Residência do Fim do Mundo: Escrita e Ficção
Residência do Fim do Mundo: Escrita e Ficção
Escrito por
Com a colaboração de
Josefina Trotta
Leonardo Moreira
Gabriela Boeri
Dirigido por
Fernando Fraiha
Produzido por
Versão de
bionica@[Link]
1 INT. PARQUE GRÁFICO - NOITE 1
DIEGO PARISI
(para a câmera)
Hoje um ciclo se completa. A
primeira tiragem... Cinco mil
exemplares.
Ainda com o fósforo queimando cada vez mais, Diego pega uma
garrafa de álcool com a outra mão e joga o líquido sobre a
pilha de livros. Diego agora está um pouco mais alterado.
BLACK
Ana tira o celular do bolso, mas antes que pudesse fazer algo
SILVIA (43), uma mulher de aparência forte e tranquila, a
chama de longe. Silvia é uruguaia e fala num espanhol similar
ao dos personagens argentinos.
SILVIA
E você escreve sempre assim?
ANA
(desatenta)
Assim como?
SILVIA
Começando pelo final.
3.
ANA
(rindo)
Não sei. É como está saindo. O meu
primeiro livro foi confuso também.
SILVIA
E aí? Intenso?
SILVIA (CONT'D)
Está tudo bem?
ANA
Sim... desculpa.
ANA (CONT'D)
Desculpa, podemos parar um pouco...
Não to me sentindo bem.
SILVIA
Você tá bem?
ANA
Sim... Não posso olhar pro celular
nas curvas.
Ana sorri.
Há uma sala de prática com enormes janelas que dão vista para
a cordilheira. ESTEBAN (29) conversa com SERGIO (35), DAVID
(22) e VIGGO (60) em um clima descontraído. Viggo carece de
ambas as pernas e está em uma cadeira de rodas.
VIGGO
(aos residentes)
... e cada livro que chegava eu
pensava: não, pelo amor de Deus!
Sérgio ri.
VIGGO (CONT'D)
(aos residentes)
Parem um pouco! A capacidade de
vocês escreverem é muito maior do
que a minha paciência pra ler!
VIGGO (CONT'D)
(para Ana)
Finalmente, chegou a última!
5.
ANA
(para todos, tímida)
Oi!
ESTEBAN
Oi Ana! Bem-vinda.
ESTEBAN (CONT'D)
(lendo)
Você está na equipe de limpeza
comigo e...
ESTEBAN (CONT'D)
... o seu quarto é...
(para o gato)
Fora Cortázar!
VIGGO
(de longe)
O gato já te cumprimentou. Bem
vinda ao fim do mundo.
ANA
(apontando para as
escadas)
O quarto é...?
ESTEBAN
Para baixo... Os de cima queimaram
faz alguns anos.
VIGGO
Bendito incêndio! Assim vem menos
residentes.
SILVIA
Que simpático, Viggo
6.
VIGGO
Obrigado.
Ana sorri.
ANA
Hola...
AGNES
(em inglês)
Oi!
AGNES (CONT'D)
(em inglês - apontando a
cama)
Eu peguei a cama perto da porta.
Tudo bem por você?
ANA
(em espanhol)
Eu não falo inglês muito bem...
AGNES
(em inglês)
Eu peguei essa cama, se for ok por
você.
ANA
(em inglês)
Ah, desculpa...
ANA (CONT'D)
Ana - Brasil!
AGNES
(em inglês)
Agnes - Polônia.
BLACK
HOLDEN (O.S.)
Vocês estão aqui porque querem
escrever.
HOLDEN (CONT'D)
Certamente, em algum momento, se
imaginaram lançando esse livro, com
seu nome na capa. Também imaginaram
as pessoas gostando do que leem....
(pausa)
Imaginaram também que será um
sucesso de vendas? Ou um hit cool,
que as pessoas iam ler e se
apaixonar? Ou vocês são o tipo que
espera reconhecimento com a
crítica?
(MORE)
8.
HOLDEN (CONT'D)
(pausa)
Não importa, o que quer que seja,
tudo isso que imaginaram é
exatamente o que os desqualifica
como escritores.
(pausa)
não estão aqui porque querem e sim
porque precisam. Naturalmente se
pensassem que sua arte fosse
potente, não estariam aqui.
HOLDEN (CONT'D)
E por que não pensam?
(pausa)
Vivemos em um mundo onde as pessoas
preferem confessar suas
transgressões do que compartilhar
verdadeiramente suas fantasias.
(pausa)
É uma pena. A fantasia é o que
temos de melhor. A imaginação que
criou Deus. Tudo é literatura, eu,
você, tudo...
(pausa)
Não há nada que revela mais quem é
alguém do que as fantasias que este
tem. E fazemos o que com isso?
Escondemos?
HOLDEN (CONT'D)
O mundo está cheio de pessoas que
não sabem que tudo é uma ficção.
Elas são reféns, não autores delas.
(pausa)
E é impossível mudar o mundo com as
histórias que temos hoje.
Precisamos de novas! E essas
histórias já existem dentro de
vocês!
HOLDEN (CONT'D)
No final da oficina, eu escolho
sempre uma pessoa pra ficar na
residência até o fim de seu
projeto.
(MORE)
9.
HOLDEN (CONT'D)
Eu sempre espero que cada edição da
Residência do Fim do Mundo seja a
última, mas isso depende de vocês.
Não me decepcionem.
HOLDEN (CONT'D)
Tudo isso pra dizer, aproveitem! E
sejam muito bem vindos!
HOLDEN
É improvável que isso funcione
aqui.
Ana se assusta.
ANA
Não tem sinal?
HOLDEN
Acho que tem em alguns lugares...
não tenho ideia...
ANA
E tem wi-fi?
HOLDEN
Genial chamar o amante de Violeta
como “aquele improvável arranjo de
carne”.
10.
ANA
Obrigada...
ANA (CONT'D)
Você tem um Pollock?
HOLDEN
É admirável a coragem de Violeta
como personagem.
Ana sorri.
ANA
Sim... Violeta é intensa.
HOLDEN
O melhor final da oficina é o seu.
Você tem que bancá-lo.
ANA
(desconcertada)
Obrigada. A única coisa que sei é
que acaba assim...
SILVIA
... fecha a porta. O Holden sente o
cheiro de maconha de longe.
11.
ESTEBAN
Alguém tem isqueiro?
ESTEBAN (CONT'D)
“Imaturo é aquele que quer morrer
gloriosamente por uma causa. E
maduro é quem contenta-se em viver
humildemente por ela.”
ANA
Hemingway.
SERGIO
(sorrindo para Ana)
Salinger.
ANA
Claro, Salinger... sempre confundo
os dois.
DAVID
Holden não fuma um?
SILVIA
Jamais... Ele é obcecado por
lucidez. Pobre menino que não sabe
se divertir.
