Impactos das Redes Sociais na Infância
Impactos das Redes Sociais na Infância
AS INFÂNCIAS ESPETACULARIZADAS
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Bacharel em Direito e Psicóloga pela Universidade do Vale do Itajaí - UNIVALI. Especialista em
Psicanálise da Clínica a Cultura. E-mail: nathilyra@[Link]
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Psicólogo pela Universidade Regional de Blumenau. Doutor em Psicologia pela Universidade Federal
de Santa Catarina. Mestre em Psicologia pela Universidade Estadual de Maringá. Docente do curso de
Psicologia – UNIFEBE. E-mail: gustavooangeli@[Link]
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"Quando não há mais certezas possíveis, só o amor sabe o que é verdade."
(Para sempre Alice,2015)
[Link]ÇÃO
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O Instagram capitalizou o compartilhamento visual, deu origem a
influenciadores digitais e a economia das redes sociais, a comunidade, diferentemente
de suas antecessoras mencionadas, fez com que deixássemos de sermos amigos
para nos tornarmos seguidores. Na esteira da evolução das redes sociais, em 2016,
o Instagram inclui em sua plataforma, as histórias (stories), reforçando seu formato de
narrativas por imagens, mas agora, de maneira mais rápida.
Com o foco em histórias narradas através de imagem e sendo composto não
apenas em amigos e familiares, o Instagram tem como característica central a
estética, é necessário a escolha cuidadosa de filtros, organização de um feed coeso,
que mais do que compor o aspecto visual, sustentem a narrativa
Os perfis no Instagram não se limitam apenas a facilitar a divulgação e venda
de seus produtos, mas também transformaram os próprios usuários em mercadorias.
Isso ocorre à medida que vendem não apenas produtos tangíveis, mas também um
estilo de vida. A narrativa de suas histórias, apresentadas por meio de fotos e vídeos
cativantes, não apenas desperta interesse, mas também transforma os usuários em
potenciais consumidores de produtos associados a esse modo de vida. (Silva, 2012)
Essa dinâmica vai além de simples promoção de mercadorias, adentrando o
campo de construção de uma identidade a ser desejada. Os usuários, ao exibirem
aspectos seletos de suas vidas, não apenas compartilham experencias, mas também
sugerem a adoção de determinados produtos como parte integrante e necessária,
desse estilo de vida desejado.
Assim, o Instagram não apenas serve como um espaço de comercio, mas
também como uma plataforma onde os usuários se tornam protagonistas e
promotores de uma narrativa de consumo. A venda vai além de produtos em si,
estendendo-se a venda de própria imagem e de experiencias associadas a ela.
Portanto, no cenário descrito, com o objetivo de consolidar suas histórias e
aderindo à dinâmica de consumo, observa-se uma crescente exposição de crianças
em plataformas de redes sociais. Esse processo abrange desde a revelação da
descoberta da gravidez até os primeiros passos registrados. A infância, antes uma
experiência compartilhada principalmente com pais e familiares, transforma-se em um
espetáculo aberto ao grande público, suscetível à aprovação e likes dos seguidores.
Os pais, considerados os guardiões da infância e privacidade de seus filhos,
muitas vezes, sem o consentimento destes, expõem suas jornadas de crescimento.
Essa exposição possui duas faces da mesma moeda: por um lado, o prazer de
compartilhar o desenvolvimento de seus filhos com o público em geral; por outro, as
preocupações decorrentes das comparações entre seus filhos e o ideal de criança
frequentemente retratado nas redes sociais.
Na esfera online, geralmente encontramos apenas a representação idealizada
e estilizada do desenvolvimento infantil – uma imagem simplificada, saudável e feliz.
Mesmo quando os desafios da infância são retratados, eles são editados para se
encaixar na lógica do consumo, reforçando padrões de parentalidade e pressionando
os pais, especialmente no que diz respeito ao papel materno.
O narcisismo, necessário para o desenvolvimento saudável da criança, é
exacerbado pela exposição nas redes sociais. No Instagram, essa dinâmica resulta
na exibição de infâncias performáticas. Além de documentar o cotidiano das crianças,
os pais frequentemente as submetem a desafios e brincadeiras propostas nas redes
sociais, muitas vezes incompreensíveis para as próprias crianças e de interesse
exclusivo dos pais. Isso cria um vínculo narcisista disfuncional e exagerado, que pode
levar ao adoecimento tanto dos pais quanto dos filhos, além de estabelecer um laço
social perverso no qual as crianças são inseridas pelos genitores sem seu
consentimento.
