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Primeiro Dia na Universidade: Encontros e Desencontros

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QUANDO

O
CONHECI

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– o que você vê, Vida?

– um suspiro de alguém que há muito tempo estava sufocado.

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Capitulo I
Hugo

O outono tinha chegado, aquela manhã estava fria, me fazendo lembrar que agora
eu estava no Algarve e não mais na minha terra natal. Me levantei com o que eu
acreditava ser tempo suficiente para tomar meu banho, ajeitar meu cabelo e chegar na
hora certa do meu primeiro dia da universidade. Mas como de costume, meu cabelo
lutava contra minha vontade, me fazendo questionar, o porquê de eu ainda não ter
passado a tesoura nele, mas logo me lembro, não quero parecer desumilde, mas
verdades sejam ditas, eles são lindos demais para serem cortados assim.

Fico na frente do espelho, jogando o cabelo pra um lado e depois para o outro,
nada o fazia ficar bom, passo creme para melhorar os cachos, chacoalho a cabeça, dou
pulos tudo que for necessário para ele ficar como eu queria. Olho para o relógio.

— São 8 horas da manhã! — corro pra agarrar minha mochila e ir pra universidade.

Como pode uma pessoa se atrasar mesmo acordando adiantado?

A universidade não é longe da minha casa, se eu fosse rápido, não me atrasaria


tanto.

Aquele era um péssimo dia para isso, eu tinha aula de análise, teoria e criação
musical, do senhor Álvaro. Meus amigos tinham me dito para fazer o possível para
chegar antes do professor, pois ele odeia que cheguem tarde na aula dele.

Quando cheguei na porta da sala, me deparo com o senhor Álvaro e mais um ra-
paz na porta. O rapaz não era a pessoa mais atraente que já vi, tinha cachos quase como
os meus, mas bem menos cuidados, completamente embaraçado. Ele não tinha cheiro de
nada, era completamente nulo, ele parecia bagunçado, mas limpo, algo estranho de ver.
Nas suas costas tinha uma case que possivelmente carregava um violino. O professor o
encarava nervoso, seus olhos verde-escuros e sua sobrancelha trêmula.

O silêncio entre os dois parecia constrangedor, mas assim que o Sr. Álvaro notou
minha presença, virou seus olhos para mim como se não acreditasse no que estava
vendo.

— Esta é a aula de análise, teoria e criação musical? — perguntou envergonhado

O garoto abre um sorriso de canto de rosto, provocador, dava pra sentir que era
pro Sr. Álvaro

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— Que ironia, me parece que eu não sou o único irresponsável aqui — Ele disse
apontando com a cabeça pra mim.

Às vezes não é necessário muito esforço pra identificar um otário…

— Cala a boca! Entrem, antes que eu mude de ideia.

Pelo que os meus amigos tinham me dito, o professor, assim como grande parte
dos professores universitários, tinha uma extrema falta de doçura e adorava pegar no pé
daqueles que, de alguma forma, iam contra seus princípios ou opiniões. E lá estávamos
nós chegando atrasados na aula dele.

— Os dois não precisam se sentar, podem vir para a frente da sala, pois, como eu
estava explicando há 40 minutos, antes de vocês chegarem, hoje teremos uma breve
análise sobre suas capacidades auditivas, e, portanto, faremos uma atividade em dupla.
Ambos tentarão sincronizar uma música de minha escolha, a sincronia entre dois músicos
é a melhor forma de analisar se o músico é talentoso ou apenas um amador.

Ele mandou a dupla que estava tocando antes de chegarmos voltar para seus
lugares e apontou para a frente da sala, onde eu e o garoto deveríamos ficar. Ele tirou o
violino do estojo, eu fui em direção ao piano da sala. O professor nos deu uma música
consideravelmente fácil, “Duo des Fleurs”.

Sento em frente ao piano, vejo todas aquelas teclas, sinto algo estranho, mas famil-
iar, reconfortante, mas solitário. Aquelas lembranças voltam a minha mente, sinto os
braços dela me cobrindo, me abraçando. Por que depois de tanto tempo, eu ainda tenho
essas lembranças quando sento em frente a esse piano?

— Eu inicio e, assim que você achar que deve me acompanhar, você o faz — disse
o rapaz me tirando do transe

balanço a cabeça, pouco confiante. Ele nota minha estranheza, dava pra notar
qualquer um notaria, mas ele ignora e inicia a música.

Ele passa por uma, duas, três, quatro pautas e eu por mais que tentasse afundar
meus dedos nas teclas, eu não conseguia. Meus olhos se embaçam, um frio inexplicável
tomava meu corpo, meus dedos tremiam, como a muito tempo não tremiam.

— Toca! Por favor ! Toca! — eu pensava implorando para as minhas mãos me ou-
vissem

Eu não sei quanto tempo fiquei ali parado, quando o garoto já incomodado, parou
de tocar, bateu de leve com o arco do violino sobre o piano, me fazendo dar um breve
salto e disse — Você sabe que, para tocar, tem que mover seus dedos, não sabe? — ele
parecia impiedoso na sua fala, muito mais do que zombeteiro, mas ainda assim, fez toda
a sala cair no riso.

Eu piscava freneticamente, finalmente voltando à realidade, peço desculpas, e digo


que não estava me sentindo bem. Sem mais nem menos saio porta a fora, ofegante, corro
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para o corredor, procurando ar que me faltava, olho para a porta da sala penso em voltar,
mas seria vergonhoso demais.

Fico sentado no jardim do campus esperando a próxima aula começar, fico olhando
para o céu, onde mesmo ensolarado, pouco me aquecia, fecho os olhos pensando o
porque de tudo aquilo ter se passado exatamente naquele momento, eu já não tinha mais
um ataque de ansiedade ao tocar há muito tempo.

Com meus olhos fechados, adormeci ali mesmo na grama, mas logo acordei
assustado, ao ouvir o som de algo sendo jogado ao meu lado. Quando abro meus olhos
vejo aquele garoto, em pé na minha frente, e do meu lado minha mochila que eu tinha
esquecido dentro da sala.

— você esqueceu sua mochila

— Obrigado… — digo tentando me recompor mas ele não parecia se importar, pois
começou a virar as costas e a caminhar — espera! Eu queria me desculpar por…

— guarde suas desculpas, porque eu não me importo com elas… — disse ele se
afastando sem olhar pra trás.

Que idiota...

— Vejo que você já fez um amigo — disse minha amiga Gabriela, chegando com
um garoto ao seu lado.

Gabriela está no segundo ano da universidade, eu a conheci junto do seu amigo


Eduardo, nas festas e recepções de calouros antes do semestre académico, assim que
eu cheguei no algarve.

Eu não conhecia aquele garoto que a acompanhava, ele e ra alto, forte, eu poderia
apostar que ele estava nos times de esporte da universidade, ele parecia mais velho que
eu, charmoso ao ponto de conseguir conquistar qualquer um só com um sorriso.

— Amigo? Não aquele cara é um idiota… — sussurro como se tivesse medo de


que o garoto mesmo distante ainda pudesse me ouvir

— Pois é, ele nem tenta disfarçar — replicou o garoto que veio com a Gabriela

— Eu juro que nunca vi alguém tão idiota na minha vida.

— Eu sei, é difícil ter um irmão assim…

— ele é teu irmão? — pergunto constrangido.

— Sim, mas não se preocupe, você não disse nada que o resto da universidade já
não tenha dito — respondeu ele sorrindo — Aliás, prazer meu nome é Gustavo.

— prazer eu sou Hugo. — digo apertando sua mão ainda constrangido

Logo após nos cumprimentarmos ele dá um beijo na bochecha da Gabriela e segue


seu caminho andando em direção à aquele idiota.
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— Você poderia ter me dito pra calar a boca, se sabia que eles são irmãos.

— E perder essa cena ?

— Como pode aqueles dois serem irmãos? Eles parecem tão…

— Diferentes? — completou Gabriela — é porque eles são! O Gustavo é um amor


de pessoa, conhecido por todos na universidade, o puro suco da popularidade, difícil não
gostar dele. Já por outro lado o Theo, o irmão dele, anda sempre com aquela cara es-
tranha, não fala com quase ninguém, só aparece nas festas da universidade quando o ir-
mão o arrasta, mas pelo que eu ouvi falar, grande parte dos professores o adoram, dizem
que ele tem um talento que raramente se vê entre os alunos. Esse tipo de comentário
vindo dos professores deve aumentar o ego dele fazendo ele agir assim…

Théo… então esse era o nome dele, um idiota que não aceita agradecimentos e
nem apresentações.

— não, ele parece ser um idiota crónico, não acredito que ele tenha criado essa
personalidade amarga por causa dos elogios dos professores.

– Bem, acho melhor você se acostumar com ele, pois você o verá muitas vezes
pelo resto do ano, inclusive ele estará na festa do Saulo que vamos hoje!

– mas não vamos a festa nenhuma… hoje é segunda-feira...

– vamos sim! Gustavo acabou de me convidar e aparentemente ele vai arrastar o


irmão com ele.

Théo

Enquanto eu caminhava em direção a saída do campus, Gustavo põe seu braço


sobre meu pescoço, mesmo me pegando desprevenido eu não me assusto, ele é o único
que tem intimidade o suficiente comigo nesse campus pra fazer isso.
– Como você está irmãozinho? – perguntou ele sorrindo
– Como sempre, preocupado e sem paciência – respondo tirando o braço dele de
cima de mim.
– eu notei, você não precisava ter sido rude com o rapaz daquele jeito.
– Eu imagino que não, mas às vezes se trata de precisar, mas de ter que.
ele volta a por seu braço sobre meu pescoço, me puxando para mais perto – não
seja assim – ele olha para o céu e respira fundo como um cão farejador — olha você está
sentindo esse cheiro?
— Sim… — eu disse, tapando meu nariz. — Tem um idiota fumando erva aqui.
— Não! Não é esse cheiro que eu quero dizer — disse ele revirando os olhos como
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se eu não tivesse entendido algo óbvio. — Respira de novo, meu irmão!
A única coisa que eu podia sentir era o cheiro da erva.
— Não, desculpa — digo balançando a cabeça em negação —, mas eu só sinto o
cheiro de maconha.
Ele olhou para mim com um sorriso assustador.
— É CHEIRO DE CALOURAS! — ele disse animado, como um cão prestes a
receber sua dose diária de ração. Fiquei olhando pra ele sem expressão. — Você sabe o
que acontece quando as calouras chegam no campus para o início do ano letivo? — ele
perguntou.
Saber eu sei, eu só não entendo qual a esperança dele de que eu me importo com
isso. Continuei encarando-o sem expressão. Ele ficou em silêncio por um segundo
esperando que eu respondesse.
— Exatamente! FESTA! — gritou ele com um sorriso de orelha a orelha.
Levantei minha sobrancelha esquerda, tentando mostrar minha mais pura indifer-
ença àquele tópico, mas isso não o abalou, portanto ele continuou a explicar:
— Saulo vai fazer a Festa do Juramento hoje à noite e nós vamos!
Saulo é o melhor amigo do Gustavo e eu o odeio. Ele é esnobe, seu pai é um político
famoso, com opiniões e ações questionáveis, aquele tipo de pessoa que caça por es-
porte. O pai do Saulo é amigo do meu pai. Gustavo e Saulo, por razões também ques -
tionáveis, sempre foram influenciados a serem amigos por conveniência. Acho que, com o
tempo, os dois acabaram se acostumando e até gostando um do outro..
— Aonde você vai? — perguntou ele, me vendo virar as costas e andar para longe.
— Vou para minha casa, não vou na festa dele, ele é um babaca e você sabe disso.
Gustavo correu e agarrou meu braço direito, me fazendo parar de andar.
— Por favor, Théo, vamos… essa festa será ótima — disse ele, olhando me nos
olhos com olhar de súplica.
— Não, eu não vou! Solte meu braço.
— Se você vier comigo, na próxima reunião de família posso dizer à mamãe que
você está doente, assim você não precisará ir para Lisboa.
Agora ele tinha conseguido chamar a minha atenção. Eu odeio muitas coisas, e o
Saulo, sem dúvidas está no top 5, mas reuniões em família conseguem estar no top 3.
— Perfeito, então te vejo na festa do Saulo — respondi abrindo um sorriso mais que
malicioso.
Gustavo aperta meu braço, me parando novamente.
— Aliás, a vovó ligou, ela parece preocupada que você esteja solitário.
Agora está explicado o porquê de Gustavo estar me chamando para ir a esta festa.
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— A vovó tem que aprender. Não tenho solidão, mas sim solitude.
— Será que é verdade ou só diz isso para se convencer? — ele respondeu.
Umedeço meus lábios, respirei fundo e abro um sorriso tentando não parecer falso.
— Diga à vovó que estou bem. — Ele concorda com a cabeça.

Hugo
No horário do almoço fomos todos para o refeitório, onde encontrei aquele garoto
novamente, dessa vez estava sentado em uma mesa sozinho comendo um sanduíche e
olhando para um caderno de partituras. Gustavo chama Gabriela para se sentar na
mesma mesa que o irmão dele e, eu sou arrastado junto a eles, mesmo contra meu gosto.
Sentamos na mesa e ele nem se quer levanta o rosto para ver quem se sentava ali,
ele não se importava.
— Oi Théo — Disse Gabriela.
Ele acena com a cabeça sem tirar os olhos do caderno. Gustavo não o cumprimentou, já
deve conhecer o irmão que tem.
Ele dá mais uma mordida no sanduíche. Alguém para na frente dele. Era uma
menina, pequena e jovem, parecia tímida, ela olha para Gustavo e quando esse olha para
ela, ela desvia o olhar para o Théo. Ele levanta a cabeça quase como se fosse forçado,
pela presença dela. Ele não diz uma palavra, somente a encara esperando ela falar o mo-
tivo de sua presença.
— Você é o Théo, certo?
Ele balança a cabeça confirmando. Todos nós olhávamos aquela situação com cu-
riosidade. Ela parece esperar ele perguntar o nome dela, mas ele não o faz. Ela volta a ol-
har para Gustavo, e depois para o Théo.
— Eu… — ela limpa a garganta — Eu estou tendo alguns problemas com com-
posição, você poderia me ajudar?
Ele enruga a testa, olha para o Gustavo revira os olhos quando o irmão sorri pra
ele. — Não — ele responde e volta a olhar para seu caderno.
A garota olha estranho para ele como se não tivesse entendido a resposta, pois ela
foi pega tão de surpresa quanto todos nós na mesa.
— Por que não?
Ele volta a olhar pra ele com estranheza, indignado por ter que dar uma explicação para
sua decisão.
— São diversas as razões, mas a principal delas é que isso é problema seu, não
meu. — ele responde voltando seu olhar para seu caderno.
O que uma pessoa ganha sendo tão idiota assim?
A menina olha para ele incrédulo por tamanha falta de delicadeza e empatia.
— eu não sou nenhum génio — intervenho — mas eu posso te ajudar se você
quiser.
Ela olha para mim, abre um sorriso singelo — Muito obrigado, mas pensando bem, ele
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tem razão, eu acho que não preciso de ajuda, eu vou só fazer o meu melhor mesmo, mas
obrigado.
Ela se afasta de nós e se senta com alguns amigos algumas mesas a frente.
— Você não deveria se meter em um problema que não é seu. — ele diz com a
boca cheio ainda olhando para o caderno.
— Eu não me lembro de pedir sua opinião…

Théo
Mais tarde naquele dia tivemos nossa segunda aula, dessa vez de composição com
a professora Madalena, nesta aula tínhamos que fazer uma pequena composição e tocar
para a professora, e no decorrer do semestre iríamos a aperfeiçoar.
Depois que eu toquei e mais alguns, finalmente chegou a vez daquele garoto, ele vai
até a frente da sala com Eduardo do seu lado, ele fala algo no ouvido da professora que
olha pra ele com a sobrancelhas serradas, mas acaba concordando com o que ele disse.
Na frente do piano senta Eduardo e do lado fica ele em pé ele ajeita a partitura,
aparentemente Eduardo vai tocar a musica que ele deveria tocar.
A musica inicia, nota após nota, uma catástrofe sonora. Quando a musica acaba eu
quase aplaudi agradecendo pelo som ter acabado, mas me juntei ao resto da sala no
silencio constrangedor que ali havia se estabelecido. A professora madalena fica
boquiaberta sem saber o que fazer ou falar,
— Hm — ela limpa a garganta — vamos ver o que os seus colegas acharam —
disse ela ainda desnorteada. Um fato interessante sobre a professora Madalena é que ela
tem muito tato, coisa escassa no meio musical e principalmente académico — Théo —
disse ela tirando minha atenção da folha que eu escrevia minhas partituras.
— Sim?
— o que você achou da composição do seu colega?
Respiro fundo — É uma composição sem alma, machuca os ouvidos, é nota curta
atras de nota curta, repetitivo, sem nexo, o pior é que eu nem sei se a composição só é
ruim ou se até o pianista ajudou em seu fracasso com seus dedos duros.
Se a professora é uma espécime rara no meio académico e musical, eu sou uma
bem comum.
— Ok… — disse a professora quebrando novamente aquele silencio absurdo que
consumia a sala. — o Théo é um ótimo compositor de musicas.
Note que ela não me desmentiu, a musica foi ruim.
— Acredito que ele vai ficar feliz em te ajudar — continuou ela.
— com o que? A ter talento? Eu não faço magica professora, a senhora bem deve
saber que no mundo há quem nasce com talento e quem morre sem ele.

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— confio que você vai dar um jeito, você pode se sentar do lado dele — ela diz pra
ele, que me encarava com o rosto vermelho.
Ele se senta do meu lado, volto a me concentrar nas minhas partituras.
— Porque você fez isso?
— isso o que?
— me humilhar! — ele diz sussurrando com os dentes serrados
— eu não te humilhei, eu só disse a verdade, preferia que eu mentisse?
— preferia que não fosse rude.
— não fui, só fui honesto.
— ah você quer ser honesto? Então eu vou ser honesto contigo, eu não preciso ser
um génio da composição, vivemos no mundo das aparências e eu tenho isso aqui —
disse ele circulando a mão ao redor do rosto. — qualquer talento mediano comparado
com isso é mais do que suficiente pra chegar mais longe e ganhar mais dinheiro do que
você ganhará algum dia, com isso ai! — disse ele apontando pra minha cara.
Ele não ta de todo errado, mas também nem de todo certo.
— que fofo, continua se iludindo assim, ajuda na hora de dormir.

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Capitulo II
Théo
Já de noite Gustavo chegou na minha casa para me buscar, ele me esperava
dentro do carro em frente a minha casa, mas sendo sincero eu preferiria ir andando até a
casa do Saulo, mesmo Gustavo sendo meu irmão eu não confio nele atrás de um volante.
Ele já teve acidentes com o carro pelo menos duas vezes, na primeira vez ele disse foi
sem querer, porque estava bêbado, como se alguém batesse o carro por querer ou se
estar bêbado fosse desculpa, e, na segunda vez, que não bateu no muro, mas sim o muro
que caiu em cima do carro dele. E é melhor que eu nem diga quantas vezes ele matou
animais enquanto dirigia. Meu vizinhos ainda continuam procurando o gato
“desaparecido”

Saulo morava em um bairro rico, em plena Albufeira, isolado de tudo e todos. Para
chegarmos lá, tivemos que passar por uma floresta tão suspeita que caso quem estivesse
dirigindo aquele carro fosse alguém do Grindr, eu certamente já teria pulado do carro pois
juraria que ele estava me levando pra ser abatido, de tão escura e isolada que era.

A porta da casa de Saulo tinha quatro ou cinco metros de altura, em pura madeira
de marfim rosa. Não entendo porque os ricos adoram portas grandes… deve ser para o
ego deles poderem entrar na casa. A casa era completamente branca, sustentava três an-
dares e tinha uma piscina nos fundos.

Ao entrarmos na casa, notei que a música estava alta, nada além de uma música
eletrônica genérica e sem emoção, que somente alguém chapado curtiria o que um pouco
de Handel não faria na vida dessas pessoas… Haviam poucas luzes acesas, sendo essas
vermelhas, verdes e azuis, o que fazia a casa parecer uma balada.

— Não o irrite, por favor. – Disse Gustavo antes de entrarmos na casa do saulo
Eu não entendo como ele sempre supõem de que eu sou o causador de proble-
mas…
— Como você quiser. – digo dando de ombros
Quando entramos, Saulo rapidamente nos viu, mesmo com toda aquela escuridão e
veio até nós. Quando viu Gustavo, deu um grande sorriso, abraçando-o e dizendo:
— Eae, mano! Hoje é a nossa noite!
— Sem duvidas! — respondeu Gustavo, dando-lhe dois socos de leve, como se o
tivesse apunhalando.

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Héteros…
Assim que Saulo me viu, seu rosto sorridente mudou completamente, transfor-
mando-se em uma carranca.
— Oh, você veio também… — ele disse em tom de desdém e com cara de nojo.
— Estou feliz que nossos sentimentos de desprezo sejam mútuos — respondi
abrindo um falso sorriso.
— As bebidas estão na beira da piscina, tem um bar lá — explicou, apontando para
a porta no final do salão, que dava passagem para a piscina.
— Obrigado, vou precisar — respondi enquanto caminhava em direção ao bar.
A sala estava cheia de pessoas dançando e bebendo, onde estava a piscina, o bar
estava mais cheio ainda. Eu imaginava que haveria muitas pessoas, mas não naquele
nível. Algumas delas já estavam molhadas, pulando dentro da piscina, outras deitadas,
como se estivessem tomando sol. Algumas ficavam no bar, conversando com o barman,
para onde eu caminhei. Olhei as opções na minha frente.
— Pega para mim a garrafa de vodka, por favor. — O barman franziu a testa e me
olhou de cima a baixo, mas pegou um copo e uma garrafa de vodka, pousou o copo sobre
o balcão e começou a enchê-lo com a bebida transparente.
— Não vai misturar com nada?
— Acho que você não entendeu — respondi agarrando a garrafa da mão dele. — Eu
pedi a garrafa e não uma dose de vodka. — Agradeço, viro-me de costas e caminho em
direção a piscina.
— Calma! — ele me alerta — É cedo para você beber tudo isso.
Eu olhei para ele, sorri e continuei andando. Me sentei na beirada da piscina, com
meus pés dentro da água, dei o primeiro gole na vodka, que desceu queimando, mas, se
eu quisesse sobreviver naquele lugar sem esfregar a cara do Saulo no chão, aquela era a
melhor opção.
Não tardou até eu ficar todo encharcado de água, por causa dos idiotas que na-
davam e brincavam na piscina, mas depois de tantos goles da bebida, que nem estava
mais descendo tão queimando, já não me importava com as roupas molhadas.
Pouco tempo depois a porta se abriu de novo, três pessoas apareceram um garoto,
branco e bem alto, de cabelos loiros, e olhos verdes; uma garota de estatura média com
cabelos lisos e negros e o terceiro, que me arrancou um sorriso assim que pousei os ol-
hos: o garoto novo de cabelos cacheados da aula de análise musical.

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Hugo

– todos estão olhando pra você… – disse Gabriela

– isso é raro, mas acontece muito, Deus deu beleza a poucos, mas a mim ele não
poupou esforços. – respondo com um sorriso de orelha a orelha.

Quando entramos, Saulo rapidamente nos viu, mesmo com toda aquela escuridão
e veio até nós. Quando viu Gabriela, deu um grande sorriso, abraçando-a e apontando
para onde Gustavo estava.

Ela me apresenta para o Saulo e diz – se precisar de mim, já sabe onde me encon-
trar – e caminha em direção onde Gustavo estava.

— Eae, mano! To feliz que você veio! Olha não perde tempo não em, a festa tá
cheia de caloura!

coitado…

Sorrio e balanço a cabeça – onde posso pegar uma bebida?

— Ah claro! As bebidas estão na beira da piscina, tem um bar lá — explicou, apon-


tando para a porta no final do salão, que dava passagem para a piscina.

— Ah Eduardo… — ele disse em tom de desdém. Eu não entendi o porquê, mas


não me importei.

— Oi — Eduardo respondeu abrindo um sorriso forçado.

Eduardo foi falar com alguns amigos, enquanto eu fui até o bar. Pego minha
bebida, olho para a piscina e lá estava ele sentado com os pés dentro da água, sozinho
não com um copo, mas sim uma garrafa de vodka. Tentei fingir que não o tinha visto, mas
eu não conseguia deixar de pensar no como ele havia sido estupido naquela manhã,
como ele ousava ser tão rude com um bebé como eu? tem gente que pularia de
penhascos pra falar comigo enquanto isso ele…

tiro meu sapato e minhas meias, sento me do lado dele. Ele olha pro lado encara-
me, vejo seus olhos, fundos, sua petulância tão escancarada em seu rosto que eu tinha
visto de manhã tinha sido substituída por um olhar triste.

– O lugar já tá ocupado – disse ele me olhando nos olhos e dando um gole na


vodka.

Eu respiro fundo

— Eu já to achando que você tem síndrome de Estocolmo.

— Não, eu só vim te dar os parabéns, porque eu nunca vi ninguém tão cuzão como
você.

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– é sério? Achei que você já tinha falado com o Saulo.

– Ele não chega nem aos seus pés.

– espera até ele descobrir que você é gay, no momento em que ele se tocar ele vai
olhar pra você com o mesmo desdém que olhou pro seu amigo.

– e quem te disse que sou gay?

ele levanta as sobrancelhas, ele me olha de cima a baixo sem mexer a cabeça.

– Talvez tenha sido a forma como você anda, fala ou a quantidade exagerada de
purpurina que você joga na cara e no cabelo, sabe lá Deus porquê…

– entendi, e você é cuzão pela mesma razão que o Saulo ou só é assim por
natureza?

ele enruga a testa – acho que você não entendeu, tem gente onde você está sen-
tado.

Quando eu estava prestes a me levantar para sair, Saulo veio em nossa direção,
ficou de cócoras atrás de nós dois e apertou seu ombro com o braço direito.— Vocês já
se conhecem! — Não respondemos, sorrio gentilmente, Saulo continuou: — Hugo, como
você conheceu o Théo?

— Aparentemente, temos algumas aulas em comum. O conheci hoje de manhã, na


aula de análise musical.

— Entendo… quer um conselho?

Penso em dizer que não, mas ele não me dá tempo pra responder.

– Ignore ele, ele é chato e tem uns gostos um pouco questionáveis… — disse
Saulo tentando segurar um sorriso.

Théo parecia que estava constrangido e até irritado. Saulo apertava seu ombro,
fingindo amistosidade. Fico ali parado olhando os dois se encarando como dois cães
prestes a se atacarem.

— Eu tenho gostos estranhos? — perguntou Théo tentando tirar o braço dele de


cima do seu ombro.

— Sim... e é invejoso também — rebateu ele sorrindo e persistindo em segurar seu


ombro.

— Invejoso? — perguntou indignado. — De quê? Do dinheiro que seu pai rouba do


Estado ou da casa caríssima que ele comprou com o dinheiro que ninguém sabe de onde
veio? Ou melhor, talvez eu esteja com inveja da “linda” vida que você diz ter. Aliás tem um
poeirinha branca no teu nariz, você deveria limpar.

Eita…

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— Você está falando do meu pai... — Retrucou ele, segurando o ombro do Théo
com ainda mais força — mas me parece que você esqueceu do seu pai, não é. Aliás isso
foi patrocínio dele – disse ele limpando o nariz

Quando olho para Théo, vejo seus olhos em brasas, ele coloca a garrafa de vodka no
chão, como se tentasse não escutar nenhum pensamento intrusivo, segura a mão do
Saulo com força e a retira do seu ombro.

— Tire as patas de mim! — Ele rosna.

Saulo volta a pôr a mão no seu ombro, com ainda mais força, fazendo seu ombro
pesar. Théo olhava para ele com tanto fervor e ódio que parecia querer matá-lo apenas
com o olhar. Antes que a situação piorasse, Gustavo apareceu correndo, agarrou no
braço do Saulo, tirando-o de cima do ombro de Théo, e, em seguida, agarrou-o pelo braço
e o puxou para longe, como um boneco sendo tirado da piscina.

— Você tem sorte, Theo — disse Saulo, lambendo os lábios e o olhando fixamente,
enquanto Gustavo o arrastava o Théo pelo braço. — Mas um dia o Gustavo não estará
aqui para te salvar.

— Acredite, não fui eu quem ele salvou aqui!

Théo
— Olhe para mim — disse Gustavo, enquanto apontava o dedo para o meu rosto. —
Já tá bêbado? — Menti, balançando a cabeça dizendo que não, mas era bem claro que
estava. Não há quem beba quase metade de uma garrafa de vodka, em menos de uma
hora, e não fique bêbado. Ele finge acreditar que não estou. — Não pode fazer isso, você
está na casa dele, pelo menos respeite-o, você é um convidado! — Ele segurou meu
braço com mais força, como se eu fosse uma criança malcriada. — Eu convidei você para
que você pudesse se divertir e para que a mamãe ficasse despreocupada. Não faça eu
me arrepender!
— Não coloque o dedo na minha cara! — rosnei, já tremendo de raiva por ser tratado
como uma criança e, ainda mais, por estar sendo repreendido mesmo não sendo culpado
pelo que aconteceu. — Você viu que eu estava conversando com o Hugo e ele veio me
provocar.
— Não me importa quem começou, só peço que pare de discutir e se divirta.
Preferi não responder, porque Gustavo parecia chateado e, nas condições que
estava, não conseguia pensar direito em muita coisa. Concordei em ficar longe de Saulo,
para que Gustavo me deixasse em paz. Ele beijou minha testa e disse:
— Ótimo, agora longe de confusão, pois já é hora de eu encontrar minha presa!!! —
Ele correu na direção da amiga do Hugo que estava sentada no bar, conversando com o
barman.
Olho para meu braço, ele estava vermelho onde Gustavo havia me segurado, en-
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caro-o aquilo me lembrava algo que eu gostaria de esquecer.
Fui atrás da minha garrafa de vodka pela metade, mas a encontrei afundada dentro
da piscina.

Hugo

Me sentei no sofá, onde havia um casal se pegando, um garoto que já estava apa-
gado e outro fumando erva.

Pouco tempo depois, Eduardo apareceu, se sentou ao meu lado, empurrando o


garoto apagado, ele parecia um pouco bebado.

— Não me diga que você vai ficar a noite toda nesse sofá — ele segurava um copo
vermelho com cerveja.

— Não, eu vou pra casa, só estou esperando a Gabriela ficar um pouco mais
bêbada e me esquecer.

— Não… — lamentou ele. — Não! A festa está perfeita, muita bebida, gente bonita
e boa música, você tem que se divertir!

Dei uma gargalhada.

— A única coisa que concordo contigo é que tem muita bebida…

— Tá dizendo que não sou bonito, é isso? — retrucou ele, inclinando a cabeça e
cerrando os olhos.

— Não coloque palavras na minha boca — gaguejei. — Você é bonito, sim, mas eu
quis dizer que…

— Não se preocupe — disse Eduardo sorrindo e me fazendo voltar a me


concentrar nele. — Eu to brincando, eu entendi o que você quis dizer.

Aceno com a cabeça enquanto sorrio, Eduardo chegou mais perto de mim e pediu
para falar algo no meu ouvido, não questionei e me aproximei.

— posso testar algo?

— como assim testar algo?

Ele segura meu queixo e me puxa até seus lábios, sua boca tinha gosto de cigarro
e vodka preta. Quando ele termina de me beijar ele abre os olhos olha para mim dá um
pequeno sorriso, parecia envergonhado.

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Fica um clima estranho, ninguém diz nada e eu sinceramente nem sei o que dizer,
Eduardo não é feio e também nem é um amigo de longa data para gerar um desconforto
caso algo sexual aconteça entre nós, mas aquele beijo foi meio…

Desvio o olhar para evitar ainda mais aquele desconforto e vejo que o garoto volta
a sentar na beira da piscina, ele procura sua garrafa de vodka, olha pra dentro da piscina
percebendo que essa possivelmente caiu lá dentro. ele vira o rosto olha novamente pra
mim, nossos olhos se encontram seu rosto já não tinha mais raiva, mas sim apatia. ele
volta a virar o rosto como se me ignorasse.

Sorrio – me desculpa, mas eu volto já já ok? – me levanto ando até a piscina e


volto a me sentar do lado dele, ele não parecia mais animado em me ver do que da
primeira vez.

– estava me procurando? – pergunto

– não – ele diz pegando a garrafa de cerveja que estava na minha mão e dando um
gole – eu só senti que tinha alguém me comendo com os olhos…

Arranco a garrafa da mão dele, dou uma risada e digo – para alguém com beleza
escassa você tem até que tem uma auto-estima alta…

– É por isso que você tava me secando? porque sou feio?

Não o respondo – Pude notar que você e Saulo não gostam um do outro.

— E quando você percebeu isso Sherlock? — disse em voz sarcástica — Foi no


momento em que ele apertou meu ombro ou quando eu disse que o pai dele é ladrão?

Ele sorriu pegando minha garrafa da minha mão e dando mais um gole na cerveja.

— Em nenhum desses momentos, até aí para mim estava normal. Eu só percebi


mesmo quando seu irmão te levou pelo braço enquanto você gritava “é você que ele está
salvando”!

Ele tenta evitar sorrir da situação, mas não consegue, um tímido sorriso surge no
canto da sua boca. Ele tenta cobrir dando mais um gole na minha bebida.

Ele fica muito mais bonito quando sorri…Nada disso, Hugo! ele ainda é um idiota,
leitor não me deixe esquecer disso, por favor! Repete comigo ELE É UM IDIOTA.

Pego minha cerveja de volta – Então o Saulo te odeia pelo mesmo motivo que vai
me odiar ou porque você é um cuzão?

Parece obvio, mas eu tinha que perguntar!

Ele olha pra mim, confuso, parecia não saber a resposta, parecia ofendido pela
pergunta.

— acho que seu namorado ta te esperando — disse ele apontando pro Eduardo.

— ah você viu ele me beijando?


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Ele não responde

— Acho que ta cedo pra você ficar com ciúmes. — continuo

Ele se levanta, eu o acompanho com a cabeça, ele levanta o pé até meu ombro e
antes que eu pudesse me tocar do que ele estava prestes a fazer eu já estava dentro da
água e meus cachos destruídos.

— Por que você fez isso? — Eu exclamei ofegante.

— Porque eu sou um cuzão.