DAVID
Ateu místico.
SILVIA
(rindo)
Ele odeia esse apelido.
SERGIO
Ele é genial! Eu li “El conjuro” 3
vezes.
ANA
Eu gosto do “Relatos de la Lluvia”.
12.
DAVID
É mais hermético né? Foi o que
ganhou menos prêmios eu acho...
SILVIA
É o favorito dele.
ANA
(tentando entrar na
conversa)
E sobre o que é o projeto de
vocês...?
DAVID
O meu é sobre um monge.
SERGIO
O meu é sobre um cara do interior
que se muda para cidade grande e
quer agradar servindo todos. As
pessoas que ele cruza abusam dele,
pedem favores, e ele tenta contentá-
las.
ESTEBAN
(interrompendo)
Agora não é hora, gente.
Todos em silêncio.
ESTEBAN (CONT'D)
Vamos evitar ficar falando sobre
isso à toa. Aproveita enquanto
ainda consegue pensar em outras
coisas, Ana...
SILVIA
Porque jajá vai ser só nos seus
projetos.
ANA
Eu tô numa fase que só penso em
tudo menos na minha história.
ESTEBAN
Procrastinação e literatura...
13.
Ana começa a tossir, o baseado não lhe cai bem. Ela passa pra
David.
SERGIO
99% sofrimento, 1% sentar e
escrever. Eu achava que ia
melhorar, já to no quarto livro e
só piora...
ANA
(se despedindo)
Bem, até amanhã...
DAVID
(para Sérgio)
... quarto livro já? Eu to sofrendo
pra vender o segundo.
SERGIO
O segundo foi fácil para mim...
12 OMITTED 12
Ana coloca suas malas sobre a cama. Abre uma delas, procura
algo - pega seu estojo de maquiagem. Ela tira tudo que estava
dentro do estojo, acomoda o pássaro dentro e o coloca no
parapeito da janela.
DANILO (O.S.)
(na tela)
Como ta aí?
ANA
Tudo bem... É ruim de sinal aqui. *
DANILO (O.S.)
E seu livro?
Blue Rev. (mm/dd/yy) 15.
ANA
Acho que tá rolando. Acho que *
vou conseguir te entregar até
outubro como a gente combinou.
DANILO
(rindo)
A gente combinou agosto.
ANA
Cara, ele é interessante... Meio
intenso demais, mas interessante...
DANILO
Não é a toa, né?
ANA
Às vezes me dá preguiça. Uma auto
importância.
DANILO
Pega da residência o que te serve e
ignora o que não serve e vai dar
tudo certo.
ANA
Eu tenho que ir aqui que ele já
entrou na sala...
DANILO
Tá. Escuta, consegui me liberar pro
seu aniversário.
ANA
(comemorando)
Jura? Então você vem?
DANILO
Vou! Pensei em te pegar ai no
último dia e irmos pro Chile.
ANA
Ótimo! Vou amar. Preciso ir aqui...
DANILO
Ah, Ana... espera... desceu?
ANA
Acho que não to grávida, amor... eu
saberia...
DANILO
Tudo bem... A gente continua
tentando.
BLACK
HOLDEN
(falando lentamente)
Não tirem o lápis do papel. Por
mais incomodo que seja.
HOLDEN (CONT'D)
(apontando para o quadro)
Vocês acham que ele conseguiria
fazer isso se ele quisesse
controlar o resultado? Foco no
processo!
HOLDEN (CONT'D)
Ana, não pare! Mantenha o fluxo.
Ainda falta mais uma hora.
HOLDEN (CONT'D)
Não parem, não questionem, não
corrijam... Abandone o controle e
deixe fluir. Como crianças! Nunca
percam a capacidade de se mergulhar
na fantasia!
HOLDEN (CONT'D)
Deixem seu personagem te levar pra
um lugar no meio da natureza. A
personagem escolhe.
Não interfiram. Embarquem!
FLASH FANTASY
Violeta uma jovem magra de 25 anos com uma pele pálida e com
uma ligeira semelhança física com a Ana, apesar do cabelo
mais curto e do aspecto deprimido. Ao seu lado um homem mais
velho, THOMAS (60).
HOLDEN (V.O.)
Deixem seus personagens livres pra
fazerem o que quiserem.
HOLDEN (V.O.)
E façam eles irem mais longe!
Deixem eles livres pra se
manifestar!
HOLDEN (V.O.)
(começando a se exaltar)
Experimente os extremos dos seus
personagens. Força!
HOLDEN (V.O.)
(exaltado)
Mais fundo!
HOLDEN (V.O.)
(exaltado)
Ainda mais fundo! Mais!
HOLDEN (V.O.)
(com o tom da voz ainda
mais misturado com a
música)
Deixa que seu personagem realize
tudo que queira.
FIM DO FLASH
FANTASY
Uma gota de sangue escorre pelo seu nariz. Ana está com o
coração acelerado e sem fôlego.
HOLDEN
Ana, tudo bem?
ANA
Sim... falta de ar só...
Ana limpa a gota de sangue que sai de seu nariz com a mão.
HOLDEN
Ótimo. Reparem como vocês estão se
sentindo agora.
HOLDEN (CONT'D)
(em inglês)
Agnes, como foi?
AGNES
(inglês - sorrindo)
Foi incrível!
HOLDEN
(em inglês)
O que você descobriu sobre sua
personagem?
AGNES
(em inglês)
Ela é cleptomaníaca. Ela é uma
velha rica de 80 anos que vive
sozinha com mais seis serviçais.
Ela rouba pequenos objetos dos
empregados, fazendo intriga entre
eles. Mas o estranho é que ela
cantou... Ela simplesmente começou
a cantar.
HOLDEN
(em inglês)
Então você não sabia que ela
cantava?
HOLDEN (CONT'D)
(em inglês)
E que lugar junto à natureza sua
personagem escolheu?
AGNES
(em inglês)
Um hospício.
Todos riem.
HOLDEN
(em inglês)
Ow, um hospício.
(risos)
E Agnes, você canta?
AGNES
(em inglês)
Não.
HOLDEN
(em inglês)
E por quê?
21.
AGNES
(em inglês - tímida)
Eu não consigo.
HOLDEN
(em inglês)
Interessante. O que sua personagem
cantou? Como era?
AGNES
(em inglês)
Eu não sei... Foi tudo num fluxo de
consciência... Nada muito material.
HOLDEN
(em inglês)
Canta!
Agnes trava.
HOLDEN (CONT'D)
(em inglês)
Vamos lá! Canta alguma coisa.
HOLDEN (CONT'D)
(em inglês)
Qual é a música mais antiga que
você se lembra?
HOLDEN (CONT'D)
(para Agnes)
Mamihlapinatapai.
HOLDEN (CONT'D)
(para todos)
Essa é uma palavra andina. É
(MORE)
22.
