S.D.
PERRY
Resident Evil
Livro 5
Nêmesis
Tradução de Raphael L. Vicente
Formatação ePub de LeYtor
Pocket Books
2000
Resident Evil – Nemesis
Autora: Stephani Danelle Perry.
Editora: Pocket Books (U.S.A.)
Tradução: Raphael Lima Vicente.
Tradução começada em: 9 de Maio de 2004.
Tradução terminada em: 15 de Novembro de 2004.
Resident Evil TM & © 2000
Capcom Co., Ltd.
© 2000 Capcom U.S.A., Inc.
Prólogo
Carlos tinha acabado de desligar o chuveiro quando o telefone
tocou. Ele enrolou a toalha na cintura e correu pela bagunçada sala
de estar. Com tanta pressa em atender ao telefone quase tropeçou
numa caixa de livros ainda fechada; ele ainda não teve tempo de
achar uma secretária eletrônica desde que se mudou para a cidade,
e apenas a nova base tinha seu número. Não valeria a pena perdeu
nenhuma ligação, principalmente por ser a Umbrella que pagava
suas contas.
Ele puxou o gancho com a mão ensopada e tentou não parecer
sem fôlego.
“Alô?”.
“Carlos, aqui é Mitch Hirami”.
Inconscientemente, Carlos ergueu um pouco sua postura, ainda
segurando a úmida toalha. “Sim, senhor”.
Hirami era seu líder de esquadrão. Carlos só o encontrou duas
vezes, pouco tempo para ter uma sólida leitura dele, mas parecia
competente o bastante – tal como os outros caras do esquadrão.
Competente, se não for apenas a fachada... Como Carlos,
ninguém falava muito sobre o passado, apesar de saber que Hirami
esteve envolvido em contrabando de armas na América do Sul
alguns anos atrás, antes de ter começado a trabalhar para a
Umbrella. Parecia que todos que conheceu na U.B.C.S. tinham um
ou dois segredos – a maioria envolvendo atividades não
necessariamente legais.
“Ordens acabaram de chegar sobre uma situação em
andamento. Estamos convocando todos o mais rápido possível.
Você tem uma hora para se apresentar, e partiremos em duas, isso
será às 15:00h, comprende (Nota 1) ?”.
“Si – é, sim, senhor”. Carlos é fluente em inglês há anos, mas
ainda estava se acostumando a falar integralmente. “Há alguma
informação sobre o tipo de situação?”.
“Negativo. Você será informado junto com o resto de nós assim
que chegar”.
O tom de voz de Hirami sugeria que tinha mais a dizer. Carlos
esperou, começando a sentir frio com a água secando em seu
corpo.
“Diz se tratar de algum vazamento químico”. Hirami disse, e
Carlos pensou ter ouvido um pouco de insegurança em sua voz.
“Algo que está fazendo pessoas... fazendo-as agir diferente?”.
Carlos franziu. “Diferente como?”.
Hirami suspirou. “Você não é pago para fazer perguntas,
Oliveira, certo? Agora você sabe tanto quanto eu.
Apenas venha para cá”.
“Sim, senhor”. Carlos disse, mas Hirami já tinha desligado.
Carlos colocou o telefone no gancho, incerto se deveria sentir-
se animado ou preocupado com sua primeira missão na
U.B.C.S. (Nota 2) : um impressionante título para um grupo de ex-
mercenários e ex-militares, a maioria com experiência em combate e
passados obscuros. O alistador em Honduras (Nota 3) disse que
seriam chamados para “lidar” com situações em que a Umbrella
precisasse de uma ação rápida e agressiva – e dentro da lei. Depois
de três anos lutando em pequenas guerras particulares entre
gangues rivais e revolucionárias, de vida em barracas cheias de
lama e comendo de latas, a promessa de um emprego de verdade –
e com um excelente salário – foi como uma prece atendida.
Bom demais para ser verdade, foi o que pensei... e se eu
descobrir que estava certo?
Carlos balançou a cabeça. Ele não descobriria nada se ficasse
parado enrolado numa toalha. Mesmo assim, não deve ser pior do
que se atirar numa floresta desconhecida com um bando de
pendejos drogados, imaginando se ouviria a bala que o acertaria.
Ele tinha uma hora e levava vinte minutos a pé até a base. Ele
virou-se para o quarto, de repente determinado a chegar lá mais
cedo, para ver se conseguia tirar mais alguma coisa de Hirami. Ele
já conseguia sentir a quente e nervosa adrenalina em sua barriga,
uma sensação com a qual crescera e conhecia melhor do que
qualquer outra – metade antecipação, metade excitação, e uma alta
dose de medo...
Carlos sorriu enquanto tirava a toalha, impressionado consigo.
Ele tinha passado muito tempo na selva. Agora ele estava nos
Estados Unidos, trabalhando para uma legítima companhia
farmacêutica – não há nada para temer, certo?
“Nada”. Ele disse, e ainda sorrindo, foi procurar suas roupas.
Final de Setembro nos limites da cidade grande; era um dia
ensolarado, mas Carlos já sentia os primeiros suspiros de outono
enquanto se apressava para a base, um tipo de ar ficando menos
denso, folhas começando a cair dos galhos acima. Não que
houvesse muitas árvores; seu apartamento ficava em volta de uma
grande área industrial – algumas fábricas sombrias, terrenos
cercados com grama alta, acres cheios de galpões para depósito. A
base da U.B.C.S. era na verdade um galpão reformado num terreno
pertencente a Umbrella, circundado por um moderno complexo
portuário, completo com docas de carregamento e heliporto – bem
estruturado, apesar de Carlos imaginar porque foi construído numa
área tão decadente. Eles podiam bancar coisa melhor.
Carlos checou o relógio enquanto subia a Rua Everett, e passou
a andar mais rápido. Ele não estava atrasado, mas ainda queria
chegar antes da reunião, ver o que os outros estavam comentando.
Hirami disse que todos estavam sendo convocados – quatro
pelotões, três esquadrões de dez em cada pelotão, 120 pessoas no
total.
Carlos era soldado do esquadrão A do pelotão D; ridículo como
essas coisas eram planejadas, mas ele achava ser necessário para
ter todos à vista. Alguém deve saber algo...
Ele virou à direita onde a Everett cruzava com a 374th, seus
pensamentos viajando, vagamente curioso para saber onde iriam –
quando um homem saiu de um beco alguns metros à sua frente, um
estranho bem vestido sorrindo largamente. Ele ficou lá parado, de
mãos enfiadas nos bolsos de seu sobretudo, aparentemente
esperando Carlos alcançá-lo.
Carlos manteve suas expressões cuidadosa-mente neutras,
estudando o homem com cautela. Alto, magro, cabelos e olhos
escuros, definitivamente caucasiano, na faixa dos quarenta anos – e
sorrindo como se quisesse contar uma piada excepcionalmente
engraçada.
Carlos preparou-se para ultrapassá-lo, lembrando-se de
quantos malucos viviam numa cidade de médio porte, um inevitável
risco da vida urbana.
Ele provavelmente quer me contar sobre os alienígenas
monitorando suas ondas cerebrais, ou talvez contar alguma teoria
de conspiração – “Carlos Oliveira?”. O homem perguntou, mais uma
afirmação do que uma pergunta.
Carlos parou, seu corpo inteiro tencionando, instintivamente
derrubando a mão para onde guardava uma arma – só que ele não
carregava uma desde que cruzou a fronteira, carajo – Como se
sentisse a preocupação que causou, o estranho recuou um pouco,
erguendo as mãos para o alto. Ele parecia impressionado, mas não
especialmente ameaçador.
“Quem pergunta?”. Carlos perguntou. E como ele sabe o meu
nome?
“Meu nome é Trent, Sr. Oliveira”. Ele disse, seu escuro olhar
brilhando com uma alegria mau contida. “E eu tenho algumas
informações para você”.
Capítulo 1
No sonho, Jill não correu rápido o bastante.
Era o mesmo sonho que ela teve todos os dias desde a missão
que quase matou todos naquela terrível e interminável noite de
Julho. Foi na época em que alguns cidadãos de Raccoon foram
feridos pelo segredo da Umbrella, em que a administração do
S.T.A.R.S. não era totalmente corrupta, na época em que ela ainda
era burra o bastante para achar que as pessoas acreditariam em sua
história.
No sonho, ela e os outros sobreviventes – Chris, Barry e
Rebecca – esperavam ansiosamente pelo resgate no heliporto do
laboratório secreto, todos exaustos, feridos e muito cientes de que
as construções em volta e abaixo iriam se auto-destruir. Estava
amanhecendo, uma fria luz surgindo em raios por entre as árvores
que circundavam a mansão de Spencer, o silêncio quebrado
somente pelo bem vindo som do helicóptero se aproximando... seis
membros do S.T.A.R.S. estavam mortos, levados por humanas e
inumanas criaturas que vagavam pelo complexo, e se Brad não
pousasse logo, não haveria sobreviventes. O laboratório iria
explodir, destruindo as provas do vazamento do T-virus da Umbrella
e matando a todos.
Chris e Barry balançavam os braços, tentando apressar Brad.
Jill olhou no relógio, enjoada, sua mente ainda tentando entender
tudo o que havia acontecido, tentando organizar tudo. Umbrella
Pharmaceutical, a única e maior contribuinte para a prosperidade de
Raccoon City e uma das maiores forças corporativas do mundo,
criou monstros secretamente em nome de pesquisas com armas
biológicas – e brincando com fogo, eles acabaram se queimando
bastante.
Isso não importava mais, tudo que importava era fugir de lá – e
nós temos três minutos, quatro no máximo – CRASH!
Jill olhou em volta, viu pedaços de concreto voarem e choverem
pelo ar sobre o canto noroeste do heliporto.
Uma garra gigante se esticou para fora do buraco, se apoiando
na rasgada fenda – e o pálido e desajeitado monstro, aquele que
Barry e ela tentaram matar no laboratório, o Tyrant, saltou para o
heliporto. Ele ergueu-se de seu ágil agachar... e foi na direção deles.
Era abominável, pelo menos dois metros e meio de altura, já foi
humano, talvez, e agora não era mais. Sua mão direita, normal. A
esquerda, um massivo e quitinoso conjunto de garras. Seu rosto
tinha sido terrivelmente alterado, seus lábios foram cortados
parecendo estar sorrindo para ele através do tecido vermelho. Seu
corpo nu não tinha sexo, o grosso e vermelho tumor que era seu
coração batia molhado fora de seu peito.
Chris mirou no pulsante músculo com a Beretta e atirou, cinco
balas de 9mm penetrando em sua cadavérica carne; o Tyrant nem
diminuiu o ritmo. Barry gritou para se espalharem, e já estavam
correndo, Jill puxando Rebecca, o trovão da .357 de Barry
estourando atrás delas. Acima, o helicóptero circulava e Jill podia
sentir os segundos indo embora, quase acreditou ter sentido a
explosão da construção sob seus pés.
Ela e Rebecca sacaram suas armas e começaram a atirar. Jill
continuou a apertar o gatilho mesmo enquanto via a criatura levar
Barry ao chão, investindo rapidamente enquanto ia atrás de Chris,
atirando e gritando, envolvida por um crescente terror, por que ele
não morre?
Lá de cima, um grito, e algo caiu do helicóptero. Chris correu
para o objeto, e Jill não viu mais nada – nada além de Tyrant
enquanto voltava sua atenção para ela e Rebecca, indiferente para
com os tiros que continuavam abrindo buracos sangrentos em seu
estranho corpo. Jill virou e correu, viu a garota fazer o mesmo, e
sabia que o monstro estava atrás dela, o rosto de Jill Valentine
gravado no cérebro de lagarto.
Jill correu, correu, e de repente não havia heliporto, nem
mansão, só um milhão de árvores e os sons: suas botas batendo na
terra, o pulsar de sangue em seus ouvidos, sua respiração agitada.
O monstro estava quieto atrás dela, uma calada e terrível força,
implacável e tão inevitável quanto a morte.
Eles estavam mortos, Chris e Barry, Rebecca, e até mesmo
Brad, ela sabia, todos menos ela – e enquanto corria, ela viu a
sombra de Tyrant erguer-se à sua frente, sobrepondo a sua própria,
e o vultuoso som de suas monstruosas garras descendo, fundindo-
se com seu corpo, matando-a, não – Não – “Não!”.
Jill abriu os olhos, a palavra ainda em seus lábios, o único som
na quietude de seu quarto. Não foi o grito que imaginava, e sim um
fraco e engasgado choro de uma mulher sentenciada, pega pelo
pesadelo do qual não havia saída.
No qual estou. Nenhum de nós foi rápido o bastante.
Ela ficou parada por um momento, respirando profundamente,
afastando a mão de sua Beretta carregada sob o travesseiro; isso
virou um reflexo, um do qual não se arrependia de ter desenvolvido.
“Exceto contra pesadelos”. Ela murmurou e se sentou. Ela vem
falando sozinha há dias; às vezes, ela acha que isso é a única coisa
que a deixa sã. Uma luz cinza passava pela persiana, deixando o
pequeno quarto numa sombra. O relógio digital no criado mudo
ainda funcionava; ela devia estar grata por ainda haver energia
elétrica e era mais tarde do que imaginava – quase três da tarde. Ela
havia dormido por mais de seis horas, foi máximo que conseguiu nos
últimos três dias. Considerando o que estava acontecendo lá fora,
ela não podia deixar de se culpar. Ela devia estar lá fora, devia estar
fazendo mais para salvar aqueles que ainda podiam ser salvos...
Esqueça, você sabe muito bem. Você não pode ajudar ninguém
se desistir. E aqueles que você ajudou – Ela não ia pensar nisso
agora, ainda não. Quando ela finalmente voltou para os subúrbios
naquela manhã, depois de quase quarenta e oito horas de “ajuda”
sem dormir, ela ficou a beira de um colapso, forçada a encarar a
realidade do que tinha acontecido a Raccoon: a cidade estava
irrecuperavelmente perdida para o T-virus ou alguma variante dele.
Como os cientistas na mansão. Como o Tyrant.
Jill fechou os olhos, pensando sobre o sonho, sobre o que
significava. Era igual aos eventos reais exceto pelo final – Brad
Vickers, o piloto da equipe Alpha do S.T.A.R.S., tinha jogado algo
para fora do helicóptero, um lança mísseis que Chris usou para
explodir o Tyrant enquanto ia em sua direção. Todos eles fugiram a
tempo... mas de certo modo não importava. Com todo o bem que
fizeram desde então, eles também poderiam estar mortos.
Não é nossa culpa, Jill pensou brava, ciente de que queria
acreditar nisso mais do que tudo. Ninguém escutou – a sede, nem o
Chefe Irons, nem a Imprensa. Se eles tivessem ouvido, se tivessem
acreditado...
Estranho como tudo isso aconteceu há apenas seis semanas;
parece que foi há anos. Os oficiais da cidade e os jornais locais
aproveitaram tudo sobre a reputação do S.T.A.R.S. – seis mortos, o
resto contando histórias fantásticas sobre um laboratório secreto,
sobre monstros e zumbis, e uma conspiração da Umbrella. Eles
foram suspensos e ridicularizados – mas o pior de tudo foi nada ter
sido feito para prever o avanço do vírus. Ela e os outros só puderam
esperar que a destruição do local pusesse um fim no perigo
imediato.
Nas semanas seguintes, tantas coisas aconteceram. Eles
descobriram a verdade sobre o S.T.A.R.S., que a Umbrella –
tecnicamente a White Umbrella, a divisão encarregada de pesquisas
bio-letais – estava subornando ou chantageando membros chave
pelo país a fim de continuar suas pesquisas desimpedidamente.
Eles descobriram que vários membros do conselho de Raccoon City
estavam na lista de pagamento da Umbrella e que provavelmente
havia mais de um local manipulando doenças criadas pelo homem.
A busca por informações sobre Trent, o estranho que falou com ela
antes da desastrosa missão dizendo ser “um amigo do S.T.A.R.S.”,
não deu em nada. Porém, muitas informações interessantes sobre o
Chefe Irons apareceram: parecia que o chefe esteve envolvido em
um possível estupro e que a Umbrella sabia disso e mesmo assim o
ajudou a ganhar sua posição atual. Talvez o mais difícil foi ter que se
separarem, a tomar difíceis decisões sobre o que precisava ser feito
e sobre suas próprias responsabilidades para com a verdade.
Jill sorriu fracamente; a única coisa com a qual se sentia bem
era que pelo menos seus amigos tinham saído antes de tudo
começar. Rebecca Chambers juntou-se com outro grupo pequeno
de S.T.A.R.S. dissidentes averiguando rumores de laboratórios da
Umbrella. Brad Vickers, fiel à sua convardice natural, saiu da cidade
para evitar a fúria da Umbrella. Chris Redfield já estava na Europa,
investigando o quartel general da companhia e esperando Barry
Burton e a equipe de Rebecca se juntarem... e por Jill que ficou de
investigar os escritórios locais da Umbrella antes de se juntar com os
outros.
Mas há cinco dias, algo terrível aconteceu em Raccoon. Ainda
estava acontecendo, se abrindo como uma flor venenosa, e a única
esperança era esperar alguém de fora perceber.
Quando os primeiros casos foram relatados, ninguém os
conectou com as histórias dos S.T.A.R.S. sobre a mansão de
Spencer. Várias pessoas foram atacadas no final da primavera e
início do verão – acreditavam ser o ato de um assassino maluco; o
R.P.D. logo o prenderia. Mas a pessoas só começaram a prestar
atenção quando o Departamento Policial de Raccoon teve que
armar barricadas nas estradas por ordens da Umbrella três dias
atrás. Jill não sabia como estavam conseguindo manter as pessoas
longe da cidade, mas estavam – nenhuma encomenda, nem correio
e as linhas telefônicas mudas. Os cidadãos que tentavam deixar a
cidade eram mandados de volta sem saber o porquê.
Tudo parecia tão surreal, aquelas primeiras horas depois que
Jill descobriu sobre os ataques e as barricadas.
Ela tinha ido até o R.P.D. procurar o Chefe Irons, mas ele se
recusou a falar com ela. Jill sabia que alguns policiais escutariam,
que nem todos eram cegos ou corruptos como Irons – e mesmo
com a natureza bizarra dos ataques que tinham presenciado, ainda
não estavam preparados para aceitar a verdade.
E quem os culparia?. “Escutem, policiais – a Umbrella, a
empresa responsável por erguer nossa bela cidade, vem fazendo
experiências com vírus no próprio quintal. Eles vêm desenvolvendo
criaturas anormais em laboratórios secretos, aí as injetam com algo
que as tornam fortes e violentas. Quando humanos são expostos a
essa coisa, tornam-se zumbis, por falta de um termo melhor. Zumbis
podres, desalmados e comedores de carne, que não sentem dor e
tentam comer outras pessoas. Eles não estão totalmente mortos,
mas estão quase lá. Então, vamos trabalhar juntos, está bem?
Vamos sair nas ruas e derrubar cidadãos desarmados, seus amigos,
vizinhos, caso contrário vocês serão os próximos”.
Sentando na beira da cama, Jill suspirou. Ela foi um pouco mais
sensível desta vez, mas não importava o quanto soava, ainda assim
era uma história maluca. Claro que ninguém acreditou nela, nem
depois. Não na luz do dia e na segurança de seus uniformes. Foi
somente depois de escurecer, quando a gritaria começou...
Isso foi no dia 25 de Setembro e hoje era dia 28, e a polícia
certamente estava quase toda morta; a última vez que ouviu tiros
foi... ontem? Na noite passada? Deviam ter sido os vândalos, mas
não importava mais. Raccoon estava morta exceto pelos
contaminados que vagavam pelas ruas, procurando comida.
Sem dormir e com uma quase constante descarga de
adrenalina, os dias passaram iguais para ela. Depois da força
policial ter sido destruída, Jill passou seu tempo procurando
sobreviventes, infinitas horas andando pelos becos, batendo em
portas, vasculhando prédios atrás de refugiados. Ela achou dúzias,
e com a ajuda de alguns deles, conseguiram achar um lugar seguro,
uma escola de ensino médio. Jill tinha se certificado de que estavam
seguros antes de voltar para a cidade e procurar mais.
E não encontrou ninguém. E nesta manhã, quando voltou para
a escola...
Ela não quis pensar nisso, mas algo nela dizia que devia, que
não devia se esquecer. Nesta manhã, ela tinha voltado e a barricada
se fora. Destruída por zumbis ou talvez derrubada pelo lado de
dentro, alguém que olhou para fora e viu um irmão, tio ou filha no
meio da multidão de mortos-vivos. Alguém pensou estar salvando a
vida de um amado sem perceber que já era tarde demais.
O lugar tinha virado um matadouro, o ar impregnado com o
cheiro de merda e vômito, as paredes decoradas com grandes
espirros de sangue. Jill quase desistiu, mais cansada do que nunca,
incapaz de ver outra coisa além dos corpos daqueles que foram
sortudos o bastante para morrer antes que o vírus tomasse conta de
seus organismos. Enquanto andava pelos corredores quase vazios,
matando alguns portadores que ainda vagavam por lá – as pessoas
que tinha encontrado, que haviam chorado de alívio quando foram
encontradas algumas horas atrás – qualquer esperança que ainda
tinha se perdeu, levada pela descoberta de que tudo o que estava
fazendo era inútil. Saber a verdade sobre a Umbrella não salvou
ninguém, e os cidadãos que pensou ter levado à segurança – cerca
de setenta homens, mulheres e crianças – estavam mortos.
Ela não se lembrava de como chegou em casa. Ela não vem
pensando direito, e mau conseguia ver através dos olhos inchados
de tanto chorar. Fora isso, milhares morreram, era uma tragédia tão
vasta que parecia incompreensível.
Podia ter sido evitada. E era culpa da Umbrella.
Jill puxou a Beretta debaixo do travesseiro, permitindo a si
mesma sentir pela primeira vez a imensidão do que a Umbrella tinha
feito. Durante os últimos dias, ela manteve o controle de suas
emoções – houve pessoas para guiar, ajudar, e não houve espaço
para nenhum sentimento pessoal.
Mas agora...
Ela estava pronta para sair de Raccoon e fazer os malditos
responsáveis saberem como ela se sentia. Eles tinham roubado sua
esperança, mas não podiam impedi-la de sobreviver.
Jill engatilhou uma bala e apertou os dentes, um grito de puro
ódio em seu estômago. Era hora de partir.
Capítulo 2
Eles estariam em Raccoon City em menos de uma hora.
Nicholai Ginovaef estava preparado e acreditava que sua
equipe se sairia bem – melhor que os outros. Os outros nove que
compunham o esquadrão B o respeitavam; ele percebeu isso em
seus olhos, e como certamente morreriam, sua performance seria
digna de uma menção. Afinal de contas, ele os tinha treinado
praticamente sozinho.
Não havia conversa no helicóptero que transportava o pelotão D
pelo fim da tarde, nem entre os líderes de equipe, os únicos que
usavam fones de ouvido. Havia muito barulho para os soldados
ouvirem uns aos outros, e Nicholai não tinha nada a dizer para
Hirami nem para Cryan – ou para Mikhail Victor. Victor era seu
superior, o comandante do pelotão inteiro. Era o cargo que deveria
pertencer a Nicholai; Victor não tinha as qualidades que um
verdadeiro líder deveria ter.
Eu tenho. Eu fui escolhido para ser um Watchdog (Nota 4) , e
quando tudo estiver acabado, eu serei a pessoa com a qual
Umbrella terá que lidar, quer queira ou não.
Nicholai manteve sua face como uma pedra, mas ele sorria por
dentro. Quando a hora chegar, “eles”, os homens que controlavam a
Umbrella, iriam descobrir que o haviam subestimado.
Ele estava sentado perto dos líderes dos esquadrões A e C
contra uma parede da cabine, acalmado pelo constante e familiar
balançar da aeronave. O ar estava carregado por tensão e pesado
com o cheiro de suor masculino, também familiar. Ele já havia
liderado homens para a batalha antes – e se tudo correr conforme o
planejado, jamais teria que fazê-lo de novo.
Ele deixou o olhar passear pelos apertados rostos dos
soldados, imaginando se algum deles sobreviveria por mais de uma
ou duas horas. Era possível, ele achava. Tinha o assustado sul
africano do grupo de Cryan... e em sua própria equipe, John
Wersbowski, que fez parte de uma lavagem étnica alguns anos
atrás, Nicholai não se lembrava qual. Ambos os homens tinham uma
combinação de profundo auto-controle e suspeita que poderiam dá-
los a chance de escapar de Raccoon, apesar de difícil – e seria
difícil. A reunião não tinha preparado nenhum deles para o que
estava por vir...
Já a reunião particular de Nicholai dois dias antes foi diferente;
Operação Watchdog, assim chamada. Ele conhecia os números
projetados, lhe foi informado o que esperar e como eliminar a
sujeira, a doença que anda, da forma mais eficiente. Eles contaram
sobre as unidades perseguidoras em forma de Tyrant que seriam
enviadas e como evitá-las. Ele sabia mais do que qualquer um ali.
Estou mais preparado do que a Umbrella pode imaginar...
porque eu sei os nomes de seus “cães”.
Mais uma vez, ele reprimiu um sorriso. Ele possuía informações
que a Umbrella não sabia que ele tinha, isso vale muito dinheiro –
ou valerá, em breve. Como fachada, a U.B.C.S. seria enviada para
resgatar civis; é o que os soldados sabiam. Mas Nicholai era um dos
dez escolhidos para coletar e registrar dados sobre os infectados
com o T-virus, humanos ou não, e como agiam contra soldados
treinados – o real motivo para o envio da U.B.C.S.. No helicóptero
que levava o pelotão A, estavam outros dois, disfarçados; já havia
seis em Raccoon – três cientistas, dois funcionários e uma mulher
que trabalha para a cidade. O décimo era um policial, um assistente
pessoal do chefe da polícia. Cada um deles provavelmente devia
conhecer um ou dois dos outros coletores de informações – mas
graças às suas habilidades bem desenvolvidas na computação e
algumas senhas “emprestadas”, Nicholai era o único que conhecia
todos eles, tal como seus respectivos lugares de arquivamento de
relatórios.
Não seria uma surpresa para os contatos caso não
reportassem? Não seria impressionante se apenas um Watchdog
sobrevivesse e pudesse dar seu preço que quisesse pelas
informações que conseguisse? E não seria incrível se um homem
ficasse milionário gastando apenas um pouco de esforço e algumas
balas?
Nove pessoas. Ele estava há nove pessoas de ser o empregado
da Umbrella que tinha as informações que precisavam. A maioria, se
não todos da U.B.C.S. morreria rapidamente, e depois estaria livre
para encontrar os outros Watchdogs, pegar seus dados e tirar suas
miseráveis vidas.
Por enquanto não podia fazer nada; Nicholai sorriu. A missão
promete ser excitante, um verdadeiro teste para suas muitas
habilidades... e quando acabar, ele será um homem muito rico.
Apesar do apertado assento e o abafado ruído dos motores do
helicóptero, Carlos não prestava muita atenção ao seu redor. Ele
não conseguia parar de pensar em Trent e a esquisita conversa que
tiveram duas horas atrás, tentando decidir o que havia de útil nela.
Para começar, Carlos confiou no cara o máximo que conseguiu
agüentar. O homem estava muito feliz; não tão extrovertido, mas
Carlos teve a definitiva impressão de que Trent ria sobre algo por
debaixo do pano. Seus olhos escuros dançavam levemente de
humor enquanto dizia à Carlos que tinha informações para ele,
caminhando para o beco de onde havia saído como se Carlos não
tivesse perguntas.
E realmente não tinha. Carlos tinha aprendido a ser muito
cuidadoso em seu trabalho, mas também sabia algumas coisas
sobre ler as pessoas – e Trent, apesar de estranho, não foi
ameaçador.
O beco estava frio e escuro, com um leve cheiro de urina. “Que
tipo de informações?”. Carlos tinha perguntado.
Trent agiu como se não tivesse ouvido a pergunta. “No centro
comercial da cidade, você encontrará um restaurante chamado Grill
13; fica no final da rua da fonte, bem ao lado do teatro, não tem erro.
Se você conseguir chegar por volta de−”. Ele olhou no relógio. “–
digamos, 19:00 horas, eu poderei ver o que posso fazer para ajudá-
lo”.
Carlos nem soube por onde começar. “Hei, sem ofensas, mas
do que diabos você está falando?”.
Trent sorriu. “Raccoon City. É para onde você está indo”.
Só Deus sabe como ele sabia meu nome, mas esse bato não
está jogando com todas as cartas.
“Ah, ouça, Sr. Trent−”.
“Apenas Trent”. Ele interrompeu Carlos, ainda sorrindo.
Carlos começou a se irritar. “Que seja. Eu acho que você pegou
o Oliveira errado... e eu aprecio a sua, é, preocupação, eu realmente
tenho que ir”.
“Ah, sim, ligaram do trabalho”. Trent disse, seu sorriso sumindo.
“Entendo, eles não vão dizer tudo o que precisa saber. Será pior,
bem pior. As horas seguintes poderão ser negras, Sr. Oliveira, mas
eu acredito em suas habilidades. Apenas lembre-se – Grill 13,
dezenove horas. Canto nordeste da cidade”.
“Sim, claro”. Carlos disse, acenando, voltando para a luz do dia,
usando um sorriso forçado. “Combinado. Eu vou me lembrar”.
Trent sorriu de novo, afastando-se dele. “Tome cuidado em
quem você confia, Sr. Oliveira. E boa sorte”.
Carlos virou e começou a andar rapidamente. O homem ficou
olhando, de mãos nos bolsos de novo, sua postura casual e
relaxada. Para um maluco, ele não parecia maluco...
... e parece bem menos maluco agora, não é?
Carlos ainda conseguiu chegar mais cedo no escritório, mas
ninguém parecia ter ouvido nada sobre o que estava acontecendo.
Na curta reunião ministrada pelos líderes de pelotão da U.B.C.S.,
foram apresentados alguns fatos: um vazamento de produto tóxico-
químico ocorreu no começo da semana em uma isolada
comunidade, causando alucinações que levavam à violência. A
química tinha se dissipado, mas pessoas comuns continuavam
atormentadas pelos que foram afetados; havia evidências de que os
danos poderiam ser permanentes, e a polícia local não conseguia
manter as coisas sobre controle. A U.B.C.S. estava sendo enviada
para ajudar a evacuar os cidadãos que não foram afetados, e usar a
força para protegê-los se necessário. De qualquer modo era
confidencial.
E em Raccoon City. O que significava que Trent sabia de algo
afinal... mas o que isso quer dizer?
Se ele estava certo sobre onde íamos, como fica o resto? O que
eles não disseram que precisávamos saber? E o que podia ser pior,
bem pior do que um monte de gente maluca e violenta?
Ele não sabia, e não gostava de não saber. Ele tinha colocado
as mãos numa arma pela primeira vez aos doze anos para ajudar a
defender sua família de um bando de terroristas, e se tornou
profissional aos dezessete – durante quatro anos agora, ele foi pago
para colocar a própria vida em risco pela causa dos outros. Mas ele
sempre soube quem seus inimigos eram. Ir às cegas não era muito
legal, nem um pouco. O único consolo era que estava indo com
dezenas de soldados experientes; seja lá o que for, eles seriam
capazes de resolver.
Carlos olhou em volta, pensando em estar com um bom grupo.
Não necessariamente com bons homens, mas combatentes
adeptos, o mais importante no combate. Eles até pareciam
preparados, seus olhos insensíveis e atentos, seus rostos
determinados – exceto pelo líder do esquadrão B, que olhava
fixamente para o nada e sorria como um tubarão. Como um
predador. Carlos ficou inseguro de repente, olhando para o homem,
Nicholai alguma coisa, cabelo branco arrepiado, forte como um
levantador de peso. Carlos nunca viu alguém sorrir daquele jeito...
O russo encontrou o olhar de Carlos, e seu sorriso alargou por
um momento, de um modo que fez Carlos querer encostar as costas
numa parede, de arma na mão – e o momento tinha acabado,
Nicholai acenando desatentamente e desviando o olhar. Era apenas
outro soldado cumprimentando um camarada, nada mais. Ele estava
paranóico, o encontro com Trent o havia deixado no limite, e sempre
ficava um pouco ansioso antes de um combate...
Grill 13, perto do teatro.
Carlos não se esquecerá. Por precaução.
Capítulo 3
O plano de Jill era margear a cidade em direção à sudeste,
usando ruas laterais e cortando por dentro dos prédios o máximo
que puder: as ruas principais não eram seguras, muitas delas foram
bloqueadas para conter os zumbis antes que a situação piorasse. Se
ela conseguisse distanciar-se ao máximo à sul, seria capaz de
cruzar fazendas até a Rota 71, um dos caminhos até a rodovia
principal.
Até agora está tudo bem. Se continuar assim, eu chego na 71
antes de escurecer.
Levou menos de uma hora para ir dos subúrbios até o
aparentemente vazio prédio de apartamentos onde ela estava
agora, tremendo um pouco com o úmido frio que emanava do mau
iluminado corredor. Ela tinha se vestido mais pela facilidade de
locomoção do que por proteção – uma blusa justa, mini-saia, botas
e uma bolsa de cintura para carregar munição extra. A roupa
apertada a envolvia como uma segunda pele e a permitia se
movimentar rapidamente. Ela também carregava uma simples blusa
de moletom branca amarrada na cintura para usar quando sair da
cidade – por enquanto, ela preferia passar frio e ter seus braços
livres.
O Imperial era um modesto prédio de apartamentos na ponta
mais ao sul da área residencial de Raccoon. Jill descobriu em sua
última excursão que uma vez infectados, os zumbis saíam em busca
de comida assim que possível, abandonando suas casas e indo para
as ruas. Nem todos eles, claro, mas o suficiente para ser mais
seguro cortar pelos prédios do que andar em locais abertos.
Um barulho. Um leve gemido vindo de trás de uma das portas
no final do corredor. Jill parou, de arma na mão, tentando ouvir de
que lado veio e percebendo no mesmo instante que podia sentir o
cheiro de gás.
“Droga”. Ela sussurrou, tentando lembrar o planta do prédio
enquanto o oleoso e picante cheiro enchia suas narinas. Virar à
direita onde o corredor terminava em forma de “T”, e...
... e, direita de novo? Ou a portaria ficava ali mesmo? Pense,
você esteve aqui dois dias atrás, Jesus, deve ser um baita
vazamento – Houve outro gemido adiante, definitivamente vindo da
esquerda. Era o vazio e demente som que os zumbis faziam, o único
som que “conseguiam” fazer até onde sabia. A porta estava
arrombada e Jill quase pôde ver as trêmulas ondas de gás invadindo
o corredor.
Ela segurou a Beretta mais forte e recuou um passo. Ela tinha
que voltar por onde veio, ela não queria arriscar um tiro nem se
defender com as mãos; uma única mordida seria capaz de passar a
infecção para ela. Mais um passo atrás e – Creak.
Jill virou-se, instintivamente erguendo sua arma assim que uma
porta abriu a pelo menos cinco metros dali. Um encurvado homem
arrastando os pés apareceu na escuridão bloqueando-a da porta dos
fundos. Ele tinha a pele enrugada e os olhos mortos de um
contaminado, como se um pedaço da bochecha faltando não fosse
uma prova decisiva; zumbis não sentiam dor. Quando ele abriu a
boca e gemeu de fome para ela, foi possível ver a base de sua cinza
e esfolada língua, e nem o forte cheiro de gás podia superar o
enjoativo odor da carne apodrecida.
Jill virou, viu que o corredor à frente estava vazio. Ela não tinha
escolha senão passar pelo apartamento com o vazamento e esperar
que o morador fosse lento o bastante para não pegá-la.
Vai. Agora.
Ela decolou, ficando o mais perto que podia da parede direita,
sentindo os efeitos do gás enquanto movia os braços para ganhar
velocidade – uma leve distorção de luz, uma sensação de enjôo, um
gosto ruim na garganta.
Ela passou pela porta arrombada, aliviada por não ter aberto
mais, lembrando de repente que a portaria ficava à direita. Ela fez a
curva e – bam, colidiu com uma mulher, levando-a ao chão. Jill
inclinou-se dela, acertando a parede de gesso com seu ombro
direito, tão forte que o fino pó branco caiu sobre elas. Ela mau
percebeu, atenta demais com a mulher caída e as três figuras de pé
no pequeno hall de entrada, voltando suas atenções para Jill. Todos
estavam contaminados.
A mulher, vestida nos farrapos do que uma vez foi uma
camisola branca, balbuciava algo enquanto tentava se sentar.
Só lhe restava um dos olhos, a vermelha e rasgada cavidade
brilhando sob a luz acima. Os outros três, todos homens, na direção
de Jill, gemendo, seus gangrenosos braços erguendo-se
lentamente; dois deles bloqueavam a parede de metal e vidro que
dava na rua – sua saída.
Três de pé, uma se arrastando, alcançando suas pernas e pelo
menos dois atrás dela. Jill correu de lado para a porta de segurança,
arma apontada para a descascada testa do mais próximo, a menos
de dois metros. A parede de caixas de correio atrás deles eram de
metal, mas não tinha escolha senão esperar que a concentração de
gás fosse menos intensa ali.
A criatura avançou e Jill atirou, saltando ao mesmo tempo para
a porta enquanto a bala penetrava no crânio dele – e ela tanto ouviu
quanto sentiu a explosão, sssssh−BOOM, um deslocamento de ar
em fúria que a empurrou na direção a qual tinha saltado, forte, tudo
se movendo rápido demais para entender cronologicamente – seu
corpo doendo, a porta dissolvendo, o mundo borrando em variações
de branco. Ela se encolheu e rolou, asfalto firme batendo em seu
ombro, os horríveis odores de carne frita e cabelo queimado
passando por ela enquanto cacos de vidro escurecidos forravam a
rua.
Jill ficou de pé, ignorando tudo enquanto girava para atirar de
novo, enquanto as chamas consumiam os restos do Imperial. Ela
piscou seus molhados olhos e os arregalou, tentando ver através
das chamas que cobriam tudo a sua volta.
Pelo menos dois zumbis estavam no chão, provavelmente
mortos, mas outros dois ainda tropeçavam nos destroços, suas
roupas e cabelo queimando. À direita e atrás de Jill havia restos de
uma barreira policial, cavaletes, anteparos e carros estacionados;
ela podia ouvir mais deles gemendo do outro lado.
E lá, à sua esquerda, já virando a mole e pendurada cabeça na
direção dela, estava um único homem de roupas rasgadas e
pintadas com sangue seco. Jill mirou e apertou o gatilho, passando
uma bala através de seu cérebro virulento, andando na direção dele
enquanto ainda caia; havia um container de lixo atrás do corpo
agonizante e depois, várias quadras do centro comercial, sua melhor
opção de fuga agora.
Tenho que ir à oeste, ver se consigo contornar as barricadas.
Com o perigo imediato passado, ela parou um pouco para
contar os ferimentos – abrasões no joelho e um ombro ralado sujo
de areia; podia ter sido muito pior. Seus ouvidos apitavam e sua
visão ainda sofria, mas isso era passageiro.
Ela chegou no container e deu seu melhor para curvar-se sobre
ele e olhar para cada lado da escura rua norte-sul. A lixeira estava
entre a parede lateral de uma loja de roupas da moda e um carro
batido, limitando sua visão. Jill ouviu por um momento, procurando
choros de fome ou o inconfundível arrastar de pés dos
contaminados, mas não ouviu nada.
Com o ouvido nessas condições não ouviria uma banda
passando, ela pensou irritada e pulou em cima do latão.
Do outro lado da rua havia uma porta que achava dar num
beco, mas estava interessada em saber o que havia à esquerda –
com sorte, uma saída direta da cidade.
Jill desceu, olhou para os dois lados e sentiu tentáculos de
pânico envolver seu cérebro. Havia dezenas deles, em ambos os
lados, o mais próximo já andando para afastá-la da lixeira.
Anda, Jillzinha!
A voz de seu pai. Jill não hesitou, deu dois largos passos e
jogou seu ombro ferido contra a enferrujada porta à sua frente. A
porta balançou, mas não abriu.
“Vamos”. Ela disse sem perceber, concentrando-se na porta,
não importa o quanto perto estejam, eu tenho que passar – Ela
golpeou a porta novamente, o forte cheiro de carne podre
envolvendo-a, e a porta ainda firme.
Concentre-se! Vai, agora! De novo, a autoritária voz de seu pai,
seu primeiro professor. Jill se recompôs, recuou e sentiu o frio
esfregar de dedos em seu pescoço, um sopro de hálito podre em
sua bochecha.
Crash, a porta abriu, batendo nos tijolos atrás, e Jill a cruzou,
correndo, lembrando de um galpão à frente e à direita, sua pulsação
a toda força. Atrás dela, crescentes uivos de decepção, de fome
frustrada, ecoando pelo beco que a salvaria. Uma porta à frente.
Por favor, esteja aberta – Jill agarrou a maçaneta, empurrou-a e
a porta metálica abriu num quieto e bem iluminado espaço aberto,
Graças a Deus – e viu um homem de pé no piso mais abaixo; ela
ergueu a Beretta, mas não atirou, analisando-o antes de abaixá-la.
Apesar de suas roupas rasgadas e sujas de sangue e suas
expressões amedrontadas, ele não era um infectado... ou pelo
menos era um que não havia se transformado por completo.
Jill sentiu alívio correr por ela ao ver outra pessoa, e
percebendo o quanto sozinha tem estado. Mesmo tendo uma
pessoa destreinada ao seu lado, alguém para ajudar e ser ajudada...
Ela sorriu trêmula, indo para os degraus da plataforma elevada
de metal a qual estava, já fazendo mudanças de planos. Eles tinham
que achar uma arma para ele, ela tinha visto uma espingarda
descarregada no Bar Jack dois dias atrás, eles estavam bem perto e
podiam achar munição – e juntos podemos passar por uma das
barricadas! Ela só precisava de alguém para vigiar e ajudá-la a
empurrar alguns carros.
“Nós temos que sair daqui”. Ela disse, forçando mais esperança
do que conseguia. “A ajuda não virá, ao menos por enquanto, mas
cai entre nós−”.
“Você está louca?”. Ele interrompeu, seu febril olhar para todos
os lados. “Eu não vou a lugar nenhum, moça. Minha própria filha
está lá fora em algum lugar, perdida...”.
Ele parou de falar, olhando para a porta que Jill acabara de
usar, como se pudesse enxergar através dela.
Jill acenou, lembrando a si mesma de que ele provavelmente
estava em choque. “Mais um motivo para−”.
Ele a interrompeu de novo, sua voz em pânico elevando-se a
um grito que preencheu todo o lugar. “Ela está lá fora, e
provavelmente está morta como todos eles, e se eu não sair por ela,
você deve estar maluca se acha que vou sair por você!”.
Jill colocou a Beretta na cintura da saia, erguendo as mãos
rapidamente, mantendo sua voz suave. “Ei, eu entendo. Eu sinto
muito sobre sua filha, sério, mas se nós sairmos da cidade, podemos
chamar ajuda, podemos voltar – talvez ela esteja escondida em
algum lugar, e o melhor jeito de achá-la é chamando ajuda”.
Ele recuou um passo e ela pode ver o terror sobre sua raiva.
Ela já tinha visto isso antes, a falsa fúria que algumas pessoas
usavam para evitar ficarem com medo, e sabia que não conseguiria
convencê-lo.
Mas eu tenho que tentar...
“Eu sei que você está assustado”. Ela disse suavemente. “Eu
também estou. Mas eu vou – eu era um dos membros do Esquadrão
de Táticas Especiais e Resgate; nós fomos treinados para
operações perigosas e eu realmente acredito que posso tirar a gente
daqui. Você estará seguro se vier comigo”.
Ele recuou outro passo. “Vá para o inferno, sua, sua
vagabunda”. Ele disse, depois virou e correu pelo chão de cimento.
Havia um container de estocagem no canto do galpão. Ele
engatinhou para dentro, ofegando enquanto puxava as pernas. Jill
só pegou um lance de seu vermelho e suado rosto enquanto
fechava as portas. Ela ouviu o clink metálico da trava seguido por
um abafado grito que definia sua decisão.
“Vá embora!. Me deixe em paz!”.
Jill sentiu sua própria explosão de raiva, mas sabia que era
inútil, tão inútil quanto tentar argumentar mais.
Suspirando, ela virou e voltou para os degraus, evitando com
cuidado a depressão que acabava de dominá-la.
Ela checou o relógio – era 4:30h – e sentou-se, repassando seu
mapa mental da zona residencial de Raccoon.
Se o resto das ruas também estiverem dominadas, ela teria que
voltar para o centro e tentar achar outra direção.
Ela tinha cinco clips cheios, quinze balas em cada, mas
precisava de mais poder de fogo... como uma espingarda, talvez. Se
ela não conseguir achar balas, ao menos poderia espancá-los com
ela.
“Bar Jack, então”. Ela disse baixo, e apertou o calcanhar das
mãos contra os olhos, imaginando como iria sair dessa.
Capítulo 4
Eles chegaram na cidade no final da tarde, 16:50h segundo
Carlos, e estavam se preparando para descer sobre um terreno
vazio. Aparentemente havia um complexo subterrâneo por perto,
pertencente à Umbrella, ao menos era o que lhes foi dito na reunião.
Carlos alinhou-se com sua equipe, metralhadora pendurada no
ombro enquanto se prendia no cabo de salto e esperava Hirami abrir
a porta. Bem à frente de Carlos estava Randy Thomas, um dos
caras mais amigáveis do esquadrão A. Randy olhou para trás e
fingiu resmungar, apontando seu dedão e indicador para Carlos,
fingindo atirar. Carlos sorriu, encolhendo a barriga como se tivesse
levado um tiro. Uma brincadeira idiota, mas ajudou Carlos a relaxar
um pouco assim que seu líder puxou a porta e o som de vários
helicópteros encheu a cabine.
De dois em dois, os homens deslizavam pelas cordas duplas de
rapel presas ao corpo da aeronave. Carlos se aproximou da
abertura, apertando os olhos contra o forte vento para ver onde
estavam pisando. Seu helicóptero criava uma longa sombra sob os
últimos raios do sol do dia, podendo ver outros pelotões no chão,
alinhando-se por esquadrão. E era sua vez; ele saiu um segundo
depois de Randy, o medo da queda livre mandando seu estômago
para o peito. Um borrão de céu passou e estava no chão,
desprendendo-se da corda e correndo para onde Hirami estava.
Alguns minutos depois, todos estavam no chão. Quase em
harmonia, os quatro helicópteros giraram à oeste e foram embora, o
barulho sumindo enquanto poeira assentava sobre os soldados.
Carlos sentiu-se alerta e preparado enquanto os líderes de pelotão e
esquadrão começavam a apontar para diferentes direções,
designando rotas previamente elaboradas na base.
Finalmente, quando os helicópteros ficaram menores, eles
conseguiram ouvir de novo – e Carlos foi pego pelo silêncio das
redondezas. Nenhum carro, nenhum som industrial apesar de
estarem à beira de uma cidade de bom porte. Estranho só
prestarmos atenção nesses barulhos quando estão ausentes.
Mikhail Victor, supervisor do pelotão D, estava quieto com
Hirami e os outros dois líderes de esquadrão, Cryan e o russo
esquisito. Enquanto os supervisores dos pelotões A, B e C davam
direções, os esquadrões moviam-se atentos e silenciosos. Seus
passos pareciam altos demais no ar frio, e Carlos viu olhares de
vaga insegurança em algumas das faces que passavam, um olhar
que também sabia estar usando. Provavelmente estava tudo quieto
porque as pessoas estavam em casa dentes, ou isoladas em algum
lugar, mas mesmo assim o silêncio era sobrenatural...
“Esquadrão A, passo acelerado!”. Hirami falou, e até sua voz
parecia estranhamente silenciosa, mas Carlos esqueceu o assunto
assim que começaram a correr atrás dele. Se não lhe falhasse a
memória da reunião, todos seriam direcionados para oeste, para o
coração de Raccoon City, os pelotões separando-se para cobrir uma
área maior. Depois de quase cem metros, o esquadrão A estava
sozinho, trinta soldados marchando por uma área industrial não
muito diferente de onde a base ficava; terrenos abandonados com
lixo espalhado, passagens de terra com grama a cortar, armazéns
cercados.
Carlos franziu, incapaz de ficar em silêncio. “Fuchi”. Ele disse,
usando metade de seu fôlego. Cheirava como gases dentro de uma
sacola cheia de peixes.
Randy recuou alguns passos para correr ao lado de Carlos.
“Disse algo, irmão?”.
“Eu disse que algo está fedendo”. Carlos falou. “Está
sentindo?”.
Randy acenou. “Sim, pensei que fosse você”.
