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Residência do Fim do Mundo: Escrita e Ficção

Direitos autorais
© All Rights Reserved
Levamos muito a sério os direitos de conteúdo. Se você suspeita que este conteúdo é seu, reivindique-o aqui.
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RESIDÊNCIA DO FIM DO MUNDO.

Escrito por

Fernando Fraiha e Inés Bortagaray

Com a colaboração de

Josefina Trotta
Leonardo Moreira
Gabriela Boeri

Dirigido por

Fernando Fraiha

Produzido por

Biônica Filmes, RT FEATURES e Le Tiro Cine

Baseado no romance "CORDILHEIRA", de Daniel Galera

Versão de

21 de julho de 2020 WIP

bionica@[Link]
1 INT. PARQUE GRÁFICO - NOITE 1

MATERIAL DE ARQUIVO, MINI DV 4:3

Um fósforo é aceso. A luz do fósforo ilumina o rosto de DIEGO


PARISI (45), um escritor com aparência sóbria e densa, com
uma barba malfeita.

Diego se afasta. O quadro abre, se aproxima, se afasta, se


move. A câmera evidentemente está sendo feita por um amador.

DIEGO PARISI
(para a câmera)
Hoje um ciclo se completa. A
primeira tiragem... Cinco mil
exemplares.

Diego está em um parque gráfico, um galpão cheio de máquinas


e pouco iluminado. Ao lado dele há uma pilha com muitos
exemplares. Diego é argentino e todas as falas dele são em
espanhol. Orgulhoso, ele mostra seu livro para a câmera: o
desenho de um homem em chamas ilustra a capa.

DIEGO PARISI (CONT'D)


(para a câmera)
Mais um livro para um mundo vazio
de leitores...

O título em letras garrafais: HOLDEN. O livro é assinado por


Diego Parisi. Diego joga o livro sobre a pilha com os outros
exemplares.

DIEGO PARISI (CONT'D)


(para a câmera)
A única literatura que importa é
aquela capaz de criar uma nova
realidade...

Ainda com o fósforo queimando cada vez mais, Diego pega uma
garrafa de álcool com a outra mão e joga o líquido sobre a
pilha de livros. Diego agora está um pouco mais alterado.

DIEGO PARISI (CONT'D)


(para a câmera)
... e é quando tomamos a ficção em
nossas mãos, assumimos o controle
dela.

Diego deixa o fósforo queimar seu dedo por alguns instantes,


até que joga o fósforo sobre a pilha de livros.

O fogo sobe rapidamente. Diego olha seus mil livros


queimando.
2.

O câmera-man se assusta, e aos poucos vai da pilha de livros


pro Holden, que praticamente cola a cara na câmera.

DIEGO PARISI (CONT'D)


Holden sai dessas páginas e agora
eu existo: sou Holden.

Holden vai em direção ao piano instalado no meio do galpão.


Se senta diante ao piano e começa a tocar.

BLACK

CARTELA: RESIDÊNCIA DO FIM DO MUNDO.

LETREIRO: Capítulo I - ANA

2 INT. PLATAFORMA DE DESEMBARQUE AEROPORTO USHUAIA - DIA 2

Montanhas nevadas dos Andes.

ANA (34), uma jovem de cabelo curto, sai na precária


plataforma de passageiros, com uma mala de rodinha grande,
uma mochila grande e uma bolsa. Ao redor, toda paisagem é
marcada pela cordilheira.

Ana está um pouco perdida, olhando ao redor à procura da


pessoa que iria buscá-la.

Ana tira o celular do bolso, mas antes que pudesse fazer algo
SILVIA (43), uma mulher de aparência forte e tranquila, a
chama de longe. Silvia é uruguaia e fala num espanhol similar
ao dos personagens argentinos.

3 I/E. VAN NA ESTRADA - DIA 3

Na van, Silvia dirige e Ana está no telefone. Ana é


brasileira a fala espanhol com sotaque.

A van cruza as montanhas da cordilheira em uma caminho cheio


de curvas.

SILVIA
E você escreve sempre assim?

ANA
(desatenta)
Assim como?

SILVIA
Começando pelo final.
3.

ANA
(rindo)
Não sei. É como está saindo. O meu
primeiro livro foi confuso também.

Na tela do celular há mensagens de DANILO: “Amor, chegou? <3”

SILVIA
E aí? Intenso?

Enquanto Silvia fala, Ana sorri para seu celular. Na tela,


Ana responde: “Cheguei! Já com saudades! <3”

Silvia se incomoda com a permanência de Ana no telefone.

SILVIA (CONT'D)
Está tudo bem?

Ana sorri e guarda o celular.

ANA
Sim... desculpa.

Ana observa a paisagem pela janela. Ana parece se sentir mal.

ANA (CONT'D)
Desculpa, podemos parar um pouco...
Não to me sentindo bem.

Silvia para o carro no acostamento. Ana abre a porta, se


abaixa e vomita.

SILVIA
Você tá bem?

ANA
Sim... Não posso olhar pro celular
nas curvas.

4 I/E. VAN NA ESTRADA - DIA 4

A paisagem urbana vai ficando cada vez mais escassa e a


natureza mais abundante.

5 I/E. VAN NA RUA DE TERRA - DIA 5

A van sai da estrada principal - entre uma montanha e outra -


e pega uma estrada de terra.
4.

6 EXT. FACHADA RESIDÊNCIA DO FIM DO MUNDO. - DIA 6

A van para ao lado do casarão rodeado de montanhas ao lado de


um lago. Ana olha para a residência.

Ana e Silvia descem e caminham até a residência. Ana repara


que ao lado do casarão está Holden.

Holden está 7 anos mais velho que no prólogo, ainda denso e


sóbrio.

Com um machado, Holden está partindo pedaços de madeira de


algo que aparentemente era um piano.

Um câmera no tripé registra Holden jogar os pedaços em uma


grande lata de lixo.

Holden nota Ana o olhando.

Ana sorri.

Holden olha brevemente e volta a cortar os restos.

Ana segue até a residência.

7 INT. RESIDÊNCIA DO FIM DO MUNDO - DIA 7

Ana entra na casa, carregando sua bagagem. Silvia está ao seu


lado.

Há uma sala de prática com enormes janelas que dão vista para
a cordilheira. ESTEBAN (29) conversa com SERGIO (35), DAVID
(22) e VIGGO (60) em um clima descontraído. Viggo carece de
ambas as pernas e está em uma cadeira de rodas.

VIGGO
(aos residentes)
... e cada livro que chegava eu
pensava: não, pelo amor de Deus!

Sérgio ri.

VIGGO (CONT'D)
(aos residentes)
Parem um pouco! A capacidade de
vocês escreverem é muito maior do
que a minha paciência pra ler!

De fora da sala, Ana e Silvia se aproximam.

VIGGO (CONT'D)
(para Ana)
Finalmente, chegou a última!
5.

Esteban vai em direção à Ana. Todos a olham.

ANA
(para todos, tímida)
Oi!

Esteban é magro e bonito. Ele veio da Espanha e fala sempre


em espanhol. Esteban recebe Ana com um abraço caloroso. De
longe, os outros residentes - Sergio e David - (que
conheceremos em breve) a olham sorrindo.

ESTEBAN
Oi Ana! Bem-vinda.

Esteban pega uma prancheta e começa a ler.

ESTEBAN (CONT'D)
(lendo)
Você está na equipe de limpeza
comigo e...

Um gato preto salta por cima da bagagem de Ana.

ESTEBAN (CONT'D)
... o seu quarto é...
(para o gato)
Fora Cortázar!

Esteban o espanta. Ana sorri tímida.

VIGGO
(de longe)
O gato já te cumprimentou. Bem
vinda ao fim do mundo.

Ana aponta para as escadas, uma sobe e outra desce.

ANA
(apontando para as
escadas)
O quarto é...?

ESTEBAN
Para baixo... Os de cima queimaram
faz alguns anos.

VIGGO
Bendito incêndio! Assim vem menos
residentes.

SILVIA
Que simpático, Viggo
6.

VIGGO
Obrigado.

Ana sorri.

8 INT. QUARTO DE ANA E AGNES - DIA 8

Em um pequeno quarto com duas camas de solteiro.

Do banheiro sai um som de chuveiro e uma mala aberta já ocupa


um canto do quarto.

Ana abre sua mala e começa a desfazê-la sobre a cama mais


próxima à porta. Com um certo receio no olhar, ela observa o
quarto que claramente já está ocupado pela pessoa que está
tomando banho.

AGNES (35) sai do banheiro de toalha e elas sorriem uma para


a outra.

ANA
Hola...

AGNES
(em inglês)
Oi!

Ana sorri simpática para Agnes e segue desarrumando sua mala.

AGNES (CONT'D)
(em inglês - apontando a
cama)
Eu peguei a cama perto da porta.
Tudo bem por você?

Ana não entende inglês direito e tenta responder em espanhol.

ANA
(em espanhol)
Eu não falo inglês muito bem...

Agnes não entende a resposta, e aponta veementemente para a


cama que Ana está ocupando.

AGNES
(em inglês)
Eu peguei essa cama, se for ok por
você.

Ana não entende, mas no contexto tudo se explica.


7.

ANA
(em inglês)
Ah, desculpa...

Ana tira suas coisas da cama de Agnes e passa para a cama


próxima à janela. Elas sorriem uma pra outra.

Ana põe a mão no peito.

ANA (CONT'D)
Ana - Brasil!

AGNES
(em inglês)
Agnes - Polônia.

Enquanto Agnes se troca, Ana segue organizando seus


pertences. No meio de suas roupas, Ana encontra um caderno
que parece não reconhecer. Ana então abre o caderno e se
depara com um bilhete: ”Para que nasça um lindo livro. Beijos
apaixonados, Danilo”

BLACK

LETREIRO: Capítulo II: A RESIDÊNCIA.

9 INT. RESIDÊNCIA DO FIM DO MUNDO / SALA DE JANTAR - NOITE 9

HOLDEN (O.S.)
Vocês estão aqui porque querem
escrever.

À noite, na sala de jantar todos estão reunidos. Ana está de


cabelo molhado ao lado de Agnes. Os outros residentes, também
recém chegados, estão espalhados pelo espaço.

Holden fala com todos. Silvia, no outro canto da sala, liga


uma câmera que está em um tripé. Ana repara.

HOLDEN (CONT'D)
Certamente, em algum momento, se
imaginaram lançando esse livro, com
seu nome na capa. Também imaginaram
as pessoas gostando do que leem....
(pausa)
Imaginaram também que será um
sucesso de vendas? Ou um hit cool,
que as pessoas iam ler e se
apaixonar? Ou vocês são o tipo que
espera reconhecimento com a
crítica?
(MORE)
8.

HOLDEN (CONT'D)
(pausa)
Não importa, o que quer que seja,
tudo isso que imaginaram é
exatamente o que os desqualifica
como escritores.
(pausa)
não estão aqui porque querem e sim
porque precisam. Naturalmente se
pensassem que sua arte fosse
potente, não estariam aqui.

Os residentes estão incomodados.

HOLDEN (CONT'D)
E por que não pensam?
(pausa)
Vivemos em um mundo onde as pessoas
preferem confessar suas
transgressões do que compartilhar
verdadeiramente suas fantasias.
(pausa)
É uma pena. A fantasia é o que
temos de melhor. A imaginação que
criou Deus. Tudo é literatura, eu,
você, tudo...
(pausa)
Não há nada que revela mais quem é
alguém do que as fantasias que este
tem. E fazemos o que com isso?
Escondemos?

Ana olha para Holden sem acreditar muito no que ouve. Há um


estado de ânimo estranho no ar. Algo desconfortável. Holden
sorri

HOLDEN (CONT'D)
O mundo está cheio de pessoas que
não sabem que tudo é uma ficção.
Elas são reféns, não autores delas.
(pausa)
E é impossível mudar o mundo com as
histórias que temos hoje.
Precisamos de novas! E essas
histórias já existem dentro de
vocês!

Holden respira fundo e olha profundamente pros residentes.

HOLDEN (CONT'D)
No final da oficina, eu escolho
sempre uma pessoa pra ficar na
residência até o fim de seu
projeto.
(MORE)
9.

HOLDEN (CONT'D)
Eu sempre espero que cada edição da
Residência do Fim do Mundo seja a
última, mas isso depende de vocês.
Não me decepcionem.

Ana sorri. Todos parecem animados com a informação.

HOLDEN (CONT'D)
Tudo isso pra dizer, aproveitem! E
sejam muito bem vindos!

Os residentes brindam com Holden. Ana parece tímida. Viggo


permanece ao lado de Silvia e Esteban sem grande entusiasmo.

10 INT. RESIDÊNCIA DO FIM DO MUNDO / SALA DE JANTAR - MOMENTOS10


DEPOIS

Uma vitrola toca um disco vinil. Ainda na sala de jantar,


todos estão bebendo, conversando. Ana parece deslocada. Ela
se aproxima de uma bandeja onde ainda tem duas medialunas.
Antes dela chegar, Esteban e outro residente pegam. Ana chega
na bandeja vazia, apenas com migalhas.

Ela pega uma taça de vinho, aperta o dedo contra a bandeja


pra pegar os farelos e põe na boca.

Sem saber exatamente o que fazer, Ana pega seu celular e se


aproxima de uma das enormes janelas com vista para as
montanhas.

Holden se aproxima por trás dela.

HOLDEN
É improvável que isso funcione
aqui.

Ana se assusta.

ANA
Não tem sinal?

HOLDEN
Acho que tem em alguns lugares...
não tenho ideia...

ANA
E tem wi-fi?

HOLDEN
Genial chamar o amante de Violeta
como “aquele improvável arranjo de
carne”.
10.

Ana fica tímida.

ANA
Obrigada...

Silêncio. Ana fica tímida com o elogio.

ANA (CONT'D)
Você tem um Pollock?

Ana anda para o quadro de Jackson Pollock na parede da sala


de prática.

Holden sorri. Silêncio.

HOLDEN
É admirável a coragem de Violeta
como personagem.

Ana sorri.

ANA
Sim... Violeta é intensa.

HOLDEN
O melhor final da oficina é o seu.
Você tem que bancá-lo.

Ana se impressiona com o elogio de Holden.

ANA
(desconcertada)
Obrigada. A única coisa que sei é
que acaba assim...

Holden sorri e sai. Ana retribui o sorriso e o olha partir.

11 INT. QUARTO DE SILVIA - NOITE 11

O quarto de Silvia é maior do que os outros. Tem uma grande


cama de casal onde Silvia está sentada com as pernas
cruzadas.

Silvia acaba de dar um trago em um baseado e passa para


Esteban que está sentado no chão com Ana. Também estão Sergio
um escritor uruguaio com cara de nerd e David um escritor
espanhol moderninho.

SILVIA
... fecha a porta. O Holden sente o
cheiro de maconha de longe.
11.

Esteban pega o baseado e ao tentar fumar percebe que está


apagado.

ESTEBAN
Alguém tem isqueiro?

Sérgio passa para Esteban um isqueiro Zippo com inscrições em


torno da capa de metal.

Esteban começa a ler o que está inscrito no isqueiro.

ESTEBAN (CONT'D)
“Imaturo é aquele que quer morrer
gloriosamente por uma causa. E
maduro é quem contenta-se em viver
humildemente por ela.”

ANA
Hemingway.

SERGIO
(sorrindo para Ana)
Salinger.

ANA
Claro, Salinger... sempre confundo
os dois.

Esteban acende o baseado e devolve o isqueiro pro Sergio.

DAVID
Holden não fuma um?

SILVIA
Jamais... Ele é obcecado por
lucidez. Pobre menino que não sabe
se divertir.

DAVID
Ateu místico.

SILVIA
(rindo)
Ele odeia esse apelido.

SERGIO
Ele é genial! Eu li “El conjuro” 3
vezes.

ANA
Eu gosto do “Relatos de la Lluvia”.
12.

DAVID
É mais hermético né? Foi o que
ganhou menos prêmios eu acho...