Saio da piscina, minha camisa branca colou na minha barriga molhada. Ele parecia tentar
desviar o olhar, mas seus olhos sempre voltavam para o meu peitoral, que não era muito
musculoso, mas era definido o suficiente para mostrar sobre a camisa molhada. As tenta-
tivas dele de disfarçar eram tão falhas que me fizeram abrir um sorriso malicioso.

— Não precisa ficar tímido, pode olhar.

Ele parecia surpreso com a minha audácia. Qualquer pessoa ficaria vermelha com
um comentário assim, mas ele não, talvez por causa da bebida. Ele abaixou a cabeça e
começou a encarar meu corpo. Ele não escondia que a visão o agradava.

— Já está satisfeito ou quer mais 20 minutos pra continuar admirando? — Digo


olhando para o meu próprio corpo.

— Para ser bem sincero, eu estou muito bêbado, então boa parte do tempo eu só
estava fixando o olhar… — ele respondeu piscando lentamente e sorrindo.

Dou uma risada, não esperava aquela resposta.

– vou pegar mais uma bebida, porque você transformou a minha em água, quer
uma também?

– não, eu já estou bêbado demais, obrigado…

Ando até o bar para pegar mais uma cerveja, tive que esperar o barman fazer o martini de
uma menina que tinha chegado antes de mim, fico a espera, olho para trás para ver o que
ele estava fazendo quando vejo que ele e Saulo estão novamente se estranhando. Saulo
fala algo no ouvido dele, tento olhar melhor pra cara dele pra tentar ler sua expressão fa-
cial, mas minhas vistas já estavam embaçadas e eu não conseguia focar o suficiente no
rosto dele.

Saulo o puxa pra perto, fala algo em seu ouvido e o derruba dentro da piscina. Fico ol-
hando aquela cena de longe, isso não é um problema meu.

Saulo vai embora, eu fico no bar esperando o barman terminar de fazer o drink da garota,
enquanto observo a piscina. Fico a espera pra ver ressurgindo da água pra ver a cara
dele ao experimentar o mesmo remédio que ele me deu. Mas nada dele voltar a emergir,
ele fica lá, será que ele sabe nadar? será que ele consegue nadar? ele disse que estava
bêbado demais, será que isso também o impedia de nadar?
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Começo a ficar nervoso, ao ver que ele não saia da piscina.

– o que você vai querer? – perguntou o barman.

olho pra ele e depois pra trás pra ver se ele já tinha emergido, mas nada. Abandono o bar,
corro pra piscina pulo dentro, e lá vejo ele com os olhos semicerrados, nado para o fundo
da piscina para o alcançar, seus olhos encontraram os meus, mas não parecem reagir,
ele calmamente fecha os olhos, me fazendo ficar ainda mais desesperado, agarro-o e o
puxo pra superfície.

Lhe faço uma massagem e respiração boca a boca pra soltar a água, ele cospe toda a
água, mas não acorda, verifico sua respiração, parecia normal, ele deu blackout, dou
alguns tapas no rosto dele, mas ele não respondia.

Algumas pessoas fazem uma roda ao redor, entre elas está o Saulo, peço para alguém
procurar por Gustavo, mas Saulo informa que ele já não tá mais na festa, mas que
poderíamos levá-lo para um dos quartos no segundo andar pra ele dormir por lá. Olho
para Saulo, acho que já era óbvio que eu não deveria confiar nele.

Peço para que alguém me ajude a levá-lo até o sofá, pois eu iria chamar um uber para
nos levar pra casa. no sofá eu tento o acordar para perguntar onde ele vivia, mas ele não
responde. Tento o secar o maximo que pude antes que o Uber não chegasse, para o
motorista não notasse que ele estava húmido, colocamos ele dentro do carro.

Ele gemia e fazia ânsia de vômito, eu passava a mão nos seus cabelos e dizia que
em breve chegaria em casa, assim como meu pai fez comigo quando eu tive minha
primeira bebedeira. Quando chegamos na frente da minha casa, sua cabeça estava en-
costada à janela do carro.

Tentei acordá-lo, dando-lhe um tapinha na cara, o que o fez abrir um pouco os olhos, mas
sem muita consistência.

— Preciso que você acorde, você é pesado — disse tentando inutilmente levantá-
lo. — Não posso te carregar sozinho para casa.

Ele fechou os olhos e não me respondeu. O Uber gentil se voluntariou para me


ajudar a levá-lo pro meu apartamento.

Ele pegou Théo pelo braço esquerdo, enquanto eu o levantei pelo braço direito. Entramos
no elevador. Eu disse a ele para deixá-lo no meu banheiro, onde o enfiamos dentro da
banheira. Depois disso o homem saiu, sem dizer uma palavra.

Théo estava deitado dentro da banheira, completamente acabado, quem o via com
os olhos fechados e tranquilos daquela forma jamais diria que ele é extremamente es-
tupido quando está acordado, parecia outra pessoa.

Eu sei que estávamos no inverno, mas eu precisava lhe dar banho gelado, para
tentar fazer o efeito da bebida passar, o que pareceu ter funcionado, pois, no momento
em que a água bateu no peito dele, ele abriu os olhos assustado, tentando sair da
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banheira, se debatendo como um gato tentando fugir do banho. Levando em
consideração como ele me tratou, eu não consigo evitar de abrir um sorriso de canto de
rosto.

ta gelada né cuzão?

O acalmo, segurando-o dentro da banheira. Ele segurou meu braço, me olhando


como um cachorro que acabou de ser resgatado da rua, com uma respiração ofegante,
por causa da água gelada. Fiquei com pena, mas passou.

Joguei água no rosto dele e disse:

— Isso vai ajudar a fazer o álcool passar e a tirar esse cheiro horrível de vômito
que você tá exalando.

Ainda dentro da banheira, joguei-lhe algumas toalhas e ajudei-o a se secar o mais


rápido possível, pois ele tremia desconsoladamente. Percebi que ele teria que tirar as
roupas molhadas, ou nunca conseguiria se aquecer propriamente. Quando tiro sua roupa
não pude deixar de admirar.

Hm… ele até que não é tão desprovido de beleza assim… e nossa… ele tem um
volume considerável!

Puxei-o para o meu quarto. Tentei vestir um dos meus pijamas nele, mas ele
estava pesado, decidi colocar só as calças, pois era o que mais importava, já que a cueca
dele estava molhada. Deitei-o de lado, para caso ele vomitasse, não morresse engasgado
durante a noite, coloquei um balde do lado da cama. Torci para que tudo desse certo,
caso algo desse errado. Pouco tempo se passou, eu estava quase pegando no sono,
quando sinto que ele começou a se movimentar na cama. Ele se vira, sinto seu braço
cercando minha cintura, ele se aproxima ainda mais de mim, sinto seu rosto encostando
nas minhas costas.

Eu sentia o calor de sua respiração que lutava para não ficar ofegante – obrigado – ele
sussurrou me apertando ainda mais. Meu coração acelera e, no final de contas, ele talvez
não seja tão cuzão assim.

Na manhã seguinte eu acordo assustado, quando percebo que o braço dele já não estava
mais ao redor do meu corpo, olho para o lado em que ele estava na cama, chamo por seu
nome, mas noto que ele já tinha ido embora.

– Que cuzão…

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Capitulo III
Théo

Na semana seguinte estávamos na sala esperando a aula de Composição


começar, a professora Madalena ainda não tinha chegado, mas quase todos estávamos
na sala. Eu me mantinha sentado olhando para meu caderno de partituras fazendo algu-
mas anotações, quando Eduardo se sentou do meu lado. Olho de rabo de olho, não ligo
para sua presença

— Já vi que você é do tipo de que gosta de ser filho da puta não é?


Lá vem mais um…
— Desculpa? Falou comigo?
— Tem mais alguém aqui por acaso?
— Espero que sim, porque se vc estiver falando comigo você vai passar a falar fofo
se não falar direito.
Eu devo ter cara de idiota, porque a quantidade de gente que gosta de se fazer de
grande pra cima de mim não ta escrito…
— voce acha que me amedronta? — disse ele passando o dedo sobre meu violino
que se mantinha aberto sobre a mesa
— tire a mão do meu violino — advirto
— eu não gostei do que você fez na semana passada.

— eu não sei do que você ta falando

Eu sei sim, mas cá entre nós, você tem sorte caro leitor, que através desse livro
você não pôde escutar ele tocando piano.

— eu to me referindo a você dando em cima do Hugo enquanto eu estava com ele

— ah é serio? — digo legitimamente surpreso — Eu achei que voce tinha se


incomodado por eu ter dito que vc tem dedos rígidos

Prioridades…

— Voce se acha melhor do que todo mundo, não é?

— Que todo mundo não só que você — digo sem tirar meus olhos da minha
partitura

Zruuum! — ele toca a corda grave do meu violino

— Já falei pra não tocar no meu violino

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— eu vou te dar um único aviso, fique longe do Hugo, ele é meu! não fique
metendo essa sua cara feia pra cima dele

Me viro olho-o nos olhos pela primeira vez, ele parece mais jovem do que eu me
lembrava ou imaginava, olhar na cara das pessoas não é algo que eu costumo fazer.

— ja que estamos trocando avisos vou te dar uma também, eu não tenho interesse
nele, assim como ele não tem em você, caso contrario ele não teria te largado pra sentar
do meu lado, logo depois de você beijar ele — toco seu rosto com a palma da minha mão
dando um leve tapinha e volto a olhar para minha folha de partituras.

Ele fica imediatamente vermelho, de raiva ou vergonha, não me importa, volto a


olhar para minha folha de partituras, ele se levanta bruscamente, agarra meu violino pelo
braço arranca o da case e em um lance rápido o bate na ponta da mesa, o violino se
espedaça jogando madeira para todos os lados deixando apenas o braço e as cordas na
na mão dele.

Hugo

O som do violino se espedaçando fez todos olharem para o fundo da sala onde
Théo e Eduardo estavam sentados, por alguma razão Eduardo segurava o que um dia foi
o que parecia ter sido o violino do Théo.
O silencio se estabelece na sala todos em choque sem saber exatamente o que
aconteceu e o porque de ter acontecido. A partir dali tudo parecia estar em camera lenta,
tudo parecia estar ao som de Lacrimosa de Mozart. Olho para Théo que tinha seu olhar
estático, para frente e para o nada ao mesmo tempo, ele tremia com uma caneta na mão,
seus olhos pareciam encher de lagrimas, sua respiração era pesada, seu rosto derramava
medo, pânico.
Olho para o Eduardo que mantinha um olhar furioso, seu rosto vermelho, algo
muito errado tinha acontecido, e pelo que eu sei possivelmente foi causado por causa da
lingua daquele garoto.
Eu olho para o Théo, olho para o Eduardo, volto a olhar para o Théo, tudo parecia
em camera lenta, uma tensão horrível se estabelecia, Eduardo joga o resto do violino no
chão, bota a mão direita sobre a mesa, aproxima o rosto para olhar o Théo mais de perto
com um olhar desafiador e o que tudo andava em camera lenta, passa a andar em uma
velocidade que meus olhos mal conseguiam acompanhar.
Théo para de respirar tão pesado como respirava, aperta a caneta, quando pisquei
ele já tinha a enfiado na mão do Eduardo que se mantinha sobre a mesa, Eduardo tenta
soltar um grito com a caneta grudada em sua mão, mas logo o grito é abafado pelo soco
que o Théo dá em uma investida, acompanhada de seu levantar brusco.
Eduardo cai no chão, duro como uma arvore sendo derrubada, Théo monta em
cima dele, um, dois, três socos em seu rosto, ouvia-se apenas o barulho oco de seus pun-
hos no rosto do Eduardo. Todos da sala que até então se mantinham estáticos perplexos
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com tudo o que acontecia, finalmente correm para separar a briga, ou melhor, acudir Ed-
uardo que se mantinha no chão como um saco de batata.
Muitos correm para segurar Théo que já estava no quinto soco consecutivo,
seguram, seus braços, são necessários três dos nosso colegas pra segurar ele, que olha
com os olhos em brasa para o corpo do Eduardo no chão, ele parecia não estar satisfeito,
ele parecia querer acabar com a existência dele. Corro para cima do Eduardo tentando o
acudir
— QUE PORRA TU TA FAZENDO? — pergunto enquanto ele gritava.
— ME LARGA — ele grita dando uma cotovelada na boca de um dos que o segu-
ravam se desvencilhar deste.
Antes que ele chegasse novamente no Eduardo bato de frente com ele, ficando
entre os dois, ele olha nos meus olhos, com uma raiva que eu nunca tinha visto ninguém
ter.
— Já chega! — digo o encarando.

Ele me olhava ainda com a respiração ofegante, ele parece ter voltado a si, sua so-
brancelha ainda enrugada, ele passa a mão na própria mochila e no caderno, e sai da
sala, sendo acompanhado pelo olhar e silencio de todos que ali estavam.

Levamos Eduardo para a enfermaria da universidade, onde ele recebeu suporte da


enfermeira. Mais tarde naquele dia, encontro Gabriela nos jardins do campos sentada
conversando com Gustavo, eu não precisei lhes contar nada, pois o assunto já tinha
rodado o campus.
— Mas porque ele foi pra cima do Eduardo? — pergunta Gabriela, querendo mais
detalhes do que as fofocas que ela ouviu.
— O Eduardo quebrou o violino dele.
— ELE O QUE? — disse Gustavo assustado
— Ele bateu com o violino do seu irmão contra a mesa, porque pediu ao Théo para
se desculpar por ter sido rude comigo, e ele ao invés de concordar zombou da cara do
Eduardo, que acabou não gostando nada e acabou fazendo o que fez.
— WOW… esse garoto tem mesmo coragem, agora eu entendi o porque do Théo
ter quebrado a cara dele.
— Alguém quebrar seu violino não é razão pra você bater em alguém — diz
Gabriela o repreendendo por seu comentário.
— Pode até não ser, mas pra ser sincero, no caso do Théo aquilo não foi apenas
uma afronta, aquilo foi uma lembrança direta de um trauma de infância.
— como assim ? — pergunto
— Quando éramos criança, o Théo tinha visto um rapaz tocando violino na rua, e
ficou deslumbrado com o que viu. Ele contou com ânimo, para minha avó, que em seu
aniversario o surpreendeu com um pequeno violino, nada muito caro. Os olhos dele
brilharam com uma alegria que eu nunca tinha visto antes, pois ele nunca foi uma criança
eufórica. Meus pais não gostaram do presente, mas ignoraram achando que ele
esqueceria o instrumento em uma ou duas semanas, mas ele não fez, cada dia que
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passava ele parecia ainda mais entretido, meu pai parou de pagar as aulas de violino,
mas isso não o abalou, ele estudava por si só, ele tinha talento. Certo dia algo um tanto
pessoal aconteceu com o Théo quando ele tinha por volta dos 14 anos de idade, e o meu
pai descobriu e obviamente associou aquilo ao violino, e naquela noite no meio do nosso
jantar, meu pai o confrontou, pegou o violino do Théo e o bateu contra a mesa de jantar,
no meio dos pratos. Eu ainda me lembro, duas vezes foi a quantidade de batidas que ele
deu, ainda me lembro dos pratos chacoalhando, a primeira já tinha destruído o violino, a
segunda foi só pra tentar aliviar ainda mais a raiva. O Théo por sua vez gritava e chorava,
ele ficou devastado, isolado no quarto por dias. Depois disso, nem eu me atrevia a tocar
no violino dele, e o seu amigo — ele dá uma risada — foi lá e desbloqueou talvez a
memória mais traumática dele, ele deu sorte que o Théo só lhe quebrou alguns dentes,
pelo que eu imaginava poderia ter sido bem pior.
— Você já foi falar com seu irmão? — pergunto para o Gustavo.
— Ta brincando? Se eu chego perto dele nesse momento ele vai ficar ainda mais
irritado e se der mole ainda sobra pra mim. Acredite ele não precisa da minha companhia,
mas sim de tempo pra respirar.

***
Por causa do acontecimento Théo quase foi expulso da universidade, pelo que falaram,
mas disseram que o reitor reconsiderou essa decisão uma vez que foi Eduardo quem
começou quebrando o violino do Théo, mas isso não os salvaram de uma semana de
suspensão.

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Capitulo IV
Théo

Algumas semanas depois a universidade levou nossa turma para o grande


concerto que teria no Porto, todos estávamos animados, não porque nunca tínhamos visto
um concerto, mas porque visitaremos o porto e ainda ganharíamos autógrafos de alguns
dos maiores músicos do país. Quando chegamos no Hotel, o professor nos pediu para
nos separarmos em pares para dividir os quartos. Depois do ocorrido da semana anterior,
todos ficaram mais afastados de mim, por medo ou repulsa, mas isso não me afetava,
fiquei parado olhando para ver quem seria o infeliz excluído que teria que acabar no
mesmo quarto que eu.

Duas colegas da turma foram correndo abraçar Hugo pedindo para ficar no mesmo
quarto, mas o professor logo interveio.

– desculpa, estragar a alegria de vocês garotas, mas minha intenção aqui é


garantir que a única coisa que vai ser criada nessa viagem é música e não uma criança,
nada de meninas dormindo no mesmo quarto que rapazes.

– mas ele é gay! – gritou uma delas indignada.

– mas ainda se reproduz – replicou o professor – e nada garante que ele não vai
sair daqui bissexual

Um ponto válido eu diria.

Elas se afastaram, mas logo em seguida foi Eduardo – posso dividir o quarto conti-
go, se você quiser – disse ele meio tímido.

– acho que vai ser uma boa – respondeu Hugo

A noite vai ser divertida pros dois… não que eu me importe…

Antes que Hugo pudesse confirmar a parceria, um outro garoto interveio –


Eduardo, acho melhor ficarmos juntos, assim podemos praticar, estamos atrasados com
nossa apresentação.

Eduardo olhou para o garoto que que estava prestes a estragar sua foda com um
olhar de desculpa, pronto para abdicar de seu treino só para ter uma noite ao lado do
Hugo, mas antes que ele pudesse responder, Hugo interveio – tudo bem vai com ele, eu
vou procurar outra pessoa, não deixe seu trabalho atrasado por minha causa.

O sonho do Eduardo durou pouco pelo visto… de novo, não que eu me importe…

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Hugo olha para os lados e mais ninguém parecia estar sem dupla, ele vai até o
professor perguntar o que ele deveria fazer já que não tinha mais ninguém sozinho.

– Ele parece não ter uma dupla ainda – respondeu o professor apontando para
mim, antes que Hugo se virasse e me visse, eu me viro e finjo estar olhando para os re -
tratos que estavam pendurados nas paredes do hotel.

Escuto alguns murmúrios que não consigo entender, depois escuto seus passos
vindo na minha direção.

Ele toca no meu ombro, abre um sorriso que eu não esperava ver e que no fundo
me agradava, mais de perto era possível sentir o cheiro de rosas que ele tinha, será que
ele sempre faz questão de parecer tão apresentável assim?

– que foi? – Eu pergunto.

– Acho que vamos ser colegas de quarto.

–- por que? Teu namoradinho não vai poder ficar no mesmo quarto que você?

— quem? O Eduardo oh que fofo, você ainda ta com ciúmes?

— ciúmes? EU? — gargalho fingindo não estar desconcertado com seu


comentário.

Te juro que não estou caro leitor! eu nem sei como isso seria! Pra ter ciúmes de al-
guém nós temos que gostar da pessoa e eu não gosto dele, eu nem penso muito sobre
ele, quer dizer… as vezes eu penso, mas acho que não mais do que o normal, tipo duas
ou três vezes por dia, isso é normal não é?

O quarto era modesto, com duas camas de solteiro separadas, uma em cada
ponta.

– Por um segundo eu jurei que só teria uma cama de casal. – Digo mais alto do
que eu esperava.

– Porque? Ficou com saudades de dormir agarradinho a mim?

Um sorriso de canto de rosto surge no meu rosto contra minha vontade.

Hugo

Mais tarde naquele dia todos fomos para o salão onde aconteceria o concerto
quando chegamos no Coliseu Porto Ageas. O interior me deixou boquiaberto, era tão
lindo, tão grande todo o glamour que todo músico deseja, o piano no meio do palco a
plateia dividida em dois andares. O professor nos deixou andar livremente pelo salão
olhando cada detalhe, desde o auditório até a parte dos camarins.

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– é lindo não é? – perguntou Eduardo do meu lado olhando do palco para a plateia.

– você consegue imaginar a adrenalina que deve ser ter tanta gente te olhando, te
aplaudindo, implorando pra você tocar mais.

– um dia estaremos aqui, sem dúvidas. – disse ele abrindo um sorriso confiante.

Retribuo seu sorriso, quando escutamos que alguém gritar que o Maestro Pedro
Neves estava do lado de fora do coliseu, todos começam a correr para pegar um autó-
grafo.

– Vamos? – perguntou Eduardo pegando me pela mão.

– eu vou depois, quero testar uma coisa primeiro.

Ele concorda e sai correndo com os demais para a saída onde o Maestro estava.
Sento-me no banco do piano, olho para aqueles bancos onde a plateia deveria estar. o
teatro totalmente vazio, arrepio-me com aquela sensação era como se eu fosse o dono do
mundo, mas o mundo não era nada. Eu me lembro, enfim da minha mãe, vejo ela ali sen -
tada naquela arquibancada, me assistindo com aquele sorriso que eu tanto amava, me
lembro da voz dela me pedindo para tocar sua música, a música que eu escrevi para ela.

Meus dedos afundam nas teclas, uma atrás da outra, aquela música tão triste, me
trazia tantas lembranças, tantas sensações, eu podia até mesmo sentir o cheiro dela, eu
podia sentir os dedos dela passando pelos meus cabelos. Tento segurar, mas lágrimas
enchem meus olhos e caem sobre as teclas, uma atrás da outra, e por mais que eu
quisesse que elas parassem, elas continuavam descendo. Quando a música acaba, volto
a respirar, mas me assusto quando escuto palmas vindas do segundo andar da plateia.

Olho para cima, tentando achar quem tinha me assistido. As palmas não
cessavam, como se pedisse para eu tocar de novo. A luz do palco ofuscava minha visão e
eu não conseguia ver quem estava lá. Não era para ninguém ouvir minha música, não era
para ter alguém ali, sinto-me envergonhado por ter tocado aquela música, por ter chorado
enquanto a tocava. Me levanto e saio às pressas, fingindo que estava interessado pelo
autógrafo do Maestro.

Mais tarde naquela noite, todos tinham saído para ver o pôr do sol e jantar. Quando
voltei, ele já estava na sua cama, ele lia um livro, parecia não ter saído do quarto desde
que voltamos do coliseu.

– Você não foi ver a cidade?

– eu já conheço o porto. – disse ele sem tirar os olhos do livro.

Pulo na minha cama, como se pulasse em uma piscina, um clack sai dela, abrindo
um buraco na minha cama, me fazendo afundar com ela. Ele olha pra mim, descrente
com o que acabou de ouvir. Eu olho pra ele assustado, sem querer acreditar no que fiz.

– Você quebrou a cama?

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– não acho que isso é normal – respondo saindo de cima dela.

– é normal a cama ter um buraco no meio?

Vou até a recepção para ver se poderiam trocar minha cama ou arrumar um outro
quarto. A recepcionista diz que já não tinham mais quartos disponíveis, e que só seria
possível trocar a cama na manhã seguinte. Volto para o meu quarto, envergonhado e der-
rotado.

Arrumo minha cama no chão, desligamos as luzes. Eu estava prestes a adormecer


quando sinto ele lentamente se levantando com tanto cuidado para não me acordar, finjo
estar dormindo, mas o vejo pegar seu violino e saindo de fininho.

Ponho minhas calças, abro a porta do quarto e o vejo no fim do corredor, sigo ele
com todo cuidado para ele não me ver ou ouvir. Eu nem sei porque o seguia, já tão tarde
da noite, mas eu não conseguia evitar era como se uma voz me dissesse para o fazer.

Ele caminha até o parque senta em um banco em meia a escuridão, ele olha para a
ponte, admirando o breu, olha para o céu, respira fundo. Será que ele estava esperando
alguém?

Ele tira o violino da case e o posiciona como uma viola, passa a mão sobre ele,
como se aquele pedaço de madeira com cordas fosse a sua tão desejada musa. Ele põe
os dedos sobre as cordas e lentamente começa a tocar nota atrás de nota, uma mais
triste que a outra, com as notas veio sua voz cantando “rancho fundo” fico ali escondido
hipnotizado pela tristeza que aquelas notas e letras derrubavam sobre meu coração. Eu o
via ali sentado, ele não chorava com os olhos, mas sim com seu violino, se aquela fosse a
primeira vez que eu visse aquele garoto, eu jamais diria que ele era aquele idiota
insensível, mas eu acho que essa é a maior ironia do mundo, de que aqueles que
possuem as cascas mais grossas são os que possuem as carnes mais macias.

Quando a música termina ele volta a olhar para o céu, respira fundo e diz:

— Se você for ficar muito tempo ai, eu vou cobrar ingresso.

Théo

Ele se assusta ao perceber que eu sabia que ele estava ali todo aquele tempo.

— Você toca bem, por um segundo quase me esqueci que é um idiota.

— Fico feliz que você não tenha chegado a esquecer.

Ele se senta ao meu lado — esse lugar ta ocupado — insisto

Ele me encara e depois volta a olhar para a escuridão daquela noite.

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— você sabe que se fosse menos estupido, teria mais amigos e não seria assim
tão solitário, não sabe?

Mais um se preocupando com minha solidão… se preocupam tanto que nunca são
capaz de acabar com ela, as vezes me pergunto, seria isso culpa deles ou minha?

— Não confunda solidão com solitude, os dois são diferentes.

— Eu sei que são, eu só não sei se você sabe a diferença.

— solitude é o que eu tenho, solidão é o que você acha que eu tenho.

— passou perto, mas não. Solitude é o que você quer ter, solidão é o que você
finge não ter.

— E você notou tudo isso só ouvindo minha música? — digo dando-lhe um sorriso
de canto de rosto e o encarando.

— não… foi desde o momento em que olhei nos teus olhos… alguns olhares
transmitem solidão, mas eu jamais vi um tão sem luz quanto os teus.

Quando foi que ele passou a me observar de tão perto? Não importa, ele não foi o
único.

— Um bom passo pra deixar de ser solitário e ter mais amigos seria pedindo
desculpas ao Eduardo pelo que você fez com ele.

— e o que eu fiz ?

— Você foi cuzão.

— cuzão? Não! Ele quebrou meu violino e eu quebrei dois ou três dentes dele,
acho que estamos quites.

— você bateu nele porque ele tava te pedindo para se desculpar comigo,
exatamente como eu to fazendo agora.

Oi?

Olho pra ele com a sobrancelhas enrugadas. — algo me diz que ele não te contou
o que aconteceu.

— e o que aconteceu?

— ele veio até mim, me falando pra ficar longe de você porque você pertence a ele,
ai eu disse que se você tivesse interesse nele, você não teria deixado ele plantado depois
dele ter te dado um beijo na festa, ai ele foi a loucura e acabou perdendo três dentes.

— ele disse que pertenço a ele? — ele pergunta descrente

Levanto a mão direita e levo a outra ao peito e digo — juro por Bach

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Ele fica olhando para o nada com os olhos arregalados, parecia descrente. O silen-
cio pairava entre nós depois daquela informação.

— E você por que tem medo de tocar? — pergunto por fim

— eu não tenho medo, nunca tive.

— então por que não tocou naquele dia?

Ele abaixa a cabeça, parecia não querer mais me encarar — porque tocar me faz
lembrar da minha mãe, me faz sentir o cheiro dela, me faz lembrar a voz dela, o toque
dela…

Que ironia ele não toca, para não se lembrar da mãe, eu toco para esquecer da
minha.

— e por que você quer esquece-la?

— eu não quero é só que… lembrar dela as vezes é doloroso de mais.

Aparentemente, ele e eu não sentimos a mesma coisa quando tocamos.

Volto a olhar para o violino, posponho minhas mãos sobre as cordas e começo a
tocar aquela música, não a última, e nem uma aleatória. Ele conhecia aquela música,
aquelas notas. Eu tocava a música com dor, uma dor que não me pertencia, no mínimo,
não aquela. Ele fica estático vendo eu tocar sua música, assustado pois parecia não
saber como havia a aprendido. Seus olhos se enchem de lagrima, talvez eu não devesse
ter tocado ela.

Paro de tocar, olho para ele. — Foi você que escreveu, não foi?

Ele leva um tempo até se recompor

— sim, mas como você aprendeu a tocar ela?

— Sabe… a tristeza tem muitas caras, as piores são as que se escondem atrás de
um sorrisos tão brancos como os teus, mas que se revelam em músicas tão umbrosas.

Ele abre um sorriso de canto de rosto tentando disfarçar seu desconforto

— Você está querendo dizer que sou mais triste que você?

— Somente quem já pensou em se jogar em um poço, sabe diferenciar quem tá ali


pra pegar água e quem está caindo nas ilusões da sua profundidade.

— E você descobriu tudo isso ao ouvir minha música?

— não… — ele diz abrindo um sorriso traquinas — eu notei isso só de olhar o teu
sorriso.

Mesmo no escuro dava pra ver que ele corou. Guardo o violino, me levanto
estendo a mão para ele.

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— Já está tarde, vamos voltar pro hotel.

— Como você aprendeu minha música? Eu não a escrevi em partituras, então


como? — ele pergunta enquanto caminhávamos para o hotel

— eu a escutei naquele no anfiteatro. A solidão não é a única coisa que Beethoven


e eu compartilhamos.

— você tem ouvido absoluto? — ele pergunta perplexo

Abro um sorriso, toco no próprio nariz com o dedo indicador.

— é estranho não é?

— o que exatamente?

— o fato de que alguns dons caem nas mãos de pessoas como eu.

— eu não vejo isso com estranheza, pelo contrário, é como se a vida se apiedasse
de você e decidisse te compensar por isso.

— Eu preferia não precisar ser compensado…

Hugo

Quando chegamos no quarto, volto para minha cama improvisada no chão, me


cubro, ele desliga a luz do abajur, viro para o lado tentando achar alguma posição em que
aquele chão fosse mais confortável, quando sinto que alguém começou a puxar meu
cobertor.

— o que tá fazendo?

— venha dormir na cama comigo, tem espaço para nós dois.

Eu poderia bancar o humilde tímido e permanecer no chão, mas não faz meu estilo.
Subi na cama e ele imediatamente vira para o outro lado.

— Obrigado — eu digo

— Guarda seus agradecimentos para alguém que se importa, eu só to te deixando


dormir na cama, porque sei que você vai ficar se revirando a noite toda naquele chão e
não vai me deixar dormir.

— Sim claro… foi por isso e não porque você não poderia deixar alguém tão fofo
como eu dormir naquele chão.

— continua falando que você vai descobrir se tenho coragem ou não de deixar seu
rostinho bonito de ser amassado naquele chão…

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Alguns minutos tinham se passado, eu continuava deitado do lado dele, olhando
para o teto escuro do quarto do hotel – tá acordado? – pergunto sussurrando.

– Agora estou. – disse ele com voz de sono.

– posso fazer uma pergunta?

– claro.

– por que você me ajudou naquele dia? o que você queria ganhar com aquilo?

ele para por um tempo, parecia pensar na resposta – Nada, por que eu deveria
querer algo pra te ajudar?

– todos sempre querem algo quando ajudam alguém, seja aquela sensação de se
sentir melhor que os demais por fazer o bem, quer um favor futuro, ninguém ajuda
ninguém só porque sim, é por isso que eu não me meto no problema das pessoas e nem
me importo em tentar resolve-los.

– Acho que vivemos em mundos um pouco diferentes, eu não ajudo quem eu tenho
que ajudar, só porque quero algo.

– você até mesmo me levou para sua casa, você poderia ter me deixado na casa
do Saulo.

– você preferia que eu tivesse te deixado lá?

– não…

– foi o que eu pensei.

O silêncio voltou a se estabelecer entre nós, eu continuava olhando para o teto quando
escuto ele dizer – foi por isso que você foi embora antes de eu acordar naquele dia?
porque achava que eu estava querendo algo de você.

Sua pergunta me pega desprevenido, eu não imaginava que ele teria se preocupado com
isso, fico em silêncio, eu não queria responder aquela pergunta.

– Eu achei meio grosseiro da sua parte – continuou ele – é assim que você
agradece quem te ajuda?

– Desculpa… eu fiquei com vergonha naquele dia.

– vergonha de que? – ele pergunta como se minha explicação tivesse sido


estúpida.

– de encarar alguém que se preocupou o suficiente comigo.

Dessa vez foi ele que ficou em silêncio, ele respira fundo – acho que qualquer um teria
feito o que eu fiz.

– qualquer outro teria me deixado na casa do saulo. Até mesmo meu irmão não se
preocupou em me levar embora quando deixou a festa.
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Ele se vira para mim, sinto seu rosto me encarando enquanto eu olhava para o
teto, viro meu rosto para encarar o dele. vejo seus olhos brilhando com a luz noturna que
entrava pela janela.

– Bem, acho que já está explicado, eu não quero nada de você e você não precisa
ficar com vergonha só porque eu te ajudei, tudo bem?

aceno com a cabeça em sinal de afirmação.

– Amigos? – ele pergunta estendendo a mão para eu apertar.

Olho nos seus olhos, depois para sua mão, meu coração se aperta, uma sensação
estranha consome meu corpo. me viro para o outro lado.

– Não…

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Capitulo V
Hugo

Depois daquele dia ele voltou a fingir que eu não existia, quando me via nas aulas
ou no corredor da universidade ele não falava comigo, mesmo eu o cumprimentando, ele
abaixava a cabeça e fingia que eu não estava ali.

Até que em certa manhã decidi ir ao parque pois meus amigos tinham marcado
uma tarde de piquenique, o parque não era distante da minha casa, geralmente era tran-
quilo, com crianças brincando e casais aproveitando seus momentos de outono.

Em um dos bancos do parque vejo ele lá sentado com um caderno de partituras na


mão, e seu violino deitado no banco, em um momento ou outro ele escrevia no caderno.
Uma criança cansa-se de brincar, se senta do lado dele, os dois separados pelo violino
que se mantinha no banco, será que ele dirá aquilo? não. a criança olha para ele, ele a
ignora. A criança olha para o violino com um rosto sapeca, ela parece se encantar pelo in-
strumento.

