Justiça Federal da 5ª Região
PJe - Processo Judicial Eletrônico
18/09/2025
Número: 0811494-20.2025.4.05.8100
Classe: PROCEDIMENTO COMUM CÍVEL
Órgão julgador: 10ª Vara Federal CE
Última distribuição : 11/06/2025
Valor da causa: R$ 1.000,00
Assuntos: Anulação e Correção de Provas / Questões
Segredo de justiça? NÃO
Justiça gratuita? NÃO
Pedido de liminar ou antecipação de tutela? NÃO
Partes Procurador/Terceiro vinculado
SILAS FELICIO DE OLIVEIRA (AUTOR) IGOR OLIVA DE SOUZA (ADVOGADO)
FUNDACAO CESGRANRIO (REU) GUILHERME RIBEIRO ROMANO NETO registrado(a)
civilmente como GUILHERME RIBEIRO ROMANO NETO
(ADVOGADO)
UNIÃO FEDERAL (REU)
Documentos
Id. Data da Documento Tipo
Assinatura
11374 15/09/2025 09:43 Sentença Sentença
1254
PODER JUDICIÁRIO
10ª Vara Federal CE
PROCEDIMENTO COMUM CÍVEL (7) Nº 0811494-20.2025.4.05.8100
AUTOR: SILAS FELICIO DE OLIVEIRA
ADVOGADO do(a) AUTOR: IGOR OLIVA DE SOUZA - DF60845
REU: FUNDACAO CESGRANRIO, UNIÃO FEDERAL
ADVOGADO do(a) REU: GUILHERME RIBEIRO ROMANO NETO - RJ127204
SENTENÇA
EMENTA: DIREITO ADMINISTRATIVO. CONCURSO PÚBLICO. AÇÃO DE OBRIGAÇÃO DE
FAZER. CONCURSO NACIONAL UNIFICADO. AUDITOR-FISCAL DO TRABALHO.
ANULAÇÃO DE QUESTÕES DA PROVA OBJETIVA. VIOLAÇÃO AO EDITAL. EXISTÊNCIA
DE MÚLTIPLAS RESPOSTAS CORRETAS. AMBIGUIDADE. PRINCÍPIOS DA LEGALIDADE,
VINCULAÇÃO AO EDITAL, ISONOMIA E RAZOABILIDADE. LIMITES DO CONTROLE
JUDICIAL. PARCIAL PROCEDÊNCIA.
- Trata-se de ação de obrigação de fazer com pedido de antecipação de tutela em caráter liminar
proposta em face da Fundação CESGRANRIO e da UNIÃO, na qual pretende a concessão da tutela de
urgência para que possa prosseguir regularmente no certame. No mérito, que sejam julgados
procedentes os pedidos para anular as questões indicadas (5, 13, Bloco 4, Manhã, Gabarito Tipo 3;
16,18, 21 e 38, Conhecimentos Específicos - Bloco 4, Tarde, Gabarito Tipo 1) de maneira a atribuir a
respectiva pontuação à nota da parte Autora, com a regular participação no concurso e garantia de
convocação, caso dentro das vagas. - A autora impugna diversas questões, mas verifica-se a presença
do direito apenas em relação às questões de nº 16 e 18 (Conhecimentos Específicos - Bloco 4, Tarde,
Gabarito 1), as quais devem anuladas.
- Procedência Parcial do pedido, com antecipação parcial da tutela provisória de urgência.
1. RELATÓRIO
Trata-se de ação de obrigação de fazer com pedido de antecipação de tutela em caráter liminar proposta por SILAS
FELICIO DE OLIVEIRA em face da Fundação CESGRANRIO e da UNIÃO, na qual pretende a concessão da tutela
de urgência para que possa prosseguir regularmente no certame. No mérito, que sejam julgados procedentes os
pedidos para anular as questões indicadas (5, 13, Bloco 4, Manhã, Gabarito Tipo 3; 16,18, 21 e 38, Conhecimentos
Específicos - Bloco 4, Tarde, Gabarito Tipo 1), de maneira a atribuir a respectiva pontuação à nota da parte Autora,
com a regular participação no concurso e garantia de convocação, caso dentro das vagas.