“Ha, ha, você me mata, cabrón”. Carlos sorriu gentilmente. “A
propósito, isso significa bom amigo”.
Randy sorriu também. “É, aposto. E aposto−”.
“Parem! E calem a boca aí atrás!”.
Hirami ordenou uma parada, erguendo a mão para o alto
pedindo silêncio. Carlos pôde ouvir fracamente outro esquadrão
uma ou duas quadras à norte, o bater de suas botas no pavimento.
E um segundo depois, ele podia ouvir outra coisa.
Gemidos e roncos, vindos de algum lugar à frente deles, bem
suave, porém aumentando. Como se os pacientes de um hospital
tivessem sido expulsos. Ao mesmo tempo, o cheiro ficava mais forte,
pior – e familiar, como...
“Que droga”. Randy murmurou, seu rosto ficando pálido, e
Carlos sabia que era o mesmo que Randy devia conhecer.
Não é possível.
Era o cheiro de um corpo humano apodrecendo no sol. Era
cheiro de morte. Carlos o conhecia muito bem, mas nunca esteve
tão grande, tão abrangente. À frente deles, Hirami estava abaixando
a mão, incerto, um olhar de profunda preocupação em seus olhos.
Os angustiados sons de pessoas com dor estavam ficando mais
altos.
Hirami estava para falar quando – quando tiros vieram de algum
lugar próximo, de um dos outros esquadrões, e entre os estouros de
fogo automático, Carlos pôde ouvir homens gritando.
“Em linha!”. Hirami gritou, erguendo ambas as mãos com as
palmas viradas para o céu, sua voz quase inaudível sobre os tiros.
Em linha reta, cinco homens olhando para frente e cinco
olhando para o caminho de onde viemos. Carlos correu para sua
posição, sua boca seca de repente, suas mãos úmidas. Os curtos
estouros de metralhadora à norte de suas posições estavam ficando
mais longos, afogando qualquer outro som, mas o cheiro certamente
estava piorando. Para aumentar sua preocupação, ele pôde ouvir
mais tiros, porém suaves e distantes, acompanhando os mais
próximos; seja lá o que estava acontecendo, parecia que toda a
U.B.C.S. estava ocupada.
Carlos vigiava adiante, rifle preparado, vasculhando a rua vazia
que se prolongava à frente e terminava em forma de “T” três
quadras dali. Uma M16 carregada com um pente de trinta balas não
era motivo de brincadeira, mas ele estava com medo – do que ainda
não sabia.
Por que ainda estão atirando por lá, o que resiste a tantos tiros?
O que é – Carlos viu o primeiro, uma atordoada figura que saiu de
trás de um prédio dois quarteirões à frente deles. Um segundo
apareceu do outro lado da rua seguido por um terceiro, um quarto –
de repente, pelo menos uma dúzia de pessoas cambaleantes
estavam na rua, vindo em sua direção. Eles pareciam estar
bêbados.
“Cristo, o que há de errado com eles, porque estão andando
daquele jeito?”.
Quem falou estava ao lado de Carlos, seu nome era Olson, que
estava voltado trás. Carlos olhou para trás e viu pelo menos dez se
aproximando, aparecendo do nada, e percebeu que o tiroteio à norte
estava enfraquecendo, os tiros menos concentrados e intermitentes.
Carlos voltou a olhar para frente e sentiu seu queixo cair para o
que viu e ouviu; eles estavam perto o bastante para perceber
características individuais, seus estranhos gritos claramente
audíveis agora. Roupas rasgadas e sujas de sangue apesar de
alguns estarem quase pelados; rostos pálidos manchados de
vermelho, com olhos que não eram nada; o modo como vários
esticavam os braços, tentando alcançar os soldados a uma quadra
de distância. E as desfigurações – braços faltando, grandes pedaços
de pele e músculos rasgados, partes do corpo inchadas e úmidas de
putrefação.
Carlos já tinha assistido aos filmes. Essas pessoas não
estavam doentes. Elas eram zumbis, os mortos-vivos, e por um
momento, tudo o que podia fazer era olhá-los se aproximando.
Impossível, chale, seu cérebro lutou para aceitar o que estava
vendo, ele se lembrou do que Trent disse, sobre as horas negras.
“Atirem, atirem!...” , Hirami gritava como se estivessem longe, e
o súbito e violento martelar das metralhadoras ao lado de Carlos o
trouxe para a realidade. Ele mirou na rasgada barriga de um gordo
usando um pijama esfarrapado e atirou.
Três disparos, pelo menos nove balas acertaram a corpulenta
barriga do homem, desenhando uma irregular linha curva. Sangue
escuro espirrou, manchando suas calças. O homem mancou, mas
não caiu. Se não for por outro motivo, ele parecia ainda mais
ansioso para alcançá-lo, como se o cheiro do próprio sangue o
tivesse excitado.
Alguns dos zumbis tinham caído, mas continuavam se
arrastando sobre o que sobrou de seus estômagos, tentando rasgar
o asfalto com os dedos em sua única motivação.
O cérebro, tem que acertar o cérebro, nos filmes era o único
jeito de matá-los – O mais próximo estava à cerca de seis metros
agora, uma desolada mulher que parecia normal exceto pelo opaco
brilho do osso sobre seu cabelo. Carlos localizou o crânio exposto e
atirou, sentindo um louco alívio quando ela caiu e ficou lá.
“A cabeça, mirem na cabeça−”. Carlos gritou, mas Hirami
também estava gritando, sons de terror que rapidamente foram
acompanhados pelos dos outros enquanto a linha começava a se
desfazer. – ah, não – Lá atrás, os zumbis os tinham alcançado.
Nicholai e Wersbowski foram os únicos do B que conseguiram,
e só eles porque tiravam vantagem de onde podiam – Nicholai tinha
empurrado Brett Mathis nos braços de uma das criaturas quando
estava próxima, ganhando alguns segundos preciosos para
escapar. Ele viu Wersbowski atirar na perna esquerda de Li pelo
mesmo motivo, derrubando o soldado e deixando-o para distrair o
mais próximo dos contaminados.
Juntos, eles conseguiram chegar à saída de emergência de um
prédio residencial a uns dois quarteirões de onde os outros foram
pegos. Os tiros não paravam enquanto subiam os degraus
enferrujados, os gritos de homens morrendo chegando ao silêncio,
perdendo-se entre os choros dos famintos malditos.
Nicholai pesou suas opções cautelosamente enquanto
escalavam a saída de emergência. Como previu, John Wersbowski
era um sobrevivente e certamente não tinha problemas em fazer o
que fosse necessário para continuar um; ruins como as coisas
estavam em Raccoon – de fato, pior do que Nicholai tinha imaginado
– pode valer a pena ter um homem como esse dando cobertura.
E se estivermos cercados, haveria alguém para ser sacrificado
e eu poder fugir...
Nicholai franziu quando chegaram na cobertura, enquanto
Wersbowski olhava para o que podia ser visto de três andares
acima. Infelizmente, o elemento de sacrifício funcionava para os
dois. Além disso, Wersbowski não era um idiota confiável como
Mathis e Li; pode ser difícil livrar-se dele.
“Zumbis”. Wersbowski murmurou, apertando o rifle. De pé ao
lado dele, Nicholai seguiu seu olhar para onde a equipe B ficou de
pé pela última vez, para os corpos que forravam a rua e as criaturas
que continuavam a se alimentar. Nicholai não pôde deixar de sentir
um pouco de desapontamento; eles morreram em minutos, quase
sem lutar...
“Então, qual é o plano, senhor?”.
O sarcasmo era óbvio, tanto no tom como no olhar meio
impressionado e meio enjoado que deu para Nicholai.
Obviamente, Wersbowski o tinha visto empurrar Mathis. Nicholai
suspirou, balançando a cabeça, a M16 folgada em suas mãos; ele
não tinha escolha, mesmo.
“Eu não sei”. Disse suavemente, e quando Wersbowski olhou
de volta para o local da luta, Nicholai apertou o gatilho da
metralhadora.
Um trio de balas martelou o abdômen de Wersbowski,
derrubando-o contra o baixo parapeito de cimento.
Nicholai imediatamente ergueu a arma e mirou num dos
chocados olhos de Wersbowski, atirando mesmo enquanto
compreensão inundava o rosto lavado do soldado, sabendo que
cometera o erro fatal de baixar a guarda.
Em menos de um segundo estava acabado, e Nicholai estava
sozinho na cobertura. Ele olhou vaziamente para o corpo sangrando,
imaginando – e não pela primeira vez – porque não sentiu culpa ao
matá-lo. Ele já ouviu o termo anti-social e pensou que
provavelmente se aplicava... e ele não entendia como as pessoas
continuavam vendo isso como algo negativo. Era a tal da simpatia,
ele achava, a carga de humanidade agindo como se a incapacidade
de se “relacionar” estivesse errada.
Mas nada me incomoda, e eu nunca hesito em fazer o que
precisa ser feito, não importa o quanto os outros percebam; o que há
de tão terrível nisso?
Verdade, ele era um homem que sabia se controlar. Disciplina
era seu segredo. Ao deixar sua terra natal, um ano depois já nem
pensava mais em russo. Quando se tornou um mercenário, ele
treinou dia e noite com todos os tipos de armas e testou suas
habilidades contra os melhores da área; ele sempre venceu, pois
não importava quem era o oponente, Nicholai sabia que não ter
consciência o libertava, era como ter inimigos atrapalhados.
Isso era um presente, não era?
O corpo de Wersbowski não respondeu. Nicholai checou o
relógio já aborrecido com seus pensamentos filosóficos. O sol
estava baixo no céu e era apenas cinco da tarde; ele ainda tinha
muito que fazer se quisesse sair de Raccoon com tudo o que
precisava. Primeiro, ele tinha que pegar um laptop e acessar os
arquivos que criou na noite anterior, mapas e nomes; deveria haver
um trancado no prédio do R.P.D., mas precisava ser extremamente
cuidadoso na área já que os dois Tyrants estariam por lá. Um estava
programado para achar uma amostra química, e Nicholai sabia que
havia um laboratório da Umbrella não muito longe da delegacia. O
outro, a criação mais avançada tecnologicamente, estava
encarregada de eliminar os S.T.A.R.S. renegados, se é que ainda
estavam em Raccoon. E o escritório do S.T.A.R.S. ficava no R.P.D..
Ele não estaria em perigo se ficasse fora do caminho deles, mas
odiaria ficar entre eles e o alvo se tudo o que ouviu fosse verdade. A
Umbrella estava tirando todas as vantagens da situação de
Raccoon, dando passos eficazes – usando os novos modelos do
Tyrant, se é o que são – além da coleta de dados; Nicholai admirava
sua eficiência.
Nicholai ouviu um novo disparo e reflexivamente recuou da
beira da cobertura, olhando para baixo, vendo dois soldados
passarem correndo momentos depois. Um estava ferido, uma
mancha rasgada e com sangue perto de seu calcanhar direito, e se
apoiava no outro pesadamente. Nicholai não conseguiu identificar o
homem ferido, mas o outro era o hispânico que o encarava no
helicóptero.
Nicholai sorriu quando os dois cambalearam para fora de visão;
alguns soldados iriam sobreviver, claro, mas provavelmente
sofreriam o mesmo destino que o homem ferido, que certamente foi
mordido por um dos infectados.
Ou o destino que aguardava o hispânico. Fico imaginando, o
que ele fará quando seu amigo começar a ficar doente? Quando
começar a mudar?
Provavelmente tentará salvá-lo em algum patético tributo à
honra; seria seu fim. Sério, eles estão tão bons quanto mortos.
Impressionado com o quanto previsíveis eram, Nicholai
balançou a cabeça e foi pegar a munição de Wersbowski.
Capítulo 5
A caminho do Bar Jack, Jill pensou ter ouvido tiros.
Ela parou no beco que a levaria para a porta dos fundos da
taverna, de cabeça inclinada para o lado. Pareciam tiros, uma
metralhadora automática, mas estava muito longe para ter certeza.
Mesmo assim, seus espíritos elevaram-se um pouco ao pensar que
poderia não estar lutando sozinha, que a ajuda poderia estar a
caminho...
... certo. Uma centena de caras aterrissaram com bazucas,
inoculações e uma marmita, talvez um jantar de carne com meu
nome nele. Todos são atraentes, heteros, solteiros, com formações
universitárias e dentes perfeitos...
“Que tal ficar na realidade?”. Ela disse suavemente e ficou
aliviada por soar normal mesmo no silêncio úmido e sombrio do
beco de trás. Ela esteve sozinha e com frio no galpão, mesmo
depois de ter achado uma garrafa térmica com café ainda morno no
escritório superior; a idéia de ter que andar pela cidade morta
novamente, sozinha – é o que tenho que fazer, pensou firmemente,
então vou fazer. Como seu querido e encarcerado pai se cansou de
dizer – desejar que as coisas fossem diferentes não as tornariam
reais.
Ela deu alguns passos adiante, parando quando estava a um
metro e meio de onde o beco se bifurcava. À sua direita ficavam
uma série de ruas e becos que a levariam mais adentro da cidade;
esquerda a faria cruzar um pequeno pátio levando-a diretamente
para o bar, considerando que conhecia bem a área como pensava.
Jill se aproximou da junção, andando o mais atenciosamente
possível, suas costas contra a parede sul. Estava quieto o bastante
para arriscar uma olhada no beco da direita, sua arma na frente;
tudo limpo. Ela mudou de lado para olhar na direção que precisava ir
– e ouviu, uunnh, o leve e fraco choro de um homem infectado, meio
escondido pela sombra a uns quatro metros de distância. Jill mirou
na parte mais escura da sombra e esperou entediada até ele
aparecer, lembrando-se de que não era mais humano. Ela sabia
disso, sabia desde os eventos na mansão de Spencer, mas
encorajava os sentimentos de dó e tristeza toda vez que precisava
derrubar um deles. Dizer a si mesma que cada zumbi estava além
da salvação a permitia sentir compaixão por eles.
Mesmo a desajeitada e decomposta bagunça que agora estava
no seu campo de visão já foi uma pessoa. Ela não iria, não podia se
abalar com isso, mas esquecer de que também eram vítimas, ela
perderia um elemento de sua própria humanidade.
Um único tiro na têmpora direita e o zumbi caiu numa poça de
seus próprios fluidos. Ele já estava nessa há muito tempo, seus
olhos cobertos de catarata, sua carne cinza-esverdeada
escorregando pelos ossos; Jill teve que respirar pela boca ao passar
sobre ele, alerta para não tê-lo em suas botas...
Outro passo e estava olhando para o pátio – e viu mais dois lá,
e também um vulto de movimento desaparecendo no beco, na
direção do bar. Era muito rápido para estar contaminado. Jill só
reparou na calça camuflada e na bota preta de combate, mas era o
suficiente para confirmar o que esperava – uma pessoa. Era uma
pessoa viva.
Do curto lance de degraus que desciam para o pátio, Jill
despachou ambos os zumbis, seu coração pulando de esperança.
Roupa camuflada. Ele ou ela era um militar, enviado talvez para
reconhecimento; pode ser que sua fantasia não fosse tão impossível
assim. Ela passou pelas criaturas caídas, correndo assim que
entrou no beco, subindo alguns degraus, dez metros de tijolo e
estava na porta dos fundos.
Jill respirou fundo e abriu a porta com muito cuidado, não
querendo surpreender ninguém carregando uma arma – e viu um
zumbi avançando pelo chão de lajotas, gemendo famintamente
enquanto esticava os braços para um homem de colete amarelo, um
homem que apontou o que parecia ser um revólver de baixo calibre
para a criatura, e atirou.
Jill imediatamente o ajudou, conseguindo com dois tiros o que o
homem não conseguiu com cinco; o infectado caiu de joelhos, e com
um último gemido, ele morreu caindo no chão como água. Jill não
sabia dizer se era homem ou mulher e nem se importava.
Ela virou sua ansiosa atenção para o soldado, uma
apresentação surgindo em seus lábios até perceber que era Brad
Vickers, piloto do Alpha Team do S.T.A.R.S. Brad, cujo apelido era
Chickenheart Vickers, aquele que abandonou o Alpha Team na
mansão de Spencer ao ficar com medo, aquele que se borrou ao
descobrir que a Umbrella sabia seus nomes. Um bom piloto e
excelente hacker de computadores, mas quando empurrar virava
empurrão, Brad Vickers tornava-se um medroso.
Mas estou feliz em vê-lo, sem ressentimentos.
“Brad, o que você está fazendo aqui? Você está bem?”. Ela fez
o possível para não perguntar como sobreviveu, isso ela teria que
imaginar – excepcionalmente por estar armado com uma barata
semi-automática .32 e por ser o pior atirador do S.T.A.R.S..
Contudo, ele não parecia bem – havia espirros de sangue seco em
seu colete e seus olhos estavam fundos, largos e balançando com
pânico mau contido.
“Jill”. Eu não sabia que ainda estava viva!”. Se ele estava feliz
em vê-la, estava escondendo bem, e ainda não tinha respondido
sua pergunta”.
“É, bom, eu podia dizer o mesmo”. Ela disse, tentando não soar
muito acusativa. Ele podia saber coisas que precisava. “Quando
você chegou aqui? Você sabe o que está acontecendo fora da
cidade?”.
Era como se cada palavra compusesse seu medo. Sua postura
era tensa, enrolada e trêmula. Ele abriu a boca para responder, mas
nada saiu.
“Brad, o que foi? O que há de errado?”. Ela perguntou, mas ele
já estava recuando para a porta da frente do bar, balançando a
cabeça para os lados.
“Está vindo atrás de nós”. Ele suspirou. “Atrás do S.T.A.R.S.. Os
policiais estão mortos, eles não poderão detê-lo, do mesmo jeito que
não puderam deter isso−”. Brad apontava uma trêmula mão para a
criatura no chão. “Você verá”.
Ele estava no ápice da histeria, seu cabelo castanho liso de
suor, seus dentes apertados. Jill foi na direção dele, incerta do que
fazer. Seu medo era contagioso.
“O que está vindo, Brad?”.
“Você verá!”.
Com isso, Brad virou e abriu a porta, pânico passando por ele
enquanto saia na rua e corria sem olhar para trás.
Jill deu um passo na direção da porta e parou, pensando de
repente que podia haver coisas piores do que ficar sozinha. Tentar
cuidar de alguém enquanto tenta fugir – principalmente um homem
desesperado com histórico de convardice, assustado demais para
ser razoável – era uma má idéia.
Ela sentiu um arrepio ao pensar no que ele disse, o que
exatamente estava vindo atrás do S.T.A.R.S.?
Ele acha que eu descobrirei.
Desordenada, Jill o desejou sorte e virou para o polido balcão,
esperando que a antiga Remington ainda estivesse sobre o balcão –
e imaginando o que diabos Chickenheart Vickers estava fazendo em
Raccoon, e o que exatamente o tinha assustado tanto.
Mitch Hirami estava morto. Sean Olson também, Deets,
Bjorklund, Waller, Tommy e os dois caras novos os quais Carlos não
recordava os nomes, exceto que um vivia estalando os dedos e o
outro tinha sardas – Pare, esqueça isso! Não importa agora, tudo o
que importa é sairmos daqui.
Os gemidos estavam longe o bastante para Carlos achar que
poderiam descansar um minuto, depois de ter corrido por uma
eternidade. A força de Randy parecia diminuir a cada passo, e
Carlos precisava desesperadamente recuperar o fôlego, só para
pensar – sobre como morreram, sobre a mulher que mordeu a
garganta de Olson e o sangue que corria de sua bochecha, sobre o
modo como Waller começou a rir, alto e insano logo depois de largar
a arma e deixar-se ser pego, sobre o som de alguém gritando
orações para o céu – Pare com isso!
Eles se encostaram na parede de trás de uma loja de
conveniências, uma área de reciclagem fechada com cerca e
apenas uma entrada, e uma clara visão da rua. Não havia sons
exceto o de pássaros ao longe, passando sobre eles na fria brisa do
fim da tarde que cheirava levemente à podridão. Randy escorregou
até se sentar, tirando sua bota direita para ver o ferimento. Seu
tornozelo estava brilhando de sangue, tal como o colar de sua
camiseta.
Ele e Randy foram os únicos que conseguiram, e foi por pouco;
já estava parecendo um pesadelo.
Os outros já tinham sido derrubados, e havia pelo menos seis
canibais vindo para eles. Carlos atirou de novo, o cheiro de pólvora
e sangue misturando com a podridão para fazê-lo enjoado com uma
aterrorizante adrenalina, tão desorientado que não viu Randy cair.
Só percebeu quando o crânio de Randy bateu no chão, alto mesmo
sobre os gemidos dos mortos.
Randy foi mordido por um rastejante através do couro da bota;
Carlos o acertou com a coronha da M16 quebrando seu pescoço,
sua mente gritando inutilmente que a coisa estava comendo o
calcanhar de Randy, e levantou o quase inconsciente soldado com
uma força que não sabia ter. E eles correram, Carlos arrastando o
companheiro ferido para fora da carnificina, seus pensamentos
incoerentes, tão assustadores para ele quanto para o resto. Por
alguns minutos, ele esteve loco, incapaz de entender o que havia
acontecido e o que ainda estava acontecendo – “Ah, Jesus,
caramba...”.
Carlos olhou para baixo com a voz de Randy, percebendo que
suas palavras estavam um pouco ininteligíveis, e viu os buracos
rasgados da profunda mordida quatro dedos acima do tornozelo.
Sangrava constantemente, o interior da bota ensopada.
“Me mordeu, aquela coisa me mordeu. Mas estava morta,
Carlos. Todos estavam... não estavam?”. Randy olhou para cima,
seus olhos atordoados de dor e algo mais, algo que nenhum dos
dois deveria ter – confusão, o suficiente para Randy não conseguir
se concentrar.
Estado de choque, talvez. Seja o que for, Randy precisava de
um hospital. Carlos agachou ao seu lado, seu coração enjoado
assim que rasgou um pedaço da camiseta de Randy e a dobrou para
pressionar o ferimento.
Estamos feridos, não há policiais lá fora, nem paramédicos, esta
cidade está morrendo se já não morreu. Se quisermos ajuda,
teremos que encontrar sozinhos, e ele não têm condições de lutar.
“Isso pode doer um pouco, mano, mas temos que impedir sua
bota de ficar toda molhada”. Carlos disse, tentando parecer relaxado
enquanto pressionava o tecido contra o calcanhar sangrando. Não
havia motivo para assustá-lo, principalmente se estiver tão cansado
quanto Carlos imaginava. “Aperte firme, tá bom?”.
Randy apertou os dentes, um violento tremor correndo por ele,
mas fez como Carlos pediu, segurando o curativo improvisado no
lugar. Quando Randy inclinou para frente, Carlos estudou a parte de
trás de sua cabeça, tremendo por dentro ao ver o arranhão
desfigurado e sangrento debaixo de seu negro cabelo crespo. Pelo
menos não parecia sangrar mais.
“Nós temos que sair daqui, Carlos”. Randy disse. “Vamos para
casa, tá? Eu quero ir pra casa”.
“Logo”. Carlos disse suavemente, “Vamos só sentar aqui mais
um minuto e depois vamos”.
Ele pensou em todos os carros quebrados que viu, as pilhas de
móveis, cadeira e tijolos nas ruas, barricadas feitas às pressas.
Considerando que podiam achar um carro com as chaves dentro,
seria impossível passar pelas ruas. Carlos não tinha licença para
dirigir, mas já pilotou um helicóptero algumas vezes – bom, se
passarem perto de um aeroporto.
Nunca conseguiremos a pé. Mesmo se Randy não estivesse
ferido, a U.B.C.S. inteira foi derrotada, ou quase.
Deve haver centenas, talvez milhares daquelas coisas por ai.
Se puderem achar outros sobreviventes, podiam se juntar...
mas procurar alguém nesse pesadelo já seria um pesadelo. O
restaurante de Trent passou pela cabeça, mas o ignorou; pro inferno
com aquela coisa maluca, eles tinham que sair da cidade, e
precisariam de ajuda para isso. Os líderes de esquadrão eram os
únicos que tinham rádio e conheciam o plano de retirada, e não
havia chances de Carlos voltar lá – mas eu não preciso, certo?
Ele fechou os olhos por um minuto, percebendo que não
percebeu o óbvio; talvez estivesse mais assustado do que pensava.
Havia mais de um rádio no mundo; só tinha que encontrar um. Fazer
contato com os helicópteros – ou melhor, para qualquer um ouvindo
– e esperar alguém aparecer.
“Eu não me sinto muito bem”. Randy disse, tão baixo que
Carlos mau ouviu, a pronúncia um pouco melhor do que antes.
“Coça, está coçando”.
Carlos esfregou seu ombro levemente, o calor da febril pele de
Randy emanando por debaixo da camiseta.
“Você ficará bem, irmão, agüente firme, eu vou tirar a gente
daqui”.
Ele soou confiante. Carlos só queria ter convencido a si mesmo.
Capítulo 6
Ted Martin, um magro homem perto dos quarenta anos foi
baleado várias vezes na cabeça. Nicholai não sabia se havia sido
assassinado ou se foi morto depois de contrair o vírus, e não se
importava; o que importava era que Martin, cujo cargo oficial era
Relações Públicas e Pessoais do Chefe da Polícia, economizou o
tempo que Nicholai teria levado para caçá-lo.
“Muita generosidade de sua parte”. Nicholai disse, sorrindo para
o Watchdog morto. Ele também teve a cortesia de morrer onde
deveria estar, na sala detetive da asa leste do Departamento Policial
de Raccoon.
Um excelente início para minha aventura; se todos forem assim
tão fáceis, será uma noite bem curta.
Nicholai passou por cima do corpo e agachou em frente ao
cofre no canto da sala, rapidamente aplicando a simples
combinação de quatro dígitos fornecida por seu contato na
Umbrella: 2236. A porta de aço abriu, revelando alguns papéis – um
deles parecia ser o mapa da delegacia – uma caixa de balas de
espingarda, e o que seria o melhor amigo de Nicholai até sair de
Raccoon: um dos melhores do mercado. Sorrindo, ele ergueu o
laptop e o levou para a mesa, a porta do cofre fechando sozinha
atrás dele.
Sua viagem para a delegacia foi razoavelmente tranqüila exceto
pelos sete mortos-vivos que matou à queima-roupa para evitar
barulho; eles foram vergonhosamente fáceis de matar, isso quando
se presta atenção à sua volta. Ele ainda não se deparou com
nenhum dos bichinhos da Umbrella, o único desafio que esperava
encontrar; havia um apelidado de “brain sucker” (sugador de
cérebro) o qual esperava muito encontrar, um rastejante de
múltiplas pernas e garras assassinas...
Uma coisa por vez; por enquanto você precisa de informações.
Ele já tinha decorado os nomes e rostos das vítimas e tinha uma
idéia geral de quando cada um deveria fazer o contato, não
necessariamente quando; todos os Watchdogs tinham horários
diferentes, sujeitos a mudanças, mas na maioria são precisos.
Martin deveria reportar à Umbrella do terminal de computador
no balcão da recepção do R.P.D. às 17:50h, daqui a vinte minutos;
seu último relatório deve ter sido logo após meio dia.
“Vamos ver se você teve sucesso, Oficial Martin”. Nicholai
disse, rapidamente digitando os códigos que tinha adquirido para
acessar a atualização dos relatórios de progresso da Umbrella.
“Martin, Martin... ah, aí está você!”.
O policial não tinha feito seus dois últimos contatos, sugerindo
que estava morto ou incapacitado há pelo menos nove horas.
Nenhuma informação para coletar ali. Nicholai leu cuidadosamente
os números dos outros Watchdogs, feliz com o que viu. Dos oito
restantes, três falharam em relatar – um dos cientistas, um
funcionário da Umbrella e uma mulher que trabalhava para o
saneamento da cidade. Considerando que estivessem mortos – e
Nicholai rezava para isso – só restavam cinco.
Dois soldados, dois cientistas e um outro da Umbrella...
Nicholai franziu, olhando para os locais de contato de cada um.
Uma cientista, Janice Thomlinson, estaria no complexo de
laboratórios subterrâneo, o outro no hospital perto do parque; o
funcionário da Umbrella reportaria de uma estação de tratamento de
água abandonada nos limites da cidade, uma fachada para um
campo de teste químico da Umbrella. Nicholai não via problemas em
achar nenhum deles... mas ambos os soldados Watchdogs foram
tirados do mapa.
“Onde vocês estarão...”. Nicholai disse, teclando ausentemente,
sua frustração crescendo. Ao verificar pela última vez na noite
passada, ambos reportariam de St. Michael Clock Tower...
Droga.
Estavam lá ontem, seus nomes listados perto do seu; ambos
foram marcados como móveis, tal como ele. Eles reportariam pelo
laptop de onde fosse mais conveniente, e só precisariam fazê-lo
uma vez por dia – o que significava que poderiam estar em qualquer
lugar de Raccoon City, qualquer lugar mesmo.
Uma fervente névoa vermelha o envolveu, rasgando-o. Sem
pensar, Nicholai cruzou a sala e chutou o corpo de Martin o mais
forte que conseguiu, duas vezes, ventilando sua raiva, sentindo uma
profunda satisfação com os molhados sons, o balançar do corpo e o
quebrar de costelas – e terminou, voltando a ser quem era, ainda
frustrado, mas controlado. Ele exalou forte e voltou para trás da
mesa, pronto para revisar seus planos. Apenas demoraria mais para
achá-los, e só; não era o fim do mundo. E talvez falhassem em
reportar, morrendo convenientemente como Martin e os outros três.
Ele podia esperar, mas não contar com isso. Só podia contar
com sua própria perseverança e habilidade. A Umbrella não enviaria
resgate por pelo menos uma semana – ou pelo tempo máximo que
conseguirem esconder o desastre – ou se forem chamados pelos
Watchdogs com resultados completos, no máximo. Com seis dias
para encontrar só cinco pessoas, Nicholai estava certo de que seria
o único a ser resgatado.
“Eu nem precisarei de seis”. Nicholai disse, acenando
firmemente para o esparramado e amontoado cadáver de Martin.
“Três dias, tenho certeza que consigo em três”.
Com isso, Nicholai se inclinou para frente e começou a baixar os
mapas que precisaria, novamente feliz.
Jill não conseguiu achar munição para a calibre 12, mas a levou
assim mesmo, ciente de que sua munição não duraria para sempre;
daria um belo taco, e talvez possa achar balas mais tarde. Ela
estava decidida a escalar uma das barricadas quando viu algo que a
fez mudar de idéia, algo que jamais esperava ver de novo.
Um Hunter. Como os da mansão, nos túneis.
Ela parou quieta na escada de incêndio externa de uma botique
ainda na área residencial, vendo-o na rua logo depois de uma van
que bloqueava a saída da escada. Ele não a viu; ela o observou
andar a passos largos até sair de visão, era um pouco diferente dos
que viu antes, mas bem parecido – a mesma estranha, graciosa e
maligna postura, as pesadas e curvas garras, a cor verde-escura.
Ela prendeu a respiração, seu estômago dando nós, lembrando...
... curvado tal que seus impossíveis e longos braços quase
tocavam o chão de pedra do túnel, ambos os pés e mãos dotados de
grossas e brutais garras. Pequenos e claros olhos estudando-a de
seu achatado crânio réptil, seu tremendo grito agudo ecoando pelo
subterrâneo escuro antes de saltar...
Ela o matou naquela ocasião, mas a tinha custado quinze balas
de 9mm, um pente inteiro. Mais tarde, Barry disse que eram
chamados de Hunters (caçadores), uma das armas biológicas da
Umbrella. Havia outros monstros na mansão – cães ferozes sem
pele; um tipo de planta carnívora gigante que Chris e Rebecca
mataram; aranhas do tamanho de um boi; e as escuras coisas
mutantes com ganchos afiados no lugar de mãos, aqueles que se
penduravam no teto na casa de força do laboratório, parecidos com
macacos.
E o Tyrant, o pior porque você vê que já foi humano; antes das
cirurgias, antes da alteração genética e do T-virus.
Sendo assim, não era apenas o T-virus solto em Raccoon.
Ruim quanto isso possa parecer, não era exatamente chocante; a
Umbrella tem brincado com coisas muito perigosas, causando
carnificina, como um Deus aberrante despreparado para as
conseqüências; às vezes, pesadelos não vão embora.
A não ser – a não ser que fizeram isso de propósito.
Não. Se pretendessem destruir Raccoon City, teriam evacuado
seu próprio pessoal antes... não teriam?
Era uma pergunta que a perseguia a caminho da delegacia. Ver
o Hunter a convenceu sobre o que fazer depois; ela simplesmente
precisava ter mais munição, e sabia que haveria alguma na sala dos
S.T.A.R.S., no armário de armas – 9mm, talvez cartuchos de
espingarda, ou até mesmo um dos melhores revólveres de Barry.
Ao menos a delegacia não estava tão longe. Ela grudou nas
crescentes sombras, desviando facilmente dos zumbis que
encontrou; muitos deles estavam decompostos demais para
moverem-se mais rápido que uma lenta caminhada. Um dos portões
que teve de cruzar estava fortemente amarrado, os nós ensopados
de óleo. Ela se deu um chute mental por ter esquecido de trazer
uma faca; sorte ter pego um isqueiro no Bar Jack apesar da
preocupação em chamar atenção com a fumaça – até passar pelo
portão e ver a pilha de destroços queimando mais adiante, bem
perto do escritório de vendas da Umbrella. Dano causado pelos
vândalos, talvez. Ela pensou em parar e apagar as chamas, mas
não parecia haver perigo de se espalharem pelo chão de cimento e
parede de tijolos do beco.
Então, aqui estava ela, de pé na frente dos portões do jardim do
R.P.D.. O vandalismo foi terrível por ali. Carros sucateados,
barricadas destruídas, cones de emergência laranja espalhados pela
rua, mas não havia corpos no meio da bagunça. À sua direita havia
um hidrante de rua que jorrava água para o céu. O gentil respingar
de água teria sido agradável em outra circunstância – num quente
dia de verão, crianças rindo e brincando. Saber que nenhum
bombeiro ou funcionário viria consertar o hidrante a machucou por
dentro, e pensar nas crianças... era demais; ela bloqueou o
pensamento, determinada a não pensar em coisas que não podia
resolver. Ela já tinha muitas preocupações.
Tais como estocar suprimentos... então o que você está
esperando? Um convite por escrito?
Jill respirou fundo e empurrou os portões, franzindo com o
ranger de metal enferrujado; ela abaixou sua arma, aliviada, e
cuidadosamente fechou os portões antes de ir para as pesadas
portas de madeira do R.P.D.. Muitos policiais morreram nas ruas, o
que tornaria as coisas mais fáceis para ela, por mais terrível que
parecia; não haveriam muitos contaminados para encontrar ao
entrar – Sqreeak!
Atrás dela, os portões abriram. Jill girou, quase atirando na
figura que entrou no pátio, até perceber quem era.
“Brad!”.
Ele cambaleou na direção da voz dela, e viu que estava
seriamente ferido. Ele apertava seu lado direito, sangue pingando de
seus dedos, um olhar de completo terror em seu rosto enquanto a
alcançava com a outra mão, sem fôlego.
“Juh – Jill!”.
Ela foi até ele tão concentrada que quando Brad desapareceu
de repente, Jill não entendeu o que tinha acontecido. Uma parede
preta tinha descido entre eles, uma escuridão que emitia um
profundo e estrondoso grito de fúria, que avançava sobre Brad e
estremecia o chão a cada passo.
“Sstaarrss” . A coisa disse claramente, a palavra quase
escondida sobre o ondulante roncar de um animal selvagem, e Jill
sabia o que era mesmo antes de ver seu rosto; ela o conhecia como
conhecia seus sonhos.
Tyrant.
Brad recuou, balançando a cabeça como se negasse a
aproximação da criatura, andando em meio círculo e parando
quando suas costas tocaram tijolos. Na fração de segundo que
levou para alcançá-lo, Jill pôde vê-lo de perfil; o tempo pareceu
parar naquele instante, permitindo-a vê-lo de verdade, para ver que
não era o seu pesadelo, Tyrant, porém não menos terrível; de fato,
era pior.
Entre dois e dois metros e meio de altura, humanóide, seu
ombros impossivelmente largos, braços mais longos do que
deveriam ter sido. Somente suas mãos e cabeça eram visíveis, o
resto de seu corpo era coberto de preto, exceto pelo que pareciam
ser tentáculos, cordas de carne pulsando levemente, metade
debaixo do colarinho, os pontos de origem escondidos. Sua pele
sem pêlos era da cor e textura de uma pele mau cicatrizada, e a
face não parecia ter sido prioridade de seu criador. Olhos brancos e
deformados estavam situados abaixo do normal e separados por um
irregular traçado de costura cirúrgica. Seu nariz era mau formado,
porém a característica dominante era a boca, ou a falta dela; a
metade inferior de sua cabeça era de dentes, gigantes e quadrados,
sem lábios entre gengivas vermelho-escuras.
O tempo voltou ao normal quando a criatura esticou o braço e
cobriu o rosto inteiro de Brad com a mão, ainda rosnando enquanto
Brad tentava dizer algo, ofegando alto sob a mão – e houve um
horrível e molhado som de respingo, pesado, porém liso, como
alguém socando um pedaço de carne. Jill viu um tentáculo de carne
saindo por trás do pescoço de Brad e entendeu que estava morto,
que sangraria em segundos. Boba, ela viu que o tentáculo estava
mexendo, balançando como uma cobra cega, gotas de sangue
pingando de seu comprimento. O Tyrant apertou a mão contra o
crânio de Brad e com um único movimento, levantou o piloto morto e
o jogou para o lado, retraindo o tentáculo assassino para dentro da
manga antes de Brad cair no chão.
“Sstaarrss” . Ele disse de novo, virando para ela, Jill sentindo
um medo que jamais sentiu.
A Beretta seria inútil. Ela virou e correu, cruzando as portas do
R.P.D., fechando-as e trancando-as por dentro, tudo por instinto; ela
estava assustada demais para pensar no que estava fazendo,
assustada demais para não fazer nada além de se afastar da porta
dupla assim que o monstro as golpeou, balançando-as nas
dobradiças.
Elas resistiram. Jill estava parada, ouvindo o pulsar de sangue
em seus ouvidos, esperando o próximo empurrão. Longos segundos
se passaram e nada aconteceu – e completos minutos passaram
antes de ousar desviar o olhar, e mesmo sabendo que estava
acabado ela não ficou aliviada.
Brad estava certo, estava indo atrás deles – e agora que estava
morto, estaria indo atrás ela.
Capítulo 7
Deus me ajude, eu finalmente vi com meus próprios olhos;
Deus ajude todos nós.
Eles mentiram para nós. Dr. Robison e o pessoal da Umbrella
deram uma coletiva no hospital essa manhã e insistiram que não
havia motivo para pânico – que os casos atendidos eram fatos
isolados, que as vítimas estavam sofrendo de gripe; de acordo com
eles, a então chamada doença canibal que os S.T.A.R.S. estavam
investigando em Julho, é o que alguns cidadãos “paranóicos”
estavam comentando agora. O Chefe Irons também esteve aqui, ele
apoiou os doutores e reiterou seus pontos de vista sobre a
incompetência do S.T.A.R.S.; caso encerrado, certo? Nada para se
preocupar.
Nós estávamos voltando para o escritório depois da entrevista
coletiva, indo à sul na Rua Cole, e havia uma agitação no trânsito,
alguns carros parados e uma pequena multidão. Nenhum policial na
cena. Eu pensei que fosse um pequeno acidente e comecei a
desviar, mas Dave queria bater algumas fotos; ele ainda tinha dois
rolos de filme sobrando, porque não? Nós saímos do carro e de
repente pessoas estavam correndo, gritando por ajuda, e vimos três
pedestres deitados no meio da rua, e sangue por toda parte. O
agressor era jovem, quase vinte anos, homem branco – ele estava
sentado de pernas abertas ao lado de um homem mais velho, e...
Minhas mãos estão tremendo, eu não sei como dizer isso, mas
é meu trabalho. As pessoas têm que saber. Eu não posso deixar
isso me abalar.
Ele estava comendo um dos olhos do homem mais velho. As
outras duas vítimas estavam mortas, massacradas, uma mulher
mais velha e uma mais nova, ambas com gargantas e olhos
ensangüentados. O abdômen da mais nova tinha sido estripado.
Era o caos, histeria total – choradeira, gritaria e até gargalhadas
insanas. Dave bateu duas fotos e depois vomitou em si mesmo. Eu
queria fazer algo, eu queria, mas as pessoas estavam mortas e eu
estava com medo.
O agressor parou de mastigar, enterrando seus dedos no outro
olho do homem, sem se importar com mais nada; ele ainda gemia
como se estivesse insatisfeito, sangue por todo o corpo.
Nós ouvimos sirenes e recuamos como todos fizeram. A maioria
foi embora, mas alguns ficaram, pálidos, enjoados e assustados. Eu
ouvi a história através de um lojista gorducho que não parava de
espremer as mãos – o jovem aparentemente apenas vagava pela
rua e agarrou uma mulher, e começou a mordê-la. O lojista disse
que o nome da mulher era Joelle alguma coisa, andava com a mãe,
Sra. Murray (ele não sabia o primeiro nome). A Sra. Murray tentou
impedir o ataque e o rapaz avançou nela. Dois homens tentaram
ajudar, empurrando o agressor, mas um deles também foi pego.
Depois disso, ninguém tentou mais ajudar.
Os policiais chegaram e antes de olharem para a bagunça na
rua – ou para aberração atacando o companheiro do lojista no chão
– limparam o local e o tornou seguro. Três viaturas cercaram o
agressor, e o lojista não pôde ver o que aconteceu. Mandaram ele
fechar a loja e ir para casa, o mesmo que disseram para todos nós.
Quando disse para um dos policiais que eu e Dave éramos da
imprensa, ele confiscou a câmera; disse que era evidência, o que
era uma total e completa besteira, como se tivessem o direito...
Ouçam-me, preocupado com a liberdade jornalística neste
ponto. Não importa. Às quatro horas desta tarde, uma hora atrás, o
Prefeito Harris declarou lei marcial; bloqueios foram colocados por
toda parte e fomos isolados do resto do mundo. Segundo Harris, a
cidade entrou em quarentena para que a “infeliz doença que está
flagelando nossas pessoas” não se espalhasse. Ele não a chamaria
de doença canibal, mas não há dúvidas – e de acordo com nossa
freqüência policial, os ataques estão crescendo exponencialmente.
Eu acredito que já deva ser tarde demais para todos nós. A
doença não é aerotransmissível ou a já teríamos pego, mas os
indícios sugerem que você a contrai ao ser mordido por um deles,
igual nos filmes que eu costumava assistir na seção dupla de terror
quando pequeno. Isso explicaria o incrível crescimento dos ataques
– e também diz que se a cavalaria não vier logo, estaremos todos
mortos, de um jeito ou de outro. A polícia fechou a imprensa, mas eu
tentarei espalhar o que sei nem que precise ir de porta em porta.
Dave, Tom, Kathy, Sr. Bradson – todos foram para casa ficar com a
família. Eles não se importam mais em informar as pessoas, e é
tudo o que restou para mim. Eu não quero...
Era tudo. Carlos abaixou os papéis amassados que tinha
achado, colocando-os na mesa do repórter, sua boca uma linha
apertada. Ele tinha matado dois zumbis no corredor... talvez um
deles fosse o escritor, um doloroso pensamento que fez tudo pior
devido ao apelo emocional – quanto tempo demorou para o repórter
mudar?
E se ele estiver certo sobre a doença, quanto tempo Randy
ainda tinha?
Havia um rádio policial e algum tipo de receptor manual em
cima de um balcão do outro lado da sala, mas de repente só
conseguia pensar em Randy, lá embaixo e piorando, esperando
Carlos voltar. Ele agüentou bem até aqui, conseguindo subir em
duas barricadas com pouca ajuda, mas mau conseguindo ficar de
pé sozinho ao chegarem no prédio da imprensa de Raccoon. Carlos
o tinha deixado no andar térreo debaixo de um telefone público
mudo, não querendo arrastá-lo para cima; alguns focos de incêndio
pequenos estavam perto dos primeiros degraus, e Carlos ficou com
medo de Randy se queimar...
... o que deveria ser a menor de suas preocupações agora.
Puta, que confusão. Por que não nos disseram o que estava
acontecendo?
Carlos apagou o desespero que a pergunta tinha causado; era
algo que resolveria com as autoridades apropriadas quando saírem
de lá. Ele provavelmente seria deportado, já que só estava no país
através da Umbrella, mas e daí? No momento, voltar à antiga vida
soava como piquenique.
Ele correu para o equipamento de radio e o ligou, incerto do que
fazer em seguida; ele nunca tinha usado um, e sua única
experiência com rádio de dois pontos foi com um par de walkie-
talkies que usava para brincar quando criança. 200 CHANELL
MULTI-BAND estava escrito em cima do aparelho, e havia um botão
para varredura. Ele o apertou e observou o pequeno visor digital
mostrar números sem sentido. Exceto por estática e alguns cliques,
nada aconteceu.
Ótimo. Ajudou muito.
O rádio era o que queria, e pelo menos parecia um walkie-talkie
apesar de dizer AM/SSB TRANSCEIVER na lateral. Ele o levantou,
imaginando se haviam canais, ou se havia algum botão de memória
– e ouviu passos no corredor. Um lento arrastar de pés.
Ele largou o rádio no balcão e empunhou seu rifle, virando para
a porta, já reconhecendo os passos arrastados e sem destino de um
zumbi. Aquela era a única sala aberta do segundo andar; a não ser
que quisesse pular uma janela, o corredor e as escadas eram a
única saída. Ele teria que matá-lo para voltar...
Essa não, ele deve ter passado por Randy, e se ele foi pego? E
se – E se o zumbi for Randy?
“Não, por favor”. Ele suspirou, mas uma vez considerada a
possibilidade, não pode deixar de pensar nisso. Ele andou para a
porta, sentindo suor correr pelas costas de seu pescoço. Os passos
continuaram, aproximando-se – e foi um pé mancando que ele
ouviu?
Por favor, não, eu não quero matá-lo!
Os passos pararam do lado de fora da porta – e então Randy
Thomas apareceu, cambaleando, suas feições nulas e livres de dor,
fiapos de baba pendurados em seu lábio inferior.
“Randy? Pare aí, mano, tá bom?”. Carlos ouviu a própria voz
sair com um desolado medo. “Diga algo, tá bom Randy?”.
Um tipo de enjoada compreensão encheu Carlos quando Randy
inclinou a cabeça para frente e continuou avançando, levantando os
braços. Um breve e borbulhante gemido emergiu de sua garganta, e
foi o som mais solitário que Carlos já pensou ter ouvido. Randy não
o via de verdade, não entendia o que dizia; Carlos se tornou comida
e nada mais.
“Lo siento mucho” . Carlos disse, e repetiu em inglês como se
ainda restasse algo de Randy. “Eu sinto muito.
Agora durma, Randy”.
Carlos mirou cuidadosamente e atirou, desviando o olhar assim
que viu o grupo de buracos aparecerem bem acima da sobrancelha
direita de Randy, apenas ouvindo, sem ver o corpo de seu
camarada caindo no chão. Por um longo tempo ele simplesmente
ficou quieto, de ombros caídos enquanto olhava para as próprias
botas, imaginando como tinha ficado tão cansado tão rápido... e
dizendo a si mesmo que não havia nada que poderia ter feito.
Finalmente, ele voltou para o rádio, apertando o interruptor e
acionando o receptor manual com o polegar. “Aqui é Carlos Oliveira,
membro da equipe U.B.C.S. da Umbrella, esquadrão Alpha, Pelotão
Delta. Estou no prédio da imprensa de Raccoon. Alguém pode me
ouvir? Nós fomos separados do resto do pelotão e agora nós – eu
preciso de ajuda. Requisito assistência imediata. Se você puder
ouvir isso, por favor, responda”.
Nada além de estática; talvez precisasse tentar canais
específicos; ele podia passar de um em um e repetir a mensagem.
Ele desligou o rádio, olhando para todos os botões, e viu, estampado
no endosso, ALCANCE DE 8 QUILÔMETROS.
O que significa que eu posso contatar qualquer pessoa na
cidade, muito útil – exceto que ninguém irá responder porque estão
mortos. Como Randy. Como eu.
Carlos fechou os olhos, tentando pensar, tentando sentir
qualquer coisa parecida com esperança. E lembrou de Trent. Ele
checou o relógio, percebendo a loucura que isso era, pensando que
era a única coisa que ainda fazia sentido; Trent sabia, ele sabia o
que estava acontecendo e disse a Carlos para ir quando a casa
caísse. Sem Randy para se preocupar e sem um caminho para fora
da cidade...
Grill 13, Carlos tinha um pouco mais de uma hora para achá-lo.