Ela coloca o dedo sobre uma das cordas, puxa-a e um som fino sai de lá. Ele olha
para ela, irritado? Não. Ele parecia intrigado pela curiosidade e ousadia da criança. Ele a
repreenderá? Não. A criança olha pra ele e sorri, ela gostou da experiência, ela volta a
olhar para o instrumento e puxa outra corda. Ela sorri ainda mais, dessa vez até ele o faz.

Ele segura a mão dela, gentil como ninguém diria. Ele destaca o dedo indicador
dela, e a posiciona na terceira corda do violino, ele a guia para pressionar a corda, e ela o
faz, fica com o dedo lá, curiosa para saber o que ele fará.

Ele puxa outras cordas tirando do violino uma melodia simples, mas bela. A criança
sorri ainda mais, ele agora pega a outra mão dela e posiciona mais um dedo em outra
corda, e ela o obedece, e assim a musica parecia se compor ainda mais.

Fico ali parado de longe olhando tudo era hipnotizante ver tudo aquilo, ver exata-
mente ele sendo tão doce, principalmente com uma criança, que tocou em seu violino
sem sua permissão.

A criança escuta o pai a chamando, ela se assusta, olha para a direção do pai e
logo corre, sem dizer nem um adeus a ele. Ele a vê partir, volta a olhar para seu caderno
de anotações e continua a escrever.

Caminho até onde ele estava sentado, me sento do lado dele. Ele respira fundo,
olha para o lado, me encara.

– esse lugar já está ocupado – ele diz voltando a olhar para o caderno fazendo
algumas anotações
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– sério e quem tá aqui?

– um amigo

– você não tem amigos. — digo em tom provocador

– e mesmo assim você insiste em tentar ser um.

– e quem disse que quero ser teu amigo?

– E o que você quer ser?

Fico calado, olho para o caderno nas mãos dele – o que você está escrevendo?

– Nada – ele diz fechando o caderno.

– Se não é nada, por que você está escondendo?

Ele me olha irritado – olha eu não estou de bom humor, você pode ir embora?

– claro, depois de você me mostrar o que tem ai.

tento agarrar o caderno, mas ele o afasta, olho para ele com olhar provocador

– não faça isso – ele diz serio

– se não o que?

ele se levanta, pega o violino e suas partituras, me dá as costas e começa a caminhar


para longe. Me levanto logo em seguida, corro até ele e arranco o caderno da mão dele.
Ele me olha irritado.

– Me devolve

– vem pegar – eu digo abrindo o caderno

ele corre na minha direção e eu tento correr dele, ele é bem mais rápido do que eu
imaginava. corro o mais rápido que consigo, mas ele me derruba com uma investida, caio
na grama rindo com ele em cima de mim, os dois ofegantes. Ele tinha um sorriso de
canto de rosto que ele tentava inutilmente conter.

– Você não parece mais tão irritado – digo sorrindo pra ele

ele não responde, ele fica lá parado olhando nos meus olhos, ele começa a se aproximar,
seu corpo era pesado, mas eu não tentei tira-lo de cima de mim, meu coração começou a
acelerar, quando finalmente sinto os lábios dele tocando os meus, sinto aquela sensação
quente e estranha subindo pelo meu peito, junto com sua mão chegando até minha nuca,
se enrolando entre meu cachos, eu nunca tinha sido beijado assim, por um segundo
parecia que somente nós dois estávamos naquele parque, somente nossos corações
batiam, nossas respirações eram ofegantes quando ele parou de me beijar e voltou a
olhar nos meus olhos, ele arranca o caderno da minha mão e antes que eu pudesse dizer
algo ele sai correndo para longe, sem olhar para trás.

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Théo
Saio dali às pressas, corro de lá com vontade de voltar, com vontade de no mínimo olhar
para trás, mas não o faço, eu não podia fazer, meu coração batia tão forte que eu sentia
ele na minha garganta.
– por que você fez isso idiota? por que você beijou ele? porque?

Porque eu queria, desejava, eu necessitava… Meu coração não ousava sentir arrependi-
mento, a cada segundo que eu me lembrava, dos lábios quentes dele, da sensação da
pele dele, dos cabelos macios e cacheados que se enrolavam nos meus dedos.
Mas porque eu sinto culpa? por que eu não consigo me sentir despreocupado com
tudo que aconteceu?
Enquanto eu caminhava me deparo com Gustavo que andava na direção oposta,
ele estava indo me encontrar no parque antes de Hugo aparecer. Seu rosto tinha um sor-
riso estranho.
–Tá indo onde? – perguntou ele.

ELE VIU…

– oii ta indo onde Théo?-- ele volta a perguntar

ELE VIU TUDO O QUE SE PASSOU, ELE VIU!!!

Sinto meu estômago se revirando


– o que você viu – pergunto por fim.
– nada… – ele diz balançando a cabeça ainda com o sorriso no rosto.
Merda… ele viu caro leitor, ele viu!
– o que você viu?
– Nada que eu já não tenha visto antes…
Sinto meu corpo congelado, fico tremendo, os ventos do parque parecem mais forte ao
ponto de passarem meu casaco, mas eu sei que aquilo não é frio, é ansiedade…
– Théo – Hugo me chama, aparecendo atrás de mim e pegando me pelo braço, ele
estava ofegante deve ter vindo correndo.
Gustavo olha para Hugo e depois para mim, olha para a mão de Hugo no meu braço, o
que faz Hugo me largar.
– Oi, Gustavo – disse ele acenando.
– Oi, Hugo.
Gustavo volta a olhar para mim, sua boca não disse nada, mas eu sabia o que ele queria
dizer.

“acabe com isso antes que ele o faça”

– Eu já vou indo, tenho alguns trabalhos pra fazer, te vejo depois maninho, foi bom
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te ver Hugo.

Hugo concorda com a cabeça, e ficamos os dois ali parados olhando Gustavo indo emb-
ora. depois que Gustavo se afastou.

Meu corpo ainda tremia, eu sentia a ansiedade consumindo-me os pensamentos que in-
undavam minha cabeça, os medos que me rondavam.
Viro-me para Hugo — eu sinto mui—
Ele agarra minha camisa e me puxa contra ele, sinto seu beijo quente, quente o suficiente
para acabar com todo o frio que eu sentia, era como se eu tivesse enfim descoberto o
remédio para a minha dor.

Quando ele termina de me beijar, ele olha nos meus olhos, aqueles olhos que me derre-
tiam — não corra mais.

Eu não consegui responder, fiquei ali hipnotizado com seu olhar e com meu coração
ainda acelerado, até que Gabriela apareceu com Eduardo, quebrando nosso transe.

— Finalmente te achei, o resto do pessoal já ta jogando — ela se vira olha pra mim com
um ar suspeito — ah Oi Théo… o que vocês estavam fazendo?

Hugo abre um sorriso — nada vai vamos jogar

— Hm e por que ele ta vermelho igual um pimentão?

Eu não sabia como reagir naquele momento, minha alma ainda estava fora do meu corpo.
Hugo olha pra ela com um sorriso de orelha a orelha, como quem dizia “Cala boca”

— nós vamos jogar três cortes, você quer jogar também? — perguntou-me Hugo

Tento me recompor — ah não, eu tenho alguns trabalhos pra fazer, mas eu posso ficar
olhando vocês.

Eu não ousava correr dele, eu não queria correr dele, eu queria ficar olhando pra ele por
mais tempo.

Andamos todos até o meio do parque, onde outros de seus amigos estavam já
jogando, sento me afastado, mas ainda no campo de visão dele, fico ali parado, olhando
ele pulando e jogando a bola em seus amigos.

Até que um homem de cabelos negros, de mais idade se senta do meu lado, tento não
ver aquilo com estranheza, mantenho meus olhos focados em Hugo

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— O que te dá tanto medo, Humano? — perguntou o velho

— Desculpa? — perguntei descrente de que ele falava comigo.

— A forma como você olha pra ele, dá pra ver um amor, ou até mais do que isso, mas
parece repreendido.

Enrugo minha testa, tento reconhecer aquele homem, mas eu jamais havia o visto, ele era
estranho, mas acolhedor, tenebroso, mas caloroso.

— Quem é você? — digo por fim.

— Ninguém que merece ser lembrado, mesmo que nos encontremos no futuro.

— E o que você quer com essa pressuposição?

— Quero te dar um conselho.

— Não obrigado…

Ele sorri

— Uma pessoa da minha idade já viu e viveu muitas coisas, a quantidade de pessoas que
eu já vi se arrependendo por não terem amado ou se deixado ser amado é incontável. Eu
mesmo, amei apenas uma pessoa, e ainda a amo, mesmo depois e com todos os
problemas que há entre nós, porque amar sempre vale a pena.

— Você não entenderia.

— Ninguém nunca entende…

Eu odeia a ideia de me abrir com as pessoas, principalmente com um estranho, mas


aquele homem… tinha algo místico nele.

— ele viria atrás dele, exatamente como veio atras do primeiro, ele não me deixaria ser
feliz da forma como eu quero.

— você não é a primeira pessoa que teve a felicidade negada e também não será a
ultima, o que você deveria estar se perguntando é se você vai aceitar ter o que te é mais
precioso, negado.

— hm e o que você quer que eu faça, que eu dê mais uma razão de decepção pros meus
pais? para que ele novamente entre em ação, arrancando a felicidade que tem dentro de
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mim, como uma planta enraizada sendo arrancada do chão? Sendo sincero, eu não
suportaria aquilo mais uma vez.

— você me parece uma pessoa que teve muitos problemas no passado.

— mais do que eu gostaria de admitir.

Hugo volta a olhar pra mim, pra ter certeza que eu ainda estou ali, ele acena pra mim, eu
abro um sorriso em resposta.

— ele…— disse o homem olhando para Hugo— parece o contrario

— é… isso é o que mais me intriga nele, ele parece um sol radiante que ilumina tudo ao
redor.

— algumas vezes, nada é melhor do que um bom sol pra aquecer nossa alma.

— e o que eu faria quando eles viessem atras do meu sol?

— o que sempre fazemos quando eles veem atras do que nos é mais precioso, nos
agarramos a isso e o protegemos com unhas e dentes, além do que não é todo dia que
ganhamos um sol.

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Capitulo VI
Hugo

Eu não acredito que eu estava ali sentado de novo naquela mesma sala com aquela
mesma sensação olhando para aquele mesmo piano preto e branco, implorando para os
meus dedos desceram, implorando para o ritmo ser alcançado.

– Por que eu me sinto assim, por quê? – eu sussurrava para mim

Meu coração já acelerado me dizia para eu me levantar como da ultima vez e sair
correndo, minhas pernas já ganhavam força para eu me levantar, quando sinto que
alguém se sentou do meu lado. não tenho coragem de olhar para quem se sentou lá. Olho
para suas mãos que se posicionam em cima das teclas pretas. Suas unhas estavam
roídas até a base onde nada mais poderia ser roído. Alguns dos dedos estavam
manchados de sangue ressecado como se depois das unhas serem destruídas a única
coisa que sobrou para acalmar sua ansiedade fosse a pelo dos seus dedos.
– se continuar assim em todas as aulas, meu repertório de chacotas vai acabar
rápido.

Era ele…

Olho para seu rosto, ele tinha aquele mesmo sorriso, aquele mesmo olhar jocoso.
Abro um sorriso de canto de rosto que mesmo que eu tentasse esconder ele apareceria –
esse lugar está ocupado.
Um sorriso de orelha a orelha se abre nos nossos rostos

— vamos toque — ele disse sussurrando perto de mim.


— e não posso e se eu chorar?
— então chore! assim todos verão a alma de um pianista, porque é isso que você
é.

Fecho meus olhos respiro fundo, escuto as notas saindo das teclas que ele aperta
logo em seguida vem as minhas. No meio da música percebi que ele já não tocava mais o
piano, era somente eu, eu me sentia como uma criança que finalmente aprendeu a andar
de bicicleta ao perceber que seu pai não segura mais você. Quando termino a música,
escuto as palmas vindo dos meus colegas, eu me arrepio com aquele momento. Abro
meus olhos, meu coração batia forte, olho para o lado vejo seu rosto, olhando orgulhoso
para mim.
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– obrigado – eu sussurro

Théo

No final da aula ele me encontra do lado de fora. – Eu notei que você errou algu-
mas notas enquanto tocava comigo, toma – disse ele puxando minha mão e anotando seu
número com uma caneta – me manda mensagem depois que eu te ajudo a tocar piano,
vou cobrar um valor camarada pelas minhas aulas.

Olho para minha mão e sorrio, pois eu já sei tocar piano, mas adorei ganhar o
número dele. Nas duas semanas seguintes, conversamos constantemente por
mensagem. Não tínhamos muitas aulas em comum, mas durante as aulas de análise e
(colocar nome de outra aula aqui), sentávamos juntos e nos intervalos do almoço,
tocamos juntos. Ele tocava piano tão bem que eu até me perdia em sua melodia. Eu
acordava já pensando em vê-lo, e esquecia de tudo e de todos quando o ouvia tocar. Eu
tocava com ele em perfeita sincronia, como se tocássemos há anos juntos. Suas músicas
me pareciam doces como mel e mais delicadas que fios de ovos, eu adorava ouvi-lo.

Mostrei a ele minhas músicas favoritas e ele fez o mesmo. Eu gostava de músicas
mais lentas e românticas, como Edith Piaf, Brahms e Vivaldi, já ele gostava de músicas
mais inquietas, Beyoncé, Mozart e Offenbach.

Ele me contou que minha sua mãe cantava músicas para ele dormir, quando
criança, enquanto meu pai acariciava seu cabelo, e lhe expliquei que, mesmo não sendo
filho único, sempre recebi amor e atenção dos seus pais. Eu o olhava intrigado enquanto
ele me contava isso, o invejava, minha mãe nunca cantou para mim, não me lembrava da
última vez que minha mãe tinha me abraçado e, no caso do meu pai, era ainda pior, eu
não tinha sequer uma foto com meu pai. A infância de Hugo me pareceu amorosa e doce,
enquanto a minha foi fria e conturbada. Sem dúvidas crescemos em ambientes
completamente diferentes.

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Capitulo VII
Hugo

A noite já não tinha começado bem. Gabriela havia me ligado aos prantos.
Aparentemente Gustavo tinha terminado com ela. Tentei entender o que tinha acontecido,
mas nem ela sabia o que tinha se passado.
Quando cheguei na sua casa ela estava jogada na cama, olhando para o teto,
pouco dramática para algo que não durou nem duas semanas. Decidi fazer o que
qualquer amigo deveria quando tem uma amiga sofrendo, que é, se ela está sofrendo,
então faça ela não sofrer por alguém, mas sim em alguém.

— Vai se arrumar, vou te levar pra uma balada pra você distrair a mente e pegar
alguém. — digo a arrancando da cama.

Gabriela sugeriu chamar o Eduardo, eu não me senti muito confortável com ele
depois que o confrontei sobre o que se passou com Théo, ele tentou desmentir, mas dava
para ver que ele estava mentindo. No fim aceitei que ela o chamasse porque qualquer
ajuda pra levantar a moral da Gabriela era bem vinda.

Na balada, Eduardo se voluntariou para pegar a primeira rodada de bebidas,


Gabriela e eu ficamos na pista de dança onde um homem branco e alto secava Gabriela
como eu nunca tinha visto antes, ela parecia não notar ou não querer se importar, por
causa do que sentia, mas meu dever como amigo era garantir que isso não acontecesse.
Eduardo chega com as bebidas, no primeiro gole que dou na bebida sinto um
pouco amarga de mais.
— nossa o que você comprou? — pergunto
— É absinto com coca-cola — ele responde
Estranho, mas tudo bem absinto nunca foi uma bebida muito saborosa.
— olha aquele cara ta olhando pra Gabriela e ela acha que é coisa da minha
cabeça.
— ohh ele é gato!
O homem volta a olhar para nós, ele comia Gabriela com os olhos, Eduardo faz sinal para
ele vim na nossa direção.
— Venha vamos no banheiro — diz Eduardo pegando na minha mão e me
puxando para longe de Gabriela, que fica sozinha como uma oferenda para o monstro
que caminhava para lhe dar o bote. Ele chega até ela, e parece que ele diz apenas “oi” e
ela já cai beijando ele.
— Bem jogado — digo admirando de longe o resultado do plano rápido que
Eduardo teve.

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— obrigado, as vezes ela precisa de um empurrão.
Ficamos os dois um pouco longe de Gabriela, mas não muito para não perdermos ela de
vista caso ela precisasse de nós, o clima era estranho entre eu e Eduardo, mas
dançávamos como se nada tivesse acontecido.
Ele coloca a mão na minha cintura — Desculpa por aquilo — disse ele no meu
ouvido.
Sorrio para ele — Tudo bem, isso acontece
Ele levanta o copo de bebida e pede para brindarmos por não estamos de mal um
com o outro. Ainda com a mão na minha cintura ele me puxa para mais perto grudando
meu corpo no seu.
— Mas sejamos sincero — disse ele no meu ouvido — nós até que combinamos
Minha testa se enruga viro para olha-lo nos olhos, e mais uma vez sinto seus lábios com
gosto de cigarro. Meu estômago se enche de repulsa, eu gostaria de ter dado um soco
nele, mas não é bom fazer esse tipo de coisa dentro de uma discoteca.
Desgrudo os labios deles do meu, abro um sorriso sem dentastes, tiro a mão dele da
minha cintura, viro o rosto para checar Gabriela e ela sumiu.
— Gabriela sumiu… — digo descrente
— ela ta bem — ele insiste tentando por a mão novamente na minha cintura.
Retiro a mão dele de mim — vamos procura-la
Vou ao banheiro feminino a procura dela, rodo toda a balada e não a acho, mas ela não
estava em lugar nenhum. Acho o cara que estava com ela, pergunto onde ela estava, ele
diz que ela largou ele e parecia ter saído.

Merda!

Corro para fora da balada, olho para os lados procurando ela — você consegue ver ela?
— pergunto para Eduardo.
— Não, acho que ela já foi…
— você… você…
Que porra ta acontecendo? Minha lingua parecia lenta, minhas pernas bambas, me
encosto na parede para não cair no chão.
— eu acho que não to…
Minhas vistas estavam turvas, era dificil de concentrar meu olhar no Eduardo
Eduardo se encosta em mim, me pressionando contra a parede para me deixar em pé.
— Eduardo eu acho que eu não to bem — digo por fim com dificuldade.
— não se preocupa eu to aqui pra cuidar de você — diz ele levantando meu queixo
e me dando mais um beijo.
Eu queria dizer pra ele me largar, mas as palavras não conseguiam sair da minha boca,
elas travavam na minha garganta e se perdiam na minha mente.

Não é possível… esse desgraçado me drogou!

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Théo

Tem noites que os pesadelos não facilitam minha vida, e hoje era uma dessas, dois
pesadelos seguidos é sinal de que dormir não é uma opção, talvez eu não esteja cansado
o suficiente. Eu poderia beber para simplesmente morrer na cama, ou como Gustavo ja
sugeriu eu poderia fumar para assim acabar com o que acaba comigo. Mas vou te ser
sincero caro leitor, eu já tenho problemas de mais para ficar adicionando mais um na
minha conta. Fumar erva ou resolver minha insónia com alcoolismo não me parece uma
solução viável.
Saio da cama, coloco meu sapato e vou andar pela rua, com sorte algum idiota já
bebado me atropela e finalmente vou poder dormir em estado vegetativo e compensar
todas as noites de insónia que acumulei.
Viro a esquina dois garotos estão se pegando do lado de uma balada, tento passar
por eles, sem olhar para não ficar mais estranho do que já é. Espera… Quando passo por
eles, meus olhos me lançam um alerta. Minha visão periférica não é uma das melhores,
mas eu acho que eu conheço no mínimo um deles. Paro e penso em voltar para ver se
conheço, mas que ideia idiota seria eu dando ré olhando pra cara dos dois e os dois me
encarando por eu parecer um pervertido olhando-os se beijar…
Volto a caminhar quando enfim escuto um dos dois — Para, por favor! — um deles
diz com voz desgostosa.
Eu sei que isso não é problema meu, minha mente me diz para continuar andando,
além do que aquilo era só mais uma noite possivelmente ruim para algum bebado na rua.
Mas o que me impediu foi o fato de que eu conhecia aquela voz.
— Hã-ham — digo voltando e encarando os dois que se mantinham encostados na
parede do prédio.
Quando olho para a cara dos dois, confirmo minhas suspeitas, Eduardo e Hugo,
não posso negar que me machucou um pouco ver ele nos braços daquele idiota, mas me
machucou mais ainda ver a de Hugo me encarando, confuso, mas que parecia querer
chorar, um cão na rua implorando para ser salvo.
Eduardo quando me viu fez cara de nojo — Porra até aqui tu vem empatar foda?
— acho que o erro é seu de querer dar uma foda na rua.
— Tem razão — ele diz pegando o braço de Hugo colocando so seu ombro, como
se carregasse um saco de lixo. — vamos sair daqui.
— Espera — digo me aproximando mais deles — você está bem Hugo?
Seus olhos piscavam como se tentasse focar em mim, seus lábios tremiam como se
quisesse chorar, pela primeira vez em muito tempo eu senti pena de alguém. Machucava-
me olhar seu medo.
— ele só bebeu um pouco. — diz Eduardo e ajeitando em seu corpo.
Um pouco… ta bom…
Hugo balança a cabeça em negativa.
— você quer que eu te ajude?
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Ele não responde, dou dois tapinhas na cara dele
— Você quer que eu te ajude? — repito
Hugo balança a cabeça em afirmação.
— pois bem, vou te levar pra casa então.
— Não precisa eu já to aqui pra ajudar ele — interveio Eduardo
Olho para sua cara, encaro-o com mil demónios nos meus olhos. Ele se cala. — Eu
estava pensando você ficaria parecido com jesus cristo se eu furasse sua outra mão.
Ele me olha com um nojo tão intenso que sou capaz de senti-lo até na minha alma. Eu
espero que se mantenha assim.
Ele larga Hugo que quase cai no chão, ele começa a andar de costas — eu não
preciso disso, pode ficar com ele.
— tem certeza? Se eu furar a outra mão vai ficar bem estiloso.
Ele se vira e deixa Hugo apoiado nos meu meu ombro. Sento-o na calçada do meu lado.
— eu vou chamar o Gustavo para vim nos buscar e vamos te levar pra casa ta
bem?
Ele não responde e cai com a cabeça sobre minhas pernas. — Ei fica acordado,
preciso que você me diga onde você vive pra te levar pra casa — digo passando as mãos
sobre seus cabelos. Ele não respondia, ele já tinha adormecido.
Ligo para Gustavo, mando ele vim me buscar. Menos de dez minutos ele aparece.
Sua cara quando me viu sentado no asfalto com Hugo no meu colo dizia tudo.
— que porra é essa?
— ele possivelmente foi drogado.
— e desde quando isso é problema seu?
— Tem como você só colocar ele no carro e calar a boca?
— e levar ele pra onde? Ele por acaso te disse onde vive?
— não, mas eu sei onde ele vive…
— Como você sabe onde ele vive?
— Não importa!
Colocamos ele no carro, e por mais que eu tentasse acordar ele, ele não abri os olhos e
nem respondia minhas perguntas. Quando chegamos na sua casa, fui até sua porta,
tentei abrir e é claro, estava trancada. Apalpei seus bolsos na procura das chaves e nem
mesmo sua carteira estava lá…
— A porta ta trancada — digo para Gustavo como se ele pudesse resolver o
problema
— É serio genio? Você achou que ele sairia e deixaria a porta destrancada?
Olho para ele com rabo de olho, mas agora não é hora pra discutir — e o que faremos ?
— pergunto
— Deixa ele ai na porta, de manha ele acorda e já vai estar em casa. — disse
Gustavo de lá de dentro do carro
E vocês ainda acham que eu sou cuzão…
— eu não vou deixar ele jogado na porta de casa igual um pacote dos correios!
Gustavo revira os olhos.

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Quando chegamos na minha casa eu abri a porta do meu prédio e escorei o tapete
na porta para deixá-la aberta. Eu morava no quinto andar, mas graças a deus tínhamos
um elevador. Arrastamos Hugo até dentro do prédio. Quando chegamos perto do
elevador, um homem saiu cuidadosamente de um dos apartamentos do andar térreo, o
1B, o que era estranho já que era alta madrugada e ali morava um casal. Quando o
homem nos viu, ele se assustou. Ele parecia estar saindo sem ninguém saber e, em
contrapartida, lá estávamos carregando um homem inconsciente. Parei de puxar o corpo
de Hugo, que bateu com a cabeça no chão.

O homem olhou para o corpo no momento em que a cabeça de Hugo bateu no chão e,
então, começamos os três a contemplar um ao outro. Ele olhava para Hugo estirado no
chão e, depois, para mim e depois para Gustavo. Eu olhava para Hugo, para o
desconhecido e, depois, pra porta do apartamento 1B. Ficamos os três nesta mesma
sequência de olhares por um breve momento. Ele olhava para mim com um pouco de
medo, e eu, com curiosidade.

— Por que vocês estão arrastando um corpo? — indagou ele, sussurrando.

— Algo me diz que eu não te devo satisfação — respondi falando em alto e bom
som.

— Tudo bem, eu não vi nada! — disse ele, indo em direção à porta do prédio, em
passos furtivos.

— Mas eu vi… — Gustavo rebate.

— Não viu não, já são 3 da manha e eu já to lidando com um problema que nem
deveria ser meu, não precisamos de outro — viro me para o homem suspeito — boa noite
senhor.

Ele acena com a cabeça e corre portão a fora. Digo para Gustavo deixar Hugo no
meu banheiro, onde o enfiamos dentro da banheira. Gustavo não se preocupou com
muito mais e saiu sem nem dizer adeus. Hugo estava deitado dentro da banheira, comple-
tamente acabado, mas, ainda assim, bonito de mais para alguém na situação dele. Eu
não sei o que deram pra ele, mas era forte.

Eu adoraria te dizer que sou uma pessoa que odeia vingança caro leitor, mas…

Ligo o chuveiro para dar um banho gelado em Hugo, para tentar fazer o efeito da
do que é que ele tenha tomado, passar. Rapidamente aparentemente funcionou, pois, no
momento em que a água bateu no peito dele, ele abriu os olhos assustado, tentando sair
da banheira, se debatendo como se estivesse se afogando.

Abro um sorriso maldoso no rosto que eu nem tentei conter


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Eu o acalmei, segurando-o dentro da banheira. Ele segurou meu braço, me olhando como
um cachorro que acabou de ser resgatado da rua, com a respiração ofegante, por causa
da água gelada. Joguei água no rosto dele.

— Isso vai ajudar a te fazer melhor.

Ainda dentro da banheira, joguei-lhe algumas toalhas e ajudei-o a se secar o mais rápido
possível, pois ele tremia desconsoladamente. Percebi que ele teria que tirar as roupas
molhadas, ou nunca conseguiria se aquecer propriamente.

Quando tiro sua cueca pude enfim contemplar seu corpo por completo, conseguia ser
ainda mais bonito sem roupa. Quando puxo a cueca seu pau pula para fora o que me
deixa um pouco desconcertado, me vejo ali parado contemplando seu corpo por alguns
segundos quando finalmente volto ao mundo real, o puxei para o meu quarto.

Visto-lhe um dos meus pijamas com esforço eu o deitei na minha cama, muitos
pensamentos maliciosos passaram pela minha cabeça quando imaginei que ele estava
ali, deitado na minha cama, mas claro que não fiz nada, além de esticar a coberta sobre
ele, e me deitar ao seu lado. Pouco tempo se passou, eu estava quase pegando no sono,
quando Hugo começou a se movimentar na cama. Achei que ele queria vomitar, mas-
sageei suas costas com a palma das minhas mãos, para ele se sentir confortável, mas ele
se virou na minha direção, ficando próximo de mim.

— Você já está melhor? — sussurro, mas sem muita esperança de receber uma resposta.

Mesmo estando escuro, percebi que ele abriu um pouco os olhos, e eu notei que ele já
não estava mais tão mal. Ele me olhou nos olhos, colocou a mão no meu queixo e se
aproximou mais ainda. Seus lábios tocaram os meus.

Seu beijo foi tão gentil e leve que me fez ficar arrepiado. Ainda bem que estava tudo
escuro, eu tenho certeza que eu fiquei vermelho.

— Obrigado — disse ele, sussurrando.

Ele se aproximou mais e me abraçou. Sua cabeça ficou na altura do meu peito, seus
braços abraçaram minha cintura. Ele levantou a cabeça e eu o beijei de novo. Ele estava
cansado e eu também, por ter arrastado o corpo dele, portanto, acabamos dormindo
agarrados naquela posição.

Não dormi muito bem, porque passei a noite alerta para ver se Hugo não passava
mal. Dormi e acordei diversas vezes e, pela manhã, acordei suando e com calor, mas não
precisei abrir os olhos para saber que a causa do calor era a proximidade dos nossos
corpos. Estávamos deitados de conchinha, ele era a conchinha maior. Não me lembro
quando foi a última vez que senti tanto aconchego em minha própria cama.O despertador
tocou às 11 horas da manhã. Hugo começou a balbuciar reclamações sobre o barulho do
celular, ainda sonolento. Eu desliguei o alarme e me virei para olhar para Hugo, que
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estava incrivelmente bonito para alguém que acabou de acordar após um blackout. Seus
cachos estavam desarrumados, o que o fazia ficar mais sexy. Ele não parecia
incomodado em estar me abraçando.

Hugo
Dessa vez eu dormi agarrado a ele, o segurei com força para garantir de que ele
não fugiria, mesmo estando na casa dele. Mas ele não pareceu querer fugir dos meus
braços dessa vez, o encaixe dos meus braços e o corpo dele pareciam perfeitos, era
como um quebra cabeça de duas peças extremamente perfeito. Nem mesmo meu enjoo
noturno foi capaz de atrapalhar minha noite de sono agarrado a ele.

— Bom dia — Ele disse com a voz rouca de sono


— Bom dia — Respondo sorrindo e, logo em seguida, lhe dando um beijo na testa.
Ele tentou disfarçar mas parecia que ele estava desconfortável — O que foi?

— Não é nada — ele respondeu olhando pro lado.

— Posso fazer uma pergunta um tanto intrusiva?

— Creio que sim... — Você não está acostumado a receber carinho, né?

Ele pareceu surpreso com a franqueza da minha pergunta, assim logo em seguida
pareceu triste. Eu acho que era compreensível a razão daquela reação, pois o mais que
ele tentasse esconder, era nítido que ele não era acostumado a receber amor ou carinho,
e qualquer um que o olhasse de perto conseguia perceber isso.

— Este nunca foi o forte da minha família, para ser sincero — ele respondeu
abrindo um sorriso sem graça.

Me aproximo dele novamente e lhe dou um beijo, desta vez na boca. Eu não sou
grande fã de beijo matinal, mas eu não consegui resistir em lhe dar um beijo, depois de
ver ele me olhando com aqueles olhos tão tristes e sem jeito. Ficamos na cama
abraçados, passando o tempo, conversando sobre a noite anterior.

— Na noite Gabriela estava devastada porque Gustavo tinha dado um pé na bunda


dela.

— Eu imaginei que isso iria acontecer em breve.

— E por que você não disse nada?

— primeiro por que isso não é problema meu, segundo porque Gustavo sempre foi
assim e sempre fez isso, ele adora o desejo de conquistar, mas odeio o de possuir. Além
do que eu ter avisado teria mudado alguma coisa? Ela não teria terminado ferida
exatamente como acabou?

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Eu gostaria de ter descordado dele, pois odeio essa ideia indiferença que ele tem,
mas neste caso, ele ter dito ou não, não teria mudado muita coisa.

Aceno com a cabeça e continuo a historia — nós dois saímos para uma discoteca
com Eduardo para ela aliviar a cabeça, mas no meio da noite eu comecei a ficar estranho
e dai em diante eu não me lembro de mais nada, só me lembro de acordar na sua cama.
Alias como você me achou?.

— Eu estava perambulando pela rua quando te vi não muito confortável agarrado


ao Eduardo?
Fico vermelho e confuso por não me lembrar disso e por imaginar Théo vendo
aquela situação
— E por que você me ajudou? Eu achei que você não fosse do tipo de que se mete
em problemas que não são seus.
— E quem disse que você não é um problema meu? — ele disse colocando a mão
na minha cintura e puxando para mais perto dele.

Depois de nossa breve conversa, ele me deu uma toalha para eu tomar banho, um
banho apropriado, não como o da noite anterior, enquanto ele fazia o café da manhã. ele
me emprestou uma camisa. Quando ele saiu do banho, eu já tinha feito alguns lanches
naturais para nós dois. Nos sentamos à mesa e começamos a comer.

Théo
Enquanto comíamos me lembrei que Gustavo tinha me falado que levaria uma
garota que conheceu na festa para o chalé da nossa família na Serra da Estrela. Não é
sempre que ele levava alguém para lá e as garotas eram doidas para serem escolhidas,
mas, na minha opinião, deveriam ficar felizes de nunca terem ido lá, já que o Gustavo é
um maníaco sexual, que brinca com a mente das garotas. Aquelas que lhe oferecem
legítima resistência, são geralmente as que ele leva para o chalé, para impressionar. Elas
pensam que conhecer o chalé da família é um sinal de que as coisas podem se tornar
sérias, mas sempre faz parte do plano maligno de Gustavo: abordar, iludir, conquistar,
usar e abandonar.

Ele iria na quarta-feira, para aproveitar o feriado de quarta e quinta, e me perguntou


se eu queria ir junto e levar alguém. Eu já tinha respondido que não queria ir, mas me
pareceu uma boa ideia voltar atrás e levar o Hugo comigo. Eu não tinha os mesmos
planos que o Gustavo, de conquistar e abandonar, e já estava na minha cama, não seria
difícil prosseguir.

— Meu irmão me chamou para ir para o nosso chalé na Serra da Estrala — disse,
desajeitado. Hugo parou de comer, pegou o copo de ice tea de pêssego que estávamos
bebendo, deu um gole e continuou me olhando sem dizer nada. — Você gostaria de ir
comigo? — Eu lhe perguntei esperando um singelo “não”.

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— Mas seu irmão não vai ficar incomodado com a minha presença? — Ele
perguntou timidamente, enquanto tentava tirar os cabelos ainda molhados dos olhos, sem
encostar os dedos sujos de manteiga.

