CICLOS
E N T R E O A M O R E A
I N E V I T A B I L I D A D E D O
F I M
DIOGO
FERREIRA
L A D O 1
Sabe… chega uma hora que nem os pedidos de desculpas
conseguem mais remendar o que já está quebrado demais. E
é estranho, porque não falta amor. Nunca faltou. A gente
quis tanto acertar, quis tanto fazer dar certo, que, no meio
desse caminho, a gente começou a se perder dentro dos
próprios erros.
Quantas vezes a gente se sentou para conversar, para tentar
entender onde tudo desandou… quantas vezes promessas
foram feitas, mãos foram apertadas, lágrimas foram enxutas
com aquele velho “a gente vai melhorar”. E, por algumas
horas, por alguns dias, até parecia que sim… que seria
diferente.
Mas, no fundo, acho que a gente sabia. Que não era mais só
sobre consertar. Era sobre aceitar que, às vezes, o amor não
é suficiente quando o peso do desgaste se torna mais alto
que tudo aquilo que a gente construiu.
Eu não te culpo. E, se for honesto, também não me culpo
mais. Porque os dois erraram. Os dois falaram coisas que
não deviam, fizeram escolhas que feriram, deixaram
cicatrizes que, mesmo sem querer, ficaram. E é cansativo
esse ciclo de ferir, se desculpar, tentar, prometer e… falhar
de novo.
“Eu me perdi tentando ser o que achava que
você queria.”
A gente tentou, né? Tentou mais vezes do que qualquer um
poderia dizer que era possível. E, se há alguma paz em meio
a tudo isso, é saber que não foi falta de amor, nem de
esforço. Mas tem coisas que, simplesmente, não voltam a
ser o que eram, não importa quantas vezes a gente cole os
pedaços, e isso me frustra tanto, logo eu, que sou tão
apegado ao passado.
E dói. Dói demais admitir isso. Porque eu ainda te olho e,
por segundos, eu enxergo aquele começo, aquele nós que
ainda sabia rir, amar, planejar. Mas logo depois vem a
realidade, como uma onda, lembrando que agora somos só
uma versão exausta de tudo aquilo que já fomos um dia.
A gente se perdeu nas tentativas. E, talvez, amar também
seja saber a hora de parar de tentar.
Talvez agora, o mais honesto que a gente possa fazer por
nós dois… seja aceitar que a gente merece algo que não doa
tanto para existir. É impossível não lembrar. Na verdade, é
quase cruel como a memória insiste em me arrastar de volta
para aquele começo, para aquele tempo em que tudo parecia
tão leve, tão certo, tão nosso.
Eu ainda sinto, como se fosse ontem, aquela ansiedade boa
que aparecia só de saber que eu ia te ver. O frio na barriga,
o coração disparando só porque seu nome aparecia na tela.
O jeito como a gente se olhava, como se o mundo inteiro
desaparecesse — como se só existisse a gente.
E tinha tanta coisa para descobrir… cada conversa era um
universo novo. Cada detalhe seu me encantava de um jeito
que eu nem sabia que era possível. Te ouvir falar dos seus
sonhos, das suas manias, dos seus medos… era como
desembrulhar um presente que eu não queria que acabasse
nunca.
Eu lembro do primeiro abraço — meio tímido, meio
desajeitado, mas cheio de um conforto que eu nunca tinha
sentido antes. Da primeira vez que nossas mãos se tocaram
e, de repente, tudo fazia sentido. E, claro, do primeiro
beijo… aquele momento em que tudo parou. Onde não
existia mais dúvida, só a certeza de que eu queria viver
aquilo mil vezes, em mil vidas, se fosse preciso.
Era tudo tão fácil, tão leve, tão bonito.
E, hoje, dói perceber o quanto isso ficou distante. O quanto
aquela versão da gente parece quase uma lembrança de
outro mundo, de outras pessoas que, de algum jeito,
deixaram de existir.
É estranho sentir saudade de algo que ainda vive, de alguém
que ainda está aqui, mas que, de alguma forma, já não sinto
que é mais o mesmo. E talvez essa seja uma das maiores
tristezas da vida: perceber que o amor também pode mudar,
que aquilo que antes era lar agora às vezes parece só um
lugar vazio, cheio de ecos do que já foi.
Mas, mesmo com toda essa dor, eu guardo aquele começo. E,
por mais que tudo tenha mudado… ninguém nunca vai me
tirar a lembrança do que a gente foi.
E talvez, no fim, seja isso o que mais dói… lembrar do
quanto foi bonito.