Jill tinha acabado de chegar na sala do S.T.A.R.S. quando o
controle de comunicações no fundo da sala ganhou vida. Ela bateu a
porta e correu para ele, palavras jogadas no meio da estática.
“... é Carlos... Raccoon... fomos separados... pelotão... ajuda...
assistência... se você puder ouvir... responda...”.
Jill pegou o fone de ouvido e apertou o botão para transmitir.
“Aqui é Jill Valentine, Esquadrão de Táticas Especiais e Resgate!
Não estou te escutando claramente, por favor, repita – qual é sua
posição? Você me ouve? Câmbio!?".
Ela franziu para ouvir algo, qualquer coisa – e viu que a luz
sobre o botão de retransmitir não estava acesa. Ela apertou vários
botões e insistiu em retransmitir, mas a luz verde-clara se recusou a
acender.
“Droga!”. Ela não sabia nada sobre comunicações. Seja lá o que
estivesse quebrado, ela não seria a pessoa para concertar.
Bom, pelo menos eu não sou a única sem um remo no Riacho
da Porcaria...
Suspirando, Jill soltou o fone de ouvido e virou para olhar o
resto da sala. Exceto pelos papéis espalhados no chão, parecia a
mesma sala de sempre. Algumas mesas cheias de arquivos,
computadores, itens pessoais, prateleiras sobrecarregadas, uma
máquina de fax – e atrás da porta, o alto e reforçado cofre de aço de
armas que esperava não estar vazio.
Aquela coisa lá fora não morreria tão fácil. Aquele matador de
S.T.A.R.S..
Ela tremeu, sentindo o nó de medo em sua barriga apertar e
ficar mais pesado. O porquê de ele não ter derrubado a porta e a
matado, ela não sabia; ele era forte o bastante. Só de ter pensado
nisso a fez querer engatinhar para algum lugar escuro e se
esconder. Ele tornou os zumbis que ela encontrou pelo caminho tão
perigosos quanto bebês. Não é verdade, claro, mas depois de ver o
que aquele Tyrant fez com Brad...
Jill engoliu forte e tirou isso da mente. Esconder-se dele não iria
ajudar.
Era hora de voltar aos negócios. Ela parou em sua mesa,
pensando na última vez que se sentou lá. Ela era uma pessoa
totalmente diferente; parecia ter passado uma vida inteira desde
então. Ela abriu a gaveta de cima e começou a revira-la – e lá, atrás
de uma caixa de clips de papel, estava o conjunto de ferramentas
que sempre manteve no escritório.
Isso! Ela pegou o pequeno embrulho de tecido e o desenrolou,
olhando para as pinças e barras de torção com um olho treinado. Às
vezes, ter crescido como filha de um ladrão profissional valia a pena.
Ela teve que atirar em algumas portas nos últimos dias, o que não
era tão fácil ou seguro como as pessoas achavam; ter um conjunto
de pinças decente seria de grande ajuda.
Além disso, eu não tenho a chave do cofre de armas – mas isso
nunca me impediu antes. Ela praticava quando ninguém estava por
perto só para ver se conseguia, e sempre teve poucos problemas; o
cofre era antigo.
Jill ajoelhou-se em frente à porta, inseriu a barra e a pinça, e
gentilmente sentiu as engrenagens. Em menos de um minuto, ela foi
recompensada pelo esforço; a pesada porta abriu e lá, bem a vista,
estava a resposta de aço inox para uma de suas preces.
“Seja abençoado, Barry Burton”. Ela suspirou, erguendo o
pesado revólver da prateleira vazia. Uma Colt Python .357 Magnum,
seis tiros com tambor móvel para fora. Barry era o especialista em
armas do Alpha Team e diga-se de passagem, totalmente maluco
por armas. Ele já tinha levado Jill para atirar várias vezes, ele tinha
três, todas de calibres diferentes – mas a .357 era o xodó. Tê-la
deixado para trás, por engano ou de propósito, parecia um milagre...
tanto como as vinte balas extras numa caixa no chão o cofre. Não
havia balas de espingarda, mas havia balas de 9mm soltas numa
das gavetas.
Valeu a viagem – e com as pinças eu posso descer as escadas
e procurar materiais confiscados na sala de evidências...
As coisas estavam melhorando. Tudo o que precisava fazer era
sair da cidade no escuro, evitar zumbis, animais violentos
geneticamente alterados e a criatura Tyrant que se auto proclamou a
nêmese (Nota 5) para o S.T.A.R.S. Uma Nêmese feita para ela.
Surpreendentemente, o pensamento a fez sorrir. Adicione uma
forte explosão e tempo ruim à mistura e ela teria sua própria festa.
“Whee”. Ela disse suavemente, e começou a carregar a
Magnum com suas instáveis mãos, e tem estado assim há muito
tempo.
Capítulo 8
Enquanto avançava com dificuldade pelo sistema de esgotos
sob as ruas da cidade, Nicholai se viu fascinado pelo cuidadoso
planejamento da infra-estrutura de Raccoon. Ele estudou os mapas,
claro, mas ver tudo em primeira mão era outra coisa. A Umbrella
tinha construído um parque de diversões perfeito; que infelicidade
terem arruinado tudo.
Havia várias passagens subterrâneas que conectavam as
instalações pertencentes à Umbrella umas com as outras, algumas
mais óbvias que outras. Do subsolo do prédio da delegacia, ele
entrou na rede de esgoto que o levaria ao laboratório subterrâneo de
vários andares onde a Umbrella fazia sua pesquisa mais séria.
Pesquisas também foram conduzidas no laboratório da mansão de
Spencer em Raccoon Forest, e haviam três fábricas “abandonadas”
ou galpões de teste nos limites da cidade, mas os melhores
cientistas trabalhavam na cidade e sob ela. Isso certamente tornaria
seu trabalho mais fácil; ir de uma área para outra usando os
subterrâneos seria bem menos perigoso.
Mas não por muito tempo. Em dez ou doze horas, nenhum lugar
será seguro. Os seres orgânicos que a Umbrella usava eram
mantidos sedados, cresciam em Raccoon e eram mandados à
outros lugares para teste em campo. Com a operação virtualmente
arruinada, as criaturas fugiriam e tentariam achar comida; algumas
certamente já escaparam, e a maioria apareceria sem dúvida após
terem perdido algumas injeções.
E não seria divertido? Um pouco de tiro ao alvo para saborear
durante as buscas, e com munição para se divertir.
Segurando o rifle sobre o cotovelo de seu braço direito, ele
esticou o braço e deu um tapinha nos pentes extras que pegou de
Wersbowski; ele não pensou em checá-los antes, mas uma rápida
olhada antes de descer nos esgotos o deixou satisfeito. Os soldados
da U.B.C.S. eram munidos de .233 completamente encapados,
projetados para irem diretamente ao alvo; Wersbowski tinha se
equipado com pontos ocos, balas que em contato expandiam e
achatavam para causar maior dano. Nicholai já tinha planejado
limpar o pequeno arsenal do laboratório; com sessenta balas
adicionais de HP poderia andar tranqüilamente...
... que não é o caso agora...
A fria e suja água que corria pelos escuros túneis beirava seus
joelhos e cheirava terrivelmente como urina e mofo. Ele já cruzou
com sete mortos e vivos, a maioria usando aventais da Umbrella,
apesar de haverem alguns civis também – pessoal da manutenção
ou talvez almas azaradas que se aventuraram nos esgotos para
saírem da cidade. Ele desviou da maioria, tanto para não gastar
munição quanto para não alertar alguém sobre sua posição.
Ele chegou a uma junção em forma de “T” e virou à direita
depois de procurar movimento nas duas direções.
Como na maior parte de sua viagem até agora, não havia nada
além do suave bater de água poluída em pedras cinzas e o reflexo
da luz amarelada sobre a superfície oleosa. Era um úmido e
miserável ambiente, e Nicholai não deixava de pensar nas A334, as
minhocas. Na reunião dos Watchdogs, elas foram descritas como
sanguessugas gigantes que nadavam na água em grupos, uma das
mais novas criações da Umbrella. Ele tinha medo e nojo de te que
se deparar com elas, e odiava surpresas, odiava a idéia de que uma
porção delas podia estar deslizando na água agora, bocas abrindo,
caçando o calor e a nutrição do sangue humano.
Quando viu o piso elevado no fim do túnel, sentiu vergonha o
alívio que sentiu. Ele rapidamente bloqueou o sentimento,
preparando-se para o encontro; uma conferida no relógio enquanto
saía da água disse que estava bem na hora. A Dra. Thomlinson
estaria reportando em dez minutos.
Nicholai se apressou pelo curto corredor à sua frente, irritado
com o suave barulho de suas botas molhadas enquanto alcançava a
porta. Ele ouviu por um momento e nada; deu um leve empurrão na
porta e ela abriu, revelando uma sala vazia de descanso para
funcionários – mesa, cadeiras, armários – e, presa na parede
oposta, uma escada de mão descendente. Ele entrou e fechou a
porta gentilmente.
A escada descia para o pequeno depósito de onde a Dra.
Thomlinson reportaria; um computador estaria escondido sob alguns
materiais de limpeza em uma das prateleiras. Se leu o mapa
corretamente e considerando que ela estaria vindo do laboratório,
ela subiria através da pequena plataforma de elevador no canto da
sala.
Nicholai sentou e esperou, tirando a mala do ombro e puxando
o laptop; ele queria rever os mapas depois do encontro com a boa
doutora.
Thomlinson era pontual, chegando quatro minutos antes do
horário previsto. Ao som do rangente motor, Nicholai mirou o rifle no
canto, descansando seu dedo no gatilho. Uma alta e despenteada
mulher ergueu-se em visão, um distraído olhar em seu rosto
manchado. Ela vestia um sujo avental de laboratório e carregava
uma arma que mantinha apontada para o chão; obviamente
esperava que seu ponto de contato fosse seguro.
Nicholai não deu chance para ela reagir à sua presença.
“Largue a arma e saia da plataforma. Agora”.
Ela era fria, ele tinha que admitir. Exceto pelo leve arregalar de
olhos, não houve um sinal de alarme visível em suas feições. Ela fez
o que ele pediu, o cair da semi-automática alto enquanto dava
alguns passos na quieta sala.
“Algo novo para relatar, Janice?”.
Ela o estudou, seu olhar castanho-claro o vasculhando
enquanto cruzava os braços. “Você é um dos Watchdogs”. Ela disse.
E não era uma pergunta.
Nicholai acenou. “Esvazie seus bolsos na mesa, doutora.
Devagar”.
Thomlinson sorriu. “E se eu não fizer?”. Sua voz foi grossa,
profunda e sedutora. “Você vai... tirar de mim?”.
Nicholai pensou por alguns segundos sobre o que ela estava
sugerindo e apertou o gatilho, apagando seu amável sorriso com um
súbito cuspir de fogo. Realmente, ele não tinha tempo para aquele
jogo particular, ele devia ter atirado à primeira vista e não ter ficado
tentado. Além disso, seus pés estavam gelados e molhados, coisa
que detestava; nada como botas molhadas para tornar um homem
miserável.
Mesmo assim, era uma pena; ela era seu tipo, alta e cheia de
curvas, sem dúvida inteligente. Ele andou até seu esparramado
corpo e pescou um disquete de seu bolso do peito, sem olhar para a
confusão sangrenta que seu rosto tinha virado, lembrando a si
mesmo de que isso era trabalho.
Só restavam quatro. Nicholai colocou o disquete num saco
plástico e o vedou, colocando na mala. Haveria tempo para ver seu
conteúdo mais tarde, depois que coletasse tudo.
Ele virou para o computador portátil e abriu os mapas do
sistema de esgoto, franzindo enquanto traçava seu próximo destino.
Pelo menos outros seiscentos metros de caminhada pelo escuro
antes de subir. Ele olhou para a Dra. Thomlinson de novo e
suspirou; talvez tenha cometido um erro. Uma rápida luta o teria
aquecido... apesar de não gostar de ter que matar uma mulher
depois de ter se divertido com ela, de qualquer tipo; da última vez,
ele experimentou sentimentos de puro arrependimento.
Não importa. Ela estava morta, ele tinha as informações e era
hora de continuar. Quatro restando, e poderia esquecer do trabalho
pelo resto de sua vida extremamente rica, investindo nos prazeres
que os pobres só podiam sonhar.
Carlos sabia que estava perto. Da área perto do prédio da
imprensa, onde toda a sinalização começava com norte, ele acabou
perdido numa série de becos à leste – o que deveria ser o centro
comercial que Trent mencionou.
Ele disse centro comercial, nordeste... mas onde está o teatro?
E ele disse algo sobre uma fonte não foi?
Carlos parou na frente de uma barbearia no cruzamento de dois
becos, já incerto para onde ir. Não havia placas e a luz do dia já
tinha dado seu último suspiro; estava completamente escuro e só
tinha dez minutos antes das 19 horas, graças a um erro que o fez
voltar para a área industrial da cidade – nada que pudesse ser
considerada como tal, como Trent havia colocado. Dez minutos... e
depois? Quando encontrar o desconhecido Grill 13, o que deveria
acontecer? Trent disse algo sobre ajudar... será que Trent ainda
poderia fazer algo caso chegasse atrasado?
Seguir à esquerda o faria voltar para a imprensa, ele pensou –
ou seria para trás? Bem à frente, só havia uma porta que ainda não
tinha tentado, valia a pena dar uma olhada – Ele não o viu chegar,
porém ouviu.
Ele tinha dado um único passo quando a porta atrás dele abriu
fortemente – e a coisa era tão rápida que ele ainda estava se
virando, levantando o rifle em reação ao som quando a coisa o
alcançou.
Mas que – Uma onda de fétida escuridão, uma impressão de
garras escuras e brilhantes e corpo como o exoesqueleto de um
forte inseto gigante – e algo rasgou o ar a centímetros de distância
de seu rosto, teria acertado se não tivesse recuado um passo.
Carlos tropeçou em seu próprio pé e caiu, olhando com um
espanto aterrorizado quando alguma coisa voou sobre seu rosto
voltado para cima, saltando ligeiramente para a parede à sua direita
e continuando a correr de lado a lado, aderindo nos tijolos num
desengonçado galope. Apavorado, Carlos a acompanhou até onde
seu pescoço permitiu, de cotas no chão, vendo enquanto a coisa
girava em suas últimas três pernas e pulava no chão.
Ele podia simplesmente ter esperado ser alcançado, incapaz de
acreditar em seus olhos mesmo enquanto a criatura estapeava uma
de suas seis pernas com longas e afiadas garras em seu pescoço,
mas apenas gritou – e o triunfante gemido que emergiu de sua curva
e inumana cara inchada foi o suficiente para fazer Carlos se mover.
Num piscar, Carlos rolou até se ajoelhar e abrir fogo na
apressada e berrante coisa, sem perceber que também estava
gritando, um baixo e rouco grito de terror e descrença. A criatura
cambaleava enquanto as balas perfuravam sua quebradiça carne,
seus membros abanando para todos os lados, a qualidade de seu
berro mudando para um furioso uivo de dor. Carlos continuou,
espirrando mortais metais quentes na criatura, continuando mesmo
depois de tê-la derrubado e só se movendo por causa dele, as balas
chacoalhando seu flácido corpo. Ele sabia que estava morta, mas
não conseguia para de atirar até a M16 secar e o beco voltar ao
silêncio, com exceção de sua torturada respiração. Ele recuou
contra a parede, trocou o pente da metralhadora e tentou
desesperadamente entender o que diabos tinha acabado de
acontecer.
Ele finalmente se recuperou o bastante para se aproximar da
coisa morta – estava morta; até um inseto gigante do tamanho de
um homem com seis pernas e que subia em paredes morria quando
seu cérebro vazava do crânio. Era uma verdade com a qual podia
contar no meio daquela loucura.
“Mais morto que merda”. Ele disse, olhando para o contorcido
corpo da criatura, e por só um segundo, sua mente tentou fazê-lo
negar o que estava vendo. Zumbis já eram uma coisa ruim, e
finalmente recusou o fato de que Raccoon tinha sido tomada por
mortos-vivos; eles só estavam doentes, a tal doença canibal que
havia lido, porque essa coisa de zumbi só acontecia nos filmes. Do
mesmo jeito que não existiam monstros nem insetos assassinos
gigantes com garras que subiam nas paredes e gritavam daquele
jeito – “No hay piri” . Ele suspirou seu velho lema, a expressão
soando como um apelo desta vez, seus pensamentos seguindo um
tipo de oração desesperada, Não transpire, relaxe, fique frio. E
depois de um tempo se acalmou; seu coração desacelerou para
quase normal, e começou a se sentir como uma pessoa de novo, e
não um animal aterrorizado que perdeu a cabeça.
Então havia monstros em Raccoon City. Não devia ser uma
surpresa, não depois do dia que teve; além disso, eles morriam
como qualquer outra coisa, certo?”.
Ele não sobreviveria se perdesse a cabeça, e já tinha passado
por muitas coisas para desistir agora.
Com isso, Carlos deu as costas para o monstro e andou pelo
beco, forçando a si mesmo a não olhar para trás. O monstro estava
morto e ele estava vivo, e havia boas chances de haverem mais por
aí.
Trent pode ser minha única saída, e agora só me resta... droga!
Três minutos, ele só tinha três malditos minutos.
Carlos saiu em disparada, subindo alguns degraus até uma
única porta no final do beco, cruzando-a – e chegou numa espaçosa
e bem iluminada cozinha. Uma cozinha de restaurante.
Uma rápida olhada em volta e não havia ninguém, e estava
silencioso com exceção de um leve soprar de gás de um grande
cilindro na parede de trás. Ele respirou fundo, mas não sentiu cheiro
de nada; talvez seja outra coisa – e não sairia daqui mesmo que
fosse gás tóxico nervoso. Tem que ser aqui, esse é o lugar que
Trent pediu que eu viesse.
Ele andou pela cozinha, passando pelas bancadas e fogões de
metal brilhante, indo para o salão principal. Havia um cardápio numa
das bancadas com GRILL 13 escrito na frente com letras douradas.
Era assustador o quanto aliviado se sentia; em questão de horas,
Trent passou de um estranho esquisito para seu melhor amigo no
mundo.
Eu consegui, e ele disse que podia ajudar – talvez uma equipe
de resgate estivesse a caminho ou marcou para me buscarem
aqui... ou talvez houvessem armas guardadas lá na frente, não tão
bom quanto uma evacuação, mas eu pegarei o que puder.
Havia uma abertura na parede que divida a cozinha do salão,
um balcão por onde os cozinheiros passavam os pedidos. Carlos
podia ver que o pequeno salão ligeiramente mais escuro estava
vazio, apesar de ter levado um tempo para ter certeza; a chama
dançante de uma lamparina a óleo ainda queimava sobre o balcão,
projetando inquietas sombras.
Ele contornou a parede divisória através da passagem lateral e
entrou no salão, notando um suave cheiro de comida frita no frio ar
enquanto procurava. Ele não sabia ao certo o que esperar e
definitivamente não via – nenhum envelope em branco em cima de
uma mesa, nenhum pacote misterioso, nenhum homem vestindo um
sobretudo esperando. Havia um telefone público perto da entrada
principal; Carlos andou até lá e pegou o receptor, e como todos os
outros da cidade, estava mudo.
Ele checou o relógio pela que parecia ser a milésima vez na
última hora e viu que era 19:01h – e sentiu uma onda de raiva e
frustração que só servia para aumentar seu medo. Estou sozinho,
ninguém sabe que estou aqui e ninguém pode me ajudar.
“Estou aqui”. Ele disse, virando para a sala vazia, sua voz
aumentando. “Eu cheguei, estou no horário e onde diabos está
você?”.
Como resposta, o telefone tocou, o estridente som fazendo-o
pular. Carlos foi desajeitado até ele; seu coração batendo
abobalhado, seus joelhos de repente fracos de esperança.
“Trent? É você”.
Uma breve pausa e a suave e musical voz de Trent invadiu seu
ouvido. “Hola, Sr. Oliveira! Estou tão feliz em ouvir sua voz!”.
“Cara, nem metade do quanto estou em ouvir a sua”. Carlos se
apoiou na parede segurando o receptor bem apertado.
“Isso aqui é uma baita encrenca, amigo, todo mundo está morto
e há coisas lá fora, como – tem monstros, Trent.
Você pode me tirar daqui? Me diga que sim!”.
Houve outra pausa e Trent suspirou, um pesado som. Carlos
fechou os olhos já sabendo o que ouviria.
“Sinto muito, mas isso está fora de cogitação. O que eu posso é
dar informações... mas sobreviver é com você.
E eu temo que as coisas possam ficar piores, muito piores
antes de melhorarem”.
Carlos respirou fundo e acenou para si mesmo, sabendo que
isso já era o de se esperar. Ele estava por conta própria.
“Tá bom”. Ele disse e abriu os olhos, erguendo os ombros e
acenando de novo. “Pode falar”.
Capítulo 9
Comentários, descrição de delito relatado – 29−087: Duas das
doze pedras preciosas que fazem parte do “relógio fechadura” do
portão ornamental principal da prefeitura, foram removidas entre
(aproximadamente) 21:00h de ontem (24 de Setembro) e 5:00h
desta manhã.
Como o comércio local está fechado durante esse horário,
saqueadores estão danificando propriedade pública e levando o que
lhes parece valioso. O presente oficial acredita que o delinqüente
pensou que as jóias fossem reais, e parou depois de remover duas
(uma azul e outra verde) quando ele/ela percebeu que eram de
vidro.
Esse portão (portão da “prefeitura”) é uma das várias
entradas/saídas que levam ao complexo municipal. O portão está
agora trancado devido ao seu complicado (e na opinião do presente
oficial, ridículo) mecanismo, o qual requer a presença de todas as
pedras para ser destrancado. Essa entrada/saída permanecerá
trancada até o poder público remover o portão ou até as duas
pedras forem achadas e reinstaladas. Devido à falta de potencial
efetivo nesse momento, não há escolha se não suspender a
investigação do caso.// oficial relator Marvin Branagh.
Comentários adicionais, caso 29−087, M Branagh 26 de Set. –
Uma das jóias perdidas (azul) apareceu dentro do prédio do R.P.D..
São 20:00h. Bill Hansen, o falecido proprietário do restaurante Grill
13, estava aparentemente carregando a falsa jóia quando veio aqui
procurando abrigo no começo da noite. O Sr. Hansen morreu um
pouco depois de chegar, morto a tiros por policiais depois de
sucumbir aos efeitos da doença canibal. A jóia foi achada em seu
corpo, apesar de eu do presente oficial não ter como saber se ele a
roubou ou onde a outra possa estar.
Com a cidade agora sob lei marcial, nenhum esforço será feito
para encontrar a segunda jóia ou para recolocar a primeira – mas
com várias ruas em volta do complexo bloqueadas, a necessidade
dessas jóias pode até certo ponto tornar-se relevante.
Anotação: este será meu último relatório escrito até a atual crise
ser resolvida. Trabalho escrito não parece – agora, a necessidade
de documentar delitos parece secundária sob a vigência da lei
marcial, tal como estar sozinho nesse serviço.
Marvin Branagh, R.P.D.
Jill colocou o relatório datilografado e o anexo escrito à mão de
volta na gaveta de evidências, tristemente imaginando se Marvin
ainda estava vivo; parecia improvável, o que era um deprimente
pensamento. Ele era um dos melhores oficiais no R.P.D., sempre
bondoso sem sacrificar a conduta profissional.
Um profissional de primeira. Maldita Umbrella.
Ela tirou da gaveta uma peça de vidro azul em forma de
losango, olhando-a pensativamente. O resto da sala de evidências
foi um fracasso, os armários trancados e gavetas sem nada útil
como arma; certamente não foi a única que pensou em vasculhar a
sala. A jóia, por outro lado...
Marvin estava certo sobre as ruas estarem bloqueadas em volta
do portão da Prefeitura; ela havia tentado cruzar a área e encontrou
quase tudo bloqueado. Não que houvesse muita coisa por lá – o
portão dava num pequeno jardim com trilhas pavimentadas, tudo
bem arranjado para apenas uma estátua sem graça do ex-prefeito
Michael Warren. Depois dela vinha a Prefeitura, não muito usada
desde que construíram a nova corte judicial na zona residencial. No
final, a trilha se dividia em duas, uma à norte e a outra à oeste – um
posto de abastecimento com oficina e lojas de carros usados à
norte, e a oeste...
“Ah, não, o bonde!”.
Porque ela não havia pensado nisso antes? Jill sentiu uma
onda de excitação, diminuída de leve pela vontade de dar um tapa
na testa. Ela tinha se esquecido completamente do caminho. O
velho bonde de dois carros era coisa de turista, mas ia para os
subúrbios mais à oeste, depois do parque da cidade e através de
alguns dos mais caros bairros. Havia um suposto complexo
abandonado da Umbrella por esse caminho também, onde ainda
poderia haver carros funcionando e estradas livres. Considerando
que o bonde estivesse em condições de correr, esse seria o jeito
mais fácil para sair da cidade de mãos abaixadas.
Exceto pelas barricadas, o único jeito de chegar até lá é através
do portão – e eu só tenho uma das jóias.
Ela não tinha ferramentas para derrubar o grande e pesado
portão sozinha... mas o relatório de Marvin dizia que Bill Hansen
estava com a jóia azul, e seu restaurante só estava a três ou quatro
quarteirões dali. Não havia como saber se também estava com a
verde ou se estava no Grill, mas valeria a pena verificar. Se não
estiver lá, não pioraria as coisas, mas se conseguir achá-la, poderá
sair da cidade mais cedo do que esperava. Com Nêmesis andando
por aí, poderá não ser cedo o bastante.
Então estava decidido. Jill virou e andou para a porta, colocando
a jóia azul na bolsa. Ela queria checar a sala de revelação do R.P.D.
antes de partir, ver se conseguia achar um daqueles coletes de
fotógrafo; ela não tinha nenhum carregador rápido para a Colt, e
queria alguns bolsos para carregar as balas soltas. Ela pensou em
deixar a espingarda para trás. Jill tinha improvisado um suporte no
ombro usando o cinto de um homem morto, e carregá-la era ruim,
ainda mais sem munição – e a .357 como fogo adicional – ela não
via motivos para carregá-la mais...
Ela saiu no corredor e foi para a esquerda, deliberadamente não
olhando para um corpo caído sob a janela sul.
Era uma jovem mulher que havia matado da escada, e tinha
quase certeza de que conhecia a garota – uma
secretária/recepcionista que trabalhava no balcão de entrada nos
fins de semana, Mary alguma coisa. A sala de revelação ficava em
frente ao vão sob a escada; ela teria que passar a alguns
centímetros do corpo, mas achou que conseguiria evitar olhar de
perto caso ela – CRASH!
Duas das janelas implodiram, espirrando cacos de vidro sobre o
corpo da recepcionista, pedaços dele arranhando as pernas
descobertas de Jill. No mesmo instante, uma gigante massa negra
se arremessou para dentro, maior que um homem, do tamanho de –
um matador de S.T.A.R.S. – Foi tudo que pensou no tempo que
teve, Jill recuou pelo caminho que veio, se jogando na porta da sala
de evidências, enquanto atrás dela, vidro foi esmagado assim que se
levantava, ouviu a nota inicial de seu único objetivo, “SSst−”.
Ela correu, tirando o pesado revólver de sua cintura, cruzando a
sala de evidências até a outra porta e entrou na sala da equipe de
patrulha. Uma curva fechada para a esquerda assim que entrou e
mesas passaram, cadeiras, estantes e uma mesa derrubada com
respingos de sangue e fluídos de pelo menos dois policias, seus
corpos caídos apenas obstáculos em seu caminho.
Jill pulou sobre eles, ouvindo a porta abrindo, não,
desintegrando atrás dela, o som de destroços e madeira quebrando
sem conseguir abafar a fúria de Nêmesis.
Vaivaivairápido – Ela abriu a porta correndo, ignorando a
pontada de dor que envolveu seu ombro ralado, virando para a
direita quando pisou no saguão.
Shhh−BOOM!
Um clarão de luz e fumaça voou depois dela, explodindo um
irregular buraco no chão a menos de um metro dela. Estilhaços de
mármore queimado e cerâmica voaram, estourando no ar como uma
fonte de barulho e calor.
Jesus, ele está armado!
Ela correu mais rápida, descendo a rampa lateral para o piso
rebaixado do saguão, lembrando que tinha trancado as portas da
frente, a lembrança como um soco no estômago. Ela nunca
conseguirá abri-las a tempo, sem chance – e BOOM, outra explosão
do que parecia ser um lança-granadas ou algo maior, perto o
bastante a ponto de sentir o vento perto de sua orelha direita, pôde
ouvir o sopro da incrível velocidade pouco antes das portas se
escancararem à sua frente. Elas ficaram penduradas pelas
dobradiças, balançando enquanto ela corria pelo escuro frio da
noite.
“Ssstaarrrsss!”.
Perto, muito perto. Instintivamente, Jill sacrificou um segundo
de velocidade e pulou para o lado, tirando os pés do chão, mau
percebendo que o corpo de Brad havia sumido e sem se importar.
Mesmo enquanto pousava, Nêmesis passou por ela, atropelando o
espaço que ocupava um instante antes. Sua desaceleração custou
vários passos, ele era rápido, mas pesado demais para parar, seu
tamanho monstruoso dando-a o tempo que precisava. Um rangido
enferrujado e cruzou os portões, batendo-os em seguida, tirando a
espingarda das costas.
Ela virou e colocou a arma entre os puxadores do portão,
ambos rachando contra o cano antes que ela tivesse tempo de
soltá-la, atrás dos portões, Nêmesis gritava de raiva animal, um
demoníaco som de sede por sangue tão forte que Jill estremeceu
compulsivamente. Ele estava gritando por ela, era o pesadelo de
novo, ela estava marcada para morrer.
Jill virou e correu, o grito sumindo atrás dela.
Quando Nicholai viu Mikhail Victor, soube que teria de matá-lo.
Tecnicamente, não havia motivo, mas a oportunidade era muito
atraente para deixá-la passar. Por alguma sorte, o líder do pelotão D
conseguiu sobreviver, uma honra que não merecia.
Nós vamos cuidar disso...
Nicholai estava se sentindo bem; ele estava à frente da
programação que tinha feito para si mesmo, e o resto de sua jornada
pelos esgotos foi tranqüila. Seu próximo alvo era o hospital, o qual
podia alcançar rapidamente se usasse o bonde em Lonsdale Yard;
ele tinha tempo suficiente para descansar por alguns momentos,
pausando sua perseguição. Ter voltado à superfície e ver Mikhail do
outro lado da rua, de cima de uma dos prédios da Umbrella – um
alvo perfeito – era como uma recompensa cósmica por seu trabalho
até agora. Mikhail nunca saberia o que o acertou.
O líder de pelotão estava dois andares abaixo, de costas para a
parede do barracão de um ferro-velho enquanto trocava a munição.
Uma luz de segurança, seu brilho ofuscado com o intenso
movimento de insetos noturnos, iluminando claramente sua posição
– e tornaria impossível identificar seu assassino.
Bom, você não pode ter tudo; sua morte teria que ser o
suficiente.
Nicholai sorriu e ergueu a M16, saboreando o momento. Uma
fria brisa noturna balançou seu cabelo enquanto estudava a vítima,
notando com muita satisfação o medo no rosto de Mikhail. Um tiro
na cabeça? Não; com chances de Mikhail ser infectado, Nicholai não
perderia a ressurreição. Ele também teria tempo o bastante para
observar. Ele abaixou o cano milimetricamente, avistando uma das
joelheiras de Mikhail. Muito doloroso... mas ele ainda usaria os
braços e provavelmente atiraria às cegas; Nicholai não queria
arriscar ser baleado.
Mikhail tinha terminado de inspecionar o rifle e estava olhando
em volta como se planejasse o próximo passo.
Nicholai mirou e atirou, um único tiro, extremamente feliz com
sua decisão ao ver o líder de pelotão se reclinar, agarrando a barriga
– e de repente, Mikhail se foi, contornando a esquina de um prédio e
sumindo. Nicholai pôde ouvir os passos no cascalho
desaparecendo.
Ele xingou baixo, apertando os dentes com frustração. Ele
queria ter visto o homem se contorcendo, sofrendo com o doloroso e
certamente fatal ferimento. Parecia que os reflexos de Mikhail não
eram tão pobres quanto pensava.
Então, ele morre em algum lugar no escuro ao invés de onde eu
possa vê-lo. O que isso significa? Não que eu não tenha outra coisa
para ocupar meu tempo...
Não tinha funcionado. Mikhail estava seriamente ferido e
Nicholai queria vê-lo morrer. Só levaria alguns minutos para achar o
rastro de sangue e persegui-lo – uma criança poderia fazer isso.
Nicholai sorriu. E quando eu achá-lo, poderei oferecer ajuda,
bancar o camarada preocupado – quem fez isso com você, Mikhail?
Aqui, deixe-me ajudá-lo...
Ele virou e correu para a escada, imaginando o olhar de Mikhail
ao descobrir quem foi o responsável por sua situação, ao
compreender seu fracasso como líder e homem.
Nicholai imaginou o que tinha feito para merecer tanta alegria;
até agora, aquela havia sido a melhor noite de sua vida.
Quando a conversa terminou, a linha ficou muda e Carlos
sentou-se num dos assentos, pensando nas coisas que Trent lhe
havia dito. Se tudo o que disse era verdade – e Carlos acreditava
que sim – a Umbrella teria muito que responder.
“Por que você está me contando tudo isso?”. Carlos tinha
perguntado logo no fim, sua cabeça girando. “Por que eu?”.
“Porque eu estive vendo a sua ficha”. Trent respondeu. “Carlos
Oliveira, mercenário por contrato – exceto por sempre ter lutado
pelo lado bom, sempre do lado dos fracos e oprimidos. Já arriscou a
vida duas vezes em assassinatos, ambos bem sucedidos – um
tirano traficante de drogas e um pedófilo, se não me falhe a
memória.
E nunca oprimiu um civil, nenhuma vez. A Umbrella está
envolvida em práticas extremamente imorais, Sr.
Oliveira, e você é exatamente o tipo de pessoa que deveria
estar trabalhando para impedi-los”.
De acordo com Trent, o T-virus da Umbrella – ou G-virus,
aparentemente havia dois tipos – foram criados e usados em
monstros caseiros para torná-los armas vivas. Quando humanos são
expostos ao vírus, contraem a doença. E Trent disse que os
administradores da U.B.C.S. sabiam para onde estariam enviando
seu pessoal e provavelmente o fizeram de propósito – tudo em
nome da pesquisa.
“Os olhos e ouvidos da Umbrella estão por toda parte”. Trent
disse. “Como eu disse antes, tome cuidado em quem confia. É sério,
ninguém é seguro”.
Carlos se levantou da mesa abruptamente e andou para a
cozinha, perdido com pensamentos. Trent havia se recusado a falar
sobre seus motivos para derrubar a Umbrella, apesar de Carlos ter
tido a impressão de que Trent também trabalhava para a
corporação; isso explicaria por que era tão reservado.
Ele está sendo cuidadoso, protegendo o pescoço – mas como
poderia saber de tanto? As coisas que me disse...
Uma confusão de fatos, alguns pareciam totalmente arbitrários
– havia uma jóia verde falsa na câmara fria sob a cozinha; Trent
disse que fazia parte de um par e se recusou a dizer onde a outra
estava ou porque eram tão importantes.
“Apenas faça-as terminarem juntas”. Trent havia dito – como se
Carlos fosse achar a outra por acaso. “Quando achar a azul terá sua
explicação”.
Por mais enigmaticamente inútil que isso parecia ser, Trent
também disse que a Umbrella tinha dois helicópteros no complexo
de tratamento de água abandonado à oeste e norte da cidade.
Talvez o mais útil de tudo foi Trent ter dito que havia uma vacina
sendo produzida no hospital da cidade, e apesar de ainda não ter
sido sintetizada, havia pelo menos uma amostra lá.
“Apesar de haverem boas chances do hospital não ficar lá por
muito tempo”. Ele disse, deixando Carlos imaginar de novo como
Trent ficou sabendo. O que acontecerá? E como Trent sabia disso?
Trent parecia achar a sobrevivência de Carlos importante; ele
parecia confiante de que Carlos seria uma parte significante da luta
contra a Umbrella, mas Carlos ainda não tinha certeza do porquê,
nem se queria entrar nessa. No momento, tudo o que queria era sair
da cidade... mas por algum motivo Trent havia decidido oferecer
informações, e Carlos estava agradecido.
Se bem que um pouco mais teria sido melhor – chaves para um
carro de fuga blindado, talvez, ou algum tipo de spray antimonstro.
Carlos ficou parado na cozinha, olhando para o aparentemente
pesado alçapão onde deveria estar a escada do porão. Trent
também disse que provavelmente havia mais armas em uma torre
do relógio, não muito longe do hospital; isso e os helicópteros a
norte do hospital e da torre do relógio, definitivamente útil.
Mas por que me deixar vir até aqui se sou tão importante? Ele
poderia ter me parado a caminho da base.
Muito daquilo não fazia sentido, e Carlos estava querendo
apostar que Trent não tinha contado tudo. Carlos não tinha escolha
se não confiar um pouco nele, mas iria tomar cuidado ao depender
das informações de Trent.
Carlos agachou próximo ao alçapão, agarrou as alças e puxou.
Era pesada, mas podia agüentar, inclinando para trás e usando as
pernas para se equilibrar. A não ser que os cozinheiros fossem
fisiculturistas, deveria haver um pé-de-cabra em algum lugar por ali.
A porta principal do restaurante abriu e fechou. Carlos colocou a
tampa de lado e virou, ainda agachado, M16 apontada para a
entrada da cozinha. Ele não achava que zumbis fossem capazes de
abrir portas, não tinha idéia do que podiam fazer ou quem mais
poderia estar andando por aí.
Lentos e cuidadosos passos vinham na direção da cozinha.
Carlos prendeu a respiração, pensando em Trent, imaginando de
repente se ele tinha planejado – e a última coisa que esperava ver
era um revólver .357 aparecendo, empunhado por uma atraente e
extremamente séria mulher que entrou rápida e abaixada, mirando
em Carlos antes que pudesse piscar.
Por um segundo, eles se olharam, parados, e Carlos pôde ver
nos olhos dela que não hesitaria em atirar se achasse necessário.
Sendo que se sentia do mesmo jeito, ele decidiu que seria melhor se
apresentar.
“Meu nome é Carlos”. Ele disse claramente. “Eu não sou um
zumbi. Calma aí, tá?”.
A garota o estudou por um momento, e acenou devagar,
abaixando o revólver. Carlos tirou o dedo do gatilho e fez o mesmo
enquanto ambos se erguiam, cuidadosamente.
“Jill Valentine”. Ela disse, e parecia começar a dizer algo
quando a porta dos fundos abriu à força, a forte trovoada somada ao
som de um grito profundo e quase humano que levantou os pelos
das costas do pescoço de Carlos.
“Sstaarrsss!” . Seja lá o que tinha berrado, o grito ecoou pelo
restaurante, gigantes passos pulsando na direção deles, implacáveis
e decididos.
Capítulo 10
Não havia tempo para perguntas, sem tempo para imaginar
como a tinha achado tão rápido. Jill acenou para o jovem rapaz ficar
atrás dela; ela procurou desesperadamente em volta por algo que
poderia distraí-lo enquanto fugiam. Eles se abaixaram atrás da
abertura na parede, Carlos se movendo como se tivesse
experiência; ao menos ele tinha o bom senso de ficar quieto
enquanto o assassino de S.T.A.R.S. aparecia na cozinha, ainda
gritando.
Fogo! Havia uma lamparina a óleo em cima da abertura. Jill não
hesitou; ele os alcançaria em segundos se não agisse
imediatamente, e talvez um pouco de óleo incandescente o
retardaria.
Ela acenou para Carlos ficar abaixado, erguendo a lamparina e
levantando-se, apoiando-se na abertura e armando o braço para
trás. O volumoso Nêmesis tinha acabado de aparecer na cozinha
quando ela atirou a lamparina, grunhindo com a força que levou para
vencer a distância.
A lamparina voou e então tudo desacelerou, tanta coisa
acontecendo que sua mente a mostrava um fato por vez. A
lamparina quebrou nos pés do monstro, vidro e óleo respingando e
empoçando, um raso lago de fogo se espalhando; a criatura ergueu
seus grandes punhos gritando de raiva; Carlos gritou e agarrou sua
cintura, derrubando-a, o desajeitado movimento levando os dois ao
chão – e houve um poderoso estouro de brilho e som, o segundo
desde que acordou, um deslocamento de ar que martelou seus
ouvidos, e Carlos estava tentando protegê-la, segurando-a no chão
enquanto dizia algo em espanhol, enquanto o tempo voltava ao
normal e algo começava a queimar.
Deus, de novo? Desse jeito, a cidade inteira vai explodir... O
pensamento foi vago e desorientado, sua mente confusa até lembrar
de respirar. Uma profunda inalação e Jill empurrou os braços de
Carlos levantando-se, precisando ver.
A cozinha estava estourada, escurecida e com utensílios e
panelas para todo lado. Ela viu vários cilindros na parede do fundo,
um deles a provável origem da explosão, o metal fumegante
contorcido como pétalas abertas.
Uma forte fumaça subia do ardente corpo no chão, Nêmesis
deitado como um gigante caído, suas roupas pretas chamuscadas e
queimadas. Ele não se movia.
“Sem ofensas, mas você tem algum problema?”. Carlos
perguntou, olhando para ela como se a pergunta fosse retórica.
“Você podia ter feito churrasco da gente!”.
Jill olhava para Nêmesis, ignorando Carlos, a .357 apontada
para suas pernas imóveis; sua cabeça e tronco estavam escondidos
por uma baixa estante. A explosão foi forte, mas depois de tudo o
que pensou, preferiu ter certeza antes de deduzir qualquer coisa.
Atire, atire enquanto está deitado, você pode não ter outra
chance – Nêmesis se mexeu, um leve movimento nos dedos da
mão que podia ver, e os nervos de Jill dispararam. Ela queria sair,
queria estar bem longe antes de se levantar, antes de se recuperar
da explosão como certamente iria.
“Nós temos que sair agora”. Ela disse, virando para Carlos.
Jovem, bonito, obviamente inabalado pela explosão, ele hesitou
depois acenou, segurando sua metralhadora apertada contra o
peito. Parecia uma M16, militar, e estava vestido para combate – um
com sinal.
Espero que haja mais de onde você veio, Jill pensou, indo para
a porta em ritmo acelerado. Carlos bem atrás.
Ela tinha muitas perguntas para ele e percebeu que ele também
deveria ter algumas para ela... mas podiam conversar em outro
lugar. Qualquer lugar onde podiam ficar seguros. Qualquer lugar.
Assim que saíram, Jill não pôde se conter; ela saiu em
disparada, o jovem soldado a acompanhando, correndo pelo frio
escuro da morta cidade enquanto imaginava se havia qualquer lugar
onde poderiam ficar seguros.
A garota, Jill, correu por um quarteirão antes de diminuir. Ela
parecia saber aonde ia, e obviamente tinha algum tipo de
treinamento policial, talvez, apesar daquele jamais ser o uniforme.
Carlos estava desesperadamente curioso, mas guardou sua
respiração, concentrando-se em acompanha-la.
Do restaurante, eles desceram a rua, passando pelo teatro que
Trent havia mencionado, virando à direita depois da fonte
decorativa; mais meio quarteirão e Jill indicou uma porta para
varredura padrão. Carlos acenou, parando de um lado da porta, rifle
apontado para cima.
Jill puxou a maçaneta e Carlos entrou, pronto para atirar em
qualquer coisa que se mexer, Jill cobrindo-o. Eles estavam em
algum tipo de armazém, no final de uma passarela que terminava
em forma de “T” quinze metros à frente. Parecia vazio.
“Deve estar vazio”. Jill disse baixo. “Eu vim por aqui minutos
atrás”.
“Melhor prevenir do que remediar, né?”. Carlos disse, de arma
para o alto e sentindo parte da tensão abandonar seu corpo. Ela era
definitivamente profissional.
Eles avançaram pelo armazém, checando cuidadosamente
antes de dizer outra palavra. Estava frio e mau iluminado, porém não
cheirava tão mau quanto o resto da cidade, e parados no meio da
junção em “T”, eram capazes de ver qualquer coisa se aproximando
antes de pegá-los. No geral, parecia o lugar mais seguro no qual
esteve desde o helicóptero.
“Eu queria perguntar algo caso não se importe”. Jill disse
finalmente, voltando toda sua atenção para ele.
Carlos abriu a boca para falar e as palavras apenas saíram.
“Você vai me convidar para sair, não é? É o sotaque, as garotas
adoram o sotaque. Vocês o ouvem e não conseguem se agüentar”.
Jill o encarou, seus olhos largos, e por um momento ele pensou
ter cometido um erro, ela não perceberia que estava brincando. Foi
uma estupidez fazer piadas sob essas circunstâncias. Assim que
estava para se desculpar, o canto da boca dela ergueu um pouco.
“Eu pensei que você não fosse um zumbi”. Ela disse. “Mas se é
o melhor que pode fazer, talvez deva reavaliar sua situação”.
Carlos sorriu, deliciado com a resposta – e de repente pensou
em Randy, de suas brincadeiras antes de pousar em Raccoon. Seu
sorriso apagou e viu o brilho de humor deixar o rosto dela também,
como se lembrasse onde estavam e o que tinha acontecido.
Quando falou de novo, seu tom foi mais frio. “Eu ia te perguntar
se você foi o mesmo Carlos que mandou a mensagem há cerca de
uma hora, uma hora e meia atrás”.
“Você ouviu?”. Carlos perguntou surpreso. “Quando ninguém
respondeu, eu não pensei−”.
Cuidado em quem confia. As palavras de Trent piscaram em
sua mente, lembrando-o de que não tinha idéia sobre quem era Jill
Valentine. Ele parou de falar, encolhendo os ombros, indiferente.
“Eu só captei parte dela, e não podia responder de onde
estava”. Jill disse. “Você disse algo sobre pelotão, não disse?
Existem outros, ah, soldados aqui?”.
Fale o básico e nada sobre Trent. “Havia, mas acho que estão
todos mortos agora. A operação inteira foi um desastre, diga-se de
passagem”.
“O que aconteceu?”. Ela perguntou, estudando-o intensamente.
“E com quem você está afinal, Guarda Nacional? Eles vão enviar
reforços?”.
Carlos a olhou, imaginando quanto cuidado deveria tomar.
“Nenhum reforço, eu acho. Quer dizer, eu tenho certeza que
mandarão alguém eventualmente, mas sou apenas um soldado, eu
realmente não sei de nada – nós pousamos e os zumbis atacaram.
Talvez alguém conseguiu escapar, mas até onde eu sei, você está
olhando para o único membro vivo da U.B.C.S.. Isso significa
Umbrella Bio-hazard Coutermeasure−”.
Ela o interrompeu, a expressão em seu roto perto do nojo.
“Você está com a Umbrella?”.
Carlos acenou. “Sim. Eles nos mandaram para resgatar
sobreviventes”. Ele queria dizer mais, dizer o que suspeitava –
qualquer coisa para mudar o olhar dela, como se tivesse acabado de
descobrir que ele era um estuprador ou coisa do tipo – mas o
conselho de Trent continuava se repetindo.
Os lábios de Jill curvaram-se. “Não fale besteira? A Umbrella é a
responsável pelo que aconteceu aqui, como se não soubesse – não
adianta mentir. O que você realmente está fazendo aqui? Diga a
verdade, Carlos, se esse for o seu nome”.
Ela realmente estava irritada, e Carlos sentiu um momento de
incerteza, imaginando se ela era uma aliada, alguém que sabia a
verdade sobre a Umbrella – ma também podia ser uma armadilha.
Talvez ela trabalhe para eles e está tentando me testar,
tentando desmascarar minha lealdade...
Carlos permitiu um toque de raiva invadir sua voz. “Eu sou
apenas um soldado, como havia dito. Eu sou – todos nós – somos
pistoleiros de aluguel. Sem política, entendeu? Eles não nos dizem
nada. E no momento, eu não estou interessado se a Umbrella é ou
não é responsável. Se eu vir alguém que precise de ajuda, eu farei
meu trabalho, caso contrário, eu só tentarei sair daqui”.
Ele a encarou, determinado a manter seu papel. “E por falar em
quem-oque-porquê, o que você faz aqui?”. “O que você fazia
naquele restaurante? E o que era aquela coisa que você explodiu”.
Jill o encarou por outro segundo, e soltou-se, suspirando. “Eu
também estou tentando fugir. Aquela coisa é um dos monstros da
Umbrella, está me caçando, e duvido muito que esteja morto,
mesmo agora – o que significa que não estou a salvo. Eu pensei que
talvez houvesse... eu estava procurando por um tipo de chave, eu
pensei que estivesse no restaurante”.