SILVIA
É o favorito dele.

ANA
(tentando entrar na
conversa)
E sobre o que é o projeto de
vocês...?

Silvia e Esteban se olham.

DAVID
O meu é sobre um monge.

SERGIO
O meu é sobre um cara do interior
que se muda para cidade grande e
quer agradar servindo todos. As
pessoas que ele cruza abusam dele,
pedem favores, e ele tenta contentá-
las.

ESTEBAN
(interrompendo)
Agora não é hora, gente.

Todos em silêncio.

ESTEBAN (CONT'D)
Vamos evitar ficar falando sobre
isso à toa. Aproveita enquanto
ainda consegue pensar em outras
coisas, Ana...

Ana sorri como quem consente. Esteban dá o último trago e


passa.

SILVIA
Porque jajá vai ser só nos seus
projetos.

David passa o baseado pra Ana.

ANA
Eu tô numa fase que só penso em
tudo menos na minha história.

ESTEBAN
Procrastinação e literatura...
13.

Ana começa a tossir, o baseado não lhe cai bem. Ela passa pra
David.

SERGIO
99% sofrimento, 1% sentar e
escrever. Eu achava que ia
melhorar, já to no quarto livro e
só piora...

Ana respira com dificuldade, sentindo um pouco de falta de


ar. Ana se levanta.

ANA
(se despedindo)
Bem, até amanhã...

DAVID
(para Sérgio)
... quarto livro já? Eu to sofrendo
pra vender o segundo.

SERGIO
O segundo foi fácil para mim...

Todos se despedem de Ana e seguem conversando. Ana sai


tossindo.

12 OMITTED 12

13 INT. CORREDOR DOS QUARTOS - CONTINUOUS 13

Ana sai do quarto de Silvia. Respira aliviada.

Ela pega o celular. Sem sinal. Ela está meio perdida na


residencia. Vai caminhando procurando sinal.

14 EXT. JARDIM DA RESIDENCIA - NOITE 14

Estalactites na canaleta do teto gotejam. Ana sai da


residencia pro jardim.

Ana respira fundo e olha a paisagem no escuro da noite.

O celular pega um pouco de sinal, e entram diversas mensagens


ao mesmo tempo. Ana abre uma mensagem de Danilo. Ele responde
seco: “Que bom que está tudo bem! Me ligue quando quiser.”

Ana tenta telefonar pra Danilo, e cai na caixa postal.

O ambiente está bem escuro e ela anda devagar ainda tentando


se encontrar. Um barulho estranho chama sua atenção.
Blue Rev. (mm/dd/yy) 14.

Ela liga a lanterna do celular. De relance ela vê o gato


Cortazar fugindo.

Ana segue com a lanterna ligada iluminando o chão por onde


anda. Ana encontra um pássaro ferido se debatendo. Com
cuidado, ela o pega - ele tem uma de suas asas machucada. O
pássaro bica as mãos de Ana.

15 INT. CORREDOR DOS QUARTOS - NOITE 15

Ana se aproxima do seu quarto pelo corredor - Cortazar, o


gato preto está a espreita olhando o pássaro na mão de Ana.

Ana assusta o gato que sibila pra ela, mostrando os dentes e


depois foge.

16 INT. QUARTO DE ANA E AGNES - CONTINUOUS 16

Ana entra em seu quarto, Agnes está escrevendo em seu


caderno, com grande fones e a ignora. As malas de Ana ocupam
quase todo o quarto.

Ana coloca suas malas sobre a cama. Abre uma delas, procura
algo - pega seu estojo de maquiagem. Ela tira tudo que estava
dentro do estojo, acomoda o pássaro dentro e o coloca no
parapeito da janela.

Ela se deita, pega a bombinha de asma e respira. Agnes a olha


feio.

Ana finge dormir enquanto Agnes trabalha.

17 EXT. RESIDÊNCIA DO FIM DO MUNDO / JARDIM - DIA 17

Em frente a residencia há um grande lago. Toda paisagem é


emoldurada pela cordilheira. Sai fumaça da chaminé.

Ana caminha e busca sinal com seu celular. Se afasta da casa.


Ela encontra um pouco de sinal e faz uma video chamada com
seus fones. Na tela aparece Danilo

DANILO (O.S.)
(na tela)
Como ta aí?

ANA
Tudo bem... É ruim de sinal aqui. *

DANILO (O.S.)
E seu livro?
Blue Rev. (mm/dd/yy) 15.

ANA
Acho que tá rolando. Acho que *
vou conseguir te entregar até
outubro como a gente combinou.

DANILO
(rindo)
A gente combinou agosto.

Ana ri. Há uma cumplicidade entre eles.

DANILO (O.S.) (CONT'D)


E ele?

ANA
Cara, ele é interessante... Meio
intenso demais, mas interessante...

DANILO
Não é a toa, né?

De longe, Ana percebe que Holden a observa. Ana olha Holden.

ANA
Às vezes me dá preguiça. Uma auto
importância.

DANILO
Pega da residência o que te serve e
ignora o que não serve e vai dar
tudo certo.

Ana e Danilo trocam um sorriso.

ANA
Eu tenho que ir aqui que ele já
entrou na sala...

DANILO
Tá. Escuta, consegui me liberar pro
seu aniversário.

ANA
(comemorando)
Jura? Então você vem?

DANILO
Vou! Pensei em te pegar ai no
último dia e irmos pro Chile.

ANA
Ótimo! Vou amar. Preciso ir aqui...

Ana se prepara para desligar.


16.

DANILO
Ah, Ana... espera... desceu?

ANA
Acho que não to grávida, amor... eu
saberia...

DANILO
Tudo bem... A gente continua
tentando.

Ana desliga e guarda o celular, tensa.

BLACK

Letreiro: Capítulo III: O MÉTODO

18 INT. RESIDÊNCIA DO FIM DO MUNDO /SALA DE PRÁTICA - DIA 18

Na sala de prática, os residentes estão espalhados pelos


cantos. Alguns em cadeiras, outros no chão. Ana, Sergio,
Esteban, Silvia, David, Agnes e os outros novatos estão
sentados escrevendo. Silvia está próxima a câmera em um tripé
que, em um canto da sala, registra tudo.

Ana está rodeada de muitas folhas soltas escritas. Ela está


concentrada escrevendo sem parar em um fluxo de consciência.

Holden é o único que está de pé, caminhando e observando a


todos. Na parede atrás dele, o quadro do Pollock.

HOLDEN
(falando lentamente)
Não tirem o lápis do papel. Por
mais incomodo que seja.

Ana escreve concentrada.

Holden caminha de um lado pro outro. Ele para em frente ao


quadro do Pollock.

HOLDEN (CONT'D)
(apontando para o quadro)
Vocês acham que ele conseguiria
fazer isso se ele quisesse
controlar o resultado? Foco no
processo!

Ana para por um instante para pensar, olha a pintura de


Pollock. Holden a observa do fundo.
17.

HOLDEN (CONT'D)
Ana, não pare! Mantenha o fluxo.
Ainda falta mais uma hora.

Ana inspira e expira fundo enquanto escreve. Parece mergulhar


no papel.

Uma música instrumental começa a tocar, com violoncelos.

HOLDEN (CONT'D)
Não parem, não questionem, não
corrijam... Abandone o controle e
deixe fluir. Como crianças! Nunca
percam a capacidade de se mergulhar
na fantasia!

Holden caminha entre todos. A música vai ficando mais intensa


e Ana vai entrando cada vez mais.

HOLDEN (CONT'D)
Deixem seu personagem te levar pra
um lugar no meio da natureza. A
personagem escolhe.
Não interfiram. Embarquem!

Ana escrevendo com esforço, ela treme um pouco.

FLASH FANTASY

19 EXT. TOPO DE UMA MONTANHA NEVADA - DIA 19

Um abismo com uma paisagem rochosa da lateral de uma


montanha. No alto da montanha, Violeta olha pra baixo, na
borda do precipício.

Violeta uma jovem magra de 25 anos com uma pele pálida e com
uma ligeira semelhança física com a Ana, apesar do cabelo
mais curto e do aspecto deprimido. Ao seu lado um homem mais
velho, THOMAS (60).

O som da trilha de Violoncelo se confundem com a voz de


Holden.

Violeta se levanta. A paisagem se perde no infinito. Thomas a


olha. Eles se encaram.

HOLDEN (V.O.)
Deixem seus personagens livres pra
fazerem o que quiserem.

Violeta e Thomas se olham como se consentissem algo.


18.

HOLDEN (V.O.)
E façam eles irem mais longe!
Deixem eles livres pra se
manifestar!

Violeta pega o celular da mão de Thomas e o joga no abismo.

HOLDEN (V.O.)
(começando a se exaltar)
Experimente os extremos dos seus
personagens. Força!

Thomas observa seu celular e se mantem indiferente. Thomas


abre os braços na beira do precipício. O vento bate na cara
dele.

HOLDEN (V.O.)
(exaltado)
Mais fundo!

Violeta observa Thomas de olhos fechados. O vento batendo na


cara dele em frente ao precipício.

HOLDEN (V.O.)
(exaltado)
Ainda mais fundo! Mais!

Violeta empurra Thomas.

O corpo de Thomas cai no abismo.

Um som de espanto de Ana invade a cena. Violeta olha para


trás, e lá está Ana, também no topo da montanha perplexa pela
ação de Violeta. Ana está rodeada de folhas e escrevendo
assim como estava na sala da residência.

Violeta e Ana se olham, Ana tenta não parar de escrever, mas


parece desconcentrada.

HOLDEN (V.O.)
(com o tom da voz ainda
mais misturado com a
música)
Deixa que seu personagem realize
tudo que queira.

No alto da montanha, Violeta parte em direção a Ana, que não


para de escrever. Violeta agarra Ana pelos pés e começa a
arrastá-la. Ana reluta, tentando se segurar enquanto continua
escrevendo, sem sucesso. Violeta arrasta Ana, que tenta se
segurar onde pode e começa a gritar. Elas vão se aproximando
do abismo. A queda de Ana parece inevitável.
19.

As mãos de Ana tentam se agarrar onde podem, enfiando a


caneta na neve como se fosse uma estaca de alpinista.

FIM DO FLASH
FANTASY

20 INT. RESIDÊNCIA DO FIM DO MUNDO /SALA DE PRÁTICA - DIA 20

Ana quebra sua caneta com a mão. Na sala de prática, ela


desperta do transe.

Uma gota de sangue escorre pelo seu nariz. Ana está com o
coração acelerado e sem fôlego.

Holden observa de longe enquanto Esteban, solicito, vai em


direção a Ana.

Ela pega a bombinha de asma em seu bolso e respira.

HOLDEN
Ana, tudo bem?

ANA
Sim... falta de ar só...

Ana limpa a gota de sangue que sai de seu nariz com a mão.

Holden assente e Ana sorri envergonhada.

HOLDEN
Ótimo. Reparem como vocês estão se
sentindo agora.

Depois de escrever por horas, todos fecham os olhos. Respiram


fundo. Parecem rendidos.

Em seguida, Holden se vira para Agnes.

HOLDEN (CONT'D)
(em inglês)
Agnes, como foi?

Agnes sorri e acena que sim com a cabeça. Todos abrem os


olhos.

AGNES
(inglês - sorrindo)
Foi incrível!

Todos do grupo parecem sorrir e concordar. Apenas Ana está um


pouco desconfortável.

Holden estende a mão pedindo pra Agnes se levantar.


20.

Agnes prontamente se levanta.

HOLDEN
(em inglês)
O que você descobriu sobre sua
personagem?

AGNES
(em inglês)
Ela é cleptomaníaca. Ela é uma
velha rica de 80 anos que vive
sozinha com mais seis serviçais.
Ela rouba pequenos objetos dos
empregados, fazendo intriga entre
eles. Mas o estranho é que ela
cantou... Ela simplesmente começou
a cantar.

Agnes parece se sentir espantada com essa revelação.

HOLDEN
(em inglês)
Então você não sabia que ela
cantava?

Agnes faz que não com a cabeça.

HOLDEN (CONT'D)
(em inglês)
E que lugar junto à natureza sua
personagem escolheu?

AGNES
(em inglês)
Um hospício.

Todos riem.

HOLDEN
(em inglês)
Ow, um hospício.
(risos)
E Agnes, você canta?

AGNES
(em inglês)
Não.

HOLDEN
(em inglês)
E por quê?
21.

AGNES
(em inglês - tímida)
Eu não consigo.

HOLDEN
(em inglês)
Interessante. O que sua personagem
cantou? Como era?

AGNES
(em inglês)
Eu não sei... Foi tudo num fluxo de
consciência... Nada muito material.

Holden a encara insatisfeito com sua resposta. Holden olha


para Silvia e faz um sinal com a cabeça. Silvia se levanta e
vai em direção à câmera. Ela tira a câmera do tripé para
filmar o exercício com mais mobilidade.

HOLDEN
(em inglês)
Canta!

Agnes trava.

HOLDEN (CONT'D)
(em inglês)
Vamos lá! Canta alguma coisa.

Agnes fica congelada imóvel. Ana observa a todos, que estão


sorrindo.

HOLDEN (CONT'D)
(em inglês)
Qual é a música mais antiga que
você se lembra?

Agnes fica em silêncio. Holden também.

Esse instante se mantém.

HOLDEN (CONT'D)
(para Agnes)
Mamihlapinatapai.

Holden fala para os residentes.

HOLDEN (CONT'D)
(para todos)
Essa é uma palavra andina. É
(MORE)
22.

HOLDEN (CONT'D)
a palavra mais sucinta do mundo: É
quando duas pessoas estão se
olhando, querendo a mesma coisa,
mas nenhuma das duas toma a
iniciativa.

Holden simplesmente para de preencher os silêncios com suas


falas e fica lá, imóvel, esperando Agnes fazer algo.

Ana anota em seu caderno: Mamihlapinatapai.

Agnes começa a cantarolar, tímida, uma música inglesa.

Holden imita Agnes, repetindo o que ela acabou de cantar - só


que de uma forma mais afinada e segura.

Agnes fica tímida. Holden insiste para que ela cante


novamente.

HOLDEN (CONT'D)
(em inglês)
Vai, Agnes! Cadê sua voz?

Agnes canta novamente a primeira frase da música, agora


cantando melhor.

Holden a repete de novo. Agnes canta novamente.

A música começa a entrar em um crescente.

Holden convida a todos a cantarem com eles. Ana observa tudo


isso maravilhada. As vozes vão se somando como em um grande
coro.

Agnes solta sua voz. Apesar de desafinada ela canta com mais
segurança. Agnes começa a chorar emocionada. O grupo se
levanta para cantar. É uma cantoria que vai entrando em uma
catarse coletiva. Silvia segue filmando a cena. Holden segura
Agnes que chora e canta, respirando fundo – o canto aos
poucos vai virando uma dança.

Ana é a única que não embarca na dança e fica um pouco


desconfortável. Observa Viggo observa de longe sem se
envolver. Agnes cantando forte e chorando pisa com força na
caneta dela, a espatifando no chão.

21 EXT. RESIDÊNCIA DO FIM DO MUNDO / JARDIM - NOITE 21

Corte brusco. Em uma folha de papel totalmente preenchida por


uma escrita a mão confusa, uma caneta grifa alguns trechos.
Ana está um pouco distante do grupo de residentes que estão
ao redor de uma grande fogueira no meio do jardim. Alguns
tocam violão, tomam vinho e conversam.
23.

Ana repassa as folhas que escreveu no exercício anterior e


faz algumas anotações. Holden conversando com Agnes, animado.
Ana o observa ao longe.

Viggo está próximo de Ana, em sua cadeira de rodas, olhando o


fogo e tomando seu mate.

ANA
E você não participa das oficinas,
Viggo?

VIGGO
Não. Não pude participar da dança
hoje.

Viggo aponta para as pernas que lhe faltam.

ANA
(rindo)
Não, digo escrevendo.

VIGGO
Não tenho mais a arrogância
necessária para escrever

Ana ri.