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Neste contexto, o presente trabalho visa aprofundar a compreensão da relação
contemporânea com a infância e o conceito de criança na atualidade. Propõe-se a
explorar os impactos decorrentes de uma infância exposta ao grande público,
analisando as consequências para as perspectivas individuais. Além disso, investiga
a interação dos pais com as expectativas geradas por esse ideal, ao mesmo tempo
em que busca explorar alternativas e estratégias para a criação de opções de vida
diferenciadas.
2 FUNDAMENTAÇÃO TEÓRICA
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Elizabeth Roudinesco, em obra conjunta com Michel Plon, Dicionário de
Psicanálise, aborda o conceito do "eu ideal" como uma representação interna de
perfeição moldada por influências parentais, figuras de autoridade e normas culturais.
Este conceito, intrinsecamente ligado ao "ideal de eu", reflete a internalização dos
valores e ideais transmitidos pelos pais e pela sociedade (Roudinesco, 1998).
Segundo a autora o "eu ideal" desempenha um papel crucial na formação da
identidade e no desenvolvimento do sujeito, servindo como um modelo aspiracional
que influencia suas motivações, comportamentos e autopercepção. É importante
ressaltar que, embora o "eu ideal" possa ser uma fonte de inspiração para o
crescimento pessoal, também pode gerar conflitos internos e sentimentos de
inadequação quando o indivíduo se percebe incapaz de alcançar os padrões
idealizados. Esse conflito, central na dinâmica psíquica, afeta significativamente a
autoestima e o bem-estar emocional. (Roudinesco, 1998).
Importante observar que o Complexo de Édipo, tanto na versão original de
Sigmund Freud, quanto nas reinterpretações de Jacques Lacan, reflete as influências
culturais e sociais das épocas em que foram desenvolvidas. Freud escreveu no
contexto da Europa do final do século XIX e início do século XX, época marcada por
uma moralidade vitoriana rígida e um crescente interesse pelo inconsciente. Lacan,
por outro lado, desenvolveu suas ideias na França do pós-guerra, um período de
grandes mudanças sociais e intelectuais, influenciado por movimentos como o
estruturalismo e a linguística de Saussure. (Roudinesco, 1998)
Atualmente a teoria deve ser reinterpretada a luz das transformações sociais e
culturais contemporâneas, incluindo debates sobre gênero, sexualidade, bem como,
a diversidade de estruturas familiares. Deve-se, por tanto, compreender o Complexo
de Édipo não como um conjunto fixo de regras, mas como um processo dinâmico e
flexível. No contexto atual, a cultura da internet e as mídias sociais desempenham um
papel significativo na criação de padrões irreais de "eu ideal", influenciando
diretamente a formação da identidade e da autoimagem dos sujeitos.
A resolução do complexo de Édipo não é apenas uma questão de superação
de desejos, mas uma profunda reorganização psíquica que permite a criança situar-
se como sujeito na ordem simbólica. Sendo esse conceito, imprescindível para
entender o desenvolvimento psíquico e a formação de identidade.
A passagem e as possíveis saídas do complexo de Édipo deixarão uma marca
indelével em todos os envolvidos, podendo estas marcas serem tanto positivas quanto
negativas, porém nunca inexistentes. Essas impressões das relações primordiais não
apenas possibilitarão o surgimento da subjetividade, mas também deixarão um
resíduo intraduzível. Portanto, é crucial compreender como tais relações se
desdobram e são reguladas. É sabido que a sociedade e fatores externos às relações
familiares exercem uma influência significativa sobre elas, sendo fundamental
compreender como as novas formas de interação podem contribuir ou prejudicar essa
regulação.
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Claude Lévi-Strauss (1955), importante pesquisador nos estudos de mitos,
explica que nas narrativas dos mitos existem elementos que permanecem
consistentes, independentemente dos diferentes contextos socioculturais. Sempre há
repetições de certos padrões, o que possibilita o uso dos mitos como uma forma de
exemplificar e explicar sintomas sociais. (Winograd, 2012)
Dessa forma, após entender o mito de Édipo e como o complexo de Édipo
explica o desenvolvimento infantil na primeira infância, é importante compreender que
cada fase do desenvolvimento, assim como cada época, possui um mito considerado
fundador. Na contemporaneidade, podemos compreender a realidade através do mito
de Narciso.
