaveis da
nionarehia, ou pela impressionabilidade doentia dos incon-
teUtaveis da revolução, essa Republica Frauceza, que, na
pbrase do seu presidente, "aeal>a de celebrar a sua maio-
ridade," o mais duradouro de todos os regimens, em França,
desde a quõda do antigo regimen no século passado, seria
apenas um embrvão morto de nascença.
Os que tiverem, <'omo ou, a curiosidade de ler os
quatro volumes do Diário de Fidux 1, o registro escrupuloso
das impressões do imperialismo desde a queda de Luiz Bo-
naparte atõ á morte do príncipe imperial, seis annos depois,
não encontrarão, para creditar ao governo republicano da-
qUelle paiz, nem racionalidade nas suas instituições, nem
competência nos seus administradores, nem probidade nos
seus estadistas, nem honra no seu parlamento, nem talento,
moralidade, ou patriotismo nas suas celebridades, nem glo-
ria nas suas armas, nem disciplina nos seus exércitos, nem
sciencia no seu ensino, nem dignidade na sua vida social,
nem seriedade na sua política, nem limpeza de mãos nas suas
finanças. E' uma oppressão de lama, forçosamente eplie-
raera, imposta ao paiz por uma insurreição ignóbil das
fezes da capital, odiosamente auxiliada pela invasão estran-
geira. A salvação estará no império,cuja revivescencia a cada

1
Jaurunt ile Fidtis.—La RèvoluHon de Septembre.—La mpi-
talatiou.—L ' smi loyal.—Le Princè Imperial. (Paris 1889-91.)
286 A REPUBLICA NOS ESTAUOS-UNIDOS

momento se espera, íio voltar de cada uma daquellas pa-


ginas, como a desforra providencial dc todas as virtudes con-
culcadas da patria contra esse jubileu da escoria parisiense.
Agora, si vos derdes ao trabalho de percorrer a litteratura
radical, a litteratura socialista, a litteratura da agitação
convertida em systema de governo, a conclusão será diversa,
a reorganização da ordem social estará na victoria dos ele-
mentos Aliados á demagogia ; mas a essas conclusões se
terá chegado pelas mesmas premissas: a condcmnação da
Republica na sua actualidade pratica, na sua administração,
na orientação dos seus estadistas, na política das suas
finanças. Todavia, a Republica administradora, conserva-
dora, conciliadora completa alli vinte e um annos, pros-
pera, crescente, honrada, poderosa. (Muito hcm.)
Vide os Estados Unidos. Que foi alli a Republica nos
primeiros annos da sua constituição actual ? Tiveram me-
lhor fortuna do que nós os seus maiores homens de Estado,
afferidos pela medida opposicionista? Gozaram de mais
nome as suas camaras, de mais honorabilidade os seus mi-
nistros, de mais respeito os seus heróes, de mais credito as
suas finanças ?
Eu lia, ha poucos me/.es, o Diário de William
Maclay, livro publicado vai por um anno e destinado,
na opinião do seu editor, a "desfazer muitas illusõcs côr
de rosa acerca das cousas daquella época." Maclay, o
verdadeiro fundador do partido democrático nos Estados
Unidos, membro do senado na primeira legislatura sub-
sequente ao voto da Constituição, espirito austero c veraz,
traça da politica americana, por esses tempos, um quadro
bem diverso do que a admiração da posteridade pela obra
de Washington costuma imaginar; o dominio do interesse
O GOVERNO PROVISORIO 287

privado, o campear "das mais torpes transacções" entre o


Congresso e o ministro da fazenda, "a compra da camara
dos representantes" pelo governo, o "aluguel de sena-
dores", as ameaças de derrota eleitoral contra os membros
independentes da opposição.
Por mais que se haja abocanhado a dictadura revo-
lucionaria entre nós, suas reformas, suas medidas finan-
ceiras, não se lhe attribuiram talvez culpas tamanhas.
Seu quinhão de aggravos foi menos farto. A Consti-
tuinte de 1890 funocionou sob o Governo Provisório
liberrimamente, trovejou contra elle hostilidades apaixo-
nadas, alterou com a maior independência o seu projecto
constitucional, sem que jãmais passasse no aro menor receio
de violência contra as suas deliberações. {Apoiado*.)
Coube aos Estados Unidos a fortuna de transporem
os primeiros escolhos do novo regirnen sem esses golpes
da força, não menos íataes á mão, que os desfecha, do que
ao paiz, que os recebe. ( Muito bem.) Mas também dos
erros inevitáveis na sua posição o Governo Provisório
pódc consolar-se com recordar (pie, sendo a dictadura, e
exercendo na maior amplitude a soberania revolucionaria,
não a utilizou, senão para apressar a legalidade, fundar a
Constituição, c entregar o poder ás autoridades regalares.
{Muito bem.)
Esta honra, junta á de ter mantida a paz stm
oppressão, á de ter sustentado a harmonia entre todas as
partes da união nacional, a de ter vasado a Constituição
da Republica nos moldes que a dominam, bastar-nos-hia,
para comparecer sem receio em presença da historia.
{ApoiadoH.)
288 O GOVERNO PROVISORIO

A dcspeza exaggerou-sc ; tnas essa culpa, que se liga


menos ás responsabilidades do (Inverno Revolucionário do
<|ne ás anomalias de sua situação, 6 a menor das culpas,
que as revoluções e as dictadnras estão, por sua natureza,
fadadas a commetter ( apoiado»), porque 6 a menos
violenta, a menos duradoura, amais reparavel.
A despeza excedeu-se (não }>clo minwterio da/az' nda);
mas os recursos cresceram também gigantescamente,
graças, em grande parte, ao systema de arrecadação adua-
neira, crcada, sob o Governo Provisorio, pelo ministério da
fazenda. A despeza descomediu-se ; mas esse mal, de que
ainda nenhuma revolução sahiu indemne, era o preço de
benefícios, com que ainda nenhuma revolução se reeom-
mendou ; era o mais benigno de todos os resgates, que se
podiam estipular pela transição instantânea e incruenta
entre duas fôrmas oppostas de governo {apoiados)] era o
prêmio pago pela preservação de todos os direitos através
de uma cominoção, que transformava pelos fundamentos a
política do paiz ; era o tributo necessário da paz, primeira
victima de todas as revoluções e conquista mognifíca «Ia
revolução de lõ de novembro. (Muito fiem.)
Senhores do poder absoluto e do arbítrio dietatorial,
organizámos rapidamente a legalidade; impedimos a vio-
lência ; protegêrnos os vencidos ; mantivemos a ordem ;
asseguramos os contractos ; sustentámos o credito do pai/ ;
honrámos religiosamente os compromissos nacionaes; im-
pulsionámos o commercio e a actividade produetora cm
escala desconhecida entre nós; augmentámos a renda
publica; abstivemo-nos de contrahir empréstimos, internos,
ou externos ; fizemos vastas mlucções nadivida'do Kstado,
(Apoiadon.)
A POLÍTICA Dl FFA MATOR IA 28!)

E, si as eircninstancins, em ([iie deixámos o poder,


sepanuulo-iM>s profimdamente dos nossos suceessores,
arrastaram o segando ministério da Republica a uma re-
acçáo contra as medidas tinancciras do primeiro, tivemos
depois a satisfação de ver levantar-se, sob a iniciativa
desse mesmo ministério, no plano por que elle se batia,
a rchabilitação mais eloqüente do systema (pie fundára-
mos, c que os inimigos da revolução envidavam forças
por arrazar.
Estas considerações nos bastariam para compensação
da iniqüidade, com que temos sido julgados. O caminho
dc quem preside a uma revolução não pôde ser de rosas.
Não topámos nelle a hostilidade armada: deviamos
encontrar a resistência da lama. {Muito hnn.) A covardia
dns costumes germinados sob a atmosphera da realeza sub-
stituiu o punhal j)ela ealumnia. E' delia (pie se tem alimen-
tado, aqui e na Europa, a propaganda imperialista, tis-
nando-nos os homens, para nos aviltar as instituições.
(Apoiadoa,)
Oh ! nós não podíamos ter a velleidade de aereditar-
mo-nos superiores a esse eseote doloroso, que os maiores
nomes da historia pagaram ás paixões coutemporaneas.
( Muito bem.)
Cavour, o coustruetor da união italiana, uma das
maiores eulmiuações da gloria politiea no século XIX, o
organizador de sua patria na diplomacia, na administração
das finanças, na tribuna parlamentar, nome tão limpido
(planto grande, caracter igual na solidez do bom senso e na
refnlgeucia da pureza, Cavour "era arguido frecpientemen-
te pelos seus inimigos de haver aproveitado a sua alta
posição odicial, pura realizar quantiosos lucros, e de ler
37
290 CAVOU R

recorrido, em beneficio de sua fortuna, a meios, que ;i


.delicadeza lhe deveria vedar." 1
Os batedores dos aleives mais vis, postos em circu-
lação contra a dietadura de 1 õ de novembro, especial-
mente contra o seu ministro das finanças, não fizerão mais
que recunhar a moeda infame, em que o grande patriota e
[Link] edificador politico viu imprimir o seu nome pela
perversidade dos seus adversários, exactamente quando as
suas medidas financeiras consolidavam alli a revolução
libertadora. [Muito bem.)
Aqui tendes uma pagina da biographia de Cavourein
meiados deste século. Vêde como parece escrijita pela
maledicencia brasileira em 1891 : (A^1)
"Para rpdobrar as munimrações'do povo pieinontez contra
CaVour, concorreram circunislnncias praiultas, que não convém
á historia olvidar. O publico viu, no Piemonte, especuladores,
trampolineiros de bolsa {bormiuoli), agentes de banco, que, até
aquetla época, navegavam em aguas baixas, tornarem-se de repente
opulentos millionarios. Onde pescavam tanto dinheiro? Ninguém
o sabia: mas. em publico e em particular, esses individuos pas-
savam por Íntimos confidentes de CaVour, que os pôz ao seu lado.
eollocou alguns na Gamara, e destinou outros acommissões polilicas.
De taes segredos quem possuía o fio? Talvez pouquíssimos. Talvez
ninguém. iMas a voz publica fez rigorosos juizos, e proferiu severas
accusaçõcs. " 2
Como a ealumnia se repete nos seus processos ! Como
é oosmopolita nas suas manhas! Que baldas que são de
originalidade as suas invenções ! (Apoiarloe.)

1
C. CAVOrn ; Nouvdle* l«ttrrn inkUie* [Link] Amédéf. [Link].
Roma, 1889. Pref., p. VIII.
2
BaorFEnio '■ / miei tempi, vol. XVI.
Ver Lmoi Chiaia : Leltereedite ed inedite, raccolfe cd illuitraU.
Vol. V (Torino, 188(5.) Inlrod., p. cccxc.
WASHINGTON 291

De Cavour não 6 fácil a transição paru Washington :


sanilos diffcrentes, differentes meios, difforentes raças, dil-
íèrentes instituições, tudo, etn summa ,di vcrsissimo, na
tempera moral dos povos, na sua educação, no seu passado,
no seu desenvolvimento político, na sua situação constitu-
cional ; opposições de forma o essência, de idf-as e factos,
de homens e cousas. Pois bem: contra Washington, o pai
ila União Americana, não foi menor, nem monos lodoso, o
temporal de indignidades, insolencias c baldões.
Sobre o seu tumnlo a justiça da nação, por orgão do Con-
gresso dos Estados-Unidos, lhe havia de consagrar depois
o nome, incomparavelmente glorioso, como "o primeiro
na guerra, o primeiro na paz, o primeiro no coração de
seus compatriotas." 1 O reconhecimento e a admiração
da posteridade o acelamariam mais tarde como "o maior
dos homens bons, o melhor dos grandes homens". ~
Pois bem : esse caracter de estõica abnetracão e riiridez
«
espartana, que rceusára o sceptro imperial, otTereeido pelos
seus companheiros d'armas ao glorioso general da campa-
nha revolucionaria, respondendo, com indignação e assom-
bro, ao emissário dessa tentativa : " Em vão busco no meu
procedimento o que poderia georoçoar essa proposta,
gravida das maiores calamidades para minha patria" 3 ;
viu-se arguir da ambição de cercear, em proveito de sua
influencia pessoa], a autoridade do poder legislativo.

1
Jabkip íSrAKKs: [Link] af Umrgc Wmhingtou, Wiuhingtnn'>
in iting*. \ ol. 1 (I-iostou, 18.'i7), |m^. 55U.—.1. Schoulkr : Hintonj ofthe
rnited States of Atnerica. Vol I (N. York, 1880), pag. 4êl.
3
Edward Evkbet : Life o/ Washington.
' VV\sniNOTON"s. Writings. Sparfsedit. Vol. VIII (Bastou, 1880),
pag. 300.
292 WASHINGTON
O estadista, cujo tacto infallivol dir-sc-hia participar da
natureza da inspirarão, chegou a ser capitulado, na imprensa
anti-federalista, como mentecapto de nasccnya. 1 A alma
desinteressada e conciliadora, cuja carreira, nos campos de
batalha, como nos trabalhos do governo, pairara sempre
serenamente acima das contenções políticas, das digladiações
de partido, viu-se, ainda após a morte,envolvida por um
successor seu, antigo ministro do seu gabinete, na increpa-
ção de conspirar jKTversaraentc jiara a desharmonia entre
os seus concidadãos. s
Xada, porém, nos poderia dar mais terrivel espi-ctaculo
da brutalidade da ingratidão politica e da cegueira das
vertigens populares do «pie a reacção provocada no paiz,
contm Washington, pela assignatnra do famoso tratado,
que day subscrevera com a Inglaterra, aliás um dos mais
esplendidos triumphos da diplomacia americana. O exemplo
da agitação facciosa, dado insignemente cm Boston, a mais
devotada, entre todas as capitães americanas, ao grande
presidente e á sua administração, incendiou o paiz in-
teiro. Em todas as cidades, meeting* furiosos, onde ninguém
ousava murmurar uma palavra de defesa ao fundador da
Republica. Hamilton, "o colosso federa lista", que ousou
comparecer a uma assembléa popular, tentando justificai-o,

1
" II was Ixililly declansl lhal Wasliinglon was a horn fool."
John Fiske : The eritical períod of amirican history: 1783-178H
(Boston, 1890). Pag. 318.
- " To restore that hanmny whirh nnr jir&hvettort so wkskedly
made it their objeet tn break np... shoulã lie lhe object of every
mau really a patriot. Jefferioti tn Gnrernor Me Kean, Julh. 24, 1801.
HenbyAdams: ííidori/ nf fhe Uiríf. States of Aiiier. during the fir»t
/ulminitfrntioii n( Thnmu* Jefferton, New-York, 1889. Vol. 1, pag.
319—320.
WASHINGTON' 293

ivcchni cm acolhimento cargas de pedras, <jiic lhe ensan-


gnentaram a fronte. 1 Jay, o preclaro negociador do
tratado, vin-se dado a gairote e queimado em effigie, ])(;r
lisla a parte, e o convênio, que celebrara, lançado ás chani-
mas pdo algoz.
boi uma das crises mais gravas da historia americana,
c " nunca um presidente dos Estados-1 'nidos se viu tão
absolutamente desamparado." 2 Com a dissidência esta-
belecida no seio do seu proprio partido, com a scisão até
entre os seus secretários de Estado, com a febre da resis-
sisteneia demagógica exacerbada até ao phrcnesi, até ao
delírio, até á conflagração, Washington, qnasi sósinho, do
alto de sua consciência, viu rugir-lhe aos pés, sereno, im-
perturbável, tenaz no seu proposito, uma das mais desati-
nadas tempestades levantadas no oceano das paixões popu-
lares contra a política do bem. Accusaram-n'o de ter ven-
dido o paizá antiga metrópole, de ter espesinhado a ■ Con-
stituição, de ter ajustado ura pacto odiosoâ patriacom uma
nação abominada, de ter respondido ás representações
jiopulares de Boston e Nova York cora o desdem omnipo-
tente de ura chefe de serralho, de ter fulminado sobre o
povo raios de desprezo, com a arrogancia de um soberano
oriental nos thronos do ludostão. Até o epitheto de reve-
rencia e carinho, cora que a piedade filial dos conterrâneos
o santideára, de "pai da patria", foi entregue ao escarnco
das ruas, desfigurado e achincalhado no de "padrasto".
E, como si não bastasse esse furacão de insultos á sua ca-
pacidade, á sua lealdade, ao seu civismo, calumniados de

1
Cahot Lodok: A/ejiander Hamilton, c. IX, pag. 190.
2
Gahot Lodge: Georgc Washington, Vol. II, pag. 185.
294 WASHINGTON

usurpaçãOjdf c()rruj)ção,(le traição, acabaram arrastanilo-lhr


|K'las sargetas a probidade de funccionario. \'arão sobre
tcxlos incorruptível, recebeu nas faces a affronta de
delapidador, confundido com os concussionarios vulgan1»,
averbado de desviar para a sua algibeira dinheiros do
Estado ; efoi mister qu(^o secretario do thesouro lhe viesse
defender a reputação com o testemunho irrefragavel dos
algarismos. 1 A nada o pouparam : nem á ameaça de arras-
tarem-n'o ao banco dos rí-os, nem á de arrancarem-lhe a
própria vida.
As palavras, em que o seu espirito, equilibrado sempre
através de tão amargas tribulaçõcs, deixava, em I7!'(i,
nas vesjieras do seu adeus á vida publica, entrever o co-
ração ensangüentado pela injustiça, offerccem a moços v
velhos, a setores e espectadores da luta politica uma lição
eternamente memorável : (Lê)
" Aqui lia um anno, ou dois", escrevia ellc a Jeflerson -,
" eslava eu beia longe de conceber que os partidos pudessem chegar
até onde chegaram. Só ultimamente me pude convencer de que cou-
besse nos limites do provável, ou sequer nos do possível, que, quando
eu empregava os maiores esforços, para crear entre os povos uma
individualidade nossa, independente, até onde o dever e a justiça
nos permitlissem, de todas as naçOes da terra, e diligenciava,
mantendo uma posição firme, preservar este paiz dos horrores de
urna guerra assoladora, viessem arguir-me de inimigo desla nação
c caplivo á influencia de outra, torturando, para o provar, todos
os actos de minha administração, calumniando-os comas mais gros-
seiras adulterações, discutindo os assumptos exclusivamente sob
uma de suas phases,e isso. a meu respeito,em termos tão exaggerados

1
Masseras : Washington et son ceuvre. (Paris, 1889), pag. 129.
2
71) Thomas Jeffer»nn, 6 Jul., 178(5. (The Writings of Was-
hington. JaredSpark'*. edit., vol. XT. p. 189.)
A HERANÇA DO GAPTIVEIRO 2ft>

e imU-i fiitr-s, qunrs nó p&irriain caher u um Nero, u um criminoso


notnrin, nu n um pick-pocíct migar." 1 (Senmçãn.)
Entretanto, (•íil>ia a Washington a sorte, sem par cm
toda a historia, de dirigir uma revolução entre homens for-
mados nos costumes da lils-rdadc e nas virtudes da reli-
gião puritana. Nós, jr-Io contrario, tinhamos sido ama-
mentados aos seios da escravidão, cujo leito é a inveja, a
perfídia e a deshonra. (Bnirox.)
Essa herança do opprobio atavico, cujas conseqüências
hão de resentir-sc ainda cm nossos netos, degenerou a luta
política, entre nós,em uma tradição de maledencia e de lepra,
educou a opinião na pratica do vilipendio geral contra os
homens de Estado, fez do descrédito a sombra do poder.
(Apoiado*.) Vfkledesfilar a historiados estadistas do im-
pério: raro é o presidente do conselho, o ministro da fa-
zenda, o chefe de partido, que não passa fustigado por uma
chuva de lodo, como esses condemnados que st1 snccedem
nos eirenlos tristíssimos do Danfe sob o tlagello da
piovn
E/c cm i, mntMetfn, fccdrln r i/rrrr,

qne emjxsta o solo onde cac :


Pule l<i Icrcn r/ic quentn ricerc.

10' nm continuo nutem genuit de degradações, eivadas


pela alliança entre o odio politico c a canceração da con-
sciência publica. Xemesis insaciável de escândalo, no gozo
de cujos vieios fáceis os partidos cm opposição afogavam as
saudades do governo. (ISraru*.) I)ir-sc-hia que, revestindo

1
Th a common pick-pocket. Ibid.
29(5 0 PAPEL POLÍTICO DA CALI NÍMA

as funeyõcs da autoridade, o servidor da nayão sedospojaV®


do direito á estima eommnni. O carro de Osorio, que uU*
dia atravessava as ruas desta cidade, arrastado, como os
trimuphadores antigos, pelos braços de unia população de-
lirante, pouco depois dittieilmente escapava aos insultos
da multidão, que ia desfeitear physicamcntc os ministros
até ás portas da Camara dos Deputados. (.Se/wuçòo.)
Era assim que as cliamadas escolas políticas miitun-
•mente se tratavam no regaço do regi meu imperial. () | iodei'
cm que a imaginação dc José Roniliicio figurara "a monta*
nha sagrada cheia de oráculos divinos", transformou-se,
jielos usos da moral ordinária entre os partidos, cm uma
çspecic de sentina geral, cuja fronteira, ofterceida aos ca-
prichos do lápis mais ou menos garoto dos transeunte-,
tinha por illustraçõcs características a reputação afassulhada
dos conselheiros da corôa. {Sennação.)
Ilompendo esse meio, atravessando esse chaivo, de
qual vi fugirem com indignação, renunciando, nauseados,
á vida publica, entre as maiores promessas dc futuro,
moços, que hoje encontro engolfados na apologia do impé-
rio, — a Republica devia necessariamente ver esparrinhar
sobre si, sobre os seus actos, sobre os seus homens essa
vasa, cm (pie os costumes da monarchia baptisavam c sepul-
tavam os seus governos. {Bravos.)
Xão nos devia admirar, pois, a violenta erupção
diffamatoria, que se arremessou ao ar contra a dictadura dc
lõ de novembro, primeira expressão da Republica {ajioia-
do*), c cujas calumnias se mandaram universalizar contra
nós cm todos os idiomas. HUa attestará simplesmente a
moralidade do passado, que buscámos destruir, como os
vestígios obscenos impressos nu lava das minas de
A TORMENTA INFAME ■£97
Pompfa nos dão a physioncmia moral da cidade soterrada.
{Sensação).
Qrando, ás vésperas da revolução, o sr. Quintino
Boeayuva me communieou a sentença, que me designava
como posto, no governo projectado, a pasta da fazenda,—
em presença dessa comminação temerosa, usei de todas as
objecções, que a minha consciência mo inspiiava, paraaflas-
tar de mim o calix acerbo; o, si me sulunetti, foi por não
parecer que desertava os meus amigos e as minhas idías,
em uma situação na qual a lista dos ministros escolhidos
seria um rói de condemnados á morte, si a monarchia trium-
phasse. (Apoiados.) Nós assellavamos o nosso assenti-
mento com o risco da vida, exposta aos perigos imminentes
da revolução... (pie, para outros, foi apenas o esplendor de
um dia de sol. (Sensação.)
A vida sahiu incólume. Mas o despeito dos interesses
supplantados condensou-se, contra a dictadura, nessa conju-
ração omnimoda c omnipresente da falsidade, nessa bor-
rasca sórdida, que escorre pelas regueiras das ruas, babuja
os tios telcgraphicos, e mancha a publicidade em tristes no-
doas torpes como o vomito dos cães. (Sensação.) O mais
puro (h s corações, a mais santa das almas, o mais incorru-
ptivel dos caracteres, a mais benigna das consciências...
Hcnjamin Constant, perseguido até ao fundo da sua pobreza
domestica pelo odio anti-republicano, careceu de vira pu-
blico com o caderno das compras de armazém, para desfa-
zer imputações abjoctas. (Sensação.)
Outros passaram por ter aceumulado fortunas, e sahir
do governo coma opulcncia de nababos. E todas essas in-
fâmias, absolutamente gratuitas, em cujo apoio não ha senão
boatos, conjecturas, diatribes tão perversas, quanto as que
as
29* APPELLO AO PAI/

a elegaucia dos círculos da moda verte sobre a reputação


das mulheres mais puras... todas essas vilanias, cuja vera-
cidade se poderia medir pela dos telcgrammas, que inun-
daram a Europa com a chronica quotidiana das confisca-
ções, dos morticinios, dos incêndios perpetrados pelo governo
de uma revolução que não interrompeu sequer por um mo-
mento o expediente do commercio e o transito das ruas...
todas essas vilanias não custam aos trapeiros da detracção
outro sacriticio mais que a taxa de alguns vinténs por linha,
com a segurança da impunidade absoluta, nos balcões,
onde, íí sombra do mais odioso estado legal, se pratica o
lenoeinio da penna, a prostituição da imprensa. (Senmição.
Longos applausos geraes.)
O tempo ha de passar sobre essas misérias, e laval-as,
como o oceano lava do lixo das praias a orla sempre alvejante
do seu azul. (Bravos.) Ha de afastar-se a resaea enlameada ;
mas ainda após ficará resoando o grito do nosso protesto e do
nosso desafio, que endereço á justiça dos meus concidadãos,
abrindo-lhes todas as paginas da minha vida politiea, todas
as paginas da minha vida intima {applausos)... desafio, pro-
testo, grito da consciência revoltada, que eu poderia traduzir
nestas palavras de Cavour, cm 1852, ao parlamento italiano:
"Desde que entrei na carreira politiea, aprendi a supportar
as injurias, as ealumnias, as insinuações malignas; des-
prezei-as no começo, quando vinham das praças, e tinham
por interpretes ignóbeis jornaes; hoje não as desprezo monos,
quando se levantam dos bancos dos negociantes e dos
salões dourados." {Bravos. Palmas geraes nas galerias e
no recinto. O orador-é abraçado p?h presidente dosena lo,
pelos senadores presentes e mais circumstantes.)
MANIFESTO Â NAÇÃO
A NAÇÃO

Acabo de resignar a cadeira de senador |)cla Bahia.


Ounpre-ine dar ao pai/ os motivos dessa deliberação.
Em rigor os poderes do nm (Vmgresso, constituido
sob um regimen eleitoral do exoepção, deviam terminar
com a votação da lei, que désse ao eleitorado plena liber-
dade de voto. Inaugurada ella, a seriedade nas institui-
ções republicanas pediu que o mandato político se fosse
retemperar em fontes, cuja pureza não pudesse soffrer
duvida. Não desconheço, todavia, que essa solução não
estaria de accôrdo com as disposições da carta federal.
Ksta quer e determina que o Congresso Constituinte,
convertido em assemblía ordinária, preencha a duração
normal das legislaturas. Não faltaram, talvez, sólidas
razões, de louvável previdência, para que tal se prescre-
vesse. A renovação geral do Congresso, logo no terceiro
anuo da Republica, antes de serenadas as ondas revolu-
cionárias e despojado o executivo dos elementos extraor-
dinários de força, oom que a agitação o arma, teria como
«02 MANIFESTO

con^eqúfiifia (.Ithinovalizar as uovas institniço^selcifiinKí-


no seu primeiro ensaio. L'ma opportunidade desse valor
para as paixões do poder animal-o-hia a sacial-as fran-
camente nas urnas ; e o paiz, depois de atravessar mais
uma commoção violenta, lucraria apenas outras decepçõt?
políticas, sem vantagens reaes, que as compensassem.
Pesados e confrontados, pois, os bens e os males de
de um e outro alvitre, parece-me indubitavelmente supe-
rior o que mantím o Congresso aetual, com todos os sen>
vicios de origem, cm vez de aventurar-nos a experiencia-
inccrtas e mal agouradas, no meio de uma crise em que
tudo favorece a mais luxuriante vegetação de abuso-
ofliciaes. As máculas originaes deste Congresso não inte-
ressam a sua independência ; porque apenas o ligam a um
governo, que hoje só existe na historia. Mas as do que se
elegesse sob o governo actual, naturalmente inquinariani
a nova legislatura de allianças,compromissos e dependências
para com este.
A minha posição, porém, é especial. Membro do
governo que presidiu á eleição deste Congresso, não posso
continuar a considerar valido o meu mandato, dej o s
da lei que declarou inelegíveis os membros do governo.
Bem sei que o alcance da incompatibilidade não é rc-
troactivo. Juridicamente, legalmente nada me obriga a
este passo. Alas, moralmente, a incompatibilidade é ma-
nifesta.
Essa incompatibilidade funda-se cm um alto prin-
cipio liberal. Eeu, habituado a pôr os priucipios acima de
tudo, não sei illudil-a.
A elegibilidade dos membros do Governo Provisório
á primeira representação nacional da Republica tinha o
A' NAÇÃO 303

{•eu fundamento em considerações da mais alta necessi-


dade. Esse Congresso devia julgar a obra política, a
obra administrativa, a obra legislativa da Revolução : e
na defesa da dictadura sob essa tríplice face ninguém nos
podia substituir. Esse Congresso trazia a missão dc dar,
ou negar, o assentimento do paiz ao projecto constitucional
do Governo Provisorio, a que se não devia, portanto,
fechar a tribuna, onde ia debater-se a grande causa.
( oncluida essa dupla tarefa,cessava a legitimidade da nossa
IKTmanencia alli. Mas também deixarmos os nossos lo-
gares antes de organizado o systema eleitoral, seria subtra-
hir ao eleitorado a opportunidade, que, pela reforma, lhe
poderia advir, de exercer a sua soberania em condições
vantajosas.
JVahi o meu proposito, que não assoalhava, mas que
os meus amigos conheciam, de renunciar as fuucçôes de
senador, logo que a nação possuísse uma lei de eleições
menos suspeita do que aquella a cuja sombra fomos
nomeados. E a esse intuito me cingi sempre, não obstante
as ponderações, com que espíritos desinteressados e repu-
blicanos buscaram demover-me.
Para condescender com elles, poderia encontrar os
mais honestos pretextos. Mais do que isso, tinha, para
me animar a não abrir mão da honra, que os meus con-
terrâneos me conferiram, a cousoleneia limpa de quem,
membro dc uma dictadura poderosa, não extrahiu delia
o menor recurso, para influir sobre os resultados elei-
tora es.
Não fui candidato, declarei peremptoriamente, pela
imprensa, que o não era. Particularmente, me abstive de
interferir, directa, ou indirectamente, em assumptos, que
304 MANIFESTO

pudessem interessar o pleito. Toda a minha parte uu


eleição se reduz í\ indicação, que fiz, do dons nomes, a. s
quaes só me ligava a simpalhia pelas suas qualidades
patrióticas : o do dr. Cândido Barata o o do coronel
Dyonisio Cerqueira, ambos aeceitos com applauso ; não
prevalecendo a candidatura do primeiro, por haverem li'a
reclamado, como questão de sua honra, os republicanos
desta eapital. Eu não tinha, pois, que me acanhar, deaiitc
do mim mesmo, da cadeira que occiqiava ; e, para não
me envergonhar delia ante os meus concidadãos, bas-
tava a notoriedade dos meus hábitos de desambiçãe
politiea e a evidencia do distanciamento, em que com o
maior escrúpulo me mantive na luta eleitoral. Mas
reservar-me hoje a posição privilegiada de senador, eleito
quando ministro, em contraste com as instituições repu-
blicanas, que não pcrmittem aos ministros actuaes clege-
rem-se senadores, é tolerância, éexcepçâo, ó mercê, que o-
meus sentimentos não supportam.
Porque eu tenho a desgraça de não pertencer á escola
política, cujo único dogma inalterável é odes principies
íurta-côres, com um matiz para os nossos amigos c outro
matiz, opposto, para os que não são. Essa escola acredita
que a occasião ê a mãe da verdade política ; eu estou con-
vencido, pelo contrario, de que a verdade política está
acima das occaslões.
Eis porque devolvo ao eleitorado bahiano o diploma,
tão generosamente liberalizado por elle ao menos digno
dos seus eompatrieios.
Para satisfazer ao meu intento, irrevogável mente
assentado ha muito e ha muito communieado a quantos
commigo entretêm relações, aguardava apenas as resoluções
A' NAÇÃO 305
definitivas do Congresso no tocante á questão finan-
ceira. E, ainda neste ponto, obedecia a considerações
superiores de decência política. Essa questão prendia
direetamente com a minha responsabilidade pessoal; e
não me ficava bem deixar suppor que me faltasse cora-
gem de enearal-a rosto a rosto, no plenário parlamentar.
Agora, porém, que a minha justificação está conduida em
três discursos, com uma amplidão, e uma integridade que
me dispensam de tornara ella,já não tenho nada, que es-
perar ;— tanto mais quanto as paixões politicas, insufla-
das por certos elementos offieiaes, ou offieiosos, apodera-
ram-se do problema financeiro, condemnaudo-o á inso-
lubilidade.
Deixando hontem 1 o recinto do senado, por não
contribuir para a consummaçâo de uma calamidade
publica, não capitaneei um movimento colleetivo, um
conchavo, um pacto de destorço. Obedeci meramente a um
impulso imperioso do dever. Si outros senadores concor-
reram no mesmo procedimento, é porque outros sentiam no
fundo da sua consciência a penetração da mesma força.
O debate, que se encerrava, deixara evidente que o
projeeto apadrinhado naquella camara com a recommen-
daeão de ofticial é um monstruoso desafio á honra dos
contractos, um assalto ã algibeira particular, uma vio-
lação palmar da Constituição republicana, (pie assegurou a
fé dos actos do governo e o direito de propriedade. Fi-
nanceiramente nós o caracterizáramos como a mais estu-
penda loucura, a ruina do paiz, o desmoronamento do
seu Credito, o mais temerário sacrifício da fortuna publica

1
Aos 19 de janeiro de 1892.
39
â06 MANIFESTO
e da fortuna particular, immoladas á satisfarão do paixões
imprevidentes e irresponsáveis.
Ia manha razão tínhamos, na severidade desta apre^
ciayào, que os autores da tentativa, corridos delia, oq
reconhecendo os perifios da sua insistência, surgiram d^
noite ])ani o dia, com outro projecto, quando um dos seus
prineipaes signatários ainda moirejava, na tribuna, em
defeza do primeiro. Afãs essa innovação era a]ienas a wik
sagração do mesmo regimen, dissimulado e aggravado eotq
o arbítrio, que conferia ao governo, <le salvar os interesses
dos grupos bem vistos á aetnalidade, e arruinar os demais,
applicando a cada instituição de credito, envolvida no pro-
blema, uma medida diflferente.
Para dar a vietoria a e-wi combinação odiosa, lan-
çou-se mão de meios, que a venerabilidade daqnella casa
devia vedar. Xào creio que o governo da Republica se
envolvesse nas captações, que a bem do rninoso projecto
empregaram. Mas a verdade é que se desenvolveu alli uniu
cabala quasi de assembl6a parochial; e que ella, para abalai-
os tímidos, não hesitou em assegurar, nas confabnlações
particulares, que a questão é essencial mente politiea aos
olhos do governo, e que este ilcmaniel/trin n polifu-d (hm
Kttiudo*, cujos representantes não suflíVagasseni o projecto
bafejado pela administração. Hão de contestar estas reali-
dades inconfessáveis. Mas eu as affirmo ao paiz sob o mais
solemne dos juramentos. E apjicllo para os membros da
minoria, esjrecialmente para o sr. Amaro Cavalcanti,
testemunha visual e aurieular das promessas e intimações,
com que alli, nos corredores do senado, se trabalhava
pela salvação do capricho offieial.
Nunca dei motivos, para incorrer na capitulação de
A' NAÇÃO 307
opposicionisnío ao governo, cujo chefe tem da minha
amizade provas, que s. ex certamente não recebeu de
alguns dos seus mais grados e afbrçnrados agentes aetuaes.
No senado não fui opposicionista. Não havia opposieio-
nistas no senado. Si os houvesse, não tefiamos votado,
hontem mesmo, a autorização dos créditos supplementares,
as leis de eonfianya financeira, <pic demos ao governo,
«em 'lixcnwào, Mas não nos era possivel sanccionar eom a
nossa assistência a perpetrayão, apparelhada jwr taes meios,
de um attentado, a que só quadraria |)or epigraphe o
lemma prondhonesco de que " a propriedade é o roubo".
Era, para nós, um caso de consciência. A retirada era
o único meio, que tínhamos, de evitar o esbulho planejado.
Si uma parte do senado ponde abster-se de comparecer á
sessão extraordinária sem motivos conhecidos, não inci-
dindo por isso em censura, não sei porque outra parte não
terá direito de ausentar-se, quando para isto militam funda-
mentos desta gravidade.
A moralidade nacional carecia deste ultimo protesto.
Kllc recebeu a mais solcmne consagração republicana com
o concurso do sr. Saldanha Marinho, que comuoseo se
retirou, resistindo aos affagos da cabala, que, mesmo no re-
cinto do senado, não respeitou, naquclla personificação quasi
sacerdotal da nossa democracia, a pureza das suas eans.
Era grave a forma, que a nossa rcacção revestia ;
porque gravíssima era a situação, com (pie tínhamos de
arcar. Para crises desesperadas, recursos heróicos. Esse tem
innumeraveis precedentes na historia das minorias oppri-
midas, cm todos os parlamentos do mundo, a favor das
causas mais patrióticas, das mais bellas, das mais coroadas
pelos acontecimentos ulteriores,
MANIFESTO

