O vento sopra forte, chicoteando meu rosto e bagunçando meus
cabelos enquanto permaneço sentada na beirada do prédio mais alto
da cidade. Meus pés balançam no ar, sem um destino certo, assim
como eu. Lá embaixo, as luzes dos carros piscam em meio à
escuridão, e as pessoas se movem apressadas, parecendo pequenas
formigas que correm sem saber para onde vão. Toda essa pressa,
toda essa urgência… para quê?
No fim, tudo desaparece da mesma forma.
O céu está carregado, nublado e denso, um presságio de que logo
uma tempestade cairá sobre Londres. Posso sentir a eletricidade no
ar, como se a cidade inteira estivesse esperando o momento certo
para desabar. E, de certa forma, eu também estou.
Respiro fundo, sentindo o ar frio invadir meus pulmões. Meus dedos
trêmulos descansam sobre o concreto gelado, mas não é o vento
cortante que me faz estremecer. É o peso invisível que carrego nos
ombros, aquele que me acompanha há anos, sussurrando que talvez
eu nunca tenha pertencido a este mundo.
O pensamento de simplesmente deixar-me cair atravessa minha
mente com facilidade. Não penso nisso como algo dramático, nem
mesmo como um clamor por ajuda. É apenas… uma possibilidade.
Um fim lógico para algo que há muito deixou de fazer sentido.
Me pergunto se alguém sentiria minha falta. Se alguém notaria
minha ausência ou se a vida apenas seguiria, como sempre faz, sem
olhar para trás. A resposta já está na ponta da língua, amarga e cruel.
Não sou tão ingênua a ponto de acreditar que o mundo pararia por
mim. As pessoas esquecem. O tempo apaga.
Talvez eu esteja apenas cansada.
Aperto os olhos, absorvendo a paisagem uma última vez, quando um
ruído atrás de mim me faz sobressaltar. O coração martela contra
meu peito, um reflexo involuntário da surpresa.
Me viro devagar.
No fundo da escuridão, uma silhueta se forma. Um homem, envolto
por um capuz negro, permanece parado como se fosse parte da noite.
Seu rosto está oculto pela sombra, mas há algo na sua postura —
uma calma fria e inabalável.
Ele não diz nada. Apenas me observa.
Meus músculos se retesam. Ele não parece ameaçador, mas sua
presença aqui, neste momento, não pode ser coincidência. O que ele
quer? Quem é ele? Estas perguntas ecoam em minha mente
Por alguns segundos, espero que ele se mova, que fale, que me diga o
que está fazendo aqui. Mas ele apenas permanece ali, imóvel, como
se estivesse esperando por algo ou alguém.
Decido ignorá-lo. Não tenho energia para questionar estranhos,
muito menos para lidar com alguém que pode estar tão perdido
quanto eu. Então, viro-me novamente para a cidade abaixo,
observando as luzes piscando como estrelas artificiais em um
universo de concreto.
— A paisagem é linda e sombria ao mesmo tempo. Isso é fascinante,
não acha?
A voz dele corta o silêncio como uma lâmina afiada, profunda e
firme, mas com um tom de admiração genuína.
Meu corpo reage antes que eu possa me controlar. O susto me faz
deslizar levemente para frente, e por um segundo o mundo ao meu
redor se inclina, ameaçando me engolir. Meu coração dispara,
ochoque subindo pela espinha, mas consigo me segurar antes que
seja tarde demais.
Fecho os olhos por um instante, reunindo fôlego, antes de me virar
para encará-lo outra vez.
Ele não se moveu.
Seu rosto agora está parcialmente visível sob a luz fraca dos postes
da rua. Pele pálida, traços marcantes, olhar indecifrável. Há uma
intensidade nele que me deixa inquieta, como se pudesse ver além da
superfície, além da fachada que mostro ao mundo.
Me recomponho, fingindo que o susto não aconteceu.
— Fascinante? — minha voz sai quase como um sussurro, carregada
de ceticismo. — É apenas a cidade. Cinza e monótona como sempre.
Ele inclina levemente a cabeça, como se estivesse analisando minha
resposta.
— Não para mim. Há algo intrigante nessa mistura de beleza e
decadência. Como se a cidade carregasse segredos que ninguém
percebe.
Suas palavras me atingem de uma forma inesperada. Como se ele
não estivesse falando apenas sobre a cidade.
Meu olhar se fixa nele, avaliando-o. Ainda não sei quem ele é, mas
há algo na maneira como ele fala, na forma como me olha… algo
que me faz sentir que está noite não terminará como eu imaginei.
Ele dá um passo à frente.