O mito de Narciso tem várias versões, sendo uma das mais conhecidas a
versão literária encontrada em "As Metamorfoses" (entre 756 e 762 d.C.) de Ovídio,
provavelmente uma das narrativas mais relevantes sobre a própria imagem. Narciso,
descrito como belo e admirado desde a infância, não correspondia ao amor que lhe
era direcionado. Segundo o mito, uma ninfa chamada Eco o amava, mas Narciso,
devido ao seu grande ego e arrogância, não a correspondia, levando-a à
desesperança. Eco, sofrendo uma dor insuportável, se retirou para uma caverna e
tornou-se uma voz que repetia as últimas palavras que ouvia. Narciso, por sua vez,
foi condenado por Nêmesis, a deusa da justiça, a amar sua própria imagem e, por
isso, perecer. Um dia, ao passear próximo a um lago, Narciso viu sua imagem refletida
nas águas, ficando cativado por sua beleza e tentando alcançá-la, acabou caindo no
lago e morrendo. No local onde Narciso viu sua imagem refletida e mergulhou,
Nêmesis fez nascer uma flor que denominou: Narciso. (Ovidio, Metamorfoses, in
Carvalho, 2010)
O conceito de narcisismo é um dos pilares da teoria psicanalítica, cuja
construção foi demonstrada ao longo de vários textos de Freud, sendo seu principal
avanço apresentado em "Totem e Tabu" (1913). Nessa obra, ao contrário das ideias
sugeridas anteriormente, o autor afirma que o narcisismo não é um estágio
passageiro, mas sim uma estrutura permanente, que continua se reestruturando ao
longo da vida do sujeito indivíduo. (Roudinesco, Plon, 1998)
O termo "narcisismo" já era utilizado por contemporâneos de Freud; como
psicólogo francês Alfred Binet (1857-1911) e Havelock Ellis, que em 1898 o utilizou
para designar um comportamento perverso relacionado ao mito de narciso, portanto,
o autor não o cunhou, mas o trabalhou de maneiras distintas dos autores anteriores.
É importante diferenciar o termo "narcisismo" utilizado por outras áreas do
conhecimento e até mesmo pela psiquiatria, que o considera uma forma de patologia,
da abordagem da psicanálise, em que o narcisismo é considerado necessário para a
constituição do Eu. (Roudinesco, Plon, 1998)
Parafraseando Elisabeth Roudinesco e Michel Plon em seu Dicionário de
Psicanálise (1998,1244): “a observação dos delírios de grandeza no psicótico levou
Freud a definir o narcisismo como a atitude resultante da transferência, para o Eu do
sujeito, dos investimentos libidinais anteriormente direcionados aos objetos do mundo
externo”. Sendo, por tanto, o narcisismo uma etapa necessária para que possamos
estabelecer laco com o outro, fase essa que se situa entre o autoerotismo e o amor
objetal.
Em "Sobre o Narcisismo: uma Introdução" (1914), Freud descreve o narcisismo
como uma fase inicial do desenvolvimento na qual o indivíduo investe sua libido em si
mesmo, ao invés de direcioná-la a objetos externos. Nessa fase, o sujeito experimenta
um amor primário por si mesmo, identificando-se com suas próprias qualidades e
atributos. (Freud, 1914/1990)
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Além disso, o autor caracteriza o narcisismo em sua forma secundária, na qual
o indivíduo direciona sua libido para objetos externos que são extensões de si mesmo,
como parceiros românticos ou causas idealizadas. Essa forma de narcisismo
desempenha um papel importante na formação de relacionamentos íntimos e na
busca por realizações pessoais. (Freud, 1914/1990)
Observa-se que, diferentemente da forma com a qual o narcisismo vem sendo
retratado na atualidade, qual seja: como uma patologia e característica ruim, Freud o
descreve como uma parte normal do desenvolvimento humano, sendo seu
atravessamento saudável e necessário para a formação de relacionamentos
interpessoais saudáveis, bem como, para a capacidade de amar e de se diferenciar
dos outros. Desafiando assim a visão contemporânea, que, muitas vezes, o associa
unicamente a aspectos patológicos. (Freud, 1914/1990)
Destaca-se que o autor reconhece, no entanto, que o narcisismo pode assumir
formas patológicas, quando aparece de forma excessiva ou quando representa a
incapacidade de estabelecer conexões emocionais significativas com os outros.
Sendo assim, pode-se concluir que, para Freud, o narcisismo representa uma
fase normal do desenvolvimento psíquico e uma característica necessária para a
estrutura psíquica, implicações importantes na compreensão da personalidade e dos
relacionamentos humanos.