O decreto, que convocou a sessão extraordinária, não


indica (si bem me lembro), entre os seus objectos, a reforma
financeira. A representação nacional, talvez por isso mesmo,
não acudiu a elle, senão muitissimo desfalcada. O senado
está reduzido a dons terços dos seus membros. Vinte e dois
apenas são os senadores, que hontem se inclináram ao pro-
jecto Hamiro, contra vinte hostis a elle. A passar, pois,
esse projecto, Ijeneficiado simplesmente por uma difforcnça-
de dois votos, « main formidável de nosítax questões actuaes,
a que interessa o futuro inteiro da nação, estaria desas-
trosamente resolvida por uma fraoção de vinte e dois
membros, em um. senado de sessenta e ires.
A nossa attitude, pois, reserva á verdadeira maioria
do senado os seus direitos, contra uma maioria momen-
tânea, em assumpto que não podia ser ventilado senão pela
maioria real do Congresso, em reunião plena das suas
eamaras.
Evitando, pois, ao paiz a surpresa de um golpe de
minoria, como esse, não usamos simplesmente de um
direito : cumprimos o mais estricto dos deveres.
Aos meus collegas, de quem me despeço com sau-
dades, desejo a fortaleza de animo precisa á manutenção
do posto, em que se collocaram.
II

A necessidade de reunir documentos esparsos, de


verificar elementos históricos, (jue nem todos me estavam
ií mão, e extrahir as cópias precisas, demorou a minha
resposta ao sr. Ramiro Bureellos, que devia ser, como pro-
rnetti, positiva e completa.
E' occasião de desobrigar-me desse empenho, di-
rigindo-me agora ao paiz, uma vez que já não posso fallar
ao senado.
Declarei alli que a miulia réplica não tocaria na parte
inculcadamente financeira da oraçãodo nobre senador. Essa,
como os cacos de um espelho mil vezes reduzido a fragmen-
tos, refiectia apenas velhos rancores pessoaes e, quanto a
finanyas, a mera pretenção de s. ex. a conhece-las.
Nos termos do compromisso que assumi, pois, cabe-me
apenas revidar-lhe, no que toca a estes dons pontos: as
contradicções entre a minha linguagem de jornalista e os
meus aetos do ministro ; os factos da minha vida ministe-
rial associados ao decreto de 17 de janeiro.
Direi dos dous capítulos accusatorios, um após outro.
310 MANIFESTO

Mas, antes, não posso deixar dc agradecer vivamente


ao nobre senador a opportunidade, que o seu odio nu
depara, de liquidar miseráveis ballelas, com que, a case res-
peito, se joga, mais ou menos surdamente,contra o meu nome.
Pelo desabrimento da arguição e pela altura da tribuna,
onde se formulou, é-me licito, desta vez, dar-lhes a
troco, sem descer. Eu carecia de uma dessas provocações
francas e solcmnes, para poder entregar-me á minha justi-
ficação, com a plenitude e a clareza necessárias, sem incor-
rer em taxa de pretencioso, ou indiscreto. Bem haja, pois,
a implacabilidade do adversário, (pie me proporciona 0
ensejo precioso. Para esses involuntários serviços do ini"
migo ha também uma espccic de reconhecimento, a que
meu aggressor fèzjús.
Na opinião do nobre representante do Kio Grande
do Sul, a minha chamada á pasta da fazenda, no Governo
Provisorio, foi uma verdadeira conquista da minha cam-
panha financeira, no Diário de Noiicia*, contra o ministério
Ouro-Preto; entretanto que as reformas bancarias da minbo
administração, figuradas qnaes s. ex. as pinta, constituem "
repudio mais formal do meu programma opposicionista.
Falta insignemente á justiça o nobre senador, na*
suas objurgatorias. Nas paginas da dictadura republicana,
a que está ligado o meu nome, não tenho nada, que desdiga
da propaganda jornalistica, pela qual s. cx. me faz a honra
de snppôr que ganhei merecidamente as dragonas no go-
verno de 1 õ de novembro.
.Mantenho, ainda bojo, absolutamente as mesmas opi-
niões, rectificando apenas um erro, accessorio no caso, erro
sem alcance na questão, porque nenhuma relação tem com
osmensactos de ministério.
A" NAÇÃO 311

Xa rapifloz do improviso, qnc arrebata muitas vezes


a penna do jornalista, oseapou-me qualificar a faculdade
cinissoria dos bancos como delegação da faculdade emissora
do Estado.
Nesse enunciado, que o sr. Hareellos pretende levantar
á altura de um canon sagrado em fmanças, eommctti eu
realmente uma iadverteneia, do que mo aceuso. Mas esse des-
vio da verdade não envolve nenhum dos principies, sob a
invocação dos quacs combati o ministério 7 de junho, nem
interessa a nenhuma das reformas, que compõem a obra
finaueeira do governo de 15 de novembro.
Errei então, como s. ex. erra hoje, esposando o meu
erro daquellc temjw. K, para se convencer disto o nobre
senador, bastar-Ihe-ha compulsar ura livro aeccssivel aos
menos ricos em leituras econômicas : o Diceionnrlo das fi-
nança*, editado por Léon Sav (Paris, 1880), onde, novol. 1,
jmg. 207, encontrará estas linhas:

" Xo conjnnrlo rias operações de um banco, a emissão de nolas


representa apenas um pape! subordinado, como complemento de
urna bmcçâo mais essencial, servindo essas notas para facilitar a
circulação dos tihilos coinincrciaes. Oamipnrnr e*«(i finti/dadr à W'
runhor moerln. nó porque, nqiiellu tende a substituir o numerário, <
eummetter mn erro grosseiro, é rlesrnn/ierer ei funeção dos notas ile
bnneo. Eslas podem substituir temporariamente a moeda, apezarde
não constituirem numerário. Ifohi o titulo erroneo, que se/het np-
ji/icn, de papel-moeda.''

O interessante é qnc esse erro ee< nomieo frerteuoe es-


pecialmente ás tradições da escola opposta áqnclla, cm
<|U(- inenlea militar o meu antagonista. E aqui, cm compro-
vação do meu asserto, chamo a attem.ão dc s. cx. para
outra obra classica, ainda mais recente: o Novo J)iceionario
.'{12 MANIFESTO
de Economia Político, de L. Say c J. Chaillev (Paris
onde, íí pag. 148 do vol. 1. se lhe offerèceríí esta lição :

" Wolowski e outrox adepto» do monopólio diligenciaram p,-,,-


em voga. corno principio, o pensamento de que a emissão de notas
ao portador e á vista não é um aoto de commercio. mas nm aelo ,te
governo."

De onde evidentemente resulta que o meu eontradietor


me flagella exactamente pelo que me devia merecer
seus louvores : o ter-me reconciliado com um principio eco-
nômico da escola liberal.
Mas, como quer que seja, o credo financeiro, que ou,
a esse respeito, adoptasse, fosse elle qual fosse, nenhuma
ligação necessária tinha com os defeitos, pelos quacs con-
dem nei os favores do império ao Banco Nacional, ou com
as condições em que o Governo Provisório assentou a or-
ganização do Banco da Republica.
E'com os proprios textos que vou certifiea-lo.
O que eu reprovei no contracto do ministério Ouro
Preto com o sr. de Figueiredo, f«)i a abdicação perpetua d,,
direito de emUtir papel-moeda, outorgada por esse ajuste ao
Banco Nacional. Sustentei que o Estado não devia, nem
podia dernittir de si por tempo iIlimitado essa faculdade
essencial a todos os governos.
Sustentei-o, e ainda hoje o sustento; porque ou se
estabeleça o regimen da liberdade bancaria, ou o da circu-
lação entregue a certo numero de estabelecimentos privile-
giados, ou, emfim, o da absorpção delia em um só instituto
central, — a emissão permittida aos bancos não se con-
funde com o papel do Thesouro, nem destróe o direito deste
a esse recurso em casos extremos.
A' NAÇÃO 318
A (r)ausuln qne cn dennnoiava como unia das pedras
de i >< andalo nocontracto Celso-Figueiredo, era aquella cm
qtioo governo se compromettia " a não kmíttiií papki.-
MOECA, emquanto pttrahseo banco nacional".
Era presença dessa cstipulaçâo, disse eu no Diário de
XoHdfí* de de outubro de 18KÍ) :

A prevalecer esta clausuta do ajuste entre o visconde de Ouro


Preto e o visconde de Figueiredo; a haver parlamento, que abstraia
do todos os seus deveres, ao ponto de subserevel-a, poder-se-ha con-
siderar rnncdiadu para semprr, dentre as faculdades orgânicas do
Fstado entre nós, o uso desse recurso financeiro.
" Tanto importa a renutida indefinida,, quealli se exara, sob
uma eondiçâo que eqüivale a ausência total de limites ; porque a
exislencia deste banco, beato entre os bancos, não ha razão, para que
não seja secular, plurisecular, malhusaleniea, empnlgndtt assim por
elle, em virtude desta mercê incomparavel, a situação omnipotente
de regulador soberano no organismo das tinanças uacioEaes.
"Por mais nocivo que seja o papel-moeda no seu emprego ordi-
nário, nas suas conseqüências babituaes, não hu governo, que possa
rtí|)udia-lo sob uma fórmula explicita ou implicitamente absoluta.
Motivos de necessidade financeira o vedariam, quando o não
vedassem necessidades de natureza conslítüeional, inherentes á
vida orgânica do Estado, á sua autoridade indesfidcavel. Formais
triste que seja a historia do curso forçado, em todos os paizes, ainda
naquelles que tragaram ate ás fezes a taça de calamidades aecu-
muladas pelo seu abuso,—impossível seria desconhecer-lhe, não
diremos só a utilidade, mas a imprescindibilidade fatal em etner-
geaeiasdas mais melindrosas na existência dos povos modernos."

No editorial de 2 de novembro escrevia eu :

" Em cinco annos, segundo o contracto de 2 de outubro, deve


estar eoneluido o resgate do papel-moeda. Mas a renuncia do direito
dr emitirão pelo lidado, compensação, ao que dizem, desse serviço
e precaução para não o prejudicar, vigorará durante cincoenta, ou
40
;}14 MANIFESTO
quinhentos anim, eniquanto, em summa, subsistir o Banco Nacional,
Si é remimpraçSn. nnrlp a proporcionalidade entre pila p o offiojo
prestado ?"

Em outro logardo mesmo artigo se jmxluz a mesn^a


idéa:
"Nunca houve estabelecimentos desses, mesmo entre os bancas
de Estado, em proveito do qual mu governo se dexiipoHrnuiif inihqii,,.
drunente de tal prerogativa."
He outra vez me exprimia eu assim :
" domo compensação dos serviços que esse banco presta mi
paiz", a abdicação daprermjaihn de emUHr papel é um preço absurdii
leonino e monstruoso.
" Esse serviço já tinha a sua retribuição natural nos embols,,-
em ouro, a prestações trimeslraes, com os juros respectivos, que ,i
Thesouro paga ao banco pelo papel-inoeda resgatado, segundo o soo
valor nominal. Em cinco annos deve concluir-se esse processo. Fqr
que carga d^gua, ullimadn elle, ficará o governo privado ínter»»;-
iiarrhnrule do direito de emittir papel-nuieda? Seria atlribuir a mo
serviço passageiro a força de estabelecer vínculos de obrigação
i nesga laveis e isso. ile mais a mais. tia ordem superior dos inlereç.
ses do Estado."

O IHavia dr Noficlo», no dia 1 do novembro, insistia


sempre nessas considerações :
" Como nos responde o nosso eminente contradictor? Leni-
tirando que, com a instituição do Baneo Auslro-Hongaro, coineidiu
a promulgação de urna carta patente, na qual se declarava que o
Governo não poderia pôr mais cm circulação papel •moeda, augmcii-
tando por novas emissões a sua quantidade existente.
" Que alcance, porém, tintia esse acto ?
" Era uma alienação perpetua tio direito de erniltir pelo Estado ?
Era a abdicação dema prerogativa V Nunca o entendeu assim o go-
verno austríaco, que não via naquelle enunciado obstáculo» a noras
A" NAÇÍO
riniii»õ'M i/e piifiel, mupre que a* cireumutaneia» o coagiam a eme ae-jw-
dien/f. Entendeu-se, |«)is, sempre nlli. que a fórmula da carta patente
de 1817 envolvia apcuat uma promcma fem/ioraria, cujo termo de
duração ficava commettido á prudência e honorabiijdade do poder
publico."
Adeante voltava eu ao mesmo jrensaniento, nesse edi-
torial :
" Temos aqui unia cktMtula de eontraHo, estipulada ad perpe-
tiium, isto é. uma obrigação irrevogável, emqitanfo a outra parte não
o permittir. "

Jfem podia liaver a mininia confusão, quanto ao ver-


dadeiro sentido das minhas palavras, desde que eu, no
artigo de .'50 de outubro, as defini com esta discriminação
precisa :
" Nunca se negou, nesta folha, no Estado, o direito de delegar
a em ,'mão de, certa eepecie de papel. 0 que lhe reemámoe, é a compe-
tência de ''abdicar" esta faculdade. Dessa expressão nos servimos :
nunca de outra. (.Ira. entre abdicar c delegar medeia o intinilo.
I)'entre as duas idéas. u primeira exprime a renuncia ao direito: a
segunda, a renuncia ao uso temporário delle.
'■ Esta traduz uma transmissão passageira de autoridade, um
mandato transitório; aquella interessa 0 direito mesmo, alienando-o.
A nação delega nos seus deputados, mas não abdica nelles. O mo-
narcha resignaiario não delega, abdica no seu successor. Será, si
quizerem, urna delegaçãoo faculdade, liberalizada a estabelecimentos
bancários, de eraittír moeda fiduciaria. Mus o Estado não abdica
nisso o seu direito.
"Abdica-o, porém, si se privar, por illiniiindo tempo, ou para
semj/re, da attribuiç&o de emittir essa especie de moeda."

E dessa demasia, que eu p roí ligava no contracto com


o Banco Nacional, está rigorosamente eseoimado o regimeu
do Banco da Republica.
316 MANIFESTO

Com effeito, a cliuisula õ! do contracto de outubro (]o


1889 rezava assim :
" O Omerno oomprotiielte-se a não emittir papd-tnoedn, emqunnto
durar o Bnneo Nacionat. "
Pira a abdicação formal, pelo poder publico, do direito
de emittir papel-moeda.
Yêde aifora a di tf'crença entre essa disposição e a (pie
lhe corresponde no decreto de 7 de dezembro de ! 8!)(>
(art. 39 § 29), (pie creou o Banco da Republica :
" Durante a existência deste não poderá o go verno concede,- ,1
outras instituições de credito o direito de emittir. "
Assim, pela medida, que eu verberara, o governo se
despedia da attribuição de emittir, ao passo que, pelo de'
creto (pie eu firmei, apenas se obrigava a não repartir com
outros bancos a faculdade emissora. A prerogativa ma-
gestatiea, que no primeiro caso se sacrificara, no segundo
se salvou completamente.
E' mister, pois, não ler esses dois textos, ou ter in-
vertida a refina intellectual, para descobrir incongruência
entre a rainha penna e os meus actos.
Assim fosse justa c lisa a alma dos que me detráem,
como 6 profunda e invulnerável a cohcrencia entre o mi-
nistro das finanças de lõ de novembro e o ex-redactor do
Diário de Noticias.
m

Para me oonveneerem de contradictorio na minha


política financeira com o meu passado jornalístico, ima-
ginaram os meus desaffeieoados propalar que eu, na luta
contra o ministério Ouro-Prcto, advogara a liberdade de
emiasão.
E' uma falsidade palpavel, grosseira, que se meirroga.
Nunca advoguei em principio a liberdade bancaria. Sus-
tentei apenas que o poder executivo não tinha direito de
annullar a pluralidade da emissão, firmada, entre nós,
nas mais emphaticas disposições legislativas.
A lei de 24 de novembro de 1888 estatuirá o re-
gimen pluralista, permittindo a emissão de notas ao por-
tador, conforme o exemplo americano, em condições
iguaes, a todas as instituições de credito, que satisfizessem
a certas c determinadas condições. O regulamento de 5
de janeiro de 1880, promulgado sob o ministério João
Alfredo, e o de fi de julho do mesmo anno, decretado sob
a referenda do proprio visconde de Ouro-Prcto, desen-
volveram a lei de 24 de novembro, preparando-lhe a
G18 MAXIFKSTO

cxpcução para os l>ancos de lastro metallico e paru or-


bancos do lastro em valores fiduciarios.
Era a polyemissão, ])OÍs, o (pie vigorava, por loj.s c
regulamentos. Eis senão quando o eontracto do retoap-
vem conceder ao Banco Nacional a emissão com privp
legios taes, que eqüivaliam, para elle, á outorga de uni
verdadeiro monopolio, impossibilitando a concurrencia,
que não pode existir, senão entre instituições igualmente
favorecidas, ou subordinadas todas ás normas eommtvns.
Então combati o monopolio emissor, com (pie Sl.
agraciara o banco Figueiredo. Mas como o combati ?
Negando acaso a superioridade da monoemissão, em
theoria, ao systema da pluralidade? Não. Demonstrando
simplesmente que não estava nas mãos da coroa substituir
pela fôrma de sua preferencia a que o legislador ostaln*-
lecera, e o governo regulara.
Numa discuti a quadão de doutrina. Chi f/i-mr
sempre rn!reiiamente à questão de legididnde.
Querem a prova? Eis as minhas palavras, no
Diário de Noticias de 11 de outubro de 1 HHÍt, sob o
titulo Bancos de emissão :

" A i/MeKtã», a mmo ver, é puramente de legalidade. E ti ida a


confusão que a turva, nasce exactamente do artificio, admiravel-
mente utilizado por argumenladores destros, de entrelaçar a theoria
do direito constituendo com as noções de direito constituído.
" O acto legislativo de 24 de novembro de 1888 firmou o
principio da pluralidade, que o regulamento decretado pelo vis-
conde de Ouro-Preto definiu e precisou em termos, que excluem
palpavelmeule a concentração do direito de emittir nas mãos de
uni só estabelecimento, com preterição dos outros equiparados a
elle nas condições legae» de admissão ao uso desse direito.
" Nào vem ao caso o nosso parecer, ou u dos gue niilitam noutro
A* NAÇÃO 31 f)
c/tmpo, einquanto à matéria vertente, nobre a superioridade, ou infe-
rioridade scientifica dente regimen, em relação ao opponfo. O ponto
entá cm que o regimen entafuldn na lei é enne ; e não cabe no governo
o arbítrio de modijical-o. A guodão rjnridirn. e não econômica. E' ilf
interpretação, e não de administração.
"Si a lei é inconveniente, si nos aventura a perigos, si nos
arrisca a desaslres. si os seus defeitos são laes, que o governo se
julgue autorizado, por motivos de salvação publica, a lhe sobreostar
na execução, nesse caso a suspensão dos seus effeitos ha de ser
geral. Mantel-a, porém, no tocante a um interessado, que ascir-
ciimslancias investiram primeiro na fruição dos seus favores, e
recusal-os a outros, a quem, nos termos desse acto. confirmado
pelo seu regulamento, não se podem furtar, seria virtualmente
fundar o monopolioá sombra de uma lei de liberdade.
" Força é que o eslado legai vigente ou aproveite a todos, ou
não aproveite a ninguém.
"O peior de todos os regimens economicos é o da excepção
deixada nu bel-prazer da autoridade administrativa."

>.'r) editorial de 80 de outubro, soba epigraphe O


Ikinco-Knfmlo, firmava cu de novo a ruesma distineção:
"O que alé agora temos dilo, é apenas que ella ( a escola
pluralista ) deu o molde á legalidade [Link], cujo principio de
liberdade não é decente converter em patente de monopolio, res-
peitando-lbe os etTeitos iinicaraente em pnU do afortunado, que
primeiro põz o seu chapéo á biea."

De modo (jue, cmquanto íí preferencia entre as duas


escolas, a da multiplicidade bancaria e a da unidade, ca
reservei sempre, no debate, a minha opinião, nàoa dei-
xando aequer entrever nnnca.
A andacia da illegalidade commettida é o que me
escandalizava, o qne cu |» roca rei evidenciar por todos os
lados.
Uni desses era a desigualdade entre a situação geral
■520 MANIFESTO

dos bancos emissores, no caso de pressão eonfi-


'ira as suas
notas, e a exeepçao com qne o contraoto de 14 (](,
beneficiou o Banco Nacional.' São minhas^ cut.. paJavi-iis
, "
no editorial de 28 de outubro :

" Vejam agora um contraste espantoso, pelo qual


se apresenta sol) outra face. Eraqnanlo ao Esladi.
SC.> VPiln m—.
petua e peremptoriamenttí o curso forçado, seja qual for
or a
das extremidades, em que se veja, seja qual for o ([Link]^a
^espero 4as
contingencias, em que agonize, ao Banco Nacional bastam circinji-
stancias vagas, e latissimamenle enumeradas no cot.)-„ . .
"uiracio, lias' in
mesmo cn-cumstancias dependentes, até certo ponto ri» i ■, ■
•interessado,
i , para que ns suas notas desfruetem as .. arbítrio . do
,
curso forçado. vantagéng do
"Diz, com effeito, a cscriptura celebrada, aos 2 d..oi
directoria geral do contencioso, cláusula 81:
" Os bilhetes do Banco Nacional do Brasil serão sem.
j a» vista
dos . por moeda de ouro, de que trata a clausnln
' »t?inpre 1, rocít-■
uia Ai«
. , :«« salvo os
caso* de guerra, ou reroíwfao, crise política ou kinanceihv
o governo providenciará, quanto ao troco, como for mais , I
uiente."
" O decreto legislativo de 24 de novembro do 1884, assento da
matéria ( art. 1? ?llh), estatuo: "Reservar-se-ba á companhi
na bvpothese de corrida dos deposit&ntes em contaci vAirreiue
pnr* para
retirada immediata das quantias depositadas, o direito de pagai as
por leiras, que vencerão o mesmo juro, divididas ei , „seis ; sitics
correspondentes, quanto for possível, á ordem chronolngicu d»
requisição dos depositantes, e successivarnente resgalaveis de lã
em 15 i!i s. de modo que, ao cabo de 90 dias, volte o Banco ao ri"''
men ordinário dos pagamentos."
"Com o Banco Nacional, porém, as cousas passariam diver-
samente.
" Uma corrida contra o grande estabelecimento de emissão na-
cional assumiria, com pouco esforço, as proporções de uma eme
financeira, e immediaiamente os seus bilhetes perderiam o direito
de conversão á vista em moeda metallica. Porque será, pois. que
A- NAÇÃO 321
emquanto os bancos dessa espocie, em geral, para gozarem o favor
estipulado no artigo sopra transcripto, carecem de disposição legis-
lativa, o Banco Nacional não necessitará mais que a benevo-
lência do presidente do conselho, para suspender, quantas vezes
lhe convenha. o pagamento em ouro das suas notas? "
Outro aspecto de questão Juridiea, & qual rac adscrevi
sempre, evitando systcmaticamonte a questão eoonomica,
era a uullidade do eontracto do resgate, que eom este ra-
eioeinio procurei demonstrar:
"Felizmente, porém, esse conlracto é nullo de seu principio,
nullo desde o momento de sua celebração, nullo por uma grande
razão exlrinseca a elle. mas que preliminarmente o invalida. A lei
de 24 de novembro, realmente, no art. 9? preceitúa:
"Poderá o governo conlractar com alguma das com -
j,an/i ias, que se organizarem, na conformidade da
presente lei, o resgate do papel moeda."
"Determinou, portanto, o poder legislativo que as negociações
sobre o resgate não se encetariam com estabelecimentos particu-
lares. senão quando a existência de mais de uma companhia
emissora babililasse o governo a eleger, dentre vários concurrontes
a proposta mais vantajosa ao Tbesouroe ao paiz
"A mesma lei, que assim, com effeilo, se exprime, no art. 1?
f, 2". a tal rcspeilo. —prescreve, qtinnio aos bilhetes, no ? 1?, n. V,
du mesmo artigo:
recusa de pagar á vista e em moeda corrente
os bilhetes dá direito ao portador de protesto pelo
não pagamento, e constituirá fundamento legal para
a decretação da liquidação forçada da companhia."
"E o regulamento de 6 de julho do corrente anno, que já per-
tence á administração do visconde de Ouro-Preto, inclue entre os
.•usos de dissolução e liquidação forçada, para os bancos de cireu-
laçfio (art. 28 n. 10), o de:
" Deixarem d" pagar os seus bilhetes á vista e em moeda me-
lalliea
" O conlracto é crassamente ullenlalorio da lei.
322 MANIFESTO
" O renicdio peto rurso/orçaio contra ewl» ronjunclurn* cli>nafc.
rim* e ife»e*peradn» no mercado nacional í matéria de compefe)iría
legislativa, resoluvel cm rada opportunidade, e mi qual as respunsnbj.
Udadrs, que, sob a pressão de urgência irresistivel, houver de assumir „
poder executivo, dependem de saneção parlamentar." ( Diário de X0
tidas, l de novembro de 1S8!(.)

Ponho á disposição dos meus accusadores a eolleoçà0


completa dos meus cseriptos financeiros no Diário <1,.
Noticia», devidamente colleocionados, para lhes facilitar :i
leitura; c desafio a que me apontem, nelles, nm toj)i<-(,
uma phraso, uma palavra de adhesão a uma das diuis
escolas, que neste problema se debatem. Nunca deixei
transluzir sequer o meu juizn entre a solução da plurali-
dade e a da unidade. Eu tinha, pois, a liberdade mais
plena de escolher, no governo, entre os dois alvitroa
oppostos, sem nenhum compromisso anterior, (pie me
ligasse a algum dellcs.
Pelo que toca ao resgate do papel-moeda, a critica
articulada por mim, na imprensa, contra o convênio Celso-
Figueircdo, pôde resumir-se nestas palavras da Revista tios
Doas Mundos, que adoptoi por thema ao editorial de 17
de outubro :

" Acaba de concluir o iniperio do Brasil, com um grupo finan-


ceiro da Europa, uma importante operação, cujo objecto é extin-
guir o papel-moeda brasileiro.
" Aliás este papel-moeda, que se adia no par, não devia ser
incommodo actualmente ao governo dnquelle paiz.
" Esse governo, entretanto, resolveu substituil-o por uma divida
sujeita a juros.
" Eis a combinação, a que deliberou recorrer. 0 grupo financeiro,
com quem tratou, tem por centro o Banco de Paris e dos Paizes-
Baixos, estabelecimento que se comprorneüe a crear, no Brazil,
A' NAÇÃO 323
um banco nacional, com o capital de 2õ0 milhões de francos, dos
i)unes 150 milhões serão realizados. Acba-âé o banco investido no
privilegio de emiltir bilhetes em somrna equivalente ao triplo do
seu capital effecfivo. Poderá, portanto, emittir cêrca de 150
milhões de trancos, importância mais ou menos exacla do papel-
inoeda do Estado, cuja retirada se pretende.
"O Banco Nacional substituirá pouco a pouco (concedendo-se-
Ibe para tal fim um prazo de cinco annos) pelos seus bilhetes os
do Estado, recebendo, a troco destes, á maneira que os for entre-
gando ao governo, tanto pelo tanto, e ao par, títulos públicos ao
prêmio de 4 por 100. Encerrada a operação, sobre ura capital
empregado de 150 milhões, achar-se-ha o Banco em posse de uma
renda de primeira ordem, de 18 milhões. Bem percebemos o que
nossa transacção logra o Banco Nacional e o sen grupo. Mas o que
não atinamos bem, é a vantagem que d'abi espera colher o
Brazíl. "

Ifaverá incoiisoqncnoia entro a ininlm oppugna^üo a


osso contraoto o os termos em quo ao Banco da Republica
incumbi, jrclo decreto dc 7 dc dezembro, o resgate do
papcl-moeda ?
Evidentemente, não.
Com cffeito :
Pelo contracto Onro-Prcto, o Ranço Nacional res-
gatava 180.000:000$ dc papel, e adquiria, em troco,
180.000:000$ cm apólices dc 4 em ouro.
Pelo decreto de 7 dc dezembro, o Ranço da Republica,
por 180.000:000$, que havia dc resgatar, recebia, apenas
« terça parte, ou 60.000 cm títulos desse lypo.
No termo da operação, o Estado teria contraindo,
em substituição de uma divida sem juros, um compro-
misso annual de 7.200:000$, c o Banco Nacional adqui-
rido a propriedade dc uma renda annual de 7,200:000$
cm valores do Thcsouro.
324 MANIFESTO

Ao passo ipie, paru o Banco da Republica, o mesmo


serviço, o resgate da mesma somma dc papel recebia em
remuneração a terça parte apetui* dessan vanfar/ra*, a saber,
uma renda animal de 2.400:0ü0§, rctluzindo-se a esta
quantia, para o Estado, os ônus, (pie no contracto imperial
subiam ao triplo.
Onde está, pois, a identidade entre os favores con-
cedidos por mim ao Banco da Republica c os prodigaliza-
dos pelo ministério 7 de junho ao Bauco Nacional ?
Longe de [contradizerem-se essas duas phases da
minha vida,—em tal harmonia estão, ]K'lo contrario, uma
com a outra, que as opiniões emittidas na primeira pare-
cem, ás vezes, presentimento quasi divinatório das que,
na segunda, tive dc praticar.
Ura dos peecados, dc epie mais carga me fazem hoje,
|H)r exemplo, <; o dc não acreditar no plano da conver-
sibilidade do meio circulante, esboçada pelo visconde de
Ouro-Preto, o dc negar a possibilidade do'regimen metal-
lico entre nós, cmquanto se não cnriipiecer de forças pro-
duetoras o organismo economico do paiz. Pois bem : essas
convicções, defendidas por mim quando ministro e depois
de ministro, são identiaamente as mesmas, com <pie, jorna-
lista, eu combatia as vistosas fantasias do ultimo gabinde
imperial.
Vou transcrever do meu artigo de 17 de outubro,
"As grandes operações", no Diário de Xofleias. Eis como
eu me pronunciava :

"A conversão do impei moeda só não a quererão os que lie"


não conhecerem o alcance.
" Mas está realizado esse "detideralum", simplesmente porque o
governo consegue, em um momento dado, substituir o pape! peto ouro 'í
r
?
A" NAÇÃO 325
O rijiiiliòrio monr/ario. pura *rr rdnrrl, fapcndf ewncia/mrnf.e
</'■ condi^òes ]>rofunda», ligada» ao dcienvolvimento rmiiomiro do pai:.
" Papel <■ credito; ouro é dinheiroy e não sr pujtsa do regimen do
n-rdito ao da morda, simpleriiieiitc porqur $r, retira da. circulação o
paprl, trazendo ao mercado, mediante operações financeiras, uma
corrente melallicn, ipie não encontre, nas condições reaes dclle,
alveo permanente.
" 0 ouro vão jiódr èoii»crrar-ir na circulação de um pai:, ri a
for/una piddica, isto é, a aceiimu/arão e a producção, o vão relem
nclle. Logo, si a situação da fortuna puhlieaé presentemente a mesma
qm» Ires mezcs atrás, seria desconhecer as leis fataes da realidade,
e acreditar no sobrenatural em matéria econômica, imaginar ope-
rada a conversão, unicamente por havel-a decretado o nobre pre-
sidente do conselho.
" Esse artluxo de ouro, que nos accorro do estrangeiro, em
busca de emprego, equilibrando-nos actualmente o cambio, repre-
senta. cm verdade, a mais prospera situação monetária, no
momento da operação. Mas todo elle vem empregar-se em em pre-
zas, cuja vida. para os capitalistas advenas, que alimentam, sé
traduz, na dupla fuurção de amortização e renda. Ora, eetar duas
nceeetidade» organieat exprimem uma rrcapa ronlimia de valores para
jóra do pai:, gae, si não se rmliearem mediante o desenvolvimento da
producção, aeahnrão por interessar, dentro em pouco tempo, o stork
rnetatUco, determinando, mais ou menos rapidamente, o esgoto do ouro
r o seu regresso à sua origem."

Alii está, prognosticado j>or mim, cm outubro <le


1880, o regresso proximo á Europa do ouro obtido
mediante a prestação transitória do eapitaes estrangeiros,
com que o ministério Ouro-Preto pôde emprchendcr a
magica de metallizar a nossa circulação, e aehar ingênuos
«jue lh'a acreditassem.
Isso, que se veiu a verificar depois da Republica, e que
os inimigos delia aproveitaram, para lhe infamar as
finanças, eu o provim, c vaticinara, antes da revolução,
326 MANIFESTO

entre applausos geracs. Sobre esses applausoe subi ca,


segundo o sr. Ramiro Rareeilos, ao ministério da fazenda.
E, quando as minhas prophceias s<! realizam, <> (pie se
|>odcria invocar em documento da minha previdência, 6
addnzido como prova da minha criminalidade. Ai des
]>ropheta8 !
Mas, ao menos, não faltem á verdade [Link]-
mettam os erros de apreciarão, que lhes convierem, mas
não me attribnam opinifies, que nunca foram minhas.
IV

(VM PAEESTUESIS)

S>ii «lirijpido :i ahril-o, ]«ira não deixar som as honras


m p('ccidas a gentileza, eom que me obsequiou o illustre
s|. senador Campos Salles, pelas minhas indiscrições, no
prpnciro capitulo <leste manifesto, ácerea dos processos alli-
clapTios ensaiados em apoio do grande projecto financeiro
contra a libeixlade de espirito do senado.
Afim de que os meus juizes tenham viva c perfeita
u iiuagem da minha imprudência, i-eproduzo textualmente
„ flagicio :
"Pura dar a vicloria a essa roínhinação odiosa, lançou-se mãos
de (neios, que a venerabilidade dnqnella easa devia vedar. Não creio
que opoverno da Iteputdira se envolvesse nas captações, que a bem
do íUÍnoso projecto se empregaram. Mas a verdade é que se desen-
volveu alli uma cabala quasi de assemhléa paroehial; e, para abalar
os tímidos, ella não hesitou em assegurar, nas confabulações parti-
culares, que a questão é essencialmente política aos olhos do governo,
que este desmanle/arfa a fio/iUca ilnn Ettado», cujos representantes
328 MANIFESTO
não sulTragasíwm o projecto bafejado pala administração. Hão de
contestar estas realidades inconfessáveis. Mas eu as affirmo ao paiz
sob o mais solemno dos juramentos. K appello para os membros d:<
minoria, especialmente para o sr. Amaro (lavalcanli, tcstenninha
visual e auricular das promessas e intimidações, com que alli, nos
corredores do senado, se trabalbava pela salvação do capricho ofli—
ciai."