Narra a parte autora que "conforme estabelecido no item [Link].2.1 do edital de abertura do certame, a aprovação na
prova objetiva estava condicionada à obtenção de, no mínimo, 40% da pontuação nas provas objetivas de
Conhecimentos Gerais (P1) e de Conhecimentos Específicos (P2).".
Informa que "para o cálculo da nota de corte ponderada da Prova Objetiva de Conhecimentos Gerais e da Prova
Objetiva de Conhecimentos Específicos, deve se multiplicar a nota máxima ponderada pelo percentual mínimo de
aproveitamento necessário para que o candidato não seja eliminado, ou seja, pelo percentual de 40%.".
Reporta que "na prova objetiva, a parte Autora alcançou a pontuação final de 56,85 pontos, conforme se verifica da
divulgação do resultado da prova objetiva. No entanto, deparou-se com 6 questões ilegais na prova objetiva, tendo
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em vista que a CESGRANRIO elaborou questões que apresentam erros grosseiros diante da existência de mais de
uma alternativa correta, além de questões que exigiu dos candidatos conhecimentos que não estavam previstos no
conteúdo programático do próprio edital.".
Destaca que "essa situação impactou adversamente a pontuação da parte Autora, de modo a ter sua classificação
prejudicada, em razão da presença de questões ilegais em sua prova.".
Argumenta que "tendo em vista a manutenção do gabarito pela banca examinadora, mesmo diante das inequívocas
ilegalidades constatadas, não restou à parte Autora outra alternativa que não o ajuizamento da presente ação para
resguardar o seu direito de seguir regularmente no certame.".
Pondera que "em que pese o Poder Judiciário não poder atuar em substituição à banca examinadora, apreciando
critérios de formulação das questões ou reavaliando notas atribuídas aos candidatos, ainda assim lhe compete o
poder-dever de realizar o controle de legalidade dos atos praticados dentro do certame e da vinculação ao edital, em
especial para anular questões que não estavam previstas no conteúdo programático do edital e questões que
apresentam erro grosseiro diante da existência de duas ou mais alternativas corretas.".
Afirma a parte autora que seis questões específicas da prova apresentaram graves irregularidades que comprometem
o resultado e ferem o edital. São elas:
Questão 05 (Conhecimentos Gerais - Bloco 4, Manhã, Gabarito Tipo 3): "De acordo com o
gabarito definitivo (Doc.11), a banca examinadora indicou a alternativa "B" como correta, a qual
afirma que as "normas para avaliação dos resultados dos programas financiados com recursos do
orçamento" devem ser incluídas como um dos elementos essenciais na elaboração da Lei de
Diretrizes Orçamentárias. Entretanto, a alternativa "D", que define "limites para as suplementações
orçamentárias no exercício", também desempenha um papel crucial no planejamento, ao estabelecer
as prioridades e metas para o exercício financeiro.".
Questão 13 (Conhecimentos Gerais - Bloco 4, Manhã, Gabarito Tipo 3): "Em síntese, a questão
trata do uso da Inteligência Artificial (IA) no contexto do direito e sua aplicação no sistema de
justiça. Contudo, o enunciado apresenta uma grave falha devido à falta de alternativa correta para
responder o enunciado da questão, o que impede que o candidato faça uma classificação precisa, de
maneira a evidenciar o erro grosseiro na questão em referência. Segundo o gabarito definitivo (Doc.
11), a banca examinadora indicou a alternativa "E" como correta, que afirma: "Poder contribuir como
assistente de busca de jurisprudência". Contudo, compete esclarecer que a alternativa "E", assim,
como todas as demais, está incorreta, haja vista que as alternativas apresentam falhas de formulação,
incorreção e omissão de informações, o que faz com que todas as alternativas estejam incorretas.".