Diante do exposto, é importante considerar que, na atualidade, a saída do
Complexo de Édipo e, consequentemente, o narcisismo investido em uma criança
estão intrinsecamente ligados à relação com o "outro" online e à quantidade de likes.
Portanto, torna-se necessário entender como essas dinâmicas digitais influenciam a
formação da subjetividade e das relações interpessoais, bem como os registros e
implicações dessa dinâmica para pais e crianças.
Compreender essas interações digitais é crucial para avaliar como elas moldam
as expectativas, autoestima e desenvolvimento emocional das crianças, além de
orientar os pais sobre os impactos dessas novas formas de socialização na construção
da identidade de seus filhos.
3 PROCEDIMENTOS METODOLÓGICOS
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expressões, brechas, palavras ou outros elementos que sirvam como forma de
desconstruir e reconstruir o tema estudado, produzindo uma nova verdade sobre ele.
(Tavares e Hashimoto, 2013).
Os autores Tavares e Hashimoto (2013) definem a pesquisa em psicanálise em
um sentido amplo como um conjunto de atividades voltadas para a produção de
conhecimentos que podem manter relações diversas com a psicanálise propriamente
dita. Às vezes, aplicam as teorias psicanalíticas como forma de reflexões
epistemológicas; outras vezes, essas teorias são mobilizadas como movimento de
investigação e compreensão de várias manifestações da cultura.
Além disso, a análise deste artigo é guiada pela psicanálise extramuros, um
conceito desenvolvido por Laplanche (1987). De acordo com Mezan (1985), a
psicanálise extramuros consiste em aplicar o método psicanalítico fora do contexto
clínico, ressalta o autor que, embora Freud nunca tenha formalizado esse conceito,
ele esteve implícito ao longo de sua obra e carreira. Freud não se restringiu a analisar
apenas seus pacientes, mas também investigou obras de arte, cultura e fenômenos
sociais.
Segundo Mezan (1985), o desejo de Freud de que a psicanálise como ciência
ultrapassasse os limites do consultório era evidente em textos como "O Moisés de
Michelangelo" (1914), "A Interpretação dos Sonhos" (1900) e "Delírios e Sonhos na
Gradiva de Jensen" (1907). Nessas obras, Freud investigava questões relacionadas
ao ser humano e à cultura, utilizando-se de clássicos e obras de arte. Dessa forma,
ele inaugurou a utilização da psicanálise extramuros.
A análise deste artigo, fundamentada na psicanálise extramuros, busca
entender a exposição de crianças nas mídias por meio de expressões culturais
disponíveis em perfis virtuais, bem como em perfis de streaming de música e
podcasts.
Utilizando o método psicanalítico fora do contexto clínico e ancorado nas
teorias de Sigmund Freud, bem como nos escritos de autores contemporâneos que
buscam compreender a psicanálise em suas expressões na atualidade, o estudo
examina como as representações culturais nessas plataformas refletem e influenciam
a percepção e o comportamento de crianças e adultos.
A análise será conduzida com base em perfis do Instagram, considerando a
forma de uso do aplicativo, que, conforme mencionado anteriormente, se caracteriza
por narrativas criadas principalmente através de imagens e textos curtos. Os perfis
selecionados para análise documentam as trajetórias de crianças de zero a onze
anos, estando, portanto, sujeitos às escolhas dos pais sobre o que deve ser exposto
ou não. A análise incluirá perfis de duas meninas e dois meninos, permitindo uma
comparação mais abrangente das diferentes experiências e impactos.
Posteriormente, para compreender os impactos da exposição midiática na vida
dessas crianças, a pesquisa considerará as opiniões de pais, especialistas e adultos
que foram expostos na mídia durante a infância. A análise será enriquecida com a
utilização de podcasts disponíveis no Spotify, que incluem entrevistas com
especialistas, além de uma entrevista com a mãe de uma das crianças cujos perfis
foram analisados.
Além disso, serão utilizadas reportagens que retratam adultos que foram
expostos nas mídias durante a infância e que, atualmente, exigem que o material seja
retirado de circulação, responsabilizando seus pais por uma exposição considerada
indevida. Essas reportagens fornecerão um contexto adicional sobre as
consequências a longo prazo da exposição midiática infantil e as possíveis
repercussões emocionais envolvidas.
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Através dessa perspectiva, almeja-se compreender os reflexos da relação entre
pais e filhos em um mundo imerso nas redes sociais, além de entender os rastros que
essa interação deixará. Ademais, o estudo busca identificar saídas e alternativas
possíveis para conciliar o progresso tecnológico com a promoção de infâncias
saudáveis, sem cair em idealizações do passado.
