S.D.
PERRY
Resident Evil
Livro 4
Submundo
Tradução de Raphael L. Vicente
Formatação ePub de LeYtor
Pocket Books
1999
Resident Evil – Underworld
Autora: Stephani Danele Perry.
Editora: Pocket Books (U.S.A.)
Tradução: Raphael Lima Vicente [F.Y.F.R.E. Team]
Revisão: Monnie "Red Queen"
Tradução começada em: 25 de Dezembro de 2002.
Tradução terminada em: 28 de Dezembro de 2003.
Resident Evil TM & © 1999
Capcom Co., Ltd
© 1999 Capcom U.S.A., Inc.
Prólogo
Associated Press, 6 de Outubro, 1998
Milhares morrem quando o fogo atinge as comunidades nas
montanhas, Doença misteriosa pode estar envolvida
NOVA YORK, NY – A isolada população das montanhas de
Raccoon City, PA, foi oficialmente declarada uma área de desastre
por oficiais estaduais e federais, enquanto dedicados bombeiros
continuam travando guerra contra as labaredas e o número de
mortos continua aumentando. Estima-se agora que mais de sete mil
pessoas foram mortas pelos explosivos que atingiram Raccoon na
manhã de Domingo, 4 de Outubro. Está sendo considerado o pior
desastre nos Estados Unidos em termos de vidas perdidas, desde a
era industrial, e enquanto as organizações nacionais de auxílio e a
imprensa internacional se concentra nas barricadas ao redor das
ruínas ainda em chamas da cidade, amigos chocados e familiares
dos cidadãos de Raccoon se reuniram, esperando por notícias em
Latham.
O diretor de Controle de Desastres Nacionais (CDN), Terrence
Chavez, coordenador dos esforços das equipes de emergência e
bombeiros, lançou uma nota à imprensa na noite passada,
explicando que apesar das complicações previstas, ele espera que
as últimas chamas sejam apagadas antes do meio da semana –
mas que poderá levar meses até que a origem desse fogo seja
determinada, assim como se foi ou não um incêndio proposital.
Chavez disse, "A magnitude dos estragos só em termos de área
torna a busca por respostas uma grande responsabilidade, mas as
respostas estão lá. Vamos chegar ao fundo disso, não importa o que
aconteça."
Às 6 da manhã de hoje, setenta e oito sobreviventes foram
encontrados, e seus nomes e condições mantidos em sigilo; foram
transportados para um hospital federal não revelado para
observação e/ou tratamento.
Relatórios iniciais das equipes HazMat sugerem que uma
doença desconhecida possa ser a responsável pelo incrível número
de vítimas, já que os cidadãos infectados não conseguiram escapar,
possivelmente devido à incapacidade causada pela doença. Há
rumores de que a doença possa ter induzido psicoses violentas em
alguns dos infectados. Membros dos centros particulares e federais
de controles de doenças foram chamados para aumentar o limite de
quarentena, e apesar de nenhuma declaração oficial ter sido
lançada, vazaram diversas descrições dos sintomas físicos e
psicológicos em muitas das vítimas. Uma fonte, membro de uma
equipe federal de legistas, disse, "Algumas pessoas não morreram
apenas queimadas ou por inalação de fumaça. Eu vi pessoas que
foram mortas a tiros ou punhaladas, [e] outras formas de violência.
Vi pessoas que obviamente estiveram doentes e morreram muito
antes do fogo surgir. O incêndio foi ruim – terrível – mas não foi o
único desastre que ocorreu lá, eu apostaria dinheiro nisso."
Raccoon City foi notícia durante esse ano quando uma série de
assassinatos atingiu a população. Foram mortes aparentemente
sem motivos, de extrema violência, e vários envolvendo canibalismo;
tentativas de conexões já estão sendo feitas por uma imprensa local
próxima a Raccoon, entre os onze casos não solucionados de
assassinatos do último verão e os rumores de violência em massa
anteriores ao incêndio.
O Sr. Chavez recusou-se a confirmar ou negar os rumores,
dizendo apenas que as investigações da tragédia continuarão...
Nationwide Today, edição da manhã, 10 de Outubro, 1998
Número de mortos em Raccoon aumenta, conforme as
equipes de busca e resgate juntam forças
NOVA YORK, NY – O número oficial de corpos chega agora a
quase 4500, com as ruínas de Raccoon City ainda estando cheias
de vítimas do apocalipse que aconteceu no último domingo de
manhã. Enquanto tem início um luto nacional, mais de seiscentos
homens e mulheres estão trabalhando para desvendar as razões por
trás da destruição de uma cidade tão pacífica. Organizações locais
de socorro, cientistas, soldados, agentes federais e equipes de
pesquisa se uniram numa mostra de determinação e objetivação,
reunindo fontes e conferindo tarefas para chegar à verdade.
O diretor da CDN, Terrence Chavez, o principal oficial da
missão, reuniu-se com pesquisadores renomados de centros de
controle de doenças do mundo todo, agentes de segurança nacional
de várias federações, e uma equipe privada de microbiologistas da
Umbrela Inc., a companhia farmacêutica, que está investigando a
possibilidade de haver uma ligação entre os laboratórios químicos
nos arredores da cidade e uma estranha infecção agora sendo
chamada de "síndrome de Raccoon".
Estudos iniciais da doença foram vagos e inconclusivos, disse o
líder da equipe da Umbrela, Dr. Elis Benjamin, "mas estamos
convencidos de que os cidadãos de Raccoon foram infectados com
alguma coisa, acidental ou intencionalmente. Tudo o que sabemos
até agora é que não parece ter sido via aérea, e que o resultado final
foi de rápida desintegração celular e morte; ainda não sabemos se
foi bacteriano ou viral, ou quais eram os sintomas, mas não
descansaremos enquanto não esgotarmos nossas fontes.
Independente do que descobrirmos, e se a Umbrela teve parte nisso
ou não, estamos comprometidos a levar isso até o fim. É o mínimo
que podemos fazer, considerando o quanto nossa companhia estima
o povo de Raccoon." A fábrica da Umbrela e seus complexos
administrativos em Raccoon deram origem a milhares de empregos.
Os 142 sobreviventes ainda estão sendo mantidos em
quarentena para observação e interrogatório em um local não
revelado. Enquanto suas identidades ainda estão sendo protegidas,
o FBI divulgou uma nota listando suas condições médicas.
Dezessete sobreviventes sofreram lesões leves, mas estão em
condições estáveis, setenta e nove ainda estão na lista crítica
seguida de procedimentos cirúrgicos, e quarenta e seis dos
sobreviventes, mesmo que não feridos, sofreram maiores
transtornos mentais ou emocionais. Não há confirmação quanto a
estarem ou não infectados com a síndrome, mas a nota incluiu uma
referência às histórias dos sobreviventes, onde verificou-se a
existência da infecção.
O Gen. Martin Goldmann, inspetor das operações militares na
cidade destruída, tem esperanças de que os que estão
desaparecidos serão encontrados dentro dos próximos sete dias. "Já
temos quatrocentas pessoas trabalhando vinte quatro horas por dia
e sete dias por semana, buscando sobreviventes e verificando
identidades – e eu dou a palavra de que mais duzentas chegarão na
Segunda..."
Fort Worth Bugler, 18 de Outubro, 1998
Possível conspiração por funcionários da cidade na
tragédia de Raccoon
FORTH WORTH, TX – Novas evidências descobertas por
equipes de varredura em Raccoon City, PA, indicam que a
"síndrome de Raccoon", a doença responsável pela maioria das
7200 mortes que ocorreram em Raccoon até agora, pode ter sido
liberada sobre a população pelo Chefe da Polícia de Raccoon, Brian
Irons, e vários membros da Equipe de Táticas Especiais e Resgate
(S.T.A.R.S.).
Em uma conferência ocorrida ontem à noite pelo porta-voz do
FBI, Patrick Weeks, o diretor da CDN, Terrence Chavez, e o Dr.
Robert Heiner – chamado pelo líder da equipe da Umbrela, Dr. Elis
Benjamin – Weeks revelou que há fortes evidências circunstanciais
de que o desastre em Raccoon tenha sido resultado de um ato
terrorista que deu terrivelmente errado. Os subseqüentes incêndios
que aos poucos atingiram a pequena cidade podem ter sido uma
tentativa de Irons ou de um de seus cúmplices para cobrir os efeitos
desastrosos do plano.
De acordo com Weeks, vários documentos fora encontrados
nos destroços do prédio do RPD que implicam Irons como o líder de
uma conspiração para ter como refém a fábrica química da Umbrela
nos arredores da cidade.
Supostamente, Irons estava furioso com os oficiais da cidade
por causa da suspensão dos S.T.A.R.S. em Julho, por sua má
condução na investigação das múltiplas mortes – os agora
documentados assassinatos canibais que tiraram as vidas de onze
pessoas no último verão. Os S.T.A.R.S. de Raccoon foram
suspensos depois da queda de um helicóptero na última semana de
Julho que tirou a vida de seis membros da equipe. Os cinco
S.T.A.R.S.
sobreviventes foram suspensos sem pagamento depois de
evidências sugerirem drogas ou abuso de álcool em conexão com a
queda – e enquanto Irons defendia publicamente a suspensão de
seu time de elite, os documentos indicam que Irons realmente
ameaçava o Prefeito Devlin Harris e vários membros do Conselho
da cidade com o vazamento de produtos químicos extremamente
voláteis e perigosos, se certas exigências financeiras não fossem
atendidas. Weeks continua dizendo que Irons tinha uma história de
instabilidade emocional, e que os documentos – correspondências
entre Irons e um cúmplice – revelaram um plano de Irons extorquir
um resgate de Raccoon e, então, deixar o país. O cúmplice é
chamado apenas como "C.R.", mas há também referências a "J.V.",
"B.B." e "R.C." – todas iniciais de quatro dos cinco S.T.A.R.S.
suspensos.
Terrence Chavez disse, "Presumindo que esses documentos
sejam legítimos, Irons e sua equipe planejaram atacar a fábrica da
Umbrela no fim de Setembro, o que corresponde exatamente à linha
do tempo descrita pelo Dr. Heiner para a síndrome de Raccoon
atingir completa extensão. Estamos atualmente trabalhando com a
suposição de que o ataque aconteceu, e que um inesperado
acidente ocorreu com resultados terríveis. Nesse momento, não
sabemos se o Sr. Irons ou se algum dos S.T.A.R.S. ainda estão
vivos, mas estão sendo procurados para interrogatório. Divulgamos
uma APB oficial e todos os nossos aeroportos internacionais e
patrulhas de bordo foram alertadas. Encorajamos qualquer um com
informações a respeito desse caso a nos procurar."
O Dr. Heiner, um renomado microbiologista, assim como um
membro associado da Divisão de Materiais Perigosos da Umbrela,
declararam que a mistura exata de produtos químicos lançados em
Raccoon nunca serão descobertos. "É óbvio que Irons e seu pessoal
não sabiam com o que estavam lidando – e com a Umbrela
continuamente desenvolvendo novas variações de sínteses de
enzimas, inibidores de crescimento bacteriano e repressores virais,
a composição letal foi certamente uma agregação acidental. Com as
possíveis combinações de materiais numeradas em milhões, as
chances de duplicação da síndrome de Raccoon são astronômicas."
O diretor nacional dos S.T.A.R.S. não quis comentar, mas Lida
Wilis, porta-voz regional da organização, deu seu relato ao dizer que
eles estão "chocados e entristecidos" pelo desastre, e que colocaria
todos os seus agentes disponíveis em busca dos S.T.A.R.S.
desaparecidos, assim como por quaisquer contatos que pudessem
ainda ter.
Ironicamente, os documentos foram encontrados por uma das
equipes de busca da Umbrela...
Capítulo 1
"Vai, vai, vai!". David gritou, e John Andrews pisou fundo,
conduzindo a minivan por uma fechada curva enquanto tiros
soavam pela fria noite de Maine.
John viu os dois sedans pretos momentos depois, mau dando
tempo para se armarem. Seja lá quem estava atrás deles – a
Umbrela, os S.T.A.R.S. corruptos ou a polícia local – não importava,
eram todos da Umbrela – "Despiste-os, John!". David pediu,
conseguindo parecer frio e controlado mesmo com as balas
acertando a traseira da van. Era o sotaque – ele sempre falava
assim, e onde diabos está a Falworth?
John se sentiu difuso, seus pensamentos correndo e confusos;
ele arrasa numa missão, mas ataques surpresa são de matar – à
direita na Falworth e siga para a pista – Cristo, mais dez minutos e
nós já teremos partido – Faz muito tempo que John esteve num
combate, mas nunca numa perseguição de carro. Ele era bom, mas
estavam numa minivan – Bam bam bam!
Alguém na traseira da van estava retornando fogo, atirando pela
janela aberta de trás. As explosões da 9mm no espaço apertado
eram tão altos como a voz de um Deus irritado, pulsando no ouvido
de John, tornando sua concentração ainda mais difícil.
Só mais dez malditos minutos.
A dez minutos da pista de decolagem, onde o vôo marcado
estaria esperando. Era como uma piada ruim – semanas se
escondendo, esperando, sem correr riscos para depois serem
achados na saída do país.
John segurou o volante enquanto desciam a Rua 6, a van muito
pesada para disputar com os sedans. Mesmo sem as cinco pessoas
e um monte de artilharia, o volumoso motor não era exatamente
uma usina de energia.
David o comprou por ser tão indefinível e discreta que agora
eles estavam pagando por isso – se eles conseguirem agitar seus
perseguidores, seria um pequeno milagre. A única chance seria
pegar trânsito e brincar de desviar. Era perigoso, tal como saírem da
pista e morrerem baleados.
"Clip!". Leon gritou, e John olhou no retrovisor, viu o jovem
policial agachado na janela de trás ao lado de David.
Eles haviam tirado os bancos de trás para essa viagem, mais
espaço para as armas – mas também significava nenhum cinto de
segurança; faça uma curva rápido demais e corpos sairiam voando
– Bam! Bam! Mais dois tiros dos idiotas do sedan, de um .38 talvez.
John acelerou um pouco mais enquanto Leon atirava com a
Browning 9mm. Leon Kennedy era o melhor atirador, David estava
provavelmente mandando-o atirar nos pneus – melhor atirador
depois de mim. Bom, e como nós vamos despistá-los em Exeter,
Maine, às onze da noite num dia de semana? Não tem trânsito –
Uma das mulheres jogou um clip para Leon, John não teve tempo de
ver qual delas quando girou o volante para a direita, na direção do
centro da cidade. Com uma fumacenta derrapagem no asfalto, a van
fez a curva na Falworth, indo para o leste. A pista de vôo ficava à
oeste, mas John nem percebeu que ninguém se preocupava em
chegar a tempo.
Primeiro as primeiras coisas; se livrar dos capangas da
Umbrela. Duvido que haja espaço para todos naquele vôo.
John viu luz vermelha e azul no espelho, viu que pelo menos
um dos sedans tinha colocado uma luminária giratória no teto.
Talvez sejam policiais, o que seria uma droga. A tomada de controle
da Umbrela foi perfeita – graças a ela, cada policial neste país deve
achar que tem culpa pelo que aconteceu em Raccoon. O S.T.A.R.S.
estava sendo enganado, também – alguns superiores foram
comprados, e seus empregados nem faziam idéia de que virariam
marionetes da companhia – tornando tudo mais difícil de consertar.
Nenhum dos empregados querem machucar alguém; ser
conduzido pela Umbrela não era um crime, e se as pessoas no
sedan fossem policiais – "Sem antena nem aviso não é a polícia!".
Leon disse, e John sentiu um segundo de alívio antes de ver as
barricadas aparecendo à sua frente, a placa de obras na pista ao
lado da rua bloqueada. Ele viu o branco rosto de um homem em
cima do colete laranja, segurando uma placa que dizia "devagar", o
homem derrubando a placa e mergulhando para o lado – teria sido
engraçado se eles não estivessem a 130 com 3 segundos para a
colisão.
"Segurem-se!". John gritou, e Claire empurrou as pernas contra
a parede da van, viu David segurar Rebecca e Leon agarrando a
maçaneta – e a van estava arranhando, balançando, e pulando
como um cavalo selvagem, de um lado para o outro – e Claire sentiu
um espaço abaixo do lado direito da van enquanto seu corpo era
comprimido para a esquerda, sua nuca batendo dolorosamente no
estepe. – oh, droga – David gritou algo mas Claire não ouviu sob os
gritantes freios, não entendeu até David mergulhar para a direita,
Rebecca bem ao lado dele – e wham, a van voltou para o chão com
uma incrível pancada, John parecendo ter o carro sob controle
novamente – mas ainda havia o agudo arranhar de freios travados
vindo de – CRASH!
O estrondo de metal e vidro quebrado atrás deles foi tão perto
que o coração de Claire pulou uma batida.
Ela virou, viu que um dos carros tinha batido na barricada – a
barricada que provavelmente teriam acertado um ou dois segundos
atrás. Ela só conseguiu ver o capô amassado, as janelas quebradas
e fumaça antes do segundo sedan bloquear sua visão, fazendo a
curva e continuando a perseguição.
"Me desculpem por aquilo". John disse, parecendo estar movido
por uma alegre adrenalina.
Nas poucas semanas desde que ela e Leon se juntaram aos
S.T.A.R.S. fugitivos, Claire descobriu que John fazia piadas sobre
qualquer coisa. Era ao mesmo tempo sua característica mais amável
e irritante.
"Estão todos bem?". David perguntou, e Claire acenou, viu
Rebecca fazer o mesmo.
"Levei uma pancada mas estou bem". Leon disse, esfregando
seu braço com uma expressão dolorosa. "Mas eu não acho que –".
BAM!
Leon foi cortado pela poderosa explosão que atingiu a traseira
da van. O passageiro do sedan tinha disparado uma espingarda
neles; alguns centímetros acima e os grãos de chumbo teriam
passado pela janela.
"John, mudança de planos". David falou enquanto a van virava,
sua fria e autoritária voz aumentando sobre os gritantes motores.
"Nós estamos na mira deles –".
Antes que ele pudesse terminar, John fez uma forçada curva à
esquerda. Rebecca rolou, quase acertando Claire.
Agora a van estava indo para uma quieta rua dos subúrbios.
"Segurem seus traseiros". John gritou sobre os ombros.
O fresco ar noturno passou através da van, casas voando
enquanto John ganhava velocidade. Leon e David já estavam
recarregando, agachados atrás da meia porta de metal. Claire
trocou um olhar com Rebecca, que pareceu tão feliz quanto ela se
sentia. Rebecca Chambers era uma ex-S.T.A.R.S., tinha trabalhado
com o irmão de Claire, Chris, e junto com David e John, também ex-
S.T.A.R.S., numa recente interrupção de planos da Umbrela – mas a
jovem mulher tinha sido treinada como médica e com
conhecimentos em bioquímica. Atirar não era seu forte – até Claire
atirava melhor – mesmo sendo a única que não teve um treinamento
de verdade...
... a não ser que você desconsidere ter sobrevivido em
Raccoon...
Claire tremeu involuntariamente enquanto John virou rápido à
direita, desviando de um caminhão parado, o sedan ganhando
terreno. Raccoon City; os ferimentos e arranhões no corpo de Claire
ainda não tinham se curado, e ela sabia que o ombro de Leon ainda
causava dor – BAM!
Outro tiro, mas esse passou longe.
Desta vez...
"Mudança de planos", David disse, seu claro sotaque
acalmando como a voz da lógica no meio do caos. Não é a toa que
ele foi o capitão do S.T.A.R.S.
"Todos preparem-se para o impacto. John, faça a próxima curva
e depois freie. Acerte-os e corra, certo?".
David levou seus joelhos para cima, apoiando seus pés na
parede da van. "Eles nos querem tanto, deixe-os nos ter".
Claire deslizou e empurrou os pés contra a parte de trás do
banco do passageiro, dobrando os joelhos e cabeça deitada.
Rebecca foi para o lado de David e Leon se arrumou ficando
com a cabeça perto da de Claire. Eles se olharam e Leon sorriu
fracamente.
"Isso não é nada". Ele disse, e apesar do medo, Claire sorriu de
volta. Depois de passar pela loucura de Raccoon City, fugir das
criaturas assassinas da Umbrela e de gente maluca – sem falar na
explosão do laboratório secreto – se comparado à isso, uma batida
de carro era como um piquenique de Domingo.
É, continue dizendo isso à si mesma, sua mente pensou, e
depois não pensou em mais nada porque a van estava fazendo a
curva e John pisando nos freios; logo seriam acertados por uma
tonelada de metal e vidro.
David inalou e exalou profundamente, relaxando seus músculos
o melhor que podia, o grito dos pneus vindo rápido de trás – e
wham, uma pancada violenta, um incrível senso de vibração, um
segundo que parecia levar uma interminável e quieta eternidade – e
um barulho vindo logo depois – vidro quebrando e o som de uma
lata esmagando amplificado um milhão de vezes. David foi jogado
para frente e para trás, ouviu Rebecca emitir uma estrangulada
tosse – e estava acabado, John já acelerando de novo enquanto
David ficava de joelhos, erguendo sua Beretta. Ele olhou para trás e
viu que o sedan não se movia, espetado no meio da escura rua, a
grade dianteira e faróis esmagados. As pessoas ainda estavam
atrás do rachado vidro do carro.
Não é que dirijamos mal...
A barata minivan verde que ele comprou só para ir até o
aeroporto não tinha mais pára-choque, luzes, placa – ou, ele
pensou, algum modo de abrir a porta de trás; ela virou uma massa
arqueada e inútil de metal mastigado.
Não foi uma grande perda. David Trapp desprezava minivans e
não planejava levá-la para a Europa. O importante é que ainda
estavam vivos – e que – por enquanto eles conseguiram cortar o
infinitamente longo braço da ira da Umbrela.
Enquanto se distanciavam do carro batido, David olhou para os
outros, estendendo a mão para ajudar Rebecca.
Desde Caliban, ele ficou mais próximo dela do que John. O
resto de sua equipe não sobreviveu – Ele apagou esse pensamento
antes de se render, e disse para John voltar ao destino original, sem
pegar as ruas principais. Não seria bom serem vistos partindo. A
Umbrela tinha atacado em Exeter uns dois meses atrás, logo depois
de retornarem de Caliban Cove.
"Bom truque, David". Leon disse. "Vou ter que me lembrar disso
da próxima vez que for perseguido por capangas da Umbrela".
David acenou desconfortavelmente. Ele gostava de Leon e
Claire, mas não sabia o que sentir com mais duas pessoas
querendo-o como líder. Ele podia entender John e Rebecca, que
pelo menos fizeram parte do S.T.A.R.S. – mas Leon era um policial
novato de Raccoon e Claire uma universitária, que acabou sendo a
irmãnzinha de Chris Redfield. Quando ele decidiu romper com o
S.T.A.R.S., depois de descobrir sua ligação com a Umbrela, ele não
esperava continuar liderando, não queria – mas não era minha
decisão, era...? ele não tinha pedido a lealdade deles, nem se
ofereceu para fazer decisões – e não importava, foi como tudo
acabou terminando. Na guerra, ninguém tem o luxo da escolha.
David olhou em volta antes de olhar para fora, vendo as casas e
prédios passarem no frio escuro. Todos pareciam reprimidos,
sempre uma conseqüência da leva de adrenalina. Rebecca estava
descarregando clips e guardando as armas, Leon e Claire sentados
juntos do outro lado, sem falar. Os dois estavam sempre juntos, sem
diferença desde que David, John e Rebecca os acharam juntos
saindo de Raccoon a menos de um mês atrás, sujos e feridos,
cambaleantes do encontro com a Umbrela. David não achava que
havia uma conexão romântica ali; pelo menos ainda; era mais pelo
pesadelo compartilhado. Terem quase morrido juntos pode ser uma
experiência vinculosa.
Até onde David sabia, Leon e Claire eram os únicos
sobreviventes de Raccoon que sabiam sobre a contaminação pelo
T-virus da Umbrela. A criança que eles tinham consigo tinha uma
vaga idéia, apesar de Claire tê-la protegido cuidadosamente da
verdade. Sherry Birkin não precisava saber que seus pais foram
responsáveis pela criação das mais poderosas armas da Umbrela;
era melhor para ela lembrar dos pais como pessoas decentes.
"David? Algo errado?".
Ele tirou-se de seus pensamentos e acenou para Claire.
"Desculpe. Sim, estou bem. Na verdade eu estava pensando na
Sherry, como ela está?".
Claire sorriu, e David viu como ela brilhou ao dizer o nome de
Sherry. "Ela está bem, está se acomodando. Kate é como uma irmã
para ela, um ótimo adicional. E Sherry gosta dela".
David acenou de novo. A tia de Sherry parece boa, e além
disso, ela seria capaz de proteger Sherry se a Umbrela decidir
perseguir a garota; Kate Boyd era uma competente advogada
criminal, uma das melhores da Califórnia. A Umbrela faria um bem
ficando longe da única filha de Birkin.
É uma pena que o mesmo não se aplique à nós; isso não
tornaria as coisas mais fáceis...
Rebecca tinha terminado de organizar as armas e foi se sentar
perto dele, tirando uma mecha solta de cabelo da testa. Seus olhos
mais velhos do que o resto do rosto; com quase 19, ela já passou
por dois incidentes da Umbrela. Tecnicamente, ela tinha mais
experiência do que qualquer um deles.
Rebecca não falou por um momento, olhando para as ruas
passando. Quando finalmente falou, ela manteve sua voz baixa, seu
olhar o estudando.
"Você acha que eles ainda estão vivos?".
Ele não se preocuparia em dá-la uma imagem ensolarada;
jovem como era, a garota tinha um jeito para ver através das
pessoas.
"Eu não sei". Ele disse, cuidando para não deixar os outros
ouvirem. Claire queria desesperadamente encontrar seu irmão. "Eu
duvido. Nós já devíamos ter tido notícias. Ou eles estão com medo
de serem pegos, ou...".
Rebecca suspirou, nem de surpresa, nem de alegria. "É.
Mesmo se eles não conseguirem nos contatar – o Texas ainda tem
as freqüências abertas, não?".
David acenou. Texas, Oregon, Montana – todos canais abertos
com confiáveis membros do S.T.A.R.S., e nenhuma ligação há mais
de um mês. A última mensagem foi de Jil; David a tinha decorado.
De fato, a mensagem o perseguia diariamente.
"Sãos e salvos na Áustria. Barry e Chris na pista do Quartel
General da Umbrela, parece promissor.
Preparem-se".
Preparar-se para juntá-los, para chamar as poucas tropas que
ele e John reuniram. Preparar-se para invadir o verdadeiro quartel
da Umbrela, o poder por trás de tudo. Preparar-se para combater o
mal pela raiz. Jil, Barry e Chris foram à Europa para descobrir os
verdadeiros líderes da Umbrela, começando pelo QG internacional
na Áustria – e desde então desapareceram.
"Levantem as cabeças, crianças,". John disse lá na frente, e
David desviou do sério olhar de Rebecca, desviou para ver que já
estavam na pista de decolagem.
Seja lá o que tenha acontecido com seus amigos, eles
descobrirão em breve.
Capítulo 2
Rebecca apertou o cinto na pequena poltrona do pequeno avião
e olhou pela janela, desejando que David tivesse fretado um jato.
Mas um gigante e sólido jato que-não-pode-ser-inseguro-porque-é-
muito-grande. De onde sentou, ela podia ver os propulsores na asa
– propulsores, como numa história para crianças.
Aposto como essa belezinha vai afundar como uma pedra, caso
caia do céu a alguns quilômetros por hora e acerte o oceano...
"Como você já sabe, esse é o tipo de avião que está sempre
matando estrelas do rock e o de sempre. Assim que decolam, um
forte sopro de vento os mandam direto para o chão".
Rebecca olhou para cima e viu o sorridente rosto de John; ele
estava de joelhos na poltrona da frente bem acima dela, seus fortes
braços cruzados no encosto de cabeça. Ele provavelmente
precisava de dois lugares; John não era grande, ele era enorme,
110 quilos de músculo embalados em 2 metros de altura.
"Nós teremos sorte se decolarmos, arrastando seu traseiro
gordo lá para cima". Rebecca retrucou, e foi recompensada com um
lapso de preocupação nos olhos castanhos de John. Ele tinha
quebrado algumas costelas e perfurado um pulmão na última
missão, há menos de 3 meses, e ainda não estava apto a pegar
pesado.
Por mais robusto e machão que John era, Rebecca sabia que
ele era vaidoso, e que odiava não ter malhado.
John sorriu mais. "É, você deve estar certa, algumas dezenas
de metros fora do chão e wham."
Ela nunca devia ter dito a ele que esse era seu segundo vôo (o
primeiro foi ao lado de David para Exeter na missão de Caliban
Cove). Era exatamente o tipo de coisa que fazia John contar piadas
– O avião começou a tremer em volta deles, o motor se elevando
para um profundo hum que fez Rebecca bater os dentes. Por nada
ela deixaria John ver o quanto estava nervosa; ela olhou pela janela
e viu Leon e Claire indo para os degraus de metal. Aparentemente,
as armas estavam todas carregadas.
"Onde está David?". Rebecca perguntou e John balançou os
ombros.
"Falando com o piloto. Nós conseguimos um, você sabe, algum
amigo de um amigo de um cara em Arkansas.
Não há muitos pilotos querendo infiltrar pessoas na Europa,
acho...".
John se inclinou mais perto, derrubando a voz para um falso
cochicho, seu sorriso sumindo. "Eu ouvi falar que ele bebe. Nós
pagamos barato porque ele bateu um time de futebol na lateral de
uma montanha".
Rebecca riu, balançando a cabeça. "Você venceu. Eu estou
apavorada, tá bom?".
"Tá bom. Era tudo o que eu queria". John disse suavemente,
virando enquanto Leon e Claire entravam na pequena cabine. Eles
foram para o meio do avião, pegando os dois acentos do outro lado
do corredor de onde Rebecca estava. David tinha mencionado que a
região entre as asas era a mais estável, apesar de não haver muita
opção – só haviam vinte lugares.
"Já voou antes?". Claire perguntou, inclinado-se sobre o
corredor, parecendo um pouco nervosa.
"Uma vez. E você?". Rebecca respondeu.
"Algumas vezes, mas sempre em grandes companhias, DC 747
ou -27, acho. Eu nem sei o que é essa coisa".
"É um DHC 8 Turbo. Eu acho". Leon disse. "David havia
mencionado...".
"É um assassino, isso é o que ele é". A profunda voz de John
flutuou sobre os assentos. "Uma pedra com asas".
"John, docinho... cale a boca". Claire disse amavelmente.
John tagarelou, obviamente feliz com alguém novo para brincar.
David apareceu na frente da cabine, cruzando a cortina que
cobria a área antes do cockpit, e John ficou calado, a atenção de
todos voltada para David.
"Parece que estamos prontos para ir". David disse. "Nosso
piloto, Capitão Evans, me assegurou que todos os sistemas estão
funcionando e que estaremos decolando em um momento. Ele
pediu que ficássemos sentados até dar outra ordem. Hum – o
banheiro fica atrás do cockpit e tem um pequeno frigobar na parte de
trás do avião com sanduíches e bebidas...".
A voz dele parou, e olhou como se houvesse algo mais a dizer
mas não tinha certeza do que era. Era o olhar que Rebecca tem
visto bastante nas últimas semanas, uma desconfortável incerteza.
Desde o dia que Raccoon foi pelos ares, ela achou que todos tinham
aquele olhar de vez em quando...
... porque eles não deve ser capazes de fazer isso. Aquilo devia
ter sido o fim, mas não foi e agora estamos mais assustados do que
gostaríamos de admitir.
Quando as primeiras notícias saíram nos jornais, todos eles
ficaram certos de que desta vez a Umbrela não seria capaz de
apagar seus rastros. A contaminação na mansão de Spencer foi
pequena, fácil de encobrir depois que o fogo consumiu a mansão e
as construções em volta; as instalações em Caliban Cove estavam
em terras particulares e também muito isoladas para alguém ficar
sabendo – de novo, a Umbrela varreu os destroços e manteve sigilo.
Mas Raccoon City. Milhares de pessoas mortas – e a Umbrela saiu
dessa cheirando como uma rosa, depois de plantar falsas
evidências e ter seus cientistas mentindo por eles. Isso deveria ser
impossível; desanimou a todos. Que chance teria um bando de
fugitivos contra um conglomerado multibilionário que podia matar
uma cidade inteira e sair ileso?
David não disse mais nada. Ele acenou animadamente e andou
para se juntar a eles, parando perto de Rebecca?
"Você precisa de companhia?".
Ela podia ver que tentava dar um apoio – viu que também
estava cansado. Ele tinha ficado acordado na última noite, revendo
cada detalhe da missão.
"Nah, eu estou bem". Ela disse, sorrindo para ele. "Eu sempre
tenho John para me acalmar".
"Você sabe disso, querida", John disse alto, e David acenou,
dando um leve aperto no ombro dela antes de se sentar atrás dela.
Ele precisa desse descanso, nós todos; e será um longo vôo –
então por que pressinto que não teremos esse descanso?
Nervosismo, só isso.
O som do motor aumentou, e com um gago balanço o avião
começou a andar. Rebecca apertou ambos os apoios de braço e
fechou os olhos, pensando que se tivesse estômago para enfrentar a
Umbrela, ela certamente sobreviveria a um passeio de avião.
Mesmo se não pudesse, era tarde demais para mudar de idéia;
eles estavam a caminho, nada de voltar atrás.
Eles estavam no ar a vinte minutos, e Claire já estava
cochilando, meio apoiada no ombro de Leon. Ele estava cansado
também, mas sabia que não dormiria tão fácil. Leon estava com
fome – e tinha o fato de que ainda não sabia se estava fazendo a
coisa certa.
Boa hora para pensar nisso, agora que você está bem
comprometido, a mente dele cochichou sarcasticamente.
Talvez você possa pedir que o deixem em Londres, você
poderia ficar num pub até eles acabarem tudo... ou morrerem.
Leon disse a si mesmo para se calar, suspirando. Ele estava
comprometido; o que a Umbrela vem fazendo não era só criminoso,
era mal. Eles assassinaram milhares, criaram armas biológicas
capazes de matar bilhões, capazes de destruir seu cuidadosamente
planejado futuro, e foram responsáveis pela morte de Ada Wong,
uma mulher que ele gostava e respeitava. Eles tinham se ajudado
nos maus momentos daquela terrível noite em Raccoon; sem ela,
ele nunca teria escapado com vida.
Ele acreditava no que David e seu pessoal estava fazendo, e
não que ele tenha medo, não era isso...
Leon suspirou de novo. Ele tem se preocupado muito com
Claire e Sherry desde que fugiram de Raccoon, e o único motivo
que ele tinha era tão tolo que não merecia crédito. Se opor a
Umbrela era a coisa certa a fazer – é que ele não se sentia
qualificado para estar lá.
Espere aí, isso é ridículo.
Talvez sim – mas isso o estava deixando incerto, ele precisava
examinar a situação.
David Trapp fez uma carreira no S.T.A.R.S., só para ver a
organização cair no controle da Umbrela; ele perdeu dois amigos
próximos na última invasão do complexo de testes de armas
biológicas, tal como John. Rebecca Chambers só estava
começando no S.T.A.R.S., ela era um tipo de criança prodígio na
ciência, profundamente interessada no trabalho da Umbrela; isso
mais o fato de ter passado por mais coisas do que qualquer um, faz
sua contínua dedicação incompreensível.
Claire queria achar seu irmão, a única família que tinha; seus
pais já haviam falecido. Já Chris, Jil e Barry ele nunca conheceu,
mas com certeza tinham seus motivos; ele soube que a família de
Barry tinha sido ameaçada, Rebecca havia contado.
E Leon S. Kennedy? Ele entrou nessa briga ao acaso, um
policial recém formado a caminho do primeiro dia de trabalho – que
acabou sendo para o Departamento Policial de Raccoon. Mas tinha
Ada – ele a conheceu por algumas horas e foi morta logo depois de
admitir que era algum tipo de agente, encarregada de roubar uma
amostra do vírus da Umbrela.
Aí eu perdi um emprego e um possível relacionamento com
uma mulher que mal conhecia e não podia confiar.
Claro que a Umbrela deve ser derrotada... mas eu devo estar
aqui?
Ele decidiu ser policial para ajudar as pessoas e sempre soube
que significava manter a paz – prender motoristas bêbados, conter
brigas em bares, pegar ladrões. Nunca em seus piores sonhos ele
se encontrou no meio de uma conspiração internacional, uma
infiltração do tipo "capa e espada" contra uma companhia gigante
que fazia monstros de guerra. É um crime de tamanha escala que
jamais sentiu-se pronto...
... e esse é o seu real motivo, Oficial Kennedy?
Naquele exato momento, Claire murmurou algo em seu leve
sono, aconchegando a cabeça no ombro dele antes de se aquietar –
e fez Leon desconfortavelmente a par de outro motivo para estar
com os ex-S.T.A.R.S., Claire.
Ela era... ela era uma mulher incrível. Nos dias seguintes ao
desastre de Raccoon, eles conversaram muito sobre o que
aconteceu, as experiências que tiveram juntos e separados. Foi
como uma troca de informações, preenchendo vazios – ela contou
sobre o encontro com o Chefe Irons e a criatura que chamava de Mr.
X, e ele a disse sobre Ada e a terrível coisa que um dia foi Wiliam
Birkin. Entre eles, foi possível aparecer com uma contínua história
de importantes fatos para o time de fugitivos.
Em retrospecto, apesar daquelas longas conversas terem sido
essenciais para outro motivo – elas foram uma forma de liberar o
veneno que eles tomaram, como um desabafo. Se tivesse que
guardar isso, ele pensou, acabaria ficando louco.
De qualquer modo, os sentimentos que tem por ela agora são
outros, calor, conexão, dependência, respeito e outro que ele não
tem nome para dar. E isso o assustava, porque nunca havia sentido
algo assim por alguém antes – e porque não sabia o quanto disso
era verdade e o quanto disso era estresse pós-traumático.
Aceite, pare de se fazer de bobo. Você só está com medo de
estar aqui porque ela está, e não gosta do que isso diz sobre você?
Leon acenou por dentro, percebendo que era a verdade, o
único motivo por trás da incerteza. Ele sempre acreditou que querer
estava bem, mas e precisar? Ele não gostava da idéia de ser guiado
por uma compulsão neurótica só para estar perto de Claire Redfield.
E se isso não for precisar? Talvez seja querer, e você ainda não
sabe...
Ele franziu as sobrancelhas para suas patéticas tentativas de
auto-análise, decidindo que seria melhor parar de se preocupar. Seja
qual for o motivo, ele já estava envolvido – e ele podia chutar o
traseiro da Umbrela com o melhor deles, porque a Umbrela merecia.
Por enquanto, ele precisava ir ao banheiro, comer algo e fazer o
possível para dormir.
Leon saiu gentilmente de debaixo de Claire, da pesada cabeça,
fazendo o possível para não acordá-la. Ele deslizou para o corredor
e reparou nos outros. Rebecca olhava pela janela, John folheava
uma revista de musculação e David dormia. Todos eram boas
pessoas, e pensar nisso o deixou mais calmo com as coisas.
Todos eles são bons. Droga, eu sou um homem bom, lutando
pela verdade, justiça e com alguns zumbis pelo mundo...
O banheiro era na dianteira. Leon foi para lá, tocando cada
assento enquanto passava, pensando no motor do avião, um som
como uma queda d´água – e de repente a cortina de trás da cabine
do piloto foi puxada e um homem apareceu, um alto e sorridente
homem num caro sobretudo. Ele não era o piloto, e não deveria
haver mais ninguém no avião. Leon sentiu sua boca secar com um
quase supersticioso pavor, mesmo com o magro e sorridente
homem parecendo não estar armado.
"Ei!". Leon gritou, recuando um passo. "Ei, nós temos
companhia!".
O homem sorriu, piscando os olhos. "Leon Kennedy, eu
presumo". Ele disse suavemente, e Leon subitamente ficou certo de
que seja lá quem ele era, esse homem era problema com "P"
maiúsculo.
Capítulo 3
John ficou de pé antes de Leon terminar o alerta, pulando no
corredor e ficando na frente de Leon num só passo.
"Quem diabos-". John resmungou, seus ombros a postos,
preparados para quebrar o magro homem em dois caso pisque em
falso.
O estranho ergueu suas pálidas mãos, parecendo não
conseguir conter o prazer – deixando John ainda mais desconfiado.
Ele podia fazer do cara um hambúrguer facilmente, mas por que
diabos ele estava tão feliz?
"E você é John Andrews". O homem disse, sua voz baixa e
calma, tão prazerosa quanto suas feições.
"Ex-especialista em comunicações e campo de escuta pelo
S.T.A.R.S. de Exeter. É bom te conhecer – me diga como estão
suas costelas, ainda doem?
Droga, quem é esse cara? John já tinha quebrado duas costelas
e uma terceira em Caliban, e não conhecia esse homem – como é
que esse cara o conhecia?
"Meu nome é Trent", o estranho disse calmamente, acenando
para Leon e John. "Acredito que o Sr. Trapp pode confirmar minha
identidade...?.
John olhou para trás, viu que David e as garotas estavam logo
ali. David deu um rápido aceno, suas expressões tensas.