ANA
Realmente, sem a arrogância fica
mais difícil.

Holden olha para Ana, que sorri para ele.

VIGGO
Levei muito tempo para parar de
fazer coisas que não quero.

ANA
E por que alguém faria algo que não
quer?

VIGGO
Porque podem te convencer.

Ana olha para Viggo como quem não comprou a resposta dele.

VIGGO (CONT'D)
Poucas coisas são tão perigosas
quanto escritores motivados.

Ana ri e para o que estava fazendo para dar atenção a Viggo.


Ana e Viggo trocam um sorriso.
24.

Esteban se levanta e se aproxima da fogueira. Holden, sentado


no chão, o observa de longe. Holden sinaliza com a cabeça.

Esteban carrega o calhamaço de folhas que escreveu. Ele pega


uma das folhas, aproxima da fogueira até que a folha se
incendeia. Esteban lê seu texto com o papel em chamas.

Aos poucos todos ficam em silêncio. Um a um, os outros


residentes se aproximam.

Primeiro David, depois Sergio, Agnes. Todos carregam suas


folhas manuscritas da cena anterior. Eles seguem o exemplo de
Esteban, colocam fogo em seus textos e os lêem enquanto
queimam.

Viggo e Ana observam de longe. Ana olha para suas folhas


manuscritas e não se levanta.

Holden olha para Ana.

HOLDEN
(a convidando para
participar)
Ana?

Ana reluta, mas Holden insiste com o olhar.

Ela é a última a se levantar. Enquanto isso, Ana esconde uma


das folhas no bolso da sua jaqueta.

Viggo a observa. Ana claramente não quer queimar suas folhas.

Ana se aproxima da fogueira. Ela para em frente à fogueira e


coloca fogo em suas folhas manuscritas.

Assim como todos, Ana lê seu texto em voz alta enquanto as


joga no fogo. Se forma uma textura sonora onde não
conseguimos entender o que está sendo dito.

Ana se sente um pouco apegada, ela parece sofrer ao vê-las


queimar.

22 INT. QUARTO DE ANA E AGNES - NOITE 22

Ana entra em seu quarto com algumas castanhas na mão. O


quarto está vazio. Com a lanterna de seu celular, Ana ilumina
o pássaro, que parece estar melhor. Ela abre a janela e
coloca as castanhas no estojo de maquiagem/ninho do pássaro
para alimentá-lo.

Em seguida Ana se deita em sua cama, pega o notebook e coloca


no colo. Ela tira a folha que estava amassada guardada em seu
bolso e desamassa.
25.

Nesse instante Agnes entra devagar, bêbada, acompanhada de


Sérgio. Ana se assusta e rapidamente esconde a folha.

Eles olham para Ana que está lá, se viram, se beijam e saem
rindo.

Ana observa a cena sem muita paciência. Ela retoma sua folha
de papel, lê rapidamente tudo que está por lá.

Ela escreve em uma página em branco no Word de seu notebook:

“VIOLETA.

“Se saísse para a direita, seguiria caminhando ao lado de


Thomas. Para a esquerda, voltaria para casa. Nenhuma das
opções lhe interessava nesse momento.

Não deve ser a toa que sinto algo de divino quando te


encontro, disse Thomas a Violeta no alto da montanha.”

Ana sorri. Se levanta e com o isqueiro em frente ao


incensário coloca fogo na folha de papel.

23 INT. RESIDÊNCIA DO FIM DO MUNDO / SALA DE JANTAR - DIA 23

Na manhã seguinte, Ana e Agnes dividem uma mesa com Sergio e


David.

SERGIO
...essa foi a terceira vez que o
enviei. Os dois primeiros foram
mais ou menos o mesmo projeto e
esse mudei radicalmente.

Ana olha em silêncio enquanto come.

DAVID
Essa foi minha segunda vez. Um
amigo fez a residência e enviou uma
carta de recomendação.

SERGIO
(para Agnes em inglês)
E você?

AGNES
Que?

SERGIO
Quantas vezes você submeteu?
26.

AGNES
(fazendo “4” com a mão)
Quatro?

ANA
Essa foi minha primeira.

Todos param e olham para Ana incrédulos.

SERGIO
Primeira?

DAVID
(incomodado)
Nossa, parabéns! Muito bom!

SERGIO
(incomodado)
Raro né? De primeira...

Silvia, ao longe toca um sino. Todos param e caminham em


direção à sala de prática.

Ana fica sentada por um instante respirando.

24 INT. RESIDÊNCIA DO FIM DO MUNDO /SALA DE PRÁTICA - DIA 24

Na sala de prática, estão todos residentes deitados no chão


ou sentados em cadeiras. Também estão Silvia, Viggo e
Esteban.

Ana entra na sala, atrasada e vai caminhando devagar até um


lugar vazio enquanto Silvia está de pé em frente a todos no
final de uma explicação. Holden está atrás de Silvia
esperando ela acabar de falar.

SILVIA
... o acervo dos registros em vídeo
só pode ser acessado comigo ou com
o Esteban. O material filmado não
pode sair da casa e é de uso
exclusivo de Holden. Algumas
pessoas comentaram que se incomodam
com o registro.

Silvia olha para o grupo, fazendo uma pausa deliberada

SILVIA (CONT'D)
Mas infelizmente não há nada que a
gente possa fazer.

Ana finalmente se senta.


27.

HOLDEN
Ana?

Ana se vira para Holden. Ele estende a mão a convidando pra


levantar. Ela se levanta e vai até Holden.

Holden acena com a cabeça para Silvia, que liga a câmera.

Ana e Holden estão em frente a todos outros residentes.

HOLDEN (CONT'D)
Você já tem clareza dos passos do
seu processo aqui.

ANA
Acho que sim.

Ana observa Holden intimidada na frente de todos.

HOLDEN
Perfeito. Você sente que conhece
bem Violeta?

ANA
(medindo suas palavras)
Sim.

HOLDEN
(para a sala)
Entenda que “conhecer”, para nós,
significa se sentir como o outro.
Mas esse outro só existe em você.
Você é o outro.

Holden para e se vira para Ana.

HOLDEN (CONT'D)
Você sente isso?

ANA
Algo assim...

HOLDEN
(interrompendo)
Ana, por que você escreve?

ANA
Como assim?

HOLDEN
Por que você se tornou escritora?
Por que você escreve?
28.

ANA
Ah... acho que sempre escrevi...

HOLDEN
Como assim sempre?

ANA
Desde pequena. Eu aprendi a
escrever fazendo os diários da
minha mãe.

HOLDEN
Você escrevia diários com sua mãe?

ANA
Não. Ela morreu no meu parto. Eu
escrevia os diários dela depois.
Era uma forma de conviver com ela.

HOLDEN
Interessante. Sua primeira
personagem foi sua mãe.

Ana assente.

HOLDEN (CONT'D)
E isso se relaciona de alguma forma
com seu atual projeto?

ANA
Acho que não...

HOLDEN
É possível isso?
(para a sala)
É possível um autor não girar a
vida inteira ao redor de uma mesma
questão? De uma mesma essência?

Todos na sala observam intrigados.

HOLDEN (CONT'D)
Você se importa de investigar um
pouco mais a fundo? Em contar pra
gente a história do seu livro?

Ana encara a câmera e os outros residentes envergonhada.

HOLDEN (CONT'D)
Esquece da câmera, esquece dos
outros. Eu só tô tentando entender
o que você pensa quando não tá
pensando.
29.

Ana, claramente desconfortável e intimidada, faz que sim com


a cabeça.

HOLDEN (CONT'D)
O que Violeta faz?

Ana se vê sozinha diante de todos outros residentes. Eles


estão em silêncio e olhando para ela aguardando o começo da
explicação. Um ou outro está dispersos.

ANA
Violeta é uma jovem brilhante e
emocionalmente instável que seduz
Thomas, seu professor de biologia
do último ano da escola.

HOLDEN
Eles se amam?

ANA
Tem um choque de gerações. Para
Violeta o amor não é esse amor
romântico, é só uma afirmação de
identidade, e pra Thomas, que é
trinta anos mais velho e super
religioso, não. Ele ainda acredita
no amor. Ele leva o amor a sério.
Ele assume ela publicamente na
escola e é expulso da escola. Aos
poucos ele vai enlouquecendo e se
sentindo cada vez mais culpado.

HOLDEN
Interessante. Dá pra gente algumas
imagens de Violeta em ação?

ANA
Ela parece só querer testar os
limites de Thomas, mas no fundo ela
se incomoda de ver que ele é capaz
de amar e ela não.

HOLDEN
Ação, Ana. Imagens!

ANA
A Violeta aos poucos vai quebrando
as coisas que Thomas ama: os discos
dos Beatles, o retrato da ex esposa
- ele é viúvo - e Thomas não se
importa.

HOLDEN
Ótimo! Que mais?
30.

ANA
O que eu mais trabalhei até agora é
o final. A paixão que vai se
tornando irracional e vai tirando
da Violeta a ilusão de controle...
aí eles decidem fugir e se isolar
do mundo.

HOLDEN
Ação! Imagem!

ANA
Eles vão se isolando e passam a
viver no alto de uma montanha.
Violeta começa a não querer mais
transar.

HOLDEN
Continue.

ANA
Eles bebem muito. Vinho. Thomas
abre uma garrafa de vinho
estragado. Ele diz a Violeta que se
ela fosse um vinho, seria esse. O
vinho mais amargo que ele já tomou
na vida. Violeta fica emocionada
por ele conhecer ela tão bem e, com
sadismo, enfia a unha no pescoço
dele até sangrar.

Esteban e Silvia prestam atenção.

ANA (CONT'D)
Thomas continua ignorando tudo de
ruim que Violeta faz, pois se sente
culpado e com isso vai
enlouquecendo de forma exponencial.
Ela começa a quebrar tudo que é
dele e começa a torturar o Thomas.
E isso só aproxima mais eles.

Ana olha Holden como lhe devolvendo a palavra.

HOLDEN
E no final?

ANA
O fato de ficar tão isolado faz com
que eles percam as referências. A
loucura de um alimenta a loucura do
outro.
(MORE)
31.

ANA (CONT'D)
Aí o Thomas e Violeta se mudam pra
uma cabana no alto da montanha e
Violeta joga ele num precipício.
Ela mata Thomas.

Nesse instante, Viggo, sem dizer uma palavra, sai da sala.

HOLDEN
Perfeito. Perguntas?

Holden olha os residentes.

SILVIA
Foi um suicídio de Thomas que
Violeta ajudou ou foi um
assassinato?

ANA
É dúbio, mas pra mim o Thomas
queria se livrar dessa relação e o
único caminho que ele via era esse.
Pra Violeta é algo mais sádico. Mas
acho que não tinha um acordo entre
eles...

Holden olha pros residentes, que estão ouvindo com atenção.

HOLDEN
Comentários?

SERGIO
Achei clichê. Uma espécie de Lolita
-

Ana faz menção a interromper e responder a Sérgio.

ANA
Lolita foi uma ref--

Holden a impede.

HOLDEN
(para Ana)
Você está aqui para ouvir... Já
falou o que tinha pra falar.
(para Sérgio)
Continue...

SERGIO
Não, era isso mesmo... Senti que já
tem muitas histórias no mundo onde
mulher mais nova enlouquece um cara
mais velho. Ela mata ele no final,
enfim... Final no precipício...
32.

HOLDEN
Sérgio, Lolita é genial. Essa
argumentação de que tudo é clichê
também é clichê. Vamos tentar ser
mais precisos aqui, ok? Quem mais?

Sérgio se incomoda com o comentário de Holden.

ESTEBAN
Achei interessante esse gênero de
“terrorismo amoroso” onde o horror
mora em sua amante, onde horror e
amor convivem...

HOLDEN
Ótimo. Quem mais?

DAVID
Eu não entendi muito bem o que a
Violeta quer com tudo isso. Thomas
pra mim está claro. Encontrou uma
possibilidade de viver de novo e
não deu conta.

Ana tenta responder a David.

ANA
Pra mim Violeta quer--

Holden a impede novamente com um gesto.

SILVIA
Eu achei um projeto corajoso.
Interessante essa mulher forte que
vai destruindo tudo. A morte no
final pode até ser dúbia, mas acho
importante ser libertadora pros
dois. Mas me parece claro que Ana
não tem propriedade sobre essa
personagem. Acho que por isso que
David ficou com essa sensação.

HOLDEN
Ótimo.
(para Ana)
Você pode elucidar mais a Violeta
pra gente?

ANA
Ah, acho que a Violeta é tudo que
eu não quero ser.
33.

HOLDEN
Para mim isso é quase uma confissão
quem você é.

Ana se incomoda.

ANA
Ela se envolve com esse professor
mais velho pra tapar um buraco,
algo que eu jamais faria.

HOLDEN
E?

ANA
E o encontro dela com Thomas eu fiz
inspirada na minha relação com meu
pai, que nunca me aceitou por conta
da morte de minha mãe, como se a
culpa fosse minha.

HOLDEN
(interrompendo)
Então você está me dizendo que sua
primeira personagem foi sua mãe. E
agora sua personagem tem um romance
com um cara que é inspirado no seu
pai...

Ana não sabe muito bem como reagir ao comentário de Holden.


Está sem graça.

Holden pega duas cadeiras e as coloca uma de frente para


outra.

Se sentam

HOLDEN (CONT'D)
Vamos mudar de estratégia.

Ana faz que “sim” com a cabeça.

HOLDEN (CONT'D)
Ótimo. Seu nome?

ANA
Ana.

Ana faz uma pausa. Holden parece esperá-la.

ANA (CONT'D)
Violeta.
34.

HOLDEN
Pode me dizer um defeito?

ANA
Egoísta.

HOLDEN
(irônico)
Excelente!

Holden triangula com os residentes de uma forma ligeiramente


irônica.

HOLDEN (CONT'D)
Outro defeito?

ANA
Desculpa, mas não to entendendo
muito a proposta do exercício.

HOLDEN
Que bom! É tão chato tudo que a
gente consegue entender, né? Outro
defeito.

ANA
Insegura.

HOLDEN
Você já amou?

Ana pensa um pequeno instante. Ana tem um instante de falta


de ar.

ANA
Sim.

Ana pega sua bombinha e Holden a toma de sua mão.

HOLDEN
Sem pensar. Olha nos meus olhos.
(p)
Você já amou?

ANA
Já.

HOLDEN
Já amou?

ANA
Não.
35.

HOLDEN
Você tem asma?

ANA
Sim.

HOLDEN
Você tem asma?

ANA
Sim.

HOLDEN
Você tá respondendo pela Ana ou
Violeta?

Ana fica sem graça um instante.

HOLDEN (CONT'D)
Você tem asma?

ANA
Não.

HOLDEN
Você é bonita?

ANA
Não.

HOLDEN
Não?

ANA
Não!

HOLDEN
Tem filhos?

ANA
Não.

HOLDEN
Por quê?

Ana não responde.

HOLDEN (CONT'D)
Por quê?

ANA
Porque eu não quero morrer.
36.

HOLDEN
Já matou?

ANA
Sim.

HOLDEN
Já matou?

ANA
Não!

HOLDEN
Já destruiu?

ANA
Já.

HOLDEN
Já destruiu?

ANA
Já!

Holden a incita a ir ainda mais longe. Ana nesse processo


começa a perder o ar cada vez mais.

HOLDEN
Já morreu?

Ana para um instante pra pensar.

HOLDEN (CONT'D)
Não pode parar pra pensar. Fala o
que vier. Já morreu?

ANA
Não.

HOLDEN
Já morreu?

ANA
Não!

HOLDEN
Já morreu?

ANA
Sim.

HOLDEN
Está disposta a matar?
37.

ANA
Sim.

HOLDEN
Por quê?

ANA
Para que não seja eu a que morre.

Ana, nesse crescente, vai ficando mais e mais ofegante.

HOLDEN
Ana, você entende o que move
Violeta?

Ana responde imediatamente.

ANA
Se livrar de tudo que não serve
mais!

Holden para, dá um passo pra trás e sorri.