“Que tipo de chave?”. Ele perguntou, e de alguma forma, ele já
devia saber.
“É uma jóia, faz parte de um mecanismo de fechadura do
portão da Prefeitura. Existem duas jóias, na verdade, eu já tenho
uma. Se conseguir outra e abrir o portão, haverá um caminho para
fora da cidade – um bonde que vai para oeste, para os subúrbios”.
Carlos manteve seu rosto neutro, mas estava pulando por
dentro. O que Trent disse?
Ir para oeste primeiro... e quando eu encontrar a jóia azul,
entenderei sua importância... mas o que isso me diz sobre Jill
Valentine? Devo confiar agora ou não? O que ela sabe?
“Sério,”. Ele disse, mantendo seu tom constante. “eu vi algo
assim no porão do restaurante. Uma jóia verde”.
Os olhos de Jill arregalaram. “Mesmo? Se pudermos pegá-la...
Carlos, nós temos que voltar”.
“Se esse for meu nome”. Ele disse, pego em algum lugar entre
irritação e espanto. Ela parecia saltar de temperamento para
temperamento, energética depois divertida, depois brava, depois
empolgada; era cansativo, e ainda não sabia se podia virar as
costas para ela. Ela parecia sincera...
“Me desculpe”. Ela disse, tocando seu braço levemente. “Eu
não devia ter dito aquilo, é só – a Umbrella e eu não somos
melhores amigos. Houve um acidente em um de seus laboratórios,
aqui, há cerca de seis semanas.
Pessoas morreram. E agora isso”.
Carlos derreteu um pouco com o calor de sua mão. Jesus,
Carlos era um idiota para um primor, e ela era algo para se olhar.
“Carlos Oliveira,”. Ele disse. “a seu serviço”.
Calma, garoto. Sair da cidade, disse Trent, mas você tem
certeza de que quer andar com alguém que pode acabar te
matando? Você precisa limpar a mente antes de partir com a cuero
senhorita Valentine.
Imediatamente, ele começou a argumentar consigo mesmo. É,
tome cuidado, mas vai deixá-la sozinha? Ela disse que o monstro
estava atrás dela...
Ele brincava com isso às vezes, mas não era machista; ela
podia se virar sozinha, e já tinha provado isso. E se fosse uma espiã
da Umbrella... bom, então ela merecia isso, não é?
“Eu – eu não acharia certo partir sem ao menos tentar achar
alguns dos outros”. Ele disse, e agora que sabia que existir um
modo de fugir, ele percebeu que era verdade. Até uma hora atrás, a
idéia teria sido ridícula; mas agora, armado com as informações de
Trent, tudo tinha mudado. Ele ainda estava assustado, claro, mas
saber algo sobre a situação o fez sentir menos vulnerável. Apesar
dos riscos, ele queria andar por mais algumas quadras antes de
partir, tentando ajuda alguém. Ele queria tempo para pensar, para
organizar as idéias.
Isso... mais saber que ela sobreviveu, significa que eu também
posso.
“Eu vi o portão do qual você falou, aquele perto da redação do
jornal, si? Por que não nos encontramos lá... ou melhor, no bonde”.
Jill franziu e acenou. “Tá bom. Eu voltarei para o restaurante
enquanto você anda por aí, e te esperarei no bonde. Ao passar pelo
portão, siga o caminho e mantenha-se à esquerda, você verá placas
para Lonsdale Yard”.
Por alguns segundos ninguém falou, e Carlos viu, no cauteloso
modo como o olhava, que Jill também tinha seus próprios receios
sobre ele. Sua desconfiança o fazia confiar mais nela; se ela fosse
anti-Umbrella, faria sentido ela não querer andar com um de seus
empregados.
Pare de debater e ande logo, pelo amor de Deus!
“Não parta sem mim”. Carlos disse, querendo soar levemente.
Ele soou muito sério.
“Não me faça esperar muito”. Ela respondeu e sorriu, e
considerou que ela estava bem apesar de tudo. Depois ela virou e
correu devagar, voltando por onde vieram.
Carlos a ouviu partindo, imaginando se estava louco por não ir
com ela – e depois de um momento, ele virou e andou rapidamente
para a outra saída antes que mudasse de idéia.
Para alguém que sangrava como um porco, Mikhail estava
surpreendentemente rápido. Durante pelo menos vinte minutos,
Nicholai seguiu pingos escuros através de um longo bloqueio, sobre
cascalho e asfalto, grama e escombros, e ainda não tinha avistado o
homem morrendo.
Talvez morrendo seja uma palavra muito forte, considerando...
Nicholai tinha planejado desistir caso não achasse o líder de
pelotão em alguns minutos, porém quanto mais procurava, mais
determinado ficava. Ele acabou ficando nervoso, também – como
Mikhail ousa fugir de sua justa punição? Quem ele pensava que era,
desperdiçando o precioso tempo de Nicholai? Para frustrá-lo ainda
mais, Mikhail tinha coberto uma grande distância e estava levando
Nicholai de volta ao centro da cidade; outro quarteirão e já estaria no
R.P.D. de novo.
Nicholai abriu outra porta, vasculhou outra sala e suspirou.
Mikhail devia saber que estava sendo seguido – ou simplesmente
não tinha o bom senso para cair e morrer. De qualquer modo, não
deveria, não poderia demorar muito agora.
Nicholai andou pelo pequeno e arrumado escritório,
aparentemente parte de uma garagem, os redondos pingos de
sangue arroxeados sob o azul linóleo das lâmpadas enjauladas
acima. Os pingos pareciam estar diminuindo; ou o ferimento estava
fechando – improvável – ou Mikhail tinha achado tempo para cobrir o
ferimento.
Nicholai rangeu os dentes, retomando sua confiança. Ele se
cansará, diminuindo, talvez procurando um lugar para descansar. Eu
vi onde acertei, ele não irá muito longe.
Ele saiu para a escura e cavernosa garagem, o frio ar pesado
com cheiro de gasolina e graxa – e algo mais. Ele parou e respirou
fundo. Uma arma havia sido disparada recentemente, ele tinha
certeza.
Nicholai moveu-se rápida e silenciosamente pelo caminho,
esticando o pescoço perto de um furgão branco que bloqueava uma
das fileiras de carros, e viu o que parecia ser um cachorro
esparramado numa poça de sangue, seu estranho corpo na posição
fetal.
Ele foi em sua direção, enjoado e assustado ao mesmo tempo.
Eles o avisaram sobre os cães, o quanto rápido se infectavam, e
sabia que estudos tinham sido feitos sobre sua viabilidade como
armas na mansão de Spencer...
... e foram considerados perigosos demais quando se voltavam
para seus manipuladores. Não podiam ser treinados e seu nível de
decomposição era mais alto que o do outros organismos.
Verdade, o animal metade sem pele aos seus pés parecia e
cheirava como um pedaço de carne crua exposta ao sol durante
muito tempo. Acostumado com a morte do jeito que era, Nicholai
ainda sentiu ânsia, mas continuou a estudar a criatura, certo de que
o canino foi um alvo recente de tiros.
Certo o bastante. Dois buracos de entrada abaixo da amassada
aba da orelha esquerda... mas não de uma M16, os buracos eram
bem maiores. Nicholai recuou, franzindo. Alguém além de Mikhail
Victor tinha passado por essa garagem na última meia hora, e
provavelmente não era um soldado da U.B.C.S., a não ser que
tenha trazido armas próprias, um revólver talvez – Nicholai ouviu
algo. Sua cabeça levantando, sua atenção voltada para a porta de
saída, bem à frente, às duas horas. Um leve som de deslizamento,
um humano infectado se esfregando na porta talvez – ou talvez um
homem ferido, escorregando e morrendo contra a saída, exausto
demais para continuar.
Nicholai foi para a porta, esperançoso – e sorriu com o som da
voz de Mikhail, esforçada e cansada, flutuando através do velho
metal.
“Não... saiam daqui!”.
Nicholai abriu a porta avidamente, arrancando o sorriso do rosto
enquanto avaliava a situação. Uma grande área bagunçada,
bloqueada, carros empilhados numa inútil barricada, mais dois cães
mortos no chão.
Mikhail estava deitado perto do portão da garagem,
parcialmente encostado na parede e tentando desesperadamente
erguer seu rifle. Sua pálida face estava molhada de suor e suas
mãos tremiam fortemente. A cinco metros dali, metade de uma
pessoa estava se impulsionando na direção do condenado homem,
arrastando-se com as pontas dos dedos rasgados, sua podre e
assexuada face com um permanente sorriso.
Seu progresso era lento, porém constante; parecia que a parte
debaixo do corpo -certamente com metade do sistema digestivo –
não impedia o infectado de querer comer.
Será que eu banco o herói, salvando meu líder de ser
devorado? Ou aproveito o espetáculo?
“Nicholai, me ajude, por favor...”. Mikhail falou roucamente,
rolando sua cabeça para vê-lo, e Nicholai não resistiu. A idéia de
Mikhail ficar grato por ter salvado sua vida parecia
extraordinariamente... divertida, por falta de um termo melhor.
“Agüente firme, Mikhail”. Nicholai disse forçadamente. “Eu
cuidarei disso!”.
Ele arremeteu e pulou, descendo seu calcanhar no crânio do
infectado, fazendo uma careta quando uma grande seção de seu
escalpo deslizou umidamente do osso. Ele desceu o calcanhar de
novo, e novo, e o ex-humano morreu com um grosso e despedaçado
som de esmagamento, seus braços espasmando, seus dedos sem
carne dançando levemente no asfalto. Nicholai virou, voltando e
ajoelhando-se perto de Mikhail.
“O que aconteceu?”. Ele perguntou, sua voz pesada de
preocupação enquanto olhava para o ensangüentado estômago de
Mikhail. “Algum deles te pegou?”.
Mikhail balançou a cabeça, fechando os olhos como se
estivesse exausto demais para mantê-los abertos.
“Alguém atirou em mim”.
“Quem? Por que?”. Nicholai fez o possível para parecer
chocado.
“Eu não sei quem foi e porque? Eu pensei que alguém estivesse
me seguindo, também, mas – talvez me confundiu com um deles.
Um zumbi”.
Na verdade, isso não está tão longe da verdade...
Nicholai teve que conter outro sorriso; ele merecia um prêmio
por sua atuação.
“Eu vi... alguns homens conseguiram escapar”. Mikhail suspirou.
“Se conseguirmos chegar no local do resgate, chamar o
transporte...”.
A Torre do Relógio St. Michael era o suposto local de resgate
para onde os soldados deveriam levar os civis sobreviventes.
Nicholai sabia da verdade – que uma equipe de reconhecimento
desceria primeiro disfarçada de médicos de emergência, e nenhum
helicóptero apareceria a não ser que a Umbrella desse a ordem.
Sendo que os líderes estavam provavelmente mortos, Nicholai teve
que imaginar se algum soldado sabia sobre o “resgate”, mas não era
importante para ele. Isso não afetaria seus planos.
Ele descobriu que não estava gostando daquele jogo tanto
quanto imaginava. Mikhail confiava demais nas pessoas, era como
caçar um cachorro amigável. Era quase vergonhoso olhar, também,
o modo como se rendeu a dor...
“Eu não acho que esteja em condições de viajar”. Nicholai disse
friamente.
“Não é tão ruim. Dói como o inferno, e perdi um pouco de
sangue, mas se conseguir recuperar o fôlego, descansar por alguns
minutos...”.
“Não, parece muito grave”. Nicholai disse. “Mortal. De fato, eu
acho−”.
Creeaak.
Nicholai parou de falar assim que a porta da garagem abriu
perto deles, um lento movimento, e um dos soldados da U.B.C.S.
apareceu, seus olhos iluminando-se ao vê-los, sua metralhadora
abaixando – mas não muito.
“Senhores! Soldado Carlos Oliveira, esquadrão A, Pelotão
Delta. Eu estou... caramba, como é bom ver vocês”.
Nicholai acenou vaziamente, infinitamente incomodado quando
Carlos se agachou ao lado deles, checando o ferimento de Mikhail,
fazendo perguntas idiotas. Ele estava noventa e nove por cento
certo de que poderia matá-los antes que entendessem a situação,
mas até um por cento era muito arriscado considerando o que
estava em jogo. Ele teria que esperar... e talvez achar um jeito de
usar as novas circunstâncias a seu favor.
E caso não... bom, pessoas dão as costas para seus amigos o
tempo todo, não é? E nenhum deles tinha motivos para desconfiar
de Nicholai.
Como era o ditado, sobre um obstáculo ser apenas uma
oportunidade disfarçada? Tudo ficaria bem.
Capítulo 11
Jill parou no portão da Prefeitura, as duas jóias apertadas
firmemente na mão suada. A área estava segura até onde podia ver,
e o restaurante estava vazio; ela não sabia como, mas estava sendo
perseguida, e queria ir embora.
Sua corrida pelos becos atrás do restaurante a haviam deixado
sem fôlego e nem um pouco assustada. Ela quase tropeçou no
corpo de uma criatura incomum, uma que não conseguia ver na
escuridão – mas a silhueta de múltiplas garras penduradas foi o
suficiente para mantê-la correndo. Não se parecia com nada que já
tenha visto antes; isso e a inevitável perseguição de Nêmesis a
deixou num suave pânico. Ela usou isso para dar velocidade a seus
esforços, cuidando para não perder o controle. Ela sabia por
experiência que manter contato com o instinto animal era vital para a
sobrevivência; um pouco de medo era uma coisa boa, mantinha a
adrenalina fluindo.
O relógio ornamental estava instalado sobre um bloco de pedra.
Ela encaixou a jóia azul no lugar, o vidro em forma de diamante
liberando um suave zumbido elétrico, o círculo de jóias piscando. O
losango verde encaixou do mesmo jeito, completando o círculo.
Houve um pesado rangido e os dois portões deslizaram, revelando
um caminho cheio de sombras e envolto por cercas vivas.
Não parecia ruim de onde estava. Ela começou uma quieta
caminhada, aguçando os sentidos. Frio, escuro, uma leve brisa que
se movia prometendo chuva, agitando as folhas das árvores,
gelando o suor de seu rosto e braços. Ela podia ouvir o distante
gemido de um zumbi ecoando pelo ar, e viu o pálido reflexo de luz
lunar nas pedras do chão. Alerta, mas sem perceber perigo
imediato, ela avançou mais, seus pensamentos voltados para Carlos
Oliveira.
Ele estava falando a verdade sobre ser um dos contratados
pela Umbrella e provavelmente não sabia do que a companhia era
realmente capaz, mas também estava escondendo algo. Ele não
mentia tão bem quanto achava, e sua aparente disposição para
mentiras não pegou bem. Por outro lado, ele não parecia ser mau –
talvez um mentiroso com boas intenções, ou pelo menos um que
não queria mal. Ele provavelmente estava tentando ser cauteloso –
fazendo o mesmo que ela. Seja qual for o caso, ela não tinha tempo
para fazer maiores interpretações, e ficaria com a primeira
impressão: ele era um dos mocinhos. Se isso fosse ajudá-la ou não,
já era outra história; por enquanto, ela queria se aliar com qualquer
um que não pretendia matá-la.
Mas eu deveria me juntar com alguém? E se ele ficar no
caminho de Nêmesis, e – Como uma indireta, ela ouviu, uma
malevolente coincidência que pareceu surreal, como uma piada
mortal.
“Sstaarrss−”.
Por falar no demônio, ah, não, onde ele está? Jill estava quase
no meio do pequeno jardim, onde os três caminhos se juntavam, e o
som veio de algum lugar à frente – ou de trás? A acústica era
estranha, o pequeno pátio adiante fazendo o som parecer vir de
toda parte. Ela virou, procurando, mas a passagem atrás dela e as
duas que saíam do pequeno pátio estavam cobertas de sombras.
Qual caminho... ela deu um passo no espaço aberto, ganhando
mais acesso para fuga e espaço para manobrar, caso seja
necessário.
Um sólido e pesado passo. Outro. Jill inclinou a cabeça – e lá, à
frente e à esquerda, no caminho que levava ao bonde. Um grosso
escuro ainda fora de uma clara visão.
Volte, para o prédio da imprensa ou para a delegacia, não, não
vai dar para despista-lo, mas ainda havia ao posto de
abastecimento, tem uma porta de enrolar metálica e um monte de
carros, melhor para se esconder – Adiante e à direita. Um plano
simples era melhor do que nada, e não tinha tempo para considerar
mais opções.
Jill decolou, seu leve bater de botas perdido sob um súbito
estrondo, o crescente berro e o denso pisar de pés semi-sintéticos
na passagem. Ela estava profundamente consciente de si, de seus
músculos contraindo, do som de seu coração e respiração enquanto
voava pelas pedras. Num instante, ela estava no pequeno portão
que levava mais à norte, através de uma quadra cheia de carros
abandonados depois de um posto de abastecimento/oficina, na
direção de – Ela não lembrava. Se a rua estiver vazia, ela poderia ir
na direção da região industrial da cidade, esperando não encontrar
com um grupo de zumbis. Caso barricadas tenham sido erguidas –
aí eu estou ferrada, mas de qualquer jeito já é tarde demais.
Ela deixou o resto de seu corpo bem treinado terminar o
pensamento, rapidamente cruzando o portão e correndo em
disparada para a relativa segurança de um labirinto de carros. Ela
podia senti-lo vindo, e mergulhou nas sombras, entendendo seu
lugar na caçada. Ela era a presa, ela tinha que ser tão evasiva
quanto Nêmesis era determinado; se fizesse certo, ela sobreviveria
e o monstro passaria fome. Se não conseguir...
Sem tempo, chega de pensar. A nêmese estava vindo. Jill
correu.
No escritório do estacionamento, Carlos achou metade de uma
garrafa com água, fita isolante e uma camisa social masculina,
ainda no pacote – o mais próximo de material esterilizado que
conseguiriam ter. Ele imediatamente começou a fazer o que podia
por Mikhail enquanto Nicholai olhava para os carros quebrados no
escuro de metralhadora na mão. O pátio fora da garagem estava
calmo exceto pela áspera respiração de Mikhail e o solitário berro de
um distante corvo.
Carlos não sabia muito além de curativo simples, mas não
achou que o ferimento estivesse tão ruim; a bala tinha atravessado o
lado de Mikhail, não muito longe do osso da bacia; dois ou quatro
centímetros para dentro e estaria ferrado, um tiro no fígado ou no
rim seria morte garantida. Mesmo assim, seu intestino devia ter sido
perfurado; isso provavelmente o mataria, mas com atenção médica,
ele ficaria bem por enquanto.
Carlos limpou e cobriu o ferimento, comprimindo, amarrando
tiras da camiseta em volta do tronco de Mikhail para pressionar. O
líder de pelotão parecia estar agüentando a dor apesar de estar
enjoado com a perda de sangue.
Pelo canto do olho, Carlos percebeu que Nicholai estava se
movendo. Ele terminou de prender a atadura com fita e olhou para
cima, viu que o líder de esquadrão havia tirado um computador
portátil da mochila e estava digitando, seu olhar concentrado. Ele
havia tirado o rifle do ombro e estava sentado perto de uma
caminhonete amassada.
“Senhor – é, Nicholai, eu terminei”. Carlos disse, levantando.
Mikhail tinha insistido para deixarem as formalidades de lado,
dizendo que a situação demandava flexibilidade. Carlos tinha
concordado apesar de ter achado que Nicholai não havia gostado
muito; ele parecia ser do tipo que seguia o manual de instruções.
Mikhail, pálido e de olhos fundos, levantou-se apoiado nos
cotovelos. “Você consegue usar essa coisa para chamar o
resgate?”. Sua voz foi fraca.
Nicholai balançou a cabeça, suspirando. Ele fechou o
computador e o colocou na mochila. “Eu o achei na delegacia e
pensei que fosse ser útil – listas de barricadas, talvez, ou mais
informações sobre esse desastre”.
“Deu sorte?”. Mikhail perguntou.
Nicholai foi até eles, suas expressões negativas. “Não. Eu acho
que nossa melhor opção é tentar chegar à torre do relógio”.
Carlos franziu. Trent havia falado sobre haver armas na torre do
relógio, e que partir de lá, deveria continuar à norte; com o bonde da
Jill e essa nova informação, ele se sentiu perseguido por
coincidências. “Por que a torre do relógio?”.
Mikhail respondeu, falando suavemente. “Evacuação. É para
onde nós deveríamos levar os civis e chamar os transportes. Os
sinos do relógio estão programados para tocar por computador, um
sistema que emite um sinal quando o programa está sendo usado.
Nós tocamos os sinos e o helicópteros vem. Bonitinho, né?”.
Carlos imaginou por que ninguém tinha se preocupado em
incluir essa pequena informação na reunião, mas decidiu não
perguntar. Realmente não importava agora; eles tinham que chegar
ao bonde. Ele não conhecia bem Nicholai, mas Mikhail não era
ameaça, não em suas condições, e precisava chegar ao hospital.
Trent falou que havia um não muito longe da torre do relógio.
Mas os olhos e ouvidos da Umbrella – Não. Suas histórias eram
as mesmas que a dele; eles lutaram e viram seus colegas
morrerem, se perderam, procuraram uma saída e acabaram aqui.
Parece estranho ter mais duas pessoas envolvidas de repente. Trent
o estava fazendo questionar os motivos de todo mundo agora,
imaginando quem estaria envolvido na suposta conspiração da
Umbrella, preocupando-se com o que dizer e não dizer.
Além disso, a Umbrella ferrou eles também. Por que ajudariam
os desgraçados que nos colocaram aqui? Trent pode estar dizendo
a verdade, mas não está aqui. Eles estavam, e eu preciso deles.
Nós precisamos deles. Jill não recusaria ter alguns soldados ao seu
lado.
“Tem um bonde que podemos usar para sair daqui”. Carlos
disse. “Direto para a torre do relógio, eu acho. Está perto, vai para
oeste... e com todas aquelas coisas procurando por carne fresca−”.
“Nós podíamos usá-lo para sair da cidade”. Nicholai
interrompeu, acenando. “Considerando que os trilhos estejam
desimpedidos. Ótimo. Você tem certeza de que está em condições
para funcionar?”.
Carlos hesitou, e deu com os ombros. “Eu não cheguei a vê-lo.
Eu encontrei uma – policial, eu acho, uma mulher, ela falou sobre
ele. Ela estava a caminho de lá para ver, ela disse que esperaria por
mim. Eu quis ver se conseguia achar mais alguém antes de partir”.
Carlos quase se sentiu culpado em falar dela para eles, e percebeu
que estava se deixando levar pelo papo de espião de Trent. Por que
manter Jill em segredo? Quem se importa?
Mikhail e Nicholai trocaram um olhar e depois acenaram. Carlos
estava agradecido. Finalmente um plano de verdade, um plano de
ação. Pior do que ficar atolado na merda era ficar atolado na merda
sem direções.
“Vamos”. Nicholai disse. “Mikhail, você está pronto?”.
Mikhail acenou, e juntos, Carlos e Nicholai o ergueram,
suportando seu peso pela metade. Eles entraram na garagem e
quase alcançaram o escritório quando Nicholai soltou um inofensivo
palavrão e parou.
“O que?”. Mikhail fechou os olhos, respirando fundo.
“Os explosivos”. Nicholai disse. “Não acredito que esqueci
porque tinha seguido esse caminho. Depois que achei Mikhail, eu
acabei−”.
“Explosivos?”. Carlos perguntou.
“É. Logo depois que os zumbis atacaram, e meu esquadrão−”.
Nicholai engoliu, obviamente tentando manter sua postura. “– depois
que os zumbis atacaram, eu acabei num canteiro de obras na área
industrial. Um prédio estava sendo demolido, eu acho, e haviam
algumas caixas com avisos de explosivos. Havia um trailer trancado,
eu ia arromba-lo mas outro bando deles apareceu”.
Ele encontrou o olhar de Carlos sinceramente. “Eles pensariam
duas vezes antes de nos atacar se tivermos algumas dinamites
RDX. Você acha que consegue chegar no bonde sem mim? Eu
posso te encontrar lá”.
“Eu acho que não devemos nos separar”. Mikhail disse.
“Teremos maiores chances se−”.
“Se tivermos um jeito de mantê-los longe”. Nicholai completou a
frase. “Nós não podemos ficar sem munição, não sem outra coisa de
reserva. E há mais para se considerar, as criaturas...”.
Carlos não achava a idéia de se separar muito boa, também,
mas ao se lembrar daquela coisa cheia de garras perto do
restaurante – e aquele grande feón dentro do restaurante? Jill disse
que viria atrás dela novamente...
“Tá bom”. Carlos disse. “Nós esperaremos no bonde”.
“Bom. Não vai demorar”. Sem mais palavras, Nicholai virou e
andou rapidamente para fora da garagem.
Carlos e o pálido Mikhail se esforçaram em silêncio. Eles
passaram pelo escritório e saíram na rua antes de Carlos perceber
que Nicholai não tinha se preocupado em saber como chegar até o
bonde.
Nicholai teria que resistir à vontade de verificar o computador
quando saísse do alcance deles; ele tinha perdido tempo demais
bancando o honesto líder de esquadrão com os dois soldados. Já
tinha se passado dezenove minutos desde que o Capitão Davis
Chan preencheu um relatório de status em um dos escritórios de
vendas da Umbrella – a duas quadras da garagem – e se Nicholai
tiver muita sorte, ele pode pegar Chan em ação, checando textos
atualizados ou tentando entrar em contato com um dos
administradores.
Nicholai correu por um beco cheio de panfletos, saltando sobre
vários corpos espalhados, evitando os braços e cabeças caso não
estejam mortos. E realmente, uma das criaturas estouradas no final
do beco esticou-se e tentou agarrar sua bota esquerda. Nicholai
pulou sobre ele sem problemas, sorrindo um pouco com o frustrado
gemido. Quase tão patético quanto o de Mikhail.
Mas Carlos Oliveira. Mais esperto do que parecia, e
definitivamente mais inteligente – não mais que ele, claro, e Nicholai
vai querer matá-lo o quanto antes...
... ou não. Eu poderia poupá-lo completamente.
Nicholai cruzou uma porta de metal à direita e entrou em outro
beco forrado de restos humanos, considerando suas opções
enquanto corria. Ele não precisava ir para a torre do relógio,
somente para o hospital – e não precisava pegar o bonde. Enganar
Mikhail e Carlos era mais divertido, porém não uma necessidade.
Ele até podia deixá-los viver, se assim escolhesse...
Ele sorriu, fazendo uma curva no sinuoso beco. Que graça isso
teria? Não, ele queria ver a confiança nos olhos deles desmoronar,
vê-los perceberem o quanto burros tinham sido – Tic tic tic.
Nicholai congelou, entendendo o som instantaneamente. Garras
sobre pedra bem à frente, o quase gentil bater vindo das sombras
acima à direita. A única luminária do local estava atrás dele na curva
do beco, uma das fluorescentes de segurança barulhentas que mau
tinha força para se manter; ele recuou até ela, os tics se
aproximando rápido, a criatura ainda fora de visão.
“Mostre-se, então”. Ele resmungou, frustrado com outro
problema de tempo. Ele tinha que chegar ao escritório de vendas
antes que Chan desaparecesse, ele não tinha tempo para lutar com
uma das aberrações da Umbrella, por mais que quisesse.
Tic tic tic.
Dois deles! Ele pode ouvir garras arranhando cimento à sua
direita, onde tinha acabado de estar, ao mesmo tempo um infernal
berro soou à sua frente, um som igual ao de loucura, como almas
sendo rasgadas – e lá estava ele, gritando, saltando do escuro
enquanto o outro o acompanhava na canção monstruosa.
Ouvindo tudo em estéreo, Nicholai viu as garras em forma de
gancho erguerem-se de um deles, as proeminentes e babantes
mandíbulas, os brilhantes olhos de inseto, e sabia que o outro
estava a apenas um segundo atrás de seu irmão, preparando-se
para saltar enquanto o primeiro ainda pousava.
Nicholai abriu fogo, o chocalho da metralhadora perdido sob os
gritos dos gêmeos, as balas achando o destino no primeiro, seu grito
mudando enquanto contorcia-se até parar a três metros de
distância, buracos sangrentos surgindo em seu negro exoesqueleto
como flores abrindo explosivamente. Tal como o primeiro, o
segundo se contorceu até cair imóvel, seu agudo berro virando
gargarejo até o silêncio.
Nicholai ficou de pé, abatido, incerto sobre a espécie – ou era o
brain sucker (sugador de cérebro) ou o mais anfíbio deimos, outro
cheio de pernas da família. Ele esperava mais ferocidade e método
de ataque, mas não tinha entendido como haviam sido tão rápidos.
Se eu estivesse um segundo atrasado...
Sem tempo para imaginar, ele estava com pressa. Ele avançou,
passando rapidamente pelos escuros e ensangüentados membros
espalhados, correndo assim que passou.
A cada passo mais longe das criaturas mortas, ele sentia sua
compostura voltar, sentia uma descarga de realização esquentá-lo
por dentro. Eles foram rápidos, mas ele foi mais – e com tais
monstros soltos na cidade, ele não teria que se preocupar com
Carlos, Mikhail ou ninguém escapando do destino. Se não conseguir
fazer com as próprias mãos, ele podia ter certeza de que seus
camaradas certamente virariam presas de uma dezenas de horrores,
seus reflexos inadequados falhando, a falta de habilidade
assegurando suas mortes.
Nicholai apertou a pega da M16, uma onda de elevação
adicionando velocidade a cada passo. Raccoon não era um lugar
para os fracos. Ele não tinha o que temer.
Capítulo 12
A porta de aço que protegia a entrada da loja de conveniências
estava abaixada e trancada, mas Jill havia conseguido entrar pela
oficina, chegando na loja por uma porta lateral. Era uma boa loja,
bem protegida contra ladrões e certamente contra zumbis – mas Jill
não tinha dúvidas de que se Nêmesis quisesse entrar, nada o
impediria. Ela só tinha que esperar que não a tivesse seguido até
lá...
... apesar de fazer isso muito bem.
Jill não tinha idéia. Ele sentia seu cheiro? Talvez não,
considerando sua caminhada cuidadosa e sem respiros até o posto;
ela tinha pulado de sombra em sombra, ouvindo o barulhento e
desajeitado progresso de Nêmesis enquanto procurava por ela no
meio do monte de carros abandonados. Se perseguisse pelo cheiro,
já a teria pego... mas como sabia quem ela era, especificamente?
Se uma mulher de seu tamanho entrasse no caminho, seria
confundida com Jill?
Jill andou pela oficina bem iluminada, suas botas fazendo
barulhos molhados sobre o chão grudento de óleo, seus
pensamentos bem longe enquanto reconhecia o local e checava as
portas. Ela não sabia como Nêmesis foi programado para achar e
matar os S.T.A.R.S., ou porque parecia interromper a perseguição
às vezes; com Brad morto, ela era o único membro do S.T.A.R.S.
ainda em Raccoon.
A não ser... Irons, o chefe da polícia, já foi um membro da
equipe B uns vinte anos atrás, e provavelmente ainda estava na
cidade...
Jill balançou a cabeça. Ridículo. Chris tinha conseguido
informações o suficiente para ter quase certeza de que Irons estava
trabalhando para a Umbrella, do mesmo jeito que suspeitava do
misterioso Sr. Trent – a diferença era que Trent parecia querer
ajudá-los, enquanto Irons era um corrupto que não se importava
com ninguém além de si mesmo. Se Irons estiver na lista de
Nêmesis, Jill até ficaria de acordo.
Da oficina, ela entrou num tipo de combinação entre escritório e
sala de descanso – uma máquina de soda, uma pequena mesa com
algumas cadeiras e uma escrivaninha bagunçada. Jill tentou o
telefone a princípio, ouvindo o sinal mudo que esperava.
“Agora é só esperar, eu acho”. Ela disse para ninguém,
encostada no balcão. Se Nêmesis não aparecer em alguns
momentos, ela sairia de novo e voltaria para o bonde. Ela imaginou
se Carlos já estava lá, e se achou algum sobrevivente de seu
pelotão – como era mesmo? Umbrella Bio-Hazard alguma coisa.
Provavelmente uma de suas ramificações semi-legítimas; seria bom
para relações públicas, assim que as notícias sobre Raccoon
vazassem.
A administração da Umbrella seria capaz de apontar para sua
força tarefa especial e dizer à mídia o quanto rápido agiu ao saber
do acidente.
Exceto que não chamará de acidente, porque isso significaria
negligência de sua parte; com certeza já arrumaram um bode
expiatório pronto para ser crucificado, algum desafortunado
empregado a ser culpado pela morte de milhares...
Não se ela puder ajudar, não se seus amigos puderem ajudar;
de um modo ou de outro, a verdade viria à tona.
Tinha que vir.
Jill reparou em algumas ferramentas – um conjunto de chaves
inglesas, pés-de-cabra – e percebeu que seria útil levar algumas
coisas para o bonde. Não seria bom chegar lá e acabar precisando
de uma chave-de-fenda ou coisa do tipo, algo de que precisassem
buscar lá. Ela não sabia nada sobre mecânica, talvez Carlos tivesse
mais experiência – Thump! Thump! Thump!
Jill se agachou atrás do balcão assim que ouviu as lentas e
pesadas batidas na porta da oficina, persistentes e constantes.
Nêmesis. Não, as pancadas eram altas mas não poderosas, ou
eram humanas ou – “Uuhh”. O gentil choro de fome foi filtrado pela
porta, acompanhado por outro, depois um terceiro, depois um coral.
Contaminados, e parecia um grande grupo deles. Qualquer alívio
que sentiu ao perceber que não era Nêmesis, se foi; uma dúzia de
zumbis socando a porta como se houvesse uma placa escrita com
néon dizendo COMIDA BOA.
E como exatamente vou sair daqui agora.
O simples plano de se esconder até Nêmesis ir embora foi
arruinado. Ela precisava de outro plano, de preferência um que
tivesse mais do que alguns segundos para estudar.
Então pense em algo já. A não ser que queira sair e bater em
todo mundo.
Jill suspirou, o baixo nó de enjôo em seu estômago tão
constante que já nem reparava mais. Lá fora, os apodrecidos
infectados continuavam gemendo, batendo desesperadamente na
porta.
É melhor rever suas opções; ela só tinha alguns minutos para
gastar.
Eles chegaram ao bonde sem problemas.
Carlos estava sentindo-se esperançoso quando entraram na
área da estação, iluminada por uma grande massa de escombros
em chama de um lado – nenhum zumbi, nenhum monstro, e Mikhail
não parecia estar piorando. O portão da Prefeitura estava aberto,
várias jóias acopladas em algum tipo de relógio num pedestal ao
lado. Carlos esperava que ela conseguisse, mas ainda assim era
um alívio.
“Lá está”. Mikhail disse, e Carlos acenou torcendo o nariz
quando uma corrente de fumaça cheirando podridão passou por
eles. À direita deles estava uma grandiosa e antiga construção, ou
era a estação de bonde ou o suposto prédio da Prefeitura. À frente,
depois de um monte de caixas que bloqueavam o caminho, estava o
bonde já fora de moda, sua pintura vermelha levemente desbotada.
Assim que se aproximavam, Carlos pôde ver que um segundo
vagão estava engatado, quase todo escondido na sombra da
marquise do prédio.
Jill provavelmente estava esperando por eles. Carlos empurrou
algumas das caixas para o lado com a perna, Mikhail encostado
contra a parede da estação.
“Quase lá”. Carlos disse.
Mikhail sorriu fracamente. “Aposto como ficará agradecido
quando colocar o meu traseiro num assento”.
“Ficaria mais colocando o meu próprio. Uma passagem só de
ida fora daqui”.
Mikhail conseguiu uma risada. “Eu ouvi”.
Eles andaram sob a marquise, Carlos procurando movimento
através das janelas de ambos os vagões. Ele não viu nada; pior, ele
não sentiu nada. O lugar parecia totalmente deserto, quieto e sem
vida.
Espero que não esteja cochilando aí dentro, Jill Valentine.
A porta deslizante do primeiro vagão estava trancada; para
alívio mútuo, a do segundo não. Depois de vasculhar o vagão por
entro para ter certeza de estar vazio, Carlos ajudou Mikhail a subir,
deitando-o num assento sob a janela. Assim que o líder de pelotão
deitou, pareceu desmaiar.
“Eu vou checar o outro vagão e ver se consigo acender as
luzes”. Carlos disse, Mikhail gemeu em resposta.
Sem novidade, Jill não estava no outro vagão, mas Carlos
achou o controle elétrico perto do assento do condutor. Ao apertar
um botão, uma fileira de luzes acima acendeu, iluminando um velho
chão de madeira e assentos de vinil vermelho ao longo da lateral.
“Onde está você, Jill?”. Carlos sussurrou, sentindo uma
verdadeira preocupação por ela. Se algo aconteceu, ele se sentiria
um pouco responsável por não tê-la acompanhado ao restaurante.
Mikhail estava quase inconsciente quando Carlos o verificou,
mais para sono do que para coma. Até um médico olhar o ferimento,
descanso era provavelmente o melhor para ele.
Havia um painel de controle na parte de trás do último vagão, e
Carlos se ajoelhou para examinar. Seu coração caiu quando
descobriu ser parte de um sistema primário de energia, e que alguns
componentes estavam faltando. Ele não sabia nada sobre bondes,
mas não precisava ser gênio para saber que uma máquina não
funcionaria se os cabos fossem arrancados, principalmente em um
sistema tão antigo. Parecia estar faltando um fusível também.
“Hijo de la chingada” . Ele cochichou e ouviu uma frágil risada.
“Eu sei espanhol o suficiente para saber que você não deveria
beijar a sua mãe com essa boca”. Mikhail disse.
“O que foi?”.
“Está faltando um fusível”. Carlos disse. “E esses circuitos foram
encurtados. Teremos que arrumar isso para fazer essa coisa andar”.
“À nordeste daqui...”. Mikhail começou, e parou para respirar
um pouco antes de continuar. “Tem um posto de gasolina. Loja de
reparos. Era um dos pontos de referência no... mapa da cidade,
antes dos subúrbios.
Provavelmente deve haver equipamento lá”.
Carlos pensou nisso. Ele não queria deixar Mikhail sozinho, Jill
ou Nicholai podia aparecer a qualquer minuto...
... mas não iremos à parte alguma sem um cabo de energia e
um fusível de alta voltagem, e Mikhail está escorregando por um
abismo; que escolha eu tenho?
“Está bem”. Carlos disse suavemente, indo até Mikhail. Ele
olhou para baixo, preocupado com a cor de suas bochechas, o
oleoso suor em seu pálido rosto. “Acho que vou até lá – quer ir
comigo?”.
“Ha ha”. Mikhail sussurrou. “Tenha cuidado”.
Carlos acenou. “Tente dormir um pouco. Se alguém aparecer,
diga que já volto”.
Mikhail já estava começando a cochichar. “Claro”. Ele falou.
Carlos certificou-se de que o rifle de Mikhail estava carregado, e
colocou perto do assento acolchoado, à fácil alcance. Ele olhou em
volta procurando algo para dizer, palavras de conforto, e finalmente
apenas virou e foi para a saída. Mikhail não era burro, ele sabia
quais eram os riscos.
Sua vida e outras coisas.
Carlos respirou fundo e abriu a porta, rezando para o posto não
estivesse longe demais.
Chan não estava lá e não havia como saber para onde tinha
ido, Nicholai o perdeu por alguns minutos. O computador de onde
aparentemente reportou ainda estava quente, o vidro do monitor
arrepiando de eletricidade estática. Impulsivamente, Nicholai ergueu
o monitor e o arremessou pela sala, mas não ficou satisfeito com
sua mundana explosão de vidro e plástico barato. Ele queria
sangue. Se Chan voltasse para o escritório, Nicholai bateria nele
severamente antes de tirar sua vida.
Ele caminhou pelo pequeno e bagunçado escritório, enfurecido.
Ele me atiça com sua ignorância. Ele é tão burro, tão distraído,
como pode ser tão inferior e ainda estar vivo? Nicholai sabia que
não era um pensamento estritamente racional, mas estava furioso
com Chan. Davis Chan não merecia ser um Watchdog, ele não
merecia viver.
Gradualmente, Nicholai se controlou, respirando
profundamente, forçando a si mesmo a contar até cem em pares.
Ainda era o começo do jogo. Além disso, o plano de Nicholai
dependia da posse das informações que a Umbrella queria – e se
pretendia roubar essas informações, deveria dar algum tempo para
os outros Watchdogs as coletarem. Os relatórios de campo diários
eram apenas um resumo de condições e contagem de corpos,
usados mais como marca-ponto; conteúdo de verdade estaria sendo
armazenado em discos, transcritos de documentos achados ou
recolhidos dos arquivos de alguém, somente reportados se o
Watchdog considerar de extrema importância.
E... enquanto eu espero, posso encontrar com meus
companheiros no bonde.
Nicholai parou de andar, percebendo que tinha gostado de
enganar Carlos e Mikhail. De alguma forma, ter um a mais no jogo o
tinha tornado mais interessante. Será que eles suspeitaram? O que
estavam falando sobre sua repentina partida? O que pensavam
dele?
E como seria presenciar a lenta e crucial perda de vida de
Mikhail, vê-lo perder sua capacidade de raciocinar enquanto o jovem
protagonista, Carlos, luta ingenuamente para entender as
estranhezas? Nicholai podia desativar o mecanismo dos sinos ao
chegarem na torre do relógio... talvez voluntariar-se corajosamente a
procurar o hospital e trazer suprimentos – Nicholai riu de repente,
um áspero latido na quieta sala. Ele tinha que matar o Dr. Aquino – o
cientista que deveria reportar do hospital, o mesmo que trabalhava
com a vacina – de qualquer forma, ele sabia que Aquino fora
ordenado a destruir o hospital antes de sair de Raccoon, eliminando
as evidências de sua pesquisa. E também havia uma espécie
orgânica específica guardada no hospital cuja Umbrella decidiu
abandonar, a série Hunter Gamma. Sendo assim, a destruição do
hospital significaria cumprir dois objetivos pelo preço de um.
Parecia que os HG não eram efetivos em custo, apesar de ter
havido uma séria discussão sobre destruir ou não os protótipos. Se
Nicholai pudesse atrair Carlos para combater um deles, teria
valiosas informações de sua autoria para vender... e ele também
estaria cumprindo dois objetivos com apenas uma ação.
Tudo surgiu de uma vez, havia um tipo de simetria nisso tudo.
Ele abandonaria esse plano caso algo desse errado, claro, ou se
achasse que não combinaria com seus objetivos. Ele não era idiota
– mas ter um projeto para ocupar seu tempo livre o impediria de ficar
frustrado demais.
Nicholai virou e foi para a porta, impressionado com a própria
indulgência. Raccoon City era como um reino assombrado onde ele
ditava as regras, capaz de fazer como quisesse – tudo o que
quisesse. Mentir, matar, banhar-se na glória da derrota de outro
homem. Era tudo seu por submeter-se, e com uma recompensa no
final.
Nicholai voltou a se sentir como ele mesmo. Era hora de jogar.
Capítulo 13
Jill tinha finalmente decidido abrir a porta metálica de enrolar
quando ouviu tiros lá fora, o alto e intenso barulho de uma
metralhadora. Dizer que estava aliviada era pouco; as incansáveis
pancadas dos mortos lá fora estiveram devorando seus nervos,
quase a fazendo atirar em si mesma, só para não ouvi-los mais – e
agora, em questão de segundos, o silêncio retornou.
Ela foi rapidamente para a porta lateral até a oficina, andando
abaixada na ponta dos pés sob um carro vermelho em cima de um
elevador hidráulico, encostando seu ouvido no fino metal. Tudo
estava quieto, os infectados certamente mortos – Bam-bam-bam!
Jill se jogou para trás assim que alguém socou a porta, seu
coração contendo-se.
“Ei, tem alguém aí dentro? Os zumbis estão mortos, pode abrir
agora!”.
O sotaque era inconfundível; Carlos Oliveira. Aliviada, Jill girou
a trava, anunciando-se enquanto erguia a porta.
“Carlos, aqui é Jill Valentine”.
Ela estava feliz em vê-lo, e o olhar no rosto dele era tão
sinceramente animado que quase se sentiu tímida de repente. Ela
se afastou da porta para que ele pudesse entrar.
“Que bom que você está bem, quando não te achei no bonde
pensei...”. Carlos parou de falar, o que havia “pensado” obvio
demais. “Bom, é muito bom vê-la de novo”.
Sua aparente séria preocupação por ela foi uma surpresa, e
não sabia como responder – com irritação, por estar sendo
protegida? Ela não se sentia irritada. Ter alguém interessado em
seu bem estar, principalmente considerando o tipo de caos no qual
estava, era – -até que bom.
O fato de alguém ser alto, moreno e bonito também não era
algo tão ruim, né? Jill instantaneamente derrubou o pensamento.
Verdade ou não, era uma questão de sobrevivência; eles podiam se
olhar mais tarde, se sobreviverem juntos.
Carlos não pareceu notar seu leve desconforto. “Então, o que
está fazendo aqui?”.
Jill deu um leve sorriso. “Eu fiquei encurralada. Não me diga
que viu o monstro de Frankenstein vagando lá fora?”.
Carlos franziu. “Você viu ele de novo?”.
“Ele não, aquilo. Aquilo se chama Tyrant, se é o que eu acho
ser – talvez uma variação. Bio-sintético, extremamente forte e difícil
de matar. E parece que a Umbrella descobriu como programá-lo
para uma tarefa específica – nesse caso, me matar”.
Carlos olhou cético. “Por que você?”.
“É uma longa história. Resumindo, eu sei demais. Em todo
caso, eu estava me escondendo aqui, e−”.
Carlos terminou para ela. “Mas uma gangue de zumbis
apareceu e não te deixou partir, certo?”.
Jill acenou. “E você? Você disse que conseguiu achar o bonde,
e o que faz aqui?”.
“Eu encontrei outros dois caras da U.B.C.S. um deles levou um
tiro e ainda está vivo, mas não muito bem.
Mikhail. Nicholai – o outro – sabia onde achar explosivos, então
eu e Mikhail fomos para o bonde esperá-lo.
Parece que há um resgate aguardando, se conseguirmos
chegar na torre do relógio e tocar os sinos. Nós tocamos os sinos, os
helicópteros vêm”.
Ele percebeu as expressões de Jill e balançou o ombro,
sorrindo.
“É, eu sei. É algum tipo de sinal computadorizado, eu não sei
como funciona. São boas notícias exceto pelo bonde não estar
funcionando, precisamos de algumas coisas – um cabo de energia e
um daqueles fusíveis antigos, para começar. Mikhail disse que havia
uma loja de reparos por aqui; ele é um dos líderes de pelotão, ele
deu uma olhada no mapa antes de pousarmos...”.
Carlos franziu, depois acenou para si mesmo como se
resolvesse algum quebra-cabeça. “Nicholai deve ter visto um mapa
também, isso explicaria porque não precisou de direções”.
“Carlos, Mikhail, Nicholai – a Umbrella não discrimina
nacionalidades, não é?”. Jill fez a piada fora de hora, mais para
encobrir um profundo senso de insegurança. Ela achava Carlos de
bom coração, mas os outros dois soldados da Umbrella, um deles
líder de pelotão – quais eram as vantagens de ter três caras que
foram enganados pelo seu empregador? A Umbrella era o inimigo,
ela tinha que ter isso em mente.
Carlos já estava andando, sua atenção voltada no carro
erguido. “Se estavam revirando a parte elétrica deveria haver... ali, é
aquilo que estou procurando!”.
Parecia que Carlos tinha visto o cabo que queria, um
emaranhado de cordas e arames sob o capô do carro, alguns deles
conectados numa máquina que Jill não conhecia, e outros sobre o
chão oleoso.
“Cuidado!”. Jill disse, indo até lá enquanto ele se esticava para
pegar um dos cabos, verde escuro. Ela tinha uma desconfiança
instintiva de aparelhos elétricos, e acreditava que pessoas que
mexiam com essas coisas estavam querendo ser eletrocutadas.
“Não esquenta”. Carlos disse descontraído. “Só um verdadeiro
baboso deixaria qualquer um desses ligados na−”.
Crack!
Uma faísca branca-alaranjada foi cuspida da ponta de um dos
cabos no chão, alto e brilhante, tão explosiva quanto um tiro. Antes
que Jill pudesse respirar, o chão de cimento estava em chamas –
não houve crescimento gradual nem senso de expansão,
simplesmente começou a flamejar, as chamas a sessenta, noventa
centímetros de altura, e aumentando.