Trent. Meu Deus. O misterioso Sr. Trent.– O mesmo Sr. Trent
que havia dado mapas e pistas para Jil Valentine, antes do
S.T.A.R.S. de Raccoon ter descoberto a primeira contaminação pelo
T-virus da Umbrela na mansão de Spencer. O Trent que tinha dado
um kit similar à David numa chuvosa noite de Agosto, informações
sobre o laboratório da Umbrela em Caliban Cove, onde Karen e
Steve foram mortos.
Trent tem brincado com o S.T.A.R.S. – com a vida de pessoas –
o tempo todo.
Trent ainda sorria, ainda de mãos erguidas. John reparou num
anel preto feito de pedra num dos dedos de Trent, o único toque de
personalidade que ele parecia ter; devia caro e pesado.
"Mas o que diabos você quer?". John resmungou. Ele não
gostava de segredos ou surpresas, e não gostava de como Trent
parecia totalmente inabalado com seu tamanho. A maioria das
pessoas recuam quando John as encara; Trent parecia estar se
divertindo.
"Sr. Andrews, se você por favor...?".
John não se mexeu, olhando para os escuros e inteligentes
olhos do intruso. Trent recuou o olhar impassivamente e John
percebeu uma fria auto-segurança naquele brilhante olhar, um que
era quase mas não tão protetor. Por maior e mais bravo que John
fosse, ele não era violento – mas aquele confiante e alegre olhar fez
John pensar que o Sr. Trent poderia levar um belo soco. Não
necessariamente dele, mas de alguém.
Quantas pessoas morreram só porque ele resolveu agitar um
pouco as coisas?
"Tudo bem, John". David disse baixo. "Tenho certeza que se o
Sr. Trent nos quisesse mau, não estaria aqui se apresentando".
John querendo ou não querendo, David estava certo. Ele
inspirou fundo e se afastou, decidindo que definitivamente não
gostava nada disso; pelo pouco que sabia do homem, não gostava
mesmo.
Vou ficar de olho em você, "amigo"...
Trent acenou, apesar de nenhuma pergunta ter sido feita, e
passou por John, sorrindo para todos. Ele fez um sinal para que se
sentassem em um lado do avião; tirou seu sobretudo, deixando-o de
lado, movendo-se devagar e com cuidado, sabendo que qualquer
movimento brusco seria prejudicial à sua saúde. Ele vestia um terno
preto, gravata preta e sapatos; John não conhecia roupas, mas os
sapatos eram da Asante. Trent tinha bom gosto, e um monte de
dinheiro para torrar com sapatos.
"Isso pode demorar um pouco". Ele disse. "Por favor, fiquem
confortáveis". Trent moveu-se para o topo de uma das poltronas do
lado oposto ao grupo, tão suave que fez John ainda mais
desconfortável. Ele se movia como alguém treinado, artes marciais
talvez...
Os outros sentaram ou se encostaram nas poltronas, cada um
estudando o intruso, tão preocupados com sua aparência quanto
John. Trent os estudou de volta.
"Eu já conheci o Sr. Andrews, Sr. Kennedy, Sr. Trapp...". Trent
olhou para Claire e Rebecca várias vezes, seus brilhantes olhos
finalmente caindo em Claire.
"Claire Redfield, certo?". Ele parecia um pouco hesitante, o que
não era surpresa. Rebecca e Claire podiam ser irmãs, ambas
morenas, mesma altura, alguns anos de diferença na idade.
"Sim". Claire disse. "O piloto sabe que você está à bordo?".
John franziu, irritado por não ter perguntado isso primeiro. Era
uma boa pergunta que ele não tinha pensado. Se o piloto o deixou
entrar...
Trent acenou, passando a mão em seu descabelado cabelo
preto. "Sim, sabe. De fato, o Capitão Evans é um conhecido meu, e
quando eu percebi que vocês estavam indo... viajar, eu fiz com que
ele estivesse na hora certa e no lugar certo. Foi mais fácil do que
parece, verdade".
"Por que?". David perguntou, uma elevação em sua voz que
John só havia escutado em combate. "Por que você faria isso, Sr.
Trent?".
Trent pareceu ignorá-lo. "Eu percebi que vocês estavam
preocupados com seus amigos no continente, mas deixem-me
assegurá-los de que eles estão muito bem. É sério, não há porque
se preocuparem –".
"Por quê?". A voz de David soou insensível.
Trent olhou para ele, e suspirou. "Porque eu não quero que
vocês vão para a Europa, e como o Capitão Evans é o piloto,
significa que vocês não vão. De fato, estaremos retornado a
qualquer momento.
Claire olhou para ele, sentindo seu estômago dar um nó,
sentindo esse nó se transformar numa quente e pesada raiva.
Chris, eu não vou ver o Chris – John se afastou da poltrona
onde estava encostado e agarrou o braço de Trent antes que Claire
pudesse abrir a boca, antes que qualquer um pudesse responder.
"Diga ao seu "conhecido" para continuar indo para onde
estávamos". John falou, olhando furioso para Trent. Pelo modo como
as mãos de Trent tremiam, Claire pensou haver uma boa chance de
Trent ter seu braço quebrado – e viu que não seria uma má idéia.
Trent parecia suavemente desconfortável, nada mais. "Sinto em
interromper seus planos," Ele disse. "mas se vocês ouvirem, acho
que vão concordar que é o melhor a fazer – se realmente querem
deter a Umbrela".
O melhor a se fazer? Chris, nós temos que ajudá-lo e os outros,
que droga é essa?
Ela esperou os outros explodirem em ação, a invadirem a
cabine do piloto, a amarrarem o Sr. Trent numa poltrona e forçarem-
no a se explicar – mas estavam todos quietos, olhando uns para os
outros e à Trent, com raiva – e interesse. John folgou seu agarre,
procurando em David uma orientação.
"É melhor ser uma boa história, Sr. Trent". David disse
friamente. "Eu sei que você – já nos ajudou antes, mas esse tipo de
interferência não é o tipo de ajuda que queremos ou precisamos".
Ele acenou para John que soltou o braço de Trent, recuando.
Claire percebeu.
Se Trent estava preocupado, não havia sinais. Ele acenou para
David e sua suave e musical voz começou a fluir.
"Sei que vocês estão a par de que a Umbrela Inc. tem
laboratórios por todo mundo, fábricas e lugares que empregam
milhares de pessoas, gerando centenas de milhões de dólares a
cada ano. A maior parte delas são legítimas companhias químicas e
farmacêuticas, e não têm relevância para essa conversa, exceto por
serem bem lucrativas; o dinheiro gerado pelo comércio legal da
Umbrela os permitem financiar suas operações menos conhecidas –
operações que vocês já tiveram o desprazer de presenciar.
"Essas operações são controladas por uma divisão conhecida
como White Umbrela, que mais tem a ver com as pesquisas em
armas biológicas. Poucos que sabem sobre o negócios da White
Umbrela, mas só os extremamente poderosos. Poderosos e
comprometidos a criar todos os tipos de desagradáveis armas
químicas, doenças fatais... a série de vírus T e G que tem sido
bastante problemática ultimamente".
É uma narração, Claire pensou com nojo, mas estava intrigada
para finalmente saber onde estava se metendo...
"Por quê?". Leon perguntou. "Artilharia química não é tão
lucrativo, qualquer um com uma centrífuga e material de jardinagem
pode fazer uma arma biológica".
Rebecca estava acenando. "É o tipo de trabalho que estão
fazendo, aplicando rápida fusão viral em redistribuição genética – é
incrivelmente caro e tão perigoso quanto lixo nuclear. Pior".
Trent balançou a cabeça. "Eles fazem porque podem. Porque
querem". Ele sorriu de leve. "Porque quando você é mais rico e mais
poderoso do que qualquer outro no mundo, você fica entediado".
"Quem fica entediado?". David perguntou.
Trent olhou para ele um pouco, e começou a falar de novo,
ignorando a pergunta de voz alta.
"O foco principal da White Umbrela está em soldados bio-
orgânicos – espécimes individuais, a maior parte alterada
geneticamente, todos injetados com uma variação de vírus com
intenção de torná-los mais violentos, fortes e insensíveis à dor. O
modo como esses vírus se amplificam em humanos, a reação
"zumbi", é nada mais do que um efeito colateral; os vírus que a
Umbrela cria não são feitos para uso em humanos, pelo menos até
agora".
Claire estava interessada, mas também ficando impaciente.
"Mas quando chegaremos na parte em que você nos diz porque está
aqui, porque não quer que vamos à Europa?". Ela perguntou, não se
importando em esconder a raiva em sua voz.
Trent olhou para ela, seus olhos escuros de repente ficaram
simpáticos, e ela percebeu que ele sabia porque estava nervosa,
que conhecia seus motivos para querer ir à Europa. Ela percebia
isso no modo como ele a olhava, dizendo que entendia – e de
repente ela se sentiu constrangida.
Ele sabe tudo sobre nós, não é...?
"Nem todos os laboratórios da White Umbrela são iguais". Ele
continuou. "Tem aqueles que lidam só com dados, outros com a
química, alguns onde espécimes crescem ou sofrem cirurgias – e
alguns poucos onde as criaturas são testadas. E isso nos leva para
o porquê de eu estar aqui, e porque decidi adiar seus planos.
Há uma área de teste da Umbrela pronta para ser ativada em
Utah, ao norte das salinas. Bem agora, o lugar está sendo usado por
uma pequena equipe de técnicos... treinadores de espécimes, e está
marcado para ficar totalmente operacional em três semanas. O
homem supervisionando as preparações finais é um dos ícones
chave da White Umbrela e se chama Reston. A tarefa deveria ser
conduzida por outra pessoa, um desprezível homenzinho chamado
Lewis, mas ele sofreu um infeliz e não totalmente planejado
acidente... e agora Reston está no cargo. E por ser um homem
muito importante por trás da White Umbrela, ele tem em seu poder
um pequeno livro preto. Só existem três livros iguais e os outros dois
são impossíveis de serem pegos...".
"E o que há neles?". John falou. "Vá ao ponto".
Trent sorriu para John como se tivesse perguntado
educadamente. "Cada livro é como um tipo de chave-mestra; cada
um tem um diretório completo de códigos usados para programar
cada sistema de cada laboratório da Umbrela. Com esse livro,
qualquer um pode invadir qualquer complexo e acessar tudo desde
arquivos pessoais à situações financeiras. Eles trocarão os códigos
caso algum livro seja roubado, claro – mas isso levaria meses".
Ninguém falou, só os motores do avião. Claire olhou para cada
um deles, viu as pensativas feições, viu que certamente estavam
considerando a proposta de Trent – e percebeu que não estavam
mais indo para a Europa.
"Mas e Chris, Jil e Barry? Você disse que estavam bem – como
você sabe? Claire perguntou, e David pôde ouvir o mal contido
desespero.
"Levaria muito tempo para explicar como eu sei". Trent disse
suavemente. "É certo de que não vão querer ouvir isso, eu acho que
vocês terão de confiar em mim. Seu irmão e os outros não estão em
perigo imediato, eles não precisam de companhia agora – mas a
oportunidade de pegar o livro de Reston, de entrar no laboratório, se
perderá em menos de uma semana. Ainda, não há sistema de
segurança, a maioria dos sistema nem estão ligados – e ficando
longe do programa de teste, não haverá criaturas para se
preocuparem".
David não sabia o que pensar. Parecia bom, parecia
exatamente a oportunidade que esperavam... mas também foi assim
com Caliban Cove. Com um monte de coisas.
Por confiar no Sr. Trent...
"O que você ganha com isso?". David perguntou. Por que você
quer agredir a Umbrela?".
Trent balançou os ombros. Considere isso como um
passatempo".
"Eu falo sério". David disse.
"Eu também". Trent sorriu, seus olhos ainda dançando com
humor.
"Mas por que você tem sido tão enigmático?". Rebecca
perguntou, e David acenou, vendo os outros fazerem o mesmo. "As
coisas que você deu à Jil e à David – todos enigmas e pistas. Por
que não nos diz o que precisamos saber?".
"Porque vocês precisam adivinhar". Trent disse. "Ou melhor, era
necessário que vocês parecessem ter adivinhado. Como eu disse
antes, há poucas pessoas que sabem o que a White Umbrela está
fazendo; se vocês parecessem saber demais, poderia cair tudo
sobre mim.
"E por que correr o risco agora?". David perguntou. "Por que
precisa de nós afinal? Você deve ter alguma conexão com a White
Umbrela; por que não vai à público, ou faz sabotagem?".
"Trent sorriu de novo. "Eu estou correndo o risco porque é hora
de correr o risco. Tudo o que posso dizer é que tenho meus
motivos".
Ele fala e fala, e ainda não sabemos o que diabos está fazendo
ou por que... como exatamente ele consegue isso?
"Por que você não nos conta alguns desses motivos, Trent?".
John não estava engolindo nada daquilo, David percebeu; ele
franzia para o clandestino, a ponto de querer bater nele.
Trent não respondeu. Ao invés disso, ele se desencostou da
poltrona e pegou seu casaco, virando para David.
"Eu acho que vão querer discutir isso depois de fazerem a
decisão". Trent disse. "Se me derem licença, eu usarei essa
oportunidade para falar com nosso piloto. Se vocês decidirem não
pegar o livro de Reston, eu sairei do caminho. Eu tinha dito que
vocês não tinham escolha, mas foi meu lado dramático aparecendo;
sempre há uma escolha".
Com isso, Trent virou e andou para a cabine do piloto, cruzando
as cortinas sem olhar para trás.
Capítulo 4
John quebrou o silêncio cerca de dois segundos depois que
Trent saiu de lá.
"Pro inferno com isso". Ele disse, parecendo tão bravo como
Rebecca nunca o tinha visto antes. "Eu não sei quanto a vocês, mas
eu não estou feliz sendo manipulado desse jeito – eu não estou aqui
para ser marionete do Sr. Trent, eu não confio nele. Eu proponho
fazer ele falar sobre a Umbrela, nos contar o que sabe sobre o
pessoal na Europa – e se ele nos der outra resposta negligente, nós
chutaremos o traseiro evasivo dele por aquela porta".
Rebecca sabia que ele estava muito bravo, mas não podia
fazer nada. "Sim, John, mas como você se sente, de verdade?". Ele
olhou na direção dela – e sorriu, de alguma forma, aquilo quebrou a
tensão de todos eles. Foi como se todos se lembrassem de respirar
ao mesmo tempo, a inesperada visita do misterioso benfeitor tornou
difícil lembrar de algumas coisas por alguns instantes.
"Nós temos o voto de John". David disse. "Claire? Eu sei que
está preocupada com Chris...".
Claire acenou devagar. "É, eu quero vê-lo de novo o mais cedo
possível...".
"Mas,". David disse.
"Mas – eu acho que ele está dizendo a verdade. Sobre estarem
bem".
Leon estava acenando. "Eu também acho. John está certo
sobre Trent estar sendo evasivo – mas eu não acho que esteja
mentindo, sobre nada. Ele não disse muito, mas eu não tive a
impressão de que ele estava nos enganando com o que iria dizer".
David virou o olhar. "Rebecca?".
Ela suspirou, balançado a cabeça. "Desculpe, John, mas eu
concordo com eles. Eu acho que Trent conseguiu alguma
credibilidade; nos ajudou antes com seu jeito estranho, e o fato de
estar aqui, desarmado, significa algo –".
"– significa que ele é burro". John falou sombriamente, e
Rebecca o bateu de leve no braço, percebendo de repente,
intuitivamente, o porquê de John estar tão relutante em aceitar a
palavra de Trent.
John não conseguiu intimidá-lo.
Ela estava certa disso, conhecia John o bastante para saber
que a indiferença de Trent iria certamente abalar John.
Escolhendo as palavras cuidadosamente, mantendo a voz
suave, Rebecca sorriu para ele. "Eu acho que você odiou o fato de
que ele não se intimidou com a sua grandeza assustadora, John. A
maioria das pessoas molhariam as calças com você se erguendo
sobre elas".
Era a coisa certa a se dizer. John franziu pensativamente,
depois balançou os ombros. "É, bem, talvez. Mas eu ainda não
confio nele".
"Nenhum de nós devia". David disse. "Ele está escondendo
muito de si para alguém que quer nossa ajuda. A questão é,
devemos achar esse Reston ou mantermos o plano original?".
Ninguém falou por um momento e Rebecca viu que ninguém
queria responder – para saber se Trent estava dizendo a verdade,
não era preciso ir a Europa. Ela também não queria falar, de alguma
forma parecia uma traição à Jil, Chris e Barry, do tipo "nós achamos
algo melhor para fazer ao invés de socorrê-los".
E se eles realmente não precisam de nós...
Rebecca decidiu que é melhor falar primeiro. "Se esse lugar é
tão fácil como ele diz... quando teríamos outra chance como esta?".
Claire mordia o lábio, infeliz. Parecendo rasgada. "Se acharmos
aquele livro de códigos, nós teríamos algo para levar à Europa. Algo
que realmente poderia fazer uma diferença".
"Se nós acharmos o livro". John disse, mas ainda formulava a
idéia.
"Seria uma reviravolta". David falou suavemente. "Reduziria
todos os excedentes contra nós de um milhão para um, talvez
alguns milhares".
"Eu tenho que admitir, seria bom revelar os planos secretos da
Umbrela para a imprensa". John disse. "Copiar todos os seus
malditos segredos e imprimi-los em cada jornal do país".
Todos estavam acenando, apesar dela achar que iria demorar
um pouco para se acostumar com a idéia.
Rebecca já sabia que a decisão tinha sido feita.
Parece que estavam indo para Utah.
Se todos esperavam que Trent fosse pular de alegria com a
decisão, estavam enganados. Quando David o chamou e disse, que
iriam para a zona de testes, Trent só acenou, o mesmo sorriso
enigmático em sua estática face.
"Aqui estão as coordenadas para o local". Trent disse, tirando
um papel do bolso da frente. "Há inclusive vários códigos numéricos
listados os quais darão permissão de entrada – apesar de ser difícil
achá-la. Sinto não ter me dedicado mais a isso".
Leon olhou enquanto David pegava o papel, enquanto Trent
voltava para contar ao piloto, imaginando por que não conseguia
parar de pensar em Ada. Desde o pequeno discurso sobre a White
Umbrela, memórias das habilidades e beleza de Ada Wong, o eco
de sua profunda e abafada voz tem o perseguido. Algo naquele
homem o lembrava dela; talvez a suprema auto-confiança, ou o leve
sorriso traiçoeiro – e no final, antes daquela mulher maluca atirar
nela, eu a acusei de ser uma espiã da Umbrela – e ela negou, disse
que não era de meu interesse para quem trabalhava...
Mesmo tendo entrado um pouco tarde nessa briga, Leon e
Claire ouviram o que os outros sabiam sobre a Umbrela, e que Trent
já havia aprontado antes. A única constante – apesar de ser muito
evasivo com informações – era que ele parecia saber de tudo mais
do que ninguém.
Não custa perguntar.
Quando Trent voltou, Leon se aproximou dele.
"Sr. Trent,". Disse cautelosamente, olhando-o de perto. "em
Raccoon City, eu conheci uma mulher chamada Ada Wong...".
Trent olhou para ele, suas expressões inalteradas. "Sim?".
"Estava pensando se você não saberia alguma coisa sobre ela,
para quem trabalhava. Ela estava procurando uma amostra do G-
virus –".
Trent ergueu as sobrancelhas. "Estava?. E ela conseguiu?".
Leon estudou os escuros olhos dele, imaginando porque achava
que Trent já sabia a resposta. Ele não podia, claro, Ada foi morta
antes do laboratório explodir.
"Sim, ela conseguiu". Leon disse. "No final, ela – ela se
sacrificou para fazer uma escolha. Entre matar alguém e perder a
amostra".
"E esse alguém era você?". Trent perguntou suavemente. Leon
percebeu que os outros estavam olhando e ficou surpreso por não
estar desconfortável. Mesmo um mês atrás, tal conversa pessoal
teria sido constrangedora.
"Era". Leon disse, quase desafiador. "Era eu".
Trent acenou devagar, sorrindo um pouco. "Então parece que
você não vai precisar saber de mais nada sobre ela. Sobre sua
personalidade ou motivações". Leon não sabia se ele estava
evitando a pergunta ou se dizia honestamente o que pensava –
mesmo assim a simples e lógica resposta fez Leon se sentir melhor.
Seja qual for a psicologia que estava usando, Trent era bom.
Ele é suave, culto e assustador pra diabo em seu quieto jeito de
ser... Ada teria gostado dele.
"... do quanto gostei de falar com você, mas tenho negócios
para tratar com nosso capitão". Trent estava falando. "Estaremos
em Salt Lake em cinco ou seis horas".
Com isso, ele acenou para eles e desapareceu pela cortina de
novo.
Leon olhou para os outros em volta, os viu pensativos e
desconfortáveis, viu Claire parecendo querer mudar de idéia.
Leon andou para a poltrona onde ela estava encostada de
braços bem cruzados, e tocou seu ombro.
"Pensando em Chris?". Ele perguntou gentilmente.
Para a surpresa de Leon, ela balançou a cabeça, sorrindo
tensamente para ele. "Na verdade não, eu estava pensando na
mansão de Spencer, na missão à Caliban Cove e o que acontece
em Raccoon. Estava pensando que não importa o quanto simples
Trent diz ser, nada nunca é fácil com a Umbrela. As coisas ficam
complicadas quando ela está envolvida.
Nós já devíamos saber disso...
Ela parou de falar, e balançou a cabeça como se para esquecer,
dando outro sorriso ainda mais brilhante. "Ouça!
Eu vou pegar um sanduíche, você quer alguma coisa?".
"Não obrigado". Ele disse, ainda pensando sobre o que ela
tinha dito – e imaginando, de repente, se a jornada para Utah seria o
último erro que cometeriam.
Steve Lopez, o bom e velho Steve, seu rosto tão branco e vazio
quanto um folha de papel, parado no meio daquele estranho
laboratório, parado e apontando sua semi para eles, dizendo para
largarem as armas – e a raiva, a dor, a fúria vermelha que acertou
John como um furacão ao saber que Karen estava morta, que Steve
tinha se tornado um daqueles soldados zumbis idiotas – e John
gritou, o que você fez com ele, sem pensar, girando e atirando na
vazia criatura atrás deles, a bala acertando em cheio a têmpora
esquerda e o frio ar fedendo como morte enquanto a criatura caía –
e dor! Dor rasgando por dentro enquanto Steve, seu amigo e
companheiro o baleava pelas costas. John sentiu sangue nos lábios,
sentiu-se virando, sentiu mais dor do que achava que podia. Steve o
tinha acertado, o doutor maluco tinha usado o vírus nele e Steve não
era mas Steve, e o mundo estava girando, gritando – John, John
acorde, você está tendo um – "- um sonho ruim. Ei, grandalhão –".
John se sentou, seus olhos bem abertos e seu coração
pulando, sentindo-se desorientado e com medo. A morna mão em
seu braço era de Rebecca, o toque gentil e confortante o fez
perceber que estava acordado.
"Droga". Ele resmungou, e encostou no assento, fechando os
olhos. Eles ainda estavam no avião, o leve ruído do motor pondo o
resto de sua confusão para dormir.
"Você está bem?". Rebecca perguntou e John acenou,
respirando fundo algumas vezes antes de abrir os olhos de novo.
"Eu – eu gritei ou alguma coisa parecida?".
Rebecca sorriu para ele, olhando-o de perto...
"Não. Acontece que eu estava voltando do banheiro e o vi se
contorcendo que nem um coelho. Não parecia que estava se
divertindo... espero não ter interrompido nada bom".
Foi quase uma pergunta. John forçou um sorriso e evitou o
assunto, olhando para a janela. "Três sanduíches de atum antes de
dormir foi uma má idéia, acho. Estamos chegando?".
Rebecca acenou. "Estamos começando a descer. Quinze ou
vinte minutos, David disse".
Ela ainda o observava, calorosa e preocupada, e John percebeu
que estava sendo um idiota. Guardar aquela besteira para si era um
bom motivo para perder a cabeça.
"Eu estava no laboratório". Ele disse, e Rebecca acenou, era
tudo o que precisava dizer. Ela também esteve lá.
"Eu tive o mesmo há alguns dias, logo depois de decidirmos sair
de Exeter". Ela disse suavemente. "Um bem nojento. Foi uma
espécie de combinação entre coisas da mansão de Spencer e de
Caliban".
John acenou, pensando no quanto notável ela era. Havia
enfrentado uma casa cheia de monstros da Umbrela em sua
primeira missão no S.T.A.R.S., e ainda decidiu ir com David para
vasculhar Caliban.
"Você é de arrebentar, 'becca. Se eu fosse um pouco mais
jovem, iria achar que estava apaixonado". Ele disse, e gostou de ver
a envergonhada reação dela. Ela era com certeza muito mais
esperta do que ele, mas também era uma adolescente – e
lembrando de sua época, as adolescentes não eram contrárias a
ouvir o quanto eram legais.
"Cala a boca". Ela disse, seu tom de voz o dizendo que tinha
conseguido deixá-la envergonhada, e que ela não se incomodava.
Um momento de confortável silêncio ficou entre os dois, as
últimas lembranças do pesadelo sumindo enquanto o avião descia.
Em alguns minutos, eles estarão em Utah. David já tinha sugerido
irem para um hotel e começarem a fazer planos, pois estariam
partindo amanhã à noite.
Entrar, pegar o livro e dar o fora. Fácil... exceto por ser o
mesmo plano para Caliban.
John decidiu que uma vez no chão, gostaria de falar com Trent.
Ele está na missão, de pegar o livro e passar algumas correntes no
trabalho da Umbrela – mas ainda não estava satisfeito com as
informações seletivas de Trent. É, o homem os estava ajudando –
mas porque é tão estranho? E porque não disse o que os outros
estavam fazendo na Europa, ou quem comandava a White Umbrela,
ou como conseguiu ter seu piloto no vôo deles?
Deve ser alguma viagem alucinante, não é? Manipulador.
Aquilo não parecia certo, mas John não tinha outros motivos
para pensar que Trent era um espião secreto. Se ele tiver o braço
torcido só um pouquinho, talvez pudesse ficar mais acessível...
"John – eu sei que não gosta dele, mas você acha que ele está
certo, que vai ser fácil? E se esse Reston não desistir? Ou se – se
algo mais acontecer?".
Ela tentava parecer profissional, sua voz leve e suave, mas o
confuso olhar no fundo de seus olhos escuros a revelou.
Algo mais? Algo como uma contaminação, algo como um
cientista maluco, como monstros se libertando. Como o "algo" que
sempre acontece perto da Umbrela...
"Se alguma coisa der errado será o terrível cheiro de Reston
quando borrar as calças". Ele disse, e foi novamente recompensado
com um sorriso da jovem.
"Você é um malvado". Ela disse, e John balançou os ombros,
vendo o quanto era fácil fazer uma garota sorrir – e pensando se era
bom aumentar as esperanças dela.
Alguns momentos depois, o avião tocou a pista e pela primeira
vez o piloto usou o interfone. Ele pediu que ficassem sentados até o
avião parar, sem se preocupar com a baboseira de esperar termos
gostado do vôo ou informar a temperatura; por aquilo John estava
agradecido. O pequeno avião andou pela pista finalmente parando,
todos se levantando e se espreguiçando, vestindo seus casacos.
Assim que ele ouviu a porta externa abrir, John passou por
Rebecca e foi para a cabine do piloto, determinado a não deixar
Trent sair antes de conversarem. Ele abriu a cortina, uma fria brisa
passou pela pequena passagem, e viu que era tarde demais. O
piloto Evans, estava de pé na passagem.
De alguma forma, Trent conseguiu escapar nos poucos
segundos que John levou para cruzar o avião. A escada de metal do
lado de fora estava vazia – e mesmo descendo-a em uma batida de
coração, não restava mais nada para ver além da interminável pista
de aterrissagem, e ninguém além do homem que abriu a escada. Ao
perguntar sobre Trent, o funcionário do aeroporto insistiu que John
foi o primeiro a ter saído do avião.
"Filho da mãe". John falou entre os dentes, mas não importava
pois já estavam em Utah. Com ou sem Trent, eles chegaram – e por
ser mais de meia-noite, eles tinham menos de um dia para se
aprontar.
Capítulo 5
Jay Reston estava feliz. De fato, há muito tempo não se sentia
tão feliz, e se soubesse que seria tão bom voltar à essa atividade, o
teria feito anos atrás.
Cuidar de empregados, do tipo que sempre sujam as mãos.
Fazer as coisas acontecerem e ver os resultados, ser parte do
processo. Ser mais do que uma simples sombra, mais do que uma
escuridão sem nome a ser temida.
Pensar nessas coisas o fez sentir-se forte e vivo de novo; ele
tinha quase 50 anos e mau se sentia na meia idade, e trabalhar na
trincheira de novo o fez perceber o quanto havia perdido nos últimos
anos.
Reston sentou na sala de controle, o pulso do planeta, suas
mãos atrás da cabeça e sua atenção fixada na parede de monitores
à frente. Em uma das telas, um homem de macacão estava
trabalhando numa série de árvores da Fase Um, colocando mais
uma camada de verde. O homem era Tom alguma coisa, da
manutenção, mas o nome não era importante. O importante era que
Reston tinha pedido isso pessoalmente na reunião de manhã.
Em outra tela, Kely McMalus estava recalibrando o controle de
temperatura do deserto, também a pedido de Reston. McMalus era a
responsável chefe do Scorps, pelo menos até a equipe permanente
chegar; todos no planeta eram temporários, uma das mais novas
regras da White para evitar sabotagem. Uma vez que tudo estiver
funcionando, os nove técnicos e meia dúzia de cientistas
preliminares – glorificados manipuladores de espécimens na
verdade, apesar de nunca tê-los chamado assim diretamente –
também serão relocados.
O Planeta. Na verdade, o complexo se chamava "B.O.W.
Envirotest A". (Teste ambiental de armas biológicas A), mas Reston
achou que Planeta era um nome muito melhor. Ele não tinha
certeza de quem surgiu com esse nome, mas foi numa das reuniões
matutinas e acabou ficando. Referir-se ao campo de teste como
Planeta o fez sentir-se ainda mais parte do processo.
"O vídeo foi ligado hoje, apesar de haverem problemas como os
microfones, que ainda não estão funcionando; cuidarei disso o
quanto antes. Os últimos Ma3k chegaram, sem danos a nenhum dos
espécimens. No geral, tudo está indo muito bem, nós esperamos ter
o Planeta pronto antes do previsto...".
Reston sorriu, pensando em sua última conversa com Sidney;
será que ele percebeu algum toque de inveja na voz de Sidney, um
fio de tristeza? Ele era parte de um "nós" agora, um nós que
chamava o Envirotest A por um apelido. Depois de trinta anos de
delegação, ter que supervisionar os toques finais do mais caro e
inovador complexo até agora, foi uma benção de disfarce. E pensar
que ficou irritado ao descobrir que o carro de Lewis caiu de um
penhasco; o acidente foi o melhor trabalho que já fez para a
Umbrela, porque significava que ele estaria supervisionando o
nascimento do Planeta.
Outro técnico estava cruzando um dos monitores, carregando
uma caixa de ferramentas e um rolo de corda.
Cole, Henry Cole, o eletricista que vem trabalhando no
intercomunicador e sistemas de vídeo; ele estava no corredor
principal que corria entre os alojamentos e a área de teste, na
direção do elevador. Reston percebeu no dia anterior que as
câmeras da superfície estavam com defeito; nenhuma das câmeras
do Planeta ainda está equipada com som, e de vez em quando os
monitores do conjunto superior mostravam estática, e Reston pediu
a Cole que checasse – mas só depois de terminar com o sistema de
comunicação. Como eu vou entrar em contato com as pessoas se o
intercomunicador ainda não funciona?
Até a irritação que sentia pelo técnico era divertida; ao invés de
apertar um botão e dizer para algum subordinado consertar, ele teria
que pedir pessoalmente.
Intercomunicador, sistema de vídeo... a ponte na Fase 3 precisa
de reforço, as cores da cidade, elas estão muito monótonas...
Ele andou pela polida sala de controle depois da fileira de
cadeiras de couro, tão novas que o cheiro ainda flutuava pelo filtrado
ar. Elas ficavam de frente para a parede coberta de monitores de
alta resolução; em menos de um mês, lá estarão se sentando os
melhores pesquisadores, cientistas e administradores que são o
coração da White Umbrela, tal como os dois maiores financistas do
programa. Até Sidney e Jackson estarão lá para ver o pontapé inicial
do programa de teste.
E Trent, Reston pensou esperançosamente. Ele certamente não
recusaria um convite para a inauguração...
Reston pisou na placa de pressão em frente a pesada porta de
metal, a mesma deslizando para cima com um suave suspiro, e saiu
para o largo corredor que corria o comprimento do planeta. A sala de
controle não era longe do elevador industrial, na verdade era quase
em frente, mas o eletricista já tinha ido para a superfície. Em uma
semana haverá quatro elevadores operando, mas por enquanto só o
industrial. Ele teria que esperar até Cole desembarcar.
Reston chamou o elevador e esticou as mangas de seu terno,
pensando em como conduzirá o tour. Já fazia um bom tempo desde
que Jay Reston teve o prazer de sonhar acordado, mas no pouco
tempo de planeta, pensando no dia em que receberá os outros e os
guiará pelo complexo que havia transformado numa ágil máquina,
acabou tornando isso um passatempo. Das poucos que dirigiam a
White Umbrela, que faziam as grandes decisões, ele era o mais
jovem a ser aceito no circulo interno – e mesmo Jackson já o ter
assegurado de que era tão valioso quanto qualquer outro, Reston
conseguiu perceber em duas ocasiões que era sempre o último a
ser consultado. A ser considerado.
Não antes disso. Não depois de eles virem que mesmo sem
uma dúzia de assistentes esperando pela minha palavra, eu
consegui deixar o Planeta pronto e funcionando sem problemas
antes do previsto. Eu queria ver Sidney fazer a metade...
Eles virão à noite, claro, e provavelmente em vários grupos. Os
responsáveis pelos espécimens ficarão na entrada para recebê-los e
levá-los aos elevadores (os novos, não a monstruosidade imunda
que estava esperando); na descida, os visitantes ouvirão tudo sobre
a eficiência e elegância dos dormitórios, o sistema de filtros de ar
auto-contidos, a ala cirúrgica – tudo o que fazia do Planeta a mais
brilhante inovação. Do elevador, ele os levará para a sala de
controle e explicará os ambientes e a atual série de espécimens, oito
de cada. Depois os levará para o norte, na direção do começo do
campo de teste.
Andaremos pelas quatro fases, depois veremos a sala de
autópsia e o laboratório químico. Nós teremos que parar e dar uma
olhada no Fóssil, claro, e depois pela área de convivência – onde
haverá café e aperitivos, sanduíches talvez – e depois circular de
volta à sala de controle para observar os primeiros testes. Só
espécimen contra espécimen, claro – experimentação humana
deprimiria um pouco as coisas...
Um suave tom trouxe sua atenção de volta para a realidade,
anunciando a chegada do elevador. A porta abriu, o portão deslizou
e Reston entrou na grande caixa, a plataforma de aço reforçado
fazendo barulho sob seus pés.
Poeira soprou do metal, caindo sobre o lustroso brilho de seus
sapatos.
Reston suspirou, apertando os botões que o levariam para a
superfície, pensando em tudo o que teve que fazer desde que
chegou ao Planeta há dez dias. – As coisas estavam indo, mas
nunca percebeu quantas inconveniências um tinha que sofrer para
tornar um lugar desse operacional – as refeições mornas e
indiferentes, a constante necessidade de prestar atenção em cada
pequeno detalhe sem falar no pó; por toda parte, finas camadas nos
cabelos e roupas, entupindo os filtros... até na sala de controle. Ele
teve que tomar todos os tipos de precaução para evitar o pó no
terminal central. Ele tinha que trabalhar com três programadores
diferentes para ter o computador central funcionando, mais uma das
precauções da Umbrela para evitar que alguém saiba demais; mas
se o sistema cair...
Reston suspirou, batendo no pequeno e fino quadrado em seu
bolso enquanto o elevador subia suavemente. Ele tinha os códigos;
se o sistema caísse, só teria que chamar novos programadores. Um
contratempo, longe de um desastre. Raccoon City, isso sim foi um
desastre – mais razões para querermos que tudo corra bem com o
Planeta.
Nós precisamos. Depois do verão que tivemos, a contaminação,
aqueles S.T.A.R.S. intrometidos, a perda de Birkin – uma ação que
resultou na perda de seu principal cientista e cerca de um bilhão de
dólares em equipamento, espaço e mão de obra. Não foi culpa dele,
claro, ninguém o culpou – mas foi um péssimo verão para todos
eles, e tendo o Envirotest A funcionando acalmaria bastante as
coisas.
Ele pensou no que Trent disse, um pouco antes de Reston
partir para o Planeta – desde que não percamos a cabeça, não havia
com o que se preocupar. É um conselho calmante, mas ouvindo isso
de Trent fez parecer uma verdade. Engraçado; eles trouxeram Trent
para resolver problemas, e em menos de seis meses ele se tornou
um dos membros mais respeitados do círculo. Nada abalava Trent,
ele era frio; eles tinham sorte em tê-lo, particularmente considerando
a recente onda de azar.
O elevador parou e Reston arrumou os ombros, preparando-se
para redirecionar os esforços do Sr. Cole – e só o pensamento de
fazê-lo pular o fez sorrir, pondo as outras preocupações de lado.
É só um zé ninguém operário, pensou feliz, e andou para cuidar
dos negócios.
Capítulo 6
Havia uma meia-lua no claro céu noturno, sua pálida luz azul
cruzando a vasta e aberta planície, fazendo parecer mais frio do que
estava.
E já estava bem frio, Claire pensou, tremendo apesar do
aquecedor. Era outra minivan, e mesmo com três se mexendo lá
atrás, checando armas e carregando clipes, não pareciam estar
gerando o mínimo de calor para evitar o ar gelado que vinha da fina
camada de metal.
"Você tem os 380?". John perguntou para Leon, que passou a
caixa de munição antes de voltar a encher as bolsas de amarrar na
perna. David dirigia e Rebecca os localizava no GPS. Se as
coordenadas de Trent estiverem certas, já estavam bem perto.
Claire olhou para a pálida paisagem passando pela empoeirada
estrada, os intermináveis quilômetros de nada sob o céu aberto, e
tremeu de novo. Era um lugar árido e abandonado, a estrada que
estavam nada mais que um caminho de terra sem destino algum;
perfeito para a Umbrela.
O plano era simples. Deixar a van a uns 600 metros das
coordenadas de Trent, armar-se com todas as armas que tinham,
entrar no complexo o mais silenciosamente possível...
"...acharemos o painel da senha, digitá-la, e entrar,". David tinha
dito. "logo depois que escurecer. Com alguma sorte, a maioria dos
funcionários estarão dormindo; é só achar os alojamentos e confiná-
los. Depois iremos atrás do livro do Sr. Reston. Se nós não o
acharmos em, digamos, vinte minutos, teremos que perguntar
pessoalmente – como última tentativa para evitar comprometer
Trent. De livro nas mãos, nós voltaremos por onde viemos.
Perguntas?".
A sessão de planejamento no hotel fez isso parecer fácil demais
– e com as poucas informações que tinham, as perguntas também
foram poucas.
Agora, dirigindo por uma vastidão interminável e gelada, e
tentando se preparar psicologicamente, não parecia mais tão
simples. Era assustador, ir a um lugar que ninguém havia estado
antes para procurar um item do tamanho de um livro de bolso.
E mais, é a Umbrela, e teremos que intimidar um bando de
técnicos e possivelmente ter que bater num dos grandões.
Pelo menos eles estavam bem armados; afinal, tinham
aprenderam algo sobre lidar com a Umbrela – que levar um pouco
de fogo não era uma má idéia. Além das pistolas 9mm e múltiplos
clipes para cada um, eles tinham dois rifles automáticos M-16 A1 –
um para John e outro para David – e seis granadas de
fragmentação. Por precaução, David disse.
Em caso de tudo dar errado. Em caso de nós termos que
explodir alguma criatura bizarra assassina – ou centenas delas...
"Frio?". Leon perguntou.
Claire virou-se da janela. Ele tinha terminado com as bolsas, e
estava segurando uma para ela. Ela pegou, acenando em resposta.
"E você, não?".
Ele balançou a cabeça, sorrindo. "Roupa de baixo térmica.
Podia ter usado uma dessas em Raccoon...".
Claire sorriu. "Você!? Eu estava correndo de shorts, pelo menos
você tinha seu uniforme".
"Que já estava coberto de tripas de jacaré na metade do
caminho dos esgotos". Ele disse, e ela ficou grata por ele ter feito
disso uma piada.
Ele está melhorando, nós estamos.
"Agora, crianças,". John disse severamente. "Se vocês não
pararem, nós daremos meia volta –".
"Diminua". Rebecca disse lá da frente, sua quieta voz calando-
os. David soltou o acelerador, a van diminuindo para um engatinhar.
Parece – que está a 600 metros a sudeste de nossa posição
atual". Rebecca disse.
Claire respirou fundo, viu John pegar um dos rifles e Leon
apertar os lábios numa fria linha enquanto David parava a van. Era
hora. John abriu a porta lateral, o ar gelado e seco.
"Espero que tenham café". John suspirou e saltou da van,
virando para pegar sua mochila. Rebecca carregou alguns
suprimentos médicos, e enquanto ela e David desciam, Leon tocou o
ombro de Claire.
