🌒 Bitiusiu – As Cinzas do Fim
📍Capítulo 1: O Silêncio Depois do Fim
Ninguém mais lembra o nome real do mundo. Foi esquecido entre explosões, ruínas e
o último suspiro de uma civilização que se achava eterna. Alguns chamam de Terra
Estilhaçada, outros só de o Vazio. O que restou são cidades-fantasma, desertos de
cinzas, e tempestades negras que cobrem o céu como véus de luto.
Bitiusiu caminhava por esse mundo como quem já nasceu nele — mas ele não. Havia
lembranças fragmentadas em sua mente: uma sala branca, vozes distorcidas, luzes
piscando. E uma frase repetida muitas vezes por uma voz feminina:
"Projeto B-12: Ativação incompleta."
Ele não sabia quem era. Nem quando começou a viver. Mas ele sabia que não podia
morrer.
📍Capítulo 2: O Homem Que Não Morre
Bitiusiu era alto, de olhos fundos e pele marcada por veios escuros — como
rachaduras que brilhavam levemente no escuro. Seus braços tinham cicatrizes que
pareciam costuras de metal, e suas mãos tremiam quando ele se aproximava de certos
lugares. Sentia "ecos", como ele chamava — sensações estranhas, como se algo
dentro dele reagisse a ruínas, a máquinas enterradas, a torres quebradas.
Ele já havia sido baleado, queimado, envenenado. Mas nunca morria. A carne
regenerava devagar, como se lutasse contra a própria decomposição.
Alguns o chamavam de Aberração. Outros de Imortal, Guardião ou apenas o
Esquecido. Mas ele não se importava com os nomes. Bitiusiu andava porque não
podia parar. Porque algo o chamava. Uma voz silenciosa dentro da mente, como uma
bússola quebrada tentando apontar para casa.
📍Capítulo 3: O Último Núcleo
Um dia, Bitiusiu chegou às ruínas de Nova Carcera, uma cidade subterrânea
construída para resistir ao apocalipse — e que falhou.
No fundo das ruínas, encontrou uma torre de dados chamada Núcleo Oráculo. Ali,
uma inteligência artificial semi-viva ainda pulsava, conectada a uma rede de servidores
danificados. Quando ele se aproximou, as luzes do sistema piscaram e a voz da IA
ecoou:
“Bitiusiu. Projeto B-12. Código genético confirmado. Fase final: ativar consciência
integral.”
Ele caiu de joelhos. Flashbacks o atingiram como tiros: ele viu seu corpo sendo
construído, não nascido. Ele foi criado para resistir ao fim — um “recipiente de
memória”, projetado por cientistas da antiga era para sobreviver por séculos e
preservar conhecimento, emoções humanas, lembranças de tudo que foi perdido.
Mas algo deu errado. Ele fugiu do laboratório. E esqueceu tudo.
📍Capítulo 4: O Herdeiro da Ruína
Com o Núcleo parcialmente reativado, Bitiusiu começou a recuperar fragmentos do
mundo antigo: vídeos de pessoas sorrindo, paisagens verdes, oceanos. Mas também
aprendeu sobre o fim: guerras por recursos, inteligência artificial descontrolada, e uma
praga que dissolvia carne e metal.
Ele era o último guardião de todo esse passado. Não um guerreiro, mas uma cápsula
viva de história. E agora ele precisava decidir:
• Enterrar o que restava, e deixar o mundo se apagar de vez.
• Ou semear a memória, encontrando sobreviventes, espalhando o
conhecimento, e talvez... reconstruindo algo.
Ele escolheu o segundo.
Mas o mundo não queria ser salvo.
📍Capítulo 5: As Criaturas do Vazio
Ao sair de Nova Carcera, ele encontrou um grupo de seres que pareciam humanos —
mas não eram. Chamavam-se Ecos, humanos alterados pela praga, que absorviam
memórias de quem tocavam. Eles o perseguiam, tentando devorar o conhecimento
vivo que ele carregava. Eles sentiam o que ele era.
Na fuga, Bitiusiu conheceu uma jovem chamada Kaelen, uma cartógrafa cega que
mapeava as correntes de energia da terra usando som e vento. Ela não via, mas sentia
a verdade nas palavras de Bitiusiu. E decidiu segui-lo.
Com ela, ele começou a escrever um novo livro — O Livro das Cinzas — onde
desenhava o mundo como era e como poderia voltar a ser.
📍Capítulo Final: Memória Viva
Anos depois, lendas começaram a surgir nos poucos assentamentos humanos que
restavam.
Diziam que havia um homem que caminhava com um manto feito de páginas,
acompanhado por uma mulher cega que escutava o mundo. Eles vinham de tempos
esquecidos, oferecendo histórias, mapas, e sementes de esperança.
Bitiusiu sabia que jamais seria humano de novo.
Mas, ao olhar o pôr do sol artificial de uma torre reconstruída, ele sorriu pela primeira
vez em séculos.
Ele não nasceu. Ele foi feito.
Mas agora, finalmente, vivia.
🌌 Epílogo
E quando o tempo o alcançar — se algum dia alcançar — o corpo cairá. Mas sua
história, suas palavras, suas lembranças, estarão em cada parede, cada livro, cada
criança que aprender a palavra "esperança".
Porque Bitiusiu não foi o fim.
Ele foi o recomeço.