A Identidade Judaica na Diáspora
A Identidade Judaica na Diáspora
C
contexto histórico. Três livros narrativos tardios correspondem ao
diáspora judaica e estão situados com coordenadas fictícias. Tobías
entre os deportados israelitas da Assíria; Daniel, entre os deportados
dos de Babilônia; e Ester entre a diáspora judaica da Pérsia.
Os três livros juntos nos dão uma ideia genérica da vida dos ju-
deus na diáspora. O problema central é a identidade de um povo dis-
perso e sua relação com a cultura circundante. A diáspora é um fato
admitido com o qual se convive tranquilamente. Não se sente o afã de
voltar à pátria nem se sente quase falta do templo e seu culto. Só
no final de Tobias aparece Jerusalém como em um sonho glorioso e testa-
mentario.
Em geral, tudo vai bem para os exilados; até mesmo algumas pessoas-
Os judeus ocupam postos importantes na corte: Tobias, como pro-
veedor do rei Salmanares; Daniel por seu saber sobre-humano; no pre-
sente livro, Mardoqueu e Ester, até o ponto em que o judeu delata uma
conjuração contra o imperador.
723 ESTER
Dos perigos, no entanto, ameaçam os exilados, um permanente -
mente: o perigo de se diluir como minoria na imensidão heterogênea
do império; mas apesar da dispersão, os judeus conservam unidade e
identidade graças à sua legislação, seus livros e sua memória histórica. O outro
o perigo são as perseguições esporádicas. A religião pagã não parece
ser perigosa por sua atração, mas quando tenta se impor à força-
os judeus resistem vitoriosamente e permanecem fiéis ao seu Deus.
O livro de Ester. O livro de Ester é um relato construído com habilidade
papá y desarrollado com bastante acerto, não isento das inverosimilitudes
desde então eram aceitos sem dificuldade. O tema e o esquema geral
é um grave perigo para o povo judeu, do qual se livra maravilhosamente;
não é necessário mencionar Deus para saber quem é o libertador. O des-
enlace é um julgamento histórico, facilmente atribuível ao Juiz da história.
A escenificação em terra estrangeira permite detalhes pitorescos e deixa
mais espaço para a ficção. A exaltação do humilhado e a intervenção de-
A cisiva de uma mulher são motivos tradicionais, tratados com bastante ori-
ginalidad.
Os personagens são figuras típicas, sem relevo individual; mas o jogo
de contrastes lhes dá relevo e anima a trama. Mardoqueo é encarnação
do melhor dos judeus: sensatez e coragem, tenacidade e calma; é um pouco
a consciência dos judeus e tenta ser a dos outros.
Ao seu lado, Ester é uma jovem submissa e discreta, que em um mo-
o ato de valentia alcança a grandeza e representa um novo triunfo fé-
menino na literatura bíblica, atrás de Rebeca, Tamar, Yael, Rut, Abi-
gaíl, e Judit. Sobre um fundo de maridos assustados ante a possível rebelião
das mulheres (1) assistimos ao triunfo libertador da beleza e da coragem
de uma mulher (companheira nisso de Judit).
O relato tem um caráter sapencial acentuado, ensina de forma de
grande parábola: o israelita aprenderá confiança, solidariedade, ação cau-
telosa; o estrangeiro pode aprender que os judeus são empregados de
fiar, que deve respeitar seus costumes; também podem escarmentar em
a figura de Amão, porque há alguém mais poderoso, que sai por
povo judeu.
O duplo texto. É muito provável que o livro conserve lembranças de per-
secuções e liberações dos judeus durante o domínio persa. Isto não
quer dizer que o livro seja história; é mais bem uma ficção bem
bientada e exemplar; poderia ter sido escrita na primeira época hele-
nística ou durante a perseguição de Antíoco IV. O livro foi lido depois em
zonas e épocas mais tranquilas; então um autor grego recolheu a obra
e acrescentou elementos para tornar explícita a ação de Deus: sonho e ex-
plicação, orações, esclarecimentos; substituiu a defesa armada por um
edicto de tolerância para os judeus.
Este é o texto grego, que introduzimos no posto correspondente
te de la narración, distinguiéndolo con letra cursiva (Sua numeração é a
continuação ao texto hebraico, assim, o capítulo 1 do texto grego, é o ca-
pítulo 11 em nossa versão). Pode-se fazer uma primeira leitura pulando-
dos ditos trechos e um segundo incluindo-os.
Mensagem religiosa. Ester não é um romance de tese, é um relato di-
dactico; seus ensinamentos são oferecidos sabiamente distribuídos ao longo do
ESTER 724
livro. Na superfície, o relato hebraico original é notavelmente secular.
Deus não intervém nem com milagres nem de outra maneira patente. Mas não
faz falta nomeá-lo para descobri-lo na trama e no inesperado do
desfecho dos acontecimentos.
A vitória dos judeus é um grande julgamento em que os malignos...
bem su merecido: aplica-se a lei de talião: «caem na fossa que cavam-
ron». O desenlace é, portanto, um julgamento histórico e não é necessário muito
aprofundamento para que qualquer israelita saiba que o autor de tal
sentença é Deus. Ao tradutor grego não basta um Deus entre bastido-
res, e o trouxe para o palco repetidas vezes.
Há algo, no entanto, no livro que nos perturba, e é a complacência
cia na vingança. A queda de Hamã é retratada com detalhes cruéis, a
a vitória final transborda os orçamentos; os judeus se vingam de seus inimigos
amigos, contam as vítimas, alongam o prazo da vingança, impõem grande
empenho em lembrar desse dia. A justiça vingativa podia ser cumprida com
moderação. Esta dificuldade nos convida a ler o livro como cifra da
crueldade humana. Ainda estamos longe de Aquele que substituiu a lei do Ta-
leão pela lei do amor, até mesmo aos inimigos.