"Você está afim de fazer isso?". Ele perguntou suavemente, e
Claire sorriu para dentro, pensando no quanto doce ele era; ela
esteve pensando em perguntar o mesmo. Nos dias desde Raccoon,
eles ficaram bem próximos – e apesar de não ter tido certeza, ela
percebeu alguns sinais de que Leon não se importava em se
aproximar. Ela ainda não sabia se era uma boa idéia – e agora não
é hora para decidir. O quanto antes pegarmos esse livro, o mais
cedo iremos para a Europa. Para Chris.
"Vou estar". Ela disse e Leon acenou, os dois descendo da van
para se juntarem aos outros.
David colocou John na retaguarda e ficou sozinho na frente,
forçando todos os pensamentos negativos para fora da mente
enquanto marchavam para onde Trent disse que o local estaria. Não
era fácil; eles estavam despreparados com menos de um dia de
planejamento, sem mapas, sem noção de como Reston era, ou que
tipo de segurança estariam enfrentando – a lista não tinha fim, não
é, e eu ainda estou levando eles. Caso tenhamos sucesso, eu posso
me aposentar. A Umbrela ficará tão bem quanto morta e ninguém
jamais precisará de mim de novo.
Esse foi um pensamento que guardou consigo; uma pacífica
aposentadoria. Quando os monstros por trás da White Umbrela
forem levados à justiça, ele só se preocupará em comer e tomar
banho...
"Eu acho – virar à esquerda alguns graus". Rebecca disse lá de
trás, trazendo-o sua atenção de volta. Ela tinha cochichado, mas a
noite estava tão fria e frágil, o ar tão perfeitamente parado que cada
passo dado e cada respiração parecia inundar o mundo.
David os guiou pelo escuro, desejando poderem usar as
lanternas; já devem estar bem perto. Mesmo vestidos de preto, ele
estava preocupado em serem pegos antes de entrar – seja lá o que
isso significaria; Trent não nos deu idéia de como o lugar seria.
Mesmo assim, com quase meia-lua no céu, ninguém os veria até
estarem bem debaixo do nariz deles – Ali.
Um engrossamento de sombra bem à frente. David ergueu a
mão, diminuindo os outros enquanto se aproximavam, enquanto via
um telhado metálico refletindo a luz lunar. Aí viu a cerca, e depois
um monte de construções, todas escuras e quietas.
David passou a andar agachado, acenando para os outros o
seguirem, apertando o rifle automático contra o peito. Eles
chegaram perto o bastante para ver o grupo de altas estrutura
térreas atrás da cerca.
Cinco, seis galpões, sem luz nem movimento – uma fachada
falsa com certeza...
"Subterrâneo". Rebecca cochichou, e David acenou.
Provavelmente, eles discutiram várias possibilidades e essa parecia
o mais comum. Mesmo com a pálida luz, ele pode ver que os
prédios eram velhos e sujos. Havia uma estrutura um pouco à frente
dos cinco longos e alinhados galpões, todos com telhado
arredondado. Era grande o bastante para ser algum campo de teste,
os galpões maiores tão grandes quanto hangares de aviões, mas o
local onde estava – sozinho no meio de um vasto deserto – velhos
do jeito que eram, tinha que ser sob a terra.
Bom e ruim. Bom porque poderiam invadir o lugar sem muitos
problemas; ruim porque só Deus sabe que tipo de sistema de
vigilância eles tinham. O jeito era entrar rápido.
David virou, ainda agachado, e olhou para a equipe.
"Nós vamos ter que acelerar". Disse suavemente. "e ficar
abaixados. Subimos a cerca na mesma ordem – eu na ponta, John
na retaguarda. Nós temos que achar a entrada o mais rápido
possível. Cuidado com câmeras e estejam todos armados ao
pisarem do outro lado".
Acenos para todo lado, faces apreensivas. David virou e foi para
a cerca, cabeça para baixo, músculos apertados e tensos. Vinte
metros, o ar batendo em seus pulmões, congelando o leve suor em
sua pele. Dez metros. Cinco, e pode-se ver os avisos de "Não
Ultrapasse" presos na cerca. Quando chegaram no portão, David viu
a placa dizendo que eles estavam em área particular usada pelo
"Monitoramento e Mapeamento Meteorológico #7". Ele olhou para
cima e viu as silhuetas arredondadas do que deveriam ser antenas
de satélite em dois dos galpões.
David tocou a cerca com o cano da M-16 e depois com a mão.
Nada, e também não havia arame farpado, nem sensores.
É óbvio, nenhuma estação meteorológica teria isso; a Umbrela
é tão precavida com suas fachadas do que com qualquer outra
coisa.
Ele pendurou o rifle no ombro, agarrou o grosso arame e subiu.
Eram só dois metros; foi para o topo em cinco segundos, passou
para outro lado e pulou no arenoso chão do complexo.
Rebecca foi depois, escalando rapidamente e com facilidade.
David se ergueu para ajudá-la, mas ela aterrissou ao lado dele sem
perder o equilíbrio. Ela sacou sua H&K VP70, e virou para cobrir a
escuridão enquanto David olhava para a cerca.
Leon quase caiu lá de cima, mas David o ajudou, agarrando seu
braço ao descer. Leon acenou para David que foi ajudar Claire.
Até agora, tudo bem...
David varreu as sombras em volta deles enquanto John subia
pelo lado de fora, seu coração pulando, todos os sentidos alertas.
Não havia som exceto o balançar da cerca sob a escuridão.
Ele olhou para trás quando John voltou para o chão, depois
acenou na direção da estrutura da frente, a menor.
Se ele fosse projetar uma falsa camuflagem, ele esconderia a
entrada num lugar que ninguém fosse procurar – num armário de
vassouras nos fundos do último galpão, através de um alçapão na
sujeira – mas a Umbrela era convencida, muito presunçosa para se
preocupar com simples precauções Vai estar no primeiro prédio,
porque eles acreditam que a esconderam tão bem que ninguém a
encontrará.
Porque se tem uma coisa que podemos contar, é que a
Umbrela se acha muito esperta para ser pega...
Assim esperava. Abaixado, David foi para o prédio, rezando
para que se houvessem câmeras, ninguém as estivesse vendo.
Era tarde, mas Reston não estava cansado. Ele sentou na sala
de controle, tomando pequenos goles de conhaque numa caneca de
cerâmica e pensando preguiçosamente na agenda de amanhã.
Ele fará seu relatório, claro; Cole ainda não tinha começado o
sistema de comunicação, apesar de todas as câmeras parecerem
funcionar direito; o responsável pelos Ca6, Les Duval, queria um
mecânico para verificar uma trava da jaula – e ainda tinha a cidade.
Os Ma3K não brilhariam exatamente se as únicas cores forem
bronze e vermelho tijolo.
... mandar o pessoal da construção para a Quatro amanhã. E
ver como os Av1 se comportam nos poleiros – Uma luz vermelha
piscou no painel à sua frente, junto com um suave alarme. Era a
sexta ou sétima vez desde a semana passada; tinha que mandar
Cole consertar isso também. A ventania lá em cima podia ser um
problema também; num dia ruim ela bate as portas dos galpões
forte o bastante para disparar os sensores.
Ainda bem que estou aqui... quando o Planeta estiver
totalmente funcional, sempre haverá alguém na sala de controle
para reiniciar os sensores, mas por enquanto, Reston era o único
com acesso à sala. Se ele estivesse na cama, o suave e insistente
alarme o teria forçado a se levantar.
Reston esticou-se para o botão, olhando para a fileira de
monitores à sua esquerda, não por esperar ver alguma coisa, mais
sim por uma questão de postura – e congelou, olhando para a tela
que mostrava a sala de entrada a quase 400 metros acima, na visão
de uma câmera no teto do canto sudeste. Quatro, cinco pessoas,
ligando lanternas, todos de preto. Os finos raios de luz vagavam
pelos consoles empoeirados, nas paredes de equipamentos
meteorológicos – e iluminaram as armas que seguravam.
Revólveres e rifles.
Ah, não.
Reston sentiu quase um segundo de medo e desespero antes
de lembrar quem ele era. Jay Reston não se tornaria o homem mais
poderosos do país, talvez do mundo, entrando em pânico.
Pegou o aparelho debaixo do console que o conectaria com os
escritórios particulares da White Umbrela. O canal abre assim que o
tirado do gancho.
"Aqui é Reston". Ele disse, e pode ouvir a frieza em sua voz,
ouvi-la e senti-la. "Nós temos um problema. Eu quero uma ligação
para Trent, eu quero que Jackson me ligue imediatamente – e
enviem uma equipe agora, eu a queria aqui para vinte minutos
atrás".
Ele olhou para a tela enquanto falava, para os intrusos, e
apertou os dentes, seu medo inicial virando raiva. Os S.T.A.R.S.
fugitivos com certeza...
Não importava. Mesmo se encontrarem a entrada, eles não
tinham os códigos – e seja lá quem eram, iriam pagar por tê-lo
causado um segundo de aflição.
Reston colocou o comunicador de volta no suporte, cruzou os
braços e olhou os estranhos movendo-se silenciosamente pela tela,
imaginando se eles sabiam que estariam mortos em meia-hora.
Capítulo 7
O galpão era frio e escuro, e havia um leve hum maquinário
funcionando para quebrar o silêncio, além do pulsar de seus
corações.
Não era muito grande, talvez 9m por 6, o suficiente para dar
insegurança e vulnerabilidade. Pequenas luzes piscavam
aleatoriamente por lá, como dezenas de olhos observando-os.
Cara, odeio isso.
Rebecca mirou a fina luz de sua lanterna na parede oeste,
procurando algo fora do comum e tentando não ficar enjoada. Nos
filmes, detetives particulares e policiais que invadem lugares,
sempre andam calmamente, procurando evidências como se
morassem no lugar; na vida real, invadir lugares que não deveria era
aterrorizante. Ela sabia que tinham o direito, de que eram os
mocinhos, mas ainda assim suas mãos suavam, seu coração
martelava e desejava desesperadamente que houvesse um
banheiro o qual pudesse usar. Sua bexiga parecia ter encolhido para
o tamanho de uma noz.
Eu vou ter que esperar a não ser que queira molhar território
inimigo... Rebecca não queria.
Ela se curvou para olhar de perto a máquina à sua frente, um
aparelho do tamanho de uma geladeira coberto de botões; uma
etiqueta na frente dizia "OGO Relay", seja lá o que for. Até onde
podia dizer, a sala estava cheia de máquinas barulhentas cobertas
de botões; se os outros galpões forem iguais a este, levará uma
noite inteira para achar o painel oculto de Trent.
Cada um ficou com uma parede e John foi verificar as mesas no
centro. Havia provavelmente uma câmera de segurança em algum
lugar, deixando-os mais apressados – eles esperavam que os
poucos empregados significassem que ninguém estaria olhando. Se
tiverem muita sorte, o sistema de segurança ainda nem estaria
conectado.
Não, isso seria um milagre. Sorte seria se entrássemos e
saíssemos vivos e ilesos, com ou sem aquele livro...
Desde que saíram da van, os alarmes internos de Rebecca vem
tocando até dar nos nervos. No pouco tempo com os S.T.A.R.S., ela
aprendeu que confiar na intuição era importante, talvez mais
importante do que uma arma; o instinto diz às pessoas para fugir de
balas, para se esconder quando o inimigo está próximo e a saber
quando esperar para agir.
O problema é, como você sabe se é instinto ou se está se
borrando de medo? Ela não sabia. Só sabia que não se sentia bem;
estava gelada e agitada, seu estômago sentindo a ansiedade e não
recusava a crença de que algo ruim iria acontecer.
Por outro lado, ela deveria estar assustada – eles todos
deveriam; o que faziam era perigoso. Algo ruim poderia acontecer e
não é paranóia, é realidade – olá. O que foi aquilo?
Bem à direita da máquina OGO tinha algo que parecia ser um
aquecedor de água, um aparelho alto e cilíndrico com uma pequena
janela de vidro na frente. Embaixo dela tinha uma bobina de papel
diagramado, cheio de linhas pretas, nada familiar – o que chamou
sua atenção foi a poeira no vidro. Era a mesma fina poeira que
parecia cobrir tudo na sala... mas com uma exceção. Havia um
rastro no pó, uma camada de névoa que podia ter sido feita pelo
dedo de alguém.
Um rastro na poeira?
Se alguém tivesse passado o dedo no vidro, teria limpado o
caminho por completo. Rebecca tocou o corpo da máquina,
franzindo – e sentiu a granulação da superfície da poeira,
minúsculos grãos sob seus dedos. Era pintado, talvez com um spray
– a poeira era falsa.
"Deve ter algo". Ela cochichou, e tocou a janela onde estava a
mancha. A janela abriu estalando, abanando para fora – e havia um
brilhante quadrado de metal lá dentro, dez teclas num painel
completamente sem poeira; o papel também era falso, apenas uma
parte do vidro.
"Bingo". John sussurrou atrás dela, e Rebecca recuou, sentindo
uma descarga de empolgação enquanto os outros se aproximavam,
sentindo a tensão de cada um. A junção de suas respirações fez
uma pequena nuvem na congelante sala, lembrando-a do frio que
sentia.
Tá frio demais... nós devíamos voltar para a van, voltar para o
hotel e tomar um banho quente... ela podia ouvir o desespero em
sua voz interna. Não era o frio, era aquele lugar.
"Brilhante". David disse suavemente, e deu um passo adiante,
erguendo sua lanterna. Ele tinha memorizado os códigos de Trent,
onze ao todo, cada um com oito dígitos.
"Vai ser o último, aposto". John cochichou. Rebecca teria rido
se não estivesse tão assustada.
John se calou quando viram David digitar os primeiros números,
Rebecca pensando que não ficaria tão desapontada se não
funcionassem.
Jackson tinha ligado, sua fria e culta voz informando Reston que
dois times de quatro homens haviam decolado de helicóptero de Salt
Lake City e estavam a caminho. "Acontece que o nosso
departamento estava entretendo algumas das tropas". Jackson
havia dito.. "Nós temos que agradecer Trent por isso; ele sugeriu
que recolocássemos antecipadamente uma parte de nossa
segurança para a grande inauguração, tal como para o
pronunciamento".
Reston ficou feliz em ouvir isso, mas nem tanto. O fato de haver
três homens armados e duas mulheres fuçando a entrada do
Planeta no meio da noite – "Eles não conseguirão entrar, Jay".
Jackson tinha mudado de assunto, gentilmente. "Eles não tem
acesso".
Reston acabou agradecendo-o ao invés de dar suas instintivas
e grosseiras respostas. Jackson Cortlandt era o mais protetor e
arrogante filho da mãe que já havia conhecido, mas também era
extremamente competente – e selvagem se precisasse ser; o último
homem que cruzou o caminho de Jackson voltou em pedaços para a
família através do correio. Dizer "de jeito nenhum" para ele era pedir
para pular de um prédio.
Jackson deixou bem claro, que embora tenha apreciado a
ligação, seria melhor se Jay lidasse sozinho com situações como
essa no futuro – se Reston tivesse se preocupado em avaliar os
procedimentos internos, teria descoberto sobre as equipes em Salt
Lake City. Não houve nenhum tapa explicito, mas Reston entendeu
o recado; ele desligou o telefone sentindo-se severamente
espancado; observar os cinco invasores só o deu mais nervosismo.
Sem códigos, sem acesso, mesmo se acharem os controles.
Vinte minutos. Tudo o que ele tinha a fazer era esperar vinte
minutos, meia-hora lá fora. Reston respirou fundo e exalou
vagarosamente – e esqueceu de inalar de novo quando viu um
deles, uma garota, abrindo a janela do painel. Eles acharam, e ele
ainda não sabia quem eram e como sabiam sobre o Planeta – e o
jeito como um dos homens avançou sobre o painel e começou a
teclar, mostrou que vinte minutos era tempo demais para esperar.
Ele está chutando números aleatoriamente, não é possível –
Reston observou o alto homem de cabelos escuros continuando a
digitar números, e pensou no que Trent havia dito na última reunião.
Que a White Umbrela podia sofrer vazão de informações.
Vazão de algum superior, alguém que pode saber os códigos de
entrada.
Ele foi para o telefone de novo e parou, o súbito aviso de
Jackson fazendo-o suar de leve. Ele tinha que cuidar disso, tinha
que impedi-los de entrar, mas todos estavam dormindo e não havia
interfone. Reston tinha uma arma em seu quarto mas se eles
tiverem a senha, ele não terá tempo de – desativar.
Reston virou-se do monitor e correu para a porta, chutando si
mesmo para fora da sala de controle. Havia um botão manual de
desligamento escondido num painel próximo ao elevador, podendo
manter o elevador lá embaixo mesmo se os intrusos tiverem os
números – e as equipes virão coletar nosso pequeno pacote de
invasores, eu terei que lidar com isso.
Ele sorriu, um sorriso totalmente sem humor, e correu em
disparada.
Leon observava ansiosamente enquanto David digitava outra
seqüência de números, esperando que ainda não tivessem sido
detectados. Ele não viu nenhuma câmera, mas isso não significava
que não houvesse uma; se a Umbrela consegue construir
laboratórios subterrâneos gigantes, conseguiria também esconder
uma câmera de vídeo.
David apertou a última tecla – e houve um som e movimento
juntos, o baixo hiss de hidráulica e o distante hum de um motor. Um
pedaço enorme da parede à direita do painel deslizou para cima.
Todos ergueram suas armas – e as abaixaram depois que viram a
grossa grade de metal e o preto vazio do poço de elevador atrás.
"Nossa". John disse, um tom de admiração em sua voz que
Leon tinha de concordar. A seção da parede tinha uns três metros
de comprimento, grossa e cheia de maquinários, desaparecendo no
teto em questão de segundos. Seja lá qual for o mecanismo, devia
ser extremamente poderoso.
"O que foi aquilo?". Rebecca sussurrou, e Leon o ouviu um
segundo depois, um distante hum. Aparentemente o código também
chamava o elevador, o crescente eco na fria escuridão do poço.
Estava subindo rápido, mas ainda seria uma longa descida. Leon
imaginou, não pela primeira vez, como a Umbrela conseguiu
construir algo assim; o de Raccoon também era enorme, com sabe
lá quantos pavimentos, tudo sob a cidade.
Eles devem ter mais dinheiro que Deus. E um baita arquiteto,
também.
"Nós devemos ter acionado algum sistema de alerta ou alarme".
David disse baixo. "Pode não estar vazio".
Leon acenou como todos; eles estavam quietos e tensos
enquanto esperavam, John apontando seu rifle para a grade.
***
Reston achou o liso painel e o abriu sem mais problemas – mas
havia uma trava no botão, uma fina haste de metal enganchada no
topo, impedindo-o de ser puxado para baixo. Só de ver a trava,
lembrou que era mais uma das precauções da Umbrela, uma que de
repente pareceu monumentalmente idiota.
As chaves, todos os empregados as tinham, eu ganhei um
molho antes de vir – Reston correu sua mãos pelo cabelo,
vasculhando seu cérebro desesperadamente. Onde eu coloquei as
malditas chaves de segurança?
Quando ouviu o elevador ser chamado à superfície alguns
segundos atrás, fez tudo o que pode para não gritar.
Eles tinham o código. Eles tinham armas, eram em cinco e
tinham os códigos.
Leva dois minutos para subir, eu ainda tenho tempo e as chaves
estão – Deu branco. Sua mente estava vazia e os segundos
estavam passando. Ele já chamou o elevador de volta, mas não
voltará se alguém abrir a grade lá em cima. Até onde sabia, os
assassinos, sabotadores ou seja lá o que eram, já tinham aberto a
grade e estavam olhando o elevador subir, esperando – ou talvez
jogando alguns quilos de explosivos no poço – ou – controle, eles
estão no controle!
Reston virou e correu pelo largo corredor, virando à direita e
correndo mais três metros pela bifurcação. Em seu primeiro dia no
Planeta, um dos construtores o mostrou todas as travas internas –
geradores, armário de remédios na cirurgia... desligamento manual
do elevador. Ele bocejou o tempo todo durante o passeio e jogou as
chaves numa gaveta da sala de controle, sabendo que não
precisaria delas.
Reston correu pela porta, decidindo que depois se daria uma
bronca por ter esquecido as chaves, pensando em como as coisas
fugiram do controle num período tão curto de tempo. Há dez minutos
estava degustando conhaque e relaxando – e daqui a dez minutos
você poderá estar morto.
Reston se apressou.
O elevador era grande, pelo menos três metros de largura por
uns três e meio de profundidade. John apertou os olhos quando
surgiu. A brilhante luz da única lâmpada no teto quase cegando-os
depois de tanto tempo no escuro.
Pelo menos está vazio. Agora tudo o que temos que fazer é
evitar sermos emboscados e mortos ao chegarmos lá embaixo.
O elevador parou suavemente. A trava destrancou e a grade
deslizou para dentro da parede. John estava mais perto. Ele olhou
para David, que acenou para ir em frente.
"Primeiro piso, sapatos, roupas masculinas e imbecis da
Umbrela". John disse, não se incomodando por não ter ouvido
risadas. Todos têm seu próprio modo de lidar com o nervosismo. E
seu senso de humor era bem mais desenvolvido.
E evoluído demais para eles, pensou, examinando as paredes
do elevador em busca de algo incomum. Bom, talvez não seja muito
evoluído; eles só não apreciavam seu bom gosto. Ele se manteve
entretido, isso era o importante, algo que o impedia de virar um cubo
de gelo.
O elevador parecia normal, sujo, porém sólido. John entrou com
cuidado, Leon atrás – e de repente John ouviu um barulho, bem na
hora que uma luz vermelha começou a piscar no painel de comando
do elevador.
"Não se mexam". John disse, erguendo a mão, não querendo
que ninguém mais entrasse até descobrir o que significava a luz – e
a grade de metal fechou atrás dele, a trava trancando. Ele girou, viu
que Leon estava à bordo, viu Claire e Rebecca agarrando a grade
do lado de fora e David correndo para o painel.
Houve um clique vindo de cima e Leon, que estava mais perto
da grade, gritou para Claire e Rebecca – "Afastem-se!". – pois a
porta estava descendo, caindo, e as garotas recuando. John viu
num piscar de olhos suas faces pálidas e chocadas lá fora – e a
parede fechou, mesmo não tendo apertado nada o elevador
começou a descer. John correu para os controles, apertando todos
os botões até ver o que significava a luz vermelha.
"Desligamento manual". Ele disse, olhando para o jovem policial
sem saber o que dizer. O simples plano tinha acabado de ir pro
espaço.
"Porcaria". Leon disse, e John acenou, concordando que isso
resumia tudo.
Capítulo 8
"Droga". Claire apertou os dentes, sentindo-se desprotegida e
com medo, querendo bater na parede até soltar os amigos.
Era uma armadilha, uma armação – "Ouçam... está descendo".
Rebecca disse, e Claire também ouviu. Ela virou e viu David
teclando no painel com uma mão, lanterna na outra, seu rosto
apertado.
"David". Claire começou, e parou quando David a olhou
rapidamente, como se pedisse para esperar. Ele mau parou de
digitar, voltando toda sua atenção para os controles.
Ela virou para Rebecca, viu que mordia o lábio tensamente,
olhando David.
"Deve estar tentando todos os códigos". Ela cochichou para
Claire, e a mesma acenou, enjoada e preocupada, querendo falar
mas vendo que David precisava de concentração. Comprometendo-
se, Claire se inclinou e sussurrou com Rebecca; se ficasse parada,
quieta no escuro, iria perder a cabeça.
"Acha que foi Trent?".
Rebecca franziu e balançou a cabeça. "Não. Acho acionamos
um alarme silencioso ou algo assim. Eu vi uma luz piscar no
elevador antes da grade fechar".
Rebecca soou tão assustada quanto estava, Claire pensou no
quanto tinha se aproximado de John. Talvez tanto quanto de Leon.
Claire instintivamente agarrou a mão de Rebecca, esfregando-a
fortemente, ambas observando David.
Vamos, um deles tem que abri-la, trazê-los de volta...
Alguns tensos segundos se passaram e David parou de teclar.
Ele apontou a lanterna para cima, o reflexo suficiente para se
enxergarem.
"Parece que os números não funcionam se o elevador estiver
em uso". Ele disse. Sua voz estava calma, mas Claire podia ver
seus dentes bem apertados, os músculos de seu rosto contraindo.
"Depois eu tento de novo, e de novo – sendo que alguém mais
pode ter acesso aos controles do elevador, deveríamos considerar
outras opções. Rebecca – procure alguma câmera, veja os cantos e
o teto; se formos ficar aqui, precisaremos de privacidade. Claire,
veja se pode achar alguma ferramenta que possamos usar na
parede – pé de cabra, chave de fenda. Se os códigos não
funcionarem, forçaremos a entrada. Perguntas?".
"Não". Rebecca disse, e Claire balançou a cabeça.
"Bom. Respirem fundo e comecem".
David voltou para o painel e Rebecca foi para o canto da sala,
apontando a lanterna para o teto. Claire respirou fundo e virou,
olhando para a mesa empoeirada no centro da sala.
Havia gavetas em cada lado; ela abriu a primeira, revirando
papéis e pensando que David era realmente bom sob pressão.
Pé de cabra, chave de fenda, qualquer coisa... tome cuidado,
por favor, não seja morta...
Claire forçou para respirar fundo outra vez; e depois abriu a
próxima gaveta, continuando sua busca.
John assumiu e Leon ficou muito feliz por segui-lo. Ele pode ter
sobrevivido em Raccoon, mas o ex-S.T.A.R.S. esteve dentro e fora
de situações de combate por mais ou menos nove anos; ele venceu.
"Abaixe-se". John disse, já fazendo o mesmo, e depois deitou
de bruços, armando a M-16. "Se for uma emboscada, eles vão mirar
alto quando a porta abrir; aí nós acertamos os joelhos deles".
Leon se deitou ao lado dele, apoiando o braço direito com a
mão esquerda, sua 9mm apontada sem alvo para a porta. Lá fora, o
escuro passava, nada para ver além do poço com armação de
metal. "E se não for?".
"Levante-se e pegue a direita, eu pego a esquerda, fique aqui
se puder. Se estiver mirando numa parede, vire-se e atire baixo".
John o olhou – incrivelmente, um largo sorriso se espalhou por
seu rosto. "Pense na diversão que eles perderam.
Nós vamos transformar alguns caras da Umbrela em porcaria, e
eles estão presos no escuro com frio sem nada pra fazer".
Leon estava um pouco tenso para sorrir apesar de ter feito
força. "É, algumas pessoas ficam com toda a sorte".
John balançou a cabeça, seu sorriso sumindo. "Nada para
fazermos além de ir à luta". Ele disse e Leon acenou, engolindo.
John pode ser louco, mas estava certo. Eles estavam onde
estavam, pensar o contrário não mudaria nada.
Mas não custa tentar. Cristo, eu queria nunca ter pisado nessa
coisa.
O elevador continuou descendo e ambos se calaram,
esperando. Leon estava grato por John não ser do tipo falante; ele
gostava de fazer piadas mas levava à sério situações perigosas.
Leon o viu respirando fundo, olhando para a M-16, preparando-se
para o que iria acontecer.
Leon respirou fundo algumas vezes, tentando relaxar com a
cabeça abaixada – e o elevador parou. Houve um leve ping, um
som, e a grade estava se movendo, sumindo na parede. A porta
interna sem janela ergueu-se ao mesmo tempo, uma luz suave
vazando por ela – e não havia ninguém. Uma polida parede de
concreto a seis metros de distância, um polido chão de concreto.
Um vazio cinza.
Levante, vamos!
Leon saltou do chão, seu coração rápido demais, John calado e
de pé mais rápido ainda. Um rápido olhar entre eles e ambos deram
um passo para fora, Leon girando sua VP70 para a direita, pronto
para atirar – e nada de novo. Um largo corredor que parecia ter um
quilômetro de comprimento, um suave e misturado cheiro de
desinfetante com ar frio. Frio, mas nem tanto. Se comparado com a
superfície, lá embaixo parecia verão. O corredor devia ter uns cento
e trinta metros, talvez mais; havia alguns corredores
perpendiculares, luminárias circulares no teto espaçadas em
intervalos regulares, e nenhuma sinalização – e nenhum sinal de
vida, também.
Então quem nos trouxe para baixo? E porque, já que não
pretendiam nos receber com algumas balas?
"Talvez estejam todos jogando bingo". John disse baixo, e Leon
olhou para trás, viu que exceto pela disposição dos corredores
laterais, seu lado era igual ao de John. E tão vazio quanto.
Os dois voltaram para o elevador. John alcançou os controles,
apertou "subir" e nada aconteceu.
"O que foi agora?". Leon perguntou.
"Não pergunte para mim, o cérebro de David não está aqui",
John disse. "Eu me pareço com ele?".
"Meu Deus, John". Leon disse frustrado. "Você é o mais velho
agora; me dá um tempo, tá bom?".
John deu com os ombros. "Certo. Veja o que eu acho. Talvez
não foi uma armadilha. Talvez... se fosse uma, eles teriam tentado
nos pegar e estaríamos no meio de um tiroteio bem agora".
E o tempo. O elevador só ficou lá em cima por alguns segundos
– como se alguém tivesse percebido que nós o tínhamos chamado...
"Alguém estava tentando nos impedir de entrar, não é?". Leon
disse, mas não perguntando realmente. "Para não nos deixar
descer".
John acenou. "Dê um prêmio para esse cara. E se estivermos
certos, isso significa que estão com medo de nós, pois não há
segurança, certo? Seja lá quem nos desceu, provavelmente se
trancou em alguma sala.
"Relativo ao que fazer agora,". Ele continuou. "estou aberto à
sugestões. Seria bom voltar para os outros, mas se não
descobrirmos como fazer o elevador subir...".
Leon franziu, pensando, lembrando que antes de Raccoon ter
destruído sua carreira, havia sido treinado como policial.
Use as ferramentas que ganhou...
"Vasculhar o local". Leon disse devagar. "O mesmo plano de
antes, pelo menos a primeira parte dele. Verificar os empregados e
depois se preocupar com o elevador. Achar Reston vai ter que
esperar –".
John ergueu a não de repente, interrompendo-o, sua cabeça
inclinada para um lado. Leon prestou atenção, mas não ouviu nada.
Alguns segundos passaram e John abaixou a mão. Confuso, ele
balançou a cabeça, mas seus olhos escuros estavam atentos e o
rifle bem junto ao corpo.
"Boa idéia,". Ele disse finalmente. "se conseguirmos achar os
malditos empregados. Direita ou esquerda?".
Leon sorriu de leve, lembrando da última vez que precisou
escolher uma direção. Ele tinha ido para a esquerda no laboratório
da Umbrela em Raccoon e acabou num corredor sem saída; voltar
quase custou sua vida.
"Direita". Leon respondeu. "Esquerda tem más associações
para mim".
John levantou uma sobrancelha mas não disse nada;
estranhamente suficiente, ele pareceu satisfeito com o motivo de
Leon.
Talvez ele seja louco. Louco o bastante para fazer piadas ruins
no meio de situações como essa.
Juntos, eles voltaram para o longo e vazio corredor, indo para a
direita, devagar, John vigiando a retaguarda e Leon checando cada
corredor lateral. O primeiro ficava à esquerda, a uns quatro metros
do elevador.
"Espere". John disse, e entrou no curto corredor, andando
rapidamente para uma porta no fundo. Ele girou a maçaneta e
voltou, balançando a cabeça.
"Pensei ter ouvido algo". Ele disse, e Leon acenou, pensando
em como seria fácil para alguém matá-los.
Trancado numa sala, espera a gente passar e pow...
Mau pensamento. Leon o deixou de lado e continuou a lenta
marcha pelo corredor, mirando em cada centímetro com suas
armas, Leon percebendo que a roupa de baixo térmica foi uma má
idéia depois que o suor começou a correr pelo corpo – e imaginando
como a situação piorou tão rápido.
Reston teve uma idéia.
Ele quase entrou em pânico depois de ouvi-los dizer coisas que
não deveriam saber, escondido na sala de controle com a porta
entreaberta. Quando ouviu um deles dizer seu nome, Reston sentiu
o pânico subir pela garganta em forma de bile, cobrindo sua mente
com visões de sua própria morte horrível. Depois disso ele fechou a
porta e a trancou, encostando-se nela enquanto tentava pensar,
vendo suas opções.
Quando um deles mexeu na maçaneta, ele quase gritou – mas
conseguiu ficar quieto, silencioso até o intruso se afastar. Demorou
um pouco até se recuperar daquilo, até lembrar que podia dominar
algo assim; estranhamente, foi o pensamento de Trent que fez isso
por ele. Trent não entraria em pânico. Trent saberia exatamente o
que fazer – e certamente não correria chorando para pedir a ajuda
de Jackson.
Ao invés disso, Reston pensou várias vezes em pegar o
telefone enquanto olhava os monitores, vendo-os aterrorizar seus
empregados. Eles eram eficientes, ao contrário de seus comparsas
na superfície, tentando chamar o elevador. Levou cinco minutos
para reunir todos os funcionários na área de lazer; eles foram
ajudados pelo fato de haver cinco deles acordados jogando cartas
no refeitório, três da construção e dois mecânicos. O jovem branco
os vigiou enquanto o outro foi para o dormitório e acordou o resto,
levando-os para o refeitório, amontoando-os com sua automática.
Reston estava desapontado com a péssima performance de
seu pessoal, nenhum lutador entre eles, todos com medo. Quando
as equipes da cidade chegarem, ele terá alguma ajuda, mas até lá
tudo de ruim pode acontecer.
"Achar Reston vai ter que esperar...".
E quando eles descobrirem que eu não estou no grupo de
reféns? O que eles querem? O que poderiam querer se não for pedir
resgate ou me matar?
Ele estava a ponto de ligar para Sidney, mas Jackson
certamente acabaria descobrindo – arriscaria o apoio de seus
colegas, arriscaria perder seu espaço no alto escalão caso
sobreviva a essa invasão.
Ele já estava pegando o telefone quando percebeu que alguém
estava falando. Reston se aproximou do monitor do refeitório,
franzindo, esquecendo o telefone. Haviam quatorze pessoas
agrupadas no meio da sala, os dois intrusos a uma certa distância.
Onde está o outro? Quem é o outro?
Reston tocou a tela, marcando cada rosto. Os cinco da
construção. Dois mecânicos. O cozinheiro. O manipulador de
espécimes, todos os seis...
"Cole". Ele murmurou, enrugando os lábios. O eletricista, Henry
Cole. Ele não estava lá.
Uma idéia começou a surgir, mas dependia de onde Cole
estava. Reston mexeu nos controles dos monitores, esperançoso,
querendo ver uma chance não só de sobreviver, mas de, de –
vencer. De se sobressair.
Havia vinte e duas telas na sala de controle, cerca de cinqüenta
câmeras espalhadas pelo Planeta e na estação "meteorológica". O
Planeta foi construído com o vídeo em mente, um sistema bem
simples; da sala de controle podia-se ver quase qualquer parte de
qualquer corredor, sala ou Fase, sendo as câmeras posicionadas
em pontos estratégicos. Achar alguém era só uma questão de
apertar botões para trocar de tela.
Reston viu as áreas de teste primeiro, cada conjunto de
câmeras da Fase 1 à Fase 4. Sem sorte. Tentou a área de ciência,
ala cirúrgica, o laboratório químico, até a sala de estase; e mais uma
vez não viu ninguém.
Ele não está nos dormitórios, os intrusos certamente
vasculharam tudo... e não há motivo para estar na superfície.
Reston sorriu de repente, acionando as câmeras internas e
envolta das jaulas. Cole e os mecânicos tem usado as jaulas para
guardar equipamentos e ferramentas.
Ali!
Cole estava sentado no chão entre as celas 1e 9, fuçando uma
caixa de pequenas peças de metal, suas magras pernas esticadas à
sua frente.
Reston olhou para o refeitório, viu que os dois intrusos pareciam
estar conferindo, olhando o inútil grupo de empregados. Na
superfície, os outros três ainda mexiam no painel e procuravam pra
lá e pra cá...
A idéia tomou forma, as possibilidades vindo uma a uma, cada
uma mais interessante que a outra. Os dados que podia coletar, o
respeito que ganharia, resolvendo seu problema ao mesmo tempo,
se auto-promovendo.
Eu podia editar as fitas juntas, ter algo para mostrar aos meus
visitantes depois do Tour – e Sidney não ficará insatisfeito quando
Jackson ver o que eu consegui, como eu lidei com a situação. Serei
o iluminado para uma mudança...
Resto se levantou, ainda sorrindo, nervoso, mas esperançoso.
Ele tinha que se apressar e usar todas as suas habilidades de
ator com Cole; sem problemas, considerando que passou trinta
anos de sua vida desenvolvendo-os, afiando-os... antes de se juntar
à Umbrela, Reston foi um diplomata.
Iria funcionar. Eles queriam Reston e iriam ter.
Capítulo 9
Cole estava revirando inutilmente uma caixa de transistores
bipolares, achando-se um idiota, pois deveria estar dormindo. Já
devia ser quase meia-noite, tinha trabalhado duro o dia todo para o
Sr. Blue, e ainda tinha que arrastar seu traseiro cansado por mais
seis horas, fazendo o mesmo. Estava cansado, tudo porque o último
idiota que andou pelo Planeta com uma caixa de ferramentas fez
tudo errado.
Não é minha culpa, pensou de repente, que o tonto não
conectou os leads nos MOSFETs antes de instalá-los. E os
condutes externos são uma porcaria, ele não entende o sistema de
instalação do Planeta... imbecil incompetente...
Talvez esteja pegando pesado, mas não estava distribuindo
perdão depois do dia que teve. O Sr. Blue foi bem explícito em
querer as câmeras da superfície primeiro – mas depois voltou atrás
e insistiu que arrumasse o sistema de comunicação primeiro. Cole
sabia que estava de saco cheio – como todos no Planeta – mas
Reston era um dos superiores; quando ele diz "pule", você pula.
Cole vem trabalhando para a Umbrela há um ano e ganhou mais
dinheiro nesse período do que nos últimos cinco anos juntos. Ele
não irritaria o Sr. Blue (chamado assim por seus perpétuos ternos
azuis) e ir para o olho da rua.
Você tem certeza? Depois de tudo o que viu nas últimas
semanas?
Cole abaixou a caixa de transistores e esfregou os olhos;
estavam quentes e coçando. Ele não tem dormido muito bem desde
que veio trabalhar no Planeta. Não que fosse do tipo sentimental,
mas não dava a mínima para o que a Umbrela fazia com o dinheiro.
Porém – porém é difícil sentir-se bem com relação à esse lugar. É
um show de aberrações.
Neste ano com a Umbrela, ele fez a instalação elétrica de um
laboratório químico na costa oeste, instalou um monte de novos
circuitos para um grupo de pensadores na outra costa, e na maior
parte do tempo fez manutenção onde quer que a Umbrela o
mandasse. Bom salário, nada muito difícil, colegas decentes – a
maioria como ele, fazendo coisas como as dele. E tudo o que tinha
que fazer fora de lá era não falar nada do que via; ele assinou um
documento sobre isso quando foi contratado, e nunca teve
problemas. Mas até então, nunca tinha visto o Planeta.
Quando a Umbrela te entrevista, eles não explicam nada. É só
"conserte aquilo". Você concerta e é pago. Até conversas entre os
empregados sobre os propósitos desse lugar são fortemente
desencorajadas. Mesmo assim palavras escapam, e Cole soube o
bastante para não querer mais trabalhar para a Umbrela.
Havia criaturas que serviam de animais de teste. Ele não
chegou a vê-las, nem a coisa que chamavam de Fóssil, a aberração
imóvel, mas já as ouviu algumas vezes. No meio da noite, ele ouviu
um uivo arranhado que o arrepiou até os ossos, um som como um
pássaro gritando. E teve o dia na Fase 2 enquanto realinhava uma
das câmeras, quando ouviu o barulho, como unhas arranhando
madeira oca – mas o som era animal também. Vivo.
Ele ouviu que foram criados especialmente para a Umbrela,
algum tipo de híbridos genéticos que seriam bons para estudo, mas
híbridos de que? Todas as criaturas tinham apelidos bizarros e
desagradáveis, também. Ele ouviu alguns caras da pesquisa falando
sobre eles mais de uma vez.
Dacs. Scorps. Spitters. Hunters. Soa como um elenco
engraçado – de um filme de terror.
Cole se levantou, esticando seus cansados músculos, ainda
com pensamentos infelizes. Tinha Reston, claro; o cara era um
tirano de grau A, e do pior tipo – do tipo com muito poder e sem
nenhum pingo de paciência. Cole estava acostumado a trabalhar
com o tipo manipulador, mas o Sr. Blue era demais para sua zona
de conforto. O homem era intimidador como todo o inferno.
Mas isso não é o pior, é?
Ele suspirou, olhando em volta para as doze celas alinhadas na
sala, seis de cada lado. Não, o pior estava à sua frente. Cada cela
tinha uma cama, uma bacia sanitária e uma pia – e amarras, nas
paredes e nas camas.
E o bloco de celas estava a menos de seis metros da "ante-
sala" do primeiro ambiente, onde as portas tem travas pelo lado de
fora.
Depois disso, eu penso seriamente sobre minhas prioridades;
eu economizei o bastante para uma folga, para ganhar
perspectivas...