Como se vê, roferindo-me u esse lamentável episódio,


cujas manobras todos nós presenciámos, e (pie não me era
possível commctter a covardia de oocultar sob as reservas
de um falso pudor,—fil-o sob a menos irritante das fôrmas ;
porque escoimei o governo do solidariedade na corrupção,
abstive-me de declinar nomes de corruptores, e não alfir-
mei que houvesse corrompidos. Nem creio mesmo que
os houvesse. Faço justiça aos senhores senadores. Mas,
como, a par da seducção, se jogava com o medo, podia ter
havido fracos. Entretanto, eu mo limitara a denunciar a
tentativa, sem insinuar que cila tivesse obtido conquistas.
Não existia, pois, nas minhas palavras, nada que descon-
siderasse a magestade senatoria, e muito monos que pudes-
se autorizar algum dos que a revestem a se receiar iudigi-
tado como o alvo de uma individuação maligna.
Entretanto, a minha linguagem, estreme de persona-
lidades, agastou o sr. senador Campos Sallcs, que, em
nome dos brios do senado, lui flnf fl pen prfo cr langiigr:

"Não queria o orailor tocar em s snclhanle assuniplo ; mas viu


hoje, em publicação assimilada por um distiucto collega, que se
ilevera attribuir aos amigos do governo n facto de terem procurado
exercer a cabala com ameaças ou promessas. Para desmentir íwhi
ralumnia, appella pura e simplesmente para os membros desta casa,
atim de que declarem alguns si ouviram uma palavra de ameaça ou
de promessa.
A' NAÇÃO 329
"Si houve tentativa de ameaça, ou de solicitação, ella não partiu
do lirrln dn orador. Foi ile nulrn Indo que ouviram todos alhtnõe» n
acmttecimentotfunetlo». qaepairaram na aimouphtra dn pais. Fal/oii-
uc ali nn revohirão,"

Diz-se que estas iclvas, animadas ]K'la eloqüência do


orador, ai ranearam lis cumes alguns apoiados. E esta eon-
fiideração ol)riga-me, para cornos applaudcntca, pelo muito
acatamento que devo aos srs. senadores, a uma explicação,
antes da (pie tenho de ter com o promotor do incidente.
Si ss, exs. me deram a honra de ler-me, hão de reco-
nhecer que a indignação do sr. Campos Sailes pela injuria
irroguda ao senado veiu tarde ; pois a minha indignação
precedera ã do nobre representante de S. Paulo.
O desrespeito ao senado está no ensaio do tratal-o
como matéria corruptível. Stygmatizar essa pretonção, não
é considerar o senado como susceptivel das fraquezas, que
os autores de tal emprehendiinento lhe suppunham. É,
jx lo contrario, vingal-o dos temerários, que o imaginavam
capaz de débil idades vulgares.
Disse-se, ao que me informam, cm apartes a s. ex.,
que o senado estava acima de taes suspeitas, ou de taes ten-
tativas, .Mas nem as suspeitas, nem as tentativas são minhas.
Eu não suspeitei de cousa nenhuma o senado, nem contra
elle tentei o quer que fosse.
Contra as suspeitas e tentativas, de que elle foi alvo,
clamei eu. Agora, si, como parece, o (pie os srs. senadores
queriam, é desmentir-me com o argumento de que, na altura
onde ss. eexs. pairam, não ha quem tenha o arrojo de levar,
nem por jiensamentos, uma experiência de allieiação,—si é
nisso o que ss. eexs. cogitam, então os honrados represen-
tantes da nação andam sendo victimas de uma teia de
42
MAiN 1 FESTO
aranha rlictorica, onde os mais humildes insectos já não se
deixam cahir. Por mais acima f|uc se esteja da corrupção,
ninguém o está dos botes dos corruptores. Pasta lembrar
ass. ecxs. que o diabo tentou subornar a Jesus Cbristo. Eu
creio que os honrados senadores não se hão de julgar inju-
riados com a comparação, creio que não estão acima delia.
E, si estão, que me perdoem. Xinguem reverencia mais do
que eu os santos logares do senado. Quero que seja um
templo. Mas qual é a profanação, a que a impiedade não
se atreve nas próprias naves sagradas, em presença dos
altares?
Acho que já não estarão mal commigo os srs. sena-
dores.
Agora nós, sr. Campos Salles.
S. ex. qualificou de calumnia o meu asserto. Depois de
mais de vinte annos de vida publica, entre aggressõcs de
toda a ordem, ó a primeira vez que cac sobre o meu nome este
baldâo vil. Através das mais injustas e das mais indignas
imputações, a minha veracidade nunca foi contestada pelos
meus mais baixos inimigos. Era preciso que eu fosse mi-
nistro da revolução e senador da Republica; era preciso
(pie a minha reputação passasse do pelourinho dos foli-
eularios mais desprezíveis para a tribuna do senado ; era
preciso que o aqnilatador da minha honra fosse um collega,
um collaborador, nm corresponsavel em acontecimentos que
deveriam estabelecer entre nós disposições de verdadeira
fraternidade política ; era mister isso, para que eu tivesse
de responder ao labéo de calumniador.
O castigo moral, que o sr. Campos Salles merece, não
lh'o inflijo eu. Ha de infligir-lh'o a sua consciência. Eu
venero a amizade mesmo depois deextineta. Eu ouvi dizer
A' NAÇÃO 331

sempre que o respeito á deliradeza de relações, como as que


entre nós existiram, é um dos elementos do caracter. Eu
acredito que o espectaculo de uma degladiação entre dois
membros do Governo Provisório seria desgraçado sym-
ptoma do tempo. Não serei eu, pois, quem dé esse es-
jtectaculo. Ainda ha dias, quando, em um discurso,
cujas opiniões fariam tiritar de assombro as tradições re-
publicanas, s. ex., como quasi ministro do governo, reivin-
dicava, para este, como conseqüência legitima da sua vi-
ctoria legalista, o direito de reagir violentamente contra a
legalidade nos Estados,—não n'o interrompi, nem lhe
repliquei. Agora mesmo me estou reprimindo, com todas
as forças da minha vontade, em presença tio seu discurso
de ante-hontem, para não discutir as proposições assom-
brosas, com que s. ex. justificou a indicação approvada
no senado como "moção de confiança politica ao governo"
e meio de habilita-lo a resolver a questão financeira,
isto ó, de delegar ao Presidente da líepublica funeções
legislativas. Não quero entrar com o meu companheiro de
revolução o organização republicana em debates, que a
paixão poderia invadir, expondo-nos á curiosidade do es-
cândalo, armados um contra o outro. Greia s. ex., a deceneia
(quando não sejam outras razões moraes) impõe-nos isto.
Limitar-me-hei, pois, a reiteirar a minha solemnis-
sima declaração, acima transcripta, e a oppôr ãs negativas,
que a contrariam, o testemunho, que eu invocara.
Na sua correspondência dada a lume houtem, o
sr. Amaro Cavalcanti espontaneamente se enuncia assim :

"Seja, porém, ou na tribuna duquella casa (si tal me for por-


miltido ainda), ou na imprensa, espero ter occasião aeada, para
332 MANIFESTO

demonstrar de que lado está a verdade e a razão nesse desagra-


dável incidente
" Havia escripto estas linhas, quando li o manifesto do sr. Ruy
Barbosa, eujo conteúdo é, sem duvida, " jiropria verdade dos faeto»,"

Ignorando «juo o nobre senador, independentemente


de provocação minha, pretendesse fazer essa publicação, eu
dirigira-lhe esta carta:
" Exm. sr. senador Amaro Cavalcanti,
" No meu artigo de hoje me refiro a v. ex., de cuja boca ouvi.
em presença de outros collegas, a narração das circumslancias, a
que alli atludo. A bem da verdade, e sob a sua honra, appelto
para o testemunho de v. ex. em confirmação do meu depoimento;
e espero que me honrará, a este respeito, com a resposta, que a
lealdade de seu caracter me assegura.— De v. ex.. etc.— fíoy
Barbosa. — 20 - 1 - 92."

A resposta do honrado senador polo Rio 1 ira ode do


Norte foi esta;
" S. G. 1 de janeiro de 1892.
" Amigo dr. Ruy Barbosa. — Antes de ler o vosso manifesto de
hoje, eu havia escripto duas linhas sobre a vossa retirada do senado.
Lendo-o, accrescenlei um topico, em que digo;
" Havia escripto estas linhas, quando li o manifesto do sr. Ruy
Barbosa, cujo conteúdo é, sem duvida, a própria verdade dos
fados." Deixei em todas as rcdacções. Creio que estará de accôrdo
com a sua affirmação.
" Amigo obrigado, A. Cavalcanti^
Abi está n verdade. Porque cacureccl-a com amargas
diversões pessoaes? Nem eu tinha interesse cm alteral-a :
não sou chefe político, nem ministro in parlibus, nem can-
didato; sacudi ãs portas do senado o pó de quaesquer depen-
dências, que me pudessem tolher a isenção de fallar sobre
estas causas sem apeguilhos com a opposição, nem com o
A" NAÇÃO 333

governo. Sou um zero, um w, uma quantidade negativa


nu calculo das ambições, que se disputam o paiz.
Já vô o meu nobre ex-oollega (pie, si alludi a perigos
políticos, na ultima vez em que occupei a attenção do
senado, não jiudi.i ser com intuito de amea;as. Eu creio
que a chaga revolucionaria do meu discurso, anula não
pubileado, éesta (não pôde ser outra) :

"Para nós. senhores, nilo ha modificação de ponto de viala,


no locanle á questão econômica ; porque nós sempre collocámos
esta questão fóra da linha das reacções, ipic, ha dez mezes,arrastam
a Republica no seu torvelinho. 0 governo Lucena estreiou-se pela
reaeçã" contra a independência da minoria do Congresso, que
recusara os seus suflragios á candidatura Deodoro. Contra essa
reacção Imscou reagir o Congresso, armado com a prerogaliva
financeira. A reacção financeira, por sua vez, serviu de pretexto ao
allenhido de 3 de novembro contra a Constituição Federal. Agora,
em revindicla á reacção de 8 de novembro, as constituições dos
Estados cáem uma a uma, golpeadas nos seus governadores, nos
seus congressos, nas suas magistraturas. E a reacção ora imperanle
não será lambem o ponto de partida para novas conlra-reacçOes ?
Eu sinceramente o desejaria, convencido, como estou, de (pie
cada reacção será uma loucura maior do que a precedente. Mas
leremos o direito de esperai-o? Neste vaivém de d esforços, a
cada violência responde uma violência maior. Até quando? Até
que o ultimo vencedor abdique a soberba do triumplio, ou o
ultimo vencido renuncie o desaggravo da humilhação. Antes dislo
não haverá paz, não haverá administração, não haverá finanças.
Pitt e Gladstone seriam incapazes de reerguer o credito, em um pai/,
entregue á endemia das revoluções militares."

Fallei cm revolução? "Signijvwtlm coincidência! "


grasnam os gansos do Capitólio. Mas, senhores meus, eu
escrevia essa palavra fatídica todo dia, com a minha
chicara matutina de café, durante os últimos tempos do
334 MANIFESTO

império; e, todavia, inmca fui, por isso, indigitado eoa^,


consjíirador.
O mal está nos olhos do vidente, ou nas fatalidadi
t •
que elle deplora ? A revülin;ão nasee da miséria, conn,
misí-riu nasce da mina financeira. Como 0, pois, que u*
augnrando a mina financeira como corollario do pi-oj(>,,!o
ottieial, não havíamos de temer a revolução, sna «'oíi.s,..
qnencia natural ?
Ainda hoje, na (fiizda '/<■ \<itli-ia-v, uma [teima eml,,,.
bida em sympathias para com o governo escrevia esp,,
palavras, cheias de funesta verdade:
"Não se enganem, porém, s. ex. nem o sr. ministro q,
fazenda. As diffleuldades, até hoje venciilns nas lulas iniestinas ,|lw
Estados, as victorias alcançadas contra os elementos anarchu;,,,,
ora latentes, ora procurando fazer explosão, são simples passatenip(ls
quando comparados á crise financeira e bancaria. Do modo, por q,,,.
for debellada, depende a salvação, ou a perdição da Republica,
Todas as outras questões, por mais ruidosas que sejam, ou pareçam
são bolhas de sabão, comparadas á melralba, que ameaça o credito
nacional, si mão segura e prudente não arrancar as meebas, a qi,,,
se pretende deitar fogo, sem pensar nas conseqüências."
Senhores, tréguas ao odio, tréguas á ferocidade política,
tréguas ao domínio da suspeita, ao dominio da aggrossão,
ao dominio do jaeobinismo atassalhador ! Paz, conciliação
conservação, justiça e liberdade na ordem ! \ão se embria-
guem na vertigem official. Não creiam no valor politieo
dos agentes provoeadores. Menos confiança na força, mui-
doçura na energia, menos malevolenoia na luta, mui-
sinceridade nas praxes republicanas. I la ura tufão de
violência, que sopra dos quatro pontos do céo. Aeante-
lemo-nos : não inchemos as bochechas, suppondo que clle
ha de servir ao nosso moinho, e destruir o dos outros,
Lendo, lia dias, o eelebre romance de Dostoicvski
().■< pomrxxoif, a vista ficou-me presa longo tempo numa
pagina, cmqnanto o jicnsamento se absorvia não sei cm que
semelhanças dolorosas. Conhecem, de certo,aquellc livro ad-
mirável, onde o grande escrptor po/ o quadro psyehologieo
das convulsões da grande nação slava. Estevão Trefimo-
\ iteh, delirando nas agonias de uma visão patriótica, pede
o evangelho de S. Lucas, manda abril-o no capitulo do
epiléptico, livre, pela misericórdia de Christo, dos espíritos
da insania, que, exoreisados do corjx» do [KH/eador, baia tes-
taram por uma vara de cevados, preeipitando-os no lago, e
afogando-os. "E, feição ]M»r feição," diz o personagem do
romancista, "a imagem da nossa Rússia. Esses demonios,
ipie deixam o corpo do enfermo, eenearnam-se nos porcos,
são todos os venenos, todos os miasmas, todas as impu-
rezas, todos os mãos gênios, aeeumulados, ha séculos, em
nossa grande o cara doente, a nossa Rússia. Mas por cila,
como por esse demoniaeo insensato, está velando, lá de
cima, um grande pensamento, uma grande vontade, que
afugentará todos esses demonios, todas essas impnridades,
toda essa corrupção esvnrmada á superfície.... Elles
mesmos instarão por invadir a manada. Que digo eu !
já a invadiram, talvez. E esses animaes, possuídos pelo
espirito do mal.... somos nós, nós e elles.... Loucos, furiosos,
despenhar-nos-hemos do rochedo ao mar, e perece rena s
todos ; e será liem feito ; porque de outra sorte não somes
dignos. .Mas o padeeente salvar-se-ha e todos o contem-
plarão com espanto."
Sol) a provocação dosr. Ramiro Rarcellos, enceto hoje
a liquidação da historia do decreto de 17 de janeiro no seio
do Governo Provisorio, sua influencia sobre as relações
mutuas entre os membros daquclle governo, os incidentes,
que oocasionou, as responsabilidades, (pie estabeleceu.
Darei a essa exposição o caracter impessoal e calmo,
que deve ter, para que a verdade transpareça limpida-
mente, e corroborarei sempre as minhas asserções com
testemunhos ou documentos irrecusáveis.
Para avaliar das causas do meu procedimento, e
julgal-o, cumpre examinar o regi meu, sob que se organi-
zou o Governo Provisorio, determinar o principio, que
pautou a distribuição do poder entre seus membros.
Éramos nós um conselho de dietadores, todos
irmãos entre si em autoridade, cujo chefe representasse
apenas o pajiel de centro de .aggrcmiação, primue mter
pare# ?
Ou, pelo contrario, a dictadura estava substanciada
no chcfèdo Governo, e nós constituiamos simplesmente um
ministério responsável perante elle
43
MANIFESTO

Xão me cabe discutir qual dessas duas fôrmas seria a


preferível. Eu não hesitaria em me pronunciar pela pri-
meira, si nos dessem a escolher. Alas o que se procura, é
sabor (piai dellas a que se estabeleceu, qual a que as cir-
cumstancias impuzeram, qual aquella, aque nos submet-
temos, a que recebeu a aequicscencia do pais como resul-
tante das necessidade da occasião. (Ira, não pfxle haver
duvida nenhuma em que, dos dois padrões adoptaveis, o
adoptado para o governo de lõ de novembro foi a dieta-
dura individual de um chefe, temperada pelos conselhos
de um corpo de secretários de Estado.
Esta verdade resulta inevitavelmente, formalmente
dos termos, em que nos foi conferida a investidora minis-
terial. Na revolução de 1848, em França, o governo
provisorio surge do seio da multidão, aeelamado pelo
povo. A designação de seus membros não tem formula
official, não se faz por autoridade de ninguém. Não ha
nomeantes, nem nomeados. A dietadura eollectiva nasce
feita dentre o movimento popular, que escolheu, designou
e investiu simultaneamente no poder a todos os seus
membros. Cada um delles representa, pois, uma somma de
autoridade idêntica, ã que se encarna em cada um dos
outros. Abi as funeções eram collectivas ; eolleetivas
haviam de ser necessariamente as deliberações.
Aqui, porém, succedeu o opposto.
E,se não, eis a minha nomeação de ministro da fazenda:
" O general Manoel Deodoro da Fonseca, chefe do Governo
Provisorio, constituído pelo exercito e armada, era nome da
Nação: Resolvo nomear o bacharel Ruy Barbosa para o cargo de
ministro e secretario de Estado dos negócios da fazenda.
" Sala das sessões do Governo Provisorio, em 15 de novembro
de 1889.—Manoel Deodoro da Fonseca.—ArMidet da Silveira Lobo."
A" NAÇÃO 339

Aqui têm agora a minha nomeação de ministro


interino da justiça :
" O general Manoel Ueodoro da Fonseca, chefe do Governo
Provisorio, constituído pelo exercito e armada, em nome da Nação :
Resolvo nomear o bacharel Huy Barbosa para o cargo inlerino de
ministro e secretario de Estado dos negocios da justiça.
■" Sala das sessões do Governo Provisorio, em 15 de novembro
de 1839.—Maxof.l Deoduho da Fosseca. A rMdes da Silveira Isibo."
E todos os meus eollegas receberam, na noite de 15
de novembro, essa collação, da memiia origem, sob a
mesma fôrma, nos mesmos termos. Todos fomos admittidos
ao Governo Provisorio por nomeação, por decreto, por
acto pessoal do marechal Deodoro. Ora, a autoridade de
quem nom ia c a fonte da autoridade exercida pelos
nomeados. A autoridade de um funccionario nomeado por
outro é apenas emanação da autoridade daquelle que o
nomeou. Xão podem ser todos pares entre si os membros
de uma corporação, ou magistratura, qeando a investidora,
de um, entre todos, é conferida porelle proprio a si mesmo,
e a dos outros decorre de um arbitrio desse. Nomear ê
constituir delegados, agentes, ou auxiliares do poder
nomeante. Este, pelo acto da nomeação, affirma, exerce e
mantém a sua supremacia sobre os nomeados. Não a
communica ; não a distribuc; não a aliena : organi/a-a,
fortalece-a, oercando-a de pontos de apoio e orgâos de
acção. O marechal Deodoro seria, entre nós, o primns
inter pares, m o marechal Deodoro fosse eleito pelos seus
companheiros de governo, ou nomeado pela mesma auto-
ridade, que os nomeou. Mas, longe disso, o marechal
Deodoro é o único, que não foi nomeado por ninguém,
e todos nós o fomos por elle. Logo, a posição, que
MANIFESTO
3-W
or
u.<ritánios, accíeitando as cartas de nomeação firmadas P

0llc foi a de secretários seus, não a de seus pares.


pepois, essa relação hierarchica, essa dependem''»
,Hitiva da nossa parte para com ellc, esse primado pes-
,1 delle no governo mais st; caracterizou ainda coiü o
direito, fine se lhe reconheceu, de exonerar, e substituir,
audiência nossa, os ministros nomeados. Assim 6 (p10
ingresso do sr. Cesario Alvim na vaga do sr. Aristides
I ,l,o foi resolução pessoal do marechal Deodoro. Assitn é
ne ao demittirmo-nos todos, o marechal Deodoro recom-
],(iz livremente, com pessoas de sua confiança particular,
•i dictadnra, sem que os demissionários invocassem 0
direito de intervir, deliberativa, ou consultivamente, "a
encolha dos seus suooessores. Ftmceionariox naincutei* e
ilriiii>"l've'* 110 urhUrío de uma autoridade não podem aspi-
rar " pt ir cri ros desta : são meramerde conselheiros sens, seus
a,/ente*, refere nd ata rios das suas deliberações.
l>oa, ou má, essa foi a lei, que se nos pu/, a lei, aque
nos sujeitámos.
ITm facto extraordinário veiu imprimir a essa evi-
dencia ainda maior destaque : a creação dos lugares de
viee-chefes do Estado e o provimento desses cargos. Si a
autoridade legislativa se achasse diatribuida entre os
membros do Governo Provisorio, c não concentrada no
seu chefe, claro está que a creação de funeções como essas,
as mais altas do Estado, o regiraen da successão na
chefia da dictadura havia de ser obra de uma deliberação
commum entre os seus membros. Mas, longe disso, o
decreto de 31 de dezembro de, 1889, que instituiu os lu-
gares de Io e 2o vioe-chefes do Governo Provisorio, não
passou por conselho de ministros ; foi resolução directa,
A* NAçXü 341

pessoal, exclusiva do marechal Doodoro. E o digno mi-


nistro do interior, o honrado republicano, rcfcrendando-o,
deu, com isso, testemunho solemne da acqtiiesceneia sna e
dos setis collegas á supremacia legislativa, á absorpção
pessoal da dictadura, exercida assim pelo general.
Nem é tudo. Orçando os cargos de vice-chefes, o
decreto de 31 de dezembro podia ter reconhecido, ao
menos, nos membros do (íoverno Provisorio o direito de
elcgel-os. Seria o meio de deixar-lhes alguma co-parti-
eipação na autoridade politica do dietador. Mas, pelo con-
trario, a nomeação dos vice-chefes ficou privativamente
reservada ao chefe. Eis o meu decreto de nomeação :
" O innrechal Manoel Deodoro da Fonseca, chefe do Governo
Provisorio, cotisliluído pelo exercito e armada, em nome da
Nação :
" Nomeio primeiro vicc-chefe do Governo Provisorio o ba-
eliarel Huy Barbosa.
" Sala das sessões do Governo Provisorio dos Estados Unidos
do Brasil, em 31 de dezembro de 1891.—Manoel Deoboho da Fon-
seca.—Arwtidf* dn Silveira Ijobo."

Venhuma interferência, ainda que consultiva fosse,


se deixou aos membros do Governo Provisorio no exereicio
dessas fimcçfies.
() marechal nomeou os vice-chefes, independentemente
de eleição, proposta, ou audiência, sequer, dos ministros.
K estes não reclamaram, nem murmuraram. Implicita-
mente subscreveram, pois, ã legitimidade do aeto.
Mais tarde, quando solicitei a rainha demissão do
cargo de 1'.' vice-ehefe do Estado, como se passaram as
cousas? Exaetamentc do mesmo modo. O ministério não
teve nisso a miniraaparte. Sem ouvira nenhum dos meus
3J2 MANIFESTO

collogiiH, submetti ao marechal Dcodoru <> meu podido do


demissão, por carta que pessoalmente lhe apresentei; c
s. ex., em minha presençú, acto continuo, mandou lavrar,
pelo coronel Lobo Botelho, a nomeação do marechal Fio-
nano. O sr. Cesario Alvim recebeu o decreto já lavrado,
apenas para o referendar. Eo ministério não soube da mvi-
dança, por que acabava de passar a successão politieii n-i
direcção do Estado, senão, como o publico, pela im-
prensa.
A fôrma do Governo Provísorio, pois, instituída e
mantida com o assentimento, talvez não satisfeito, mas,
em todo caso, implicito, manifesto, evidente dos scari
membros, era a dictadnra presidencial. O chefe centrali-
zara em suas mãos todos os poderes. O legislador era
elle. E os seus actos legislativos operavam-Se poi
decretos firmados com a sua assignatura, sob a referenda
de cada ministro, conforme a pastada que a deliberação
dizia respeito. Apenas se abriu excepção, a este respeito,
para algumas medidas de ordem publica c certas reformas
(pie interessavam á organização (■otintifwlonal do Estado.
( Vmformando-se a esse regimen, o decreto de 1 7 dr
janeiro não fazia mais que obedecer a uma situação,
pela qual tão responsáveis eram os meus collegas, quanto
eu, si 6 que responsabilidades podia haver entre nós poi
uma situação, como essa, inevitável.
Mas porque não foi préviamente ouvido sobre ess»
reforma o consellio de ministros ? Esta interrogação
antes do que a mim se deveria endereçar ao cheio de
Estado. Ouvir os seus secretários era faculdade, de
que elle usava em matérias graves, mas de que, em ma-
térias não menos importantes, acontecia prescindir. Pu-
A' NAÇÃO 34 3

Conveniências no uso, 011 não uso, dessa faculdade, o arbitro


era elle, o não nós.
Ainda se não tinha estabelecido regularmente, no (Jo-
verno Provisorio, o conselho de ministros. Reuniamo-nos
algumas vezes, ora accidcntalmente, ora por combinação
particular entre nós, ora por convite do chefe, quando as
eimimstancias o pediam. Só na conferência de .'50 de
Janeiro se estipulou a praxe de sessões periódicas, sema-
naes, precedendo o despacho collectivo, e se avançou que,
de então em deante, as matérias de ordem legislativa pas-
sariam por aqnella preliminar, antes de se submetterem á
approvação do marechal.
E só então se começou a observar, para as nossas
reuniões, o sigillo conveniente ás deliberações do poder
executivo e ainda mais essencial ás de uma jnnta revolu-
cionaria, como a nossa. Nos primeiros oitenta dias da
nossa existência ministerial, as nossas sessões se celebra-
vam, por assim dizer, de janellas abertas para todos os
lados, aos olhos dos curiosos de toda a espccie, sem a re-
serva elementar nos assumptos mais delicados. Foi tal-
vez recuando ante os jierigos dessa transparência em
negocio do maior melindre, «pie o chefe de Estado se
absteve de debater em assembléa dos seus conselheiros a
reforma bancaria. EIla instituía um systemn, em que a
emissão devia ter por lastro apólices da divida publica, e,
si a intenção do governo sc divulgasse, immediata-
mente a €S])Coulação se apoderaria desses valores, sen
preço subiria em proporções desmedidas, no mercado,
quando os possuidores as não retivessem, para desfruetar
as vantagens dessa perspectiva, ea idéa planejada goraria
em projecto, com irreparável prejuízo para os interesses da
344 MANIFESTO

nação, do resgate da sua divida, que por aquelle modo se


pretendia, da expansão do seu meio circulante, que se nos
impunha como a mais imperiosa das necessidades.
Estávamos, com effeito, por esse lado, em situação
analoga á de hoje, a que o governo infelizmente é
eégo ; porque, si tivesse olhos, havia de ver (pie, mantendo
por mais duas ou tres semanas a tensão actual do mercado,
absolutamente sem recursos para as mais sólidas transuoçfW -
já não haverá quem impeça a explosão imminente sobi-e
a praça, por mais que os rhetorieos e os néscios digam o
contrario.
VI

Vem a ponto agora o raso ria declaração dc solidarie-


dade ministerial, publicada na íbllia do governo e nas
outras, em relação ao decreto dc 1 7 dc janeiro. O sr. Ramiro
Barcellos den a esse facto a côr de uma revelação de cír-
enmstaneias inteiramente ignoradas, em nm painel das
mais sombrias tintas, através das quaes ressumbra, nas
intenções do autor, a evidencia de nina insigne deslealdade
do ministro da fazenda para eom os seus eollegas, man-
dando estampar, na imprensa, sem audiência destes, uma
atíirmação de co-responsabilidade em aelo, de que não foram
cooperadores.
Xão tenho receio de encarar face a face essa arguição,
e espero convencer da sua injustiça os meus próprios argui-
dores.
Antes de mais nada, si o nobre senador pelo Rio
Grande do Sul tivesse as qualidades de juiz, como possneo
talento de Jibellario, o simples facto da publicidade dada a
essa declaração havia de constituir, prima fade, aos seus
olhos, a maior manifestação da minha boa fé. Pois será
44
34(i MANIFESTO
crivei que eu me aventurasse, por essa asserçâo formal na
imprensa, a provocar os desmentidos geraes dos meus col-
legas, não acquiescentes, não consultados, sequer, sobre ella ?
Concebe alguém que eu, a não ser o mais imlxícil dos im-
becis, ousasse essa mentira solemne, aggravada com todas
as aggravantes da publicidade official, para, a troco da glo-
riola de uma breve manhã, vcr-mc, logo depois, aniqui-
lado por contestações irreplicaveis, apupudo pelo desprezo
das ruas ?
l-iogo atrás dessas apparencias, inconciliáveis com os
dotes mais rudimentares de senso commum, a cuja pro-
sumpçâo têm direito os que não habitam casas de orates,—■
bem devia rastrear o meu aocusador cpie se lhe oocultava a
chave da verdade cm alguma circumstancia desconhecida a
estranhos.
Pois a chave da verdade, aqui a têm os que me qui-
zerem julgar nine irá <«•- stiulío, no depoimento que sc vai
ler :

" Tijuca, 22 de janeiro de 1S92.


"Exm. sr. Antonio Azeredo.— Associado a mim pelas mais es-
treitas relações de conflança, v. ex. acompanhou pari pamu, ora como
testemunha presenceal nas matérias mais reservadas, ora como in-
termediário em relações entre mim, o chefe do Estado e os meus
companheiros de ministério, especialmente o dr. Benjamin Cons-
lant, os passos mais íntimos, as crises mais graves do tíoverno Pro-
visório. ,
" Rogo-lhe, pois, a bem da verdade, o obséquio de declarar-me
o que viu, o que presenceou, o que sabe, por conhecimento pessoal e
directo, quanto ás circumstancias, que precederam, e seguiram á de-
claração de solidariedade ministerial, publicada na imprensa ácerca
dos decretos de 17 de janeiro ; permitlindo-me fazer da sua resposta
o uso, que me convier.—Seu, etc.—Ruy Barbosa."
A' NAÇ50 347
" Exm. sr. dr. Ruy Barbosa.—Em resposta á carta, que v. ex
se serviu dirigir-me, cabe-mo declarar-lhe, a bem da verdade,
que o intuito da declaração de solidariedade ministerial, con-
forme affirmou-me v. ex. antes da publicação feita no Diário
Offuial, era demonstrar ao publico a harmonia de vistas, que existia
entre os membros do Governo Provisorio, afim de evitar a explora-
ção dos inimigos da Republica e dos adversários dos decretos de 17
de janeiro de 1890 ; sendo verdade que v. ex. ordenara semelhante
publicação, depois sómente de mandar um seu empregado leval-a ao
marechal Deodoro, que a approvou, e aos seus companheiros de
ministério, que anão viram, como se verificou mais tarde. Informado,
no mesmo dia da publicação, de que os seus collegas não tinham tido
conhecimento da declaração offieial, v. ex. deu-se pressa em explicar-
lhes o Decorrido, sendo que. em rainha companhia, procurou o
dr. Benjamin Constant, no quartel general, dando-lhe ahi as expli-
cações convenientes, justificando-se, á nossa vista, o encarregado de
levar aos ministros a declaração em questão, com o que declarou-se
satisfeito o venerando morto, concluindo por agradecer-lhe a sua
explicação e a do seu secretario, em presença do dr. Lauro Sodré.
" Eis a resposta que me occorre agora, podendo v. ex. fazer delia
o uso, que lhe approuver.
" De v. ex., etc.—A. Azeredo.
" Rio, 23 de janeiro de 1892.—Rua do Gatlete n. 267."

Não foi por ordem minha, pois, que se deu a lume


aquella declaração antes de approvada pelos meus col-
legas. Eu a mandara submetter ao chefe do Estado, ouvir
o dr. Benjamin Constant, e depois, conforme a opinião
deste, apresental-a a todos os meus companheiros de go-
verno. O intermediário, pessoa que me inspirava toda a
confiança, descumpriu as minhas instrneções. Procurou o
chefe do Estado, que lhe prestou o seu assentimento, a sua
autoridade; e depois, não podendo fazer-se logo encontra-
diço com o dr. Benjamin Constant, por quem esperou
348 MANIFESTO

cêrca de duas horas no quartel-general, levou-a ímmedia-


tamente, em meu nome, mus á revelia minha, ao Diário
OffidaL
Fui, portanto, vietima de erros de terceiro. E disso
teve as provas o dr. Benjamin Constant, disso convenoeu-sc
plenamente ; porque o proprio culpado lhe confessou, em
minha presença, o abuso, que, por irreflexão, commettera.
Destes faetos são testemunhas também o major Cin-
cinato, ajudante de ordens do dr. Benjamin Constant, e
especialmente o tenente-coronel José Feli.v Barbosa de Oli-
veira, auxiliar technieo do seu gabinete, seu amigo parti-
cular, republicano, como aquelle, emfim, cuja independência
de caracter paira acima de toda a excepção. Si me deslizo
da verdade, elles que me contestem.
Esta explanação da realidade a tal ponto calou no
espirito do dr. Benjamin Constant, que entre nós se resta-
beleceram reciprocamente as relações na maior estima. D'ahi
avante, até á conferência de 30 de janeiro, com que
amanhã me occuparei, todos os seus esforços tenderam a pro-
mover concessões, da minha parte, capazes de unificar o
pensamento de todos os nossos collegas, harmonizando em
um accôrdo sincero e estável a opinião divergente do
ministro da agricultura. E é claro que, si s. ex. não
considerasse illesa a minha lealdade e digno de com-
munhão com elle o meu caracter,nada mais fácil do (pie obter
a minha exoneração, nue repetidas vezes solicitei, e exigi, nos
últimos dias de janeiro, em vez de me cumular com as
mais instantes e persuasivas demonstrações de uma estima,
que, como se vai ver, se affirmou, de então em deante, para
commigo, em provas cada vez mais altas.
Aliás essa pagina da minha vida, que me felicito por
A' NAÇÃO 349

este ensejo de redificar, cxtremando-a dos traços infiéis,


com que inimigos meus andavam a episodial-a, não tem
hoje outro valor, a não ser o da exactidão histórica.
Politicamente ella perdeu toda a importância, desde
que a solidariedade ministerial, não existente no co-
meço quanto aos decretos de 17 de janeiro, mais tarde «c
edabdeceu, como amanhã evidenciarei, pela* declarações
num categoricm de Iodou os nwits eollegas em conselho de
ministros.
VII

í inha-se desencadeado contra a reforma bancaria de


17 do janeiro o temporal, muitos de cujos iusuffladores
mais tarde reconheceram a iniqüidade, com que se haviam
atirado a essa reacção. Na desafinação furiosa de coleras,
que contra o decreto vociferaram em diabólico phrenezi,
a nota predominante não era então o horror ãs emissões
mas o horror aos privilégios, com que se acenava ao capital
convidado íi organização desses bancos.
Esses privilégios, aliás, não eram" innovação nenhuma.
Todas as industrias nacionaes os usufruíam por lei. Apenas,
eomo ineentivohi instituições, que se destinavam a exonerar
progressivamente o thesouro dos encargos da divida
fundada, e hematizar, a beneficio da nossa renovação econô-
mica, a circulação empobrecida, — se promettia aos estabe-
lecimentos cm perspectiva a preferencia, em condições
iguaes, na concurrencia, franqueada a todos, sobre as
concessões do Estado. Mas tanto bastou, para que a nevro-
pathia democrática entrasse em periodo convulsionario,
acreditando que ninguém mais poderia abrir uma tenda
352 MANIFESTO

do sapateiro, som deixar ao menos um pouco de sangue


nos tentáculos do meu polvo.
Pouco depois, graças a essa organização, arreuegada
em nome da liberdade das industrias, as tentativas indns-
triaos brotavam-nos sob os pós como cogumelos em brejo,
pullulavam as concessões, c quem nunca se benzeu com o
maná de taes liberal idades, foram justamente os bancos
emissores, ou pelo menos, o Banco dos Estados-Unidos.
Mas a nossa vibratil democracia, a virgem irracivel,
estava satisfeita, — essa democracia da qual st; poderia
dizer: Tota democratia in inrldia, do mesmo modo como
um physiologista, occupando-se com outro generode livs-
terismo, disse : Toia fnninn in utero.
As novas instituições de credito estavam impopula-
rizadas ú nasoença.
Para isso concorreu a celeuma dos engasgados com as
acções usurarias do Banco Nacional, concorreram as espe-
culações de praça, as especulações de política, as especu-
lações de seita. Mas, sobretudo, contribuiu a opposiçâo, que
esfumeava do seio do proprio governo, como primeiros
rolos de incêndio, na voz de combate dada pelo ministro
da agricultura, em ura banquete onde o nome do ministro
da fazenda foi coberto da apodos e maldições.
Quem quer que me conheça, avaliará que eu não podia
conformar-me a essa posição.
Pedi, pois, immediatamente ao chefe do Estado a
minha demissão, que s. ex. me recusou nos mais positivos
termos.
Entrementes, o dr. Benjamin Constant continuava
a diligenciar reconciliação entre mim e o ministro rio-
grandense. Com esse intuito, depois de varias outras
A' NAÇÃO

tentativas, me procurou, em minha casa, ú praia <lo


Flamengo, no dia 27 do janeiro, á noite; e, como me não
encontrasse, esperou-me utó ás 11 1/2, acompanhando-o
então um amigo sou (o <lr. José Hevilacqua). Encontraram-se
elles, na minha sala, com o sr. Antonio Azeredo (e o
sr. 'Fobias Monteiro, si me não engano), que alli se demorou
lodo o tempo com os dois. Eu, que me achava fóra da
cidade, chegando áquclla hora, quando elles acabavam
dc rctirar-sc, achei ainda o sr, Antonio Azeredo; c, infor-
mado por cllc <la persistência do dr. Bcujamin em trabalhar
pir um eongraçamento, que se me afigurava irrealizavel,
escrevi, alli mesmo, ao marechal Deodoro, uma carta,
em que já não solicitava a minha exoneração ; declarava-me
exonerado.
Essa carta foi entregue pelo sr. Antonio Azeredo, no
dia immediato, ao chefe do Estado, que m'a devolveu,com
as mais honrosas expressões de confiança, oppondo-se
terminautemente á minha retirada. Desse documento darei
cópia, no capitulo em que me proponho a historiar a série
das minhas demissões, já que a isto me constrange uma
das invectivas do meu alto provocador,