O sonho de Mardoqueu 2 No terceiro ano de seu reinado, o rei,
1O segundo ano do reinado do em- que residia na fortaleza de Susa, ofereceu3
11 perador Artajerjes, o dia um de um banquete a todos os generais e oficiais
abril, teve um sonho Mardoqueu, filho de lidade do exército persa e medo, à nobre-
Yaír, descendente de Semeí, e de Quis, ben- za de palácio e aos governadores das
jaminita2um judeu que vivia na cidade províncias, para
4 fazer alarde durante mu-
de Susa, funcionário da corte,3um de ciento ochenta dias, das ri-
os deportados que Nabucodonosor, rei de quezas e o esplendor de seu reino, de seu ex-
Babilônia, havia levado cativos desde Je- glória extraordinária e sua grandeza.
rusalén com Jeconías, rei de Judá. 5 Passados aqueles dias, o rei ofereceu um
4Ele sonhou o seguinte: gritos e estrondo, banquete de sete dias a toda a população
trovões, um terremoto, tumulto na terra. da fortaleza de Susa, chicos e grandes,
5Então apareceram dois grandes dragões na explanada dos jardins do palácio.
dispostos ao combate; lançaram um rugido, 6 Havia finas cortinas de linho branco e púrpura
6e ao ouvi-lo, todas as nações se armaram pura violeta, sujeitas a umas argolas de prata,
para atacar a raça dos justos. que pendiam de colunas de mármore brancas
7O dia ficou escuro e sombrio. Dia de co, –sujeitas a umas argolas de prata– sobre o
tribulação e angústia, calamidades e tu- piso de mosaico, feito de malaquita
ta, mármore branco e madrepérola. Havia
7 taças
multos!8Toda a raça dos justos se asus-
tó, temendo a ruína, e se dispuseram a de ouro para a bebida, todas distintas, e vinho
morrer; mas gritaram ao Senhor,9e em resposta- abundante, oferecido pelo rei com esplendor
é um clamor seu, um rio enorme e caudaloso dida generosidade. A 8norma para beber
surgiu como de uma fonte pequena;10apareceu Era para que ninguém obrigasse ninguém; o rei tinha
uma luz e saiu o sol; os oprimidos se lhe- ordenado a todos os serventes do palácio
vantaram e devoraram os grandes. que respeitarão os desejos de cada um.
9 Por sua parte, a rainha Vasti ofereceu um
11Quando Mardoqueu acordou, ele se tinha
bía gravado profundamente aquele sonho, banquete para as mulheres do palácio real de
em que havia visto os planos de Deus, e Asuero.
10 No sétimo dia, quando o rei estava
esteve pensando até à noite
tentado descifrá-lo. alegre pelo vinho, ordenou a Maumán, Ba-
zata, Jarbona, Bagatá, Abgatá, Zetar e Car-
O banquete do rei Assuero cás, os sete eúnucos que estavam ao servi-
1 o Era no tempo do rei Assuero, cujo cio pessoal do rei Assuero
1 11 que lhe
império abrangia cento e vinte e sete trouxeram a rainha Vasti com sua coroa real,
províncias, da Índia até Núbia. para que os generais e o povo admira-
11,1-11 Sonho de Mardoqueu. O relato hebraico ao longo da obra: o nome de Mardoqueu e seu pro-
original, como ficou dito na Introdução, foi cedência; o sonho de Mardoqueu, que virá re-
completado posteriormente com textos em grego, pro- solto e interpretado ao final da obra à luz de
provavelmente para introduzir um pouco o ingrediente fatos (10,5-11). Também fica em questão o es-
religioso que não é muito explícito no original queima da trama que corresponde aos modelos
breo. É um fato que no texto hebraico não se men- tradicionais da narrativa judaica: surge um grave pe-
ciona a Deus por nenhuma parte, embora seja facilmente ligro para o povo; o povo, à frente de seu guia
dedutível que os acontecimentos e o desenlace de o de suas guias, se dirige a Deus; Deus responde liberan-
a trama só pode ser obra do Deus dos judeus. dolo do perigo e dando-lhe a vitória.
Talvez os leitores da época em que o livro foi trazido 1,1-22 O banquete do rei Assuero. Começa este
levados ao grego sentiram algum escrúpulo pela falta primeira seção do livro em um ambiente de palácio,
desta explicitação religiosa, e isso motivaria as am- de excesso e de desperdício de opulência. Na realidade não
pliaciones que foram introduzidas. trata-se de um só banquete, trata-se de três: o que
Esta primeira seção corresponde, pois, a uma de oferece o rei aos nobres, cortesãos e generais (2-
as várias adições em grego. Antecipam-se aqui algu- 4), o que oferece para o povo (5), e o terceiro que
nos elementos que vão desempenhar um papel importante a é oferecido pela rainha para as mulheres do palácio
ESTER 1 726
sen su beleza, porque era muito bonita. 21 O rei e os príncipes aprovaram a
12 Mas quando os eunucos lhe transmitiram proposta. O rei fez o que havia sugerido
A ordem do rei, a rainha Vasti não quis ir. Ele Memucán: enviou cartas 22 a todas as pro-
rey teve um acesso de ira e ficou furioso; vincias do império, a cada uma em seu escri-
13 depois consultou os advogados - porque os tura e a cada povo em sua língua, orde-
os assuntos do rei costumavam ser consultados aos ex- nando que fosse o marido quem mandasse
perto em direito–; mandou 14 que se pre- em casa.
sentaran Carsená, Setar, Admatá, Tarsis,
Ester, eleita rainha
Mares, Marsana e Memucán, os sete gran-
1 Mais tarde, quando passou a
des do reino da Pérsia e Média, que for-
maban parte do conselho real e ocupavam
2 cólera, o rei se lembrou de Vasti, do que
os primeiros postos no reino, e lhes pre- que havia feito e o que ele decretou com
guntó aquele motivo. Então2 lhe disseram os cor-
–Que sanção deve ser imposta a
quinze tesanos
Rainha Vasti por não ter obedecido a ordem Que le busquem ao rei moças sol
do rei Assuero, transmitida pelos eunucos terras e belas. O rei
3 pode nomear dele-
Vasti, e ela não foi. Hoje18mesmo, as mu- chamado Mardoqueu, filho de Jair, e descendente-
jeres dos príncipes da Pérsia e dos Medos que dente de Semeí, e de Quis, benjaminita,
ouvem o que a rainha disse, vão falar com seus maridos 6 que havia sido deportado de Jerusalém
no mesmo tom e acabarão desprezando com Jeconias, rei de Judá, entre os cativos-
dolos e discutindo. Se 19
ao rei parecer bem, vós que foi levado por Nabucodonosor, rei de
publique um decreto real, que será incluído em Babilônia. 7Mordecai havia criado a Ha-
a legislação da Pérsia e da Média com caráter dasá, ou seja, Ester, prima sua, órfã
ter irrevocável, proibindo que Vasti se de pai e mãe. A moça era muito
presente ao rei Assuero e concedendo o título bonita e atraente, e ao morrer seus pais,
de rainha a outra melhor que ela. Quando 20 Mardoqueo a adotou como filha.
por todo o imenso império do rei ouçam o 8 Quando foi promulgado o decreto real,
decreto real, todas as mulheres honrarão a levaram muitas garotas para a fortaleza de
seus maridos, nobres ou plebeus. Susa, sob as ordens de Hegeo, e levaram
(9). Nos três casos, conforme nos aponta o narrador, o xual, comercial e mercantilista. Vasti desaparece de
o motivo dos banquetes é ostentar poder, de escena. Nem sequer soubemos os termos com os quais
a riqueza e o esplendor do reino. A moldura do ban- se negou a comparecer perante o rei; no entanto, que-
o que é propício para que o rei sinta desejos de dê o testemunho de alguém do sexo feminino que foi
compartir com sua esposa oficial, a rainha Vasti (11) capaz de desobedecer uma ordem do grande senhor e
quem se nega rotundamente a tal requerimento dono de todo o território que vai "da Índia até
(12); isso provoca a ira do rei e a consequente de- ta Núbia", e não só do território, também de seus ha-
derrubamento da rainha por se tratar de um ato de re- bitantes.
beldía. 2,1-23 Ester, eleita rainha. Descreve-se aqui o
Uma leitura feminina deste incidente não hesitará processo complicado ao qual são submetidas as jovens
em respaldar a atitude de Vasti como figura de todas que devem se apresentar diante do rei para escolher a rei-
as mulheres que ao longo da história até nossos na sustituta. Temos que supor quais atributos devem
dias tiveram que suportar, e continuam suportando, o ter as moças, não só beleza, mas também,
domínio patriarcal que só vê nelas um objeto se- submissão total.