Nascida em Londres e sem frequentar a creche até os dois anos de idade, Alice
Secco tornou-se uma sensação nas redes sociais, notadamente no Instagram, após
sua mãe compartilhar vídeos nos quais a criança, em tenra idade, demonstrava uma
notável capacidade linguística. A sua precoce habilidade em pronunciar palavras de
complexidade léxica, como "proparoxítona" e "estapafúrdio", rapidamente chamou a
atenção do público.
O reconhecimento de Alice na internet foi amplificado quando ela foi convidada
a protagonizar uma campanha publicitária do banco Itaú em 2022, ao lado de outras
figuras proeminentes da mídia brasileira. Neste contexto, ela teve a oportunidade de
interagir com a renomada atriz Fernanda Montenegro, célebre por seu prestígio no
cenário artístico nacional, mas também por sua competência linguística.
Em 2023, Alice Secco e Fernanda Montenegro retornaram à campanha do
banco, ocasião em que Fernanda Montenegro fez uma referência ao perfil de
Instagram da mãe de Alice, Morgana Secco, onde os vídeos da menina são
compartilhados. Ao questionar Alice sobre outras palavras significativas, como
"humanidade", "bondade" e "esperança", a atriz fez alusão à maneira como Morgana
interage com sua filha no referido perfil, onde inicia os vídeos com a expressão "vamos
falar as palavras?". Durante essa interação, Fernanda Montenegro pergunta a Alice:
“Mas e as outras palavras?”.
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Após o reconhecimento de Alice, tanto na plataforma Instagram quanto na
propaganda, ela foi convidada para apresentar um programa na TV Globo intitulado
"Pequenos Gênios". No programa, Alice realiza as aberturas e fornece comentários
ao longo das provas, onde outras crianças demonstram suas habilidades em diversos
temas. Um aspecto interessante é que nos vídeos do quadro, que faz parte do
programa Domingão do Hulk, Alice é apresentada em sua própria casa, criando uma
atmosfera semelhante à dos vídeos compartilhados em seu perfil do Instagram.
Pode-se observar que Alice desempenha um papel de criança idealizada e
privilegiada, sendo branca, loira, de olhos azuis e, possivelmente, dotada de altas
habilidades, como sugerido pelo programa que ela foi convidada a apresentar,
intitulado "Pequenos Gênios". Essa idealização é reforçada pela forma como Alice é
retratada, destacando características que culturalmente são associadas a uma
imagem de perfeição e sucesso.
É relevante destacar que, ao responder à atriz Fernanda Montenegro na
propaganda do Banco Itaú, Alice pareceu demonstrar uma compreensão da
relevância dos valores discutidos, ao afirmar de forma assertiva: "sem respeito, eles
não existem". No entanto, é crucial considerar que, devido à sua pouca idade, Alice
ainda está em uma fase inicial de desenvolvimento cognitivo, o que pode influenciar
sua capacidade de compreender e atribuir significados a palavras e conceitos
complexos.
A situação apresentada suscita várias questões. A idealização de Alice pode
refletir as projeções dos adultos ao seu redor, que a veem como a personificação de
qualidades desejáveis e um objeto de admiração pública, sendo importante ressaltar
que o investimento narcísico e a idealização dos pais na criança em questão são
compreensíveis e podem proporcionar reconhecimento e oportunidades. Freud
(1914/1990, p.88), argumenta que “o comovedor amor parental, no fundo tão infantil,
não é outra coisa que o narcisismo ressuscitado dos pais que, em sua transmutação
ao amor de objeto, revela sua primitiva natureza”
No entanto, esse mesmo investimento, quando realizado de forma pública e
desmedida, pode impor expectativas e pressões consideráveis sobre a criança. Além
disso, a resposta de Alice na propaganda pode ser vista como uma internalização de
valores que ela ainda não compreende plenamente, mas que são apresentados a ela
como ideais a serem seguidos. Ilustrando como crianças podem reproduzir discursos
e comportamentos valorizados pelos adultos, mesmo sem uma compreensão
profunda deles, podendo levar a uma formação superficial de conceitos éticos e
morais.
Por outro lado, a constante exposição de Alice como uma criança idealizada,
um “pequeno gênio”, gera nos demais pais, sentimentos de inadequação em relação
ao desenvolvimento de seus próprios filhos, podendo levar a busca por maneiras de
acelerar o progresso infantil. Dinâmica essa que evidencia a complexidade das
relações interpessoais e a influência da imagem idealizada na formação das
expectativas parentais e no comportamento subsequente.