HOLDEN (CONT'D)
a palavra mais sucinta do mundo: É
quando duas pessoas estão se
olhando, querendo a mesma coisa,
mas nenhuma das duas toma a
iniciativa.
HOLDEN (CONT'D)
(em inglês)
Vai, Agnes! Cadê sua voz?
Agnes solta sua voz. Apesar de desafinada ela canta com mais
segurança. Agnes começa a chorar emocionada. O grupo se
levanta para cantar. É uma cantoria que vai entrando em uma
catarse coletiva. Silvia segue filmando a cena. Holden segura
Agnes que chora e canta, respirando fundo – o canto aos
poucos vai virando uma dança.
ANA
E você não participa das oficinas,
Viggo?
VIGGO
Não. Não pude participar da dança
hoje.
ANA
(rindo)
Não, digo escrevendo.
VIGGO
Não tenho mais a arrogância
necessária para escrever
Ana ri.
ANA
Realmente, sem a arrogância fica
mais difícil.
VIGGO
Levei muito tempo para parar de
fazer coisas que não quero.
ANA
E por que alguém faria algo que não
quer?
VIGGO
Porque podem te convencer.
Ana olha para Viggo como quem não comprou a resposta dele.
VIGGO (CONT'D)
Poucas coisas são tão perigosas
quanto escritores motivados.
HOLDEN
(a convidando para
participar)
Ana?
Eles olham para Ana que está lá, se viram, se beijam e saem
rindo.
Ana observa a cena sem muita paciência. Ela retoma sua folha
de papel, lê rapidamente tudo que está por lá.
“VIOLETA.
SERGIO
...essa foi a terceira vez que o
enviei. Os dois primeiros foram
mais ou menos o mesmo projeto e
esse mudei radicalmente.
DAVID
Essa foi minha segunda vez. Um
amigo fez a residência e enviou uma
carta de recomendação.
SERGIO
(para Agnes em inglês)
E você?
AGNES
Que?
SERGIO
Quantas vezes você submeteu?
26.
AGNES
(fazendo “4” com a mão)
Quatro?
ANA
Essa foi minha primeira.
SERGIO
Primeira?
DAVID
(incomodado)
Nossa, parabéns! Muito bom!
SERGIO
(incomodado)
Raro né? De primeira...
SILVIA
... o acervo dos registros em vídeo
só pode ser acessado comigo ou com
o Esteban. O material filmado não
pode sair da casa e é de uso
exclusivo de Holden. Algumas
pessoas comentaram que se incomodam
com o registro.
SILVIA (CONT'D)
Mas infelizmente não há nada que a
gente possa fazer.
HOLDEN
Ana?
HOLDEN (CONT'D)
Você já tem clareza dos passos do
seu processo aqui.
ANA
Acho que sim.
HOLDEN
Perfeito. Você sente que conhece
bem Violeta?
ANA
(medindo suas palavras)
Sim.
HOLDEN
(para a sala)
Entenda que “conhecer”, para nós,
significa se sentir como o outro.
Mas esse outro só existe em você.
Você é o outro.
HOLDEN (CONT'D)
Você sente isso?
ANA
Algo assim...
HOLDEN
(interrompendo)
Ana, por que você escreve?
ANA
Como assim?
HOLDEN
Por que você se tornou escritora?
Por que você escreve?
28.
ANA
Ah... acho que sempre escrevi...
HOLDEN
Como assim sempre?
ANA
Desde pequena. Eu aprendi a
escrever fazendo os diários da
minha mãe.
HOLDEN
Você escrevia diários com sua mãe?
ANA
Não. Ela morreu no meu parto. Eu
escrevia os diários dela depois.
Era uma forma de conviver com ela.
HOLDEN
Interessante. Sua primeira
personagem foi sua mãe.
Ana assente.
HOLDEN (CONT'D)
E isso se relaciona de alguma forma
com seu atual projeto?
ANA
Acho que não...
HOLDEN
É possível isso?
(para a sala)
É possível um autor não girar a
vida inteira ao redor de uma mesma
questão? De uma mesma essência?
HOLDEN (CONT'D)
Você se importa de investigar um
pouco mais a fundo? Em contar pra
gente a história do seu livro?
HOLDEN (CONT'D)
Esquece da câmera, esquece dos
outros. Eu só tô tentando entender
o que você pensa quando não tá
pensando.
29.
HOLDEN (CONT'D)
O que Violeta faz?
ANA
Violeta é uma jovem brilhante e
emocionalmente instável que seduz
Thomas, seu professor de biologia
do último ano da escola.
HOLDEN
Eles se amam?
ANA
Tem um choque de gerações. Para
Violeta o amor não é esse amor
romântico, é só uma afirmação de
identidade, e pra Thomas, que é
trinta anos mais velho e super
religioso, não. Ele ainda acredita
no amor. Ele leva o amor a sério.
Ele assume ela publicamente na
escola e é expulso da escola. Aos
poucos ele vai enlouquecendo e se
sentindo cada vez mais culpado.
HOLDEN
Interessante. Dá pra gente algumas
imagens de Violeta em ação?
ANA
Ela parece só querer testar os
limites de Thomas, mas no fundo ela
se incomoda de ver que ele é capaz
de amar e ela não.
HOLDEN
Ação, Ana. Imagens!
ANA
A Violeta aos poucos vai quebrando
as coisas que Thomas ama: os discos
dos Beatles, o retrato da ex esposa
- ele é viúvo - e Thomas não se
importa.
HOLDEN
Ótimo! Que mais?
30.
ANA
O que eu mais trabalhei até agora é
o final. A paixão que vai se
tornando irracional e vai tirando
da Violeta a ilusão de controle...
aí eles decidem fugir e se isolar
do mundo.
HOLDEN
Ação! Imagem!
ANA
Eles vão se isolando e passam a
viver no alto de uma montanha.
Violeta começa a não querer mais
transar.
HOLDEN
Continue.
ANA
Eles bebem muito. Vinho. Thomas
abre uma garrafa de vinho
estragado. Ele diz a Violeta que se
ela fosse um vinho, seria esse. O
vinho mais amargo que ele já tomou
na vida. Violeta fica emocionada
por ele conhecer ela tão bem e, com
sadismo, enfia a unha no pescoço
dele até sangrar.
ANA (CONT'D)
Thomas continua ignorando tudo de
ruim que Violeta faz, pois se sente
culpado e com isso vai
enlouquecendo de forma exponencial.
Ela começa a quebrar tudo que é
dele e começa a torturar o Thomas.
E isso só aproxima mais eles.
HOLDEN
E no final?
ANA
O fato de ficar tão isolado faz com
que eles percam as referências. A
loucura de um alimenta a loucura do
outro.
(MORE)
31.
ANA (CONT'D)
Aí o Thomas e Violeta se mudam pra
uma cabana no alto da montanha e
Violeta joga ele num precipício.