727 ESTER 11
também a Ester ao palácio e a encarregaram 18 Depois ofereceu um grande banquete, em
daron a Hegeo, guardião das mulheres. honra de Ester, a todos os seus generais e oficiais
9 A Hegeo gostou da moça, e como cialidad, ordenou um dia de descanso e re-
ele gostou e imediatamente lhe deu os cremes partiu presentes com a generosidade própria de
de beleza e os alimentos e lhe atribuiu sete um rei.
escravas, escolhidas do palácio real; des- 19 Quando Ester passou para o segundo harém,
pois ela a transferiu, com suas escravas, para um como as outras moças, não disse de20
apartamento melhor dentro do harém. que raça nem de que família era; se o havia
10 Ester não disse de que raça nem de que fa- encarregado Mardoqueo, a quem obedecia
milia era, porque Mardoqueo se lo había igual que quando vivia com ele. Mardoqueo
proibido. lhe havia ordenado que temesse a Deus e
11 Mardoqueo passeava diariamente diante cumpre os seus mandamentos como quando-
o átrio do harém para se informar sobre como do vivía com ele. E Ester não mudou de com-
iba Ester e como a tratavam. ducta.
12 Cada menina se preparava durante 21 Por então, Mardoqueo era funcio-
doze meses, de acordo com o regulamento da nário da corte. Bigtán e Teres, dois eúneos
mulheres – é o que durava o tratamento de cos reais do corpo de centinelas, esta-
beleza: seis meses a base de óleo de mi- ban descontentos e planejavam um atentado
rra e seis meses com diversos bálsamos e contra o rei Assuero. O plano
22 chegou aos ouvidos
outras cremes femininos –; depois,
treze quanto- de Mardoqueo; se lo dijo à rainha Ester, e
do le chegava a vez de se apresentar diante do Ester falou ao rei em nome de Mardo
rei Assuero, lhe davam tudo o que ele queria queo. 23Feita uma investigação, se descu-
var consigo do harém ao palácio real. En- 14 brió a conjura. Os dois eunucos foram
trabalho à tarde, e de manhã voltava a enforcados, e o evento foi registrado por es-
um segundo harém, sob as ordens de Sagse- escrito nos anais do reino, na presença
gaz, eunuco real guardião das concubinas do rei.
não; nunca mais voltou a se apresentar ao rei, ano
ser que o rei a desejasse e a chamasse ex- Mardoqueo delata os golpistas
presamente. 12Mardoqueu vivia na corte com
Quando Ester, filha de Abijail, tio de
quinze 11 Gabazá e Zarra, os dois eunu cos rea-
Mardoqueo, seu pai adotivo, chegou até ele os sentinelas13e ouvindo suas conversas
turno de se apresentar ao rei, se contentou com nes se enterou de seus planos, até averiguar
o que disse Hegeo, eunuco real, guardião de que preparavam um atentado contra o rei
as mulheres. Ester ganhava a quantos a Artajerjes. Mardoqueo informou ao rei de
viam. dezesseis
No sétimo ano do reinado de tudo.14O rei interrogou os dois eunucos;
Asuero, o décimo mês, ou seja, o mês de eles confessaram y foram ajusticiados.
janeiro, levaram Ester ao palácio real, ao rei 15Então o rei mandou escrever este suce-
Dos elementos são essenciais na narração: o ainda, mas mais adiante, em momentos cruciais
primeiro é o silêncio em relação à procedência de para a vida de todo o povo judeu. Por enquanto,
Ester (10), coisa pouco crível, pois em nenhuma parte o narrador se contenta em dizer que tal 'evento
os judeus passam despercebidos; e em segundo lugar, se consignou por escrito nos anais do reino" (23).
a preferência de Assuero pela jovem Ester (17s), pun- 11,12-17 Mordecai denuncia os golpistas. O re-
para aquele a que a narração estava orientada desde o co- doutor grego, com risco de colocar em perigo o bom
Mienzo. O leitor israelita, conhecedor de seus próprios curso do fio narrativo, insira na narração hebraica
tradições, estava em grau de descobrir com toda a fa- uma versão ampliada da trama que estava sendo tramada
cilidad a discreta ação de Deus na eleição de Es- mando contra o rei, a oportuna intervenção de Mar-
ter. doqueo, a recompensa da qual é objeto o delator
Os versículos 21-23 antecipam a ação de Mardo- e o ódio que esses eventos suscitam em Amã, o fun-
queo a favor do rei cuja importância não vai ser vista dicionário arrivista.
ESTER 11 728
Amán, o filho de Hamdatá, de Agag, um per- a sua majestade parece bem, decrete sua ex-
sonaje com muito prestígio diante do rei, an- termino, e eu entregarei aos administra-
estava buscando a maneira de prejudicar a dizem trezentas toneladas de prata para o
Mardoqueo e seu povo por causa dos tesouro real.
dos eunuques do rei. 10 O rei tirou o anel do selo e se
lo entregou a Amã, filho de Hamdatá, des-
Amã e Mordecai
1 Passado algum tempo, o rei Assuero
cendiente de Agag, inimigo dos judeus,
3 ascendeu a Amã, filho de Hamdatá,
11 dizendo-lhe:
3,1-15 Amán e Mardoqueu. Amán encontra uma queo e de todos os da sua etnia está jogada. Por aí-
boa desculpa para eliminar da sua carreira política ao ra a intolerância, coberta com o manto da «segu-
funcionário honesto e leal. Mas como geralmente ridad nacional», tem todas as chances de ganhar.
os poderosos não se contentam com pequenas execuções 12,1-7 Edito real contra os judeus. O au-
ações que pouco ou nada ressoam na vida nacional tor grego compôs um texto; com ele quis
e internacional, Amã leva as coisas até o extremo analisar e denunciar os motivos dessa razão disso
de propor ao rei o extermínio de todos os da do que conduz ao genocídio. Dessa forma, tem-se
mesma raça de Mardoqueo. Sem medir nenhuma con- um documento de perene atualidade. Em mãos
Sequência, Asuero deixa em liberdade seu ministro para do autor grego, o decreto se torna em denúncia
que proceda. O rei sabe que o império, para ser im- indignada e sarcástica com muitas situações semelhantes
período, deve unificar uniformizando, tem que ser em- jantes: daquelas que sofreram os hebreus sob os dia-
lerante, eliminando o que aparece distinto em cada docos e epígonos, dos quais sofrerão sob os romanos
lugar, em cada província. A sorte pois, de Mardo- e de outras mais ao longo da história.
