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Jogo de Tabuleiro para Ensino de Mineralogia

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Kaio Nunes
Direitos autorais
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Relatos de Sala de Aula [Link]

20160242

Um jogo de tabuleiro envolvendo conceitos de


mineralogia no Ensino de Química

Edemar Benedetti Filho, Alexandre D. M. Cavagis, Karen O. dos Santos e Luzia P. dos S. Benedetti

Este trabalho descreve o desenvolvimento e aplicação do jogo de tabuleiro “Minerais”, visando ao ensino
de conceitos de mineralogia no Ensino Médio. Uma vez concluída a concepção artística, a montagem das
peças e tabuleiros, e a definição das regras, o jogo foi submetido a uma equipe de estudantes de licenciatura
em Química, a fim de avaliar seu potencial pedagógico, bem como sua ludicidade, dinâmica e jogabilidade.
Subsequentemente, o jogo foi apresentado a alunos de Ensino Médio de uma escola pública estadual para
analisar sua aplicabilidade e efetividade no ensino de conceitos geralmente inexplorados nesse nível esco-
lar. Os resultados mostraram uma excelente aceitação do jogo pelos alunos, bem como sua contribuição na
aprendizagem de conceitos sobre um tema importante e muito pouco explorado na Educação Básica. Além
disso, o trabalho envolveu estudantes de licenciatura em Química, que tiveram a oportunidade de vivenciar
a elaboração e aplicação de uma ferramenta lúdica de ensino. 167
ensino de química, mineralogia, jogo de tabuleiro