— Ele me disse pra convidar alguém, ele também está levando uma garota —
respondi levantando os ombros. Hugo balançou a cabeça positivamente.

— Sendo assim, eu adoraria ir à Serra da Estrela com você.

No mesmo instante, mandei mensagem para o Gustavo, dizendo que eu iria com
ele no feriado e levaria um amigo.

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Capitulo VIII
Théo
O sol nem havia nascido quando o Hugo chegou na minha casa. Gustavo atrasou
por volta de meia-hora do horário combinado, mas assim que chegou, guardamos as
malas, e fomos buscar Lara, a felizarda, ou melhor, coitada da vez. Já que Gustavo já
tinha se cansado da Gabriela.

Hugo olha para mim surpreso.

— você não é aquela menina que pediu ajuda para o Théo? — perguntou Hugo as-
sim que ela se sentou no banco da frente

Ela sorriu — sim sou eu mesma

Hugo olha para mim surpreso, acho que ele finalmente entendeu. A Lara não tinha
sido a primeira e nem a ultima pessoa a tentar se aproximar de mim só pra ficar perto do
Gustavo.

A viagem do Algarve para a Serra da Estrela era longa, geralmente levamos em


torno de cinco horas para chegar lá. Nas duas primeiras horas de viagem, eu adormeci no
colo do Hugo. Quando acordei, Hugo estava conversando com o Gustavo, aparente-
mente, os dois se deram bem, a pobre garota tentava interagir, mas muitas vezes fracas-
sava. No decorrer da viagem, ficamos conversando, jogando jogos de memória e atenção
e também “quem sou eu”.

Não tardou e perto do meio-dia chegamos no chalé. Fazia muito tempo desde que
eu não ia ali. Meu pai o comprou pouco tempo depois de eu ter feito 8 anos de idade.
Para qualquer criança isso seria uma notícia incrível, mas para nós isso era um presságio.
Meu pai é um “homem de negócios” e pessoas como ele não ficam e nem gostam de ficar
em paz, porque sempre acham que o mundo que eles construíram pode ruir. Portanto, se
meu pai estava nos levando para um lugar afastado assim, é porque algo estava errado.

Ao ver o chalé, a primeira coisa que me veio à mente foram as memórias ainda
frescas dos gritos, discussões, choros e ameaças. Fico surpreso como uma coisa pode
ter diferentes significados para diferentes pessoas. Para mim aquele chalé representava
tudo que eu mais odeio, para Gustavo, representava uma oportunidade. Eu me inquietava
ao pensar como Gustavo podia ter todas as mesmas lembranças e vivências que eu tive
e, ainda assim, ser capaz de voltar aqui só para ter uma noite de prazer. O mais
interessante é que, para quem não conhece a história, um lugar bonito é só um lugar
[Link] Hugo quanto Lara acharam o chalé encantador e ele era, de fato, lindo, se
você chegasse no momento certo, quando a neve ainda não tornou a estrada perigosa e
aquele local inalcançável. Saímos do carro, pegamos as malas e levamos para dentro do
chalé. O clima estava frio, mas ainda era início de outubro e a neve ainda não tinha dado

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as caras, a vegetação ainda estava vívida, o lago refletia o sol brilhante, e, o mais
importante, a vista era invejável.

Dentro do chalé, os móveis estavam cobertos por um fino plástico, responsável por
garantir que a poeira não fosse cobrir os sofás e os outros móveis. A casa geralmente não
ficava empoeirada, pois pagávamos alguém para limpar uma vez por mês. Quando eu
entrei, a sensação de sufocamento foi instantânea. Não sou de ficar falando de más
energias, mas entrar naquele lugar era como entrar em um velório, difícil até de respirar.
Hugo olhou para mim e notou meu incomodo.— Tudo bem? — ele me perguntou.

— Não é nada, acho que fiquei enjoado por causa da viagem — digo tentando abrir
um sorriso e desfazer a cara de criança traumatizada. Ele passou a mão gentilmente no
meu rosto e me afirmou que tudo ia ficar bem. Suas palavras doces me fizeram esquecer
brevemente o sentimento de sufocamento. Levamos nossas coisas para nosso quarto. O
chalé só tinha três quartos, geralmente era um para os meus pais, um para o meu irmão e
eu e um para minha avó, pois, desde que meu avô morreu, ela passou a viver conosco.
Gustavo pegou o quarto que geralmente ficava para os nossos pais, que era, sem
dúvidas, o melhor quarto e Hugo e eu ficamos no quarto da minha avó, que era melhor
que o quarto que eu dividia com o Gustavo.

Depois de termos nos instalado, Gustavo disse que iria até uma pequena venda, há
aproximadamente 2 km de distância do chalé, para comprar algo para comermos. Hugo
disse que gostaria de ir com o Gustavo, pois ele planejava cozinhar para nós, portanto
seria bom ele ir junto para escolher certos ingredientes. Então, fiquei sozinho no chalé
com a Lara. Depois que os dois haviam saído, Lara e eu decidimos sentar nos bancos
que haviam na sacada da casa, onde começamos uma singela conversa sobre como ela
conheceu o Gustavo, quais eram as expectativas dela, se ela já tinha ido à Serra da
Estrela alguma vez. Ela me disse que achava o Gustavo respeitoso, gentil e fofo e eu me
senti como naqueles filmes de sequestro, onde você só quer gritar para a vítima
“CORRA!”, mas, sendo sincero, eu já tentei a ajudar quando eu disse “não” pra ela, e
também sejamos sinceros o mundo não é justo, não é doce e é feito exatamente para nos
ensinar lições. A Lara, assim como, vêm de uma porcentagem pequena e privilegiada, a
vida já nos é mais fácil e sem muitos outros problemas que as outras pessoas. Deixar
pessoas como nós escapar das lições da vida é o mesmo que sentenciar um filhote de
panda a viver sozinho na floresta: é fofo, mas não vai longe. Eu, há muito tempo, aprendi
a só me meter e ter opiniões sobre coisas que me tocam. Se o assunto não entra no meu
caminho, não tem porque eu desperdiçar meu tempo e esforço. Aquela pobre garota, por
exemplo, vai aprender que nem tudo é o que parece.

Lara começou a perguntar das boas lembranças que eu tinha naquele chalé. É
claro que Gustavo não tinha contado nada da nossa vida para ela e ela tinha criado uma
ilusão de contos de fadas e família de comercial de margarina.

-- ah sim temos muitas memórias nesse chalé uma das que nunca me esqueço, foi um dia
que Gustavo e eu estávamos brincando na neve, quando voltamos pra casa, meus pais

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estavam aos berros um com o outro, aquilo era só mais um dia normal na nossa vida. Até
que minha mãe chamou meu pai de nojento. Ele como nunca foi um homem de muita
paciência acabou agarrando ela pela cabelo, jogou ela no chão. Minha mãe nunca me
demonstrou afeto, nunca me protegeu, no geral ela foi muito menos minha mãe do que
qualquer uma poderia ter sido, mas isso nunca me impediu de tentar proteger ela sempre
que as coisas pioravam. Antes que ele começasse a espancar ela, eu disse a unica coisa
que poderia chamar a atenção dele, “para com isso se não eu vou chamar a policia pra
você” nossa... ele odiava quando eu falava aquilo, ele não pensou duas vezes, já virou me
dando um tapa na boca, eu ainda me lembro de olhar pras minhas mãos cheia de sangue
que pingava da minha boca. Mas ai.

Antes que eu pudesse terminar a historia fomos interrompidos com Hugo e


Gustavo voltando, segurando duas sacolas cada um. Olho pra ela sorrio.

-- ele já voltaram foram rápidos.

Ela continua lá sentada me encarando com os olhos arregalados, enquanto eu me


levanto e vou até Hugo.

Hugo disse que haviam comprado marshmallow, chocolate e biscoitos para


assarmos na fogueira que faríamos de noite. Depois de guardar todas as coisas, Hugo
começou a cortar alguns legumes e vegetais para o almoço, ele disse que faria frango
empanado com batatas a murro e arroz. Hugo contou que cresceu em uma fazenda com
os pais e dois irmãos, e aprendeu desde caçar javalis a cozinhar. Seus pais sempre se
preocuparam em fazer o possível para que ele crescesse independente e autossuficiente.
Eu me voluntariei para ajudá-lo a cortar os legumes, já que estávamos todos com fome.

— Você consegue fazer isso sem se cortar? Não quero ter que parar o almoço para
levar alguém para o hospital. — Ele perguntou me entregando uma faca afiada.

— É, o hospital mais próximo fica a uns bons quilômetros daqui, você sabe —
completou Gustavo olhando nos meus olhos.— Não sejam tontos, eu sei usar uma faca
— eu respondi pegando a faca da mão de Hugo.— Ok, então enquanto você descasca e
corta as cebolas, eu vou colocar o arroz no fogo.

— Certo. Você deveria saber que nem todos ricos são bebês ambulantes — eu lhe
disse.

— Diga isso por você, porque eu sou um bebezinho. — Gritou Gustavo, sentado no
sofá.

— Não é porque você adora ficar agarrado em alguma mulher que significa que
você é um bebê, Gustavo! — eu gritei da cozinha.

Hugo não conseguiu segurar o riso e deu fortes gargalhadas, enquanto Lara ficou
imediatamente vermelha, claramente constrangida. Gustavo não me respondeu, mas cer-
rou os olhos demonstrando desgosto pelo meu comentário. Eu também cerrei os meus,
abrindo um cínico sorriso. Eu já tinha terminado de descascar a cebola e comecei a cortá-
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la. Hugo olhou para mim com os olhos arregalados. -- Nossa, eu não sabia que você
sabia usar a faca assim tão bem!

— Eu te disse que nem todos nós somos bebês — eu retruquei sorrindo.

— Você pode cortar o frango agora, enquanto eu termino de fazer o arroz — disse
ele ainda surpreso e apontando para o frango que estava dentro da pia.

— Não, isso eu vou passar, não gosto de cortar carne — eu respondi com um sor-
riso modesto.

— Que ironia, não é, meus amigos? — provocou Gustavo. Minha cabeça


automaticamente virou para ele, enquanto eu o olhava com os olhos cerrados. Preferi não
responder, para não levantar nenhuma argumentação desnecessária, pois,
aparentemente, ele não gostou do meu último comentário e como só temos um carro,
não quero correr o risco de ter que ficar preso com ele de mau humor por dois dias, além
do que, eu tenho mais a perder aqui do que ele.

Assim que Gustavo provou o almoço preparado por Hugo, arregalou os olhos.

— Isso está muito bom. Agora eu entendi o porquê de o Théo ter te escolhido como
namoradinho.

Hugo automaticamente virou sua cabeça, mostrando sua completa perplexidade


sobre o comentário de Gustavo.

— Obrigado… — respondeu ele, ainda desorientado. Ao perceber o desconforto do


comentário, eu rebati:

— Primeiro que não estamos namorando, segundo que, mesmo que estivéssemos,
se eu estivesse procurando alguém pra cozinhar pra mim, teria contratado uma
cozinheira.

— Oh, não me entenda mal, eu só quis dizer que você é muito prendado—
respondeu Gustavo, sorrindo com a boca cheia.

— Não, tudo bem, eu entendi o que quis dizer — respondeu Hugo —, mas me fala,
vocês se conheceram? — completou Hugo, puxando um assunto mais agradável.

— Nós nos conhecemos na festa do Saulo, naquela noite eu tinha passado mal,
porque tinha bebido um pouco de mais e o Gustavo me acompanhou até minha casa —
respondeu Lara sorrindo e apertando a mão do Gustavo, que estava sobre a mesa. — Foi
super fofo, ficamos conversando até adormecermos juntos.

Hugo olha para mim com as sobrancelhas frisadas, ele não disse nada, mas era
óbvio que Hugo tinha se lembrado que naquela noite Gustavo e Gabriela em teoria
estavam juntos. Bem, se ela ainda não tinha dito a Hugo como Gustavo era, então ele ia
descobrir ali. Essa também foi a mesma festa que eu quase morri afogado
“acidentalmente”, porque meu irmão tinha desaparecido. -- Sim, meu irmão é um doce —
respondi com um sorriso no rosto —, muito atencioso.
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— E vocês? Onde se conheceram? — perguntou Lara.

— Na nossa aula de música, eu e ele chegamos atrasado na aula e tivemos que


fazer dupla para tocar na frente de toda a sala. Eu travei na hora e o Théo acabou to -
cando sozinho — respondeu Hugo, dando boas gargalhadas.

— É verdade, eu olhava pra ele todo se tremendo na aula do Álvaro e só me


perguntava “por que me odeia tanto, Deus?” — eu complementei sorrindo.

— Ah, ele é o pianista com Parkinson — disse Gustavo gargalhando.

Não consegui segurar o riso e comecei a gargalhar também.

— SIM, era ele mesmo. Bizarro eu agora estar com o Pianista com Parkinson.

Hugo ficou surpreso, mas com um sorriso no rosto

— É assim que você me chamava? — disse ele olhando pra mim.

Dei de ombros, enquanto olhava pra ele sorridente.

— Se arrependeu de ter me salvado na piscina? — perguntei, irônico.

— Nah, valeu a pena — respondeu ele, passando a mão no meu rosto, fazendo me
carinho.

— Desculpa ser intrusiva, vocês não estão namorando, mas estão juntos, não é?
— perguntou Lara timidamente, com a cabeça baixa, olhando para o prato, enquanto
limpava a boca com um guardanapo vermelho.

O clima ficou novamente estranho, pois, mesmo eu querendo dizer que sim, eu não
sabia se estávamos juntos e eu não queria dizer que não, para não ofender o Hugo, caso
ele achasse que sim. Ao mesmo tempo, não queria dizer que sim e, se o Hugo não
estivesse interessado, eu acabaria agindo como um desesperado. Aquele era um tipo de
pergunta tão maldosa quanto perguntar a alguém que ainda não se assumiu se é gay ou
não. Era previsível a má disposição que esta questão colocava. Meu conselho pra você,
caro leitor, é que, se a pessoa ou o casal não se pronunciar, não pergunte, e, caso você
queira perguntar, pergunte discretamente para um deles e não para os dois, assim você
vai evitar uma clara indisposição.

Quando olhei para Hugo, ele parecia igualmente confuso. A questão da Lara caiu
como uma faca decisória que nos impulsionava a decidir, ali, na frente deles, se éramos
namorados ou se magoaríamos um ao outro.

— Tipo isso — eu respondi, escapando meu olhar do olhar do Hugo.

— Mas se dependesse de mim, estaríamos namorando, para ser sincero — ecoou-


me a voz de Hugo. Provavelmente, eu fiquei vermelho como um pimentão. A vergonha
me pairava e eu não conseguia olhá-lo nos olhos. Eu também sentia o mesmo e tinha
medo de que lhe passasse o sinal errado caso não olhasse em seus olhos naquele

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momento, mas, mesmo eu tentando, eu não conseguia. Mas, como um ato de coragem,
segurei sua mão e sorri.

O assunto terminou ali, já tínhamos terminado de comer, Lara e Gustavo haviam se


voluntariado a lavar e secar a louça, já que Hugo e eu já havíamos cozinhado. Logo após
eles terminarem, fomos todos dar uma volta pelo parque. Havia um lago que, no inverno,
congelava, mas que, infelizmente, ainda não estava congelado, ficamos jogando algumas
pedras. Gustavo contou que uma vez acertou minha cabeça “sem querer” enquanto
brincávamos daquele jeito, naquele lago. Para mim a história não era tão divertida, a
pedra acertou meu supercílio e tivemos que sair correndo para o hospital comigo
sangrando. ele conta essa história e ressalta que foi “sem querer”, como uma lei da
atração, de que, se ele repetir muito algo, isso se tornará realidade. Não sei se ele fazia
para limpar sua consciência, que ficou marcada, assim como minha sobrancelha, com a
cicatriz que ele me fez, ou se era para evitar alguma possível vingança da minha parte.

Hugo também contou que tinha muitas memórias relacionadas à água e à praia,
pois ele vinha da Ilha da Madeira e, portanto, adorava passar muito tempo nas praias.
Quando ficava triste, gostava de ouvir os sons das ondas para esquecer os sofrimentos.

No final da tarde, o sol já estava se pondo e já tínhamos voltado pra casa. Gustavo
foi pegar o machado para cortar lenha, pois iríamos fazer uma fogueira e eu fui buscar
algumas salsichas, marshmallow, chocolate e biscoitos para a nossa janta. Quando voltei,
Gustavo já estava demonstrando sua força para Lara, com seus golpes fortes e certeiros
na lenha. Ela olhava pra ele como uma criança vendo o Papai Noel. Ouso dizer que nós,
seres humanos, mesmo brigando e reivindicando o título de semi-deuses e não de
animais, acabamos caindo na enfadonha animalidade, o que faz com que pessoas como
a Lara se impressionem e, muitas vezes, acabem somente procurando por um macho
capaz de demonstrar que sua prole terá bons genes. A verdade é que todos somos
animais com síndrome de Deus., Alguns se impressionam com um bom par de músculos,
outros com um bom nível de QI ou com a capacidade do parceiro de ser sociável, todas
capacidades que nós, de alguma forma e, principalmente, inconscientemente,
entendemos como necessárias para a sobrevivência e o fortalecimento da prole.

Com a lenha já cortada, arrumamos-na e logo acendemos a fogueira. O sol já tinha


se posto, espetamos as salsichas em pequenos gravetos, sentamos ao redor da fogueira
e, pouco a pouco, começamos a colocar para assar nosso jantar. Fazia muito tempo
desde a última vez que eu me sentia tão relaxado e despreocupado, ouso dizer que me
sentia até feliz. Eu nunca tive amigos, Gustavo, por praticamente toda minha infância, era
o único que eu chegava perto de considerar como um amigo. Meus pais não permitiam
que nós fizéssemos amigos, nossa família era bem fechada e geralmente só mantinham
contato com nossos primos ou, no máximo, com pessoas como o Saulo. Esse tipo de
amizade nos era permitida exatamente porque nossos pais tinham interesses em comum,
o que favorecia uma amizade inter-familiar em prol de uma cooperação para a
corporação. Gustavo, após alguns anos, havia, enfim, aceitado se submeter a este

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controle e passou a ver Saulo não como uma amizade planejada, mas como um amigo de
igual sofrência. Eu, por outro lado, abracei a solidão e fiz dela minha única e leal amiga.

Após algumas salsichas assadas e muita conversa, Hugo e eu decidimos nos


deitar em uma pequena rede que ficava a dois ou três metros de distância da fogueira, e
lá ficamos abraçados e conversando, enquanto Gustavo e Lara ficavam abraçados ao pé
da fogueira. Pouco tempo havia se passado até que Hugo me pediu para lhe fazer um
Smores, um doce, muito doce, onde derretemos o marshmallow e fazemos um sanduíche
de biscoito, marshmallow e chocolate. Fui até a fogueira coloquei um marshmallow
espetado em um graveto e sentei-me na pedra do lado deles. Lara começou a reclamar
dos mosquitos e foi para casa pegar um repelente, deixando eu e o Gustavo ali, sozinhos.

Ficamos os dois olhando para a fogueira, eu prestando atenção para meu marsh-
mallow não pegar fogo, até que Gustavo se aproximou de mim e começou a sussurrar:

— Eu não quero parecer inconveniente, – é incrível como eles sempre são quando
começam a frase assim… – mas o que você está fazendo Théo?

Ele se referia ao fato de eu estar com Hugo…Ele sabe que isso não é uma boa ideia, ele

– Eu estou escolhendo viver – digo olhando para meu marshmallow

– E por que ele? por que agora?

— Eu também não sei te responder isso com certeza, Gustavo, mas quando eu o
conheci, eu estava em um buraco tão profundo e sem esperança que eu acho que me
faltava pouco para implorar por ajuda, e, do nada, ele apareceu, não exigiu nada de mim
e, ao mesmo tempo, me fez sentir que eu tinha tudo. — respondi parando de olhar para
meu marshmallow e encarando Hugo, que olhava para o céu, admirando as estrelas.— E
como você sabe que você, de fato, o ama ou se está apenas cansado da solidão, Théo?
— indagou Gustavo.

Virei meu rosto para Gustavo, encarando-o.

— No final das contas, nós nunca sabemos se amamos ou se só estamos fugindo


da solidão, Gustavo. Eu não posso dizer com 100% de certeza que o que sinto é amor,
mas sei que, assim como você, passamos quase cinco anos da nossa vida vindo pra esse
chalé e, assim como eu, você presenciou todas brigas, os traumas, os medos, os gritos e
os calafrios. Assim como eu, você sabe o que este chalé representa. Você pode ter
aprendido a ignorar ou ter transformado este calafrio que temos quando pisamos dentro
desta casa em parte do teu sadismo, mas eu não aprendi a converter isso, eu não aprendi
a entrar neste mundo que nossos pais nos inseriram. No momento em que eu coloquei os
pés nesta casa, hoje de manhã, o mesmo calafrio e traumas voltaram à minha mente,
mas quando ele tocou no meu braço e perguntou me se eu estava bem… foi como se ele
fosse capaz de ressignificar tudo com uma extrema facilidade, me fazendo não me
importar com o passado e nem com o que esta casa representa.

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— Entendo — concordou ele com a cabeça. — Você achou alguém que te faz
esquecer do passado, mas é bom se lembrar de que você ainda vive no presente, Théo.
Imagine o que a mamãe e o papai vão fazer quando descobrirem isso.

— A mãe não precisa descobrir nada e muito menos ele! — respondi com repudio.

— Você espera esconder isso para sempre? — perguntou Gustavo.

— Não, eu só preciso esperar que os dois morram. A mãe já tem 50 anos e ele,
com a vida que leva, é questão de tempo até alguém dar cabo dele. Portanto, eu só
preciso que você fique quietinho e não abra a boca.

— Você sabe que as coisas não funcionam assim, mesmo se eu não contar, eles
vão saber, eles sempre sabem. Mas olha, eu sempre estarei aqui para te ajudar. Você é
meu irmão, mas as coisas são complicadas.

Essa última parte pareceria muito fofa, se viesse de qualquer outra pessoa, mas
creio que até você, caro leitor, já foi capaz de entender que o que saiu da boca de Gus-
tavo não era totalmente verdade.

— Uma vez Hugo me disse que sentia falta de ser criança, porque naquela época tudo era
tão fácil… quando ouvi aquilo eu senti uma angustia, não porque o invejo, mas porque…

— Eu sei— disse ele me interrompendo— eu te entendo…

Antes que Gustavo continuasse, Lara chegou e o abraçou pelas costas, dando-lhe
um beijo no pescoço. Meu marshmallow já tinha assado e já estava prestes a cair do meu
graveto, de tão derretido que estava, o que me fez tirá-lo do fogo imediatamente e colocá-
lo no meio do biscoito com chocolate para levar para o Hugo.

— A conversa está boa, Gustavo, mas tenho que levar o S'mores do Hugo —
disse, levantando-me e indo em direção a rede onde o Hugo estava.

Enquanto eu ia, pude ouvir Gustavo dizendo que já estava tarde e que, como pas-
sou toda a manhã dirigindo, queria ir dormir. Com isso, os dois entraram em casa.

Hugo

Théo e eu ficamos na rede, deitados, abraçados, olhando pro céu, eu lhe dizia que
sentia muitas saudades de ver o céu estrelado daquela forma, pois todos os dias eu
observava o céu na minha terra, mas, no Algarve, isso era impossível por causa das
luzes. Théo me disse que já tinha vindo aqui diversas vezes, mas que nunca tinha
prestado atenção nas estrelas, ele nem sequer sabia que aqui as estrelas eram tão mais
evidentes, eu me perguntava, o que fez aquela criança nunca ter desejado olhar para o

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céu, mesmo tendo o tão perto e tão claro. Enquanto estávamos abraçados, admirando as
estrelas, Théo me fazia carinho no cabelo.

— Você não se sente confortável aqui, não é? – eu lhe pergunto

— Não. — ele parou de brincar com o meu cabelo.

— Por quê? O lugar é tão bonito, calmo... Deve ser o sonho de todo mundo ter um
chalé como esse.

— Eu sei, o problema não é o chalé, mas o que ele representa para mim. Esse era
o lugar para onde nossos pais vinham quando a situação ficava grave para nossa família.
Quando recebíamos a notícia de que estávamos indo para o chalé, eu e Gustavo nunca
entendíamos como momentos de férias, mas sim como momentos de isolamento e tortura
junto a duas pessoas instáveis e tóxicas. Você está venda aquela arvore ali — disse ele
apontando para uma arvore lá ao fundo.

— Sim, o que tem?

— Quando eu tinha em torno dos meus 14 anos, minha familia descobriu que eu
estava me relacionando com um garoto. Meu pai foi a loucura, minha mãe aproveitou para
o culpar, ela dizia que aquilo era por causa da ausência dele. Ela fez tanto sua cabeça
que ele acabou me trazendo pra cá, passamos quase uma semana sozinhos nessa casa,
fazendo coisas de homem, em uma falsa expectativa de que isso fosse me mudar…

— eu sinto muito em ouvir isso, meu bem.

— essa não foi a pior parte, eu já estava acostumado a ser tratado como um
problema, a parte que me deixou mais triste naquela semana, foi quando ele notou que
havia um pássaro rondando a casa, possivelmente tinha posto ovos aqui perto então
estava sempre pelos arredores da casa. Quando meu pai notou isso, ele colocou uma
espingarda na minha mão “homens de verdade cassam” disse ele. Eu não queria matar o
pássaro, não tinha porque ele morrer por minha causa, mas você sabe, quando se é uma
criança você não tem muitas escolhas.

Ele olhava para aquela arvore como se vivenciasse tudo aquilo de novo, era de
apertar o coração.

— Quando eu atirei, eu atingi a asa dele, comemorei, fingindo que tinha o matado
para ver se ele deixava o bicho em paz, para que mais tarde eu pudesse cuidar da asa
dele, mas o desgraçado não era burro, ele notou que eu tinha atingido a asa, fomos até o
pé da arvore onde o pássaro tinha caído, lá ele se debatia com uma asa quebrada. “Agora
na cabeça” ele disse.

Ele engrossava a voz e fazia-a parecer nojenta sempre que imitava o pai. Eu o
abraço com mais firmeza sabendo o que vinha pela frente, eu queria conforta-lo dar meu
calor a ele.

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— eu me recusei, eu não ia matar ele só por minha causa, ele gritava me
mandando atirar, mas eu não fiz, aquele era meu limite. Ele arrancou a arma da minha
mão, com um piscar de olhos

POW

— Vi a cabeça do pássaro desaparecendo. Mais tarde naquele dia eu o enterrei de


baixo daquela arvore, sempre que eu vinha pra ca eu olhava pra ela, me lembrando
daquele dia.

— Foi a primeira vez que você matou algo?

— Não, mas foi a primeira que algo morreu por minha causa.

— Não foi culpa sua, me parece que seu pai era do tipo de que caça por esporte,
ele iria matar aquele animal em algum momento.

— pode ser, mas isso não muda o fato de que aquele, morreu por minha causa.

Eu não era capaz de imaginar o que ele tinha vivido ali, mas eu era capaz de ver
nos seus olhos a dor que ele sentia ao estar ali.

– Me entristece saber que você teve uma infância assim.

– não fique triste por causa disso, não foi sua culpa

– Pode não ter sido, mas eu queria que você tivesse tão boas memórias da infância
como eu tenho. Mas o lado bom da vida é que ela não é formada só pela infância, sempre
há tempo para ser feliz.

Théo não disse mais nada, só me deu um beijo na cabeça e me abraçou com mais
força. Para quebrar aquele clima melancólico, Théo trouxe um assunto que mais cedo não
tínhamos terminado.

— Você… Hm... — gaguejou — Você estava falando sério quando disse que, se
dependesse de você, estaríamos namorando? — Ele sorriu

— Você é muito menos cuzão quando tenta ser fofo, sabia? — Ele esfrega o rosto
entre os meus cabelos. — É claro que eu estava falando sério.

Senti que meu corpo estava quente, mas, ao mesmo tempo, senti muito frio. Deve-
ria ser o pânico me atacando.

— Eu também gostaria de ser teu namorado — respondi com a garganta travada


pelo medo.

— você está perguntando se eu quero ser teu namorado, é isso? — pergunto, com
tom desafiador.

— Talvez sim — ele respondeu acanhado.

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É tão visível o como somos tão fracos e inseguros, pois mesmo eu dando todos
sinais de que queria namorar com ele, ele, ainda assim, demonstrava medo. Mesmo
permitindo que ele abraçasse, me fizesse carinho e me beijasse de forma apaixonada, na
cabeça dele ainda passava a ideia de que talvez eu só estivesse sendo gentil e com
medo de ferir sentimentos dele. — Bom, neste caso, se você estivesse me pedindo, eu
talvez dissesse que sim — digo olhando para as estrelas.

– Estou sentindo um frio subindo pela minha barriga, são essas as famosas borbo-
letas no estômago que tanto dizem?

– você nunca as sentiu antes? – digo sorrindo

– O mais perto que cheguei desta sensação foi ansiedade,

não consigo evitar de soltar uma gargalhada, sei que ele não estava brincando e
que eu não deveria ter rido, mas não resisti – devo admitir que se parecem, mas, ao
mesmo tempo, são diferentes.

— você quer ser meu namorado? — perguntou todo encolhido de vergonha.

— Não sei, por que você não experimenta perguntar olhando nos meus olhos? —
ele me soltou de seus braços, para que eu pudesse me virar para olhar para ele.

Como é gostoso esse momento onde vocês dois querem algo tão intensamente,
mas ainda assim você faz ele implorar. Eu não sei se eu tinha muita coragem pra fazer
prosseguir, mas se ele já que tinha chegado tão longe, não tinha mais porque ter receios
ou vergonhas. A rede não era grande e nem estável. Com muito esforço, e quase
derrubando nós dois no chão, consegui me virar em direção a Hugo. Meu peito ficou
deitado sobre o dele, minhas mãos abraçavam-no e as dele me abraçavam, meu coração
batia forte. Ainda bem que já estava de noite, pois eu tinha certeza que estava todo
vermelho. Mesmo com meu estresse e a pouca concentração que eu tinha, eu ainda fui
capaz de escutar e sentir o coração dele, que batia tão ou até mais forte que o meu. Olhei
em seus olhos, ele engoliu a seco o medo que subia pelas suas veias e perguntou:

— Você quer namorar comigo?

Puxei o ar entre os dentes e disse:

— Não, obrigado. — respondo sorrindo.

Ele poderia ter tido muitas reações, mas a surpresa só o permitiu ter cara de
pasmo.

— O que foi? — Eu pergunto com um sorriso traquinas no rosto. — Eu disse que


TALVEZ dissesse que sim.

— Ah, é? Ok, então TALVEZ eu pare também...

— Parar? Parar com o...

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Antes que eu terminasse sua pergunta, ele cravou seus dentes no meu peito dire-
ito, que estava perto da sua boca. ele não mordeu forte para não me machucar de ver-
dade. Mas no exato momento em que ele me mordeu, eu saltei e comecei a me debater
na rede, tentando o empurrar. Quando notei que não adiantava, eu comecei a tentar lhe
fazer cócegas, o que o fez apertar um pouco mais sua mordida. Eu gritava enquanto gar-
galhava. Nossa agitação na rede foi tanta que acabamos tombando da rede. Ela não es-
tava muito alta, então ele não se machucou, mesmo que tenha caindo em cima de mim.
Ao cair, ele teve que parar de me morder, para não me machucar e nem quebrar seu
dente. Caídos no chão, ficamos os dois olhando um pro outro recuperando o fôlego.

— Eu disse que TALVEZ pararia — Ele diz, sorrindo com a respiração pesada.

— Você é vingativo! — exclamei.

Mas logo em seguida, ali mesmo no chão, eu me aproximei mais dele, deixei seu
rosto tão perto do meu que eu quase conseguia sentir seus lábios tocando os meus.

— Deixando a brincadeira de lado — digo, sussurrando bem pertinho dele com


uma voz aveludada e gentil —, eu quero sim ser teu namorado. — Logo em seguida, ele
me deu um beijo e eu imediatamente senti como se mil borboletas estivessem na minha
barriga. Era quase impossível aguentar.

Eu fiquei impressionado com como o beijo de Théo me faz sentir tão bem, como
um ato tão simples me dava tamanha leveza. Depois de nos beijarmos, eu não conseguia
mais tirar o sorriso do rosto e nem ele. Ficamos ali no chão por mais dois ou três minutos,
nos beijando e admirando um ao outro, até que decidimos voltar para nosso quarto.

Assim que entramos, Théo fecha a porto do quarto agarra minha cintura pelas
costas, sinto sua respiração no meu pescoço seguida de leves beijos, me arrepio de sentir
seus lábios e sua mão firme me segurando e percorrendo meu corpo lentamente, meu
coração já batia forte, ele coloca a mão no meu pau e ele finalmente sente o quanto estou
duro.

Ele me puxa mais ainda pra perto dele como se ele quisesse que fossemos um só.
Sinto sua dureza nas minhas costas, me viro, beijo ele como nunca beijei ninguém,
sedento!

Théo

Na manhã seguinte, acordei por volta das 10 da manhã e Hugo já não estava mais
deitado ao meu lado. Levantei-me e desci as escadas em direção a cozinha, e lá estavam
os três: Hugo fazia Strapatsada, um prato típico grego, feito com ovos e tomates, como se
fosse ovos mexidos com molho de tomate, que comemos com torradas. Eu não sabia que
Hugo sabia fazer este tipo de comida, a cada dia ele me surpreendia mais e mais.
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Enquanto isso, Gustavo e Lara estavam sentados na Ilha da cozinha, cada um de um
lado. Lara segurava sua xícara de chá e Gustavo brincava com uma laranja, rolando-a de
um lado para o outro.

Minha chegada chamou-lhes a atenção, fazendo Gustavo e Lara olharem para


mim.

— Bom dia — eles disseram quase sincronizados.

— Bom dia — respondi, indo em direção ao Hugo e dando-lhe um beijo. Andei em


direção à ilha e sentei do lado do Gustavo para esperar que Hugo terminasse a
Strapatsada.

Quando me sentei, notei que Gustavo não parava de olhar para Lara e vice-versa.
Os dois trocavam olhares estranhos, como se estivessem falando telepaticamente. Seus
olhos estavam semicerrados como se estivessem tentando entender algo, eles olhavam
para si e logo em seguida para mim, eu fiquei confuso pela situação, mas logo entendi.

