DECISÃO:
RECLAMAÇÃO – DESAPROPRIAÇÃO – EXIGÊNCIA
DE CERTIDÃO NEGATIVA DE DÉBITOS
RELACIONADOS AO IMÓVEL EXPROPRIADO PARA
FINS DE LEVANTAMENTO DE 80% DO PREÇO
OFERECIDO PELO EXPROPRIANTE – AÇÃO
DIRETA DE INCONSTITUCIONALIDADE N.
3.453 – LIMINAR DEFERIDA.
Relatório
1. Reclamação, com pedido de medida liminar, ajuizada por
João Siqueira, Conceição Siqueira Ritucci, Nilson Siqueira e sua
mulher, Milton Alves de Siqueira e sua mulher Yara Célia Siqueira,
Rubens Siqueira e sua mulher e Clemente Vasconcelos e sua mulher,
em 23 de fevereiro de 2007, contra decisão proferida pela Segunda
Câmara de Direito Público do Tribunal de Justiça de São Paulo, que
estaria a descumprir o que decidido por este Supremo Tribunal
Federal na Ação Direta de Inconstitucionalidade n. 3.453-SP.
O caso
2. O Município de São Bernardo do Campo-SP ajuizou ação de
desapropriação, no ano de 2000, contra os Reclamantes e estes
requereram:
“nos termos do § 2º do art. 33 do Decreto-lei n.
3.365/41, o levantamento de 80% do preço oferecido
‘initio litis’ pelo expropriante, nesse processo que se
iniciou no ano de 2000, no qual já foi deferida e
consumada a imissão de posse em 18 de dezembro de 2001”
fl. 3).
O Juiz da 6ª Vara Cível de São Bernardo do Campo, em 19 de maio
de 2006, indeferiu o pedido, ao argumento de que:
“Para apreciação do pedido de levantamento da oferta, nos
termos do art. 19 da Lei Federal 11.033/2004, faz-se
necessária a apresentação de certidões negativas
(tributos federais, estaduais e municipais), bem como
certidão de regularidade para com a Seguridade Social,
com o FGTS e com relação à Dívida Ativa da União”
(Processo n. 215/2000, fl. 17).
O magistrado concedeu o prazo de 15 (quinze) dias para
apresentarem as certidões (fl. 17).
3. Contra essa decisão, os Reclamantes interpuseram agravo de
instrumento, com pedido de efeito suspensivo (fls. 18-25), e, em 26
de setembro de 2006, a Segunda Câmara de Direito Público do
Tribunal de Justiça do Estado de São Paulo negou provimento ao
recurso.
Entendeu aquele Tribunal de Justiça que:
“Em sede de desapropriação, forçoso reconhecer que o
expropriado deve comprovar a quitação de dívidas fiscais
que recaiam sobre o bem expropriado, tanto para levantar
a parcela referente ao depósito prévio, como o preço
final, porquanto assim previsto os artigos 33, parágrafo
2º e 34 do Decreto-lei n. 3.365, de 1941.
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Portanto, irrelevante a discussão a respeito da exigência
do artigo 19 da Lei n. 11.033, de 2004, não havendo
liberdade, na espécie, para a dispensa de comprovação
acerca da inexistência de débitos fiscais.” (Agravo de
Instrumento n. 560.582.5/0.01, fls. 27-28).
4. Os Reclamantes opuseram embargos de declaração, rejeitados
pela Segunda Câmara de Direito Público do Tribunal de Justiça de
São Paulo em 19 de dezembro de 2006.