Questão 16 (Conhecimentos Específicos - Bloco 4, Tarde, Gabarito Tipo 1): "De acordo com o
gabarito definitivo (Doc. 15), a banca examinadora indicou a alternativa "C" como correta, na qual
indica que os "intervalos curtos entre essas conferências com temáticas semelhantes" como um dos
desafios no processamento das deliberações em conferências de políticas públicas. No entanto, a
alternativa "A", que indica "demanda rigorosa por prestação de contas à sociedade sobre os
resultados efetivos" também é determinante para descrever um dos principais desafios nesse
contexto. Isso porque, um dos principais desafios nas conferências de políticas públicas é a prestação
de contas à sociedade. Essas conferências geram grandes expectativas sobre a implementação de suas
deliberações, de modo que a falta de transparência sobre os resultados gera frustração e desconfiança
na sociedade como um todo.
(...)
Portanto, considerando que tanto a alternativa "C" quanto a alternativa "A" abordam questões
relevantes no processamento das conferências de políticas públicas, é inequívoca a caracterização de
erro grosseiro na formulação da questão, diante da presença de duas alternativas corretas. Tal
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circunstância viola o próprio edital normativo, conforme disposto no item [Link], no qual determina
que: "Cada questão das provas objetivas apresentará cinco alternativas (A; B; C; D; E) e uma única
resposta correta." - grifo nosso).".
Questão 18 (Conhecimentos Específicos - Bloco 4, Tarde, Gabarito Tipo 1): Em síntese, a questão
exige dos candidatos conhecimentos acerca dos eixos que envolve o Sistema de Garantia de Direitos
(SGD), de modo que a banca examinadora apontou como correta a alternativa "E" no gabarito oficial
(Doc. 15), na qual indica o eixo da disseminação do direito como responsável por "preparar a
sociedade como um todo para vivenciar a cidadania e, especificamente, discutir, contextualizar, em
perspectiva crítica, a garantia desses direitos". No entanto, a análise dos eixos do Sistema de Garantia
de Direitos, conforme descrito na literatura, aponta que a alternativa "C" (promoção do direito)
também é correta para definir o eixo que possui o escopo de preparar a sociedade para vivenciar a
cidadania e discutir criticamente a garantia dos direitos.
(...)
Deste modo, resta evidente que a formulação do gabarito contém erro grosseiro grave, havendo duas
alternativas corretas, o que aflige o próprio edital normativo, conforme disposto no item [Link]: "Cada
questão das provas objetivas apresentará cinco alternativas (A; B; C; D; E) e uma única resposta
correta." - grifo nosso).
Questão 21 (Conhecimentos Específicos - Bloco 4, Tarde, Gabarito Tipo 1): Com relação ao
gabarito oficial, a banca examinadora indicou a alternativa "A" como correta, que aponta a
propriedade como a principal diferença entre servidão e escravidão. No entanto, a questão ultrapassa
os parâmetros estabelecidos pelo edital e fere o disposto no item [Link], pois as alternativas "A", "D"
e "E" também são aplicáveis ao contexto descrito na questão.
(...)
Pelo exposto, diante da caracterização de erro grosseiro na questão, em razão da existência de quatro
respostas corretas, mostra-se imperiosa a anulação da questão em referência, com a devida atribuição
da nota à parte Autora.
Questão 38 (Conhecimentos Específicos - Bloco 4, Tarde, Gabarito Tipo 1): A anulação da
questão em análise se faz necessária em decorrência da evidente extrapolação do escopo estabelecido
no edital do concurso, tendo em vista que o conhecimento necessário para resolver a questão,
referente aos modelos teóricos relacionados à promoção da saúde, não constava no conteúdo
programático no edital.
(...)