Ela mata Thomas.
HOLDEN
Perfeito. Perguntas?
SILVIA
Foi um suicídio de Thomas que
Violeta ajudou ou foi um
assassinato?
ANA
É dúbio, mas pra mim o Thomas
queria se livrar dessa relação e o
único caminho que ele via era esse.
Pra Violeta é algo mais sádico. Mas
acho que não tinha um acordo entre
eles...
HOLDEN
Comentários?
SERGIO
Achei clichê. Uma espécie de Lolita
-
ANA
Lolita foi uma ref--
Holden a impede.
HOLDEN
(para Ana)
Você está aqui para ouvir... Já
falou o que tinha pra falar.
(para Sérgio)
Continue...
SERGIO
Não, era isso mesmo... Senti que já
tem muitas histórias no mundo onde
mulher mais nova enlouquece um cara
mais velho. Ela mata ele no final,
enfim... Final no precipício...
32.
HOLDEN
Sérgio, Lolita é genial. Essa
argumentação de que tudo é clichê
também é clichê. Vamos tentar ser
mais precisos aqui, ok? Quem mais?
ESTEBAN
Achei interessante esse gênero de
“terrorismo amoroso” onde o horror
mora em sua amante, onde horror e
amor convivem...
HOLDEN
Ótimo. Quem mais?
DAVID
Eu não entendi muito bem o que a
Violeta quer com tudo isso. Thomas
pra mim está claro. Encontrou uma
possibilidade de viver de novo e
não deu conta.
ANA
Pra mim Violeta quer--
SILVIA
Eu achei um projeto corajoso.
Interessante essa mulher forte que
vai destruindo tudo. A morte no
final pode até ser dúbia, mas acho
importante ser libertadora pros
dois. Mas me parece claro que Ana
não tem propriedade sobre essa
personagem. Acho que por isso que
David ficou com essa sensação.
HOLDEN
Ótimo.
(para Ana)
Você pode elucidar mais a Violeta
pra gente?
ANA
Ah, acho que a Violeta é tudo que
eu não quero ser.
33.
HOLDEN
Para mim isso é quase uma confissão
quem você é.
Ana se incomoda.
ANA
Ela se envolve com esse professor
mais velho pra tapar um buraco,
algo que eu jamais faria.
HOLDEN
E?
ANA
E o encontro dela com Thomas eu fiz
inspirada na minha relação com meu
pai, que nunca me aceitou por conta
da morte de minha mãe, como se a
culpa fosse minha.
HOLDEN
(interrompendo)
Então você está me dizendo que sua
primeira personagem foi sua mãe. E
agora sua personagem tem um romance
com um cara que é inspirado no seu
pai...
Se sentam
HOLDEN (CONT'D)
Vamos mudar de estratégia.
HOLDEN (CONT'D)
Ótimo. Seu nome?
ANA
Ana.
ANA (CONT'D)
Violeta.
34.
HOLDEN
Pode me dizer um defeito?
ANA
Egoísta.
HOLDEN
(irônico)
Excelente!
HOLDEN (CONT'D)
Outro defeito?
ANA
Desculpa, mas não to entendendo
muito a proposta do exercício.
HOLDEN
Que bom! É tão chato tudo que a
gente consegue entender, né? Outro
defeito.
ANA
Insegura.
HOLDEN
Você já amou?
ANA
Sim.
HOLDEN
Sem pensar. Olha nos meus olhos.
(p)
Você já amou?
ANA
Já.
HOLDEN
Já amou?
ANA
Não.
35.
HOLDEN
Você tem asma?
ANA
Sim.
HOLDEN
Você tem asma?
ANA
Sim.
HOLDEN
Você tá respondendo pela Ana ou
Violeta?
HOLDEN (CONT'D)
Você tem asma?
ANA
Não.
HOLDEN
Você é bonita?
ANA
Não.
HOLDEN
Não?
ANA
Não!
HOLDEN
Tem filhos?
ANA
Não.
HOLDEN
Por quê?
HOLDEN (CONT'D)
Por quê?
ANA
Porque eu não quero morrer.
36.
HOLDEN
Já matou?
ANA
Sim.
HOLDEN
Já matou?
ANA
Não!
HOLDEN
Já destruiu?
ANA
Já.
HOLDEN
Já destruiu?
ANA
Já!
HOLDEN
Já morreu?
HOLDEN (CONT'D)
Não pode parar pra pensar. Fala o
que vier. Já morreu?
ANA
Não.
HOLDEN
Já morreu?
ANA
Não!
HOLDEN
Já morreu?
ANA
Sim.
HOLDEN
Está disposta a matar?
37.
ANA
Sim.
HOLDEN
Por quê?
ANA
Para que não seja eu a que morre.
HOLDEN
Ana, você entende o que move
Violeta?
ANA
Se livrar de tudo que não serve
mais!
Ana está ofegante. Ela também está surpresa por não saber de
onde veio essa frase. Holden devolve a bombinha pra ela - que
dá uma respirada funda.
HOLDEN
(animado)
Ótimo
ESTEBAN
Vamos tomar uma gente?
DAVID
Vou continuar trabalhando, eu parei
de beber...
38.
SERGIO
Eu vou passar no jardim rapidinho
porque eu acho que perdi meu
isqueiro.
ESTEBAN
Ta bom. Depois me prepara um drink.
SERGIO
Como?
ESTEBAN
Depois me prepara uns drinks.
SERGIO
Ta bom.
ESTEBAN
Tá tudo bem?
ANA
Claro, tudo ótimo.
ESTEBAN
Bom, se precisar conversar uma hora
me avisa...
ESTEBAN
...nesses três anos que eu to aqui
eu desenvolvi muita coisa do meu
projeto. Mas eu não consigo
terminar.
ANA
Eu jamais ficaria aqui três anos.
Parece loucura.
ESTEBAN
Dói mesmo. Normal. Essa é a fase
mais sensível, mas passa...
ANA
Eu não tô sensível. Eu só acho
irresponsável essa coisa de invadir
a intimidade das pessoas... Ainda
por cima com aquela câmera filmando
tudo o tempo todo. Baseado em que?
Ele é psicólogo?
HOLDEN
Todos os argentinos somos um pouco
psicólogos.
ESTEBAN
Licença.
ANA
Desculpa, eu não queria...
HOLDEN
Não foi nada.
ANA
Eu não quis dizer isso...
40.
HOLDEN
(amigável)
Ninguém aqui me fala esse tipo de
coisa.
HOLDEN (CONT'D)
E pra mim é importante ouvir isso.
Uma crítica dessas me ajuda a criar
um processo melhor... Não é pra mim
que eu faço o que faço.
HOLDEN
Ana, você sabe o que você veio
fazer aqui?
ANA
Vim escrever meu livro.