" Não Icntlo sido acceita a demissão," diz o sr. Antonio


Azevedo, cm nota de sen puntio, que a este respeito me dirigiu,
"renovaram-se as tentativas de accôrdo ; e, no dia 30 de janeiro,
lendo sido eu convidado, para ir á casa do dr. Arislides, este
referiu-se ao meio mais acceitavel de resolver a crise, o qual
era a demissão dos ministros civis. Pedindo-me então, para o
acompanhar até á casa do Ruy, para alli fomos ambos, ás 2 horas
da tarde, conferenciando os tres, e concluindo o ministro da
fazenda por entregar ao ministro do interior uma carta, dando a
sua demissão de memhro do Governo Provisorio, e declarando
não comfHtrecrr ií eon/erencia iniiiltterlnl, onde incumbia o sen
collega de o desculpar."
304 MANIFESTO

Era a terceira vez (jne eu resignava formalmente a


pasta da fazenda, para deixar livre o campo aos meus
collegas ; vendo-me, porém, constrangido a ficar pela mais
decidida resistência do ehefe do Estado, o qual chegou a
me declarar, logo á primeira vez em (pie nisso lhe fallei, que
deixaria também o governo da Eepubliea, si eu o não
acompanhasse.
Horas depois da minha entrevista com o dr. Aris-
tides Lobo, com effeito, o marechal, sciente da minha
resolução, mandava exigir de mim que não faltasse
íi reunião ministerial daquella noite, annunciando-me que
não prescindia dos meus serviços.
Pouco mais tarde o dr. Aristidcs I/obo me devolvia a
caria, de que eu o encarregara, eserevendo-me esta:

"Rio, 30 de Janeiro do 1M00. — Meu caro dr. Ruy — Tendo


falhado a combinação, (pie eu havia formulado, ante objeeçAes dos
nossos companheiros, é do meu dever devolver-lhe a carta, que
me confiou, afim de que tome com plena liberdade a resolução,
que o seu dever e o seu patriotismo lhe possam inspirar.
" Agradecendo a confiança, que em mim depositou, sub-
screvo-me, como sempre, o amigo affectuoso — ArUtides da
Silveira hohn. "

E porque falhou essa combinação? Por uma circuiu-


stancia curiosa. Ao declarar o sr. Aristidcs Lobo a minha
aoquiescencia á demissão eollectiva dos ministros civis,
o sr. Hemetrio Rilieiro disse: "Ah, o Ruy sae? Então
fico eu." Esse episodio, que me foi communicado pelo
dr. Jayme Beuevolo, a quem o narrou o dr. Aristidcs
Lobo, passou-se, ao que me consta, em presença do
dr. Campos Salles.
A' NAÇÃO 355

Sol) a pressão destas duas ultimas circumstancias,


elaro está que a ininlia presctaça na conferência ministerial
de ;>() de janeiro era inevitável. A minlia attitude nella
previamente sabia eu qual havia de ser; era a defeza
mural, jaditica, financeira do meu acto. A minha attitude,
ao sahir delia, haviam dc indiear-m'a o debate e as deli-
berações adoptadas.
Ou se estabelecia a solidariedade ministerial em apoio
do decreto de, 17 de janeiro; e eu, reconstituído em forças
por essa vietoria, podia continuar a ser ministro digna-
mente.
Ou os meus collegas abraçavam definitivamente a
bandeira do ministro da agricultura, e a minha pasta de
ministro da fazenda ficaria para logo deposta na mesa do
conselho.
Pois bem : (pie principio triumphou nessa reunião,
uma das mais criticas e, sem duvida, a mais solemne em
toda a nossa vida ministerial ?
A solidariedade do Governo Promsorio nos decretos de
17 de janeiro.
E' o que amanhã se verá.
VIU

M enos atrabiliário, mais reflexivo, o meu accommet-


tedor feria [KTeebido (jne não podia arreceiar-se da sombra,
evocada por elle, de Beiijamin Constant, a grande ima-
gem da moralidade repuldieana, quem, como eu, fôra o
primeiro a trazer a publico, na tribuna do senado, a
amarga interrogação, (pie elle me dirigiu, quando, no pa-
lácio de Itamaraty, ao eaniinhannos juntos para a saladas
conferências, depois de uma ultima discussão entre nós
dois, me perguntou o illustrc ministro da guerra: "V. ex.
comparece ao despacho ?" "Compareço ; ponpie o chefe
do Estado o exige, e careço de um plenário entre os meus
collegas"—foi a minha resposta.
Este dialogo passou-se sem testemunhas ; e eu não
teria necessidade nenhuma de revelal-o, si me temesse de
deixar devassar pelo publico as más impressões do espi-
rito de Benjamin Constant, contra a reforma de 17 de
janeiro, antes do conselho ministerial de 30 desse mez.
Mas, pelo contrario, a minha maior honra, a circum-
staneia mais earaeteristica da evolução assignalada por
3õ8 MANIFESTO

essa data no espirito dos meus collegas, está preeisamente


no contraste entre as prevenções do dr. Benjainin CVmslant,
antes do debate longo, solemnissimo, «pie nessa confe-
rência se travou, c a sna reconciliação franca, expansiva,
absoluta, cada vez mais confiante, com o meu plano finan-
ceiro desde esse dia.
Principiando ás 8 horas da noite do dia 30, a sessão
terminou ás 3 da madrugada do dia 31 de janeiro. Por mais
de metade, seguramente, desse tempo occupei a attenção
dos meus collegas, deduzindo, sob todas as faces, a justi-
ficação do meu procedimento, com a firmeza, que a minha
convicção mo inspirava, com o apoio, que me dava a expe-
riência administrativa dos factos. A impugnação do hon-
rado ministro da agricultura, rapida e fraca, foi uma
decepção, para os que tanto esperavam dos seus grandes
recursos intellectuaes. Devo declarar que eu era um desses.
Póde-se dizer que, de todos os membros do gabinete,
cxceptuado o iIlustre ministro da marinha, cuja opinião,
si bem me recordo, se enunciou apenas em apartes, o
chefe da opposição levantada contra o decreto de 17 de
janeiro foi, talvez, o que menos se deteve na analvse do
assumpto.
Depois de largas e variadas peripécias, cerrou-se,
afinal, a deliberação com uma proposta formulada pelo
honrado sr. Campos Salles. Alvitrava s. ex. estas duas
emendas ao decreto de 17 de janeiro: reducção das emis-
sões projectadas a 200.000$000, subdivisão da região
bancaria do norte em tres partes, da região bancaria do
sul cm duas.
Anuiii immediatamente a esse arbítrio. Annui; porque
elle respeitava absolutamente o mecanismo da reforma de
A' NAÇÃO 359

17 (Ic janeiro, mantendo o mesmo systema de emissão, a


mesma organização lianoaria, a mesma orientação finan-
ceira. Annni, porque elle não interessava :1 essência do
regitnen institnido jwr mim : apenas o modificava aeees-
soriamente em um dos pontos, nos quacs me era evidente
que o temjx» liavia de dar-mc, como deu, completa razão,
e restituir as cousas ao estado, em que eu as puzera.
Desde que o decreto de 17 de janeiro ainda não esta-
beleeia a unidade bancaria, eu não pcxlia fazer questão de
que o paiz se repartisse emires, ou seis distrietos emis-
sores. A emenda Campos Salles desenvolvia apenas a plu-
ralidade, já abraçada no decreto do 17 de janeiro. Quanto
ás emissões, conservado, que fosse, como se conservava, o
principio adoptado, o molde, que eu dera ao seu meca-
nismo,—frivolo seria oppôr-me a uma diminuição na
importância total dellas, quando esta não se destinava a ser
lançada na circulação de um jacto, o quando, além do mais,
era persuasão minha que a experiência havia de mostrar
aos meus próprios eollcgas a insufficieneia dos limites
fixados pela emenda.
Esta recebeu, cm summa, a minha instantânea
adhesão ; porque deixava de pé o decreto de 17 de janeiro,
submettendo-o a alterações inoflensivas, em elementos não
cssenciacs.
Correu oeserutinio sobre o aeeôrdo offerceido.
Equal foi o seu resultado? TTii<nuini(1(tf1c em favor delle.
Não houve um só ministro, que não applaudisse a
formula conciliadora.
O sr. Dcmetrio Ribeiro, directameute interrogado
por todos nós, respondeu que a subscreveria, não fazendo,
a seu respeito, a menor restrieção.
MANIFESTO

Então combinámos <juo, para dar ao publico sciencia


plena, authcntica c indubitavel <l<i Holiihirledadr, (/ne, dcudi
ftqiiflle momento, xe fimuira entre nós quanto á refoniia
fimmeeirn, toda a imprensa daquella manhã publicaria
uma declararão official, redigida xéanee lennnle c a])pro-
vada pelo ministério inteiro.
Acto continuo, antes de nos separarmos, se (brmulou
alli, j»or escripto, essa expressão positiva da nossa solidarie-
dade, examinou-se, discutiu-se, passou de mão em mão, foi
especialmente submettida á ins)>eceão attenta do ministro
da agrieultura ; e, depois epie s. ex.a approvon, como todos
os nossos collegas, delia se deram cópias a todos os reportrrx,
(jue alli, até á(juella hora, no meio <le grande multidão,
aguardavam anciosamente o desenlace da crise.
E na manhã de .'11 de janeiro, o Jornal do ('ommercio,
a Gazeta de Xotieiax, o /'aiz, o Diário de Xotadas, o JUario
do ('omniendo, a imprensa inteirada capital, emflm, estam-
pava o documento ministerial, concebido, cm todas as
folhas, nestas palavras, seiladas com os votos de todos os
membros do governo :

" Ministério.—Consta-nos que o gabinete, achando-so ronuldo


em conferência de hontem, leve occasião de examinar amplamente
os amumptos, que dependiam de sua consideração, retirattdo-xe de
pleno nreAri/n. nilnptnilnx medittnx. em que conriernm lodo» o» membros
do governo. "

Mais um episodio, (pie não devo omittir, porque é um


toque decisivo no quadro. Finda a conferência, o dr. Aris-
tides Lobo, chamando á parte o dr. Demetrio Ribeiro,
iuterpellou-o, alli mesmo, nestes termos: " Então, teia
alguma eousa que dizer? Porque é mister que esta questão
A' NAÇÃO 361

fique definitivamente liquidada hoje. Tem mais alguma


cousa que oppor?" — " Não tenho", respondeu o dr. De-
metrio. Esta cireumstancia, rigorosamente histórica, foi,
logo depois, narrada pelo dr. Aristides Lobo ao tenente-
coronel Jayme Benevolo, fpie muitas vezes ra'a relatou, e
ainda hoje m'a repete.
Assim, eis a responsabilidade geral do ministério nas
minhas medidas financeiras assentada, consagrada eannun-
ciada publicamente por um padrão, que nunca mais se
poderia destruir.
E qual foi a linguagem de Benjumin Constant no dia
seguinte, linguagem de que não variou jámais ?
Eu a conservo preciosamente, registrada por lettra do
sr. Antonio Azeredo, com quem o egrégio brasileiro a este
respeito se abriu.
Eil-a:
" Deiinle da brilhante defeza do Ruy, justiticando a sua re-
forma, e da pallida aecusação do Demelrio, não pude deixar de
aeceitar o decreto de 17, e applaudir o seu autor, cuja capacidade
sempre apreciei. "
(Constranjo-me de transcrever, por minha mão, en-
comios, lilreralizados a mim. Mas, bem vêem, si o faço, ê
em legitima defeza.)
Podem confirmar o depoimento do sr. Antonio Aze-
redo outros amigos de Ilenjárnin Constant. Entre elles, o
dr. 1 .auro Sodré e o dr. Jayme Benevolo, que muitas vezes
me repetiu o mesmo testemunho, assim como o dr. José
Bevilacqua e o dr. Innoccncio Serzedello.
Mezes depois, quando, em conselho de ministros, se
discutia a minha proposta de restituir ao Banco dos Estados-
Uuidos os 50.000 contos da sua emissão (como se fez pelo
46
362 MANIFESTO

decreto de 29 de agosto), dejxHS de fallar contra ella um


dos nossos collegas,—Benjamin Constant, que se assentava
defronte, apoiando-me com força, disse :
" Acompanho cada vez com mais confiança o sr. Kuy
Barbosa, com quem prefiro errar a acertar com outros. "
Eu não tenho, como o sr. Earairo Bareellos, a van-
tagem de ser medico, para evocar a " pallidez cardíaca "
dos meus amigos politícos como recurso de eloqüência par-
lamentar em proveito das minhas opiniões. Mas parece
evidente que a do immortal republicano, quando proferia,
com intenção, aquellas palavras, não revia sentimentos
agradáveis íí política dos meus contradietores.
IX

A aolidariedade completa do Governo Provisorio nos


decretos de 17 de janeiro assumia, desde então, evidencia
inelnetavel. Elle proprio a notificara ao pai/, depois da
mais ampla, da mais séria, da mais imponente deliberação,
qne cm toda a existência da dictadura se celebrou.
Para renovar duvidas a tal respeito, seria mister uma
dessas deslembrancas, que caem no dominioda pathologia
mental, ou um desses tbesouros de má fé, em que a perfídia
política vai buscar, ás vezes, as armas dos seus triumphos,
onde qualquer consciência, das menos escrupulosas, fóra
do circulo dos fanáticos de partido, receiaria nodoar as
mãos.
Acontecimentos posteriores, porém, vieram dar áquella
modificação formal da nossa responsabilidade caracteres
ainda mais positivos, si é possível, solidarizando cada vez
mais os membros do Governo Provisorio em torno dos de-
cretos de 17 de janeiro.
Aplacado o primeiro escarcéo, que a reforma bancaria
suscitara contra si, logo que se desacreditou a ballela do
304 MANIFESTO

monopolio industrial, inculcadamente conferido aos bancos


emissores, entrou a tempestade de aguas turvas a rede-
moinhar em volta de outro pretexto grave: a quantidade
das emissões concedidas. Começou então esse período áureo
de vulgarização financeira, em que não houve banazola, que
não tivesse a sua hora de eloqüência contra a exaggcração
do meio circulante. Emquanto os inimigos organizavam
poderosos syndicatos, e derramavam dinheiro sem medida,
para alimentar a grita,—os mais interessados no bom esito
das novas instituições descuidavam-se imperdoável monte
dos interesses da sua defeza. O bombardeio abalou os âni-
mos no próprio seio do governo, de modo que não ficava
outro meio de salval-as, senão concordar na redueção, era
que já fallei, das emissões autorizadas.
E i tinha a mais entranhada convicção de que os meus
collegas haviam de retractar-se, approximando-se outra
vez dos algarismos primitivos no calculo das emissões tole-
ráveis pelo paiz.
Mas estava longe de imaginar que os meus presagios
se verificassem tão depressa, e ainda mais longe de sonhar
a evolução de opiniões, que brevemente se havia de operar
no proprio campo da escola restrietiva. Que o governo,
esclarecido pela experiência, mudasse de conceito, bem se
entendia. Mas que os mata-mouros do banzé anti-emissio-
nista acabassem por applaudir, no alvitre de um copioso
reforço de emissões, a panacéa contra os excessos de papel,
é o que só neste paiz fantástico se poderia ver.
Pois foi o que succedeu.
Quando os vagalhões da fúria metallista pareciam
tragar dc um momento para outro o ministro, que os irri-
tara, o geito de abonançal-os foi atirar com uma emissão
A' NAÇÃO 365

de cincoenta mil contos ao Bniico do Brasil c uma de cin-


coenta mil contos ao Banco Nacional. Çuos ego... e as ondas
aliavdas vieram lamber-nos docilmente os p5s. No dia
seguinte a vo?.caria cmmndecera. As fanfarras tocavam á
sabedoria do ministro da fazenda. E o cambio accendia os
seus fogos de bengala.
Nunca me illudi com a comedia. Ri-me delia, com
essa philosophia do desprezo, que é, muitas vezes, o só
consolo do homem de governo, contra as misérias, «pie pre-
tendem julgal-o, e subjugal-o,
No meio delia eu podia levantar a cabeça ; porque
essa concessão era feita a mim, e não por mim.
Podia levantar a cabeça ; porque esse acto era a pri-
meira palinodia dos que, quarenta dias antes, dictavara o
cerceamento fias emissões como base essencial para a soli-
dariedade no governo e para a reconciliação com o paiz.
Podia levantal-a ; porque essa volta-face dos malsi-
nadores da minha politica financeira era o documento pal-
pável da lizura de uma opposição, (pie começava a achar
magnifica a préamar do papel, desde que ella se espraiasse
generosamente pelos dois bancos agora chamados á par"
tilha.
Em outro qualquer paiz as intenções dos meus adver-
sários estariam julgadas para sempre.
Os meus illustres collegas, na mais perfeita boa fé do
mundo, preoccupados, sobretudo, com a gravidade das vi-
brações da atmosphera exterior, com a necessidade de sua-
vizal-as, entraram de boamente nessa transacçâo, sem o
menor obstáculo, sem o menor reparo, satisfeitos e confor-
tados j)"!o desafogo, que ella nos trazia. Com a mais completa
annueucia dc todos elles, baixou o decreto n. 253. E as
366 MANIFESTO
emissões, que, fior noto solidário de .'IO de janeiro, soffreram
um corte de 200.000 contos, jx-Ia resolução eyunhncnte
solidaria do 8 de março, receberam 100.000 contos do aocres-
ci monto.
Era meio caminho de regresso ao total fixado no de-
creto de 17 de janeiro.
Mais tarde, polo decreto n. 700 A, do 2!) de agosto
de 1800, concedemos ao Banco dos Estados Unidos mais
50.000 contos de emissão. Ao conselho em que se adoptou
essa deliberação esteve presente o ministério inteiro, sendo
votos divergentes apenas o dr. Cesario Alvim e o almirante
Wandenkolk, Novo noto, portanto, de solidariedade mi-
nisterial.
Depois ainda, cedendo aos esforços reiterados e inces-
santes do sr. Campos Salles, propuz em conselho elevar-se
de 24.000 a 40.000 contos a emissão outorgada ao Banco
União de S. Paulo. Mais um augmento de 16.000, que
passou com o unanime assentimento dos membros do go-
verno. Novo laço de alliança e solidariedade com a reforma
de 17 de janeiro.
Na mesma occasiâo, obrigado pelas reclamações irre-
sistíveis do Estado de Pernambuco, cujo governo se decla-
rava em quasi bancarrota, advoguei, jKjrantc os meus col-
Icgas, a conveniência de permittir-se uma emissão addi-
cional de 10.000 contos ao Banco Emissor daqnella região.
A esse alvitre não encontrei um só contradictor no conselho
de ministros.
Em conseqüência, pelo decreto n. 782 A, de 25 de
setembro de 1890, cresceram em mais 26.000 contos as
emissões concedidas. E esse decreto saiu dos suttragios uni'
sonos dos meus illustrcs companheiros. Solidários, sempre.
A' NAÇÃO 367

Mezcs depois submettia eu á deliberação collectiva o


l)rojeeto de organização do Banco de Credito Popular.
E esse projecto, que envolvia unia emissão mais de 40.000
contos, recebeu o apoio do conselho de ministros, conver-
tendo-sc no decreto n. 1.036 B, de 14 de novembro.
DesCarte, por esses quatro decretos, em que a co-res-
ponsabilidade ministerial se estabeleceu pela deliberação
collectiva no gabinete, recresceram 166.000 contos á emis-
são autorizada. Estava quasi annullada a diminuição, em
que eu coudescendera com os meus eollegas a 30 de ja-
neiro.
Do 250.000 contos a reducção decretada no principio
do anno ficava agora apenas em 84.000. Bem pouco fal-
tava, paru se restabelecer integralmente a somina orçada
no decreto de 17 de janeiro. O calculo desse decreto não
podia receber mais estrondosa confirmação, tanto mais
significativa, quanto fôra obtida aos poucos, naturalmente,
sem esforço meu. Da rcstricção, adoptada por um movi-
mento instantâneo, os meus eollegas voltavam á ampliação
por passos sucoessivos. E eu, que cedera ao primeiro im-
pulso, attendendo ã inocuidadc da transacção, tive, na con-
tra-marcha posterior do Governo Provisorio, a sua saneção
irrestricta ao plano, que elle tentara modificar na conferência
de 30 de janeiro. Solidariedade no primeiro rumo, soli-
dariedade no outro, solidariedade sempre.
Outra manifestação irrefragavcl delia está no decreto
n. 370 de 2 de maio de 1890, em que o sr. Campos Salles,
como ministro da justiça, referendou commigo, ministro
da fazenda, o regulamento expedido para a execução da
reforma livpothccaria e das instituições de credito movei,
devidas a um dos decretos de 17 de janeiro. Esses decretos
MANIFESTO
ou eram todos illegitimos, ou eram legítimos todos. Ou a
solidariedade ministerial estava em todos, ou não estava
em nenhum. Firmando, pois, commigo o regulamento para
um delles, o meu nobre collega da justiça subscrevia a
manifestação mais inequívoca da solidariedade geral do
gabinete, na obra de que esse decreto era uma das parles
integrantes.
Quero abrir mão, porém, de tudo isso; quero suppor
que esta deducção irrcspondivel, articulada pelos próprios
Cactos, sem interpretações apreeiativas, não valha nada.
Dou de mão beijada aos meus adversários todo esse montão
massiço de provas, para me abraçar com uma sA; a de
que ora vou tratar.
Por uma interview eleitoral, publicada na Gazeta de
Noticias de 7 de setembro, pelos commentarios que d'ahi
pullularam, nasceu no publico a persuasão de que o Go-
verno Provisório continha em seu seio membros divergentes,
quanto ao caminho dado por mim á questão financeira.
Os malévolos, sempre ao farisco de boatos, entraram a
explorar de novo essa mina, e a baldrocar as tramóias
usuaes a essa baixa especie de opposição.
Eu não podia deixar de serscnsivcl a esses golpezinhos
envenenados. Os meuseollegas não o foram menos.
Comprehendeu-se que esíava em litigio a nossa digni-
dade, que a reputação de insolidarios nesta matéria nos
degradava, e nos dissolveria. Convocou-se, pois, uma sessão
especial do gabinete, para fechar de modo peremptório e
definitivo o incidente. Nessa coníereneia declarei termi-
nantemente que não sahiria d'alli ministro da fazenda, si
alli mesmo se não varressem para sempre todas as duvidas
A" NAÇÃO 8C9

a respeito <la solidariedade collectiva dos meus eollegas nos


actos legislativos da minha pasta.
Pois bem : o fructo dessa reunião de ministros foi a
adopção de um voto colleetivo, assignado por ítalos, cujo
aDtographo conservo <x>m desvelo, e de (jue a imprensa
inteira, por comnmnicação offieial, publicou n teor, no dia
seguinte.
Eu a tenho aqui, deante dos olhos, essa relíquia pre-
ciosa da nossa fraternidade, ("á está, com a suacalligraphia
particular, a lettra de eada um dos meus eollegas: a do
sr. Quintino Bocayuva, ereeta como o seu caracter, tina como
a cortesia diplomática ; a do sr. Francisco Glycerio, larga e
arrojada como as suas audacias ; a do sr. Cesario Alvim,
imgular c accidentada, como as peculiaridades da sua
physionomia,ou as asperezas daquellas montanhas azues,em
que tanto se eomprazem os vôos da sua eloqüência; a do
sr. Renjaniin Constant, clara, firme, aocentuada como a sua
lealdade; a do sr. Campos Salles, tabelliôa e ]>enetrante,com
o traço do foroe o da manobra eleitoral; a do marechal Flo-
riauo Peixoto, retrahida e breve como a sua palavra ; a do
almirante Waudenkolk, miúda como uma carga de fuzilaria,
continua como uma linha de combate, cerrada como a cadeia
de um compromisso da honra militar.
Todas essas firmas, ó /rente das (juaes rompe a doma-
reehal F/onano Peixoto, agrupam-se, e fraternizam em baixo
deste documento, o mais inilludivel, a que um conselho de
ministros já sobjioz a sua responsabilidade :

"Os meuibros «lo Governo Provisorio, reunidos em conferência


de [Link]» a presidência do generalissimo, chefe do mesmo governo,
afirmam a sua inteira solidariedade, que nunca cessaram de reco-
nhecer, em todas as medidas promulgada* peto chefe do Estado com a
47
370 MANIFESTO
refermila de um» minMro*, r continnnm a adherir a ellan, (Itvlnramlo
eonsidoral-as como neto» definitivo» r lei» tht Republica, cm «mfor-
midade com o arl. 2? das disposições transitórias da Constituição, a
qual adoptnram como expressão do seu pensamento commum. e
manthn eninn »en prrxjrn nimn politico pernnte o nação r o futuro < 'nu-
gre»»o.
"Sala das sessões do Coverno Provisório, 12 ile setembro de
1890.
Fhriano Peixoto.
Benjnmin Conetunt.
fiui/ Barbota.
PrwocUoo Otycerio.
Cegario Alrim.
M. Fe rrnz de Campo» Salte».
Fdunrdo Wandenkolk.
Q. Hornyura. "
Kis abi o Governo Provisorio au yrand compld, con-
íessando, e levantando Imm alto, jx-rante a nação, a respon-
sabilidade pessoal de todos os membros delle nas minhas
medidas financeiras, promulgadas todas jxdo eheíe do
Estado, com a referenda do ministro «Ia fazenda, e objeeto
especial da conferência, em qne se firmou entre nós esse
compromisso de honra.
Eis ahi o Governo Provisorio consignando que
nunca censuro de reconhecer essa soliilnriednilc.
Kil-o ahi, declarando eonsideral-as como instituições
definitivos nu organização republicana.
Eil-o, emtim, contrahindo o compromisso de vindi-
eal-as, como seu programma financeiro, ante o Cone/resso
actuof.
Que foi, pois, o que eu propngnei nos meus discursos
de 3 ile novembro, 14 e lí> de janeiro? O meu programma
individual? Não: o nosso programma. O programma
A' NAÇÃO 371

do Bonjamin Constant. () de Francisa» (Jlvwrio. Ode


Campos Salies. O de W andenkolk. () de Floriaiio Pei-
xoto, eomjwnlieiro enjo voto nunca me faltou, iiiinea
me oppoz a minima ri-strioeão, a mais leve duvida, o
menor ernbaraeo, e enjo alisoluto aeeôrdo eommigo varias
vezes se traduziu em termos de uma eflusão, ipu; eu deixo
a s. ex. o cuidado de repetir aos seus amigos.
A verdade inquestionável é esta. Ahi fiea - na ex-
pressão material das cireumstaueias e na íace inalterável
dos documentos.
Potlcriam renegar esta solidariedade. Mas não po-
derão negal-a.
Xáo creio, porém, que, entre c«s meus honrados eol-
legas, haja alguém, capaz de fazcl-o,
Increpa-me osr. Ramiro Barcellos de haver explorado
as circnmstancias, com (pie me favoreceu a sympathia do
marechal, para constituir, em meu proveito, uma situação
de desigualdade e supremacia cora relação aos meus col-
legas.
E' um falso testemunho, a que victoriosaraente res-
ponde, por factos da mais concludente relevância, o meu
procedimento invariável, já para com os outros ministros,
já para com o chefe do Estado.
Pelo que respeita aos meus collegas, extremarei tudo
em duas palavras, dizendo que não me lembro de havcl-os
contrariado nunca em actos da competência das suas respe-
ctivas pastas. Esta systematica abstenção caracteriza as
minhas disposições invamva», a indole odiosa da minha
tyrannia. Favores, não lh'os devi nunca, a não uer em ma-
téria de nomeações, que calculo não passariam de uma
dúzia, ao todo (si a tanto chegaram), na totalidade das
pastas.
3"4 MANIFESTO

Da parte do niaiwhal Deoduro, «'iii verdade, nenhum


dos meus eollegas recelxMi maiores provas, do que eu, de uma
eonfiança, que, nas mãos de mu homem ávido de poder, m*
poderia ter eouvertido em instrumento de predominio e
vexame eontra os s«'us eompanheiros de governo. Afãs, em
politiea, sempre fui proiimdamente desambieioso: não
tenho, nunea tive, aspirações pessoaes de qualidade ne-
nhuma.
As posições, que oeoupei, trou\e-m'as o eoneurso da-
eireumstaneias, sem que eu nunea as requestasse. Xunea fui
candidato, nem mesmo aos cargos de eleição popular, que
algumas vozes occnpei, graças meramente á designação do
partido, em que militava, sem a menor intervenção minha,
directa, ou indirecta, na organização das suas chapas. Tive
sempre invencível negação para os meios, com que se cria e
entretem a intlueneia política. Muitos ministros sustentei
com o apoio do meu trabalho intellectual, sem receber
jamais a menor remuneração, nem mesmo nessa casta de
favores, á custa dosquaes a ascendência eleitoral se mantém
sem quebra da consciência. Mais de uma vez vi passar a
outros, na organização de ministérios imperiaes, o logar,
que seria meu, si eu o disputasse. Na formação do minis-
tério Dantas, disse-me o seu eminente chefe : " Estás mi-
nistro, se quizeres. " E não fui ministro. Xa composição
do ministério de 7 de junho, ninguém ignora a intransi-
gência com que resisti á honra das instâncias do visconde
de Ouro Preto, separando-me dclle o do meu partido
unicamente por amor da idéa federalista, de que eu fizera,
na imprensa, o programma nacional.
Para a revolução entrei pela mesma porta, por onde
entrara na politiea, e por onde sahi do partido liberal,
A' NAÇXO STÍ

exactamentp na hora cm «jiK' ollo snhia ao {çovorno:


a da publicidade, a do jornalismo, a da tribuna po-
pular.
Minha i>arto na conspiração data das vésperas da
revolução. SA eomcoei a devassal-a no dia !) de novembro,
quando o dr. Henjaniin ('onstant, sob a imjn-essão do meu
artigo dessa data " Plano contra a patria me pro-
curou no meu eseriptorio, e demorou-se commigo em larga
eonfereucia, dando-ine idéa da explosão imminente, c soli-
citando o meu jnizo. Respondi-lhe em linguagem idêntica
á «pie tinha pela imprensa, dizendo (pie eu não via solução
possivel, para a crise, no curso ordinário das eousas. Xo
dia 11 me procurou elle outra vez já então em minha resi-
dência, pedindo-me, em nome do marechal Deodoro, uma
entrevista na sua casa, ou na minha, conforme eu esco-
lhesse. Respondi-lho que a idade, a doença, a veueranda
posição do general me impunham o dever de ir á sua casa,
em vez de obrigal-o a vir á minha. Disse-me então o
dr. Henjamin ("onstant que o illustre chefe do exercito
me esjx-rava ás 8 1/2 horas dessa noite. Compareci, e tive
a honra de ver-me entre os srs. Boeavuva, F. (Jlveerio,
A. Isibo, R. Constant c coronel Solon. No dia seguinte,
procurado pelo sr. Rocayuva, me dirigi, com elle, á rua
do Carmo, n. 40, onde s. ex. me eommunicou a minha
designação para ministro da fazenda. Oppuz-lhea minha
falta de idoneidade ; mas não logrei veneel-o. E acceitei, já
porque o cargo então não attrahia pretendentes, já porque
a obstinação na recusa poderia tomar a eôr de jailtroneria,
na conjunetura de duvidas e ameaças, em que, ante as
obsenridades do futuro, se earoeia de homens, (pie jogassem
a cabeça pela idéa.
3'6 MANIFESTO

Eis a minha parto pessoal na conjuração. Hasgon-


so-mo uma cortina, vi a revolução feita, inevitável:
negar-lhe os meus serviços era negal-os ao paiz, Eu fpii-
zora (pie a Republica viesse depois da federação, e predissera
ao throno a revolução, si elle não se refugiasse na idéa
federalista. O egoismo do sr. Saraiva e a imprevideneia
do sr. Celso puzeram a solução do dilemma na mais
perigosa das duas alternativas, apressando a revolução, e
duplicaudo-lhe as diffieuldades da tarefa.
Foi, pois, a mouarehia, foi o partido liberal que
impellin os factos ao peior dos dois resultados. Annun-
ciando o eneadeiamento logieo, a sueeessão fatal dos acon-
tecimentos, eu sinceramente queria servir á minha patria ;
acautelando o império contra a sua queda prematura.
Meu papel na imprensa não era capa de uma trama nas
trévas. Era a expressão da lealdade de um lutador franco,
(pie ainda não considerava chegada a vez da Republica,
mas que a via irromper necessariamente, intempestivamente,
por obra da mouarehia. Não conspirei. Adverti,e predisse.
Ainda ahi não fui um homem de ambição: fui um homem
de consciência. Si outros a tivessem collocado um pouco
acima dos interesses de partido, a mouarehia federalizada
estaria preparando lentamente o paiz para a transição repu-
blicana, mais madura e mais bemfazeja.
Com o marechal Deodoro nunca me fòra dado ter
relações de especie alguma. Apenas uma vez o encoutnlra
antes da conferência, era que nos avistámos ás vésperas
da revolução. Éramos qnasi de todo o ponto desconhecidos
um ao outro. Comecei a lhe entrever o coração, quando,
nos primeiros dias do nosso governo, s. ex. teve a bondade
de contramandar, a pedido meu, a ordem de execução
A' NAÇÃO 877

capital, qüe expedira contra alguns officiaes, cabeças de


unia sedição militar, creio que em Santa Catharina. Foi a
primeira perversidade da minha supremnem.
Da benevolência, com que o chefe da dictadura me
principiou a considerar, não sei a origem. Por essa fortuna
tiz tanto, quanto pela da detestação, que a outros tenho
merecido.
Julgo-me íeliz, pela honra, aliás passageira, que me
coube, de inspirar alguma inclinação a uma alma leal,
desinteressada e generosa, como aquclla. Mas para essa
distineção não dei causa, ao menos intencional. Fui da-
qucllcs membros do governo, que menos o freqüentaram.
Salvo visitas de estricta polidez, não ia a palacio, fóra dos
dias de despacho, senão a reclamo do serviço, em matéria
política, ou administrativa.
Si a condescendência, a lisonja e o carinho são o
segredo dos ministros ambiciosos na conquista do espirito
de seus chefes, nunca dispuz de taes favos, para adoçar
a aspereza ás agruras da tempera do velho general, que
estava muito longe de ser "um pobre velho". Antes me
poderiam taxar de seqnidão, rigidez e inflexibilidade para
com elle. Porque nunca torci, do mesmo modo como nunca
o achei rebelde á verdade e á justiça, quando advogadas
com firmeza e critério em sua presença. Servi-o, resistindo-
Ihe; resisti-lhe, esclarecendo-o; e nunca o vi, esclarecido,
recusar-se a capitular, emquanto a obra do enredo o não
separou de nós pela desconfiança. Do meu ministério quasi
nada me pediu elle, e ainda menos obteve.
Da minha conservação no governo fiz sempre o mi-
nimo caso possível. Desde que ella me parecia tornar-se
obstáculo á autoridade do chefe do Estado, á harmonia
48
MANIFESTO
entre os meus collegas, ou aos interesses da obra republicana,
apressava-me em offerecer, exigir, ou dar a minha demissão,
como desenealhe iramediato.
Assim, quando, por oocasião do decreto de 17 de ja-
neiro, se suscitaram, no seio do gabinete, antagonismos,
qne repercutiram fóra com escândalo, por ires vezes me
declarei demittido, não cedendo em ficar, senão porque o
chefe do Estado me assegurou que a minha exoneração
importaria a sua.: a primeira vez, verbalmente a s. ex.
mesmo ; a segunda, em carta, que vou transcrever, a 27
daquellc mez ; a terceira, em outra missiva, de que, trcs
dias depois, se incumbiu o sr. Aristides Lobo.
Eis a carta de 27 de janeiro, entregue ao marechal
Dcodoro pelo sr. A. Azeredo :
" Rio, 27 de janeiro de 1890.—Exm. amigo sr. marechal.
" Não veja v. ex., no que lhe vou dizer, a minima quebra ao
respeito, á gratidão, á amizade, que tenho e devo ao glorioso fun-
dador da Republica.
" Declarou v. ex. que, si eu [Link], abandonaria lambem
a chefia do Estado. Não : v- ex. não o fará, eu lh'o supplico. Em-
pregam-se esforços, para obter a minha convivência, no gabinete,
com um elemento, que já declarei a v. ex. incompatível com a
minha honra. Esses esforços inspiram-se nos motivos mais puros.
Mas essa mesma veneração, que eu consagro ao seu autor 1, uma das
forças mais bemfazejas do novo regimen, põe-me em um estado
de coacção moral, que me opprime afiliclivãmente. E'-me difficilímo
reagir conlra essa influencia poderosa sobre o meu espirito e cara
ao meu coração. Mas, por outro lado, o espectaculo da minha con-
descendência com a opposição armada contra mim no proprio
seio do ministério, a que pertenço, e exactamenle na occasiâo em
que lhe presto o maior [Link]ços, que, como ministro das finanças,