Ana está ofegante. Ela também está surpresa por não saber de
onde veio essa frase. Holden devolve a bombinha pra ela - que
dá uma respirada funda.

HOLDEN
(animado)
Ótimo

Os outros residentes tomam nota em seus computadores. Ana


volta para seu lugar, pega sua bombinha e respira. Silvia
desliga a câmera. Holden sai da sala. Ela olha para Esteban,
que olha de volta para ela. Sorriem um para o outro. Ela
segue parada em frente à pagina em branco do Word.

25 INT. RESIDÊNCIA DO FIM DO MUNDO / CORREDOR QUARTOS - TARDE 25

Momentos depois, David, Sergio, Agnes e os outros residentes


saem da sala de prática conversando. Sergio caminha ao lado
de David.

ESTEBAN
Vamos tomar uma gente?

DAVID
Vou continuar trabalhando, eu parei
de beber...
38.

SERGIO
Eu vou passar no jardim rapidinho
porque eu acho que perdi meu
isqueiro.

ESTEBAN
Ta bom. Depois me prepara um drink.

SERGIO
Como?

ESTEBAN
Depois me prepara uns drinks.

Sergio pensa por um instante.

SERGIO
Ta bom.

Ana sai por último um pouco frustrada. Esteban se aproxima.

ESTEBAN
Tá tudo bem?

ANA
Claro, tudo ótimo.

ESTEBAN
Bom, se precisar conversar uma hora
me avisa...

Ana deixa Esteban.

26 INT. BANHEIRO ANA E AGNES - NOITE 26

Uma banheira antiga vai se enchendo de água.

Ana está vomitando no vaso sanitário. Ela para e encara


chorando, coloca a mão na barriga.

Ana entra na banheira. Ela espera um instante, toma ar e


submerge.

27 INT. RESIDÊNCIA DO FIM DO MUNDO / COZINHA - DIA 27

Um balde de água é jogado no piso da cozinha por Esteban.

Na cozinha, Esteban e Ana estão recolhendo o lixo e varrendo


o piso.
39.

ESTEBAN
...nesses três anos que eu to aqui
eu desenvolvi muita coisa do meu
projeto. Mas eu não consigo
terminar.

ANA
Eu jamais ficaria aqui três anos.
Parece loucura.

ESTEBAN
Dói mesmo. Normal. Essa é a fase
mais sensível, mas passa...

ANA
Eu não tô sensível. Eu só acho
irresponsável essa coisa de invadir
a intimidade das pessoas... Ainda
por cima com aquela câmera filmando
tudo o tempo todo. Baseado em que?
Ele é psicólogo?

Esteban não responde e olha através da Ana, que se vira e


percebe que Holden está ali atrás dela.

HOLDEN
Todos os argentinos somos um pouco
psicólogos.

Holden fica em silêncio observando Esteban.

ESTEBAN
Licença.

Intimidado, Esteban sai pra limpar outra área e Holden fica


sozinho com Ana.

Ana continua recolhendo o lixo.

ANA
Desculpa, eu não queria...

Holden começa a ajudar Ana a recolher o lixo. Ele abre um


saco e despeja duas latas cheias de lixo dentro.

Uma barata sai correndo. Holden observa com tranquilidade,


Ana se controla.

HOLDEN
Não foi nada.

ANA
Eu não quis dizer isso...
40.

HOLDEN
(amigável)
Ninguém aqui me fala esse tipo de
coisa.

Ana fica sem graça.

HOLDEN (CONT'D)
E pra mim é importante ouvir isso.
Uma crítica dessas me ajuda a criar
um processo melhor... Não é pra mim
que eu faço o que faço.

Holden abre a porta que dá da cozinha para fora da casa,


oferecendo a Ana ajuda para levar o lixo. Ana fica supresa
com a atitude de Holden.

28 EXT. RESIDENCIA DO FIM DO MUNDO - TARDE 28

Holden e Ana arrastando os enormes sacos de lixo estão


caminhando na paisagem nevada com a casa ao fundo.

HOLDEN
Ana, você sabe o que você veio
fazer aqui?

ANA
Vim escrever meu livro.

HOLDEN
Sim. Mas isso você poderia ter
feito em qualquer lugar do mundo.

ANA
Mas queria ficar sozinha.

HOLDEN
Interessante... Numa residência com
um monte de participantes.

Holden caminha com Ana lentamente de volta para casa.

ANA
Acho que o importante no meu caso é
ficar sozinha comigo, com meus
sentimentos, meus medos.

HOLDEN
Foi bom seu exercício ontem... mas
você não se entrega.
41.

ANA
(se defendendo)
Mas eu me entreguei ontem...

Holden e Ana chegam a grande caçamba de lixo. Jogam os sacos


enquanto conversam.

HOLDEN
A idéia que nossos pais estariam
vivos se a gente não existisse é
muito difícil de conviver.

ANA
Perdeu sua mãe?

HOLDEN
Ambos

Terminam de jogar o lixo e começam a voltar para casa. Ana


olha para Holden. Ana está emocionada, mas Holden não.

HOLDEN (CONT'D)
Quando eu perdi eles a primeira
coisa que pensei foi que não tive a
oportunidade de conhecê-los. Mas,
de uma certa forma, perder essa
referência que me permitiu escolher
quem eu seria do zero.

Ana fica em silêncio enquanto caminham.

HOLDEN (CONT'D)
Pode ser libertador. Por isso eu
vim pra cá... Abandonei tudo,
recomecei. Larguei Buenos Aires,
meu ego, a literatura...

ANA
A música...

Holden não responde.

ANA (CONT'D)
Você tocava bem...

HOLDEN
Não faz diferença. Não vou fazer
algo só porque faço bem. Nem vou
deixar de fazer algo porque faço
mal.

Ana não responde. Holden para e encara Ana.


42.

HOLDEN (CONT'D)
Mas o que quero que você saiba é
que eu acredito muito em você.

Holden sorri e olha fundo nos olhos de Ana. Que sorri de


volta. Eles entram.

29 INT. RESIDÊNCIA DO FIM DO MUNDO / SALA DE JANTAR - NOITE 29

Sergio passa um prato com um cozido de legumes servindo os


residentes como um garçom. Eles estão jantando e a todos
falam ao mesmo tempo conversando. Ana e Viggo estão em uma
ponta, Holden está na outra, conversando com Sergio, Silvia e
David. Sergio se aproxima de David para servi-lo.

DAVID
Obrigado, estou de jejum.

SERGIO
Ok

AGNES
(em inglês)
Me sirva.

Sergio começa a servir Agnes.

Viggo se serve e passa para Ana que olha não muito animada,
põe pouco e passa para o próximo.

VIGGO
(para Ana)
A comida nunca foi nosso forte
aqui. Me colocaram na cozinha
porque escrevi sobre um açougueiro -
e ai fiquei, apesar de odiar
cozinhar...

ANA
(sobre a comida)
A cara tá ruim mesmo...

Silvia do outro lado da mesa.

SILVIA
O que que você não odeia, Viggo?

VIGGO
O silêncio, Silvia. O silêncio eu
amo.

Um ou outro residente mais perto riem da situação. Ana prova


a comida.
43.

ANA
Pior que tá gostoso, Viggo.

Viggo não esconde seu orgulho.

VIGGO
Você deve ter péssimas
referencias...

VIGGO (CONT'D)
(para Ana)
Eu realmente não entendo vocês...
em um mundo grande como esse,
escolher ficar enfurnado no meio do
nada com um bando de malucos.

ANA
Você fala isso porque você vive
aqui... Eu não sei onde mais eu
estaria.

VIGGO
Você eu também não sei... Eu em
Buenos Aires. Mas acho que nem a
reconheceria mais. Deve ter mudado
tudo. Dentro de mim Buenos Aires
ainda é uma cidade...

ANA
Fora de você também...

VIGGO
Não. O tempo destrói tudo...

ANA
Você só melhorou...

Viggo dá uma risada alta.

VIGGO
Não fale isso nem brincando.

Incomodado, Holden observa Ana e Viggo jantando.

HOLDEN
Viggo, me passa o sal?

Viggo olha para Holden, olha para o saleiro que nem está tão
próximo a ele, pega o saleiro e o joga deslizando pela mesa.
O saleiro para antes de chegar em Holden. Holden se levanta e
caminha até o saleiro. O pega e volta para seu lugar.

Holden observa a conversa de Ana e Viggo, incomodado.


44.

30 EXT. JARDIM DA RESIDENCIA - NOITE 30

Ana está com seu celular tentando pegar sinal no mesmo local
da última vez. Enquanto isso, observa seu reflexo invertido
na água.

Ela consegue e entram várias mensagens. Algumas mensagens de


Danilo. Na tela: “morrendo de saudade!”

Ao longe, Ana escuta uma melodia de piano. Ana se aproxima da


janela e encontra Holden, que assiste um VIDEO PROJETADO onde
ele, mais jovem, ele toca no piano a mesma composição da
performance quando queimava os livros.

Holden parece emocionado ao se ver no vídeo.

Ana responde Danilo. Na tela, ana envia um emoticon de bomba


e de fogo.

Ana sorri.

31 INT. CORREDOR DOS QUARTOS - NOITE 31

Ana caminha em direção ao seu quarto com o celular em sua


mão. O gato Cortazar está arranhando a porta. Ela percebe a
presença de Cortázar e o espanta.

32 INT. QUARTO DE ANA E AGNES - NOITE 32

Ana entra em seu quarto. Agnes esta em sua cama dormindo. No


estojo de maquiagem próximo a janela, o pássaro pia. Ana
repara que ao lado de Agnes tem pequenos objetos que ela
roubou: um relógio antigo, o isqueiro Zippo do Sérgio, o rodo
de cozinha.

O quarto vai ficando cada vez mais entulhado. Ana se deita e


pega o notebook. Agnes escreve intensamente enquanto Ana
segue parada na frente do mesmo documento em branco escrito:

“VIOLETA

“Se saísse para a direita, seguiria caminhando ao lado de


Thomas. Para a esquerda, voltaria para casa. Nenhuma das
opções lhe interessava nesse momento. Não deve ser a toa que
sinto algo de divino quanto te encontro, disse Thomas a
Violeta no alto da montanha.”

Por um instante Ana vê um reflexo de Violeta na tela de seu


computador. Ana encara o notebook e consegue finalmente
escrever mais uma frase:
45.

“A mãe chegara a dizer, em algum ponto de sua infância, que


se não aprendesse a pensar menos e viver mais acabaria sendo
uma pessoa infeliz. Viver mais: Esse era o segredo para ela
poder ser feliz.”

Ana ri, relê a frase que escreveu e ri ainda mais. Agnes


acorda incomodada. Ana fecha o notebook, pega seu celular, se
levanta e vai até a sala.

33 INT. RESIDÊNCIA DO FIM DO MUNDO /SALA DE PRÁTICA - CONTINUOUS


33

Ana pega um martelo e um prego da caixa de ferramentas. Ela


pega seu celular, põe na parede, firma o prego e o golpeia
com martelo.

O barulho atrai alguns residentes que estavam tentando


dormir. Ana se vira e sai. O celular fica na parede com um
prego bem no seu centro.

BLACK

LETREIRO: Capítulo IV: HOLDEN

34 INT. BAR DE USHUAIA - NOITE 34

Em um bar no Ushuaia, Rosaura, uma senhora de 70 anos lê


intensamente seu poema. É uma espécie de sarau. Todo o bar
assiste a poeta lendo no palco. Ana está sentada junto a
Silvia, Esteban e Holden. Em frente a Holden está Sérgio e na
cabeceira, Viggo.

Rosaura termina a leitura e todos do bar aplaudem. Começa a


tocar uma milonga e algumas pessoas se levantam e caminham
para a pista. Silvia pede licença e sai. Ana e Esteban
observam cúmplices Silvia se afastar.

Próximos a Ana e Esteban, Sergio e Holden conversam bêbados.

HOLDEN
... o único que passou aqui na
residência que, pra mim, realmente
fez algo grandioso foi o Irissari.
Ele veio com um personagem
interessante: uma celebridade
neurótica que não suportava a fama.
Que vivia sob a crença que seria
assassinado por um fã.

Viggo incomodado com o que ouve.


46.

SERGIO
Melhor que Parsifal? Eu li o último
do Parsifal e é incrível...

HOLDEN
Muito melhor! Parsifal é uma
fraude! Eu nem reconheço ele como
aluno. Tudo dele é falso!
O processo do Irissari é
profundamente verdadeiro. Depois
que ele saiu da residência ele ia
ao aeroporto de óculos escuros
evitando ser reconhecido, sempre
meio se escondendo.

Holden gesticula ao contar sua história.

HOLDEN (CONT'D)
E isso começou a parecer suspeito e
ele começou a realmente ser
perseguido pela polícia.

Agnes, Sergio e Esteban escutam a história. Ana também


interessada.

AGNES
(em inglês)
E ele não parou?

HOLDEN
Não! Na cabeça dele, os policiais
eram fãs...

VIGGO
Ou não... Impossível saber se ele
realmente fez isso. Eu nunca
acreditei em nada que ele disse.

HOLDEN
Para de ciúmes, Viggo!

VIGGO
O cara é mitômano!

Todos riem.

HOLDEN
A paranoia dele ficou tão intensa,
que ele começou intuir o tempo todo
que todo mundo tava só pensando
sobre ele.

VIGGO
Egocêntrico.
47.

HOLDEN
E o trabalho dele foi feito assim,
narrado do ponto de vista de
infinitos personagens secundários e
figurantes que tinham o pensamento
“lido” pelo protagonista. Uma
colagem de devaneios que no final
formavam uma história genial.

Todos riem da história de Holden. Seu carisma é evidente.

VIGGO
(irônico)
Realmente... que profundo. Não sei
como ele conseguiu. Ir pro
aeroporto... que difícil.

HOLDEN
Viggo. Ele sacrificou o que muitos
chamam de “sanidade” por algo
maior, pela criação de uma obra
autêntica e inteiramente construída
através do método.

VIGGO
Até onde me lembro ele já chegou
aqui sem a “sanidade”. O cara tacou
fogo nos quartos da residencia,
pelo amor de Deus!

HOLDEN
Grande feito, aliás!

Todos riem.

SERGIO
Eu acho que a auto ficção mal
nasceu e já morreu... Agora a
sensação que dá, é que estamos na
era da “auto verdade” - onde cada
um inventa sua própria realidade
independente dos fatos - os
políticos inclusive estão na
vanguarda. Tem gente questionando
aquecimento global.

HOLDEN
(pausadamente olhando nos
olhos de Sérgio)
Não existe aquecimento global,
Sérgio.

Holden sustenta o olhar para Sérgio e sorri irônico, não dá


para entender se ele realmente acha isso.
48.

Holden se levanta.

HOLDEN (CONT'D)
Mais vinho?

Todos dizem que sim.

SERGIO
Eu pego!

HOLDEN
Para!

Ana observa Holden indo até o balcão. Em frente a Ana, Agnes


finge prestar atenção na pista de dança enquanto se inclina
em direção à cadeira da mulher de trás colocando a mão dentro
do bolso dela.

ANA
A noite ta promissora, né?
(risos)

ESTEBAN
Muito...

NO BALCÃO uma mulher interessante mais ou menos da mesma


idade de Holden se aproxima dele. A mulher dá sinais claros
de interesse. Sorri, mexe no próprio cabelo e Holden tira ela
para dançar.

Da mesa, Ana os acompanha com os olhos.

NA PISTA Holden e a mulher dançam.

DA MESA Ana observa nitidamente incomodada, e Esteban se


levanta e estende a mão para Ana.

ESTEBAN (CONT'D)
Vem?

Ana sorri hesitante.

ANA
Eu não sei dançar...

Esteban puxa Ana com mais força e a arrasta até a PISTA DE


DANÇA. Logo nos primeiros movimentos Ana pisa no pé de
Esteban. Esteban e Ana dançam desajeitados próximos a Holden
que dança com desenvoltura com a mulher. Esteban repara em
algo e aponta para Ana: Silvia está seduzindo Rosaura.