Dessa forma, a questão ultrapassa o escopo estabelecido pelo edital ao exigir do candidato um
conhecimento aprofundado do modelo de promoção da saúde de Pender, que busca integrar a ciência
do comportamento às teorias de enfermagem, com o objetivo de identificar os fatores biopsicossociais
que influenciam comportamentos saudáveis. Essa abordagem vai além do que foi estipulado nos
comandos do edital para o presente concurso. Portanto, por exigir conhecimentos que não constavam
sob quaisquer formas no conteúdo programático, há evidente afronta ao princípio da vinculação ao
edital, de modo que a questão em referência merece ser anulada judicialmente, com a devida
atribuição da nota à parte Autora.
Deferido o pedido de gratuidade da justiça nos termos do art. 98 e ss. do CPC/2015.
A União apresentou manifestação sobre o pedido de tutela de urgência (id. 103157641) sustentando que a medida
pleiteada não atende aos requisitos legais do art. 300 do CPC, pois não há demonstração suficiente da probabilidade
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do direito nem do perigo de dano irreparável. Alega que o pedido esvazia o próprio objeto da ação, uma vez que visa
à anulação imediata de questões da prova e à consequente alteração do resultado do concurso, o que é vedado pela
legislação aplicável à Fazenda Pública (Lei nº 8.437/92). Argumenta, ainda, que a elaboração, aplicação e correção
das provas são de competência exclusiva da Fundação Cesgranrio, não cabendo à União responder por atos que não
praticou.
No mérito, afirma que o controle judicial sobre concursos públicos é limitado e não pode alcançar o conteúdo das
questões ou os critérios de correção utilizados pela banca, salvo em casos de flagrante ilegalidade ou
incompatibilidade com o edital, o que não se verifica no caso concreto. Ressalta que a pretensão do autor configura
tentativa de substituição da banca examinadora pelo Judiciário, contrariando a tese firmada pelo STF no Tema 485
da repercussão geral. Por fim, adverte que o deferimento da medida liminar violaria os princípios da isonomia,
impessoalidade e eficiência, incentivaria a judicialização em massa do certame e comprometeria a regularidade do
concurso, motivo pelo qual requer o indeferimento integral do pedido.
Na contestação com id. 103157493 , a União alega, em síntese, que não possui legitimidade para compor o polo
passivo da demanda, uma vez que os atos impugnados na petição inicial são de responsabilidade exclusiva da
Fundação Cesgranrio, entidade encarregada da elaboração, aplicação e correção das provas do Concurso Público
Nacional Unificado (CPNU). Com fundamento no art. 485, inciso VI, do Código de Processo Civil, requer sua
exclusão do feito. No mérito, sustenta que os atos administrativos relacionados ao certame gozam de presunção de
legitimidade, tendo sido realizados em conformidade com as normas previstas no edital, de maneira isonômica e
impessoal. Destaca, ainda, que a atuação do Poder Judiciário em concursos públicos deve se limitar aos casos de
flagrante ilegalidade, hipótese que, segundo a União, não se verifica no presente caso.
A FUNDAÇÃO CESGRANRIO (id 103156108) sustenta que não se verificando no caso em tela a existência da
circunstância essencial à intervenção do Poder Judiciário, em razão da inexistência violação ao Edital do concurso e
à lei, as pretensões autorais não merecem prosperar, seja em suas razões de mérito, quanto em sede de liminar, sendo
certo que não restaram preenchidos os requisitos para concessão da tutela. No mérito, pugna pela improcedência do
pedido autoral.
É o relatório.
2. FUNDAMENTAÇÃO
2.1. Da necessidade de integração à lide dos demais candidatos
Cumpre observar, inicialmente, que o entendimento recorrente neste Juízo, em consonância com o posicionamento
do Superior Tribunal de Justiça, vem sendo o de que os concorrentes, ainda que aprovados, não titularizam direito
líquido e certo à nomeação, mas mera expectativa de serem nomeados, sem qualquer vinculação jurídica apriorística.