“Por aqui!”. Jill gritou, correndo para a porta lateral, o fogo
alimentado pelo óleo jogando calor contra sua pele nua. Quando
atingir o tanque de combustível do carro, vai explodir, nós temos que
sair daqui – Carlos estava logo atrás dela, e enquanto corriam pelo
escritório, Jill sentiu seu sangue gelar. Dane-se o carro, ele não seria
nada se comparado ao que aconteceria se o fogo atingisse os
tanques subterrâneos do posto.
Havia uma corrente na polia ao lado da porta de aço que
bloqueava a porta da frente. Jill correu para ela, mas Carlos estava
um passo à frente. Ele soltou a corrente e puxou, mão após mão, a
porta erguendo-se vagarosos centímetros para cima junto com o
frenético bater de articulações metálicas.
“Agache e engatinhe”. Carlos disse, gritando para ser ouvido
sobre o barulho da porta e sobre as ondas de fogo espalhando-se
pela loja.
“Carlos, os tanques externos−”.
“Eu sei, agora vai!”.
A ponta da porta estava a quase cinqüenta centímetros do
chão. Jill desceu, agachando-se contra o frio chão, gritando para
Carlos antes de se arrastar para fora.
“Pode parar, está bom o bastante!”.
E ela passou, ficando de pé e virando para agarrar a mão de
Carlos e levantando-o. Dentro da loja, algo explodiu, um abafado
whoop, talvez um botijão de gás ou aquele armário cheio de óleo
automotivo, Jesus, eu devo estar amaldiçoada, as coisas não param
de explodir perto de mim – Carlos agarrou seu braço, tirando-a de
seu estado de choque. “Vamos!”.
Não precisou dizer duas vezes. Com a crescente luz tocando as
janelas da loja, iluminando os corpos de laranja, pelo menos oito
infectados, ela correu, Carlos ao seu lado. O engarrafamento estava
ruim, a rua estava obstruída, nenhum caminho livre para
conseguirem a tempo. Jill pôde sentir os segundos voarem enquanto
corriam pelo labirinto de ferro-velho e vidro quebrado. A primeira
explosão de verdade e o som de janelas estilhaçando esteve muito
perto, eles ainda não estavam longe o bastante, mas tudo o que
podiam fazer era o que estavam fazendo – além de estarem rezando
para que o fogo não chegasse aos tanques de alguma forma.
Talvez devêssemos nos proteger, talvez estejamos fora do raio
de explosão e – Por algum motivo, ela não ouviu – ou sim, ela ouviu
uma repentina e total ausência de som. Concentrada demais em
costurar o silencioso trânsito na escuridão, a circulação de sangue
em seus ouvidos, o tempo passando, talvez. Tudo o que sabia era
que estava correndo, e depois houve uma gigante onda de pressão
que a impulsionou para frente, erguendo-a ao mesmo tempo, a
lateral de uma caminhonete batida se aproximando rapidamente e
Carlos gritou algo – e depois não houve nada além de escuridão,
nada além de um distante sol que corria pelos cantos de sua
escuridão, enviando-lhe sonhos de furiosa luz.
Mikhail estava afundando, descendo num febril delírio que
certamente o mataria. Tudo o que conseguiu ouvir do condenado
homem foi que Carlos havia ido pegar algumas coisas para
consertar o bonde e que voltaria logo. Se tivesse mais, Nicholai teria
que esperar – até a febre de Mikhail passar ou Carlos voltar,
nenhuma das opções parecia boa. Mikhail só iria piorar, e a
profunda e estrondosa explosão que agitou o chão sob o bonde, que
tinha lançado um relâmpago no céu noturno à norte, sugeria que
tinha acontecido um incêndio no posto de gasolina – não
necessariamente culpa de Carlos, mas Nicholai suspeitava que sim,
e que Carlos Oliveira tinha virado churrasco.
O que significa que terei de achar um cabo de energia sozinho
se quiser carona para o hospital.
Irritante, mas não tinha outra escolha. Nicholai tinha achado
uma caixa de fusíveis e um galão de 20 litros de óleo mixado, mais
do que suficiente para levar o bonde até o hospital – mas nenhum
cabo, nenhuma fiação que pudesse completar os circuitos. Nicholai
imaginou porque Carlos não procurou na sala de manutenção da
estação, e decidiu que foi por falta de imaginação.
“Não, não, não pode – atirem! Atirem à vontade, eu acho... eu
acho...”.
Nicholai levantou o olhar da inspeção no painel de controle do
bonde, curioso, mas seja lá o que Mikhail disse foi perdido assim
que retornou ao seu problemático sono, o velho assento rangendo
com seus pesados movimentos. Era patético. Ele podia ao menos
ter dito algo interessante.
Nicholai ficou de pé e se espreguiçou, virando para a porta. Ele
já tinha adicionado óleo no rudimentar tanque do motor, mas tinha
pego o fusível errado. Ele pegaria outro ao voltar para o centro,
provavelmente todo o caminho até a mesma garagem maldita onde
havia perseguido Mikhail; ele tinha visto algumas prateleiras de
equipamento lá. Ir e voltar estava ficando cansativo, mas pelo
menos a maioria dos canibais do caminho já tinham sido mortos, e
não demoraria muito – e quando retornasse, recompensaria a si
mesmo contando à Mikhail quem foi o responsável por sua iminente
morte.
Ele saiu para a área de embarque, pensando vagamente onde
passaria a noite quando viu duas figuras cambaleando na direção do
bonde, suas formas meio escondidas na vasta luz de uma barricada
em chamas no canto nordeste do pátio. Ao se aproximarem, viu que
Carlos tinha conseguido escapar da morte e trazido uma mulher
consigo, certamente a mesma que o informou sobre o bonde. Ambos
estavam chamuscados, suas peles avermelhadas e borradas de
cinzas; talvez não estivessem tão longe do local da explosão...
... e mais uma vez, que comecem os jogos!
“Carlos! Você está ferido? Algum de vocês?”. Ele avançou para
que pudessem vê-lo melhor, seu rosto profundamente preocupado.
Carlos estava obviamente feliz em vê-lo. “Não, eu – ambos
estamos bem, só um pouco detonados. O posto pegou fogo e
explodiu. Jill apagou por um minuto ou dois, ela está...”.
Carlos subitamente limpou a garganta, acenando para a mulher.
“É, Jill Valentine, este é o Sargento Nicholai Ginovaef, U.B.C.S.”.
“Só Nicholai, por favor”. Ele disse, e ela o olhou, suas
expressões ilegíveis. Parecia que a Senhorita Valentine não estava
interessada em fazer amigos. Isso o agradou, apesar de não saber
porque. Ela carregava um revólver .357 na mão e o que parecia
uma 9mm presa na cintura de sua mini-saia extremamente justa.
“Nós estamos em dívida com você por ter dito à Carlos sobre o
bonde. Você está com a polícia?”. Nicholai perguntou.
O olhar de Jill estava fixado no dele, não houve como negar o
tom desafiador em sua resposta. “A polícia está morta. Eu estou
com o S.T.A.R.S., Esquadrão de Táticas Especiais e Resgate”.
Ora, ora, que ironia. Imagino se já se encontrou com a pequena
surpresa da Umbrella... Se tivesse, provavelmente não estaria de pé
na frente dele; a não ser que não estivesse funcionando bem, um
Tyrant podia dividir um homem adulto em dois sem usar um quarto
de sua força. Alguém como Jill Valentine não teria chances contra
algo bem mais avançado como o novo brinquedo da Umbrella que
foi programado para aparecer.
Nicholai ficou agradecido com a estranha coincidência de
conhecer um membro do S.T.A.R.S.; fez parecer como se tudo
estivesse em ordem, como se seus pensamentos estivessem
refletindo no mundo à sua volta...
“Como está Mikhail?”.
Nicholai desviou do direto olhar de Jill para responder à Carlos,
não querendo parecer combativo. “Não muito bem, eu acho. Nós
devemos partir o mais rápido possível. Você achou algo útil? Mikhail
disse que você foi pegar algumas coisas para arrumar o bonde”.
“Já era, queimou tudo”. Carlos disse. “Acho que teremos de−”.
“Você conseguiu os explosivos?”. Jill interrompeu, ainda o
encarando cuidadosamente. “Onde estão?”.
Não muito hostil, mas quase; nenhuma surpresa, considerando
a situação. O problema com os S.T.A.R.S. era que tinham
descoberto informações sobre as verdadeiras pesquisas da
Umbrella na mansão de Spencer. Eles perderam a credibilidade
mais tarde, claro, mas a Umbrella vem tentando se livrar deles
desde então.
Se todos forem tão desconfiados como ela, está explicado
porque a Umbrella não conseguiu.
“Não havia explosivos”. Ele disse devagar, de repente
decidindo pressioná-la um pouco, para ver o quando era franca.
“Tudo o que encontrei foram caixas vazias. Sra. Valentine, há algo
te incomodando? Você parece... tensa?".
Ele deliberadamente deu um agudo olhar para Carlos, como se
estivesse bravo por ter trazido uma mulher tão desconfiada. Carlos
ficou corado e se manifestou rapidamente, tentando mudar de
assunto.
“Acho que todos nós estamos no limite, e a coisa mais
importante agora é Mikhail. Nós temos que tirá-lo daqui”.
Nicholai segurou o olhar de Jill mais um pouco e acenou,
voltando sua atenção para Carlos. “De acordo. Se você puder
conseguir o cabo, eu vou ver o que posso fazer sobe o fusível – há
uma central elétrica não muito longe daqui, vou procurar lá. Na
garagem onde achamos Mikhail, tenho certeza que vi cabos de
bateria, nos encontraremos aqui em meia hora”.
Carlos acenou. Nicholai ignorou o aceno de Jill, endereçando-se
à Carlos. “Bom. Eu verei Mikhail antes de ir.
Movam-se”.
Ele virou na direção do bonde como se tudo estivesse resolvido,
parabenizando-se em silêncio enquanto subia.
Eles iriam buscar o cabo para ele enquanto tudo o que
precisava fazer era subir alguns degraus na estação e abrir uma
caixa.
O que significa que tenho muito tempo de sobra. Fico
imaginando o que falarão de mim em minha ausência... talvez ele os
encontre na volta, os observaria por um minuto ou dois antes de
aparecer.
Nicholai andou até onde Mikhail dormia e sorriu para ele,
satisfeito. As coisas estavam ficando interessantes, finalmente.
Carlos estava trabalhando para ele, Mikhail na porta da morte, e a
adição da mulher do S.T.A.R.S. tinha engordado a trama. Ele olhou
pela janela do bonde e viu que os dois tinham ido, desaparecendo
no escuro.
Jill Valentine desconfiava dele, mas só pelo que sabia sobre a
Umbrella; ele tinha certeza de que ela se acalmaria, dado o tempo
certo.
“E se não o fizer, eu a mataria junto com o resto de vocês”. Ele
disse suavemente.
Mikhail soltou um leve suspiro de sofrimento mas continuou
dormindo, e depois de um momento, Nicholai saiu silenciosamente.
Capítulo 14
Apesar de terem muito que conversar, Jill não teve vontade,
nem Carlos. Eles tinham que pegar um cabo de força, voltar para o
bonde, e não morrer durante o processo – não é exatamente a hora
de bater papo, mesmo se as ruas parecessem seguras. E depois de
quase terem morrido, eles apenas correram da estação, Carlos não
podia imaginar conversa.
Sobre o que falaríamos, afinal? Sobre o tempo? Sobre quantos
de seus amigos estão mortos? Que tal se aquele monstro irá ou não
aparecer e matá-la, ou talvez sobre a lista dos dez motivos pelos
quais não gosta de Nicholai...
Jill estava obviamente desconfortável com Nicholai – quase que
certamente por seus sentimentos pela Umbrella – e Nicholai não
devia gostar muito dela também, apesar de Carlos não ter certeza
do porquê; o líder de esquadrão foi perfeitamente educado, e até
animado. Carlos gostou da atitude de Jill, desconfiada e desafiadora,
apesar desse atrito tê-lo deixado um pouco ansioso. Por mais clichê
que fosse, eles precisavam ficar juntos se quisessem sobreviver.
De qualquer jeito, Jill não estava se voluntariando a discutir
seus sentimentos sobre o assunto, e Carlos estava ocupado
debatendo consigo mesmo se dizia ou não aos outros sobre Trent, e
ambos estavam protegendo o próprio traseiro. Eles andaram em
silêncio do bonde para o centro da cidade e estavam quase na
garagem quando viu alguém que conhecia.
O corpo estava encostado no canto de um sinuoso beco, não
muito longe de dois grotescos corpos de criaturas da Umbrella que
Carlos viu duas vezes nas últimas horas, igual ao que tinha matado
perto do restaurante; pela aparência do corpo, já estava lá há algum
tempo – o que significa que Carlos também passou por ele sem
perceber. Era muito triste perceber que nem olhava mais para seus
rostos, e ficou surpreso com o sentimento.
“Ei, eu conheci esse cara”. Carlos disse, agachando-se ao lado
dele, tentando lembrar o nome – Hennessy?
Não, Hennings. Alto, cabelo escuro, uma fina cicatriz que ia do
canto da boca até a bochecha. Um único tiro na cabeça, nenhum
sinal claro de decomposição...
... e o que diabos está fazendo aqui?
Jill estava andando um pouco à frente de Carlos. Ela virou e
voltou, olhando sorrateiramente para o relógio.
“Sinto muito sobre seu amigo, mas temos que ir”. Ela disse
gentilmente.
Carlos balançou a cabeça e começou a cutucar o corpo em
busca de munição ou algum documento de identificação. “Não, não
éramos amigos. Eu o conheci na base logo depois de ser
contratado, ele trabalhava para outra unidade da U.B.C.S., eu acho.
Ele era um ex-militar e definitivamente não veio para Raccoon
conosco... hola, o que é isso?”.
Carlos tirou um pequeno livro de couro da jaqueta de Hennings,
e abriu. Um diário. Ele folheou até o final e viu que a última anotação
estava datada do dia antes de ontem.
“Isso pode ser importante”. Ele disse, levantando. “Tenho
certeza de que Nicholai o conhecia, e vai querer ver isso”.
Jill franziu. “Se é importante você deveria ler agora. Talvez ele...
talvez ele mencione Nicholai ou Mikhail”.
A última frase foi dita com mais cautela, e Carlos entendeu onde
ela queria chegar, e não gostou muito. “Olha, Nicholai é meio
orgulhoso, mas você não o conhece. Ele perdeu todo o seu
esquadrão hoje, homens que provavelmente conhecia e trabalharam
com ele por anos, então porque você não dá um tempo para ele?”.
Jill não se redimiu. “Por que você não lê o livro enquanto eu
pego o cabo? Você quer dizer que esse cara era um tipo de agente,
que trabalhava para a Umbrella e que tecnicamente não deveria
estar aqui. Eu quero saber o que ele disse em suas últimas horas,
você não?”.
Carlos olhou para ela e acenou relutantemente, deixando a
tensão ir. Ela estava certa; se houvesse algo importante nas
anotações de Hennings sobre o que estava acontecendo em
Raccoon, poderia ser útil para eles.
“Tá. Pegue todos os cabos que achar e volte rápido, tá bom?”.
Jill acenou e se foi um segundo depois, desaparecendo nas
sombras sem barulho. Incrível como era silenciosa; isso leva muito
treino. Carlos já ouviu falar nos S.T.A.R.S., apesar de não saber
muito sobre eles, sabia que eram bons; Jill Valentine certamente
comprovou isso.
“Vamos ver o que você disse à si mesmo, Hennings”. Carlos
murmurou, abriu o diário e começou a ler a última anotação.
Eu não sabia que seria assim. Eu devo tudo à eles, mas teria
recusado isso se soubesse. É a gritaria, eu não agüento mais, e
quem liga se meu disfarce foi descoberto. Todos morrerão, não
importa. As ruas estão cheias de gritaria e isso também não importa.
Quando a companhia me salvou dois anos atrás, eles disseram
que eu estaria trabalhando no lado escuro, o que para mim estava
bom. Eu estava para ser executado e teria concordado com dez
anos limpando merda, e o que os representantes me disseram não
parecia tão ruim – outros sentenciados e eu seríamos treinados para
resolver problemas, lidando com os aspectos ilegais de suas
pesquisas. Eles já têm sua organização legítima, algumas unidades
paramilitares, o pessoal do risco biológico e uma boa equipe de
proteção ambiental. Nosso trabalho seria arrumar a bagunça antes
que muitas pessoas percebessem, e certificar que essas pessoas
nunca tenham a chance de falar.
Seis meses de treinamento intensivo e já estava pronto para
qualquer coisa. Nossa primeira missão foi para nos livrarmos de
alguns objetos de teste que se esconderam. Essas pessoas queriam
ir à público falar sobre a droga a qual foram injetadas, ela deveria
reduzir o processo de envelhecimento mas acabou dando câncer em
todos.
Demorou um pouco, mas pegamos todos eles. Eu não me
orgulho disso, nem de nada que fiz durante o último ano e meio,
mas aprendi a viver com isso.
Eu fui especialmente selecionado para a operação Watchdog.
Eles plantaram muitos de nós aqui logo depois da primeira
contaminação, por precaução, mas nem todos foram escolhidos
para ser um Watchdog. Eles disseram que eu era mais empenhado
que os outros, que eu não tremeria vendo os outros morrendo. Viva
para mim. Eu trabalhei num depósito por duas semanas como
especialista em inventário, esperando algo acontecer, entediado até
o pescoço – e de repente tudo aconteceu de uma vez só, eu não
durmo há três dias e todo mundo fica gritando até os canibais os
pegarem, aí eles morrem ou torna-se um deles.
Eu tentei achar alguns dos outros, os espiões, mas não achei
ninguém. Eu só conheço alguns deles, quatro das pessoas
selecionadas para Watchdogs – Terry Foster, Martin, aquele russo
esquisito, e o médico de óculos do hospital. Talvez estejam mortos,
talvez escaparam ou talvez estejam à caminho. Eu não me importo.
Eu não reporto desde anteontem, e a Umbrella que vá para o
inferno. Tenho certeza de que verei todos eles lá.
Eu decidi puxar o gatilho, um tiro na cabeça para não voltar. Eu
queria ter sido executado, eu merecia aquilo.
Ninguém merece isso aqui.
Eu sinto muito. Se alguém achar isso, acredite no que digo.
O resto das páginas estava em branco.
Carlos ajoelhou-se perto de Hennings num tipo de confusão e
examinou sua fria mão direita por resíduos de pólvora. Estava lá.
Alguém deve ter pego a arma depois – “Carlos?”.
Ele olhou para cima e viu Jill segurando um monte de cabos,
um olhar preocupado e curioso em seu bonito e sujo rosto.
“Aquele russo esquisito”. Quantos poderia haver? Carlos não
sabia o que eram os Watchdogs, mas achou que Nicholai tinha
algumas explicações para dar – e que seria uma boa idéia voltar
para Mikhail o mais rápido possível.
“Eu acho que te devo desculpas”. Carlos disse, seu estômago
dando nós de repente. Nicholai achou Mikhail logo depois de ter sido
baleado, supostamente por um estranho qualquer...
“Pelo quê?”. Jill perguntou.
Carlos colocou o diário no colete, olhando Hennings pela última
vez, sentindo pena, nojo e uma crescente raiva – pela Umbrella, por
Nicholai e por si mesmo dada tanta ingenuidade.
“Eu explico na volta”. Ele disse, apertando sua metralhadora tão
forte que suas mãos começaram a tremer, a raiva ainda
aumentando como uma inundação negra. “Nicholai estará
esperando por nós”.
Depois de instalar o novo fusível no painel de controle do
bonde, Nicholai decidiu esperar dentro da estação pelo retorno de
Jill e Carlos. Muitas das janelas do primeiro andar estavam
quebradas, e estava escuro dentro; ele seria capaz de ouvir
qualquer conversa privada, o último minuto de conversa entre eles.
Nicholai não tinha dúvidas de que Jill teria algumas palavras de
alerta para Carlos à respeito da Umbrella, talvez sobre Nicholai, e a
verdade era, ele não conseguia se agüentar; ele queria saber o que
a S.T.A.R.S. tinha para dizer, qual bobagem paranóica ela diria e
como Carlos reagiria. Ele se reuniria com eles um pouco depois de
entrarem, diria que estava checando o prédio por suprimentos e por
aí vai.
Passearemos juntos ou viajarei sozinho? Talvez fiquemos
juntos esta noite, procurando comida, fazendo turnos de vigia. Eu
podia matá-los enquanto dormem; eu podia chamar ambos para me
acompanharem no hospital e soltar os Hunters; eu podia
desaparecer e deixá-los partir achando que seu querido amigo havia
se perdido.
Nicholai sorriu, uma brisa fresca passou pela vidraça
estilhaçada e pelo seu rosto. De verdade mesmo, suas vidas
estavam em suas mãos. Era um sentimento poderoso, até
intoxicante, ter esse tipo de poder. O que tinha começado com uma
aventura financeira havia se tornado algo novo, bem mais que isso.
Um entendimento do destino humano como jamais experimentou.
Ele sempre soube que era diferente, aquelas fronteiras sociais não
se aplicavam à ele como os outros entendiam; ir para Raccoon foi
uma amplificação daquilo, era como uma realidade alternativa na
qual eles eram os estranhos, os invasores, e ele era o único que
sabia o que estava acontecendo. Pela primeira vez em sua vida, ele
esteve livre para fazer do jeito que queria.
Nicholai ouviu o portão do pátio ranger devagar e
cuidadosamente, e ele recuou da janela. Um segundo depois, os
dois jovens soldados apareceram, andando tão quietos quanto ele
próprio. Ele percebeu que eles vasculharam o pátio como se
esperassem problemas.
Talvez encontraram o Tyrant. Isso certamente apimentaria as
coisas. Se Jill estivesse sendo perseguida, Nicholai pretendia deixá-
la por conta do monstro; ele mataria qualquer um burro o bastante
para entrar em seu caminho; Nicholai ficaria muito feliz em deixá-lo
passar.
Jill estava um pouco à frente de Carlos, e enquanto avançavam
com cuidado, Nicholai viu que ela carregava vários cabos
pendurados no ombro. Talvez ele os deixe viver mais um pouco,
estavam provando serem bons em cumprir tarefas.
“Tudo limpo”. Carlos suspirou, e Nicholai sorriu para si mesmo.
Ele podia ouvi-los perfeitamente.
“Ele já deve ter voltado, se não encontrou alguma das criaturas”.
Jill cochichou.
O sorriso de Nicholai diminuiu um pouco. Era impossível, mas
estavam vasculhando por ele?
“Sugiro que nos aproximemos como se não soubéssemos de
nada”. Carlos disse, mantendo a voz baixa.
“Subimos, fazemos ele soltar a arma. Ele tem uma faca
também”.
O que é isso, o que aconteceu. Nicholai estava confuso, incerto.
O que eles estão sabendo?
Jill estava acenando. “Deixe que eu faça as perguntas. Eu sei
mais sobre a Umbrella, eu acho que tenho chances melhores para
convencê-lo e que sabemos tudo sobre essa missão Watchdog. Se
achar que já sabemos−”.
“– então não se importará em esconder nada”. Carlos
completou. “Tá bom. Vamos fazer isso. Deixe a arma preparada
caso ele esteja planejando alguma festa surpresa”.
Jill acenou de novo, e ambos se ergueram, Carlos pendurando
a metralhadora no ombro. Eles foram para o bonde, sem se
preocuparem em fazer barulho.
A fúria que tomou conta de Nicholai foi tão apaixonante, tão
envolvente que por um momento ele ficou cego por ela. Lampejos
de preto e vermelho golpearam seu cérebro, inconseqüentes e
violentos, mas a única coisa que o impedia de descer para o pátio e
assassinar os dois foi o fato de estarem preparados para seu ataque.
Ele quase fez isso, a necessidade de machucá-los era tão forte que
as conseqüências seriam irrelevantes. Foi necessário todo o seu
controle para ficar parado, tremendo e sem gritar de raiva.
Depois de um tempo indeterminado, ele ouviu o motor do bonde
roncar para a vida, o som finalmente passando por ele. Sua mente
voltou a funcionar de novo, mas só podia pensar de modo simples,
já que sua raiva era grande demais para pensamentos complexos.
Eles sabiam que não dizia a verdade. Eles sabiam algo sobre a
operação Watchdog, sabiam que estava envolvido, e agora eram
seus inimigos. Não haveria estragos no cuidadoso planejamento que
fez, nenhuma chance de confiança para o camarada Nicholai. Tudo
foi uma perda de tempo... e para piorar, ele teria que ir andando
para o hospital.
Nicholai apertou os dentes, afogando-se, o impotente ódio
como um segredo doente implodindo dentro de si.
Eles fizeram isso com ele, roubaram sua capacidade de
controle como se tivessem o direito.
Meus planos, meu dinheiro, minha decisão. Tudo meu, e não
deles, meu – depois de um momento, o mantra começou a
funcionar, acalmando-o de leve, as palavras acalmando com sua
verdade. Meu, eu decido, eu.
Nicholai respirou fundo várias vezes e fixou-se na única coisa
que podia trazê-lo alívio enquanto ouvia o bonde se distanciando.
Ele acharia um meio de fazê-los se arrepender. Ele os fará
implorar por piedade, e rirá enquanto gritam.
Capítulo 15
Jill ficou de pé ao lado de Carlos nos controles do bonde,
olhando para fora enquanto as ruínas de Raccoon passavam
vagarosamente. Eles não conseguiam ver muito através do único
farol amarelado da dianteira, mas havia inúmeros pequenos
incêndios fora de controle, e uma meia lua jogando sua pálida luz
em tudo – ruas cheias de escombros, janelas quebradas, sombras
vivas que vagavam sem destino.
“Continue devagar”. Jill disse. “Se os trilhos estiverem
bloqueados e estivermos rápidos demais...”.
Carlos olhou irritado para ela. “Nossa, eu não tinha pensado
nisso. Gracias”.
Seu sarcasmo pedia uma resposta, mas Jill estava cansada
demais para fazer piadas, e seu corpo parecia um único e grande
machucado. “Tá bom, desculpe”.
Os trilhos desenrolavam-se à frente deles enquanto Carlos
guiava cuidadosamente, desacelerando quase que por completo a
cada curva. Jill queria sentar, talvez ir para o outro vagão com
Mikhail e deitar – eram poucos quilômetros até a torre do relógio e
alguém correndo podia facilmente acompanhá-los – mas sabia que
Carlos também estava cansado; ela podia sofrer de pé mais alguns
minutos com ele.
Por um acordo não falado, eles não discutiram sobre Nicholai,
talvez porque a especulação sobre onde estava e o que fazia, não
serviria para nada; seja lá o que pretendia, eles estavam saindo da
cidade. Considerando que sobreviveriam, Jill estava mais
comprometida em ver a Umbrella pagar pelos seus crimes, pois era
a Umbrella e não Nicholai, que carregava a responsabilidade pela
morte de Raccoon.
Sua intuição sobre Nicholai estava certa, ele sabia sobre as
maldades da Umbrella, e Jill não percebeu um pingo de decepção
nele. Pelo que leu no diário que Carlos achou, parecia que a
companhia estava preparada para a contaminação de Raccoon e
preparou uma equipe secreta para fazer relatórios sobre a
catástrofe. Era repugnante, mas não uma surpresa.
Estamos lidando com a Umbrella, afinal. Se eles podem projetar
vírus e máquinas assassinas para serem infectadas, por que não
investir em assassinato em massa? Faça algumas anotações,
documente algumas agressões – Crash!
Jill caiu em Carlos quando o bonde chacoalhou, o som de vidro
quebrando vindo do vagão de trás. Meio segundo depois, eles
ouviram Mikhail soltar um tenebroso grito – de medo ou dor, Jill não
sabia.
“Aqui, assuma os comandos”. Carlos disse, mas Jill já estava no
meio do vagão, o pesado revólver empunhado.
“Eu cuido disso, continue andando”. Ela gritou, não querendo
pensar no que era enquanto ia para a porta. Para fazer o bonde
balançar daquele jeito – -– tinha que ser um dos monstros. E Mikhail
mau podia se sentar.
Ela empurrou a porta e pisou na plataforma de ligação, o
pesado barulho das rodas nos trilhos parecendo incrivelmente alto
enquanto abria a segunda porta, o desamparo de Mikhail no topo de
seus pensamentos.
Essa não.
Os elementos do cenário eram simples e mortais: uma janela
quebrada e vidro por toda parte; Mikhail à sua esquerda, suas
costas contra a parede da porta enquanto lutava para ficar de pé,
usando a metralhadora como muleta – e o matador de S.T.A.R.S. de
pé no meio do vagão, sua cabeça jogada para trás, sua grande boca
sem lábios abrindo enquanto gritava sem palavras. As janelas
restantes vibravam com a força de seu berro insano.
Jill abriu fogo, cada tiro como uma explosão ensurdecedora, o
alto calibre acertando o peito superior enquanto continuava gritando.
O impacto das balas o fez recuar alguns passos, mas se houve
algum outro efeito, ela não conseguia ver.
A partir do sexto tiro, a metralhadora de Mikhail a acompanhou,
os projéteis menores furando as gigantescas pernas de Nêmesis
assim que acabou a munição de Jill. Mikhail ainda estava apoiado
na parede e sua mira era ruim, mas Jill aceitaria qualquer ajuda. Ela
sacou a Beretta – mesmo com um carregador automático, demoraria
muito para carregar a .357 – e abriu fogo, quatro tiros no rosto – e
não funcionou – e Nêmesis parou de gritar voltando sua atenção
para ela, seus brancos olhos rasgados como cataratas, seus
grandes dentes lisos e brilhantes. Tentáculos iguais a cobras em
volta de sua cabeça sem cabelo.
“Saia daqui!”. Mikhail gritou, e Jill olhou para ele, sem ao menos
considerar a idéia enquanto atirava de novo – até perceber um
instante depois que ele estava segurando uma granada, um dedo
temendo entre o anel. Ela reconheceu o formato sem pensar nele –
uma RG34 Czech, Barry também colecionava granadas anti-
pessoas – enquanto mandava outra bala em sua costurada
sobrancelha, mas sem efeito. Granada de impacto, uma vez puxado
o anel, detonaria em contato – e Mikhail não sobreviveria, seria
suicídio – “Não, você sai daqui, fique atrás de mim”. Ela gritou, e o
matador de S.T.A.R.S. deu um largo passo adiante, diminuindo a
distância quase pela metade.
“Saia daqui!” . Mikhail ordenou de novo e puxou o anel, uma
expressão de incrível concentração e propósito em seu pálido rosto.
“Eu já estou morto! Vai, agora!” .
Sua Beretta atirou mais uma vez e recuou.
Jill girou e correu, deixando Mikhail para enfrentar o monstro
sozinho.
Carlos ouviu os gritos em meio aos tiros enquanto tentava parar
o bonde, desesperado para ajudar Jill e Mikhail, mas estavam no
meio de uma curva relativamente fechada, e os controles mau
cuidados combatiam seus esforços. Ele estava a um segundo de se
juntar à eles quando a porta atrás dele abriu fortemente.
Carlos girou, apontando sua M16 com uma mão enquanto
mantinha a outra instintivamente na válvula, e viu Jill.
Ela praticamente voou pelo vagão, suas feições como uma
máscara de horror, seu nome surgindo entre os lábios dela – e um
tremendo balanço de fogo e barulho estourou atrás dela, fazendo-a
mergulhar, rolando desajeitada sobre o ombro enquanto um boom-
crash ecoava do segundo vagão. Línguas de fogo passaram pela
janela da porta assim que o chão tremeu violentamente. Carlos
pulou no assento, o apoio do braço acertando forte o bastante para
trazer lágrimas aos seus olhos.
Mikhail!
Carlos deu um vacilante passo em direção à porta -e só viu
pedaços em chamas do vagão rasgado sendo puxado, distanciando-
se enquanto o bonde ganhava velocidade. Não havia chances de
Mikhail ter sobrevivido, e Carlos começou a ter sérias dúvidas sobre
suas próprias chances assim que Jill se aproximou, sua face
assombrada pelo que tinha visto.
O bonde entrou em outra curva, e ficou fora de controle,
balançando para frente e para trás como um navio em mares
tempestuosos, exceto pelos trovões e relâmpagos estarem sendo
causados pelo vagão raspando em prédios e batendo em carros,
criando grandes plumas de faíscas. Ao invés de diminuir, o bonde
parecia ganhar velocidade a cada impacto, colidindo no escuro em
uma série de agudos gritos metálicos.
Carlos lutou contra a gravidade para agarrar a válvula, ciente de
que tinham descarrilado, de que Mikhail se fora, de que a única
esperança era o freio manual. Se tiverem muita sorte, as rodas
travariam.
Ele puxou o freio manual o mais forte que pôde – e nada
aconteceu, nada mesmo. Eles estavam ferrados.
Jill chegou na frente apoiando-se nos assentos e barras
enquanto o bonde continuava a sacudir e raspar.
Carlos a viu olhar inconformada para a válvula sob os dedos
dele, viu desespero em seus olhos, e sabia que precisavam saltar.
“Os freios!”. Ela gritou.
“Não funcionam! Nós temos que pular!”.
Ele virou, pegou a metralhadora pelo cano e usou a coronha
para quebrar a janela ao lado, um súbito balanço lateral mandou
cacos de vidro em seu peito. Ele segurou na lisa moldura da janela
com uma mão, e esticou-se para agarrar Jill – e a viu descer o
cotovelo num pequeno painel de vidro na parte debaixo do console,
um olhar de desesperada esperança no rosto dela enquanto
apertava o botão que ele não conseguia ver – SKREEEEEEE –
Freio de emergência. – e incrivelmente, o bonde estava parando,
inclinando um pouco para a esquerda antes de equilibrar-se,
continuando a deslizar sobre o decrescente brilho das faíscas.
Carlos fechou os olhos e agarrou a inútil válvula, ansioso, tentando
preparar-se para o impacto – e alguns segundos depois, um suave e
anti-climático esmago disse que sua viagem havia acabado; o vagão
parou em cima de uma pilha de pedaços de concreto no meio de um
gramado bem cuidado, perto de algumas estátuas sombrias e
arbustos. Um último tremor balançou o vagão e estava acabado.
Silêncio, exceto pelos estalos de metal resfriando. Carlos abriu
os olhos, quase incapaz de acreditar no assustador passeio que
fizeram pela cidade. Ao lado dele, Jill deu um trêmulo respiro. Tudo
aconteceu tão rápido que foi um milagre terem sobrevivido.
“Mikhail?”. Ele perguntou delicadamente.
Jill balançou a cabeça. “Foi o Tyrant, a punição do S.T.A.R.S.
Mikhail tinha uma granada, o monstro continuou andou até nós e
ele−”.
Sua voz parou, e ela começou a recarregar suas armas,
concentrando-se nos simples movimentos. Eles pareciam acalmá-la.
Quando falou de novo, sua voz soou firme.
“Mikhail sacrificou-se quando viu que Nêmesis estava vindo
para mim”.
Ela desviou o olhar, olhando para o escuro lá fora assim que
uma fria brisa passou pelas janelas estilhaçadas do bonde. Seus
ombros caíram. Carlos não sabia o que dizer. Ele deu um passo até
ela, tocando gentilmente um de seus ombros arranhados, e sentiu o
corpo dela endurecer sob seus dedos. Ele rapidamente tirou a mão,
com medo de tê-la ofendido de alguma forma, e percebeu que ela
olhava para algo lá fora, um olhar de pura surpresa em suas
delicadas feições.
Carlos seguiu seu olhar, olhando para fora e para cima, vendo
uma torre de três ou quatro andares erguendo-se sobre eles, em
forma de silhueta contra um fundo de nuvens noturnas. A face de
um brilhante relógio branco estava no topo e marcava quase meia-
noite.
“Alguém nos ama, Carlos”. Jill disse, e Carlos só conseguiu
acenar, calado.
Eles estavam na torre do relógio.
Nicholai andou pelos trilhos refletindo a luz da lua, sem se
preocupar em se esconder enquanto marchava à oeste. Ele seria
capaz de ver qualquer coisa vindo e a mataria antes que o
alcançasse; ele estava irritado e agradeceria pela oportunidade de
estourar as tripas de alguma coisa humana ou não.
Sua raiva tinha diminuído um pouco, dando lugar a um estado
de consciência pessimista. Não havia mais condições de perseguir o
líder de pelotão e os dois jovens soldados – basicamente, não havia
tempo o bastante.
Levaria pelo menos uma hora para chegar à torre do relógio; se
conseguirem descobrir como tocar os sinos, já não estariam mais lá
quando chegar.
Nicholai franziu, tentando se lembrar de que os planos não
tinham mudado, de que ainda tinha um roteiro para seguir. Quatro
pessoas ainda esperavam por ele inconscientemente. Depois do Dr.
Aquino, havia os soldados – Chan e o Sargento Ken Franklin – e o
funcionário da fábrica, Foster. Quando todos estiverem fora do
caminho, Nicholai ainda tinha que organizar os dados, marcar uma
reunião e sumir de helicóptero. Ele tinha muito o que fazer... e ainda
não podia deixar de se sentir enganado pelas circunstâncias.
Ele parou de andar, inclinando a cabeça para o lado. Ele ouviu
um barulho, um impacto de algum tipo mais adiante, talvez até uma
pequena explosão abafada pela distância. Um segundo depois, ele
sentiu uma levíssima vibração vindo dos trilhos. A linha corria pelo
meio da rua, qualquer coisa sólida podia fazê-la vibrar – mas eram
eles, Mikhail, Carlos e Jill Valentine. Eles esbarraram em algo, ou
algo deu errado com o motor, ou...
Ele não sabia o quê, mas de repente ficou certo de que eles
encontraram problemas. Isso reforçou o sentimento positivo de que
ele era o único com habilidade; os outros precisavam confiar na
sorte, e nem toda sorte era boa.
Talvez nos encontremos de novo. Tudo é possível,
especialmente num lugar como esse.
Adiante e à esquerda, entre um prédio e um terreno cercado,
veio um ronco borbulhante. Três infectados cambalearam até o
espaço aberto, dez metros de onde ele estava. Ele estava muito
longe para vê-los claramente sob a pálida lua, mas Nicholai viu que
nenhum deles estava em boa forma; dois não tinham braços e o
terceiro parecia ter perdido metade das pernas, dando a impressão
de estar andando ajoelhado, cada passo criando um barulho igual a
alguém estalando os lábios.
“Uhllg”. O mais próximo reclamou, e Nicholai atirou em seu
cérebro desintegrado. Mais dois tiros e os outros se juntaram ao
primeiro, caindo no asfalto como leves tapas.
Ele sentiu-se bem melhor. De alguma forma ganhou uma
oportunidade para ver seus camaradas novamente – e percebeu
estar confiante de que os veria – ele era um homem superior e
triunfaria no final.
Isso o encheu com nova energia. Nicholai passou a correr
devagar, animado para enfrentar qualquer desafio que encontrar.
Capítulo 16
A porta do bonde estava retorcida e Jill e Carlos teriam que sair
por uma janela, Carlos parecendo tão esgotado quanto Jill se sentia.
Era uma coincidência muito estranha de terem parado exatamente
onde precisavam, mas as últimas horas – semanas também foram
estranhas. Jill pensou que ajudaria se parasse de deixar as coisas a
surpreenderem.
A torre do relógio parecia sem vida, nada se movendo exceto a
fina coluna de fumaça de óleo fervendo do sistema elétrico do
bonde. Eles andaram para a fonte decorativa na frente da porta
principal, olhando para o gigante relógio acima e para o pequeno
campanário que cobria a torre, os pensamentos de Jill pesados com
imagens de Mikhail Victor. Ela nem tinha sido apresentada
formalmente ao homem salvou sua vida, e achou ter perdido um
valioso aliado. A força de caráter que levou para morrer e deixar
outra viver... heróico era a única palavra que servia.
De repente ele até matou Nêmesis, o monstro estava
praticamente sobre ele quando a granada explodiu... pensando com
otimismo, ela só podia desejar.
“Então, acho que devemos tentar achar o mecanismo do sino”.
Carlos disse. “Você acha seguro nos separarmos ou−”
Caw!
O áspero choro de um corvo o interrompeu, e Jill sentiu uma
nova onda de adrenalina em suas veias. Ela agarrou a mão de
Carlos assim que um alvoroçado som encheu o escuro acima e em
volta deles, o som de asas batendo no ar.
A sala de quadros na mansão, observada de cima por dezenas
de olhos negros brilhantes esperando para atacar. E Forest Speyer,
do Bravo Team, Chris disse que tinha sido rasgado por dezenas,
talvez centenas deles.
“Vamos!”. Ela puxou Carlos, lembrando da implacável
perversidade dos corvos modificados da mansão de Spencer. Carlos
parecia saber o que era melhor além de perguntas assim que uma
dezena de berros rouca cortou o ar. Os dois contornaram a fonte até
a porta dupla frontal da torre.
Trancada.
“Me dê cobertura!”. Jill gritou, procurando suas pinças na bolsa,
os gritos se aproximando deles – e Carlos se jogou nas portas,
batendo forte o bastante para estilhaços voarem. Ele recuou alguns
passos correndo e voou nelas de novo, bam – e as portas abriram
para dentro, Carlos tropeçando e se esparramando nas lajotas de
bom gosto que cobriam o chão, Jill entrando rapidamente atrás dele.
Ela agarrou as alças da porta e as bateu o quanto antes. Houveram
dois socos abafados do outro lado, acompanhados por um coro de
berros famintos e bater de asas, e começaram a recuar, o barulho se
distanciando. Jill encostou-se nas portas, exalando fortemente.
Deus, será que isso não vai acabar mais? Será que teremos de
enfrentar cada besta demoníaca dessa cidade antes de fugirmos?
“Pássaros zumbis? Você tá brincando?”. Carlos disse,
levantando-se do chão enquanto Jill trancava as portas
manualmente. Ela não se preocupou em responder, virando para
examinar o grandioso saguão da torre do relógio.
O lugar a fez lembrar da mansão de Spencer, as luzes baixas e
ornamentação gótica, criando uma desgastada e elegante
atmosfera. Uma larga escadaria de mármore dominava o amplo
saguão, levando ao segundo andar com janelas de vitral. Havia uma
porta de cada lado do saguão, duas mesas de madeira bem à frente,
e à esquerda...
Jill inspirou e sentiu algo apertar por dentro. Não que esperasse
encontrar um santuário intocado, só por estar mais longe do centro,
e percebeu que carregava esperança – uma esperança perdida ao
ver mais morte.
A cena contava uma história, do tipo misteriosa. Cinco
cadáveres masculinos, todos eles vestidos com roupas militares.
Três deles deitados perto das mesas, aparentemente vítimas de um
infectado; o corpo baleado do infectado estava ali perto. A carne das
vítimas tinha sido mastigada, seus crânios esmagados e vazios. O
quinto corpo, um jovem, tinha baleado a própria cabeça,
provavelmente depois de ter derrubado o zumbi. Será que ele se
matou por desespero ao ver os amigos devorados? Será que de
alguma forma foi o responsável por aquilo?
Ou ele conhecia o infectado e se matou depois de ter sido
forçado a tirar sua vida?
Jamais poderemos saber. São apenas outras vidas perdidas
nessa tragédia, uma das milhares da cidade.
Carlos se aproximou do corpo, franzindo. Com uma apertada
expressão no rosto, ela teve a impressão de que ele os conhecia.
Ele agachou entre eles e puxou uma mochila manchada com um
risco de sangue, fazendo um rastro vermelho pelas lajotas. Jill pôde
ouvir metal tocando metal dentro da mala, e provavelmente estava
pesada, o bíceps de Carlos contraindo para erguê-la.
“É o que penso que é?”. Jill perguntou.
Carlos levou a mala para uma das mesas e tirou o conteúdo. Jill
sentiu uma inesperada explosão de alegria com o que estava lá; ela
correu para a mesa, mau acreditando na sorte deles.
Meia dúzia de granadas iguais à que Mikhail tinha, RG34; oito
pentes de trinta balas para M16, aparentemente completos; e mais
do que poderia imaginar, um lançador de granadas US M79 com um
monte de gordos cartuchos de 40mm.
“Armas na torre do relógio”. Carlos disse, pensativo. Antes que
Jill pudesse perguntar o que ele quis dizer, ele pegou um dos
cartuchos e sussurrou de leve.
“Chumbo grosso”. Ele disse. “Um desses teria estourado aquela
porcaria de Nêmesis espantajo”.
Jill ergueu a sobrancelha. “Espantajo?”.
“Literalmente, espantalho,”. Carlos disse. “mas é usado como
esquisito ou aberração”.
Apropriado. Jill acenou na direção dos homens que estavam
com as armas. “Você os conhecia?”.
Desconfortável, Carlos balançou os ombros, passando-a três
granadas. “Todos são da U.B.C.S., eu já os tinha visto de passagem,
mas eu não conheço – não conhecia eles. Eles eram apenas
soldados, provavelmente não tinham idéia de onde estavam se
metendo quando entraram para a Umbrella, ou quando foram
enviados para cá. Como eu”. Ele parecia bravo e um pouco triste, e
mudou de assunto de repente, lembrando do quanto perto estavam
de escapar de Raccoon City. “Você quer ficar com o lança-
granadas?”.
“Pensei que nunca ofereceria”. Jill disse, sorrindo. Ela poderia
usar a arma que, segundo Carlos, explodiria a porcaria do Nêmesis.
“Agora só precisamos achar algum botão em algum lugar, apertá-lo,
e esperar nosso táxi chegar”.
Carlos sorriu de leve em resposta, guardando os pentes de M16
nos bolsos do colete. “E tentar não morrer, como todos nesse
maldito lugar”.
Jill não respondeu à isso. “Escada acima?”.
Carlos acenou. Armados e preparados, eles começaram.
O segundo andar da torre do relógio era na verdade uma
sacada interna que circundava o saguão. Corria por três paredes do
saguão e terminava em uma única porta, a qual deveria levar para
outra escadaria – até o campanário, se Carlos lembrou do termo
corretamente. Onde os sinos ficavam.
Está quase acabado, quase acabado... ele deixou o
pensamento afugentar todos os outros, cansado demais para
considerar seus sentimentos de raiva, tristeza e medo, ciente de que
não faltava muito para chegar ao seu limite. Ele poderia organizar
suas emoções assim que saísse de Raccoon.
A sacada interna era tão ricamente adornada quanto o saguão,
ladrilhos azuis que combinavam com o azul dos vitrais, uma viga
arqueada suportada por colunas brancas. Eles podiam ver tudo do
topo da escada, e parecia estar vazio, nenhum monstro ou zumbi a
vista. Carlos respirou mais fácil e viu que Jill também parecia mais
calma. Ela levava a Colt Python como ajuda.
Como Trent sabia que haveria armas aqui? Será que ele sabia
que eu estaria pegando-as de homens mortos?
Carlos percebeu de repente que estava subestimando o poder
de Trent. Tinham que haver mais armas no prédio, Jill e ele apenas
esbarraram numa mala pessoal. A opção – de que Trent sabia sobre
os soldados mortos – era muito estranha.
Eles começaram a andar pela primeira asa da sacada, um do
lado do outro, Carlos imaginando o que Jill diria se ele contasse
sobre Trent. Ela provavelmente pensaria que ele estava brincando,
a coisa toda era tão misteriosa, igual um romance de espionagem –
Algo se moveu. Na frente deles, depois da primeira curva, algo no
teto, um relance de escuro movimento. Carlos debruçou-se no
peitoril, mas seja lá o que fosse, ou estava escondido atrás de um
dos arcos ou era apenas algo que seu exausto cérebro criou para
mantê-lo acordado.
“O que é?”. Jill suspirou no ombro dele, seu revólver preparado.
Carlos procurou por mais alguns longos segundos e balançou a
cabeça, virando para ela. “Nada, eu acho, pensei ter visto algo no
teto, mas−”.
“Droga!”.
Carlos girou assim que Jill apontou sua arma para o teto bem na
frente deles, assim que uma criatura do tamanho de um cachorro
grande ia de encontro à eles, uma coisa corcunda e com várias
pernas, seus grossos e peludos pés andando pegajosamente no teto
mais rápido do que poderia imaginar.
Jill descarregou três balas antes que Carlos pudesse piscar,
mas não antes de registrar o que estava vendo. Era uma aranha,
grande o bastante para que Carlos pudesse ver seu próprio reflexo
nos brilhantes olhos enquanto caia no chão. Escuros fluídos
jorravam de suas costas enquanto suas pernas multicoloridas se
debatiam no ar, sangue viscoso empoçando ao seu redor. A
silenciosa e violenta dança durou um segundo ou dois antes de se
encolher, morta.
“Eu odeio aranhas”. Jill disse, um olhar de repugnância em seu
rosto enquanto andava novamente, vasculhando o teto. “Todas
aquelas pernas, aquele estômago inchado... eca”.
“Você já viu dessas antes?”. Carlos perguntou, incapaz de não
olhar para o corpo fechado como um punho.