ESTEBAN
Silvia em ação.
49.

ANA
Gente...

ESTEBAN
O projeto dela é incrível. Uma
funcionária de um asilo que realiza
os últimos desejos dos idosos.

Rosaura claramente não tem intimidade com essa situação, não


sabe muito como reagir, não expulsa Silvia nem admite para si
que está gostando.

ANA
Difícil imaginar a Silvia sendo
fofa.

Ana e Esteban se olham rindo.

ESTEBAN
Ela é obcecada. Assusta mesmo. Mas
ela é do bem.

ANA
Todo mundo brincando de personagem,
né?

Quando a música termina Ana faz uma reverência irônica para


Esteban que retribui o gesto. Outra música começa. Esteban se
aproxima de um homem lindo e o convida para dançar. Esteban e
o homem dançam com uma sintonia que não existiu entre Ana e
Esteban.

Ana sai em direção ao banheiro.

35 INT. BAR DE USHUAIA / BANHEIRO - NOITE 35

O banheiro é minúsculo. Ana faz xixi, se limpa e sai do


gabinete. Em frente ao espelho ela lava as mãos, arruma o
cabelo.

Ana pega um batom para passar nos lábios. Ela abre o batom e
enquanto se olha no espelho. Ana abre o batom e passa.
Enquanto o faz se olha no espelho. Uma figura que se parece
com Violeta passa por dela. Ela exagera na força e o batom
transcende os limites dos lábios de Ana. Ana passa também o
batom sobre os olhos como se fosse uma sombra. Faz um traço
que une o olho com a boca.

Com sua nova maquiagem, Ana sai do banheiro.


50.

36 INT. BAR DE USHUAIA / CORREDOR BANHEIROS - CONTINUOUS 36

No corredor entre os pequenos banheiros Ana se depara com


Holden, na fila do banheiro masculino. O hall é estreito e
para ela cruzar pro outro lado ela precisa passar muito perto
de Holden.

É uma situação delicada, onde nenhum dos dois sabe exatamente


o que fazer.

Ana avança pelo corredor, e ao passar por Holden o agarra e


apenas aperta os braços e pescoço, cravando as unhas nele. A
pele fica avermelhada pela pressão.

Holden sente dor mas deixa que Ana o faça.

Se olham por um instante e se solta de Holden e o deixa lá.


Ana caminha se ajeitando.

37 INT. BAR DE USHUAIA / MESA - CONTINUOUS 37

Ana se aproxima da mesa de bar onde seu grupo está.

Lá um senhor de 50 anos está gritando com todos eles.

SENHOR
Devolve! Sua ladra! Ela é uma
ladra!

Ana se aproxima. Viggo e Silvia tentam acalmar o homem.

VIGGO SILVIA
(gritando) (gritando)
Calma! Senhor, calma! Como você sai acusando alguém
sem provas?

SENHOR
Devolve os óculos da minha esposa!
Devolve!

A ESPOSA (50) do homem se aproxima, apoiando o marido.

SENHORA
Foi ela! Eu vi! Ladra!

A senhora aponta para Agnes. Ana olha para Agnes que está
encolhida assustada, mas ao mesmo tempo achando graça de
tudo.

AGNES
(em espanhol precário)
Eu não! Não fui eu!
51.

Agnes se defende precariamente em espanhol, – gesticulando.


Holden se aproxima e toma a dianteira da situação.

HOLDEN
Senhor. Calma. Um momento.

A bagunça cessa por um instante.

HOLDEN (CONT'D)
O que aconteceu? Como posso te
ajudar?

O homem fica ainda mais nervoso.

SENHOR
O que aconteceu foi que aquela
lunática filha da puta roubou os
óculos de grau da minha esposa.

O bar inteiro está em silêncio observando a cena.

SENHOR (CONT'D)
E seus amigos malucos aqui ao invés
de me ajudar ficam me chamando de
louco. Seus malucos!

HOLDEN
Calma. Vamos resolver isso. Não
gosto que levem meus amigos a mal.
Viemos para cá tranquilos,
aproveitar o tempo aqui e de
repente chega um casal maluco
gritando com eles.

O homem se aproxima de Holden que fica imóvel. O homem da um


soco em Holden. A esposa dele grita com medo da reação de
Holden.

Outras pessoas se levantam aflitas com a briga. Holden – com


o nariz sangrando - se aproxima do homem, Esteban o segura.
Holden se solta e chega bem perto do homem. Todos observam
apreensivos.

Holden o olha impassível e sorri. Ele claramente poderia


bater no homem, mas não o faz. Sorri em troca. Viggo e Silvia
se arrumam para sair. Em silêncio eles abrem a porta e saem
junto com Holden e os outros.

38 EXT. BAR DE USHUAIA / FACHADA - NOITE 38

Na rua, em frente ao café, Viggo, Silvia e Rosaura, Holden,


Esteban e Ana saem pela escada.
52.

Sergio e Agnes saem atrás.

Eles vão em direção à velha van que está ali estacionada.


Esteban e Agnes ajudam a Viggo a subir na van. Holden e Ana
são os últimos a subir. Ana encara Holden, com o sangue
escorrendo do seu nariz. Eles se olham sério por um instante
e logo riem.

Agnes caminha em direção aos outros carros ali perto, pega


uma pedra na rua e acerta no vidro de um dos carros
estacionados. O alarme dispara.

Holden olha pra Agnes orgulhoso com seu gesto. Ana sorri e
sobe na van, que arranca.

39 I/E. VAN - NOITE 39

Dentro da van, finalmente relaxam. Holden começa a rir. Todos


riem.

Agnes coloca os óculos roubados e sorri - ela imita a senhora


de quem roubou os óculos. Rosaura está bêbada ao lado de
Silvia, que a beija. Do banco do passageiro, Esteban as filma
com a câmera.

Ana e Holden trocam olhares. Silvia parece estar incomodada e


volta a beijar Rosaura.

40 EXT. FACHADA RESIDENCIA DO FIM DO MUNDO. - NOITE 40

A van estacionada em frente a entrada da residência do fim do


mundo. Todos descem. Caminham em direção da residência.

Ana e Holden vão andando mais devagar e se isolando do grupo.

Silvia e Rosaura caminham rumo a porta. Antes de entrar,


Silvia repara no movimento de Holden. Viggo já quase dentro
da casa encara também Ana e Holden.

Esteban, Agnes e Sergio param em um canto do Jardim pra beber


mais.

Holden e Ana ficam pra trás, ainda perto do carro.

HOLDEN
Cansada?

Ana faz não com a cabeça. Ele abre a porta da van, Ana entra.
53.

41 EXT. TRILHA SUBIDA MONTANHA - NOITE 41

A luz do farol da van corta a escuridão da noite. A van de


Holden sobe a pequena trilha para o alto da montanha e aos
poucos se aproxima de um platô.

A van estaciona. Descem Holden e Ana.

Ana olha para baixo, eles estão quase no pico da montanha.


Ela tem um princípio de ataque de asma, pega a bombinha e a
usa.

Holden a olha. Ela disfarça, guarda a bombinha e dá uma


corridinha até ele.

Eles caminham a pé em direção a uma pequena cabana.

42 EXT. FACHADA CABANA HOLDEN - NOITE 42

Holden e Ana chegam em uma pequena cabana que parece semi


abandonada.

Holden coloca a chave na fechadura e força a porta, que se


abre com dificuldade.

43 INT. CABANA HOLDEN - NOITE 43

Escuridão total no interior da cabana. Holden acende uma vela


diante de si que ilumina a cabana.

ANA
É linda.

Ana observa tudo curiosa enquanto Holden acende mais algumas


velas e candelabros.

HOLDEN
Eu comprei logo quando me mudei
para cá. Tinha chegado de Buenos
Aires e ainda não tinha achado o
casarão da residência.

Enquanto Holden vai acendendo as lamparinas, Ana passeia pelo


espaço. Tem uma pequena cama de casal, algumas fotos antigas
na parede, uma estante cheia de livros. Ana passeia pelos
móveis e objetos. Uma foto de Holden mais novo com uma
mulher.

Holden a encara. Ana fica sem graça. Se refugia nos livros.


Ana encontra algo que a chama a atenção. Ela se aproxima. É
um exemplar do livro: HOLDEN, escrito por Diego Parisi. Ana
pega o livro para dar uma folheada.
54.

ANA
Esqueceu de queimar esse?

Incomodado, Holden arranca o livro da mão dela e devolve na


prateleira.

HOLDEN
Não. O guardei para uma situação
especial.

ANA
E o que anda fazendo agora? Pode
compartilhar?

HOLDEN
Não.

ANA
Me parece doloroso que depois de
quatro sucessos, você queime seu
livro no lançamento.

Holden ri.

HOLDEN
A arte é pura fraude, e só você
fazer o que ninguém fez antes.

Ana sorri e fica em silêncio.

HOLDEN (CONT'D)
Se você quiser saber sobre meu
último livro, é só olhar ao redor.
É tudo isso que estou vivendo.

Tem um ar de deboche em como Holden fala isso. Ana sorri não


levando também muito a serio.

Eles sustentam esse sorriso um pro outro alguns instantes.

ANA
Mamihlapinatapai.

Ana sorri. Holden olha Ana, sério.

HOLDEN
Não. Para.

Ana respira sem conseguir olhar direito para Holden, ela está
claramente sem graça.
55.

ANA
Acho que eu quero ir embora -
desculpa. Eu não queria...

HOLDEN
Não, tudo bem. Vamos ficar aqui um
pouco...

Holden se senta em uma cadeira, Ana se senta na cama a sua


frente.

HOLDEN (CONT'D)
Vamos conversar. Me conta mais da
sua vida...

Ana sorri sem graça. Ela olha pra janela onde vê refletiva
Violeta.

ANA
Não, Holden... me conta você da
sua...

HOLDEN
O que você quer saber?

ANA
Sei lá. O que você quiser contar.
Como você arranjou um Pollock.

HOLDEN
Ah. Essa história é ótima. Um dos
melhores amigos dos meus pais era
colecionador. Matias. Um gênio...

Enquanto Holden fala, Ana repara no reflexo dela na janela -


ela ainda está com a maquiagem que fez no bar. É Violeta que
parece observar ambos.

FLASH FANTASY

44 INT. CABANA THOMAS - NOITE 44

Violeta acende uma vela e coloca junto a diversos outros


candelabros. Ela está em uma cabana de madeira toda arrumada
e repleta de moveis antigos.

No centro da sala está Thomas. Ele está amarrado em uma


cadeira. Ele parece excitado. Violeta se aproxima de Thomas
com um vaso de cristal nas mãos.

Violeta e Thomas trocam um olhar cúmplice por um instante.


Thomas morde os lábios e Violeta joga o vaso no chão o
explodindo.
56.

Violeta pega um dos cacos, se aproxima de Thomas e lentamente


vai pressionando um dos restos do vaso contra a pele enrugada
dele até sair um filete de sangue.

Corte brusco.

FIM DO FLASH
FANTASY

45 INT. RESIDENCIA DO FIM DO MUNDO/ SALA DE PRÁTICA 45

IMAGENS DE UMA CÂMERA AMADORA: De longe, a lente busca Agnes


abrindo mochilas escondida e tirando objetos pequenos em um
canto da sala.

46 INT. RESIDÊNCIA DO FIM DO MUNDO /SALA DE PRÁTICA - CONTINUOUS


46

Silvia opera a pequena câmera de mão.

Agnes percebe que está sendo filmada e a evita.

Em uma das mesas de trabalho, Ana está parada em frente a seu


computador. Espalhados pelo espaço, outros residentes também
estão trabalhando pelo espaço. Ana parece bloqueada.

A página em branco do Word continua lá, intacta.

Holden está aconselhando Esteban em outra mesa. David está


sentado em uma posição de meditação e raspa seu cabelo com
uma maquina, ficando careca.

Os residentes olham, tratam como se não fosse nada e voltam


ao seu trabalho.

Da cozinha, Viggo observa tudo com distanciamento enquanto


lava a louça do café da manhã.

Agnes canta uma música de longe, ecoando na cena, ela passa


rapidamente na sala, com um penteado que lembra de uma
senhora mais velha.

Holden se aproxima de Sérgio, por cima de seu ombro ele vê na


tela de seu computador.

Holden desaprova com a cabeça.

HOLDEN
Isso é ridículo, Sérgio. Parece
trabalho de um adolescente.

Sérgio fica ofendido.


57.

SERGIO
Eu gosto do caminho que está
tomando.

Holden abre os braços no meio da sala e grita.

HOLDEN
Coragem, pessoal! Coragem! É muito
fácil usar a literatura pra se
esconder.

Sergio incomodado se levanta e sai. Holden grita novamente.

HOLDEN (CONT'D)
Coragem!

SERGIO
Você é louco, Holden!

Holden encara Sérgio partindo.

HOLDEN
(para todos)
Importante: Quando as pessoas veem
o nosso trabalho aqui e dizem que
somos loucos, esse é o sinal que
estamos certos. É um elogio, vindo
de você, Sérgio...

Silêncio. Sérgio sai.

Holden se vira pra Ana.

HOLDEN (CONT'D)
E você?

ANA
To indo aos poucos.

HOLDEN
Você mal começou, Ana.

ANA
Sinto que está intenso.

Holden falando pra que todos ouçam.

HOLDEN
(irônico)
Pregar o celular na parede já foi
demais pra você?

Ana fica nitidamente incomodada com Holden por estar


desmerecendo seu processo.
58.

HOLDEN (CONT'D)
Eu não sinto que você tenha a
coragem ou a força que sua
personagem tem. Não acho que errar
a maquiagem no rosto ou esconder
papéis pra não queimar na fogueira
sejam gestos muito corajosos...

Ana demora pra responder e olha pro seu computador sem saber
muito bem o que dizer.

ANA
É uma ficção, Holden. Eu sou eu,
ela é ela. Violeta é destrutiva. Eu
nunca destrui nada...

Holden olha fundo nos olhos de Ana.

HOLDEN
Deveria... Já matou sua mãe, é um
bom começo, não?

Ana olha perplexa. Um apito invade a cena. Ana fecha os


olhos.

BLACK

Letreiro: Capítulo V: VIOLETA

47 INT. RESIDÊNCIA DO FIM DO MUNDO /SALA DE PRÁTICA - DIA 47

Ana abre os olhos. É o instante seguinte da cena anterior.


Holden se vira e se afasta. O apito vai se intensificando e
vai se tornando uma música minimalista que invade as próximas
cenas.

Incomodada, Ana cutuca a letra “A” de seu teclado. Ana está


tremendo. Parece nervosa. A tecla está um pouco mole. Com a
unha, ela começa a puxar a tecla e a arranca do teclado. Na
tela do computador: AAAAAAAAAAAA

Ela observa por um instante a tecla na sua mão. Logo ela


arranca a tecla “N” e a tecla “V”. Na tela do computador fica
o rastro das letras: AAAAAAAAANNNNNNVVVVVVVV.

Ana coloca as três teclas na palma da sua mão e levanta.

48 INT. FACHADA RESIDENCIA DO FIM DO MUNDO. - DIA 48

Ana sai da residência. Ela parece estar nervosa. Ela avança


pelo jardim até um canto afastado próximo a uma árvore.
59.

Sente falta de ar e ainda tremendo um pouco pega sua bombinha


e a usa. Ela respira fundo.

Com o pé ela abre um pequeno buraco no chão.

Ana tira a outra mão do bolso e segura com força as três


letras. Ela abre a mão - as letras A, N e V de cabeça para
baixo transformando o V em A, formam ANA.

Depois disso, Ana joga as três teclas no buraco.

Ela põe sua bombinha de asma ao lado, e a destrói pisando com


força. Ela fecha o buraco e volta para a residência.

49 INT. BANHEIRO ANA E AGNES - DIA 49

Ana descarta alguns objetos da sua bolsa no lixo.