729 ESTER 12
cias, da Índia à Etiópia, e aos je- Tristezadosjudeus
fes de distrito sob suas ordens: 1Quando Mardoqueu soube o que pa-
2Chefe de muitas nações e senhor de 4 saba, rasgou suas vestes, se vestiu
toda a terra, procuro não me ensoberbecer um sayal, se atirou cinzas e saiu pela ciu-
com a arrogância que o poder dá, senão go- pai lançando gritos de dor:
bernar sempre equitativa e benevolente –Desaparece uma cidade inocente!
te, para que meus súditos desfrutem sempre 2 E chegou até a porta do palácio real,
de uma vida sem tempestades. Oferecendo assim por onde ninguém podia passar vestindo um
uma política humana, e deixando liberdade sayal.
dentro de nossas fronteiras, intento resta- 3 De província em província, conforme se ia
blecer a paz tão desejada de todos. publicando o decreto real, tudo era um grande
3Ao consultar meus conselheiros como se
duelo, jejum, choro e luto para os judeus;
poderia conseguir isso, Amã, que se distin- muitos se deitaram sobre cinzas vestidos
gue por sua prudência, homem de uma dedi- de penitência.
cación sem igual, de uma fidelidade inque- 4 As escravas e os eunucos de Ester
brantável e testada e que por isso ha foram avisá-la, e a rainha se encheu de an-
recebido a honra de ocupar o segundo lu- gustia; mandou roupa a Mardoqueu para que
gar no reino,4nos informou que se vestiria e se tiraria o sayal, mas Mardo-
entre todos os povos da terra há um queo não a aceitou. Então 5 Ester chamou a
povo odioso, com um regime jurídico Hatac, um dos eúquos reais ao serviço
oposto ao de todas as nações, que des- da rainha, e o mandou ver Mardoqueu
precia continuamente as ordens reais, para se informar sobre o que acontecia e por quê
até o ponto de atrapalhar nossa política fazia isso. Hatac foi
6 falar com Mar-
irrepreensível e reta. doqueo, que estava na praça, diante da
5Por isso, considerando que este povo
porta do palácio. Mardoqueu
7 lhe comunicou
singular, inimigo de todos e completo- o que havia acontecido: ele contou em detalhe o
mente aparte por sua legislação, inimigo de do dinheiro que Amã havia prometido
nossos interesses, comete os piores crimes- ingressar no tesouro real em troca do exter-
sim, até o ponto de ameaçar a estabilid- minio dos judeus; e deu-lhe
8 uma cópia do
pai do nosso reinado, decreto que havia sido promulgado em Susa
6Ordenamos que o dia catorze do mês
ordenando o extermínio dos judeus, para
duodécimo, o mês de março, do presente que se la ensinará a Ester e lhe informará,
ano todos os que são indicados na carta que mandasse à rainha apresentar-se ao rei
de Amán, nosso chefe de governo, que é intercedendo em favor dos seus.
como nosso segundo pai, sejam extermine-
nados de raíz, com suas mulheres e crianças, por Súplica de Mardoqueo a Ester
a espada de seus inimigos, sem compaixão
12 9Que lhe dissesse:
8
sem nenhum respeito,7para que, arrojados Lembre-se de quando você era pequena
violentamente ao sepulcro em um só dia é- e eu te dava de comer. O vice-rei Amã tem
dois inimigos de ontem e de hoje, nossa po- pedido nossa morte.10Invoca ao Senhor,
lítica marche no futuro com segurança e fala ao rei em nosso favor, livra-nos da
ordens perpétuas. morte.
4,1-8 Tristeza dos judeus. O decreto, promulgado- ções ao texto hebraico, incluindo aqui o pedido
do por todo o império, provoca a dor e a cons- que faz Mardoqueo à rainha: invocar ao Senhor e in-
terniação de todos os judeus. A maneira tradicional terceder diante do rei.
externa na qual se manifesta esta tristeza e angústia 4,9-17 Instruções de Ester a Mardoqueu. A
tia está vestindo um casaco e se cobrindo de cinzas. É de Reina está ciente do pouco que ela pode fazer
supor que a tristeza e os lamentos dos ju- por si mesma. Daí que a única esperança seja uma
dioses de Susa é o reflexo de todos os judeus do im- intervenção divina, intervenção que se espera que me-
período. diante o jejum e a penitência. Por outro lado, o au-
12,8-10 Súplica de Mardoqueo a Ester. A rainha tor vai deixando consignada uma ensinamento importan-
Ester foi informada da sorte que paira sobre a escolha de Ester não foi para privilégio
bre seu povo. O redator que inseriu ampla- algum, senão, para o serviço. É pouco ser a rainha do
ESTER 4 730
Instruções de Ester a Mardoqueu de todo4não há, Senhor, quem se te possa
9 Hatac transmitiu a Ester a resposta opor5Tu sabes tudo. Se eu me recuso a
4 ta de Mardoqueo, e Ester10 lhe deu este prostrar-me diante desse soberbo Amã, tu sabes
recado para Mardoqueo: bem, Senhor, que não o faço por arrogância,
11 –Os funcionários reais e o povo de orgulho ou vaidade;6que por salvar a Israel,
as províncias do Império sabem que, por de boa vontade eu beijaria a planta do
decreto real, qualquer homem ou mulher que torta.7Se eu me recusei a fazê-lo é porque
se apresente ao rei no pátio interior sem ha- para mim Deus está acima de qualquer
ser chamado é réu de morte; a não ser homem. Eu não me prostro diante de ninguém se não for
que o rei, estendendo seu cetro de ouro, lhe ante ti, Senhor meu; não o faço por orgulho.
perdoe a vida. Quanto a mim, faz um 8Agora, Senhor, Deus rei, Deus de Abraão,
mes que o rei não me chamou. perdoa o teu povo; porque tramam nosso
12 Quando Mardoqueu recebeu a res- morte, desejam aniquilar seu antigo
posta de Ester ordenou que lhe respondesse-
treze herança.9Não desprezes a porção que te
correu resgataste do país do Egito;10escuta meu
–Não pense que por estar no palácio você vai súplica, apiádate de tu herencia, cambia
ser você a única que ficar viva entre todos nosso duelo em festa, para que vivamos
dos os judeus. Nem pensar! Si aho- 14 celebrando o teu nome, Senhor. Não faças em-
ra te niegas a hablar, la liberación y la ayu- calar a boca dos que te louvam.
