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Infância e Conexões Perdidas

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Título: Infância Perdida​

Gênero: Drama Social / Curta-metragem


CENA 1 – EXTERIOR – ESTACIONAMENTO DO PRÉDIO (ANTES DE
GANHAR O CELULAR)

Estacionamento: Beatriz corre pelo gramado junto a William, Amanda e Nicole. Eles estão
terminando de pique-pega, todos se reunindo. Risadas e gritos ecoam pelo estacionamento.

Nicole​
Eu peguei você muito rápido, Beatriz, você tem que melhorar muito!

Beatriz apenas ri alto em resposta.

Beatriz​
Ah não! Eu corri mais rápido que todos vocês!

Eles caem no chão juntos, ofegantes, suados, mas felizes. William sorri e a câmera foca em
todos.

William​
Amanhã tem mais, hein? A gente pode brincar de esconde-esconde dessa vez.

Beatriz​
Tá combinado! Vocês não escapam de mim amanhã.

William​
A gente vai ver!

A mãe de Beatriz surgiu no fundo e foca em sua em sua filha.

Mãe​
Beatriz! Tá na hora de ir!

ANA​
Até amanhã! Não esqueçam, hein!

Ana corre até a mãe, feliz. Dá tchau animado para os amigos, que respondem com
entusiasmo.

CORTE SECO.​


CENA 1 – INTERIOR – CORREDOR – TARDE

Sala simples. Brinquedos empoeirados estão encostados em um canto.​


A mãe entra com uma caixa embrulhada. Com um sorriso no rosto e feliz.

Mãe​
Beatriz, vem aqui, tenho uma coisa pra você.

Beatriz corre animada.

Beatriz​
O que é, mãe? É presente?

Mãe​
É sim. Mas quero que você prometa uma coisa antes.

Beatriz olha com curiosidade para o item nas mãos da mãe

Beatriz​
Prometo! Mas o que é, o que é?

A mãe entrega a caixa. Beatriz arranca o papel. Seus olhos brilham.

Beatriz​
Um celular! Um celular só meu?

Mãe​
É, agora você pode falar com os amigos, jogar, assistir desenhos…

Beatriz​
Olha, mãe, tem câmera! Eu vou tirar foto de tudo! E tem joguinho… olha só esse!

A mãe de Beatriz ri, mas com cautela.

Mãe​
Eu sabia que você ia gostar. Mas, filha… Não esquece das suas bonecas e do
pega-pega com seus amigos.

Beatriz não olha para sua mãe, o olhar vidrado no celular

Beatriz​
Tá, mãe. Eu vou brincar também. Mas agora quero ver isso aqui.

A mãe suspira e revira os olhos, mas mantém um olhar afetuoso.

Mãe​
Sempre “depois”…

A mãe observa Ana totalmente absorvida pela tela. O sorriso da mãe some, trocado por
preocupação.
CENA 2 – EXTERIOR – ESTACIONAMENTO – TARDE

Quatro crianças conversam. Risadas, gritos, correria.​


Beatriz aparece com o celular na mão, se aproximando de seus amigos.

Beatriz​
Ei… por que vocês tão correndo aí?

Amanda​
Ué, a gente tá brincando! Quer entrar?

Beatriz erge o celular e o mostra para seus amigos.

Beatriz​
Mas… vocês não têm isso? Tem jogo muito melhor aqui!

As crianças param. Olham entre si. William se aproxima, câmera da close no rosto de
ambos.

William​
Isso? Só serve pra ficar parado.

Beatriz​
Não é só isso! Dá pra assistir vídeo, ver gente famosa, jogar sem cansar…

Nicole​
Mas a gente gosta de se cansar! Gosta de correr, cair, levantar e rir de novo.

Beatriz​
Mas no celular eu também rio! E dá pra jogar sem ninguém roubar a bola.

William​
Ah é? Então pede pro seu celular idiota conversar com a gente!

As crianças caem na risada. Ana se irrita.

Beatriz​
Vocês não entendem! Isso aqui é muito melhor. Vocês tão perdendo tempo.

William com um semblante mais sério, dá um passo a frente.

William​
Quem está perdendo tempo é você, Ana. Olha pra gente! A gente tá junto, se
olhando, rindo de verdade. Você só fica olhando pra essa tela fria.

Beatriz​
Não é fria! É divertida, é colorida, tem tudo!
William coloca um tom firme na voz ao falar com Beatriz.

William​
Mas não tem a gente. Não tem amizade. Não tem o vento na cara.

Ana se cala, apertando o celular contra o peito. Seus olhos se enchem de lágrimas.

Beatriz​
Vocês não são meus amigos de verdade.

Amanda se sente magoada com as palavras de Beatriz e fala num tom de demonstrar sua
tristeza

Amanda​
Somos sim, mas você não quer mais ser nossa amiga.

William se aproxima de Beatriz, sua expressão permanece a mesma.

William​
Se você só quer viver aí dentro, então fica.

Lucas dá um tapa no celular, que quase cai. Ana recua assustada, aumentando seu tom de
voz.

Beatriz​
Não encosta nele! É meu!

Silêncio. Beatriz olha para cada um, sentindo-se estranha. Sua voz se torna trêmula e gaga.

Beatriz​
Se vocês não querem… eu vou brincar sozinha.

Ela sai. O grupo volta ao jogo, mas o som das risadas ecoa distante, abafado. A câmera
foca em Beatriz, em primeiro plano.

CENA 3 – EXTERIOR – HORIZONTE / ESTACIONAMENTO – ANOITECER


(FUTURO)

Ana agora adolescente. Sentada sozinha em uma colina, o celular desligado nas mãos.​
O céu anuncia a vida se desenvolvendo ao longe.

Beatriz diz num tom baixo, se lamentando para si.

Beatriz​
Onde estão eles agora?

Liga o celular. A tela mostra vazio: sem mensagens, sem chamadas.​


Ela desliga o celular de novo.
Beatriz​
Eu perdi as corridas, os abraços, as gargalhadas…

Ela da uma pausa entre suas palavras.

Beatriz​
Troquei tudo por… silêncio. Eu estava lá… mas não vivi.

Beatriz olha para o horizonte. Até a câmera focar em seu ombro e uma mão aparecer lá. Ao
se virar, Beatriz vê seus amigos lá.

Beatriz​
Gente! O que vocês estão fazendo aqui?​

Nicole​
A gente percebeu você sozinha nos recreios, então decidimos ver você.

Nicole disse com um sorriso no rosto, enquanto Beatriz tinha um semblante triste. Sem dizer
nada, os amigos se abraçam em silêncio, como um conforto silencioso.

Ela respira fundo. A câmera se afasta lentamente, mostrando sua silhueta agora não mais
tão solitária diante da imensidão do local.

CORTE SECO – TELA PRETA.

FIM.

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