Agnes entra no quarto e troca olhares com Ana. Ana pega suas
roupas na mala, começa a jogar todas em uma pilha fora da
casa.

50 EXT. JARDIM DA RESIDENCIA - DIA 50

Sobre um tronco de árvore, Ana coloca seu notebook.

Ela pega um martelo e o destrói.

51 INT. QUARTO DE ANA E AGNES - DIA 51

Ana no seu quarto procura algo no meio da sua mochila. Ela


acha o caderno que Danilo lhe deu de presente.

Ela pega uma caneta preta, rabisca o recado de Danilo e


escreve: “Violeta”. O pássaro pia por fora da janela, Ana o
ignora.

Se senta no quarto e começa a escrever sem parar no caderno.

52 INT. RESIDÊNCIA DO FIM DO MUNDO /SALA DE PRATICA - NOITE 52

Ana escreve sem parar no seu caderno. Ela não tira a caneta
do papel. Ela está concentrada e engajada.

Ela reage com microexpressões ao texto que está escrevendo. A


sua mão dói. Ana para um instante, há feridas na mão. Sai um
pouco de sangue. Ela continua escrevendo.

Esteban se aproxima de Ana, ela parece febril.


60.

Ela sorri.

53 INT. RESIDÊNCIA DO FIM DO MUNDO / SALA DE JANTAR - NOITE 53

No meio da noite, o telefone da residência do fim do mundo


toca sem parar. Os residentes estão espalhados pela sala de
prática. Ana escreve em um canto.

Esteban atende.

ESTEBAN
(no telefone)
Oi.(p) Sim, Ana está sim.

Ana, sem parar de escrever, olha para Esteban de longe.

ESTEBAN (CONT'D)
(no telefone)
Sim... Tudo bem... Ela teve um
problema com o celular.

Esteban devolve um olhar cúmplice.

ESTEBAN (CONT'D)
(para Ana)
Ana, Danilo.

Ana se levanta e caminha até o telefone. Ela pega o telefone


da mão do Esteban.

Ana desliga colocando o telefone no gancho. O telefone quase


que imediatamente volta a tocar. Viggo grita da cozinha.

VIGGO
Não vai atender mais Ana?

Ana ignora Viggo. Ninguém atende o telefone, que não para de


tocar.

54 INT. RESIDÊNCIA DO FIM DO MUNDO / SALA DE JANTAR - DIA 54

No café da manhã, Ana e Esteban sentados um em frente ao


outro.

Esteban observa Ana tomar notas no seu caderno enquanto


lentamente bebe seu café.

ESTEBAN
... ai ele vendeu a motocicleta pra
ficar comigo e quando ele chegou lá
eu me apaixonei por outro. Ai eu te
pergunto, você teria feito o que?
61.

Ana o observa, mas não sai som da boca de Esteban.

Ana não responde, fica imersa em seu próprio mundo. Esteban


olha para outras mesas. David, Agnes e os outros residentes
conversam normalmente.

ESTEBAN (CONT'D)
Ana?

Ana sem tirar o olho do seu caderno.

ANA
Fala Esteban?

ESTEBAN
Você tá ouvindo o que eu to
falando?

ANA
Não.

Ana segue escrevendo. Esteban bufa incomodado com ela e se


prepara pra levantar em direção aos outros residentes.

Holden se aproxima dos dois. Ele chega por trás de Ana.

HOLDEN
(para Ana)
Como está?

ANA
Avançando...

HOLDEN
Genial, Ana.

Esteban pensa um instante.

ESTEBAN
Holden.

Holden se vira pra Esteban.

HOLDEN
Oi?

ESTEBAN
Vamos depois falar sobre meu
desfecho? Acho que to pronto pra
conclusão.

Holden encara Esteban por um instante, como quem esperava há


muito por esse momento.
62.

Holden se aproxima de Esteban e em um tom confessional.

HOLDEN
Eu sabia que um dia você ia
conseguir. Você nunca me
decepcionou.

Esteban assente. Holden sai em direção à mesa de café da


manhã, após apertar carinhosamente os ombros de Esteban.

Ao longe, Sérgio aparece puxando sua mala de rodinha. Holden


para e o encara fixamente.

SERGIO
(a todos)
Amigos, esses últimos dias não
fizeram o menor sentido pra mim,
então eu aqui os deixo. Mas quero
agradecer a todos pela
experiência...

HOLDEN
(interrompendo)
Eu gostaria de aproveitar o momento
então pra pedir desculpas...

Todos olham Holden.

SERGIO
Não foi nada Holden-

HOLDEN
(interrompendo)
Desculpa a todos por ter me
enganado e chamado para fazer parte
do nosso grupo uma pessoa que
claramente não pertence ao nosso
mundo.

Alguns residentes seguram a risada. Outros ficam


desconfortáveis. Sergio, encara Holden.

SERGIO
Então parece que ambos nos
enganamos.

Sergio se vira e sai.

Ana, observando toda aquela situação acha um pouco ridículo,


ela se levanta e sai sem dizer nada.
63.

55 INT. RESIDÊNCIA DO FIM DO MUNDO / DEPÓSITO - DIA 55

Ana entra no depósito do casarão. Busca em estantes


diferentes até que encontra e pega uma caixa de ferramentas.

56 INT. QUARTO DE ANA E AGNES - DIA 56

Em seu quarto, Ana coloca a caixa de ferramenta no chão e


começa pouco a pouco a desarmar sua cama.

Silvia surge pela porta.

SILVIA
Tá tudo bem ai?

Ana enquanto arranca os pregos que prendem as madeiras das


camas.

ANA
Onde eu posso deixar essas tábuas?

Silvia, procurando não interferir.

SILVIA
No sótão.

Ana diz que OK com a cabeça e segue martelando e soltando os


pregos da cama.

Ana escuta o passarinho piar do lado de fora, mas não faz


nada.

57 INT. ESCADA PARA O PORÃO - DIA 57

Ana carrega as tábuas da cama desarmada. Desce as escadas com


esforço.

Ana chega no porão e para em frente as duas portas.

Ana abre a porta. Dentro está Holden sem camisa, com a câmera
apontada para ele enquanto dorme.

Suas costas tem grandes cicatrizes marcando a pele.

Ana para um instante para observá-lo em silêncio. Dormindo,


Holden vira em direção à porta. Ana fecha a porta
imediatamente.

Ana segue em direção à outra porta. Entra.


64.

58 INT. RESIDENCIA DO FIM DO MUNDO / PORÃO - DIA 58

No porão, Ana acende a luz. Alguns móveis estão entulhados em


um canto perto de uns tapetes enrolados. Ana deixa as tábuas
sobre outros móveis. Algo chama sua atenção. Ana se aproxima.

Em uma das paredes, diversas estante com infinitas fitas Mini-


DV, Hi8, VHS e outras bitolas. Nas lombadas, os nomes
escritos a máquina de escrever: HOLDEN #1, VIGGO #2, JUANJO
#3, PEPINO #4, SILVIA #5, PARSIFAL #6, etc...

Algumas fotos de residentes transformados: Um garçom. Um


homem de terno fumando um charuto, uma mulher com uma túnica
branca comprida, uma mulher com manchas vermelhas na pele, e
mais outros registros das residências anteriores.

Ana olha admirada e sai.

59 INT. RESIDÊNCIA DO FIM DO MUNDO / CORREDOR QUARTOS - DIA 59

Ana caminha no corredor com uma expressão aliviada. Ela entra


no seu quarto, que agora parece uma clausura.

No centro do quarto tem apenas um colchão, uma vela acesa, o


pássaro e o caderno onde Ana está escrevendo Violeta com sua
caneta preta.

Todos os objetos de Agnes foram jogados no corredor. Ana se


senta para escrever.

60 INT. QUARTO DE ANA E AGNES - CONTINUOUS 60

Agnes se aproxima do corredor, já gritando indignada. Ela


entra no quarto e vê Ana sentada escrevendo. Agnes se
aproxima, com muita raiva.

AGNES
(em inglês)
Minhas coisas! O que você fez com
minhas coisas!?

Ana pode supor que provavelmente está sendo xingada.

ANA
(tranquila)
Me incomoda seu lixo no quarto.

Mal se pode ouvir Ana de tanto que Agnes a acusa.


65.

AGNES
(em inglês)
Sua filha da puta! O que vc fez com
as minhas coisas?

ANA
Era muito lixo, Agnes.

Ela está descontrolada. Esteban e Silvia a pegam pelo braço.


Agnes tenta avançar em Ana, que cinicamente assiste a cena.

61 INT. CORREDOR DOS QUARTOS - NOITE 61

Ana arrasta seu colchão, a vela, o pássaro e o caderno nos


braços enquanto caminha pelo corredor.

Ela sobe dois lances de escada.

62 INT. CORREDOR DOS QUARTOS QUEIMADOS - CONTINUOUS 62

Ana segue arrastando suas coisas, agora no corredor superior,


onde houve o incêndio. É um corredor idêntico ao de baixo mas
sem teto com com marcas de fumaça.

Ela força uma das portas, que finalmente abre com sua
pressão.

63 INT. QUARTO DE ANA - CONTINUOUS 63

O quarto está em escombros.

No meio do quarto, Ana coloca seu colchão. Do lado, a vela, o


pássaro e caderno.

Ana se senta no centro e volta a escrever como se nada


tivesse acontecido. O piado do pássaro é ouvido desde fora,
mas Ana novamente não faz nada. O gato de aproxima de Ana.

Ana o olha com ódio. O gato foge assustado.

64 INT. RESIDÊNCIA DO FIM DO MUNDO /SALA DE PRÀTICA - NOITE 64

Música eletrônica rolando na residência. Todos os residentes


estão dançando e bebendo.

Ana dança com Esteban. Holden está sentado no canto da sala,


bebendo muito com Viggo. Eles parecem estar discutindo sério
alguma bobagem. Ao lado, Agnes e Silvia dançam.
66.

Ana e Esteban se beijam dançando na pista. Se olham e riem.


Esteban se afasta.

Ana dança absorta no seu próprio mundo. Seu reflexo no vidro


da residência - é Violeta quem dança no lugar de Ana. Agnes
esbarra em Violeta que novamente vira Ana.

65 INT. RESIDÊNCIA DO FIM DO MUNDO / JARDIM - NOITE 65

Alguns instantes depois, no jardim, a neve já não está tão


presente.

Estão todos bêbados em volta da fogueira e a música alta


segue tocando dentro da residência.

Em volta da fogueira, Ana bebe sozinha no gargalo de um lado.


Agnes e Silvia se beijam muito em outro canto. Holden está
sozinho do outro lado.

HOLDEN
(bebâdo gritando de longe)
Acabou!

Ana concorda levantando a garrafa.

HOLDEN (CONT'D)
Tá feliz?

ANA
Muito... vou voltar pro que sobrou
da minha vida merda.

Holden se levanta e se aproxima de Ana. Ele se senta a seu


lado.

HOLDEN
E como vai ser essa vida merda
daqui pra frente? Já sabe?

ANA
Não faço idéia...

HOLDEN
Melhor assim...

ANA
Tudo que eu tinha ou morreu ou eu
joguei fora.

Holden sorri e relaxa ao lado de Ana.

HOLDEN
Mas agora você tem seu livro...
67.

ANA
É...

HOLDEN
É...

ANA
E seu livro?

Silêncio.

Holden respira fundo.

HOLDEN
É a história de um pianista que
perdeu a fé na arte e queima toda
sua obra.

Ana se surpreende.

HOLDEN (CONT'D)
Ele fica obcecado pela ideia de que
podemos ser o que imaginamos. E
assim começa a registrar tudo em
vídeo, cria o suprarrealismo e
funda uma residência.

Holden fala com sinceridade.

HOLDEN (CONT'D)
Mas ele se cansa de como seus
seguidores o idolatram e começa a
preparar o seu fim.
Ele achava que estava os
libertando, mas acabou criando um
bando de dependentes.
(pausa)
É meu melhor livro. Não queria
desperdiça-lo com leitores.
Responder as mesmas perguntas aos
jornalistas. Começar tudo de novo
para escrever o próximo.

ANA
E como termina?

HOLDEN
Como a cordilheira.

Silêncio entre eles. Eles estão contemplando a cordilheira.


68.

HOLDEN (CONT'D)
(em tom de brincadeira)
Com o encontro de duas placas
tectônicas que força a terra tocar
o céu.

Ana sorri.

ANA
Eu adorei te conhecer...

HOLDEN
Eu também...

Holden aponta para Silvia e Agnes. Elas se beijam do outro


lado da fogueira.

HOLDEN (CONT'D)
(se referindo a Agnes e
Silvia)
Silvia encontrou com a senhora
Madame Coleman...

Holden sorri para ela.

ANA
Você já sabe quem você vai escolher
pra ficar?

HOLDEN
Já sei sim...

ANA
E é alguém que eu conheço?

Holden sorri.

HOLDEN
Evita comentar com os outros mas, o
David.

O rosto de Ana desmonta.

ANA
Ah, que bom. David é ótimo.

HOLDEN
Sim, todos são...

Ana observa a fogueira por alguns instantes. Sem dizer nada


ela se levanta e sai.
69.

66 INT. RESIDÊNCIA DO FIM DO MUNDO /SALA DE PRÁTICA - DIA 66

Dia seguinte, todos de ressaca.

Ana entra na sala com o rosto amassado. A sala ainda está


suja repleta de garrafas e copos pós festa. Agnes está jogada
em um canto, de óculos escuro e fumando um cigarro –
aparentemente ela não dormiu.

Viggo de longe tenta recolher algumas coisas dentro das suas


limitações como cadeirante. Ele bate o olho em Ana de longe.

VIGGO
Onde está o time da limpeza, Ana?

Ana coloca seu caderno sobre a mesa, ignorando Viggo, e


começa a escrever.

VIGGO (CONT'D)
Ana?

Ana se levanta de má vontade, recolhe as garrafas abraçando


como pode, segue em direção a cozinha.

67 INT. RESIDÊNCIA DO FIM DO MUNDO / COZINHA - DIA 67

Na cozinha, Ana abre uma lata de lixo – que já está cheia.


Novamente algumas baratas correm perto da lata de lixo.

Ana pisa nas baratas sem se alterar.

68 EXT. RESIDÊNCIA DO FIM DO MUNDO - DIA 68

Ana vai até a grande caçamba onde todo lixo é jogado fora da
casa e despeja as garrafas ali. Fecha a tampa do lixo e volta
em direção à casa.

69 INT. RESIDÊNCIA DO FIM DO MUNDO /SALA DE PRÁTICA - DIA 69

Ana deixa o lixo vazio na cozinha e volta para a mesma mesa


onde deixou seu caderno, mas o caderno não está lá.

Ana tem um estalo e começa a procurar o caderno – ela olha


debaixo da mesa. Na outra mesa. Ela olha 360 graus no
ambiente.

Viggo está preparando um mate. Esteban e David estão chegando


com cara de sono. Silvia está ao longe começando a preparar a
comida.
70.

Ana olha onde Agnes estava – ela não está mais. Ela sai
disparada em direção aos quartos.

70 INT. RESIDÊNCIA DO FIM DO MUNDO / CORREDOR QUARTOS - DIA 70

Ana atravessa o corredor determinada até chegar à porta do


novo quarto de Agnes.

Ana abre a porta e Agnes está deitada no chão fazendo


abdominais.

ANA
(gritando)
Cadê meu livro?

Agnes finge surpresa.

ANA (CONT'D)
(ainda mais alto)
Cadê meu livro???

Agnes se levanta para se proteger de Ana.

AGNES
(em polonês)
Eu não sei do que você está
falando.

Em um rompante, Ana começa a revirar todo quarto de Agnes,


jogando as malas no chão, roupas, mexendo no armário.

Agnes tenta encostar em Ana pelas costas, mas Ana se vira e


agarra Agnes pelo pescoço com as duas mãos e a coloca contra
a parede.

Agnes tenta reagir em vão. Ana está profundamente alterada.

ANA
(gritando ainda mais)
Cadê meu livro!!!