Esse entendimento encontra amplo respaldo tanto na jurisprudência do STJ como na do TRF da 5ª Região:
"A jurisprudência desta Corte Superior é pacífica no sentido de que a citação dos demais candidatos
aprovados no concurso público como litisconsortes passivos é desnecessária, pois não há
comunhão de interesses entre eles, e os candidatos aprovados não possuem direito líquido e certo à
nomeação, tendo apenas expectativa de direito" (AgRg no AREsp 161.355/PI, Rel. Ministro
ARNALDO ESTEVES LIMA, PRIMEIRA TURMA, julgado em 20/08/2013, DJe 06/09/2013; AgRg
nos EDcl no RMS 30.054/SP, Rel. Ministro OG FERNANDES, SEXTA TURMA, julgado em
09/10/2012, DJe 18/10/2012; AgRg nos EDcl no Ag 1344291/DF, Rel. Ministro HERMAN
BENJAMIN, SEGUNDA TURMA, julgado em 15/03/2011, DJe 01/04/2011, dentre outros). (grifei)
"É firme a jurisprudência no sentido de que os demais candidatos aprovados em concurso público,
por possuírem mera expectativa de direito à nomeação, não podem ser considerados litisconsortes
passivos necessários." (AC 200884000039460, Desembargador Federal Luiz Alberto Gurgel de Faria,
TRF5 - Terceira Turma, DJE - Data:03/05/2012 - Página::555) (grifei)
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Eventual inclusão dos referidos candidatos no polo passivo desta demanda certamente tumultuaria o processo,
inviabilizando a regular prestação jurisdicional.
Assim, o posicionamento atual deste Juízo é o de que não se faz necessária a citação de nenhum dos outros
candidatos aprovados no referido concurso para o regular andamento do processo, estando, portanto, a parte autora
dispensada de tal providência.
2.2. Da ilegitimidade passiva da União
O edital que rege o certame objeto desta ação dispõe em seu item 1.1 - O Concurso Público Nacional Unificado -
2024 será regido por este Edital e executado pela Fundação Cesgranrio sob a coordenação geral do Ministério da
Gestão e da Inovação em Serviços Públicos - MGI.".
Cabe, portanto, ao Ministério da Gestão e da Inovação em Serviços Públicos - MGI (representado juridicamente pela
União), na qualidade de instituição responsável pela organização/coordenação do concurso, promover o eventual
reposicionamento da autora na lista de classificação, decorrente de eventual concessão da pontuação pretendida, do
que ressai a legitimidade passiva da União para a causa.
Ante o exposto, rejeito a preliminar.
2.3. Do mérito
2.3.1. Controle judicial da banca examinadora na elaboração e correção das provas
Ainda que se reconheça a discricionariedade técnica da banca examinadora na elaboração e correção das provas, essa
não é imune ao controle judicial quando se verificam ilegalidades evidentes, como ambiguidade grave, múltiplas
respostas corretas ou extrapolação do conteúdo programático.
Conquanto já esteja superado o dogma da infalibilidade do Estado-administração (the king can do no wrong), para o
resguardo da harmonia e da independência dos poderes, não é dado ao Poder Judiciário imiscuir-se na
discricionariedade do ato administrativo.
Em verdade, o controle exercido pelo Poder Judiciário cinge-se ao aspecto da legalidade do ato e, com o advento da
CF/1988, também da sua moralidade, de sorte que a conveniência, a oportunidade, a eficiência e a justiça do ato não
podem ser alvo de apreciação judicial.
Importante registrar que o STF já decidiu, quanto ao tema, quando do julgamento do RE 632.853/CE, sob o regime
de repercussão geral (Tema 485), que "não compete ao Poder Judiciário, no controle de legalidade, substituir banca
examinadora para avaliar respostas dadas pelos candidatos e notas a elas atribuídas. (...) Excepcionalmente, é
permitido ao Judiciário juízo de compatibilidade do conteúdo das questões do concurso com o previsto no edital do
certame" (RE 632.853, Relator Ministro Gilmar Mendes, Tribunal Pleno, Repercussão Geral, DJe 29/6/2015).