Recebido em 15/05/2020, aceito em 20/08/2020

N
as últimas décadas, a humanidade tem passado por no processo de ensino e aprendizagem e na incorporação das
significativas transformações sociais, sobretudo novas tecnologias como aliadas à práxis docente.
relacionadas ao acesso à informação e à comunica- Nesse contexto, encontra-se também o Ensino de
ção. As novas tecnologias mudaram e continuam alterando Química, que vem passando constantemente por evoluções
a nossa percepção de mundo e o e diversas modificações em suas
nosso comportamento, amplian- metodologias, sobretudo no sen-
Na Educação, porém, os dispositivos
do as possibilidades de acesso tido de aprimorar o processo de
eletrônicos têm se mostrado como uma
ao conhecimento. Na Educação, forte concorrência às aulas, uma vez que ensino e aprendizagem, visando
porém, os dispositivos eletrônicos os alunos se sentem muito mais atraídos a tornar conteúdos pedagógicos
têm se mostrado como uma forte pelas telas dos smartphones do que pela mais prazerosos aos alunos. Nessa
concorrência às aulas, uma vez exposição de conteúdos pedagógicos em perspectiva, destaca-se o emprego
que os alunos se sentem muito sala de aula, normalmente realizada por de atividades lúdicas, para tornar
mais atraídos pelas telas dos meio de uma abordagem tradicional de o aprendizado mais dinâmico e
smartphones do que pela expo- ensino. descontraído, trazendo metodo-
sição de conteúdos pedagógicos logias alternativas que permitem
em sala de aula, normalmente aos alunos “aprender brincando”.
realizada por meio de uma abordagem tradicional de ensino. Existem diversos estudos recentes que ressaltam a impor-
Dessa forma, alguns educadores vêm resistindo às mudanças, tância do uso de jogos didáticos relacionados ao Ensino de
inevitáveis e necessárias, na metodologia tradicional, as Química (Larson et al., 2012; Franco, 2012; Jones et al.,
quais, em tempos atuais, são essenciais ao acompanhamento 2012; Mariscal et al., 2012; Kavak, 2012a; Kavak, 2012b;
dessa nova perspectiva de sociedade, dificultando avanços Antunes et al., 2012; Büdy, 2012; Silva et al., 2015; Oliveira
et al., 2015; Benedetti-Filho et al., 2017; Felício, 2018;
A seção “Relatos de Sala de Aula” socializa experiências e construções vivenciadas Amaral et al., 2018).
nas aulas de Química ou a elas relacionadas. A utilização de jogos didáticos, tanto na educação básica
Este é um artigo de acesso aberto distribuído sob os Quím. nova esc. – São Paulo-SP, BR
termos da Licença de Atribuição Creative Commons Vol. 43, N° 2, p. 167-175, MAIO 2021
quanto em nível superior, pode ser um diferencial na ten- pelos componentes curriculares. Dessa forma, os professores
tativa de despertar a atenção dos discentes para atividades precisam estar cada vez mais preparados para enfrentar tais
acadêmicas diferenciadas e atraentes, sobretudo no caso desafios e saber planejar e utilizar ferramentas alternativas
de estudantes de licenciatura, que também poderão esten- de ensino como aliados à aprendizagem, propiciando que
der tais metodologias para seus futuros alunos no Ensino os alunos sejam partícipes ativos e críticos, dentro e fora do
Fundamental II e Médio. universo escolar, na construção do próprio conhecimento, por
A Mineralogia estuda a composição química, as proprie- meio de uma aprendizagem mais ativa. Segundo Leite (2020,
dades físicas, a estrutura cristalina, a aparência, estabilidade, p. 148), metodologias ativas empregam “a problematização
ocorrência e associações dos diversos minerais encontrados como estratégia de ensino e aprendizagem, com o objetivo
na Natureza e amplamente implicados no cotidiano da huma- de alcançar e motivar o discente, uma vez que, diante do
nidade. Embora não haja disciplina específica de Mineralogia problema, ele se detém, examina, reflete, relaciona a sua
no Ensino Médio, trata-se de um ramo profundamente história e passa a ressignificar suas descobertas”.
interdisciplinar da Geologia, que envolve diversas áreas do A aprendizagem e o desenvolvimento do indivíduo fazem
conhecimento, incluindo a Química, a Física, a Geografia e parte entre si e a construção do processo de conhecimento é
a Astronomia. Nessa perspectiva, trata-se de um tema rele- decorrente de um relacionamento que envolve o meio objeto
vante, interessante e muito ligado à nossa vida cotidiana. No e o social, situação habitual em que o aluno está inserido.
entanto, é um campo que exige muita memorização, domínio Essa função educativa social faz com que o indivíduo não
de regras e simbologias, sendo estas, geralmente, desco- seja um mero receptor de informações transmitidas pela
nectadas da realidade dos alunos, tanto na educação básica sociedade, mas que lhe seja permitido atuar criticamente
como na graduação, envolvendo uma dinâmica de estudos, no meio social, participando ativamente de suas decisões.
por vezes, maçante, fato que pode implicar desinteresse pelo O ensino tradicional não contribui significativamente para
conteúdo pedagógico, ou mesmo a rejeição por uma parce- atender tal perfil específico de formação, levando os alunos
la significativa dos estudantes. Considerando tal cenário, a um déficit no desenvolvimento de diversas habilidades
é importante que os alunos, independentemente do nível, importantes que contemplam a criticidade sobre conheci-
168 tenham contato com abordagens metodológicas alternativas mentos adquiridos, fator essencial à plena formação cidadã.
de ensino, que possam diminuir a Desse modo, levando-se em con-
rejeição por disciplinas que envol- Embora não haja disciplina específica de
sideração as áreas das Ciências,
vam esse assunto, como é o caso Mineralogia no Ensino Médio, trata-se de conceitos científicos devem ser
da Química. (Benedetti-Filho et um ramo profundamente interdisciplinar abordados de modo a propiciar
al., 2020; Benedetti-Filho et al., da Geologia, que envolve diversas áreas aos educandos a construção de
2017; Eastwood, 2013; Moreira, do conhecimento, incluindo a Química, a relações significativas com sua
2013; Moyano et al., 1982). Física, a Geografia e a Astronomia. realidade social, sobretudo por
Nesse contexto, o presente meio de temáticas interligadas
trabalho propõe uma proposta com sua perspectiva de mundo,
lúdica de ensino envolvendo um jogo de tabuleiro, a fim promovendo um entendimento verdadeiramente crítico dos
de proporcionar uma aprendizagem mais prazerosa aos conceitos abordados.
assuntos relacionados à Mineralogia, no âmbito da discipli- Assim, é primordial que o professor leve à sala de aula
na de Química, mais especificamente na área de Química uma prática pedagógica que possa ser mais atrativa, empre-
Inorgânica. O jogo desenvolvido no presente trabalho pode gando metodologias alternativas que realmente intensifiquem
ser adaptado a diferentes níveis de ensino, sendo possível a conscientização e possam gerar uma melhora substancial
aplicá-lo, por exemplo, em Ciências no Ensino Fundamental no ensino de Ciências, consequentemente melhorando os
II, em Química no Ensino Médio, e em Química Inorgânica índices de avaliação de aprendizagem dos nossos alunos,
ou Mineralogia no Ensino Superior. não somente no âmbito nacional, mas também interna-
cionalmente (Moraes e Torres, 2004). Tais entendimentos
Fundamentação teórica são reforçados no trabalho de Oliveira et al. (2018), que
Atualmente, tanto os eventos científicos quanto as diver- traz uma reflexão acerca do significado da aprendizagem,
sas revistas na área de Ensino relatam as grandes dificuldades segundo a qual não se deve ensinar por ensinar, mas que a
enfrentadas pelos educadores. Naturalmente, muitos se esfor- aprendizagem tenha um real sentido prático aos alunos, de
çam para que suas dinâmicas de aula venham ao encontro dos modo que o conhecimento adquirido seja útil nas diversas
anseios dos alunos, incluindo metodologias alternativas que situações de sua vida cotidiana.
possam contribuir com suas práticas pedagógicas, sempre A utilização de jogos como atividades de aprendizagem
no sentido de estimular os estudantes à aprendizagem. As iniciou-se com os filósofos Platão e Aristóteles, que des-
evoluções tecnológicas têm sido, até certo ponto, inseridas creviam o “aprender brincando” (Kishimoto, 2011, p. 67),
no cotidiano dos alunos, muito embora tais recursos tenham sempre havendo relatos de sua utilização como recurso peda-
se configurado também em grande adversário em sala de gógico na aprendizagem de situações práticas do cotidiano. A
aula, muitas vezes atrapalhando o interesse dos estudantes definição do termo jogo é extensa; contudo, Brougère (1997)