Nesse sentido, a exposição precoce das crianças nas mídias acarreta uma
complexa dinâmica psíquica em sua constituição. Elas são constantemente
submetidas às interações com os pais, no lugar de outro que as constituem, bem como
com uma miríade de outros, considerando que possuem milhões de seguidores,
muitos dos quais são desconhecidos, tanto para elas quanto para seus pais.
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4.2 ESPELHO, ESPELHO MEU: NO INSTAGRAM, QUEM SOU EU?
Maria Júlia Teófilo, conhecida nas redes como Juju Teófilo, ganhou destaque
aos dois anos de idade durante uma visita aos parques da Disney, quando, em um
restaurante em Orlando, Flórida, expressou o desejo de comer cuscuz. Os pais de
Maria Júlia compartilharam o vídeo nas redes sociais, e rapidamente ele se espalhou,
tornando-se notícia, principalmente no estado da criança, Ceará.
Durante o período da pandemia de COVID-19, Juju passou a ganhar destaque
ao compartilhar vídeos que mostravam suas dificuldades durante o isolamento. Em
suas gravações, ela expressava o desejo de ir à praia ou à piscina, ao mesmo tempo
em que reconhecia a importância de permanecer em casa e participava ativamente
de campanhas de conscientização sobre a prevenção da doença.
Atualmente, o perfil de Juju Teófilo satiriza situações da vida de mulheres
adultas de forma caricata, abordando temas como empreendedorismo e as
dificuldades de manter dietas. As postagens de Juju geralmente iniciam com a
expressão "mulher", como se estivesse anunciando uma notícia.
Recentemente, aos oito anos de idade, Juju estrelou uma parceria com o banco
Bradesco e anunciou sua participação em uma novela do SBT. Durante essa
oportunidade, ela enfatizou que continuará ativa nas redes sociais.
Kael Sturne, de cinco anos, por sua vez, tem postagens em suas redes sociais
desde o primeiro ano de idade. Morador da zona norte do Rio de Janeiro, Kael conta
com um milhão de seguidores em seu Instagram, onde compartilha vídeos de comédia
relacionados ao seu peso e hábitos alimentares. Além disso, ele aparece interagindo
com outros moradores do bairro e participando de publicidades. Segundo seus pais,
Kael deseja seguir na carreira artística e vem desenvolvendo seus talentos através de
parcerias musicais. Recentemente, o nome de Kael ganhou ampla visibilidade na
mídia devido ao seu agenciamento por Marlene Mattos, ex-diretora da apresentadora
Xuxa.
A análise dos casos de Juju Teofilo e Kael Sturne levanta reflexões importantes,
especialmente no que diz respeito à imitação de comportamentos adultos e questões
relacionadas à imagem corporal e padrões estéticos. Ambos os perfis mostram
situações em que as crianças reproduzem comportamentos de adultos, como dietas
e restrições alimentares, enquanto fazem referência aos seus próprios corpos como
inadequados e fora dos padrões estéticos impostos pela sociedade. Essa imitação
precoce de comportamentos adultos pode ter impactos significativos no
desenvolvimento psicológico e emocional das crianças, além de contribuir para a
perpetuação de ideais inatingíveis de beleza e perfeição.
Freud (1914/1990), afirma que o outro, na sua função narcisante, investe no
eu, colocando-o no lugar idealizado, o que, através de um jogo especular, possibilita
a percepção do seu próprio corpo, dessa forma, sem a interferência desse outro não
haveria reconhecimento e nem idealização do eu. Além das contribuições de Freud,
essa questão, foi também aprofundada pela perspectiva lacaniana, que afirma que a
transição do autoerotismo, presente em crianças pequenas, para o narcisismo, ocorre
através da identificação.
Essa elaboração está ancorada no texto freudiano "Luto e Melancolia"
(1917/1990), onde Freud sugere que, nas relações narcísicas, a identificação toma o
lugar do amor objetal. Para Lacan (1949/1988, p.87), essa identificação, pode-se
chamar de estádio de espelho, “a transformação produzida num sujeito quando
assume uma imagem, cuja predestinação a este efeito de fase está suficientemente
indicada pelo uso, na teoria, do termo antigo imago”.