HOLDEN
Sim. Mas isso você poderia ter
feito em qualquer lugar do mundo.
ANA
Mas queria ficar sozinha.
HOLDEN
Interessante... Numa residência com
um monte de participantes.
ANA
Acho que o importante no meu caso é
ficar sozinha comigo, com meus
sentimentos, meus medos.
HOLDEN
Foi bom seu exercício ontem... mas
você não se entrega.
41.
ANA
(se defendendo)
Mas eu me entreguei ontem...
HOLDEN
A idéia que nossos pais estariam
vivos se a gente não existisse é
muito difícil de conviver.
ANA
Perdeu sua mãe?
HOLDEN
Ambos
HOLDEN (CONT'D)
Quando eu perdi eles a primeira
coisa que pensei foi que não tive a
oportunidade de conhecê-los. Mas,
de uma certa forma, perder essa
referência que me permitiu escolher
quem eu seria do zero.
HOLDEN (CONT'D)
Pode ser libertador. Por isso eu
vim pra cá... Abandonei tudo,
recomecei. Larguei Buenos Aires,
meu ego, a literatura...
ANA
A música...
ANA (CONT'D)
Você tocava bem...
HOLDEN
Não faz diferença. Não vou fazer
algo só porque faço bem. Nem vou
deixar de fazer algo porque faço
mal.
HOLDEN (CONT'D)
Mas o que quero que você saiba é
que eu acredito muito em você.
DAVID
Obrigado, estou de jejum.
SERGIO
Ok
AGNES
(em inglês)
Me sirva.
Viggo se serve e passa para Ana que olha não muito animada,
põe pouco e passa para o próximo.
VIGGO
(para Ana)
A comida nunca foi nosso forte
aqui. Me colocaram na cozinha
porque escrevi sobre um açougueiro -
e ai fiquei, apesar de odiar
cozinhar...
ANA
(sobre a comida)
A cara tá ruim mesmo...
SILVIA
O que que você não odeia, Viggo?
VIGGO
O silêncio, Silvia. O silêncio eu
amo.
ANA
Pior que tá gostoso, Viggo.
VIGGO
Você deve ter péssimas
referencias...
VIGGO (CONT'D)
(para Ana)
Eu realmente não entendo vocês...
em um mundo grande como esse,
escolher ficar enfurnado no meio do
nada com um bando de malucos.
ANA
Você fala isso porque você vive
aqui... Eu não sei onde mais eu
estaria.
VIGGO
Você eu também não sei... Eu em
Buenos Aires. Mas acho que nem a
reconheceria mais. Deve ter mudado
tudo. Dentro de mim Buenos Aires
ainda é uma cidade...
ANA
Fora de você também...
VIGGO
Não. O tempo destrói tudo...
ANA
Você só melhorou...
VIGGO
Não fale isso nem brincando.
HOLDEN
Viggo, me passa o sal?
Viggo olha para Holden, olha para o saleiro que nem está tão
próximo a ele, pega o saleiro e o joga deslizando pela mesa.
O saleiro para antes de chegar em Holden. Holden se levanta e
caminha até o saleiro. O pega e volta para seu lugar.
Ana está com seu celular tentando pegar sinal no mesmo local
da última vez. Enquanto isso, observa seu reflexo invertido
na água.
Ana sorri.
“VIOLETA
BLACK
HOLDEN
... o único que passou aqui na
residência que, pra mim, realmente
fez algo grandioso foi o Irissari.
Ele veio com um personagem
interessante: uma celebridade
neurótica que não suportava a fama.
Que vivia sob a crença que seria
assassinado por um fã.
SERGIO
Melhor que Parsifal? Eu li o último
do Parsifal e é incrível...
HOLDEN
Muito melhor! Parsifal é uma
fraude! Eu nem reconheço ele como
aluno. Tudo dele é falso!
O processo do Irissari é
profundamente verdadeiro. Depois
que ele saiu da residência ele ia
ao aeroporto de óculos escuros
evitando ser reconhecido, sempre
meio se escondendo.
HOLDEN (CONT'D)
E isso começou a parecer suspeito e
ele começou a realmente ser
perseguido pela polícia.
AGNES
(em inglês)
E ele não parou?
HOLDEN
Não! Na cabeça dele, os policiais
eram fãs...
VIGGO
Ou não... Impossível saber se ele
realmente fez isso. Eu nunca
acreditei em nada que ele disse.
HOLDEN
Para de ciúmes, Viggo!
VIGGO
O cara é mitômano!
Todos riem.
HOLDEN
A paranoia dele ficou tão intensa,
que ele começou intuir o tempo todo
que todo mundo tava só pensando
sobre ele.
VIGGO
Egocêntrico.
47.
HOLDEN
E o trabalho dele foi feito assim,
narrado do ponto de vista de
infinitos personagens secundários e
figurantes que tinham o pensamento
“lido” pelo protagonista. Uma
colagem de devaneios que no final
formavam uma história genial.
VIGGO
(irônico)
Realmente... que profundo. Não sei
como ele conseguiu. Ir pro
aeroporto... que difícil.
HOLDEN
Viggo. Ele sacrificou o que muitos
chamam de “sanidade” por algo
maior, pela criação de uma obra
autêntica e inteiramente construída
através do método.
VIGGO
Até onde me lembro ele já chegou
aqui sem a “sanidade”. O cara tacou
fogo nos quartos da residencia,
pelo amor de Deus!
HOLDEN
Grande feito, aliás!
Todos riem.
SERGIO
Eu acho que a auto ficção mal
nasceu e já morreu... Agora a
sensação que dá, é que estamos na
era da “auto verdade” - onde cada
um inventa sua própria realidade
independente dos fatos - os
políticos inclusive estão na
vanguarda. Tem gente questionando
aquecimento global.
HOLDEN
(pausadamente olhando nos
olhos de Sérgio)
Não existe aquecimento global,
Sérgio.
Holden se levanta.
HOLDEN (CONT'D)
Mais vinho?
SERGIO
Eu pego!
HOLDEN
Para!
ANA
A noite ta promissora, né?
(risos)
ESTEBAN
Muito...
ESTEBAN (CONT'D)
Vem?
ANA
Eu não sei dançar...
ESTEBAN
Silvia em ação.
49.
ANA
Gente...
ESTEBAN
O projeto dela é incrível. Uma
funcionária de um asilo que realiza
os últimos desejos dos idosos.
ANA
Difícil imaginar a Silvia sendo
fofa.
ESTEBAN
Ela é obcecada. Assusta mesmo. Mas
ela é do bem.
ANA
Todo mundo brincando de personagem,
né?
Ana pega um batom para passar nos lábios. Ela abre o batom e
enquanto se olha no espelho. Ana abre o batom e passa.