— O que é isso no teu pescoço? — perguntou Gustavo, colocando os dedos no


meu pescoço.

— Parece um chupão — respondeu Lara, logo após dar um gole em seu chá e
imediatamente abrindo um sorrindo de canto de rosto.

— Ontem os mosquitos estavam insuportáveis — respondi, tentando não ficar


vermelho.

— Eu achava que mosquito picava e não chupava, mas tudo bem, pelo que ouvi-
mos ontem, de fato estes mosquitos estavam insuportáveis e zumbiam muito — respon-
deu Gustavo abrindo os olhos e dando um sorriso de orelha a orelha.

— Algo me diz que esse mosquito que te picou tinha 1,78 de altura — Lara comple-
tou.

Eu, imediatamente, fiquei vermelho como um pimentão e, então, olhei para Hugo.

— Eu te disse pra não fazer isso! — repreendi. Hugo sorriu e deu de ombros.

— Isso é vingança por você ter mordido meu peito.

— Aparentemente você também puniu o mosquito que te mordeu — continuou


Gustavo.

Viro meu pescoço para Gustavo olho o com olhar intimidador e com os dentes cer-
rados eu rosno:

— Cala boca!

Pouco tempo antes de terminarmos nosso café da manhã, uma forte chuva
começou a cair, chuva esta que não parecia que iria acabar tão cedo. Nossos planos
teriam que mudar, não poderíamos sair e teríamos que ficar ali dentro de casa. Lara,
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então, deu a ideia de ficarmos todos no sofá e fazer um dia de séries e relaxamento. A
ideia pareceu ótima e assim fizemos: juntamos todos os salgadinhos, chocolate, pipoca e
refrigerante que tínhamos e ficamos o dia todo no sofá.

No começo, uma guerra quase se instaurou, porque Hugo queria assistir aqueles
desenhos animados que, aos olhos de uma criança é apenas um desenho inofensivo,
mas para um adulto cada piada é uma critica bem feita. Gustavo e eu apelamos para
assistir algum filme de terror, ambos compartilhávamos este gosto pelos filmes ruins onde
cada vítima demonstrava uma imensa ingenuidade ao tentar escapar do assassino ou do
demônio. Lara, por sua vez, queria ver algum filme romântico, para aflorar os sentimentos
que compartilhávamos. Para não iniciarmos uma briga, decidimos que cada um iria
escolher um filme, afinal, passaríamos o dia todo ali. Decidimos jogar pedra, papel ou
tesoura para decidir quem seria o primeiro a escolher. Mesmo as estatísticas estando do
meu lado e do Gustavo, a Lara venceu. Ela escolheu assistir “Little Manhattan”, um filme
realmente fofo, se você tem 15 anos. Ela disse que esse era o filme favorito dela.

Passamos todo o dia assistindo filmes, alguns bons, alguns duvidosos. Em muitos
deles acabamos caindo no sono, tomamos sustos em conjunto e até rimos com piadas de
humor duvidoso. Muitas vezes eu olhava ao meu redor, quase como se eu não fosse mais
capaz de recordar o que aquele lugar era, o que ele representava, eu só conseguia ver
pessoas sorrindo e aconchegadas umas nos braços das outras. Na manhã seguinte,
voltamos todos pra casa logo de manhã.

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Capitulo X

Théo
Duas semanas se passaram após a viagem, novembro já havia chegado, o clima
ficou mais frio, com poucos dias de sol, que mais servia de enfeite do que, de fato, para
nos aquecer. Era uma quinta-feira de manhã, quando acordei com uma sensação
estranha. Passei a noite tendo pesadelos, um deles era um dos meus pesadelos mais
frequentes, onde eu estou preso em um lugar, geralmente varia entre uma casa, presídio,
parque ou escola. Neste sonho, sempre tento fugir do lugar e somente com muito esforço
sou capaz de fugir, mas, para minha tormenta, o sonho não termina ali, pois sempre que
fujo há alguém correndo atrás de mim para me forçar a voltar para aquele lugar de onde
estou tentando escapar. Este sonho não é assustador, mas é agonizante o suficiente para
me fazer acordar, tremendo e sem fôlego, como se eu tivesse, de fato, corrido e não
sonhando. Geralmente não tomo banho matinal para ir para a universidade, mas naquele
dia decidi tomar, pois, mesmo estando frio, acabei suando por causa dos pesadelos.

Assim que terminei de me arrumar, mandei uma mensagem de bom dia ao Hugo e
lhe informei que já estava indo para a universidade. Quando abro a porta da rua, sinto
calafrios, mas decidi ignorar, o clima estava frio, sem dúvida foi um choque térmico por
causa do banho quente.

Minha primeira aula foi tranquila, praticamente me fez esquecer o quão ruim foi
minha noite, já a segunda aula, a de prática musical, foi um alerta. Assim que tirei meu vi-
olino da case, mal toquei duas notas e a quarta corda do violino, a corda mi, “E”, arreben -
tou. Ela é a mais fina e mais aguda e, consequentemente, a que mais tem chance de
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machucar um violinista por ser a mais próxima do queixo. Por sorte, a corda não me cau -
sou nenhum ferimento no rosto, mas me deixou irritado pois perdi um tempo considerável
trocando a corda. Com a corda nova, voltei a tocar, mas uma ou duas partituras depois, a
crina do arco do meu violino arrebentou, caindo sobre as cordas.

A professora, ao ver as crinas do meu arco arrebentadas, pediu para que eu fosse
tomar uma água, a aula já estava prestes a acabar e eu já estava dispensado. Saí da sala
bufando de raiva e decidi ir ao banheiro para lavar meu rosto. No corredor, senti o mesmo
calafrio de quando saí de casa percorrendo todo o meu corpo. Mas por quê? Dentro da
universidade o clima era agradá[Link] poderia fingir que não sabia o que se passava,
mas, no fundo, eu conhecia aquela sensação, e não era frio, mas eu preferia não
acreditar que aquilo estava prestes a acontecer comigo. Eu conhecia bem aqueles
presságios, além do que, calafrios são um sinal claro de que algo errado aconteceu ou
está prestes a acontecer. Pouco antes de chegar ao banheiro, ouvi uma voz familiar, que
vinha do final do corredor.

— Ele está ali! — disse o reitor apontando com a cabeça em minha direção.

Meu corpo quase entrou em colapso, meu sangue gelou e meu coração bateu na
minha boca e voltou. Eu sabia que alguma coisa ruim iria acontecer, mas não imaginei
que seria tão ruim. No final do corredor, estava minha mãe conversando com o reitor, que
estava virado em minha direção, enquanto ela estava de frente para ele. Quando eu a vi,
minha única reação foi me jogar atrás da lata de lixo, que, mesmo sendo grande, não me
escondia devidamente. Ainda assim, ela me viu.

— É inútil se esconder, eu já te vi — confirmou ela caminhando em minha direção.


Seu salto alto ecoava pelo corredor a cada passo.

“Merda! Merda! Merda!” Gritava em minha mente. Juntei o pouco da dignidade que
ainda me restava, depois de ter me jogado atrás da lata de lixo como um soldado ten-
tando fugir dos tiros em uma guerra, me levantei e abri um grande sorriso.

— MÃE! — Eu exclamei, tentando manter o sorriso no meu rosto o mais natural


possível. — Que surpresa maravilhosa, estou feliz em ver você aqui.

Ela molhou os lábios, preparando-se para disparar suas atrocidades.

— por que você se jogou atrás da lata de lixo quando me viu? — perguntou
colocando a mão na cintura.

“Mantenha o sorriso”, eu pensava insistentemente.

— Ah, mas eu não me joguei para me esconder, eu tropecei… Eu já disse algumas


vezes para o reitor que, nesta época do ano, como tem muitas chuvas, as pessoas
acabam andando lá fora e no corredor e acabam molhando o chão todo. Isso é perigoso,
eu já lhe recomendei a tomar as devidas providências a respeito disso, mas aqui estou
eu, caindo de novo — respondi olhando para o reitor, que também me encarava com os
olhos cerrados, demonstrando sua clara insatisfação perante minha mentira.
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Minha mãe olhou para o chão, analisando-o, olhou para o reitor, que, ao ver o olhar
dela, automaticamente mudou sua feição de desprezo para a feição de preocupação.

— Pois, de fato, um devido cuidado deveria ser tomado a respeito disso — reiterou
ela— imagina se o Gustavo acaba caindo e quebrando um braço por causa disso, como
fica a situação?

É serio isso?

— Sim, claro, tomarei as devidas providências, no entanto, vou deixar vocês


conversando — disse o reitor, já virando de costas e indo embora. Com o reitor longe, eu
automaticamente me tornei o centro das atenções.

— Olhe para você — disse ela, com voz de desdém, olhando-me de cima a baixo,
analisando cada parte do meu corpo. — magro, o que você está fazendo com o dinheiro
que eu te dou? Tenho certeza que você gasta meu dinheiro com prostitutas, assim como
seu pai.

Sim, querido leitor, essa é minha mãe... Essa frase expressou mais da minha infân-
cia e minha relação com minha mãe do que você pode imaginar.

— Eu também te amo, mãe — respondi, já com os músculos do rosto doendo de


tanto forçar um sorriso. — Mas por que você está aqui? — insisti.

Ela abriu um sorriso e respondeu-me como se estivesse contando uma fofoca para
uma amiga.

— Eu vim convidar meu filho e a namorada dele para passar o final de semana
comigo, é claro.

Fiquei confuso, mas tentei seguir com a única explicação que me parecia possível.

— Legal, acho que o Gustavo está no prédio azul, vou mandar uma mensagem
para ele, assim ele te encontra lá.

Ela franziu as sobrancelhas.

— Oh, não, eu estou falando de você… — O sorriso que eu tentava manter se des-
fez, minhas sobrancelhas juntam uma com a outra, mas, logo em seguida, tentei trazer o
tão irritante sorriso de volta ao meu rosto. — Já vi o Gustavo, foi ele quem me contou a
novidade, por isso estou aqui. — disse ela, continuando sua explicação

“Filho da Puta!” Urrei em minha cabeça. Meu coração, que já batia forte, quase saiu
pela minha boca ao imaginar tudo o que o Gustavo contou a ela. Como eu odiava o Gus -
tavo, às vezes… Como ele pode ter feito isso comigo?

— Sinto muito, mãe, mas acho que o Gustavo está louco, porque eu não tenho
namorada…

Gustavo e minha mãe sempre tiveram um bom relacionamento, ou, no mínimo,


melhor que o meu com ela. O que faz com que ele sempre acabe contando para ela tudo
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que eu faço ou ando fazendo. Eles conversam muito e são bem próximos, mas eu esper-
ava que ele fosse ter alguma consideração, neste caso. Mas eu sinto algo de estranho,
por que ela veio achando que eu tinha uma namorada e não um namorado? Será que o
Gustavo não teve coragem de contar todos os detalhes? Ou é ela jogando comigo?

Quando terminei de falar, senti os braços de alguém me abraçando, pela cintura.


Aqueles braços me eram mais que familiares, mas eu me recusava a querer acreditar no
que estava acontecendo, eu até mesmo implorava a Deus para que fosse alguém que me
odeiasse prestes a me dar um Suplex Alemão. “Merda!” sussurrei com os olhos fixados
nos braços que me agarravam. Era o Hugo. A minha mãe olhou-me confusa e com um
olhar atordoado.

— Oi, Paixão — sim, eu sei que é bobo, mas é assim que o Hugo começou a me
chamar logo após começarmos a namorar —, eu estava procurando por você. — disse
ele, apertando-me ainda mais nos seus braços.

Hugo sabia que eu estava falando com alguém, mas, até então, não tinha reparado
com quem eu estava falando. Quando ele saiu de trás de mim e viu a cara da minha mãe,
parou de me abraçar imediatamente. -- Quem é esse? — perguntou minha mãe.

Sinceramente, eu não podia contar para minha mãe que ele era apenas um amigo,
por duas razões: provavelmente Hugo ficaria com raiva, e eu não teria tempo para
explicar-lhe a situação, e porque minha mãe possivelmente já sabia a resposta e estava
apenas me [Link] leitor, aqui temos um ponto importante sobre mim. Eu não sei
se você é como eu, mas, quando percebo que não posso mais mentir, e me sinto um rato
cercado pelas paredes de um labirinto, eu apenas ajo como se tudo estivesse normal,
com a maior cara de pau possível. Além do que, se você já caiu, por que fingir que ainda
está em pé?

— Hugo, esta é minha amada mãe — eu respondi, tirando o sorriso do rosto.

Assim que eu a apresentei, Hugo arregalou os olhos e levantou a mão para cumpri-
mentá-la. Minha mãe apertou sua mão e seguiu dizendo:

— Fico feliz em conhecer algum amigo do Théo — completou ela, esperançosa —


ele não costuma ter muitos amigos, e agora ele tem um amigo e uma namorada.

“Muito” é uma palavra errada nesse contexto, eu não tenho nenhum amigo.

Hugo, ainda com os olhos arregalados, olhou para mim sem saber o que fazer.

— é… eu já notei isso — disse ele, me encarando.

— Ah, mãe, tenho uma noticia boa e uma ruim, a ruim é que continuo sem ter
amigos, e a boa é que — digo, coçando a cabeça —, ele é ”a minha namorada” que você
veio ver. — Eu pensei que, se eu falasse isso pra a minha mãe, ela simplesmente me
daria as costas, iria embora e daqui uma ou duas semanas eu receberia a notificação de
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que fui deserdado, mas minha mãe nunca escolhe o caminho mais fácil. O rosto dela
mudou completamente após ouvir minha frase, ela possivelmente já sabia, só queria ver
se eu lhe contaria a verdade. Suas feições se amenizaram e um sorriso começou a surgir
nos seus lábios.— Oh, querido, ele é fofo! — disse ela, analisando Hugo dos pés à
cabeça. Hugo parecia um manequim, ali parado, envergonhado e tímido, sendo
observado e analisado. — Boa estrutura óssea, forte, dentes bonitos, se o Gustavo
tivesse me apresentado, eu diria que é algum amigo do time de futebol dele, sem dúvidas.
— completou ela.

— Obrigado, senhora — respondeu Hugo —, é um extremo prazer te conhecer, o


Théo me falou muito bem sobre a senhora, e agora que a conheci, posso até ver de onde
o Théo tirou tanta beleza.

— Não me chame de senhora, pode me chamar por você, não sou tão mais velha
que você — respondeu ela, mentindo, pois ela é, sim, bem mais velha que nós dois. — E
você não precisa mentir, lindinho — continuou ela —, primeiro que o Théo não é pessoa
de dar grandes elogios, segundo que de mim o Théo só puxou o intelecto, porque todo o
resto veio do pai, inclusive a personalidade ríspida.

Amáveis palavras de uma mãe orgulhosa de sua prole, não é?

— Eu não posso acreditar que um menino tão bonito como você está com meu
filho.

— Obrigado, mãe…— respondi com meu olhar baixo e vago, que encarava o nada.

Hugo, ao notar meu desconforto, retruca as falas dela.

— Não, eu não vejo grande diferença de beleza entre nós, eu acho ele realmente
fofo também — sua tentativa de restabelecer minha auto-estima foi um ato gentil da parte
dele.

— e ainda é humilde — completou ela

Hugo suprime um sorriso em solidariedade a minha auto-estima — Estou surpresa


em vê-la aqui — continuou Hugo tentando mudar de assunto. — O Théo não me disse
que você estaria aqui hoje.

— Porque foi uma surpresa para mim também — respondi, quebrando meu minuto
de silêncio —, ela veio sem me avisar, graças ao Gustavo — disse, dando-lhe a entender
que tal emboscada tinha nome e sobrenome.

— Sou sua mãe! — Relembrou ela, em tom ríspido. — Não preciso te avisar
quando vou te visitar.

Hugo sorriu com a bronca que tomei e concordou:

— Isso é verdade, além do que, receber a mãe de surpresa é algo que eu adoraria.

— Acho que você é o único — sussurrei, cometendo o erro de pensar alto.


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Quando minha mãe ouviu meu sussurro, ela me olhou com um olhar frio, o que me
fez sentir intimidado. Mantive meus olhos no chão, demonstrando minha inferioridade.

— Mas você veio visitar o Théo e o Gustavo?

— Quase acertou, Hugo, ela veio te conhecer —respondi olhando para ele com
minhas sobrancelhas erguidas.

— Eu não sabia que você contou sobre mim para sua mãe — respondeu ele.

— E ele não contou! — interrompeu ela. — Eu descobri! E como tinha uma viagem
para o Marrocos, decidi passar aqui para convidar meu filho e o namorado para passarem
o fim de semana na nossa casa em Lisboa. Não é todo dia que um evento como esse
acontece.

O silêncio se estabeleceu. Hugo olhava para mim como se esperasse minha per-
missão para aceitar, assim como uma criança esperando a mãe dar permissão para ir
brincar. Minha mãe me encarava para ter certeza de que eu não pudesse dar-lhe um
sinal. Eu preferia ir ao inferno quinze vezes antes de passar um fim de semana com meus
pais, olhei para Hugo, tentando dar-lhe um sinal negativo, sem deixar minha mãe perce-
ber.

— Eu não sei, isso depende mais do Hugo do que de mim — respondi com a voz
dúbia, na expectativa dele conseguir inventar alguma desculpa plausível para nos salvar.
— Você vai estar disponível neste fim de semana ou vai ter algum ensaio ou coisa do
tipo? — Geralmente Hugo e eu temos uma ótima química e sincronia, esperava que
funcionasse naquele momento.— Eu acho que não — disse ele, frisando as
sobrancelhas, enchendo-me de esperança. — Este fim de semana eu estou
completamente livre — ele completou, me destruindo… Eu sabia que deveria ter ficado na
minha cama esta manhã. Tem certos dias que não faz mal você aceitar que perdeu antes
mesmo de ter começado a jogar.

— Perfeito! Espero vocês na minha casa esse final de semana, vou mandar meu
assistente enviar as passagens de avião — explicou ela, garantindo que não mudaríamos
de ideia. Ela não deu mais detalhes, se despediu de nós, se virou e começou a andar em
direção ao escritório do meu coordenador, para continuar a conversa com ele. — Ah, eu
já ia me esquecendo, qual é teu sobrenome mesmo, rapaz?

— Ele não tem nenhum sobrenome que você conheça, mãe — intervim, revirando
os olhos.

O sorriso do rosto dela se desfez por um momento.

— Ah, faz sentido, às vezes a vida tem dessas. — E continuou seu caminho para o
escritório do reitor.

Fiquei com raiva do Hugo por ter aceitado o convite da minha mãe, mas entendi
que ele não tinha muitas opções, porque joguei para cima dele a responsabilidade de
negar algo que eu deveria negar. Detestava a ideia de passar o fim de semana com
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minha família e, pior, com o Hugo por perto. Só de pensar nisso meu coração já ficava
apertado. Minha família era traiçoeira e maldosa, tenho certeza que vão tentar ferir o
Hugo de alguma maneira, e eu não quero que ele passe por isso.

Théo
Naquela mesma noite me encontrei com Gustavo, eu não conseguia engolir o fato dele ter
dito a ela sobre Hugo.

– Por que você disse a ela? por que você não ficou do meu lado e guardou seg-
redo? por que, Gustavo?

– Porque essa foi a sua escolha.

– Não, essa foi a sua.

– Não haja como se você não soubesse o que ia acontecer.

– E que escolha tinha eu, Gustavo? – digo com os olhos cheios de lágrimas

– A mesma de sempre

– De escolher viver sozinho e triste? – eu balançava minha cabeça em negação –


isso não é escolher, isso não é viver

– Mas ainda assim é a única escolha que temos, a única vida que temos.

– Eu só quero ser feliz, meu irmão…

– E não há nada que eu adoraria mais do que te ver feliz, mas ele virá, você
querendo ou não… é isso que ele sempre fez, controla quem ele quer controlar e se livra
de quem ele tem que se livrar, nossa escolha sempre foi escolher ser controlado ou ser
descartado

– e isso é liberdade? fazer o que mandam ou sofrer as consequências? desde


quando isso é liberdade?

– desde que ele te controla e te diz que isso é liberdade.

– Mas não será nessa ideia que eu viverei, eu escolhi ser feliz, eu escolhi ser livre
e eu o farei.

– e o que você fará quando ele vier?

– farei o possível!

– e você acha que o possível vai salvar ele?

– se o possível não for suficiente então eu farei o impossível.


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– mas porque tanto esforço?

– porque eu mereço amar como nunca amei, eu mereço ser amado como nunca
fui.

– E porque você faz tanta questão disso?

– porque de tudo que eu sempre pedi, essa foi a única coisa que nunca me deram
– abaixo minha cabeça – até você a recebeu dela, até você sentiu o calor que ela um dia
quis oferecer, nem isso eu ganhei…

Hugo

No dia seguinte, Théo tentava assiduamente me convencer a desistir de ir a casa


dos pais dele. Ele me dizia que sua familia não era flor que se cheira, mas sua mãe não
me pareceu tão ruim quanto ele dizia que era. Ele parecia preocupado a cada dia que se
passava, ele parecia temeroso, como se algo horrível estivesse prestes a acontecer.

Eu entendo que ele possivelmente tinha razões para estar daquela forma, eu
jamais duvidaria disso, mas eu queria conhecer a familia dele, talvez eu conseguisse
minimizar nem que fosse um pouco esse trauma e essa dor que ele tem, quando fala da
familia dele, eu queria que ele passasse a ter uma relação melhor com a familia dele
assim como eu tinha com a minha, eu sei que não é possível mudar o mundo, mas olha a
visão dele sobre a cabana mudou, por isso eu tenho certeza que pouco a pouco dá para
desfazer esse nó, só é preciso tempo e força de vontade.

Passei a noite de sexta para sábado na casa dele. Logo de manha pulei da cama,
o enchendo de beijos e o falando para acordar. Ele cobriu a cabeça com o cobertor,
como um adolescente irritado tentando me ignorar, mas eu não deixaria o dia dele
começar assim, eu o queria animado, como uma criança prestes a ir para a Disney.

Quando chegamos em Lisboa o motorista já estava no lado de fora do aeroporto


nos esperando. Nos deu bom dia e só, Théo me disse para me acostumar, quando notou
minha estranheza, pois dito ele, todos os outros empregados que veremos serão tão cala-
dos como este, pois sempre foram instruídos a nunca serem do tipo comunicativos, eles
deveriam ser sempre quietos e discretos e só falar conosco quando nos dirigimos a eles.

A mãe do Théo vivia em uma parte nobre de Lisboa, Cascais. A viagem de carro
não foi tão longa, apenas 30 minutos de carro do aeroporto até lá, mesmo assim, eu
olhava para Lisboa admirado, como se nunca tivesse de fato visto ou visitado a cidade.
Eu conversava com Théo durante todo o caminho, com entusiasmo. Perguntei-lhe sobre
sua familia, como era sua irmã seu padrasto e até seu pai, ele esquivou de boa parte das
perguntas e assim que toquei no assunto do seu pai ele agarrou-me pelos ombros me
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fazendo olhar para seus olhos, que por mais que eu tentasse não demonstravam animo
algum.

— Olha nos meus olhos, respira. — Ele me diz em uma tentativa de me acalmar —
Eu sei que você não está acreditando em mim, eu não te julgo por isso, mas tente me
escutar bem e não entenda isso de forma errada — Ele falava com um tom sério que eu
nunca vi antes, olho pra ele tentando demonstrar compreensão. — Minha família não é
normal, eles não são confiáveis, amáveis, agradáveis ou respeitosos, eles te dirão muitas
coisas. Não acredite em nada do que eles vão dizer, não confie neles e, acima de tudo,
tenha certeza que, no momento em que você não quiser mais ficar lá, pode me contar,
porque vamos embora. — Balanço a cabeça em sinal de afirmação, seguro seu queixo
com a mão direita e dou-lhe um beijo na testa.

— Não se preocupe, eu sei que você só quer me proteger, e eu sinto muito que
você tenha que fazer isso, mas vamos tentar dar uma chance para mudar isso aqui tudo
bem? Pensa na casa no campo, você conseguiu criar boas memórias lá comigo, vamos
tentar fazer isso aqui, tudo bem?

— tudo bem — ele responde pouco confiante.

Meia hora depois, o motorista parou em frente ao portão, que logo se abriu, per-
mitindo-nos passar. Eu gostaria de ter disfarçado minha surpresa, mas ver o quão rico o
Théo era me assustou, pois fazia até mesmo o Saulo parecer pobre

— OH, MEU DEUS! — Eu digo colocando a cabeça para fora do carro, como um
cachorro.

— Eu sei…— ele respondeu, murchando enquanto o carro passava pelo portão

— Você não me disse que era rico, quer dizer — digo gaguejando abismado —, eu
imaginei, mas não assim!

— Mas eu não sou rico, meus pais são ricos, é diferente —

Tipica frase de homem rico

Quando chegamos à frente da casa, toda a família estava na porta, esperando por
nós. Antes de sairmos do carro, Théo me alertou:

— Aconteça o que acontecer, não saia de perto de mim — olho pra ele confuso,
mas não digo nada. O motorista saiu do carro e abriu a porta para mim, que sai do carro
como um cachorro se soltando da coleira. Théo não entendia porque eu estava tão
animado para conhecer sua família.

Théo

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A minha irmã mais nova, correu em nossa direção, deixando o resto da família para
trás. Ela foi a primeira a vir nos cumprimentar, ou melhor, a cumprimentar o Hugo, pois
ela ignorou-me completamente, como se o Hugo fosse irmão dela. Apertou-lhe a mão e
olhou-o como se estivesse a olhar para um extraterrestre.

— Isso é estranho! — Ela disse, segurando a mão dele e balançando, enquanto o


olhava diretamente nos olhos.

— Estranho é como você olha para ele, pare com isso! — Eu respondi, separando
a mão dos dois.

— O que é estranho? — Hugo perguntou, abrindo um grande sorriso.

— É estranho o fato de você ser bonito, pensei que você seria mais feio. Eu agora
me pergunto se ele pagou caro por você — disse ela soando genuinamente confusa.

Hugo arregalou os olhos, ficando extremamente chocado com a pergunta dela.


Minha irmãzinha tinha apenas 14 anos e é o último presente e primeiro sonho que a
minha mãe teve, ela sempre quis ter uma filha, mas fracassou nas duas primeiras
tentativas. Minha irmã era extremamente parecida com minha mãe fisicamente, cabelos
pretos e ondulados, olhos escuros, de pele branca e pálida. Sua aparência não é a única
semelhança, assim como eu acredito que minha mãe era antes de se etiquetar por
completa, minha irmã é uma adolescente que não tem praticamente filtro nenhum, os
pensamentos dela são transformados em palavras tão rapidamente que aposto que nem
ela é capaz de para-los.

Para muitos, ver uma criança que não tem medo de se expressar é engraçado e,
de fato, é, se ela não está falando sobre você e com você. Antes que Hugo pudesse
responder o comentário bizarro, minha avó apareceu atrás dela, vestida totalmente de
preto, um costume antigo das viúvas portuguesas, que minha avó segue, desde a morte
do meu avô. Ela puxa a isolente pela orelha e a empurra para longe.

— É o bastante! — disse minha avó, agarrada na orelha da minha irmã que


praguejava de dor.

Após empurra-la, minha avó me abraçou, como se não me visse há tempos, e, de


fato, faziam alguns meses desde a última vez que nos vimos. Minha avó, caro leitor, é a
única pessoa dentro da minha família que parece me amar, ela é a única que eu poderia
dizer que sente minha falta de verdade e que mais chegou perto de me fazer sentir
amado. Seu abraço é um aconchego, aproveitei cada segundo dele e de seu perfume de
lavanda, tão peculiar, que me fazia lembrar de momentos felizes. Depois do tão apertado
abraço, ela olhou pra mim e disse que eu estava bonito. Logo depois, ela olhou para o
lado, onde Hugo esperava atenciosamente e com um sorriso doce no rosto, como se
compreendesse o doce que uma avó é capaz de transmitir através de seu abraço.

— E este é? — perguntou ela indo em direção a Hugo.

— Este é Hugo, meu namorado, vó — respondi, esperando sua reação.


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Minha avó não me decepcionou, logo abraçou Hugo, beijando suas bochechas.

— Estou feliz que você veio nos conhecer, Théo nunca trouxe ninguém aqui.

E se dependesse de mim, nunca teria trazido…

— Estou feliz em conhecê-la também.

Logo em seguida, minha mãe e meu padrasto andaram em nossa direção. Minha
mãe, que já conhecia Hugo, apenas lhe deu um beijo na bochecha e meu padrasto se
apresentou com um aperto de mão. Gustavo havia chegado no dia anterior e não viu
necessidade de nos receber. Minha mãe mandou que a gente guardasse as malas no
meu quarto, que já estava arrumado e limpo, para que pudéssemos descer, pois o almoço
estaria pronto em breve, assim como também nos avisou que minha tia e meus primos
viriam nos visitar. Minha mãe é muito próxima da minha tia e vê nela uma amiga, que
pode confiar grande parte de seus podres. Meus primos, por sua vez, não são meus
maiores fãs, gostam mais do Gustavo do que de mim, o que é recíproco.

Nenhum dos funcionários apareceu para carregar nossas malas, de começo me


pareceu estranho, mas logo eu entendi, minha mãe possivelmente tinha dispensado
quase todos os funcionários, para que eles não pudessem ver a desgraça que eu trazia
para dentro de casa.

Depois de todos os cumprimentos, levei Hugo para o meu quarto, que ficava no
segundo andar. Enquanto andávamos pela casa, ele analisava cada centímetro, cada
estátua, vaso ou quadro.

— vocês tem um piano em casa?

— Não — respondo caminhando em direção ao meu quarto

— acho que tem sim, olha ali — disse Hugo apontando para o canto da sala.

Volto alguns passos olho para o lado e meu corpo entra em choque, ali tinha um pi-
ano… no centro da minha casa, acho que você não entendeu caro leitor, tinha um piano
na minha casa, nunca tivemos isso…

Dou um sorriso para Hugo, tentando disfarçar meu desconforto — vamos pro
quarto.

— Não consigo entender porque você não gosta de ficar aqui! — dizia ele,
incrédulo.

— É porque essa casa me dá arrepios e um peso no coração, me lembra pensa-


mentos ruins, só o cheiro dela, o meu quarto, as pessoas que moram aqui, tudo!

Quando chegamos no meu quarto, Hugo perdeu a cabeça de vez por conta do
tamanho dele. Para mim ele parecia mais uma solitária de paredes azuis em formato
premium do que um quarto. Hugo entrou em frenesi, jogando sua bagagem no canto e
indo direto pular na minha cama, como uma criança em um hotel. Nas paredes estavam
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pendurados muitos dos meus troféus e medalhas de campeonatos aleatórios que eu venci
na minha infância. Do lado da minha cama tinha a mesa de cabeceira, feita de madeira e,
em cima dela, uma única foto minha, de quimono aberto e com a mão para cima, sendo
segurada por um juiz de campeonato de jiu jitsu. Na foto, minha feição era de cansaço e
confusão.

Diferente de Hugo, ao entrar naquele quarto me senti como nos meus pesadelos,
sendo obrigado a voltar ao lugar de onde sempre tentei fugir. Coloquei a mala de Hugo
junto da minha dentro do meu armário e, quando ele finalmente cansou de pular na cama,
se deitou, deixando seus pés tocarem no chão. Mesmo Hugo estando feliz, eu não con-
seguia ficar feliz. No chalé foi mais fácil de controlar meus sentimentos, mas na casa tinha
muitas sensações que eu não era capaz de lidar.

Quando terminei de guardar as roupas, fui em direção a Hugo, ajoelhei-me em


seus pés, coloquei meus braços em cima de suas pernas e, sobre meus braços, apoiei
minha cabeça. Meu rosto estava sério e triste. Quando ele me viu ajoelhado na frente
dele, ele se sentou, meu olhar seguia seu movimento, o que me fez ficar olhando pra
cima, para o seu rosto.

— Não se iluda com todas essas coisas…— pedi melancolicamente.

Ele olhou para mim, colocou sua mão na minha cabeça, fez carinhos em meu ca-
belo, beijou minha testa e me disse:

— Eu posso ver que você realmente não gosta deste lugar, mas lugares são o que
fazemos deles, sempre podemos ressignificá-los.

— O problema deste lugar não se trata só das paredes e das histórias, mas
também de quem vive aqui, e estes que aqui vivem jamais permitirão que
ressignifiquemos.

— Eles podem viver nesta casa, mas não vivem aqui — disse ele, apontando para
minha cabeça. — Aqui só vive quem você permite que viva e aqui — disse ele tocando no
meu peito, só vive eu.

— Eu queria muito que isso fosse verdade, meu amor — digo, aconchegando
minha cabeça em suas coxas.

Eu e Hugo descemos para vermos minha avó quando escutei um alvoroço vindo da
sala, Hugo parecia confuso com o barulho, mas eu sabia o que aquilo só poderia significar
uma coisa, minha tia tinha chegado… ( talvez coloque um parágrafo a mais aqui)

Coloquei a mão na sua cintura para sentir seu calor e me preparar para o que es-
tava por vir. O primeiro a chegar na cozinha foi Branco meu primo dois anos mais velho
que o Gustavo.

Não se assuste com o nome dele caro leito, eu não direi o nome dos meus primos
pois eu não quero que seus nomes vivam na minha historia, quero que eles sejam esque-
cidos assim como quase todos que aqui eu não citei o nome.
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Branco e Gustavo também não eram grandes amigos, mas, mesmo assim, eram
mais próximos um do outro do que eu.

Branco deu um beijo na bochecha de vovó abraçando-a pelas costas, ela se virou,
notando quem era, e retribuiu o abraço e deu mais dois beijos na bochecha dele, um de
cada lado. Hugo ficou parado perto de mim, esperando Branco e minha avó terminarem
de se cumprimentar. Branco olhou para a cara de Hugo, percebendo finalmente a sua
presença e, depois para nossas mãos juntas, com curiosidade, mas logo seu olhar se
tornou amigável, o que, para Branco, significava maliciosa e cínica.

— Oi, Théo, quanto tempo não te vejo — disse ele sorrindo, tentando me abraçar.