L A D O 2
Eu não sei nem por onde começar… talvez porque, no fundo,
eu sempre soube que existia uma parte de mim capaz de
sabotar tudo de bom que a vida tentava me dar. E, mesmo
sabendo disso, eu não consegui impedir. Não consegui me
impedir.
A verdade é que eu carregava tanto dentro de mim… tanta
insegurança, tanto medo, tanta bagagem que eu nunca
aprendi a abandonar. E, sem perceber — ou talvez
percebendo, mas fingindo que não —, eu fui deixando que
esses fantasmas entrassem no meio da gente. Fui deixando
que minhas dúvidas falassem mais alto que seu amor. Que
meus surtos, meus medos, minhas crises, se tornassem mais
presentes do que o que a gente estava tentando construir.
E você… você tentou. Tentou tanto. Te vi tentando me
entender, me acalmar, me fazer enxergar que eu não
precisava ter tanto medo, que eu não precisava criar
monstros. Mas eu não soube como ser leve. Não soube como
não transformar carinho em cobrança, cuidado em
desespero, amor em medo.
E agora… agora não tem mais como voltar. Não dá para
desfazer o que foi dito, nem para apagar os dias em que eu
te empurrei para longe mesmo querendo te puxar para
perto. Eu olho para trás e só consigo pensar em tudo que eu
poderia ter feito diferente, em como, talvez, bastava eu ter
confiado mais. Em você. Em nós. E, principalmente, em mim.
Mas eu não consegui. Eu não consegui ser a versão de mim
que você merecia.
Dói aceitar, mas eu sei que te cansei. Te desgastei. Te
machuquei de um jeito que nem todos os “me desculpa” do
mundo seriam capazes de consertar. E, por mais que eu
queira, não dá. Não tem mais aquele “nós” que, por tanto
tempo, foi o que me fazia acreditar que eu podia ser feliz de
verdade.
Eu estraguei. Eu me sabotei. E, no processo, acabei
sabotando a coisa mais bonita que eu já tive.
E agora só me resta conviver com isso. E torcer, de algum
jeito, para que um dia você lembre de mim mais pelo que foi
bom… do que por tudo aquilo que eu deixei se perder.
Por mais que eu quisesse… não é fácil. Nunca foi. E eu sei
que, para você, talvez pareça simples — pedir desculpa, dizer
que vai mudar, que não vai mais acontecer, que a gente pode
recomeçar. Mas, para mim, não funciona assim. Nunca
funcionou.
Eu não sei simplesmente ouvir um “me desculpa” e apagar
tudo. Eu não sei fingir que não doeu, que não me feriu, que
não deixou marcas em lugares que nem eu sabia que
existiam. E, por mais que eu tente, por mais que eu queira…
tem algo aqui dentro que trava. Que sufoca.
E é cruel, sabe? Porque eu queria ser essa pessoa que
consegue perdoar fácil, virar a página, acreditar no amor
acima de qualquer coisa. Mas eu não sou assim. Eu fico
preso, analisando cada detalhe, cada palavra, cada atitude,
tentando entender se vale a pena. Se ainda faz sentido. Se o
amor que a gente sente ainda é suficiente para segurar tudo
isso.
Porque a verdade é que… eu já não sei se amar basta. Eu já
não sei se amor sozinho consegue consertar os desvios, as
falhas, os erros que se repetem. E eu fico me perguntando:
será que, lá na frente, isso não vai acontecer de novo? Será
que eu não vou me ver, mais uma vez, remendando pedaços
de mim que nem deveriam ter sido quebrados?
E esse conflito me sufoca. Porque, ao mesmo tempo que eu
quero seguir, quero resolver, quero te olhar e dizer “tá tudo
bem”, tem uma parte enorme de mim que grita: “Mas não
tá.” E eu não consigo silenciar isso.
É duro, e me consome. Porque a última coisa que eu queria
era estar aqui, nesse lugar de dúvida, de dor, de incerteza.
Eu queria que tudo fosse mais fácil. Eu queria que a gente
nunca tivesse chegado nesse ponto. Eu queria que bastasse
te amar.
L A D O 3
O céu estava cinza, e o frio parecia um abraço apertado,
como se o universo conspirasse para que eu te encontrasse.
Era como se os deuses quisessem me agradar, fazendo
daquele dia o melhor da minha vida. Sentir seu perfume foi
como descobrir uma nova canção, uma melodia que, para
muitos, passaria despercebida, mas que para mim tinha um
significado profundo e nostálgico, repleto de felicidade.
