REDE DE ATENÇÃO PSICOSSOCIAL - RAPS
INTRODUÇÃO
CONTEXTUALIZAÇÃO: Publicação pelo Ministério da Saúde do Decreto 7.508, em 28 de junho de
2011, que regulamenta a Lei Orgânica da Saúde, funda-se também a Rede de Atenção Psicossocial
(RAPS)
→ Publicação da Portaria GM/MS nº 3.088/2011, que preconiza o atendimento a pessoas com
sofrimento ou transtorno mental e com necessidades decorrentes do uso de crack, álcool e outras
drogas em rede integrada, orientada, articulada e intersetorial no âmbito do SUS
→ Público-alvo: pessoas com sofrimento ou transtorno mental e com necessidades decorrentes do
uso de crack, álcool e outras drogas, incluindo a população indígena
ORGANIZAÇÃO DA REDE:
• Atenção primária – coordenação da atenção
• Atendimento em rede integrada, ordenada, articulada e intersetorial
• Assistência proativa e contínua – planos de cuidados individuais
• Ênfase das intervenções – promocionais, preventivas, curativas, cuidadoras, reabilitadoras
ou paliativas
OBJETIVOS GERAIS:
1) Ampliar o acesso à atenção psicossocial da população em geral
2) Promover o acesso das pessoas com transtornos mentais e com necessidades decorrentes
do uso de crack, álcool e outras drogas e suas famílias ao ponto de atenção
3) Garantir a articulação e integração dos pontos de atenção das redes de saúde no território,
qualificando o cuidado por meio do acolhimento, do acompanhamento contínuo e da
atenção às urgências
PRINCIPAIS DIRETRIZES:
→ Ênfase em serviços de base territorial e comunitária, diversificando as estratégias de cuidado com
participação e controle social dos usuários e de seus familiares
→ Organização dos serviços em rede de atenção à saúde regionalizada, com estabelecimento de
ações intersetoriais para garantir a integralidade do cuidado
→ Desenvolvimento da lógica de cuidado centrado nas necessidades das pessoas com transtornos
mentais, incluídos os decorrentes do uso de substâncias psicoativas
→ Ampliar o acesso à atenção psicossocial da população geral
→ Promover a vinculação das pessoas em sofrimento com transtornos mentais e com necessidades
decorrentes do uso de crack, álcool e outras drogas e suas famílias aos pontos de atenção
→ Garantir a articulação e integração dos pontos de atenção das redes de saúde no território,
qualificando o cuidado por meio do acolhimento, do acompanhamento contínuo e da atenção às
urgências
IO TERRITORIALIDADE
TERRITORIALIDADE “o território é o lugar psicossocial do sujeito; é onde a vida acontece” – O
cuidado territorial reconhece a história, os vínculos e os modos de vida do sujeito
→ Reintegração do usuário à família e comunidade, promovendo vínculos afetivos sociais – contribui
para a inserção do sujeito na sociedade
→ Cuidado longitudinal e contínuo, fortalecendo a autonomia do sujeito e reconhecendo-o como
protagonista do processo de cuidado – contribui para a redução do número de internação
→ Participação ativa dos usuários nos serviços, estimulando o exercício da sua cidadania e a
construção de um cuidado mais democrático
→ Rede de serviços descentralizada, hierarquizada, menos médico centrada e diversificada de
práticas terapêuticas no território facilita o acesso do usuário ao cuidado de saúde mental
PERSPECTIVA DO TRABALHO TERRITORIAL: é uma estratégia da RAPS que está relacionada à
organização do cuidado a partir das realidades locais, considerando as necessidades social., culturais
e afetivas da população de determinado território
• Compreende o espaço onde o sujeito vive, se relaciona e produz sua vida; valoriza os vínculos
comunitários, a cultura local, a rede de apoio e os recursos existentes; foca na
desinstitucionalização e na autonomia dos usuários, promovendo inclusão social e cidadania
→ Importância: (1) considera a relação simbólica entre sujeito e território, tornando o cuidado mais