da lhes virão aos judeus de outra parte, 11Diante da morte iminente, todos os é-
mas você e sua família desaparecerão. Quem raelitas gritavam a Deus com todas as suas forças
sabe se não subiste ao trono para uma zas.
ocasão como essa! Oração de Ester
15 Então Ester enviou esta resposta a
12A rainha Ester, temendo o perigo in-
Mardoqueo
16 –Vá reunir todos os judeus que eminente, acudió ao Senhor.13Se despediu de
vivem em Susa; jejuem por mim. Não comam nem suas roupas luxuosas e se vestiu de luto; em vez
beban durante três dias com suas noites. Eu de perfumes refinados, cobriu a cabeça
e minhas escravas faremos o mesmo, e ao cá- de cinzas e lixo, e se desfigurou por com-
bar, eu me apresentarei diante do rei, mesmo com- pleto, cobrindo com seus cabelos desgrenhados
tra su ordem. Se eu tiver que morrer, morrerei. aquele corpo que antes se complacia em
17 Mardoqueo foi cumprir as ins- adornar.14Depois orou assim ao Senhor, Deus de
instrucções de Ester. Israel:
Senhor meu, único rei nosso.
Oração de Mardoqueu Protege-me, que estou sozinha
1E orou assim, lembrando-se de todas as ha- e não tenho outro defensor além de ti,
13 zañas do Senhor. 15porque eu mesma
2 –Senhor, Senhor, rei e dono de tudo, por- eu me expus ao perigo.
16Desde
que tudo está sob seu poder e não há quem a minha infância, ouvi,
se oponga à sua vontade de salvar Israel. no seio da minha família,
3Tu criaste o céu e a terra e todas as má- como tu, Senhor, escolheste
ravillas que há sob o céu, e és Senhor a Israel entre as nações,
império persa, é muito ser a mediadora na obra tado na memória da libertação do Egito. Por
da libertação do povo de Deus mesmo com risco de todo isso, o orante espera confiante que o Senhor volte
perder a própria vida (16). vai atuar em favor de sua herança.
13,1-11 Oração de Mardoqueu. Esta é uma nu- 13,12-30 Oração de Ester. A oração de Ester si-
a inserção do autor tardio onde fica refletido o na mesma linha da oração de Mardoqueu. Nela
espírito religioso com que foi lido o livro. Se subra- se reconhece a grandeza única e incomparável de Deus ao
já nesta oração o caráter salvífico de Deus (9), seu tempo que reflete a fé inabalável no cumprimento
potência criadora (10), seu exclusivo senhorio sobre o minto das promessas por parte de Deus ao seu povo.
mundo e a humanidade, que exclui qualquer inten- A atitude da orante aqui é paradigmática: o desva-
ao humano de submissão de uns sobre os outros (12- lido, embora cercado de poder e glória, só tem um
14)y, por último, o poder libertador de Deus manifesta- mero ponto de apoio, seu Deus, Senhor dos céus e da terra.
731 ESTER 14
26e você sabe que eu odeio
a nossos pais
entre todos os seus antepassados a glória dos ímpios,
para ser tua herança perpétua, que me horroriza
e você os cumpriu o leito dos incircuncisos
o que você havia prometido. e de qualquer estrangeiro.
17Nós pecamos contra ti 27Você conhece meu perigo.
dando culto a outros deuses; Aborreço este emblema
18por isso nos entregaste a de grandeza
nossos inimigos. que levo na minha testa
Você é justo, Senhor! quando apareço em público.
19E não é suficiente para eles
Eu o aborreço
nosso amargo cativeiro, como um trapo imundo,
sino que se comprometeram e em privado não levo.
com seus ídolos, 28Tua serva não comeu
20jurando invalidar o pacto à mesa de Amã,
saído dos seus lábios, não estimado o banquete do rei,
fazendo desaparecer sua herança não bebi vinho de libações.
e emudecer os que te louvam, 29Desde o dia da minha exaltação
extinguindo teu altar até hoje,
e a glória do teu templo sua serva apenas se deleitou em ti,
21e abrindo os lábios dos gentios Senhor, Deus de Abraão.
para que dêem glória a seus ídolos 30Oh Deus poderoso sobre todos!
e venerem eternamente Escute o clamor
a um rei de carne. dos desesperados,
22Não entregues, Senhor, seu cetro livra-nos das mãos
aos que não são nada. dos malfeitores
Que não zombem da nossa queda. e a mim tire o medo.
Volta contra eles os seus planos,
que sirva de escarmiento Ester e Asuero
1No terceiro dia, ao terminar a oração,
o que começou a nos atacar.
23Atende, Senhor, 14 Ester tirou as roupas de suplicante e
mostre-se a nós se vestiu com todo luxo.2Ficou esplêndido-
na tribulação, sa. Depois, invocando a Deus e Salvador que
e me dê coragem, Senhor, vela sobre todos, marchou com duas donzelas,
3apoiando-se suavemente em uma con deli-
rei dos deuses
e senhor dos poderosos. cada elegância4enquanto a outra a acom-
24Ponha na minha boca apanhava levando a cauda do vestido.5Ester
um discurso acertado iba acesa, radiante de beleza, com
quando eu tiver que falar ao leão; o rosto alegre, como uma apaixonada, mas
faça com que mude com o coração angustiado.
e aborreça ao nosso inimigo, 6Atravessou todas as portas, até que-
para que pereça dar de pé ante o rei. Estava sentado em sua
com todos os seus cúmplices. trono real, revestido de todos os seus ornamentos
25A nós livra-nos com tua mão, tos majestosos, de ouro e pedras preciosas.
e a mim, que não tenho outro auxílio O rei aparecia terrível.7Levantou seu rosto
fora de ti, protege-me tu, Senhor, acendimento de majestade e, em um ímpeto de
que você sabe tudo, ira, lançou um olhar. A rainha empalideceu e
14,1-15 Ester ante Asuero. Uma nova inserção que cambie o coração do rei. De fato, quem se
do redator tardio que interrompe a cena do apresentava-se diante do trono sem ter sido chamado pré-
apresentação de Ester diante do rei e que tem como fi- obviamente devia morrer, mas no caso de Ester, a ira
nalidad constatar o cumprimento de uma das peti- o rei desaparece e acolhe carinhosamente sua mulher
ciones da oração de Ester. Ela pediu ao seu Deus (10-15).