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criou características que podem contribuir para a compreen- metodológicas, e capacitando-se para todas as etapas desse
são de seu significado, podendo variar entre comunidades processo, tendo em vista a melhora no interesse dos alunos
diferentes, muito embora a diversão seja uma característica e o aprimoramento da dinâmica em sala de aula.
principal do jogo (Rezende et al., 2019). Os minerais são substâncias químicas naturais, ge-
O aumento do emprego de atividades lúdicas no ensino ralmente sólidos inorgânicos formados na Natureza, sob
tem levado diversos pesquisadores a estabelecer um melhor condições físico-químicas específicas, caracterizados pelas
equilíbrio entre o lúdico (a diversão) e o educativo (a apren- diversas formas em que os átomos estão distribuídos na
dizagem), visando ao consequente sucesso do jogo didático estrutura interna do material. A composição química varia-
enquanto ferramenta educacional. Os jogos aplicados à da gera diversos grupos de minerais, com as mais diversas
educação foram definidos por Kishimoto (2011) como educa- propriedades químicas (cor, brilho, dureza, densidade, etc.)
tivos ou didáticos. Segundo tal definição, os jogos didáticos e aplicabilidades, fazendo com que esses materiais sejam
são empregados como ferramenta de análise de conteúdos de crucial interesse econômico. O Brasil é rico em recursos
pedagógicos já desenvolvidos em minerais, sendo sua exploração de
sala de aula, os pós-conteudistas. fundamental importância ao PIB
O aumento do emprego de atividades
Os jogos educativos, por sua lúdicas no ensino tem levado diversos
do nosso País.
vez, propiciam que determinados pesquisadores a estabelecer um melhor Samrsla et al. (2007) descre-
conteúdos sejam introduzidos, equilíbrio entre o lúdico (a diversão) e o vem a importância da discussão
levando à aprendizagem de novos educativo (a aprendizagem), visando ao de mineralogia, inserida em uma
conhecimentos. consequente sucesso do jogo didático proposta curricular para o Ensino
Segundo Soares (2004) e enquanto ferramenta educacional. Médio, demonstrando que ati-
Rezende (2017), os jogos educa- vidades experimentais ajudam a
tivos contribuem para um melhor promover o interesse dos alunos
desenvolvimento mental e motor dos educandos, possibili- para os conceitos fundamentais da Química, tais como a
tando-lhes analisar mais criticamente o meio em que estão estrutura da matéria, apoiando o fortalecimento de conceitos
inseridos, e auxiliando-os a compreender, mais claramente, pedagógicos desenvolvidos. 169
a conexão entre os conteúdos didático-pedagógicos e seu Considerando o exposto, o presente trabalho teve como
cotidiano. Além disso, os jogos didático-lúdicos propi- objetivo a concepção, planejamento e desenvolvimento de
ciam uma melhora significativa nas relações interpessoais, um jogo de tabuleiro envolvendo assuntos de Mineralogia,
permitindo estreitar os laços entre os alunos, e deles com com participação de graduandos em licenciatura em
o próprio docente. Os jogos instigam um desafio a ser su- Química, visando à aplicação, em salas de aula do Ensino
perado, e isso acaba levando ao aumento no interesse pelos Médio de uma escola pública, a fim de verificar sua eficácia
temas pedagógicos envolvidos na atividade, uma vez que na aprendizagem de Química.
o conhecimento sobre assuntos acadêmicos relacionados
constitui pré-requisito fundamental para que os jogadores Metodologia
possam avançar no jogo e vencer a partida.
Muitos pesquisadores demonstram que o uso de ativida- Levantamento dos dados
des lúdicas em sala de aula é uma alternativa promissora à Inicialmente, realizou-se uma pesquisa exploratória de-
práxis pedagógica docente (Soares, 2016; Benedetti-Filho talhada, a fim de reunir conhecimentos sobre o tema, antes
e Benedetti, 2015), sendo que tal temática também tem sido mesmo de se tomar qualquer outra atitude no desenvolvi-
objeto importante de pesquisas relacionadas à formação mento do jogo educativo, ou seja, um estudo preliminar.
inicial e continuada de professores, seja nos cursos de licen- Segundo Gil (1995), a pesquisa exploratória:
ciatura em Ciências ou por meio de atividades envolvendo
professores já em exercício. Cumpre lembrar que o profes- tem como principal finalidade desenvolver, es-
sor deve utilizar o jogo didático educativo sem perder de clarecer e modificar conceitos e ideias, com vistas
vista a autonomia do planejamento de conteúdos que serão na formulação de problemas mais precisos ou hi-
abordados em sala de aula, proporcionando uma sinergia póteses pesquisáveis para estudos posteriores [...],
de interesse dos alunos entre o jogo e o conceito científico constituindo, muitas vezes, a primeira etapa de uma
proposto, conforme apontado por Messeder: “o professor investigação mais ampla (Gil, 1995, p. 44).
precisa agir de modo que o jogo vire motivo secundário e,
ao fim do processo, o estudo torne-se atividade, uma vez que A pesquisa foi pautada por meio de uma entrevista se-
o motivo passa a ser o próprio ato de estudar e conhecer a miestruturada, que, segundo Gil (1995), representa “uma
realidade” (Messeder, 2012, p. 53). das técnicas de coleta de dados mais utilizada (...) por
Tal inserção metodológica, em nível acadêmico, tam- pesquisadores que tratam de problemas humanos, (...) não
bém é essencial para que graduandos em licenciatura pos- apenas para coleta de dados, mas também com objetivos
sam vivenciar na prática a eficácia dos jogos educativos, voltados para diagnóstico e orientação [...]” (Gil, 1995,
tornando-se aptos para criar e aplicar novas ferramentas p. 113).