É sutil, quase imperceptível, mas eu noto. O modo como seu corpo
se move sem hesitação, como se soubesse exatamente até onde pode
chegar sem me assustar. Ele não se apressa, não demonstra
impaciência. Apenas mantém sua presença firme e inabalável, como
se estivesse estudando cada mínima reação minha.
Meu coração ainda bate rápido, não pela altura, mas pelo jeito que
ele me observa. Há algo em sua postura, em seus olhos ocultos pela
sombra do capuz, que me faz sentir que ele não está aqui por acaso.
— E o que você está fazendo sentada no parapeito desse prédio? —
sua voz corta o silêncio novamente, com um tom que mistura
curiosidade e uma leve provocação. — Um pouco perigoso, não
acha?
Eu hesito antes de responder.
A verdade? Nem eu sei ao certo. Talvez só queira sentir algo,
qualquer coisa. Ou talvez apenas precise de um instante de paz,
longe do peso esmagador que me acompanha todos os dias.
— Eu gosto da vista. — Minha resposta sai mais defensiva do que eu
pretendia.
Ele solta um pequeno som, algo entre um riso e um suspiro, como se
esperasse exatamente esse tipo de resposta.
— A vista… — Ele repete, testando as palavras nos lábios, como se
estivesse decidindo se acredita em mim ou não. — Sabe, a maioria
das pessoas preferiria apreciá-la do chão.
— Eu não sou como a maioria das pessoas.
Dessa vez, sou eu quem o encara, desafiadora. Há algo nele que me
instiga, que faz com que eu me mantenha firme mesmo diante de sua
presença dominante. Ele poderia ser intimidador, mas não me afasto.
Outro passo.
Devagar, ele se aproxima, diminuindo a distância entre nós sem
pressa. Seu corpo se mantém relaxado, mas seus olhos, agora visíveis
sob a pouca luz, são intensos. Cinzas como a neblina que cobre
Londres nas manhãs frias. Um abismo tão profundo que por um
instante sinto que, se olhar por muito tempo, posso acabar me
perdendo ali.
— Isso eu já percebi.
Ele para a uma distância razoável, não tão perto a ponto de me fazer
recuar, mas o suficiente para que eu sinta sua presença como uma
sombra ao meu redor. Como se ele pudesse me envolver sem nem
precisar tocar em mim.
— Mas você ainda não respondeu minha pergunta.
Cruzo os braços, mantendo meu olhar nele.
— E se eu não quiser responder?
Ele sorri de canto, um sorriso mínimo, mas cheio de algo que não
consigo decifrar.
— Então eu terei que adivinhar.
E, pela forma como ele me observa agora, tenho a terrível sensação
de que ele já sabe a resposta.
Eu solto uma risada curta, seca. O sarcasmo dele me pega de
surpresa, e por um segundo, desvio o olhar da cidade abaixo para
encará-lo novamente. Ele não parece exatamente preocupado, mas
também não me parece indiferente. É como se estivesse apenas… ali,
existindo no mesmo espaço que eu, sem pressa ou expectativas.
Ele se abaixa e, sem hesitar, se senta no chão ao meu lado,
encostando as costas contra o parapeito. Suas pernas se estendem à
frente, seu corpo relaxa, como se estivesse se acomodando para uma
longa conversa.
— Sabe, se está mesmo pensando em se jogar, tem um prédio ainda
maior do outro lado da rua. — Ele aponta vagamente com a cabeça,
o tom carregado de sarcasmo e brincadeira.
Arqueio uma sobrancelha.
— Engraçado. Você sempre tenta impedir alguém de se matar
sugerindo um lugar melhor?
Ele sorri de canto, um brilho divertido, quase cínico, cruzando seus
olhos cinzentos.
— Só estou dizendo que, se vai fazer algo dramático, pelo menos
faça direito.
Balanço a cabeça, uma mistura de exasperação e surpresa. Quem é
esse cara?
— Sério, pode por favor descer daí? — Ele continua, dessa vez com
um suspiro pesado. — Não estou a fim de ser testemunha de um
suicídio hoje. Meu dia já foi uma completa merda.
Por alguma razão, essa última frase me desarma mais do que
qualquer outra coisa que ele tenha dito. Eu deveria estar irritada,
ofendida até, mas há algo no jeito despreocupado como ele fala, no
peso que ele carrega na voz, que me faz hesitar.
— Você realmente não parece o tipo de pessoa que se importa com
isso.
Ele ri, baixo e sem humor.
— Não me importo. — Ele admite, olhando para frente, como se
estivesse falando tanto para mim quanto para ele mesmo. — Mas não
estou com paciência para lidar com esse tipo de coisa hoje. Então, se
puder me fazer esse favor e não se matar agora, eu agradeceria.