Na porta aparecem David, Esteban e Silvia, preocupados


querendo entender o que está acontecendo.

Holden aparece logo depois...

David, Silvia e Esteban querem entrar para interferir, mas


Holden os detém com um gesto.

Ana ignora a presença dos outros na porta enquanto Agnes os


olha de canto de olho pedindo ajuda.
71.

ANA (CONT'D)
(pronunciando cada silaba)
Ca-dê meu livro!

Agnes tenta segurar os braços de Ana, que força ainda mais o


enforcamento. Agnes vai ficando sem ar.

Os outros observam, uns mais tensos que outros.

Agnes, quase desmaiando, finalmente indica que vai devolver o


livro para Ana.

Ana a solta e Agnes, humilhada, levanta seu colchão e tira do


meio de diversos outros objetos aleatórios o caderno de Ana.

Ana pega seu livro e sai do quarto esbarrando em Silvia que


estava na porta. Agnes se vira para Holden e Silvia.

AGNES
(em inglês)
Ela ia me matar.

HOLDEN
(em inglês)
Sim, ela ia.

Holden se vira ignorando Agnes.

Enquanto Ana se afasta pelo corredor, Holden a observa


orgulhoso.

Silvia olha Holden ainda desconcertada do esbarrão que tomou.

71 INT. RESIDÊNCIA DO FIM DO MUNDO / SALA DE PRÁTICA - NOITE 71

Holden se aproxima de Ana, que ainda está nervosa. Ana treme


enquanto escreve em seu livro.

HOLDEN
Seu exercício não era o desapego?

Ana simplesmente olha para Holden.

ANA
Não era pra seguir os instintos e
não pensar?

HOLDEN
Era.

ANA
Então é isso.
72.

Holden fica em silêncio.

ANA (CONT'D)
Você não tem apego por nada?

HOLDEN
Nada

Ana se levanta e se aproxima dele.

ANA
Que bom.

Ela se aproxima do quadro do Pollock que está na parede e


enfia no quadro sua caneta.

Ana, sentindo prazer com essa destruição, olha para Holden,


desafiante.

Ele não esboça nenhum sinal de reação. Ela arrasta a caneta


rasgando ainda mais a tela e sai.

72 INT. FACHADA RESIDÊNCIA DO FIM DO MUNDO. - DIA 72

A van da residência do fim do mundo está carregada.

Ana, Esteban, David e Agnes ajudam a descarregar carvão,


carne, bebidas.

O clima é descontraído, de um dia de festa.

Ana repara que entra um taxi na residência.

O carro para.

De dentro dele, sai DANILO. Ana e Danilo trocam olhares.


Sorriem um para o outro. Danilo está com uma mochila de
viagem.

73 INT. QUARTO DE ANA - DIA 73

O pássaro canta. Em seu quarto, Ana termina de arrumar o


pouco que sobrou de tudo que ela trouxe enquanto Danilo olha
a tudo com estranheza.

Ana ralenta pra fechar suas malas, como quem está sofrendo
por partir. O clima entre Ana e Danilo é estranho.

DANILO
E por que você ta num quarto sem
teto?
73.

ANA
Eu tive um problema na cama do
quarto antigo.

Danilo não entende.

DANILO
E suas coisas?

ANA
Ta tudo aqui.

É basicamente uma mochila e a roupa do corpo, o caderno de


Violeta, seu passaporte e mais um casaco.

Danilo aponta pro caderno que ele deu de presente, agora


totalmente escrito.

DANILO
Que bom que você usou...

ANA
É...

Ana está pronta para partir. Ele tenta pegar na mão de Ana -
repara nas feridas de tanto escrever. Ana tira e esconde as
mãos, evitando o olhar dele.

ANA (CONT'D)
Vamos?

Danilo incomodado, sai do quarto.

Ana olha para a janela. O pássaro está mais forte e maior em


seu estojo de maquiagem. Ana o observa por um momento, pega
sua mala e a arrasta até o corredor.

O gato Cortazar está a espreita na porta. Ana e o gato se


olham por um instante. Logo ignora o gato e segue seu caminho
deixando a porta aberta.

Cortazar entra no quarto, anda até a parede da janela e salta


para o parapeito da janela onde estava o pássaro.

74 EXT. RESIDÊNCIA DO FIM DO MUNDO / JARDIM - DIA 74

Ana está ao lado de Danilo. Junto de Esteban, Viggo e David.


Holden está longe, na churrasqueira.

David está careca e se veste de modo mais relaxado do que de


quando chegou. Agnes, longe de Ana, também está transformada,
com um penteado e uma postura mais séria.
74.

Ana parece de mal humor. Danilo, incomodado e em silêncio,


não fala nada.

Todos os residentes estão bebendo e comendo.

ESTEBAN
... eu tava no meio do meu texto
super concentrado e ai do nada o
Sérgio queria corrigir o que estava
escrevendo, e eu o dizia: ainda não
está pronto!

Todos riem.

DAVID
Esse era cheio de questões...

SILVIA
Na residência passada teve uma
menina que chorou dois dias porque
descobriu no meio desse exercício
que a personagem dela era cega...

Todos riem.

ESTEBAN
(rindo)
Ai o projeto dela foi ficar as 3
semanas com os olhos vendados...

VIGGO
Cara, essa menina durante os quatro
primeiros dias quebrou uns cinco
pratos porque Silvia a colocou na
cozinha.

Todos riem.

ANA
(triste)
Cara, parece que a gente tá aqui há
uma vida...

ESTEBAN
(olhando com carinho)
É... Parece que foi uma vida.

Holden se aproxima por trás.

HOLDEN
Se deu tudo certo, deve ter sido
uma vida mesmo.
(T)
À nova vida!
75.

Todos brindam repetindo o brinde de Holden. Ana se levanta e


caminha até Holden.

ANA
(para Holden)
Você tem um minuto?

Holden assente e se levanta. Eles se afastam do grupo. Danilo


olha Ana e Holden de longe, incomodado.

Holden fica em silêncio esperando Ana falar.

ANA (CONT'D)
Holden, eu não quero voltar.

Holden observa sem responder.

ANA (CONT'D)
Eu quero ficar e continuar meu
processo. Quero ficar aqui mais
tempo até ter meu livro.

Holden segue em silêncio.

ANA (CONT'D)
Eu não vou embora, não tenho
condições de ir embora. Ainda não
acabou pra mim. Não faz sentido eu
sair agora, no meio.

Holden sustenta o olhar alguns instantes.

HOLDEN
Tá.

Ana olha como quem não entendeu direito.

ANA
Como?

HOLDEN
Tá. Pode ficar.

Ana não sabe exatamente como reagir. Ela dá um abraço em


Holden que não é correspondido.

ANA
Obrigada, muito obrigada.

Ana o olha com gratidão antes de voltar para perto de Danilo


e dos outros residentes.
76.

ANA (CONT'D)
(para Danilo)
Eu vou ficar.

Danilo a olha indignado.

DANILO
Como?

Esteban percebe o que está acontecendo e todos ficam em


silêncio.

ANA
Eu vou ficar.

Ana sorri. Danilo não sabe o que dizer.

DANILO
Ana?

Agnes, do outro lado da mesa, entende o que está acontecendo


e se afasta da situação, um pouco ensimesmada. Todos se
surpreendem.

Danilo para e sai, indignado.

ANA
(para David)
David, eu vou ficar com você!

DAVID
(estranhando)
Mas eu não vou ficar...

ANA
Não?

DAVID
Não...

Ana sorri e não sabe muito bem como reagir.

DAVID (CONT'D)
Que eu saiba você que tinha sido
escolhida. Não?

David olha em sua volta para Esteban, Silvia e Viggo e todo


mundo parece concordar com ele. Ana segue sem saber como
reagir. Ela olha pra Holden que sorri de volta.
77.

75 EXT. FACHADA RESIDENCIA DO FIM DO MUNDO - FINAL DA TARDE 75

A porta da van fecha. Na janela está Danilo indignado,


evitando olhar para Ana. Ao lado, Agnes e no volante, Silvia.
Parado ao lado da van, David.

A van parte.

Ana, Holden e Esteban olham a van se afastar.

David, já um monge, caminha devagar no mesmo sentido.

76 INT. SALA DE JANTAR - NOITE 76

Lareira queimando. Silvia e Viggo terminam de comer. Ana come


sozinha em um canto. Esteban se levanta com seu prato e leva
pra pia. Esteban se afasta de Ana que começa a recolher os
pratos de uma das mesas. Ana repara que Viggo a observa.

ANA
(para Viggo)
Espantado que eu fiquei?

VIGGO
Tô. Mas entendo esse seu deslumbre.

ANA
Não é deslumbre.

VIGGO
Ana, ninguém liga pro que a gente
ta fazendo aqui...

Viggo, rabugento, manobra sua cadeira e parte. Ana tenta


responder mesmo assim.

ANA
Escrevemos para nós mesmos.

Ana segue recolhendo as coisas sem se importar com Viggo.

77 INT. QUARTO DE ANA - NOITE 77

Ana entra em seu quarto. Ana se deita. Ela acende a vela e


respira.

Silêncio.

Ana abre sua calça e coloca a mão dentro da calcinha.

Ana se masturba até atingir um orgasmo.


78.

Ainda com a mão na vagina, Ana respira ofegante - seus olhos


estão molhados.

Ana coloca a mão sobre a barriga e se cobre com um cobertor.

BLACK:

CARTELA: CAPITULO VI - SUPRARREALISMO

78 EXT. PORTO DE USHUAIA - DIA 78

No porto de Ushuaia, Holden e Silvia caminham um pouco a


frente de Esteban e Ana. Eles estão em uma passarela com
diversos barcos e veleiros de ambos os lados.

Ana observa tudo com um olhar curioso.

Eles chegam em frente a um veleiro. Em seu casco está


escrito: FIM DO MUNDO.

Todos sobem.

79 EXT. VELEIRO HOLDEN / CANAL BEAGLE - DIA 79

No canal Beagle, o Veleiro atravessa a água. Dentro do barco,


Holden está o pilotando enquanto Silvia e Esteban o ajudam.
Ana parece passar mal.

80 EXT. VELEIRO HOLDEN / CANAL BEAGLE - MOMENTOS DEPOIS 80

O veleiro com suas velas armadas se aproxima de uma pequena


ilha que não tem mais de 25 metros de largura, toda de pedra
com um grande farol no centro.

Ana parece fascinada. Ela sorri para Esteban que sorri de


volta.

81 EXT. ILHA LES ECLAIREURS - DIA 81

O barco ancora e descem Ana, Holden, Silvia e Esteban.

ESTEBAN
(para Ana)
Feliz Aniversário!

Eles caminham até uma pequena lápide onde está escrito o


nome: DIEGO PARISI.

Ao lado uma lápide com o nome NACHA ACOSTA e ao lado outra


com o nome: ADRIAN PARSIFAL.
79.

Todas tem uma data também cravadas na pedra. Holden se


ajoelha diante da pedra e Silvia põe uma mão em seu ombro e
se ajoelha ao seu lado, em frente a outra lápide.

Esteban também repete o gesto. Diversas outras pequenas


lápides com nomes cravados estão espalhados formando uma
espécie de cemitério.

Com um canivete, Holden faz um pequeno corte na palma de sua


mão, já com algumas cicatrizes e marca a lapide com seu
sangue. Ele passa o canivete para Silvia e Esteban que
repetem o gesto.

O momento é de recolhimento, acompanhado pelo som do vento e


o vai e vem das ondas. Ana observa tudo a uma certa distância
e de forma respeitosa. Holden acena para que Ana se aproxime.
Ela se aproxima da lápide.

Silvia pega a pequena câmera mini-dv e começa a filmar Ana.


Holden pede para que ela faça a reverência. Ana se ajoelha.
Ana parece estranhar a presença daquela câmera.

Silvia passa para Holden uma grande lápide em branco. A


lápide pesa.

HOLDEN
Essa é pra você.

Ana pega sua lápide e olha para Holden.

ANA
Obrigada.

HOLDEN
Você sabe o que fazer?

ANA
Não.

HOLDEN
Você vai descobrir.

Holden fala no ouvido dela algo e ela começa a murmurar:

ANA
(murmurando)
Viver aquilo que foi imaginado
requer compromisso, viver aquilo
que foi imaginado requer
compromisso, viver aquilo...

Ana fecha os olhos e fica nessa profunda meditação alguns


instantes.
80.

Som das velas do barco se inflando com o vento.

Ana abre os olhos subitamente e se vira.

Ela está sozinha na ilha e o veleiro se afasta lentamente.

A ilha é pequena.

Não há nada.

Ana olha ao redor, um pássaro sobrevoa a ilha e o farol.

Ela se aproxima do farol. Dá uma volta nele. Não tem porta.

Ana se dá conta que não há onde se abrigar do frio. Ela se


senta ao redor da lápide que Holden lhe deu. Ela começa a ter
um principio de ataque de asma - sem sua bomba, Ana tenta se
controlar. Ana tira os sapatos encharcados e as meias
molhadas. O vento sopra forte.

Ana abre o cantil. Ela limpa suas lágrimas. Ela observa por
alguns segundos o veleiro que já está minúsculo nas águas
geladas do Canal Beagle.

Ana pega outras duas pedras do chão. Uma mais fina e


pontiaguda e outra maior. Ela apoia uma das pedras sobre sua
lápide e começa a bater com a outra pedra. Ana se senta e
começa a escrever.

82 EXT. ILHA LES ECLAIREURS - FINAL DE TARDE 82

Ana está sentada perto da lápide há um tempo. Ela escreve nas


suas folhas. Ela sente muito frio – treme. Sua mão dói de
frio. Sai sangue das feridas de sua mão que marcam as folhas.
Ana segue

A tarde cai. A lâmpada do farol se acende. Enquanto escreve,


Ana olha a lâmpada acessa. Logo, ela olha pro horizonte. Não
há sinal do veleiro. A luz do farol ilumina intermitente o
horizonte. Ana treme de tanto frio. Ela sente uma forte
contração na barriga, coloca a mão sobre ela.

Ana caminha de um lado pro outro tentando evitar a


hipotermia. Finalmente, a luz do farol ilumina algo no meio
do mar. Ana aperta os olhos. É o veleiro que está se
aproximando.

Ana rapidamente pega suas coisas e vai esperar o veleiro na


margem. Holden é o primeiro a descer. Ele vai em direção a
Ana.
81.

Holden tenta abraçá-la, mas ela desvia e segue em direção ao


veleiro, onde Silvia e Esteban esperam por ela. Silvia coloca
uma manta sobre os ombros de Ana.

Ela senta no convés abraçando o cobertor. Holden se agacha em


frente a Ana.

HOLDEN
Bem vinda, Violeta.

Ana não responde nitidamente incomodada com Holden.

HOLDEN (CONT'D)
Espero que você saiba o compromisso
que você está assumindo com tudo
isso.

ANA
Holden, eu te odeio. Muito.

HOLDEN
Que bom.

Holden sorri. Ana baixa a cabeça e coloca entre as pernas


respirando com dificuldade.

Esteban se senta ao lado de Ana e a abraça tentando aquecê-


la.

O veleiro se afasta ao longe enquanto na ilha está uma nova


lápide com o nome de ANA VAN DER GOLTZ cravado.

83 INT. BANHEIRO ANA - DIA 83

Uma nuvem de vapor inunda o banheiro de Ana. Ela sai do


chuveiro e limpa o vidro do banheiro com a palma da mão.

Ela se olha no espelho. Ana se seca com uma toalha branca e


percebe uma mancha de sangue. Ana coloca a mão sobre a
barriga e seca com a toalha os olhos molhados.

84 INT. RESIDÊNCIA DO FIM DO MUNDO / SALA DE JANTAR - NOITE 84

Ana chega para o jantar. Holden, Esteban já estão sentados.


Silvia traz a comida e Viggo se aproxima com sua cadeira de
rodas.

Ana se senta em silêncio. Ela troca olhares com todos.

Viggo, que está ao lado de Ana, sussurra na orelha dela.