O sistema jurídico brasileiro tem como fundamento a legalidade e o controle dos atos administrativos, especialmente
em concursos públicos, cuja vinculação ao edital é absoluta (art. 37, caput e inciso I, da CF/88).
2.3.2. Da Análise das Questões Impugnadas
Conhecimentos Gerais - Bloco 4- Manhã (Gabarito 1: Questão 4/ Gabarito 2: Questão 3/ Gabarito 3: Questão
05)
A questão trata dos desafios enfrentados na efetivação das deliberações oriundas das conferências de políticas
públicas. O gabarito da banca apontou como correta a alternativa "C", que trata dos "intervalos curtos entre
conferências com temas semelhantes".
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A questão versa sobre as prioridades para o Orçamento de 2023. O gabarito da banca apontou como correta a
alternativa "B" "normas para avaliação dos resultados dos programas financiados com recursos do orçamento".
Afirma a parte autora que a alternativa "D", que define "limites para as suplementações orçamentárias no exercício",
também desempenha um papel crucial no planejamento, ao estabelecer as prioridades e metas para o exercício
financeiro.".
Portanto, diz a parte autora, configura erro grosseiro na formulação da questão, uma vez que ambas as alternativas
são corretas.
Justifica a banca examinadora que "O trecho em destaque (Gabarito: B) na questão faz referência explícita ao projeto
de Lei de Diretrizes Orçamentárias (LDO), ao abordar expressamente as 'prioridades para o Orçamento do exercício',
conforme previsto na CF/88, em seu art. 165, "§ 2º. A lei de diretrizes orçamentárias compreenderá as metas e
prioridades da administração pública federal, estabelecerá as diretrizes de política fiscal e respectivas metas, em
consonância com trajetória sustentável da dívida pública, orientará a elaboração da lei orçamentária anual, disporá
sobre as alterações na legislação tributária e estabelecerá a política de aplicação das agências financeiras oficiais de
fomento." Por sua vez, o PPA estabelece, "de forma regionalizada, as diretrizes, objetivos e metas da administração"
e não a definição de prioridades, que cabe à LDO; a LOA estima a receita e a despesa do exercício, detalhando o
orçamento fiscal, da seguridade social e de investimentos das empresas estatais.".
O enunciado apontado como gabarito referiu-se, de fato, ao conhecimento que o examinador pretendeu cobrar, qual
seja: noções de orçamento público.
Conhecimentos Gerais - Bloco 4- Manhã (Gabarito1: Questão 13 / Gabarito2: Questão 14 / Gabarito 3:
Questão 13)
A questão trata do uso da Inteligência Artificial (IA) no contexto do direito e sua aplicação no sistema de justiça.
Aponta a parte autora o erro grosseiro na questão em referência, vista que as alternativas apresentam falhas de
formulação, incorreção e omissão de informações, o que faz com que todas as alternativas estejam incorretas.
Segundo o gabarito definitivo, a banca examinadora indicou a alternativa "E" como correta que afirma "Poder
contribuir como assistente de busca de jurisprudência".
Neste ponto, fundamentam a parte autora que inexiste resposta correta dentre as alternativas apresentadas. Para
embasar suas alegações, ancorou-se em laudo elaborado pela Dra. Tainá Aguiar Junquilho, a qual entendeu que
existem erros grosseiros evidenciados pela incompatibilidade entre o enunciado e as alternativas oferecidas.
Todavia, não é possível concluir, com base nas alegações expendidas na inicial, que houve flagrante erro a ensejar a
intervenção do poder judiciário. No particular, malgrado a referência à laudo elaborado por especialista e a estudos
de doutrinadores, a fundamentação da parte autora foi genérica, não apontando de maneira precisa o erro da banca
examinadora.