Enquanto o faz se olha no espelho. Uma figura que se parece
com Violeta passa por dela. Ela exagera na força e o batom
transcende os limites dos lábios de Ana. Ana passa também o
batom sobre os olhos como se fosse uma sombra. Faz um traço
que une o olho com a boca.
SENHOR
Devolve! Sua ladra! Ela é uma
ladra!
VIGGO SILVIA
(gritando) (gritando)
Calma! Senhor, calma! Como você sai acusando alguém
sem provas?
SENHOR
Devolve os óculos da minha esposa!
Devolve!
SENHORA
Foi ela! Eu vi! Ladra!
A senhora aponta para Agnes. Ana olha para Agnes que está
encolhida assustada, mas ao mesmo tempo achando graça de
tudo.
AGNES
(em espanhol precário)
Eu não! Não fui eu!
51.
HOLDEN
Senhor. Calma. Um momento.
HOLDEN (CONT'D)
O que aconteceu? Como posso te
ajudar?
SENHOR
O que aconteceu foi que aquela
lunática filha da puta roubou os
óculos de grau da minha esposa.
SENHOR (CONT'D)
E seus amigos malucos aqui ao invés
de me ajudar ficam me chamando de
louco. Seus malucos!
HOLDEN
Calma. Vamos resolver isso. Não
gosto que levem meus amigos a mal.
Viemos para cá tranquilos,
aproveitar o tempo aqui e de
repente chega um casal maluco
gritando com eles.
Holden olha pra Agnes orgulhoso com seu gesto. Ana sorri e
sobe na van, que arranca.
HOLDEN
Cansada?
Ana faz não com a cabeça. Ele abre a porta da van, Ana entra.
53.
ANA
É linda.
HOLDEN
Eu comprei logo quando me mudei
para cá. Tinha chegado de Buenos
Aires e ainda não tinha achado o
casarão da residência.
ANA
Esqueceu de queimar esse?
HOLDEN
Não. O guardei para uma situação
especial.
ANA
E o que anda fazendo agora? Pode
compartilhar?
HOLDEN
Não.
ANA
Me parece doloroso que depois de
quatro sucessos, você queime seu
livro no lançamento.
Holden ri.
HOLDEN
A arte é pura fraude, e só você
fazer o que ninguém fez antes.
HOLDEN (CONT'D)
Se você quiser saber sobre meu
último livro, é só olhar ao redor.
É tudo isso que estou vivendo.
ANA
Mamihlapinatapai.
HOLDEN
Não. Para.
Ana respira sem conseguir olhar direito para Holden, ela está
claramente sem graça.
55.
ANA
Acho que eu quero ir embora -
desculpa. Eu não queria...
HOLDEN
Não, tudo bem. Vamos ficar aqui um
pouco...
HOLDEN (CONT'D)
Vamos conversar. Me conta mais da
sua vida...
Ana sorri sem graça. Ela olha pra janela onde vê refletiva
Violeta.
ANA
Não, Holden... me conta você da
sua...
HOLDEN
O que você quer saber?
ANA
Sei lá. O que você quiser contar.
Como você arranjou um Pollock.
HOLDEN
Ah. Essa história é ótima. Um dos
melhores amigos dos meus pais era
colecionador. Matias. Um gênio...
FLASH FANTASY
Corte brusco.
FIM DO FLASH
FANTASY
HOLDEN
Isso é ridículo, Sérgio. Parece
trabalho de um adolescente.
SERGIO
Eu gosto do caminho que está
tomando.
HOLDEN
Coragem, pessoal! Coragem! É muito
fácil usar a literatura pra se
esconder.
HOLDEN (CONT'D)
Coragem!
SERGIO
Você é louco, Holden!
HOLDEN
(para todos)
Importante: Quando as pessoas veem
o nosso trabalho aqui e dizem que
somos loucos, esse é o sinal que
estamos certos. É um elogio, vindo
de você, Sérgio...
HOLDEN (CONT'D)
E você?
ANA
To indo aos poucos.
HOLDEN
Você mal começou, Ana.
ANA
Sinto que está intenso.
HOLDEN
(irônico)
Pregar o celular na parede já foi
demais pra você?
HOLDEN (CONT'D)
Eu não sinto que você tenha a
coragem ou a força que sua
personagem tem. Não acho que errar
a maquiagem no rosto ou esconder
papéis pra não queimar na fogueira
sejam gestos muito corajosos...
Ana demora pra responder e olha pro seu computador sem saber
muito bem o que dizer.
ANA
É uma ficção, Holden. Eu sou eu,
ela é ela. Violeta é destrutiva. Eu
nunca destrui nada...
HOLDEN
Deveria... Já matou sua mãe, é um
bom começo, não?
BLACK
Agnes entra no quarto e troca olhares com Ana. Ana pega suas
roupas na mala, começa a jogar todas em uma pilha fora da
casa.
Ana escreve sem parar no seu caderno. Ela não tira a caneta
do papel. Ela está concentrada e engajada.
Ela sorri.
Esteban atende.
ESTEBAN
(no telefone)
Oi.(p) Sim, Ana está sim.
ESTEBAN (CONT'D)
(no telefone)
Sim... Tudo bem... Ela teve um
problema com o celular.
ESTEBAN (CONT'D)
(para Ana)
Ana, Danilo.
VIGGO
Não vai atender mais Ana?
ESTEBAN
... ai ele vendeu a motocicleta pra
ficar comigo e quando ele chegou lá
eu me apaixonei por outro. Ai eu te
pergunto, você teria feito o que?
61.
ESTEBAN (CONT'D)
Ana?
ANA
Fala Esteban?
ESTEBAN
Você tá ouvindo o que eu to
falando?
ANA
Não.
HOLDEN
(para Ana)
Como está?
ANA
Avançando...
HOLDEN
Genial, Ana.
ESTEBAN
Holden.
HOLDEN
Oi?
ESTEBAN
Vamos depois falar sobre meu
desfecho? Acho que to pronto pra
conclusão.
HOLDEN
Eu sabia que um dia você ia
conseguir. Você nunca me
decepcionou.
SERGIO
(a todos)
Amigos, esses últimos dias não
fizeram o menor sentido pra mim,
então eu aqui os deixo. Mas quero
agradecer a todos pela
experiência...
HOLDEN
(interrompendo)
Eu gostaria de aproveitar o momento
então pra pedir desculpas...
SERGIO
Não foi nada Holden-
HOLDEN
(interrompendo)
Desculpa a todos por ter me
enganado e chamado para fazer parte
do nosso grupo uma pessoa que
claramente não pertence ao nosso
mundo.
SERGIO
Então parece que ambos nos
enganamos.
SILVIA
Tá tudo bem ai?
ANA
Onde eu posso deixar essas tábuas?
SILVIA
No sótão.
Ana abre a porta. Dentro está Holden sem camisa, com a câmera
apontada para ele enquanto dorme.
AGNES
(em inglês)
Minhas coisas! O que você fez com
minhas coisas!?