82.

VIGGO
Eu também odeio essa ilha...

Ana olha para Viggo com um sorriso no rosto.

Eles começam a se servir.

Ana mal toca na comida. Holden e Silvia trocam olhares.

HOLDEN
Todo mundo entrando em novas fases
dos seus projetos. Muito bom.

SILVIA
O meu tá evoluindo lindamente.

HOLDEN
Que bom Silvia.

VIGGO
Bom pra quem, Silvia?

Silêncio desconfortável entre eles.

SILVIA
(irônica)
Viggo, e você? Não tem nada pra
fazer? Ta desocupado?

VIGGO
Exatamente agora, estou jantando.
Coisa que os seres humanos fazem.

SILVIA
Ta se passando por ser humano
agora, Viggo?

HOLDEN
(para Silvia e Viggo)
Sem confusão hoje.

Silvia se levanta e vai para o corredor dos quartos.

SILVIA
(evitando Viggo)
Bom jantar pra vocês...

Viggo come tranquilamente enquanto Holden observa Silvia se


afastar.
83.

85 INT. QUARTO DE ANA - NOITE 85

Ana está em seu quarto escrevendo. Seu caderno está enorme,


todo escrito a mão.

As páginas estão intensamente preenchidas com uma caligrafia


garranchada de um fluxo de escrita. Ana para uns instantes
pra pensar e volta a escrever. As feridas de suas mãos estão
com curativos.

Esteban bate na porta dela e já abre.

ESTEBAN
Ocupada?

Ana abre um grande sorriso.

ANA
Terminando.

Ana levanta seus manuscritos.

ANA (CONT'D)
(empolgada)
Falta pouco.

ESTEBAN
To precisando conversar.

Ana não olha para Esteban e continua absorvida pela escrita


do seu livro. Esteban impaciente.

ESTEBAN (CONT'D)
(enfático)
Ana!

Ana para de escrever e olha para Esteban.

ESTEBAN (CONT'D)
To precisando conversar “com a
Ana”.

Ana para e encara o Esteban. Ele mostra uma garrafa de


uísque.

ESTEBAN (CONT'D)
Vamos?

86 EXT. RESIDENCIA DO FIM DO MUNDO / JARDIM - NOITE 86

Uma gota se forma nas estalactites no beiral do telhado. A


gota se solta. Ana e Esteban estão deitados embaixo da
estalactite. A gota entra na boca de Esteban. É
84.

uma noite agradável, o céu está totalmente estrelado e a


garrafa já está na metade.

ANA
(bêbada)
... sinto meu livro muito sólido.
Eu leio e ele tá bom. A vida
inteira eu quis ser escritora e
nunca senti que seria capaz de
terminar um livro... parecia
arrogante da minha parte acreditar
nesse desejo.

Esteban dá um gole e assiste Ana falar entediado.

ANA (CONT'D)
É muito confuso... eu achava que a
Ana ia escrever sobre a Violeta...
mas pensando agora, no final é a
Violeta que tá escrevendo sobre a
Ana.

Esteban, também bêbado.

ESTEBAN
Você percebe como você só fala
sobre você? Eu, eu, eu... É muito
eu, Violeta...

Ana fica envergonhada

Esteban sorri.

ESTEBAN (CONT'D)
Amanhã é minha prática.

ANA
Que bom!

ESTEBAN
Eu to me preparando pra isso há
três anos... nunca imaginei que
esse dia fosse chegar.

ANA
Qual parte do seu romance você vai
investigar?

ESTEBAN
O desfecho... escrevi há 2 anos,
depois de uma vivência com Holden.
Só o Holden leu. Ele foi
fundamental pra eu ter chegado onde
cheguei.
85.

ANA
E sobre o que que é?

ESTEBAN
Sobre a incapacidade de ser amado.

Ana abraça Esteban e dá um beijo. Esteban está emocionado.


Uma lágrima escorre por sua bochecha.

87 EXT. ARREDORES DA RESIDÊNCIA DO FIM DO MUNDO - DIA 87

A névoa se afasta na manhã seguinte e começa o primeiro raio


de sol. Ana, Holden, Esteban e Silvia caminham em fila
próximos a um bosque.

Um pequeno nevoeiro cobre a paisagem e dá uma atmosfera para


a cena.

88 EXT. TRILHA BOSQUE - DIA 88

O grupo caminha no meio de árvores tortuosas em uma trilha


fechada. Ana caminha atrás de todos enquanto Holden e Silvia
lideram.

89 EXT. CLAREIRA AS MARGENS DO LAGO - DIA 89

O grupo finalmente chega em uma clareira na floresta, onde um


círculo de pedras está desenhado. Dentro do círculo há cinzas
e um pedaço de madeira queimado.

Silvia e Holden se agacham e colocam galhos secos e pequenos


troncos na fogueira.

Na mochila, Holden pega um pequeno cantil com álcool. Ele


joga o álcool na fogueira e acende. Silvia pega uma pequena
câmera e começa a filmar o processo.

Todos se levantam e fazem um pequeno círculo.

HOLDEN
(com um tom solene)
Hoje, Esteban viverá o rito mais
sagrado que existe entre nós. A
parte final da ficção que ele
escolheu como realidade.

Esteban está estranho. Ana tenta entender o que está


acontecendo ali, observando a todos com dificuldades de
fechar os olhos.
86.

ESTEBAN
Eu agradeço muito a todos que aqui
estão. E principalmente agradeço a
Esteban, que um dia foi apenas um
personagem. E hoje é quem me faz
viver e respirar.

Esteban se vira para cada um dos presentes.

ESTEBAN (CONT'D)
Obrigado a Holden. A Silvia. A
Violeta.

Silvia grava tudo com sua mini-dv. Esteban começa a tirar


toda sua roupa. Ana parece desconfortável. Holden abre a
mochila e entrega um calhamaço de folhas impressas. Esteban
as aceita respeitavelmente.

Holden joga a mochila no chão, se aproxima de Esteban, que dá


as palmas das mãos para ele. Esteban treme muito, parte pelo
intenso frio, parte de nervosismo.

Holden corta as palmas das mãos de Esteban, que marca as


folhas brancas com seu sangue e as joga na fogueira. Ana
troca olhares com Esteban, como quem pergunta o que está
acontecendo.

ESTEBAN (CONT'D)
Que a vida seja real como são
nossas ficções.

Esteban começa a entrar nas águas do Canal Beagle.

A água está gelada e ele entra bem devagar enquanto todos o


observam. Em um rompante ele mergulha e começa a nadar por
poucos metros. De repente afunda.

Silêncio. Ana e os outros ficam observado. Esteban não sobe.


Ana olha para Holden, que está imóvel com uma expressão
neutra.

ANA
Holden!

Ninguém responde.

ANA (CONT'D)
Holden! O Esteban!

Ana começa a ir em direção às águas do Canal Beagle.

SILVIA
Não!!! Violeta, não!!
87.

Silvia tenta a impedir Ana a segurando em vão. Ana se liberta


e corre na direção da água.

ANA
Esteban!

Ela entra na água e se aproxima do dorso do corpo de Esteban


que já está desacordado, boiando a poucos metros da margem.

Ana o segura e com muita força o puxa em direção ao solo.


Holden e Silvia observam imóveis. Silvia olha a Holden
cobrando uma atitude e Holden faz um gesto para que ela não
faça nada.

Silvia então baixa a câmera e a desliga. Ela se aproxima de


Holden.

SILVIA
(para Holden)
Você não vai fazer nada?

Holden fica em silêncio.

SILVIA (CONT'D)
Ta ficando fraco, Holden?

Holden encara Silvia com ódio.

Ana arrasta Esteban já nas margens barrentas e senta sobre


ele, que está desacordado.

Chorando, Ana grita e bate no peito de Esteban que após


alguns golpes, cospe água e acorda.

Ana, chorando, comemora que Esteban está vivo.

Esteban acorda aos poucos e vai percebendo o que está


acontecendo.

ESTEBAN
(angustiado)
O que você fez?
(p)
Por que você fez isso?

ANA
Você ia morrer, Esteban!

Esteban se levanta e se afasta dela. Ele se aproxima de


Holden e Silvia. Esteban chora.

Ana se afasta no sentido contrário. Esteban se levanta e sai


em direção à agua novamente.
88.

Holden percebe que Ana se vai. Ele gesticula para Silvia, que
fica com Esteban.

Holden sai atrás de Ana.

90 INT. RESIDENCIA DO FIM DO MUNDO - DIA 90

Ana entra correndo na sala. Viggo está lá. Se encaram por um


instante. Ana está claramente consternada.

VIGGO
Curtindo a residência ainda?

ANA
Vocês são todos loucos!

VIGGO
Eu não.

Chega Holden.

HOLDEN
Ana, não vou ficar aqui te dando
sermão.

ANA
Não to pedindo suas explicações,
Holden.

HOLDEN
Mas esse era o final do livro do
Esteban... Ele nada ao infinito!

ANA
Ele está se matando, Holden!
Acorda!

VIGGO
Exato.

SILVIA
Não interfere, Viggo!

VIGGO
Mas ela ta certa, ele tava se
matando...

HOLDEN
Ele tava fazendo o que qualquer
pessoa que vive a vida de verdade
faria. Algo que você perdeu faz
muito tempo.
89.

VIGGO
E perdi muito mais do que isso por
causa dessa loucura toda, né?

Viggo olha suas pernas, insinuando que foi ele que as cortou.

Ana se assusta e sai correndo em direção a seu quarto.

91 INT. QUARTO DE ANA - CONTINUOUS 91

Ana entra no quarto, põe as poucas coisas que sobraram em sua


mochila. Pega seu livro, seu passaporte.

Holden entra depois dela.

HOLDEN
Ana.

ANA
Holden, tchau. Eu to indo. Deu.

HOLDEN
E seu processo?

ANA
Meu processo é meu livro! E eu já
terminei!

Holden puxa Ana para que ela o olhe enquanto fala.

HOLDEN
Então vai abandonar seu compromisso
comigo?

ANA
Vou. Foda-se.

Holden vai atrás dela tentando impedi-la de ir. Ana termina


de por tudo em sua mochila.

HOLDEN
Você não pode sair assim!

Holden está descontrolado. Ana para em frente a ele.

ANA
Tá saindo da personagem, Holden?

Ana se vira para pegar sua mochila. Holden pega o livro de


Ana. Ana revida e tenta pegar o livro de Holden.

Holden a golpeia na cabeça.


90.

Ana cai desacordada.

BLACK

LETREIRO: Capítulo VII: A CORDILHEIRA

FLASH FANTASY

92 EXT. TOPO DE UMA MONTANHA NEVADA - DIA 92

Violeta está no alto de uma montanha, sentada em posição de


meditação.

Ela abre os olhos e encara a câmera. De repente, todo seu


corpo começa a pegar fogo.

CORTE BRUSCO PARA:

93 INT. CABANA HOLDEN - DIA 93

Ana abre os olhos. Está na cabana de Holden. Ao seu lado, sua


mochila. Ela sente o golpe na sua cabeça. Olha ao seu redor
como se procurasse por algo.

ANA
(gritando)
Holden!!!

Ana se levanta. Nem seu livro nem seu passaporte estão ali.
Ela destrói tudo que pode.

ANA (CONT'D)
(gritando)
Holden!!!

Ninguém responde.

94 EXT. FACHADA CABANA HOLDEN - DIA 94

Do lado de fora, a paisagem é infinita.

ANA
(gritando)
Holden!!!

Ela vê pegadas que saem da cabana. Ao lado, a van.

Ana, com dificuldade de respirar, segue a trilha na direção


do pico.
91.

95 EXT. TRILHA SUBIDA MONTANHA - DIA 95

Ana avança por uma pequena trilha. Ela treme de frio. Ela
está notoriamente pálida. Caminha sem força.

Tenta ir o mais rápido possível, mas está esgotada. Atravessa


a trilha com dificuldade, tropeça em uma pedra e cai com as
mãos direto no chão para se proteger.

Ela se levanta e vê que a palma da sua mão esquerda está


sangrando.

Ana continua, ela está ofegante e mal agasalhada. Chega lá em


cima sem ar, caminhando com dificuldade. A asma começa a
voltar, ela tenta se acalmar.

96 EXT. TOPO DA CORDILHEIRA NEVADA - DIA 96

Ana chega no topo da montanha. Ela avista Holden ao longe: a


borda do precipício. Ele está agachado olhando a paisagem
infinita. Ana avança até ele. Holden percebe Ana e se
levanta.

Uma pequena fogueira de pedras e galhos secos formam um


círculo. Ao lado, uma mochila.

ANA
Holden!

Holden dá um passo para trás, se aproximando do precipício, e


abre os braços.

Em uma das mãos o livro de Ana. Na outra mão, o próprio livro


de Holden.

A alguns metros, a câmera de Holden está armada em um tripé


apontada para ele. A câmera registra o momento.

HOLDEN
Violeta!

Ana, quase sem fôlego, tem dificuldades em responder. Ela


lentamente se aproxima de Holden.

ANA
Eu não vou fazer isso!

HOLDEN
Por que não? Não é esse seu
projeto?

ANA
Só me devolve meu livro.
92.

HOLDEN
Temos uma ficção em comum, Violeta.

ANA
Diego, eu não quero saber... só me
dá meu livro e eu vou embora.

O verdadeiro nome de Holden na boca de Ana o afeta.

Holden estende o seu próprio livro que está na outra mão


dele.

HOLDEN
Meu livro.

Ana dá um passo para trás e olha para a câmera, que registra


tudo.

ANA
Holden, por favor. Mê dá meu livro.

HOLDEN
Nossos finais são idênticos... e
isso não pode ter sido uma
coincidência.

ANA
Você é louco. Isso nunca vai
acontecer aqui, Holden...

Holden pega seu canivete, corta sua mão, marca com sangue seu
próprio livro e o joga na fogueira. Holden olha e sorri e
oferece o livro de Ana para ela.

HOLDEN
Você sabe o que fazer.

Holden abre novamente os braços e se aproxima ainda mais da


borda do precipício. Sua mão está suja de sangue.

HOLDEN (CONT'D)
Vamos, Violeta!

ANA
Não...

Ana dá dois passos pra trás, olha para a câmera mini DV de


Holden, Ana respira fundo e vai em direção a câmera.

Holden perde o controle.

HOLDEN
Não! Não mexe na câmera!
93.

Holden vai atrás dela, mas Ana chega primeiro na câmera e a


segura.

Ela se vira pra Holden, que paralisa. Ana segura a câmera


fazendo menção para joga-la no abismo.

Se estabelece um tableau: Ana com a câmera de Holden e Holden


com o livro de Ana, um frente ao outro.

Eles se observam um instante. Se medem.

HOLDEN (CONT'D)
Mamihlapinatapai.

ANA
Devolve meu livro.

HOLDEN
Põe a câmera de volta! Você tem a
oportunidade de viver seu livro!

ANA
Eu não vou fazer isso!

O tableau se sustenta.

HOLDEN
Bem vinda, Violeta.

Holden joga o livro de Ana no precipício.

Ana berra. Ela faz menção de pegar uma das folhas que voam
pelo ar e quase cai no precipício.

Holden avança sobre Ana para pegar a câmera. Ana, em um


impulso, a câmera cai desajeitadamente na fogueira.

DO PONTO DE VISTA DA CÂMERA:

O fogo em primeiro plano queima a lente. A câmera registra


vestígios da imagem de Holden indo em direção a Ana.

Eles se agarram e ela empurra Holden no precipício.

Holden cai no precipício.

Ana para na borda do abismo por um instante, imóvel, olhando


para baixo. Ana expressa qualquer reação ao som do corpo de
Holden se chocando contra as pedras.

Se vira e olha para câmera.

Ana se aproxima da lente, pega a câmera.


94.

A câmera é arremessada no precipício. Em quanto cai, a câmera


registra o céu azul com o sol brilhante.

Um forte brilho entra na lente.

Forte som da câmera se chocando contra as pedras.

CORTE BRUSCO

BLACK

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