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Em seu seminário “Os Quatro Conceitos Fundamentais da Psicanálise”
(1964/1999), Jacques Lacan explora a importância do estágio do espelho no
desenvolvimento psíquico da criança. O autor destaca a relevância do "outro" que
carrega o bebê ao mostrar o reflexo da criança no espelho. Esse "outro" desempenha
um papel crucial, pois a criança busca o olhar dessa figura, frequentemente um dos
genitores, que serve como sua primeira referência.
Lacan argumenta que a criança, ao se ver no espelho, não está vendo seu
"ideal de eu" (a imagem perfeita de si que gostaria de alcançar, para alcançar o próprio
desejo, com quem se identifica), mas sim seu "eu ideal" (uma representação narcisista
de si mesma, como objeto, um ponto a partir do qual ela se sente amada e
reconhecida). Este "eu ideal" é um reflexo que a criança adota como uma forma de
identidade primordial, mediada pelo olhar do "outro" que a sustenta e valida.
(Lacan,1964)
Por tanto, ao serem submetidos aos olhares desses Outros, relatando seus
corpos como inadequados, e sujeitos a aprovação desses, no lugar de expectadores-
seguidores, elas constroem sua subjetividade a partir desse sentimento de
inadequação, buscando, em contrapartida, reconhecimento por meio dessa
característica. Podendo levar a uma relação disfuncional com a alimentação e a
imagem corporal, bem como à negação de mudanças físicas que se afastem dos
padrões pelos quais eram anteriormente reconhecidas.
Catherine Dolto (2000), no prólogo do livro de sua mãe, Françoise Dolto,
"Infâncias", descreve a família de seu pai, que ela não conhecia, da seguinte forma:
(...) outra, poderosa por sua ausência e pela forte carga imaginaria que
transmitiu. Era algo ligado ao mais íntimo de nós. Esse avos, tios e tias, cujos
rostos examinávamos nas fotos, eram indutivamente nossa família.
Falávamos pouco deles, era muito próximos, mais ao mesmo tempo,
sabíamos que nunca os veríamos (p.09/10)
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4.3 DO RISO A REFLEXÃO: QUANDO A BRINCADEIRA SE DESGASTA, MAS O
ENGAJAMENTO PERSISTE
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Situações como as descritas, onde as crianças são colocadas em
circunstâncias inesperadas e têm suas reações expostas, geram inseguranças
significativas, podendo essas experiências quebrar o elo de confiança entre as
crianças e seus pais, que ao surpreendê-las e expô-las a situações de vulnerabilidade,
agem em benefício próprio.
O desconhecimento do outro, nesse contexto, torna-se uma ferramenta
poderosa, quando uma pessoa ou uma entidade se aproveita da falta de informação
ou do desconhecimento do outro, está, na verdade, exercendo uma forma de violência
simbólica. Este laço perverso se manifesta quando a comunicação, em vez de
promover entendimento e respeito mútuo, é usada para dominar, explorar ou
manipular. Destaca-se ainda, que por sua tenra idade, as crianças em questão, não
possui capacidade de reconhecer e, consequentemente, de questionar essas
dinâmicas.
Necessário, refletir, que todos os adultos já foram uma criança, como reflete
Arnaldo Antunes (2004) na música, Saiba:
Saiba: todo mundo foi neném, Einstein, Freud e Platão também. Hitler, Bush
e Sadam Hussein, quem tem grana e quem não tem. Saiba: todo mundo teve
infância. Maomé já foi criança, Arquimedes, Buda, Galileu e, também, você e
eu.
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consentimento das crianças. Ela reconhece que erros podem decorrer dessas
escolhas, mas ressalta que são um aspecto necessário e enriquecedor do exercício
da parentalidade. No entanto, destaca, que a partir do momento que as crianças
conseguem fazer escolhas, devem ser inseridas nesse processo e respeitadas.
Mesmo que resulte, como no caso da austríaca, no apagamento de todas as
informações compartilhadas.
Dessa forma, a partir dos perfis selecionados e por meio das teorias freudianas,
compreende-se que há um investimento narcísico dos pais nas crianças expostas,
realizando seus desejos e vontade através delas. Destaca-se que os perfis em
questão são centrados nas crianças e em suas narrativas, porém, notadamente
mediadas por um adulto. Além disso, percebe-se uma idealização dessas crianças e
a notória monetização de suas aparições.
Inegáveis são as marcas que as exposições infantis geram nas infâncias
espetacularizadas. Os perfis analisados representam apenas uma pequena ilustração
de milhares de outros perfis infantis, que se apresentam de forma similar e, na maioria
dos casos, com menos recursos do que os analisados.