Conhecimento Específico - Bloco 4 - Tarde (Gabarito1: Questão 16/ Gabarito 2/ Questão 16 / Gabarito 3:
Questão 17)
A questão trata dos desafios enfrentados na efetivação das deliberações oriundas das conferências de políticas
públicas. O gabarito da banca apontou como correta a alternativa "C", que trata dos "intervalos curtos entre
conferências com temas semelhantes".
Ocorre que, conforme destacam Marta Arretche e outros estudiosos da área de políticas públicas, o maior desafio
efetivo enfrentado por esses fóruns é a prestação de contas à sociedade, o que está descrito com precisão
na alternativa "A".
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A presença de duas alternativas plausivelmente corretas, ambas com amparo na doutrina, viola o edital, que
exige apenas uma resposta correta por questão objetiva, acarretando vício formal insanável.
Conhecimentos Específicos - Bloco 4, Tarde (Gabarito 1: Questão 18/ Gabarito 2/ Questão 19 / Gabarito 3:
Questão 20)
A questão exige dos candidatos conhecimentos acerca dos eixos que envolve o Sistema de Garantia de Direitos
(SGD). A banca examinadora apontou como correta a alternativa "E" "da disseminação do direito".
A questão solicita a identificação do eixo do Sistema de Garantia de Direitos (SGD) que "objetiva preparar a
sociedade como um todo para vivenciar a cidadania e, especificamente, discutir, contextualizar, em uma perspectiva
crítica, a garantia desses direitos". O gabarito oficial apontou a alternativa "E" ("da disseminação do direito").
Acolho a argumentação da autora, baseada em referência, conforme citada na inicial, de que a descrição apresentada
no enunciado se alinha com o conceito do eixo "da promoção do direito" (alternativa "C").
Conforme exposto na inicial, "o eixo da promoção do direito no sistema de Garantia de Direitos visa capacitar a
sociedade para o exercício pleno da cidadania. Deste modo, este eixo envolve tanto a educação quanto a
conscientização sobre os direitos, estimulando a participação ativa e a reflexão crítica sobre o papel da cidadania e os
direitos garantidos.".
O eixo da "promoção" envolve um processo mais aprofundado de capacitação, engajamento e reflexão crítica,
extrapolando a mera "disseminação" de informações. A existência de duas alternativas ("C" e "E") que podem ser
consideradas corretas para descrever o conceito solicitado pelo enunciado evidencia ambiguidade e viola a exigência
de objetividade e unicidade de resposta do edital.
Conhecimentos Específicos - Bloco 4, Tarde (Gabarito1: Questão 21/ Gabarito2: Questão 22/ Gabarito 3:
Questão 22)
A questão exige dos candidatos conhecimentos sobre a história do trabalho e a sua intrínseca relação entre a força
sobre os meios de produção e o controle deles, observado como se estabelece a diferença basal entre servidão e a
escravidão.
A banca examinadora apontou como correta a alternativa "A" "propriedade".
Sustenta parte autora que a questão ultrapassa os parâmetros estabelecidos pelo edital e fere o disposto no item
[Link], pois as alternativas "A", "D" e "E" também são aplicáveis ao contexto descrito na questão.
Não assiste razão a parte autora.
Conforma esclarece a Banca Examinadora a questão está prevista no EDITAL Nº 04, de 10 de janeiro de 2024 (id 10
3155376) , tendo conteúdo previsto no Anexo IV - CONTEÚDOS PROGRAMÁTICOS, no seguinte item do Edital
dessa Seleção Externa: "O trabalho humano e sua evolução histórica: trabalho escravizado, trabalho feudal em
servidão, trabalho livre desprotegido".
Contata-se referida previsão no "EIXO TEMÁTICO 3 - SOCIOLOGIA E PSICOLOGIA APLICADAS AO
TRABALHO (...) 1.8 O trabalho humano e sua evolução histórica: trabalho escravizado, trabalho feudal em servidão,
trabalho livre desprotegido.