1
O dr. Benjamin Gonslant.
A' NAÇÃO 379
me era dado fazer, hoje, a este paiz, abate-me perante a minha con-
sciência, e desmoraliza a autoridade do governo.
" Não tenho Estados, que se abalassem, ou desmembrassem,
irritados com a minha demissão; e, si os tivesse, rejeitaria essa
especie de apoio, cujo caracter seria tirar ao chefe do Estado a
liberdade de acção correspondente á sua suprema responsabilidade.
"A minha sabida será, portanto, um incidente sem conseqüências
políticas. Por nimia benevolência, v. ex. não me concede a des-
tituição. Pois bem : o meio de servir a v. ex. é toraal-a eu mesmo.
" E' o que, com o mais profundo acatamento, venho fazer, ro-
gando a v. ex. que não me considere mais ministro.
" Já não o sou.
" Serei apenas, agora e sempre, um servidor leal da Republica
c do seu grande iniciador.
" Disponha v. ex. deste seu amigo obrigadissimo — liuy Sar-
l/usa."
( ontimiaiulü pela imprensa, depois de 30 de janeiro,
a guerra contra a reforma bancaria, de dia em dia se me
tornava mais claro o caracter pessoal dessas hostilidades
e a conveniência de remover, com a minha eliminação do
gabinete, o pasto mais grato ao elemento perturbador; e
neste sentido me dirigi ao chefe do governo, por uma
longa carta, endereçada, em ti de março, ao seu secretario,
expondo os perigos dessa agitação, si a não apaziguássemos,
e a necessidade urgente de deixar eu o ministério da fazenda,
para que a Republica não soffresse com a minha perma-
nência no poder.
A resistência do marechal a esse pedido levou-me
ao decreto de 7 de março, mercê do qual a campanha
contra as emissões cessou com o farto quinhão concedido
nellas ao Banco Nacional c ao Banco do Brasil.
.Suspensa, ou minorada aqui, a lueta recrudescia, en-
tretanto, no Rio Grande do Sul, tendo por pretexto o banco
380 MANIFESTO

emissor daquelle Estado. Não 6 que a opinião ai]i não


comprehendesse as vantagens desse estabelecimento, que
teve, na imprensa daquelle Estado, o apoio de muitos e
importantes orgãos de publicidade. Mas o interesse politieo
desvirtuara a questão, as antipathias pessoaes azedaram-iva,
parte do elemento militar (especialmente a mocidade da
escola) fraterni/ara com os agitadores, e a irritação engra-
vescia, sem possibilidade de atreguarmos, até que, no
dia 13 de maio, foi deposto o governador, ineulcando-se
a questão bancaria como causa desse lamentável incidente.
Não hesitei ; no dia immediato (14 de maio), em confe-
rência ministerial, apresentei a minha demissão, declarando
que não queria, de modo algum, directa, ou indirectamente,
contribuir para a dcsaggregaçâo dos Estados, ou, sequer, para
a perturbação da ordem no seio dclles, maxime quando o
meu empenho fòra sempre abster-me de toda intervenção
na sua política. Foi-me negada a exoneração, a que todos
os meus collegas se oppuzeram.
Aos 5 «le agosto, cm conseqüência de um incidente
pessoal no seio do gabinete, demitti-me outra vez, por
carta que esteve nas mãos do sr. F. Glycerio, e sobre qne
s. ex. me escreveu, pedindo-me que a retirasse.
Nesse mesmo mez occorreu entre mim e o marechal
Deodoro um pequeno attricto, que não devo calar.
A pedido do marechal Floriano, nomeara eu thesou-
reiro da alfandega de Alagoas a .José de Sá Peixoto.
O acto desagradou ao governador daquelle Estado, (pie
contra elle representou por telegramma ao marechal. Eestc,
esposando os sentimentos de seu irmão, ordenou-me
que reconsiderasse. Communicando eu o facto ao ma-
rechal Floriano, este deu-se pressa em abrir mão do seu
A' NAÇÃO 381

candidato. Km conseqüência, annui á vontade do chefe


do jíuverno. Mas não o fiz, senão rcsulvando a autoridade do
meu cargo, c pondo nas mãos de s. ex. a pasta dc ministro
da fazenda. Kis, com effeito, a missiva, (pie então lhe
dirigi :
" Generalissimo, chefe e amigo.—Nomeando thesoureiro da
alfândega de Maceió o sr. .losé de Sá Peixoto, satisfiz a um pedido
do sr. marechal Floriano Peixoto, que é ministro, que é alagoano,
que é amigo de v. ex., e que, com approvaçâo de v. ex., teve o
encargo dos negooios do Estado de Alagoas. O meu acto é, pois,
inspirado 110 melhor desejo de acertar. Procedi nelle, como
sempre.
" De accftrdo, porem, com a sua ordem, será nomeado agora o
sr. Manoel Marins de Miranda, uma vez que assim o quer v. ex.,
que i- unicamente a quem, emquauto ministro, devo obedecer.
" Si v. ex., porém, entende que, no ministério, devemos estar
sujeitos a outra especie de subordinação, si acha que os ministros
são subalternos a governadores de Estados, rogo-lhe me allivie
deste encargo, onde lenho a consciência dc haver servido á patría
e a v. ex. com sacrifício e honra.
"Sou, com profunda consideração o respeito, de v, ex. amigo
olu igailissimo—lín;/ íiarboxa.—15 de agosto, 1890."
No caso <la concessão Carneiro Brandão a minha
attitndc foi ainda a mesma. Transigindo nessa concessão,
por me declarar o chefe do Estado, em carta, assumir
inteira a responsabilidade do acto, não assenti, ainda
assim, senão porque essa liberalidade ficaria annullada,
antes de começar a vigorar, com a abolição dos direitos
federaes dc exportação, que cn, durante algum tempo,
acreditei possível decretar para o exercício de 18® 1. Isto
mesmo declarei positivamente á commissão de eoinmissarios
de café, <[ne, com o sr. Duque-Estrada por vogai, mc
procurou, reclamando contra aqnelle favor,
MANIFESTO
í*ão se podendo, porém, levar a effeíto o meu pro-
pósito de extinguir logo os direitos de exportação, e
carceendo o governo de decretar a prorogativa para o
exercício vindouro, antes da abertura do Congresso, que
deveria começara funocionar aos 15 de novembro, sub-
raetti a s, ex., em II desse mez, um decreto, já lavrado
e referendado por mim, revogando aquella mercê, cuja
manutenção irrogaria graves prejuízos ao orçamento, e
deshonraria a minha palavra, dada ao commercio expor-
tador. Recusando-se o marechal, sob a influencia de
ilbisões, que outros lhe tinham incutido no espirito, sahi,
enviando-lhe immediatamente esta carta:
" Geiiptalissimo. — Na conrerencia, que, ha pouco, live com
v. ex., para subníetter á sua assignalura o decreto revogatorio da
mercê feila a A. G. Brandão, decreto sem o qual mostrei que o
governo não poderia promulgar orçamento, ou prorogativa, re-
petidas vezes declarei a v. ex. que o acto por mim solicitado envolvia
questão de honra para a administração publica e o ministro da
fazenda.
"Recusando-m'o, portanto, v. ex. implicitamente me deu a
minha exoneração, que lhe agradeço, pedindo-lhe que se digne de
nomear-me successor.
"Sempre com profundo respeito, dev. ex. amigo e obrigado
—Ruy liarhom.—11 do novembro de 1890."

No dia seguinte recebia eu do chefe do Estado, por


sua lettra, cm bilhete que conservo, esta communicação ;
" Ao dr. Ruy Ri rbosa—Manoel Deodoro da Fonseca pede que
lhe mande o decreto revogatorio.—12 de novembro de 1890."

Já 6 conhecida ao publico a demissão dada por mim


no episodio da fazenda de Santa Cruz e a carta do mare-
chal cerrando o incidente com a approvaçãodo meu acto.
A' NAÇÃO

Na questão tio porto das Torres, antes tpic o minis-


tério apresentasse a sua demissão collectiva, já eu, re-
ciisando-me a comparecer á confereucia convocada para o
dia 17 de janeiro de 1891, offereeera a minha destituição,
por esta carta, á qual, na mesma data, se seguiu outra,
concluindo no mesmo sentido :

" Tijuca, 17 de janeiro de 1891.—Generalissimo.—Soflrendo,


ha quatro dias, de nevralgias, que muito me têm afiligido, não
pude comparecer á conferência de hontem, nem poderei assistir á
de hoje.
" Como, porém, v. ex. faz questão do meu parecer no
assuniptp, sohre que se tem de resolver esta noite, dal-o-hei por
escripto.
" Meu parecer, hoje, continua a ser o mesmo, que já tive a
boina de expeuder a v. ex. na manhã do ultimo domingo, era que
v. ex. se dignou de ouvir-me a esse respeito. Sou absolutamente
contrario a toda e qualquer garantia de juros, presentemente; por-
que. evidentemente, as já concedidas se resenlern de excesso,
excesso mui considerável, que as circumstancias explicam, mas a
que cumpre pôr paradeiro, e oppòr as restrieçôes ainda possíveis.
Meu voto é, pois, de todo em todo adverso quer á concessão re-
clamada para o porto das Torres, quer á que se pede para as obras
hydraulicas e melhoramentos do Rio de Janeiro. A'do porto das
Torres sou intenso, não por desconhecer as vantagens do projecto,
a utilidade do serviço, que elle planeja, mas pela razão geral de
opportunidade, que, ha pouco, indiquei.
" A' das hydraulicas (segundo o nome por que é designada
essa empreza) me opponho, porém, não só por esse motivo, senão
também por considerar injustificável a mercê e mais prejudiciaes
que benelicas as obras projectadas.
" Creio que o nosso dever é cortar, quanto ser possa, nos favores
já outorgados, que empenharem o credito da nação, e nunca
augmenlal-os. Quanto coube nas minhas forças, diligenciei sus-
tentar e desenvolver esse credito. Si mais não íiz, é porque mais
884 MANIFESTO
não sabia, ou não eslava na esphera dos meus recursos. O i"1'"
voto agora obedece á mesma preoccupaçâo.
" Caso ache v. ex., porém, que interpreto mal os verdadeiros
interesses do paiz, bem sabe que não pode senão accresceutar o
maior dos títulos ao meu reconhecimento, chamando espíritos ma»s
esclarecidos a me emendarem o erro, e renderem-me neste posto,
para o qual não faltam servidores mais competentes.
"Por essa graça, ainda mais penhorado ficará av. cs.—0
amigo muito obrigado Ruy Harbrmi."
Agora julguem os meus concidadãos si assim é q"P
procede um ministro guloso do jxxlcr, sedento de mando,
imbuído na preoccupaçâo de scnhorcar as boas graças do
chefe do governo, ou si, pelo contrario, toda a minha vida
ministerial não foi uma série de pontapés dados consciente-
mente na fortuna, por que outros tanto anhelam, e a que
tanto sacrificam.
Quizesse eu amimal-a com um pouco de duetilidade,
um tanto menos de meliudre, algum eondescendimento,
meia dúzia de amabilidades opportunas, menor dóse de
solidariedade com os meus collegas,—c então o ascendente,
(pie se me suppõe, teria sido a mais poderosa das rea-
lidades, a intriga em vão tentaria invasões no animo
do chefe, a primeira dictadura não se teria enfraquecido,
como sc enfraqueceu, e a junta de 15 de novembro não
cahiria, talvez, como cahiu, a 22 de fevereiro.
Culpas, si as tenho, são essas. Mas taes são as culpas
de uma consciência briosa, de um coração enjoado da
política, de um espirito desapegado do poder.
O publico, porém, ainda está longe de saber o melhor.
Amanhã voltarei a elucidar o assumpto, com factos
ainda mais notáveis.
XI

Ignnro m (|iio devi a selecção, com (juo me distinguiu


o marechal Deodoro, uomcando-me primeiro vice-chofe do
Estado. Sei a|K>nas que empreguei os esforços ao meu al-
cance, por evital-a. Avisado, por interposta pessoa, de que
s. ex, pretendia conterir-me essa dignidade, não me cabia
fallar-lhe pc-ssoalmente, em assnmpto que elle parecia querer
reservar de mim. Recorri então aos bons offieios de um
amigo, o sr. Antonio Azeredo, para lhe representar sobre
a inconveniência da escolha, que procurei, por esse meio,
convencer o marechal de que devia reeahir sobre odr. Ben-
jamin Constant. S. ex. não aecedcn. Sen pensamento
(c atpii vou tocar em circnmstancia ainda não divulgada),
sen pensamento era instituir três grãos na successão da
chefia, eabendo-me o primeiro a mim, o segundou B. Con-
stant, o terceiro ao almirante Elisiario Barbosa. Tendo-se,
porém, esto escusado, assentou o marechal em rednzil-os
a dois.
Busquei fugir desse cargo, pela mesma razão exacta-
mente, que, para ambiciosos, havia de tornal-o a mais
49
386 MANIFESTO

cubiçavel das fortunas. Eu sabia, <1110 não se tratava de


graça honorifieu, mas do funeções, a que unia eventualidade
iTcciada, prevista e, ao paroeer, innniueute, podia, <le mu
momento para outro, imprimira mais séria realidade. Tão
graves appareneias assumiram os padeeimentos do mare-
clial Deodoro, que a medicina formulava prognósticos
desanimadores, felizmente desmentidos |M'lo tempo. Ao
que se suppunba, ]>ois, a sueeessão podia abrir-se da noite
para o dia. Ora, eu não me illudia acerca das minhas
forças : conhecia-lhes a deffieiencia, a t<Klos os respeitos,
especialmente numa situação em que a maior das teme-
ridades seria despertar os zelos da espada.
Condeseendondo, portanto, em simples homenagem
de respeito ao chefe do Estado, nutri sempre o mais firmo
proposito de resignar opportunamente. E assim o (iz em
tempo, obedecendo apenas ao meu arbítrio, sem que eir-
eumstaucias exteriores de qualquer ordem m'o impuzessem.
Essa resolução foi sorpreza jjara os meus eollegas, dos
quaes apenas eommumdjtiei o que ia fazer ao marechal
Floriano Peixoto, passando pelo quartel general, quando
levava a Itamaraty a minha carta de exoneração, que vou
transe rever:

"Generalissimo.—Quando v. ex. me deu a inslgne honra de


nomear-xne 1? vioe-chefe do Estado, procurei declinar dessa im-
meusa dislineção, tão superior ao meu merecimento.
" (".edi, porém, ás suas ordens, compréhendendo o pensamento
politico, que nellasse encerrava, de rebater a increpação de exclu-
sivismo militar, irrogada á revolução pelos seus inimigos. Agora,
que está satisfeita, nesta parte, a intenção de v. ex., cmnpre-ine,
obedecendo á minha consciência, e voltando á minha deliberação
primitiva, renunciara uma dignidade, que pteseufemente não me
cabe.
A' NAÇÃO 387
'"Ksppro que v. ex.. recouliecendo os motivos suiMjriores, que me
inspirum, alten<ler-me-ha neste pedido, expressão dos interesses do
pai/, e da lealdade, com que me esforço, por servir a causa da Repu-
blica,
"ftom a maior veneração, lenho a honra de ser de v. ex. amigo
dedicado e ohrigadissimo.—Ruy Hurhoxa.—17 de agosto de 18!>0."

Caso singular : esse aeto de desinteresse não me sahiu


f/rntlx. Houve, entre as columnas do ministério actual,
quem não m'o perdoasse, levando o agastamento ao ponto
de cortar relações comraigo. O sr. marechal Floriano
conhwe essa particularidade, que condimenta com um traço
comico estas graves recordações.
Já se vc que não passou sem contra-pesos, para mim,
o yozo abstracto de tacs honras. Momento houve, até, em
que as paguei de sobra com impressões de verdadeira
agonia. Perdoe-me o marechal Deodoro, si desvendo agora
o sigillo de ura episódio, cujo recato guardei até para com
os meus companheiros de governo. E' mais uma pagina da
sua abnegação. Posso, pois, lél-a ao publico, sem quebra dos
meus deveres. No dia (5 de maio era eu acordado por uma
carta de s. ex. resignando a chefia do Estado, transfe-
ri ndo-me esse posto, e declarando voltar ao seu quartel
como servidor leal do paiz.
Na situação, em que nos achavamos, não podia des-
fechar-se maior golpe na revolução ena Republica.
Afflictivãmente commovido, mal tive tempo de pedir
o carro, mostrar a carta do marechal ã minha mulher
e a um auxiliar do meu gabinete, cuja discreção me
inspirava confiança, o sr. Tobias Monteiro, e partir para
o palaeete Itamaraty, ás 8 horas da manhã. Não me foi
dado, até hoje, penetrar as causas, que moveram o marechal
388 MANIFESTO

Deodoro a essa resolução inopinatla e violenta. Ao menos,


não havia entro olle e os seus ministros a menor diver-
gência apparente, nem nos constavam outras circuinstaucias,
rjue pudessem explicar esse estampido em 060 sereno, Como
rpier que fosse, porém, o essencial era eonvcneel-o da ne-
cessidade de não insistir nesse erro. Corri a s. cx., expuz-
Ihc as conseqüências desastrosas do seii passo ; declarei-lhe
peremptória mente que, pela minha parte, não aeceitaria a
suocessão ; que outros provavelmente tainlwm não a assu-
miriam ; que s. ex., emíim, tiulia, pam com a revolução,
compromissos, dos quaes não lhe era licito divorciar-se ; e,
a pés uma conferência de mais de uma hora, tive a alegria
de ver tornar á razão aquella alma sempre intimamente in-
clinada ao bom. Kcstitui então a s. ex. a sua missiva, c tão
impenetrável segredo teci em volta desse incidente, que nem
o proprio ministério o vislumbrou.
Eram deste gênero as nmldades, para que me serviu o
meu valimento perante o general.
Entre as mexeriquices, que d'ahi se procuraram
extrahir, uma das com que mais se me quiz prejudicar, na
estima do elemento republicano, foi o boato de haver eu
cooperado nas circumstancias, que determinaram a exone-
ração do dr. Aristides Lobo, ministro com quem vivi
sempre na maior cordialidade. E' uma vil calumuia.
Eu seguira caminho de S. Paulo, para onde, havia muito,
estava aprazada, com aquella data, a minha viagem, sem
imaginar que a crise se extremasse, como se extremou, logo
após a minha partida. Si contribui para a nomeação do
sr. Cesario Alvim, foi ]>ela indicação, que desse nome fiz,
a par do do sr. Rangel Pestana, quando, anteriormente, o
n arechal me consultara, cm relação á sabida imrainente
A' NAÇÃO 389

do sr. Demetrío RíIkmpo, acerca da escolha do sen siicccssor.


Não consultei, como se vê, nessa indicação, interesses da
minha infivenria ; pois, com o ultimo desses dois repu-
blicanos as minhas relações eram de pura cortezia, e o
primeiro não é, não era, nunca foi meu amico.
Dessa frágil e ephemera influencia, tão malsinada
pelos dragões da democracia agitadora, não se deve esque-
cer a primeira muHeitoria, na minha iniciativa e nos
rnens esforços pela convocação da Constituinte. Soldado,
educado na escola da concentração da força eda unidade de
acção, natural era ipic o chefe da dictadnra não cuidasse
em abreviai-a, acreditando mais na sua eflicacia organiza-
dora do que na e\cellencia das assembléas deliberantes, a
enjas vantagens, no meio de todos os males que as des-
contam, não se pode fazer plena justiça sem o auxilio de
certa cultura liberal, que a profissão militar não é a mais
apta, para desenvolver. C oi locado, como administrador das
finanças, em posição mais sensivel qnc a de qualquer
dos meus collegas ás inconveniências da demora na reunião
da Constituinte, coube-me dar, entre elles, a voz desse mo-
vimento, reclamando a convocação immcdiata, como provi-
dencia de administração financeira, sem a qual eu não
continuaria no gabinete.
Na política dos Estados ninguém intervein menos do
que eu. Aecusou-se-mc de ingerir-me na do Rio Grande do
Sul. Não ha nada mais falso. Si eu possuisse a autori-
dade, que se me suppunha, seria para promover, naquelle
Estado, como em todos os outros, a política, que sempre
preguei, de conciliação entre todos os bons elementos
políticos, velhos, ou novos, no seio da união republicana.
Quando, para methodizar o serviço, assentámos em
390 MANIFESTO

distribuir a aula membro do fluvumo Provisorio um grupo


de Estados, couberam-me a mim os de Pernambuco,
ScrgijH; e Paliia. Mas o da Balda estava sob o governo
do general Hermes, irmão do marechal, e, portanto, fóra
do alcance da minha acyão; o de Sergipe Jazia sob <>
ascendente de influencias militares, (pie eu não poderia
superintender; o de Pernambuco, pouco depois, foi parar á-
mãos do marechal Floriano, como se vô desta carta, com a
qual me conformei:
" Rio de .limeiro, 27 de junho de 1890.—Ruy. — Na confe-
rência ministerial, hontem efloctuada, ficou combinada a alteraçã"
da aclual divisão dos Estados. Por essa combinação a direcção do
Estado de Pernambuco passa a pertencer ao general Floriano
Peixoto, si nisso convieres. Nada, no entretanto, ficou deflniliva-
mente resolvido. Subraetlo, pois, o caso ao teu esclarecido juizo, c
aguardo a tua resposta.—Amigo e collega, Glyeerio."

Ahi têm a que se reduzia a minha influencia, e como


eu a zelava.
Objurgou-me o sr. Ramiro Barccllos, inerepando-me
de haver convertido o governo em " túnica de Nessns"
para os meus companheiros. O publico já conhece bastante
dos faetos, para apreciar a falsidade desta proposição.
E eu não a discutiria, si cila exprimisse apenas a opinião
individual do sr. Ramiro Barcellos, que, por muito resjiei-
tavel, não podia autorizar-me a descortinar aspectos Íntimos
da nossa vida ministerial. Mas as inveetivns do nobre
senador eram postas ao serviço de uma causa, em que, no
senado, railitam dois collegas meus. Essa inveraeissima
inexactidão ficaria, pois, aos olhos de muitos, asseilada
com a rcctificação tacita, apparente, ou iudireota, (pie da
attitnde uetual dc alguns ministros dauuelle gabinete se
A' NAÇÃO 391

|),)(l<'ria infÍTir. Ora, não [Link] deixar correr impaneniente


ess» presiini|içâo.
líelevar-me-lia o meu amigo «r. Francisco Glycerio
a divulgação de outra carta sua, que, pelo conteúdo,
pôde saldr a lume som indiscreção. Quero a^K-uas que se
veja si os meus collegas viviam eommigo na condição
do victimas, condemnadas á partilha do poder com um
verdugo.

" Itio, 4 de acosto de J890.


" Itiiy. — Li a carta, que endereçasto ao marechal, dando a tua
demissão, <■ li-a em poder do A. Azeredo. Antes de nos encontrar-
mos, apresso-me em escrever-te.
" Peço-le que nada resolvas, sem nos entendermos. Greio que
pódes fazer-nos este favor, sem ueidium prejuízo para os teus
sentimentos.
".1 huimitladee o affvfn que Um Hgailo a nomi vida minüterinl
dfto-me direito a esperar este favor da tua parle.
"Adeus. — Teu amigo, Qlycerio."

Solemuissimas oocasiúcs tiveram qs meus collegas de


cX|>crimentar a que ponto eu considerava absolutamente
inseparável a minha autoridade e a sua, absolutamente
solidaria a minha honra e a delles, absolutamente
inútil o meu credito perante o marechal, a uão ser como
instrumento collectivo do ministério em beneficio da obra
eommum.
De que essa era a convicção de s. cx. tive eu prova
extraordinária (como já tivera em outra gravíssima
crise), quando, na questão do saneamento desta cidade,
me confiaram a delicada missão, que me coube desem-
penhar. Vimos dissolvido, naquclla oceasião, o Governo
Provisorio, antes que houvéssemos, sequer, apresentado ao
392 MANIFESTO

paiz o programma da rovolnçtío no projccto f'onfitit(i0jon,(j


fpio devia definir a orgíiniza^-ão da Kepubliea, o sery.j,.
centro aos trabalhos da Constituinte. A nossa dispersão
nessa eonjnnetnra, seria nm verdadeiro nanfragio naeional
enjas eonsoqneneias ninguém poderia ealeular. A tentati vu
a (jue os meus eollegas me animaram perante o chefe d
Estado, surtiu, porím, o efíeito, que nem ellesnem eu esiie.
ravamos. p] pudemos então entregar-nos aos trabalhos cou
stitueionaes,enjo mallogro nos chegara a pareeer inevitável
No methodo, que para a rapida execução desses tra-
balhos adoptãmos, assignalarara ainda mais os meus ilhis-
tres eollegas a identificarão, em que viviamos, a eonfiíln,.u
com que me distingniam. Diariamente me davam ss. exas a
satisfiieão de reunir-se em minha casa, ás '2 horas da tarde
alli collaboravam todos commigo até ás õ 12, e, dep,»is ifi,
jantarmos juntos alli mesmo, dirigiamo-nos, reunidos n
Itamaraty, onde eu, por delegação de todos os meus eol-
legas presentes, funeeionava no caracter do seii vogai pe-
rante o chefe do listado, justificando, como interprete do
pensamento delles, o nosso projeeto constilueional, Dso
durante 12 ou 15 dias. Assim se fez a Constituição.
Dessas sympathias recebi eu ainda o ultimo e o mais
alto testemunho, quando, no dia 19 de dezembro de Isíio
ao deseerda tribuna do Congresso Constituinte, «aide aca-
bava de sustentar o nosso projeeto contra os assaltos do
radicalismo desorganizador, os meus honrados compa-
nheiros, reunindo-se em um gabinete do pulaeio da Doa
Vista, declararam-me a uma : " Nós deixamos o governo,
Mas iremos, incorporados, ao marechal, deelarar-lhe que
o ministro da fazenda não pode sahir," An que lhes
respondi; " Ficarei, ou sahirei, com os meus eollegas,"
Aliás, os sentimentos, <|iie a bondade dos meus compa-
nlieiros então exprimia assim, eram egüalmento os (pie o
iijarechal Deodoro, ainda no me/ do novembro, manifestou,
em duas conferências ministeriaes, mostrando-se dcsejoso
de que eu o não deixasse. Mais tarde, na crise do porto das
'forres, essas continuavam a ser as suas disposições. Ainda
então só de mim dependia a escolha eutre o poder sem os
meus eollogas e a solidariedade com elles.
ix ê desta solidariedade cpic me pretendem banir hoje
como infruso ! E com esta solidariedade (pie me pretendem
açoutar como a um indigno ! Atrás, senhores meus! Atrás
com essa miserável falsifieação dos fuetos !
A realidade abi fica, historiada nas suas feições cara-
cterísticas. 1 'or cila o paiz verá, o depoimento dos meus eol-
legas e do meu chefe, a meu respeito, no procedimento deiles
paru eommigo. Verá como fugi das camarilhas, como re-
pudiei as vantagens da privança pessoal, como prati-
quei a lealdade, como desprezei o poder, como servi á Re-
publica.
Magno vxt veriias, et pra va/ebit.

xn

Afaln'!, Miuha defeza ahi eató. Simples obra de


conscieiieia e frarapieza, ella dirá do bom e do mal que
j>er})etrei.
(>s factos depiizeram j)or mim. Não quero outros
advogados. Não busquei diminuir a minha responsabili-
dade ; não invoquei em meu soccorro a responsabilidade
de ninguém. Assumo a que me toear, plena, desapadri-
nhada. Ajx;nas a (piero moldurada nas circumstancias, que
a determinaram, commentada e definida porellas. Quero-a;
mas não a jkjsso admittir, senão como parte na correspon-
subilidade dos meus corresponsaveis, sem a qual eu jamais
assumiria o pajad, a que me animou a confiança, o apoio, a
euminunhão dos meus collegas no desenvolvimento das
minhas reformas.
Si alguma réstea da luz, que tive de projectar na ob-
seuridade das eireumstaueias exploradas contra o meu nome,
magoou os meus companheiros, justo será levarem-n'o á
conta dos vingadores offieiosos, suscitados a favor dos meus
collegas pelas alliauças jaditicas de hoje. Reprovarem-me

>
396 MANIFESTO

este desafogo, seria reeusarem-mc o direito invcdavel da


legitima defeza, ante a mais improvocada e desabrida
provocação. Cuido, porém, havel-a rebatido, sem faltar
aos estylos de cirenmspecção, cavalheirismo e afFecto, que
devem presidir ás nossas relações.
Ao terrível instigador da minha reputação on perdôo,
e já não sei como me confesse penhorado. Lembra-me
ainda o dia, cm que, deante das medidas adoptadas por
mim sobre a fiscalização da fronteira, no Estado que s. ex.
representa, o nobre senador me dizia, em presença de um
empregado do meti gabinete: " Esta reforma é a vida do
Kio Grande do Sul. Com ella acaba o senhor de prestar
áquelle Estado um serviço maior do que todos os do
sr. Silveira Martins em sua vida inteira. "
Esse panegvrieo não me eommoveu grandemente,
confesso ; porque no fundo delle a philosophia da minha
experiência julgou lobrigar laivos de egoismo, tendo sido
s. ex. o principal inspirador do systema, cuja consagração
lhe dictou essas palavras enthusiastieas. Não me leve a mal,
pois, o nobre senador, si nos seus anathemas contra o meu
governo as desconfianças do meu espirito continuam a en-
( xergar a influencia do mesmo sentimento pessoal, exta-
siado então no reflexo das suas próprias idéas, quanto
á repressão do contrabando, indignado hoje contra a des-
consideração das suas idéas, quanto á legislação financeira.
Mas a isso, p'de crer-me, sobrepaira o meu reconhecimento
para com s. ex., pela valvula, que me abriu a este ajuste
de contas, com o aleive, com o boato, com a covardia,
cujas navalhadas eu, ha tempo, sentia na sombra, pelas
costas.
Graças ao meu bom amigo o inimigo !

C
A' NAÇÃO 397
Eu carecia de dirigir aos meus concidadãos estas
palavras, mostrando-lhes como o mandato popular, que
lhes devolvo, não tem que se envergonhar do contacto com
as situações mais calumniadas da minha carreira poli ti ca.
Nãoé um manifesto ; porque o manifesto é, por assim
dizer, a photographia de uma aspiração. E aspirações, não
as tenho. Não é profissão de fé ; porque não preciso de
fazei-a. Seria antes um voto pela paz, pela sinceridade repu-
blicana, |M'la ordem legal, único pharol da democracia, no
meio tia cerraçào que nos envolve, quando parece ter-se
substituido a bússola pelo acaso,

neque certa fuh/rnt


Sidera nautit,

Nós tinhamos uma estrella polar,a constituição federal,


pura c luminosa na s-ui simplicidade. Mas as rcacções
encobriram-n'a d"sde ■'! de novembro, e ainda não reappa-
receu.
Os encarregados da guarda da lei não confiam na lei,
e deixam sophismal-a com uma audacia, uma incon-
gruência, um desconcerto, que atordoam os espíritos mais
firmes.
Eu creio na lei, e não creio senão nclla, mas na lei cm
s ia verdade, em sua inteireza, em seu espirito desinteres-
sado, sem cumplicidades com as conveniências dos amigos,
nem capitulações ante as exigências do poder. De uma
dictad ira, que dissolve o Congreas» Federal, apoiando-se
na fraqueza dos governos locaes, para outra, que dissolve
os governos locaes, apoiando-se no Congresso restabe-
lecido, não ha progresso apreciável. As rcacções são como
os crimes, de que (aliava o moralista romano, em que cada
838
MANIFESTO
attcutado conduz inevitavelmente a outros atteutuilos :
Hvetera hciiijiit tsrderibm cerfuin ite.i' cd.
C reio no desenvolvimento tia Republiea, ei ellu 8e
eetribor na legalidade ; mas vejo a legalidade profunda-
mente viciada pelos eetvlos tio Congresso e pelo arbítrio
• Io executivo. Vejo, em vez da fôrma presidencial, do
regimeu americano, uma hybrida procreação da dictadura
com o parlamentarismo, cujo resultado vem a ser a nulli-
ticaçãodo corpo legislativoea confusão de todos os poderes
nas mãos do chefe tio Estado. Si o prcclaro cidadão, nas
mãos de quem está hoje a Republica, visse para onde o
arrastam, faço-lhe a justiça de crer que o seu patriotismo
retrocederia desse caminho.
< reio que a Republica irrompeu das queixas innne-
monaes do paiz contra a centralização imperial, e considero,
portanto, insensatas as invasões da autoridade federal na
autonomia dos Estados. Ora, dessa autonomia só resta
hoje o que á vontade soberana do centro apraz conceder-
lhes. Pois ainda agora não se acaba de nomear chefe de
policia para a Hahia, eneartaiulo-se em uma organização
constitucional perfeitamente eonsummada um parasyta tia
dictadura central V
Creio que é necessário consolidar a União jtelas sym-
pathias dos Estados. Mas agora mesmo ouço anuuneiar,
como plano definitivo do governo, a continuação syste-
matiea da campanha das deposições, que ô a escola eo em-
bryão da guerra civil. E cada vez mais me convenço de que,
si sacudimos a centralização bragantina, não foi jtara sub-
stitiul-a pela centralização pretoriana.
Creio que a ordem não pôde efflorescer, senão no
seio da estabilidade e da justiça. Mas vtjo os depositários
A' NAÇÃO m

da onlom respirarem delieiosamento na agitação, ani-


inando-a, promovendo-a, propagando-a, e sinto empo-
larem-se, cada vez mais aeirradas, as paixões políticas, em
(pie a vida oflieial parece comprazer-se.
Creio de dia em dia mais urgente um appello a todas
as forças vivas da nação, a todos os elementos validos c
sinceros do patriotismo brasileiro. Mas vejo a politioa
tender de dia em dia mais ã subdivisão, ao personalismo,
ao espirito de grupo.
K já não sei como não acabo por descrer. Mas não
desereio ; porque da própria intensidade destes males lia de
nascer a regeneração, em nm movimento da eonseieneia
nacional, recuando ante o ehaos demagógico e a anarehia
militar, (pie nos ameaçam.
Que esse movimento se opere pela aeção das forças
c institiieionaes será o caracter da sua legitimidade e a con-
dição da sua effieacia : rom n lei, pela lei c dentro na lei;
porque fôra da lei não ha salvação.
Eu ouso dizer que este é o programma da Republica,
o programma do partido, que se constituir, para organizar
o pai/, contra o programma da desordem, a cuja evolução
assistimos. 1

Sarcoca.