Cole suspirou de novo. Isso será bom para mais tarde. Por
enquanto só precisava dormir. Ele virou e andou para a porta,
desligando as luzes ao abri-la – e lá estava Reston. Apressando-se
pela curva do corredor que levava aos elevadores, parecendo
extremamente preocupado.
Droga, o que foi aquilo?
Ao vê-lo, Reston praticamente correu até ele, seu terno azul
amassado, o que era fora do comum, seu pálido olhar para a direita
e esquerda.
"Henry". Reston ofegou e parou na frente dele, suspirando forte.
"Graças à Deus. Você tem que me ajudar. Há dois homens,
assassinos, eles invadiram e estão aqui para me matar, e eu preciso
de sua ajuda".
Cole ficou mais surpreso com sua aparência do que com o que
foi dito; ele nunca tinha visto Blue com o cabelo fora do lugar, ou
sem aquele pequeno e presunçoso sorriso, resultado de ser o dono
de uma incrível fortuna.
"Eu – o quê?".
Reston respirou fundo, exalando devagar.
"Desculpe. Eu só – o Planeta foi invadido, há dois homens aqui
me procurando. Eles querem me matar, Henry. Eu os reconheci de
uma tentativa frustrada há menos de seis meses; eles postaram um
homem na superfície e estou preso, eles vão me achar e –".
Ele parou, sufocado, e estava tentando não chorar? Cole o
encarou, pensando. Ele me chamou de Henry. "Por que estão
tentando te matar?". Ele perguntou.
"Eu comandei uma operação contra uma rebelião hostil, uma
companhia de empacotamento – o homem que prendemos era
instável e jurou que me pegaria. E agora estão aqui, trancando
todos no refeitório bem agora – mas só estão atrás de mim – eu já
pedi ajuda, mas não chegarão a tempo. Por favor, Henry – você me
ajuda?
Eu – eu faço valer a pena, eu te prometo. Você não vai mais
precisar trabalhar de novo, seus filhos não precisarão ter que
trabalhar...".
O apelo nos olhos de Reston era desconcertante; nem teve
como dizer que não tinha filhos. Ele estava aterrorizado, seu rosto
enrugado, seu cabelo prateado arrepiado em mechas. Mesmo sem
a oferta monetária, Cole teria oferecido ajuda.
Talvez.
"O que você quer que eu faça?".
Reston meio que sorriu de alívio, na verdade esfregando o
braço de Cole. "Obrigado, Henry. Obrigado, eu – eu não tenho
certeza. Se você puder – eles só querem a mim, se você puder
distraí-los de algum jeito".
Ele franziu, seus lábios tremendo, e olhou atrás de Cole, para a
pequena sala que marcava a entrada dos ambientes. "Aquela sala.
Ela tem uma trava do lado de fora e dá na Um – se você puder atraí-
los, entrar na Um... eu poderia trancá-los lá dentro, trancar a ala
inteira assim que você sair. Você vai direto para a Quatro e sai pela
ala médica, eu a destrancaria assim que você sair".
Cole acenou incerteza. Deveria funcionar, exceto por – "Eles
não te conhecem? Digo, eles devem ter uma foto sua, não?".
"Eles não saberão. Só te verão por uns segundos, quando eles
fizerem a curva, você já terá ido. Assim que entrarem, eu apertarei
os controles – eu posso me esconder na área das celas".
Os olhos de Reston estavam boiando, brilhando com lágrimas
não derramadas. Ele estava tão desesperado – planos iam e vinham
e esse não era tão ruim.
"Tá, tá bom". Cole disse, e o olhar de gratidão no rosto do velho
homem foi acolhedor.
Quase. Seria se ele fosse um ser humano decente.
"Você não vai se arrepender disso, Henry". Reston disse, e Cole
acenou, incerto sobre o que dizer.
"Você ficará bem, Sr. Reston". Disse finalmente, desconfortável.
"Não se preocupe".
"Tenho certeza que sim, Henry". Reston disse, e virou, andando
para o escuro bloco de celas sem mais nenhuma palavra.
Cole parou por um segundo, e deu com os ombros pra dentro,
indo para a ante-sala, tenso, mas um pouco irritado também. O Sr.
Blue estava assustado, mas ainda era um idiota.
"Não se preocupe também, Henry" ou "Tome cuidado". Nem
mesmo um "Boa sorte, tomara que não atirem em você por
engano"...
Ele balançou a cabeça e entrou na pequena sala. Se ele
ajudasse o Sr. Blue, pelo menos poderia ir dormir, ou quem sabe se
demitir do Planeta ou da Umbrela. Deus sabia que ele precisava
descansar; ultimamente não tem dormido bem.
Rebecca finalmente achou a câmera. A lente não maior que
uma moeda estava escondida no canto sudoeste. Ela chamou David
e ele a cobriu com a mão, desejando ter procurado melhor antes de
entrar com sua equipe. Ele foi burro, John e Leon certamente se
foram por causa disso.
Claire tinha achado um rolo de fita e outras cosias em sua
busca. David passou a fita na câmera imaginando o que fariam.
Estava frio, tão frio que não sabia por quanto tempo seus reflexos
continuariam bons. Os códigos não estavam funcionando, seria
necessário mais do que tinham para abrir a parede, e dois de sua
equipe estavam em algum lugar abaixo, talvez feridos, talvez
morrendo...
... ou infectados. Infectados como foram Steve e Karen,
sofrendo, perdendo a humanidade – "Pare com isso". Rebecca
disse, e ele desceu da mesa que tinham empurrado, quase sabendo
o que aquilo significava, mas não pronto para admitir. Rebecca tinha
um jeito de tirá-lo dos piores momentos.
"Parar com o quê?".
Rebecca se aproximou dele, olhando para seu rosto, segurando
sua lanterna com uma mão.
"Você sabe o quê. Você está com aquele olhar, eu posso vê-lo;
você está se dizendo que foi sua culpa. Que se tivesse feito algo
diferente, eles ainda estariam aqui".
Ele suspirou. "Eu aprecio sua preocupação, mas esse não é o
apropriado –".
"Sim, é sim". Ela interrompeu. Se você for se culpar, não
pensará direito. Você não está mais no S.T.A.R.S., você não é o
capitão de ninguém. Não é sua culpa".
Claire foi se juntar à eles, seu olhar curioso e alerta apesar da
preocupação em seus delicados traços. "Você acha que é culpa
sua? Pois não é. Eu não acho".
David jogou as mãos para cima. "Meu Deus, tá bom! Não é
minha culpa, e todos nós podemos analisar minha responsabilidade
quando e se sairmos daqui; por enquanto, por favor, podemos nos
concentrar com o que temos pela frente?".
Ambas acenaram.
Feliz por ter acabado com a sessão de terapia antes de ter
começado, David percebeu depois que não sabia o que fazer – que
tarefas dar além das que já fizeram, como resolver a crise, o que, e
como dizer. Era um momento terrível; ele estava acostumado em ter
algo com a qual lutar, algo para reagir, atirar ou planejar, mas a
situação parecia estática. Não havia um caminho para seguir, e isso
era bem pior do que a culpa pela falta de previsão.
Foi só naquele momento que ele ouviu o distante e
inconfundível zunido de um helicóptero se aproximando.
Nada para dar cobertura exceto a superfície, e nunca
conseguiremos chegar até a van, e só temos dois ou três minutos –
"Nós temos que sair daqui". David disse, já pensando nas coisas
que fariam se tivessem uma chance, mesmo enquanto todos
corriam para a porta.
Os funcionários foram fáceis. Houve alguns momentos tensos
ao tirá-los de suas camas escuras nos dormitórios, mas nenhum
incidente. John vem desconfiando de alguns deles desde que os
trouxe para o refeitório onde Leon vigiava os jogadores de cartas –
em particular, dois grandões que pareciam ter problemas com
machismo, e um magro e encurvado cara de olhos profundos que
não parava de lamber os lábios. Parecia compulsivo; a cada
segundo a língua dele passava entre os lábios e aí desaparecia por
mais alguns segundos. Pavoroso.
Mesmo assim, não houve problemas. Quatorze homens e
nenhum querendo bancar o herói, depois que John os apresentou
uma pequena lógica. Ele foi curto e grosso: nós estamos aqui para
achar algo, nós não planejamos machucar ninguém, nós só
queremos vocês fora do caminho enquanto saímos daqui. Não
sejam burros e não serão baleados. Ou a lógica ou a M-16 foi o
bastante para convencê-los de que seria melhor não argumentar.
John ficou perto da porta no grande corredor, olhando o infeliz
grupo sentado no meio da grande sala em volta da longa mesa.
Alguns pareciam bravos, outros assustados e a maioria só
cansados. Ninguém falou, o que era bom para John; ele não queria
se preocupar com ninguém tentando elaborar uma rebelião.
Apesar de sua razoável certeza, tudo estava bem, e ficou grato
por ouvir o leve toque na porta. Leon tinha saído há cinco mas
pareceu ter demorado bem mais. Ele entrou segurando um pedaço
de corrente e dois arames de cabide.
"Algum problema?". Leon perguntou, e John balançou a cabeça,
mantendo a atenção no quieto grupo.
"Calados e comportados". Ele disse. "Onde você achou a
corrente?".
"Caixa de ferramentas, numa das salas".
John acenou e ergueu a voz, mantendo a clama.
Muito bem, pessoal, já vamos partir. Nós agradecemos pela
paciência...".
Leon o cutucou, cochichando. "Pergunte se Reston está aqui".
John suspirou. "Você acha que ele responderia se estivesse
aqui?".
Leon balançou os ombros. "Não custa tentar, não é?".
Coisas mais estranhas já aconteceram...
John limpou a garganta e falou de novo. "Há um homem
chamado Reston aqui? Nós só temos uma pergunta, não iremos
machucá-lo".
Os homens olharam para os dois e John imaginou por um
segundo se eles sabiam o que faziam lá; se sabiam o que a Umbrela
fazia. Eles não se pareciam com nazistas, eles se pareciam com um
bando de operários. Como caras que deram duro o dia inteiro e
gostariam de beber algumas cervejas à noite. Como – como caras.
E com o que nazistas se parecem? Essas pessoas são uma
parte do problema, estão trabalhando para o inimigo, não vão nos
ajudar – "O Blue não está aqui". Um grande homem de barba e
camiseta respondeu, um dos que John estava de olho.
Sua voz era rouca e irritante, seu rosto ainda amassado de
dormir.
John olhou para Leon, surpreso, e viu o novato do mesmo jeito.
"Blue?" John perguntou. "Esse é Reston?".
Um homem de cabelo comprido e mãos manchadas de graxa
no fim da mesa acenou. "Sim. Senhor Blue pra você".
Deu para perceber o sarcasmo. Houve alguns olhares trocados
entre o grupo sentado – e alguns risos.
Reston é uma das pessoas-chave, Trent disse. E como todos
odeiam seus chefes... será que falariam alguma coisa sobre ele para
dois terroristas?
Reston deve ser bem impopular.
"Há mais alguém trabalhando aqui que não está nesse
refeitório? Leon perguntou. "Não queremos ser surpreendidos".
O comprometimento era óbvio, e também não conseguiriam tirar
mais nada dos empregados. Eles deviam odiar Reston, e John pôde
ver através dos braços cruzados e sobrancelhas franzidas que não
iriam delatar um dos seus. Ele duvidava que houvesse mais alguém
por aí. Trent havia dito que era uma equipe pequena...
... o que significa que foi Reston que nos trouxe para baixo,
significa que podemos matar dois pássaros se o acharmos –
pegaremos os livro e o faremos subir o elevador de novo. Nós
trancamos Reston num armário, encontramos David e as garotas e
fugimos antes que alguma coisa inesperada aconteça.
John acenou para Leon e juntos foram para a porta. John
percebeu que não queria só sair pela porta, ele tinha uma certa
simpatia por eles. Mas não muita.
"Nós vamos trancar a porta,". John disse. "vocês ficarão bem
até a companhia mandar alguém, vocês tem comida... e se não se
importarem com um pequeno conselho, ouçam – a Umbrela não é o
mocinho. Seja lá o quanto vocês ganham, não é o suficiente. Eles
são assassinos".
Os olhares vazios os seguiram até a porta dupla. Leon a fechou
e passou a corrente nos puxadores, prendendo-a com o arame dos
cabides. John andou alguns passos e olhou para o longo corredor
cinza do elevador. Havia uma curva não muito longe dos dormitórios
– mas Reston não está para lá, John pensou, lembrando-se do som
que ouviu quando chegaram. Ele está na direção que escolhemos,
em algum lugar.
Leon terminou de prender as portas e foi até John, parecendo
um pouco pálido mas ainda lúcido. "Então... agora vamos atrás de
Reston?".
"Sim". John disse, pensando em como Leon estava indo bem,
dadas as circunstâncias. Não tinha muita experiência, mas era
esperto, tinha estômago e não tremia com uma arma. "Você está
agüentando?".
Leon acenou. "Sim. Eu só estou – você acha que eles estão
bem lá em cima?".
"Não, eu acho que estão congelando o traseiro esperando por
nós". John disse sorrindo, esperando estar certo – esperando que
Reston não tenha soltado os cachorros, ou qualquer coisa do tipo,
depois que desligou o elevador.
Ou chamado ajuda...
"Vamos logo com isso". John disse, e Leon acenou enquanto
desciam o corredor para ver o que era o quê.
Capítulo 10
Eles saíram na escuridão do complexo, o som das hélices do
helicóptero se aproximando, Rebecca viu as luzes a pouco menos
de oitocentos metros à noroeste, planando, mirando o holofote no
chão do deserto.
A van, eles a acharam.
Claire também viu, mas David estava olhando para os galpões
atrás deles enquanto pendurava seu rifle, seu intenso olhar
elaborando um plano.
"Eles vão ter que aterrissar do lado de fora da cerca". Ele disse.
"Sigam-me de perto". Ele correu pela escuridão, o som do
helicóptero crescendo atrás deles.
Deus, espero que ele veja melhor do que eu, Rebecca pensou,
apertando forte sua 9mm, o frio metal contra seus finos dedos. Ela e
Claire correram enquanto ele ia para uma das escuras estruturas, a
segunda da esquerda para a direita na linha de cinco. Ela não sabia
porque ele havia escolhido aquele, mas ele tinha um motivo, sempre
tinha.
Eles correram pelo corredor preto entre o primeiro e o segundo
galpão, o congelante ar queimando seus pulmões, saindo em forma
de vapor que não podia ver. O whackawhacka do helicóptero afogou
seus passos, afogou quase tudo o que David disse ao parar, uma
porta de cada lado deles.
"... para nós nos escondermos até... não possamos... voltar...".
Rebecca acenou e David parou de falar, virando à esquerda,
apontando a arma para a porta do primeiro galpão.
Rebecca e Claire o seguiram, Rebecca imaginando o que ele
estava disposto a fazer; se as pessoas do helicóptero descessem
para vasculhar – o que com certeza iriam fazer – a porta à prova de
balas os denunciaria. Parecia ser feita de algum plástico de alta
densidade – tinha uma maçaneta e um buraco de chave ao invés de
um leitor de cartão. A estrutura em si era de algum tipo de estuque
sujo e empoeirado, nenhuma cor em particular que poderia dizer; o
de trás parecia igual; nenhum deles tinha janelas.
O holofote do helicóptero estava na cerca em frente ao
complexo, seu brilho perfurando o escuro como uma chama. Um
nevoeiro de poeira subia pela luz, manchando-a, e Rebecca
pensando em terem apenas um minuto antes de serem vistos; o
complexo não era tão grande.
Bambambambam!
Quase todo o barulho foi abafado pelo helicóptero. Mesmo no
escuro, Rebecca podia ver o contorno dos buracos, a maioria na
região da fechadura. David recuou e a chutou fortemente. Outro forte
chute – e ela abriu, um profundo buraco negro na parede.
O feixe de luz se movia pelo complexo, a lisa barriga da
aeronave passando quase que sobre suas cabeças enquanto
iluminava o outro lado do primeiro galpão. O trovão do motor e as
nuvens de poeira fizeram Rebecca se sentir como se a Morte
estivesse se aproximando; não a morte, mas a Morte, alguma besta
de poder impiedoso e intenção implacável...
David virou e agarrou as duas, puxando-as firmemente para a
porta aberta. Assim que passaram, ele acenou para elas pararem e
esperar. David empunhou seu revólver e correu pelo espaço aberto,
parando junto à porta do segundo prédio, inclinando seu copo e –
BAM, o som da 9mm mais alta que os .233 do rifle, mas ainda
perdido quando o helicóptero avançou em sua direção – e a porta
abriu, David voou pela abertura, meio segundo antes da luz iluminar
o chão entre eles. Os cartuchos das balas gratamente perdidos na
poeira, as nuvens giratórias tornando difícil a respiração. Ela virou e
viu que Claire tinha coberto o rosto com a blusa, fazendo o mesmo.
O frio e o pesado ar foi filtrado pelo tecido, e apesar do
ensurdecedor barulho, Rebecca pôde ouvir suas rápidas e
assustadas batidas de coração.
Um segundo depois, a luz se foi; um segundo depois que a
poeira pareceu estar abaixando; a súbita falta de luz forçando seus
olhos a se adaptarem – "Você está bem?".
Rebecca pulou assim que David praticamente gritou no seu
rosto, só uma sombra à sua frente. Claire deu um pequeno grito.
"Desculpe!". David disse. "Vamos! O outro prédio!".
Quase sem enxergar, Rebecca cambaleou para fora, Claire ao
seu lado. David foi atrás delas, tocando-as pelas costas, guiando-as
até o galpão. O helicóptero ainda se afastava deles, do norte para o
sul, mas em breve não haverá mais nada para ver – eles pousarão e
virão vasculhar. Não havia dúvidas de que o helicóptero era da
Umbrela; a única pergunta era quantos estavam nele e quais eram
suas ordens – capturar ou matar?
Assim que passaram pela porta do segundo prédio, Rebecca
entendeu o que David tinha feito. Os capangas da Umbrela iriam ver
os tiros na outra porta e assumiriam que os intrusos estariam lá.
Ele só atirou no buraco da fechadura desta. Eles viriam mais
tarde, mas isso nos daria mais tempo.
Assim ela esperava. O escuro estava tão frio quanto lá fora e
cheirava poeira. Uma baixa luz acendeu, David estava segurando
sua lanterna. Foi o suficiente para verem que estavam cercados por
caixas. Grandes, pequenas, de papelão e madeira, alinhadas em
estantes e no chão até o arqueado teto. Deviam haver milhares
delas.
"Eu vou ver o que posso fazer sobre a porta e cortar a luz".
David disse. "Achar um lugar para se esconder. É a nossa melhor
opção até descobrirmos quantos são e o que pretendem fazer. Eles
devem ter visão noturna, não é bom ficar no chão – talvez um lugar
alto ou um canto. As estantes seriam melhores. Entenderam?".
Ambas acenaram e a luz apagou, deixando-os na completa
escuridão; antes ela podia ver silhuetas e formas.
Agora, Rebecca não conseguia ver sua mão em frente ao seu
rosto.
"Qual canto?". Claire cochichou, como se o frio escuro
demandasse silêncio.
Rebecca alcançou a mão de Claire, colocando-a em suas
costas. "Esquerda. Vamos para a esquerda até acharmos algo".
Ela ouviu um sussurro de movimento atrás deles enquanto
David se preparava. Respirando fundo, Rebecca esticou os braços à
frente e começou a andar.
Todas as portas ao longo do corredor e estavam trancadas,
com exceção de um depósito de utilidades depois do elevador; lá
não tinha nada de interessante, a não ser que prateleiras com papel
higiênico e copos descartáveis fossem importantes. Eles tinham
tentado o elevador de novo, mas não tiveram sorte, e não parecia
haver fusíveis ou um quadro de força perto dele. Isso já era de se
esperar e mesmo assim Leon sentiu-se agoniado. Os outros três
deviam estar preocupados de verdade...
... e você está? E se algo deu errado lá em cima? Talvez a área
de "teste" seja na superfície. Reston pode ter libertado alguns
espécimes guerreiros lá em cima e bem agora, Claire deve estar –
"O que você acha de usarmos as granadas na próxima porta
trancada? Eu tenho duas". John disse, parecendo irritado. Eles
acabaram de tentar a nona porta do silencioso corredor, e estavam
próximos da curva mais ao norte. Tudo o que sabiam era que já
tinham passado por Reston, ou pelo caminho que os levaria até ele.
"Vamos pelo menos ver o que há depois da curva antes de
começarmos a explodir". Leon disse, apesar de também já ter
perdido a paciência. Não que se importasse em danificar algumas
das propriedades da Umbrela, só não era a prioridade – reunir a
equipe era. Eles já tinham decidido que voltariam para o refeitório
caso não achassem Reston, e pegariam um funcionário para
consertar o elevador, e dane-se Reston; a missão seria um fracasso,
mas pelo menos estariam vivos para lutar outro dia.
Se é que todos ainda estão vivos...
Eles chegaram na curva e a passaram, John levantando a M-16
e abaixando a voz. "Eu cubro?".
Leon acenou, movendo-se próximo a parede interna. "No três.
Um... dois... três –".
Ele deu um rápido passo longe da parede, agachando-se e
apontando sua semi para a asa oeste do corredor enquanto John
colocava o rifle em volta da curva. O corredor era bem mais curto,
não mais que vinte metros, acabando na abertura de uma sala sem
porta. Havia uma porta à esquerda – e alguém cruzou a abertura no
final do corredor, a rápida forma de um homem.
Reston.
Leon o viu, magro, não muito alto, usando jeans e uma
camiseta azul de trabalho. Sr. Blue bem como eles disseram...
"Parado!". John gritou, e Reston virou, assustado e desarmado.
Ele viu a M-16 e pulou fora da abertura, talvez indo para uma saída
– e Leon correu sacudindo os braços para ganhar velocidade, John
rapidamente passando-o numa veloz corrida.
Eles entraram na sala em um instante e lá estava Reston,
empurrando desesperadamente uma porta à direita.
Ele olhou aterrorizado sobre os ombros quando eles entraram,
seus olhos largos de pânico.
"Não quer abrir!". Ele gritou, sua voz no ápice da histeria. "Abra
a porta!".
Com quem ele está falando?
"Desista, Reston". John gritou – e atrás deles, uma placa de
metal desceu sobre a abertura, lacrando-os na sala com um brutal e
pesado clank.
Leon olhou para baixo, viu que o chão era de placas de aço – e
sentiu sua primeira pancada de desconforto.
Reston virou-se, suas mãos para o alto, suas finas expressões
contorcidas de medo. "Eu não sou ele, não sou Reston". Ele
tagarelou, seu pálido rosto liso de suor – e atrás deles, uma face
apareceu na janela da porta de metal, distorcida pelo grosso vidro,
mas obviamente rindo. Um homem mais velho, usando um escuro
terno azul.
Ah, não – O homem desviou o olhar por um momento, uma
mão tocando algo que Leon não podia ver – e uma suave e culta voz
flutuou na sala através de um alto falante no teto.
"Sinto muito, Henry". O homem disse, seu rosto deformado pelo
vidro. "E permitam-me que eu me apresente.
Eu sou Jay Reston. E seja lá quem vocês sejam, estou muito
feliz em conhecê-los. Bem vindos ao programa de teste do Planeta".
Leon olhou para John, que ainda apontava o rifle para o quase
histérico Henry. John olhou para ele e Leon pôde ver a consciência
sumindo de seus olhos, ao mesmo tempo em que sumia dos seus.
Eles estavam extremamente atolados na merda.
Isso!
Reston riu atordoado. Os intrusos estavam presos e os três na
superfície estavam provavelmente sendo pegos pelas equipes – ele
tinha cuidado da situação, e o fez brilhantemente.
Claro que não tem graça sem ninguém para apreciar... mas eu
tenho uma audiência cativa, certo?
"Nós não estamos programados para entrar on-line antes de 23
dias". Reston disse, sorrindo largamente, já imaginando o olhar na
cara inchada de Sidney.
"Nesse tempo, eu iria iniciar nosso programa cuidadosamente
projetado para um grupo de pessoas extremamente importantes.
Seria apenas com o uso de espécimes. Não tínhamos planejado
colocar humanos nas fases, por enquanto. Mas graças à vocês, eu
farei minha pequena filmagem mostrando para que nossos
espécimes foram criados. Por enquanto, seus amigos na superfície
vão ser pegos, sinto em dizer – mas vocês três já são o suficiente,
eu acho. Sim, vocês serão o suficiente".
Reston riu de novo, incapaz de se conter. "Vocês podem querer
matar Henry antes de começar, ele vai atrasar vocês – e ele atraiu
vocês para cá, não foi?".
Cretinos!".
Henry Cole se afastou da parede e foi para a porta, socando-a
com os punhos. O metal de 5cm nem balançou.
Reston balançou a cabeça, ainda sorrindo. "Eu sinto muito,
Henry; nós sentiremos sua falta. Você nunca terminou o sistema de
intercomunicação, não é? Nem o áudio... mas pelo menos você
arrumou este, pela qual eu posso te agradecer. Está claro o
bastante aí? Tem estática?".
Seja lá qual demônio tinha possuído o eletricista, o fazia pular
na porta e respirar sufocadamente. O maior dos intrusos, o fortão de
pele escura com o rifle, foi até a porta com uma expressão
ameaçadora.
"Você não vai nos fazer passar por nenhum teste". Ele disse,
sua profunda voz tremendo de raiva. "Vá em frente e nos mate, pois
não estamos sozinhos – e a Umbrela vai cair, e de alguma forma
estaremos lá para ver".
Reston respirou. "Bom, vocês estão perto de não estar lá. Mas
para o resto... vocês são uns daqueles S.T.A.R.S., não são? Vocês e
sua campanha popular não são nada para nós; vocês são moscas,
uma amolação.
E vão participar –".
"Participe disso". O grandão gritou, agarrando sua entreperna.
Mesmo pelo grosso vidro, o gesto foi inconfundível.
Vulgar. Os jovens de hoje não têm respeito pelos mais velhos...
"John, porque você não usa uma das granadas?". O outro
intruso disse friamente, e Reston suspirou de novo.
"As paredes são revestidas de aço e a porta ficará de pé por
mais tempo do que vocês. Vocês só conseguirão explodir a si
mesmos. Seria uma pena – mas se vocês querem, então façam".
Eles não pareciam ter uma resposta boa para isso. Ninguém
falou, apesar de Reston ainda poder ouvir as tagarelices de Cole
pelo interfone.
Reston se cansou de irritá-los; as equipes na superfície logo
entrarão em contato e precisaria estar na sala de controle.
"Se os senhores me derem licença". Ele disse. "Eu tenho outras
coisas para resolver – como soltar nossos bichinhos em seus novos
lares. Além de descansar eu estarei vendo como se saem; tentem
passar por duas fases pelo menos, se puderem".
Reston se afastou da janela até o painel de controle à esquerda,
e digitou o código de ativação. Um dos homens começou gritar que
não iria a parte alguma, que não conseguiria fazê-los – e Reston
apertou o botão verde, o mesmo que simultaneamente abria a porta
da Um – e liberava através um spray de gás lacrimejante na
pequena ante-sala, através de aberturas no teto. Reston voltou para
a janela, interessado em ver o quanto efetivo o processo era.
Em segundos, uma névoa branca desceu envolvendo os três.
Reston ouviu gritos e tosses. Um segundo depois ouviu a porta
abrir, o que significava que a tinham cruzado.
As placas pressurizadas no chão ficaram encobertas até agora,
houve um baixo chiado enquanto o sistema de ventilação
funcionava, limpando a sala em menos de um minuto.
Bom. Ele precisava lembrar de elogiar o designer que havia
recomendado o sistema.
"Eu farei uma nota". Reston disse para ninguém. Ele endireitou
suas lapelas e virou na direção da sala de controle, empolgado para
ver como os homens lidariam com as novas adições à família da
Umbrela.
Capítulo 11
Cole não tinha opção senão correr atrás dos assassinos,
chocado e enjoado, seu coração adoecido com vingança e ódio. Ele
foi abandonado à morte por Reston, o homem que até encorajou os
assassinos à matá-lo – ele já não sabia mais se eram assassinos,
ele não sabia o que era "stars" – ele não sabia mais nada além de
seus olhos estarem queimando e de não conseguir respirar.
Pelo menos faça ser rápido, rápido e indolor...
Depois de entrarem na Um, a porta fechou atrás deles. Cole se
encostou no frio metal, forçando para recuperar o fôlego, viscosas
lágrimas vazando por entre suas pálpebras. Ele não queria vê-los
puxar o gatilho, preferia não sofrer o suspense antes de morrer;
morrer já era o bastante.
Talvez eles só me deixem aqui.
A pequena esperança que o pensamento lhe trouxe foi
estampada imediatamente assim que uma grande e áspera mão
agarrou seu braço e o chacoalhou.
"Ei, acorde!".
Cole abriu seus olhos molhados relutantemente, piscando
rapidamente. O negro grandão estava olhando para ele, parecendo
bravo o bastante para começar a bater, seu rifle apontado para o
peito de Cole.
"Você quer explicar que droga de lugar é esse?".
Cole se encolheu na porta, sua voz gaguejando. "Fase Um. Flo-
floresta".
O homem rolou os olhos. "Sim, floresta, isso eu sei. Mas por
quê?".
Jesus ele é enorme!
O cara tinha músculos nos próprios músculos. Cole balançou a
cabeça, certo de que seria esmurrado, mas incerto do que o homem
estava perguntando.
O outro deu um passo à frente, parecendo mais preocupado do
que bravo. "John, Reston ferrou ele também.
Qual é mesmo o seu nome? Henry?".
Cole acenou, desesperado para não irritar ninguém. "É, Henry
Cole, Reston disse que vocês queriam matá-lo e pediu que eu
ficasse lá dentro, ele só ia trancá-los, eu juro por Deus que eu não
sabia que ele faria isso –".
"Fale devagar". O mais baixo disse. "Eu sou Leon Kennedy, e
esse é John Andrews. Nós não viemos para matar Reston –".
"Mas devíamos". John resmungou, olhando em volta.
Leon continuou como se John não tivesse dito nada. "- nem
ninguém. Nós só queremos algo que Reston tem, só isso. Agora – o
que você pode nos dizer sobre esse programa de teste?".
Cole exalou, limpando a água do rosto. Leon parecia sincero –
E quais são suas opções? Você pode levar um tiro, ser abandonado
aqui ou cooperar com eles. Eles tem armas e Reston disse que os
espécimes de teste foram projetados para lutar com pessoas – mas
como é que eu vim parar aqui?
Cole olhou em volta para a Um, espantado em como parecia
diferente agora que estava preso lá, o quanto era ameaçadora.
As altas árvores artificiais, a vegetação rasteira de plástico e os
cipós sintéticos pendurados – com a baixa luz e o ar umedecido, as
paredes escuras e o teto pintado, parecia realmente uma floresta à
noite.
"Eu não sei muito". Cole disse, olhando para Leon. "Há quatro
fases – floresta, deserto, montanhas e cidade. Elas são todas
grandes, cada uma do tamanho de dois campos de futebol, uma do
lado da outra, esqueci as medidas exatas.
Dizem que são habitats correspondentes à esses animais
híbridos de teste; eles até são alimentados com comida viva, ratos,
coelhos e coisas do tipo. A Umbrela está testando algum tipo de
controle de doenças, e esses animais devem ter um sistema de
circulação similar ao dos humanos ou algo assim, darão um bom
material de estudo...".
Cole parou, percebendo o olhar que os dois homens trocaram
quando começou a falar das criaturas.
"Você acredita mesmo nisso, Henry?". John perguntou, sem
parecer bravo, suas expressões neutras.
"Eu –". Cole disse, e calou-se, pensando no incrível salário e na
política do bico calado.
"Você está feliz trabalhando aqui? Você acha que está sendo
bem pago?". – e sobre as jaulas – e as restrições.
"Não". Ele disse, e sentiu uma onda de vergonha por sua
optada ignorância. Ele deveria saber, saberia se tivesse tido
coragem e dado um olhada de perto.
"Não, não acredito. Não mais".
Ambos os homens acenaram, e Cole ficou aliviado em ver John
alterar a posição da arma suavemente, para o outro lado.
"Então, você sabe como sair daqui?". John perguntou.
Cole acenou. "Sim, claro. Todas as fases tem portas de ligação
nos cantos, alternadamente. Elas estão destrancadas, sem chaves
nem nada – exceto a última, a Quatro, está trancada pelo lado de
fora".
"Então a porta que procuramos está por ali?". Leon perguntou,
apontando para sudoeste. Eles estavam no canto nordeste.
De onde estavam, a outra parede não era visível, as árvores
falsas eram muito densas. Cole sabia que havia pelo menos uma
clareira de tamanho considerável, mas ainda assim era uma
caminhada.
Cole acenou.
"Você pode nos falar sobre esses animais de teste? Como se
parecem?". John perguntou.
"Eu nunca os vi, só estive aqui para fazer a fiação – câmeras e
conduites, coisas do tipo". Ele olhou para eles esperançoso. "Mas o
quanto ruins eles podem ser?".
Os olhares deles não foram encorajadores. Cole começou a
perguntar o que eles podiam dizer – quando um alto e metálico
barulho encheu o molhado ar, como um portão gigante sendo
erguido. Veio lá da frente, da parede oeste, onde Cole sabia que as
jaulas ficavam – e um segundo depois, um agudo grito cortou o ar,
uma longa e gorjeadora nota que rapidamente se juntou a outra, e
outra, e depois muitas para contar.
Havia uma batida também, tão grande que por um momento
Cole não identificou – mas quando conseguiu, sentiu vontade de
gritar.
Asas. O som de gigantescas asas batendo no ar.
Eles estavam a uns quatro metros do chão, no topo de uma
dupla fileira de caixas de madeira empilhadas num canto do galpão.
Até o menor movimento fazia tudo balançar um pouco, deixando
Claire insegura.
Já não é o bastante Leon e John não estarem aqui, ou estarmos
aqui nos escondendo de um bando de capangas da Umbrela? Não,
nós temos que ficar presos no Monte Precário numa escura
geladeira. Se um espirrar muito forte, todos vão para o chão.
"Que porcaria". Ela sussurrou, tanto para quebrar o silêncio
quando para respirar. O som do helicóptero tinha parado e ainda
não ouviram nada do lado de fora.
Ela se surpreendeu ao sentir o corpo de Rebecca tremer ao seu
lado, e ao ouvir um riso abafado; a jovem bioquímica estava
tentando suprimi-lo, e não estava sendo fácil. Claire sorriu
prazerosamente.
Alguns segundos passaram e Rebecca falou. "É. Você está
certa". E depois estavam ambas rindo. As caixas balançaram
gentilmente.
"Por favor". David disse, soando irritado. Ele estava em cima da
segunda fileira de caixas, do outro lado de Rebecca.
Claire e Rebecca pararam, e outra vez um silêncio de espera
caiu sobre eles. Eles estavam no canto nordeste, as duas ansiosas,
apontando as armas para a parede à frente, na direção da outra
porta. David disse que haviam duas; ele estava olhando à sul,
cobrindo a porta pela qual haviam entrado.
A risada tinha relaxado Claire um pouco. Ainda estava com frio,
ainda preocupada com Leon e John apesar da situação deles não
ser tão terrível. Ruim, claro, mas já esteve em piores.
Em Raccoon, eu estava por minha conta. Tinha Sherry para
cuidar, tínhamos Mr. X na nossa cola, tínhamos um monte de
zumbis para atrapalhar e estávamos totalmente perdidas. Pelo
menos agora eu sei com o que estou lidando; até um exército não é
tão ruim quanto não saber o que é o que – Lá fora, um barulho.
Alguém estava puxando a porta que ela e Rebecca cobriam; um
rápido puxão e silêncio de novo – exceto por Claire ter achado ouvir
passos, lá fora.
Estão checando as portas. E se a idéia de David não foi
convincente ou decidiram olhar de perto?
Pelo menos David as cobria; ele era incrível, frio e eficiente, e
pensava rápido como jamais viu. É como se ele soubesse o que
fazer – instantaneamente, seja qual for a situação. Mesmo agora –
David havia dito que provavelmente estavam fazendo uma
varredura, começando por um lado ou outro, verificando cada prédio
em equipes.
Estratégia militar, sem brincadeira. Claire pensou no que ele
disse de novo, era um plano e não uma lista de "e se". Ainda assim,
era um alívio ter algo para se concentrar.
Se um só time entrar, três ou menos, nós ficamos quietos e
imóveis até eles saírem, aí corremos para a porta a qual entramos e
esperamos. Quando os ouvirmos do outro lado, sairemos e
correremos para a cerca. Se eles entrarem e nos verem, nós
atiramos; pegaremos um por um enquanto passam pela porta,
descemos das caixas e corremos.
Se houverem duas ou mais equipes, esperaremos até David
jogar a granada para depois atirar; mesmo se eles tiverem visão
noturna, a granada os cegarão.. se eles retornarem fogo, nós
descemos das caixas e as usamos como cobertura – As outras
opções desapareceram quando ela ouviu a outra porta ser
chacoalhada. Chacoalhada – e depois chutada.
Thunk!
A porta abriu violentamente, um retângulo de luz pálida surgiu
na escuridão. O brilhante raio de uma lanterna cortou o escuro,
incidindo numa parede de caixas, depois virando para a porta.
Um suave click – e depois um baixo xingamento.
"O quê?". Uma voz diferente também sussurrou.
"Não tem luz". Uma pausa, e depois. "Bom, vamos. Eles
provavelmente estão no outro, eles não passaram por essa porta".
Graças a Deus. É hora de ir, David. Os dois vão vasculhar, mas
não suspeitaram de nada.
Um segundo feixe de luz apareceu, e Claire podia ver as vagas
silhuetas humanas por trás das fortes luzes, ambos homens pela
voz.
Eles começaram a andar, os feixes dançando sobre as pilhas de
caixas.
Fique quieta, não se mexa, espere. Claire fechou os olhos, não
querendo que nenhum dos homens se sentisse observado; ela ouviu
uma vez que esse era um truque para se esconder. Não olhar.
"Eu fico com o sul". Uma das vozes suspirou, e Claire imaginou
se eles sabiam como o som era bem conduzido no espaço aberto.
Podemos ouvir, seus babacas. Um pensamento engraçado,
mas ela estava com medo. Pelo menos os zumbis não tinham
armas...
As luzes se dividiram, uma indo para longe deles, e a outra em
sua direção. A luz ficou baixa, pelo menos; seja lá quem estava
segurando não imaginava que pessoas podiam subir em caixas.
Para mim está bem, apenas andem logo e saiam daqui, deixe-
nos sair sem ter que lutar! David disse que voltariam para John e
Leon quando a Umbrela fosse embora; ele disse que provavelmente
deixariam um ou dois guardas e que pegar um guarda seria mais
fácil do que um time inteiro – e uma luz estava brilhando no rosto de
Claire, o cegante feixe acertando seus olhos.
"Ei!". Um surpreso grito veio lá de baixo, e então – bam, um tiro
foi dado. E ouviu tanto quanto sentiu algo ceder sob ela, enquanto
Rebecca ofegou, enquanto a torre de caixas inclinou para trás.
Claire foi de costas à parede; agarrou a caixa a qual estavam
deitados, um coral de gritos vindo lá de fora, a laranja explosão de
fogo vindo da arma de David – e com um tremor, todas as caixas
vieram a baixo, e Claire mergulhou na escuridão.
Quando ouviu os prováveis bater de asas e os berros, John
sentiu sua pele gelar. Ele não gostava de pássaros, nunca gostou, e
dar de cara com um bando de pássaros da Umbrela, numa estéril e
surreal floresta – "Ora bolas". Ele disse, e levantou a M-16,
apertando o apoio de plástico forte entre o braço. Leon também
apontava para o alto, o teto pintado de azul noturno a pelo menos
quatro metros acima das árvores mais altas.
As árvores variavam de três a talvez dez metros de altura – e
bem no alto, John viu que havia "galhos" de pouso implantados,
cada um largo como uma bola de basquete.
Esses pássaros devem ter pés malditamente grandes para
precisarem daquilo para pousar...
Os bravos gritos tinham parado, e John não ouviu mais o bater
de asas – mas imaginou quanto tempo levaria para pássaros
decidirem procurar comida.
"Pterodátilos, só pode ser". Cole sussurrou, sua voz falhando.
"Dacs".
"Você está brincando". John exalou, e pelo canto do olho, pôde
ver o magro funcionário da Umbrela acenar.
"Não os de verdade, talvez, é só um apelido que eu ouvi". Cole
soou certamente aterrorizado.
"Vamos para a tal porta". Leon disse, já indo para a falsa e
escura floresta.
Amém.
John foi atrás dele, três, quatro metros, tentando olhar para
cima e onde pisava ao mesmo tempo. Ele tropeçou quase que
imediatamente, sua bota chutando uma pedra moldada em plástico,
e mal conseguiu evitar a queda.
"Isso não vai funcionar. Cole – Henry?".
John olhou para trás e viu que Cole ainda estava grudado na
porta, seu pálido rosto voltado para o céu.
- teto, droga – Leon parou e esperou, olhando para os galhos
acima. "Estou te cobrindo". Ele disse.
John voltou, bravo, frustrado e seriamente desconfortável; era
uma situação difícil; David e as garotas poderiam muito bem estar
lutando por suas vidas na superfície e ele não iria desperdiçar seu
tempo mimando um medroso da Umbrela. Mesmo assim, não
poderiam deixá-lo para trás, não sem ao menos fazer uma força.