próximo da realidade do usuário; (2) fortalece as redes de apoio com laços familiares, comunitários
e institucionais; (3) amplia as possibilidades de cuidado, envolvendo outras instituições e ações da
comunidade; (4) favorece a desinstitucionalização, substituindo a lógica manicomial por práticas que
promovem a inserção comunitária, a autonomia e o protagonismo do usuário; (5) promove a
integralidade entre outros setores do território
→ Serviços comunitários com inserção territorial – são descentralizados, territorializados e
articulados em rede
→ Reinserção de usuários em seus territórios existenciais, ou seja, os espaços sociais e afetivos onde
o sujeito constrói sua vida. Foram fechados os hospitais psiquiátricos à medida que se expandiam
serviços diversificados de cuidado tanto longitudinal quanto intensivo para os períodos de crise
→ Exercício da cidadania e não só o controle da sintomatologia – foco em promover direitos,
autonomia e cidadania, não só mais controlar comportamentos desviantes
→ Cidadania implica em: acesso à saúde, moradia, trabalho, educação, lazer; participação e, decisões
sobre seu próprio tratamento; inserção em espaços comunitários e culturais
REABILITAÇÃO PSICOSSOCIAL
REABILITAÇÃO SOCIAL: é uma estratégia de inclusão, inserção e capacitação dos usuários da RAPS
→ Nas últimas décadas, passamos de uma assistência com tendência à exclusão e ao descaso para
uma proposição política, por parte do Ministério da Saúde, ancorada nos princípios antimanicomiais
→ Para Saraceno (1999) a reabilitação psicossocial dos pacientes psiquiátricos não consiste em uma
concepção adaptacionista ou de correção dos desvios do sujeito ou do funcionamento do meio
sociofamiliar. A proposta inclui a dimensão subjetiva, o sujeito
→ Não se alinha a uma lógica produtivista ou mercadológica, baseada na competitividade e na
normatização do comportamento. Ao invés disso, propõe estratégias de cuidado que respeitam a
autonomia do sujeito, seus desejos, escolhas e modos de existir
→ Isso significa pensarmos a reabilitação psicossocial cuja ideia central é a participação e inclusão
dos usuários nas decisões que envolvem suas vidas, rompendo com uma lógica meramente
produtiva e adaptacionista
→ Visa o aumento da capacidade contratual do sujeito – no contexto da reforma psiquiátrica, é um
dos pilares da promoção da autonomia e do exercício da cidadania pelos pacientes. Significa que o
paciente tem a possibilidade de celebrar contratos, tomar decisões financeiras, trabalhar, participar
de atividades sociais e, sem suma, exercer seus direitos de forma independente
• Pode ser exercida em diferentes contextos, como: assumir responsabilidades em relação a
sua moradia, celebrar contratos de trabalho, tomas decisões sobre o tratamento e os
cuidados com a saúde, participar de atividades sociais e culturais, exercer seus direitos de
cidadão
→ Segundo Viganò (1999), o processo de reabilitação psicossocial deve seguir as estratégias
desenvolvidas pelo próprio sujeito como política de reabilitação. Ele adverte que a construção do
caso clínico é uma estratégia privilegiada para não cairmos em uma nova cronicidade, pois apesar
da desconstrução do hospital psiquiátrico, corre-se o risco da reprodução de novas formas de
exclusão e segregação
PONTOS DE ATENÇÃO DA RAPS
TABELA – COMPONENTES E PONTOS
COMPONENTES PONTOS DE ATENÇÃO
• Unidade Básica de Saúde;
• Equipes de atenção básica para populações em situações
Atenção Básica em Saúde específicas (Consultório na Rua e equipe de apoio aos serviços do
Componente Atenção Residencial de Caráter Transitório);
• Núcleo de Apoio à Saúde da Família;
• Centro de convivência e cultura;
• CAPS I
• CAPS II
• CAPS III
Atenção psicossocial
• CAPS AD
• CAPS AD III
• CAPS i
• Unidade de Pronto Atendimento (UPA)
Atenção de Urgência e • Serviço de Atendimento Móvel de Urgência (SAMU)