ESTER 14 732
apoiou-se no ombro da donzela, des- –Peça-me o que quiser e eu te dou. Ainda–
mayándose.8Então Deus moveu o rei a que pidas a metade do meu reino, a terás.
benevolência; ele se inquietou, saltou de seu trono 7 Ester respondeu:
e tomou Ester em seus braços, encorajando-a Meu pedido e meu desejo é que se o 8rei
com palavras tranquilizadoras enquanto ela Você quer me fazer um favor, se quiser acessar
volvia em si: a minha petição e cumprir meu desejo, venha
9– O que está acontecendo, Ester? Sou seu marido. com Amã ao banquete que vou preparar-
10Ânimo, você não morrerá. Nossa ordem é apenas amanhã, e então eu responderei a ele.
para nossos súditos.11Aproxima-te. 9 Amán saiu aquele dia alegre e bem
12Colocou seu cetro de ouro sobre o pescoço de humor; mas quando viu que Mardoqueo, a
Ester a acariciou e disse a ela: a porta do palácio real não se levantava
–Fala comigo. não se apartava, encheu-se de furor contra Mar-
13Ester disse: doqueo, 10 mas se dominou. 11 Ao chegar a
–Eu te vi, senhor, como a um anjo de Deus, casa, chamou seus amigos e sua mulher, Za-
y Eu me atemorizei diante de tanto esplendor. res; falaram-lhes sobre o esplendor de suas riquezas,
14Porque você é admirável, senhor, e seu rosto de seus muitos filhos e de como o rei o tem-
fascina. bía engrandecido ascendiéndolo sobre seus
15Enquanto falava, desmaiou.16Os funcionários e ministros. E acrescentou: 12
o rei se perturbou, e todos os cortesãos tentam –Além disso, a rainha Ester, a esse banque-
ban reanimá-la. te que ha celebrado, no ha invitado más
O rei e o vice-rei com Ester
que ao rei e a mim. E também estou convidado
com o rei para amanhã. Mas tudo 13 isso
No terceiro dia, Ester vestiu suas roupas-
1
5 tidos de rainha e chegou até o pátio in-
não me satisfaz enquanto eu continuar vendo o ju-
dío Mardoqueo sentado à porta de pa-
parte de trás do palácio, em frente ao salão do trono.
lácio.
O rei estava sentado em seu trono real, no 14 Sua mulher, Zares, e seus amigos lhe disse-
salão, em frente à entrada. Quando 2 viu a ron:
rainha Ester, de pé no pátio, a olhou com- –Que preparem uma forca de vinte e cinco
Plácido, estendeu para ela o cetro de ouro metros. Pela manhã você pede ao rei que
que tinha na mão e Ester se aproximou de to- enforquem ali Mardoqueu, e depois você vai
caro o extremo do cetro. O rei perguntou-lhe:
3
contente com o banquete.
–O que se passa, rainha Ester? Peça-me, e A Amán gostou da proposta, e enviou
Eu te darei até metade do meu reino. preparar a forca.
4 Ester disse:
–Se ele agradar ao rei, venha hoje com Amã Honra para Mardoqueu
ao banquete que preparei em sua honra. 1 Naquela noite, o rei não conseguia com-
5 O rei disse: 6 ciliar o sono. Então mandou trazer
– Avisem imediatamente a Amã, que o livro dos anais ou crônicas. Eles os lêem-
aceite o convite de Ester. yeron. 2E lá se contava como Mardoqueo
O rei e Amã foram ao banquete pré- havia descoberto Bigtán e Teres, os dois
parado por Ester. eunucos reais sentinelas, que tinham que-
6 E no meio dos brindes, o rei disse a rido atentar contra o rei Assuero. O rei 3
Ester perguntou:
5,1-14 O rei e o vice-rei com Ester. O movimento caráter marcado de desafio pessoal, pois conhece ao
narrativo vai se marcar em três encontros de Ester causante da situação que os judeus estão vivendo.
com Assuero, sublinhados pela tripla oferta do rei: Por sua parte, a Amã não lhe basta que Mardoqueu pe-
Peça o que quiser. O primeiro encontro culmina em reza na matança geral já decretada; tem que
5,3 e está preparado pelo laborioso diálogo do ca- separá-lo, ser seu algoz, exibi-lo diante da população
capítulo precedente; o segundo é brevíssimo, um ban- seguindo os conselhos de seus amigos.
banquete com Amã; o terceiro é outro banquete com 6,1-14 Honra a Mardoqueo. Começa a girar
Amã, mas isso só acontecerá no capítulo 7 no relato uma constelação de ignorâncias de los
onde, além disso, chega também o desfecho. O pré- persona jes, a sabiendas del lector. Asuero ignora que
sencia de Mardoqueo à porta do palácio toma um Ester é judia, que Amã odeia a Mardoqueu, que este
733 ESTER 7
Que prêmio ou recompensa foi dado a 12 Depois, enquanto Mardoqueu voltava
Mardoqueo por aquilo? a seu posto no palácio, Amã corria em direção a
Os cortesãos que assistiam ao rei res- sua casa, triste e cobrindo o rosto. Con- 13
puseram tó a sua mulher, Zares, e a todos os seus amigos
-Não lhe foi dado nada. o que havia acontecido. Zares e seus sábios lhe
4 Então o rei perguntou: disseram:
Quem está no pátio? –Sim Mardoqueo, diante de quem você se entregou
Naquele momento, Amã chegava ao pa- zado a cair, é de raça judia, não podrás com
tio exterior de palácio para pedir ao rei que ele; você cairá diante dele até o fundo. Você não poderá
enforcam Mardoqueo na forca que lhe defenderte dele porque o Deus vivo está
tinha preparado. com ele.
5 Os cortesãos responderam: 14 Eles ainda estavam falando com ele
judeu funcionário da corte. Não omita nem –Quem é? Onde está aquele que tenta
um detalhe do que você disse. fazer isso?
11 Amán pegou a roupa e o cavalo, vestiu 6 Ester respondeu:
a Mardoqueo e o levou a cavalo pela –O adversário e inimigo é esse mal-
praça da cidade, pregando diante dele: vado, Amán!
–Este é o tratamento que se dá a quem o rei Amã ficou apavorado diante do rei e da
quer honrar! rainha.
é judeu, que ele deve a vida a Mardoqueu. Hamã ig- co vezes a expressão. A cerimônia honorífica pare-
nora que Ester é judia e que Mardoqueu salvou o rei. ce inspirada por Gn 41,42s.
Dessas ignorâncias se seguirá no presente capítulo 7,1-10 Afundamento de Amã. Chegamos ao desen-
o que Amã não será vítima do rei, mas de seu pro- lace que o narrador sabe atrasar sem fadiga. Confron-
pia vaidade; e, por ela, do Senhor, 'do vingativo se tática de Amã com Ester na presença do rei,
vengará o Senhor» (Eclo 28,1). A cena dos versí- modo que Amán não fala nem pode falar. Perdeu-
Culos 6-9 é divertida. Uma expressão chave se repete. da iniciativa, a autoridade, embora ainda conserve o
seis vezes: «a quem o rei quer honrar». O rei pen- selo do rei. A ira do rei só se acalma quando
sa mentalmente em Mardoqueu, Amã pensa mental- Amán é enforcado na mesma forca que ele tinha
mente em si mesmo, e com íntimo regozijo repete cin- preparada para Mardoqueo.