De fato fazia um bom tempo desde a última vez que nos vimos. Seus outros dois
irmãos costumavam frequentar a casa dos meus pais com mais frequência que ele, mas
também ouvi boatos que meus tios tinham enviado-o para a Espanha, pois ele tinha
arrumado alguns problemas em Portugal. Enquanto ele nos cumprimentava, minha mãe,
minha tia e meus outros dois primos, Azul e Vermelho, chegaram na cozinha, junto com
uma garota que eu, até então, nunca tinha visto.

— Eu estou bem e você? — respondi abraçando-o frio e rapidamente, enquanto


minha avó abraçava meus outros primos, distribuindo seu amor de forma quase que igual
entre seus netos. Hugo, por sua vez, se mantinha excluído, esperando que eu o
apresentasse. Meus outros dois primos não ficaram surpresos em me ver e nem se
interessaram em me cumprimentar, não fazia tanto tempo desde que os vi. Minha tia não
perdeu a oportunidade de me agarrar e, sem pensar duas vezes, veio para cima de mim e
me deu um abraço bem forte e mexeu no meu cabelo, disse que estava com muitas
saudades e perguntou o porquê de eu estar tão magro, respondi que a comida no Algarve
não era tão boa quanto em Lisboa. Todos concordaram, como se isso fosse um fato
decretado por lei.

Logo após de me acariciar, minha tia olhou para o Hugo.

— Quem é este? — perguntou ela, apontando com a cabeça em direção ao Hugo,


fazendo uma pequena roda se abrir ao nosso redor. Ela finalmente comentou sobre o ele-
fante branco no meio da sala.

— Este é o Hugo, meu namorado — respondi.

Por um instante, todos ficaram em silêncio. Minha tia olhou para minha mãe, sem
falar uma única palavra, mas sabia que trocavam informações só pelos olhares.— Prazer
em conhecê-la — disse Hugo, esticando sua mão para a cumprimentá-la. — O Théo falou
muito sobre vocês.

Dava pra ver na cara deles, de que não acreditavam naquilo.

Minha tia apertou sua mão com toda delicadeza.

— O prazer é todo meu.

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— Este é o meu primo Azul, aquele é o meu primo Vermelho, e esta é? — eu disse,
parando com o dedo apontando para a garota que eu não reconhecia. Será que meu
desprezo por eles é tanto que eu esqueci que tinha uma prima?

— Esta é minha esposa, Lorena — disse Branco, introduzindo a garota, que era
uns cinco ou seis anos mais jovem que ele. — Eu a conheci na Espanha, e agora ela está
esperando nosso bebê — concluiu ele, colocando a mão na barriga da jovem. Minha avó
e minha mãe deram-lhe os parabéns e abraçaram a garota.— Meu Deus, vocês podem
acreditar que Branco já está prestes a ser pai? — disse ela olhando pra mim, inclinando a
cabeça, como se estivesse questionando como eu engravidaria Hugo.

— Pois eu devo concordar com a senhora — eu respondi, trazendo um tom mais


sarcástico —, é difícil de acreditar que alguém desista da vida e da sua liberdade assim
tão facilmente.

Meus primos quiseram sorrir, mas se seguraram, pois sabiam que não era a hora.
Minha mãe, por sua vez, não gostou da minha resposta e retrucou:

— Aí que você se engana, eu adoraria ter netos, mas, pelo visto, morrerei sem —
disse ela serrando as sobrancelhas.

— Gustavo! — eu gritei, fazendo Hugo pular de susto.

— O que foi? — Ele respondeu do segundo andar.

— Venha aqui se defender! A mãe está explicando como você é um fracasso como
um filho hétero! — meu grito ecoava pela cozinha.

— Não, obrigado, essa vou deixar passar! — gritou lá de cima.

— Esses filhos heterossexuais... — eu disse, balançando a cabeça como sinal de


desaprovação — Nos decepcionam cada vez mais, ainda bem que não tenho dever e
nem a capacidade de engravidar ninguém.

Minha mãe não gostou da minha ousadia em satirizar seus desejos de me humil-
har, ela me olhava com olhar raivoso, sem dizer uma única palavra. Eu entendia o desejo
dela de querer ter netos, mas não tem direito de jogar isto na minha cara e muito menos
de humilhar a mim e ao meu namorado. Se ela esperava que iria me convidar para viajar
para ser humilhado e deixar meu namorado se sentindo mal, pois ela verá o quão diver-
tido este jogo poderia ser.

— Estou contente em conhecer todos vocês, o Théo falou muito sobre vocês —
disse Hugo tentando novamente quebrar aquele clima estranho.

Mentira!

Sua frase foi recebida, por todos, não da forma como ele esperava, todos franziram
as testas, descrentes de suas palavras. Não é novidade para ninguém nesta família que,
se depender de mim, as pessoas achariam que sou órfão.

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— É mesmo? E o que ele falou sobre nós? — retrucou Vermelho, tentando ver o
limite da mentira de Hugo.

Hugo ficou parado com os olhos arregalados, sem saber o que dizer. Abriu a boca,
tentando pensar em algo, mas não foi capaz de dizer nada coerente de imediato.

— Eu vou ir tomar um banho, você quer vir meu bem? — pergunto tentando livrar
Hugo daquela mentira.

— não fica comigo na sala — disse minha irmã catando Hugo pelo braço.

Olho para Hugo, que acena com a cabeça se livrando de mim.

Hugo

— você gosta do piano? — perguntou ela

— sim é minha especialidade

Todos na sala pareciam chocados, acho que Théo não tinha dito nem mesmo isso a eles.

— Eu amo Piano, infelizmente não sei tocar — disse sua mãe

— eu posso tocar pra você se você quiser

— eu vou adorar — disse ela com um sorriso genuíno.

— você tem algum pedido especial? — perguntei

— não, você pode tocar o que mais te agradar.

Sento em frente ao piano, penso qual musica eu poderia tocar, não era necessário
pensar muito, eu já tinha uma musica favorita desde que conheci Théo e seria ela que eu
tocaria para eles.

Quando comecei a tocar due des fleurs todos me encaravam, mas logo
começaram a cochichar entre si, alguns sorrisos eram ouvidos, eles não pareciam
contemplar minha canção de forma verdadeira, imaginei que talvez fosse coisa da minha
cabeça, vejo sua irmã saindo da sala em direção ao segundo andar, mas não deixo isso
me distrair.

Théo

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Quando saio do meu banho vejo ela lá sentada, na minha cama, olhando para a di-
reção do banheiro, a minha espera.
— O que você quer? — pergunto.
— nada, mas olha você não se importa nada com a mamãe não é?
— do que você ta falando?
— ah é verdade, você não viu a cara de decepção dela quando ela nos contou sua
mais nova aventura.
Mesmo eu não me importando com eles, é difícil negar que aquele golpe, aquelas
palavras machucaram.
— por que você é assim? — pergunto enrugando minha testa.
— assim como?
— maldosa, sem motivo aparente.
— ah eu não sou maldosa, eu só quero me divertir um pouco.
— Entendo — digo abrindo um sorriso — então pare, senão serei eu quem
começará a se divertir.
— ta me ameaçando, irmão?
Aproximo-me do rosto dela, olho nos olhos dela — Tô

— Ah eu não sei se eu deveria ter medo de você

— é mesmo?

— claro! pensa comigo, eu sou o que a mamãe mais ama nessa vida, você por outro lado…
agora imagina se ela soubesse que você fez algo comigo, imagina o que ela vai fazer.

— e o que te faz pensar que eu teria medo de qualquer coisa que a mamãe faria comigo?

Ela abre ainda mais o sorriso que mantinha no rosto — ai é que tá, você talvez não se
importa com o que ela faça contigo, mas agora o que ela pode fazer com ele…

O sorriso que eu mantinha, lentamente se desfez, minha garganta travou por um minuto, eu
não ousava a responder.

— não não não, vamos lá, põem o sorriso de novo no rosto, você sabe que não é assim que a
gente brinca.

Ela brincava com o golpe que tinha me dado, ela sabia que tinha tocado no meu ponto fraco,
ela sabia que não tinha nada que eu poderia temer mais do que aquilo.

— vai põem de novo o sorriso no rosto, tem algo que eu tenho que te mostrar.

Ela me pega pela braço e me puxa até a sala, onde Hugo tocava.

Hugo

Quando a musica estava quase no fim, vejo Théo descendo as escadas junto a irmã ainda de
toalha, quando me vê tocando, eu lhe dou um sorriso, que no qual ele retribui com um sorriso que
parece forçado, sua irmã larga seu braço, pega um pequeno boné velho que se mantinha jogado no
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canto da sala, passa por cada um dos seus familiares, onde cada um põem uma moeda, um atrás do
outro, ouvia-se o tilintar no meio das notas que eu tocava.

Logo em seguida ela pega o boné não muito cheio de moedas, e coloca sobre o piano, olha
me nos olhos, passa a mão nos meus cabelos — Muito bem tocado, dá pra ver que tem talento.

Tenho uma sensação estranha ao olhar para ela, olho para Théo, que estava vermelho de
raiva ou vergonha, a vermelhidão ocupava não apenas seu rosto, mas seu corpo que tremia, seu
punho se mantinha cerrado com tanta força que parecia até doer, suas narinas dilatavam, ele olha
para a família, ergue a cabeça desafiando a humilhação é isso que ele aprendeu em sua infância,
quanto mais querem que ele mostre fraqueza e sentimento de humilhação mais ele levanta a cabeça,
mais ele te olha nos olhos.

Quando olho para sua família noto que eles estava rindo. Théo volta a olhar pra mim, com
os olhos quase cheios de lagrimas. Eu paro de tocar, seu primo se levanta vem até nós ainda
sorrindo, coloca a mão no meu ombro e diz que aquilo era só uma brincadeira, os olhos do Théo
pareciam que soltavam fogo, ele parecia querer pular na garganta do primo que se aproximou.

Me levanto, abro um sorriso, dou um beijo na bochecha do Théo para o lembrar de que
estava tudo bem e que não havia razão para ele ficar daquele jeito, de fato era só uma brincadeira,
não tinha porque ter aquela reação.

— venha vamos por uma roupa — digo me enfiando no meio dele e do primo — agora é
minha vez de tomar um banho.

Puxo ele escada a cima — você toca muito bem — disse sua mãe. Eu aceno com a cabeça
agradecendo o elogio e continuamos indo para o seu quarto.

Théo

— Você sabe o que eles estavam fazendo? — pergunto assim que ele fecha a porta.

— De começo não, mas depois de algumas notas eu entendi sim — ele responde por fim

— Então por que sentou lá, porque você tocou pra eles?

— Porque quem decide se quero ser humilhado ou não, sou eu, quem decide se aquilo me
humilha ou não sou eu, eu sou um pianista — disse ele em tom de orgulho — eu vivo para tocar
assim como toco piano para viver, eles rirem ou me darem dinheiro por eu tocar, não é uma
humilhação, se tocar é o que eu amo, não tem porque me preocupar com o que acham de mim por
eu o fazer, foi isso que você me ensinou, não foi?

Aceno com a cabeça olhando nos olhos dele.

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Capitulo XI
Theo

A pessoa que bateu na porta continuou insistindo, antes de começar a falar.

— Posso entrar ou vocês estão fodendo? — minha irmã gritou do lado de fora.

Hugo olhou pra mim com as sobrancelhas frisadas, mas com um sorriso se
formando no rosto.

— Pode entrar. — ele respondeu. Ela abriu a porta, mas não entrou.

— Minha mãe pediu para eu vir aqui convidar vocês para tomar banho na piscina.

— Está bem, nós já vamos. — eu respondi.

— Mas estamos no inverno, como vamos tomar banho de piscina? — Hugo per-
guntou, confuso.

— A piscina é aquecida.

Hugo me olha espantado, com o quão rico eu poderia ser.

— não começa… — digo negando com a cabeça.

Hugo e eu colocamos roupa de banho, o dia estava com um sol agradável, nada
muito quente e nem muito frio, estranhamente diferente do Algarve, coisa que geralmente
não acontecia. Descemos as escadas, passamos pela cozinha, onde minha avó já
separava as coisas necessárias para fazer o almoço, quando chegamos na piscina, só
minha irmã e meu irmão estavam lá, a piscina era grande, em formato circular, com um
caminho subaquático para um quarto de sauna, para onde a piscina se estendia. Ao
chegarmos na frente da piscina, empurrei o Hugo de surpresa para dentro da água. A
casa me lembrava coisas ruins, mas não podia deixar com que ela se tornasse uma
lembrança ruim para Hugo também, então decidi me esforçar, pelo Hugo. Sem pensar
duas vezes, pulei atrás dele, o que despertou os olhares dos meus irmãos, que olhavam
pra mim com certa estranheza.

Hugo se aproxima de mim, põem seus braços ao redor do meu pescoço.

— Eu prefiro te ver assim, sorridente — disse ele me dando um beijo.

— Eu também — digo ignorando os dois que nos encaravam.

A água estava morna, boa para nadar. Nós nadamos um pouco, eu peguei a mão
do Hugo e disse:
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— Prenda a respiração, vou te mostrar algo.

Hugo juntou a maior quantidade de ar que conseguiu, agarrou minha mão e


mergulhou junto comigo. Puxei-o para o fundo da piscina, onde conseguimos ver um
estreito túnel. Hugo olhou pra mim com desconfiança, mas não paramos de nadar em
direção ao túnel, que não era longo, o que nos permitia atravessá-lo rapidamente sem
perdermos o fôlego. Assim que saímos dele, entramos na sauna conectada à piscina, que
tinha o chão inclinado, que fazia com que a profundidade da água diminuísse
gradativamente. Ela era rodeada de pedras de mármore branco na parte mais rasa, a
névoa da sauna tornava a visão turva, mas ainda nos permitia enxergar algumas coisas.
A sauna era claramente mais quente que o exterior, o que fazia a água ter grande
diferença de temperatura.

— Oh meu Deus — disse ele, boquiaberto, tirando os cachos molhados de frente


dos olhos. — Não me diga que você tem uma sauna na sua casa.

Eu olho para ele sorrindo e respondo:

— Agora sim você pode dizer aquilo.

— você é rico pra caralho!

Pela primeira vez esse fato me fez rir, pela primeira vez ouvir alguém dizer aquilo
não me soou como uma maldição.

— Essa casa tem tudo que você possa imaginar e sabe qual a melhor parte?

— Não, qual a melhor parte? — perguntou ele, indo em direção a um dos bancos
de mármore.

— A melhor parte é que meu padrasto odeia sauna e minha mãe raramente toma
banho na piscina — respondi me aproximando dele com um sorriso malicioso — eles
nunca vêm aqui.

— Hm e o quer você quer dizer com isso? — disse ele com um olhar provocativo.

— Isso quer dizer que temos privacidade — respondi colocando as mãos em sua
perna.

Hugo colocou os braços ao redor do meu pescoço e me deu um beijo. Enquanto


isso, minhas mãos começaram a subir por sua perna e tronco. Agarrei na cintura dele e
juntei meu corpo ao dele. Senti seu calor, sua respiração ofegante, sua excitação, sou ca-
paz até de sentir seu endurecimento, mas, antes que pudéssemos continuar o que mal
havíamos começado, ouço uma voz.

— Ah cuidado com o que você sugere, irmão. — disse uma voz feminina e infantil
do fundo da sala.

— Não é possível… — digo no meu tom mais incrédulo. — Deus não pode me
odiar tanto assim.
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— Não duvide do quanto um deus pode odiar um humano. — continuou a voz,
nadando do fundo da sauna, sua voz exalava satisfação.

Minha irmã nos seguiu até ali. Ela não iria facilitar nossas vidas, e isso já estava
começando a me irritar.— O que você está fazendo aqui? — perguntei rispidamente.

— olha eu também não sei, a mamãe me avisou pra não nadar com vocês, e falou
mais alguma coisa sobre DST, mas eu não entendi muito bem, mas você sabe eu não sou
muito de escutar a mamãe — disse ela, sentando à dois bancos de distância do banco
onde Hugo estava.

— Entendo, diga-me: quanto eles te pagaram?

— Desculpa? — Ela perguntou virando a cabeça de lado, demonstrando sua falsa


confusão e inocência.

Tiro as mãos das pernas de Hugo e nado em direção a ela, deixando Hugo sentado
em sua pedra.

— Quanto mamãe te paga para nos espiar? — Eu disse aumentando meu tom de
voz.

— Desculpa, eu não sei do que você ta falando, Théo — respondeu com um


imenso cinismo.

— Posso pagar o dobro para você parar, só diga quanto! — [Link] colocou a
mão no meu rosto e disse.

— Oh, paixão — ela abriu um sorriso —, eu e você sabemos que você não pode
me pagar o dobro.

Minhas vistas ficam turvas de raiva por tamanha ousadia, mas também sinto
calafrios, aqueles mesmos calafrios que sentia quando falava com a minha mãe. Eu juro
caro leitor, que eu estava fazendo o maximo que eu podia para ignorar todas as
provocações, e comentários que ela fazia, mas só de lembrar ela com aquele boné na
mão, catando modinha atras de modinha, logo depois de jogar na minha cara que ela é
mais amada e importante do que eu… quando eu olhava para ela eu não via uma criança,
e muito menos uma irmã, eu via um indivíduo igual a minha mãe que não apenas não
tinha tinha compaixão, como sentia prazer em destruir a dos outros.

Levando isso em consideração uma coisa me veio a mente. Querido leitor, você
conhece a teoria das elites de Pareto?não? Permita-me apresentá-la para você. Dentro
das elites, existe sempre dois tipos: as raposas e os leões. As raposas governam na base
dos truques, sempre com sorriso no rosto e diplomacias. Os leões, por sua vez, falam
pouco, são mais de agir e, quando agem, o fazem pra conquistar e realizar. Assim como
explicou Pareto, a sociedade reveza entre os políticos raposas e os políticos leões. Meu
comportamento é igual, sou maioritariamente raposa, mas não me incomodo em nada em
ser um leão.
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Eu tentei conversar, você é prova de que eu tentei, não é caro leitor?

— Você está certa — concordei dando um sorriso, sacudindo o dedo indicador na


direção dela — Eu não posso pagar, portanto, eu espero que goste do que vai assistir —
nadei na direção de Hugo, que me olhava com os olhos arregalados. Dei-lhe um beijo,
toquei sua coxa e toquei seu pau, que ainda estava duro. Ele segurou minha mão.

— Para! Você tá louco? Sua irmã está aqui…

— Não se preocupe — respondi, ainda passando minha mão por ele. — Ela já viu
coisa pior.

— Isso é verdade — ela concordou com tom cínico — E se eu puder ser bem
franca, estou muito interessada em saber como isso funciona!

Hugo ficou apreensivo ao ouvir a fala dela, então ele me empurrou, me fazendo
quase escorregar. Seu empurrão me deixou com raiva, mas não dele… Minha irmã
continuava sentada na outra pedra, balançando os pés dentro da água, nos observando.

Nadei na direção ela, que manteve seus olhos fixados em mim, como se ainda
estivesse observando um animal em seu habitat, extremamente curiosa para saber seus
hábitos. Coloquei minha mão direita na sua coxa, ela acompanhou com os olhos, sem
dizer nada.

— Eu sei que você é uma criança interessante — disse olhando nos olhos dela,
enquanto ela olhava para minha mão sobre sua coxa.

— Que nojo…— Ela rosnou, voltando a fixar os olhos nos meus. — Acho que você
está um pouco perdido, Théo, eu não tenho o que você procura — terminou ela, dando
um sorriso de canto de rosto.

— Eu sei que não — respondi, igualando nossos sorrisos —, mas como eu estava
dizendo, antes de você me interromper, você é interessante, para uma criança, ainda
mais porque você parece bastante com a mãe. Mas devo dizer que te falta duas coisas
para ser mais interessante do que eu.

— Sério? — ela perguntou virando a cabeça para o lado. — O que seria?

— A primeira coisa — comecei, levantando o dedo indicador para o ar — é o fato


de eu conseguir controlar minha respiração com extrema maestria. A segunda coisa —
levantei mais um dedo — é que, diferente do seu pai, meu pai me ensinou a criar medo
nas pessoas.

— O que você quer dizer? — perguntou ela, confusa.O sorriso que já estampava
meu rosto cresceu.

— Vou te mostrar. — disse tirando a mão da coxa dela e abraçando-a com


extrema força.

Ela deu um pulo, surpreendida quando a agarrei.


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— Me larga! — ela gritou.

Quando ela finalmente entendeu, já era tarde e eu já tinha tomado minha decisão
de lhe ensinar uma lição, e, uma vez tomada a decisão, não podia mais recuar, eu não
conseguia tirar o sorriso do meu rosto.

— Respira fundo, maninha — eu sussurrei no ouvido dela. Puxei a maior


quantidade de ar que meu pulmão conseguia armazenar, e, enquanto eu a abraçava,
coloquei meus pés na lateral do banco de mármore e dei o impulso mais forte que eu
conseguia. Puxei ela comigo para o fundo da piscina, mas ela não demonstrou medo.
Naquele momento ela já sabia do meu objetivo, por isso ela não iria mostrar fraqueza,
pois mostrar fraqueza para um torturador só faz ele ter mais prazer em te torturar. Ela não
se mexia e me olhava nos olhos, aparentemente guardou muito ar, o suficiente para
aguardar Hugo ir salvá-la, o que seria um problema, pois, quando Hugo entendesse o que
estava se passando, sem dúvidas viria em seu resgate. Ajeitei meus músculos, direcionei
meus braços para seu tórax e pulmão e aos poucos comecei a apertá-la com mais força,
mas com cuidado para não quebrar nenhuma de suas costelas. Ela arregalou os olhos
demonstrando dor. Ela tentava segurar o ar que tanto lutou pra pegar, mas meu abraço
era forte o suficiente para forçar seu ar a sair.

Depois das pequenas bolhas saírem boiando piscina afora, seu rosto finalmente já
não era mais o mesmo. “Agora sim, a festa vai começar” Já haviam se passado 20 segun-
dos, ela não tinha mais tanto ar e ela sabia disso, mas, mesmo assim, a sua confiança
não foi abalada, pois ela continuava olhando para mim com calma e até um certo ódio de-
safiador. Meu rosto estava calmo, eu ainda tinha muito ar e nenhuma preocupação. 30 se-
gundos já haviam se passado, ela já não estava mais tão calma, aparentemente o pouco
ar que lhe restava já estava chegando no limite, a partir de agora ela já havia começado a
lutar e se debater, tentando se libertar. É aqui que as coisas geralmente começam a ir mal
para qualquer um na situação dela, o corpo dela já dava alertas de que não tinha mais ox-
igênio, e, por isso, começava a entrar em desespero, gastando mais oxigênio fazendo
movimentos bruscos. O corpo humano é genial ao mesmo tempo que é extremamente ig-
norante em momentos de urgência.

Ela começava a se debater, mas eu era mais forte que ela e a segurei com meus
braços e pernas, tirando dela toda a liberdade para conseguir nadar. 40 segundos já
haviam se passado, ela estava desesperada, o ar que ela tinha já havia desaparecido de
seus pulmões, agora a água estava começando a tomar conta, dava pra ver ela lutando
para evitar que a água entrasse em sua boca.

Eu sei o que você está pensando, caro leitor, por isso eu devo te alertar que eu não
sou uma pessoa ruim, mesmo que eu pareça. Não sou ruim o tempo todo, na verdade,
sou uma pessoa boa, principalmente se você entender as coisas pelas quais já passei.
Poucas pessoas já me viram sendo mau, porque odeio ser mau, porque isso me faz
lembrar daquele homem, mas, quando decido ser mau, faço o possível para a pessoa
nunca esquecer, para que, assim, eu só precise ser mau uma única vez.

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Os olhos dela se reviravam, mas ela ainda estava consciente. Não demorou até eu
ver que alguém adentrava na piscina em um pulo de cabeça. Hugo havia pulado na
piscina, seus olhos se mantinham arregalados, tentando enxergar e entender o que se
passava no fundo. Quando Hugo me viu segurando ela, com os olhos se revirando
prestes a desmaiar, ele nadou o mais rápido que pôde. Ele me olhava com medo, como
se acreditasse que eu, de fato, quisesse afogá-la. Seu olhar alternava entre eu e ela,
quase como se ele não soubesse o que fazer. Quando ela o viu, moveu os lábios para
pedir ajuda, e seu gesto despertou nele um desespero que, até então, parecia não ter
surgido. Ele segurou meus braços, apertando-os, olhou em meus olhos, franziu as
sobrancelhas e me obrigou a soltá-la, fazendo meus braços abrirem. Ele agarrou-a e
nadou com para fora da piscina.

Quando eles saíram da piscina, Hugo a colocou sobre uma barragem de mármore
próxima a parede. Ele deu dois tapinhas no rosto dela, tentando acordá-la. Já em
desespero, ele pedia firmemente para ela acordar, mas ela parecia não estar mais entre
nós. O desespero era claro no rosto dele, ele decidiu fazer respiração boca a boca nela,
aproximou seu rosto do dela, tampou o nariz dela e assoprou. Não foi necessário muito
até ela cuspir a água que tinha engolido. Depois de dois pequenos jatos de água saírem,
ela finalmente acordou.

— Obrigada… — ela agradeceu ofegante, tentando se acostumar novamente com


o ar em seus pulmões.

Hugo me olhou com medo, como se eu fosse um monstro. Seu olhar me dilacerou,
não há nada pior do que ser julgado e condenado por quem você mais ama. Talvez eu
tenha exagerado, mas eu não sou um monstro. Ele não entendia que, se eu não o
fizesse, ela não iria nos deixar em paz.

— Você está bem? — ele perguntou baixinho. Ela balançou a cabeça dizendo que
sim, se levantando ainda desajeitada, aparentemente fraca, com força apenas para sair
da sauna. Meu olhar se mantinha fixo na água, pois eu não conseguia encarar Hugo,
mas, mesmo assim, eu conseguia notar que ela não ousava olhar para trás. A porta da
sauna bateu.

— Você não tem que olhar para mim como se eu fosse uma aberração — digo
com a voz acanhada.

Hugo me encarava ainda assustado, mas logo em seguida me dá as costas e


começa a correr para dentro da casa, tento segui-lo, quando ele chega na cozinha ele se
depara com minha avó, ele olha para mim e olha para ela. Seu olhar ainda me machu-
cava, destruía meu coração ver ele me olhando daquela forma.

Dou um passo na direção de Hugo, mas ele recua o mesmo paço para atras da
minha avó, como se ele pedisse a ela para o proteger de mim…

Minha garganta trava, meus olhos se enchem de agua. Como pode um simples ato
de recuar me machucar tanto? Minha avó olha para ele e para mim, seus olhos sábios já
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tinham entendido o que se passava, ela segura na mão de Hugo, olha nos olhos dele e
ele nos dela, ela olha para mim e eu tento não deixar meus lábios tremerem.

— posso pegar o Hugo emprestado para me ajudar na cozinha? — disse ela com
um sorriso gentil no rosto.

Olho nos olhos dele, concordo com a cabeça e saio em direção ao meu quarto.

Hugo

Enquanto descasco as batatas para o almoço aquela mesma imagem se passava


na minha cabeça, os olhos dele sem emoção olhando para a própria irmã como se ela
fosse um saco de arroz afundando junto com ele, será que eu realmente conhecia aquela
pessoa?

— aconteceu alguma coisa não foi? — Disse a avó do Théo quebrando meu transe

Olho para ela com um sorriso forçado no rosto balaço a cabeça e um fraco “não”
sai da minha boca.

— você não precisa mentir, coisas ruins acontecem com muita frequência nessa
casa.

Não consigo dizer nada, só olhar para as batatas tentando disfarçar meu pavor.

— Eu imagino que você deve ter visto algo que nunca tinha visto antes.

Meus olhos enchem-se de lagrimas e por mais que eu tentasse segura-las uma
acaba caindo sobre a batata que eu descascava.

— eu acho que cometi um erro… — digo em voz baixa.

— sobre o que?

— sobre o Théo, talvez eu não o conheço, talvez ele não seja a pessoa que eu
imaginava que ele era.

Ela larga a faca olha pra mim — oh meu anjo, as pessoas nunca são quem
imaginamos, nunca conheceremos uma pessoa por completo, nós nem mesmo
conhecemos a nós mesmo, mas é normal você se preocupar com isso, eu fui casada por
mais de 40 anos e todos os dias eu me perguntava “ e se ele não for quem eu acho que
ele é? E se eu estou me deitando todas as noites ao lado de um psicopata ou assassino?”

— e como você conseguiu ficar casada por tanto tempo sem saber quem aquela
pessoa era?

— é simples, porque eu poderia não saber quem ele era verdadeiramente, mas eu
sabia que eu o amava de verdade

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Suas palavras me pegaram de surpresa, pois ali eu colocava em questão se eu
realmente amava o Théo.

— e como eu posso saber se ele não é uma pessoa ruim no final de contas?

— é simples, pergunte a ele… alem do que não é costume dos maldosos


assumirem sua essência.

Ela tirou a faca e a batata da minha mão, olhou nos meus olhos e disse — obrigado
pela ajuda, acho que você já pode ir eu continuo a partir daqui.

Concordei com a cabeça e abri um sorriso de canto de rosto, mas antes que eu
fosse encontrar o Theo ela ainda me disse — alias, nunca se esqueça: o que define se
um cão é raivoso não é se ele atacou alguém, mas sim o porque de o ter feito.

Quando cheguei em frente ao quarto respirei fundo, coloquei a mão sobre a maçaneta e a
abri lentamente, olho ao redor do quarto, mas não encontro Théo, quando eu estava prestes a fechar
a porta escuto sua voz escondida atras da porta sentado no chão com o rosto entre os joelhos.

— Aqui é exatamente onde eu ficava sentado, chorando sempre que algo ruim acontecia, eu
ficava me dizendo palavras doces para tentar ignorar tudo o que tinha acontecido ou o que eu
tivesse dito.

Entro no quarto, olho para ele que não tinha coragem de olhar pra mim, fecho a porta.

— Eu me perguntava se eu merecia tudo aquilo que estava se passando, eu me perguntava se


eu era o mostro que eles pregavam, será que eu sou tão fodido como eles dizem que eu sou? Eu tive
tanto medo de ser igual a eles.

Ajoelho-me em frente a ele, ponho minha mão em seu rosto, ele olha pra mim, com seus ol-
hos vermelhos e cheios de lagrimas, ele me olhava como um cão abandonado sinto duas ou tres es-
correndo pela minha mão, cortava-me o coração em vê-lo daquele jeito — você só será um monstro
se quiser ser um.

— mas eu não quero ser um.

— Só não repita o que você fez…

— Eu acho que eu sou uma causa perdida, eu sempre quis ter alguém pra me salvar dessa
escuridão, e quando você apareceu olha o que eu fiz…

— você não é uma farsa só está um pouco quebrado, mas nada que alguns beijos e muito
amor não seja capaz de curar.

Dou-lhe um beijo na testa e outro na boca, leve, mas salgado de suas lagrimas.

— você ainda me ama?

— sempre!

— então me leve pra casa antes que eu perca minha cabeça.

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— Eu sei que isso parece o certo meu amor, mas você tem que encarar seu passado, correr
dele não vai te curar, não vai te fazer sorrir, não vai mudar sua vida. Você tem que aprender a lidar
com ele, aprender que mesmo que ele seja insuportável, você é melhor que isso e não se deixará
abalar por isso, você confia em mim?

Ele me olha com sofrimento, mas ainda assim olhava no fundo dos meus olhos.

— sim…

— então vamos ficar aqui, sempre que algo ruim acontecer ou estiver prestes a acontecer
fala comigo, que eu te ajudo.

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Théo

Hugo me deixou no quarto para eu me recuperar, me deu mais um beijo e saiu de volta para a
piscina, mas antes de sair me pediu para não demorar, pois o almoço estava quase pronto.

Enquanto eu ainda estava ali sentado olhando para o chão, já sozinho no quarto, uma presença
aparece na porta que Hugo deixou aberta.

— Você fez aquilo de novo, não foi? — perguntou-me Gustavo, sentando na cama
com garrafa de cerveja na mão.

— Sim... — respondi, sem levantar minha cabeça.

— E você acha que foi uma boa ideia? — perguntou ele, dando um gole em sua
cerveja — Você mostrar um lado seu, tão frio, para uma pessoa que você tanto ama?

— Isso não é um dos meus lados — respondi —, é um lado dessa família, mas
não meu. Mas tenho que concordar que cometi um erro em me deixar levar.

— Você é parte desta família e isso que você fez só prova isso — retrucou ele ,
passando o polegar pela borda da garrafa.

— Isso não é o que eu sou — rosnei —, mas o que vocês me fazem ser! — Minha
respiração estava ofegante ao nadar em memórias— Não importa o quanto eu tente me
afastar de vocês, mais vocês insistem em me transformar nisso. Tudo isso poderia ser
evitado, mas vocês… principalmente você, por que você foi dizer a eles sobre o Hugo?

— Não seja ingênuo, Théo, eu contando ou não, não mudaria o fato de que eles
saberiam, uma hora ou outra. Você não pode ter imaginado que poderia mesmo esconder
isso.

— Eles poderiam saber, mas precisavam saber por tua boca? Você precisava
realmente jogar teu irmão na cova dos leões? — indaguei caminhando em sua direção.

— Não te joguei na cova dos leões — disse ele, colocando sua cerveja no chão,
calmamente. — Você nasceu na cova dos leões.

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Capitulo XII

Hugo

A mesa da sala era grande o suficiente para caber todos os membros da família e
ainda sobrar três ou quatro lugares, sua mãe se sentou em uma ponta da mesa e seu
marido ao seu lado, e todos os demais espalhados pela mesa. Antes que eu e o Théo nos
sentássemos, sua mãe me diz:

— Hugo reservei um lugar especial para você, bem ali.— disse ela apontando para
o outro lado da mesa. Onde ainda restava um lugar ao meu lado esquerdo, para Théo.
Mas antes que eu me sentasse, Théo toma a dianteira, e se senta no meu lugar.

— acho que esse lugar é meu Théo — sussurro de bom humor.

Ele abre um sorriso singelo — sente-se aqui do meu lado meu amor.

Enrugo a testa, mas não contesto. Quando me sento, na cadeira ao lado olha para
a cara de sua mãe que nos encarava com certo desgosto, mas que disfarçou quando viu
que eu olhava para ela.