No caso, a questão pretende identificação de um traço essencial que estabeleça a distinção entre o trabalho executado
em regime de servidão feudal e aquele realizado em regime escravocrata, como se lê no comando: "[...] observa-se
que a diferença basal entre a servidão e a escravidão se estabelece na", tendo como correta a alternativa "A"
"propriedade".
Assinado eletronicamente por: EMANUEL JOSE MATIAS GUERRA - 15/09/2025 09:43:45 Num. 113741254 - Pág. 7
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O enunciado da alternativa considerada como gabarito encontra harmonia com a previsão do "EIXO TEMÁTICO 3 -
SOCIOLOGIA E PSICOLOGIA APLICADAS AO TRABALHO (...) 1.8 O trabalho humano e sua evolução
histórica: trabalho escravizado, trabalho feudal em servidão, trabalho livre desprotegido".
O enunciado apontado como gabarito referiu-se, de fato, ao conhecimento que o examinador pretendeu cobrar, qual
seja: a questão pretende identificação de um traço essencial que estabeleça a distinção entre o trabalho executado em
regime de servidão feudal e aquele realizado em regime escravocrata.
Conhecimentos Específicos - Bloco 4, Tarde (Gabarito1: Questão 38/ Gabarito2: Questão 40 / Gabarito 3:
Questão 39)
Alega a parte autora que a anulação da questão em análise se faz necessária em decorrência da evidente extrapolação
do escopo estabelecido no edital do concurso, tendo em vista que o conhecimento necessário para resolver a questão,
referente aos modelos teóricos relacionados à promoção da saúde, não constava no conteúdo programático no edital.
Não se vislumbra qualquer irregularidade no gabarito oficial divulgado pela banca examinadora, inexistindo afronta
aos princípios da legalidade ou da razoabilidade. Não restou evidenciado erro material manifesto, ambiguidade no
enunciado, ausência de previsão no edital ou desconformidade com o conteúdo programático previamente
estabelecido. Diante da ausência desses vícios, impõe-se o respeito à discricionariedade técnica da banca, sendo
vedada a intervenção do Poder Judiciário no mérito administrativo do certame.
A autora impugna diversas questões, mas verifica-se a presença do direito apenas em relação às questões de nº 16 e
18 (gabarito 1), as quais devem anuladas.
3. DISPOSITIVO
Ante o exposto, JULGO PARCIALMENTE PROCEDENTE o pedido, para determinar que, em relação à parte
autora, sejam consideradas anuladas as questões nº 16, 18 (Conhecimentos Específicos - Bloco 4, Tarde, Gabarito 1),
com a consequente atribuição da pontuação integral dessas questões à nota do autor, para fins de reclassificação
provisória e eventual prosseguimento nas demais etapas do certame.
Atendidos os pressupostos legais, CONCEDO PARCIALMENTE A TUTELA DE URGÊNCIA, para determinar
que, em relação à parte autora, sejam consideradas anuladas as questões nº 16, 18 (Conhecimentos Específicos -
Bloco 4, Tarde, Gabarito 1), do Concurso Nacional Unificado - Trabalho e Saúde do Servidor, com a consequente
atribuição da pontuação integral dessas questões à nota do autor, para fins de reclassificação provisória e eventual
prosseguimento nas demais etapas do certame.
Diante da necessidade de fixação equitativa dos honorários advocatícios devidos à parte autora, em razão do baixo
valor da causa, condeno as rés ao pagamento pro rata, com amparo na Tabela de Honorários vigente na OAB/CE na
data desta decisão (item 4.1) (consultada em [Link] conforme estabelece o
§ 8º-A do art. 85 do CPC.
Intimem-se.
Fortaleza, na data indicada no sistema.
EMANUEL JOSÉ MATIAS GUERRA
Juiz Federal Substituto da 14ª Vara/CE
Respondendo pela 10ª Vara/CE
(cgs)
Assinado eletronicamente por: EMANUEL JOSE MATIAS GUERRA - 15/09/2025 09:43:45 Num. 113741254 - Pág. 8
[Link]
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