Emergência • Sala de Estabilização
• Portas Hospitalares de Atenção à Urgência/Pronto-Socorro
Atenção Residencial de Caráter • Unidade de Acolhimento Adulto
Transitório • Unidade de Acolhimento Infanto-Juvenil
• Serviço de Atenção em Regime Residencial
Atenção Hospitalar • Leitos de psiquiatria em Hospital Geral
• Serviço Hospitalar de Referência
Estratégias de • Serviço Residencial Terapêutico
Desinstitucionalização • Programa de Volta para Casa
Estratégias de Reabilitação • Cooperativas sociais, empreendimentos solidários e iniciativas de
Psicossocial trabalho e renda
ATENÇÃO BÁSICA EM SAÚDE
→ Para o melhor manejo da saúde mental na Atenção Básica, propõe-se um trabalho compartilhado
de suporte às equipes de Saúde da Família (SF) por meio do desenvolvimento do apoio matriarcal
em saúde mental pelos profissionais dos Núcleos de Apoio à Saúde da Família (NASF)
→ Apoio matriarcal: arranjo técnico-assistencial que visa à ampliação da clínica das equipes de Saúde
da Família, superando a lógica de encaminhamentos indiscriminados para uma lógica de
corresponsabilização entre as equipes de SF e Saúde Mental, com a construção de vínculos entre
profissionais e usuários
→ As práticas de saúde mental, aqui, devem se configurar como substitutivas ao modelo hegemônico
e medicalizante, assim como as práticas produtoras da psiquiatrização e psicologização do sujeito e
suas necessidades – ampliação e qualificação do cuidado nos serviços comunitários, com base no
território
→ O trabalho articulado dos profissionais de SM com a equipe da Estratégia Saúde da Família é
fundamental para o estabelecimento e fortalecimento de vínculos entre os CAPS e a Atenção Básica,
possibilitando a corresponsabilidade dos casos, ampliando a capacidade resolutiva de problemas de
saúde pela equipe local e favorecendo a atenção territorializada
UNIDADE BÁSICA DE SAÚDE: serviço constituído por equipe multiprofissional responsável por um
conjunto de ações, de âmbito individual e coletivo, que abrange a promoção e proteção da saúde, a
prevenção de agravos, diagnóstico, tratamento, reabilitação, redução de danos e manutenção com
objetivo de desenvolver a atenção integral que impacte na saúde e autonomia das pessoas e nos
determinantes desses na coletividade
EQUIPES DE ATENÇÃO BÁSICA PARA POPULAÇÕES EM SITUAÇÕES ESPECÍFICAS:
→ Equipe de Consultório na Rua: profissionais que atuam de forma itinerante, ofertando ações e
cuidados de saúde para a população em situação de rua, considerando diferentes necessidades de
saúde.
• Parte de estratégia maior “Programa crack, é possível vencer” que tem as ações
desenvolvidas em eixos (prevenção, cuidado e autoridade), no qual o eixo de cuidado é
desenvolvido por alguns pontos da RAPS (CAPS AD III, unidades de acolhimento, leitos de
SM, Consultório na Rua, formação técnica para profissionais)
→ Equipe de apoio aos serviços do componente Atenção Residencial de Caráter Transitório:
oferecem suporte clínico e apoio aos pontos de manutenção, coordenando o cuidado e prestando
serviços de atenção à saúde de forma longitudinal e articulada com outros pontos de atenção da
rede
CENTRO DE CONVIVÊNCIA E CULTURA: é uma unidade pública, articulada às Redes de Atenção à
Saúde, em especial a RAPS, onde são oferecidos à população em geral espaços de sociabilidade e
intervenção na cultura e na cidade.
→ São centros estratégicos para a inclusão social de pessoas com sofrimento/transtorno, incluindo
aquelas com necessidades decorrentes do uso de drogas, por meio da construção de espaços de
convívio e sustentação das diferenças na comunidade e em vários espaços da cidade
NÚCLEOS DE APOIO À SAÚDE DA FAMÍLIA (NASF): vinculado à UBS, é constituído por profissionais
de diversas áreas, que atuam de maneira integrada, sendo responsável por apoiar as equipes de SF
e as de Atenção Básica para populações específicas.