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Figura 1: Imagens dos tabuleiros do jogo: A -Tabuleiro principal; B -Tabuleiro secundário. Fonte: Elaborado pelo autor.

Tratou-se de uma pesquisa semiestruturada, baseada em


um conjunto de perguntas abertas em que houve possibili-
dade de que mais perguntas pudessem surgir, conforme as
respostas eram obtidas, permitindo aprofundamentos dos
dados levantados para análises posteriores. Os objetivos
pedagógicos foram definidos, previamente à aplicação da
atividade, dentro de um planejamento estruturado para a
coleta de dados e, a fim de que a investigação científica
fosse válida, a observação foi dirigida e sistematizada du-
rante toda a aplicação da atividade lúdica. Nesse sentido,
170 determinou-se, inicialmente, “o que” e “como” observar,
definindo bem o foco da investigação, conforme critérios
propostos por Ludke (2013), de modo que o pesquisador
atuasse como sujeito ativo na pesquisa, vinculando o Figura 2: Imagens dos componentes de movimentação da par-
conhecimento prévio construído aos fatos dela extraídos, tida. Fonte: Elaborado pelo autor.
trazendo à tona valores sociais e interesses que norteiam as
observações, sem influências nas respostas dos alunos. As
questões abordadas trataram dos conteúdos pedagógicos
presentes nas cartas-perguntas do jogo, sendo aplicadas
durante todo o desenrolar da partida e após seu término.
A análise da aplicação também foi baseada em uma abor-
dagem qualitativa, fundamentada na descrição, observação
e interpretação, respeitando a forma como os dados foram
registrados (Bogdan e Biklen, 2000).