ANA
(tranquila)
Me incomoda seu lixo no quarto.
AGNES
(em inglês)
Sua filha da puta! O que vc fez com
as minhas coisas?
ANA
Era muito lixo, Agnes.
Ela força uma das portas, que finalmente abre com sua
pressão.
HOLDEN
(bebâdo gritando de longe)
Acabou!
HOLDEN (CONT'D)
Tá feliz?
ANA
Muito... vou voltar pro que sobrou
da minha vida merda.
HOLDEN
E como vai ser essa vida merda
daqui pra frente? Já sabe?
ANA
Não faço idéia...
HOLDEN
Melhor assim...
ANA
Tudo que eu tinha ou morreu ou eu
joguei fora.
HOLDEN
Mas agora você tem seu livro...
67.
ANA
É...
HOLDEN
É...
ANA
E seu livro?
Silêncio.
HOLDEN
É a história de um pianista que
perdeu a fé na arte e queima toda
sua obra.
Ana se surpreende.
HOLDEN (CONT'D)
Ele fica obcecado pela ideia de que
podemos ser o que imaginamos. E
assim começa a registrar tudo em
vídeo, cria o suprarrealismo e
funda uma residência.
HOLDEN (CONT'D)
Mas ele se cansa de como seus
seguidores o idolatram e começa a
preparar o seu fim.
Ele achava que estava os
libertando, mas acabou criando um
bando de dependentes.
(pausa)
É meu melhor livro. Não queria
desperdiça-lo com leitores.
Responder as mesmas perguntas aos
jornalistas. Começar tudo de novo
para escrever o próximo.
ANA
E como termina?
HOLDEN
Como a cordilheira.
HOLDEN (CONT'D)
(em tom de brincadeira)
Com o encontro de duas placas
tectônicas que força a terra tocar
o céu.
Ana sorri.
ANA
Eu adorei te conhecer...
HOLDEN
Eu também...
HOLDEN (CONT'D)
(se referindo a Agnes e
Silvia)
Silvia encontrou com a senhora
Madame Coleman...
ANA
Você já sabe quem você vai escolher
pra ficar?
HOLDEN
Já sei sim...
ANA
E é alguém que eu conheço?
Holden sorri.
HOLDEN
Evita comentar com os outros mas, o
David.
ANA
Ah, que bom. David é ótimo.
HOLDEN
Sim, todos são...
VIGGO
Onde está o time da limpeza, Ana?
VIGGO (CONT'D)
Ana?
Ana vai até a grande caçamba onde todo lixo é jogado fora da
casa e despeja as garrafas ali. Fecha a tampa do lixo e volta
em direção à casa.
Ana olha onde Agnes estava – ela não está mais. Ela sai
disparada em direção aos quartos.
ANA
(gritando)
Cadê meu livro?
ANA (CONT'D)
(ainda mais alto)
Cadê meu livro???
AGNES
(em polonês)
Eu não sei do que você está
falando.
ANA
(gritando ainda mais)
Cadê meu livro!!!
ANA (CONT'D)
(pronunciando cada silaba)
Ca-dê meu livro!
AGNES
(em inglês)
Ela ia me matar.
HOLDEN
(em inglês)
Sim, ela ia.
HOLDEN
Seu exercício não era o desapego?
ANA
Não era pra seguir os instintos e
não pensar?
HOLDEN
Era.
ANA
Então é isso.
72.
ANA (CONT'D)
Você não tem apego por nada?
HOLDEN
Nada
ANA
Que bom.
O carro para.
Ana ralenta pra fechar suas malas, como quem está sofrendo
por partir. O clima entre Ana e Danilo é estranho.
DANILO
E por que você ta num quarto sem
teto?
73.
ANA
Eu tive um problema na cama do
quarto antigo.
DANILO
E suas coisas?
ANA
Ta tudo aqui.
DANILO
Que bom que você usou...
ANA
É...
Ana está pronta para partir. Ele tenta pegar na mão de Ana -
repara nas feridas de tanto escrever. Ana tira e esconde as
mãos, evitando o olhar dele.
ANA (CONT'D)
Vamos?
ESTEBAN
... eu tava no meio do meu texto
super concentrado e ai do nada o
Sérgio queria corrigir o que estava
escrevendo, e eu o dizia: ainda não
está pronto!
Todos riem.
DAVID
Esse era cheio de questões...
SILVIA
Na residência passada teve uma
menina que chorou dois dias porque
descobriu no meio desse exercício
que a personagem dela era cega...
Todos riem.
ESTEBAN
(rindo)
Ai o projeto dela foi ficar as 3
semanas com os olhos vendados...
VIGGO
Cara, essa menina durante os quatro
primeiros dias quebrou uns cinco
pratos porque Silvia a colocou na
cozinha.
Todos riem.
ANA
(triste)
Cara, parece que a gente tá aqui há
uma vida...
ESTEBAN
(olhando com carinho)
É... Parece que foi uma vida.
HOLDEN
Se deu tudo certo, deve ter sido
uma vida mesmo.
(T)
À nova vida!
75.
ANA
(para Holden)
Você tem um minuto?
ANA (CONT'D)
Holden, eu não quero voltar.
ANA (CONT'D)
Eu quero ficar e continuar meu
processo. Quero ficar aqui mais
tempo até ter meu livro.
ANA (CONT'D)
Eu não vou embora, não tenho
condições de ir embora. Ainda não
acabou pra mim. Não faz sentido eu
sair agora, no meio.
HOLDEN
Tá.
ANA
Como?
HOLDEN
Tá. Pode ficar.
ANA
Obrigada, muito obrigada.
ANA (CONT'D)
(para Danilo)
Eu vou ficar.
DANILO
Como?
ANA
Eu vou ficar.
DANILO
Ana?
ANA
(para David)
David, eu vou ficar com você!
DAVID
(estranhando)
Mas eu não vou ficar...
ANA
Não?
DAVID
Não...
DAVID (CONT'D)
Que eu saiba você que tinha sido
escolhida. Não?
A van parte.
ANA
(para Viggo)
Espantado que eu fiquei?
VIGGO
Tô. Mas entendo esse seu deslumbre.
ANA
Não é deslumbre.
VIGGO
Ana, ninguém liga pro que a gente
ta fazendo aqui...
ANA
Escrevemos para nós mesmos.
Silêncio.
BLACK:
Todos sobem.
ESTEBAN
(para Ana)
Feliz Aniversário!
HOLDEN
Essa é pra você.
ANA
Obrigada.
HOLDEN
Você sabe o que fazer?
ANA
Não.
HOLDEN
Você vai descobrir.
ANA
(murmurando)
Viver aquilo que foi imaginado
requer compromisso, viver aquilo
que foi imaginado requer
compromisso, viver aquilo...
A ilha é pequena.
Não há nada.