→ O processo de trabalho deve ser desenvolvido por meio do apoio matriarcal, com a criação de
espaços coletivos de discussões e planejamento, organização e estruturação de espaços de
atendimento compartilhado, intervenções específicas com usuários/famílias, ações comuns nos
territórios.
→ A equipe utiliza de ferramentas tecnológicas, como o Projeto Terapêutico Singular (PTS), o Projeto
de Saúde no Território (PST), Apoio Matriarcal, Clínica Ampliada e Pactuação do Apoio
ATENÇÃO PSICOSSOCIAL ESTRATÉGICA
→ O Centro de Atenção Psicossocial (CAPS) e suas modalidades compõem a APE. É um serviço de
referência para casos graves, que necessitam de cuidados mais intensivos e/ou reinserção
psicossocial, e ultrapassem as possibilidades de intervenção conjunta das equipes de NASF e SF
→ Pessoas que buscam o CAPS por demanda espontânea devem ser acolhidas e avaliadas pela
equipe, e os casos que não tiverem necessidade de acompanhamento nesse serviço devem ser
redirecionados para as equipes de Saúde da Família de referência, preferencialmente por meio de
contato telefônico do profissional do CAPS com o da UBS ou do NASF
→ As atividades são realizadas em espaços coletivos (grupos, assembleias de usuários, reunião diária
de equipe), de forma articulada com os outros pontos de atenção da rede de saúde e demais. Sendo
o cuidado desenvolvido por intermédio de Projeto Terapêutico Singular, envolvendo em sua
construção a equipe, usuário e família
→ Projeto terapêutico singular: conjunto de propostas terapêuticas articuladas, para um sujeito
individual ou coletivo, resultado da discussão coletiva de uma equipe interdisciplinar, com Apoio
Matriarcal se necessário (geralmente situações mais complexas) – definir hipóteses diagnósticas,
metas, divisão de responsabilidades e reavaliação
CAPS I: atende pessoas de todas as faixas etárias que apresentam prioritariamente intenso
sofrimento psíquico decorrente de transtornos mentais graves e persistentes, incluído aqueles
relacionados ao uso de substâncias psicoativas, e outras situações clínicas que impossibilitem
estabelecer laços sociais e realizar projetos de vida – Municípios/regiões de saúde com população
acima de 15 mil habitantes
CAPS II: mesmo público e propósito – Municípios/regiões de saúde acima de 70 mil habitantes
CAPS III: mesmo público dos outros, porém, proporciona serviços de atenção contínua, com
funcionamento de 24h, incluindo feriados e fins de semana, ofertando retaguarda clínica e
acolhimento noturno a outros serviços de saúde mental, inclusive CAPS AD – Municípios/regiões de
saúde com população acima de 150 mil habitantes
CAPS AD: atende pessoas de todas as faixas etárias, que apresentam intenso sofrimento psíquico
decorrente do uso de crack, álcool e outras drogas – Municípios/regiões de saúde com população
acima de 70 mil habitantes
CAPS AD III: mesmo público do AD normal, porém, como o CAPS III, oferece serviços de atenção
contínua, com funcionamento de 24h, retaguarda clínica e acolhimento noturno –
Municípios/regiões de saúde com população acima de 150 mil habitantes
CAPS i: atende crianças e adolescentes que apresentam prioritariamente intenso sofrimento
psíquico decorrente de transtornos mentais graves e persistentes, incluindo aqueles relacionados ao
uso de substâncias psicoativas e outras situações clínicas que impossibilitem estabelecer laços
sociais e realizar projetos de vida – Municípios/regiões de saúde acima de 70 mil habitantes
ATENÇÃO DE URGÊNCIA E EMERGÊNCIA
→ São responsáveis pelo acolhimento, classificação de risco e cuidado nas situações de urgência e
emergência de usuários
→ Os pontos de atenção da RAPS na Atenção de Urgência/emergência deverão se articular com os
CAPS, devendo, nas situações que necessitem de internação ou de serviços residenciais de caráter
transitório, articular e coordenar o cuidado
ATENÇÃO RESIDENCIAL DE CARÁTER TRANSITÓRIO:
→ Unidades de acolhimento: oferecem cuidados contínuos de saúde, com funcionamento 24h, em