Construímos pontes e jardins em nossos corações, e a ideia
de visitar nosso futuro juntos me deixava radiante. A magia
de conhecer alguém novo e explorar um universo
desconhecido era simplesmente incrível.
Mas, então, o sol tornou-se egoísta. Os demônios saíram
debaixo da cama e tornaram-se meus companheiros
indesejados. Eles me assombraram e transformaram minha
visão de mim mesmo em algo distorcido. Eu me perdi
tentando ser o que achava que você queria, e isso me
mudou de maneiras que não consigo mais reconhecer. Você
nunca pediu isso a mim, mas a esperança de que tudo
mudasse por sua causa me levou a um ciclo de
autodestruição.
Descobri partes de mim que preferia ignorar e ouvi coisas
dolorosas que poderiam ter sido evitadas. Comecei a
acreditar que tudo o que fazia estava errado, como se meu
único propósito fosse agradar os outros, mesmo que isso
significasse ignorar meus próprios limites. O julgamento
alheio me fez sentir preso em uma dimensão paralela: o que
eu considerava certo era visto como errado por aqueles que
amava.
Os dias ensolarados chegaram, mas as flores murcharam
porque eu desisti delas. As pontes foram queimadas, e
mesmo com você ao meu lado, preferi erguer muros. Meus
demônios não gostam de você; eles não gostam de mim. Mas
eles não são os vilões da história; são apenas um reflexo da
coragem que tenho dentro de mim para enfrentar as
consequências das minhas escolhas.
Tornei-me algo negativo, um peso... que por mais estranho
que pareça, atrai pessoas, e isso faz eu me perguntar se sou
realmente tão denso quanto alguns fazem parecer. Amo-me
superficialmente e odeio-me profundamente; estou exausto
de tentar explicar como me sinto.
O dia mais feliz da minha vida deu início ao ciclo mais
torturante do meu ser—um fogo que me aquece e machuca
ao mesmo tempo, alimentado por faíscas de momentos
felizes que só aumentam o fogo e consequentemente as
minhas queimaduras. Eu só queria dançar na chuva, sentir a
água esfriar meu corpo e acreditar que depois da
tempestade viria um arco-íris.
Mas a cada tempestade que aparece, um pedaço de mim e
levado embora, e o céu continua nublado e cinza, e agora o
que eu considerava belo, se tornou um motivo para chorar.
L A D O 4
E então, imagina amar alguém ao ponto de desejara ela em
todos os mitos da vida, nas horas iguais do relógio, na fonte
dos desejos, nas velas do seu bolo de aniversário, nas
estrelas cadentes, em cada trevo de quatro folhas. Sentir
amor e felicidade ao receber uma mensagem da pessoa, ao
saber que vai vê-la, estar com ela, respirar com ela. Sentir
tristeza em saber que você realmente a ama e que ela pode
te magoar de maneiras irreversíveis.
Sentir medo dela te deixar porque você realmente a ama e
quer muito que seja para sempre. As vezes se encontra
assustado pensando que se não der certo, você nunca mais
pode tentar nada com aquela pessoa, porque nada mais vai
funcionar. Sentir medo ao saber que você está gastando sua
primeira e única chance com uma pessoa aleatória que você
encontrou em um dia aleatório e que decidiu confiar nela
para compartilhar seus segredos e fragilidades.
Amar alguém ao ponto de nunca deixar ela saber o quanto
você chorou em silêncio por causa dela. As vezes também
sofrer por amor, que é sentir que o seu coração é um campo
de batalha onde você sempre perde. E quando se precisa
desistir, às vezes, o ato mais doloroso é reconhecer que o
amor que vocês sentiam não é suficiente para mudar o que
já está perdido. Você me ama, mas não o suficiente para me
salvar... E eu amo você, mas não o suficiente para nos
salvar.
L A D O 5
Em um dia, acordei em meio ao silêncio da manhã, o sol
filtrando-se pelas cortinas, e a primeira coisa que pensei foi
em você. A imagem de nós dois juntos ainda estavam fresca
na minha mente, como uma lembrança que se recusa a
desaparecer. Arrumei as malas enquanto você dormia,
tentando não fazer barulho, como se isso pudesse suavizar
a dor que sentia por dentro.
Você sempre foi o catalisador das minhas emoções, a razão
pela qual eu me sentia vivo e, ao mesmo tempo, tão perdido.