5. Noticiam os Reclamantes que interpuseram Recurso Especial
perante o Superior Tribunal de Justiça (fls. 4 e 41-46). E alegam
que:
“o acórdão objeto desta Reclamação, ao respaldar a r.
decisão do Juízo de primeira instância, negou a
autoridade do v. acórdão [deste Supremo Tribunal Federal]
que, na ADI 3.453/7, julgou inconstitucional o mencionado
dispositivo da Lei 11.033/04; tendo assim o v. acórdão
estadual afrontado a competência (sic) deste [Supremo
Tribunal Federal] e o efeito vinculante, próprio dessa
declaração de inconstitucionalidade, conforme disposto no
parágrafo único do artigo 28 da Lei n. 9.868, de 10-11-
94, para ser respeitada pelos ‘... órgãos do Poder
Judiciário e a Administração Pública federal, estadual e
municipal’” (fl. 5)
Requerem, em liminar, a “... cassação do v. acórdão e
precedente decisão objeto desta ...” (fl. 5).
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Ao final, requerem seja esta Reclamação julgada procedente “...
para ser cassada a decisão que contraria o v. acórdão prolatado na
mencionada ADI 3.453-7 pelo Pleno desse Supremo Tribunal
Federal ... [na] preservação da competência e da decisão dessa
Suprema Corte” (fls. 5-6).
6. Em 23 de fevereiro de 2007, vieram-me os autos conclusos.
Examinados os elementos havidos nos autos, passo à DECISÃO.
7. Embora o pedido de medida liminar dos Reclamantes se
confunda com o mérito, o que põem em foco é a autoridade da decisão
deste Supremo Tribunal Federal que, segundo alegam, não teria sido
observada pela Segunda Câmara de Direito Público do Tribunal de
Justiça de São Paulo no julgamento do Agravo de Instrumento n.
560.582.5/0.01.
8. No julgamento da Ação Direta de Inconstitucionalidade n.
3.453 (em 30 de novembro de 2006), de minha relatoria, este Supremo
Tribunal Federal, à unanimidade, julgou procedente a ação e
declarou contrário aos arts. 5º, inc. XXXVI, e 100 da Constituição
da República o art. 19 da Lei n. 11.033, de 21 de dezembro de 2004.
Em meu voto, nessa ação direta, ressaltei que somente a
Constituição da República pode fixar requisitos para a satisfação
dos precatórios:
“... são eles, no sistema vigente, a requisição do
pagamento pelo Presidente do Tribunal que tenha proferido
a decisão; a inclusão no orçamento das entidades
políticas das verbas necessárias ao pagamento de
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precatórios apresentados até 1º de julho de cada ano; o
pagamento atualizado até o final do exercício seguinte ao
da apresentação dos precatórios, observada a ordem
cronológica de sua apresentação.”
Também a Constituição da República, em seu art. 5º, inc. XXIV,
ressalva que a desapropriação se procederá “mediante justa e prévia
indenização em dinheiro, ressalvados os casos previstos [na]
Constituição.”
Nesse exame precário da medida liminar, tem-se que a decisão da
Segunda Câmara de Direito Público do Tribunal de Justiça de São
Paulo, ao exigir dos Reclamantes a apresentação de certidões
negativas de dívidas fiscais, fundamentada, entre outros, no art.
19 da Lei n. 11.033/2004, diverge do entendimento deste Supremo
Tribunal, pois esse dispositivo normativo foi declarado
inconstitucional.
[Link] exposto, e sem prejuízo da devida apreciação da matéria
no julgamento do mérito, presentes os requisitos do fumus boni
iuris e do periculum in mora, defiro a medida liminar pleiteada
para determinar a suspensão do Agravo de Instrumento n.
560.582.5/0.01, que tramita perante a Segunda Câmara de Direito
Público do Tribunal de Justiça de São Paulo até a decisão final
desta Reclamação.
10. Requisitem-se informações à Autoridade Reclamada, as quais
deverão ser prestadas no prazo improrrogável de dez dias (art. 14,
inc. I, da Lei n. 8.038/90 e art. 157 do Regimento Interno do
Supremo Tribunal Federal).
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11. Prestadas as informações, dê-se vista ao Procurador-Geral
da República, para a sua competente manifestação (art. 160 do
Regimento Interno do Supremo Tribunal Federal).
Publique-se.
Brasília, 5 de março de 2007.
Ministra CÁRMEN LÚCIA
Relatora