Para concluir, podemos refletir brevemente sobre adultos que tiveram suas
vidas expostas ao público e atualmente optam por não expor seus filhos. É o caso da
brasileira Sandy, que teve grande parte da infância e vida adulta exibidas na televisão
aberta, e das irmãs Kardashian, americanas cujo cotidiano foi exposto no seriado
familiar "Keeping Up With the Kardashians".
Assim, percebe-se que a exposição não é isenta de rastros e consequências.
Aqueles que já vivenciaram essa experiência muitas vezes optam por não expor seus
filhos. No entanto, isso não significa que essas crianças, quando crescerem e
puderem fazer suas próprias escolhas, não possam optar por se tornar pessoas
públicas, assim como seus pais.
5 CONSIDERAÇÕES FINAIS
É crucial ressaltar que este artigo não busca estabelecer verdades absolutas
nem impor regras rígidas no âmbito da parentalidade, mas sim fornecer uma análise
reflexiva sobre a contemporaneidade e as possíveis direções que podem ser tomadas,
reconhecendo que estamos todos imersos no mundo digital e ainda em processo de
compreensão de seus impactos, por tanto, sem respostas definitivas.
Além disso, é necessário salientar que não se almeja endossar discursos que
culpabilizem os pais, particularmente as mães, cujo impacto poderia exacerbar ainda
mais a carga emocional e operacional relacionada à maternidade. Discursos esses
que tendem a minar a legitimidade dos pais no contexto da criação de seus filhos.
Acredita-se, portanto, na valorização do conhecimento individual dos pais e
mães sobre seus filhos, um conhecimento que não pode ser substituído por tutoriais
online ou conhecimentos científicos. No entanto, reconhece-se que esses recursos
podem servir como complemento e aprimoramento desse entendimento preexistente,
fomentando reflexões profundas e possibilitando novas saídas para a questão.
É importante refletir que estamos todos inseridos em um mundo com leis,
regras, direitos e deveres, e que nesse mundo incluímos as crianças, à medida que
elas têm capacidade para tanto. Contudo, a internet faz um paralelo com o mundo das
regras, sendo muitas vezes vista como uma “terra sem lei”, o que permitia, em certa
medida, excessos por parte dos pais.
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Observa-se, nesse sentido, uma crescente mudança à medida que são criadas
legislações que também alcançam o mundo on-line, como forma de proteger aqueles
que nele estão imersos. As leis criadas para proteger os usuários, sejam crianças ou
adultos, confirmam os perigos da internet. Nessa seara, foram criados o Marco Civil
da Internet, em 2014, buscando definir princípios éticos para o uso da internet, e a Lei
Geral de Proteção de Dados (LGPD), que visa proteger os dados dos internautas e
coibir crises cibernéticas. Contudo, ainda serão necessárias muitas iniciativas nesse
sentido para que essa proteção seja efetiva.
Portanto, compreendendo que o mundo caminha na direção de entender os
perigos da internet, principalmente das redes sociais, e buscando, através de normas,
diminuir os danos e prejuízos por elas causados, é necessário refletir sobre as
crianças que são expostas às telas, sem esquecer das crianças expostas nas telas,
por meio de seus responsáveis e dos efeitos que essa exposição pode acarretar.
Sendo assim, é essencial que se discutam esses danos.
Conclui-se, portanto, que é necessário manter as crianças longe das telas,
especialmente aquelas que ainda não têm capacidade de manipular esses
dispositivos e são expostas por meio de seus genitores. Proteger e cuidar da infância
sempre foi um dever coletivo. Enquanto as redes não são devidamente
regulamentadas, é fundamental que esse pacto de proteção às infâncias seja
acordado e cumprido pelos adultos.
REFERÊNCIAS
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AZEVEDO, Ana Vicentini de. Mito e psicanálise. Rio de Janeiro: Zahar, 2004.
DOLTO, Françoise. Infâncias. 1. ed. Buenos Aires: Los Libros del Zorzal, 2023. 160
p. ISBN 9788419196903.
FREUD, Sigmund. Totem e Tabu. In: FREUD, Sigmund. Edição standard brasileira
das obras psicológicas completas de Sigmund Freud. Vol. 13. Rio de Janeiro:
Imago, 1990.
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FREUD, Sigmund. Luto e Melancolia. In: Luto e Melancolia. Edição Standard
Brasileira das Obras Completas de Sigmund Freud. Rio de Janeiro: Imago, 1996.
v. XIV, p. 245-262.
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