ESTER 7 734
7 E o rei, em um acesso de ira, se lhe- de Amã, filho de Hamdatá, descendente de
vantó do banquete e saiu para o jardim de pa- Agag, que havia ordenado exterminar os
lacio, enquanto Amán ficou para pedir judeus nas províncias do império. Por- 6
pela vida da rainha Ester, porque com- que, como poderei ver a desgraça que se
prendeu que o rei já havia decidido seu rui- fala sobre a minha aldeia, como poderei ver a
na. destruição da minha família?
8 Quando o rei voltou do jardim da pála- 7 O rei Assuero disse então à rainha
cio e entrou na sala do banquete, Amã Ester e o judeu Mardoqueu:
estava inclinado sobre o divã onde se re- –Yaven que eu dei a Ester a casa de
custava Ester, e o rei exclamou: Amán e ele foram enforcados por atentarem
–E se atreve a violentar a rainha, diante contra os judeus. Vocês escrevam, 8 em
mí, em meu palácio? nome do rei, o que lhes parecer sobre os
Nada mais dizer isso, taparam a cara de judeus e selá-lo com o selo real, porque os
Amã, e9 Harbona, um dos eunuques do documentos escritos em nome do rei e
serviço pessoal do rei, sugeriu: sellados com seu selo são irrevogáveis.
Precisamente na casa de Amã têm 9 Então, no dia vinte e três do mês
instalada uma forca de vinte e cinco metros zero, ou seja, o mês de junho, foram convocados
de alto; a preparou Amã para Mardo- cados os secretários do reino, e tal como
queo, que salvou o rei com sua denúncia. ordenou Mardoqueu, foi redigido um docu-
O rei ordenou: mento destinado aos judeus, autoridades,
–Enforquem-no ali! governadores e chefes das províncias
10 Enforcaram a Amã na forca que cento e vinte e sete províncias, desde a Índia
tinha levantado para Mardoqueu, e a cóle- até a Etiópia - a cada província em sua es-
Ra del Rey se acalmou. escritura e a cada povo na sua língua; aos
Triunfodosjudeus
judeus, em seu alfabeto e sua língua.
10 Redigiram um documento em nome
1 Naquele dia, o rei Assuero entregou a
8 rainha Ester a casa de Amã, o ene- do rei Assuero, selaram com seu selo e
despacharam as cartas pelo correio monta-
migo dos judeus; e Mardoqueu foi pre- dos em cavalos velocíssimos, puro sangue,
sentado ao rei, que já sabia por Ester o pa- das cavalariças reais.
rentesco que tinha com a rainha. O rei2 se 11 No referido documento, o rei concedia a
quitou o anel que havia recuperado de os judeus de todas e cada uma das ciu-
Amã e o entregou a Mardoqueu. Ester dades o direito de se reunir e se defender,
confiou a Mardoqueu a administração da exterminar, matar e aniquilar qualquer
casa de Amã. gente armada de qualquer raça ou província
3 Ester voltou a falar com o rei. Caiu a seus
que os atacará, até mesmo suas mulheres e crianças
pés chorando e suplicando para que anulasse anos, mais o direito de saquear seus bens
os planos perversos que Amã de Agag em todas as províncias do rei Assuero, ele 12
tinha tramado contra os judeus. mesmo dia, o treze do mês duodécimo, ou
4 Quando o rei estendeu a mão para Ester o
mar, o mês de março.
cetro de ouro, ela se levantou e ficou em pé
diante do rei. Então
5 disse: Edito real a favor dos judeus
–Se ao rei lhe agrada e quer me fazer um
15 OCópia da carta:
1
favor, se minha proposta lhe parece bem e se está imperador Artaxerxes aos go-
contente de mim, revoguei por escrito a carta bernadores das cento e vinte e sete províncias
8,1-12Triunfo dos judeus. O que se segue está im- rei e selado com o selo real é como uma careta ma-
explícito na queda de Amã, mas o leitor judeu que- cabra do ajusticiado, uma vingança depois de morrer.
iria explicitar em detalhe a exaltação de Mardoqueu e A dicha inquietud responde o rei Assuero autorizando
do povo, a mudança de sorte por ter invocado ao a promulgação de uma lei que anule a que ameaça
Senhor e confiado nele. Fica no ar a pergunta zaba aos judeus.
pelo decreto fatídico de Hamã; é como se ainda 15,1-24 Edito real a favor dos judeus. O autor
morto ainda ameaçará os judeus por aquela lei Gregos aproveita o momento para compor outro
que lhe sobrevive. O decreto assinado em nome do decreto, semelhante no estilo ao primeiro, ao de
735 ESTER 8
cias, da Índia até a Etiópia, e a quão- bela companheira no trono, junto com toda
nós somos leais, saúde! sua raça.14Com essas medidas, ele pensava
2Considerando que muitos, quantos deixar-nos isolados e passar o poder de ma-
mais benefícios e mais honra recebem de seus dos persas para os macedônios.
benfeitores mais se ensoberbecem,3e não 15Resultando que não verificamos
sólo intentam maltratar os nossos súditos, do que os judeus, condenados por este cri-
só que, não conseguindo dominar sua própria minal ao exterminio, sejam malfeitores; ao
arrogância, conspiram contra si mesmos pelo contrário, regem-se por leis justíssimas dezesseisy
benfeitores, apagam do coração humano são filhos do Altíssimo, do grande Deus vivo,
o sentimento de gratidão e,4mais ainda, em- que para o bem nosso e o de nossos an-
soberbecidos com os aplausos dos maus- tecesores conserva o império com uma ordem
vados pensam escapar à justiça de Deus excelente.
que sempre vê tudo e odeia os maus. 17Ordenamos que não seja obedecida a
5Considerando que com frequência mu- carta enviada por Amán, filho de Hamdatá,
chos constituídos em autoridade, influídos por 18porque seu autor foi enforcado junto a
aqueles que acreditavam ser amigos, a quem confiaram a as portas de Susa, com todos os seus
marcha de seus assuntos, têm sido envolvidos- casa. O Senhor dominador de tudo lhe tem
tos em desgracias irreparáveis e convertidos dado em seguida o castigo que merecia.
em cúmplices do assassinato de inocentes, por- 19Exporão em público cópias disso
que a maldade dos amigos, a base de
6
carta e permitirão que os judeus continuem li-
sófismas enganosos, prevaleceu sobre a ín- brevemente suas leis.20Ajude-os também a
tegra nobreza de sentimentos dos gober- defender-se de quem os ataca, esse mis-
nantes.7Basta olhar não para as anedotas mo dia treze do mês duodécimo, mês de
que nos contam da antiguidade, senão março.21Porque aquele dia trágico para o povo-
diante de nossos próprios olhos: quanta blo escolhido, o Deus dominador, universal, o
maldades não foram cometidas por essa peste se tornou um dia de alegria.