1
Kslc manifesln liii piihllcinlii, cin artigos supressivos, do dia
20 de janeiro ao 1? de fevereiro deste anno.
O TRATADO AMERICANO

51
O TRATADO AMERICANO

Sr. mlartor.—No CondxiU dc uni destes últimos


dia", um dos seus illustnidos collaboradorcs, occujiando-se
com a situação da "Soam Praça", escreveu, em artigo
aliás repassado de benevoleneia para com o meu nome,
estas palavras:
" Por necessidade também do jin>iii|>lo reconhecimento da
Hepublica, que não encontrou desde Iok" sympathias na Euroim.
foi o ministro obriçrado a fazer mu tndado de commercio fatal
com os Estados-Unidos da America do Norte, descontentando a
Inglaterra, nossa credora, nossa fornecedora, cm todos os tempos,
de moeda metallica."
Labora em completo engano o autor destas linhas,
a quem, entretanto, do fundo d'alma agradeço a benigna
intenção, com que procura attennar-me o peso de uma
culpa, que suppõe minha.
Tanto mais lhe agradeço, quanto a delicadeza, a boa
fé, o espirito dc equidade, que assignalam as suas obser-
vações, destoando notavelmente da prevenção, aspereza o
404 O TRATADO AMERICANO

malignidade, oom que se tornou estylo de bom tom emoda


patriótica apreciar os actos do Governo Provisorio, me
dão azo a restabelecer a verdade neste assnmpto, entrando
em explicações, que sempre me repugnaram ante a critica
irritante e acintosa de certos censores.
Tive, pois, desejos de apressar-me, procedendo innne-
diatamente a essa liquidação, qne não me interessa mais a
mim pessoalmente do que á verdade e ã historia, porquanto
a matéria, de que se trata, envolve altas conveniências da
nação e formidáveis responsabilidades do seu governo.
M as, achando-me fóra da cidade, não tinha com-
migo os documentos indispensáveis á elucidação e demons-
tração dos factos, Dahi o retardar-se até hoje a resposta,
que eu quizera e poderia, a não ser esse obstáculo, ende-
reçar-vos no mesmo dia.
Nem a dictadura de lõ de novembro, nem o seu
ministro das finanças podem acccitar a paternidade tio
tratado americano. Isso pela razão concludente e irrefra-
gavel de (pie o contracto, firmado, em nome do Brasil, com
os Estados-Unidos, não 6 o que nos fôra submettido, não
é o (pie nós approvámos, não é o que autorizáramos a
concluir.
Bem comprehendereis o melindre extremo de uma
averiguação, como esta, que envolve as nossas relações
diplomáticas com aquella, dentre todas as nações, a que
eu desejava ver associado o Brasil pelas mais vivas
svmpathias e pelos mais solidos interesses. Tão pouco vos
será difficil avaliar o meu constrangimento, numa colli-
são, em que a nossa defeza importa a eliminação deoutrem,
com quem tivemos ligações dc confiança. Mas jã não é
pequeno o sacrificio do silencio guardado até hoje, no
O TRATADO AMERICANO 405

meio das aecnsações, com (|iie, a esse propósito, nos vimos


assaltar, ha um anno. As considerações de deferencia e
cortczia não podem ser absolutas e eternas, quando aBna
observância, além de determinar a condcmnação de inno-
centes, reílicta luz desfavorável sobre a idoneidade da
admínist ração brasilei ra.
Não posso, portanto, hesitar mais tempo em dis-
cernir, nesta questão, as verdadeira,- responsabilidades,
recusando formal e solemnemente a autoria, que se nos
snppõe, no tratado de Washington.
O pacto projectado, com ctfeito, qual nol-o traçou o
nosso representante, qual mereceu o nosso apoio, qual re-
cebeu a saneção do nosso assentimento, estava subordinado
a uma elausula capital c soberana. Essa clausula não podia,
portanto, omittir-se, sem determinar forçosamente a
suspensão das negociações, ou a renovação dellas sobre
outras bases.
O pensamento dominante dessa convenção, nos
termos em que sempre nos foi delineada pelo negociador
brasileiro, consistia em crear, no mercado americano,
para um dos dois maiores ramos da nossa producção
nacional, o assnear, a posição superior, que ao outro, o
café, se nos assegurara pelo tratado de 1828. Mas, para
que taes etfeitos se pudessem colher cm beneficio dos
nossos produetos saocarinos, era essencial mente impres-
cindível que os favores obtidos não sc pudessem estender
a outros Estados produetores. Na ausência desse pri-
vilegio, o aecôrdo ser-nos-hia lesivo; porque, liberali-
zadas a favor da cultura hespanbola as mesmas vantagens,
a nossa situação, no mercado americano, continuaria a ser
a mesma.
joti o TRATADO AMERICANO
Fóra (l<-'sso terreno nunca adnúttirianios ajimte.
K, si o iwlmittinuis, ó poi-que <> nosso rcprcscntnnte nos Ks-
tados-I'nulos nos afiançava estar o governo daqncllf paiz,
p >r declarações do seu ministro de Estado, absolntainente
««olvido a aesignar, sob <> caracter reservado que o caso
exigiu, está claro, o compromisso de não celebrar aeeõixl,,
semellianti' com as naçfK's, cuja concurrcncia tu>s pudesse
contrariar, dispntando-nos predominio no consumo
americano. Nessa concessão, segundo as cirenmstaneias
que nos eram expostas com a maior segurança, o governo
americano armava a aspirações políticas de immenso al-
cance, em troco dos vastos lucros commerciaes, que nos
franqueava. Estos eram de incalculável preço ; porque,
arredada a eorapeteneia <le Cuba, pela desigualdade em
que cila fiearia eolloeada, teríamos conquistado, pura a
lavoura do Norte e para a do Rio de Janeiro, campo de
acção novo e ineommensuravel.
Sujeito a essa condição, cujo caracter de liberalidade
em relação a nós só se poderia explicar pela» ambieões
de expansão territorial, em «pie se nos affirmava estar
empenhado o governo da outra parte oontrahente, o
tratado não poderia merecer, neste pai/, senão louvores :
porque, no balanço de lucros e perdas, a columna destas
seria inealculavelmente inferior á daquelles.
O proprio Jornal ilo ('omnicrcio, a folha que com
mais ardor, mais força de razões, mais copiosa abun-
dância de faetos e documentos, tem impugnado a con-
venção de Washington, confessou, mais de uma vez, que
não a combateria, si ella encerrasse essa condição.
Si o tratado se pactuasse, pois, com essa restricção
fundamental, a que, em nossas instrncçôes, o tínhamos
O TRATADO [Link] 407
adstricto, ns «jiic mais o roprovamm, tel-o-hiam appro-
vado.
Assim que j(jK'iiíis me resta couvenoer o publico «lu
exaeyão «Ia premissa, formulacla por mim ao af 11 rmar que o
pi-ojetdo de ajuste apresentado ao (inverno Provisório as-
sentava nessa clausnla como base fundamental, e que
nós não o esposámos senão sob a reserva stricta dessa esti-
pularão.
K' o (pie vou fazer docmnentalmenfe.
I ma das mais antigas eommuuieaeõesda nossa missão
es|ieeial em Washington sobre este assumpto, das quaes
jmssuo traslado authentieo, é o oflieio u. 4, de '2'2 de abril
de 1890. Abi já o nosso enviado nos aftirmava que "não
"i furiti fratado rrmeíhanft: com a Ilcxpanha".
K era, lirmando-se no valor evcejxãonal dessa con-
dirão, moinentosissima em verdade, que elle instava pelo
nosso consenso á proseeneão das negoeiaeões, já adeantadas :
" Espero, pois. as vossas ordens paru prosepuir na negociação
e celebração deste tratado de coinmercio, (pie, si é de grande
valor político para este pai/., não o é menos para a nossa patria.
. em vista do auxilio poderoso ipie levará aos nossos Estados do
norte e ao proprio Estado do Hio de Janeiro."
Já desde então se nos acenava com o privilegio
exclusivo da immnnidade Hseal para os nossos prodnetos
favorecidos, assegurando-nos o enviado brasileiro que o
governo americano não faria tratado analogo com a Ilrs-
panha.
Na sequeneia das suas eommnnieaeòes, o hoaSt» agente
diplomático frizava cada vez mais emphatieamente a
importância suprema da elansnla privativa em beneficio
nosso, nas liberalidadcs que o oonvenio aduaneiro houvesse
40« ( » TRATADO AMERICANO

de outorgar-nos, apontando-a sempre como necessidade


nine qua iinn do accôrdo estudado.
Xo offieio de 0 de maio (n. 7), insistindo na indis-
pensabilidade do pririlcf/io de isenção para os assiieares
do Brasil, ponderava elle :
" Si o assncíu1 se tornar livre para Iodos os paizer produclores,
melhoraremos de condição, é verdade, mas Cuba e Porto Rico
conlinuarãO a ser, por muito tempo, os maiores fornecedores deste
mercado; pois rnrmiimo» ile furor especial, para o contrapormos
A prnj-imidatlr. em ijue as duas ilhas se acham deste paiz, isto é,
para n contrapormos A despesa de frete e seguro e ainda mais At
corrente de negocio JA estabelecida."
Não me tendo eu apressado cm responder ao ministério
do exterior sobre o objeeto dessa missiva, que me foi
eommnnicada em data de 14 de junho, autorizando o
nosso emissário a prosegnir nas negociações cntaboladns,
dirigiu-me elle extensa carta, datada, em Nova-York, de
7 de julho, onde insistia na mesma idéa cardeal :
" A isenção geral de imposto sobre o assacar não nas serre ;
pois a vantagem será mínima, Precisamos do favor exclusivo para
o nosso produclo, afim de podermos coulrapol-o ás vantagens, que
têm Cuba e Porto Rico. maiores fornecedores de assacar de eanna
a este mercado, vantagens resultantes da menor distancia, que
muito influe no frete e no seguro, e da rotina de um commercio
estabelecido e firmado, que não poderemos deslocar sem boa mar-
gem de beneficio."
Sempre sob a influencia do mesmo pensamento, o
enviado brasileiro, procurando justificar de ante-mão o
monopolió da commnnidade, que tinha em mente, procurou
demonstrar, no Evening Pont, oppondo-se á opinião ad-
versa deste, a capacidade da prodneção brasileira, para
abastecer, cila só, o moreado americano de assnoar.
O TRATADO AMERICANO 400
" A verdade é que o Rrasil", dizia elle, nessa publicação, "pôde
supprir toda a procura de assacar nos Estados-Unidos, dentro de
tres ou cinco annos. Qualquer dos Estados de Pernambuco, Bahia
e Rio de Janeiro pode, com aviso prévio de dois annos, produzir
600.000 toneladas cada um de assucares mascavos. Ainda postas de
parte terras, nos Estados de Goyaz e Matto Grosso, mais vastas
do que toda a França e toda a Allemanha juntas, a zona de littoral
produclora de assucar no Brasil estende-se desde 4? ao norte do
Equador até 20? ao sul, com um desenvolvimento de 1.800 milhas
de costa e uma largura média de 100 milhas para o interior do
paiz, de terras sem eguaes para a cultura do assacar de canna."

Isto escrevia o nosso representante em Washington,


aos 4 <le agosto de 1890, por nm dos orgãos mais respei-
táveis da imprensa americana. Mais tarde, aos 17 do mez
subsequente, uma de suas cartas a mim dava, si é possível,
ainda mais alto relevo á nossa direetriz na concepção do
tratado. Xesse documento, com efíeito, se enuncia elle
dest'arte :
" A meu ver, votado o projecto de tarifa como sahiu do se-
nado, com a emenda que consagra a idéa de reciprocidade, não
devemos perder tempo em sermos os primeiros a tomar conta do
terreno, etn que teremos um qmui monopolio; pois, desde que os
Estados-ünidos não celebrem tratados semelhantes, que não cele-
brarão, com a Hespanha e a Inglaterra, nenhum outro paiz poderá
aqui concorrer comnosco em supprimento de assucares. Cuba, Porto
Rico, Jamaica e Trinidad são actualmente as únicas procedências,
que poderiam fazer-nos sombra."
E udeante:
" Si, como se deve esperar, o Brasil dentro de poucos annos
angmentar a sua producção, graça» ás condições privilegiadas do seu
prnducto neste mercado, ao ponto de supprir quasi toda, ou toda a
demanda aqui, nenhuma reclamação surgirá, pois o preço do assucar
baixará sensivelmente. Quem reclamará, nesse caso, será Cuba,
52
410 O TRATADO AMERICANO
por ver perdido o sen melhor mercado ; e os Estados-Unidos espe-
rarão pacienlemenle que as colônias hespanholas das Apim^s
percam a paciência, e se proclamem independentes, com o fii0 je
se aggregarem á Grande União. Isto está na mente do goveni0
americano, e é a melhor garantia de um tratado, que façamos com
este povo."

Mas si a corrente legislativa mudasse? Si a propaganda


livre-cambista acabasse por calar na opinião [Link],:i,
inclinando-a irresistivclnicnte a generalizar a dispensa d1'
direitos de entrada, quanto aos assncarcs estrangeiros? No
esboço do nosso negociador, nos alvitres queelle nos s ib-
mettia, estava precavido, para tal contingência, o rcnicdi"
cabal: Ni

"A única difüculdade, que vejo no tratado, é a seguinte: mudads


esta situação, e vindo uma situação democrática, é bem possível que
a tarifa aclual seja de novo reformada, e se declare livre o assucftf
de todas as procedências, perdendo nós as vantagens, que agora U'-
riamos pelo tratado. Mas ainda isto se pôde remediar, estipulando-^'',
no tratado, que, si uma das partes contraclantes, em virtude de
reformas legislativas, alterar as condições presentes da soa tarifa-
em relação aos produclos que forem objeelo dos ajustes, a outra
parte ficará desobrigada de todo o compromisso tomado pelo traindo
em assumpto de tarifa aduaneira. Desfarte, realizada a liypothcsc,
que figurei, de estenderem-se a todas as procedências os favores, ipie
para os nossos produclos oblivermos por meio do tratado, perde-
ríamos apenas u quasi niunopoiio crvado pelo tratado, mas não sub-
sistiriam as nossas obrigações eorrelativas."

A clausnla do privilegio a nosso favor assegurava-se,


pois, absolutamente, já contra a acção do poder executivo,
mediante o compromisso, assumido, conforme se nos an-
nunciava, pelo governo americano, de não celebrar com
outros povos convenções da mesma natureza, —já contra
O TRATADO AMERICANO 411

o arbítrio da legislatura, mediante n condição rescisória,para


o caso de reforma das tarifas no sentido amplamente li-
beral.
Esse, o ajuste em que o Governo Provísorio acquieseia.
Esse ; não outro. E por isso, adoptando a exposição contida
na carta de 17 de setembro, como transnmpto do pensa-
mento comrnum a nós e ao nosso correspondente, como
directoriodo nosso negociador na terminação das operações
diplomáticas, em que se achava aetivãmente empenhado,
expedi-lhe este telegramma:

"20 de outubro de 1800.—Noivador Mendonça. — New-York.


" Pôde continuar negociações, no» termo» tsua carta, só agora re-
cebida.— fíay Barbosa."

Claro está, pois, que o enviado brasileiro devia con-


siderar-se preso, por vinculo indesatavel, aos termos dessa
carta, e que não podia fazer nelles immutação alguma, es-
pecialmente nos traços fnndainentaes do plano approvado.
Mais tarde, antes de assignado o convênio, veio o nosso
enviado a esta capital, e, nas conferências (pie teve, ora
commigo, ora com o Governo Provisorio, reunido em con-
selho, peremptoriamente se assentou em que o aecôrdo não
se desviasse d assa norma suprema, a que a negociação devia
eingir-se com cuidado em todos os seus passos.
Disso deu conta ao ministério Lucena um dos meus
collegas no Governo Provisorio, o sr. Cesario Al vim, cu jo
testemunho peço licença, para invocar.
Eis as palavras de s. ex., na carta de que possuo
cópia official :
"(Juaudo o nossu representante na grande Republica norte-ame-
ricana, o dr. Salvador de Mendonça, vuiu a esta capital, com o fim
412 O TRATADO AMERICANO
de apressar e concluir as negociaçOes, de ipie me «ocupo, deu_lIle
como a todos os meus collegas de gabinete, nas conferências que (.e.
lebrámos, perfeita segurança de que, no tratado que se ia effcctuar
seria consignado, por c/nusula expressa, o compromisso, que tornava o
governo americano, de não celebrar ajuste egualeom qualquer potência
monarchica da Europa. Era obvia a razilo desta nossa urgência.
com a qual se achava previani"n'e de accôrdo o governo americano
conforme informação do nosso agente diplomático, que nos assegurou
ter posto nisso todo empenho, havendo encontrado a melhor vontade
da parte do illustre homem de estado, o sr. Blaine, por motivos de
alta polilica, fáceis de se comprehenderem.
"A vantagem, que nos trazia oconvenio, e essa de grande valia,
era a da abertura de um largo campo de consumo para osproductoS
saccarinos do norte da Republica Brasileira, que não podiam com-
petir com os das possessões hespaubolas e iuglezas da America
Central, mais próximas dos Estados-TJnidos norte-americanos, s,.m
que esse paiz, por vantagens, que nos offerecia, em troca das que
lhe concedíamos, fizesse desapparecer as condições de inferioridade
em que nos achavamos.
" Si, entretanto, executou-se política diversa da ajustada, bem
comprehende v. ex. que, longe de melhorar o convênio as nossas
circumstancias industriaes, peiorou-as de um modo claro e manifesto,
exigindo o assumpto novas negociações junto do governo americano,
que, em seu elevado critério e sabedoria, reconhecerá a justiça de
nossa causa e a procedência de nossas reclamações.
" V. ex., si entender conveniente, poderá ouvir os meus collegas
de gabinete, que não deixarão de corroborar as informações, que
dou."

Essa carta originou a seguinte :


"lllm. e exm. sr. Buy Barbosa.—O dr. Cesario Alvim dirigiu
ao barão de Luccua a carta, inclusa por cópia, relativamente ao que
se passou, em conferência com o sr. dr. Salvador de Mendonça, sobre
o convênio americano.
"Rogando a v. ex. a fineza de dizer-me o que lhe occorrer a
tal respeito, aproveito o ensejo, para ler a honra de repetir-me, cont
O TRATADO AMERICANO 413
a mais alta onnsideraçSo, da v. ex. patrício e oliri^aiio — Junto
Chermont. — Em 27 de maio de 1891."
Ao idi ao chamado assim :
" Exm. sr. dr. Justo Chermont.
" Acabo de receber a carta de v. ex., datada de hoje, em que,
cominunicando-me por cópia a missiva dirigida ao sr. ministro da
agricultura, aos 15 do corrente, pelo dr. José Osario cie Faria Alvim,
sobre os termos em que o Governo Provisório autorizou o nosso re-
presentante em Washington a celebrar com o governo dos Estados-
Unidoso tratado commercfal, — me convida a expender o que a tal
respeito me occorra.
" Agradecendo a v. ex. a orcasiéo, que assim me depara, de
pronunciar-me sobre o assumpto, apresso-me em subscrever, sem
reservas, como a mais rigorosa expressão da verdade, a exposição
do illnstre ex-ministro do interior. Nunca annuimos á conclusão
do convênio projectado, senão no presupposlo e sob a condição
expressa, fundamental e absoluta, de qne a União Americana, por
sua parte, se obrigaria a não firmar accôrdo semelhante em rela-
ção a possessões européas neste continente.
" Claro está que esse compromisso deveria, por sua natureza,
constituir cláusula reservada no concerto entre as duas repu-
blicas ; e, por isso,não podendo nós nem remotamente imaginar a
omissão dessa cláusula essencial no ajuste autorizado, guardámos
silencio, no debate publico, que. a esse respeito, se agitou durante
o Congresso Constituinte.
" Só mais tarde, já encerrada aquella assembléa, passámos
pela surpreza de ver que o tratado, contra tudo o que se passara
entre nós e o nosso ministro, e de que conserva indeleveis provas
a sua correspondência escripla. se pactuara sem essa garantia im-
prescindivel aos interesses brasileiros. Como representante da
nação. pois. aguardava eu a próxima reunião do Congresso Fede-
ral, para, sobre esta. como sobre outras matérias de aclunlidado,
cumprir opporlunamente o meu dever.
" Tenho a honra de subscrever-me, com a mais a alta consi-
deração, de v. ex. patrício obrigado—Ruy liarbom.
" Rio, 27 de maio de 1891."
414 O TRATADO AMERICANO

Ainda antes do regressar aos Estados-I nidos, após


o seu compareeimento pessoal ante o Governo Provisorio,
o nosso agente em Washington deixou, por sua lettra,
em minhas mãos, vestígio material e inequívoco da impor-
tância radical e da necessidade impreterivel dessa cláu-
sula no convênio cm projecto.
São, realmente, de s. es., em uma nota, que me
entregou, escripta e assignada de seu punho, estas obser-
vações :
" Durante seis annos, a contar de 4 de março proximo, não é
possível reformar a tarifa Mackinley ; pois, embora o partido
democrático obtivesse, nas elciçfies do mez passado, maioria na
casa dos representantes, a maioria republicana do senado não
poderá ser modificada antes daquelle prazo. Mus, si os demnera-
cratas alterarem a tarifa, como é natural (jo« alterem, será para
estenderem a outros paizes as vantagens, de que, quanto ao awacne,
vamos agora gozar s6s e com exclusão tias colônias curujicas na
America.
" Em todo o caso, desde que se alterem os favores, que
agora vamos obter, podemos denunciar e fazer cessar o accôrdo :
para isso não fiz o accôrdo por tempo fixo e determinado ; só du-
rará, emquanto convier ás duas parles contraclantes."

Esse papel tem a data de 17 de dezembro de 1891.


Mais uma circumstanciu addicional ainda adduzirei
neste aooumulo de provas.
Em 1892, depois de concluído o tratado, volveu ao
Brasil o seu negociador. A opinião clamava contra a lesão,
de que éramos victimas. Eu, pela minha parte, indigitado
como criminoso, em culpas, como essa, de todo em todo
estranhas á minha responsabilidade e ã dos meus collegas,
esperava do tempo que, excedidos os limites postos á
tninha discreção pelos deveres do cargo offieial que oocupara,
O TRATADO AMERICANO 415

st- me ofíereeesse occasião conveniente, para projeetar sobre


esses íactos a luz da verdade.
Chegando então aqui, o transaetor do detestado con-
vênio não deu ao publico satisía;ão do sen pmctHÜmento
(ignoro si a deu ao governo).
Mas commigo aígmna oonsa lhe segredou que era
preciso explicar-se. D'ahi a seguinte carta sua, a que a
minha doença não me pernjittíu atíender, mas que vem
juntar-se a estes autos, para eselareeimento do pai/.
" Meu caro Rny Barbosa.
" Peço-lhe í) favor de marcar-me uma hora, em que possamos
conversar acerca do accôrdo aduaneiro de 31 de janeiro deste anno.
Creio que, na conferência, que peço, lhe mostrarei a vantageui do que
se fez, c justificarei claramente minha posição, ao affirmar-lhe t/ue Unha
promessa do sr. fí/aine de que sr não faria tratado com a Hespanha.
"Aluipo alíectnoso e oliripado Satrndor drMendonça."

Pótle bem ser (pie o eminente representante do Brasil


nessa negociação malfadada disponha de meios irresis-
tíveis, para convencer os mais exigentes da cxcellencia
da transacção, que avençou em nosso nome. Mas, como
quer que seja, honra, ou responsabilidade, merecimento,
ou erro, essa transacção lhe pertence: é iniciativa cobra
sua ; não do governo, que s. ex. representava.
Não podendo pôr em duvida a palavra do nosso
illustre compatriota, quando nos asseverava o empenho,
contrahido pela administração americana, de não repartir
com outros Estados produetores a isenção, que se nos
offereeia, nós subordináramos o nosso consentimento á
inserção dessa elausula compensadora no tratado.
Si as disposições do governo, com quem estávamos
em trato, variaram, cessando a possibilidade, com que
O TRATADO AMERICANO

contávamos, e na expectativa da ipial annuiramos ao ne-


gocio,—ij/no factü caducavam os poderes, <p;o, nesse presnp-
posto, confiáramos ao nosso ministro. Este, evidentemente»
não tinha o arbítrio de renunciar a urna condição, que
pelo seu alcance, sobrepairava a todas as outras, e de que
todas as outras ficaram dependentes no plano combinado
entre nós c o nosso agente.
Abrindo mão dessa vantagem, que, para os interesses
brasileiros, era a pedra angular do plano arehitectado
na correspondência do nosso orgão diplomático perante
os Estados-Unidos, elle evidentemente exorbitou do
mandato. O contracto, que subscreveu, não é o que estava
habilitado a subscrever. Está, portanto, moralmente vi-
ciado, na sua essência, por falta de poderes no procurador,
que em nosso nome o assignou.
Não cabe, pois, ao Governo Provisorio responder por
esse convênio, que não autorizou.
E, na ausência dessa autorização, essencial ú validade
moral do ajuste, tem a administração brasileira amplo
fundamento, para renovara questão perante o governo da
grande republica, cuja diplomacia se reconnncnda por
tradições tão elevadas, e cuja política internacional deve
tender a constituir um laço de sympatina e solidariedade
entre os povos livres deste continente.
Ao menos, 6 assim que podemos comprehender o
papel da sua superioridade natural na familia das repu-
blicas americanas, em cujo seio a legitimidade da sua
primogenitura é tão esplendidamente sustentada pela
magnificência dos seus exemplos.
3arboGa.
Rio, 22 de fevereiro de 1892.
APPENDICES
APPENDICE í
( Á PAO. 75 )
Emiweão nos Estados-1' n i d os, total e por
habitante

AN NOS TOTAL pon


HABITANTE

186 3 595.304.038
17.84
186 4 669.641.478
19.67
186 5 714.702.995
20.57
186 6 673.488.244
18.99
186 7 661.992.069
18.28
186 8 680.103.661
18.39
186 9 664.462.891
17.60
187 0 17.50
655.213.794
187 1 18.10
715.889.005
187 2 738.309.549
18.19
187 3 751.881.809
18.04
187 4 18.13
776.083.081
187 5 754.101.947
17.16
187 6 16.12
727.609.388
187 7 16.58
722.314.883
187 8 15.32
729.132.634
187 9 16 75
818.631.793
188 0 973.382.228
19.41
188 1 [Link]
21.71
188 2 22.37
[Link]
188 3 22.91
[Link]
188 4 22.65
[Link]
1886 [Link] j 23.02
188 6 21.82
[Link]
188 7 22.45
[Link]
188 8 1
22.88
[Link]
Í889 [Link] 22.52
189 0 22.82
[Link]
189 1 [Link]
23.45

O . 4$
APPENDICE II

(X PA08. 8í>-96)

Repressão do jogo de Bolsa pelo Estado

" Já se deveria ler como evidenciado pela experiência que não


ha instituiç&o econômica, a cujo respeito seja mais improficua do
que em relação á Bolsa a ingerência da autoridade.
" Varias vezes tem querido o Estado cohibir as demasias da
especulação, e obstar o jogo da Bolsa. Já em 1610 uma lei hol-
landeza prohibe a venda de acçfies a descoberto. Em 1697 uma
lei ingleza veda as IransacçSes de mais de Ires dias de espera ; em
1734 o fíarnanVg Act proscreve as operações de prêmio sobre
fundos públicos e o pagamento de differenças ; em 1867 o
Leeman'» Act reitera a prohibição de vender a descoberto acções
de bancos. Em França tivemos as ordenações de 1724. 1785 c 1786,
os nrts. 422 e 423 do (lodigo Penal, até que a lei de 1885 veiu reco-
nhecer a validez das operações a prazo. Illegaes declararam-se,
na Prússia, em 1836, em 1840, em 1844, as transacções a prazo em
títulos do Estado e acções de vias férreas ; sendo abrogada, em
1860. essa disposição legislativa, posto que ainda hoje se admitia a
excepção de jogo. Também nos Estados-Unidos se registram muitas
tentativas de legislar a tal respeito. Poraclode 1861 foi defesa a
especulação em ouro. Mas o resultado salipi avesso ao que se
422 APPEND1GE TI
esperava : embaraçada a especulação, o agio sobre o ouro cresceu
cenio por cento, baixando, pelo contrario, a 50 % logo após a
apressada revogação dessa lei. Não surtiram melhor exilo as me-
didas adoptadas na Republica Argentina, quando se fechou a Bolsa
de Buenos-Aires, e se vedou cotar o ouro,—com o que apenas
se conseguiu aggravar a depreciação do papel-moeda. O sr. Grispi
não foi mais bem succedido, invocando o apoio do Godigo Penal e
da policia contra os baixistas, na Italia.
" Surde mais uma cruzada, no parlamento allemâo, do qual
certo numero de membros intimam o governo a elaborar um pro-
jecto de lei, que embarace a jogatina de Bolsa, e vede as operações
de simples differença, como si houvesse conhecença dislinctiva,
por onde reconhecel-as. Não ha, nas transacçõos, caracterização
objectiva ; só o que as opera, pódc saber-Ihe das intenções : a dis-
lincção é meramente subjectiva.
" Moralistas e socialistas de todos os matizes têm reclamado
ora a inlerdicçâo absoluta de todas as operações a prazo, ora a
creaçâo de direitos prohibilivos sobre todas as operações de Bolsa.
Ora, é absurdo castigar na Bolsa a actividade econômica da nação
exercida no terreno do credito, dos bancos, das relações cambiaes,
sob pretexto de que a Bolsa é freqüentada por especuladores pouco
escrupulosos, e dá o espectaculo de fortunas rapidamente levanta-
das e desmanchadas.
" O conjuncto das fortunas, que se centralizam na Bolsa, é
indispensável ao bem material e ao progresso das nações. A Bolsa
é um instrumento de distribuição dos capitães e do credito, a resul-
tante, estabelecida pela força das coisas, da divisão do trabalho.
Alli a economia, cm busca de applicações renumeradoras, vai
encontrar sabida para as suas accumuloções, os Estados o capital
necessário ás despezas, que o imposto não pôde cobrir, e as empre-
zas. superiores á fortuna de um ou muitos indivíduos, os recursos
indispensáveis no seu desenvolvimento.
" A situação econômica e política reflecle no complexo das
cotações da Bolsa. Poderão dar-se tentações de intervir, para
tornar as imagens agradaveis, para arredar as sombras; mas é
sempre um jogo perigoso : corre-se o risco de falsear a rodagem ao
APPEND1CE 11 423
mecanismo, de provocar reacçOes mais tristes do que si não se
interferisse.
" Não se façam leis de cxcepção contra especuladores: seu
repercutir poderia ser diverso do que se calculou. Deixemos as
disposições ordinárias do Codigo Penal reprimir os meneios frau-
dulentos da especulação, quando assás caracterizados. Não esque-
çamos que o proprio Estado açode, muitas vezes, cm auxilio da
especulação, e que, por outro lado, os estorvos creados por elle ao
livre movimento do commercio offerecem graves perigos."
Am mm Raffalovich : L* marchí; financier en 18!>1. Paris,
1892. Patrs. 15-16
APPENDICE III

(Á PAÍi. 117)

Pressão dos bancos estrangeiros para a baixa

Tabella do cambio desde o dia 1 de dezembro de 1889 até o dia 17 de abril


de 1890, inclnsive
DEZEMBRO DE 1889
fínían O cambio Banco» que affixaram
abriu a tabella» á taxa inferior
2 '27 1/2 London, English, AlIernSo
2 27 1/2 London, English, Allemâo
4 27 1/2 London, English, Ailomão
5 27 1/2 London, English, Allemão
6 27 1/2 London, English, Allemão
7 27 3/8 —
9 27 1/4 —
1 0 27 1/4
1 1 27 1/4
1 2 27 1/4 —
18 27 1/4 —
14 27 —
Ki 27 —
1 7 20 3/4 English, Allemão
1 8 2G 3/4 —
1 9 26 3/4 —
2 0 26 1/2 —
2 1 26 1/4 —
23 26 1/4 —
2 4 26 Allemão
2 6 25 —
27 24 1/2
2 8 24 7/8 English, London, Allemão
80 24 7/8 English, London, Allemão
31 25 —
54
42(i APPENDICE III

JANEIRO DE ISOO

Data» O eumhio Jianros que affixaratn


abriu a fahellas á taxa inferior
2 25
3 25
4 25 1/8 English, London, Allernâo
7 "1" 25 1/8 English, London, Alloinão
g" ' 25 3/1(5 English, London, Alleinâo
25 1/4 English, London. Allemfto
4o;:;;;;; 25 3/8 English, London, Allomüo
4^" ; ; ;; 25 5/8 English, London, Allem&o
25 3/4 English, London, Allemão
44;; ;;;;; 25 7/8 English
45 ;;;;;; 26 English, London, AlIeinSo
40;.;;;;;;; 26 English, London, Allomão
jy 26 English, London, Allemão
4g 26 London, Allemão,
2(j 26 London, Allemão,
21;;;;;;;" 26 English, London, Allemão
22 ... 25 7/8 English, London, Allemão
23";!""!"'.'.'.'.!'..' 25
2 4 2
2 5
27 24 1/2 English. London, Allemão
28:;::::::::;:;;;.. 241/4
2i» 24 1/4
30 24 English, London, Allemão
31::::;;::: 24

FEVEREIRO

1 23 3/4
3 24 English
4:::.; 241/4 Engiísi»
5 24 —
3 24 1/4 English, London, Allemão
7"::::::. 24 1/4 ^ —
8 24 3/8
1 0
1 1
42 24 1/4 English, London, Allemão
18::.:..: 241/4 Engnsh
1 4
15 24 1/8 English, London, Allemão
/
1

APPEND1CE III 427

FEVEREIRO
3
Dnhu 0 cambio Jianron que [Link]
nhrixi n tnhella» A taxa inferior
17 24 1/8 English, London, Allemão
1!) 24 —
2 0 24
2 1 24 —
2 2 24 1/8
24 24 1'8 —
27. 24 1/8 —
2 6 24 —
2 7 23 7/8 —
2 8 23 7/8 —

MARÇO

1 23 7/8 —
2 23 7/8 English, London, Allemão
4 23 7/8 English. London, Allemão
õ 23 1/4 English, London, Allemão
Ij 23 1/4 English, London, Allemão
7 23 1/4 English, London, Allemão
8 23 English, London, Allemão
n"!"." 22 3/8 —
12 22 3/4 English, London, Allemão
li,..;/ 22 3/4
14 22 3/4 English, London, Allemão
lõ 22 5/8 English, London, Allemão
1 8 22 English, London, Allemão
1 9 22 1/8 Nacional, English 3
2 0 22 1/4 Nacional, London, Allemão
21 22 1/4 Nacional, London, Allemão
22.;;; 22 —
24 22 —
2.r> 22 —
26 21 7/8 Nacional, English
27. 21 3/4 Nacional
2 8 21 5/8 English, London, Allemão
2 9 21 5/8 English, London, Allemão
31 21 5/8 English, London, Allemão

>

>
428 APPENDICE III

ABRIL,

Datas O cambio Bancos que affixaram


abriu a tabellas á taxa inferior
1 21 3/4
2 21 7/8 English, London, Allemâo
5 22 —
7 22 —
8 22 —
9 22 1/8 Allemâo
1 0 2
1 1 2
1 2
1 4
1 5
1 6
1 7

RECAPITULAÇlO
os bancos estuanhíihos affixaram tabellas a freços mais
BAIXOS DURANTE DIAS ÚTEIS
Mexes Dias úteis
Dezembro 26 8 30 %
Janeiro 26 17 65,38 %
Fevereiro 23 4 17.40 %
Março 26 17 65,38 %
101 178,16
101 dias em 4 niezes.
Média durante os 4 mexes 44, 50 %. Sem contar os bancos
estrangeiros isolados, que affixaram tabellas mais baixas,
(Do Jornal do Commercio.)
APPENDICE IV

(X paíís. 123-26)

Tabella de cambio em 1891

(DE JANEIRO A OUTUBRO)

DATA TAXA DATA TAXA

Janeiro 2 20 3/4 Fevereiro... 3 19 1/4 e 3/8


„ ..... 3 20 1/4 „ 4 19 1/4
!! 5 20 3/4 5 15) 1/8
6 20 1/2 6 tf
7 20 1/2 7 19
8 2o 1/4 ,, 9 ft
í» «» tf *** 11 tf
10 ti "' 12 ff
tt 12 „ ... 13 ff
13 20 14
:: 14 19 7/8 1(5 19 1/8
.. 15 „ 17
1(1 19 3/4 18 19
:: ::::: 17 19 5/8 19 19 1/8
15) 19 3/4 ♦4 20 19 1/4
»» ••••• 20 1!) 1/2 ft 21 „
21 19 „ ... 23
22 „ 24
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„ 24 18 3/4 26 19 3/4
2(5 „ ••• 27 19 3'8
27 28 19 1/4
28 19 Março 2 f»
25) 19 7/8 ff •••••••• 3 18 7/8
30 4 t»
31 » 5 18 5/8
430 APPEND1GE IV

DATA TAXA DATA TAXA

Março 6 18 1/2 Maio 1 17 1/4


i 18 3/8 11 2 17 1/8
9 18 1/4 li 4
10 18 5 17
11 17 7/8 6 16 3/4
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13 18 8 ..
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17 17 3/4 11 12
18 17 5/8 11 ».»••.••• 14 16 5/8
M 19 17 5/8 - 3/4 11 15
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J» 30 17 5/8 e 3/4 ii 23 16 1/8
31 17 8/4 25 16
Abril 1 17 3/4 e 5/8 26 16 1/4
2 17 5 /8 „ 27
3 11 11 29 16 3/8
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»» 6 Junho 1 16 1/2
7 2 17
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10 5
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11 28 11 11 ....... 22 17 3/4
11 ••»••••• 29 23
80 25
26 11
APPENDICE IV m