Havia algo na maneira como você respirava que me deixava
sem palavras, um mistério que eu queria desvendar, mas que
nunca consegui. Eu queria poder ficar sozinho, mas ao
mesmo tempo não conseguia suportar a ideia de te
abandonar.
Era frustrante saber que você era bom com todo mundo,
menos comigo. Eu me perguntava por que era tão difícil para
nós. O amor parecia um jogo de esconde-esconde — eu me
escondia atrás das minhas inseguranças e você atrás da sua
compreensão. Quando você me perguntava se eu estava
bem, eu sorria e dizia que sim, mas a verdade era que eu
lutava contra uma tempestade interna.
Se você me ouvir indo embora, poderia apenas fingir que
tudo era um sonho ruim? Porque eu não posso te amar como
você merece, mesmo que quisesse. Tenho tanto para
trabalhar em mim, tantas feridas para curar.
Era hora de deixar tudo isso para trás. Passou da hora há
muito tempo. Eu vestia sua camisa como uma forma de me
lembrar de você, mas que eventualmente eu teria que me
desfazer. Briguei até o fim, até você me amarrar em seus
braços e me fazer sentir seguro por um instante. Mesmo
assim, nunca foi suficiente.
Agora estou caindo novamente, descendo em direção a um
lugar desconhecido, onde as memórias de nós dois se
misturam com a dor do desapego. E enquanto sigo em
frente, espero que um dia você entenda: eu realmente queria
ser diferente. Queria ser aquela pessoa que poderia te amar
sem reservas. Mas por agora, só posso seguir meu caminho
e deixar as lembranças em paz.
L A D O 6
Era um verão que cheirava a promessas desfeitas e sal na
pele, e agora o gosto na minha boca é só amargura. Eu
construí algo que eu pensei que duraria mais que as
estações, mais que a própria dor, mas você veio e arrancou
cada tijolo, um por um, até não sobrar nada além de
escombros e o eco de risadas que não são mais nossas.
Eles te veem no memorial, na minha própria ruína, e pensam
que é tristeza nos seus olhos. Mas eu sei a verdade, não é?
Sei que o que te assombra não é a minha ausência, mas a
lembrança do que você fez. Eu era o corpo na praia, e você
jogou a primeira pá de areia. Minhas lágrimas escorriam, e
você as ignorou, transformando cada gota em um pequeno
caixão para a nossa história.
Eu te perdoaria se pudesse. Mas como se perdoa um
fantasma que ainda assombra todos os meus dias? Você
enterrou um jardim e agora se pergunta por que não há
flores. Eu era a flor, o jardim, a raiz, e você me arrancou
pela raiz. E agora, quando a chuva cai, eu não sinto alívio.
Sinto apenas o peso da água que poderia ter nutrido algo
bonito, mas que agora apenas escorre por uma terra estéril.
Eu era o seu maior fã, o seu maior erro, e a mais triste das
suas vitórias. E enquanto você segue em frente, carregando
a coroa que me roubou, eu permaneço aqui, nas ruínas do
que fomos.
L A D O 7
Eu me sinto como um navio à deriva, e a maré que me afasta
não é a do oceano, mas a da sua indiferença. Cada dia que
passa é um pouco mais de corda se soltando, e eu sinto o
frio do abismo entre nós crescer, me engolindo
silenciosamente. Houve um tempo em que você me via, me
tocava, me sentia. Agora, sou apenas um vulto em seu
campo de visão, uma melodia abafada que você mal escuta.
Eu gritei, eu implorei em sussurros, tentei reacender a
chama com as minhas últimas brasas. Mas o fogo se apagou
há tanto tempo que agora só há cinzas em meus dedos.
Estou lutando uma guerra sozinho, uma batalha para manter
de pé o que um dia foi um castelo e que agora não passa de
ruínas. Você me perde, e a ironia é que você nem sequer
parece notar o desastre que se desenrola.
Minhas mãos estão vazias de esforço, minhas palavras secas
de tanto serem ditas ao vento. Eu entreguei meu coração a
você como um sacrifício, e você o deixou sangrar até a
última gota, sem sequer um curativo. O que resta de mim é
um eco oco do que eu era, antes de me esvaziar
completamente tentando te manter por perto.
E enquanto você segue em frente, alheio à devastação que
abandonou, eu me afundo nesse silêncio que você criou. É a
despedida mais dolorosa, porque não há adeus, não há
portas batendo, apenas o lento e agonizante
desaparecimento de tudo o que um dia fomos.
E a verdade é que eu já não sei se você me perdeu ou se
eu finalmente me perdi em você.