"Henry, ei, Cole". John tocou seu braço e Cole finalmente olhou
para ele. Seus amenos olhos castanhos cheios de medo.
John suspirou, sentindo um pouco de pena. Ele era um
eletricista, pelo amor de Deus, parecia que ignorância tinha sido seu
último crime.
"Olha. Eu entendo que esteja assustado, mas se ficar aqui, vai
acabar morrendo. Leon e eu já cruzamos com alguns bichinhos da
Umbrela antes; sua melhor opção é vir conosco – e além do mais,
nós podemos usar sua ajuda, você sabe mais sobre esse lugar do
que nós. Certo?
Cole acenou tremendo. "Tá, tá bom. Desculpe. Eu só – estou
com medo".
"Junte-se ao clube. Pássaros me dão arrepios. A parte de voar
é legal, mas eles são tão estranhos, aqueles olhos saltados e pés
enrugados – você já viu um abutre? Ele tem cabeça de testículos".
John tremeu, e viu Cole relaxar um pouco, até tentou um sorriso.
"Tá bom". Cole disse de novo, mais confiante. Eles andaram
para onde Leon estava, ainda vigiando o ar acima.
"Henry, sendo que nós temos as armas, o que você me diz de ir
na frente? John perguntou. "Leon e eu ficaremos de olho,
precisaremos de um caminho livre para não nos preocuparmos em
ter que pular coisas. Você acha que consegue?"
Cole acenou, e viu que ainda parecia pálido, John achou que
ele agüentaria. Por um tempo.
O guia passou por Leon e cambaleou para sudoeste, fazendo
uma irregular trilha pela estranha floresta. Os dois foram atrás, John
percebendo que Cole na frente não fazia muita diferença.
Se você não olha por onde anda, você tropeça. John pensou,
desgastado, depois de ter tropeçado pela sexta vez num "tronco"
caído. Sem contradições.
Os Dacs, como Cole os chamava, não deram as caras nem
fizeram outro barulho. John viu que andar numa floresta de plástico
já era o suficiente. Era uma sensação bizarra ver a aparência
realista das árvores e da grama, sentir a umidade no ar – mas
também ciente de que não havia cheiro de terra ou plantas, nem
vento ou pequenos sons de movimento, nem insetos. Era como num
sonho, um de dar nos nervos.
John ainda se equilibrava, seu olhar fixado no emaranhado de
galhos acima, até que Cole parou.
"Nós estamos – há uma espécie de clareira aqui". Ele disse.
Leon virou, franzindo para John. "Nós vamos contorná-la?".
John avançou um passo, olhando a área aberta por entre as
árvores. Tinha pelo menos 15 metros de espaço aberto, mas John
preferia mudar de caminho; ser atacado no mergulho de um
pterodátilo não soava divertido, mesmo.
"Sim. Henry, vire à direita. Nós vamos –".
O resto de suas palavras foram perdidas assim que um alto e
arranhado gorjeio estourou pela floresta inatural, e uma forma
marrom acinzentada mergulhou na clareira e voou para eles,
estendendo garras de trinta centímetros de comprimento. John viu
uma envergadura de asa de dois a três metros, as asas de couro
com ganchos encurvados nas pontas. Ele viu um gritante e dentado
bico, um esbelto e alongado crânio, e achatados olhos negros do
tamanho de um pires, brilhando – e Leon e John abriram fogo
quando a criatura chegou na linha das árvores na frente deles, suas
enormes garras perfurando o sólido plástico das árvores. A ave
manteve-se firme, esticando suas asas num esforço para se
equilibrar – e bambambam, buracos apareceram na fina carne,
fileiras de sangue aguado escorrendo dos mesmos. O animal gritou,
tão perto que John não conseguia ouvir os tiros, nada além daquele
trêmulo e intenso berro – e então ele desceu, parando no escuro
chão, encolhendo as asas – e andando para eles sobre os cotovelos
como um morcego, se sacudindo por entre as esfarrapadas árvores,
dando curtos e agudos latidos. Atrás dele, outro apareceu na
clareira, revelando fileiras de dentes afiados.
Isso é mau, mau, mau – O cambaleante animal estava a menos
de um metro e meio de distância quando John mirou na balançante
cabeça, no redondo e brilhante olho, e puxou o gatilho.
Capítulo 12
O mais alto, John, apontou seu rifle automático para o Av1 e
soltou uma rajada de balas.
Como um feixe de destruição, elas acertaram o aquilino crânio
do Dac e estourou o outro lado, fluídos escuros espirrando nas
recém pintadas árvores. Ambos os olhos estouraram como bexigas
d'água.
Droga. Baixa resistência; são esses ossos ocos.
Reston olhou o outro armado mirar no segundo Dac que
pousou na clareira. Mesmo sem som, Reston podia ver o revólver
pular três, quatro vezes, acertando o espécime em seu estreito
peito. O esbelto pescoço do Dac curvava selvagemente para frente e
para trás numa rabiscante dança da morte antes de se esparramar
no chão, sangrando.
Reston não viu mais nenhum pousar e os três homens estavam
batendo em retirada, voltando para a floresta. O pobre Cole parecia
desfeito, sua boca aberta em um calado grito, seu frouxo cabelo
castanho praticamente grudado de suor na cabeça, seus braços
requebrando.
Ele merecia por não ter consertado o áudio. A falta de som o
estava irritando, apesar de achar que a filmagem não sofreria com
isso. As pessoas sabiam como tiros soavam.
Os três estavam saindo do alcance, indo à oeste agora. Reston
intercalou entre a câmera da árvore e a panorâmica da parede norte.
Era óbvio que Cole os estava levando para a porta de conexão –
apesar de não saber que a segunda clareira agora estava em seu
caminho. Por enquanto, os Dacs também tinham recuado; eles
geralmente são atraídos para áreas abertas. Eles só tinham matado
dois, o que significava que ainda havia seis espécimes saudáveis os
esperando no prado.
Reston havia soltado todas as criaturas em seus habitats logo
após a ligação do Sargento Steve Hawkinson, o homem que liderava
a equipe da superfície. Ele informou que apenas duas equipes da
Umbrela – nove homens incluindo o próprio – estavam começando a
varrer o complexo, e que o transporte dos fugitivos havia sido
localizado; os três ainda estavam na área, a não ser que houvesse
outro veículo, uma possibilidade altamente improvável. Reston lhe
disse que a câmera da entrada foi coberta por um intruso e pediu
uma reparação assim que possível. Depois disso sentou para
assistir o espetáculo.
Ele serviu outro conhaque enquanto observava os três
avançarem sinuosa e lentamente por entre as árvores, John com
sua arma apontada para cima, o outro vasculhando as sombras em
volta...
Esse aí também precisa de um nome. Nós temos Henry, John,
e Ruivo? O cabelo dele é meio avermelhado.
Por aí, mas servirá do mesmo jeito que "Dac" serviu para os
Av1. Eles não tinham relação com pterodátilos, claro, e a sigla "Av"
vinha de "Aves" – e de fato os Dacs eram mais próximos dos
morcegos do que qualquer outra coisa. Já haviam muitos na série de
mamíferos. O pedido veio do próprio Jackson, os criadores de
espécimes adicionaram novas classificações para o amor de Deus,
usando um pouco dos contribuintes secundários para a seqüência
de genes daquela série. Os Spitters (cuspidores), que estavam mais
próximos das cobras do que dos bodes, foram rotulados de Ca6, de
Capra (caprinos), por causa dos cascos rachados....
E os Dacs se pareciam com pterodátilos, ou pelo menos com o
nosso moderno conceito deles, Reston pensou, olhando para a tela
que mostrava a entrada da jaula. Dois dos animais ainda estavam lá
dentro. O aerodinâmico e musculoso corpo, o fino bico, a "crista" de
osso no topo da cabeça, as asas fibrosas... eles até eram elegantes
no modo brutal de ver. Os dois na grande "caverna" dos bastidores
estavam claramente agitados com todo o movimento, andando para
frente e para trás com suas asas dobradas, virando suas cabeças de
lado a lado.
Reston não sabia muito do fim biológico, mas sabia que
caçavam pelo movimento e pelo olfato, e que só dois deles podiam
derrubar um cavalo em menos de cinco minutos.
Mas não muito eficientes contra poder de fogo.
Não fazia diferença mesmo. Os Av1 foram criados para
situações de terceiro mundo, onde as manchetes ainda não
relatavam metralhadoras. Era muito ruim morrerem tão rápido, os
adestradores ficariam bem desapontados com as perdas – mas pelo
menos já foram testados contra poder de fogo.
E por falar nisso...
Os três homens estavam se aproximando da clareira, saindo do
alcance da câmera norte. Lá será onde os Dacs brincarão. Reston
se inclinou para olhar, percebendo que as imagens que estava
gravando fariam sua carreira – e apesar da situação, ele estava
realmente se divertindo.
David abriu fogo assim que a luz do soldado os achou, ouvindo
o único tiro de uma arma lá embaixo – e sentiu os estilhaços de
madeira à sua esquerda, um monte deles espirrando em seu braço.
Ele queria muito fazer o atirador parar de atirar, mas sabia com
terror que iriam cair, que as duas mulheres se esborrachariam no
concreto se ele não fizesse algo – e então ele estava caindo
também, as tábuas sob seu corpo desaparecendo de repente,
mergulhando na fria escuridão. David segurou sua arma, esticando
seus braços para fora e dobrando os joelhos no meio segundo de
queda livre – e seus joelhos tocaram papelão, uma não vista caixa
que foi esmagada com seu peso. Instantaneamente, ele ficou de pé,
virando na direção da outra lanterna que ainda brilhava no meio do
galpão, o primeiro homem já no chão. Sem tempo para checar
Rebecca e Claire – os gritos aumentaram lá fora, quase chegando.
O portador da lanterna veio abaixo com a curta linha de tiros
que David mandou da M-16, um arco de um metro cruzando a
escuridão. Os ecos das balas estouraram por entre as caixas, e
quando a lanterna caiu, um único gemido de dor e surpresa caiu
junto com ela, David mirou na direção da porta aberta.
Vamos, então – Rattatattatt—
Tiros de metralhadora lá fora... mas ninguém entrou. David foi
para a esquerda e mandou uma rajada de sua arma em resposta,
não esperando acertar ninguém, as balas acertando o entorno da
porta. Ele precisava ganhar tempo, mesmo se forem alguns
segundos.
"Unha". Um suave e feminino gemido veio de trás dele.
"Rebecca! Claire! Respondam!". Ele sussurrou asperamente,
ainda olhando o pálido e vazio quadrado da porta aberta.
"Aqui. Eu, Claire, estou bem, mas acho que ela está ferida –".
Droga!
David sentiu seu coração pular uma batida e recuou um passo,
seus pensamentos correndo, um nó de horror em seu estômago. Só
haviam passado trinta segundos desde o primeiro tiro, e a equipe da
Umbrela já devia ter cercado o prédio, se forem mesmo bons. Eles
tinham que sair antes que os atiradores se organizassem por
completo.
"Claire, venha até mim, siga minha voz – eu preciso de você
cobrindo a porta. Se vir alguém, mesmo uma sombra, atire para
matar. Entendido?"
Ele a ouviu se movimentar enquanto falava e a agarrou quando
chegou mais perto, puxando seu braço.
"Espere". Ele disse, e soltou outra rajada de sua arma,
acertando a parede perto da porta. Ele imediatamente entregou a M-
16 para Claire enquanto retornavam fogo lá fora, as balas viajando
sem direção no escuro.
"Você consegue usá-la?".
"Consigo –". Ela soou ansiosa, porém firme o bastante.
"Bom. Assim que eu disser, nós começaremos a ir para a porta
oeste; você vai nos cobrir".
Ele já estava virando na direção do canto onde Rebecca
estaria, quando ouviu outro abafado murmúrio de dor e fixou-se
nele, movendo-se rapidamente, ajoelhando-se perto da garota
ferida. Ele sentiu o cabelo sedoso de Rebecca sobre sua mão,
sentindo o pegajoso e morno sangue.
"Rebecca, você consegue falar? Você sabe onde está ferida?".
Uma tosse – e sentiu os dedos dela tocarem seu braço, e soube
que estava bem mesmo antes de falar.
"Atrás da cabeça". Ela falou, suave mas bem claro. "Possível
concussão, caí com tudo sentada, os membros parecem bem...".
"Eu vou te ajudar. Se você não puder andar, eu te carregarei,
mas nós temos que ir agora –".
Para provar suas palavras, houve outro disparo da
metralhadora lá fora – e um grito que o fez se mover mesmo antes
de terminar.
"Atire na abertura!". Disseram lá fora.
David girou, se levantou e segurou Claire por trás, gritando,
"Feche os olhos –". E enquanto fechava os seus no caso de uma
incendiária, rezando para que não fosse uma granada – mas o
whump de um lançador, seguido por um alto pop e um hiss o disse
que era gás. Ele se afastou de Claire, e a sentiu ao seu lado, ouviu
sua ofegante e assustada respiração.
Deus, que não seja sarin ou soman, que eles nos queiram vivos
– Em segundos, os olhos e nariz de David começaram a lacrimejar
fortemente e sentiu um onda de alívio. Não é gás nervoso; eles
usaram um gás lacrimejante CN ou CS.
"Porta oeste". David disse, e Claire engasgou um afirmativo, o
composto químico disseminando rapidamente no frio ar, uma efetiva,
porém não letal arma. Ainda bem.
Ele virou para trás e sentiu uma mão esfregar seu peito.
"Eu não consigo andar". Rebecca disse, tossindo, e David jogou
o braço dela em volta de seu pescoço e começou a ir para a porta o
mais rápido que podia através da escuridão. Ele ouviu Claire
ofegando, mas agüentando, acompanhando eles.
David se apressou, bolando um plano, tentando não respirar
muito fundo. Haverá gente em ambas as portas, esperando – mas a
que distância? Eles vão querer estar bem lá para dominar suas
vítimas chocadas...
O plano estava pronto. Assim que alcançaram a porta, David
procurou em seu estojo de perna, tirando a lisa e redonda granada
anti-pessoas, puxando o pino.
"Claire, Rebecca, atrás de mim!".
Já cegos no escuro, as lágrimas só ardiam mas não interferiram
em sua mira enquanto empunhava a 9mm e a esticava à frente,
procurando a porta.
BAM!
Ele abriu um buraco na fechadura, destrancando-a, ouvindo os
gritos de surpresa dos homens lá fora. Quase sem parar, David
abriu a porta, o quanto até a cerca? Cinqüenta, sessenta metros – e
jogou a granada, um gentil arremesso pela porta, fechando-a o mais
rápido possível, jogando seu peso contra ela e agradecendo à Deus
por ser bem resistente – e KA-WHAM, a porta lutou contra ele
enquanto o impacto durou, os estilhaços martelando contra ela
como uma fera selvagem socando para entrar. David esperou. A
trovoada da M68 deu lugar a gemidos e uivos de dor, quase
inaudíveis sob o apito em seus ouvidos e o grito de seus sufocados
pulmões.
"Cubra a direita e vá para a esquerda!". Ele gritou, e escancarou
a porta, girando a H&K de lado a lado. A pálida luz da lua só mostrou
três homens, todos no chão, todos feridos e gritando atrás do véu de
suas lágrimas.
Coletes, no corpo inteiro, talvez – Ele esperava uma corrida
para frente, para seu veículo de fuga, mas virou à esquerda. Ele
fixou seu molhado olhar na escura cerca enquanto Claire e Rebecca
vinham atrás dele, tossindo e lacrimejando.
"Cerca". Ele disse, o mais alto que pôde, e voltou para Rebecca,
deslizando seu braço na cintura dela. Eles pularam um dos homens
no chão e começaram uma forte corrida na direção da fuga, Claire
bem atrás. Ela corria de lado, a M-16 apontada para trás, na direção
da frente do complexo.
Boa garota, nós vamos conseguir, passamos pela cerca, e
contornamos o complexo pelo deserto até a van – Eles correram,
diminuindo a distância mais rápido do que David esperava, a grade a
9 metros da parte de trás do galpão o qual estavam, o galpão que
havia escolhido por causa disso; os outros angulavam para frente,
seria muita distância, e o primeiro era muito óbvio – e estavam
quase na cerca quando alguém disparou uma metralhadora atrás
deles, vindo de entre o outro lado do galpão. Pelo menos alguém da
Umbrela usou a lógica e deu a volta para verificar a inesperada rota
de fuga.
Claire estava lá, retornando fogo, a rápida trepidação das duas
automáticas mergulhando num explosivo dueto. O
atirador invisível foi pego ou estava agachado quando as
trovoadas viraram um solo, Claire perfurando o escuro com a .233.
Rebecca vai precisar de ajuda.
"Claire! Suba e passe!". David gritou, segurando a M-16. Ela
virou e escalou a cerca facilmente.
"Rebecca, vai!". David puxou o gatilho e o segurou, espalhando
balas pela fria noite, ouvindo retorno aparentemente de todo o lado,
três talvez quatro atiradores – e houve um choro atrás dele, de
Rebecca, apenas na metade da cerca. Algumas gotas mornas
pingaram no rosto de David que parou de atirar, pulando para
segurá-la antes que caísse.
"Eu cubro!". Claire gritou do outro lado, e atirou pela cerca, a
9mm pulando forte, o punho de David mais ainda.
Rebecca estava pálida, ofegando asperamente, certamente
com dor – mas ela conseguiu se segurar na cerca, até mesmo subir
um pouco enquanto David se apoiava na cerca e a empurrava par
cima.
Ele praticamente a levou até o topo e assim que Claire a
alcançou para ajudar, David virou e atirou de novo nos soldados,
ainda escondidos nas sombras, sua fúria secando as últimas
lágrimas.
Malditos idiotas, ela ainda é só uma garota – A M-16 secou e
ele pulou, aí Rebecca estava entre eles, encostada pesadamente
nos ombro de David, e já estavam correndo na gelada noite do
deserto.
Capítulo 13
Com apenas minutos de ataque, Leon pôde ver que Cole não
tinha condições de liderar. O funcionário da Umbrela estava
andando cegamente, indo vagamente na direção que precisavam ir.
E agora que sabemos que podem atacar pelo chão... ele e John
não precisavam ficar olhando para o céu.
"Henry – posso assumir a ponta como guia por alguns
minutos?" Leon perguntou, olhando para John. John acenou, não
parecendo tão emotivo; ele estava firme, seu olhar pulando par lá e
para cá rapidamente, suas mãos apertando a M-16.
Talvez esteja pensando nos outros. Sobre terem sido "pegos".
"Tá, tá bom, por mim, tudo bem". Cole acenou, seu alívio bem
aparente. Ele pôs seu suado e castanho cabelo de lado e correu
para trás de Leon, John ainda lá atrás.
Leon estava nervoso, os pássaros, Dacs, eram desagradáveis e
perigosos, e foi um alívio tê-los visto; eles não eram tão terríveis
quanto sua imaginação o tinha feito acreditar, quando ouviu os
primeiros berros. Os monstros da mente são sempre piores do que
os de verdade, e os Dacs nem resistiam muito. Enquanto John e ele
ficarem de guarda, todos conseguirão.
Ele tinham sido espantados para sul e Leon corrigiu a rota,
percebendo que estava começando a identificar o que poderia ser a
parede. A disposição das árvores causava confusões; não eram tão
juntas, mas estavam espalhadas dando a impressão de densidade
ao olhar para a floresta; a grossa cobertura do chão, algum tipo de
plástico moldado, não se movia sobre os pés, o relevo e as
depressões do material tornavam ainda mais difícil sentir o tamanho
do lugar.
É tão estranho, tão acima – tão parecido com a Umbrela.
Era como aquele vasto laboratório sob Raccoon, completo com
sua própria casa de fundição e ferrovia particular – inacreditável,
mas viu tudo pessoalmente. E Leon soube através dos ex-
S.T.A.R.S., que havia uma isolada enseada na costa de Maine
guardada por equipes de zumbis, e uma mansão "deserta" na
floresta, a mansão de Spencer, aquela equipada com segredos,
chaves, códigos e passagens, como o cenário de um filme de
espionagem que a ninguém convence.
Agora isso – ambientes simulados sob as áridas e planas
salinas de Utah. Como Reston o havia chamado? O
Planeta. Era extravagante, decadente, desperdício imoral;
ridículo, exceto – exceto por estarmos presos nele, e só Deus saber
o que enfrentaremos depois.
Leon continuou andando, tentando não pensar como Claire e os
outros estavam. Reston presumiu que o resto da equipe havia sido
capturada, mas Leon não sabia. Também não sabia o quanto Claire
e Rebecca eram engenhosas, ou o quanto brilhante David era como
estrategista. Todos eles já escaparam da Umbrela antes, e não
havia motivos para não conseguirem de novo.
Leon estava tão entretido na sua conversa particular que não
viu a clareira até estar praticamente na beira dela, a menos de seis
metros. Ele parou, lembrando do último ataque – e se repreendeu
por não ter prestado atenção.
"Vamos recuar e retornar". Ele disse – e aí ouviu o bater de
asas, e sabia que já era tarde demais. Nas murchas sombras sobre
o espaço aberto, um, dois, três deles estavam mergulhando das
traves de pouso, planando em torno da clareira.
Droga!
Um deles começou a gritar e os outros acima se esconderam
nas árvores, juntando-se na música, uma ensurdecedora e
horrorosa cacofonia aguda. Leon recuou, John ao seu lado de
repente, mirando o rifle na clareira.
O primeiro voou para as árvores, chacoalhando-se de lado a
lado como se para voar entre elas. Ele arremeteu no último
segundo, tão rápido que não acertaram um tiro. Assim que subiu,
Leon viu dois no chão, carregando seus vigorosos corpos entre as
asas dobradas.
O barulho! Era doloroso, tão estridente e terrível quanto mil
bebês gritando, e Leon sentiu a 9mm atirar mais do que podia ouvir,
o pesado metal pulando em suas mãos. Os pássaros ficaram
quietos quando o mais próximo teve sua garganta baleada. Um
esfarrapado buraco estourou um pouco acima de seu estreito peito,
abas de pele escura abrindo como uma flor. Um fino sangue
espirrou do ferimento e o segundo pássaro passou por cima do
outro, no chão se debatendo, fixo no ataque. Leon mirou e – "Ei ei,
ah droga –".
O histérico grito de Cole o distraiu, o tiro indo para a direita,
perdendo o alvo. John abriu fogo contra o segundo Dac, o bater da
automática furando o animal. Leon girou e viu Cole recuando, outro
dos ferozes pássaros investindo na direção dele.
Como ele passou por nós?
Leon mirou, o Dac a não mais que um metro e meio de Cole, e
mesmo enquanto apertava o gatilho, outra das criaturas estava
descendo diretamente sobre eles. A tão pouca distância, a bala de
9mm perfurou o peito da ave e abriu um buraco do tamanho de um
punho nas costas, o Dac morrendo antes de cair no chão. O outro
arremeteu, as pontas de suas enormes asas esfregando no chão,
voltando para cima.
"Henry, fique atrás de mim!". Leon gritou, olhando para cima – e
vendo outro Dac descendo das traves diretamente acima, franzindo
as asas e mergulhando na direção deles.
Ele precisava de ajuda. "John...!".
O pássaro só abriu suas asas a alguns palmos do chão,
surpreendentemente gracioso no pouso. Ele virou para Leon e
iniciou o ataque. Leon ouviu os tiros atrás dele – e os ouviu parar,
ouviu John resmungar, ouviu o alumínio da M-16 bater no chão.
O Dac na frente de Leon abriu seu longo bico e berrou, uma
explosão de raiva, um som de fome, andando tão rápido quanto
Leon recuava. A criatura balançava para frente e para trás e Leon
não tinha munição o suficiente para gastar, ele precisava de um tiro
certeiro – e o pássaro pulou, um estranho e súbito salto que o deixou
a trinta centímetros de distância. Com outro agudo berro, a criatura
esticou a cabeça, seu bico aberto fechando em seu tornozelo.
Mesmo com a grossa bota de couro, Leon pôde sentir a ponta dos
dentes, sentir o poder da mandíbula – e antes que pudesse atirar,
John estava lá, estava pisando no longo pescoço do Dac e
apontando o revólver – e bam, a bala acertou sua espinha, uma
vértebra em suas costas estourando, estilhaços de osso e sangue
jorrando. A ave soltou seu tornozelo e apesar do pescoço ainda se
contorcer, o resto do corpo estava parado, sangrando e imóvel.
Quantos, quantos ainda restam – "Vamos lá". John chamou,
pegando o rifle do chão e virando para correr. "Vão para a porta, nós
temos que chegar nela!".
Eles correram pela clareira, Cole atrás, o bater de asas mais
atrás, outra voz aguda gritando pelo ar. Eles voltaram às árvores, a
floresta sem vida, tropeçando sobre galhos e desviando de
contorcidos troncos de plástico.
A parede. Lá está ela!
E lá estava a porta, metálica e de folha dupla, um pino solto no
lado direito – e Leon ouviu o terrível berro em seu ouvido, a
centímetros de distância, e sentiu o sopro de ar em seu pescoço -- e
deixou suas pernas cederem, caindo no chão, e sentiu uma súbita
dor assim que algo arrancou um pedaço de cabelo de seu couro
cabeludo, da parte de trás da cabeça.
"Cuidado!". Leon gritou, erguendo o olhar para ver o enorme
pássaro investindo em John, quase na porta, Cole ao seu lado.
John se virou, sem recuar. Ele ergueu seu revólver e apertou o
gatilho, um tiro certeiro, e o Dac caiu como se fosse feito de
chumbo, seu pequeno cérebro de repente líquido, estourando.
Cole estava mexendo na porta, John ainda mirando sobre a
cabeça de Leon, e Leon ouviu outro grito de fúria em algum lugar
atrás – e a porta estava aberta – e Leon correu, John o cobrindo
enquanto cambaleava até Cole, saindo da fria e escura floresta para
um ofuscante calor. John vinha logo atrás, batendo a porta para
fechá-la – e estavam na Fase Dois.
Rebecca estava correndo, sem fôlego e exausta, incapaz de
parar e descansar. David e Claire estavam correndo com ela,
carregando-a, mas ainda sentia que cada passo era um esforço de
pura vontade; seus músculos não queriam cooperar, e estava
desorientada, seu equilíbrio uma bagunça e seus ouvidos apitando.
Ela estava ferida e não sabia o quanto grave era – só sabia que
tinha sido baleada, que tinha batido a cabeça, e que não podiam
parar até estarem bem longe do complexo.
Estava escuro, muito escuro para ver onde o chão estava, e frio;
cada respiração era uma gelada punhalada em sua garganta e
pulmões. Seus pensamentos estavam confusos, mas sabia que
tinha sofrido alguma disfunção cerebral, incerta de qual; as
possibilidades a assombravam enquanto pensava nelas. A bala era
mais fácil; ela sabia pela quente e latejante dor. Doía terrivelmente,
mas não achava que tinha alguma fratura, e não estava sangrando;
estava mais preocupada com a perda de coerência.
Baleada no glúteo esquerdo, alojada no ísquio, sortuda,
sortuda, sortuda... choque ou concussão? Concussão ou choque?
Ela precisava parar, checar o pulso temporal, procurar sangue
nos ouvidos... ou por CSF, algo que nem queria pensar. Mesmo em
seu confuso estado, ela sabia que sangrar fluído cerebrospinal era a
pior conseqüência de uma pancada na cabeça.
Depois do que pareceu um bom tempo, e mais balanços e
mudanças de direção do que pôde contar, David diminuiu, pedindo
Claire que diminuísse, e que iriam deitar Rebecca no chão.
"No meu lado". Rebecca ofegou. "A bala está no lado
esquerdo".
David e Claire a deitaram cuidadosamente na plana terra,
respirando, recuperando o fôlego, e Rebecca nunca ficou tão grata
por deitar. Ela só pegou um lance do céu preto enquanto David a
rolou; as estrelas estavam incríveis, claras e frias sobre o fundo
oceano negro...
"Lanterna". Ela disse, percebendo o quanto estranhos seus
pensamentos tinham se tornado. "Tem que verificar".
"Estamos longe o bastante?". Claire perguntou, e demorou um
pouco para Rebecca perceber que Claire falava com David.
Ah, porcaria, isso não é bom...
"Deveríamos. E nós os veremos chegar". David disse
brevemente e ligou sua lanterna, o feixe indo para o chão a
centímetros do rosto de Rebecca.
"Rebecca, o que podemos fazer?". Ele perguntou, e ela ouviu a
preocupação em sua voz, amando-o por isso.
Eles eram como uma família, desde Caliban, ele foi um bom
homem e um bom amigo...
"Rebecca?". Desta vez ele soou amedrontado.
"Ah, desculpe". Ela disse, imaginando como explicar o que
estava sentindo, o que estava acontecendo. Ela decidiu que era
melhor só falar e esperá-los descobrir.
"Olhe para minha orelha". Ela disse. "Procure sangue ou um
líquido claro, eu acho que tive uma concussão. Eu não estou
pensando bem. A outra orelha, também. Fui baleada e acho que a
bala está alojada no meu ísquio.
Pélvis. Sortuda, sortuda. Não deve estar sangrando muito, eu
posso desinfetar e cobrir se me derem meu estojo.
Tem gaze e isso é bom, a bala podia ter acertado a espinha ou
ter pego a artéria femoral. Muito sangue, isso é ruim, ferida e sendo
eu a única médica – Enquanto falava, David iluminou seu rosto e
gentilmente o levantou para checar o outro lado antes de apoiar sua
cabeça no colo. As pernas dele estavam quentes, seus músculos se
contorcendo.
"Um pouco de sangue no ouvido esquerdo". Ele disse. Claire,
tire o estojo de Rebecca, por favor. Rebecca, você não precisa mais
falar, nós vamos te consertar; tente descansar se puder".
Sem CSF, graças a Deus...
Ela queria fechar os olhos para dormir, mas precisava terminar
de dizer tudo. "Concussão soa menos importante; significa
desorientação, zumbido nos ouvidos, falta de equilíbrio – pode durar
algumas horas ou talvez semanas.
Não deve ser tão grave, não é bom se mexer. Repouso. Ache o
meu pulso temporal, na lateral da minha cabeça. Se não conseguir,
eu devo estar em choque – elevação de temperatura...".
Ela respirou, e percebeu que a escuridão não estava só do lado
de fora. Ela estava cansada, muito, muito cansada, e um tipo de
névoa escura estava tomando conta de sua visão.
Isso é tudo, já disse tudo – John. Leon.
"John e Leon". Ela disse, horrorizada por ter esquecido deles
por um momento, forçando para se sentar. Perceber isso foi como
um tapa na cara. "Eu posso andar, eu estou bem, nós temos que
voltar –".
David mau a tocou e de alguma forma, sua cabeça estava no
colo dele de novo. Então Claire levantou a parte de trás da camisa
de Rebecca, dando tapinhas de leve na coxa, mandando frescas
ondas de dor por seu corpo. Ela franziu os olhos, tentando respirar
fundo, tentando ao menos respirar.
"Nós vamos voltar". David disse, e a voz dele parecia estar
vindo de muito longe, do topo de um poço ao qual ela caiu.
David continuou. "Mas precisamos esperar o helicóptero partir,
se é que ele o fará – e você precisará de tempo para se
recuperar..."..
Se ele disse mais alguma coisa, Rebecca não ouviu. Ela dormiu
e sonhou que era uma criança, brincando na fria, fria neve.
Deserto!
Não haviam animais à vista, deviam estar do outro lado da
duna, e Cole achava que sabia quais pertenciam à Fase Dois. Antes
que John e Leon dessem um passo, antes que os ouvidos de Cole
parassem de apitar devido aos gritos dos Dacs, ele começou a
tagarelar.
"Deserto, a Fase Dois é um deserto, então deve ter os Scorps,
escorpiões, entenderam?".
John estava tirando um clip curvo de seu estojo de perna,
franzindo sobre a artificial luz solar que vinha de cima.
Devia estar uns quarenta graus na câmara, e com as paredes
brancas e a ofuscante luz, parecia estar bem mais quente. Leon
vasculhou a brilhante areia na frente deles, e virou para Cole,
olhando como se tivesse comendo algo azedo.
"Maravilhoso, isso é ótimo. Escorpiões? Scorps e Dacs... quais
são os outros, Henry, você se lembra?".
Por um segundo, a mente de Cole ficou vazia. Ele acenou,
revirando seu cérebro, todo o suor de seu corpo já evaporado com o
calor. "Ah – esses são apelidos, Dacs, Scorps... Hunters! Hunters e
Spitters, os criadores tinham esses apelidos –".
"Uma gracinha, como fofinho e totó". John interrompeu, alisando
sua sobrancelha com as costas da mão. "Então, onde eles estão?".
Os três olharam em volta na Fase Dois, para a enorme duna de
areia que estava no meio do lugar, brilhando como purpurina sob a
gigante grade de luminárias acima. Sete, nove metros de altura, a
duna bloqueava a visão da parede sul, inclusive a porta no extremo
canto direito. Não tinha mais nada para ver.
Cole balançou a cabeça sem dizer nada; os Scorps estavam por
lá, e eles tinham que cruzar as quente dunas de areia ara chegar à
saída.
"Quais eram as outras fases, montanhas e cidade? Você já as
viu?". Leon perguntou.
"A Três é parecida com um, como posso dizer, um abismo, no
alto de uma montanha. Como um desfiladeiro rochoso. E a Quatro é
uma cidade – alguns quarteirões. Eu tive que checar as entradas de
vídeo quando vim para cá".
John olhou para cima e em volta, franzindo os olhos contra a
forte luz. "Certo, vídeo... você lembra onde estão?
As câmeras?".
Por que ele quer saber isso? Cole apontou para a esquerda,
para o pequeno olho de vidro embutido no alto da parede branca.
"Tem cinco delas aqui; aquela é a mais próxima...".
Com um largo sorriso, John ergueu as duas mãos e estendeu
os dedos do meio para a lente. "Toma, Reston".
Ele disse bem alto, e Cole decidiu que gostava dele, e muito.
Leon também, mas não só por serem seu ingresso de saída. Seja lá
quais eram suas motivações, eles certamente estavam no lado certo
das coisas; e o fato de que podiam fazer piadas numa hora como
essa...
"Então, nós temos um plano?". Leon perguntou, ainda olhando
para a parede de areia à frente.
"Por ali,". John disse, apontando à direita. "E depois subimos.
Se ver algo, atire".
"Brilhante, John. Você devia escrever isso. Sabe, eu –".
Leon parou de repente, e Cole ouviu. Uma batida. Um som
como unhas batendo em madeira oca, o mesmo som que ouviu
quando consertava uma das câmeras semana passada.
Um som de garra, abrindo e fechando. Como mandíbulas
clicando...
"Scorps". John disse suavemente. "Escorpiões não deviam ser
noturnos?".
"Mas isso é a Umbrela, lembra?". Leon disse. "Você tem duas
granadas, eu tenho uma...".
John acenou e disse. "Você sabe usar uma semiautomática?".
O grande soldado estava observando a duna, e levou um
segundo para Cole perceber que John estava falando com ele.
"Ah, sim. Eu nunca usei uma, mas já fiz tiro ao algo algumas
vezes com meu irmão, seis ou sete anos atrás...".
Ele também falou baixo, ouvindo aquele barulho estranho.
John olhou diretamente para ele, como se o analisasse, e puxou
um pesado revólver de seu coldre de perna. Ele a deu para Cole,
segurando-a pelo cano.
"É uma 9mm, leva dezoito. Eu tenho mais clips se acabar. Você
conhece todas as regras de segurança de uma arma? Não aponte
para ninguém ao menos que queira matar, não atire em mim ou no
Leon, coisas do tipo?".
Cole acenou, pegando a arma, e era pesada – e apesar de
nunca ter estado tão assustado em seus trinta e quatro anos, o
sólido peso da arma em suas mãos era um tremendo alívio.
Lembrando do que seu irmão dizia sobre segurança, Cole fuçou a
arma para ver se estava carregada antes de olhar para John de
novo.
"Obrigado". Ele disse, e era verdade. Ele tinha atraído esses
caras para uma armadilha e eles o estavam dando uma arma;
dando-o uma chance.
"Pode esquecer. Isso significa que não temos que nos
preocupar em proteger o seu traseiro ao invés dos nossos". John
disse, mas sentia um suave sorriso. "Vamos".
John na frente e Leon logo atrás, eles começaram à leste,
andando devagar pelo parado cenário. A areia era de verdade; se
movia sob os pés, e com o terrível calor, seria um verdadeiro
esforço.
Eles só andaram uma pequena distância quando Leon pediu
uma pausa.
"Roupa de baixo térmica". Ele murmurou, guardando sua arma
antes de tirar sua camisa preta e amarrá-la na cintura. Ele vestia
uma grossa e texturizada camisa por baixo. "Eu não imaginei que
chegaríamos no Saara –".
Todos ouviram o som, só um segundo antes de verem – antes
de vê-los, três deles, alinhando-se no topo da duna. Pequenos rios
de areia desceram por debaixo de suas múltiplas pernas, cada uma
tão grossa quanto um taco de basebal. Eles tinham garras, eram
como gigantes pinças estreitas e pretas, serrilhadas no lado, e
longos e segmentados corpos que terminavam em caldas, curvando-
se acima de suas costas – com um ferrão nas pontas. Feios e
caídos ferrões de pelo menos trinta centímetros.
As três criaturas cor de areia, cada uma com cerca de um metro
e meio de comprimento e noventa centímetros de altura, começaram
a fazer barulho – as lisas e pontudas presas sob seus arredondados
olhos aracnídeos batiam umas nas outras, soltando aqueles cliques
– e então todas as três criaturas, os monstros, estavam deslizando
na direção deles, perfeitamente equilibrados, apressando-se pela
areia com facilidade.
E no topo da duna, outros três apareceram.
Capítulo 14
"Droga". John exalou, nem a par de que falou, e ergueu a M-16,
abrindo fogo. – bambambambam – e o primeiro dos escorpiões
soltou um estranho e seco hiss, como ar saindo de um pneu
gigante, assim que as balas martelaram seu corpo curvado. Um
grosso fluído espirrou dos ferimentos em sua face, uma face de
presas babantes e olhos de aranha, uma face com um buraco
escuro para a boca. As contorcidas garras se ergueram, caindo ao
lado e se debatendo ferozmente, cavando sua própria cova rasa na
areia.
Leon e Cole estavam atirando, o trovão das 9mm afogando
qualquer outro hiss, produzindo ainda mais sangue branco no
segundo e terceiro dos Scorps. O fluído branco estourava em
bolhas, como vômito, e haviam mais três deles descendo – e o
primeiro, aquele que John havia enchido de furos estava se
levantando. Instavelmente, mas se levantando.
Os buracos estavam vazando com aquela meleca viscosa – e
mesmo enquanto avançava para eles, John viu que o líquido estava
endurecendo, tampando os ferimentos, tão eficiente quanto gesso
numa parede.
"Vai vai vai!". John gritou assim que as outras duas criaturas,
derrubadas por Leon e Cole, começaram a se mover, seus
ferimentos já virando casca. O segundo trio estava na metade da
duna e se aproximando rápido.
Temos que sair.
Ainda havia dois "ambientes", e já tinham usado pelo menos um
terço da munição; isso passou na mente de John na fração de
segundo que levou para ele espirrar mais bolhas nos Scorps,
enquanto Leon e Cole corriam à leste.
Ele nem tentou derrubar nenhum dos seis, sabia que não faria
diferença. A linha de balas era só para afastá-los enquanto os outros
dois homens fugiam, sua mente forçando para achar uma solução
enquanto os impossíveis animais balançavam suas tortas garras,
escorregando na granulosa areia e jorrando mais da cola bizarra. –
granada, mas como eu pego todos de uma vez, como evitaremos os
estilhaços – O mais próximo dos Scorps estava a uns três metros a
sua frente quando virou e correu, o mais rápido que podia pelo
terrível calor, sua adrenalina alta e forte. Leon e Cole estavam a
cinqüenta metros à frente, Leon ziguezagueando – olhando para
frente e para trás, mirando com a semi.
John olhou para trás, viu que os escorpiões ainda vinham. Mais
lentos porém sem vacilar, seus corpos vespóides pingando branco,
suas encurvadas garras erguidas e clicando. Eles também
ganhavam velocidade, a cada passo, um monte de insetos
procurando almoço – em bando – Eles podem não ter uma chance
melhor, John soltou o rifle, a alça parando em seu pescoço, e
afundou uma mão em seu bolso, ainda conseguindo correr. Ele tirou
uma das granadas, liberou o pino, virou e correu de costas. Ele
tentou avaliar a distância, o processo da M68 passando em sua
frenética mente, os Scorps a uns vinte metros atrás. – detonador de
impacto, se arma dois segundos depois do impacto, recuar por seis
segundos – "Granada!". Ele gritou, e atirou o redondo objeto para o
alto, rezando para ter feito uma boa decisão enquanto virava e
corria, a granada ainda subindo enquanto John mergulhava na
lateral da duna..
John se enterrou nela, empurrando com todos os músculos,
escavando cego e sem fôlego. A areia estava mais fria por baixo,
ondas dela em seu rosto, tentando forçar a entrada em seu nariz e
boca, mas não conseguia pensar em mais nada além de puxar as
pernas para dentro – e no que os estilhaços poderiam fazer com a
carne humana.