Elaboração do jogo educativo


O jogo educativo “Minerais” é composto por dois tabu-
leiros, sendo um principal, em formato A3 (Figura 1A), e
um individual, em formato A4 (Figura 1B), além de diversos
marcadores e um conjunto de cartas (Figura 2).
Todas as peças e tabuleiros foram criados utilizando o Figura 3: Imagem panorâmica dos componentes do jogo. Fonte:
software Adobe Illustrator™ e, posteriormente, impressos Elaborado pelo autor.
em papel canson A4, em impressora colorida. O tabuleiro
principal foi impresso em seis partes, coladas em papel holler Regras do jogo
3mm para deixá-lo mais rígido e evitar dobras. Isso também
tornou seu visual mais atraente. As cartas foram impressas, Objetivo do jogo: explorar o maior número de territórios
recortadas e plastificadas, para maior durabilidade, devido ao no tabuleiro.
seu intenso manuseio durante as partidas. A Figura 3 ilustra Os jogadores devem posicionar seus peões no território
uma visão geral do jogo. base do tabuleiro, onde ambos irão começar. Na primeira
Os pdfs para o jogo de tabuleiro estão disponíveis em: rodada, o jogador retira um tazo do respectivo monte e posi-
[Link] ciona-o no tabuleiro, lembrando que, na primeira rodada, ele
M5oAh0F926k9Vnmj?usp=sharing só terá opção de posicionar o tazo em um dos quatro espaços

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localizados ao redor da base em que se encontra, não sendo as regras do jogo são simples e facilitam o entendimento e o
permitido colocar o tazo no meio do tabuleiro, por exemplo. envolvimento dos jogadores, destacando que tal fator propi-
Posteriormente, o jogador arremessa um dado de seis faces, cia uma jogabilidade bastante fluente, garantindo uma ótima
que determina quantas casas ele pode caminhar com seu dinâmica durante as partidas. No que tange a parte pedagó-
peão. Nas primeiras rodadas, os movimentos serão limitados, gica, avaliaram que as perguntas elaboradas para o jogo não
já que não haverá muitos “pedaços de terra” no tabuleiro; possuem um nível de dificuldade demasiadamente alto, sendo
além disso, o jogador precisa usar de estratégia para utilizar claras e objetivas em todas as cartas-perguntas. Embora as
as aberturas dos tazos em seu favor. Depois de movimentar acadêmicas de licenciatura já tivessem algum domínio sobre
o peão, ele “perde energia”por ter caminhado, ocasionando determinados assuntos abordados nas cartas-perguntas, por
a diminuição da “vida” (registrada no tabuleiro 2). já os terem vivenciado em disciplinas da graduação, o jogo
O jogador terá direito de responder a uma questão sor- não deixou de gerar dúvidas na escolha das alternativas
teada nas “cartas-perguntas”. Caso a resposta esteja correta, corretas, proporcionando discussões e fazendo com que as li-
o jogador poderá explorar aquele cenciandas necessitassem resgatar
território, o qual será demarcado determinados conceitos, revendo e
O jogador terá direito de responder a uma
com um cristal. Além disso, cada ampliando seus conhecimentos ao
questão sorteada nas “cartas-perguntas”.
tazo possui cristais ou estalagmi- Caso a resposta esteja correta, o jogador
longo do jogo.
tes desenhadas, de modo que, ao poderá explorar aquele território, o Esse foi também um aspecto
acertar a pergunta, o jogador re- qual será demarcado com um cristal. positivo da atividade lúdica, pois
ceberá uma quantidade de moedas Além disso, cada tazo possui cristais ou reforça a aplicabilidade do jogo
equivalente ao número de cristais estalagmites desenhadas, de modo que, para revisão e aprendizagem de
presentes no tazo. Caso o jogador ao acertar a pergunta, o jogador receberá conceitos de mineralogia na gra-
não acerte a pergunta, ele não uma quantidade de moedas equivalente ao duação, considerando que nem
poderá explorar aquele território número de cristais presentes no tazo. todos os currículos de graduação
e perderá, em “vida”, o equiva- em Química incluem uma disci-
lente ao número de estalagmites plina específica de Mineralogia. A 171
presentes no tazo, sem receber qualquer moeda. Figura 4 ilustra um desses momentos de debate em grupo,
Com o decorrer do jogo, o tabuleiro terá diversos cris- durante a fase de avaliação do jogo, em que as estudantes
tais, demarcando territórios explorados, mas nada impede de licenciatura estão tendo a oportunidade de participar do
um jogador de explorar um território já explorado por seu processo criativo e aplicação de uma metodologia lúdica
adversário. No entanto, os jogadores não podem explorar como ferramenta de ensino. Tal oportunidade, além de rara,
mais de uma vez o mesmo território. Portanto, caso ocorra é também bastante importante na formação em licenciatura,
de o peão ficar localizado em uma área já explorada por ele, pois permite que futuros professores vivenciem a concepção,
para prosseguir, o jogador não terá o direito de retirar uma elaboração e aplicação de uma metodologia diferenciada de
carta, passando a vez para o próximo jogador. As moedas ensino, desenvolvendo conhecimentos, inspirações e inicia-
conquistadas durante as rodadas servem para comprar vida tivas que, certamente, levarão consigo ao longo de toda sua
e pontos. Com uma moeda, o jogador pode comprar dois vida profissional.
“carregamentos de vida”. Além disso, com outra moeda é
também possível comprar dois pontos localizados ao redor
do tabuleiro, lembrando que as compras só podem ser feitas
em suas respectivas jogadas. Vence o jogador que possuir
maior número de territórios explorados. Em caso de empate,
vence quem tiver maior número de pontos.