“Já, no laboratório da Umbrella na floresta. Não vivas, as que eu
vi estavam mortas”.
Jill aparentou calma enquanto pulavam a aranha e continuavam
a andar, Carlos lembrando do quanto sortudo foi de ter se aliado à
ela. Ele já conheceu muitos homens corajosos em suas
experiências, mas duvidava que muitos deles, postos no lugar dela,
sairiam-se tão bem quanto Jill Valentine.
O resto da sacada estava vazia, apesar de Carlos ter notado
com certo desconforto um monte de teias no teto, montes da coisa
branca e grossa acumulados em cada canto; ele não ligava muito
para aranhas mesmo.
Quando alcançaram a porta e a cruzaram, Jill passando
abaixada, Carlos ficou aliviado por sair ao ar livre novamente.
Eles saíram numa ampla laje bem na frente da torre, um isolado
lugar cercado por um parapeito adornado, alguns holofotes
queimados e algumas plantas. Havia uma abertura parecida com
uma porta um andar acima na torre, e nenhum meio de chegar lá.
Parecia não ter saída, nenhum lugar para ir exceto voltar por onde
vieram.
Carlos suspirou; pelo menos os corvos, se é o que eram, tinham
migrado para outro lugar.
“E agora?”. Carlos perguntou, olhando para o pátio escuro lá
embaixo, o bonde ainda soltando fumaça. Quando não recebeu
resposta, Carlos virou e a viu parada na frente de uma placa de
cobre, presa entre as pedras da parede da torre. Ela abriu sua bolsa
e tirou um conjunto de pinças.
“Você desiste muito fácil”. Jill disse, selecionando algumas das
peças. “Vigie os corvos, e verei o que poso fazer para conseguir
uma escada”.
Carlos a cobriu, imaginando vagamente se havia algo que ela
não podia fazer, respirando o cheiro de chuva no frio vento que
soprava na laje. Um momento depois houve uma série de cliques
seguidos por um leve hum de maquinário, e uma estreita escada
metálica de mão começou a descer logo abaixo da abertura.
“O que me diz se ficar vigiando por mais alguns minutos?”. Jill
perguntou, sorrindo.
Carlos sorriu, notando a empolgação dela; estava realmente
quase acabado. “Tá bom”.
Jill escalou a escada e desapareceu na abertura acima. Ela
gritou um segundo depois dizendo estar tudo limpo, e durante os
vários minutos seguintes, Carlos passeou pela laje, pensando no
que faria depois de ser resgatado.
Ele queria falar com Trent de novo, sobre o que precisaria ser
feito para acabar com a Umbrella; para o que der e vier, ele estaria
lá.
Eu aposto que Trent ficaria interessado em falar com Jill,
também. Quando os helicópteros vierem, nós bancaremos os idiotas
até nos deixarem ir, aí planejaremos o próximo passo – depois de
comer, de tomar um banho e de dormir por umas vinte e quatro
horas, claro...
Ele estava tão fixado no pensamento que não reparou nas
expressões de Jill quando voltou, não percebeu que não havia sinos
tocando. Ele sorriu para ela... e sentiu seu coração afundar,
entendendo que a aventura ainda não tinha acabado.
“Está faltando uma engrenagem do mecanismo,”. Ela disse. “e
precisamos dela para fazê-los tocar. A boa notícia é, eu aposto que
está em algum lugar do prédio”.
Carlos ergueu uma sobrancelha. “Como você sabe?”.
“Eu achei isso perto de uma das outras engrenagens”. Jill disse,
e lhe passou um esfarrapado cartão postal.
A foto da frente era de três pinturas penduradas uma ao lado da
outra, cada uma com um relógio no meio.
Carlos virou o cartão e viu “St. Michael Clock Tower, Raccoon
City” impresso elegantemente no canto superior esquerdo. Abaixo
disso, estava uma linha impressa de um verso, o qual Jill leu em voz
alta.
“Dê sua alma para a deusa. Ponha suas mãos juntas para rezar
por ela”.
Carlos a olhou. “Você está sugerindo que nós rezemos pela
engrenagem perdida?”.
“Ha ha. Eu estou sugerindo que a engrenagem está onde esses
relógios estão”.
Carlos devolveu o cartão. “Você disse que essa é a boa notícia
– qual é a ruim?”. Jill sorriu amargamente, uma expressão
totalmente sem humor. “Eu duvido que a peça estará em algum
lugar visível. É um tipo de quebra-cabeça, como os que eu encontrei
na mansão de Spencer – e alguns deles quase me mataram”.
Carlos não perguntou. Por enquanto, ele não queria saber.
Capítulo 17
Depois de persegui-lo por quase meia hora, Nicholai achou o
Dr. Richard Aquino no quarto andar do maior hospital de Raccoon
City. Ver o Watchdog fez Nicholai feliz de um modo que não podia
explicar, nem para si mesmo. Uma sensação de que tudo estava de
bem com o mundo, de que as coisas estavam se desenrolando
como deveriam...
... comigo no topo, tomando decisões. Em um momento só
restariam três, três cachorrinhos para caçar na terra dos mortos-
vivos, ele pensou sonhadoramente. Pode ficar melhor do que isso?
Aquino só estava trancando uma porta, um olhar de medo
transpirante em seu pálido rosto enquanto seu olhar vagava pelo
lugar apreensivamente. Ele guardou as chaves no bolso e virou para
o corredor que levava para o elevador, trazendo seus manchados
óculos para a ponta do nariz. Nicholai estava impressionado pelo
fato de nem estar armado.
Nicholai saiu das sombras, planejando se divertir. Depois de ter
gasto mais de uma hora para chegar ao hospital andando, o ratinho
do Dr. Aquino ainda teve coragem de tentar se esconder dele – se
bem que olhando para ele agora, Nicholai pensou que o cientista
nem sabia que estava sendo caçado e evitou Nicholai por acidente.
Aquino parecia ser o tipo de homem que podia se perder no
próprio jardim; e mesmo naquele momento o “cão-de-guarda” não
tinha percebido que estava acompanhado, que Nicholai estava só a
três metros de distância.
“Doutor”. Nicholai disse em voz alta, e Aquino pulou girando,
suspirando, balançando as mãos involuntariamente à sua frente; a
surpresa foi total. Nicholai não conseguiu conter um leve sorriso.
“Quem, quem é você?”. Aquino gaguejou. Ele tinha olhos azuis
aguados e um péssimo penteado.
Nicholai se aproximou, intimidando o cientista abertamente com
seu tamanho. “Eu estou com a Umbrella. Eu vim ver como vocês
estão se saindo com a vacina... entre outras coisas”.
“Com a Umbrella? Eu não – que vacina, eu não sei do que você
está falando”.
Desarmado, sem habilidades físicas e não consegue mentir
sem ficar vermelho. Ele deve ser brilhante.
Nicholai abaixou a voz conspiratoriamente. “A Operação
Watchdog me enviou, Doutor. Você não vem arquivando relatórios
de detalhes ultimamente. Eles estiveram preocupados com você”.
Aquino pareceu na beira de um colapso por causa do alívio.
“Ah, se você sabe sobre – eu pensei que você fosse – sim a vacina,
eu tenho estado ocupado; meu, é, contato queria a síntese inicial
dividida em etapas, então não há uma amostra misturada produzida
– mas eu posso assegurar que é apenas uma questão de combinar
elementos e tudo fica pronto”. O doutor praticamente tagarelou em
seu esforço para submeter-se.
Nicholai balançou a cabeça de modo zombador, como se não
acreditasse. “E você fez tudo isso sozinho?”.
Aquino sorriu de leve. “Meu assistente, Douglas, me ajudou,
que Deus o tenha. Eu sinto que tenho estado um pouco
sobrecarregado desde sua morte, antes de ontem. É por isso que eu
perdi os últimos relatórios...”.
Ele parou de falar, e tentou outro sorriso. “Então... é você que
foi enviado para recolher a amostra – Franklin, não é?”.
Nicholai não pode acreditar em sua própria sorte, ou na
ingenuidade de Aquino; o homem estava preste a entregar o único
antídoto existente dos vírus T e G, só porque Nicholai disse ter sido
enviado pela Umbrella. E agora outro de seus alvos estava
aparecendo – “Sim, está certo”. Nicholai disse suavemente. “Ken
Franklin. Onde está a vacina, Doutor?”.
Aquino procurou suas chaves. “Aqui. Eu tinha acabado de
escondê-la – a vacina base, nós mantemos a média separada – eu a
escondi aqui por segurança, até você chegar. Eu pensei que você
viesse amanhã à noite, você está mais adiantado do que eu
esperava”.
Ele abriu a porta e o convidou. “Há um cofre refrigerado na
parede atrás daquele quadro de paisagem sem graça – uma recente
adição de um rico paciente, um excêntrico, não que isso seja
relevante...”.
Nicholai passou pelo doutor tagarela, interrompendo-o, ainda
pasmo por Aquino ter sido selecionado para Watchdog, quanto
percebeu ter deixado o cientista em sua retaguarda.
Tudo veio ao mesmo tempo naquele instante, uma cena
completa na mente de Nicholai – o burro e nerd falante da ciência,
deixando seus inimigos à vontade, deixando-os subestimar suas
habilidades – Essa consciência só levou uma fração de segundo, e
Nicholai já estava se movendo.
Ele se ajoelhou e girou os braços, agarrando os tornozelos de
Aquino e literalmente varrendo-o do chão. Aquino uivou e caiu em
cima de Nicholai. Uma seringa caiu no chão e Aquino tentou
alcançá-la, mas Nicholai ainda segurava suas esqueléticas pernas.
O doutor nem tinha músculos. De fato, Nicholai achou bem fácil
segurar o alvoroçado doutor com um braço enquanto alcançava sua
faca presa na bota com o outro.
Nicholai sentou, puxou Aquino mais próximo e esfaqueou sua
garganta.
Aquino colocou as mãos no pescoço enquanto Nicholai tirava a
lâmina, olhando para seu assassino com olhos arregalados e
chocados, sangue jorrando sobre seus dedos enquanto o coração
continuava fazendo seu trabalho.
Nicholai também olhou, sorrindo sem dó. Aquino tinha sido
golpeado para morrer, e o fato de ter atacado Nicholai só fez a morte
mais prazerosa, além de ser uma necessidade.
O cientista finalmente caiu, ainda apertando sua borbulhante
garganta, perdendo a consciência. Ele morreu rapidamente depois
disso, um último espasmo e pronto.
“Melhor você do que eu”. Nicholai disse. Ele vasculhou o
resfriante corpo e achou várias outras seringas e um código de
quatro dígitos num pedaço de papel – sem dúvida era a combinação
do cofre. Aquino certamente não esperava que Nicholai aparecesse
para roubar a vacina.
Nicholai levantou e andou para o cofre, repassando seus planos
como sempre fazia depois de qualquer ocorrido inesperado. Aquino
estava esperando Ken Franklin buscar a amostra, o que significava
que Franklin iria aparecer, a não ser que o doutor estivesse
mentindo. Nicholai acreditava nele. Aquino foi tão convincente
porque esteve dizendo a verdade, uma excelente técnica para
distrair o oponente...
... então eu sintetizo a vacina, talvez eu cace um pouco
enquanto espero o Sargento Franklin, me livro dele – e destruo o
hospital, junto com a pesquisa de Aquino. Se a Umbrella estiver
observando, vai pensar que tudo está acontecendo conforme o
planejado. Depois disso, só restará Chan e o empregado da fábrica,
Terence Foster...
Dane-se Mikhail e os outros dois, eles não eram mais
importantes. Quanto mais cedo se tornar o único Watchdog
sobrevivente, mais valioso Nicholai ficaria. E com a vacina TG em
mãos, não haveria limite para a recompensa da Umbrella.
Ao chegarem nas salas de trás, Jill estava quase pronta para
admitir derrota. Eles foram à toda parte, destrancando portas,
revirando cada sala extremamente bem mobiliada, pulando sobre
cadáveres e fazendo mais alguns. Uma parede de vidro quebrada no
salão antes da capela permitiu que vários infectados entrassem, e
encontraram outra aranha gigante no corredor depois da biblioteca.
Durante o caminho, ela contou um pouco sobre a mansão de
Spencer e arredores, histórias as quais precisou desenterrar depois
da desastrosa missão do S.T.A.R.S.. O velho Spencer, um dos
fundadores da Umbrella, era um fanático por esconderijos e
passagens secretas, e contratou George Trevor, um arquiteto
conhecido por sua criatividade, para projetar a mansão e renovar
alguns dos locais históricos da cidade, amarrando lugares de
Raccoon nas fantasias de espião de Spencer.
“Isso tudo foi trinta anos atrás,”. Jill disse. “e o cara era
completamente maluco por elas, é por aí vai. Assim que tudo ficou
pronto, ele trancou a mansão e levou a sede da Umbrella para a
Europa”.
“O que aconteceu com George Trevor?”. Carlos perguntou. Eles
pararam em outra porta, que devia ser uma das últimas salas.
“Ah, essa é a melhor parte”. Jill disse. “Ele desapareceu um
pouco antes de Spencer sair da cidade e ninguém jamais o viu de
novo”.
Carlos balançou a cabeça devagar. “Que lugarzinho pra se
viver, viu?”.
Jill acenou, abrindo a porta e recuando, revólver empunhado.
“É, eu estive pensando nisso”.
Nada se movia. Pilhas de cadeiras à direita. Três estátuas,
bustos femininos, bem à frente. Haviam dois corpos abraçados à
esquerda da porta, um casal, fazendo Jill erguer a sobrancelha e
desviar o olhar – e lá, pendurados na parede sul dentro de molduras
douradas, estavam os três relógios.
Eles andaram na sala, Jill estudando seu redor
impacientemente. Parecia normal...
... tão normal quanto aquela sala da mansão que acabou
virando um compactador de lixo gigante. Por força do impulso, Jill
encostou uma cadeira na porta para mantê-la aberta enquanto ia
olhar as pinturas.
Bom, os tipos de pinturas. Ela supunha serem chamadas de
mídia combinada. As três pinturas eram de três mulheres, uma em
cada tela, e cada uma contendo um relógio octogonal – o primeiro e
o último marcando meia-noite, o do meio marcando cinco horas.
Uma pequena cavidade em forma de concha avançava sob cada
moldura. As obras estavam intituladas como deusa do passado,
presente e futuro, da esquerda para a direita.
“O cartão postal dizia algo sobre colocar as mãos juntas”.
Carlos disse. “Como se fossem os ponteiros do relógio, certo?”.
Jill acenou. “É, faz sentido. Só é obscuro o bastante para
incomodar”.
Ela esticou o braço e tocou levemente a concha da pintura do
meio, a de uma mulher dançando. Houve um fraco clique e a concha
desceu como uma balança, o peso de sua mão empurrando-a para
baixo. Ao mesmo tempo, os ponteiros do relógio começaram a girar.
Jill puxou a mão, com medo de ter tirado algo do lugar, e os
ponteiros voltaram para a configuração anterior.
Nada mais aconteceu.
“Mãos juntas...”. Ela sussurrou. “Você acha que eles querem
dizer que todos os ponteiros devem marcar a mesma hora? Ou
querem dizer literalmente, mãos alinhadas?”.
Carlos balançou os ombros e tocou a concha da deusa do
futuro, definitivamente a mais arrepiante de todas. A do passado era
uma jovem garota sentada numa colina, a do presente era uma
mulher dançando... e a do futuro era a figura de uma mulher em um
justo vestido de festa, seu corpo posando sedutoramente – mas com
a careca e brilhante face de uma caveira.
Jill conteve o arrepio e não deixou nenhum pensamento entrar
no tema da morte iminente, como se já não tivesse tido o bastante
disso.
A concha que Carlos tocou desceu, e de novo, foram os
ponteiros da deusa do presente que se moveram.
Aparentemente, os outros dois estavam presos em meia-noite.
Jill se afastou da parede e cruzou os braços pensando – e de
repente conseguiu adivinhar como o quebra-cabeça funcionava, se
não estivesse errada. Ela girou, esperando que as peças faltando
estivessem por perto, e sorriu ao ver as três estátuas – ah, a simetria
– e os três objetos que seguravam em seus finos dedos de pedra.
“É um quebra-cabeça de peso”. Jill disse, andando para as
estátuas. Vendo de perto, ela viu que cada uma segurava uma
concha contendo uma única pedra do tamanho de um punho. Ela as
ergueu, sentindo os globos, notando os pesos diferentes.
“Três pedras, três conchas”. Ela continuou, voltando para as
pinturas, entregando a pedra escura – feita de obsidiana ou ônix, ela
não sabia – para Carlos. A outra era de cristal claro e a terceira de
âmbar brilhante.
“E o objetivo é fazer o relógio do meio marcar meia-noite”.
Carlos disse, pegando a pedra.
Jill acenou. “E tenho certeza que há uma lógica para seguir,
uma combinação de cor, como preto para morte, talvez... ou talvez
matemática. Não importa, não levará muito tempo para tentar todas
as combinações”.
Eles começaram tentando cada pedra em uma pintura por vez,
depois usando todas, Jill estudando cuidadosamente o relógio do
presente com cada depósito. Parecia que cada pedra tinha
diferentes valores dependendo do lugar onde fosse colocada. Jill
estava começando a achar que sabia – era certamente matemático
– quando por acaso acharam a solução.
Com a de cristal no passado, obsidiana no presente e âmbar no
futuro, o relógio do meio alcançou meia-noite, tocando levemente. O
ponteiro dos minutos começou a correr no sentido anti-horário
clicando – e então a face do relógio saiu da parede, empurrada por
um mecanismo que Jill não podia ver. No buraco revelado estava a
brilhante engrenagem dourada do mecanismo dos sinos que estava
faltando.
Inteligente, seus idiotas, mas não inteligente o bastante.
Carlos estava franzindo, suas expressões claramente confusas.
“O que diabos é isso, afinal? Por que alguém esconderia a
engrenagem, e de modo tão complicado?”.
Jill tirou a brilhante peça do esconderijo, lembrando de seus
próprios pensamentos sobre a mesma situação há seis semanas, de
pé nos escuros corredores da mansão de Spencer. Por que, por que
um sigilo tão elaborado?
Os arquivos que Trent a entregou pouco antes da missão eram
cheios de respostas para os enigmas da mansão, sorte a dela; sem
eles, ela nunca poderia ter escapado. A maioria dos pequenos e
bizarros mecanismos eram muito complicados para serem práticos,
prudentes ou funcionais. Qual era o objetivo?
Depois de ter pensado muito, Jill finalmente concluiu que o
verdadeiro quadro de diretores da Umbrella, aqueles que ninguém
conhecia, eram fanáticos paranóicos. Eles eram crianças auto-
envolvidas, brincando com jogos de agente secreto e apostando
com a vida de outras pessoas, só porque podiam. Porque ninguém
nunca os explicou que esconder brinquedos e fazer mapas do
tesouro era algo que as pessoas superavam com o crescimento.
E porque ninguém as impediu. Ainda.
De repente, animada para acabar com tudo, colocar a
engrenagem, tocar o sino e apenas partir, Jill respondeu para Carlos
do modo mais simples. “Eles são loucos, por isso. Cem por cento
malucos de primeira categoria.
Está pronto para sair daqui, ou não?”.
Carlos acenou soberbamente, e depois de olhar em volta pela
última vez, eles voltaram por onde vieram.
Capítulo 18
Carlos observou Jill subir a escada de mão outra vez, tentando
não elevar as esperanças de novo. Se isso não funcionar, ele ficaria
profundamente – não, magistralmente decepcionado.
Dane-se. Se não funcionar, nós deveremos apenas sair, ou ver
se podemos chegar àquela fábrica e conseguir uma carona. Ela está
certa, esse pessoal é andar lurias, perdidos no espaço; o quanto
antes sairmos de seu território, melhor.
Ele olhou neutramente para o escuro pátio por mais alguns
momentos, tão distraído que imaginou como faria mais alguma
coisa, como daria outro passo; parecia impossível. Tudo o que
motivava era seu desejo de partir, sair daquele holocausto e
recuperar-se.
Quando o primeiro e estrondoso badalar de sinos surgiu, o
profundo e oco tom ecoando do topo da torre, Carlos percebeu que
não podia esconder sua esperança. Ele tentou, dizendo a si que
poderia haver um problema no programa, dizendo que a Umbrella
enviaria assassinos, que o piloto seria um zumbi; nada adiantou. Um
helicóptero estava a caminho, ele sabia, ele acreditava; ele só
esperava que a equipe de resgate não tivesse problemas para achar
um local de pouso – holofotes! Havia quatro deles na laje e uma
velha caixa de controle perto da porta; a luz guiaria o helicóptero
mais rápido. Carlos correu para a caixa, erguendo o olhar para ver
se Jill já estava descendo. Ainda não – e quando olhou para frente
de novo, ele viu que não estava sozinho. Como num passe de
mágica, a gigante e mutilada aberração que vinha perseguindo Jill,
simplesmente estava lá, perto o bastante para Carlos sentir o cheiro
de queimado, rosnando, seu apertado e desorientado olhar voltado
para o topo da escada.
“Carlos, cuidado!”. Jill gritou, o monstro Nêmesis o ignorou
completamente, seus tentáculos que pareciam cobras sem olhos
debatendo-se em volta de sua colossal cabeça. Mais um passo e
estaria na base da escada – e Jill ficaria encurralada.
– ela disse que balas não o machucavam – Desesperado para
fazer algo, Carlos viu o grande botão verde no painel dos holofotes e
correu para ele, incerto sobre o que esperar. Distraí-lo, talvez, se
tiverem sorte – e todos os quatro holofotes acenderem de uma vez,
cegando-o, aquecendo instantaneamente o ar em torno deles e
iluminando a torre, provavelmente visível a quilômetros. Uma das
luzes estava completamente no rosto da aberração. A luz forçando a
coisa a recuar um passo, mãos gigantes cobrindo os olhos, e Carlos
agiu.
Ele correu para o cego Nêmesis, a M16 alta, e bateu o rifle
contra seu peito, o mais forte que pôde.
Desequilibrado, o monstro cambaleou para trás, suas pernas
tocando o antigo parapeito – e com um frágil estalo, uma larga
seção do parapeito cedeu, caindo na escuridão, Nêmesis
mergulhando logo depois. Carlos ouviu um doentio thump lá
embaixo no mesmo instante que as lâmpadas super-aqueceram e
desligaram, deixando formas escuras flutuarem nos olhos de Carlos
por um momento.
O grandioso e melódico badalar continuava enchendo o ar
enquanto Jill descia da escada e empunhava o lança-granadas,
juntando-se à Carlos no parapeito quebrado.
“Eu... obrigada”. Jill disse, olhando nos olhos dele, seu próprio
olhar sincero e estável. “Se você não tivesse acendido as luzes, eu
estaria morta. Obrigada”.
Carlos ficou impressionado e um pouco agitado com sua
sinceridade. “De nada”. Ele disse, de repente muito ciente do quanto
atraente ela era – não só fisicamente – e o quanto pouca era a
experiência que tinha com mulheres. Ele era um mercenário
autodidata de vinte e um anos, e não teve exatamente todo o tempo
do mundo e oportunidade para namorar.
Ela não deve ser tão velha, vinte e cinco pelo lado de fora, e
talvez ela – Jill estalou os dedos na frente dele, trazendo-o de volta à
realidade e lembrando-o do quanto cansado estava.
Ele esteve totalmente fora de si.
“Você ainda está comigo?”.
Carlos acenou, limpando a garganta. “Sim, desculpe. Você
disse algo?”.
“Eu disse que precisamos ir. Se ele ainda está irritado com uma
granada na cara, eu duvido que uma queda do segundo andar o
mataria”.
“Certo”. Carlos disse. “É melhor nós darmos uma volta. Eles
provavelmente jogarão uma corda se não puderem aterrissar”.
Jill acenou. “Vamos lá”.
Iluminado por dentro pela profunda voz do oco metal, Carlos
imaginou de repente se Nicholai ainda estava vivo – e se estivesse,
o que faria ao ouvir os sinos?
Nicholai ouviu os sinos no caminho de volta para o centro e
rosnou irritado, recusando-se a cair na isca. Ele não esperava que o
trio fosse conseguir, mas e daí? Davis Chan tinha arquivado outro
relatório, de uma boutique feminina, e Nicholai queria perseguí-lo.
E por que me importar se eles fugiram com suas vidas
miseráveis, com tudo o que consegui?
Nicholai tirou a caixa metálica do bolso pela terceira vez desde
que deixou o hospital, incapaz de resistir. Dentro havia um frasco de
vidro com um líquido roxo sintetizado que o assistente de Aquino
tinha deixado para trás.
Nicholai sabia que seria mais seguro armazenar a amostra em
algum lugar, porém o pequeno frasco representava sua autoria
perante os outros Watchdogs e uma recente elevação de status com
a Umbrella; ele era um líder, um supervisor de homens inferiores, e
descobriu que carregar a vacina e tocá-la de vez em quando, o fazia
se sentir poderoso. Sustentado, de certo modo.
Sorrindo, Nicholai guardou a caixa no bolso à fácil alcance, e
começou a andar de novo, ignorando as badaladas. As coisas
estavam indo muito bem – ele tinha a vacina; ele sabia onde Chan
estava e onde Franklin estaria em menos de quarenta e oito horas;
ele já tinha equipado o hospital para explodir e apertaria o botão
assim que seu encontro com Franklin acabasse. Nicholai pensou em
dar um pulo na fábrica e livrar-se de Terence Foster enquanto
esperava por Franklin, havia tempo de sobra – do mesmo jeito que
havia tempo para caçar Mikhail, fingir ser um nobre membro da
equipe e decidir qual deles morreria primeiro...
Os clamorosos sinos vibravam nele, seguindo-o para lembrá-lo
de seu fracasso, mas ele se recusou a se distrair com a fuga dos
três incompetentes. Ele estava se aproximando do centro, podia ver
as combinadas chamas das centenas de pequenos e não tão
pequenos incêndios encaixotando a escura cidade; mesmo se
quisesse, ele não voltaria para a torre do relógio antes do primeiro
helicóptero chegar. E ele não queria. Ele teve a oportunidade depois
de ter matado Aquino, mas decidiu que não valia seu tempo. Foi a
decisão certa... e as estranhas dúvidas que se reviravam dentro dele
com o som dos sinos deviam ser ignoradas; não significava nada, o
fato de terem sobrevivido, não significava que eram tão bons quanto
ele.
Além disso, ele ainda tinha que derrubar alguns cães para
garantir seu monopólio de informações. Ele acreditava que Chan
podia ter decidido ficar na boutique de onde reportou, já que era tão
tarde. Nicholai iria matá-lo, pegar seus dados e passar a noite em
algum lugar na cidade. Na reunião dos Watchdogs, foi falado que a
comida era escassa, mas Nicholai sabia que podia se virar – comida
enlatada, talvez. Pela manhã, ele faria seu próprio relatório para
manter seu disfarce, e passaria o dia caçando suas próprias
informações, indo à oeste novamente.
Tudo estava bem, e enquanto cruzava os subúrbios na direção
da cidade, o som de um helicóptero e aproximando não o
incomodou nem um pouco. Deixe aqueles molengas desgraçados
correrem, ele sentia-se ótimo, sob controle, melhor do que ótimo. Só
estava com dor de cabeça por causa dos malditos sinos.
Eles refizeram todo o caminho pela torre do relógio, Jill
querendo ter certeza antes de saírem e encontrarem-se com o
helicóptero, de que Nêmesis tinha se confundido ou que tivesse
muito tempo para andar por aí. Enquanto andavam eles inventaram
uma história para contar ao comandante da evacuação – Jill seria
Kimberly Sampsel (o nome de sua melhor amiga da quinta série),
ela trabalhava numa galeria de arte local, não tinha família e mudou-
se para Raccoon recentemente. Carlos a tinha achado logo depois
que seu líder de pelotão foi morto por zumbis, o outro único membro
sobrevivente da U.B.C.S.. Juntos, eles chegaram na torre do relógio
e fim de história.
Eles decidiram não mencionar Nicholai, Nêmesis, ou qualquer
outra criatura não identificada que encontraram; a idéia era parecer
o mais ignorante possível em relação aos fatos. Nenhum deles
queria testar a lealdade da equipe de resgate, e Jill não tinha
dúvidas de que haveria alguém no helicóptero para interrogá-los,
sendo assim quanto mais simples a história, melhor. Eles só tinham
que rezar para que ninguém tivesse a foto dela em mãos.
Eles se preocupariam em fugir deles depois de terem saído da
cidade.
Eles pararam na porta dupla da entrada do saguão por um
momento, olhando um para o outro, Jill sentindo uma estranha
mistura de felicidade e ansiedade. O resgate estava vindo, porém
estavam tão perto de fugir que ela sentiu medo de algo dar errado.
Talvez seja porque a Umbrella esteja fazendo o resgate, só
Deus sabe se eles não vão esquecer o caminho de volta...
“Jill? Antes de partirmos, eu quero te dizer uma coisa”. Carlos
disse, e por alguns segundos, Jill pensou que sua ansiedade estava
preste a ser confirmada, de que ele iria contar algum segredo terrível
que vem guardando – mas então viu suas cuidadosas e pensativas
expressões, e pensou diferente.
“Tá bom, manda”. Ela disse neutramente, pensando no modo
como ele a olhou na laje. Ela já tinha visto esse olhar antes, em
outros homens – e não sabia o que sentir ao certo com isso vindo de
Carlos. Antes de partir para a Europa, Chris Redfield e ela estavam
ficando bem próximos...
“Antes de vir para cá, eu fui avisado por um cara sobre
Raccoon, sobre o que estava acontecendo”. Carlos começou, e Jill
teve bastante tempo para se sentir uma idiota com sua suposição.
Trent!
“Ele me disse que passaríamos por maus bocados e se
ofereceu para me ajudar. Eu pensei que ele fosse louco a
princípio−”.
“– mas aí você chegou aqui e descobriu que ele não era”.
Carlos a encarou. “Você o conhece ou algo assim?”.
“Provavelmente tanto quanto você. Aconteceu o mesmo
comigo, pouco antes da mansão, ele me deu informações sobre ela
– e me disse para tomar cuidado em quem confiava. Trent, não é?”.
Carlos acenou, e apesar de ambos terem aberto a boca para
falar, nenhum deles disse uma palavra. Foi o som do helicóptero se
aproximando que os interrompeu, que fez ambos sorrirem e
trocarem olhares de alegria e alívio.
“Vamos falar dele mais tarde”. Carlos disse, abrindo as portas, o
bater das pás de helicóptero enchendo o saguão enquanto os dois
saíam para o pátio.
Jill só viu um deles mas não se importou, obviamente não
restava mais ninguém para evacuar, e assim que a aeronave pairou
sobre o bonde batido, ela e Carlos começaram a acenar com os
braços e gritar.
“Aqui! Nós estamos aqui!” . Jill gritou, e até viu o rosto barbeado
do piloto, o sorriso dele iluminado pelas luzes do painel enquanto se
aproximava – perto o bastante que pôde ver seu sorriso desaparecer
no mesmo instante que ouviu uma arma disparar à sua direita, um
olhar de crescente terror na jovem face do piloto.
Shhhh – Uma linha de fumaça colorida, riscando na direção do
helicóptero, vindo de alguém no telhado das salas adjacentes da
torre, superfície ao ar, bazuca ou um lança mísseis – BOOM!
“Não”. Jill sussurrou, mas o som ficou perdido assim que o
míssil atingiu o helicóptero e explodiu, Jill pensando vagamente que
deveria ser um míssil com sensor térmico para causar os danos que
estava causando enquanto a aeronave girava na direção deles,
adernando para um lado, fogo saindo pela despedaçada cabine.
Carlos agarrou seu braço e a puxou, quase a tirando de suas
botas, levando-a para o pátio enquanto um alto e ascendente
relincho estourava sobre eles, o helicóptero em chamas avançando
desgovernado enquanto se abaixavam atrás da fonte – e então a
aeronave colidiu com a torre. Pedaços de metal, pedra e madeira
em chamas choveram sobre eles enquanto o helicóptero perfurava a
cobertura do saguão, e como a voz da destruição, Jill ouviu o
triunfante grito de Nêmesis elevar-se sobre tudo.
Capítulo 19
Carlos ouviu o grito do monstro e começou a se levantar, ainda
segurando o braço de Jill. Eles tinham que fugir antes que ele a
visse – e as portas do prédio abriram fortemente como se fossem
feitas de madeira balsa, destroços do helicóptero saindo num
estouro de estilhaços fumegantes.
Antes que Carlos pudesse se abaixar, um grande pedaço de
pedra escura da parede externa do prédio socou seu lado esquerdo.
Ele ouviu e sentiu uma costela ceder, sentindo no mesmo instante a
intensa dor.
“Carlos!”.
Jill curvou-se sobre ele, seu olhar indo para frente e para trás
entre ele e a parte da torre que não podia ver, o lança-granadas
ainda firme nas mãos dela. O Nêmesis tinha parado de roncar; entre
isso e o súbito e brutal silêncio dos sinos, Carlos podia ouvir algo
batendo pesadamente no chão, seguido pelo esmagamento de
frágeis pedras em um lento e constante ritmo. Crunch. Crunch.
Está vindo, ele pulou do telhado e está vindo – “Corre”. Carlos
disse, e viu que ela entendeu, que não tinha escolha, decolando um
segundo antes. Com as botas chutando o chão, ela o deixou
sozinho o mais rápido que pôde.
Carlos virou a cabeça e se sentou, não querendo sentir a dor, e
viu a criatura de pé numa pilha de concreto quebrado e madeira em
chamas, sem perceber que a bainha de seu colete de couro estava
pegando fogo enquanto o olhar da coisa procurava Jill. Como antes,
ele não parecia ver Carlos.
Desde que eu não cruze seu caminho, Carlos pensou,
apoiando-se nas frias pedras da fonte, levantando seu rifle. Não está
doendo, não está, não está.
Com um único e poderoso movimento, Nêmesis ergueu o lança-
mísseis até o ombro e mirou enquanto Carlos começava a atirar.
Cada chacoalho da M16 mandava um novo pulso de agonia
através de seus ossos, mas sua mira era boa apesar da dor.
Pequenos buracos escuros apareceram no rosto da criatura, e
Carlos pôde ouvir o ping do ricochete no lança-mísseis. Os carnudos
tentáculos que se ergueram sob o longo casaco do monstro,
debatiam-se na parte superior do corpo como se estivessem fora do
controle, enrolando e desenrolando com uma grande velocidade.
Carlos viu que ele estava virando a bazuca na sua direção, mas
continuou atirando, sabendo que não conseguiria se levantar a
tempo e correr. Fuja, Jill, vai!
O monstro o viu e atirou, e Carlos viu o estouro de luz e
movimento vindo até ele, sentiu o calor do míssil anti-tanques
altamente explosivo brilhando contra sua pele – e de alguma forma
não estava morto, mas algo não muito longe atrás dele explodiu. A
força da explosão levantando e arremessando-o contra a lateral da
fonte; a dor era espetacular e mau ficou consciente, determinado a
dar mais alguns segundos para Jill.
Parcialmente deitado na beira da fonte, Carlos começou a atirar
de novo, mirando no rosto, balas indo para todo lado enquanto
lutava para controlar a arma.
Morra, apenas morra logo... mas não estava morrendo, nem se
quer estava vacilando, e Carlos sabia que só tinha meio segundo
antes de virar uma mancha no gramado.
O lança-mísseis estava apontado diretamente para o rosto de
Carlos quando aconteceu, um tiro em um em um milhão – Carajo! –
assim que um dos pings metálicos tornou-se uma explosão, uma
súbita e quente luz aparecendo. O monstro foi empurrado para trás
assim que sua arma desintegrou, caindo fora de visão.
O rifle de Carlos secou. Ele esticou o braço para pegar outro
pente e houve mais dor. Ele perdeu o caminho da luz, a escuridão
levando-o ao chão.
Jill viu Carlos cair e ficou onde estava, de pé entre o bonde e
uma cerca viva. Ela viu Nêmesis sumir, jogado nos destroços em
chamas com a falha de sua bazuca, mas sua confirmada habilidade
para driblar a morte a manteve longe de Carlos. Se ainda estiver
vindo, ela queria mantê-lo concentrado somente nela.
O lança-granadas parecia leve em suas mãos, alta adrenalina
dando-a uma segunda vontade de vingança – e quando Nêmesis se
ergueu, com um ombro queimado, sua carne vermelha e preta
inchada e visível sob a roupa arruinada, Jill atirou.
A “granada” carregada com chumbo grosso, como se fosse um
super cartucho de escopeta, enviou uma concentrada explosão de
milhares de projéteis pelo pátio – mas errou completamente o
uivante Nêmesis, o tiro cavando novos buracos no que restou da
fachada frontal da torre.
Nêmesis parou de gritar mesmo com seu peito ainda
queimando, a pele quebradiça e chamuscada agora. Ele virou seu
corpo para Jill enquanto ela abria a arma e a carregava com outro
cartucho de sua mala, rezando para que ele estivesse mais
seriamente ferido pelo tiro de sorte de Carlos do que parecia.
Ele abaixou a cabeça e correu para ela, sua gigante disparada
levando-o rapidamente até ela. Em um segundo tinha cruzado o
pátio, seus tentáculos espalhados como se fossem agarrá-la.
Jill saltou para a esquerda e começou a correr cegamente,
ainda segurando o cartucho, passando entre um canteiro de
arbustos e o muro oeste do pátio. Ela pôde ouvi-lo entrar no
caminho atrás dela ao terminar o percurso; ele quase a pegou, sua
velocidade era extraordinária, deixando-o a um braço de distância
enquanto contornava o fim do canteiro – e algo acertou seu ombro
direito, algo sólido e liso, escavando sua pele como um gigante
dedo sem ossos. Ele picou, mil vespas inundando seu sistema com
veneno ao mesmo tempo, e ela entendeu que um dos tentáculos a
tinha picado.
Ahdrogadrogadroga, ela não podia pensar nisso, não havia
tempo, mas Nêmesis parou de repente, jogou a cabeça para trás e
contou sua vitória às frias estrelas, e Jill parou, colocou o cartucho
na arma e a desdobrou ao meio para fechar – e atirou quando ele
partiu para cima dela de novo. O tiro acertou o berrante Nêmesis
bem abaixo do lado direito da cintura, perfurando a carne de sua
coxa, pedaços de pele e músculo voando atrás dele – e ele caiu
depois de alguns momentâneos passos, com um espirro de pele
devastada.
Apressada para recarregar, Jill acabou derrubando o penúltimo
cartucho no chão, rolando para longe. Ela conseguiu segurar o
quinto firmemente e estava fechando a arma quando Nêmesis
sentou, olhando para ela.
Jill mirou na parte debaixo das costas e atirou, o trovão da arma
apenas um abafado som sob o apito em seus ouvidos. Nêmesis
estava se movendo, levantando ao ser atingido, os projéteis
acertando baixo e à esquerda, o que seria um tiro renal fatal para
humanos. Aparentemente não para o matador de S.T.A.R.S.. Ele
cambaleou e ficou de pé, começando a se afastar mancando, uma
das gigantes mãos cobrindo o novo ferimento.
Indo embora, ele está indo embora – Seus pensamentos eram
lentos e pesados. Levou um tempo para ela entender que sua
partida não era algo bom. Ela não podia deixá-lo partir, deixá-lo se
recuperar para voltar – ela tinha que tentar matá-lo enquanto estava
fraco.
Jill sacou sua Python e tentou mirar, mas sua visão dobrou de
repente e não conseguiu se concentrar na figura fugindo, arrastando-
se pelos destroços em chamas. Ela sentiu-se tonta e febril, e
pensou com certeza que tinha sido infectada pelo T-virus.
Ela não precisava ver o ferimento no ombro para saber se era
grave, ela podia sentir o sangue deslizando pelo seu lado,
encharcando a cintura de sua saia. Ela queria acreditar que o vírus
estava sendo lavado de seu sistema, mas não podia se enganar,
mesmo estando tão ferida.
Por alguns segundos ela considerou a .357 carregada em sua
mão – e depois pensou em Carlos, e sabia que devia esperar. Ela
tinha que ajudá-lo se pudesse, ela devia isso a ele.
Convocando o resto de sua força, Jill foi até Carlos. Ele estava
perto da fonte, gemendo e meio consciente, machucado, mas ao
menos não via sangue, talvez estivesse bem...
Foi seu último pensamento antes de sentir seu corpo a trair
desistindo, derrubando-a no chão e deixando-a num sono muito
profundo.
Escuro, badalar, e escapar, fogo e escuridão e balas, não posso
ouvir, Jill correndo do fogo e a coisa atirando, míssil de alto poder
apontado – apontado para minha – cara.
Carlos voltou a si apressado, confuso, dolorido e procurando
pelo combate, por Nêmesis e Jill. Ela terá problemas se aquela
coisa pegá-la...
Era uma quieta e calma noite, fogo baixo queimando por toda
parte, iluminando com um laranja dançante e quente o bastante para
fazê-lo suar. Carlos forçou a sim mesmo para se mexer,
engatinhando para ficar de pé e segurando suas costelas
firmemente, seus dentes apertados de dor. Fraturada ou quebrada,
talvez duas delas, mas precisava pensar em Jill agora, tinha que
esquecer os efeitos das várias explosões e – “Ah, não”. Ele disse,
esquecendo sua dolorida exaustão e correndo para ela. Jill estava
caída num caminho de grama queimada, perfeitamente imóvel
exceto pelo constante sangramento em seu ombro direito. Ainda
estava viva, mas talvez não por muito tempo.
Carlos engoliu sua dor e a levantou, o peso morto de seu corpo
fazendo-o querer gritar, com a insanidade que tinha se desenrolado
e crescido em Raccoon, que tinha imposto suas impiedosas garras
sobre Jill e ele. A Umbrella, monstros, espiões, e até Trent – tudo
isso era loucura, era um conto de fadas de terror... mas o sangue
era bem real.
Ele a segurou firme, virando e procurando. Ele tinha que levá-la
para dentro, para um lugar seguro, um lugar onde poderia tratar
seus ferimentos, onde ambos pudessem descansar um pouco. Havia
uma capela na quase intacta asa oeste; não havia janelas e a porta
tinha boas travas.
“Não morra, Jill”. Ele disse, e esperou que ela estivesse ouvindo
enquanto o carregava pelo pátio em chamas.
Capítulo 20
Tempo passando. Escuro, escuro e fragmentos de milhares de
sonhos, girando até ganharem foco para uma breve olhada antes de
se embaralharem de novo. Ela era uma criança na praia com seu
pai, o gosto de sal no vento. Ela era uma adolescente bobona,
apaixonada pela primeira vez; uma ladra, roubando de estranhos
ricos como seu pai lhe havia ensinado; uma estudante, treinando
para o S.T.A.R.S., aprendendo como usar suas habilidades para
ajudar as pessoas.
Mais escuro. O dia em que seu pai foi preso por um grande
roubo. Amores que traiu, ou que a traíram.
Sentimentos de solidão. E sua vida em Raccoon City, a
completa morte da luz.
Becky e Priscilla McGee, sete e nove anos, as primeiras
vítimas. Estripadas, partes delas comidas. Achar o helicóptero
acidentado do Bravo Team fora da mansão; o cheiro de pó e
podridão lá dentro. Descobrir sobre a conspiração da Umbrella,
sobre a corrupção e colaboração de alguns poucos membros do
S.T.A.R.S.. A morte do capitão traidor, Albert Wesker, e o ataque
final de Nêmesis.
Várias vezes, meio acordada, ela engoliu água fria e dormiu de
novo, mais lembranças recentes aparecendo. Os sobreviventes
perdidos, as pessoas que tentou salvar, os rostos das crianças em
sua maioria. Todos eles se foram. A morte brutal de Brad Vickers.
Carlos. O olhar estático e sem emoções de Nicholai, e o sacrifício de
Mikhail. E reinando sobre tudo como um epítome demoníaco do
mal, o monstro além-Tyrant, a nêmese, sua terrível voz chamando
por ela, seus terríveis olhos a seguindo por onde quer que fosse,
não importa o que fizesse.
A coisa mais perturbadora, apesar de tudo, era que havia algo
acontecendo com seu corpo, e estava muito desacordada, e não
menos desagradável com isso. Era como se suas veias estivessem
aquecendo e expandindo. Como se cada célula estivesse
engordando e ficando pesada com estranhos temperos, grudando
nas células ao redor, todas fervendo levemente. Como se o corpo
inteiro fosse um vaso cheio de calor líquido.
Finalmente, o gentil som de chuva correu pelos limites de sua
plenitude e ela ansiou por vê-la, por sentir sua frieza na pele, mas
era uma longa luta para abandonar a escuridão. Seu corpo não
queria, protestando em voz alta quando chegava perto da superfície
de cinza, a penumbra entre os sonhos e a chuva – mas
determinada, ela venceu.
Capítulo 21
Carlos estava sentado com suas costas contra a porta comendo
um coquetel de frutas de uma lata quando ouviu Jill se agitar, o
regular e consistente som de sua profunda respiração ficando mais
leve. Ela virou a cabeça de lado a lado, ainda adormecida, porém, o
movimento foi a ação mais deliberada que viu em quarenta e oito
horas.
Ele se levantou o mais rápido que pôde, forçado a tomar
cuidado com o beliscão de suas costelas amarradas bem apertado,
e se apressou até o altar elevado onde ela estava.
Ele pegou a garrafa d´água na base do tablado, e quando
levantou de novo, ela abriu os olhos.
“Jill? Eu vou te dar água agora. Tente me dar uma força, tá
bom?”.
Ela acenou, e Carlos sentiu-se cheio de alívio, apoiando sua
cabeça no alto enquanto ela tomava alguns goles da garrafa. Foi a
primeira vez que respondeu claramente, e sua cor parecia boa. Por
dois dias ela bebeu quando ele a fez beber, ao menos engolia
apesar de ter estado branca como um fantasma e completamente
fora de si.
“Onde estamos?”. Jill perguntou fracamente, fechando seus
olhos enquanto deitava a cabeça no travesseiro improvisado, um
pedaço e carpete enrolado. O cobertor era feito de cortinas não
queimadas que achou no salão do lado de fora.
“Na capela da torre do relógio”. Ele disse suavemente, ainda
sorrindo. “Nós estamos aqui desde – desde que o helicóptero caiu”.
Jill abriu os olhos de novo, obviamente ciente e
consideravelmente concentrada. Ela não estava infectada, ele
esteve com muito medo, mas ela estava bem, tinha que estar.
“Quanto tempo?”.
Falar parecia tão cansativo para ela que Carlos tentou resumir
tudo o que tinha acontecido, para economizá-la perguntas. “O
Nêmesis atirou no helicóptero e nós dois fomos feridos. Seu ombro
estava... machucado, mas eu tenho trocado os curativos e não
parece haver infecção. Nós estamos aqui há dois dias, nos
recuperando, você dormiu o tempo todo. Hoje é primeiro de Outubro,
eu acho, o sol se pôs há uma hora e está chovendo desde a noite
passada...”.
Ele parou, sem saber o que mais dizer e não querendo que ela
voltasse a dormir, não agora. Ele ficou sozinho com os próprios
pensamentos durante muito tempo.
“Ah, eu achei uma caixa de coquetel de frutas no baú daquela
sala de estar – aquela com o tabuleiro de xadrez, lembra? Água
também, alguém estava estocando, eu acho, sorte a nossa. Eu não
quis deixa-la sozinha, eu estive, é, cuidando de você”. Ele não disse
que a esteve limpando, trocando as cortinas sob ela quando
necessário; ele não quis deixá-la constrangida.
“Você está ferido?”. Ela perguntou, franzindo, piscando
devagar.
“Umas duas costelas fraturadas, nada demais. Bom, talvez
quando precisar puxar a fita adesiva, isso vai doer que nem uma
desgraça. Tudo o que consegui achar foi fita isolante”.
Ela sorriu de leve, e Carlos suavizou a voz, quase com medo de
perguntar. “Como você está?”.
“Dois dias? Sem mais helicópteros?”. Ela perguntou, desviando
o olhar, e ele sentiu-se um pouco tenso. Ela não tinha respondido
sua pergunta.
“Mais nenhum”. Ele disse e percebeu pela primeira vez que
suas bochechas estavam vermelhas demais. Ele tocou a lateral de
seu pescoço, e sua tensão aumentou, era febre, nada grave, mas
ela não a tinha uma hora atrás quando verificou pela última vez. “Jill,
como se sente?”.
“Nada mau. Nada mau mesmo, quase sem dor”. Sua voz era
constante, não afetada.
Carlos deu um sorriso torto. “Bien, si? Isso é bom, significa que
podemos fazer as malas e sair daqui em breve...”.