Reviro os olhos, mas, sem perceber, meus ombros relaxam um
pouco. Pela primeira vez em muito tempo, sinto como se alguém não
estivesse me tratando como um problema a ser resolvido. Ele não
está tentando me salvar. Ele só… está aqui.
Olho para o céu escuro, as nuvens pesadas se movendo lentamente,
carregadas de uma tempestade iminente.
E, sem dizer nada, eu deslizo para o lado, descendo do parapeito até
o chão ao lado dele.
— Viu? — Ele diz, com um meio sorriso. — Nem foi tão difícil.
Cruzo os braços, fingindo impaciência.
— Isso significa que você vai embora agora?
Ele me lança um olhar de soslaio, como se estivesse considerando a
pergunta.
— Hm. Não. Acho que gosto da vista daqui.
E, pela primeira vez naquela noite, eu rio de verdade.
O silêncio entre nós persiste, confortável e cheio de significados que
nem eu mesma consigo compreender totalmente. O vento sopra forte,
carregando consigo o cheiro de chuva e a promessa de uma
tempestade iminente. Meu olhar está perdido nas luzes da cidade,
observando a forma como elas piscam e refletem nas poças d’água
espalhadas pelo asfalto.
Então, um som interrompe a quietude.
O celular dele vibra, quebrando o frágil equilíbrio da nossa bolha de
silêncio. Ele franze o cenho e desliza o aparelho para fora do bolso,
lançando um olhar breve para a tela. A luz azulada da notificação
ilumina seu rosto por um instante, destacando as sombras afiadas de
suas feições.
Ele solta um suspiro longo e cansado, como se o simples fato de ter
sido chamado de volta à realidade fosse um fardo. Então, sem muita
pressa, ele se levanta.
— Me chamo Dante. — Sua voz soa mais baixa dessa vez, mas ainda
firme. Ele passa a mão pelos cabelos escuros, bagunçando-os
levemente antes de enfiar as mãos no bolso do casaco. — Foi um
prazer conhecê-la, passarinha. Mas, infelizmente, o dever me chama.
Passarinha.
O apelido ressoa em minha mente enquanto o observo dar um passo
para trás, preparando-se para ir embora. Antes que eu possa formular
uma resposta, ele já está se afastando, suas palavras se dissolvendo
na escuridão da noite.
Fico ali, imóvel, ouvindo o som de seus passos se tornando cada vez
mais distantes até desaparecerem completamente.
Por algum motivo, sua presença, mesmo que breve, deixou algo em
mim. Algo que não consigo nomear.
Olho para o céu nublado, sentindo as primeiras gotas de chuva
tocarem minha pele. A tempestade finalmente chegou.
Depois de alguns minutos, percebo que não há mais razão para ficar
ali. Suspiro, abraçando meu próprio corpo para me proteger do frio
cortante, e me levanto, caminhando lentamente na direção da escada
de emergência.
É hora de voltar para casa.
O despertador tocou, rasgando o silêncio do quarto com seu som
irritante. Meu corpo protestou quando tentei me mexer, a exaustão
pesando sobre mim como um cobertor invisível. Ainda estava escuro
lá fora, e por um breve momento, considerei simplesmente me virar e
dormir mais um pouco. Mas a realidade me puxou de volta.
Universidade. Provas. Vida.
Soltei um longo suspiro e me obriguei a sair da cama. O chão frio
contra meus pés me fez estremecer, e fui direto para o banheiro, onde
a água quente do chuveiro ajudou a afastar parte da letargia. Fiquei
ali por alguns minutos, tentando ignorar os pensamentos que
insistiam em invadir minha mente. A noite anterior ainda ecoava em
mim — o vento cortante no alto do prédio, a sensação de vazio, e
então… ele.
Dante.
Quando cheguei à universidade, o burburinho no corredor já indicava
que algo estava diferente naquele dia. Balancei a cabeça, tentando
afastá-lo da mente. Havia coisas mais importantes para pensar, como
o Baile de Inverno.
Esse era o evento mais esperado pelos calouros, com muita música,
bebida e, claro, a tensão do convite. As meninas deveriam chamar os
garotos, e isso deixaria tudo mais complicado para mim.
Eu queria jogar seguro. Não pretendia convidar um babaca que
apenas quisesse se aproveitar da situação. Kayla, minha colega de
quarto, estava animada para chamar Sang-hyeok, o garoto com quem
ela vinha flertando nos corredores. Já eu… não tinha
ningué[Link] ao entrar na sala de aula, apressada. Coloquei meu
livro sobre a mesa e me sentei, observando a movimentação. Os
alunos estavam mais agitados que o normal. As meninas retocavam o
batom, ajeitavam o cabelo e cochichavam entre si. Os garotos, por
outro lado, tinham expressões de tédio ou irritação — típicas das
quartas-feiras de prova.