de governantes indignos! Por isso pro-
8 22Portanto, vocês, judeus, celebrem
curaremos que no futuro todos tenham ase- com toda a solenidade este dia assinalado em-
guarde a tranquilidade e a paz no reino, três suas festas solenes,23para que agora e
9efetuando as alterações convenientes e dic-
no futuro seja uma lembrança de salvação
taminando sempre com benevolência e equi- para vocês e os persas de boa vontade
dê os assuntos que se nos apresentem. tad e uma lembrança de destruição para seus
10Resultando que Amán, de Hamdatá,
inimigos.
macedônio – tinha que ser estrangeiro, não de 24Toda cidade ou região em geral que
nossa sangue e nossa nobreza –, recebendo - não agir de acordo com a presente ordem será
faça por nós como amigo,11experimentou devastada sem piedade a ferro e fogo. Nin-
o trato humano que damos a todos os povos nenhum homem porá o pé nela, e até
blos, até o ponto de terem sido proclamados as feras e as aves a detestarão.
mado nosso pai e reverenciado por todos
dos como virreyes; mas não sabendo
12 O edito chega a todas as províncias
manter-se em sua faixa, tentou arre-
8 de Oleitexto do documento, com força
13
bater-nos o poder e a vida, porque com toda em todas e cada uma das pro-
classe de enganos13nos pediu a morte de províncias, seria tornado público para que os judeus
Mardoqueo, nosso salvador e contínuo estivessem preparados para se vingar de
benfeitor, e a de Ester, nossa intacha- seus inimigos dito dia.
Amán, de dupla extensão, imitando a linguagem das fechar o livro e não ler mais, principalmente quando sa-
cancillerias. vemos o que vem, porque lemos em outro
8,13-17 O edito chega a todas as províncias. ocasión. Mas nós não somos os donos do livro
Com a carta que autoriza o rei a revogar a lei de para ajustar ao nosso gosto a palavra «FIM». Tudo o
Amán, chega também a salvação para todos os judeus o que podemos fazer é arregaçar as mangas, com fé e com ma-
do império, salvação que se traduz em festa e ale- dureza cristã, do máximo critério de justiça com o
gría. Com esses acordes festivos (16-17) gostaríamos qualquer pasagem bíblica que devemos ler e perguntar
ESTER 8 736
14 A toda pressa, obedecendo à ordem do Dalfón, Aspatá, Poratá, Adalía, 8 Aridatá
rei, os correios, montados em cavalos 9 Parmastá, Arisay, Ariday e Vaizatá, os 10
locíssimos, pura sangue, das cocheiras dez filhos de Amã, de Hamdatá, inimigo
reais, partiram rápidos. O édito se pro- dos judeus. Mas não obtiveram saque.
mulgó na fortaleza de Susa. 11 Quando naquele mesmo dia comunica-
15 Mardoqueu saiu da presença do ron al rey o número de vítimas na for-
rei com vestes reais de cor violeta e taleza de Susa, disse12 à rainha Ester:
blanco, uma grande coroa de ouro e um man- –Somente na fortaleza de Susa os judeus
de linho cor púrpura. Na cidade de eles exterminaram quinhentos homens e a
Susa ecoavam gritos de alegria. os dez filhos de Hamã. O que terão feito
16 Para os judeus foi um dia luminoso e nas demais províncias do império? Pede
alegre, gozoso e triunfante. Emdezessete
cada província o que você quiser, e eu te darei; se você desejar algo
cia e cidade onde chegava o decreto do mais, será feito.
rei, os judeus se enchiam de imensa alegria 13 Ester respondeu:
tarnos até onde corresponde à imagem de Deus 9,17-32 Festa de Purim. Segundo Êx 12; 14, depois
amor, justiça e misericórdia que nos revelam outros da morte dos primogênitos, a noite que se sinala
textos ou até onde são a negação completa disso a libertação dos judeus, institui-se uma festa
imagem. conmemorativa. Elementos constitutivos são a data,
9,1-16 Vingança judaica. A chave de leitura unitária um resumo catequético sobre o fato e uma série de
desses versículos é a guerra "santa" do povo prescrições; é a festa da Páscoa. De modo se-
contra os inimigos, de acordo com as velhas tradições de semelhante, a libertação dos judeus no império per-
Deuteronômio, Josué e Juízes, e com alguma influência de dá nascimento a uma festa, e nestes versos tem
textos escatológicos. mos uma dupla notícia sobre sua instituição: uma carta
737 ESTER 16
as províncias do rei Assuero, próximos e eles próprios e seus descendentes, com al-
distantes, 21 encarregando-lhes celebrar anualmente gunas cláusulas sobre ayunos e lamentos
mente os dias quatorze e quinze do mês de ções.
março, 22por ser os dias em que os 32 Assim, o edito de Ester estabeleceu as normas
os judeus ficaram livres de seus inimigos e o para celebrar os dias de Purim, e ficou
mês em que se lhes trocou a tristeza em ale- consignado por escrito.
gria e o luto na festa. Que os declarassem Epílogo do texto hebraico
dias festivos, que se fizessem presentes e dez-
10 osOhabitantes
rei Assuero impôs um tributo a
1
também correram para os pobres.
23 Os judeus, que já tinham começado a do continente e de
fazer, aceitaram o que Mar- lhes escreveu as ilhas. Para
2 suas vitórias militares e a
de Mardoqueo e outra de Ester. A festa de Purim é aqui a interpretação que o próprio Mardoqueu faz
celebrada ainda nos nossos dias pelos judeus do sonho que nos havia sido narrado no começo do
tendo na sinagoga o livro de Ester. livro, e de consignar que tudo se cumpriu cabalmente
10,1-4. 16,1-11 Epílogo do texto hebraico – Inter- te agradeço pela intervenção de Deus. É a maneira
interpretação do sonho de Mardoqueu – Epílogo do como o judaísmo ilustra seus ensinamentos sobre a fé
texto grego. Não poderia faltar uma nota final sobre a em seu Deus e sobre o compromisso do povo para
dignidade à qual foi elevado Mardoqueu. Assim como fazer com que esse Deus seja vivido e sentido pela comu-
também não podia o redator grego deixar de inserir nidad.
ESTER 16 738
Epílogo do texto grego presente carta de los purim. Dijeron que
11O quarto ano do reinado de Ptolomeu era autêntica, traduzida por Lisímaco, filho
e Cleópatra, Dositeo, que dizia ser sacer- de Tolomeo, da comunidade de Jerusa-
dote e levita, e seu filho Tolomeu trouxeram a lén.