Um último e desesperado chute e – KA-WHAM – houve um
enorme balanço em volta dele, uma incrível pressão acertando a
cobertura de areia sobre ele. Ele sentiu o peso acima dele forçar o
ar para fora de seus pulmões, e usou tudo o que tinha para levar a
mão à boca para cobri-la. Respirando superficialmente, ele começou
a sair, se contorcendo e chutando como uma minhoca.
Leon, será que eles se abaixaram a tempo, será que funcionou
– Ele ainda lutava contra as correntes deslizantes de grãos,
respirando mais uma vez antes de usar as duas mãos para afastar a
areia. Em poucos segundos ele estava fora, cascatas de areia
caindo de seu corpo, seus irritados olhos lacrimejando. Ele as secou
com uma mão, erguendo a M-16, olhando para a ameaça primeiro –
e não eram mais ameaça. A granada deve ter caído bem na frente
deles; dos seis escorpiões, quatro estavam em pedaços. John viu
uma garra ainda se mexendo, caída na areia em uma poça de
branco, uma calda com um ferrão ainda preso, uma perna, outra
perna; o resto estava irreconhecível, grandes pedaços de mingau
espalhados num semicírculo.
Os dois restantes ainda estavam inteiros lá atrás, mas
definitivamente não se levantariam de novo; os corpos estavam
intactos, mas os olhos e boca, as estranhas mandíbulas e os rostos
se foram.
Todos explodidos. Nem um monte de meleca branca vai grudar
tudo aquilo de novo...
"John!".
Ele virou, viu Leon e Cole retornando, expressões maravilhadas
em ambos os rostos. John se permitiu um breve momento de
completo orgulho, vendo-os se aproximarem; ele foi brilhante, no
tempo, na mira, em tudo.
Bom. o verdadeiro soldado não ganha louvores por um trabalho
bem feito; para ele já bastava saber disso...
Quando o alcançaram, John voltou a si; pensar na situação
deles já era o suficiente.
Eles estavam numa área de teste psicótica por causa de um
maluco da Umbrela; sua equipe foi separada, tinham munição
limitada, e não havia uma saída clara de lá.
Vocês estão ferrados. Dar um tapinha nas próprias costas era
como dar uma aspirina para um morto; não adiantava nada.
Ainda assim, vendo a leve esperança nos rostos dos dois...
podia não ser esperança, mas raramente é uma coisa ruim.
"Podem haver mais deles". Ele disse, tirando areia da M-16.
"Vamos sair daqui –".– clickclickclick – Aquele som. Todos eles
congelaram, olhando um para o outro. Não estava tão perto, mas
em algum lugar sobre a duna havia pelo menos mais um Scorp.
David tinha avistado uma luz a pelo menos quatrocentos metros
à sudoeste de sua posição, mas nem chegou perto; se não fosse o
frio, Claire teria se sentido aliviada. As chances de alguém encontrá-
los nos intermináveis quilômetros de escuridão eram perto de zero;
os caras da Umbrela tinham fracassado. Mesmo com um holofote do
helicóptero – o qual aparentemente não iriam mais usar – seria pura
sorte acharem os três...
"Como você está, Claire?".
Ela se esforçou para não bater os dentes, mas falhou. Deve ter
passado uma hora, talvez mais. "Está frio pra caramba, David, e
você?".
"Também. Foi bom termos nos vestido bem, né?".
Se foi uma piada, ela não percebeu. Claire se aconchegou mais
perto de Rebecca, pensando em que hora perdeu a sensibilidade
nos membros; suas mãos estavam dormentes e seu rosto parecia
congelado numa máscara, mesmo com as quase constantes
mudanças de posição. David estava do outro lado de Rebecca, os
três juntos o mais próximo possível. Rebecca não tinha acordado,
mas sua respiração estava lenta e constante; pelo menos ela
descansava confortavelmente.
Só ela...
"Não deve demorar muito". David disse. "Vinte, talvez vinte e
cinco minutos. Eles posicionarão um ou dois homens, depois
partirão".
"É, você é quem manda". Claire disse. "Como você deduz o
tempo?". Seus lábios pareciam picolés.
"Busca no perímetro, uma volta de pelo menos quatrocentos
metros – considerando que eles tenham seis ou menos homens
ainda capacitados fisicamente, eu estimo quatro – ".
"Por quê?".
A voz de David tremeu com o frio. "Três homens estavam na
porta de trás do prédio, dois entraram – e pelos sons, eu diria que
haviam de três a sete na frente. Oito ou doze homens; mais que isso
não caberiam todos no helicóptero. Menos que isso, eles não
conseguiriam ter coberto as duas entradas".
Claire estava impressionada. "E por que vinte a vinte e cinco
minutos?".
"Como eu disse, eles vão cobrir uma certa distância em volta do
complexo antes de desistirem. O tamanho do complexo vai de
quatrocentos à oitocentos metros, e quanto tempo leva para um
homem mediano andar essa distância. Nós vimos aquela luz há
talvez uma hora, e desde que certamente cada um foi para um lado
e verificado aquele segmento... bom, vinte a vinte e cinco minutos.
Isso incluindo o tempo que levaria para verificar a van. Essa é a
minha opinião".
Claire sentiu seus lábios congelados tentarem um sorriso.
"Você está tirando uma com a minha cara, não está?
Inventando?".
David pareceu chocado. "Não estou. Eu repassei isso várias
vezes e eu acho –".
"Estou brincando". Claire disse. "Sério".
Um curto silêncio e então David riu, o baixo som carregado
facilmente pelo frio escuro. "Claro que está. Desculpe.
Eu acho que temperatura afetou o meu senso de humor".
Claire alternou as mãos, tirando a direita de debaixo da perna
de Rebecca e colocando a esquerda. "Não. Eu peço desculpas. Não
devia ter interrompido. Continue, é muito interessante".
"Nada mais a dizer". David disse, e ela ouviu o leve e rápido
bater de dentes dele. "Eles vão querer ajuda médica para os feridos,
e eu duvido que a Umbrela queira que um de seus helicópteros seja
visto voando pelas salinas à luz do dia; eles deixarão um guarda e
partirão".
Ela o ouviu tremer, sentiu o corpo de Rebecca mexer enquanto
ele trocava sua posição. "De qualquer modo, é aí que nós andamos.
Primeiro para o complexo, um pouco de sabotagem – e então só
veremos o que acontece...".
O modo como sua voz parou, o humor forçado em seu tom que
se quer cobriu o desespero – diziam exatamente o que estava
pensando.
O que ambos estavam pensando...
"E Rebecca?". Ela perguntou gentilmente. Eles não podiam
deixá-la, ela congelaria. Tentar invadir o complexo de novo, tentar
derrubar alguns homens armados enquanto carregavam uma mulher
inconsciente...
"Eu não sei". David disse. "Antes que ela – ela disse que
poderia se recuperar em algumas horas, com descanso".
Claire não respondeu. Afirmar o óbvio não ajudaria em nada.
Eles caíram no silêncio, Claire ouvindo a suave respiração de
Rebecca, pensando em Chris. A afeição de David por Rebecca era
evidente; era como amor de pai e filha. Ou de irmão e irmã. Pensar
nele era um modo de passar o tempo.
-o que você está fazendo nesse momento, Chris? Trent disse
que estava bem, mas por quanto tempo? Deus, eu queria que você
nunca tivesse sido convocado para a mansão de Spencer. Ou para
Raccoon, para lutar pela verdade e justiça... é desgastante, irmão...
"Você está dormindo, não está?". David perguntava isso toda
vez que ficavam mais de um minuto sem falar.
"Não, pensando em Chris". Ela disse. Formar palavras era
difícil, porém melhor do que deixar a boca fechada, congelando. "E
eu aposto que você está começando a desejar ter ido à Europa a
final de contas".
"Eu queria". Rebecca disse fracamente. "Eu odeio esse
tempo...".
Rebecca!
Claire sorriu sem sentir e nem se importou. Ela abraçou a
garota enquanto David se sentava, procurando a lanterna – e apesar
de estar congelando, apesar de separada dos amigos, longe da
saída e contando com incertas probabilidades, Claire sentiu que
definitivamente as coisas estavam começando a dar certo. A ligação
veio logo depois que John explodiu seis dos Ar12.
Reston pensava em pipoca até então; o sistema de defesa dos
Scorps estava funcionando como as projeções sugeriam, o
reparador de danos mais rápido do que esperava. O que não era
esperado foi a fragilidade dos tecidos conectivos entre os segmentos
aracnídeos.
Uma granada. Uma maldita granada.
O desejo por pipoca estava tão morto quanto os Ar12. Ainda
restavam dois, vagando pelo canto sudoeste, mas Reston não tinha
mais fé nos Ar – e apesar de ser uma informação importante, ele
não estava tão certo de que Jackson o agradeceria por tê-la
conseguido.
Ele vai querer saber porque eu não tirei os explosivos deles
antes. Porque eu soltei todos os espécimes. Porque não liguei para
Sidney, pelo menos, por um conselho. E nenhuma resposta que eu
desse seria suficiente...
Quando o telefone tocou, Reston pulou na cadeira, de repente
certo de que era Jackson. Essa noção ridícula desaparecendo ao
pegar o gancho – e o fez certo de que seus objetos de teste não
sobreviveriam à Três.
"Reston".
"Sr. Reston – aqui é o Sargento Hawkinson, Equipe de Terra
Branco Um-Sete-Zero-".
"Sim, sim. Reston suspirou, observando Cole e os dois
S.T.A.R.S. se reunindo. "O que está acontecendo aí em cima?".
"Nós-". Hawkinson respirou fundo. "Senhor, eu lamento informar
que houve altercação com os intrusos e eles escaparam do local".
Ele disse muito rápido, certamente desconfortável.
"O quê?". Reston se levantou, quase derrubando a cadeira.
"Como? Como isso aconteceu?".
"Senhor, nós os encurralamos no galpão de estocagem, mas
houve uma explosão, dois de meus homens foram baleados e mais
três ficaram feridos – ".
"Eu não quero mais ouvir isso!". Reston estava furioso, incapaz
de acreditar que tinha tais incompetentes trabalhando para ele. "O
que eu quero ouvir é que vocês não só falharam miseravelmente,
como não só deixou os três passarem pela sua droga de equipe, e
que não ligou para me dizer que não conseguiu achá-los".
Houve um momento de silêncio do outro lado e Reston
conseguiu calá-lo, conseguiu dar um motivo para tornar a vida dele
um inferno.
Mas Hawkinson soou propriamente arrependido. "Claro, senhor.
Eu lamento, senhor. Eu voltarei com o helicóptero para Salt Lake
City e trazer alguns de nossos novos recrutas para estender nossos
parâmetros de busca. Estarei deixando meus três últimos homens
de guarda, dois à leste e oeste do complexo, e um no veículo de
fuga. Eu voltarei em – noventa minutos, senhor, e nós vamos achá-
los. Senhor".
Os lábios de Reston curvaram. "Assim espero, Sargento. Se
não o fizer, seu traseiro não valerá nada".
Ele desligou a comunicação e jogou o telefone no gancho, ao
menos pensando ter feito algo para facilitar o processo. Um bom
puxão de orelha funciona maravilhas; Hawkinson engatinharia sobre
vidro para obter resultados, exatamente como deve ser.
Reston sentou de novo, olhando para as cobaias enquanto
caminhavam sobre a duna. Cole tinha uma arma agora, e estava
levando-os para a porta de conexão. Reston imaginava se John ou
Ruivo faziam alguma idéia do quanto inútil Cole era. Provavelmente
não, se eles o deram uma arma...
Quando os três chegaram no topo da duna e começaram a
descer do outro lado, os dois Scorps finalmente se moveram.
Diferente da última vez, Reston observou bem de perto, segurando
no laço de esperança – de que acabaria ali, de que os homens
seriam derrubados. Não que Reston tivesse dúvidas sobre os Ca6
da Três, eles certamente não sobreviverão à próxima fase...
... mas e se sobreviverem, hein? Se sobreviverem e forem para
a Quatro, e acharem uma saída? O que você dirá à Jackson, o que
você dirá no tour sem nenhum espécime vivo para ver? Aí será o
meu traseiro sem valor, não é?
Reston ignorou a baixa voz, concentrando-se no monitor.
Ambos os Scorps andaram rapidamente, garras e ferrões para o
alto, seus frágeis corpos de inseto armados para atacar – os três
homens estavam atirando, uma silenciosa batalha, os Ar desviando
e simulando botes, e caindo sob as rajadas de balas. As mãos de
Reston estavam apertadas e nem percebeu; sua atenção voltada
para os Scorps no chão, esperando vê-los atacarem novamente
antes dos homens alcançarem a porta – -exceto por John e Ruivo
estarem indo na direção dos animais, apontando as armas – e
atirando nos olhos. Eles o fizeram rápido e eficiente, e mesmo com
ambos os escorpiões se movendo enquanto os três iam para a porta,
as criaturas cegas só golpearam a areia. Um deles achou um alvo;
em um movimento, ele desceu seu ferrão extraordinariamente tóxico
nas costas do outro. O Ar envenenado girou e cravou sua dentada
garra no abdômen do agressor; se contorceu fracamente, vivo
porém incapaz de ver ou se mover – morrendo ao lado do irmão
morto.
Reston balançou a cabeça devagar, com nojo do tempo e
dinheiro perdido, dos milhões de dólares e horas-homem que
gastaram no desenvolvimento dos habitantes das fases Um e Dois.
E Jackson vai querer essa informação. Uma vez as cobaias
mortas e seus amigos pegos, eu conseguirei dar a volta por cima;
como alguns de nossos "prezados" espécimes. É melhor valer
agora...
O ruivo estava destrancando a porta que os levaria para a Três;
se não tiverem uma caixa de granadas, estarão mortos em minutos.
Reston respirou fundo, lembrando de quem estava no controle.
Hawkinson cuidaria da superfície, Jackson ficaria agradecido, os três
mosqueteiros estavam prestes a serem cegados, pisoteados e
devorados. Não havia nada para se preocupar.
Reston exalou fortemente, conseguindo de alguma forma dar
um inseguro sorriso, e forçando a si mesmo relaxar na cadeira,
chamando os monitores que o mostrariam o habitat dos Ca6.
"Digam adeus". Ele disse, e serviu-se de outro conhaque.
Capítulo 15
Do terrível e ofuscante calor do deserto, eles pisaram na fria
sombra de uma montanha. Eles ficaram na porta, vasculhando a
novo campo de teste, Leon imaginando se estariam enfrentando
Hunters ou Spitters nessa grande e acinzentada sala.
A cinza e pontiaguda pedra do cume da montanha se
verticalizava à frente deles. Cinza também as paredes e o teto, e a
sinuosa trilha a oeste, contornando o "pico". Até a grama cerrada era
cinza. A montanha parecia bem real, talhados blocos de granito
misturados com cimento, esculpidos como rochedos e pintados para
combinar. O efeito geral era de uma inóspita trilha no alto de uma
árida montanha.
Exceto por não haver vento – nem cheiro. Igual às outras duas,
nenhum cheiro mesmo.
"Você vai querer colocar sua blusa de novo". John disse, e Leon
já estava desatando as mangas da cintura. A temperatura tinha
caído pelo menos quinze graus, já congelando o suor que ganharam
na Fase 2.
"Então, para onde vamos?". Cole perguntou, seus olhos
arregalados e nervosos.
John apontou diagonalmente pela sala, à sudoeste. "Que tal a
porta?".
"Eu acho que ele quis dizer qual é o caminho". Leon disse,
mantendo a voz baixa como os outros. Não há porque alertar os
habitantes do lugar sobre suas posições; eles estarão interagindo
em breve.
Os três examinaram as opções, todas as duas: pegar a trilha
cinza ou subir a montanha cinza.
Hunters ou Spitters... Leon suspirou, seu estômago já dando nó.
Se eles conseguirem escapar, se ele achar Reston, ele daria um
sólido chute no traseiro do velho Sr. Blue. Seria contra o sistema
que o fez ser policial, mas aí veio a Umbrela...
"Do ponto de vista defensivo, eu optaria pela trilha". John disse,
olhando para a irregular superfície da montanha.
"Nós podemos nos encurralar se subirmos".
"Tem uma ponte, eu acho". Cole disse. "Eu só fiz uma das
câmeras aqui, aquela –".
Ele apontou para cima à direita, no canto. Leon mau podia vê-la
– as paredes tinham uns quinze metros de altura e sua pintura
monotônica se juntava com a do teto. Criava uma ilusão de ótica
fazendo a sala parecer infinitamente vasta.
"– eu estava numa escada, eu vi por cima, mais ou menos".
Cole continuou. 'Há um desfiladeiro do outro lado, e uma daquelas
pontes de madeira e corda para cruzá-lo".
Leon abriu seu estojo enquanto Cole falava, verificando a
munição. "Como está a M-16?".
"Talvez quinze sobrando neste". John respondeu, tocando o
pente curvo. "Mais dois completos, trinta cada... dois clips para a
H&K, e mais uma granada. "Você?".
"Sete balas aqui, três clips, uma granada. Henry, você
contou?".
O funcionário da Umbrela balançou a cabeça. "Eu acho que –
cinco tiros, eu atirei cinco vezes".
Ele pareceu querer dizer algo mais, trocando olhares entre
Leon e John, finalmente olhando para suas botas sujas. John olhou
para Leon, que deu com os ombros; eles não sabiam nada mesmo
sobre Henry Cole, exceto por não pertencer àquele lugar como eles
próprios.
"Ouçam... eu acho que essa não é a hora e lugar, mas só queria
dizer que sinto muito. Quer dizer, eu sabia que havia algo estranho
sobre tudo isso. Sobre a Umbrela. E eu sabia que Reston era um
idiota, e se eu não tivesse sido tão ganancioso e burro, eu nunca
teria colocado vocês nessa".
"Henry". Leon disse. "Você não sabia, tá bom? E acredite em
mim, você não é o primeiro a ser enganado –".
"Sem dúvida". John interrompeu. "É sério. Os colarinhos são o
problema aqui, e não caras como você".
Cole não ergueu o olhar, mas acenou, seus finos ombros
baixando de alívio. John o passou mais um clip, acenando para a
trilha enquanto Cole o colocava no bolso.
"Vamos nessa". John disse para ambos mas endereçando à
Cole. Leon percebeu na profunda voz uma nota de encorajamento
sugerindo que John estava começando a gostar do empregado da
Umbrela. "Se ficar difícil nós podemos voltar para a Dois. Fiquem
juntos, calados e tentem atirar na cabeça ou olhos – se é que eles
tem olhos".
Cole sorriu de leve.
"Eu vou na frente". Leon disse e John acenou antes de se
afastar da porta e virar à esquerda. O frio ar estava quieto desde
que entraram, nenhum som exceto o deles. Leon foi para trás, Cole
andando devagar à sua frente.
A trilha era arranhada; como se alguém tivesse passado um
rodo antes do cimento secar. Com o pico à direita deles, o caminho
se estendia por uns vinte metros e depois virava angulosamente à
sul, desaparecendo atrás da íngreme encosta.
Depois dos quinze metros, Leon ouviu o bater de pedras atrás
deles. Cascalho solto rolando abaixo do pico.
Ele virou, surpreso, e viu o animal perto do topo do pico, a uns
nove metros. Viu mas não tinha certeza do que estava vendo,
exceto por estar descendo, saltitando sobre as quatro robustas
patas, como um bode das montanhas.
Como um bode sem pele. Como – como – Como nada que já
tinha visto antes, e estava quase no chão quando ouviram um
molhado som de sacudir em algum lugar à frente, o som de uma
garganta congestionada sendo limpa, ou um cachorro rosnando com
a boca cheia de sangue – e estavam cercados, os terríveis sons
vindo de ambos os lados na direção deles.
Voltar para o complexo foi muito fácil. Rebecca precisou de
ajuda para subir a cerca, mas parecia melhorar a cada minuto,
recuperando o equilíbrio e a coordenação. David estava mais
aliviado do que pretendia, e grato pela guarda da Umbrela, ou pela
falta dela, três homens, dois na cerca e outro na van; patético.
Eles começaram a voltar assim que o helicóptero decolou e foi
para o sul, esticando os músculos congelados enquanto se moviam
pelo escuro. Depois de algumas centenas de metros, David se
separou das garotas para fazer um rápido reconhecimento, depois
voltou e guiou-as para a cerca e por cima dela. Antes de derrubarem
os guardas, David precisava de algum lugar seguro e quente para
rever os procedimentos e melhorar a condição de Rebecca; ele
escolheu o mais óbvio dos galpões, o do meio. O que tinha duas
parabólicas, uma série de antenas e cabos descendo de um lado.
Se ele estiver certo, se for o setor de comunicações, seria
exatamente o lugar que queriam estar.
E se eu estiver errado, restam mais dois para vasculhar; um
será a sala do gerador, que deve ter algum tipo de controle climático.
Eu posso deixá-las lá e fazer a sabotagem sozinho...
Depois que escalaram a cerca sul, David ficou impressionado
com a pobreza do plano da Umbrela. Os dois guardas protegendo o
perímetro estavam posicionados na frente e atrás, como se não
houvesse chances de alguém entrar pelas laterais. Uma vez dentro,
David as guiou para o lado mais longe do último galpão, e acenou
para se juntarem.
"Prédio do meio". Ele cochichou. "Deve estar destrancado se for
o que acho que é. As luzes estarão acesas. Eu entro e depois aceno
para me seguirem; se ouvirem tiros, entrem o mais rápido possível.
Fiquem próximas aos prédios e abaixem-se ao cruzá-los. Certo?".
Claire e Rebecca acenaram, Rebecca se apoiando em Claire;
apesar de fraca, ela estava bem. Ela disse que ainda estava
enjoada e que sua cabeça doía, mas os confusos pensamentos que
o atormentavam já tinham passado.
David virou e deslizou pela parede da estrutura mais próxima da
cerca, abraçando as sombras, olhando para ter certeza de que
nenhum guarda apareça. Eles chegaram no fim, de frente à oeste e
deram a volta. David primeiro, verificando a posição do guarda.
Estava muito escuro para ver, mas havia uma sombra densa atrás
da cerca metálica que o identificava. David ergueu a M-16 e mirou
nele, preparado para atirar caso fossem vistos.
Pena não poder atirar agora... mas um tiro alertaria os outros.
Como David não estava preocupado com os guardas na cerca, o
guarda da van poderia ser um problema; ele estava longe o
bastante para usar o rádio antes de vir para cá.
Esses dois serão fáceis, mas como se aproximar deles?
Não havia cobertura se o guarda da van os visse chegando –
Isso podia esperar; eles tinham serviço antes de se preocuparem
com os guardas. Agachado, David levou Claire e Rebecca com a M-
16 apontada para a sombra na cerca. Ele segurou a respiração
enquanto cruzavam o espaço aberto. Eles conseguiram quase sem
um ruído; Depois que cruzaram, David continuou, seus anos de
treinamento permitindo-o se mover tão silenciosamente quanto um
fantasma. Uma vez cobertos pela sombra do galpão, David relaxou
um pouco, o pior de tudo se foi.
Eles podiam ir para o prédio do meio através do negro corredor
entre as estruturas.
Em menos de um minuto eles chegaram ao destino. Acenando
para as mulheres recuarem, David cruzou, parando na porta
fechada. Ele tocou a fria maçaneta de metal e a empurrou para
baixo, acenando para si mesmo ao ouvir o leve click da porta
destrancada.
É aqui; o líder da equipe a deixou aberta para os guardas
acessarem o satélite no caso de voltarmos. Foi um chute, mas foi
um chute calculado.
Era hora de rezar por um pouco de sorte; se as luzes estiverem
acesas, abrir a porta seria como um farol para qualquer um olhando
nessa direção. Os guardas deviam estar olhando para o deserto,
mas isso não significava muito.
Respirando fundo, David empurrou a porta, percebendo que a
luz estava fraca enquanto entrava e fechava a porta. Ele encostou
na porta e contou até dez, e relaxou, inalando o morno ar
agradecidamente enquanto estudava o interior. O galpão havia sido
dividido em salas – e a sala a qual havia entrado estava forrada de
equipamentos de computador, grossos cabos cruzavam o chão e
subiam pelas paredes...
... tudo o que liga esse complexo ao mundo exterior...
David apertou o botão na parede, desligando a única luminária
no teto. Sorrindo, ele abriu a porta para que Rebecca e Claire se
juntassem à ele.
"Fiquem contra a parede". Leon gritou, e Cole obedeceu antes
mesmo de saber porque. O agitado barulho de catarro parecia vir de
algum lugar acima – e então viu a criatura vindo vagarosamente na
direção deles, tornando impossível fugir, e mau conteve o grito.
Ele parou a uns quatro ou cinco metros de distância, e Cole
ainda não parecia entender; era tão bizarro.
Ah, Jesus, o que é aquilo?
Tinha quatro patas, com cascos divididos, como um carneiro ou
bode, e tinha o mesmo tamanho – só que sem pelos, sem chifres,
nada que lembrasse o desenvolvimento natural. Seus corpos
atléticos eram manchados com pequenas variações de marrom
avermelhado, como a pele de uma cobra, só que sem brilho; à
primeira vista, parecia coberta de sangue seco. Sua cabeça de
algum modo era anfíbia, como a de um sapo – um rosto achatado
sem orelhas com pequenos olhos escuros que saltavam de cada
lado, uma boca larga também – mas com dentes pontudos saindo
de uma proeminente mandíbula inferior, um queixo de buldog, sua
cabeça também manchada com as variações de sangue seco.
A coisa abriu a boca, expondo só alguns dentes afiados,
superiores e inferiores, nenhum deles na frente – e aquele terrível
som molhado veio da escuridão de sua garganta, o bizarro chamado
acompanhado pelos outros em algum lugar do outro lado da
montanha artificial.
O chamado cresceu, mais alto e profundo enquanto a coisa
erguia a cabeça, voltando o rosto para o teto – e com um súbito
movimento, a coisa abaixou a cabeça e cuspiu neles. Uma grossa
bolha de semilíquido avermelhado voou neles, em Leon, cruzando a
longa distância – e Leon ergueu o braço para bloquear ao mesmo
tempo que John começou a atirar, se afastando da parede e
espirrando no monstro – Cuspidor – com balas. A meleca atingiu o
braço de Leon, teria acertado seu rosto se não tivesse se protegido,
e em resposta às balas, o cuspidor virou e saltou para a montanha
esculpida – em longos e fáceis saltos que não denotavam pânico,
dor ou qualquer sentimento, levando-o para o topo em segundos.
Ele começou a descer por seis metros depois pulou agilmente para
o chão, parando na frente da porta de conexão. Como se soubesse
que estava bloqueando a saída.
E nem cambaleou, meu Deus – Os múltiplos berros de onde
não tinham visão não aumentaram mais, e também não diminuíram.
Os gargarejos foram parando, um por vez, a falta de alvos tirando-
os o motivo; de repente, tudo estava quieto, do mesmo jeito que
estava quando entraram.
"Mas o que bom Deus foi aquilo? John disse, tirando outro clip
do estojo, suas expressões desacreditadas.
"Nem se machucou". Cole sussurrou, apertando a 9mm com
tanta força que seus dedos ficaram dormentes. Ele nem percebeu,
olhando enquanto Leon tocava o pastoso e úmido punhado de
meleca em sua manga – e soprou de dor, tirando a mão como se
tivesse se queimando.
"Essa coisa é tóxica". Ele disse, rapidamente limpando os dedos
na roupa e mantendo-os no alto. As pontas do dedo do meio e
indicador de sua mão esquerda ficaram vermelhos. Ele
imediatamente guardou a arma no cinto e tirou a blusa preta,
cuidando para evitar contato com a gosma tóxica, empurrando-a no
chão de pedra.
Cole ficou enjoado. Se Leon não tivesse bloqueado...
"Tá bom, tá bom, tá bom" John suspirou. "Isso é ruim, temos
que sair daqui o mais rápido possível... você disse que há uma
ponte?".
"Sim, passa por cima do, é, penhasco". Cole disse rapidamente.
"Tem uns seis metros, e não sei qual a profundidade".
"Vamos". John disse. Ele começou a andar na direção de onde
a trilha virava, bem depressa. Cole seguiu, Leon bem atrás.
John parou a uns três metros da curva e encostou na parede,
olhando para Leon.
"Você quer cobrir, ou eu?". Leon perguntou suavemente. "Eu".
John disse. "Eu vou primeiro. Você corre, Henry, vá atrás dele – e
sigam em frente, entenderam? Cruzem a ponte e vão para a porta –
se puderem, me ajudem –".
O rosto de John era solene. "- e se não puderem, então não
podem".
Cole sentiu a já familiar vergonha. Eles estão tentando me
proteger, nem me conhecem e eu os coloquei nisso...
se ele pudesse fazer algo para retornar o favor, ele faria, apesar
de ter certeza de repente de que nunca faria algo que ajudasse; ele
devia sua vida a esses caras, e várias delas já.
"Prontos?". John perguntou.
"Espere –". Leon virou e correu para onde tinha jogado a blusa.
O Spitter na porta ficou quieto e imóvel como uma estátua,
observando-os. Leon recuperou a blusa e voltou, tirando um
canivete de seu estojo. Ele cortou a manga atingida e deu o resto
para John.
"Se você for ficar parado, fique com o rosto coberto". Leon
disse. "Já que eles não sentem as balas, você não precisará
enxergar nem atirar. Quando cruzarmos, eu gritarei. E se não for
seguro do outro lado, eu vou –".
Os autoritários chamados começaram de novo, fazendo Cole
lembrar de cigarras por algum motivo, o quase mecânico ree-ree-ree
de cigarras numa quente noite de verão. Ele exalou forte, tentando
fingir para si mesmo que estava preparado.
"Sem tempo". John disse. "Preparem-se para ir –".
Ele pegou a blusa, quando – pasmo – sorriu para Leon. "Cara,
você precisa investir num desodorante mais forte; você fede como
um cachorro morto".
Sem esperar uma resposta, John colocou a blusa sobre a
cabeça, segurando-a aberta na parte de baixo para ver o chão. Ele
correu, de cabeça baixa, Cole e Leon se preparando até que –
houve um rápido patpatpatpat, e de repente o material preto sobre o
rosto de John ficou pingando com grandes porções de catarro
venenoso vermelho, e balançou a mão para eles – e Leon disse.
"Agora!". E Cole correu, de cabeça baixa, vendo só as botas de
Leon a sua frente, o borrão cinza do chão e suas próprias pernas.
Ele ouviu um grito borbulhante à esquerda e se abaixou mais ainda,
aterrorizado -- e ouviu passos sobre madeira à frente, e então estava
na ponte, tábuas de madeira balançando sob os pés, amarradas
com finas cordas. Ele viu o precipício em forma de "V" por debaixo
delas, viu que era fundo, que havia sido escavado abaixo do nível
do Planeta, uns quinze metros – e então estava de volta ao chão
cinza, antes mesmo de ter vertigem. Ele correu, pensando em como
era bom ter apenas as botas de Leon para se preocupar, seu
coração martelando as costelas.
Segundos ou minutos depois, ele não sabia, as botas foram
parando, e Cole ousou erguer o olhar. A parede, a parede, e lá
estava a porta! Eles conseguiram!
"John, vai!". Leon gritou, dando alguns passos na direção a qual
vieram, sua semi para o alto e preparada. "Vai!".
Cole virou, viu John arrancar a blusa preta, viu um monte de
Spitters se agruparem na frente dele, seis, sete deles berrando.
John rasgou um caminho entre eles e pelo menos dois deles
cuspiram. Mas John foi rápido, rápido o bastante tal que só um
pouco atingiu seu ombro, até onde Cole pode ver. As monstruosas
criaturas foram atrás dele em seus pulos, não tão rápido, mas
quase.
Corre corre corre!
Cole apontou a 9mm na direção dos Spitters, pronto para atirar
se conseguir um tiro certeiro, enquanto John pisava na ponte – e
desaparecia. A ponte ruiu e John desapareceu.
Capítulo 16
John sentiu a ponte ceder alguns segundos após as cordas
arrebentarem. Ele instintivamente abriu os braços, ainda correndo,
pensando que fosse conseguir – mas começou a cair, seu joelhos
batendo na móvel parede de tábuas de madeira, seus dedos
fechado no momento em que acharam algo sólido – e tudo o que
ouviu foi um whoosh, depois as articulações dos dedos de sua mão
direita bateram em pedra, e agora estava balançando sobre um
precipício muito fundo com um pedaço solto de madeira na mão
esquerda. Ele tinha conseguido se segurar num dos pedaços ainda
presos na agora pendurada ponte; ambas as cordas que prendiam o
lado norte da ponte tinham se soltado.
John soltou a inútil tábua, ouvindo-a bater no fundo do vale com
outros pedaços que haviam se soltado. Ele se puxou para ter um
melhor agarre quando – thwock, uma bola de muco vermelho
apareceu de repente à sua frente, a menos de trinta centímetros à
direita de seu rosto, deslizando pela parede como uma corda
derretida. – como merda derretida – Bambambam, alguém estava
disparando uma 9mm. O crescente berro dos Spitters se preparando
para cuspir o disseram que definitivamente precisava sair de lá.
Ele subiu de novo, seus bíceps flexionando, a tensão contra o
tecido de sua camiseta enquanto agarrava uma das tábuas e se
erguia. Lá em cima, mais tiros, mais próximos, e um grito de Leon
que foi cortado por mais disparos.
Detonem, garotos, eu estou indo – Mão sobre mão era terrível,
ainda mais com dedos sangrando e uma metralhadora pendurada
no pescoço, mas estava indo bem, segurando a próxima tábua – até
que uma quente umidade acertou as costas de sua mão direita, e
doía, era como ácido, queimando – e ele soltou, sacudindo o ácido
da mão, esfregando-a na blusa violentamente. Ele se segurou com a
esquerda, a dor como fogo crescendo. Tudo o que podia fazer para
resistir ao instinto natural era apertar o ferimento ardente – e o modo
como seu dedos começaram a formigar, ele não tinha muito tempo
para se preocupar.
"Ele está bem aqui!".
Um histérico grito veio lá de cima. John jogou a cabeça para
trás, viu Cole agachado na beira do abismo, sua camisa de trabalho
à frente do nariz, seu olhar frenético e assustado.
"John, me dê a sua mão". Ele gritou, e se esticou para baixo o
máximo que podia, flocos de cimento caindo do chão sob suas
botas. Se ele disse mais alguma coisa, ficou perdido sob outra série
de tiros explosivos que Leon usava para manter os cuspidores
afastados.
Só levou uma fração de segundo para John reagir à ordem de
Cole, e naquele instante entendeu que iria sair de lá. Henry Cole
tinha um metro e sessenta e quatro e pesava uns setenta quilos –
vestido. Ele estava parecendo uma tartaruga assustada pendurada
no casco de sua blusa.
Muito engraçado. Engraçado, e conveniente de um modo idiota,
e apesar de sua mão ainda doer como o inferno, ele esqueceu de
senti-la por um segundo ou dois.
John sorriu, ignorando os trêmulos dedos de Cole,
concentrando-se para se erguer com mão ferida. Houveram mais
daqueles sons atrás deles, mas nenhuma bomba de cuspe por
enquanto.
"Mande Leon usar a granada!" Ele suspirou, e Cole virou,
gritando sob outra explosão da semi de Leon. John disse para usar a
granada!".
"... disse granada! John disse para usar a granada!".
"Ainda não!". Leon gritou. "Saiam daí!".
Thwap-wap, mais duas escarradas voaram pelo abismo, uma
acertando as botas de Cole, a outra à somente centímetro do suado
rosto de John.
Use sua força, John – com um último e profundo gemido, John
agarrou a madeira no topo e puxou o corpo para cima, puxando e
empurrando para baixo, trazendo o joelho acima para sair.
"Estou bem, vai!".
Cole, a tartaruga assustada, não precisou de mais incentivo. Ele
decolou, correndo enquanto Leon cobria John, enquanto John corria
em sua direção agachado, enfiando a mão ferida no estojo e tirando
sua última granada – ele já tinha tirado o pino quando viu Leon com
a dele na mão.
"Jogue!". John berrou, alcançando Leon, Leon arremessando ao
alto o poderoso explosivo nos Spitters. Os dois estavam correndo,
John olhando para trás só para ver que três, quatro animais já
tinham caído no penhasco.
Sem tempo para pensar, John arremessou baixo, o mais forte
que podia, sua granada desaparecendo no buraco enquanto a de
Leon caía na frente dos outros – e os dois estavam mergulhando e
rolando, as explosões quase simultâneas, KA-WHAM-WHAM, o som
de pedra dissolvida chovendo, uma incrivelmente alta gritaria atrás
deles – "Vocês os pegaram! Vocês os pegaram!".
Cole estava de pé na frente deles, um descontraído olhar de
alegria em seu rosto. John sentou, Leon ao seu lado, ambos virando
para olhar.
Eles não tinham matado todos. Dois deles ainda estavam
intactos no outro lado do abismo, vivos – mas cegos e feridos, suas
pernas estouradas, um líquido escuro cobrindo o que havia sobrado
de seus rostos enquanto berravam em fúria, como um porco sendo
pisado. Os outros dois deviam ter estado bem à frente da explosão;
estavam sangrando, seus corpos estilhaçados, ossos saindo do
líquido como – como ossos quebrados. Do fundo do precipício
vinham mais berros, e nada apareceu para atacar. Para todos os
efeitos, estava acabado.
John se levantou, estudando as costas de sua mão. Ao
contrário do que parecia, a pele não tinha derretido.
Havia algumas pequenas bolhas se formando e a pele parecia
queimada, mas não estava sangrando.
"Você está bem?". Leon perguntou, se levantando e sacudindo
as roupas, suas jovens feições muito menos jovens para John.
Eu não vou mais chamá-lo de recruta.
John deu com os ombros. "Acho que quebrei uma unha, mas
vou viver".
Ele viu que Cole ainda estava olhando para os dois, seu corpo
tremendo com o estouro de adrenalina; ele não tinha palavras e
John de repente se lembrou de como se sentiu depois da primeira
batalha na qual atuou corajosamente. O quanto ficou animado. O
quanto vivo ficou.
"Henry, você é um cara engraçado". John disse, batendo no
ombro do homem e sorrindo.
O eletricista sorriu incerto e os três foram para a Quatro,
deixando os furiosos berros para trás.
Quando a poeira abaixou e os três homens ainda estavam
vivos, Reston bateu o punho na mesa, sua raiva e medo crescendo,
seu estômago dando um nó, seus olhos largos com descrença.
"Não, não, não, seus idiotas estúpidos, vocês estão mortos!".
Sua voz estava um pouco enrolada, mas estava muito chocado
para reparar nisso, para se preocupar. Eles não sobreviverão aos
Hunters, ele sabia – mas também não sobreviveriam aos Ca6.
Reston não conseguia acreditar que tinham chegado até esse
ponto; não conseguia acreditar que dos vinte e quatro espécimes
que encontraram, todos exceto um Dac foram deixados mortos ou
morrendo. E pior, não conseguia acreditar que deixou o programa
continuar, que seu orgulho e ambição não o deixaram fazer o que
devia ter feito a princípio. Não que estivesse fora de uma "liga", ele
estava no círculo interno, ele já tinha superado esse tipo de
insegurança – mas já devia ter falado com Sidney, ou mesmo com
Duval; não por um conselho, mas para ter um apoio. Afinal de
contas, ele não podia ser totalmente responsável se tivesse o apoio
de um dos membros mais velhos...
Não era tarde demais. Ele faria uma ligação explicaria seu
plano, explicaria que tinha algumas preocupações – ele podia dizer
que os intrusos estavam na Dois, isso pode ajudar, ele podia acertar
os vídeos mais tarde... e os Hunterts já foram testados antes, não os
3K, e sim os 121. Alguns foram soltos na mansão de Spencer; pelos
dados recolhidos, ele sabia que os homens seriam mortos na
Quatro. Mesmo se não forem, não conseguirão sair, e com o reforço
da central, ele ficaria livre.
Certo de ser a decisão correta, Reston pegou o telefone.
"Umbrela, Divisões Especiais e –". – e silêncio. A doce voz
feminina foi cortada no meio da frase, sem se quer um ruído de
estática.
"Aqui é Reston". Ele disse afiadamente, percebendo que uma
fria mão estava tocando seu coração, esfregando-o. "Alô? Aqui é
Reston!".
Nada; e de repente percebeu que a qualidade da luz na sala
havia mudado, ficou mais brilhante. Ele virou a cadeira esperando
desesperadamente que não fosse o que achava ser – até que os
monitores que mostravam a superfície começaram a chuviscar.
Todas as sete desligadas – e alguns segundos depois, antes que
Reston pudesse entender, os sete monitores apagaram.
"Alô?". Ele sussurrou no telefone mudo, sua rápida respiração
quente e dolorida. Silêncio.
Ele estava só.
Andrew "Matador" Berman estava morrendo de frio e tédio,
imaginando porque os Sargento se incomodou em postar alguém na
van. Os caras maus iriam voltar, eles já tinham fugido – e mesmo se
decidirem voltar, certamente não tentariam pegar o veículo. Seria
suicídio.
Ou eles têm um carro reserva ou estão congelados em algum
lugar na planície. Isso aqui é uma total besteira.