“Eu estou infectada com o vírus”. Ela disse, e Carlos congelou,
seu sorriso sumindo.
Não, não, ela está errada, não é possível.
“Faz dois dias, você não pode estar”. Ele falou firmemente,
dizendo a ela o que vem dizendo a si mesmo. “Eu vi um dos outros
soldados virar zumbi, não deve ter levado mais de duas horas do
momento em que Randy foi mordido até ele mudar. Se você
estivesse, algo já teria acontecido”.
Jill rolou para o lado cuidadosamente, franzindo um pouco,
fechando os olhos de novo. Ela soou incrivelmente cansada. “Eu
não vou discutir com você Carlos. Talvez seja uma mutação
diferente por ter vindo do Nêmesis, ou talvez consegui algum tipo de
imunidade por ter estado na mansão de Spencer. Eu não sei, mas
estou com o vírus”. A voz dela tremeu. “Eu posso sentir, eu posso
me sentir piorando!”.
“Tá, tá bom, shhh”. Carlos disse, decidindo que partiria
imediatamente. Ele levaria o revólver de Jill além da metralhadora, e
certamente algumas granadas de mão.
O hospital estava perto, e havia pelo menos uma amostra da
vacina lá, foi o que Trent disse. Carlos quis ter procurado o hospital
antes para pegar suprimentos, mas esteve muito cansado e
machucado para sair, a princípio – depois não quis arriscar deixar
Jill sozinha e inconsciente, perigoso por vários motivos.
Eu sairei pela frente e seguirei à oeste, ver se consigo achar
alguma placa... Trent também disse algo sobre o hospital não ficar lá
por muito tempo; Carlos esperava não estar atrasado demais.
“Tente voltar a dormir”. Carlos disse. “Eu vou sair por um tempo,
para tentar achar algo que possa ajudá-la. Eu não demorarei”.
Jill já parecia estar meio desacordada, mas ela ergueu a cabeça
e forçou para ser clara, falando com cuidado.
“Se você voltar e eu estiver – mais doente, eu quero que me
ajude. Eu estou perguntando agora, pois posso não conseguir
depois. Você entende?”.
Carlos quis protestar, mas sabia que pediria a mesma coisa se
tivesse a doença. Ser sugado até a morte, mas Raccoon era a prova
de que havia coisas piores.
Como ter que atirar em alguém com a qual se importa.
“Eu entendo”. Ele disse. “Descanse agora. Eu volto logo”.
Jill dormiu, e Carlos começou a se equipar. Pouco antes de
partir, ele olhou para o rosto adormecido dela por um longo
momento, silenciosamente rezando para que ela ainda fosse Jill
quando voltasse.
O hospital acabou sendo mais perto do que imaginava, a menos
de duas quadras de distância.
Nicholai esperou Ken Franklin ansiosamente, sabendo que a
morte o Watchdog marcaria o começo do fim do jogo. A crescente
frustração de Nicholai estava para acabar.
Isso se o desgraçado aparecer... mas não, ele estava vindo, e
depois Nicholai voltaria aos trilhos. Ele olhou pela janela do canto do
escritório que escolheu, vasculhando a vazia e escura rua – que
também era sua rota de fuga caso o sargento desse trabalho – pela
décima vez, querendo que o errante Watchdog se apressasse.
Nada correu como planejado, e apesar de ter feito o melhor
possível, Nicholai estava perdendo a paciência. A busca por Davis
Chan foi um espetacular fracasso; Nicholai se quer o viu durante os
dois dias que ficou na cidade – e por duas vezes o evasivo soldado
conseguiu evitar um confronto depois de reportar, fazendo Nicholai
correr por toda a cidade.
Nicholai também tinha planejado ir para a “estação de
tratamento” da Umbrella e se livrar de Terence Foster no começo do
dia, mas se envolveu em outra caçada – ele tinha visto uma
americana asiática não infectada perto do R.P.D., vestindo um
apertado vestido vermelho sem mangas e segurando uma arma
como se soubesse o que fazer com ela. Ela entrou na delegacia e se
foi. Nicholai a procurou por cerca de quatro horas, mas não viu a
mulher misteriosa de novo.
Sendo assim, três alvos estavam vivos. Pelo menos ele
conseguiu coletar algumas informações para seu crédito,
descobrindo alguns relatórios particulares de laboratório sobre a
força da maioria dos zumbis – mas já teve o bastante, bancando o
caçador, comendo grãos enlatados frios e dormindo com um olho
aberto. Segundo suas contas, já tinha matado quatro Hunters Beta,
três aranhas gigantes e três brain suckers. E dezenas de zumbis,
claro, apesar de não considerá-los de grande importância na
contagem, não mais. Eles apenas ficavam mais lentos e mais
persistentes; Raccoon já cheirava como uma fossa gigante, e só
ficaria pior enquanto os contaminados continuarem se decompondo,
virando uma grande e pegajosa pilha de carne mau cheirosa.
Até lá eu já terei partido. Afinal de contas, Franklin estará aqui a
qualquer minuto.
Depois de dois dias de objetivos não cumpridos, Nicholai viu
seu encontro com Franklin no hospital como algo sólido, algo com o
qual podia contar – uma morte certa. E como tem passado longas e
solitárias horas imerso no crescente caos de incerteza, a morte de
Ken Franklin tinha se tornado extremamente importante. Uma vez
morto, Nicholai poderia explodir o hospital; uma vez explodido,
Nicholai poderia caçar Chan e Foster, e assim poderia partir. Tudo
se encaixaria assim que matasse Franklin.
Enquanto abraçava esse pensamento, ele ouviu passos no
corredor. De coração inchado de prazer, Nicholai posicionou-se ao
lado da janela e esperou Franklin achá-lo. O bagunçado
escritório/depósito ficava no quarto andar, não muito longe de onde
havia matado e escondido o Dr. Aquino.
Apareça, Sargento...
Quando o Watchdog abriu a porta, Nicholai estava apoiado
casualmente no canto, de braços cruzados. Franklin estava
carregando uma VP70 de 9mm top de linha, e a tinha travado no
rosto de Nicholai num piscar de olhos.
Nicholai não se moveu.
“Você não devia estar aqui”. Franklin disse friamente, sua voz
profunda e mortal. Ele avançou na sala, sem tirar o olhar – ou a
semi-automática – de Nicholai.
É hora de ver quem é mais esperto. Qualquer um poderia armar
uma emboscada, mas era preciso uma certa quantidade de
inteligência e habilidade para fazer o oponente cair numa. Nicholai
fingiu um leve e rude nervosismo.
“Você tem razão, eu não devia. Aquino deveria estar aqui – mas
parou de preencher relatórios ontem. Eles pensaram que ele estava
muito ocupado, trabalhando no antivírus, mas o estive procurando
desde a última noite e não consegui achá-lo”. Na verdade, Nicholai
tinha preenchido vários relatórios de status como o nome do Dr.
Aquino desde que o matou, para manter as aparências.
“Quem é você?”. Franklin perguntou. Ele era alto e musculoso,
pele bem escura e óculos aparentemente delicados, com armação
de arame. Entretanto, não havia nada de delicado no modo como
olhava para Nicholai.
Nicholai descruzou os braços e os abaixou bem devagar.
“Nicholai Ginovaef, U.B.C.S…. e Watchdog. Eu fui enviado para
verificar as coisas quando o doutor se ausentou. Você é Franklin,
certo? Você teve algum contato com Aquino desde sua chegada?
Ele mencionou onde guardaria a amostra, ou entregou alguma
combinação ou chave?”.
Franklin não abaixou a arma, mas obviamente estava confuso.
“Ninguém me disse sobre mudança de planos.
Quem você disse que o enviou?”.
Essa parte era arriscada. Nicholai sabia o nome de quatro
homens importantes que poderiam ter feito mudanças na agenda da
Umbrella, e havia boas chances de que um deles fosse o contato de
Franklin, e já o teria informado.
“Eu não disse”. Nicholai falou. “Mas acho que não há problema
em contar... Trent me colocou nessa”.
Ele escolheu o homem do qual sabia menos, mesmo depois de
toda sua cuidadosa pesquisa, na esperança de que Franklin também
não soubesse muito sobre ele. Trent era um enigma, esgueirando-
se em volta dos outros chefões como uma sombra oculta. Nicholai
nem sabia seu primeiro nome.
Funcionou para o sargento. Franklin abaixou a arma, ainda
desconfiado, mas obviamente querendo acreditar.
“Então, você não achou Aquino? E a vacina?”.
Nicholai suspirou, balançando a cabeça, e depois olhou
deliberadamente para a esquerda, para um espaço escondido fora
da visão de Franklin, atrás de uma prateleira sobrecarregada.
“Nenhum sinal do doutor... mas este era seu escritório, e tem um
cofre na parede aqui atrás. Você sabe como abrir uma dessas
coisas?”.
Nicholai sabia que Franklin sabia – em eu arquivo pessoal,
arrombamento de cofre estava listada entre suas habilidades.
Nicholai não dava a mínima se Franklin conseguiria ou não abri-lo; o
importante era que para chegar ao cofre, o sargento teria que dar as
costas para Nicholai.
Eu sou melhor nisso, melhor do que Aquino, Chan ou esse tolo,
eu provarei isso. Eu nunca darei as costas para ninguém, nunca.
Claro, seria desonroso de sua parte...
Franklin acenou, guardando a VP70 e andando na direção do
canto onde Nicholai estava. “É, sei um pouco.
Mesmo assim eu posso dar uma olhada”.
Nicholai acenou vaziamente. “Bom. Eu estava começando a
achar que ficaria preso aqui por um tempo”.
“Talvez fosse o melhor”. Franklin disse, passando por ele até o
pequeno cofre embutido atrás da estante. “Do jeito que as coisas
estão lá fora, eu tenho pensado em me esconder por um tempo em
algum lugar, esperar até as coisas se acalmarem”.
Nicholai deu um silencioso passo até Franklin, olhando a VP70
no coldre. “Não é uma má idéia”.
Franklin acenou, franzindo ao ver o teclado. “Chan está fazendo
isso, ele disse que as informações estarão lá amanhã, então porque
não, não é?”.
Davis Chan!
Nicholai conteve-se parado, decidindo – e então avançou e
puxou a 9mm, não querendo dançar pelo que queria. Ele empurrou
Franklin ao mesmo tempo, desequilibrando-o, usando a fração de
segundo de sua recuperação para exibir a pesada arma.
“Chan – me diga onde ele está e você vive”. Nicholai falou. Com
a mão livre, ele tocou a vacina no bolso, para dar sorte. Ela tinha
virado uma espécie de talismã para lê, um lembrete de como ele era
bom – e dava sorte, ele sabia.
Franklin e agora Chan, os dois únicos Watchdogs sem local de
reportagem definido. Incrível.
Franklin recuou um passo, de mãos para o alto. “Ei, vá com
calma−”.
“Onde ele está?”.
Franklin estava suando. “Na estação de rádio, tá bom? No
cemitério. Olha, eu não te conheço, e não me importa o que está
fazendo−”.
“Ótimo”. Nicholai disse, e baleou Franklin no abdômen, duas
vezes.
“Uuh!”. Franklin gemeu forte enquanto sangue espirrava na
parede atrás dele. O sargento foi para trás e caiu sentado, de braços
espalhados, com uma expressão de surpresa em suas escuras
feições. Nicholai ficou um pouco surpreso; ele esperava algo melhor
de um dos cães soldados.
Nicholai ergueu a arma, mirando-a na testa de Franklin –
quando ouviu a porta abrir, botas entrando na sala. Com a arma
ainda apontada para Franklin morrendo, Nicholai agachou-se e
espiou através de um espaço na estante – e viu Carlos Oliveira
parado, olhando em volta atentamente, apontando um pesado
revólver .357, certamente tentando descobrir de onde os tiros
vieram.
Era um presente do destino. Nicholai se fez visível, o olhar
idiota de Carlos focalizado antes mesmo de perceber que havia
alguém na sala.
“Te peguei”. Nicholai sussurrou.
Capítulo 22
Nicholai o pegou de jeito. Carlos largou o revólver e ergueu as
mãos. Ele tinha que ganhar tempo.
Fale com ele, ganhe sua atenção. Jill precisa tê-lo de volta, com
ou sem vacina.
“Hola, colega”. Carlos disse de leve. “Fiquei pensando se o
veria de novo, depois que nosso passeio para fora do centro
explodiu em porcaria. Foi um monstro, acredite se quiser. Então,
qual é a sua história? Matou algo interessante ultimamente?”.
De trás de uma estante junta à parede lateral, alguém gritou de
dor. Nicholai não desviou o olhar, e Carlos pôde ver que ele tinha o
tato certo. Nicholai estava presunçoso, irritado... e intrigado.
“Estou para matar você – sendo assim, não, nada interessante.
Me diga, Mikhail já morreu? E como está a vadia da sua amiga, Srta.
Valentine?”.
Carlos olhou fixamente para ele. “Ambos mortos. Mikhail morreu
no bonde e Jill contraiu o vírus. Eu... eu tive que derrubá-la algumas
horas atrás”. Ele provavelmente não se safaria dessa e não queria
Nicholai atrás de Jill; Carlos rapidamente mudou de assunto. “Você
atirou em Mikhail, não foi?”.
“Atirei”. Os olhos de Nicholai cintilaram. Ele tocava o bolso da
frente enquanto falava, tirando algo que parecia ser um porta
cigarros de metal. “Se tivesse tanta sorte, essa seria a cura para o
que matou sua amiga. Se você tivesse chegado mais cedo... de
certo modo, suponho que eu seja em parte, responsável por ambas
as mortes, você não acha?”.
A amostra. A única coisa que poderia salvar Jill agora, e Carlos
estava sob a mira da arma de um maluco que a possuía.
Pense! Pense em algo!
Houve outro áspero lamento de dor atrás da estante. Carlos
inclinou a cabeça e pôde ver um homem caído nos fundos da sala,
visível entre duas pilhas de arquivos. Carlos não conseguia ver seu
rosto, mas a barriga dele estava ensopada de sangue.
“E aquele cara soma três.”. Carlos disse, tentando
desesperadamente manter a conversa, tentando não encarar a
caixa metálica que Nicholai segurava. “Você não é do tipo que corre
atrás? Me diga se isso tem um propósito, ou apenas gosta de matar
pessoas?”.
“Eu gosto de matar pessoas que são tão inúteis quanto você”.
Nicholai disse, colocando a vacina em seu bolso aberto. “Você
consegue pensar em uma razão para merecer viver?”.
Outro gemido veio do homem atrás da estante. Carlos olhou
entre as pilhas de novo e viu uma granada de impacto em suas
trêmulas mãos, o anel já puxado; Carlos percebeu que o homem
devia ter gemido para encobrir o som, e uma parte sua admirou o
claro pensamento, tudo um instante antes de começar a recuar,
mãos ainda erguidas. A granada era uma RG34, o mesmo modelo
que Carlos tinha em seu colete, e queria o máximo de distância
possível.
“Eu sou um excelente atirador, eu tenho uma natureza
generosa, e uso o fio dental todos os dias”. Carlos disse, recuando
outro passo, tentando parecer profundamente assustado e cobrindo-
se de bravura.
“Vai ser um baita desperdício”. Nicholai disse sorrindo,
estendendo o braço.
Jogue a maldita granada!
“Por quê?”. Carlos perguntou rapidamente. “Por que está
fazendo isso”.
O sorriso de Nicholai se transformou, virando o mesmo sorriso
predatorial que Carlos o viu usando no helicóptero, o que parecia ter
acontecido há milhões de anos.
“Eu tenho qualidades de liderança”. Nicholai disse, e pela
primeira vez, Carlos pôde ver a insanidade em seus tenebrosos
olhos. “Isso é tudo o que precisa saber−”.
“Morra!” . O homem ensangüentado disse. Carlos percebeu um
piscar de movimento atrás da estante, e já estava mergulhando,
tentando se esconder atrás de uma mesa quando uma janela
quebrou e – BOOM, pastas e livros voaram pelo ar e materiais
explodidos choveram, madeira, papel e estilhaços de metal, a
pesada estante entortando com um trovão. Ela caiu no chão com
um tremendo barulho e tudo ficou quieto, e bagunça por toda parte.
Carlos sentou, um braço envolto em suas latejantes costelas,
lágrimas de dor em seus olhos. Ele as ignorou e pegou o revólver
enquanto se levantava.
Nicholai tinha sumido. Carlos cambaleou até os destroços no
canto, lembrando que uma janela havia quebrado antes da granada
explodir. Apesar de estar escuro e chovendo lá fora, Carlos podia
ver a cobertura de um prédio adjacente um andar abaixo.
Bam! Bam!
Carlos pulou para trás quando dois tiros acertaram a parede
externa, a nem meio palmo de distância de seu rosto. Ele se
repreendeu silenciosamente por ter colocado a cabeça fora da
janela, como um baboso desatento.
Ele recuou da janela e virou, só para dar de cara com os restos
sangrentos e carbonizados do atirador da granada.
“Gracias” . Carlos disse quieto. Ele queria poder pensar em algo
mais para dizer, mas decidiu que seria um simbolismo sem utilidade;
o cara estava morto, ele não ouviria nada.
Carlos voltou para a sala, pensando, imaginando como
alcançaria Nicholai. Não seria fácil, mas não havia outra escolha – e
viu o brilho de metal pelo canto do olho e parou. Ele piscou,
sentindo um tipo de pavor quando percebeu o que era – e o ergueu,
um enorme levantamento de peso para seus ombros e seu coração.
Ele ia salvar Jill. O pendejo maluco tinha derrubado a vacina.
Nicholai andou rapidamente pela chuva na direção da frente do
hospital. Está tudo bem, ele estará morto ao toque de um botão e eu
o apertarei, eu posso cortar a energia e prendê-lo – Ele riu bem alto
de repente, pensando nos tubos de contenção no subsolo onde os
Hunters Gamma eram mantidos, cada um flutuando em seu próprio
útero transparente. Cortar a energia causaria uma drenagem
automática para que não se afogassem com o fluído não-arejado.
Morra, ou morra lutando, Carlos. Nicholai foi esperto, ele tinha
pensado à frente e agora só precisava apertar alguns botões, e
Carlos ficaria no escuro com os Hunters anfíbios atrás dele, e talvez
Carlos fosse morto antes do hospital ir pelos ares, mas iria morrer
não importava como.
Jill estava dormindo de novo, e estava doente. Quente e
dolorida, e seus sonhos tinham sumido, pulsando, substituídos por
contorcidas sombras. Sombras com texturas imperfeitas e
nevoentas. Náusea guerreava com um vazio não realizado, com
uma sede mortal e um crescente calor.
Ela rolou para um lado e depois para o outro, tentando achar
alívio para a rastejante coceira que tinha se implantado em todo o
seu corpo, que fez as feias sombras ficarem maiores enquanto
continuava dormindo.
Carlos achou agulhas, seringas e meia garrafa de Betaína(Nota
6) no escritório de um médico do terceiro andar. Ele também achou
um armário cheio de amostras de remédios, e estava tentando
decifrar os rótulos procurando analgésicos, quando as luzes
apagaram.
“Droga”. Ele abaixou a amostra, tentando se adaptar ao escuro.
Levou cerca de um segundo e meio para acreditar que tinha sido
Nicholai, e mais um segundo para decidir que precisava sair de lá, e
rápido. Com certeza Nicholai não cortou a energia para que Carlos
machucasse do dedão do pé no escuro. Seja lá o que Nicholai
estivesse planejando, Carlos achou melhor descobrir outra hora.
Ele saiu da sala para o corredor, devagar, suas mãos à frente.
Assim que alcançou a escadaria, as luzes de emergência
avermelhadas do hospital ganharam vida. O efeito era de outro
mundo, a luz clara o bastante para enxergar, deixando tudo numa
suja sombra.
Carlos começou a descer a escada, de dois em dois degraus,
de polegar no martelo da Python. Ele ignorou a dor em seu lado,
decidindo que tombaria mais tarde quando não estiver com tanta
pressa. Ele só conhecia duas opções para sair do hospital – a janela
pela qual Nicholai havia pulado e a porta da frente. Certamente
haviam mais, mas não queria perder tempo tentando achá-las; em
sua experiência, a maioria dos hospitais eram labirintos.
A porta da frente era sua melhor aposta. Nicholai provavelmente
não acreditava que Carlos tivesse tanta coragem para usar a saída
mais óbvia, assim Carlos esperava.
Ele chegou no patamar entre o primeiro e o segundo andar
quando ouviu uma porta abrir violentamente em algum lugar abaixo,
ecoando pela escadaria, fazendo-o congelar. O som que se seguiu –
o furioso e agitado grito como o de um porco, de uma criatura
mutante – o fez voltar a andar. Seus pés mau tocavam os degraus,
mas ainda não estava rápido o bastante; enquanto voava pelo último
lance, uma monstruosa figura saltou na frente da saída para o andar
térreo.
Era gigante, humanóide, alta, larga e pingando meleca. Seu
corpo tinha um tom azul-esverdeado escuro, quase preto na fraca
luz vermelha. Com suas desproporcionais mãos membranosas e
pés, sua grande e arredondada cabeça e boca, lembrava nada mais
do que um colossal e melecado sapo.
Sua poderosa mandíbula desceu e outro pontiagudo grito
preencheu a escadaria, ecoando. Carlos ouviu pelo menos outros
três responderem ao primeiro, um feroz coro emergindo de algum
lugar lá embaixo.
Carlos abriu fogo, a primeira bala acertando a porta de metal e
criando um ensurdecedor tornado de som. Antes que pudesse
apertar o gatilho novamente, a criatura anfíbia estava pulando,
gritando enquanto saltava na direção de Carlos, abrindo seus braços
musculosos.
Carlos abaixou-se reflexivamente, atirando enquanto
escorregava vários degraus abaixo, rolando em seu ferimento para
que pudesse acompanhar a queda da criatura. Três, quatro balas
plugadas no barulhento corpo anfíbio enquanto caia de ponta
cabeça – e estava morto quando aterrissou, escuras gotas de um
fluído aguado e repulsivo espumando de seu espasmante corpo.
Carlos ficou de pé, correndo e já cruzando a porta mesmo
enquanto ouvia os irmãos da criatura começarem seus ferozes e
ensurdecedores lamentos. Não é tão difícil de matar, talvez, mas
não queria considerar suas chances caso houvessem três ou mais
deles saltando ao mesmo tempo.
Já no saguão, ele bateu a porta, viu que uma chave era
necessária para trancá-la, e virou para procurar algo e bloqueá-la –
mas ao invés disso, ele viu uma pequena luz piscando do outro lado,
o brilho chamando sua atenção no meio do oceano vermelho de
móveis revirados e corpos mortos.
Uma pequena luz brilhando numa pequena caixa, a caixa presa
num pilar. O relógio de um conjunto de detonação.
Carlos tentou pensar em algo mais além disso, e não
conseguiu, sabendo apenas que não estava lá quando chegou; era
uma bomba, Nicholai a tinha colocado, e de repente os monstros
sapo eram o menor dos problemas.
Sua mente estava curiosamente vazia enquanto corria pelo
saguão, um pânico sem palavras e sem pensamento dominando-o,
pressionando-o a correr mais rápido e mais longe, e para não perder
tempo pensando. Ele tropeçou sobre um sofá esfarrapado e nem
percebeu que tinha caído ou sentido dor, ele estava indo rápido
demais, só podia ver as portas de vidro do prédio.
Bam, e passou pelas portas, o negro do asfalto respingando
sobre seus pés, chuva garoando em seu rosto suado. Filas de
carros amassados e abandonados, brilhando como jóias molhadas
sob a luz da rua. O bater de seu estremecido coração – e a explosão
foi tão massiva que sua audição não conseguia dar conta de toda
ela, um tipo de ka−WHAMM que era mais movimento do que som.
Seu corpo foi jogado como uma folha de árvore num quente e
violento furacão, o solo e o céu ficando conectados, interligados.
Ele estava derrapando no pavimento molhado, tombando até
parar bruscamente contra um hidrante de incêndio, sentindo a
enorme dor em sua lateral e sentindo gosto de sal com o
sangramento no nariz.
A quase uma quadra de distância, o hospital tinha sido reduzido
a ruínas fumegantes, pedaços menores dele ainda caindo,
quebrando no chão como granizo mortal. Algumas partes estavam
pegando fogo, mas a maior parte tinha se desintegrado, virando
poeira, a poeira assentando e transformando-se em lama enquanto
o céu continuava jogando água em tudo.
Jill.
Carlos se fez de pé e começou a mancar de volta à torre do
relógio.
Nicholai percebeu que tinha perdido a vacina enquanto se
afastava do hospital correndo, quando restava um minuto antes de
tudo ir pelos ares. Quando estava tarde demais.
Não havia escolha senão continuar correndo, e foi o que fez, e
quando o hospital explodiu, Nicholai ficou andando para lá e para cá
a três quadras de distância, perdido em raiva. Tão perdido que não
percebia estar gemendo agoniado, que o som estava vindo dele, ou
que mordia apertado o suficiente para estalar dois dentes.
Depois de um longo tempo, ele lembrou que ainda precisava
matar mais duas pessoas, e começou a se acalmar. Ser capaz de
expressar sua raiva seria construtivo; não era saudável guardar
ressentimento.
A operação Watchdog era seu interesse. A vacina era um extra,
um presente – então, de certo modo, não tinha perdido nada.
Nicholai disse isso a si mesmo várias vezes a caminho de Davis
Chan; o fazia se sentir melhor, mas não tanto quanto lembrar de que
havia afiado sua faca antes de ir para Raccoon. Ele tinha certeza de
que Chan a apreciaria.
Capítulo 23
Quando Jill acordou, ainda estava chovendo lá fora, e sentiu-se
como ela de novo. Fraca, sedenta, faminta e definitivamente
sofrendo com o ombro ferido, e cerca de mil dores a menos – mas
ainda era ela. A doença se fora.
Desorientada e um pouco confusa, ela sentou devagar e olhou
em volta, tentando juntar os pedaços do que tinha acontecido. Ela
ainda estava na capela da torre do relógio, e Carlos estava
esparramado num dos assentos frontais. Ela se lembrava de ter dito
a ele que estava com o vírus, e ele dizendo que estava indo buscar
algo...
... mas eu estava doente, eu tinha a doença... e eu não só me
sinto melhor agora, como definitivamente não tenho mais o vírus.
Como – “Ah, meu Deus”. Ela suspirou, vendo a seringa e o frasco
vazio no banco do órgão ao lado do altar, entendendo de repente o
que tinha acontecido, se não como. Carlos tinha achado o antídoto.
Jill sentou por um momento, levemente coberta pela mistura de
emoções que a acertaram – choque, gratidão e relutância em
acreditar que realmente estava bem. Sua felicidade por estar viva e
razoavelmente bem foi equilibrada pela culpa de ter sido curada
enquanto outros morreram. Ela imaginou se existia mais antídoto, e
percebeu que poderia haver galões dele em algum lugar, o fato de
que dezenas de milhares morreram era simplesmente obsceno.
Finalmente, ela se levantou do leito e pôs-se de pé, esticando-
se cuidadosamente, e verificando a si própria.
Considerando tudo o que havia acontecido, ela estava surpresa
com o quanto bem estava. Exceto pelo ombro direito, ela não tinha
ferimentos sérios, e depois de beber um pouco d´água, ela
finalmente se sentiu acordada e capaz de andar sem qualquer
problema.
Nas duas horas seguintes, Jill comeu três latas de coquetel de
frutas, bebeu meia garrafa de água, limpou e recarregou todas as
armas. Ela também se limpou, o máximo que pôde, com água e uma
camiseta suja. Carlos nem se mexeu, profundamente adormecido –
e do jeito que estava enrolado e segurando seu lado esquerdo, Jill
considerou que a aventura até o hospital tinha sido dura.
Jill também pensou no que fariam depois. Eles não podiam
ficar. Eles não tinham suprimentos nem munição para continuarem
vivos, e não tinham como saber quando – ou se o resgate estaria
vindo; ela nem queria mais supor isso. Por mais difícil que fosse de
acreditar, parecia que a Umbrella tinha conseguido encobrir a
situação, e se conseguiram por tanto tempo, poderia levar mais
alguns dias até a história vazar. E para aumentar a pressão, ela
também não conseguia se convencer de que Nêmesis estava morto;
assim que estiver recuperado, ele voltaria. Eles tiveram muita sorte
por ainda não terem sido atacados.
Antes de se aliar à Carlos, ela estava planejando ir para a
instalação abandonada da Umbrella à norte da cidade.
Ela passou a acreditar que não havia nada como um lugar
abandonado da Umbrella – eles adoravam demais suas operações
secretas – e podiam ter deixado as estradas ao redor abertas para
que os funcionários pudessem fugir. Ainda assim, valia a pena olhar,
e também foi a melhor opção que encontrou. Além disso, o caminho
mais rápido para fora da cidade, a partir de onde estavam, era
passando pela fábrica abandonada.
Carlos continuou dormindo, perfeitamente imóvel exceto pelo
levantar de seu peito, seu rosto pesado de exaustão... e uma vez
decidido o curso de ação, Jill o observou por um tempo e decidiu
que precisava deixá-lo para trás. Era uma decisão bem mais difícil,
mas só porque não queria ficar sozinha, um motivo egoísta. A
verdade era, ele estava ferido por ter ficado entre ela e Nêmesis, e
ela não queria colocá-lo nessa posição de novo.
Eu vou verificar a fábrica, talvez ache um rádio e chame ajuda.
Se tudo estiver bem, seguro, eu volto para ele.
Se estiver ruim... bom, eu acho que apenas voltarei se puder. O
lugar ficava a quase um quilômetro e meio dali se não lhe falhe a
memória, ela podia chegar lá cortando através do Memorial Park,
logo atrás da torre do relógio, um passeio bem curto. Era pouco
mais de duas da madrugada, ela poderia ir e voltar antes do
amanhecer. Com sorte, Carlos ainda estaria dormindo ao retornar,
talvez ouvindo boas notícias.
Ela decidiu deixar um bilhete caso aconteça algo no caminho.
Ela não conseguiu achar uma caneta ou lápis, mas encontrou uma
velha máquina de escrever manual, debaixo de um livro de canções.
Ela usou o verso de um rótulo de coquetel de frutas. O teclar das
peças era tão calmante quanto a chuva que continuava caindo no
telhado, sons que a faziam muito grata por estar viva.
Ela pegou o lança-granadas mesmo sabendo que restava uma
bala – Carlos deve ter achado aquela que tinha derrubado no pátio –
lembrando do dano que o matador de S.T.A.R.S. tinha causado. Ela
também pegou a Beretta, deixando o revólver com Carlos para que
tivesse algo mais pesado que a metralhadora. Por precaução.
Jill deixou o bilhete no altar, onde Carlos olharia assim que
acordasse, e agachou ao lado dele, tocando sua sobrancelha. Ele
estava definitivamente apagado, nem mesmo um reflexo enquanto
ela tirava seu cabelo sujo da testa, imaginando como agradeceria
por tudo o que tinha feito.
“Durma bem”. Ela suspirou, e antes que mudasse de idéia, ela
levantou e virou, correndo para a porta sem olhar para trás.
Havia uma pequena sala atrás do pequeno cemitério do
Memorial Park, normalmente usada para guardar ferramentas. Ela
foi tomada como uma das várias estações da Umbrella enquanto
ocorria a deflagração em Raccoon – e como um local de descanso
para operadores, cada uma em um lugar escondido onde pudessem
organizar arquivos sem serem vistos, e receber atualizações gerais
da Umbrella, caso tivessem acesso imediato a um computador.
Nicholai não tinha planejado parar em nenhuma das estações de
recepção; ele achava que eram um risco desnecessário da parte da
Umbrella, por mais bem escondidas que estivessem – no cemitério,
estava escondida atrás de uma parede falsa. A Umbrella não queria
ninguém rastreando sinais vindos da cidade, por isso as estações só
recebiam, outra precaução, mas Nicholai ainda as achava
perigosas. Se ele quisesse emboscar um agente, ele invadiria uma
das estações.
Ou se eu quisesse matar um. Apesar de nesse caso eu só tenha
que entrar... ou esperar um pouco.
Ele ficou parado nas sombras de um grande monumento a
alguns metros da sala falsa, pensando no quanto bom seria matar o
Capitão Chan. Nicholai tinha considerado apenas arrombar a porta
escondida e atirar nele, mas precisava relaxar, entrar em um estado
de mente melhor. Chan sairia para ir ao banheiro ou para fumar
mais cedo ou mais tarde, e permitindo que sua ansiedade
crescesse, Nicholai seria capaz de descarregar algumas de suas
mais desagradáveis emoções. Ele não fazia isso sempre; ele não
era louco ou coisa do tipo, e geralmente preferia as coisas fluindo –
mas às vezes, criar um suspense antes de uma morte íntima, era
algo que o tirava da depressão.
Nicholai observou a porta – na verdade, um canto com
dobradiça – aproveitando a fria chuva apesar de saber o quanto
miserável ficaria depois dela, correndo molhado por aí. Ele estava
para tirar a vida de alguém. As coisas tinham saído do controle por
alguns momentos ao notar a perda da vacina, mas quem estava no
controle, agora? Davis Chan estava para morrer e Nicholai era o
único que sabia disso, porque tinha decidido o destino de Chan.
E Carlos estava morto, por minha causa. E Mikhail, e três
Watchdogs até agora. Ele não podia dizer nada sobre Jill Valentine,
mas Nicholai tinha adorado o abalado olhar na cara de Carlos
quando foi sugerido. O que sabia, a única coisa que realmente
importava, era que seus inimigos estavam mortos e ele ainda estava
de pé.
Quando Davis Chan saiu na chuva alguns momentos depois,
Nicholai liberou a maior parte de seus sentimentos negativos de
auto-compaixão e frustração não direcionada. E quando sua faca
terminou com Chan, quinze minutos depois, ele voltou a ser o que
era. Chan, claro, não lembrava mais nada humano, mas Nicholai
agradeceu sinceramente aos restos mortais por o terem colocado
nos trilhos.
2:50h 2 de Outubro
Carlos:
Eu fui para a estação de tratamento de água diretamente à
nordeste da torre do relógio, a cerca de um quilômetro e meio. A
Umbrella é dona do lugar e pode haver recursos que possamos
usar. Eu voltarei assim que der uma vasculhada. Espere por mim
aqui, por ao menos algumas horas. Se eu não voltar de manhã,
você pode tentar fugir sozinho.
Eu sou muito grata a você, por muitas coisas. Fique aqui e
descanse um pouco, por favor. Eu não demorarei.
Jill
Carlos leu o papel enrolado mais duas vezes, depois pegou seu
colete e levantou, olhando no relógio. Ela tinha partido há menos de
meia hora, ele ainda podia alcançá-la.
Ficar não era uma opção. Ela tinha deixado ele para trás por
estar ferido ou por não quere colocá-lo mais em perigo... nenhuma
delas era aceitável para ele. E ele nunca teve a chance de dizer a
ela o que Trent havia dito, sobre haverem helicópteros no complexo
da Umbrella à noroeste da cidade, porém nordeste de onde estavam
agora, depois do passeio de bonde. Obviamente o mesmo lugar.
“Você pode detonar todos os monstros da Umbrella, mas
consegue pilotar um helicóptero?”. Carlos murmurou, travando um
pente novo na M16. Se ela tivesse acordado ele...
Ele foi para a porta, tão pronto quanto deveria estar, tentando
não respirar fundo demais. Machucava, mas ele agüentava. Ele já
teve dores piores e conseguiu fazer o que precisava; uma vez, ele
andou seis klicks (quilômetros) com um calcanhar fraturado, e não
piorou mais do que aquilo.
Carlos não perdeu tempo tentando convencer a si mesmo de
que falar sobre Trent era o motivo de estar indo atrás dela. Ele não
podia ficar parado sem fazer nada e pronto. Ela estava tentando
protegê-lo e ele admirava o sentimento, mas não podia ficar lá e –
Nicholai. Ele está lá fora e ela não sabe.
Ele sentiu-se enjoado pensando no malvado brilho dos olhos de
Nicholai. Carlos correu para fora da capela e foi para a chuva. Ele
tinha que achá-la.
Capítulo 24
A chuva tinha virado um chuvisco, mas Nicholai nem percebeu,
andando debaixo de uma grossa cobertura de folhas de outono
voltando do cemitério. Outros cinqüenta ou sessenta metros e ele
podia cortar à leste, paralelo à trilha que corria direto para a estação
de tratamento de água. Ele nunca usava passagens em lugares
públicos se podia evitá-las, por não gostar da sensação de
exposição.
Na última checagem, Terence Foster ainda estava vivo e bem,
arquivando relatórios de status ambiental na estação de tratamento,
perfeitamente desinformado de que, como último Watchdog vivo,
suas horas estavam contadas. Nicholai já tinha decidido matá-lo na
hora, nada de conversa. Ele achou os dados de Watchdog de Chan
facilmente; sobre uma pequena mesa na estação de recepção; ele
acharia o de Foster, também. Ele faria uma rápida codificação dos
dados coletados como seguro de vida, depois chamaria o transporte
pelo rádio e marcaria uma reunião com os tomadores de decisões.
Nicholai tinha acabado de chegar na fileira de pinheiros atrás da
cerca de um dos espelhos d´água do parque, quando viu Jill
Valentine andando casualmente pela beira da água sob uma linha
de postes de iluminação de ferro batido, e indo na direção que ele
queria ir. As luzes baixas refletiam a água nela, dando um ar
fantasmagórico a ela, mas com certeza estava viva.
Ele não devia estar surpreso, mas estava. O olhar de dor no
rosto de Carlos quando falou sobre ela... Nicholai estava certo de
que era verdade, ele não duvidou um segundo de que estava morta.
Ah, bom, foi a última mentira que contou. Muito nobre da parte
dele, tentar proteger a garota de quem ele considerava ser o vilão
mais covarde... como se isso fosse me atrasar.
Não seria perda de tempo se ele a matasse agora. Nicholai
ergueu o rifle, mirou cuidadosamente na parte de trás da cabeça – e
hesitou, curioso apesar da pressa em resolver seus negócios em
Raccoon. Como ela conseguiu evitar o caçador de S.T.A.R.S. todo
esse tempo? Onde ela estava quando seu amante latino o
encontrou no hospital? E para onde exatamente ela estava indo?
Ele decidiu segui-la, pelo menos até aparecer uma
oportunidade fácil de conseguir as respostas que queria.
Sendo assim, com ela no caminho principal e ele atrás de uma
cerca de um metro, ele não conseguiria se locomover muito bem;
mandar ela não se mexer, largar as armas e ficar imóvel enquanto
subia a cerca, não era a opção mais desejável.
Nicholai voltou a afundar nas sombras e contou vagarosamente
até vinte, deixando-a se afastar o suficiente para não ouvi-lo se
mover entre as árvores. Ele a seguiria pela trilha principal até chegar
na ponte sobre o grande lago de patos, confrontando ela na metade
da ponte onde não havia como fugir.
Satisfeito com seu plano, Nicholai começou a andar o mais
quieto possível. Ele já a tinha perdido de vista, e caso não estivesse
correndo, ele a alcançaria antes de -–
“Parado”. Sua voz era calma e clara, o cano da semi-automática
fortemente pressionado na lateral de sua cabeça. “Ah, mas solte o
rifle primeiro, sim”.
Nicholai fez o que ela pediu, chocado, tirando a alça do rifle e
deixando-o cair. Como ele foi visto? Como foi que ela conseguiu dar
a volta sem que ele percebesse?
E o quanto ela realmente sabe sobre mim?
“Por favor, não atire”. Ele disse, sua voz gaguejando. “Jill, sou
eu, Nicholai”.
A arma ficou onde estava. “Eu sei quem você é. E eu sei que
está trabalhando para a Umbrella, não só como soldado. O que é a
Operação Watchdog, Nicholai?”.
Ela já sabia algo sobre isso. Se ele mentisse, perderia qualquer
credibilidade que viesse a ganhar com ela.
Diga e faça o que for preciso. “A Umbrella enviou vários outros e
eu para recolher informações sobre os contaminados”. Ele disse.
“Mas eu não sabia que seria assim, eu juro, eu nunca teria
concordado com isso se eu soubesse. Eu só quero sair vivo, é tudo
com que me importo”.
O cano ainda ficou pressionado em sua têmpora. Ela era
cautelosa, ele tinha que reconhecer.
“O que você sabe sobre a estação de tratamento de água aqui
perto?”. Ela perguntou.
“Nada. Quer dizer, eu sei que a Umbrella é dona, e só. Por
favor, você deve acreditar em mim, eu só quero−”.
“E a vacina para o vírus, o que você sabe sobre ela?”.
A barriga de Nicholai deu um nó, mas manteve as aparências.
“Vacina? Não há vacina”.
“Besteira, ou eu estaria morta. Prove que você quer cooperar, e
talvez possamos bolar alguma coisa. O que você ouviu sobre uma
vacina para o T-virus?”.
Carlos. O olhar em seu rosto quando falou sobre ela... e quando
viu a caixa da amostra.
Nicholai não confiou em si para falar, a profundeza de sua
súbita e interior perturbação como uma força física, forçando-o a
agir – mas não podia, e ele tinha que convencê-la de que era
apenas mais um capanga da Umbrella, senão ela atiraria. Ele abriu
a boca para falar, incerto do que iria dizer – e foi salvo pelo chão sob
eles. Houve um profundo tremor e a terra balançou, fazendo ambos
tropeçarem como bêbados, folhas e galhos caindo em seus pés. A
arma girou para fora de sua cabeça enquanto Jill lutava por
equilíbrio.
Por mais desorientador que era ficar de pé, Nicholai não
acreditou que fosse um terremoto de verdade. Estava só em volta
deles; por um motivo, ele pôde ver que a água nas piscinas mau se
movia. O tremor continuou mais e mais, parecendo crescer em
magnitude, e Nicholai sabia que não teria oportunidade melhor para
fugir.
Fingindo pânico, Nicholai ergueu os braços e gritou, notando
cuidadosamente onde seu rifle estava. “É um dos mutantes! Corra!”.
Era mais provável ser um monstro do que qualquer outra coisa,
e dizer para ela correr seria bom para ele – ela pensaria duas vezes
antes de atirar em alguém tentando ajudá-la.
O tremor estava se intensificando enquanto Nicholai corria de
Jill, um braço ainda acenando freneticamente. Ele gritou para ela
correr de novo enquanto pegava o rifle e fugia, sem olhar para trás,
esperando que ela acreditasse em sua atuação. Caso não, ele
sentiria a bala mais cedo ou mais tarde – e depois de vinte metros, o
chão que ele pisava estava praticamente imóvel, apesar de ainda
poder sentir e ouvir o rebuliço de terra atrás dele.
Distante o suficiente, ache cobertura e atire nela – Havia um
grande carvalho bem à frente. Ainda correndo, Nicholai esticou seu
braço direito e virou para a esquerda, agarrando a árvore e deixando
seu próprio peso girar seu corpo. Assim que ficou seguro atrás do
enrugado tronco, ele olhou para trás preparando a M16 assim que a
avistou, afastando-se do tremor na direção oposta.
Agora você morre, sua vagabunda de um bilhão de dólares – e
o rebuliço de repente virou um ronco, e uma enorme fonte de branco
enlameado jorrou do chão, bloqueando seu tiro, árvores tombando
em volta. Um estranho, horrível e crescente ronco irrompeu da fonte,
um assobio grave, e quando uma pálida coluna chacoalhou-se cinco
metros no ar e depois curvou-se para baixo de repente, Nicholai
percebeu que era um animal, um que certamente nunca existiu – o
rangente círculo de afiados dentes e presas nas extremidades da
branca minhoca gigante eram provas o bastante.
A coisa abaixou-se de novo, arqueando, um híbrido titânico de
larva e enguia, de verme e cobra, tão larga quanto a altura de um
homem – e mergulhou para longe de Nicholai.
Na direção de Jill Valentine.
Nicholai virou e correu, sorrindo, xingando Jill e Carlos enquanto
driblava árvores no escuro, indo para o complexo, gargalhando
enquanto os amaldiçoava pelo eterno inferno.
Jill estava correndo, saltando pela beira da água, e só percebeu
que o monstro estava vindo quando ele voltou ao chão a alguns
metros dela. Uma leva de fétido ar soprou sobre ela, um cheiro de
barro e carne úmida vindo da boca carnívora da minhoca.
Minha nossa!
Ela correu mais rápido, querendo ganhar uma certa distância
antes de ousar olhar para trás, uma granada não seria suficiente,
era melhor correr – Adiante, o espelho d´água arredondado virava,
alguns bancos no canto, uma fila de árvores atrás dela. O chão
estava roncando de novo, mas Jill estava quase lá; se ela fizer a
curva, ficará bem – a piscina artificial era nivelada com o cimento,
com sorte, a coisa iria se nocautear – e os bancos e árvores à sua
frente explodiram pelo ar de repente, erguidos numa onda de terra,
a cega e sondante minhoca vomitando terra de sua boca dentada
enquanto varria sua cabeça na direção dela.
Jesus, ele é rápido! Jill ergueu a Beretta que ainda segurava
firmemente e enterrou duas balas em sua barriga inchada, a
minhoca roncando de novo, profundo e assobiando como o rosnar
de um crocodilo atacando.
Jill girou e decolou, seu coração pulando, já ouvindo e sentindo
o início de outro terremoto. O monstro chegaria na frente dela de
novo, ela sabia, ela ainda não tinha saído da região da piscina.
Cruzá-la iria atrasar o monstro.
Pense, se você não consegue correr, o que pode usar para
detê-lo, terra, água, árvores, lâmpadas – Lâmpadas. Várias estavam
inclinadas por causa dos movimentos subterrâneos da larva gigante,
como árvores desarraigadas prestes a cair. Na piscina.
Não há tempo para planejar, ela tinha que derrubá-las na água
e atrair o monstro. Ela deu o último passo e parou tempo o bastante
para girar noventa graus à direita, agitando a água. Ela estava
danificada, rodamoinhos de água espumando sendo drenados pela
rachadura no concreto.
O monstro se ergue e depois cai, leva um segundo ou dois para
levantar de novo – Um segundo ou dois, é o tempo que ela terá para
sair da água, considerando que ela consiga derrubar a luminária à
tiros primeiro, e que a minhoca monstruosa faça o favor de
mergulhar na piscina.
Ter calculado chances significava que ela teria que pensar, e o
chão já estava tremendo, chacoalhando forte o bastante para deixá-
la de joelhos. Ela caiu e deslizou por uma grossa camada de grama
e lama, e então passou a tentar ficar de pé e esvaziar a arma – e a
coisa estava emergindo pelo canto da piscina a menos de três
metros à sua direita, borrando o céu nublado com uma explosão de
terra e pedras, concreto e água. Havia uma única luminária entre ela
e o monstro, já tocando a água.
Anda!
Jill recuou mais rápido do que achava ser possível, parando
assim que viu a criatura no alto começando a inclinar, lençóis d´água
caindo de sua inchada forma.
Ela abriu fogo enquanto rolava e ficava de pé, os primeiros tiros
erraram o alvo, o terceiro e quarto causando um som metálico no
poste. A minhoca estava descendo, criando uma onda de lava
enquanto o quinto tiro estourou a lâmpada. O monstro a esmagaria
caso não se mexesse, perto, vai ser perto – Bam! Bam!
Foi o sétimo tiro que conseguiu, e os resultados foram
espetaculares. Houve um grande zumbido pipocando assim que Jill
jogou-se para trás e para o lado, a lâmpada imersa na piscina que
esvaziava rapidamente. A carne semi-gelatinosa da gritante
minhoca tremia e chacoalhava enquanto se levantava, balançando
de agonia.
Sua pálida pele começou a escurecer e ficar quebradiça
enquanto uma nociva e oleosa fumaça saia de sua garganta, a parte
enterrada de seu corpo arremessando enormes espirros de pedra e
terra. A coisa se abaixou mais uma vez, o som sobrenatural
tornando-se chocado e engasgado – e caiu morto antes de atingir o
chão, antes de sua camada externa de pele começar a enrolar,
revelando a cozinhada carne de suas entranhas.
Jill ficou de pé, a mão esquerda apertando seu latejante ombro
enquanto se afastava da minhoca fritando, o cheiro fazendo-a
nausear várias vezes. Ela tinha conseguido, ela tinha matado a
maldita coisa! O quente cheiro de uma vitória triunfante vagou por
ela enquanto respirava outra onda de cheiro de minhoca tostada. Eu
consegui, e depois ela se abaixou e vomitou.
Quando não restava mais nada para expelir, Jill se levantou
trêmula e começou a ir à leste de novo, pensando em seu confronto
com Nicholai. Ele não mentia tão bem quanto pensava, e se antes
ela só suspeitava, agora ela estava certa de que ele era uma má
notícia.