Depois que todos nos servirmos, volto a olhar para Théo e já com seus talheres
em mãos noto que seu prato era diferente do meu, olha para os demais pratos na mesa, e
vejo que somente o dele era diferente. Presto mais atenção na sua mão e percebo que
até seus talheres não eram como os demais, tinham cores diferentes e pareciam até
mesmo descartáveis. Olho para o Théo, que quando entende que eu tinha percebido o
que se passava, abre novamente um sorriso forçado que lentamente derrete em seu
rosto, mordo o lábio inferior, respiro fundo, olho nos olhos dele. Era difícil admitir, mas
aquilo já estava começando a me chatear.

Théo coloca a mão sobre minha coxa aperta de leve, eu sei que ele deve estar com
muita mais raiva do que está acontecendo aqui do que eu de fato estou. A mesa se
mantinha em silêncio, ouvia-se apenas os tilintares dos talheres, mas não tardou até sua
mãe quebrasse o silencio:

— Onde vocês se conheceram? — perguntou ela limpando a boca com o


guardanapo vermelho.

Todos da mesa pararam de mastigar só para ouvir-nos com mais precisão. Théo
continuou comendo para ter a desculpa de não falar, fingindo que não tinha escutado a
pergunta.— Nos conhecemos na universidade — respondi colocando a mão sobre a mão
dele, o fazendo encontrar meu olhar.

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— E vocês estudam a mesma coisa? — retrucou seu padrasto voltando a mastigar.

— Mais ou menos, como vocês viram eu estou me especializando em Piano e o


Théo em violino, mas temos algumas aulas em comum.

— Interessante, vocês dois deveriam tocar algo para nós, nós adoraríamos ouvir
vocês tocando — retrucou ela, com olhar jocoso.

— O Théo e eu poderíamos tocar para vocês, seria um prazer, vocês veriam o


quão lindo tocamos juntos — respondi, animado como uma criança.

— Essa seria a primeira vez que escutaríamos o Théo tocar — revelou Branco, do
outro lado da mesa. Seu comentário me pegou de surpresa, pois mesmo que eles não o
apoiassem eles deveriam ter visto ele tocando em algum momento, como era possível
nunca terem o visto tocar? Olho para Théo que mais desejava um almoço em silencio.

— Sério? O Théo é um músico incrível

— Sim, nunca o vimos tocar — reafirmou sua mãe, mas sabemos que ele tem
muitos dons — continuou ela —, além do que, tudo que ele se propõe a fazer, ele sempre
alcança a maestria. O único problema é que ele geralmente foca em coisas que não
valem a pena ou que não importam, parece com o pai dele.

As palavras mau saem da boca dela e ele já aperta minha mão com força, como
uma pessoa que aperta sua mão para não gritar de dor.

— Surpreende-me vocês saberem que tenho algum dom — ele sussurrou

Olho para ele e imediatamente sinto uma angustia em meu peito, enquanto sua
mão ainda agarrava a minha com fervor.

— Sim, sabemos dos teus dons, e saberíamos mais se você focasse no que deve-
ria — respondeu ela, cortando um pedaço de carne.

— Olha, vocês deveriam ir no concerto que o Théo foi convidado a participar—


respondo tentando dissipar o clima que se formava.

Olho para Théo e logo noto que minhas palavras não lhe caíram bem. Lhe dou um
singelo sorriso, que ele tentou retribuir, mas não conseguiu, sua cara mostrava a clara
insatisfação por conta sobre o concerto. Imagino que ele não contou nem mesmo para a
avó, sobre o concerto que aconteceria no mês seguinte.

— Estou impressionada, já convidado — retrucou sua mãe —, teremos extremo


prazer em vê-lo tocar.

— Hm — Théo levanta um sorriso de canto de rosto —, essa eu quero ver — sus-


surra ao tom que ela pudesse ouvir.

— Eu sempre me surpreendo como você parece cada vez mais ingrato, sem
dúvidas puxou a ingratidão do teu pai — retrucou ela.

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Hugo morde seus lábios para segurar o ódio, não é novidade que o pai dele é um
ponto sensível, só de nomear o nome dele já é suficiente para acabar com seu humor,
faço carinho na sua mão com meu dedão, mas ele desvencilha sua mão da minha, deita
os talheres do lado do seu prato, limpa a boca com calma, com o guardanapo vermelho,
levanta, agradece sua avó pela comida deliciosa que ela fez.

— Come mais, querido, não comeu quase nada.

— Perdi a fome — respondeu para sua avó, mas olhando para sua mãe. — Vou
para o quarto. Não tentei o segurar, pois eu sei que aquela situação já estava beirando o
insuportável para ele, sair dali foi um ato de coragem da parte dele e por isso não fiz
questão de ali permanecer. Fui com ele até o quarto fechei a porta e ainda em pé, atrás
dela, lhe perguntei o que aconteceu. Ele me disse que perdi a fome, pois o assunto não
lhe agradava e, se ele continuasse lá, ficaria cada vez pior. Eu lhe aconselhei a
compartilhar mais da vida dele com sua família, pois era importante tê-los presente na
vida, a família é sempre um ótimo ponto de suporte.

Théo

Por mais que Hugo tente me ajudar, é difícil não olhar para ele e ver uma pessoa
ingénua, ele não conhece minha família e por mais que eu diga ele não parece entender
que as nossas são completamente diferentes. — Pega aquela foto — mandei, apontando
para a mesa de cabeceira.

— Para quê? — ele perguntou, apesar de já estar andando na direção do porta-


retrato.— Pega, que eu vou te mostrar algo — insisti. Assim que ele pegou o porta-retrato
nas mãos, perguntei: — O que você vê aí?

— Você, com 15 ou talvez 16 anos, vencendo uma luta — disse ele, dando de om-
bros.

— De fato, é exatamente isso, mas você consegue pensar o porquê de tantas con-
quistas, mas só esta está do lado da minha cama? — pergunto batendo o dedo frenetica-
mente na foto.

Hugo analisa a foto mais uma vez e olha para a parede de medalhas e troféus.

— Foi alguma vitoria especial? — perguntou ele, virando a foto para ver se achava
alguma legenda.

— Na verdade, esta foto representa uma vitoria que foi muito mais saborosa que as
demais, mas também a mais dolorosa. Como você pode ver, tenho diferentes medalhas
de diferentes competições, que pratiquei durante minha infância e adolescência, mas
grande parte das competições eram sem sal, vencer era algo que não me trazia gosto. As
lutas que participei não me traziam emoção, eu me sentia vazio. Eu não entendia o
porque de não sentir prazer algum, mesmo vencendo. Essa luta foi diferente, o meu
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adversário era digno de saudações, eu sempre me considerei muito bom no jiu-jitsu e
sempre soube controlar meus adversários com certa maestria, mas naquela luta… Meu
adversário lutou de igual pra igual, me fez suar, me fez sentir adrenalina… Ele me
humilhou, em certos momentos, com seus movimentos, que eu mal conseguia
acompanhar — eu lhe respondi olhando para o nada, revendo a história em meu olhar
vazio. — Eu tinha certeza de que aquela luta seria uma derrota, quando o sino tocou,
meus olhos se encheram de água, pois eu sabia que iria perder, eu nunca me esforcei
tanto para vencer alguém, mas, naquele momento, eu sabia que iria perder aquela luta.
Eu estava exausto e com o lábio sangrando, mas quando o vencedor foi anunciado, meu
braço foi erguido, o juiz me declarou o vencedor. Sabe qual é a parte triste desta história?
— Ele balança a cabeça, negando, mas manteve o silêncio.— É que, ao saber que eu
venci, meus olhos se arregalaram e eu olhei à minha volta, e ali eu notei algo que eu
nunca tinha notado em nenhum outro momento na minha vida, até aquele instante. Eu
notei que eu estava sozinho, e sempre estive. Cada medalha que você vê nesta parede,
nenhuma delas teve a presença de nenhuma daquelas pessoas sentadas à mesa de
jantar. Meu adversário perdeu a luta, mas ele correu até seus pais, que o consolaram
pela derrota. Eu, que tinha conquistado a vitória mais eufórica da minha vida, não tinha
ninguém nem para me dar um gole de água. Naquele momento eu notei que nunca tive,
não tenho e nunca terei eles nas arquibancadas torcendo por mim, mas, acima de tudo,
notei que não preciso que eles estejam lá, porque eu sempre venci sem eles estarem lá, e
continuarei a vencer.

Meus olhos se encheram de lágrimas, pois aquele mesmo sentimento voltou a me


rondar, meu coração se apertou, minha voz ficou rouca, mas tentei prosseguir.

— Foi naquele momento que eu parei de fazer tudo o que não me agradava e fui
fazer o que me dava paixão, pois meus pais nunca se importaram se eu vencia ou perdia
um campeonato, eles se importavam se eu iria seguir o caminho dos negócios deles, se
eu iria fazer o que eles querem que eu faça, e é isso que eles tentavam a cada dia, ter
certeza de que o farei, mas eles ainda não entenderam que eu sou um violinista, e serei
um violinista até morrer.

Hugo me deu um abraçado, pois notou que meus olhos estavam cheios de lágrima
e que eu me segurava para não chorar. Aconcheguei-me em seus braços, que me rece-
beram com um calor que me fez sentir como uma criança que, depois de muito tempo,
voltou para casa.

Hugo me perguntou a razão de nem a minha avó ter aparecido nos meus torneios
ou sido mais presente na minha infância e adolescência. Eu lhe expliquei que, mesmo
minha avó sendo diferente do resto da minha família, ela não era capaz de se fazer pre-
sente, pois vivia em uma cidadezinha distante de Lisboa com meu avô até pouco tempo.
Ela só passou a viver conosco depois que o meu avô morreu. Hugo me deu um beijo na
testa, sendo empático com minha dor.

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***

De noite quando já estávamos na cama, Hugo deitado sobre meu peito. Finalmente me pergunta:

— sua irmã realmente acha que eu sou uma prostituta?


— não, minha irmã acha o que minha mãe acha, e pelo longo histórico que meu pai tem com
prostitutas, se minha mãe achasse que você é você não chegaria nem perto dos portões dessa casa,
mas você não precisa se preocupar.
— mas se ela não acha porque ela age dessa forma?
— para te fazer sentir uma, é isso que minha familia faz.
— você alguma vez achou que eu estava contigo por causa do seu dinheiro?
Era isso que eu mais temia, que as falas deles entrassem na cabeça dele, eu sei que mesmo
ele sabendo quem ele é, é difícil não se questionar sobre si, quando todos batem na tecla de que
você é o que dizem, eu não queria que Hugo achasse que ele era uma puta, nem por um segundo.
Respiro fundo e digo — Quando eu era menor, sempre que eu me sentia triste eu vinha pro meu
quarto, deitava nessa cama, colocava dois travesseiros do meu lado e os abraçava, fingindo que eles
eram alguém que eu amava e que me amava, e que estava ali pra me confortar. Agora eu tenho
você.
Ele ajeita-se passando seu rosto sobre meu peito, passo a mão sobre seus cachos.
— você sonhava comigo?
— eu não sonhava com você, eu implorava.
Ele respira fundo, como se tentasse sugar algum perfume do meu corpo
— você morreria por mim? — ele pergunta tímido, como se desejasse que eu disse que lhe
amava.
— eu viveria por você. — lhe dando um beijo na cabeça.

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Capitulo XIII
Na manhã seguinte, Hugo e eu acordamos cedo, para irmos ver a cidade, minha
mãe e meu padrasto não estavam em casa e Branco era o único dos meus primos que
estava acordado, e sentado na mesa tomando café da manha, nos sentamos na mesa ,
não lhe dei bom dia, nunca o fiz e não seria agora que eu faria,

— bom dia Hugo — ele disse me ignorando

Hugo responde e se senta do meu lado.

— Você sabe o que esta casa vazia desse jeito me faz lembrar, Théo? — disse
Branco, abrindo um sorriso de canto de rosto.

— Não — respondi sem interesse. Eu sabia a que ele se referia, mas não queria
manter aquela conversa.

— Quando éramos pequenos e brincávamos correndo por aqui, no escuro — ele


aparentemente tem boas lembranças, mas eu não.

— Você se refere aos momentos que meus pais saíam então você e Gustavo
desligavam todas as luzes da casa, ligavam o som, colocando ruídos estranhos e
começavam a correr atrás de mim fingindo ser um demónio, enquanto eu corria e chorava
de medo?

Ele gargalhou, se lembrando do que, para ele, foram momentos de pura diversão

— Isso mesmo! — Ele bradou, como se eu estivesse acertado em cheio qual


lembrança ele estava se referindo.

— Para você isso teve mais graça do que para mim — eu lhe respondi com a
mesma feição séria.

— Não leve as coisas tão a sério, aquilo era tudo brincadeira — ele disse, me
olhando com um olhar traquinas — , além do que, as pessoas são assim.

Note que ele não disse “as crianças são assim”!

— Aposto que, algum dia, podemos jogar alguns jogos de novo. Com a presença
do Hugo, claro — completou ele, olhando para Hugo, com um sorriso de orelha a orelha.
Meu namorado deu um breve sorriso.

— Eu acho que podemos brincar, sim — digo com a testa franzida. — Fico feliz em
saber de que aquilo era só brincadeira — Abro um sorriso de orelha a orelha — Principal-
mente porque estou ansioso para brincar com seu filho, aposto que vamos nos divertir
muito, se você quiser posso ensinar ele a nadar.
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Seu rosto automaticamente mudou, entendendo que o mundo dá voltas e que
agora ele também tinha um ponto fraco.

Hugo olha pra mim com as sobrancelhas erguidas, mas um sorriso traquinas no
rosto.

— Que foi? — pergunto sorrindo — eu só to brincando

Branco, junto dos meus outros primos e até do meu irmão, sempre se aproveitaram
do fato de eu ser o mais novo da família para me pregar peças e outras coisas mais
pesadas. Eu não julgo meus primos pelos seus atos infantis, pois crianças geralmente são
feitas para serem, no mínimo, estúpidas. Minha revolta a respeito de seu comentário é ele
não só não entender que aqueles momentos não me eram divertidos, mas também se
vangloriar deles, o que me fez perceber que ele não mudou em nada, e só esconde o fato
de que, se pudesse, continuaria fazendo as mesmas chacotas e torturas de antes.

Depois de tomarmos café da manhã, Hugo e eu decidimos sair, dar uma volta por
Lisboa, pois eu já não suportava mais ficar dentro daquela casa.

Hugo

Théo pegou um dos carros da sua mãe para irmos ao centro da cidade. A primeira
parada foi na torre de Belém, quando via torre, meu sorriso se desfez

— Eu achei que fosse maior… — digo, indignado.

— ta ai algo que eu achei que você diria na nossa primeira vez…

Pior que eu nem sei se ele está falando serio…

O horário do almoço já estava chegando. Eu ainda me sentia cheio por causa dos
pastéis de Belém, mas Théo estava com fome, sugeri que comprássemos algumas
besteiras no mercado e fizéssemos um piquenique. Compramos três sanduíches, um
suco de laranja e duas barras de chocolate. Théo disse que tinha um lugar importante
para me levar, o parque Glubenkian.

Sentamos na grama, perto do pequeno lago cheio de patos, no meio do parque,


atrás do Museu. Depois de comermos ali, sentados na grama, Théo se sentou atrás de
mim e eu fiquei deitado entre suas pernas. Ficamos agarrados, olhando e admirando os
patos que nadavam pelo lago com tranquilidade, como se a natureza fosse, de fato, um
conto de fadas.

— Você gostaria de ter filhos? — Perguntei quebrando o silêncio

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— Eu não sou um grande fã de crianças, para ser sincero — ele respondeu,
bocejando.

— Isso eu já percebi — respondi sorrindo enquanto ele acariciava meu cabelo,


assim como ele sempre faz quando estamos deitados juntos. — Mas gostar de criança e
gostar da sua criança são duas coisas diferentes.

— Eu concordo, mas eu não sei se trocaria e limitaria minha vida por um outro
indiví...

— Sim, mas você trocou e limitou sua vida em certos pontos, por minha causa, por
exemplo, e, ainda assim, você parece gostar disto — o interrompi.

Ele sorriu com extrema ousadia e respondeu:

— Sim, você está certo, meu amor, mas a diferença é que as limitações que você
me impõe são limitações que nunca me preocupei em abdicar. Caso, algum dia, você me
limite muito, eu posso terminar contigo, coisa que não acredito que seja tão fácil com uma
criança. Não é como se eu pudesse dizer para meu filho “você faz muita pirraça e me
custa caro, acho que nosso relacionamento não está mais dando certo, creio que
devemos seguir nossos caminhos”. Por, no mínimo 18 anos, serei obrigado a viver com
aquele meu espermatozóide ambulante.

….

Você também notou que ele acabou de dizer que se livraria de mim se eu o
atrapalhasse ? Ou foi só eu?

Enfio o dedo indicador no seu olhos — OUTCH —

— pra você é fácil terminar comigo quando eu me tornar um empecilho?

— Claro que não — disse ele passando a mão no olho esquerdo e erguendo meu
queixo para perto do seu rosto, beijando-o — Só digo que, juridicamente…

— hm juridicamente?

— você me obriga e limita menos que um filho, mas que, se depender de mim,
nunca nos separaremos. Acho que você já percebeu, mas eu sofreria muito mais por falta
de amor que você.

— Mas você não sente que ter um filho seria importante para você redimir este
sentimento e experiência que teve com sua família?

Ele fica parado olhando para o lago pensando na minha pergunta.

— Não, os erros deles não podem refletir em mim. Eu entendo o quão importante
seria, para mim, quebrar este ciclo de relação parental mal feita, mas eu não vou trazer
outra vítima para este mundo só para lhes jogar isso na cara — ele explicou por fim. —
Sem falar que eu posso acabar fracassando tão gravemente como eles, ou até pior, e eu
não suportaria tamanha tragédia.
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— E você não se preocupa em saber que na árvore genealógica o seu galho morre
com sua foto? — pergunto, tentando disfarçar uma certa tristeza.

Ele me olha confuso.

— Sinceramente? Não — Ele respondeu com certa frieza. — Para muitos deve ser
a coisa mais triste do mundo ter estampado em sua parede um desenho de sua árvore
genealógica e seu galho não prosseguir, não levar adiante seu conjunto de genes, mas
você viu o que os meus antepassados coletaram e desenvolveram, não quero que isso vá
para frente.

Eu não posso negar que me deixava um pouco triste, saber que Théo estava tão
ferido, que lhe causava até mesmo receio de criar uma familia, me dava angustia saber
que ele queria que seu nome fosse esquecido, por causa de um passado quem nem era
tão seu.

— Crianças não são só um conjunto de genes que você passou, elas também são
ensinamentos que você propagou

— E aí está algo que me assusta ainda mais — Retrucou ele com voz era calma —
Imaginar que posso criar uma criança e fazer ela sofrer como eu sofri sem que eu nem
mesmo seja capaz de notar o que estou fazendo.

As palavras dele pesam nos meus ouvidos, pois pois era nítido o quanto o quanto
os pais dele o afetaram, a imagem dele sentado naquele chão chorando, somada a essas
palavras me faziam notar que ele estava afetado de forma tão profunda que ele desejava
morrer na esterilidade, do que correr o risco de fazer o mesmo que eles fizeram e faziam
com ele.

Beijo sua testa, inclino um pouco mais minha cabeça e beijou sua boca. Com a voz
afável digo:

— Não seja tão duro consigo mesmo, você é um namorado incrível, e seria um pai
melhor ainda. Não seria como sua família, você me conhece há tão pouco tempo e faz de
tudo para que eu me sinta bem e que nunca me machuque. Você está, até mesmo,
enfrentando seus traumas só para me agradar. Um indivíduo que faz isso por qualquer
pessoa, jamais poderia ser um pai ruim.

— Você sabe por que eu te trouxe aqui? — Ele mudou de assunto, quando vi que
seus olhos brilhavam.— Não, por quê? — digo me curvando para olhar para ele,
genuinamente curioso.

— Porque este aqui foi o lugar onde eu dei meu primeiro beijo — contou, apon-
tando para um banco que se escondia de baixo da árvore que tinha à nossa direita.

Eu não posso acreditar nisso…

Théo

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Hugo permanecia em silencio, acho que não deveria ter dito isso… nota pra você
caro leitor, não fale sobre suas ultimas relações com teu cônjuge. viro sua cabeça para
ver seu rosto esperando sua irá cair sobre mim, mas quando vejo seu rosto me deparo
com um brilho seguido por um singelo sorriso.

— É sério? — perguntou ele— Conta mais. Como foi? Com quem foi?

Seu ânimo e curiosidade despertou em mim um sorriso quase que imediato.

— você não ta bravo por eu ter te trazido aqui?

— claro que não, considerando teu passado, ouvir uma historia sobre seu primeiro
beijo parece ser de longe a historia mais fofa que vou ouvir da tua boca…

Eu poderia ter me ofendido, se isso não fosse verdade…

— Foi com um antigo colega de escola. Foi patético, nós tínhamos 14 anos. Ele me
chamou para vir aqui depois da escola, para estudarmos um pouco. Como eu voltava
para casa sozinho, eu aproveitei e vim para cá com ele.

— Uh, e qual era o nome dele? — perguntou ele, com os olhos arregalados, ex-
tremamente faminto por cada detalhe.

— Ele se chamava Jorge,

— Era branco, negro, alto, baixo, como era o cabelo? Eu quero detalhes Théo! DE-
TALHES!

— Calma homem… ele era branco, com cabelo cacheado, quase igual ao teu, e
um pouco menor que eu.

— E como foi que aconteceu o beijo?

— Tá vendo aquele caminho ali? — disse apontando para um caminho no meio


dos bambuzais — Estávamos seguindo aquele caminho para achar um melhor lugar para
sentarmos, quando ele, que andava na frente, do nada parou e se virou para mim.

— E te beijou? — perguntou Hugo, me interrompendo — Que fofo.

Ele é tão fofo quando fica animado e curioso por algo, parece uma criança hiper-
ativa, com zero calma.

— Na verdade, foi quase isso, ele se virou e veio para cima de mim para me beijar
— digo encenando —, mas eu, distraído como sou, andava olhando para o chão e,
quando notei que ele parou, eu olhei para ele e vi ele vindo em minha direção, como se
estivesse quase que caindo, e isso claramente me assustou. Arregalei meus olhos e pulei
para trás.

Hugo ficou com a boca aberta olhando para mim incrédulo — Pois é… a pior parte
foi que ele, logo em seguida, ao ver que eu recuei, imaginou que eu não queria beijar ele,
então, enquanto vinha para cima de mim, ele notou que já não podia mais recuar e
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continuou. Só me deu um abraço e pediu desculpas. Quando ele me abraçou, o clima
ficou estranho e eu disse que ele poderia me beijar e que eu recuei porque me assustei
achando que ele ia cair. Ele, então, me beijou e continuamos o resto da tarde no parque.

— E que fim teve a relação de vocês?

— Na semana seguinte ele parou de falar comigo e algumas semanas depois ele
mudou de escola e nunca mais ouvi falar dele

Hugo ficou me admirando com um olhar triste.

— Você beijava tão mal assim?

Olhei para ele com olhar de desprezo. Enfiei o dedo no olho dele.

— OUTCH, eu tava brincando — ele responde massageando o olho.

Dou um beijo no seu olho para sarar mais rápido.

— E voce acha que tem dedo do seu pai nessa historia? — ele pergunta

— Eu não sei, mas tenho medo que o mesmo aconteça contigo

— Foi por isso que você não quis que eles soubesse sobre mim?

— Talvez…

Com o fim da tarde chegando e o sol se pondo, decidimos voltar para casa.
Quando chegamos, toda a família se encontrava na sala, conversando, conversa esta que
praticamente parou de imediato quando chegamos. A casa já exalava o delicioso cheiro
da comida da minha avó. Olho para minha mãe que preservava um olhar de desdém, olho
para minha irmã que nem tentava disfarçar o sorriso de orelha a orelha que ela tinha. Ela
já devia ter contado para minha mãe o que eu havia feito, agora era só esperar o proximo
movimento dela, mas minhas pernas já me diziam para correr. Sentamos no sofá, para
fingir que fazíamos parte daquela alcateia.

— Achei que vocês não voltavam hoje — disse minha mãe sentada na outra ponta
do sofá.

— Hugo gostou de Lisboa, e eu queria lhe mostrar alguns lugares, perdemos a


noção das horas.

— E você acha que está foi a melhor das tuas ideias? — perguntou ela olhando
para seu celular, enquanto respondia alguém por mensagem de texto.

— Que foi? Vai dizer que sentiu nossa falta durante o dia? — ironizei.

— Não — disse ela, sorrindo —, eu só perguntei porque seu pai acabou de me


mandar mensagem dizendo que te viu em Lisboa e que, por isso, está a caminho para te
ver — logo em seguida, jogou o celular para o lado e me encarou.

MEDO!

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Sua frase caiu sobre mim como uma onda de água fria. Meu corpo congelou, meus
pêlos se arrepiaram, meu coração acelerou e minhas pupilas se dilataram. Eu já não
sentia esta sensação há tanto tempo, quase não me lembrava dela. Senti vontade de
vomitar.

CORRA!

Não era tempo para ficar ali parado congelado, eu tinha que agir. Olhei para Hugo,
que me olhava admirado por me ver tão pálido. Me levantei do sofá, agarrei sua mão e o
puxei comigo em direção ao quarto.

— O que está acontecendo? — Ele pestanejava, desviando dos móveis.

— Temos que pegar nossas coisas — eu dizia, enquanto corria em direção ao


quarto.

— Mas para quê? — Ele perguntou, assustado.

— Estamos voltando para o Algarve agora mesmo!

— Mas por que este desespero? — disse ele soltando sua mão e me fazendo parar
de correr.

Já estávamos em frente ao meu quarto quando paramos de correr. Hugo olhou


para mim com espanto.— Eu te explico tudo no caminho para casa — pedi, com a voz
implorando por compreensão.

Hugo não fez mais perguntas e me acompanhou para dentro do quarto, onde
tentamos juntar todas nossas coisas. Meu desespero não me deixou juntar todas as
roupas da forma como deveria, pois tudo que se passava na minha cabeça era de sair
daquela casa imediatamente. Depois de jogar tudo que estava na minha frente para
dentro das malas, eu agarrei novamente a mão de Hugo e corri para sair daquela casa.
Quando finalmente estávamos descendo as escadas, o pior aconteceu.

PÂNICO!

A porta da sala se abriu e dois homens altos, de terno, entraram. Ja não tínhamos
mais como correr. Atrás dos dois homens surgiu um outro, menor que os outros dois.
Quando vi seu rosto, meu corpo ficou frio, meus olhos se embaçaram, o rosto daquele
homem ainda me dava calafrios e novamente eu me senti como uma criança de oito anos
de idade. Senti minha respiração pesar. Aquelas três pessoas pareciam roubar-me todo o
ar da sala. Me sentia como uma leoa cercada por duas alcateias prestes a atacar meu
filhote, que não entendia o perigo que corria.

— Este é o teu pai? — Hugo sussurrou.

Aceno com a cabeça, confirmando sua pergunta. Puxo Hugo para atrás de mim,
para tentar esconder ele daquele homem, que me encarava fixamente. Seu cheiro me
dava enjoo. Uma mistura de sangue, cigarro e Bleu de Chanel. Era como se eu estivesse
vivendo um déjà vu de um pesadelo.
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O silêncio na sala era gélido e constrangedor. Aquele homem ficava me encarando
sem dizer uma única palavra, sua expressão era indecifrável, o que me deixava ainda
mais nervoso. Nenhum dos meus primos ou tia faziam algum som, era como se
estivessem segurando a respiração. Eu entendia a sensação, meu coração batia forte,
minha respiração parecia não saciar meu corpo, que exigia que ela fosse mais e mais
rápida. Eu não podia continuar tendo um ataque de pânico, se não ele perceberia.

“RESPIRE LENTAMENTE!” Eu gritava em minha mente, controlando minha


respiração para fazer com que meu coração parasse de acelerar, “fique calmo e pense!”
Eu repetia “pensa! Pensa! Pensa!” Meu tórax doía, com o pressionar para evitar a
respiração acelerada.

Minha mãe tossiu, me fazendo pular de susto, quebrando o silêncio que se


mantinha na sala. Sua tosse foi para chamar a atenção para ela. Aquele homem
finalmente parou de olhar fixamente para mim e virou para minha mãe.— Olá, meu
docinho — ele disse com sua voz rouca de fumante e com um sorriso amarelo. — Quanto
tempo não te vejo, noto que já está ficando velha… — ele terminou enrugando seu rosto,
demonstrando certo nojo pela idade da minha mãe.

— Sabe que eu já tinha esquecido como sua voz é nojenta? — ela respondeu, en-
fiando o dedo no ouvido fingindo o limpar. — Eu me pergunto quando o cigarro vai final-
mente destruir tuas cordas vocais, para eu nunca mais precisar te escutar.

Ele sorriu, girou o anel do seu dedo mindinho e respondeu:

— Eu fico tão impressionado com o fato de eu estar longe de você e ainda assim
conseguir sentir o cheiro do seu veneno, sem dúvidas tem uma peçonha forte, docinho.

— Talvez não seja meu veneno, o cheiro que você está sentido, pode ser o per-
fume das suas prostitutas, que impregnou nas tuas roupas.

— Não, eu não creio que seja este o cheiro. Você sabe bem que minhas vadias só
usam perfume francês, ou você já se esqueceu?

— Eu me lembro de muitas coisas sobre você, coisas que eu adoraria esquecer!

Com um sorriso cínico no rosto, ele virou novamente para mim e percebe que es-
tou escondendo Hugo.

— E então, não vai abraçar teu pai? — disse com os braços abertos, caminhando
em minha direção, com uma feição séria.

Antes que ele chegasse mais perto de mim, dei um passo para trás, um ato de puro
desespero, que encobria uma forte vontade de correr. Meu passo mostrou-lhe que eu não
queria que ele chegasse tão perto de nós. Ele entendeu, mas ignorou meu aviso, e contin-
uou andando.

— Você sabe que eu não vou fazer isso — eu respondi dando mais passos para
trás, empurrando Hugo junto comigo.
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— É assim que você recepciona seu pai? Depois de tanto tempo sem nos vermos?
— disse ele parando e me encarando, como se eu de fato o devesse algo.

— Ta aí duas coisas que eu lamento, profundamente. Ter que te recepcionar e o


fato de ser meu pai.

— Não seja rude, eu vim de tão longe só para te ver. Não vai nem me apresentar
ao teu amigo?

Hugo, ao ouvir menção a si, tentou sair de trás de mim para cumprimentá-lo, mas
eu o repreendi, segurando-o e não o deixando sair de trás de mim.
— Hugo não é meu amigo, é meu namorado.

Seu rosto se enruga ao ouvir aquelas palavras saindo da minha boca.

— Como é pra você vê que fracassou como pai, como exemplo masculino? — disse minha
mãe que parecia se deleitar com cada segundo daquela peça.
— Refrescante! — respondeu ele entre os dentes.
— que você veio fazer aqui? — pergunto

— Eu vim ver o quão patético você está se tornando — disse ele, rosnando.

— Espero que já tenha saciado sua curiosidade — respondo olhando em seus ol-
hos, com meu coração quase saindo pela boca.

— Eu me pergunto como é possível eu ter te dado tanto e, ainda assim, sua mãe
ter te arruinado. Tem tantos dons, tanto futuro e, ainda assim, é um fracassado, que, para
melhorar, decidiu ser um pederasta…

— Não coloque isto na minha conta — disse minha mãe, levantando sua voz. —
Sem dúvidas isso é resultado da sua ausência como pai, como exemplo de masculinidade
dentro desta casa.

Enquanto os dois brigavam para descobrir quem era o responsável pela desgraça
que me tornei, Hugo apertou meu braço e sussurrou para mim:

— Vamos embora, por favor. — sua voz calma fez meu coração ficar ainda mais
apertado por eu ter permitido que ele presenciasse aquela cena. E o que mais me deixava
triste é que eu sabia que, até o momento, só estavam me atacando, mas não demoraria
para que começassem a atacá-lo também. Meu pai estava na frente da porta, de onde
jamais me deixaria sair, e eu não tinha coragem para mandar os dois calarem a boca, por
mais que eu quisesse, por mais que o toque do Hugo me desse coragem, ainda assim,
não parecia ser suficiente. Eu me sentia fraco, culpado e preocupado com o que estava
por vir.

Eu já tinha visto aquela cena milhares de vezes. Era como um flashback: os dois
gritando, se acusando, ele indo em direção a ela. Ela se levantando, colocando o dedo na
cara dele, toda a família em silêncio, os gritos se intensificando. Gustavo tampando os ou-

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vidos e olhando para os lados, tentando se imaginar longe dali. E eu parado, congelado,
sem conseguir me mexer, sem conseguir pará-los, sem conseguir gritar.

GRITE!

Aquela sensação de querer gritar e ter medo, me fazia lembrar de minha infância,
de quando eu ainda tinha medo do escuro. Toda noite, quando eu acordava com sede, eu
sofria, pois não conseguia me levantar sozinho no escuro para ir beber água. A solução
para fugir daquele sofrimento era gritar por ajuda, mas aí iniciava outro medo. Eu tinha
medo de gritar na imensidão do escuro, pois eu sabia que os demônios dormiam ao meu
lado, mas jamais sabiam onde eu estava, graças ao meu silêncio. Eu tinha certeza que
gritar era o mesmo que estragar minha camuflagem. Gritar por ajuda era tão doloroso, ar-
riscado e tortuoso que eu arriscava passar a noite com sede. Meu coração acelerava só
de imaginar iniciando um grito e logo sendo abafado pelas mãos do demônio que me de-
scobriria.

Naquela sala, o mesmo acontecia. Hugo segurava meu braço, seu toque me dava
forças para encher meu pulmão de ar, mas o grito se recusava a sair. Eu sentia que o ar
travava em minha garganta, querendo se libertar, mas não conseguia.

Hugo me viu paralisado e não suportou toda aquela situação.

— Por que diabos vocês estão falando assim do filho de vocês? — Ele gritou,
saindo de trás de mim. — Vocês deveriam ter vergonha de dizer isso para ele!

Meus olhos se arregalaram surpresos com sua ira em minha defesa, eu não preci-
sei gritar por ajuda, ele gritou por mim!