ambiente residencial para os usuários que apresentem acentuada vulnerabilidade social e/ou
familiar e demandem acompanhamento terapêutico e protetivo de caráter transitório cujo tempo
de permanência é de até seis meses – acolhimento adulto e infantojuvenil
→ Serviços de atenção em regime residencial: entre eles, as comunidades terapêuticas, destinam-
se a oferecer cuidados contínuos de saúde, de caráter residencial transitório por até 9 meses para
adultos com necessidades clínicas estáveis decorrentes do uso de substâncias psicoativas
ATENÇÃO HOSPITALAR
LEITOS DE SAÚDE MENTAL EM HOSPITAIS: oferecem tratamento hospitalar para os casos graves
relacionados aos transtornos mentais e uso de substâncias
SERVIÇO HOSPITALAR DE REFERÊNCIA: às pessoas com sofrimento ou transtorno mental e com
necessidade de álcool e outras drogas, é um suporte hospitalar, por meio de internações de curta
duração, com equipes multiprofissionais e sempre acolhendo pacientes em articulação com os CAPS
e outros serviços da RAPS e para a construção do Projeto Terapêutico Singular
ESTRATÉGIAS DE DESISNTITUCIONALIZAÇÃO
SERVIÇO RESIDENCIAL TERAPÊUTICO (SRT): ou residência terapêutica ou “moradia”, são casas
inseridas na comunidade, destinada a acolher pessoas egressas de internação de longa permanência
(dois ou mais anos interruptos), de hospitais psiquiátricos e de custódia, entre outros.
→ O suporte de caráter interdisciplinar (CAPS de referência ou equipe de Atenção Básica), deverá
considerar a singularidade de cada um dos moradores, e não apenas projetos e ações baseados no
coletivo de moradores. O acompanhamento a um morador deve prosseguir, mesmo que ele mude
de endereço, ou seja, eventualmente hospitalizado
PROGRAMA “DE VOLTA PARA CASA”: trata da proteção e dos direitos das pessoas portadores de
doença mental, e inclusão social que visa contribuir e fortalecer o processo de
desinstitucionalização, que provê o auxílio-reabilitação para pessoas com transtorno mental
egressas de internação de longa permanência.
→ Redireciona o modelo assistencial em saúde mental, o qual determina que os pacientes
hospitalizados há muito tempo, ou com grave dependência institucional, sejam objeto de política
específica de alta planejada e reabilitação psicossocial assistida. Objetiva a inclusão social e mudança
do modelo assistencial, com ampliação do atendimento extra-hospitalar e comunitário
ESTRATÉGIAS DE REABILITAÇÃO PSICOSSOCIAL
→ São compostas por iniciativas de trabalho e geração de renda, assim como empreendimentos
solidários e cooperativas sociais
→ A reabilitação psicossocial não significa apenas romper com os muros da instituição psiquiátrica,
constitui uma ‘nova entrada social’ para pessoas que até então se encontravam barradas física e
socialmente da participação na vida familiar e coletiva
→ É uma atitude que possibilita o exercício da cidadania, assegura o poder contratual da pessoa com
transtorno mental, habilita não somente o indivíduo ao meio, mas vice-versa, instigando a sociedade
à capacidade de aceitar o diferente, possibilita a valorização das potencialidades e trabalha as
limitações. Essas ações precisam ser articuladas entre cliente, serviços de saúde, família,
comunidade, sociedade civil e Estado.
TEXTOS COMPLEMENTARES
PAIXÕES E QUÍMICAS
→ Paixão contemporânea marcada pelo que se pode consumir, objeto de mercado = felicidade.
Assim, ocorre-se a medicalização dos aspectos da vida, por fórmulas e pílulas mágicas
→ Da mesma forma que uma medicação para cura pode se tornar nociva, um fármaco que se diz
nocivo pode ser medicação de cura
→ As relações estabelecidas são semelhantes, ou seja, as relações de amor e convivência podem se
comparar as relações químicas. Existem vários tipos de relação com a droga, como por exemplo de
experimentação eventual, uso prolongado e contínuo etc. – A substância assume um lugar de falta
na vida do indivíduo, desde o âmbito dos afetos, até os das políticas públicas
→ “Hábito para momentos ou circunstâncias específicas, de lazer, trabalho, ansiedade, solidão.