Ana abre o cantil. Ela limpa suas lágrimas. Ela observa por
alguns segundos o veleiro que já está minúsculo nas águas
geladas do Canal Beagle.
HOLDEN
Bem vinda, Violeta.
HOLDEN (CONT'D)
Espero que você saiba o compromisso
que você está assumindo com tudo
isso.
ANA
Holden, eu te odeio. Muito.
HOLDEN
Que bom.
VIGGO
Eu também odeio essa ilha...
HOLDEN
Todo mundo entrando em novas fases
dos seus projetos. Muito bom.
SILVIA
O meu tá evoluindo lindamente.
HOLDEN
Que bom Silvia.
VIGGO
Bom pra quem, Silvia?
SILVIA
(irônica)
Viggo, e você? Não tem nada pra
fazer? Ta desocupado?
VIGGO
Exatamente agora, estou jantando.
Coisa que os seres humanos fazem.
SILVIA
Ta se passando por ser humano
agora, Viggo?
HOLDEN
(para Silvia e Viggo)
Sem confusão hoje.
SILVIA
(evitando Viggo)
Bom jantar pra vocês...
ESTEBAN
Ocupada?
ANA
Terminando.
ANA (CONT'D)
(empolgada)
Falta pouco.
ESTEBAN
To precisando conversar.
ESTEBAN (CONT'D)
(enfático)
Ana!
ESTEBAN (CONT'D)
To precisando conversar “com a
Ana”.
ESTEBAN (CONT'D)
Vamos?
ANA
(bêbada)
... sinto meu livro muito sólido.
Eu leio e ele tá bom. A vida
inteira eu quis ser escritora e
nunca senti que seria capaz de
terminar um livro... parecia
arrogante da minha parte acreditar
nesse desejo.
ANA (CONT'D)
É muito confuso... eu achava que a
Ana ia escrever sobre a Violeta...
mas pensando agora, no final é a
Violeta que tá escrevendo sobre a
Ana.
ESTEBAN
Você percebe como você só fala
sobre você? Eu, eu, eu... É muito
eu, Violeta...
Esteban sorri.
ESTEBAN (CONT'D)
Amanhã é minha prática.
ANA
Que bom!
ESTEBAN
Eu to me preparando pra isso há
três anos... nunca imaginei que
esse dia fosse chegar.
ANA
Qual parte do seu romance você vai
investigar?
ESTEBAN
O desfecho... escrevi há 2 anos,
depois de uma vivência com Holden.
Só o Holden leu. Ele foi
fundamental pra eu ter chegado onde
cheguei.
85.
ANA
E sobre o que que é?
ESTEBAN
Sobre a incapacidade de ser amado.
HOLDEN
(com um tom solene)
Hoje, Esteban viverá o rito mais
sagrado que existe entre nós. A
parte final da ficção que ele
escolheu como realidade.
ESTEBAN
Eu agradeço muito a todos que aqui
estão. E principalmente agradeço a
Esteban, que um dia foi apenas um
personagem. E hoje é quem me faz
viver e respirar.
ESTEBAN (CONT'D)
Obrigado a Holden. A Silvia. A
Violeta.
ESTEBAN (CONT'D)
Que a vida seja real como são
nossas ficções.
ANA
Holden!
Ninguém responde.
ANA (CONT'D)
Holden! O Esteban!
SILVIA
Não!!! Violeta, não!!
87.
ANA
Esteban!
SILVIA
(para Holden)
Você não vai fazer nada?
SILVIA (CONT'D)
Ta ficando fraco, Holden?
ESTEBAN
(angustiado)
O que você fez?
(p)
Por que você fez isso?
ANA
Você ia morrer, Esteban!
Holden percebe que Ana se vai. Ele gesticula para Silvia, que
fica com Esteban.
VIGGO
Curtindo a residência ainda?
ANA
Vocês são todos loucos!
VIGGO
Eu não.
Chega Holden.
HOLDEN
Ana, não vou ficar aqui te dando
sermão.
ANA
Não to pedindo suas explicações,
Holden.
HOLDEN
Mas esse era o final do livro do
Esteban... Ele nada ao infinito!
ANA
Ele está se matando, Holden!
Acorda!
VIGGO
Exato.
SILVIA
Não interfere, Viggo!
VIGGO
Mas ela ta certa, ele tava se
matando...
HOLDEN
Ele tava fazendo o que qualquer
pessoa que vive a vida de verdade
faria. Algo que você perdeu faz
muito tempo.
89.
VIGGO
E perdi muito mais do que isso por
causa dessa loucura toda, né?
Viggo olha suas pernas, insinuando que foi ele que as cortou.
HOLDEN
Ana.
ANA
Holden, tchau. Eu to indo. Deu.
HOLDEN
E seu processo?
ANA
Meu processo é meu livro! E eu já
terminei!
HOLDEN
Então vai abandonar seu compromisso
comigo?
ANA
Vou. Foda-se.
HOLDEN
Você não pode sair assim!
ANA
Tá saindo da personagem, Holden?
BLACK
FLASH FANTASY
ANA
(gritando)
Holden!!!
Ana se levanta. Nem seu livro nem seu passaporte estão ali.
Ela destrói tudo que pode.
ANA (CONT'D)
(gritando)
Holden!!!
Ninguém responde.
ANA
(gritando)
Holden!!!
Ana avança por uma pequena trilha. Ela treme de frio. Ela
está notoriamente pálida. Caminha sem força.
ANA
Holden!
HOLDEN
Violeta!
ANA
Eu não vou fazer isso!
HOLDEN
Por que não? Não é esse seu
projeto?
ANA
Só me devolve meu livro.
92.
HOLDEN
Temos uma ficção em comum, Violeta.
ANA
Diego, eu não quero saber... só me
dá meu livro e eu vou embora.
HOLDEN
Meu livro.
ANA
Holden, por favor. Mê dá meu livro.
HOLDEN
Nossos finais são idênticos... e
isso não pode ter sido uma
coincidência.
ANA
Você é louco. Isso nunca vai
acontecer aqui, Holden...
Holden pega seu canivete, corta sua mão, marca com sangue seu
próprio livro e o joga na fogueira. Holden olha e sorri e
oferece o livro de Ana para ela.
HOLDEN
Você sabe o que fazer.
HOLDEN (CONT'D)
Vamos, Violeta!
ANA
Não...
HOLDEN
Não! Não mexe na câmera!
93.
HOLDEN (CONT'D)
Mamihlapinatapai.
ANA
Devolve meu livro.
HOLDEN
Põe a câmera de volta! Você tem a
oportunidade de viver seu livro!
ANA
Eu não vou fazer isso!
O tableau se sustenta.
HOLDEN
Bem vinda, Violeta.
Ana berra. Ela faz menção de pegar uma das folhas que voam
pelo ar e quase cai no precipício.
CORTE BRUSCO
BLACK