— Cala boca, seu viadinho— Gritou aquele homem andando ainda mais em nossa
direção — Quem te deu autorização para abrir a boca na minha casa!

— Esta não é mais tua casa! — Replicou minha mãe, do outro lado.

— Vocês deveriam ter vergonha! — Continuou Hugo.

— Que gritaria é essa? — Ouviu-se uma voz vindo da cozinha, que imediatamente
chamou-nos a atenção. Era minha avó vindo acabar com a briga.

— Maria — disse ele abrindo os braços e um sorriso de orelha a orelha para a


abraçar —, quanto tempo não te vejo!

— Não me diga que veio aqui só para brigar — disse ela, em tom de bronca,
recepcionando o abraço.

— Não estamos brigando, estamos apenas conversando sobre o Théo — ele reba-
teu.

Minha avó olhou para mim. Eu olhava para o chão, tentando arrumar coragem para
sair dali.

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— Não me parece que é o que está acontecendo — disse ela, vindo em minha
direção. — Você está bem, Théo?

— Eu quero ir pra casa! — respondi, ofegante.

— Eu imaginei que sim — disse ela, abrindo um pequeno sorriso de canto de rosto
e passando a mão em minha bochecha. — Espere aqui por cinco minutinhos que eu já
volto, está bem? — disse ela indo em direção à cozinha.

A sala ficou quieta e atenta, somente observando-a indo e voltando da cozinha.


Quando ela voltou, trazia consigo uma pequena Tupperware com algo amarelo e preto
dentro.

— Eu fiz bolo de cenoura pra você — ela disse me entregando a vasilha.

Meus olhos encheram-se de água, minha garganta travou com minha tristeza, que
eu tentava engolir. Tentei dizer obrigado, mas não consegui, engasgado em minhas
palavras. Minha avó me pegou pelo braço e mandou meu pai e seus homens saírem da
frente da porta. Eles a obedecem sem contestar. Fora da casa, o motorista já nos esper-
ava, aparentemente ela já o tinha chamado enquanto estava na cozinha.

— Sinto muito que tudo isso esteja acabando assim. — ela olhou para Hugo, que
estava com as bochechas vermelhas, e olhava para baixo. — Estou contente que o Théo
está em boas mãos. Adorei te conhecer, Hugo — ela lhe deu um beijo na testa —, cuide
do meu netinho.

Logo em seguida, ela fez o mesmo comigo, disse que estava orgulhosa de todo
meu esforço e, principalmente, por eu ter conhecido um rapaz tão fofo e gentil. Ela me
aconselhou a tomar conta dele também. Eu lhe dei um abraço forte, e, mesmo que ten-
tasse segurar minhas lágrimas, eu não consegui segurá-las

Minha avó nos colocou dentro do carro e disse para o motorista nos deixar no aero-
porto. No caminho para casa, Hugo falou pouco comigo, só me disse que sentia muito por
ter me convencido de ter ido até Lisboa e por ter passado por aquilo só porque ele queria
conhecer minha família. Eu não o culpei por nada, e o tranquilizei de que estava tudo
bem. Eu já sabia que aquilo ia acontecer e que, mesmo eu estando naquele estado,
aquilo não me afetava mais tanto quanto costumava afetar.

Gustavo

Mais tarde naquele dia, meu pai andava possesso na sua casa de um lado para o outro.

108 of 121
— INACEITÁVEL — Ele dizia enquanto marchava,
— Tente esquecer isso pai.
Ele me olha com os olhos pegando fogo, como se fosse culpa minha tudo que tivesse
acontecido.
— Essa velha mais uma vez veio intervir na educação que eu dou para o meu filho,
como ela ousa me pedir para deixar ele em paz, é culpa dela ele ido para o algarve
estudar violino, coisa de boiola, que perda de tempo! Agora ela quer que eu deixe ele em
paz vivendo essa vida imunda…
— não sei se é culpa da vovó ele estar assim pai, você se lembra do ocorrido de
quando ele era mais jovem, isso só era questão de tempo.
— Cala boca!
Salto com um susto que sua voz me deu.
— eu preciso de um favor. — ele disse por fim parando de andar em círculos.
Eu sei o que ele vai querer, eu sei o que ele vai me obrigar a fazer, eu sei que odiarei o
que ele vai dizer.
Balanço a cabeça em sinal de negação — por favor pai, não me peça isso…se o
senhor preserva algum amor por mim, por favor não me peça para repetir aquilo de novo,
tanto meu irmão não merece, quanto eu também não.

Não tenho coragem de olhar nos olhos dele, mas ele fica ali parado me encarando, sinto
seu julgamento caçando meus olhos.
— Pois bem, então diga ao Saulo que tenho algo para lhe pedir.

109 of 121
Capitulo IX

Théo

Quando voltamos pra casa Hugo não disse nada, não perguntou nada, não sugeriu
nada, naquela noite deitamos na minha cama, Hugo me abraçava com mais força do que
o normal, sinto suas lagrimas molhando minhas costas, um soluço escapa de sua boca.
Me viro desmanchando a conchinha que fazíamos.

— Me desculpa — ele diz entre soluços

Meu coração se parte em saber que ele se sente culpado, seguro seu queixo, lhe
dou um beijo — não precisa se desculpa meu amor, eu sei que você não fez por mau.

— Mesmo assim você não merecia isso.

Meus olhos se enchem de lagrima, eu não suportava ver ele chorando por causa
da minha tristeza.

— Eu já disse que te amo muito? — digo, lhe dando mais um beijo

***

Depois daquela noite nunca mais falamos sobre aquele assunto fingimos que nada
tinha acontecido e sinceramente eu agradecia por termos seguidos assim, pois minha
vida tinha melhorado consideravelmente depois que comecei a namorar Hugo. Meus
momentos de felicidade se resumiam a tardes depois da universidade, na minha casa
onde ficávamos em frente a televisão abraçados até a noite para assistir algum filme ruim,
alguma comédia gay que Hugo me colocava para assistir, pois dito ele eu não podia ser
um gay de qualidade sem conhecer todos os clássicos, enquanto assistíamos ele
comentava as diferenças entre a realidade e o filme. Conversávamos como era possível
um adolescente ter tantas questões sobre homossexualidade e até amávamos os clichês
daqueles filmes. Argumentávamos que o mundo LGBT tem muito menos
representatividade nos filmes e que era incrível que, atualmente, todo filme ou série LGBT
que víamos era sobre algum romance adolescente ou juvenil. Ficávamos imaginando
como seria um filme de terror onde o protagonista era gay. Já imaginou o Freddy Krueger
invadindo os sonhos de um jovem homossexual só para matá-lo? Teria o Freddy Krueger
coragem para chamar a pobre vítima de viadinho, enquanto corria atrás dele? Será que o

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criador do filme colocaria o pobre rapaz para correr do Jason como uma pessoa qualquer
ou ele colocaria o rapaz para correr como o estereótipo de gay afeminado?

Também ficamos argumentando sobre o fato de como faltam vilões homossexuais,


o mundo por muito tempo odiou os gays, mas nunca o transformaram em monstros ou
vilões. Talvez isso nunca tenha acontecido porque os gays eram vistos como seres fracos
e vexaminosos demais para poderem ser vilões. Creio que, de certa forma, acabamos
deduzindo que o mesmo podia se aplicar para as mulheres. Hugo disse que sonhava em
escrever um livro onde o protagonista era gay, mas a história não seria um romance, mas
sim um livro de terror e suspense, pois nem todo livro gay tem que ser sobre dois
indivíduos se amando e sofrendo sobre sua homossexualidade e vida amorosa. Gays
também podem ser psicopatas, mentirosos, chantagistas, pobres, ricos assim como
qualquer pessoa. Por que todas nossas histórias são só sobre casais tentando sair do
armário?

Eu adorava ouvir Hugo sonhando e protestando sobre coisas que eu, não me im-
portava nada, mas o que me agradava mais ainda era provocá-lo para instigar mais ainda
seus pensamentos.

— Além de músico, você quer ser escritor? Já pensou em ser médico também?

— Por que não? Os gregos antigos eram de tudo um pouco, e o pouco que faziam
sempre era muito — retrucava ele. — Não tem um assunto que você queira falar, que não
de para citar um grego antigo de forma louvável.

Eu podia ver Hugo argumentando por horas, dias ou uma eternidade, eu amava ver
ele falando como uma criança que acabou de chegar da aula cheio de novidades. Eu
adorava ouvi-lo falando mal dos colegas de classe, enquanto eu fazia carinho no seu
cabelo… Quem nunca teve a oportunidade de deitar no colo da pessoa amada e deixá-lo
acariciar os cabelos, sentir cada dedo dela passando por cada fio, não é um ser completo.
Na minha opinião, a frase "um homem só precisa de três coisas na vida: escrever um
livro, plantar uma árvore e ter um filho” poderia ser facilmente trocado por "Um homem só
precisa de três coisas na vida: escrever um livro, plantar uma árvore e receber carinho no
cabelo de seu amado.”

Com o passar do tempo, muitas histórias foram feitas no sofá da minha casa,
muitas discussões onde eu, com muito gosto, fazia o papel do advogado do diabo só para
prolongar, e Hugo se irritava comigo, por não acreditar que eu dizia o que dizia, e para ser
sincero, eu dizia muitas asneiras só para ver o meu bebê argumentando, era quase como
um hobbie. Eu já não me imaginava mais passar uma de minhas tardes sem o Hugo, e
quando isso acontecia, eu me sentia vazio, como uma criança no inverno, quando o sol
não aparece.

Hugo

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Eu já passava maior parte do meu tempo livre na minha casa dele, onde dormia
quatro das setes noites da semana. Tinha vezes que eu dormia uma semana inteira. Eu
amava o fato de acordar, atrasado, e ter Théo ali, do meu lado. Muitas vezes eu acordava
e ele já estava com os olhos abertos me admirando, eu o abraçava, ele me beijava e logo
me dava bom dia, ficávamos na cama como se não tivéssemos mais nada para fazer
naquele dia, ele tinha seus traumas e ressalvas, mas nunca deixava isso o impedir de ser
amoroso comigo, mesmo que isso lhe causasse estranheza.

Quanto mais tempo eu passava ao lado do Théo mais eu entendia o quanto ele
estava machucado por dentro, e depois de ter conhecido sua familia tudo parecia mais
intenso para mim. Mesmo depois de alguns meses ele ainda não havia se aberto por
completo comigo, não era como no começo, mas eu ainda sentia que mesmo ele
querendo ele ainda não conseguia se soltar. Isso me fazia sentir mais pena dele, me fazia
sentir mais vontade de o abraçar, cada dia que passava eu sentia mais amor por ele, mas
e se o meu amor não fosse suficiente pra curar ele e se eu não fosse suficiente pra cobrir
o buraco que a familia dele deixou aberto no peito dele? Me machucava, pensar nisso, ao
imaginar que demoraria até ele entender por completo o significado de amor e de ser
amado, de entender que poderia sim se abrir com quem ele ama, eu temia que talvez eu
não fosse suficiente para quebrar esse muro que eu tanto escalava, mas uma ideia me
veio a mente, a ideia de que talvez eu não precisasse enfrentar essa luta sozinho, de que
se sua familia não foi uma familia então eu poderia lhe dar a experiência de uma, lhe
ensinar o que é ter uma familia.

Théo
Em uma de nossas conversas, Hugo havia explicado que uma das coisas que mais
lhe fazia falta da sua terra eram os seus cães. Seus pais sempre tiveram muitos cães
para ajudar com o rebanho, e ele sempre teve um laço forte com aqueles animais e que,
depois que teve que se mudar para o Algarve, ele ficou triste por não poder ter um
cãozinho. Eu lhe disse que ele poderia tentar adotar um gato, pois são mais fáceis de
cuidar, ele disse que, assim como eu, não era nada fã de gatos, pois sempre parecem
ingratos e pouco confiáveis.

No meio de uma onde louca de animação, Hugo e eu decidimos que adotaríamos


um cão, sendo sincero eu tinha minhas ressalvas, pois nunca tive animais e eu não me
sentia totalmente confortável em ter um, mas Hugo fez carinha de coitado e acabou me
convencendo a adotar um, depois de dois ou três “por favor” com um biquinho que eu não
conseguia mais resistir. Hugo não tinha onde o deixar, pois em sua casa era proibido ani-
mais, mas decidimos que isso não seria um problema, pois poderíamos adotar e ele fi-
caria comigo.

Além do que se ter um cãozinho fazia o Hugo feliz, eu ficava feliz. Sem pensar
duas vezes, peguei a chave do carro com Gustavo e fomos até o centro de animais
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abandonados. Eu disse que poderia comprar um cãozinho pra nós, mas Hugo insistiu que
o melhor seria adotar, pois seria de graça e ainda faríamos bem para um pobre
cachorrinho. Este tipo de pensamento jamais passaria pela minha cabeça, eu sem dúvida
compraria um cão ao invés de adotar, principalmente porque adoro ver os cães quando
ainda são filhotes.

Ao chegar no centro de adoção, os olhos de Hugo brilhavam como estrelas, ele


admirava cada cão e repetia “podemos levar esse?” E dois passos depois, ele já repetia
“não, vamos levar esse aqui!” Fiquei contente de ter vindo com ele, porque tinha a clara
impressão de que, se ele tivesse vindo sozinho, eu não teria onde viver, pois minha casa
seria tomada por cachorros. Hugo e eu passamos na frente de um cão que claramente
era uma mistura de Husky siberiano e Buldogue, sabe lá Deus como esta cruza foi feita,
espero do fundo do meu coração que o buldogue tenha sido o pai. O cão era de médio
porte, seus olhos eram heterocromáticos, um era azul e o outro castanho, seus pelos
eram pretos com algumas faixas brancas, na coleira em seu pescoço, o nome de “Arnold”.
Quando Hugo o viu, seus olhos se arregalaram e ele gritou: — MEU DEUS QUE
CACHORRO LINDO!— Arnold? — sussurrei — Puta nome feio pra um cão!

Eu imagino que você, caro leitor que se chama Arnold, deve estar irritado pelo meu
comentário, mas, sendo sincero, você deveria estar irritado com teus pais por terem te
dado este nome. Hugo escutou meu sussurro e me olhou com os olhos em chamas, como
se eu tivesse ofendido sua mãe. Ele chamou um dos funcionários do centro de adoção.—
Senhor! — disse ele acenando e chamando o funcionário — Você pode nos dar algumas
informações sobre este cãozinho?

O funcionário, que aparentava estar na casa dos quarenta anos de idade,


caminhou em nossa direção, sorridente, vestido com um jaleco branco, possivelmente era
um veterinário.

— Posso ver vocês gostaram do Arnold, fico feliz por isso — disse ele apontando
para a pobre mutação de nome feio — Ele chegou aqui pequeno, há uns 11 meses, ele
tinha sido abandonado perto de uma avenida em uma caixa, onde estavam ele e mais
alguns outros filhotes, mas, infelizmente, só achamos o Arnold com vida.

— foram vocês que deram o nome dele de Arnold? — eu perguntei, descrente.

— Sim, nós ficamos pensando qual seria um bom nome para um guerreiro
sobrevivente do abandono, e Arnold foi o primeiro nome que nos veio à cabeça, não
precisamos nem pensar muito e logo de cara demos esse nome a ele — explicou ele
todo orgulhoso, não sei se foi de ter salvado o cão ou de ter pensado neste nome.

— E vocês sabem como os irmãos do Arnold morreram? — perguntou Hugo super


entretido em cada detalhe da história do veterinário.

— Um foi encontrado atropelado na pista, pois tinha saído de dentro da caixa e um


carro passou por cima . — Os olhos de Hugo se encheram de lágrimas, como se ele
estivesse vendo toda a catástrofe acontecendo em sua frente. Fico admirado com
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tamanha sensibilidade, pois Hugo já me contou diversas histórias de como ele ajudava
seus pais a decapitar as galinhas e a cortar o pescoço dos porcos em sua terra,
principalmente em época de festa. Suas historia não mencionavam a parte dele ficando
comovido com a morte dos outros animais, no final eu acho que Hugo, assim como
muitos, só tem aquela velha ideia do “amor ao próximo”, mas o “próximo” da frase vem de
“proximidade” e não de “o outro” O veterinário, vendo a tristeza de Hugo em relação à
história, tenta amenizar a situação. — Bom, a história é triste, mas se vermos pelo lado
factual, os cães procriam em grande quantidade, geralmente não são só dois filhos que
nascem na ninhada e, como nós só encontramos um morto e o Arnold, sempre quando eu
vejo o Arnold penso que, possivelmente, outros três ou quatro, assim como Arnold,
sobreviveram, pois possivelmente alguém estava passando naquela rodovia, viu os
pobres filhotes e decidiu salvar pelo menos um deles.

— Vamos levar ele — afirmou Hugo olhando pra mim, já decidido.

— Ele é um pouco grande para a casa — retruquei.

Que porra, meu primeiro cão seria um cão estranho e com nome feio!

Hugo fez seu olhar de cão sem dono, juntou as mãos em sinal de mendicância, fez
beicinho e ficou ali olhando para mim.

— Mas ele se chama Arnold… — eu tentei murmurar, mas o veterinário estava


perto demais e, ainda assim, escutou meu preconceito contra o nome, fazendo-o franzir a
testa.

Hugo continuava me olhando com o mesmo olhar de quem não havia entendido o
problema, olhei para o veterinário e perguntei:

— Ele já cresceu ou vai crescer mais? — O veterinário explicou que ele já tinha 2
meses de vida, então não cresceria mais, mesmo tendo sangue de Husky siberiano.

Acenei com a cabeça dizendo que sim, podemos levar o Arnold pra casa. Hugo me
abraçou como uma criança recebendo seu primeiro vídeo-game no Natal. Fomos até a
sala do veterinário, preenchemos toda a papelada, o veterinário nos deu a trela da coleira,
abriu um imenso sorriso e nos deu os parabéns.

Levamos Arnold para dentro do carro, Hugo o colocou em um banco traseiro e


sentou no outro, na primeira oportunidade eu freiei o carro e Arnold foi de cara no banco
da frente.

Eu sei que pareceu maldade, mas foi por um motivo e pareceu divertido na hora.

— Não deixa o Arnold em um banco sozinho — digo

No carro, Hugo já me disse para irmos a um Pet-shop, tínhamos muito o que


comprar para o Arnold. — Vamos ter que comprar uma caminha, algumas vasilhas para
beber água, comer ração... AH, RAÇÃO! Temos que comprar ração também — enumerou
Hugo, animado.
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— Vá com calma, meu amor, ou você vai nos levar à falência desse jeito — disse
olhando para o retrovisor para encarar a alegria de Hugo. Tentei não me distrair
admirando os dois em seu aprofundamento de laços, pois estava dirigindo, mas era difícil,
a cena era fofa.— Você sabe sentar? E rolar? E dar a patinha? Será que eu vou ter que te
ensinar tudo isso? — disse Hugo, conversando com Arnold na mais pura esperança de
receber uma resposta, acho que ele tinha uma vontade reprimida de ter um animal.

Arnold, por sua vez, encarava Hugo. Seus olhos de buldogue o admiravam, en-
quanto sua cabeça se inclinava para a direita.

— Acho que você é um pouco burro igual seu pai…

— Não seja tão auto depreciativo, meu amor. — respondi olhando pelo retrovisor.

Hugo me olha com as sobrancelhas erguidas — eu tava falando de você…

— AI MEU DEUS! — grita Hugo me assustando e me fazendo cambalear com o


carro — eu tenho tanto a te ensinar, você será o Mozart dos cães, um prodígio, os outros
cães vão morrer de inveja de você!

Ver Hugo agindo e falando aquelas coisas para Arnold, me fazia lembrar do meu
pai, e de todos seus discursos de como eu deveria ser o melhor, pois o mundo é formado
apenas por otários e malandros, por homens e covardes, e ai de mim se eu fosse um
otário covarde, olhar para Hugo me fazia lembrar quantas vezes eu quis reclamar, das
feridas que eu obtinha nos treinos e nos esportes que eu era obrigado a participar, mas
que calava com medo de não me enquadrar nas expectativas do meu pai, queria eu que
no mínimo quando ele dissesse aqueles discursos ele o tivesse feito com uma voz fofa
como Hugo.

— Hugo esfregava o pobre cão em seu rosto como se fosse uma esponja, fazia
carinho em sua barriga, e o pobre tentava mordê-lo, demonstrando sua total alegria com a
brincadeira.

Quando chegamos no pet-shop, Hugo correu pela loja com Arnold em seu colo.
Tudo que ele via, ele agarrava e dizia que Arnold precisaria daquilo. Talvez não naquele
dia, mas nunca se sabe o dia de amanhã.

— Meu Deus — exclamou Hugo. — Você vai ficar fofíssimo nesta roupa de
Tiranossauro.

Agora me diga caro leitor, quem é que imagina um husky com cara de buldogue,
fofo em uma roupa de tiranossauro!

Ele pegou a roupa e jogou dentro do carrinho, junto com os outros quinze objetos
que já compramos para Arnold. Hugo pegou um saco de ração tão grande que
possivelmente pesava mais que eu. Se Arnold comesse toda aquela ração em menos de
um ano, com certeza eu teria que abandonar a universidade para arrumar um emprego
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para sustentá-lo. Além da ração e das roupas, ele também agarrou diversos tipos de
petiscos, tentando me convencer de que eles seriam importantes para o treinamento.—
Eu já consigo te ver sendo o cão mais inteligente de Portugal — disse ele hiperventilando
só de imaginar aquilo.

— Só de Portugal ? — ironizei com bom humor. — Por que não do mundo todo?

Hugo olhou para mim com um olhar sério, enquanto segurava Arnold no colo.

— Acha que conseguimos? — ele perguntou, me fazendo ficar preocupado, por


não saber se ele estava brincando ou não.

Já o caixa eu torcia para minha mãe não checar os gastos do meu cartão, seria
complicado explicar pra ela o porque de eu ter gastado tanto dinheiro em um pet-shop

— método de pagamento? — perguntou o caixa olhando para o saldo astronómico


das compras.

— vocês aceitam rim? — pergunto

Hugo me da um soco no braço.

— Dinheiro. — respondo sorrindo

O caixa me olhava estranho, por pagar com dinheiro, como se mais ninguém nesse
mundo usasse dinheiro, só cartão, mas sendo sincero se eu usasse meu cartão, minha
mãe veria que gastei uma fortuna em um Pet-shop e iria me questionar sobre isso

***

Colocamos a cama do Arnold próxima do sofá da sala. Hugo disse que ele poderia
se sentir sozinho lá durante a noite… por isso deu a ideia de deixar a caminha dele do
lado da minha cama e, sendo sincero, não me incomodei com a ideia, o cão tem nome
feio, mas eu quero que ele se sinta amado. Meia hora depois, o telefone de Hugo tocou.
Hugo me olhou com um olhar triste e disse:

— Eu vou ter que ir, o senhorio da minha casa apareceu para resolver o problema
da encarnação da cozinha e ele não pode entrar sem que eu esteja lá. Você fica bem soz-
inho com o Arnold?

— É claro

— Não dê muitos petiscos a ele!

Quando Hugo saiu, fiquei ali olhando para Arnold, assim como ele ficou olhando
pra mim. Imagino que, na cabeça do Arnold, ele se sentia como se a mãe dele tivesse
acabado de deixar ele preso em uma casa com o padrasto que ele acabou de conhecer.
Ao notar a situação, eu disse, ironizando:

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— Acho incrível, é só a gente ter filho que o pai desaparece, homens…— se Arnold
fosse uma criança de verdade, riria.

Depois de brincar com Arnold eu me lembrei dos meus deveres que estavam em
atraso, também me lembrei que filhotes adoravam leite, mas não sabia se Arnold já es-
tava grande demais para tomar leite ou não, mas ninguém morre por tomar leite. Peguei
um pouco de leite, coloquei dentro de uma das vasilhas que compramos para ele e posi-
cionei no chão da cozinha, para que ele pudesse tomar. Peguei alguns dos seus brinque-
dos e coloquei sobre sua cama, para ele ir brincar logo após beber seu leite.

Aproveitei que Hugo não estava mais ali e Arnold tomava seu leite, decidi ir praticar
um pouco. Peguei meu violino, fui para a sala, abri minhas partituras e voltei a praticar
para meu concerto. Depois de terminar de beber seu leite, Arnold correu até o quarto,
pegou uma pequena bolinha que ali tinha e trouxe até mim. Ele larga a bola e ficou me
encarando, enquanto eu tocava. Sua cara era de quem queria dizer "eu já estou pronto,
pode vir brincar comigo”, eu olhei pra ele e disse:

— Eu sinto muito, mas eu já brinquei contigo, quando teu pai voltar, ele brinca
contigo, eu agora estou praticando. No melhor dos casos, posso brincar contigo depois
que terminar de praticar — ele largou a bola e ficou ali sentado me vendo tocar. Não
passou nem dois minutos, le começou a emitir os sons mais atemorizantes que eu já ouvi
vindo de uma coisa tão fofa, ele começou a gritar, não a latir ou uivar, ele GRITAVA como
se alguém tivesse espetado uma agulha nele. Parei de tocar assustado e fiquei olhando
pra ele, para ver se ele ia repetir o mesmo barulho. Esperei dois minutos e nada se
passou, pensei que talvez tivesse sido algo da minha cabeça. Coloquei meu arco sobre
as cordas e voltei a tocar. Não toquei nem duas notas quando Arnold voltou a dar o
mesmo grito.

— Que porra é essa? — eu exclamei, indignado — Está possuído ou o quê?

Peguei meu celular e pesquisei na internet se aquele comportamento era normal.


Achei um site explicando que os Huskies são famosos por fazes esses barulhos, que se
parecem com gritos, quando geralmente querem chamar a atenção.

— Entendi, seu pequeno ditador de nome feio, você está me dando um ultimato, ou
eu brinco contigo, ou você vai gritar, atrapalhando meu treinamento.

Destemido igual ao pai…

Passou pela minha cabeça prendê-lo no quarto, mas apostava que isso não
acabaria com os gritos dele, os vizinhos já me odeiam por tocar violino, imagina com um
cão gritando junto. Sem falar que Hugo me aniquilaria se soubesse que eu prendi o cão
no quarto só para poder tocar.

— Tudo bem, eu aceito a derrota — eu disse levantando as mãos. — Eu entendo


quando tomo um bom cheque mate, mas saiba que você tem sorte que eu não sou como
teus avós, eles teriam uma abordagem um pouco diferente com essa tua determinação.

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Peguei a bolinha e joguei-a para longe. Arnold saiu correndo, esbarrando em tudo
e escorregando pelo piso, indo atrás da bolinha. Quando ele a pegou, a mastigou uma,
duas, três vezes e trouxe de volta para mim, me pedindo para fazer de novo. Ficamos al-
guns minutos nesta brincadeira, onde eu fingia que jogava, ele corria como um desesper-
ado e depois ficava procurando pela bola, como se eu de fato a tivesse jogado. Logo após
perceber que a bolinha ainda estava em minha mão, ele corria em minha direção para
pegá-la, mordia meus dedos e até braço, como se quisesse que eu a largasse. Suas mor -
didas eram fracas, mas, em certos momentos, eram dolorosas, era uma sensação es-
tranha, eu não posso negar, ter o cheiro de um filhote em minha casa, sentir ele me mor-
dendo em tom de brincadeira, ter toda aquela energia pela casa era uma sensação es-
tranha, mas reconfortante.

No decorrer da tarde, Hugo me mandou mensagem a cada meia hora, perguntando


se Arnold estava bem, o que ele estava fazendo e se eu tinha colocado ração pra ele. No
fim da noite, Hugo ainda não tinha voltado, estava limpando a casa. Não estava tarde
quando eu decidi ir dormir, meu dia foi cansativo, um filhote consegue absorver todas tuas
energias com extrema facilidade, sem contar as horas que passei com Hugo lidando com
seus picos de alegria. Durante a noite, escutei Hugo chegar, ele abriu a porta do quarto
com cuidado para não me acordar, mas meu sono é leve, sempre estou atento a quem
abra minha porta.

Hugo

Chego já de noite, gentilmente caminho até a ponta da cama tentando não acordar
o Théo e ficou ali em pé admirando Arnold dormindo extremamente despreocupado, olho
para Théo que dormia como uma criança, eu espero que os dois tenham se divertido,
espero que o Arnold me ajude a dar o amor que o Théo tanto precisa. Deito-me ao seu
lado, estico o braço e puxou Arnold para a cama conosco, tento não acordar ou deixar
parecer que Arnold dormiria conosco. Quando termino de me ajeitar na cama junto com
Arnold, Théo se vira na nossa direção, se aproxima e conclui a conchinha tripla. Ele bate
a mão no Arnold, sente a bola de pele que estava grudado a mim, viro o rosto na direção
dele, ele abre os levanta a cabeça, eu sinto seu olhar, sinto seu braço cobrindo Arnold.

Eu quero que ele sinta que tem uma familia!

— obrigado — ele diz afagando meu pescoço com meu nariz.


— pelo que? — eu sussurro como se não quisesse acordar o Arnold
— por ter me convencido a adotar ele, eu sei que você não queria um cão mas o
fez para me ajudar a ser menos ranzinza.
Um sorriso surge no meu rosto.
— você é mesmo uma pessoa difícil de enganar.
— Quando você saiu o Arnold começou a gritar, literalmente gritar.

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Eu sorrio, eu imaginei que isso fosse acontecer, foi por isso que achei que adotar um
husky seria uma boa.
— isso é normal, os Huskies tem esse costume.— respondo
— você poderia ter me avisado, eu quase levei ele de volta pra adoção.
Meu sorriso some, me vira para o encarar.
— to brincando… — ele responde
— hm! — digo com os olhos serrados
— Mas quando ele estava gritando eu me lembrei de uma memória antiga.
— que memoria — pergunto já sonolento.
— Uma vez minha avó me perguntou, se eu era uma boa pessoa.
— e o que você disse?
— que possivelmente não.
— é claro que você é uma pessoa boa.
— você não pode afirmar isso, você me conhece a pouco tempo
— é claro que eu posso afirmar, pessoas bonitas não podem ser más. — respondo
— você parece viver em um mundo muito mais simples que o meu, mas devo te
lembrar que você já me chamou de feio mais de uma vez.
— você mereceu, você me chamava de musico barato.
— justo.

Na manhã seguinte, acordei apalpando a cama a procura de Arnold. que já não se encon -
trava mais agarrado a nós. me viro para Théo e pergunto se ele sabe onde Arnold está,
— como eu poderia saber?— diz ele dando de ombros.— Mas, não precisa se pre-
ocupar, eu resolvo isso — disse olhando para o teto e gritando: — ARNOLD!
E, como um furacão, aquela bola de pelo de olhos arregalados veio correndo da sala em
direção ao quarto, pulando na cama e lambendo meu rosto, cometendo até o horror de
enfiar a língua na minha boca. Théo olhou aquela cena com cara de nojo.
— Não fique com essa cara. ele beija bem melhor que você — brinquei.
Théo me jogou um travesseiro na cara e me chamou de idiota. Ah, nada melhor do que
acordar recebendo amor.

Quando nos levantamos e chegamos na sala, nossas bocas se abrem em perplexo ao


nos depararmos com a surpresa, ou melhor, as surpresas que Arnold nos deixou, aquele
cão era uma maquina de produzir bosta, de primeira linha. A quantidade de estrume
espalhada pela cozinha era tão grande que era até difícil de chegar na cozinha sem pisar
em mijo ou bosta.
— eu acho que já ta na hora de eu voltar pra casa.
— Nem tenta, você vai limpar, não vai sair daqui enquanto esta casa não estiver
com cheiro de pétalas de rosas — ele responde tapando meu nariz e analisando a
situação.
— Mas por que eu? — Reclamo, como se a ideia de ter um cão não fosse minha.
— Porque eu cuidei dele ontem enquanto você me abandonou— ele responde
abrindo um sorriso, sinico, de orelha a orelha.
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— Mas foi uma emergência — Exclamo, indignado, me fazendo de inocente.
— Ótimo, aproveita que é tão bom em atender emergências, ta ai outra pra você
lidar, boa sorte — Ele diz andando para o banheiro, único lugar onde Arnold poupou, que
ironia.
— Eu apelo para a sorte — digo esticando o punho para cima e depois frente o de-
safiando a jogar pedra, papel ou tesoura.
Eu sei caro leitor que ele poderia facilmente dizer “não" e que deveria ser eu
quem tinha que limpar toda aquela bagunça, mas eu tenho um rosto fofo de mais pra não
usar isso ao meu favor, se meu rostinho bonito pode me ajudar a não catar bosta, então
eu vou me aproveitar disso — Pois bem, serei misericordioso. Que o perdedor aceite
limpar pelo resto da semana sem reclações — ele diz voltando do banheiro para perder a
partida de pedra, papel ou tesoura. Aceito a aposta em uma tentativa desesperada de
fugir daquela obrigação.
Nossos punhos chacoalham, Théo põem pedra e eu tesoura. — Boa sorte com os
presentes do teu filho, espero que isso te faça lembrar que comprei um saco imenso de
ração que já já vai se transformar em bosta, quentinha para você catar de novo.

….

Théo

Lavo meu rosto na pia do banheiro, me olho no espelho admiro meu rosto molhado
com os olhos apertados por causa do sono e um sorriso estampado em meu rosto, difícil
de sair, e que aumentava ainda mais quando escutava Hugo fazer ansia de vomito
enquanto catava toda aquela bosta espalhada pela sala. Era estranhamente confortável
perceber o como meu coração havia se enchido de alegria ao ver o como aquele
pedacinho de pelo ambulante estava fazendo nossas vidas ainda mais divertidas.

Me entristece só de imaginar que tem pessoas que acordam cada dia da sua vida,
até sua morte, sem experimentar a sensação de ser amado, de ter uma familia, de ter
alguém te esperando chegar em casa.

Frases e ideias a serem ( ou não ) usadas

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Todo dia eu rogo a deu para que não me deixe viver em um mundo em que você
não exista.

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Nem toda alma é feita para andar com outras

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— Posso me sentar aqui?

— É claro, esse lugar sempre esteve reservado para você

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Você acha que eu sou um cuzão caro leitor?

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O erro da humanidade é achar que todo demónio tem chifres

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A pior solidão é quando a alma grita, mas o mundo inteiro está surdo.

———

Minha mãe costumava me dizer que as pessoas odeiam umas as outras quando no-
tam que são muito parecidas.

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