Resultados

As análises das entrevistas demonstraram diversas contri-


buições da equipe de estudantes de licenciatura em Química,
a qual concluiu que os conteúdos abordados no jogo são
adequados e interessantes para aprendizagem de conceitos
que, normalmente, não são trabalhados no Ensino Médio;
ou, na graduação, para a aprendizagem e revisão de tópicos Figura 4: Momento de discussão, durante avaliação do jogo
em disciplinas como Química Inorgânica ou Mineralogia. “Minerais”, pela equipe de estudantes de licenciatura em Química.
Outra percepção apontada pelas licenciandas foi a ludici- Fonte: Elaborado pelo autor.
dade, também decorrente do fato de o jogo ter um design
bonito e bastante colorido, o que torna as peças e o tabuleiro Após essa avaliação promissora, o jogo foi aplicado a
bastante atrativos visualmente. Além disso, observaram que alunos de 3º ano do Ensino Médio, em uma escola pública

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localizada no interior do Estado de São Paulo, no período Considerar que há muitas juventudes implica
vespertino, após o término das aulas do período matutino, organizar uma escola que acolha as diversidades,
sem obrigatoriedade de presença. promovendo, de modo inten-
Compareceram 10 alunos que cional e permanente, o respei-
Cumpre salientar que, inicialmente, os
receberam, previamente, uma to à pessoa humana e aos seus
alunos demonstraram certo desinteresse
apostila sobre “cristais”, em pelo jogo, conforme se constata em uma direitos. E mais, que garanta
formato PDF, para que a lessem avaliação qualitativa prévia, registrada aos estudantes ser protagonis-
antes da atividade. Em seguida, em diário de campo. Contudo, com o tas de seu próprio processo de
os alunos foram divididos em duas desenrolar das partidas e compreensão das escolarização, reconhecendo-
equipes: A e B. regras, eles passaram a se envolver cada -os como interlocutores legíti-
Cumpre salientar que, inicial- vez mais e, em pouco tempo, o grupo mos sobre currículo, ensino e
mente, os alunos demonstraram inteiro manifestou interesse em jogar. aprendizagem. Significa, nesse
certo desinteresse pelo jogo, sentido, assegurar-lhes uma
conforme se constata em uma formação que, em sintonia
avaliação qualitativa prévia, registrada em diário de campo. com seus percursos e histórias, permita-lhes definir
Contudo, com o desenrolar das partidas e compreensão das seu projeto de vida, tanto no que diz respeito ao es-
regras, eles passaram a se envolver cada vez mais e, em tudo e ao trabalho como também no que concerne às
pouco tempo, o grupo inteiro manifestou interesse em jogar. escolhas de estilos de vida saudáveis, sustentáveis e
A Figura 5 ilustra o momento de início de uma das partidas, éticos (Brasil, 2018, p. 463).
orientada por uma acadêmica de licenciatura em Química,
na qual também se observam os estudantes de Ensino Médio Observações registradas em diário de campo apontaram
participando da atividade lúdica. um crescente índice de acerto nas perguntas das cartas no
decorrer do jogo, atribuindo-se tal constatação ao aumento
no diálogo entre os membros da equipe, conforme as partidas
172 se desenrolavam, revelando uma confiança progressiva dos
alunos em expor suas ideias na formulação das respostas.
Nessa perspectiva, a atividade lúdica auxilia para que eles
possam se descontrair e, com menos receio ou constrangi-
mento, explorar melhor seus próprios argumentos, baseados
em seus conhecimentos e experiências prévias em relação
aos assuntos abordados, conforme a própria indicação de
Cavalcanti (2011), que corrobora os resultados encontrados:

ao participarem de uma atividade lúdica, seja qual


for, os alunos, livres de pressões, preconceitos e medo
de se envergonhar, dão o máximo de si para ganhar
ou se destacar durante a atividade. Essa prerrogativa
faz com que o ludismo, utilizado pelo professor e pelos
Figura 5: Estudantes do Ensino Médio recebendo orientações
de uma acadêmica de licenciatura em Química, pouco antes do alunos, seja uma ferramenta interessante para tra-
início de uma das partidas do jogo “Minerais”. Fonte: Elaborado balhar conceitos que necessitam da participação dos
pelo autor. alunos, que requeiram discussões e até mesmo que
exijam cálculos matemáticos ou desenvolvimento de
Ao longo da partida, os alunos foram se empenhando cada fórmulas e reações químicas (Cavalcanti, 2011, p. 93).
vez mais em superar a equipe adversária, sendo evidente o
aumento das discussões em grupo para se chegar à melhor Durante a partida, conforme as respostas eram formu-
resposta para as questões sorteadas no jogo. Observou-se um ladas, a acadêmica de licenciatura realizava intervenções,
maior índice de acertos para as respostas relacionadas a con- mediando as discussões em grupo para reforçar a compre-
teúdos presentes na apostila fornecida, fato que demonstra a ensão dos conceitos, sendo que a liberdade nos diálogos
efetividade da leitura prévia pelos alunos, o que gera ganho demonstrou ser fator importante na revisão dos assuntos
de conhecimentos sem a necessidade de que o conteúdo e, principalmente, para esclarecer os novos conceitos que
seja diagramado ou esquematizado no quadro negro, por permeavam cada partida. Segundo Ionashiro e Mesquita
exemplo, reiterando a importância da leitura própria, con- (2019), a leitura, a discussão e o raciocínio empregado
forme previsto pela BNCC (2018), no sentido de estimular pelos alunos são preponderantes para uma aprendizagem
os alunos a enxergarem sua própria independência, enquanto de novos conceitos:
partícipes efetivos de seu processo de formação:
a leitura que fazemos dessa liberdade proporcio-

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nada pelo jogo é que o aluno pode se expor mais, jogo atinge seus objetivos no que diz respeito à ludicidade
sem medo de errar ou ser rechaçado pela turma ou e jogabilidade, características fundamentais para atingir os
professor; a partir disso, ele fala mais, pergunta mais objetivos pedagógicos quando se propõe uma atividade lú-
e consegue construir argumentações pertinentes à dica: “O jogo prende a atenção e é divertido, não é um jogo
abordagem do conteúdo em questão (Ionashiro e chato. O jogo é bem estratégico e desperta a competição”
Mesquita, 2019, p. 85). (Aluno E).
A Figura 6 ilustra outro momento da partida, em que os
Nesse sentido, embora os alunos deparassem com difi- vários componentes do tabuleiro estão presentes, levando
culdades ao relembrar conceitos de química inorgânica, a a um maior desafio estratégico, bem como à necessidade
maneira lúdica de rever os conceitos e a prática discursiva em de consenso em equipe para a tomada de decisões em cada
grupo foram essenciais para que a atividade se apresentasse nova jogada.
como uma ferramenta eficiente para aprendizagem. O relato
de um aluno, a seguir, ilustra tal constatação:

é uma coisa muito boa, tipo assim, você tem uma


prova, aí você junta todos os seus amigos e estuda
assim, porque é uma maneira divertida, descontraída
e simples de estudar e gravar as coisas, porque pode
sair uma coisa engraçada que, na hora da prova,
eu lembro do exercício por causa daquela piada
(Aluna A).

A seguir, as impressões de um aluno que se dispôs a


participar da atividade, inicialmente apenas com objetivo
de ser dispensado da aula tradicional: 173

O jogo é bem legal, eu aceitei jogar só pra sair da Figura 6: Um dos momentos em que todos os componentes do
sala, mas é bem interessante, não achei que fosse ser jogo estão sendo manipulados pelos jogadores, exigindo maior
legal, ainda mais quando soube que era de Química concentração e consenso para traçar estratégias que serão
(Aluno B). usadas nas jogadas seguintes. Fonte: Elaborado pelo autor.