Andy subiu seu cachecol até as orelhas e reajustou a pega da
M41. Seis quilos de rifle não parecia muito, mas estava de pé há
muito tempo. Se o Sargento não voltar logo, ele ficaria dentro da
van, descansaria os pés e sairia do frio; ele não estava sendo pago
o bastante para se congelar na escuridão.
Ele se encostou no pára-choque traseiro e imaginou se Rick
estava bem; ele não conhecia os outros, mas Rick Shannon era seu
amigo, e estava todo ensangüentado ao ser posto no helicóptero.
Aqueles idiotas, voltem aqui e eu lhes mostrarei sangue...
Andy deu um sorriso, pensando. Não era à toa que o
chamavam de matador. Ele era um excelente atirador, o melhor da
equipe, o resultado de uma vida inteira de caça à cervos. Se o trio
de imbecis aparecer...
Ele ainda estava pensando nisso quando ouviu um suave apelo
sair do escuro.
"Ajude-me, por favor – não atire, por favor, me ajude, eu fui
baleada –".
Uma sufocada voz feminina. Uma sensual voz e Andy pegou
sua lanterna e mirou no escuro, achando a dona da voz a menos de
nove metros de distância.
Uma garota, vestida numa roupa preta apertada, cambaleando
para ele. Ela estava desarmada e ferida, mancando, seu pálido rosto
aberto e vulnerável sob a brilhante luz.
"Ei, espere". Andy disse, não muito bravo. Ela era jovem.
Parecia ainda mais jovem do que Andy com seus tinha vinte e três
anos.
Andy baixou a arma devagar, pensando no quanto bom seria
ajudar uma mocinha aflita. Ela podia estar com os três criminosos,
provavelmente estava, mas certamente não era uma ameaça para
ele; podia segurá-la até o helicóptero chegar. E talvez fique grata
pela ajuda...
... e bancar o herói é um bom modo de ganhar pontos. Caras
bons podem terminar por último, mas certamente tem muita sorte no
caminho.
A garota mancou até ele e Andy tirou a lanterna de seu rosto,
não querendo cegá-la. Usando somente a nota certa de sinceridade
em sua voz – garotas engoliam essa baboseira – ele deu um passo
até ela, segurando uma mão.
"O que aconteceu? Aqui, deixe me ajudar -?".
Uma escura e pesada coisa bateu nele pelo lado, forte,
levando-o ao chão e tirando o ar de si. Antes de saber o que
aconteceu, uma luz estava brilhando em seu rosto, e a M41 estava
sendo tirada de suas mãos enquanto lutava para respirar.
"Não se mexa e eu não atiro". Um homem disse, um britânico, e
Andy sentiu o frio cano da arma em seu pescoço. Ele congelou, sem
ousar mover um músculo.
Ah, droga!
Andy olhou para cima, viu a garota segurando o rifle, seu rifle,
olhando para ele. Ela não parecia mais indefesa.
"Vagabunda". Ele rosnou, e ela sorriu um pouco, dando com os
ombros.
"Desculpe. Se servir de consolo, seus outros dois amigos
caíram nessa também".
Ele ouviu outra voz feminina atrás, suave e animada. "Ei, você
vai se esquentar. A sala do gerador está bem tostada".
O matador não estava animado, e enquanto o levantavam e
marchavam com ele para o complexo, ele jurou para si mesmo que
essa seria a última vez que subestimaria uma garota – e certamente
lembrará disso da próxima vez que se sentir entediado.
Capítulo 17
A Fase Quatro era mesmo uma cidade, a coisa mais esquisita
que Leon já tinha visto. As três primeiras eram bizarras, irreais, mas
também eram falsas – a calma floresta, as paredes brancas do
deserto, a montanha esculpida. Em nenhum momento ele esqueceu
que era tudo falso.
Isto... não é uma imitação de um habitat orgânico; isto é como
deveria se parecer.
A Quatro eram vários quarteirões de uma pequena cidade à
noite. Nenhum dos prédios tinham mais de três andares – postes de
luz, calçadas, lojas e apartamentos, carros estacionados e ruas de
asfalto. Eles desceram de uma montanha e caíram em Hometown,
E.U.A..
Só haviam duas coisas erradas nela à primeira vista – as cores
e a atmosfera. Os prédios, ou eram vermelho tijolo ou um tipo de
bronzeado ao anoitecer, eles pareciam inacabados e os poucos
carros que Leon podia ver pareciam todos pretos; era difícil dizer
com as pesadas sombras.
E a atmosfera...
"Assombrada". John disse baixo, e Leon e Cole acenaram. De
costas na porta, eles vasculharam a quieta cidade e a acharam
completamente calma.
Como num sonho ruim, um daqueles em que você está perdido
e não consegue achar ninguém, e tudo parece errado...
Não era como uma cidade fantasma, não tinha o ar de um lugar
abandonado ou de um lugar que tinha sobrevivido à sua utilidade;
ninguém jamais viveu lá, e ninguém jamais irá. Nenhum carro já foi
dirigido por suas ruas, nenhuma criança já brincou nas esquinas,
nenhuma vida já a chamou de lar... e o sentimento de vazio sem
vida era – assustador.
A porta os deixou numa rua que corria de leste à oeste,
terminando bem à esquerda deles numa parede pintada de azul
meia-noite. De onde estavam, podiam ver todo o caminho de uma
larga rua pavimentada. A suave luz das luminárias causavam longas
sombras, claras o bastante para andar e escuras demais para ver
direito.
Havia um carro na frente deles, parado na frente de uma
construção bronzeada de dois andares. John foi até ele e socou o
capô. Leon pode ouvir o vazio "tink" sob a mão dele; só a carroceria.
John voltou, vasculhando as sombras com muito cuidado.
"Então... Hunters". Ele disse, e Leon percebeu de repente o que
era mais assustador do que os quarteirões na frente deles.
"Os apelidos são todos descritivos". Ele disse, ejetando o clip de
sua semi e contando as balas. Cinco sobrando, e só tinha mais um
clip cheio, apesar de John ainda ter mais dois – não, ele só tinha
um, Cole estava com o outro.
E a não ser que Leon estivesse errado, John só tinha um clip
cheio para a M-16; trinta balas, e mais o que restava no rifle.
Sem mais granadas e quase sem munição....
"E agora?". Cole perguntou e John respondeu, seu olhar
estreitando enquanto falava, suas expressões mais alertas enquanto
vasculhava cada esquina, cada janela.
"Pense nisso". John disse. "Pterodátilos, escorpiões, bichos
cuspidores... caçadores".
"Eu – ah". Cole piscou, olhando em volta com um novo medo.
"Isso não é bom".
"Você quer dizer que a saída está trancada?". Leon perguntou.
Cole acenou, e John balançou a cabeça ao mesmo tempo.
"E burro, eu usei a última granada". Ele disse suavemente.
"Sem chance de explodir a porta".
"Se você não tivesse usado, nós estaríamos mortos". Leon
disse. "E provavelmente não funcionaria se fosse do mesmo tipo da
porta de entrada".
John suspirou pesado, mas acenou. "Acho que devemos
queimar aquela ponte quando a acharmos".
Todos ficaram quietos por um momento, um profundo e
desconfortável silêncio que Cole finalmente quebrou.
"Então... olhos e ouvidos abertos, e juntos". Ele experimentou
dizer, uma pergunta mais do que uma afirmação.
John levantou as sobrancelhas, afetado e sorrindo. "Nada mal.
Ei, o que você vai fazer da vida se sairmos daqui?
Quer se juntar à nossa causa e ficar no pé da Umbrela?".
Cole sorriu de nervosismo. "Se sairmos daqui, me pergunte de
novo".
Preparados como estariam, eles começaram à sul, andando
devagar no meio da rua, os prédios escuros observando-os com
olhos vazios de vidro. Apesar de todos estarem tentando se mover
silenciosamente, a vazia cidade parecia devolver os ecos de seus
suaves passos no asfalto, até de suas respirações. Nenhum dos
prédios tinham sinais de decoração, e não havia luzes até onde
Leon podia ver. O sentimento de ausência de vida e opressão o deu
uma desagradável lembrança da noite em que chegou a Raccoon
para seu primeiro dia de trabalho no R.P.D., depois que a Umbrela
soltou o vírus.
Exceto pelas ruas de lá cheirarem morte e por haverem
canibais perambulando pela escuridão e corvos se alimentando de
cadáveres. Era uma cidade na agonia da morte...
Na metade do quarteirão, John ergueu uma mão, trazendo Leon
para o presente.
'Só um minuto". Ele disse, e correu par uma das "lojas" à
esquerda, uma vitrine de vidro que o lembrava uma confeitaria,
daquelas que sempre tinham bolos de casamento à mostra. John
espiou pelo vidro, tentou a porta.
Para a surpresa de Leon ela abriu; John se inclinou para dentro
por um longo segundo, depois fechou a porta e voltou.
"Nem balcão nem nada, mas é uma sala de verdade". Ele disse
de voz baixa. "Tem paredes e teto".
"Talvez os Hunters estejam escondidos em uma delas". Leon
disse.
Isso aí, mais assustados com nós do que nós com eles, não
seria bom. Devíamos ter essa sorte – "É isso aí!". Cole disse alto, e
imediatamente derrubou a voz, ficando vermelho. "Como vamos
sair. Os, é, animais são todos mantidos em celas ou túneis atrás das
paredes. Eu não sei quanto as outras fases, mas há um corredor
que circunda a Quatro. Eu vi a porta dele, fica a uns seis metros do
canto sudoeste. Tem que ser mais fácil que a saída normal; pode
estar trancada mas não reforçada".
John estava acenando e Leon achou mais plausível do que
tentar passar por uma porta trancada pelo lado de fora.
"Bom". John disse. "Boa idéia. Vamos ver se conseguimos –".
Algo se moveu. Algo nas sombras de um prédio de dois
andares bronzeado à direita, algo que calou John e fez todos
mirarem na escuridão, tensos e atentos. Dez segundos passaram,
vinte – e seja lá o que era, estava conseguindo ficar perfeitamente
imóvel. Ou...
Ou não vimos absolutamente nada.
"Não há nada lá". Cole cochichou, e Leon começou a abaixar a
9mm, pensando que algo realmente pareceu ter se movido – e de
repente a coisa que não podiam ver gritou, um esganiçado e terrível
berro como algum tipo de pássaro, uma besta feroz cega de raiva –
e o escuro se moveu – Leon ainda não podia ver claramente, era
como uma sombra, uma parte do prédio que se movia, até ver os
estreitos olhos brilhantes, eram claros e estavam a pelo menos dois
metros do chão, e as escuras e esfarrapadas unhas quase tocando
o asfalto, e percebeu que era um camaleão assim que correu para
eles, ainda gritando.
Reston se apressou na direção da sala de controle, o peso do
coldre contra sua perna fazendo-o se sentir melhor.
Sentiria-se ainda melhor se voltasse a tempo de ver os Hunters
estraçalharem os três homens, apesar de se contentar em ver
apenas os corpos mortos.
Estaria perfeitamente bem, nenhum problema desde que
estivessem mortos.
Reston queria beber, queria se trancar na sala de controle e
esperar Hawkinson voltar. Ele sentiu um momento de quase histeria
quando percebeu que as comunicações tinham caído, mas nada
tinha mudado, mesmo. O elevador ainda estava desligado e o
sargento incompetente voltaria com o helicóptero a qualquer
momento; se foi o trio na superfície que cortou as linhas – coisa que
ele não duvidava – Hawkinson cuidaria deles. Se por uma pequena
chance fosse um problema técnico, um novo eletricista seria
contratado assim que liberar o relatório pela manhã.
A parte ruim foi ser incapaz de contatar seus colegas, mas ele
decidiu que isso funcionaria a seu favor; quem não ficaria
impressionado, que em tais circunstâncias ele ainda seria capaz de
lidar com as coisas? Levando tudo em consideração, prender os
invasores no programa de teste foi seu único recurso. Ninguém o
culparia, pelo menos não muito.
Recuperar o .38 de sua sala tinha aliviado sua mente ainda
mais; ele trouxe o revólver para o Planeta mais por ter sido um
presente de Jackson, e apesar de saber pouco sobre armas, puxar o
gatilho era tudo o que precisava fazer com o .38. O pesado revólver
praticamente atirava sozinho, nem tinha trava de segurança...
Reston estava no meio do caminho até a sala de controle
quando lhe ocorreu que deveria tirar os funcionários do refeitório; ele
tinha passado pela porta trancada duas vezes e nem se deu conta.
Conhaque demais, talvez. Ele pensou em voltar por uma batida de
coração, decidindo que eles podiam muito bem esperar; acreditar
que os 3K estavam atuando como deveriam era muito mais
importante. Além disso, ele pretendia demitir todos eles assim que
restabelecer contato com a sede; nenhum deles tentou defender o
planeta nem seu empregador.
Sala de controle, logo à direita. Reston apressou o passo,
entrando na passagem e correndo para a porta. Havia movimento
numa das telas e ele correu para a poltrona, empolgado e ansioso
para vê-los morrer. Não havia nada com que se envergonhar, eles
estavam errados, afinal – e não estavam mortos, nenhum deles,
mas Reston viu que agora era só uma questão de tempo.
Todos os três estavam atirando num dos Hunters, e enquanto
olhava, um segundo animal entrou na cena, ainda tão preto quanto
o carro onde estava.
Ruivo girou para a direita, atirando na nova ameaça, mas os 3K
não eram derrubados com algumas balinhas; com um único e
grande salto, o caçador diminuiu a distância entre eles, seis metros
com um poderoso impulso.
Eles podiam fazer quase nove, Reston sabia através dos dados
preliminares – e Cole passou a atirar nele também, enquanto John
continuava atirando no primeiro, já da cor do asfalto. O
primeiro tinha levado tiros dos três homens; enquanto Reston
olhava, o Hunter virou e se esparramou fora da tela.
O segundo ainda brilhava preto, perfeitamente definido
enquanto erguia seu musculoso braço para estapear as balas que
martelavam seu corpo. Enorme, uma figura humanóide pelada e
sem sexo, a alta besta de crânio réptil e unhas de dez centímetros
jogou a cabeça para trás e uivou. Reston conhecia o som, sua mente
completando a cena enquanto a criatura começava a desaparecer
na rua, as cores quase perfeitas, enquanto girava seu braço
novamente e ruivo era golpeado, caindo.
Isso!
John parou na frente do colega no chão e atirou no monstro,
enquanto Cole levantava Ruivo, os dois recuando.
Houve um diálogo – e os dois saíram da tela, indo para sul... a
criatura se machucou? John parou de atirar e houve sangue jorrando
em algum lugar, cobrindo a face do 3K, seu peito – os olhos, deve
ter acertado nos olhos. Droga! Ele rolou e caiu. Não era um
ferimento fatal mas o incapacitaria por um tempo.
John virou e correu para seu companheiros, sem mais Hunters
à vista – até onde Reston pensava. Não que importasse, eles
estavam mortos; não havia como cruzarem a cidade sem serem
atacados, não podiam se esconder – só para garantir, Reston
apertou a trava da porta de conexão da Três.
Nada de partir em retirada, pessoal...
Eles não apareceram na tela que mostrava a rua a sul do
ângulo da primeira câmera. Franzindo, Reston intercalou as
câmeras, usando a da fachada de um prédio – e viu uma porta
fechar, os homens procurando abrigo dentro de uma das lojas.
Reston balançou a cabeça.
Aquilo provavelmente os protegeria por mais uns cinco minutos,
não mais que isso; os 3K tinham força para rasgar essa cidade, se
assim quisessem, e caçavam basicamente pelo olfato. Eles iriam
rastrear os homens e finalmente colocar um ponto final no problema,
vida inúteis.
Não havia câmera no prédio o qual entraram; ele terá que
esperar até eles saírem, ou até os caçadores traze-los para fora.
Reston sorriu, seus dentes rangendo, impaciente, imaginando
porque os 3K estavam demorando tanto. Era hora do teste acabar,
hora do Planeta ser restaurado.
Os Hunters não iriam falhar. Ele só tinha que esperar mais
alguns minutos.
Eles acharam a entrada na parte de trás do prédio do meio,
depois da sala do gerador, onde haviam colocado os três guardas
resmungões. Foi uma perda de tempo ter procurado pelos controles
do elevador de serviço no primeiro prédio.
Neste há quatro, uma bateria de elevadores numa câmara
carpetada contra a parede oeste. Eles não estavam operando, mas
havia uma plataforma para dois no primeiro poço que acharam,
David e Claire abrindo as portas sem esforço. Mesmo cansada e
exausta, a visão da pequena plataforma presa em seu próprio
sistema de polia fez Rebecca querer rir bem alto.
Eles nunca suspeitariam, vamos entrar como sombras.
"Parece que esqueceram de trancar a porta de trás". David
disse, um olhar de triunfo em seu abatido rosto.
Claire olhou para o quadrado metálico cheia de dúvidas. "Nós
vamos caber aí?".
David não respondeu de imediato, virando para olhar Rebecca.
Ela sabia que ele ia sugerir algo e começou a achar um bom
argumento antes de abrir a boca.
O helicóptero pode voltar, e voltará, se estiverem feridos você
vai precisar de mim, e se os guardas conseguirem fugir – "Rebecca
– eu preciso de um honesto relato de suas condições". Ele disse,
suas expressões neutras.
"Estou cansada, com dor de cabeça e manca – e você precisará
de mim lá embaixo, David, não estou cem por cento, mas também
não estou à beira de um colapso, e você mesmo disse que outra
equipe está provavelmente à caminho –".
David estava sorrindo, segurando as mãos no alto. "Tá bom,
vamos todos. Será bem apertado, mas o peso não será problema,
vocês são pequenas...".
Ele entrou, tirando a lanterna e iluminando os cabos, depois a
simples caixa dos controles na meia grade de proteção. "... acho que
cabe todo mundo. Devemos?".
Rebecca e depois Claire entraram no poço do elevador, a
improvisada plataforma de serviço preenchendo só um quarto do
escuro espaço frio. Vazio acima e abaixo e só havia guarda-corpo
de um lado. Claire se apoiou desconfortavelmente na barra de
metal; os três bem apertados um no outro.
"Eu queria ter uma bala de menta". Claire murmurou.
"Eu queria que você tivesse uma". Rebecca disse, e Claire riu
abafado. Rebecca podia sentir o movimento das costelas de Claire
em seu braço; eles estavam embalados.
"Aqui vamos nós". David disse, e apertou os controles.
O elevador começou a descer com um alto zumbido, tão alto
que Rebecca começou a pensar duas vezes sobre esse ataque
surpresa. Descia devagar, também, metade da velocidade de um
elevador normal.
Deus, isso pode levar uma eternidade...
Só de pensar, Rebecca sentiu-se exausta, o barulho do motor
bagunçando sua dor de cabeça. Ficar parada a fez perceber o
quanto estava doente, e enquanto o quadrado brilhante das portas
abertas subia, Rebecca ficou grata de repente por estarem
grudados; servia como desculpa para se apoiar pesadamente em
David, de olhos fechados, tentando se manter sã por mais um
tempo.
Capítulo 18
Eles estavam encrencados, entrando no prédio e indo para a
parede de trás no escuro, suando e ofegando, Cole esperando a fina
porta estourar a qualquer segundo.– boom, e eles entram correndo,
gritando, cortando a gente em fatias antes mesmo de vê-los –
"Tenho um plano". John ofegou, e Cole sentiu um piscar de
esperança, uma esperança que durou até a próxima frase de John.
"Nós corremos que nem loucos para a parede de trás". Ele
disse finalmente.
"Você ficou maluco?". Leon disse. Você viu aquele pulo, não há
como correr deles –".
John respirou fundo e começou a falar, baixo e rápido. "Você
está certo, mas você e eu somos bons atiradores, podemos apagar
algumas luzes da rua pelo caminho. Mesmo se puderem ver no
escuro, será uma distração, armar uma confusão, talvez".
Leon não disse nada, e apesar de não poder ver seu rosto
claramente, Cole o viu esfregar seu ombro, onde a criatura o havia
golpeado. Devagar, ele já estava começando a considerar a idéia de
John.
Os dois são malucos?
Cole lutou para manter o terror fora de sua voz. "Não há outra
opção? Sei lá, nós podíamos... podíamos subir, andar pelos
telhados".
"Todos os prédios tem diferentes alturas". John falou. "E eu não
acho que agüentariam tanto peso".
"E se nós –".
Leon interrompeu suavemente. "Nós não temos a munição,
Henry".
"Então voltamos para a Fase Três, pense nisso...".
"Estamos mais perto do canto sudoeste". John disse e Cole
sabia que estavam certos, sabia e não gostava nem um pouco.
Mesmo assim ele procurou outra alternativa, tentando pensar em
outro caminho.
Os Hunters eram terríveis, eram as coisas mais terríveis que
Cole já tinha visto – e de algum lugar lá fora, um deles gritou, o
arranhado e furioso som estourando pelas finas paredes, e Cole
percebeu que não tinham tempo para um plano melhor.
"Tá bom, certo, tá". Ele disse, pensando que o mínimo a se
fazer era aceitar e encarar o inevitável como se tivesse coragem.
Eu não vou atrasá-los, pensou, e respirou fundo, endireitando
os ombros um pouco. Se tem que ser assim, ele não iria se
envergonhar na frente deles virando um convarde chorão – e não
iria diminuir suas chances de sobreviverem tornando-se uma mala.
Cole tirou do bolso o clip que John o havia dado e trocou pelo
vazio, seu coração pulando – e ficou um pouco surpreso por
perceber que agora que se comprometeu, que fez uma decisão,
sentiu-se mais forte, mais corajoso.
Eu posso muito bem morrer nessa, disse para si, e esperou
pela leva de terror – mas ela não veio. Ele já estaria morto se não
fosse John e Leon, e talvez essa seria sua chance de evitar que um
deles se machucasse.
Sem outra palavra, os três foram para a porta, Cole pensando
em como sua vida mudou mais nas últimas horas do que nos últimos
dez anos – e do jeito que aconteceu, ele estava grato – sentia-se
completo. Sentia-se real.
"Preparar...". John disse, e Cole respirou fundo, Leon sorrindo
para ele sobre a suave luz da janela.
"... agora".
John puxou a porta e eles correram para a rua enquanto,
envolta deles, a noite era rasgada pelos selvagens gritos dos
Hunters.
Os olhos de Reston brilhavam. Ele se inclinou para frente,
olhando para a tela intensamente, deliciado com a decisão suicida.
Todos os três, arremetendo no escuro como lunáticos. Como
homens mortos que não sabiam parar de se mover.
Eles correram à sul, John na frente, Ruivo e Cole bem atrás. De
uma calçada à direita deles, um Hunter saltou para recebê-los – e
houve um flash de luz, um brilhante estouro alaranjado vindo de
cima, vidro em chamas como chuva de purpurina na rua. Foi uma
das lâmpadas da rua, e os 3K pareceram ficar furiosos enquanto o
vidro caía. O caçador vermelho-virando cinza girou o corpo em torno
de si, frenético e gritando, procurando o agressor – e ignorou
completamente os três homens. Todos os três estavam passando,
erguendo as armas e atirando para o céu, acertando mais lâmpadas,
e Reston viu outro Hunter pular na rua, quase perdido, como uma
sombra entre sombras – e Cole, Henry Cole fintou para a esquerda
depois para a direita, cravando uma bala de sua arma na cabeça de
um 3K – e houve um estouro de líquido, pedaços de cérebro e
sangue jorrando de sua têmpora, o eletricista atirando às cegas. Os
braços do Hunter estavam espasmando, tremendo, mas já estava
morto.
Cole continuou correndo, alcançando os outros enquanto mais
lâmpadas explodiam.
"Não". Reston sussurrou, sem perceber que havia falado, mas
bem certo de que as coisas estavam indo horrivelmente erradas.
John correu, parou para atirar, correu de novo. Os violentos
berros o seguiam, a chuva de vidro e cheiro de metal queimado
vinham até eles de toda a parte – e viu um caçador na rua, na frente
deles, na interseção que os levaria à jaula, viu os estranhos olhos
brilhantes e o escuro buraco de sua gritante boca – guarde munição
Jesus ele é igual à rua – e continuou correndo direto para a criatura,
mirando, as explosivas balas de 9mm atrás dele, o monstro
barulhento a menos de três metros de distância quando John atirou.
Um curto estouro, calculado, direto na gritante e sobrenatural
face – e o monstro não caiu. E apesar de John ter desviado, não foi
o suficiente. Quase cara a cara com ele, o sangue estava visível e
abundante, a coisa levantou um dos longos braços e acertou John
no peito.
O golpe acertou seu peito esquerdo e John esperava ser
esmagado, jogado no ar, seu corpo esfarrapado – mas a criatura
deve ter sido enfraquecida pela bala, desorientada, cega talvez.
Mesmo sentindo seu pulmão contraindo de dor – e a porrada foi
brutalmente sólida – ele já havia tomado golpes mais fortes. Ele
cambaleou, mas não caiu, e já o tinha passado virando para
esquerda, indo para oeste.
John olhou para trás, viu que os outros ainda o acompanhavam,
olhou para frente – lá está ela!
A rua terminava numa parede pintada a menos de um
quarteirão à frente – e havia uma abertura feita a um metro e meio
do chão, com uns dois e meio de largura por no mínimo três de
altura – e houve outro grito à sua direita, ele não conseguia ver o
Hunter camuflado, mas bam-bam, Leon ou Cole atirou nele, o berro
ficando frenético de raiva. John ergueu a M-16 e apagou outra
lâmpada, dez segundos e estamos lá -- e um painel azul marinho da
cor da parede começou a deslizar para baixo sobre a abertura,
devagar, mas constante. Em segundos, não haveria saída.
Reston bateu desesperadamente na trava da jaula, a comporta
descendo como uma lesma, suas mãos suando, sua mente
embriagada e girando com descrença.
Não não não não – Ele havia fechado a Dois e a Três, mas
ainda havia um Hunter dentro da jaula e se esqueceu dela – e agora
o animal tinha ido embora e os três homens iam fugir. Fugir dele, de
suas mortes.
Rápido!
John estava olhando para trás, gritando, Ruivo bem atrás, Cole
quase ao seu lado – e havia um Hunter a menos de seis metros
atrás deles, diminuindo a distância, seu enorme corpo mudando
entre asfalto e bronze, suas garras traçando canaletas na rua.
Mate eles, mate, pule, mate!
John chegou na abertura, suas mãos no chão, impulsionando-o
graciosamente. Uma de suas mãos voltou e Ruivo estava lá,
agarrando-a, sendo puxado para dentro num instante – e lá estava
Cole, e também ia passar, a comporta não fecharia a tempo, mãos
se esticando para ele – e o Hunter atrás dele varreu os braços para
baixo, suas unhas rasgando as costas de Cole, através da blusa e
da pele, através dos músculos e talvez dos ossos.
Os outros puxaram Cole para dentro enquanto a comporta
fechava.
Cole não gritou enquanto o sentavam, devendo estar em
agonia. Eles os deitaram de barriga para baixo e mais gentil
possível, Leon enjoado de tristeza quanto viu o estado das costas de
Cole.
Morrendo. Ele está morrendo.
Em segundos, ele ficou numa piscina do próprio sangue.
Através dos farrapos de sua ensopada camisa, Leon podia ver a
carne rasgada, as fibras dos músculos cortados e o liso brilho do
osso logo abaixo. Um osso arranhado. O dano foi feito por dois
longos cortes, cada um começando abaixo dos ombros e terminando
na parte inferior das costas. Ferimentos mortais.
Ele respirava baixo, leves suspiros, seus olhos fechados e suas
mãos tremendo.
Inconsciente. Leon olhou para John, viu a acometida expressão,
o desvio de olhar; não havia nada que podiam fazer por ele.
Eles estavam numa gigante cela que fedia animais selvagens
no final de um longo corredor de cimento, um que aparentemente
corria o comprimento das quatro áreas de teste. Estava escuro, só
algumas luzes ligadas, mostrando a jaula em sombras; as jaulas
eram separadas por paredes com grandes janelas, e Leon só podia
ver a que estava perto deles, o lar dos Spitters. Estava coberto com
um claro e grosso plástico, o chão coberto de ossos.
A cela dos Hunters estava vazia, tinha pelo menos 9 metros de
largura e o dobro do comprimento, com dois baixos cochos perto da
cerca. Era um frio e solitário lugar para morrer, mas pelo menos
estava seguro, não estava sentindo nenhum – "Vire... me". Cole
suspirou. Seus olhos estavam abertos, seus lábios tremendo.
"Ei, não se mexa". John disse gentilmente. "Você ficará bem,
Henry, só fique onde está, não se mexa, tá bom?".
"Besteira". Cole disse. "Me virem, estou morrendo...".
John travou o olhar com o de Leon que acenou relutante. Ele
não queria causar mais dor para Henry, mas também não queria
recusá-lo nada; ele estava morrendo e deviam dá-lo o que podiam.
Devagar e cuidadosamente, John ergueu Cole e o virou. Cole
gemeu quando suas costas tocaram o chão, seus olhos largos
rolando, mas pareceu aliviado depois de um momento. Talvez o
frio... ou talvez já tinha passado do ponto da dor, ficando dormente.
"Obrigado". Ele suspirou, uma bolha de sangue estourando em
seus pálidos lábios.
"Henry, tente descansar agora". Leon disse suavemente
querendo chorar. O homem tentou tanto ser corajoso, acompanhá-
los...
"Fóssil". Cole disse, seu olhar fixando-se no de Leon. "No tubo.
O pessoal disse – se sair, ele – destruir tudo. Coisa no laboratório.
Oeste. Entendeu?".
Leon acenou, entendendo perfeitamente. "Uma criatura da
Umbrela no laboratório. Fóssil. Você quer que nós o soltemos".
Cole fechou os olhos, sua branca face tão parada que Leon
pensou estar acabado – mas Cole falou de novo, tão baixo que Leon
precisou se inclinar para ouvi-lo.
"Isso". Ele suspirou. "Bom".
Cole deu um último suspiro e exalou – e seu peito não levantou
mais.
Minutos depois da morte de Cole, os dois homens descobriram
como sair da cela dos Hunters. Reston encarou o monitor, não
sentindo nada, determinado a não ficar surpreso. Eles simplesmente
não eram humanos e pronto; quando aceitar isso nada mais o
surpreenderá.
A comida era presa firmemente na cerca de aço tal que os
manipuladores não precisavam entrar nas celas; a maior parte do
cocho ficava para fora; o suficiente para jogar a comida dentro e os
animais a puxarem pelo lado de dentro. Não havia preocupação de
os 3K puxarem as bacias de comida para dentro ou empurrá-las
para fora, as aberturas eram muito estreitas para seus corpos.
Mas não para humanos... ou seja lá o que forem.
John e Ruivo começaram a chutar o cocho, e assim que
começou a se deslocar, Reston pegou o revólver e se levantou,
afastando-se dos monitores. Não havia porque olhar. Ele falhou, os
testes do Planeta provaram ser fáceis demais e seria punido
severamente pelo que fez, ou talvez morto. Mas ele não estava
pronto para morrer, ainda não – e não pelas mãos deles.
Mas e o elevador, o pessoal na superfície...
Não era seguro subir também. O complexo já devia estar
infestados por esses S.T.A.R.S. agora, eles cortaram a força e
estavam esperando seus dois rapazes terminarem o serviço...
Não dá para subir, não dá para matá-los, não há tempo... o
refeitório!
Seus empregados o ajudariam. Quando libertá-los, quando
explicar as coisas, eles correriam ao seu lado, o protegeriam.
Preciso ir agora, eles sairão em breve e virão atrás de mim.
Tentarão vingar Cole, talvez. Tentarão me deixar arrependido por ter
feito o meu trabalho, o que qualquer um teria feito.
De alguma forma, ele duvidou que tentariam. Reston saiu, já
preparando sua história, imaginando como as coisas ficaram tão
terrivelmente erradas.
Capítulo 19
Das jaulas, eles pisaram num limpo e esterilizado corredor, e
viraram à esquerda – oeste – andando rapidamente pelo vazio
corredor. Nenhum deles falou; não havia nada para falar até
acharem o que Cole havia chamado de Fóssil, até descobrirem se
era a decisão certa.
Pela primeira vez desde que entraram no Planeta, John não
sentiu vontade de fazer piadas. Cole era um cara bom, fez o
possível para retribuir o erro de tê-los atraído para o programa de
teste, fez o que pediram para fazer – e agora estava acabado,
brutalmente ferido, morrendo com sangue e dor no chão de uma
jaula.
Reston. Reston pagaria por isso, e se o melhor jeito de pegá-lo
era soltando um monstro da Umbrela, assim seria. A justiça cabível.
Dane-se o livro de códigos. Se o Fóssil é tão mau quanto Cole
achava ser, nós o soltaremos, libertaremos os funcionários e
fugiremos. Deixaremos o monstro encontrar Reston e derrubar esse
lugar...
O corredor entortava à direita, depois seguia reto, ainda à oeste.
Quando fizeram a curva, eles viram a porta à direita – e John sabia
que era o laboratório de Cole. Ele sentia.
E estava certo. A porta de metal abriu – depois de usar a chave
de 9mm – e deu num pequeno laboratório com balcões e
computadores, que depois abria numa sala cirúrgica, brilhando de
aço e porcelana. A porta na parede atrás da sala de operações era a
qual Cole se referia – e quando viram a criatura, John pôde ver
porque Cole insistiu em contar sobre ela, mesmo em seus últimos
momentos. Mesmo se tivesse metade do poder o Planeta viraria
história.
"Cristo". Leon disse, John não achou nada para adicionar. Eles
andaram devagar até o gigante cilindro no canto da gigante sala,
depois da mesa de autópsia de inox e bandejas de ferramentas
brilhantes, parando na frente do tubo. As luzes da sala estavam
apagadas, mas havia uma luz direcional no teto apontada para o
container, iluminando a coisa. O Fóssil.
O tubo tinha quatro metros e meio de altura e pelo menos três
de diâmetro, cheio de um claro líquido avermelhado – e envolto no
fluído, preso em tubos e fios que vinham de cima, estava o monstro.
Um pesadelo.
John imaginou que se chamasse Fóssil por causa do que se
parecia, ou parte disso – algum tipo de dinossauro, um que jamais
caminhou pela superfície da Terra. A criatura de três metros de
altura tinha uma cor pálida, sua granulada pele rosada por causa do
líquido em volta. Não tinha rabo, mas tinha a grossa pele e as
pernas de um dinossauro. Foi certamente criado para andar erguido,
e além dos pequenos olhos, o focinho arredondado de um
dinossauro carnívoro, um T-Rex ou um velociraptor, também tinha
longos e musculosos braços, e mãos com lisos e curvos dedos.
Impossível como era, parecia uma mutação entre homem e
dinossauro.
O que estavam pensando? Por que – por que fazer algo assim?
Estava adormecido, ou em algum tipo de coma, mas estava
vivo. Conectada a uma fina mangueira, estava uma máscara que
cobria seus orifícios nasais, e uma bandana de plástico envolvendo
sua gigante mandíbula, para mantê-la fechada.
John podia não vê-los, mas tinha certeza que havia fileiras de
dentes afiados na larga e curva boca da criatura.
Seus olhos estavam cobertos por uma pálpebra interna, uma
fina camada de pele roxa, e podiam ver o lento erguer de seu
grande peito, os gentis movimentos de seu corpo na meleca
vermelha.
Havia uma prancheta pendurada na parede próxima a Fóssil,
sobre um pequeno monitor onde finas linhas verdes piscavam.
Leon ergueu a prancheta, virando as folhas enquanto John
olhava, admirado com horror. Uma de suas mãos aracnídeas torceu,
os dedos de vinte centímetros quase formando um punho.
"Aqui diz que uma autópsia está marcada para daqui três
semanas e meia". Leon disse, ainda procurando. "O espécime ficará
em estase, blá blá blá... quando será injetado com uma dose letal de
Hyptheion antes do dissecamento".
John olhou para a mesa de autópsia, viu as presilhas de aço em
cada lado e três serrotes de ossos embaixo. A mesa foi
aparentemente construída para acomodar grandes animais.
"Por que mantê-lo vivo afinal?". John perguntou, virando para o
Fóssil adormecido. Era difícil não olhar; a criatura era chamativa,
horrível e impressionante, uma aberração que exigia atenção.
"Talvez para os órgãos ficarem frescos". Leon disse, e respirou
fundo. "Então... vamos fazer?".
É uma pergunta valendo um milhão de dólares, não é? Nós não
teremos os códigos – mas a Umbrela terá um parquinho a menos
para suas brincadeiras. E talvez um gerente a menos.
"É." John disse. "Sim, acho que vamos".
Os homens o ouviram quietos, seus rostos pensativos enquanto
absorviam o terror que havia invadido o Planeta.
A invasão de cima, seu pedido de ajuda, como os invasores o
derrubaram depois de matarem Cole a sangue frio.
Os empregados não fizeram perguntas, só ficaram sentados
tomando café – alguém tinha feito café – e ficaram ouvindo.
Ninguém o ofereceu uma xícara.
"... e quando me recuperei, eu vim aqui". Reston disse, e correu
uma trêmula mão sobre o cabelo, estremecendo apropriadamente.
Ele não precisava inventar tremores. "Eu – eles ainda estão por aí,
em algum lugar, talvez instalando explosivos, eu não sei... mas
podemos impedi-los se trabalharmos juntos".
Ele podia ver em seus olhos que não estava funcionando, ele
não os inspirava ação. Ele não era bom com pessoas, mas podia lê-
las bem o bastante.
Eles não estão acreditando, use Henry...
Os ombros de Reston pularam, um assombrado tom em sua
voz. "Eles atiraram nele". Ele disse, olhando para baixo, atordoado
de tristeza. "Ele estava implorando, apelando para o deixarem viver,
e eles – eles atiraram".
"Onde está o corpo?".
Reston olhou para cima, viu que Leo Yan tinha falado, um dos
manipuladores de 3K. Yan não tinha nenhuma expressão, apoiado
na ponta da mesa de braços cruzados.
"O quê?". Reston perguntou, parecendo confuso, mas sabendo
exatamente do que Yan estava falando. Pense, droga, já devia ter
pensado nisso – "Henry". Alguém disse, e Reston viu que era Tom
alguma coisa, da construção. Sua áspera voz estava abertamente
céptica. "Eles atiraram em Cole, te apagaram – então o corpo ainda
está no bloco das celas, certo?".
"Eu – eu não sei". Reston disse, sentindo-se quente e
desidratado de tanto conhaque. Sentindo que não se recuperaria da
inesperada pergunta. "Sim, deve estar, a não ser que o moveram
por algum motivo. Eu acordei confuso, enjoado, eu queria achar
vocês imediatamente, ter certeza de que não foram feridos. Eu não
reparei se ainda estava lá...".
Eles olharam para Reston, um mar de rudes faces que não
estavam mais tão neutras. Reston viu descrença, desrespeito e raiva
– e nos olhos de um ou dois, viu rancor.
Por quê, o que eu fiz para inspirar tal desprezo? Eu sou o chefe
e empregador deles, eu pago seus malditos salários – Um dos
mecânicos se levantou da mesa e se adereçou aos outros. Era Nick
Frewer, o que parecia ser o mais popular entre eles.
"O que me dizem de sairmos daqui?". Nick perguntou. "Tommy,
você tem as chaves do caminhão?".
Tom acenou. "Claro, mas não a chave do depósito".
"Eu tenho". Disse Ken Carson, o cozinheiro. Ele se levantou
também, e aí a maioria estava de pé, se espreguiçando e
bocejando, terminando com o café.
Nick acenou. "Bom, todos façam as malas e estejam no
elevador em cinco –".
"Esperem!". Reston disse, incapaz de acreditar no que estava
ouvindo, que iriam fugir de suas obrigações. Que podiam ignorá-lo.
"Há mais na superfície, eles vão matar vocês! Vocês têm que me
ajudar!".
Nick virou e olhou para ele, seu olhar calmo. "Sr. Reston, nós
não temos que fazer nada. Eu não sei o que realmente está
acontecendo, mas acredito que você é um mentiroso – e posso não
falar por todos, mas eu não sou pago o bastante para ser seu
guarda-costas.
Ele sorriu de repente, seus olhos azuis brilhando. "Além disso,
eles não estão atrás de nós".
Nick virou e foi embora, e Reston pensou em atirar nele por um
instante – mas só tinha seis balas e nenhuma dúvida de que seus
colegas cairiam em cima dele se ferisse um dos operários. Ele
pensou em dizer que suas vidas estavam acabadas, que não
esqueceria dessa traição, mas não queria desperdiçar seu ar. E não
tinha tempo para isso.
Esconda-se.
Era tudo a se fazer.
Reston deu as costas para os insubordinados e correu, sua
mente pensando nos lugares para ir, rejeitando algumas opções por
serem óbvias demais, muito expostas – e se decidiu. A bateria de
elevadores, perto da ala médica. Era perfeito. Ninguém pensaria em
olhar dentro de um elevador que nem funcionava. Ele podia forçar a
entrada em um deles e ficar a salvo lá dentro. Ao menos por um
tempo, até pensar em outra coisa para fazer.
Suando, apesar do frio cinza do quieto corredor principal,
Reston virou à direita e começou a correr.
Depois do que pareceram horas de descida pelo escuro e frio
duto do barulhento elevador, eles chegaram ao fundo.
Ou no topo, dependendo de como você olha, Claire pensou,
enquanto a lanterna de David acendia e o motor desligava. Eles
pararam em cima de uma cabine de elevador, vazia exceto por uma
escada de mão ao lado.