“Ficar” habitualmente com alguém em festas; consumir drogas para aproveitar a balada. Sair com
alguém nos momentos de solidão; usar alguma substância que faça companhia. Sair rapidamente
com o(a) colega de trabalho; dar uma “cheiradinha” para enfrentar uma árdua jornada.”
→ A abordagem com as paixões químicas é a limitação do indivíduo, seus vínculos com a comunidade
por meio de atividades, do trabalho. Confina-o sem saber o tipo de relação que se tem com a droga,
e todo e qualquer tipo de uso é julgado
→ “Do mesmo modo que um amor se cura com outro, a saída para as paixões químicas está na
criação de outras relações passionais. E não na limitação das possibilidades de se apaixonar.” / “Idas
e vindas no consumo e dependência às drogas são também comuns. Há que suportá-los.”
→ A separação da droga precisa ser uma escolha do sujeito, não uma imposição. Na imposição, o
efeito é breve. Uma escolha acompanhada pela amizade, pela paciência e pela parceria de quem
disponibiliza um suporte abre caminho para novas escolhas.
→ Internações compulsórias e repressão exclusiva da oferta são lógica exclusiva da limitação, uma
política de restrição, sem a criação simultânea de outras possibilidades
CLÍNICA PERIPATÉTICA – CAP 3: REDUÇÃO DE DANOS
→ REDUÇÃO DE DANOS: é uma proposta que tem por base minimizar os prejuízos sociais, físicos e
psíquicos associado ao uso de substâncias psicoativas, sem focar na abstinência como único recurso
terapêutico e sem impor uma interrupção total do consumo como condicionador para o cuidado
→ No projeto de Lancetti, tem como objetivo a prevenção de problemas ou redução de danos, como
as doenças sexualmente transmissíveis (ou por uso de seringas). Outro exemplo de redução de
danos é a distribuição de camisinhas.
→ A troca de seringas se apresentou em quantidade considerativa, e os lugares escolhidos para as
caixas coletoras eram os de destaque aos usuários, como pontos de ônibus, domicílios ou bares.
→ Além disso, o projeto teve alta adesão por parte da população, pois, por conta da distribuição de
seringas, existe uma educação sanitária informal, na qual a comunidade recorre aos redutores
(membros do projeto) para auxílios de saúde – teve uma intervenção na vida da comunidade,
intervenção sanitária na vida das pessoas, que não está, talvez, explicito no programa
→ O grupo de redutores era compostos, em maioria, por ex-usuários de drogas – o objetivo central
do programa não é a abstinência, e sim a produção de uma mudança na relação do sujeito com a
droga, sem optar pela via da abstinência
→ Os processos que a comunidade utiliza são diferentes dos ditos “comuns” – Nas favelas e vilas, por
conta do jeito que vivem, os horários do dia são diferentes, as pessoas não dormem cedo e não
acordam cedo, a vida é muito agitada. Elas precisam se adequar ao sistema – afasta e impossibilita
o acesso ao posto de saúde que, apesar de presente, eles sabem que não é para eles
→ Ou seja, o acesso à saúde é somente para quem tem o mínimo desejo, que se sujeita a horários
predeterminados e regras básicas de higiene – além disso, atende-se mal pessoas com aids ou
usuários de drogas, pessoas relacionadas com o tráfico e crime organizado
→ Não dá para se sujeitar bem a essas coisas numa vila e favela, pois lá deve-se sujeitar a outros
critérios, como impostos pelo tráfico e crime organizado – entender o funcionamento da
comunidade é entrar em sintonia com ela e esses processos, e, assim, as pessoas começam a buscar
a equipe por uma alternativa para seus problemas
→ Não é como se essas pessoas não estivessem sujeitas a uma ordem social, mas que estão excluídas
da sociedade geral