DATA TAXA DATA TAXA

Junho 27 17 3/4 Agosto.... 25 14 5, 8


30 17 5/8 e 3/4 26 14 7/8
Julho 1 17 3/4 27
2 28 14 "3/4
3 29
4 17 5/8 31
6 Setembro. 1 14 3/4
7 17 1/2 2
8 17 1/4 3
.... í» 4
5 15
10 9 15 e 15 1/4
11
13 17 i 1° 15 1/4
15 16 3/4 1 11
16 1/2 12
10 14 15 1/4
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Agosto 15 3/4 28
1
44 .»••• ♦i
29
4 15 i/2 e 3/4 30
5 15 1/4 e 3/4 Outubro 1 15 5/8
6 „ 2 15 3/8
7 15 e 16 3/4 3 15 1/4
8 15
10 16 1/4 e 3/4 14 3/4
11 15 1/2 e 3/4 14 1/2
12 11 ** 14 1/4
13 t t,
14 1/2
14 15 1/4 e 3/4 14 5/8
17 15 e 15 3/4 14 3/4
18 15 1/8 e 3/4
19 15 e 15 3/4
20 14 7/8 e 3/4
21 14 1/2
22 14 3/4 14 1/4
24 14 1/2 14 3/4

APPENDICE IV

DATAS TAXA DATAS TAXA

Outubro ... 21 14 1/2 Outubro ... 2(5 14


22 ... 27
... 2H 141/4 29 13 1/2
24 14
" ■ 1
APPENDICE V

(á pau. 285-80)

A Republica em França

Noutro escriptor, cujo patriotismo, desinteresse e


talento não se poderá contestar, encontro, acerca da França
republicana, as mesmas opinifles, de <[ue vim a propósito
alguns exemplos;

" Temos descido, e, entretanto, quus) ninguém parece per-


«elxd-o, á época, de que (aliava madame d'Aldhiéinar: "Beirá-
vamos a cataslrophe, e corríamos de festa em festa, de prazeres
em prazeres. "
"... Os advogados tornam-se tribunos, ministros os vaude-
villistas, deputados os taverneiros; envenena-se um povo, oulr'ora
naturalmente jovial e bom, de odio, avidez e violências. Fréga-se
uma liberdade, que consiste em opprimiros outros, uma igualdade,
que ninguém admitte senão para com os superiores, mesmo sob
a condição de trepar-lhes aos hombros, ou á cabeça, uma fra-
ternidade de irmãos Oains." 1

1 Alphoxse Kabr : LesóV/c tlm microhe». Paris, 1891. Pag. 25-27.


434 .UTKNDICE V
" Ouvindo as nionfinis dosfaçadíis, as piomessus de rnorcadofcs
de orvielão, as [adaratas dtí inculcados repuMicattog, i' assiglimlii
aos resultado» inteiramente contrários dessas promessas, diz a
geule comsigo:" Não, uunea se zomtvni de um povo com lal amlaeia
e cynismo. " 1
■' A pteudo-rejnMira, sob que vivemos, seinelha esses ter-
renos estereis e maldiclos, onde'nem medra a lierva ruim. tloin
etVeito. as parvoieeg, as inepcias, os próprios crimes dos nossos
soberanos são apenas imitações, paródias, plagiatos; e os seiis
autores, ellos mesmos iião são caracteres, mas papei»: representam
de Danton. Sainl .Inst. Marat. Hébert. Fonqnier Tinville. como
os artistas lyricos fazem de Martin, finvaudan. Laruelte. ou
Elleviou." 1
;• A verdade é que Freycinel obedece á pressão dos pretensos
republicanos mais adeantados (lêde: mais sentidos, pltt* faimndí' >
os quaes, logo que o derribem. e lhe tomem o togar, serão, por
sua vez, obrigados a porfiar em tolices, loucuras e crimes com es
positivistas, os nibilistas, etc Ha uma comparação repulsiva.
mas de que não me privarei ; porque é jusia. Diz que os bêbados,
nas baiucas, se desafiam a comer e beber as mais iorpcs sordi-
cias, excedendo-se, na competência, uns aos outros. Poupo-vos
a lista dos bocados engolidos. Algum, allnal, chega a levará boca. e
mascar tão nauseosa coisa, que os cixvumstanles o declaram ven-
cedor, cumquanto o estômago lhe rebolse a infame iguaria.—"Cm
momento", diz o outro: "eu dobro."—Apanha o vomito, ingere-o,
e desfarte obtém a palma. " "
" As fuucções. os lugares, os postos, as dignidades, os grátis.
d dinheiro liberalizam-se entre os companheiros do < W/c de Madrid
e do Rufo Morto, os fortes no bilhar, os prendados no dominó, on
os que empeçonham o jiovo. recifando-lhe e reversaiido-llie as
mais criminosas sandices." 4

1 A. [Link] : Op. i d., pag. G8.


' II... pag. 144.
*4 l/i.. pag. 206,
li... nag. 208.
APPFXDICE V 435
" Cf»/ nou* 7" »*/ /»» priiuxut». 1 Investir conlra os abusos,
não para os destruir, mas para os [Link]. Qualificar dctyraitnos
Os reis mais bondosos, para os subsliluir por verdadeiros lyrannos.
" Que vimos hoje, com effeito. nisso, a que. por habito, ciut-
iiiiimos governo ? Arremedo, em (fraude, do que passava nas Tu-
IheriiLs. em fevereiro de I.S4S, aecrescentado com a hvpocrisia das
formas legaes, as cabildus mais numerosas, os tunantes, os fruetos
péros, os incapazes e outros aposentados nos paços dos reis. nas
funcçOcs e nos cargos, dormindo na cama dos prim-ipeg, beherri-
cando á porfia. Somente já não é nas Tulherias que se aeas-
lellam; é a França inteira que elles Iriucam. que elles baliam, que
eiles deshonram, tal qual mis Tulherias em 1X48. Somente, já
não bastam a rada um doze mil francos de renda. OrtiMeado de
patriotas e bons cidadãos, dão-n'o elles a si mesmos : iiilirrivtln não
deixam revMir-sr. ao m/iir. " 2

1 " .i prhent / "f uou* /es /iriocxw*", phiase alvar da


mullidão. ao invadir os aposentos reaes da» Tulherias, em
fevereiro de 1848. Aquarlelaudo alli. os atimliiiados. puzeram por
condição ao govenio. para deixar a casa: 1", dar-lhes um cerlificado
de patriotismo; 2", eslahelecer-lhes uma [icnsâo de 12.000 francos u
cada um : 3". não os revistar á sabida. Dessas exigências, u primeira
c a ultima foram satisfeitas.
2
A. Kabr: ///>. <•(/. paífs. 258-5!>.
'

*
AmXDIfE VI

(Á pags. 286-87 )

A politira sob Washington e a administrarão


financeira de Hamilton

.TÜIEO DK UMA AUTORIDADE CONTEMPORÂNEA 1

O Diário de Wil/ioni Maclay, livro ainda inteira-


mente desconhecido no Brasil, é um dos mais sérios
doemncntos oon têmpora ocos da vicia política e parlamen-
tar na grande republica durante os primeiros annoe de-sua
constituição. 1
Maelay, membro do primeiro senado americano, ora
um dos homens, que, mnpiella corporação, reuniam as mais
altas qualidades intellectuaes e moraes capazes de distin-
guir um observador, e autorizar uma testemunha. " He
iras a mau of ihe strideal integríiy, positive opiniona, kem
insight into lhe underlying motives of men." 3 A publi-
cação desse registro dos seus estudos íntimos acerca da

1
Journal or H ittlnm Mnrtnn. United State* «enator from Pen-
tylvanin.
1
1789-1791. Ertited by Edgar S. Marlay. Xecv-York, 1890.
Ibfd., pref., pag. vu.
43» APPKXDir.r. vi

Rocunlade, cm cujo «no cm um dos vultos mais proemi-


nentes, derrama abundante luz sobre atpielle jxriodo,
estabelecendo, ao mesmo tempo, os direitos de prece-
dência do autor ao titulo dc [me <U> [et r ti do democeatico,
usualmente attribuido a .letíersou : " KKtnblixhcs Ix i/nnd
vn r II tliv vh li me nj Pcnnviflviiiiin to luiviiifj piodarvd fh,
fafherofthvIhmoveafivjmvtyin thejiersonnf H'. Mavlnup 1
A importância dessas memórias, <pic tenho sob os
olhos, é excepcional. Essa publicação veiu descobrir na
[K^ssoa dc Maclay o verdadeiro fundador do partido de-
mocrático, o centro da resistência, que, no primeiro con-
gresso reunido após a constituição, se oppoz ã insinuação
de cstvlos de camctcr mais ou menos mouarchico nas
formas republicanas. A influencia dc William Maclay pn-
cedeu, nesse papel, ft de Thomaz Jctterson. O seu Diário,
)M»róm, agora trazido fielmente a lume um século depoi.-
de escripto, não tom só o interesse, relativamente secun-
dário, dc determinar a prioridade entre esses dois uome-
na crcação dc um dos grandes partidos americanos. sVu
valor consiste principalmente jia claridade^ que derrama
sobre a vida legislativa e a política federal, em um período,
a cujo resjKÚtoa transcripeão dos debates parlamentares é
fraecionaria, smnmarissima e qnasi sem movimento. Ella
rea|>i)areee nas paginas severas de Maclay, que, eseriptas ao
tocpie d»- um espirito, superior ao nivel commum, vem, na
phrase do edictor, "dissipar muitas illusôcs côr de rosa
acerca dos homens d'aquelle tempi. Some hcmtunvi/ Im*
been fvlt In f/a inej an unrceerced pnhlivation o f th In jnuninl

1
Jonmnt of W. Mar/ni/, pnf., pag. vi.
APPENDÍCE VI 4.0.}t
/« (hc irur/il, otrini/ In lhe mvKvity of tliv <-rifü'ÍMiiM ou promi-
moil permiiage*, irhlch in a lai-ge degn-f xrrrr Io dmpcl lhe
1
roxcah illmionx in re/ercnrc Io men of fhtif da//
Km fteral a tlgiiiamo.-i hoje como uma ("'jhx-.i dc
expansão ivpnhlicana, sem forças que a combatessem, sem
nuvens no horizonte, liem longe estava disto a verdade.
Alli tamlx?m a reputarão do pai/, teve de 1 netar contra
"a propaganda aleivosa dos inimigos, que, na imprensa
enropéa, retratava o povo americano como uma nação sem
governo". Alli também, depois de estabelecido o novo
governo 8 e encetadas as suas tuneçftes, houve entre os
cliefes da revolução impresscães de desesjKaança e, até, de
arrependimento, como a de John Adams, vice-presidente
dos Kstados-l 'nidos e sueccssor de Washington na presi-
dência, a quem, um dia, da cadeira de presidente do
senado, escaparam estas palavras: " Fui um dos da van-
guarda na revolução; mas, si previsse d que ora se dá,
nunca teria desembainliado a minha espada." 3
Alli, tainliem, no primeiro Congresso, se dese-
nhou a perspectiva de i:m rompimento entro a camara
e o senado. 4
Alli o ramo biennal da legistatura incorreu na sus-
peita de planejar a exaltação do poder executivo á custa
das prerogativas eonstitncionaes do'senado,—procedimento

1
s
Jnwnnf of II". Marlay, prif., png. viu.
Jhid., pag. 21.
' Ibiil, pag. 10 : " Mr. Adams rose iu his cUair and expressed...
Ibat for his pari he was mie oflhe lirsl in lhe late ronlest (lhe Ilcvo-
lutioii), and, if ht could horf Ihonghl nf t/d», he never ironhl /mre
draw4n hi» tmonl."
Ibvl., pag. 20. : " I Iheii poinled oul the rnpture ihat «as
likely to ensue with lhe ofher Houae. "
441) APPENDICE VI

que Maclay, mesmo no seu jornal intimo, se abatem de


qualificar, indignado. 1
Alli se increpavao chefe do Estado, que era nem mais
nem monos Washington, de animar a ereação de uma ver-
dadeira eòrte, com o seu partido adverso ao governo
constitucional e composto dc creaturas capazes de pôr
uma coma na cabeça do presidente, para lhe desfru-
etarera as jóias. *
Alli não faltaram enthusiastas do passado anti-
ravoluciouario, que trabalhavam em restaurar " o vil
mecanismo" da realeza e da aristocracia. 3
Alli o zelo de republicanos da melhor agna tremia
ante a inHueneia pessoal de Washington, a dictadura
moral <lo seu nome, arguindo-o de "cobrir constantemente
as medidas mais iuconstitueionaes, as mais anti-republi-
canas", e desejando-lhe a morte ! 4

1 Journal of \\. Maclay, pag. 104; "For lhe House ot Ue-


presentatives, l)y a side-wind, to exalt the president ahove the
l onslituliou, and depress the Sen»te below il is int I will Imre
it irithout name."
3
Tbid., pngs. 122-12.'!:" He gave me a shorl liigtory ol
llir etmrt party whv-h (as might lie expecled) U gainlixj yrowJl....
The ereatures that surròund him (the President) woiud jJare n
rrmm in hi* hcad, that tki >j rnaij hare the handling of the JeircU."
3
Ihid, pag. 155 : " Royalty, nobility ye gods, with what
indignalion do I review thelatr. [Link] of eome rrcoturm arnowj
a* to revire the vile mnchinrry "
4
Ibid., pag. 301: "Ropublicans are bnrne down by fasbion and
tear ot being charged witli a want of respect to general Washiugtuu.
11" there is treason in the wisb, I relract it, but would to God thi*
mme General Waihington irere mheaven.' We would nol thi-m. havr
him brnught forward a* the enmtant eorer to i-erry uneonétitueionat
and irrepnblicnn nct."
APPENDIOE VI 441

Vêde agora as apreciações, com que, no registro in-


timo de um espirito austero c de uma intelligeneia escla-
recida como Maclay, se acompanhava a administração
financeira da Republica no primeiro quatriennio presi-
dencial, quando se organizou o thesouro, o credito e o
patrimônio federal dos Estado8-lTnidos. Tratava-se das
grandes medidas de Hamilton, o estadista de quem mais
tarde havia de dizer Daniel Webster : "Elle ferina rocha
da fortuna nacional, c a renda golphou em borbotões.
Tocou o cadaver do credito publico, e o morto reergnen-
se-lhe aos pis. " 1
No Diário de Maclay bem diversa é a figura, que o
grande ministro representa. O pac do partido democrá-
tico vô em Hamilton apenas o cahcça de " t;ni grupo de
especuladores"8, de "uma hoste de especuladores"3,
cujas conspirações interesseiras alli se partieularizam. Os
senadoivs, que o acompanham, são mercenários servis,
"gladiadores"4, como os intitula Maclay, ganhadores,
como diríamos aqui, sobre os quacs a influencia minis-
terial resultava do subsidio quotidiano s, ou de actos de
corru])ção, verdadeiros contiacks mcicantis, cujo preço

1
Ch. Richardsox ; Avm-imn LUerature, vol. r, pag. 202.
2
Tfic JiHirn/il o/ H'- Mticlnij, jaig. 197; " Hiimillou, ntllie heail
Of ll)i speculators, Avitli ali lhe courtiers, are ou one slcle. These I
cult lhe party who are actualed hy interçst. The opposition are
governed hy prínciple. " Ibid.. pag. 231 : "Haruilton and his group
of sperulators are at last triumphant. "
3
Ibid., pag. 398 : " Hamilton vvilh liis hosl of sperulators...
< Ibid., pags. 139. 197. 210. 211, 220, 227, 234. 23f), 258,
275, 281, 299. 302. 331, 401. 411.
6
Ibid.. pag. 331: "His (Hamilton's) gladiators, vnth iheinfluente
l/ml imu urinai Jroiii nij- dolíarn jur ditij... "
56
442 APHENDICE VI

Maclay espucifica, designando nominalmente os cor-


rompidos. 1
Campeia infrene " o interesse privado". 2 A' sombra
da popularidade do presidente, o ministro das finanças
se entrega, com os seus collaboradores, "ás mais torpes
transacções". 3 Elle eommunlca aos indivíduos de sua
privança os segredos do Thesouro utilizáveis em negocies
de praça. 4 Hamilton, barganha activamente. 5 Hamilton
"aluga" senadores. 0 Hamilton prepara a seu favor unia
publicidade venal. 1 Hamilton "compra a eamara dos
representantes".8 E é por artes desse genero (pie ellegnm-
geia o trinmpho para o seu systema financeiro, "incon-

I
Tiu' Journal of W. Miclay, pijr. 401.
- Ibid.. par- 32H: " AH Ihree subjects—residence, aasuniplimi
and the fimds equiralent to six per cent— wrrc ali baryninrd and
fontracfrd foron thrprincipie of mataol nfícomniodaUon for privale
interest."
3
Ibid., pag. 3 29 : "The Presídent (Washington) lias becamc,
in the hands of H wnilton, the diahelout of every dirty speculation.
as his name goes to wipe [Link] blame and silence ali murmu-
ring. "
* Ibid., pag. 188 : " Ifl needed proof of the haeenrw of Hamil-
ton, I have il in the fullest manner. This day his price was roui-
municated in manuscript as far as Philadelphia..."
II
Ibid., pag. 2ít9 : "Never had a man greatcr propensity for
bargaining than Mr. Morris. Hamilton knows this, and is laho-
ring to make a tool of him. "
^ Ibid., pag. 310: "Hamilton and his New-York junto do
husiness on the principies of economy, and do nol put themselves
to lhe expense of hirinçj more than just the number neeessary
to carry their poinl. This is a deplora/de truthwithrespect loour
Senate.'
1
Ibid., pag. 258 :
"Hamilton sees that lhe camp lign will op m ag linsl him in
the field of publieationand he is providing himsett with gla-
diators of lhe quill, nol only for defense but attack."
8
Ibid., pag. 409 : " Hamilton lias houjht lhe present Ho use,
and he wishes to have his nioneifs worlh outof them."
APPEND1CE VI 443

ciliavd com a opinião publica". 1 A independência de


Opiniões ref"i:giara-se na opposição 2 ; mas os que,
como Maclay, não tinham a plasticidade de caracter agra-
dável aos planos officiaes, esses que perdessem a esperança
de reeleição, "d/y pface viust f/o", dizia o incorruptivel
representante da Pennsylvania ; " vae-se o meu logar de
stmador ; mas ba de ficar-me a paz de espirito. Como
moribundo, pois, diligenciarei empregar bem os meus
derradeiros momentos." 3
O livro de Maclay projeeta sombras intensas na
superficic daqnelle período histórico, visto hoje unica-
mente á resplandesecucia dos triumphos que coroaram mais
tarde a obra da revolução americana. As impressões dos
eontemporaueos foram, muita vez, bem diversas das (pie a
posteridade crystallizon na sua apreciação geral acerca dos
homens e cousas daqnelle tempo. Um dia, pelos últimos
mezes do primeiro congresso, quando a constituição jã
coutava três anuos de edade, e o paiz desfruetara todo
esse tempo do governo de Washington, o inflexível
democrata, que acabava de assistir, no senado, á passagem
do Excine bill, uma das medidas capitães na política
financeira de Washington, desafogou, no exame de con-
seieneia quotidiano, os seus sentimentos contra esse aeto,
essa politica e os seus snstentadores, que o futuro depois
veiu a justificar, e applaudir, em iinprecações como estas :
" Ainda que a Eloqüência em pessoa nos fallasse, e a

1
"... Hc wishes to reconcile Hamilton'»system to tho public
opinion uud welfare ; bul it is loo much." Ibid., pag. 290.
8
Ibid., pag. 275.
3
Jbul., pag. 398.
444 APPENDICE VI
razão lhe borbotasse da bocca, baldados seriam os seus
talentos numa assembléa destas, em que as questões se
resolvem por cabalas clandestinas, ao jíeito de mércias
iuteressciras... Regressei hoje do senado sob a maior mor-
tificação de toda a minha vida. Sentia-me disposto a orar :
"Senhor, livrai-nos dos bandalhos! Lord, deliver
from raseals ! Toda a caridade, de que eu possa dispor,
não me basta, para ter em conta dehonesta a maioria do-
minante naqnella eamara."
Considerando agora a divergência radical entre o
espirito destas sentenças e as que a historia profere actual-
mente, quanto aos estadistas daquella quadra, suas re-
formas, seus moveis moraes, — (pie havemos de concluir,
senão a incompetência da justiça poli ti ca na apreciação
dos contemporaneos em tempos agitados pela resaea das
tormentas revolucionárias ? Si políticos da gigantesca
estatura de Hamilton, julgados por patriotas da enver-
gadura moral de Maclay, apresentam, nas imagens alte-
radas pelos reactivos das paixões coetaneas, essas desfigu-
rações da realidade,—dos interesses revoltados e dos parti-
dos furiosos, no meio do chãos actual, que equidade
poderiamos esperar os pequeninos, os obscuros, os medío-
cres de 15 de novembro, avaliadosc retratados nas prn-
jccçõesdeformatorias da calumnia vulgar ?
APPENDICE VII

(Á i'Ai:s. 289—95)

A maUgnidado contemijorauea

"()h!nús não ixxliíimo.s ter a pretençík» de evitai'o


esroto doloroso,qiRí os maiores nomeada historia jiagaram
ás paixões contemporâneas."
Evidentemente este periodo, assinalado por uma
antithese pulpavel, não pôde passar, aos olhos de
ninguém, por unia comparação preteneiosa entre o orador
c as celebridades immortaes, qne a sua palavra evoca.
Pelo contrario, a mais sensivel contrajwsiçâo, posta
vigorosamente em relevo pelo tecido expressivo da phrase,
aecentua, em termos inequívocos, a maior distancia entre
a individualidade do orador, designada pelo pronome
pessoal, e "0,1 nu ti nreu uoiiien da historia", com que elle se
defronta. Sua intenção estava precisamente, obviamente,
em alongar essa distancia ate aos limites da imaginação,
reduzir o valor de sua personalidade, e avultar o das
grandes summidades humanas, a <jue a contrapunha, para
44G APPENDICE VII
extraliir d'alii a lição moral, que tinha em monte, caraetori-
yvndo como "vèReidade" 1 o pensamento de escapar n sorte
eommum, de que ellas mesmas, na sua superioridade
excepcional, não se preservaram.
E' o que, para s(> comprehender, basta não estar sob
a influencia do vinho máo do odio, não ter a alma ensopada
nossa embriaguez, que se bebe na lia das paixões más.
Si eu nutrisse a presumpção, excluída logo primã fade
infla própria intelligeneia grammatieal do periodo, de me-
dir-me com Cavour, por mim mesmo celebrado alli como
" uma das grandes cul mi nações da gloria contem-
porânea" 3,com Washington, magnifieado por mim mesmo
como " nm nome incomparavelmente glorioso, o maior
dos homens bons, o melhor dos grandes homens" 3J o
etteito oratorio do topieo seria nnllo, e o qualitieativo de
vcllddade não teria a expressão, que intencionalmente o
destaca. Longe disso, — assignalando-os como estrellas
de primeira grandeza, de retnlgeucia deslumbrante entre
as mais bellas oonstellaçôes da historia, a idía do orador,
com que nenhum critico do menor senso eommum poderia
illudir-se, era evidenciar quanto seriamos fatuos nós, os
vermes da terra, os ephemeros de um incidente momen-
tâneo, si nos suppuzesscmos inaccessiveis aos sopros da
calumnia politiea, i|UO adumbra os mais altos horizontes
históricos, cuspindo nuvens á face dos astros mais lumi-
nosos, si não tivéssemos, na inferioridade immensuravel
que delles nos alonga, a resignação de sotfrer o que elles
soffrcram.

1
Pag. SSil.
a lbi<l.
• Pag. 291.
APPENDICE VII 447

Aliás eu não fallava singularmente de mim. Eu


alludia pluralmente a nós, ao Governo Provisório, de quem
me oceupo sempre corno de uma tradição magestosa, quasi
sagrada, cuja honra, cuja significação patriótica está na sua
solidariedade, na sua personificação collectiva e abstracta,
e em cujo seio, de envolta com pontos obscuros, como o
que eu represento, ha irradiações sideraes, como Deodoro
da Fonseca, Benjamin Constant, Quintino Bocavuva, que
um amanhã não muito remoto ha de avivar no azul da
suprema justiça.
Quizeram ir ainda mais longe, arguir-me de pro-
fanar grandes nomes, desenterrando contra elles iuíamias
esquecidas. Como si a calumnia não tivesse um papel de
glorificação, pelo contraste, nesses triumphos da immor-
talidadc. Como si as próprias lendas religiosas não fizes-
sem dos vilipendies da perseguição a mais santa corôa de
seus martvres, de seus heroes, de suas divindades.
Quiz-se, atá, insinuar contra a minha fidelidade na
exposição das circumstancias, (pie relembrei acerca dos
dois famosos estadistas, oppondo-se ás paginas históricas,
(pie revivi, phrases apologeticas de homenagem a essas
personalidades celebres, cuja eminência aliás eu encarecera
com as apreciações mais calorosas de enthusiasmo.
Mas a mim, que não costumo estudar taes as-
sumptos em livros de segunda e terceira mão, nas ampli-
ficações incorrectas da vulgarização fraueeza, não me
será diffioil corroborar documentariamente os assertoa, com
que se escandalizou o dilcttantismo da ignorância.
Pelo que respeita a Cavour, eis as próprias palavras
de Bbofperío (nome conhecidissimo no jornalismo e no
parlamento de Italia), transcriptas das suas memórias,

o
f"
448 APPENDK.E VII

/ mii-i tem pi, volume XVI, publicadas cm 18 GO (typ.


Nacional de Biaucardi, Torim.)
Conservo o texto italiano, do que dei, no discurso,
a versão 1 :
■■ A raildopirtre le raormorazioni «lei popólo pieinontese conii"
Cavour coneorrero alcune foriuile circostanze rlie la storia noa
vuole (limenticate. la Piemonte si vldero speculaíori, borsaiaoli,
apenli ili banca, sian a quel tempo navigatori ia liasse acque, iii-
ventare lutto ad un Irallo stbndali milionari. Dow pescavano
eosluro lanü denari ? Nessuno lo sapeva. Ma lauto io publico ebe
iu privato costoro passavann per intimi confldenti di Cavour, d
quale se li collocó al fianco e ne volle nlcuno alia Cainera e ne
destino qualche allro a poliliche incumbenze. üi quesli segreti
chi aveva il filo ? Forse pocfaissínii, foi-se nessuno : ma la voce
publica fece rigorosi giudici e porto seycre accuse."
Esse trecho vem reproduzido numa vasta publicarão,
era que o mais activo dos admiradores de Cavour reuniu
c commentou o seu iramenso epistolario : as Lctkre nlife
ed iiicdife di Cavour racolfe ed iüwttrafe da Lükíi Chiai.a
(Torino, Roux e Favale, 1884-87), cm seis grossos vo-
lumes. Veja-se o vol. V (1S8G), introd., pag. ocvxc.
Os críticos italianos classificam esse trabalho, soberlia
compilação, enriquecida de opulentos eonimentarios, como
"H monumento piu eolenne e piii f/randioso elevato alia
memória di Camil/o Cavour."
Eu não podia, pois, ir beber era fonte mais autori-
zada e insuspeita.
O mais intimo amigo de Cavour, entre os homens po-
líticos de seu tempo, foi [Link] Castku.i, de
cujas memórias se publicou em 188G, a parte relativa ao
grande estadista italiano sob este titulo II conte di Cavour,

' Pag. 2ÍK»,


xVPPENDICE VII 44ít
Rirordi, edil! per cura di Li;igt CllIALA. Nesse livro se
encontram os mais profundos vestígios da guerra diffama-J
toria exercida contra elle. " Tristes momentos teve de
passar , diz o seu confidente, " vendo-se objecto de sus-
peitas c recriminações, que no seu justo orgulho desprezava,
e desdenhava refutar com os factos. Tolerava as aceusações
pessoaes cm silencio... confiado no futuro, como quem
sabia pesar os juizos da opinião publica, os erros populares,
as injustiças de partido, contando com o sentimento do
justo e da verdade. " 1
Os seus próprios associados políticos " accusavam-n'o
de pouco escrupuloso na escolha dos homens, ou dos meios;
e alguns amigos seus, entre os quaes Massimo d'Azeglio,
mostraram-se ás vezes desconfiados, ante certos factos que
lhes iam de encontro ao sentimento moral. " 2
Reproduzirei, como circumstancia característica, a
historia da aggressão popular, movida contra elle, quando
presidente do conselho e ministro da fazenda, pelas noticias
divulgadas contra a sua honra profcssional c pessoal:
" No outono de IStjf» corriam, de algum tempo, vozes sinistras
acerca do conde de ttavour, então ministro das finanças, que se
arguia de monopolio dos cereaes em sua vantagem particular,
evocando-se assim antigos rancores e calumnias. Algumas folhas
acirravam iras e suspeitas. Começaram de chegar ao ministério
do interior avisos de dcmonsl rações hostis, que se preparavam ; tor-
nando-se as informações tão precisas, no dia 18, que se julgou
necessário usar de todas as medidas de prevenção opportuna. Era
ministro do interior o conde de S. Martino, que me encarregava
a mim, como primeiro otlicial nesse ministério, de dar as ordens
convenientes. Chamados o general dos carabineiros e o questor,

1
2
Gastelli : 11 ennlc di Onwir (Torino. 1886), pag. 6.
O]), cit., pag. 11).
57

o
<P
A PRENDI CE VII
prevenido o syndico, afim de dobrar os postos da guarda nacional,
íiirigi-me, pela tarde, a visitar os logares, onde se deviam reunir
os cabeças da manifestação, e se mandara apurar a vigilância.
Dom espanto meu, reconheci que as ordens não tinham sido
executadas. A uma hora da noite uma turbamulta de ociosos
partia de Porta Palazzo, percorria a rua de Doragrossa e a praça
Castello, e, engrossando sempre, caminhava para o palacio
(lavour.
" Vendo-a de longe, precisamente quando ou chegava á resi-
dência de Cavour, apenas tive tempo de advertir o porteiro e os
creados, para que fechassem os portões, e segui para o quartel
dos carabineiros. Encontrando-me, de caminho, com quatro destes,
ordenei-lhes que corressem ao palacio Cavour. No quartel achei
apenas o piquete de guarda, e já regressava, quando, na rua do
Hospital, pouco longe da casa Cavour, vi correrem na minha
direcção quatro moços, um dos quaes, aliciante, dizia: " Perdio t
devíamos entrar de improviso, e tel-o-hiamos colhido de sur-
preza." Os quatro carabineiros chegaram no momento, em que,
arrombada a porta, a multidão se lançava pela escadaria." 1
Na manhã seguinte, entre as saudações que reagiam
contra a seWageria do povileu, não faltaram assobios:
"alcnni fischi li intem ancor." -

Ainda a esse facto allude o topieo seguinte :


"Tumultuario ajuntamento assaltara a casa de Cavour, accu-
sando-o de matar o povo á fome. Foram presos os desvairados
assaltantes; fizera-se justiça á insana accusação ; mas a impressão
produzida por esse incidente era triste, e os perigos não tinham
desapparecido. Ratazzi. convidado a entrar no ministério, disse-me :
" Cedo, porque não posso recusar o meu apoio a Cavour indignamente
suspeitado." 8

1 Castelli: Op. cü., pags. 32-33.


8
8
lb., pag. 34.
Ib., pag. 49.
AP^ENDIGE VII 451
Agora, quanto a Washington.
Xo que toca a este, eu poderia limitar-me a citar as
palavras de Alkxander Joiixstox, na sua History of
American PotUicx (X. York, 1889), cap. III, pag. 38.
Ahi se compendiam as principaes inerepações dos detra-
ctores de Y ashington, acoimando-o de usurpação, de traição
á patria, de subtracção de valores do Thesouro. Conservo
no idioma original o topico inglez, para maior authenti-
cidade:
" Hitherlo ( 1795) critirisms on Washington's policy hnd not
bfi-n uneommon ; but bis action in signing Jay's Treaty brought on
atpersion» up<m hi» primte character, which were carried so far lhal
lie dcclared "he would rat/ier bc in hia grave than in the Presidency.''
He was cbarged by the extreme Republicana with nsurpation.
treason to bis country, and hostilily to her interests. The conti-
nued sufferings of American prisoners in Algiers were ascribed to
bis criminal indifTerence. He was accused of having eh/mm inoapa-
rity during the Revolutíon, and of having rmbezzled fhe pnhlic fnnds
whiíe Pretident (« de haver-se apropriado de dinheiros do thetouro,
quando presidente). He was threatened with impeachnient, with
assassination. Even the honored epilhel so long given to hirn was
burlesqued, and Washington was for a time known to the Repu-
blicans as the strp-fafher of his country (como o padrasto de sua
patria)."
Digo que me poderia cingir a essa autoridade,
porque os trabalhos de Johnston, já em obras distinctas,
já na sua oollaboração para a Lalob'8 Cyclopoedia e para
a Encyclopedia Britannica, pertencem, na opinião dos
americanos, " á melhor litteratura política dos Estados-
Unidos ". 1

' IBowker and [[Link] ; The liou ler'í> Guide of Economic, Social
and Political Science (N. York, 1891), pag. 49.
452 APPENDIGE VII

Vamos, porém, ás nascentes primitivas da historia de


Washington.
Elias estão na sua biographia, escripta, mediante in-
cumbeneia de sua familia, pelo grande Chii1/ JuMice Mar-
shall, atpielle a quem tocou por longo tempo a suprema
judicatura dos Estados Unidos, e que se eognomina, alli,
por excellencia, o interprete dn constituição, "thc expouitder
of thc Constifufion". Marshall, indigitado para essa tarefa
pelas suas excepeionaes qualidades, pelo seu conhecimento
pessoal da vida de Washington c ]>ela sua devotada ami-
zade a este, recebeu de Bushrood Washington, sobrinho
predilecto do finado, o archivo de todos os seus papeis, e
sobre elles compoz a sua Life of Washington, em cinco vo-
lumes, dados a lume em 1834—37. No vol. II, pag. 270
escreve Marshall:
" His military and political character was altaeked with
equal violence, and it was averred lhal he was tolally destilute
of merit, either as a soldier, or as a statesman. He was charged
with haring violated thc consütution Nay more, il was asserled
that he had drawn frotn lhe treasury, for his primte me, more tWnn
the salary annexed to his offivr."