O objetivo de vencer o jogo Por meio dos dados coletados


O objetivo de vencer o jogo acabou
acabou estimulando os alunos estimulando os alunos à leitura da apostila
durante as partidas, registrados
à leitura da apostila “Cristais”, “Cristais”, sendo que essa motivação de em diário de campo, e na entrevis-
sendo que essa motivação de confronto positiva, gerando uma disputa ta semiestruturada, verificou-se
confronto positiva, gerando uma saudável, propiciou que eles adquirissem que o jogo, enquanto ferramenta
disputa saudável, propiciou que conhecimentos novos, que não haviam sido de ensino, permitiu que os alunos
eles adquirissem conhecimen- previamente trabalhados em sala de aula. aprendessem conceitos novos. A
tos novos, que não haviam sido maioria deles (89%) expuseram
previamente trabalhados em sala respostas que comprovam a leitu-
de aula. Tal constatação reforça que o incentivo e o gosto ra, bem como a efetiva interpretação da apostila “Minerais”.
pela leitura são fatores cruciais ao pleno desenvolvimento Nas questões, relacionadas à Química Inorgânica, o índice
intelectual e à formação independente. O fato de o texto da de acerto foi superior a 70%. Durante cada partida, os alu-
apostila apresentar uma linguagem simples também contri- nos abandonavam o papel de meros sujeitos passivos para
buiu para que os estudantes raciocinassem e interpretassem assumir o protagonismo da própria aprendizagem.
informações de forma mais autônoma. Conforme concluiu
um dos alunos: “... o texto é de uma linguagem fácil e po- Conclusão
pular” (Aluno C).
Os alunos constataram ainda que, ao lerem a apostila, Com base em todo o processo de concepção, planeja-
foram capazes de relembrar alguns conceitos previamente mento, montagem e aplicação do jogo didático “Minerais”,
explicados pelo professor, permitindo-lhes estabelecer cor- bem como nos resultados obtidos no presente trabalho,
relações corretas entre os conteúdos novos e seus conheci- conclui-se que esta atividade lúdica atingiu os objetivos
mentos prévios, como menciona um dos estudantes: “... com para os quais ela foi planejada: contribuir na aprendizagem
o jogo deu para relembrar conceitos e aprender conceitos de conceitos relacionados à mineralogia, no âmbito da
novos” (Aluno D). disciplina de Química. Nessa perspectiva, embora a maior
Outro estudante deixa claro, em suas impressões, que o parte dos trabalhos envolvendo atividades lúdicas tenha

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por objetivo primordial a revisão de conceitos, este jogo para o ensino e aprendizagem de assuntos relacionados à
também permitiu que os alunos aprendessem conceitos Química.
novos, relacionados a um tema geralmente pouco explorado
no Ensino Médio. A aplicação do jogo na escola pública
Edemar Benedetti Filho (edemarfilho@[Link]), licenciado e bacharel
reiterou a importância da ludicidade e da jogabilidade em Química, mestre e doutor em Química pela UFSCar, é docente da UFSCar.
na construção de uma metodologia de ensino atraente, Sorocaba, SP – BR. Alexandre Donizeti Martins Cavagis (cavagis@[Link]),
consistente e que permita harmonizar o interesse pelo licenciado em Química e bacharel em Química Tecnológica, mestre e doutor em
lúdico com os objetivos pedagógicos a serem alcançados. Bioquímica pela UNICAMP, PhD e pós-doutorado pela University of Groningen
(Holanda), é docente da UFSCar. Sorocaba, SP – BR. Karen Ouverney dos Santos
Adicionalmente, estudantes de licenciatura em Química (karenouverney2008@[Link]), licenciada em Química pela Universidade
tiveram a oportunidade de participar de um processo for- Federal de São Carlos. Sorocaba, SP – BR. Luzia Pires dos Santos Benedetti
mativo diferenciado que, certamente, levarão consigo ao (luziabenedetti@[Link]), licenciada em Química, mestre em Química
longo de sua vida profissional, permitindo-lhes idealizar, Analítica pela Universidade Federal de São Carlos. Sorocaba, SP – BR.
planejar e aplicar ferramentas metodológicas alternativas

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Abstract: A board game involving concepts of mineralogy in Chemical education. This paper describes the development and application of the board
game”Minerals”, aiming at teaching concepts of mineralogy in High School. Once concluded the artistic conception, assembly of pieces, boards and rules
definition, the game was submitted to a team of undergraduate students in Chemistry, in order to assess its pedagogical potential, as well as its playfulness,
dynamics and playability. Subsequently, the game was introduced to high school students from a state public school, in order to analyze its applicability and
effectiveness in the teaching of concepts generally unexplored at this school level. Results showed an excellent acceptance of the game by the students, as
well as its contribution to the learning of concepts on an important theme, which is very little explored in Basic Education. Furthermore, the work involved
undergraduate students in Chemistry, whom had the opportunity of experiencing the development and application of a playful teaching tool.
Keywords: Chemical Education, Mineralogy, Board Game.

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Quím. nova esc. – São Paulo-SP, BR. Um jogo de tabuleiro envolvendo conceitos de mineralogia Vol. 43, N° 2, p. 167-175, MAIO 2021

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