Eles saíram do quadrado de metal, Claire aliviada por voltar a
uma superfície mais sólida. Descer por um poço aberto de elevador
onde um passo em falso podia levá-la à morte não era sua idéia de
diversão.
"Acha que alguém nos ouviu?". Claire perguntou, e viu silhueta
de David mexer os ombros.
"Mesmo se estivessem a trezentos metros daqui, acho que sim".
Ele disse. "Espere, eu vou descer...".
Claire acendeu sua lanterna enquanto David sentava,
segurando as pontas do painel e se abaixava. Enquanto movia a
escada, Rebecca também ligou a lanterna, e Claire viu seu rosto.
"Ei, você está bem?". Claire perguntou, preocupada. Rebecca
parecia doente, muito pálida e com olheiras escuras.
"Sim, já estive melhor, mas vou sobreviver". Ela disse de leve.
Claire não estava convencida, mas antes de insistir no assunto,
David as chamou.
"Certo – deixem os pés pendurados, eu os guiarei até os
degraus e as ajudarei a descer".
Claire acenou para Rebecca ir primeiro, decidindo que se ela
não conseguisse funcionar, provavelmente diria algo.
Enquanto David ajudava Rebecca, ocorreu a Claire que ela não
diria nada se estivesse na pele da garota.
Eu iria ajudar, e não gostaria de ser deixada para trás; eu
continuaria mesmo se isso fosse me matar...
Claire limpou a mente, passando pelo teto do elevador.
Rebecca não era tão rebelde, ela era médica. Ela era normal.
Assim que desceu, David acenou para Claire e os dois puxaram
as frias portas de metal, Rebecca mirando sua semi aleatoriamente
na abertura que aumentava. Quando conseguiram afastar as portas
alguns centímetros, David saiu primeiro e depois acenou para o
seguirem.
Uau...
Ela não sabia ao certo o que veria, e um corredor cinza não era
uma das possibilidades. Ele se prolongava à direita, terminando
numa porta, e virava à esquerda, cerca de seis metros do elevador
que levava à leste. Claire não sabia sobre as direções, mas sabia
que o elevador que Leon e John pegaram estava à sudoeste –
considerando que desceu reto.
Estava silencioso, perfeitamente quieto. David moveu a cabeça
para a esquerda, indicando que seguiriam naquela direção, as duas
garotas acenaram.
Podemos começar pelo elevador, ver se podemos descobrir
que caminho seguiram...
Claire olhou Rebecca de novo, sem querer encará-la porém
insegura sobre sua saúde, ela não parecia bem e quando Rebecca
virou para a curva do corredor, Claire viu o olhar de David, acenando
de leve na direção da médica, franzindo.
Ele hesitou, e ela viu que ele sabia sobre a condição de
Rebecca. Pelo menos – e Rebecca soltou um agudo grito de
surpresa, já na curva – assim que um homem de terno azul
apareceu e a agarrou, tirando a arma da mão dela e colocando um
revólver em sua cabeça.
Ele travou seu braço no pescoço dela, apertando, e virou seus
selvagens olhos para eles, seu dedo no gatilho, um trêmulo sorriso
em seu velho rosto.
"Eu vou matá-la! Eu vou! Não me façam matá-la!".
Rebecca segurou o braço dele e ele apertou mais, suas mãos
tremendo e seus olhos azuis intercalando entre David e Claire.
Rebecca fechou um pouco os olhos, seus dedos cedendo e Claire
viu que estava muito fraca, que estava a ponto de um colapso.
"Vocês não vão me matar, fiquem longe! Fiquem longe ou eu
mato ela!".
O cano do revólver estava apertado na cabeça dela, se David
ou Claire se moverem...
Eles só olharam enquanto o maluco começou a recuar,
arrastando Rebecca para a porta no fim do corredor.
Capítulo 20
Foi assustadoramente fácil tirar Fóssil do coma. Em questão de
momentos, Leon entrou no programa de monitoramento e descobriu
como drenar o cilindro. De acordo com o relógio digital que surgiu na
tela, só levaria cinco minutos.
Deus, qualquer um trabalhando aqui poderia ter feito isso, a
qualquer hora. Para uma companhia tão paranóica, a Umbrela dá
muita moleza...
"Ei, olhe isso". John disse, e Leon virou-se do pequeno
computador, olhando cautelosamente para o monstro.
Mesmo depois de sobreviver ao inferno de Raccoon, depois de
lutar com zumbis e aranhas gigantes e até mesmo com um crocodilo
gigante, essa foi a coisa mais estranha que já tinha visto.
John estava de pé na parede do outro lado da sala, olhando
para uma pintura laminada. Assim que se aproximou, Leon viu que
era um mapa do Planeta, cada área claramente identificada. O
complexo tinha um layout bem simples, basicamente um corredor
que cercava as quatro fases, a maioria dos escritórios e salas em
pequenas partições do corredor.
John tocou um pequeno quadrado à leste, logo depois do
elevador de serviço. "Aqui diz 'controle de teste/sala de
monitoramento,'". Ele disse. "e fica a caminho da saída".
"Você acha que Reston se escondeu lá?". Leon perguntou.
John balançou os ombros. "Se ele estava vendo as fases, é lá
que deveria estar – o que me intriga é se ele não deixou aquele livro
por lá".
"Não custa tentar". Leon disse. "Vai levar uns cinco minutos
para esvaziar o tubo, dá tempo – considerando que o elevador não
seja um problema".
John virou para olhar Fóssil, adormecido no gel. "Você acha
que ele vai mesmo acordar?".
Leon acenou. As condições listadas no programa de
monitoramento pareciam boas, a pulsação e a respiração indicando
sono profundo; não haveria porque não acordar quando o quente
nutriente for drenado.
E provavelmente acordará com frio, bravo e faminto...
"É". Leon disse. "E não queremos estar aqui quando isso
acontecer".
John sorriu um pouco, não seu sorriso normal, mas um sorriso.
"Então vamos". Disse suavemente.
Leon voltou para o computador, banhado pelo reflexo vermelho
do tubo. Fóssil flutuava pacificamente, um gigante adormecido. Uma
monstruosidade criada por monstruosas pessoas, levando uma vida
inútil num lugar construído para a morte.
Derrube tudo, Leon pensou e apertou "enter". O relógio
começou a retroceder; eles tinham cinco minutos.
David achou que era Reston, mas não dava para saber. Não
importava; só queria saber como tirar Rebecca dele, e enquanto o
enlouquecido homem de terno azul recuava para a porta, David
percebeu que não havia nada para fazer.
Ainda não.
"Vão embora! Me deixem em paz!". O homem – Reston – gritou,
e desapareceu. Rebecca se foi, e fraca como parecia antes da porta
fechar, deixou David muito assustado.
"O que faremos?".
Ele olhou para Claire, viu a ansiedade e o medo no rosto dela,
fazendo-o respirar fundo, exalando vagarosamente. Eles não fariam
nada se entrassem em pânico – e acabaríamos matando ela.
"Fique calma". Ele disse, sem sentir nada. "Nós não
conhecemos o lugar, não podemos dar a volta e cercá-lo...
nós teremos que seguí-lo?".
"Mas ele –".
"Sim eu sei o que ele disse". David interrompeu. "Não há
alternativas. Nós deixaremos eles ganharem distância e depois os
seguiremos".
E esperamos que não seja tão instável quanto parece.
"Claire – é uma tarefa cautelosa, não podemos fazer barulho.
Talvez seja melhor você ficar aqui...".
Claire balançou a cabeça, um olhar de determinação em seus
olhos. "Eu consigo". Disse, firme e clara. Ela não tinha dúvidas, e
apesar de não ser treinada, provou ser rápida e equilibrada.
David acenou e ambos andaram para esperar na porta, dois
minutos a não ser que ouçamos algo, abriremos a porta devagar –
Ele se forçou a respirar fundo novamente, bravo consigo mesmo por
tê-la trazido com eles. Ela estava exausta e ferida, não conseguiria
lutar se Reston decidisse apertar mais sua garganta...
Não. Agüente firme, Rebecca. Nós estamos indo, e podemos
esperar a noite toda para achar uma oportunidade.
Eles esperaram, David rezando para que Reston não a
machucasse, jurando que se o fizer, arrancaria seu fígado e o faria
comê-lo.
***
Eles procuraram pelo elevador no interminável corredor, sem
correr. O refeitório estava vazio e uma rápida procurada nos
dormitórios disse a John que os funcionários tinham fugido. Havia
claros sinais de que eles estavam com pressa em arrumar as coisas.
Espero que Reston ainda esteja aqui...
Enquanto corriam à norte pelo corredor, John decidiu que se
Reston ainda estiver na sala de controle, ele o nocautearia. Um bom
e sólido soco na cara; e se não levantar antes do Fóssil, já era.
Os dois passaram pela entrada da sala de controle, ambos
sabendo que precisariam mais de um elevador funcionando do que
de Reston, e como Leon disse, eles não queriam estar presentes no
grand finale do Planeta.
O painel aberto na parede e a pequena luz sobre o aviso "em
uso" foram o suficiente para fazer John sorrir como criança. Um
alívio, pois eles se arriscaram soltando Fóssil antes de garantir uma
rota de fuga.
Leon chamou o elevador, também aliviado. "Dois, dois minutos
e meio". E John acenou.
"Só uma olhadinha". Ele disse, e virou para a pequena quebra
no corredor. Leon estava sem balas, mas John ainda tinha algumas
na M-16 caso Reston fizesse algo estúpido.
A porta estava destrancada. John foi primeiro, varrendo a
grande sala com o rifle, e ficou espantado com o lugar.
"Caramba". Ele disse de leve. Uma fileira de cadeiras de couro
de frente para uma parede cheia de monitores.
Um carpete vermelho escuro de veludo. Um brilhante e ultra-
moderno console prateado e polido, e uma mesa que parecia de
mármore branco atrás.
Pelo menos não temos que revirar tudo...
Exceto por uma mesinha de café e um cantil prateado no
console, não havia nada para ver. Nenhum papel ou coisas de
escritório, nem itens pessoais nem livro de códigos secretos.
"Provavelmente temos que ir". Leon disse. "Estou estimando
tempo aqui, eu odiaria me atrasar".
"Tá bom, vamos –".
Houve movimento na parede de monitores, no meio da segunda
fileira de cima para baixo. John se aproximou, imaginando o que
seria, os empregados se foram e havia duas pessoas na tela, não
pode ser – "Essa não". John disse, e sentiu seu estômago cair, seu
olhar horrorizado fixado na tela.
Reston com uma arma. Arrastando Rebecca por um corredor,
seu braço em volta do pescoço dela, seus pés arrastando no chão,
sua cabeça pendurada, seus braços frouxos.
"Claire!".
John olhou para Leon, que estava olhando para outro monitor,
viu David e Claire armados, andando rapidamente por outro
corredor.
"Dá pra reencher o tubo?". John falou, seu estômago ainda
amarrado, mais aterrorizado do que esteve durante a noite toda,
aquele miserável pegou a 'becca – "Não sei,". Leon disse
rapidamente. "podemos tentar, mas temos que ir agora –".
John se afastou dos monitores, procurando o laboratório num
deles, sua exaustão sumindo quando mais adrenalina caiu em sua
circulação.
Ali, uma sala escura, uma única luz apontada para o tubo, para
a inquieta coisa lá dentro. Em segundos, mãos ensopadas socaram
o material, arranhando, estraçalhando, uma grande e pálida perna
réptil atravessando o vidro.
Tarde demais: Fóssil acordou.
Capítulo 21
A criatura designada ReH1a da série Tyrant, mais conhecida
como Fóssil, estava puramente motivada pelo seu único instinto:
comer. Todas as suas ações vinham desse único e primário impulso.
Se houver algo entre ele e a comida, Fóssil o destruiria. Se algo o
atacar, se algo tentar tirá-lo da comida, Fóssil o mataria. Não havia
impulso reprodutivo porque Fóssil era o único membro de sua
espécie.
Fóssil acordou com fome. Ele sentia a comida, em cargas
elétricas no ar, mornas ondas de calor – e destruiria o que a tivesse.
O ambiente não era familiar para Fóssil, mas não importava;
continha comida e estava com fome.
Com três metros de altura e pesando cerca de quatrocentos e
cinqüenta quilos, a parede que separava fóssil da comida não
agüentou muito tempo. Havia outra parede depois da primeira, e
mais outra – e as ricas sensações e cheiros de comida estavam
perto, muito perto para que Fóssil sentisse uma emoção: ele queria,
uma coisa que ia além da fome, uma poderosa extensão de seu
instinto que o encorajava a ir mais rápido. Fóssil comeria qualquer
coisa, porém comida viva o fazia querer mais.
A parede que o separava da comida era mais grossa e mais
dura que as outras, mas não o suficiente para que Fóssil parasse.
Ele rasgou as camadas da substância e saiu num lugar estranho,
nada orgânico além do arrastar de comida.
A comida corria para ele, era difícil de ver, mas cheirava forte. A
comida ergueu uma garra e a varreu em Fóssil, gritando de raiva,
com desejo de atacar e matar; Fóssil sabia por causa do cheiro. Em
segundos, Fóssil foi cercado pela comida e de novo, ele quis. Os
animais que eram comida uivaram e gritaram, dançando e pulando.
Fóssil se esticou e pegou o mais próximo.
A comida tinha unhas afiadas, mas a pele de Fóssil era grossa.
Ele mordeu a comida, rasgando um grande pedaço do corpo
contorcido, e se encheu. Seu senso de propósito alcançado assim
que mastigou e engoliu, sangue quente descendo pela sua
garganta, carne quente rasgando entre seus dentes.
Os outros animais continuaram atacando, ficando fácil para
Fóssil comer. Ele comeu toda a comida em pouco tempo e seu
metabolismo a consumiu no mesmo período, dando à Fóssil mais
força para encontrar mais. Era um processo extremamente fácil que
continuaria enquanto estivesse vivo.
Terminando com a escura e cavernosa sala que continha a
barulhenta comida, Fóssil lambeu o sangue dos dedos e abriu os
sentidos, procurando pela próxima refeição. Em segundos,
descobriu que havia mais, se mexendo por perto.
Fóssil queria. Fóssil estava com fome.
Capítulo 22
A garota estava mau, sua pele branca e suas tentativas de se
soltar inúteis e fracas. Reston queria se livrar dela, largá-la e correr,
mas não ousou. Ela era sua passagem para superfície; certamente
não matariam um dos seus.
Ainda assim, ele queria que ela não estivesse tão doente. Ela o
estava atrasando, quase incapaz de andar, e não tinha escolha além
de continuar carregando ela, ao norte pelo corredor de trás, depois a
leste no canto mais distante do complexo, na direção da porta do
bloco das celas. De lá, o elevador de serviço ficaria a dois minutos
de caminhada.
Quase lá, quase no fim desta impossível e incrível noite, falta
pouco...
Ele era um homem extremamente importante, era um
respeitado membro de um grupo que tinha mais poder e dinheiro
que alguns países, ele era Jay Walingford Reston – e ali estava,
sendo caçado em seu próprio território, forçado a fazer uma refém,
colocando uma arma em sua cabeça e fugindo como um criminoso;
era ridículo e inacreditável.
"Muito apertado". A garota sussurrou, sua voz esganada e
áspera.
"Que pena". Ele respondeu, continuando a arrastá-la pelo fino
pescoço; ela devia ter pensado nisso antes de invadir o Planeta.
Ele a puxou pela porta que dava acesso ao bloco das celas,
sentindo-se melhor a cada passo. Cada passo o deixava mais perto
da saída, da sobrevivência. Ele não seria caçado por um grupo de
capangas justiceiros sem visão; ele se mataria antes.
Passadas as celas vazias, quase na porta – e a garota
tropeçou, caindo nele tão forte que quase o derrubou. Ela agarrou
forte nele, tentando recuperar o equilíbrio, e Reston sentiu uma
súbita leva de raiva por ela.
Vagabunda estúpida, assassina, espiã, eu devia atirar em você
aqui, agora, e espalhar seu preguiçosos miolos nas paredes – Ele
recuperou o controle antes de apertar o gatilho, a perda de
compostura o assustando um pouco. Teria sido um erro, e teria
custado caro.
"Faça isso de novo e eu te mato". Ele disse friamente e chutou a
porta que dava no corredor principal, gostando do quanto impiedosa
sua voz tinha soado. Tinha soado forte, como um homem que não
hesitaria matar se servisse seus propósitos – os quais descobriria
seja lá quais fossem.
Depois da porta, já no corredor – "Deixe-a ir, Reston!".
John e Ruivo estavam na curva, ambos apontando suas armas
para ele. Bloqueando a passagem para o elevador.
Imediatamente, Reston arrastou a garota de volta para dentro
enquanto decidia o que fazer – "Esqueça". Ruivo gritou. "Eles estão
atrás de você, nós os vimos te seguindo. Você está cercado".
Reston apertou o cano da arma na cabeça da garota
desesperado, eu tenho a refém, eles não podem, eles tem que me
deixar ir – "Eu vou matá-la!". Ele recuou de novo, indo para a ante-
sala do programa de teste, a garota forçando para ficar de pé.
"E depois nós matamos você". John disse, sem um pingo de
mentira em sua voz. "Se você machucá-la, nós vamos te machucar.
Solte-a e nós vamos embora".
Reston alcançou a porta de metal e apertou o botão que
destrancava a porta da Fase Um.
"Você não quer que eu acredite nisso". Ele sorriu assim que a
porta subiu; só restava um Dac vivo e havia deixado as jaulas
abertas – eu posso subir, ainda posso fugir deles, não é tarde
demais!
Naquele segundo, a porta do bloco das celas abriu e os outros
dois apareceram – entre Reston e os outros dois, e agiu antes de
pensar, aproveitando a chance.
Reston empurrou a garota, com força, jogando-a contra os
quatro e pulando à esquerda no mesmo instante, acertando a porta
com o ombro. A porta para a Um abriu e ele passou, fechando-a.
Havia uma trava e ele a acionou, o metal soando como música.
Quanto mais longe das clareiras mais seguro estaria. Eles não
podiam tocá-lo.
Fortes mãos a seguraram antes de cair no chão – e podia
respirar de novo – e John e Leon estavam vivos... o alívio era um
oceano de calor crescendo nela, fazendo-a se sentir ainda mais
fraca. O sufocamento prolongado tirou quase toda a pouca força que
ainda tinha. E pensar nisso fez suas duas pernas carregarem algo
como a morte; como cocô no biscoito; costumava dizer isso quando
criança...
Claire a segurou – eram as fortes mãos de Claire – e todos se
juntaram entorno dela, John a levantando facilmente.
Rebecca fechou os olhos, relaxando na exaustão.
"Você está bem?". David perguntou, e ela acenou, aliviada e
feliz por estarem juntos de novo, por ninguém ter se ferido –
ninguém exceto eu – e sabia que quando puder descansar, ficaria
bem.
"Nós temos que sair daqui, agora. Leon disse, uma urgência em
sua voz que fez Rebecca abrir os olhos, a confortante sonolência
sumindo instantaneamente.
"O que foi?". David perguntou, sua voz aguda.
John virou e começou a carregá-la pelo corredor rapidamente,
chamando por sobre os ombros. "Nós dizemos na subida, mas
temos que ir o mais rápido possível, sem brincadeira".
"John?". Ela disse, e ele olhou para baixo, dando um sorriso,
seus olhos escuros contando uma história diferente.
"Nós ficaremos bem,". Ele disse. "é só relaxar e começar a
inventar histórias sobre seu ferimentos de guerra para nós".
Ela nunca o viu tão inseguro. Ela começou a dizer que os
ferimentos não a tinham deixado burra – quando um tremendo
barulho veio de algum lugar à frente, um som como paredes sendo
quebradas, como vidro explodindo, como um touro numa loja
chinesa – e John virou, correndo por onde vieram – não conseguia
ver, mas ouviu o forte suspiro de Claire, ouviu David dizer
desacreditado, "Ah, meu Deus", e sentiu seu coração parar de bater
com medo.
Algo muito ruim estava vindo.
Capítulo 23
Droga, não estamos rápido o bastante – Numa nuvem de poeira
e entulho, concreto e gesso, Fóssil bateu na parede da frente do
elevador como a visão do inferno. Seu focinho e mãos estavam
vermelhos, espirros da violenta cor sobre o adoentado branco de
sua pele, seu gigante corpo enchendo o corredor.
"Clip!". Leon gritou, sem tirar o olhar do assombroso monstro,
ainda a uns trinta metros à frente deles e não longe o bastante. Ele
ejetou o clip vazio de sua H&K, sem saber que Claire havia lhe dado
um cheio enquanto Fóssil dava um passo até eles – e David estava
disparando a M-16, o estouro das balas no longo corredor, Fóssil
dando outro longo passo enquanto Leon carregava a arma. De
repente John estava ao seu lado, pegando um clip para a
metralhadora com David, Claire do outro lado de David, os quatro
mirando na criatura.
Leon achou o olho direito do monstro e apertou o gatilho, o som
da 9mm perdido no meio do tiroteio, todos atirando – bambambam,
os sons se misturaram, ensurdecendo, Fóssil entortando a cabeça
como se estivesse curioso, dando outro passo contra a parede de
balas.
"Recuem!". David gritou, e Leon recuou um passo, horrorizado
pela falta de ferimentos de Fóssil. Se estava doendo, não dava para
ver, mas era tudo o que tinham. Ele tentou os olhos de novo – e
ouviu Claire gritar algo, virando e vendo que ela tinha uma granada
e a estava entregando à David.
"Vai, vai, vai!". David gritou, e John puxou o braço de Leon e
ambos correram, Claire os guiando, Leon rezando para estarem
longe o bastante e não serem pegos pelos estilhaços de metal
quente.
Claire correu, aterrorizada, nunca tinha visto algo assim. Um
pesadelo branco manchado de vermelho, um sorriso curvo com
afiados dentes, e suas mãos, dedos longos e vermelhos – o que é
ele, como é – "Atire no buraco!". David gritou, e Claire pulou,
tentando voar, vendo naquele segundo o rosto pálido e cansado de
Rebecca, a garota se jogando na parede de trás ainda a trinta
metros de distância – e BOOM, ela estava voando, John à sua
direita, um quente corpo caindo em suas costas – e todos caíram no
chão, Claire tentando cair sobre o ombro, mas aterrissou forte sobre
o braço.
Ai ai ai!
David tinha se jogado nela, ou de propósito ou pela explosão, e
quando sentou e virou, o achou franzindo de dor.
Ela viu dois, três pedaços escuros de metal fincados em suas
costas, atravessando a vestimenta especial, e foi ajudá-lo – e viu o
monstro ainda de pé. Esfregando o peito e a barriga, as marcas
escuras dos fragmentos. Algumas lascas furaram sua carne – mas
era difícil dizer com seu silêncio – e não parecia bravo do modo
como deu outro passo. Ele abriu a boca, sua pesada mandíbula de
lagarto – expondo fiapos de uma carne desconhecida em seus
dentes. Silenciosamente, ele deu outro passo, sorrindo, e Claire
imaginou que podia sentir seu hálito de carne ou seja lá o que
estava apodrecendo dentro dele – Caia fora daí!
Ela se levantou, ignorando a dor em seu braço, abaixando para
pegar a mão estendida de David e puxá-lo. No segundo em que ele
se levantou, ela apontou sua 9mm e começou a atirar de novo,
sabendo que não era suficiente, não sabendo mais o que fazer.
Quatro ferimentos, todos nas costas, todos queimando. David
soprou o ar por entre os dentes, considerando a dor suportável e a
deixando de lado. O monstro não tinha caído, podia ter ficado mais
lento, mas não estava parando, e não tinham nada pior para jogar
além de tudo o que já tinham tentado.
Corram, nós teremos que correr – Mesmo enquanto pensava,
ele estava abrindo a boca para gritar, para ser ouvido por John,
Leon e Claire enquanto esvaziavam suas armas, as balas tão inúteis
quanto a granada.
"John, pegue Rebecca! Recuem, nós não podemos com ele!".
John já foi, Leon e Claire deslizando para trás e atirando – com
a pequena esperança de que pudessem causar algum dano, que
uma das balas pudesse acertar alguma coisa que doesse.
"David, nós podemos entrar na área de teste, aço reforçado!".
John gritou e David não estava certo do que eles estavam falando,
entendendo apenas "aço reforçado". Provavelmente não seria
suficiente, mas os daria algum tempo para bolar um plano.
"Faça isso!". David gritou, e o monstro deu dois, três passos,
aparentemente sem se preocupar em hesitar.
Naquela velocidade, estaria neles em alguns segundos.
"Corram atrás de John!". Ele gritou, e deu a Leon e Claire um
segundo de cobertura antes de virar e seguí-los.
Aço, aço reforçado – um pensamento que pulava em sua mente
enquanto corria, Claire e Leon fazendo a curva, a quina passando
por ele enquanto via Rebecca e John na sala no fim do corredor. A
sala para onde o maluco tinha ido.
"David, aperte os botões, feche a porta!". John gritou e David viu
os controles, as pequenas luzes sobre os botões circulares, e foi até
eles, ainda correndo.
Claire e Leon estavam dentro. David esticou os braços e socou
o maior dos botões, esperando que fosse o certo -- e entrou na sala
enquanto a placa de metal guilhotinava o ar logo atrás, perto o
bastante para senti-lo em seu pescoço.
Ele girou a tempo de ver o branco corpo da criatura acertar a
porta, seu peito pressionando contra a grossa janela de vidro. A
porta tremeu e David viu que não duraria muito tempo.
Agüente por favor, só um minuto – Ele virou, viu Leon na porta
menor da parede sul, viu terror em seus olhos, a cor tinha
abandonado seu rosto, sua trêmula mão na maçaneta.
"Trancada". Ele disse, e lá fora o monstro batia na porta outra
vez..
Reston ouviu o barulho quando estava pensando em como
subir na jaula dos Av. A abertura estava a três metros e meio do
chão e não havia escada. A árvore mais próxima estava a uns dois
metros, impossível – a única saída era por onde veio, e não ousaria
voltar para o corredor principal. Ele já tinha se convencido a subir na
árvore e tentar o pulo quando ouviu as batidas ecoarem da Fase
Dois.
Reston andou até a porta de conexão, curioso apesar do medo.
As fases eram muito bem protegidas acusticamente; um barulho
como aquele só poderia ter sido de uma bomba ou de uma equipe
de demolição...
... então é uma bomba. Eles implantaram explosivos, aqueles
monstros.
Reston esperou na porta por um momento e não ouviu mais
nada. O Dac solitário deu um berro em algum lugar da câmara,
aparentemente abatido com a perda de seus irmãos; ele não tentou
atacar.
Explosivos...
A Fase Dois estava diretamente atrás da sala de controle, uma
parede duas vezes mais grossa entre elas, o que nos leva a crer que
os renegados explodiram o centro de controle, a mais importante – e
mais cara – sala do Planeta. Não havia alvo melhor; o complexo é
praticamente inútil sem a sala de controle.
Talvez me arranjaram outra saída...
Reston não faria apostas sobre os mercenários bárbaros terem
finalmente ido embora, deixando os restos do Planeta para trás – e
se foram...?
Se foram, ele conseguirá sair. Talvez não só do Planeta mas da
White Umbrela também. Ele estava certo de que Jackson o mataria
pelo que aconteceu... mas não se Reston desaparecesse.
Algumas centenas de milhares para Hawkinson, uma carona
para um lugar seguro...
Podia funcionar se estimasse o tempo certo, mudasse de nome,
identidade, e fosse para longe, bem longe.
Funcionaria, sim.
Acenando para si mesmo, ele abriu a porta da Dois, incerto
sobre o que esperar – e ainda assim foi uma surpresa ver os
enormes buracos em duas da paredes do deserto, o cimento,
madeira e aço em pedaços; cada buraco tinha pelo menos três
metros de largura por seis de altura. Ele não viu fumaça e imaginou
que os sabotadores usaram algum tipo de composto ultra-moderno,
algum material que gentinha como aquela sempre tinha acesso.
O calor ainda era forte apesar das luzes, porém mais fresco
com a nova ventilação – apesar de ter escutado por longos
segundos, não ouviu nada que indicasse a presença deles. A não
ser que fosse alguma armadilha...
Reston balançou a cabeça, impressionado com a própria
paranóia. Agora que decidiu ser livre e abandonar as ruínas de sua
vida, sentiu um tipo de elevação. Uma sensação de novas
possibilidades, um renascimento. Eles se foram, completaram a
missão, arrasaram o Planeta. Reston andou pela quente areia,
pulando pedaços de Scorps espalhados, finalmente subindo na duna
para espiar o buraco.
Meu deus, eles conseguiram destruir tudo!
A destruição foi quase total, o buraco quase exatamente onde a
parede dos monitores estava. Vidro, arames e circuitos, um leve
cheiro de ozônio – foi tudo o que sobrou do brilhantemente projetado
sistema de retorno de vídeo.
Quatro das cadeiras de couro foram arrancadas do chão, a
mesa de mármore única partida em dois – e no canto nordeste da
sala havia outro gigante buraco cercado de destroços.
E através daquele buraco...
Reston podia ver o elevador. Funcionando, as luzes acesas e a
plataforma no ponto.
Foi uma armadilha? Parecia bom demais para ser verdade –
mas então ouviu uma distante pancada, em algum lugar perto do
bloco das celas, e pensou na sorte estar finalmente consigo; os
empregados se foram e esse som devia ser dos S.T.A.R.S.. Longe o
bastante para estar a meio caminho da superfície antes que
pudessem voltar.
Reston sorriu, maravilhado por terminar assim; parecia tão
anticlimático, tão mundano...
... e eu estou reclamando? Não, nada de reclamações. Não de
minha parte.
Reston cruzou o buraco, andando com cuidado para evitar os
cacos de vidro.
A batalha com a comida o deixou com fome, o deixou ansioso;
a parede na frente de Fóssil o deixando mais empolgado para
comer. Ele golpeou o forte obstáculo, sentindo o material ceder, ficar
menos rígido – e apesar de não levar muito tempo para pegar os
animais, Fóssil sentiu de repente o cheiro de comida nova. No
caminho por onde veio, comida livre e exposta, nada entre ela e
Fóssil.
Ele voltará assim que a tiver comido. Fóssil virou e correu,
faminto e querendo, determinado a comê-la antes que fugisse.
Assim que Fóssil virou e correu, John começou a chutar a porta
de aço, percebendo que era a única chance. A incrível pancada que
o monstro havia dado a deixou fraca, o grosso metal metade fora
dos trilhos.
Claire e Leon começaram a chutar. Em segundos, eles a
jogaram longe o bastante dos dentes de metal e acabou caindo no
chão – e segundos depois disso, eles estavam correndo para o
elevador, David carregando Rebecca e todos quietos. Fóssil voltaria,
todos sabiam e não teriam chance contra ele.
"NÃO! NÃO! NÃO!".
Um homem estava gritando e quando John fez a curva, viu que
era Reston, viu que estava correndo pelo longo corredor, Fóssil se
aproximando rapidamente.
Eles correram, John imaginando quanto tempo levaria para o
monstro comer um ser humano inteiro. E quando alcançaram o
elevador, cruzaram as portas e Leon puxou a grade – todos ouviram
o lamentável grito se elevar a uma intensidade sobrenatural – e
parar de repente, interrompido por um pesado e molhado som de
esmagamento.
O elevador começou a subir.
Capítulo 24
Rebecca estava adormecida, o som do elevador tão calmo
quanto o coração de David. Cansada como estava, ela levantou
uma incrivelmente pesada mão até o fino e preto livro preso no cinto
de sua calça. Reston nem tinha percebido, aparentemente não sabia
que podia fingir um tropeço tão bem.
Ela pensou em dizer aos outros, em quebrar o silêncio no
elevador para dá-los a notícia, mas achou melhor esperar; eles
mereciam a agradável surpresa.
Rebecca fechou os olhos, descansando. Eles ainda tinham um
longo caminho, mas o quadro estava mudando; a Umbrela iria pagar
por seus crimes. E eles cuidariam disso.
Epílogo
Com John e David segurando a jovem Rebecca, e Leon e Claire
sorrindo um para o outro como namorados, os cinco exaustos
soldados saíram da tela para a gentil manhã de Utah...
Suspirando, Trent reclinou em sua cadeira, girando
ansiosamente seu anel de ônix. Ele esperava que tirassem um ou
dois dias de descanso antes da próxima grande batalha... talvez a
última; eles mereciam um pouco de descanso depois de tudo o que
fizeram. Caso sobrevivessem ao que está por vir, ele terá que
recompensá-los amplamente.
Considerando que eu ainda estarei na posição de dar
presentes...
Ele certamente estará. Quando, e se Jackson e os outros
descobrirem o que realmente estava fazendo, ele terá que
desaparecer – mas haviam meia dúzia de identidades irrastreáveis
que poderia escolher em qualquer canto do mundo, cada uma delas
extremamente bem remuneradas. E a White Umbrela não tinha
condições de localizá-lo.
É verdadde que eles tinham poder e dinheiro, mas
simplesmente não eram espertos o bastante.
E eu já vim até aqui?
Trent suspirou de novo, lembrando para não pensar com
maldosa satisfação, pelo menos ainda não. Não valeria a pena ser
super confiável, ele sabia; homens melhores que os dele já
morreram nas mãos da Umbrela. De qualquer forma, ou Trent ou
eles estariam mortos. E fim do problema, de um modo ou de outro.
Ele se levantou, esticando os braços sobre a cabeça e
balançando os ombros para tirar a tensão; o satélite "pirata" o
permitiu ver e ouvir quase tudo e foi um noite longa e movimentada.
Algumas horas de sono era tudo o que precisava. Ele planejou ficar
isolado até meio-dia, mas teria que ligar para Sidney – e o velho
bebedor de chá já devia estar agitado a essa hora, junto com os
outros. Os misteriosos serviços do Sr. Trent seriam investigados em
breve, e ele teria que pegar o próximo avião; por mais que quisesse
ver Hawkinson voltar e tentar derrubar Fóssil, Trent precisava dormir
mais.
Trent desligou os monitores e saiu de sua sala de operações –
uma sala de estar com alguns caros ajustes – e foi para a cozinha,
que era uma cozinha normal.
A pequena casa no interior de Nova York era seu esconderijo
além de lar; era dali que conduzia a maior parte de seu trabalho.
Não o grandioso e intrigante trabalho que fazia na White Umbrela,
mas, sim, seu verdadeiro trabalho. Se alguém investigasse o lugar,
descobriria que a casa Vitoriana de três dormitórios pertencia a uma
velha senhora chamada Helen Black. Uma piada das suas.
Trent abriu a geladeira e tirou uma garrafa de água mineral,
pensando em como Reston ficou em seu último momento, olhando
para face de sua própria morte. Adorável trabalho, esse, usando
Fóssil contra ele; foi realmente uma pena em relação a Cole. O
homem teria sido uma adição para a pequena, porém crescente
resistência.
Levando a água escada acima, Trent usou o banheiro e depois
andou pelo curto corredor, pensando no tempo que ainda tinha. Nas
primeiras semanas de contato com a White Umbrela, ele meio que
esperava ser chamado à sala de Jackson e levar um tiro
sumariamente. Mas as semanas viraram meses e não recebeu um
suspiro de dúvida – de ninguém.
Em seu quarto, ele separou as roupas para o vôo e se despiu,
decidindo que faria as malas enquanto tomava o café, depois de
ligar para Sidney. Apagando a luz, Trent sentou-se na cama por um
momento, tomando um gole da garrafa de água, repassando seus
meticulosos planos para a próxima semana. Ele estava cansado,
mas o objetivo de sua vida estava finalmente sendo alcançado; não
era tão fácil pegar no sono quando se estava a um passo de
culminar três décadas de planejamento e sonhos, de um desejo
guardado por tanto tempo que o havia transformado no que era...
A reta final, pensou. Ainda havia várias coisas que precisavam
acontecer antes de acabar, e a maioria delas tinham a ver com o
quanto bem seus rebeldes haviam se saído. Ele tinha fé neles, mas
sempre havia chance de falharem – e na qual teria que começar
tudo de novo. Não do zero, mas seria uma difícil retomada.
Eventualmente...
Trent sorriu, colocando a água no criado mudo e deslizando sob
o cobertor. Eventualmente, o mal da White Umbrela seria exposto ao
clarear do dia. Matar os jogadores seria fácil, mas não ficaria
satisfeito; ele queria vê-los destruídos, financeira e emocionalmente,
suas vidas tiradas em todos os sentidos. E quando esse dia chegar,
quando os líderes terminarem de ver seu preciosos esforços virando
cinzas, ele estaria lá. Estaria lá para dançar no cemitério de seus
sonhos. E seria um belo dia.
Trent repassou seu discurso mentalmente, o discurso que
ensaiou durante toda a vida para aquele dia. Jackson e Sidney
teriam que estar lá, tal como os "garotos" europeus e os
financiadores do Japão, Mikami e Kamiya. Todos eles sabiam da
verdade, todos foram co-conspiradores na traição...
Eu estou de pé na frente deles, sorrindo, e aí digo. "Um pouco
de história, caso tenham se esquecido".
"No começo da história da Umbrela – antes de haver algo como
a White Umbrela – havia um cientista chamado James Darius. Dr.
Darius era um ético e comprometido microbiologista que, ao lado de
sua amada esposa Helen – uma doutora em farmacologia – gastou
incontáveis horas desenvolvendo uma síntese reparadora de tecidos
para seus empregadores, um que James havia criado sozinho. Esta
síntese que ocupou tanto o tempo de Darius, era um complexo viral
brilhantemente projetado que – se bem desenvolvido – tinha o
potencial de reduzir incrivelmente o sofrimento humano, podendo
evitar a morte por sofrimento traumático um dia antes.
Ambos James e Helen tinham as maiores esperanças por seu
trabalho – e eram tão responsáveis, tão leais e confiantes que
imediatamente foram à Umbrela, assim que perceberam o potencial
do que estavam criando. E a Umbrela Inc. também percebeu o
potencial. Mas o que ela viu foi um afogamento financeiro caso esse
milagre fosse realizado. Imagine todo o dinheiro que uma
companhia farmacêutica poderia perder se milhões de pessoas
parassem de morrer todo ano; então imagine o dinheiro que poderia
ser feito com esse complexo viral para fins militares. Imagine o
poder.
Com incentivos assim, a Umbrela realmente não teve escolha.
Ela tirou a síntese de Darius, levou as anotações e pesquisa
entregando tudo a um jovem e brilhante cientista chamado Wiliam
Birkin, recém saído da adolescência e já chefe de seu próprio
laboratório. Birkin era um deles, veja. Um homem com a mesma
visão, a mesma falta de moral, um homem que podiam usar. E com
sua própria marionete no lugar, eles perceberam que ter o bom Dr.
Darius por perto seria um inconveniente.
Então houve um incêndio. Um acidente; foi o que disseram,
uma terrível tragédia – dois cientistas e três leais assistentes
carbonizados. Tão ruim, tão triste, caso encerrado – e assim surgiu
a divisão da Umbrela chamada White Umbrela. Pesquisa com armas
biológicas. Um parque de diversões para os ricos sujos e seu
bajuladores, para homens que perderam qualquer coisa que
lembrasse uma consciência há muito, muito tempo". Eu sorrio de
novo. "Por homens como vocês".
"A White Umbrela pensou em tudo, ou assim acreditavam. O
que não consideraram – ou por terem pouca visão ou por serem
ignorantemente desligados – foi que o jovem filho de James e Helen,
seu único filho, estava estudando num internato enquanto seus pais
eram queimados vivos. Talvez simplesmente esqueceram dele. Mas
Victor Darius não esqueceu. De fato, Victor cresceu pensando no
que a Umbrela tinha feito, ou devo dizer obcecado por isso. Chegou
um tempo em que Victor não pensava em outra coisa. Foi quando
decidiu fazer alguma coisa.
"Para vingar seu pai e sua mãe, Victor Darius sabia que deveria
ser extremamente engenhosos e muito, muito cuidadoso. Desse
modo, passou anos planejando. Anos aprendendo o que precisava e
ainda mais, fazendo contatos certos e movendo-se nos círculos
certos, sendo mais solitário e secreto que seu inimigo. E um dia ele
assassinaria a Umbrela do mesmo jeito que assassinaram seus
pais. Não era fácil, mas estava determinado, e devotou sua vida
inteira para o projeto".
Eu sorrio e digo. "Ah, e eu não mencionei que Victor Darius
mudou de nome? Seria arriscado, mas decidiu usar o nome do meio
de seu pai, ou pelo menos parte dele. James Trenton Darius não o
estava mais usando mesmo".
O discurso sempre mudava um pouco, mas o essencial
permanecia o mesmo. Trent sabia que nunca conseguiria se
pronunciar para todos de uma vez, mas era a idéia que o fazia
continuar, todos esses anos. Nas noites quando estava tão
enraivecido que não conseguia dormir, recontar essa história virou
uma espécie de canção de ninar; ele imaginava os olhares em suas
cansadas e velhas faces, o terror em seus caídos olhos, a trêmula
indignação por sua traição. De alguma forma, a visão sempre
amenizava sua fúria e o dava uma pequena paz.
Em breve. Depois da Europa, meus amigos...
O pensamento o guiou para a escuridão, para o doce e ausente
de sonhos sono dos justos.
***