Eis ahi, pois, formalmente registrada a calumnia,


irrogada a Washington pelos seus inimigos, de sonegar
dinheiro ao erário cm seu proveito individual. Essa im-
putarão careceu de ser solemnemente refutada pelo secre-
tario do Thesouro ;

" This lasl charge, so ineompatible with thc wholc character


and conducl of Washington, was fnlly refuted hy the late secretary
of the Treasury, who explained that lhe President never himself
tonched any part of the compensalion altached to his ofUoe, but
that the whole was received and disbursed by the gentleman who
APPENDI8E VII 458
superintended lhe [Link] of his liousehold. Thal lhe expcnses
had gome limes exceeded and at olher limes fell short of lhe
qaafters allowance; bul thal lhe aggregate fell within lhe allo-
Wance for lhe year."' 1

Dessa torpe injustiça queixa-se Washington, na sua


carta a Jefferson cm li dejnllio de 1870. A passagem, de
que dei a trãdueção no meu terceiro discurso 8, rosa
assim, no original:
" Until within lhe lasl year or two, I had no conception thal
parlies would or even could go lhe length I have been wilness lo;
nor ilid 1 bclieve until lately, thal it was within lhe bounds of
probabilily, hardly wilhin lhose of possibility, lhat, while I was
using my utmoat exertions to eslahlish a national character of our
nwn, independent, as far our obligalions and justice would permit,
of every nation of lhe earlh, and wished, by steering a sleady
course. to preserve fhis country from lhe horrors of a desolating
vvar, I shoutd be accused of iteeing the enemy ofone nation, and
suhjecl to the tnfluence of anolher; and, to prove it, thal every act
of my administration would be tortured, and the grossest and
most insidious misrepresenlations of them be made, by giving one
side only of a subject, and lhat loo in mch exaggeráled and inde-
eent terms a» could »carce/g be applml to n Nem, a notoriom dcjmd-
ter, or even to a common pickpocket. "

Transcrevo da magnifica «lição dos escriptos de Was-


hington publicada por Jared Sparkh em 12 volumes.
O topico está no vol. XI, pag. 139. E' ahi que o grande
estadista se mostra atassalhado pelos seus aggressores com
accusaçõcs só cabíveis "a ura Xcru, a um criminoso noto-
rio, ou a um larapio vulgar

1
[Link] Irviso : Life of George Washington. Tauchnit^
edil. Leipzig, 1SÕ9. vol. V, <•. xxvm, pag. 211.
« Pag. 294
4ó4 APPENDICE VII

Pouco depois, rejeitando a terceira presidência <los


Estados-Unidos, ]>or um acto dc abnegação, que creou o
mais inviolável dos arestos constitucionaes, Washington
publicava o seu manifesto de despedida, o mais famoso dos
testamentos políticos, esculplura dc uma consciência quasi
divina, que atravessara o governo dos homens immaculada,
como os mármores olympicos do escopro grego atravessaram
os séculos. Era a resposta, que ellc queria burilar para
sempre, ás aggrcssões, (pie o victimaram. Parecia natural
que cilas desarmassem ao menos em presença do homem,
que depunha voluntariamente o poder, recolhendo-se aos
deveres obscuros do lar. Mas foi então, pelo contrario, «pie
a imprensa opposicionista, pelo seu mais famigerado
orgão 1, rompeu nestas catadopas de exultaçàocinvectiva:
" O tiomem que tem nulo n origem de todo» o» infortúnio» de rmta
patria, baixou hoje ao nivel dos seus concidadãos ; já uâo dispflt do
poder, para multiplicar calamidade» nobre os Estados- Unidos. Si jã
houve occasião de rejuhiliirmos, ó esta de agora. Todos os corações
que estremeçam pela liberdade c felicidade do povo, devem palpitar
exultanles, desde que o nome de Washington já não poderá dar
circulação diariamente a attentndos politicos, e legalizar a corrupção.
Abre-se agora, ante nós, uma era nova, de grandes prometti-
mentos para o povo ; porque as medidas da autoridade publica,
de ora em deanle, hão de valer pelo seu proprio mérito, e os mais
nefarios projectos já não se vão legitimar com o prestigio pessoal
de um nome. Fazendo o retrospecto da administração de Washing-
ton durante oito annos, não se pôde fugir á impressão do maior
espanto, observando como a influencia de um só indivíduo en-
cerou os principio» republicanos no seio de um povo recem-salvo da
voragem do despotismo, e logrou seus intentos contra as liber-
dades da nação, ao ponto de pôr em risco a própria existência dellas.
1
A Aurora, cm 6 de março de 1797. Vej. Hexry Eabot Louoe:
Oeorge Washington (Boston, 1890) pags. 251-252,
APPENDKK VII 455
Taes são, entretanto, os factos, e, com a evidencia viva delles aos
nossos olhos, o dia de hoje deve ver de jubileu para os Estados-
Unidos."
Esse caracter, dizia um democrata, "só poderá inspirar
respeito aos que o não conhecerem : 6 arbitrário, avarento,
dado á ostentação; soldado inepto, grangeou nome, apenas
pelos postos que occiijmui. Suas medidas financeiras sobre-
carregaram o povo cm proveito de alguns favorecidos. A
historia ha de rasgar as paginas reservadas ao seu elogio.
A reputação que a França e os Estados-Unidos lhecrearam,
a França c os Estados-Unidos hão do arrebatar-lh'a." 1

Outro escriptor contemporâneo dizia :


" A gloria de Washington desvanéceu-se como nevoa. " " Elle
desceu da altura de Solon, ou Lycurgo, ao baixo nivcl de uni
stndtbolder bollandez, ou de um doge veneziano. Dehalde a poste-
ridade esforçar-se-ba por lhe descobrir na administração vestígios
de bom senso. " 8
"Nunca houve nação mais prostituída por um homem do que
a nação americana foi prostituída por Washington. Nunca houve
nação mais ludibriada por um homem do que a nação americana
foi ludibriada por Washington. Fique o seu procedimento como
escarmento aos séculos vindouros. Sirva de lição, para que nunca
mais se eleve um homem ao culto de idolo. Aprenda o genero
humano, pela historia do governo federai, como se pôde usar a mas-
cara do patriotismo, para occultar os mais torpes desígnios contra as
liberdades do povo " 3

' V. Hfxby Gabot Lodgk : HWbmrfon (Boston, 1890), vol. II,


pag. 3246.
Md.
■■ Hicharu Hildheth : The histort/of the United States of Ame-
riva, vol. IV, c. ix, pag. 696.
Eis o texto dessa verrina:
"Ifever a nation was debauched by a mau, the American nation
iras debnnehed by Washington. If ever a nation was deceived hy a
45G APPENDICE VII

Os maiores estadistas deste século viram a sua repu-


tação esmordicada nos dentes da calumnia. Tliiers, por
exemplo, teve o nome sempre dilacerado pelas hostili-
dades perversas, que a sua grande superioridade intel-
lectual, a lucidez da sua vocação política, a sua estrella de
predestinação entre os maiores acontecimentos da existência
do paiz lhe crearam entre os espiritos de ordem subal-
terna, as invejas ordinárias, as predisposições da credulidado
popular para o mal.
Já sob o governo de Luiz Felippe a sua honra andava
pelo pó das ruas. Tommassêo, que se achava então cm Paris,
escrevia d'alh a César Cantü, em 7 de maio de 1835 :

" O avaro Soull e o insolente Thiers, ladrões cm e outro, ao


que se diz, regem, regeram, e ameaçam reger a França. L'avaro
Soult e Viwolente Thier», ladri, a i/ttel chr »i diee, amendw. reggono e
ressero e minacciano di regyere la Frauda1

Xa épocha em que maiores serviços elle prestou ã sua


patria, quando os créditos do seu senso político, da sua
moderação, da sua inteireza o tornaram, ante a Europa, a
personificação da França, o sen fiador, por assim dizer,
então mais do que nunca, se agitou contra elle a malignidnde.
Darei alguns specimens, que se me deparam mais á mão.

man, lhe American nation was deceived by Washington. Lot his


conduct lheii be an exemple to future ages. Lei it serve Io lie
warning that no rnan rnay he an idol. Let lhe history of lhe federal
government instruct ruankind that lhe mask of patriotism raay he
worn to conceal lhe íbulest designa against the liberties of lhe
people."
1
líassii/na Nazionale, de Florença, fascic. do 1? de Maio de
1881, pag. 323.
appenAce VII 457
" Thiers... não tem grandeza nas idéas. Quanto ao mais,
homem ávido, queria receber de iudemnização 1.500.000 francos'
pela sua casa; exigiu mais 100.000 francos para despezas de repre-
sentação ; vence, neste momento, 750.000 francos. " 1
" Victor Hugo... blatera sobretudo contra Thiers e seu go-
verno, a proposito da expugnação de Paris e dos fuzilamentos,
que se [Link] communislas. Ao seu ver. não praticaram crimes
os defensores da communa : são innocentes sacrificados. Usa das
expressões mais exaggeradas : " E" o mais abominarei crime da
historia!" "
" Pessoas chegadas de Trouville informam-nos que nunca se
tinham visto tantas cocotte* em uma estação halnear. A côrte de
M. Thiers atlrahiu para alli a flor da vida airada de Paris... A
Republica timbrou em mostrar que a famosa corrupção do Império
ficaria bem á sombra, comparada com o governo do ensaio leal. " ,
" Ha cada vez mais adio contra elle (Thiers). Ha principal-
mente desprezo, tão visível é o egoísmo deste espirito obstinado,
sem largueza, nem idéas, que só capricha em não abrir mão do
poder. " *
" A historia ha de espantar-se da patifaria (coquinerie), da
curteza de espirito, do scepticismo, da impudencia deste homem
profundametile corrompido (f impudence de cet homme profundément
cnrrompu), que os partidos inculcadamente honestos deixaram se-
nhorear a França," 6
" Não me delenho em apontar as mentiras, as contradicções, as
basoflns deste eterno faccioso (Thiers). Basta saber que o seu dis-
curso foi ouvido com geral frieza. Quando acabou, levantando-se a
sessão por força da hora, só se ouviam, de toda parle, á direita, estas
palavras, pronunciadas com o accento do mais profundo desdem :
Sai-te! Sai-te ! ( Va-Ven ! va-Ven !) " '

1
2
Fines : L'Estai Loyai (Paris, 1890) Pag. 14.
lh., pag. 90.
' Ib., pag. 111.
*■ Jb., pag. 140.
» Ib., pag. 171.
' Ib.. pag. 208.
4ô8 aumvmMCL; MI
" A queda de M. Thievs coincidiu com um bellíssimo dia de
domingo.... O povo perguntava ingenuamente si teria para fetiejar
a qtié/ln de TUiers.
" O governo, que se vae, deixa, ao queàftinnam, graves dividas
e um passado prenhe de mysterios, Aununciani que muitas pessoas
serão accusadas como envolvidas em transacções de dinheiro in-
dignas, declinando-se os nomes de MM. Laurier, Gamliel ta, Hanc. etc.
Trata-se do empréstimo Morgan, ao qual se teriam deduzido
68 milhões sobre 2Õ0, pela ditTerença entre a cota de Paris e a de
Tours, assim como cio empréstimo dos tres milhares, ao qual se
suppõem sublrabidas lambem sommas enormes. Dizem-se empre-
gados vinte milhões na cabala eleitoral, na compra da imprensa
estrangeira, etc. Só o Daily News teria recebido 500.000 frs. A hn-
pream Livre, de Vienna, recebia lambem sua mensalidade no
ministério do interior, etc. M. Thier» exercia a corrupção nu grande...
Si o ministério não ousar atacar Thiers, a imprensa descobrirá todos
os façtos, em que elle se acha enredado." 1
" Ü acontecimento, que, por assim dizer, inaugurou este inez,
foi a inopinada morte de Thiers... Por essa occasião assisti a um
pbenotneno. não direi raro, mas quasi único : a mofa e a znm-
baria, que acolheram etta morte. De ordinário, a morte de um esta-
dista inspira odio, satisfação; dor, etc. Desta vez foi vma risada
geral." *
"... Tendo sido tantas vezes ministro, mula rreara. " ^
" Thiers deixa fortuna muito mais considerável do que se
cuida. Os mais modestos cálculos elevam-n'a a onze milhões. Thiers
velara sempre por augmenlar os seus haveres, desde a mocidade.
appropriando-se de gratificações, quando ministro das obras pu-
blicas (de uma só vez, 500.(l00 francos), impondo o pagamento de
1.500,000 francos, pela sua casa, em ouro, quando o ouro tinha agio,
tomando do empréstimo títulos irreducliveis, etc. Avaliara o seu
palacio no duplo cio preço real, abslendo-se de declarar que, logo

1
s
Pidi s ; L'Essai [Link]. pags. 218,214.
1b.: Jx Prkire Jinpérial. (Paris. 18i)l) pag. 70.
» 1b.
<1 1
APPKNi)n;rç)Vii 4õ0
Huh* primeiros dias da revolução fie setembro, e na previsão do que
désse e viesse, arrecadara os seus objeclos d"arte mais preciosos em
70 caixas, que expediu para Inglaterra." 1
"...O território ter-se-hia libertado sem o seu concurso, maa
infno* caro." •

A historia não conhece tnuisucção financeira mais


grandiosa que o celebre empréstimo nacional de Thiers,
nem tão grandiosa talvez, si lhe considerarmos as pro-
porções ante a dureza das circiuustancias, a rapidez dos
resultados e o patriotismo do objecto. Supposta morta,
pela guerra, a França, pela immensidade do seu credito e
dos seus recursos, evocados ao toque mágico do estadista
que a governava, deu inesperadamente a mais assombrosa
prova de vitalidade inextinguivel.
Vfslc, entretanto, a que luz diffcrcntc a encararam
certos apreciadores;

"Era na epocha das grandes aguas turvas da França, quando


se expandia, em todo o esplendor, o que se convencionou
designar como " a gigantesca operação financeira", e grangeou a
M. Thiers o titulo de libertador do território.
" O que mais vantajosamente se libertou, em todo esse negocio,
foram os grandes vales de renda 5 fc ; e esse pobre Thiers, pela
esteril gloriola de habilitar-se a dizer que o seu empréstimo fôra
coberto incalculável numero de vezes, apenas conseguiu faci-
litar aos Bambei-ger e outros Rotschilds o monopolio dos novos
títulos nacionaes de 5 % nominaes, mas realmente de 6 %, á
vista da taxa da emissão.
" Graças a esse processo, o povo apenas logrou subscrever
direclainente, e não obteve realmente papeis de9 jí, senão quando

1
Funis: Le Priuvc Imuirial, pag. 100.
« Jb., pag. 107.
460 APPENIMGE VII
aos abutres francezes e estrangeiros conveio concedereni-lh"o
transformados em verdadeiros 5 %, com um lucro, para elles, de
20 a 25 fr. sobre o capital
" E assim vae o mundo! E' aos reparadores dos erros com-
meltidos que se quer lançar o seu peso, emquanto o autor prin-
cipal delles se vê coroado libertador numa especie de apotheose.
e os seus cúmplices usam ufanamente, na lapella, as estrellas
arrancadas ao firmamento da honra franceza." 1
" Na obra de M. le Tresor]de la Roque s, venho achar que
M. Thiers, só com as despezas de emissão pôde repartir, evitando a
fiscalização do tribunal de contas, 253 milhões, por ocasião dos
dois empréstimos de resgate, cujo tola! se elevou a 5 milhares." "
Que estadista já teve maiores direitos ao reconheei-
mento de seu paiz como chefe político, orador parlamentar,
promotor de grandes reformas e especialmente como finan-
ceiro do que Gladstone ? Entretanto, eis a que se
reduzem todos os seus méritos, aquilatados aliás por um
conterrâneo, de cujo valor e créditos aliás se pôde
ajuizar, pela alta posição, que occupou, no Banco de
Inglaterra :
"Que titulos pôde elle adduzir á submissão incondicional da
camara dos communs? Por um procedimento cheio de vacilIaçOes
e uma serie de desastres, Mr. Gladstone destruiu de todo em todo a
confiança na lisura e sabedoria da administração em vários ramos
importantes do Estado. Na sua política internacional e colonial
pouco ha que registrar, além de revezes e desastres. Seu governo
tratou com a mais perigosa desidia a manutenção das nossas
forças navaes e militares. Sua administração fiscal foi perniciosa á
liberdade das transacções commerciaes. Durante asua gerencia nas

1
Auouste ('.hirac : Le» róis de la Republique (Pars, 1888), v. I.
pags. 22Í1, 230.
- Le» finnnees de In Bbpiibliqne.
» A. Chuuc: Op. cit.. v. 11. pag. 231.
« \
apfendkJe vn ^ m
finanças nacionaes, as experiências legislativas rtoThesouro puzeram
em risco a integridade do nosso padrão monetário, e damnificaram
a reputação dos títulos uacionaes. Na sua tentativa de reduzir os
juros da divida publica, Mr. tíladslone, em 1884, como em 1853,
passou por insigne derrota, querendo obter á força de arbítrio o
bom êxito de uma operação, que as circumstancias não justifi-
caram. " 1

Lis a que extremos toca a malignidade contemporânea,


nas suas vergonhosas revoltas contra os maiores gênios po-
líticos c os maiores patriotas. Que será quando as victimas
não tém as vantagens desse merecimento excepcional?
Ha, no theatro de Ibsen, a grande celebridade con-
temporânea da litteraturascandinava, um tvpo de devoção
apostolar á sciencia e á humanidade, o dr. Stockmann, lapi-
dado, infamado e proscripto como Inimigo do Poro, exa-
ctamente pela intransigência da sua caridade e pelo seu
culto religioso do dever. Stockmann não se abala com as
pedradas da multidão insciente, agitada contra cllc pela
perversidade das paixões baixas, a que a sua integridade
não se dobrava ; antes levanta um a um os projectis, que lhe
vararam as vidraças, e, mostrando-os á esposa, " Quero",
diz, " guardar estas pedras como reliquias. EjlifeMorten
vcl-as-hão dia por dia, c, quando crescerem, será, para
elles, a herança paterna".
O homem de estado, em paizes como o nosso, pouco
mais pode legar aos filhos do que essas lições da desprezibi-
lidade da injustiça, traduzida na usual maneira de remu-
nerar os operários do dever publico mais laboriosos e menos

1
Hibbahd; GhuUtone m lhe Invume-tax (London, 1885).
pag. 15.
(
4fi2 APPEÍIDICE VII

hábeis na arte fácil de converter cm flores baratas os es-


pinhos do poder. Felizes os (pie souberem elevar-se pela
consciência á bemaventnrança desta serenidade suprema.
Pela minha parte, aos escandalizados com a invocação
de anteeedeneias tão altas a proposito da minha individuali-
dade minima eu poderia lembrar, em resposta, as palavras
de Gucrrazzi abrigando a sua altivez á sombra do
exemplo de Dante: " A presnmpção de egualar-mea Ali-
ghieri em engenho não mereceria sequer o qualificativo de
loucura ; mas em dignidade não me considero inferior a
ninguém; mn per cuare io non mi átimo secando a
1
nessuno

1 Carta a M. A. Castei.u, no livro posthunio deste II conte (li


Qivour, pag. 232.
AlTENDICE VIU

(Á PAG. 3S2)

O incidente da Quinta do Cajú

A commissâo particular de amigos de s. ex. o presi-


dente da Republica 1, (pie continuam a uaiirjmr a qualifi-
cação de ministério, parece não obedecer em todos os seus
actos, senão ao empenho do cavar um abvsmo entre si c o
governo da revolução. De minha parte, não posso deixar de
confessar-lhes, por essa divida, o meu agradecimento. Não
creio, porém, que o mesmo possa fazer o chefe do Estado,
a quem a historia difficilmente comprehenderá o duplice
papel de chefe egualmente solidário o egmdmente absoluto
de duas dictaduras suecessivas, uma dasquaes é apenas um
accinte organizado á outra.
Como quer que seja, porém, ainda hontem nos deu 0
Diário Ojficial amostra dessa obsessão, que parece tocar
as proporções de um phenomeno morbido, neste topico en-
dereçado á minha pessoa:
"O então chefe do Governo Provisório não teve noticia da venda
da Quinta do Cajú. Não a autorizou, nem se tratou de semelhante
1
Alludia ao ministério Lncena
liste escripto não soffreu a meuor contestação oflicial.
464 ( APPE^DICE VIU
objecto em reunião de ministros sob a presidência do mesmo chefe.
A venda foi operação, que exclusivamente correu pelo ministério da
fazenda, então a cargo do sr. Ruy Barbosa."

Vê-se que o sr. Araripe, frustrada a primeira inves-


tida, eolleou eomo serpe velha, para farpear a sua victima
com uma perfídia, que suppõe mais certeira. Enganou-se.
Xão é a mim (pie a inepeia lia de magoar.
(Certamente, a venda do Cajú não foi objecto de deli-
beraçâo eollectiva do gabinete, não teve autorização prévia
do marechal Deodoro. Correu, pois, exclusivamente, até
á conclusão do contraeto, por conta do ministério da
fazenda, então confiado a mim.
Mas vir dizer isto ao publico, por solemne declaração
ofticial, é o mesmo que suppol-o tão radicalmente alheio
ás trivialidades mais rudimentares da administração
quanto muitos ministros. Sim: a alienação de próprios
naeionaes, autorizada por lei, era matéria administrativa,
de competência particular da minha pasta, que eu não
tinha que snbmetter ao exame oommum dos meus collegas,
nem á autoridade do chefe do governo. Desse arbitrio usei
amplamente, alienando, não só essa propriedade nacional,
como outras muitas, dezenas dei Ias, aqui mesmo na capital
sem audiência eollectiva do gabinete,|nem permissão prévia
do seu presidente. Toda a gente, que disponha de qualquer
tintura de bom senso, sabe que um ministro, em matérias
desta ordem, obra sob a sua discrcçao e responsabilidade,
O pensamento da declaração, portanto, é outro ; é insu-
lar-me, figurando-me incurso numa surpreza á confiança
e á boa fé dos meus collegas, especialmente do chefe
do Estado, que se diz "não ter noticia da venda da Quinta
do Cajú".
A \
\
APPEN JICE VIII 465
ísão teve noticia anterior, é certo; porque não podia
tel-a, sem que algum incidente a provocasse. Mas teve-á
depois; teve-a completa; e acabou por se declarar
absolutamente conformado com o meu procedimento.
1 nfbrmado, não sei por quem, e em que termos, do con-
tracto que se consummara, dirigiu-me s. ex., em dezembro,
uma carta, pedindo-me esclarecimentos, e mostrando-se
desfavorável á transaoção effectuada. Respondi-lhe por
escripto, dizendo-lhe que a matéria era da alçada adminis-
trativa do meu ministério ; que eu a resolvera, tomando
as precauções aconselhadas pela regularidade e moralidade
da administração; finalmente, que o contracto estava feito,
C era irrevogável.
I ive então em réplica a seguinte missiva :
Illm. e exm. sr. dr. conselheiro Kuy Barbosa. — S. cx. o sr.
marechal, generalissimo Deodoro da Fonseca, recebeu a carta, que
v. ex. dirigiu-lhe na presente data, versando sobre a venda da
Quinta do Cajú.
"O mesmo exm. senhor encarregou-me de scientificar a v. ex.
que elle não considera aclo irrevogável essa venda: não só por não
ter sido consultado a respeito, como também porque, segundo está
informado, o preço da venda foi assás inferior ao do valor dessa
propriedade.
"Saúde e fraternidade. — Com o maior respeito e consideração
de v. ex.—attento venerador e arnigo agradecido — João Carlos
Lobo Botelho, tenente-coronel. — 15 de dezembro de 1890."
Era uma derogação inesperada aos hábitos de cor-
tezia e, digo mais, ás finezas habituaes de cordialidade,
com que s. ex. sempre nos honrou, essa praxe de cor-
responder-se com os seus companheiros de governo, e em
assumptos de tal melindre, por meio de um ajudante de
ordens.
59
J
APPENDIf.É VIII

Obedecendo, pois, aos novos estylos, retruquei ;lo


auxiliar do gabinete presidencial com esta carta do nn-u
auxiliar de gabinete :
" Rio, 16 de dezembro de 1890.—Illm. sr. tenente-coronel Lobo
Botelho.—O sr. dr. Rny Barbosa, em resposta á carta de v. s., qe
hontem datada e só agora recebida, manda-me dizer-lhe que tenha
a bondade de saber de s. ex. o generalissimo chefe do Governo PiV
visorio, a quem deve passar a pasta dos negocios da fazenda, da qd;,)
se tem demittido.
" Saúde e fraternidade.—De v. s. allenlo venerador e criado
— Tobias Monteiro."
Não podia proceder de outro modo; e ninguém meIlior
poderia comprehendel-o do que o venerando chefe do
Governo Provisorio, que, militar, em tão alto gráo possue o
sentimento do pundonor, e deve sabel-o respeitar nos seUg
collaboradores.
A' carta do sr. Tobias Monteiro ao sr. tenente-coronel
Lobo Botelho acudiu este com a seguinte :
" Illustre cidadão Tobias Monteiro.'—Dei sciencia ao exm. sr.
marechal generalissimo Deodoro da Fonseca do conteúdo da carta,
que v. s. teve a bondade de dirigir-me, em 16 do corrente, por partç
do exm. sr. conselheiro ministro da fazenda.
" S. ex. o sr, marechal, generalissimo, encarregou-me de fazer
chegar ao conhecimento de s. ex., o sr. conselheiro Ruy Barbosa, não
poder acceder por carta, visto a importância do assumplo, ao desejo
do mesmo exm. senhor, a quem convida e roga o obséquio de com-
parecer, a bem do serviço publico, á conferência ministerial depois
de amanhã, 19 do corrente, ao meio dia, neste palacete.
" Rogo-vos, pois, o obséquio de dar conhecimento do que
venho de expender a s. ex. o sr. general ministro da fazenda.
" Saúde e fraternidade.
" Com a maior consideração e estima, de v. s. attento, venera-
dor e criado — tenente-coronel Lobo Botelho.
" Rio, 17 de dezembro de 1890. "
^ PP "NDICE VIII 467
\ A
Eu tinha respondido a s. ex. no terreno em que s. ex.
se dignara de colloear a questão. Mas evidentemente
não me podia prestar a continual-a a debater deste modo.
Seria desconhecer a dignidade das relações entre os mi-
nistros e o seu chefe, amesquinhando a posição de um e dos
outros. Declarei, pois, verbalmente, sem dar mais resposta
cscripta, que não acceitava a conferência, que não me sub-
mettia ao desar de um julgamento collectivo sobre actos
eonsummados da minha administração, e que, qualquer que
fosse a attitude do governo e seu chefe, me considerava
definitivamente exonerado.
Esqueeia-me dizer que, logo depois de enviada ao ma-
rechal Deodoro a minha demissão, pela carta de 16, eu a
eommunicara aos meus collegas. E todos elles, desde então
até ao fim do incidente, declararam que a minha exo-
neração seria a exoneração collectiva do gabinete.
Nesse meio tempo, me deu a honra de procurar-me, em
minha casa, o secretario do governo, dr. Fonseca Hermes,
e, além dclle, me visitaram outros amigos do marechal,
communicando-mc todos as disjwsições de s. ex. a me dar
completa reparação, e não admittir a minha retirada. Amr-
mara-se-me que s. ex. ia escrever-me, que já me tinha es-
cripto. Mas a missiva não me chegava ás mãos. Deliberei,
pois, resolver |)ela publicidade a crise. Mas, não me sendo
licito fazel-o, senão depois de esgotadas todas as reservas,
dirigi ainda ao dr. Fonseca Hermes esta communicação :

" Rio dc Janeiro, 20 de dezembro de 1890.


" Exm. sr. dr. Fonseca Hermes.
" Como v. ex. conhece, no dia 16 do corrente, fiz saber do gene-
ralissiino, por caria, a quem devia entregar a pasta da fazenda, da
qual eu, naquella data, dava a minha exoneração.
468 [Link] VIII
i
" Essa carta foi communicada ao generalissimo no dia 17, ao
que me consta, bem que estivesse no palacio Itamaraty desde a ves.
p. ra de tarde. No mesmo dia v. ex. procurou-me, em minha casa,
onde, para o mesmo fim, vieram alguns amigos do chefe do Estado,
declarando-me que s. ex. não acceitava a demissão, por continuar
a depositar em mim a mesma confiança, e estar convencido, com in-
teiro conhecimento dos factos, do acerto e correcção do meu proce-
dimento em todos os pontos.
" Isso disse-me v. ex. que o generalissimo ia dizer-me por
earta.
" No dia 18 me reiterou v. ex. a affirmação de que eu receberia
logo essa carta, já escripta.
" Hontcm mostrou-se v. ex. surprezo de que essa carta ainda
não me tivesse chegado ás mãos, c assegurou-me que, hontem
mesmo, me seria entregue.
"Ora, comov. ex. vê, casos desta ordem não admittem demora
na solução. A fazenda está sem ministro. Os papeis da minha pasta
acham-se sem despacho, ha tres dias ; e eu, que não posso deixar
de comprehender a significação dessa delonga, considerando defini-
tiva a demissão, que dei, sou obrigado a lhe dar a devida publicidade,
para regularizar a minha situação e a do govemo.
" Sou, com toda a consideração, de v. ex. muito atlento e affe-
ctuoso creado fívy Barbosa."
S. ox. teve a bondade de responder-me immediata-
mente assim :
" Rio, 20 de dezembro de 1890.
" Exm. amigo e sr. dr. Ruy Rarhosa.
" Em resposta á carta de v. ex., datada de hoje, tenho a honra
de communicar a v. ex. que s. ex. o sr. generalissimo me autorizou
a dizer que cessara o incidente; porque se satisfazia com as expli-
cações dadas e que continuava v. ex. a merecer-lhe inteira con-
fiança.
" Com essa declaração, que s. ex. julgava offlcial. pois era feita
por mim, como secretario de s. ex., e á sua ordem, achava o sr. gene-
ralissimo dispensável a carta, que escrevi, e que s. ex. não remetteu,
p II

Si
v
APPEND' ;E VIII 469
como snppunha eu. Eutrelanfo, em vista ria carta de hoje, com que
v. ex. me honrou, e de uma entrevista havida entre s. ex. o sr. gene-
ralissimo, o sr. ministro do interior e o signatário desta, resolveu
s. ex. dirigir-lhe esta carta, que conclue o incidente lamentável,
que infelizmente, por ignoral-o, mio pude evitar.
" Sempre ás ordens de v. ex.—Attento amigo e obrigadissiruo.
—Fonseca Hermes."

No mesmo dia me chegava ás mãos esta carta repa-


radora e cordial do proprio chefe do Estado :
" Em 20 de dezembro de 1890.
" Exm. amigo sr. dr. Ruy Barbosa.
" Respondendo á sua carta de 16 do corrente, declaro que não
concedo sua exoneração ; porque, satisfeito com as explicações que
me foram por si fornecidas sobre a venda da Quinta do Caju, está
terminado o incidente, e nada mais ha a resolver.'
" Amigo agradecido.— Mawtd Deodoro da Fonseca."
Não annoto estes documentos. Os meus concidadãos
bem vêem que não me utilizo delles senão em legitima
defeza, constrangido pela inépcia dos amigos fataes, que
rodeiam o presidente da Republica. Sobro elles cáe exclu-
sivamente a responsabilidade da indiscreyão, que se me
impoz, em vindicia dos créditos do meu nome, humilde
sim, mas bem superior a todas essas misérias officiaes.
Respeito profundamente o chefe do Estado, ainda a
despeito dos seus erros, por sob os quaes ha sempre uma
base de qualidades sérias e estimaveis. Mas não me é licito
sacrificar a esse respeito a minha reputação, nem o meu
lírio, que s. ex. bem sabe como colloquei sempre acima de
todas as conveniências pessoaes.
I^uy Sarbosa,

Rio, 17 de abril de 1891.


I' f f
(
/
t

^ * •
APPENDICE IX

DO " JORNAL DO COMMERCIO " DE 17 DE MAIO DE 1892)

Ainda o convênio americano

Publicamos com prazer a seguinte communicação,


com que nos honra o sr. ex-ministro da fazenda do Go-
verno Provisorio, sobre o convênio americano :

" Depois do convênio do 1? de janeiro, snppunha eu


não poder receber mais surprezas do sr. Salvador de Men-
donça. Mas, ao ler hoje, no Jornal do Commercto, as com-
municações do nosso representante nos Estados-Unidos á
New- York Tribune e ao Evening Fost, não sei já que
assombros s. ex. ainda nos reservará.
Eu podia dispensar-me de replicar-lhe, ante a jus-
tiça cabal e esmagadora, que já lhe fez o Jornal do Com-
mercio e o proprio Evening Fost. Mas o meu silencio
talvez não significasse para todos o que elle realmente seria :
a expressão da minha repugnância ao assumpto, especial-
mente nesta phase. Todos sabem que passei mais de um
anno, sem intervir na questão, em que não me era jjossivel
tomar parte de modo favorável aos créditos de um cidadão,
472 l APPENMGE IX

que representa o nosso pai/, no estrangeiro, e em que con-
fiava hontem um governo, de que foi membro.
Rompendo esse longo silencio, limitei-me, entre-
tanto, a documentar faetos. A resposta do sr. Salvador de
Mendonça 6 a simples contraposição .da sua palavra n ernsa
serie de documentos. Só me resta, pois, convidar os que
alguma duvida possam ter acerca dessas papeis, escriptos
e subscriptos por s. ex., a virem cxaminal-os, quando llus
parecer.
A posição, que toma o sr. Salvador de Men-
donça, assegurando que a adopção da emenda Aldrich ao
bill McKinley, tornara impossível a negociação sobre a
clausula do^|)rivilegio para o assucar brasileiro, é simples-
mente um rasgo de audacia inconcebível. Para a com-
mentar devidamente, basta confrontar-se a data dos do-
cumentos publicados na minha carta de 22 de fevereiro ao
Combate com a da lei americana, a que s. ex. se refere.
O bill McKinley é do 1" de outubro de 1890.
Ora, o meu telegramma, autorizando o sr. Sal-
vador de Mendonça a proseguir nas negociações, reza
assim :
" 20 de outubro, 1890.— Salvador Mendonça.—Nova York.
" Pode continuar negociações, nos termos sua caria, só .agora
recebida.— Ruy Barbosa. "

Esse despacho é, pois, virde dias posterior á passa-


gem do bill McKinley. A carta do sr. Salvador, a que
elle se reporta, alludia á famosa clausula, nestes termos :

" A isenção geral de imposto sobre o assucar não nos serve ;


pois a vantagem será minima. Precisamos do favor exclusivo para
o nosso produeto, afim de podermos contrapol-o ás vantagens, que
APPENaíCbj IX 473
têm Cuba f Porto Rioo. maiores fornecedores de assacar de cannaa
este mercado, vantagens resultantes da menor distancia, que"
muito influem no frete V no seguro, e da rotina de um commercio
estabelecido « ümiado. que não poderemos deslocar sem boa
margem de beneficio."
Xão podia o sr. Salvador, pois, nas suas negocia-
ções, afastar-se dos termos dessa carta. Logo, si a appro-
vação desse projccto de lei, verificada entre a data da
carta e a do telegramma, removia a possibilidade da cláu-
sula taxada, não podia o sr. Salvador, tem faltar positi-
vamente ó condição, que, no meu telegramma, lhe era
preseripta, continuar na negociação do tratado.
Mas não c tudo. O sr. Salvador sahiu daqui em fins
de dezembro de 1800. Já o bill MeKinley era lei. Entre-
tanto, a clausula, de que se trata, nunca cessou de ser a
grande vantagem, com que s. ex. nos acenava. Disso, em
contraposição no asserto do sr. Salvador, negando que
tivesse recebido jámais instrucçflcs nossas, me deixou
s. ex. prova material, em uma nota do seu punbo, datada
de 17 daquelle mez, de onde, pela segunda vez, reproduzo
este topico :
" Durante seis annns, a contar ile 4 de março proximo, não
p possível reformar a tarifa Mc. Kinley ; pois embora o partido
democrático obtivesse, nas eleições do mez passado, maioria na
casa dos representantes, a maioria republicana do senado não po-
derá ser modificada antes daquelle prazo. Mas, si os democratas
alterarem a tarifa, como é natural que alterem, será para esten-
derem a outros paizes as vantagem», de qne, quanto m awucar, ramo'
agora gozar n/i* e rnm [Link] da* ro/onla» europêas na. America.
" Em todo o caso. desde que se alterem os favores, que
agora vamos obter, podemos denunciar e fazer cessar o accôrdo;
para isso não fiz o accôrdo por tempo fixo e determinado: so
durará emqnanto convier ás ditas partes contratantes."
60
/ ./
474 § APPE«Dl6E IX
/ ^
Ainda mais» Chamado, no anuo seguinte, afini
pelo ministério Lucena, creio ijnc»- paca dar explicações,
o sr. Salvador endereçava-mo este bilhete :
" Peço-lhe o favor de marcar-me uma hora, em que possamos
conversar acerca do accôrdo aduaneiro de III de janeiro deste
anuo. Creio que, na conferência, que peço, lhe mostrarei a van-
tagem do que se fez, e jnotificarei claramente minha posição, ao
afirmar-lhe que tinha promessa do sr. Blaine de que se nãn faria
tratado com a. Hespanha.
" Amign affectnoso e obrigado—Salvador de Mendonça. "

Em presença de taes documentos, não careço do


qualificar o procedimento do sr. Salvador dc Mendonça—
quer para commigo (ou para com o Governo Provisorio),
persistindo cm nos assegurar a possibilidade daqnclla
cláusula, após a adopçâo do bill McK inley, c sus-
tentando agora a incompatibilidade entre cllc e ella,—
quer para com o governo americano, affiançando-uos então,
por escripto e ema <i nua assignatwra, ter compromissos
formaes do sr. Blaine acerca desse ponto, e declarando
actual mente ao sr. Foster, pela imprensa, não se haver dado
jámais, entre o nosso ministro o o secretario dc Estado,
a menor discussão acerca desse ponto.
Dcante de taes circumstancias, só me cabe entregar
o protogonista deste caso ao juízo do publico dos dois
jmizes.
Gabe-se embora s. cx. da confiança, que parece
continuar a lhe demonstrar o governo brasileiro. Oxalá
seja clle agora mais feliz do que nós fomos, e não se
prepare para decepção ainda maior.
Mas, si a clle e ao Congresso me fosse licito dirigir
um appello, a bem da própria decência do nosso papel nas
3/

APPÉNDIÍjE IX 475
relayões internacionacs, eu Utcs rcíjuereria a publicação
completa, absolutamente completa, da correâjKtndcncia da
nossa missão especial c da nossji missão ordinária nos Ks-
tados-Tnidos acerca desse convênio, desde o inicio da sua
negociação até o seu termo. Em assumptos desta ordem, ha
responsabilidades, tpie só podem ser liquidadas perante a
nação; e esta tem o direito ã verdade inteira acerca delles.
Esses usos de mysterio, cm que se habituou a viver
a nossa política das relações exteriores, não encontram
justificação nos hábitos da diplomacia contemporânea sob >
o governo representativo.—Rt y Barbosa."

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■j

l?

>> : SV
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, l
/ V /
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ERRATA

PAU. LINHA EMENDA


382 30 fuzeiuia <le Santa (trnz quinta d(j Gaj
408 29 communidade concessão
414 23 1891 1890
n 20 1892 1891
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