Seus planos não tinham mudado, mas ela teria que ser bem
mais cuidadosa ao chegar na estação de tratamento de água. Ela
não duvidava de que Nicholai estaria lá... e se ele a visse primeiro,
ela morreria antes de saber o que a acertou.
A barricada era uma enorme pilha de carros, com três e quatro
intercalados de altura, erguida entre vários prédios no fim do
quarteirão em forma de um torto semi-círculo. Carlos ainda podia
ver as marcas do pesado maquinário que a construiu, iguais às que
achou nas últimas três ruas que tentou. A Umbrella e o R.P.D. não
estavam desocupados enquanto selavam a cidade.
Carlos parou na frente da parede de metal parcialmente
amassada, experimentando uma quase desesperada indecisão.
Volte, tente ir à norte primeiro e depois à leste – ou tente escalar
uma das precárias barricadas, que pareciam ter sido construídas
para impedi-lo de achar Jill.
Afinal, é o que parece. Tudo o que havia à norte da torre do
relógio era um grande parque, e talvez esse fosse o único jeito de
chegar ao complexo da Umbrella; ele não conseguia imaginar Jill
escalando uma parede de carros com um ombro ruim, sendo que
passar entre eles seria muito perigoso...
... mas você está considerando que ela chegou até aqui, uma
pequena voz soou. Talvez ela já esteja morta, talvez Nêmesis a
pegou, ou Nicholai, ou – Carlos inclinou a cabeça para o lado,
franzindo, seus pensamentos interrompidos por distantes ruídos.
Tiros?
Possivelmente, mas a leve garoa que caía estava distorcendo e
abafando o som. Ele nem sabia de que direção tinha vindo... mas de
repente ficou mais ansioso para achar Jill.
“Afinal de contas, foi eu que corri atrás da vacina, é melhor você
não se matar”. Ele murmurou de leve, mas estava perto demais da
verdade para ser engraçado. Ele tinha que fazer algo, agora.
Carlos olhou para a parede de carros novamente, escolhendo o
caminho que parecia ser mais seguro, sobre uma minivan e dois
compactos. Ele respirou mais fundo do que podia, cruzando os
dedos mentalmente e começando a subir.
Capítulo 25
“Não, escute, você tem que ouvir – eu não sei de nada, você
não quer fazer isso. Eles me pediram para fazer relatórios sobre
amostras de solo e água, é isso, eu não sou ameaça para você! Eu
juro!”.
Foster estava cavando a própria cova, e Nicholai decidiu que
fazê-lo esperar pela morte seria cruel, principalmente um
homenzinho tão deplorável. O pesquisador já estava se agachando
no canto nordeste de sua sala, suas feições de rato apavorado
suadas e coradas. Só tinha levado menos de cinco minutos para
achá-lo assim que chegou na estação.
“... e eu vou embora, tá bom?”. Foster ainda tagarelava. “Eu irei
embora e você nunca mais me verá de novo, juro por Deus, porque
você quer me matar, eu não sou ninguém. Me diga o que quer e eu
faço, seja o que for, peça para mim, cara, tá? Vamos conversar, tá
bom?”.
Nicholai percebeu que estava apenas olhando para Foster,
como se tivesse entrado em transe com os pulos do histérico
homem. Foi um interminável dia em uma série deles... mas por mais
que quisesse sair de lá, terminar a operação inteira, Nicholai sentiu-
se estranhamente obrigado a dizer algo.
“Não há nada pessoal nisso, tenho certeza que entenderá”.
Nicholai disse. “É sobre dinheiro... ou era no começo, mas agora as
coisas estão diferentes”.
Foster acenou rapidamente de olhos arregalados. “É, claro que
são diferentes”.
Agora que começou, Nicholai não conseguia parar. De repente
parecia importante que alguém entendesse pelo que ele estava
passando, pelo que ainda estava disposto a fazer – mesmo que
fosse alguém como Foster.
“O dinheiro ainda é o maior motivo, claro. Mas depois que vim
para cá, depois de Wersbowski, eu comecei a sentir como se
estivesse em um lugar especial. Eu senti... eu senti como se as
coisas estavam finalmente se tornando o que deveriam ser. Do jeito
que minha vida deveria ter sido. Circunstâncias extremas,
entendeu?”.
Foster mexeu a cabeça de novo, mas sabiamente não disse
nada.
“Mas então Carlos brincou comigo; ele não podia ter morrido na
explosão por que Jill recebeu o antídoto. E eu estou começando a
achar que ela é o motivo, as coisas mudaram por causa dela”.
Enquanto falava, ele sentiu a verdade daquilo, uma luz estava
amanhecendo em sua mente. Era verdade, falar ajudava.
“Desde o começo, ela arruinou a armação que eu tinha com
Carlos e Mikhail. Manipuladora, haviam muitas como ela. Ela
provavelmente dormiu com os dois, também. Os seduziu”.
“Vagabundas, todas elas”. Foster concordou sinceramente.
“Aí ela ficou doente e mandou Carlos roubar a vacina. Eu não
estou tirando a culpa dela nisso tudo, não mesmo, mas tem algo
sobre ela... é como se sua presença alterasse as coisas, fazendo
tudo dar errado de alguma forma. Eu nem acho que esteja morta
agora. Se o caçador não consegue matá-la, um mutante certamente
não o fará”.
Nicholai levantou silenciosamente, perdido em pensamentos.
Ele nunca foi supersticioso, mas as coisas realmente eram
diferentes. Jill Valentine era – uma mulher, ela era só uma mulher e
você não está pensando claramente, não está pensando há dias –
Nicholai piscou, e o pensamento se foi, e Foster ainda estava no
canto, olhando-o com uma expressão de terror cauteloso. Como se
achasse que Nicholai fosse louco. Nicholai sentiu uma onda de ódio
pelo homenzinho, por tentar brincar com ele, fazê-lo falar e depois
julgá-lo por isso. Ele merecia morrer, tal como qualquer um deles.
"Eu não sou louco,”. Nicholai gritou, bravo. “e chega de falar
nisso! Você é o último, depois de você estará acabado e é assim
que as coisas são, então seja um homem e aceite isso! ”.
Três balas, um estouro de tat tat tat através de um dos
apelantes olhos verdes de Foster, e a cabeça do pesquisador foi
para trás, sangue espirrando na porta em que estava encostado,
seu corpo caindo sem vida no chão frio.
Nicholai não sentiu nada. O último Watchdog morto, e não
houve sentimento de realização ou conquista. Apenas outro corpo
no chão à sua frente e um profundo desejo de sair de Raccoon, de
onde as coisas tinham ficado tão azedas.
Nicholai balançou a cabeça, seu coração pesado, e começou a
vasculhar o escritório atrás dos dados de Foster.
Jill parou na frente da estreita ponte que conectava o portão de
trás do Memorial Park com o pavimento superior do complexo da
Umbrella, suspensa sobre o que deveria ser um brejo ou um
pântano, a julgar pelo cheiro de grama e lama. Estava escuro
demais para dizer só olhando, mas o odor era inconfundível – tal
como as pegadas frescas que iam de onde estava até o lado oposto.
Como esperava, Nicholai estava lá.
Maravilhoso. Que prazer.
Nicholai à parte, ela estava grata por ter achado a ponte; ela
esteve preocupada com o parque não ter saída e ter que voltar. A
ponte convenientemente levava ao andar superior; fazia sentido que
os escritórios e salas de controle – esperançosamente um deles
teria um sistema de transmissão – ficassem no andar superior do
prédio de dois pavimentos, o térreo era onde a água era tratada.
Considerando que a Umbrella não tivesse se importado com o layout
do prédio, ela conseguiria entrar e sair facilmente. Se não houver um
rádio, ela daria a volta em torno do andar térreo para verificar as
estradas.
Ela se aproximou cuidadosamente da ponte de madeira e metal,
respirando fundo, concentrando-se enquanto tocava o baixo
corrimão de madeira para se equilibrar. Lidar com criaturas da
Umbrella, acidentais ou criadas, exigia habilidade e concentração,
mas encarar um adversário humano exigia mais do que isso;
pessoas são bem menos previsíveis do que animais, e se ela
quisesse ficar longe de Nicholai, ela teria que ficar o mais alerta
possível, sua intuição e lucidez armadas para sentir o ataque a
caminho – como agora – Jill congelou na metade do caminho,
tocando a trava de segurança da Beretta com o dedão, algo estava
muito errado e não sabia dizer o que era−
Ka thud! Atrás dela.
Jill girou, coração a toda, e viu Nêmesis de pé a seis metros de
distância, seu horrível corpo transformado pelo fogo e tiros de
granada. Seu peito e braços estavam nus, deixando claro para ela
como os inquietos tentáculos eram presos, brotando de suas costas
superiores e ombros. A maior parte de sua pele tinha sido queimada,
revelando fibrosos músculos vermelhos em pedaços de preto
acinzentado.
“Starsss”. Ele resmungou, dando um passo adiante, e ela viu
que seu lado direito inferior estava retalhado onde tinha acertado
com o lança-granadas. A carne da base de seu tórax até a metade
da coxa parecia macarrão queimado, esmagado e fatiado – mas
duvidava muito que sentia dor, e tinha poucas ilusões de que sua
força tivesse sido afetada.
Num instante, sua mente drogada com adrenalina correu por
centenas de opções e a trancou com a melhor delas. A laje da torre
do relógio. Carlos tinha empurrado ele para baixo, mas estava cego,
distraído – distraia a coisa!
Ela abriu fogo, mirando na parte mais óbvia de sua face
deformada, seus dentes brancos – e viu pelo menos dois tiros
quebrarem o sinistro sorriso, pálidos estilhaços explodindo como um
espirro.
O matador de S.T.A.R.S. gemeu, seus carnudos tentáculos
esticando-se como uma capa atrás dele, enquadrando a besta num
emaranhado de membros trêmulos.
– não está sofrendo, talvez, mas está sentindo algo – VAI
AGORA!
Jill continuou atirando enquanto corria para ele, seus instintos
gritando para ela correr na outra direção, sua lógica lembrando-a de
que não poderia correr rápido o bastante.
Nêmesis ainda uivava quando Jill se jogou nele, empurrando
para cima e para frente a fim de chicoteá-lo no peito como Carlos
tinha feito, encolhendo por dentro ao sentir sua pele nas mãos,
molhada, granulada, fria – e ele cambaleou para trás, caindo
pesadamente na beira da ponte, a centímetros do espaço vazio. Seu
peso e massa ajudaram Jill enquanto rezava para que a ajudassem,
ela ouviu a explosiva rachadura de uma desgastada tábua sob seus
calcanhares, o corrimão lateral quebrando enquanto o gigante caía
sobre as tábuas – mas dois, três dos tentáculos estavam agarrando
o corrimão do outro lado, o hesitante Nêmesis esticando os braços,
forçando para recuperar o equilíbrio.
Jill pulou, sabendo que não podia deixá-lo se levantar de novo,
e desceu ambos os pé em seu arruinado abdômen, saltando do
corpo do monstro com toda sua força.
Ela caiu solidamente nas pranchas de madeira, gritando de dor
assim que seu ombro ferido absorveu a maior parte do impacto –
mas a visão dos cipós de carne cedendo enquanto Nêmesis perdia o
agarre, a fizeram muito bem... assim como a tenebrosa pancada na
água que ouviu pouco depois.
Ela cambaleou para ficar de pé e cruzou o resto da ponte,
agradecendo silenciosamente ao encontrar a porta de acesso ao
complexo destrancada. Dentro, um curto corredor virava à esquerda
quatro metros e meio à frente, chão de grades metálicas e paredes
de concreto. Ela rapidamente trancou a porta pela qual passou e
apoiou-se nela, apontando sua arma para a curva enquanto
recuperava o fôlego.
Nenhum passo lá fora ou dentro, nada além de um fraco som de
maquinário vindo de algum lugar mais adentro do complexo. Quando
passou a respirar quase normalmente, ela andou, ansiosa para sair
antes que Nêmesis retornasse. Ela tinha que pedir ajuda e fugir, ou
apenas fugir; Nêmesis não desistiria, e ela não podia evitá-lo para
sempre.
Mais adiante no corredor, ela viu uma porta de enrolar metálica
à direita, de frente para a continuação do corredor que não podia
ver. Mais um passo à frente e ela espiou em volta da curva. Vazio,
outro corredor que virava à direita. Ela recuou um passo e olhou a
porta metálica de perto, do tipo que abria com um cartão magnético.
O nome da sala estava bem acima da porta; em estêncil preto:
COMMUNICATIONS. Jill sentiu uma corrente de esperança, e viu
que não havia fechadura manual. O leitor de cartão à direita da porta
era o único modo de entrar.
Frustrada, Jill virou. Ter cruzado com Nêmesis tinha mudado as
coisas. Ela podia partir, ficar longe dele e de Nicholai e tentar pensar
em algo diferente, ou podia continuar, procurar o cartão e pensar em
outras possibilidades.
Jill sorriu exausta. Na verdade, ambas opções soavam terríveis,
mas a primeira parecia melhor. Ao menos suas roupas teriam uma
chance de secar.
Tremendo, Jill andou pelo corredor adjacente, vagamente com
inveja de Carlos, quente e dormindo na capela.
O complexo da Umbrella era uma série de pequenos prédios
térreos e um com dois pavimentos, posicionados entre várias áreas
abertas com lixo empilhado – pilhas de móveis usados, carros
velhos e sucata eram os principais competidores por espaço. Se
houverem helicópteros por lá, Carlos considerou estarem atrás dos
galpões – quase impossíveis de se contornar, claro, a não ser que
quisesse escalar outra pilha de carros.
Não, só se eu precisar, muito obrigado. Sua escalada tinha sido
o suficiente para durar o resto da vida. Ele tinha batido os dois
joelhos fortemente no teto de um caminhão enquanto descia, e
mancou o resto do caminho até o complexo.
Ele parou num pequeno e lotado pátio, onde esperava achar
uma cerca, memorizando o layout do amplo complexo o melhor que
podia antes de ir para o prédio principal. Ele queria ter certeza de
que Jill estivesse bem antes de procurar o helicóptero. Assim que
alcançou o prédio, Carlos quebrou a primeira janela que conseguiu
alcançar com a coronha da M16 e puxou-se para cima.
Ele sentou na moldura da janela, olhando para uma longa e
estreita sala, pobremente iluminada e forrada com corpos. À direita
ficava uma porta dupla com uma placa de saída acima,
provavelmente dando acesso ao galpão principal; ele tentaria essa
porta quando fosse procurar os helicópteros. À esquerda, ficava
uma escada metálica de mão que subia até uma abertura no teto.
Ele não queria mais nada.
Bom, um elevador, talvez, ele pensou enquanto se jogava da
janela, suas costelas atadas protestando. E se não fosse pedir
demais, se de repente eu acordasse e descobrisse que tudo isso foi
um sonho ruim, não seria nada mau, também.
A sala cheirava podridão e sangue, um cheiro com o qual já
tinha se acostumado. Cheirava igual Raccoon, e enquanto subia a
escada lentamente, ele pensou que morreria feliz se apenas
pudesse fazer isso respirando ar puro e fresco.
A tampa de metal no topo da escada levantou facilmente, presa
em dobradiças terminando apoiada num gradil lateral. Carlos
emergiu cuidadosamente em outra escura sala com ar de
esconderijo, cercada de consoles, armários e nenhum corpo –
“Caramba”. Ele suspirou, afastando-se da escada e indo para o
console da parte frontal, embaixo de grandes janelas que se
voltavam para o pátio escuro. Era um velho sistema de
comunicações, e mesmo enquanto levantava os fones de ouvido,
pôde ouvir o barulho de estática vindo do pequeno alto-falante preso
num painel lateral, seguido por uma fria voz feminina.
“Atenção. O projeto Raccoon City foi abandonado. Manobras
políticas para retardar os planos federais falharam.
Todos devem evacuar imediatamente para fora do raio de
explosão de dezesseis quilômetros. Mísseis serão lançados ao
amanhecer do dia. Essa mensagem está sendo transmitida em
todos os canais disponíveis, e será repetida em cinco minutos”.
Ele colocou os fones e começou a apertar botões. “Alô? Alguém
pode me ouvir, eu ainda estou na cidade, alô?”.
Nada. Carlos correu para a porta no fundo da sala, seus
pensamentos repetindo-se infinitamente, amanhecer, Jill,
helicóptero, amanhecer, Jill – e a porta, uma porta metálica de
enrolar estava firmemente trancada. Sem fechadura nem nada. Ele
não podia entrar no prédio.
E eu nem sei se ela está lá, talvez já tenha voltado, talvez...
Talvez muitas coisas, e por mais que quisesse achá-la, se não
achasse uma rota de fuga segura, eles não iriam conseguir.
Ele se afastou da porta, sem querer ir embora, sabendo que
não tinha escolha. Ele tinha que achar um dos helicópteros dos
quais Trent tinha falado, e certificar-se de que funcionavam e tinham
combustível. Talvez pudesse voar pelo complexo, chamar a atenção
dela, ou encontrá-la voltando para a torre do relógio.
E se eu não conseguir. Ele não terminou o pensamento, ciente
sobre o destino de Jill caso falhasse.
Quase sem perceber a dor em seu lado, Carlos correu para a
escada, seu coração pulando e cheio de pavor.
Capítulo 26
Quando Nicholai viu Jill passando hesitantemente pela porta até
as operações de tratamento, ele imediatamente recuou para fora do
campo de visão, através da porta de segurança lateral e entrando
num grande e vazio corredor que levava à sala do tanque de
resíduos químicos. Uma feroz alegria tomou conta dele enquanto
fechava a porta com cuidado, sentimentos de vingança e auto-
afirmação elevando seu espírito.
Depois de ter achado o disco de dados de Foster, ele preparou
seu laptop para combinar os arquivos. Foi quando ouviu o alerta do
quartel general. Não foi surpresa, era uma das várias possibilidades
projetadas, mas o acabou deprimindo. Uma parte dele ainda queria
terminar com Jill e Carlos, pelo que tinham feito com ele, e ainda
esteve considerando uma última olhada em volta antes de chamar o
resgate. Não havia tempo para isso com mísseis a caminho, e ele
estava indo fazer a ligação quando ouviu os passos.
Ela está aqui, eu estava certo sobre ela e agora está aqui!
Ele tinha que estar certo, senão os destinos em Raccoon não a
teriam enviado. Ele podia ver agora, que tudo o que aconteceu
desde que chegou em Raccoon estava predestinado. Destino,
testando-o, dando-o presentes e depois os tomando de volta, para
ver o que ele faria. Tudo fazia perfeito sentido e agora havia um
relógio correndo, ele tinha que fugir e lá estava ela.
Eu não falharei. Eu fui bem sucedido até agora e foi por isso
que esse sincronismo aconteceu. Para que antes de retornar à
civilização, eu pudesse restabelecer o controle que eu tinha. Ele
podia perguntá-la sobre Carlos e Mikhail, ele podia interrogá-la
completamente... e se houvesse tempo, ele poderia dominá-la de
um modo mais prazeroso, uma despedida da qual poderia relembrar
pelos anos seguintes.
Nicholai rapidamente moveu-se para trás da porta, seus passos
ecoando no largo corredor, rifle preparado. Ele tinha conquistado
isso e ficaria exatamente com o que merecia.
Jill entrou em algum tipo de sala de operações, seus sentidos
bem aguçados enquanto olhava pelo espaço aberto, decorado com
o estilo clássico dos laboratórios da Umbrella – vazias e frias
paredes de cimento, parapeitos de metal que separavam a sala de
dois níveis de modo absolutamente funcional, nada brilhante ou
colorido à vista.
Se sangue não estiver contando... respingos de sangue
manchavam o chão em volta da baixa mesa que dominava a sala.
Não deve ser obra de Nicholai, diferente do corpo que achou no
escritório perto da sala com canos de vapor quebrados. Um baixo
homem com mais de trinta anos, baleado no rosto, seu corpo ainda
estava quente. Ela não tinha dúvidas de que Nicholai estava por
perto, e percebeu estar quase desejando encontrá-lo logo, só para
não ter que olhar sobre os ombros a cada passo dado.
Ela não avistou nada parecido com um cartão ou com um rádio
na sala, e decidiu continuar – ela podia seguir pela porta lateral no
canto à sua esquerda ou descer. Porta lateral, ela decidiu, na remota
possibilidade de Nicholai ter seguido por lá; até agora, ela esteve em
todas as salas que conseguiu entrar do pavimento superior, e não
queria descer e arriscar ser pega por trás por trás.
Ela andou até a porta, imaginando de novo o que havia sido
feito com os corpos daqueles que morreram no complexo. Ela tinha
visto muitas manchas de sangue, mas apenas alguns corpos.
Talvez foram colocados lá embaixo... , ela pensou, abrindo a
porta de segurança e varrendo com a Beretta para a direita e para a
esquerda. Um corredor tão grande quanto uma sala, com uma
pequena quebra à direita na parede oposta. Totalmente vazio. Ela
entrou... ou a Umbrella ordenou que tudo fosse limpo para que seus
empregados não tivessem que trabalhar passando por cima de seus
colegas, ou – “Quieta, vadia”. Nicholai disse atrás dela, apertando o
cano de seu rifle em sua nuca. “Mas largue a arma primeiro, caso
não se importe”.
Um sarcástico repronunciamento do que tinha dito no parque, e
ela não deixou de perceber o toque de alegria quase histérica em
sua voz. Ela não foi cuidadosa e iria morrer por isso.
“Tá, tá”. Ela disse, deixando a 9mm escorregar por seus dedos
e cair no chão. Ela ainda tinha o lança granadas preso em suas
costas, mas era inútil – no tempo que levaria para desatar a arma,
ele poderia esvaziar um pente inteiro nela e ainda ter a chance de
recarregar.
“Vire-se devagar e recue, mãos juntas à sua frente. Como se
estivesse rezando”.
Jill fez o que ele queria, recuando até suas costas tocarem a
parede, com mais medo do que queria admitir quando viu o inquieto
sorriso e o modo como seus olhos rolavam de lado a lado.
Ele piscou. Seja lá o que estivesse errado com ele, estar em
Raccoon tinha transformado isso numa total psicose. O modo como
a olhava de cima para baixo a encheu com um tipo diferente de
medo. Ela conhecia vários modos efetivos para evitar o ataque de
um estuprador – mas isso considerando ainda estar fisicamente apta
a lutar, e ela duvidava muito que Nicholai se aproximaria dela sem
antes atirar algumas balas bem localizadas.
Ela olhou para sua esquerda, para a quebra no corredor que
terminava em uma porta fechada. Não vai dar, tente conversar com
ele.
“Eu pensei que você quisesse apenas sair da cidade”. Ela
disse, neutramente, incerta sobre o tom que usar. Ela sempre ouviu
que pessoas loucas deviam ser tratadas com humor, mas ela podia
ver que não faria muita diferença; Nicholai queria matá-la e ponto
final.
Ele andou casualmente até ela, vestindo seu trêmulo sorriso.
Um trovão soou acima, um som distante. “Eu quero sair agora que
tenho todas as informações. Eu matei todos os outros pelas suas,
os Watchdogs. A Umbrella lidará comigo, somente eu, e serei
extremamente rico. Está tudo equilibrado, e agora que você está
aqui, meu sucesso está garantido”.
Contudo, Jill estava curiosa. “Por que eu?”.
Nicholai se aproximou, mas ficou a uma distância segura.
“Porque você tomou o antídoto”. Ele disse com um tom de ńa
verdade´. “Carlos o roubou a seu pedido, não tente negar. Diga-me,
você está trabalhando por iniciativa própria ou foi enviada para
atrapalhar meus planos? O quanto Carlos e Mikhail sabem?”.
Cristo, como respondo isso? O tremor soou acima novamente,
e Jill se distraiu com ele, confusa demais com a lógica bizarra de
Nicholai para responder. Estranho poderem ouvir através do pesado
teto... não tão estranho quanto pensar no clima em uma hora como
essa. Ela tinha que dizer algo para ao menos prolongar sua vida;
enquanto estiver respirando, ainda restará uma chance.
“Por que deveria te dizer algo? Você vai me matar de qualquer
jeito”. Ela disse, como se tivesse algo para dizer.
O sorriso de Nicholai sumiu, e depois reapareceu, acenando.
“Você está certa, eu vou”. Ele mirou o rifle no joelho esquerdo dela e
lambeu os lábios. “Mas não antes de nos conhecermos melhor, eu
acho que temos tempo o suficiente para−”.
Crash!
Jill caiu para trás, certa de que foi baleada, mas ele não atirou,
foi o trovão – e o teto estava caindo, parte dele, pedaços de gesso e
concreto chovendo enquanto Nicholai gritava e atirava violentamente
– e desapareceu.
Nicholai a tinha sob seu controle, ela sangraria e gritaria e ele
seria vitorioso, ele tinha vencido – foi quando o teto cedeu,
escombros caindo sobre ele e algo grande, frio e duro o segurou por
trás do pescoço.
Nicholai atirou, gritando, uma bruxa, ela é uma – e ele foi
puxado para o escuro acima pela grande e gelada coisa. Uma mão,
o chocado rosto de Jill sendo a última coisa que viu antes dos dedos
apertarem, antes de uma corda viva se enrolar em torno de sua
cintura. A mão e a corda puxavam em direções opostas e Nicholai
sentiu seus ossos quebrarem, pele e músculos esticando-se
enquanto sangue enchia sua boca, gritando – isso está errado eu
controlo pare – e ele foi rasgado ao meio, e não sabia de mais nada.
Jill só pôde ver parte do que aconteceu, mas foi o suficiente.
Enquanto uma cachoeira de sangue corria pela beira do buraco no
teto, respingando no chão, ela ouviu o rouco grito de Nêmesis e viu
um tentáculo aparecer entre a chuva de vermelho, procurando – Ela
não ousou correr sob o buraco. Ela virou e correu para a porta no
fim do corredor, desatando o lança granadas das costas, sua única
arma – bam, ela empurrou a porta e a cruzou, entrando num escuro
e cavernoso abismo, uma onda de mau cheiro acertando-a como
um tapa na cara. Ela bateu a porta e esticou a mão até a única luz
que conseguia ver, um brilhante quadrado vermelho em um painel
perto da entrada.
Era um interruptor de luz, e enquanto filas de barras
fluorescentes piscavam, ela viu e entendeu duas coisas
simultaneamente. Os funcionários da Umbrella haviam sido
empilhados lá, a origem do incrível odor – e não havia outras portas.
Ela estava encurralada e tinha uma única bala no lança granadas
para se defender.
Ah, Deus, pense, pense – Lá fora, ela ouviu Nêmesis dizer a
única palavra que sabia, o terrível grito encorajando-a a se mover, a
fazer algo. Ela correu para a enorme montanha de corpos, a única
coisa na gigante câmara em forma de “U” que não estava presa no
chão. Talvez um deles tivesse uma arma.
O segmentado chão de metal soava ocamente sob seus pés,
dizendo-a onde estava – algum tipo de sala de lançamento de lixo, o
chão obviamente capaz de se abrir e derrubar o conteúdo em algum
lugar abaixo, algum tonel com produtos químicos, num contêiner, ou
no esgoto. Não importava, pois ela não tinha idéia de como operar
tal sistema; tudo com o que se preocupava era achar algo que
pudesse usar contra Nêmesis.
Os corpos estavam num avançado estágio de decomposição,
pesadas, quentes e gasosas ondas de fedor radiando dos
escurecidos e inchados corpos, a pilha alta até sua bochecha. Jill
não podia deixar ser afetada; ela largou o lança granadas e
imediatamente começou a revirar os corpos, levantando aventais
pegajosos, enfiando a mão em bolsos que desgrudavam sob seus
dedos. Canetas e lápis, pacotes ensopados de cigarros, dinheiro
trocado – um cartão magnético, provavelmente aquele que
procurava, maravilha, isso não é – BOOM! BOOM!
Gigantes punhos socaram a porta, ecoando pela câmara. A
porta cederia em segundos, ela teria que usar o que tinha. Ela não
teria chances de matá-lo, mas poderia contorná-lo.
Guardando o cartão magnético na beira de sua bota esquerda,
ela pegou o lança granadas e correu para a porta, pensando na boa
idéia que Nicholai tinha lhe dado, o mínimo que pôde, maluco
desgraçado.
Jill se posicionou ao lado da porta, perto do espaço que ela
ocuparia. Ela não ficou bem ao lado, o plano iria por água abaixo
caso terminasse esmagada.
BOOM, e a porta abriu, batendo na parede a centímetros de
onde estava, Nêmesis entrando, braços e tentáculos bem abertos
enquanto roncava por sangue.
Ele está mudando, crescendo – Jill mirou em suas costas
desfiguradas e atirou, a carga penetrando na carne a menos de três
metros de distância.
Gritando, a criatura cambaleou para frente, e antes que
pudesse recuperar o equilíbrio de novo, Jill cruzou a porta e correu,
rezando para que tivesse tempo de chamar ajuda e fugir antes de
ser encontrada novamente. Ela correu pelo corredor, erguendo a
Beretta, acelerando pela próxima sala e pelo corredor seguinte.
Pelo menos tempo para ligar; ela podia não sobreviver para
encontrar o resgate, mas Carlos ainda podia, se Deus quisesse.
Só havia um helicóptero, mas estava em excelente estado,
abastecido e pronto para voar. Se Carlos pudesse achar Jill,
poderiam conseguir.
Ele sentou no assento do piloto, olhando os controles,
repassando as instruções básicas que conseguia lembrar.
Ele foi ensinado por outro mercenário sem treinamento, e já
fazia um tempo, mas estava certo de que podia decolar. Era um
velho helicóptero de dois lugares com um teto máximo de 1.200m, e
alcance de talvez 320km.
Ele ainda não sabia o que alguns botões faziam, mas não eram
necessários para tirá-los do chão. A haste cíclica movia a aeronave
para frente, para trás e para os lados. O controle coletivo alterava o
impulso, controlando a altura.
Carlos checou seu relógio e ficou infelizmente surpreso ao ver
que vinte minutos haviam passado desde que ouviu o alerta sobre
os mísseis. Ele tinha passado alguns minutos verificando o
helicóptero, e houve alguns zumbis vagando pela área que precisou
matar...
Não vem ao caso. Agora eles tinham entre vinte e quarenta
minutos no máximo. O complexo era grande demais, ele nunca
conseguiria vasculhá-lo a tempo – então use o maldito rádio, idiota!
Carlos pegou os fones de ouvido, incrédulo por não ter pensado
nisso antes, prometendo a si mesmo de que bateria em si pela
percepção atrasada, quando tiver tempo. Considerando que haveria
algum.
“Alô, aqui é Carlos Oliveira com a Umbrella, eu estou em
Raccoon City, entendido? Ainda há pessoas vivas aqui.
Se você puder me ouvir, você tem que impedir o lançamento do
míssil. Alô? Entendido?”.
Não dava para saber se alguém estava recebendo seu sinal. A
Umbrella provavelmente tinha um bloqueio em todas as
transmissões para fora, ele só tinha que tentar e – “Carlos? É você?
Câmbio”.
Jill?
Ele se sentiu fraco de alívio assim que a voz dela entrou em seu
ouvido, talvez o som mais doce que já ouviu.
“Sim! Jill, eu achei o helicóptero, nós temos que sair daqui
agora! Onde você está? Câmbio”.
“Numa sala de rádio, no complexo da Umbrella – o que você
disse sobre lançamento de míssil? Câmbio”.
Ela estava tão perto! Carlos riu, nós sairemos daqui, está
acabado! “Os federais explodirão a cidade em meia hora, ao
amanhecer, mas está tudo bem, estamos prontos para voar –
consegue ver a escada no meio da sala?
Câmbio?”.
“Sim, está – eles vão explodir Raccoon, você tem certeza?”. Ela
soou totalmente confusa que esqueceu de usar o protocolo de
comunicação.
Não temos tempo para isso!
“Jill, eu te asseguro. Ouça – desça a escada e comece a correr,
você chegará onde estou, não há outro lugar para ir. Passe pelo
salão de cimento até a placa saída, siga o caminho lá fora e
atravesse um grande galpão – tem algum tipo de gerador de energia
lá, você terá que contornar alguns equipamentos. A porta dos fundos
estará às onze horas da entrada, entendeu? Eu estarei do outro
lado. E é melhor correr para cá, nada de passear por aí”.
Houve uma leve pausa e Carlos pôde ouvir o apertado sorriso
em sua voz quando respondeu. “Passear por aí é o que você pensa.
Estou a caminho, câmbio desligo”.
Sorrindo, Carlos ligou o helicóptero enquanto o céu azul escuro
começava a clarear, preparando o amanhecer.
Capítulo 27
Jill deslizou pela escada e começou a correr, sua mente girando
com as notícias sobre Raccoon. Ela não fazia idéia do que estava
acontecendo fora da cidade nos últimos dias para que a conclusão
fosse apagar a área de quarentena da existência.
Claro que precisava ser explodida, eles o fariam assim que
tivessem coletado seus dados, para ter certeza de que todas as
evidências fossem destruídas – Jill saltou sobre um corpo, depois
outro, e chegou na porta com a placa de saída, como Carlos disse.
Ela cruzou a porta e foi recebida por um maravilhoso ar fresco,
pesado com orvalho.
Ao amanhecer, ele disse que lançariam ao amanhecer. Meia
hora era uma estimativa generosa. Jill correu mais rápido, por um
corredor sinuoso feito de carros empilhados e sucata, e havia um
galpão bem à frente. Era grande, baixo e largo, e já estava
pensando em horas quando chegou nas pesadas portas reforçadas
com aço.
Onze horas... ela não podia ver a porta de trás por causa da
gigante parede de maquinários, canos e proteção de metal, mas
Carlos disse que precisaria contornar alguns equipamentos. Ela
virou à direita – e parou, olhando para o monstruoso aparato que
Carlos tinha confundido com um gerador. Era algum tipo de canhão
laser, enorme, cilíndrico, ela já os tinha visto antes, mas nem tinham
metade do tamanho – tinha pelo menos três metros de altura e seis
de comprimento. Dezenas de cabos saíam por vários buracos até a
parede de maquinários, e estava apontado para a porta da frente,
fazendo-a imaginar no que eles iam testá-lo...
A porta de trás abriu forte. Jill apontou a Beretta reflexivamente
e viu Carlos, o grave som de um helicóptero lá fora.
“Jill, vamos!”.
Ele estava obviamente feliz em vê-la, mas ela podia ler a
urgência em seu rosto, um lembrete do que estava vindo enquanto a
porta fechava atrás dele.
Ela correu na direção dele em silêncio, balançando a cabeça.
“Desculpe, eu fiquei surpresa, é um canhão laser, o maior de
todos−”.
Ka-rash!
Perto do teto da porta da frente, uma gigante massa explodiu da
parede, desaparecendo de visão enquanto caía no chão atrás da
parede de maquinários. Jill só teve a impressão de um inchado e
bulboso corpo cercado por garras e tentáculos, e soube que estava
certa sobre Nêmesis. Ele estava evoluindo.
Pouco depois houve outra pancada. Faíscas estouraram e
voaram de um alto painel perto da entrada, e um uivo borbulhante
irrompeu na sala, o choro de Nêmesis terrivelmente mudado, mais
profundo, mais áspero.
“Vamos!”. Carlos gritou, e Jill correu para ele enquanto
chacoalhava a maçaneta da porta de trás – e a porta não abriu. Jill
notou as pequenas luzes piscando no painel ao lado e entendeu que
Nêmesis tinha causado um curto circuito nos mecanismos de trava.
Eles estavam trancados no galpão com a coisa que foi o
matador de S.T.A.R.S. e que gritava por sangue.
Capítulo 28
Carlos ouviu a coisa gritar e percebeu quem era. Ele viu um
lance do monstro enquanto caía, mas estava grande e Carlos
suspeitava de que estavam ferrados.
Jill levantou a voz para gritar e Carlos só conseguiu ouvir o
quase interminável grito de Nêmesis.
“Onde está a .357?”.
Carlos balançou a cabeça. Ele estava com a M16, mas tinha
deixado o revólver e os pentes no helicóptero.
“Lança-granadas?”. Ele retrucou, e foi a vez de Jill balançar a
cabeça.
Uma 9mm e talvez vinte balas restando na metralhadora. Nós
teremos que estourar a porta, é nossa única chance – Carlos sabia
mesmo enquanto pensava. As portas de entrada e de saída eram
bem fortes, eles teriam mais sorte explodindo um buraco na parede
– e a resposta foi até ele, e viu que Jill também já sabia pelo modo
como o olhava, seus olhos largos e piscando.
O uivo do monstro vingador predominava, porém, um horrível e
molhado barulho tinha começado, o som de algo vasto e grudento
se movendo devagar e constante pelo cimento.
Está vindo atrás dela.
“Você sabe usá-lo?”. Carlos perguntou, já se livrando de
qualquer confronto com seja lá o que Nêmesis tinha se tornado.
“Talvez, mas−”.
Carlos interrompeu. “Eu vou distraí-lo – faça aquela coisa
funcionar e me avise quando abaixar”.
Antes que Jill pudesse protestar, Carlos passou correndo por
ela, determinado a fazer o que puder para manter o monstro longe
dela, pelo menos está mais lento, se eu puder atrasá-lo mais um
pouco – Ele chegou na esquina da parede de equipamentos,
respirou fundo, e fez a curva – e gritou involuntariamente com nojo
da massa ondulante e transpirante que se arrastava em sua direção,
impulsionando o corpo com apêndices sem forma, dotados de
garras e da cor de bolhas. Carnudos caroços ergueram-se e caíram
como bolhas numa panela de ensopado ao longo de suas
contorcidas costas, finos jatos de um escuro fluído jorrando de
dezenas de pequenos cortes em sua pele, molhando o chão,
lubrificando sua passagem.
Carlos escolheu o caroço levemente alto no topo da gigante e
pulsante criatura e atirou, as balas mergulhando na carnuda
superfície como seixos numa correnteza, tat, tat, tat – um dos
tentáculos na frente do corpo chicoteou, batendo nas pernas de
Carlos forte o bastante para derrubá-lo.
Carlos se arrastou para trás apesar da dor em suas costelas,
impressionado com sua incrível velocidade, mas nem um pouco
apavorado. O monstro se movia lentamente, mas seus reflexos eram
incrivelmente rápidos, o tentáculo tinha percorrido três metros de
espaço aberto para derrubá-lo, aparentemente sem esforço.
“Puta madre”. Ele suspirou o pior palavrão que conseguiu
pensar enquanto rolava para ficar de pé e recuava. Ele já estava na
curva, a dez metros ou menos do canhão onde Jill apertava botões
freneticamente. Ele distraia o monstro como uma mosca distraia um
avião. Quanto tempo temos até o amanhecer – De repente, o
monstro uivou de novo, um coro de som, cada pequeno orifício de
seu corpo abrindo, mil bocas gritando, criando um ronco
ensurdecedor.
Nêmesis não iria parar. Carlos recuou mais e atirou, um
desperdício de balas, mas era tudo o que podia fazer – foi quando
ouviu o poderoso e crescente hum de uma grande turbina girando
rápido e mais rápido, e Jill gritando para ele correr, e Carlos correu.
Ela não tinha conseguido achar o botão principal, não havia
cabos ou botões para conectar, e não sabia o suficiente sobre
máquinas para tentar descobrir. Ela viu Carlos cair e seu coração
parou, mas forçou a si mesma a continuar tentando, sabendo que
era tudo o que tinham.
Depois de um segundo de busca desesperada e frenética, ela
encontrou os botões de ligar na base do canhão, e a máquina
tremeu maravilhosamente para a vida.
“Corre!”. Jill gritou, empurrando os controles que erguiam o
canhão devagar e precisamente, seus movimentos marcados
digitalmente numa pequena tela perto da base. Ela pôde sentir a
energia crescendo, o ar ao seu redor aquecendo, e assim que
Carlos saiu do caminho e Nêmesis apareceu, ela se sentiu
aterrorizada, quase dominada por um intenso e violento sentimento
de auto-satisfação.
Ele tinha matado Brad Vickers e a perseguiu impiedosamente
pela cidade. Ele tinha matado a equipe de resgate deixando-os
presos em Raccoon, a infectou com uma doença, a aterrorizou e
feriu Carlos – e não importava se tinha sido programado para fazer
essas coisas; ela o odiava do fundo de si, o desprezava mais do que
tudo que já desprezou.
A gigante aberração mutante avançava centímetro por
centímetro sobre uma onda de meleca enquanto o hum do canhão
alcançava um explosivo auge, o som afogando todos os outros. As
palavras de Jill ficaram inaudíveis, mesmo para ela.
“Você quer S.T.A.R.S., eu te darei S.T.A.R.S., sua porcaria”. Ela
disse, e desceu a mão no botão de ativação.
Capítulo 29
Uma brilhante luz branca, porém, chamuscada com um elétrico
tom de laranja e azul, expelida pelo bico do canhão laser em um
feixe de concentrada fúria. Arcos de calor e luz estouravam sobre a
superfície do canhão como raios em miniatura, e o laser encontrou o
contorcido e pulsante corpo de Nêmesis e começou a comer.
A criatura que uma vez foi o orgulho da seção de
desenvolvimento da Umbrella gemeu e se debateu, balançando seus
múltiplos membros num frenesi de confusa agonia. O fino feixe de
luz perfurou sua carne, implacável como estava provando ser,
derretendo camadas de tecido e soldando materiais mais duros –
ossos, cartilagem e metal flexível – numa fundida e inútil massa.
A criatura começou a queimar e depois a fazer fumaça, e
enquanto o cérebro fritava por dentro de seu corpo deformado,
Nêmesis deixava de existir, seu programa eliminado, seu improvável
coração estourando silenciosamente, bem no interior.
Alguns segundos depois, o canhão superaqueceu e desligou
automaticamente.
Capítulo 30
O helicóptero levantou vôo e acelerou, um leve chacoalho no
começo, mas Carlos rapidamente achou o equilíbrio. Os primeiros
raios de luz estavam crescendo pelo céu à leste enquanto a cidade
condenada descia sob eles. Parecia tão estranho estar partindo,
depois de dias desejando isso, trabalhando só para isso.
“Nicholai está morto”. Jill disse, sua voz fria e clara através dos
fones de ouvido. Foi a primeira coisa que ela disse depois que
decolaram. “Nêmesis o pegou”.
“Não foi grande perda”. Carlos respondeu.
Eles caíram no silêncio de novo, Carlos contente por apenas
voar, por ter a chance de ficar parado. Ele estava muito cansado e
só queria ficar longe o bastante de Raccoon antes que os mísseis
chegassem.
Depois de um momento, Jill esticou a mão e tocou a dele, e isso
também o deixou contente.
Jill segurou a mão de Carlos enquanto o sol subia lentamente
no horizonte, dando ao céu maravilhosas camadas de rosa, cinza e
amarelo limão. Era bonito, e Jill percebeu que, por mais que
tentasse, não conseguia sentir pena de Raccoon. A cidade foi seu
lar por um tempo, mas se tornou dor e morte para milhares de
pessoas, e pensou que explodir tudo seria a melhor coisa que podia
acontecer.
Nenhum deles falou enquanto o sol continuava levantando,
enquanto quilômetros voavam abaixo deles, florestas, fazendas e
estradas vazias, parecendo frescas e brilhantes sob a gentil e
quente luz.
Quando o céu piscou branco e a onda de choque os acertou
pouco depois, Jill não olhou para trás.
Epílogo
Trent esteve ocupado quase o dia todo, assistindo reuniões,
ganhando a simpatia da mídia com algumas de suas emissoras
compradas, e explicando a diferença entre HARM – mísseis de ar ao
chão que o exército usou em Raccoon – e SRAM para os três
líderes da White Umbrella. Jackson, em particular, ficou descontente
por não terem usado os mísseis táticos maiores; ele não parecia
entender que um acidente nuclear proposital nos Estados Unidos
devia ser mantido no maior sigilo possível. Irônico como um homem
com tanto dinheiro e poder conseguia ser tão indiferente com a
realidade que ajudara a criar.
Trent finalmente teve alguns momentos para si no começo da
noite, depois de uma revisão final nos relatórios Watchdog. Ele
levou uma xícara de café para a sacada do quarto que usava
quando ia para os escritórios em DC. O vivaz anoitecer era
refrescante depois de um dia de ar reciclado e luzes fluorescentes.
Do vigésimo andar, a cidade parecia surreal, sons distantes e
formas borradas. Sem olhar para nada em particular, Trent provou o
café, pensando em tudo o que tinha testemunhado nos últimos dias
da privacidade de sua casa. As poucas dezenas de estações
remotas da Umbrella não captavam nada do satélite pirata que
mandava informações para sua sala secreta de monitores; ele
conseguiu acompanhar vários dramas que se desenrolaram nas
últimas horas da cidade.
Teve um policial novato, Kennedy, e a irmã de Chris Redfield –
ambos escaparam por pouco da explosão no laboratório,
conseguido salvar Sherry Birkin, a jovem filha de um dos melhores
cientistas da Umbrella. Trent não teve contato com eles, mas sabia
que Leon Kennedy e Claire Redfield tinham se tornado parte da luta.
Eles eram jovens, determinados e cheios de ódio pela Umbrella; não
podia ter sido melhor.
As altas esperanças por Carlos Oliveira deram certo, e por ter
juntado forças com Jill Valentine... Trent ficou completamente atônito
com a fuga deles, feliz por seus dois inadvertidos soldados terem
trabalhado tão bem juntos, sobrevivendo apesar da infecção de Jill,
do russo lunático e do caçador de S.T.A.R.S.. O uso de unidades
Tyrant ainda estava sendo questionado por muitos dos
pesquisadores da Umbrella; por mais mortalmente eficientes que
fossem, eles também eram muito caros, e Trent sabia que os
debates continuariam, abastecidos pela perda de várias unidades na
destruição da cidade.
Ada Wong...
Trent suspirou, desejando que ela tivesse sobrevivido. A alta e
bonita agente asio-americana que tinha enviado foi tão brilhante
quanto competente. Na verdade, ele não a viu morrer, mas as
chances de ter sobrevivido à explosão do laboratório e da destruição
de Raccoon eram próximas de zero. Infelizmente, diga-se no
máximo.
Mas no geral, Trent estava satisfeito do modo como as coisas
estavam andando. Até onde podia dizer, ninguém na companhia
tinha a menor idéia de quem ele realmente era ou do que estava
fazendo. Os três homens mais poderosos na Umbrella confiavam
nele mais a cada dia, completamente desinformados sobre seu
objetivo – destruir a organização, de fora e por dentro, devastar a
vida de seus líderes e entregá-los à justiça; organizar um exército de
elite de homens e mulheres comprometidos com a queda da
Umbrella, e guiá-los o máximo que puder.
Se seus métodos eram complicados, o motivo era simples:
vingar a morte de seus pais, ambos cientistas, assassinados quando
ele era criança para que a Umbrella pudesse lucrar com seus
estudos.
Trent sorriu para si, bebendo mais um pequeno gole da xícara.
Soava tão melodramático, tão grandioso. Fazia quase trinta anos
desde que seus pais foram queimados vivos no suposto acidente no
laboratório. Ele deixou a dor para trás há muito tempo – porém, sua
decisão nunca mudou. Ele tinha mudado de nome, de passado,
desistiu de algum dia voltar a ter uma vida normal – e não se
arrependia de nada, mesmo agora que dividia a responsabilidade
pela morte de tantas pessoas.
Estava escurecendo. Lá embaixo, a iluminação pública piscava
para a vida, mandando para cima um suave brilho que iluminaria o
céu noturno como uma auréola sobre a cidade. Mesmo assim, até
que era bonito.
Trent terminou o café e ausentemente traçou o logotipo da
Umbrella na lateral da xícara com os dedos, pensando sobre
escuridão e luz, bom e mal, e os tons de cinza que existiam entre
tudo. Ele precisava ser cuidadoso, e não só para evitar ser
descoberto, eram aqueles tons de cinza que o preocupavam.
Depois de alguns momentos, Trent deu as costas para a
escuridão e entrou. Ele ainda tinha muito o que fez antes de ir para
casa.
***
(Nota 1) Comprende – Algumas palavras no decorrer do texto
estão em Espanhol.
(Nota 2) Umbrella Bio-hazard Coutermeasure Service
(U.B.C.S.) – Serviço de contramedidas com risco biológico da
Umbrella.
(Nota 3) Honduras – País da América Central.
(Nota 4) Watchdog – “Cão-de-guarda” em inglês.
(Nota 5) Nêmese ou nêmesis – Castigo. Deusa grega da
vingança. Nemesis em inglês.
(Nota 6) Betaína – Alcalóide: Composto orgânico com
propriedades farmacológicas encontrado em caules, raízes ou folhas
das plantas, neste caso, principalmente na beterraba. Outros
exemplos de alcalóides: morfina, quinino, cafeína...